Prévia do material em texto
25/05/2023, 21:46 Feudalismos https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04616/index.html# 1/47 Feudalismos Prof.ª Marta Carvalho Silveira Descrição Principais características dos feudalismos e suas relações políticas, econômicas e sociais. Propósito Conceituar feudalismo e entender suas múltiplas manifestações no espaço do Ocidente Medieval, compreendendo os processos históricos e noções da sociedade ocidental, aspecto de forte importância para o professor de história e historiador. Objetivos Módulo 1 A formação do mundo feudal Identificar os elementos históricos desencadeadores do sistema feudal no Ocidente Medieval. Módulo 2 A sociedade e a economia feudal 25/05/2023, 21:46 Feudalismos https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04616/index.html# 2/47 Caracterizar a sociedade e a economia feudal. Módulo 3 A Igreja e a sociedade feudal Analisar a atuação da Igreja na configuração da ordem feudal. Introdução Por que feudalismo no plural? A historiografia já observou o feudalismo de maneiras muito diversas: desde um sistema econômico, passando por um modelo social, e até uma invenção discursiva. É hoje em dia um conceito histórico e, como tal, tem características da relação tempo e práticas, o que é fundamental para o entendimento sobre a sociedade ocidental e seu processo histórico. Neste conteúdo, conheceremos a Idade Média Central no Ocidente Medieval, com foco nos diversos entendimentos relativos ao feudalismo. 25/05/2023, 21:46 Feudalismos https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04616/index.html# 3/47 1 - A formação do mundo feudal Ao �nal deste módulo, você será capaz de identi�car os elementos históricos desencadeadores do sistema feudal no Ocidente Medieval. Contexto de formação das práticas feudais A Idade Média Central Vamos refletir e elaborar conexões sobre o que você vai ler. A professora Nathália Serenado entrevista a professora Marta Carvalho e convida você para trocar boas ideias sobre a Idade Média Central. Em 751, a dinastia carolíngia ascendeu ao poder no Reino Franco com a coroação de Pepino, o Breve. A aliança dos carolíngios com a Igreja Romana e sua ampla política de expansão territorial, alcançada por meio de uma intensa ação militar que submeteu diversos povos germânicos habitantes da região central e leste da Europa e de parte da Península Itálica, tornou os reis carolíngios o grande símbolo da cristandade ocidental. O auge do poder carolíngio foi no reinado de Carlos Magno (742-814), coroado imperador, em 800, pelo Papa Leão III (750-816) na cidade de Roma. A base sobre a qual Carlos Magno estruturou seu projeto político-territorial foi a difusão dos laços de suserania e vassalagem. Por meio da distribuição de benefícios (feudos), o imperador (suserano) conseguia o apoio e a fidelidade da nobreza (vassalos) para viabilizar a ocupação militar e a manutenção do domínio político sobre as regiões conquistadas. O historiador Franco Jr. definiu assim a vassalagem: Carlos Magno e o Papa Adriano I, por Antoine Vérard. "Laço contratual que unia dois homens livres, o senhor (dominus, recebedor de fidelidade e serviços nobres, isto é, não produtivos, não servis) e o vassalo (vassalus, termo derivado do céltico gwas, “homem”, aquele que recebe sustento de outro). Nos séculos 25/05/2023, 21:46 Feudalismos https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04616/index.html# 4/47 VIII-IX prevalecia o vínculo pessoal: alguém recebia uma terra porque era vassalo. A partir do século XI prevaleceu o elemento real: alguém se fazia vassalo para receber um feudo" (FRANCO JR, 2001, p. 186). Luís I, o Piedoso. A mesma lógica política baseada na difusão dos laços de suserania e vassalagem perpetuou-se durante o reinado de seu filho e sucessor, Luís, o Piedoso (778-840). Para manter o controle sobre seu império, Luís difundiu ainda mais a distribuição de benefícios, promovendo o enfraquecimento gradativo do seu poder político. Comentário O direito de ban (direito de fazer justiça) era uma das bases fundamentais dos imperadores carolíngios. Com a difusão crescente dos laços de suserania e vassalagem, esse poder foi gradativamente sendo atribuído aos aristocratas que o exerciam sobre seus senhorios. Dessa forma, os senhores feudais passaram a exercer o poder de forma mais efetiva sobre aqueles que residiam em seus senhorios. Com grande dificuldade de conseguir manter a centralidade política, o Império Carolíngio não resistiu integralmente após a morte de Luís, o Piedoso, quando foi assinado o Tratado de Verdun (843), que estabeleceu sua divisão entre os três herdeiros do imperador. Lotário I - Imperador Romano-Germânico. Observe a seguir algumas considerações destes herdeiros mencionados anteriormente. Lotário O filho mais velho de Luís, herdou a coroa imperial e a região central do antigo império (na qual se incluía a Península Itálica), formando-se, assim, o reino de Lotário. Luís, o Germânico F i d i d L í F i O i t li i l t à iã d G â i 25/05/2023, 21:46 Feudalismos https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04616/index.html# 5/47 A quebra do poder imperial carolíngio deixou enfraquecido o poder central e, em decorrência, promoveu o fortalecimento da autonomia dos poderes senhoriais feudais. Além da nítida fragmentação política do Império Carolíngio, o Ocidente Medieval, entre os séculos IX e X, sofreu um forte abalo com o avanço dos povos normandos, muçulmano e lombardo sobre o antigo território carolíngio. Afora os fatores específicos que levaram cada um desses povos a migrar, o movimento invasor se atribui ao enfraquecimento do poderio militar carolíngio. Interessados em saquear e pilhar territórios onde a produtividade agrícola era mais abundante do que nas suas regiões e as riquezas estavam concentradas nos monastérios, igrejas e castelos, os povos invasores fizeram uma série de incursões que atingiram o norte, o sul e o leste do Ocidente Medieval. Atenção! Apesar dessas invasões terem ocorrido no mesmo período e possuírem características semelhantes, as motivações e as ações de cada um desses grupos invasores foram distintas. Práticas e movimentações ao norte da Europa: vikings Os povos que se deslocaram da Península Escandinava entre os séculos IX e X promovendo uma série de incursões que foram iniciadas em fins do século VIII, na costa da Nortúmbria, foram conhecidos como vikings, normandos ou escandinavos. A Escandinávia era habitada por uma série de povos que não apresentavam um governo comum. Os clãs nórdicos possuíam lideranças próprias e frequentemente disputavam ou aliavam-se de acordo com suas demandas. Os nórdicos eram politeístas e suas divindades relacionavam-se às forças naturais. As batalhas tinham um espaço especial na rica mitologia da região. Foi designada a Luís a Francia Orientalis, equivalente à região da Germânica. Carlos Coube a Carlos o controle da Francia Ocidentalis, que correspondia territorialmente ao antigo reino franco. 25/05/2023, 21:46 Feudalismos https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04616/index.html# 6/47 Odim, a mais importante das divindades nórdicas. Ilustração de 1850. Hoje em dia, o termo “vikings” é utilizado somente para aquelas pessoas de origem escandinava que atuaram no comércio e na colonização de outras regiões, além de praticarem a pirataria e a pilhagem, tanto dentro quanto fora da Escandinávia, especificamente nos séculos IX e X. Logo, nem todos os normandos eram vikings. Curiosidade Os vikings se dedicavam ao comércio e, em busca de novas rotas comerciais e de produtos, ocuparam regiões em locais como o leste europeu. Durante muito tempo, não ficou claro para os historiadores o porquê de as incursões vikings terem sido ampliadas entre os séculos IX e X. Como informa Heers (1988), nenhuma teoria satisfaz completamente o entendimento dos fatores que poderiam explicar as origens das expedições normandas. Pelo menos três possíveis explicações foram levantadas nos últimos anos: Primeira40/47 Rota da Costa do Caminho Português de Santiago na Galiza. Catedral de Santiago de Compostela. A presença constante de peregrinos em busca dos milagres produzidos pelo apóstolo Tiago propiciou a formação e a reativação de uma série de cidades em toda a sua extensão, que precisavam mostrar-se preparadas para receber os fiéis, abrigando-os e suprindo suas necessidades elementares. Formou-se, assim, uma rede de cidades, que dinamizou consideravelmente a economia dos reinos cristãos ibéricos e a organização de uma sociedade citadina bastante heterogênea. As abadias cistercienses tornaram-se, assim, centros a partir dos quais comunidades rurais e urbanas se desenvolveram e seus monges foram cada vez mais afastando-se do seu pretendido isolamento do mundo para estar no centro da dinâmica social e nela atuando politicamente. Além da riqueza fundiária e da influência política, os cluniacenses alcançaram uma grande importância no âmbito cultural. Os monges cluniacenses eram conhecidos por dominar a arte da cópia e da ilustração de manuscritos, especialmente aqueles que eram oriundos do mundo helenístico e romano. Os manuscritos eram copiados por monges copistas e depois ilustrados por aqueles que conheciam a arte da iluminura. Toda essa produção intelectual e artística tornava os manuscritos objetos raros e caros, o que favoreceu a existência de uma rede de trocas e de comércio entre as abadias para se ter acesso a versões iluminadas de textos, sobretudo, da cultura greco-romana. Manuscrito antigo. O contato, mesmo que belicoso, com o mundo muçulmano favoreceu a difusão, no ocidente, de uma série de manuscritos oriundos da Pérsia, da Índia e de outras regiões orientais. Curiosidade 25/05/2023, 21:46 Feudalismos https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04616/index.html# 41/47 A partir do esforço das escolas de tradutores presentes na Península Itálica e na Península Ibérica, os manuscritos eram traduzidos do árabe para o latim e, posteriormente, para as línguas vernáculas, e abasteciam as bibliotecas monacais, especialmente as cluniacenses. A ordem de Cister A potência cultural, política e econômica em que se tornou Cluny afastou-a dos princípios da vida simples pregados na sua origem. O ideal monástico que previa a pureza, o isolamento e o desligamento do mundo e das suas paixões fez-se cada vez mais distante, e as abadias cluniacenses tornaram-se, aos olhos dos seus opositores, centros de riqueza, do pecado do orgulho e da ostentação. Em reação a Cluny e buscando retomar os princípios ascéticos, Roberto de Molesme, então abade cluniacense, deixou a ordem e fundou, na Borgonha, uma nova ordem monástica, em 1098, a ordem de Cister. Brasão Ordem de Cister. Buscando adotar o caminho inverso daquele que trilhavam os cluniacenses, os cistercienses se propuseram a retomar os fundamentos da regra beneditina, especialmente na pureza e severidade, adicionando a elas algumas inovações, como a recomendação do trabalho manual para os monges. Neste sentido, observe a seguir a relação do entendimento entre ambos. Cluniacenses Entendiam como trabalho aquele que se realizava no campo intelectual (por isso, tornaram-se detentores de ricas bibliotecas) Cistercienses Acreditavam que o trabalho que aproximava os monges de uma vida espiritual era aquele que provocava a mortificação do corpo e a humilhação da alma, ou seja, o trabalho manual. A opção dos cistercienses pelo trabalho manual resgatou, no imaginário medieval, o papel espiritual e ascético dos monges, tornando-os muito populares. Por ter reconhecido pela sociedade seu papel espiritual, “a Ordem Cisterciense chegou ao século XIII com quase 700 mosteiros masculinos (e outros tantos femininos), alguns papas e importante papel na repressão de heresias” 25/05/2023, 21:46 Feudalismos https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04616/index.html# 42/47 (FRANCO JR., 2001, p. 77). A popularidade ascética dos cistercienses rendeu-lhes uma série de doações que, com o tempo, fizeram com que fossem tão ricos quanto os cluniacenses. Comentário Se Cluny contribuiu consideravelmente para a vida intelectual medieval, a ordem de Cister contribuiu muito para o desenvolvimento das técnicas agrícolas, que se mostraram fundamentais para o aumento da produtividade experimentada pelo Ocidente Medieval a partir do século XI. A aplicação das técnicas agrícolas não representou necessariamente a invenção de novos recursos. Essas técnicas estavam disponíveis no Império Romano, mas muitas não eram utilizadas nas vilas localizadas no ocidente. A abundância da produção agrícola romana oriental e a baixa densidade populacional ocidental não tornou necessária a utilização de técnicas que ampliassem o cultivo no ocidente. Dessa maneira, grande parte desses conhecimentos inovadores estava disponível em manuscritos ao alcance dos monges e principalmente os cistercienses se empenharam em testá-los na prática em seus senhorios. Entre as técnicas utilizadas, podemos identificar: 1. A seleção das culturas, por meio da qual se identificavam os tipos de cereais a serem cultivados. 2. O cultivo trienal, no qual o terreno era dividido em três áreas, plantando-se em duas delas cereais de tipos diferentes e deixando a terceira em pousio. 3. O uso da charrua, uma espécie de arado com garfos longos e curvos, utilizado desde a Antiguidade, e que revolvia mais profundamente a terra, facilitando, assim, a semeadura. 4. A utilização do adubo animal para fertilizar a terra. 5. A mudança na forma de atrelagem dos animais, que, feita pelo dorso, facilitava o deslocamento do animal e potencializava sua força motriz. �. O uso dos moinhos de vento, que implicou a utilização da energia eólica para facilitar a moagem dos grãos e a produção dos diversos tipos de farinha para a alimentação. O emprego das novas técnicas ampliou rapidamente a produção agrícola das abadias cistercienses e, em pouco tempo, foram sendo empregadas nos senhorios laicos, que também tiveram sua produção aumentada. Criou-se, assim, um ciclo positivo de crescimento agrícola por todo o Ocidente Medieval, que levou a intensas transformações políticas, econômicas, sociais e culturais, sobretudo nos séculos XI e XII. Observando a trajetória de formação e de consolidação da ordem de Cluny e de Cister, é possível notar, portanto, que tanto os monges negros (cluniacenses) quanto os monges brancos (cistercienses) partiriam dos princípios ascéticos como base fundamental para suas práticas religiosas, mas sua ampla participação no jogo político do período, que promoveu o significativo enriquecimento dessas ordens, comprometeu o cumprimento de tais princípios e a visão que a sociedade tinha dos monges medievais. Atenção! A decepção social com a atuação dos cluniacenses e cistercienses suscitou, no longo prazo, o desenvolvimento de seitas heréticas e a formação de novas ordens religiosas, interessadas em retomar os princípios presentes no cristianismo primitivo. Atividade discursiva 25/05/2023, 21:46 Feudalismos https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04616/index.html# 43/47 Você já ouviu que a Igreja durante a Idade Média era um poder absoluto? Pela sua leitura, isso não é bem verdade. Elabore um texto e discuta a mudança de sua visão. Digite sua resposta aqui Exibir solução O foco do texto tem que ser mostrar o senso comum, e o papel de aprender a investigar, cruzar, construir os debates que estão sendo estruturados. Vamos ouvir o professor Rodrigo Rainha sobre como podemos fortalecer nossas respostas. 25/05/2023, 21:46 Feudalismos https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04616/index.html# 44/47 Falta pouco para atingir seus objetivos. Vamos praticar alguns conceitos? Questão 1 Sobre a importância que as ordens monásticas alcançaram na ordem feudal é correto afirmar que Parabéns! A alternativa B está correta. As abadias se tornaram um importante centro de poder, e a obtenção e salvaguarda de relíquias foi importantepara esse papel. O poder divino se materializa nesses objetos e seu reconhecimento estava relacionado a uma estrutura conhecida, que A submeteram-se à autoridade dos poderes laicos regionais durante toda a Idade Média. B suas abadias tornaram-se importantes centros de produção e comercialização de relíquias. C os monges dedicaram-se exclusivamente ao trabalho intelectual. D os monges viviam em completo isolamento, sem manter nenhum contato com outros elementos da sociedade. E seu patrimônio territorial era limitado por não receberem doações. 25/05/2023, 21:46 Feudalismos https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04616/index.html# 45/47 prestava serviços, por isso, era protegida nessa estrutura social. Obter relíquias, portanto, produzia peregrinações e uma comunidade em torno da abadia, aumentando o número da clientela dependente desses centros de poder. Questão 2 Ordem religiosa, cujos monges praticavam, sobretudo, o trabalho intelectual, e que teve grande influência na configuração da ordem feudal especialmente ao aliar-se aos monarcas e aos senhores feudais com o objetivo de manter a harmonia social e garantir a atuação dos poderes eclesiásticos e laicos na liderança da sociedade feudal: Parabéns! A alternativa D está correta. A ordem religiosa de Cluny foi responsável por uma reorganização da vida monástica durante o período. Baseados na regra beneditina, centravam a atividade monástica a partir do trabalho intelectual. Considerações �nais A formação da sociedade feudal aconteceu em um contexto de intensas transformações decorrentes da desagregação do Império Carolíngio, agravada pelas ondas de invasão promovidas pelos normandos, húngaros e muçulmanos sobre as regiões central e ocidental da Europa. A sociedade feudal, que se formou a partir do século X, foi marcada pela reconfiguração das forças produtivas por meio da ampliação dos laços de servidão, pela formação e consolidação da aristocracia laica e pela canalização do clamor espiritual e apocalíptico da população pelos clérigos medievais, especialmente as forças monásticas. A Cister B Dominicanos C Franciscanos D Cluny E Agostinianos 25/05/2023, 21:46 Feudalismos https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04616/index.html# 46/47 Podcast Neste podcast, o professor Rainha apresentará os principais aspectos sobre o debate dos feudalismos. Referências BASCHET, J. A civilização feudal. Do Ano Mil à colonização da América. São Paulo: Globo, 2006. BLOCH, M. A sociedade feudal. Lisboa: Edições 70, 2009. DUBY, G. O Ano Mil. Lisboa: Edições 70, 2002. FIORI, J. Guerra Santa. Formação da ideia de cruzada no Ocidente Medieval. Campinas: Unicamp, 2013. FOSSIER, R. O trabalho na Idade Média. Petrópolis: Vozes, 2019. FRANCO JR., H. Idade Média. O nascimento do Ocidente. São Paulo: Brasiliense, 2001. HANSEN, V. O ano 1000. Quando exploradores conectaram o mundo — E a globalização iniciou. Rio de Janeiro: Alta Books, 2021. HEERS, J. História Medieval. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1988. HOLLAND, T. Milênio. A construção da cristandade e o medido da chegada do ano 1000 na Europa. Rio de Janeiro: Record, 2008. HOURANI, A. Uma história dos povos árabes. São Paulo: Companhia das Letras, 2004. LE GOFF, J. As raízes medievais da Europa. Petrópolis: Vozes, 2007. PIRRENNE, H. História Econômica e Social da Idade Média. São Paulo: Mestre Jou, 1963. TOUBERT, Pierre. Europa en su Primer Crecimiento: de Carlomagno al año mil. Valência: Universitat de València, 2006. VAUCHEZ, A. A espiritualidade na Idade Média Ocidental, séculos VIII a XIII. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005. 25/05/2023, 21:46 Feudalismos https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04616/index.html# 47/47 Explore + Leia os livros: As minorias na Idade Média – Sexo, desvio e danação, de J. Richards, publicado pela Zahar em 1993. O Oriente das Cruzadas, de G. Tate, publicado pela Objetiva em 2008. Visite alguns canais que tratam da questão, como o Programa de Estudos Medievais TV PEM –UFRJ Conheça o portal da Associação Brasileira de Estudos Medievais, que disponibiliza materiais e revistas.hipótese O aumento demográfico, que teria gerado uma onda de fome em virtude da pouca disponibilidade de terras agrícolas. Segunda hipótese O resfriamento intenso da Escandinávia, a partir de fins do século VIII. Terceira hipótese O movimento de expansão política, que teria levado à união dos clãs sob a liderança de líderes específicos. Heers apresenta a fragilidade desses argumentos informando que grande parte das incursões vikings não objetivava a ocupação de terras, mas o saque e a pilhagem, sendo as conquistas territoriais subsequentes resultantes da necessidade de viabilizar o controle de rotas comerciais. Ruínas expansivas do mosteiro medieval com pedras esculpidas ornamente. Já a tese do resfriamento não encontra eco na documentação nem no que hoje se sabe sobre as condições climáticas no continente europeu durante os séculos IX e X. Por outro lado, as fontes históricas indicam que as hordas vikings eram dirigidas por líderes guerreiros isolados que não tinham cargos políticos efetivos, nem mesmo eram protagonistas nos vários conflitos dinásticos que dividiam os clãs, destacando-se somente pela sua liderança militar e pela generosidade na divisão dos recursos obtidos com os saques e pilhagens. Como conclui Heers: 25/05/2023, 21:46 Feudalismos https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04616/index.html# 7/47 De fato, as incursões dos piratas normandos, as expedições através das planícies da Rússia, foram dirigidas por chefes de clãs, ricos proprietários, senhores de seus homens e de seu espólio, praticamente independente dos reis, muito tempo impotentes para controlar a região. É possível, certamente, que vários chefes tivessem sido conduzidos a procurar fortunas longínquas fora dos conflitos dinásticos. O prestígio do chefe relaciona-se sempre aos tesouros distribuídos aos seus fiéis e mais, talvez, a seus feitos de armas logo legendárias e cantados mais tarde pelas sagas, narrações épicas, frequentemente fabulosas. (HEERS, 1988, p. 57) De acordo com Heers, os vikings, especialmente os originários da Dinamarca, ampliaram suas ações no Ocidente Medieval a partir do século VIII graças ao avanço das conquistas militares carolíngias. A fragmentação do império teria, então, estimulado o deslocamento dos vikings sobre áreas antes dominadas pelos carolíngios, onde teceram suas redes comerciais que conectavam a Escandinávia ao Império Bizantino e ao mundo árabe. Os vikings se espalharam por várias regiões do Ocidente Medieval, e grande parte dessa expansão foi viabilizada pelos barcos que construíam. Eles eram capazes de navegar as águas dos rios e dos mares, permitindo que os invasores tanto navegassem as costas oceânicas quanto entrassem no interior do continente europeu, deslocando-se pelos rios Reno e Danúbio. As crônicas escritas na época, mesmo contendo alguns exageros, registram os ataques realizados pelos vikings nos povoados, monastérios e castelos, que espalhavam o medo entre a população. Nórdicos (vikings) representados invadindo a Inglaterra. Ilustração iluminada da Miscelânea do século XII sobre a vida de St. Edmundo. Os vikings fundaram cidades (colônias) que serviam como entrepostos comerciais. É o caso de Birka (Suécia), Ribe (Dinamarca) e Staraya Ladoga (atual Rússia), que se tornaram centros impulsionadores do comércio em longa distância. Birka - Sítio da antiga fortificação. 25/05/2023, 21:46 Feudalismos https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04616/index.html# 8/47 O Barco de Gokstad em exposição em Oslo, Noruega. Montes funerários vikings do século VIII ao longo do rio Volkhov perto de Staraya Ladoga. A fundação dessas cidades, que ligavam a Escandinávia ao que atualmente é a Rússia, demonstra a importância das vias comerciais que os nórdicos traçaram pelo leste europeu, cruzando o mar Báltico. Esses escandinavos que se dedicaram à exploração dessa rota comercial ao leste que se conectava ao mundo muçulmano ficaram conhecidos como rus. De acordo com Hansen: Conhecemos essas pessoas atualmente como rus, viajantes que deram seu nome à Rússia. Em sua maioria homens, casaram-se com mulheres locais, fixaram assentamentos permanentes, aprenderam a falar línguas eslavas e, por fim, foram completamente absorvidos pela sociedade local. Encontrando uma oferta constante de peles e escravos no leste da Europa, os rus se posicionaram como atravessadores e lucraram muito vendendo para clientes bizantinos e muçulmanos na Ásia Central. (HANSEN, 2021, p. 91) Os povos nórdicos deslocaram-se tanto pelo ocidente quanto pelo oriente europeu, espalhando sua influência e exercendo o domínio militar e comercial sobre determinadas áreas. Mapa da expansão viking. Se, inicialmente, o movimento era somente baseado no saque e na pilhagem, com o tempo, desdobrou-se na ocupação de espaços estratégicos situados na confluência de rotas mercantis por eles tecidas graças ao comércio de peles e de escravos, 25/05/2023, 21:46 Feudalismos https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04616/index.html# 9/47 estes últimos muito cobiçados como mão de obra, em especial no mundo muçulmano. Feudalismo e o mundo muçulmano O Islã é uma religião monoteísta fundada por Maomé na Península Arábica no século VII. A partir da difusão da crença em Alá, que se comunicava com seu povo escolhido por meio do seu profeta, as tribos árabes, antes autônomas politicamente, foram reunidas sob a liderança de Maomé e buscaram expandir sua fé com suas conquistas militares para além do território árabe. Profeta Maomé recitando o Alcorão em Meca (gravura do século XIV). Os efeitos da crise política que se instalou no mundo muçulmano não detiveram o avanço da fé islâmica, mas serviram de estímulo, principalmente em direção ao território persa. Os califas omíadas, que assumiram o controle político após vencer os primeiros califas (ligados ao grupo familiar do profeta), transferiram a capital do Império Muçulmano de Meca para a cidade de Damasco, na atual Síria. Os omíadas consolidaram as conquistas muçulmanas nas regiões do Oriente Médio e do Cáucaso, mas também em direção ao ocidente, avançando sobre o noroeste da África (conhecido pelo nome de Magrebe) e sobre a Península Ibérica, que ocuparam em 711. A tumultuada disputa entre os califas omíadas e os líderes da casa de Abbas, de origem persa, promoveu uma nova ruptura política e a instalação do califado abássida, que estabeleceu sua capital na cidade de Bagdá. Apesar das disputas políticas internas que indispuseram árabes, berberes, sírios, persas e turcos ao longo da formação e da expansão do Império Muçulmano, dois elementos comuns mantiveram a unidade cultural entre os povos convertidos ao islamismo: Primeiro elemento Os princípios da fé islâmica. Segundo elemento O uso da língua árabe. 25/05/2023, 21:46 Feudalismos https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04616/index.html# 10/47 Como conclui Hourani (2004, p. 99): “no fim do século X, passara a existir um mundo islâmico, unido por uma cultura religiosa comum, expressa em língua árabe, e por relações humanas forjadas pelo comércio, a migração e a peregrinação. Mas esse mundo não mais se corporificava numa unidade política única”. Representação de um anjo presenteando Maomé e seus discípulos com uma cidade em miniatura. Palácio de Topkapı, Istambul. Representação em miniatura persa que retrata a ascensão de Maomé ao céu. A expansão muçulmana pela bacia do Mediterrâneo ocidental e oriental fez os líderes locais muçulmanos controlarem as principais rotas comerciais que conectavam o Extremo Oriente e o ocidente mediterrânico. Atenção! Mesmo quando, no século XI, o califado abássida já enfrentava uma fragmentação territorial e política decorrente de disputas internas que envolviam os abássidas e as tribos turcas recém-convertidas aoislamismo, os árabes mantinham contatos comerciais e culturais com as diversas regiões e povos, sendo os vikings seus principais fornecedores de escravos, utilizados nas mais diversas atividades, inclusive a militar. As principais ações muçulmanas que desestabilizaram o Ocidente Medieval no ano 1000 foram a pirataria, os saques e as pilhagens realizadas na região mediterrânica. A Península Itálica foi o principal foco desse tipo de incursão, que se tornou mais frequente a partir do século IX, partindo do norte da África e da Península Ibérica. Bizantinos atacando Preslav. Os alvos principais das invasões eram as cidades, pois o acúmulo de riquezas atraía os saqueadores e garantia o aumento do número de escravos. A conquista da Sicília, por volta de 830, representou o auge desse movimento invasor, que colocou em risco toda a Itália Meridional e implicou o saque da cidade de Roma, em 846, e de vários monastérios. Nem o apoio militar fornecido pelo Império Bizantino, que conseguiu retomar a cidade de Bari, em 871, pôs fim ao poderio muçulmano na península. 25/05/2023, 21:46 Feudalismos https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04616/index.html# 11/47 A ampliação das ações militares bizantinas, em boa parte motivadas pelos pedidos do Papa João VIII para que Roma fosse protegida de um novo saque, resultou na retomada, em 915, da última colônia muçulmana que ainda se mantinha na península: Garigliano. Contudo, a derrocada muçulmana durou pouco. A instalação dos fatímidas em Palermo representou a volta do domínio muçulmano, que novamente se estendeu por boa parte da Península Itálica. Foi somente no início do século X e com a ajuda das forças militares cristãs que o poderio muçulmano na península foi reduzido, mas os saques e as pilhagens continuaram na região até, pelo menos, o século XII. Comentário Por outro lado, na Península Ibérica, os muçulmanos ocuparam o território do antigo reino visigodo, em 711, e estenderam seu domínio pela maior parte da região, objetivando, a princípio, expandir suas conquistas até a Gália. A população cristã que resistiu ao domínio muçulmano refugiou-se no norte da península e, no decorrer dos séculos, ali fundaram reinos cristãos. O projeto de conquista da Gália foi frustrado pela vitória dos francos na batalha de Poitiers, em 732. As diversas frentes em que a população do Ocidente Medieval confrontou militarmente muçulmanos e cristãos foram ganhando ares ideológicos e a guerra foi sendo sacralizada. Essa sacralização da guerra, de acordo com o historiador Fiori (2013), equiparou a Santa Sé à cristandade e os adversários muçulmanos aos pagãos. Cidade Velha de Jerusalém - Palestina. Cúpula dourada da rocha. As primeiras incursões muçulmanas, como vimos, ocorreram inicialmente na bacia mediterrânica oriental, região onde o cristianismo havia nascido e que abrigava uma gama de comunidades cristãs diversas. Segundo Fiori, justamente ali a imagem dos muçulmanos como infiéis foi sendo constituída teologicamente e passou a fazer parte da forma como os cristãos referiam-se aos muçulmanos, demonizando-os. Mas, nesse momento, ainda não havia iniciado a guerra santa que sustentou as cruzadas no século XI. No contexto das incursões muçulmanas ocidentais levadas a cabo no século VIII, os documentos da época não atribuem um sentido religioso às disputas travadas. 25/05/2023, 21:46 Feudalismos https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04616/index.html# 12/47 O Busto de Carlos Magno, um relicário que contém a calvária do crânio de Carlos Magno, está localizado no tesouro da Catedral de Aachen e é considerada a representação mais famosa do governante. Somente em fins do século XI houve “uma cooptação ideológica que transformaria os reis franceses, em especial Carlos Magno, em soberanos míticos, campeões de uma cristandade católica romana, protótipos dos reis cruzados a travarem uma guerra santa contra pagãos e infiéis” (FIORI, 2013, 234). Apesar dos conflitos bélicos e das diferenças culturais, a conquista das rotas comerciais marítimas e terrestres tornou o mundo muçulmano o espaço por onde as pessoas transitavam, abastecendo as regiões com objetos e conhecimentos que circulavam e conectavam o Ocidente e o Oriente Medieval. A força vem do leste: húngaros ou magiares Além das invasões dirigidas pelos normandos a partir da Escandinávia, ao norte do continente europeu, e pelos muçulmanos a partir do Mediterrâneo, os húngaros também movimentaram seus guerreiros para o saque e a pilhagem de terras no leste europeu. Em geral, os húngaros deslocavam-se mais em direção ao Império Bizantino do que ao ocidente. Contudo, uma quantidade grande de cavaleiros húngaros, divergindo dessa tendência, atingiu o Ocidente Medieval entre os séculos IX e X. Pintura do final do século XIX, que retrata a chegada dos húngaros à planície da Panónia em 895. Aqueles que, no ocidente, foram conhecidos como húngaros ou magiares eram um misto de povos de origem escandinava (finlandesa) que haviam se instalado na região ao norte da atual Rússia, unindo-se a algumas tropas turcas da Ásia Central. Tal aliança permitiu o uso amplo da cavalaria e implicou a submissão de alguns povos eslavos ao seu domínio. Os húngaros atravessaram os Cárpatos, em 875, e se instalaram na região da Panônia, “de onde expulsa[ra]m os camponeses sedentários e os missionários” (HEERS, 1988, p. 55). Curiosidade Pelo que se sabe da história desses povos, suas invasões objetivavam o saque e a pilhagem das regiões do leste europeu para onde dirigiam anualmente suas incursões, que tiveram início em 898, atingindo os campos e mosteiros da Alemanha (da Baviera ao Mar do Norte), da Gália e da Itália. A região da atual Alemanha foi a que mais sofreu com as invasões, comprometendo, assim, a produção agrária nos vales da Áustria à Baviera. Conforme concluiu Heers: “se as cidades frequentemente resistem, Pavia e Estrasburgo, entretanto, são completamente destruídas e o medo do cavaleiro húngaro é uma constante nas crônicas e no folclore da época” (HEERS, 1988, p. 55). 25/05/2023, 21:46 Feudalismos https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04616/index.html# 13/47 As invasões húngaras tenderam a diminuir quando o rei saxônico, Henrique, o Passarinheiro, investiu na fortificação das cidades, mandou erguer castelos para garantir a defesa das fronteiras do seu reino, além de montar um exército de cavaleiros sob seu domínio para fazer frente aos guerreiros húngaros. Pela ação desse monarca e de seus sucessores, os húngaros tiveram sua movimentação limitada e, com o tempo, sedentarizaram-se na região da Panônia. Um dos seus reis, Estevão, recebeu a coroa das mãos do papa em 1038, marcando a conversão do seu povo ao cristianismo. Henrique I, o Passarinheiro. Retrato de Estêvão sobre a mortalha de coroação húngara de 1031. Observando o processo invasor dos vikings, húngaros e muçulmanos, identificam-se mudanças políticas, econômicas, sociais e culturais promovidas por ele sobre o território do Império Carolíngio. No século IX, muitas cidades do sudoeste da Gália foram fortificadas e se tornaram centros de defesa contra os invasores. Além disso, construiu-se uma série de fortalezas em todo o Ocidente Medieval na tentativa de conter o avanço dos invasores que se deslocavam em vagas heterogêneas e sem uma periodicidade rígida. Contudo, a difusão de fortalezas e castelos (que equivaliam a torreões de madeira com fins sobretudo militares) não pode ser atribuída somente ao medo da população frente aos invasores, mas também às crescentes disputas militares que envolviam a aristocracia e os reis carolíngios. Trecho do Retábulo de Ghent. 25/05/2023, 21:46 Feudalismos https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04616/index.html# 14/47 De acordo com Heers (1988, p. 62), “instala-se assim uma nova ordem política, que acentuava a exasperação dos particularismos regionais e a multiplicação dos laços de dependência e dos juramentos de homem a homem, obstáculosao exercício da autoridade real. Pouco a pouco instaura-se a hereditariedade de funções e de benefícios de vassalidade”. Atenção! O processo de desagregação do Império Carolíngio e a ameaça de povos invasores ocorrida a partir do século IX promoveram uma reorganização na sociedade medieval e a instauração de uma nova ordem no ocidente: a feudal. Tal ordem foi resultante, portanto, não só dos fenômenos históricos ocidentais internos, mas também de mudanças ocorridas no âmbito global. Hansen (2021) partiu do pressuposto de que as rotas comerciais abertas pelos vikings em seu movimento de expansão mercantil promoveram a interação entre diversas rotas de comércio no ocidente e no oriente – interação estabelecida, sobretudo, por meio da venda de escravos e de peles e da compra de produtos dos mais diversos tipos oriundos de Bizâncio e do mundo muçulmano (cuja influência estendia-se da Península Ibérica à Índia). A ampliação das rotas comerciais foi considerada, portanto, decorrente do aumento demográfico relacionado à melhoria da produção agrícola. Território e viagens dos vikings. De acordo com Hansen (2021, p. 34): “por volta do ano 1000, os oceanos Índico e Pacífico testemunharam uma intensificação do comércio entre os portos árabe, indiano, sudeste da Ásia, leste da Ásia e chinês”. Logo, as mudanças econômicas que marcaram o ano 1000 se relacionaram à organização das relações servis de produção e à difusão dos laços de suserania e vassalagem, que impactaram a constituição socioeconômica do Ocidente Medieval, e ao incremento das relações com o oriente, especialmente com Bizâncio e com o mundo muçulmano. Atividade discursiva Agora vamos praticar a escrita! Pegue um mapa e observe as dinâmicas presentes nessa caracterização do mundo feudal. Trace retas, veja as quilometragens e faça o registro aqui de suas impressões. 25/05/2023, 21:46 Feudalismos https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04616/index.html# 15/47 Digite sua resposta aqui Exibir solução Você deve fazer um texto que dê visão à compreensão de uma geopolítica complexa, notando e vendo a possível presença de outros povos. O professor Rodrigo Rainha comenta essa relação, pegue caneta e papel e compare sua resposta. 25/05/2023, 21:46 Feudalismos https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04616/index.html# 16/47 Falta pouco para atingir seus objetivos. Vamos praticar alguns conceitos? Questão 1 Dos elementos históricos listados a seguir, identifique aquele que se relaciona à formação do sistema feudal: Parabéns! A alternativa B está correta. A lógica de que as forças estão em movimento, assim como os povos e as ideias é algo muito importante, por isso, as invasões externas relacionam-se à formação do sistema feudal. A força de Magno não explica o sistema feudal, mas sua fragilização sim, os nobres passaram a ser cada vez autônomos e o poder papal ainda não tem a representação imaginada. Questão 2 A O fortalecimento político do Império Carolíngio. B As invasões externas ocorridas nos séculos IX e X. C A limitação do poder nobiliárquico. D A ampliação do poder papal. E A difusão do uso da mão de obra escrava. 25/05/2023, 21:46 Feudalismos https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04616/index.html# 17/47 Nos séculos IX e X, os normandos iniciaram uma série de invasões sobre o território carolíngio. Identifique nas alternativas a seguir a que apresenta características relativas a essas invasões. Parabéns! A alternativa C está correta. O papel político e comercial dos normandos rompe com a identidade do senso comum, presente nas demais alternativas. 2 - A sociedade e a economia feudal Ao �nal deste módulo, você será capaz de caracterizar a sociedade e a economia feudal. A O único objetivo dos normandos era realizar ações de pirataria no Mediterrâneo. B Os normandos iniciaram uma série de pilhagens na região do Império Bizantino. C Os normandos inicialmente dedicaram-se ao saque e a pilhagem e, posteriormente, montaram uma rota comercial que se conectava às rotas muçulmanas. D Os normandos espalharam o terror sobre a parte central e ocidental da Europa, utilizando, sobretudo, a cavalaria. E O objetivo primeiro dos normandos era expandir os princípios da fé islâmica. 25/05/2023, 21:46 Feudalismos https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04616/index.html# 18/47 A ordem feudal: período clássico Historiogra�a e feudalismos Vamos refletir e produzir conexões sobre o que você vai ler. Professora Nathália Serenado entrevista a professora Marta Carvalho e convida você para trocar boas ideias sobre as formas como feudalismo já foi interpretado. A ordem feudal que se instituiu no Ocidente Medieval gerou uma nova dinâmica social que, difundida especialmente nos campos, favoreceu a multiplicação dos laços de suserania e vassalagem e de servidão. Cada vez mais portadora do direito de ban, a aristocracia medieval passou a exercer, com ampla autonomia, o poder sobre aqueles que residiam em seus senhorios, mas também se via obrigada a conviver com os milites que, sem ter uma origem nobiliárquica, tiveram sua influência militar aumentada graças aos diversos conflitos que estouravam entre suseranos, reis e invasores, por terem se tornado figuras centrais na defesa local. Foi no contexto do ano mil, portanto, que foi se configurando a aristocracia medieval. Historiadores como Baschet diferenciam dois termos que por vezes são entendidos como sinônimos quando se trata do período medieval: nobreza e aristocracia. A aristocracia, para Baschet, se caracterizou pela conjunção de poderes militares, pessoais e fundiários, mas tinha variações de tipos sociais. Já a noção de nobreza representa “os bem-nascidos”. Contudo, foi somente em fins da Idade Média que esse grupo alcançou uma definição precisa, “como uma categoria social fechada e definida por um conjunto de critérios – dentre os quais o sangue tem um papel primordial” (BASCHET, 2006, p. 110). A coroação do imperador Carlos Magno pelo papa Leão III. A aristocracia medieval, sobretudo a que surgiu por volta do ano mil, foi composta por membros das grandes famílias romano- germânicas (que haviam se fundido e governavam condados e outros principados originados no período carolíngio) e por milites. Inicialmente simples guerreiros a serviço dos castelões, os milites viviam nas cortes, tinham uma clara ação militar e formavam um grupo heterogêneo. Com o tempo, houve a fusão entre os aristocratas e os milites e, assim, surgiu a figura do cavaleiro. Sobre esse processo de fusão, concluiu Baschet: 25/05/2023, 21:46 Feudalismos https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04616/index.html# 19/47 A aristocracia feudal repousa, portanto, sobre um duplo fundamento discursivo. Ela é de�nida, de início pelo nascimento: é-se nobre porque de origem nobre, quer dizer, na medida em que se pode fazer prevalecer o prestígio social de seus antecedentes. (BASCHET, 2006, p. 112) Dessa forma, todo um sistema de valores e símbolos próprios do grupo nobiliárquico e cavaleiresco foi sendo utilizado para garantir a formação de uma identidade grupal e marcar sua distinção em relação aos restantes membros do corpo social. Um dos símbolos mais fortes da cultura política medieval e que tanto reverberou no campo da cultura intelectual e artística do período quanto está presente na imagem da Idade Média constituída para além do século XV é a cavalaria. Cristiano I da Dinamarca assiste um torneio de cavalaria junto a Bartolomeo Colleoni, por Girolamo Romani, (1467), afresco no Castelo de Malpaga. Para Vauchez, identifica-se a tentativa de cristianizar a ação militar através de um processo de sacralização desde o século X, quando há registros de um cerimonial para a bênção da espada e da lança e a difusão da oração pelos combatentes. Tal cerimonial se tornou mais evoluído no século seguinte, quando surgiu de fato o rito de armar os cavaleiros. Essa cerimônia, que era, sobretudo, laica, ganhou ares cada vezmais sacros nos séculos seguintes, até o ponto em que, no século XIII, a participação das autoridades eclesiásticas tornou-se fundamental. João II da França ordenando cavaleiros. O rito de ordenação era abençoado pela Igreja e era um dos mais importantes meios de admissão à nobreza, de regulação das hierarquias aristocráticas e de confirmação dos laços vassaláticos. Segundo Vauchez (2005, p. 60): Essa solicitude nova para com os cavaleiros não era desinteressada: a sagração habilitava o rei carolíngio a defender a Igreja e fazia disso um dever para ele; no novo contexto feudal, essa obrigação passava para os donos do solo e para os detentores do poder público, isto é, para os senhores. Fazendo-se armar segundo do cerimonial litúrgico, o miles se comprometia a comportar-se como soldado de Cristo. A cavalaria tornava-se a forma cristã da condição militar. No contexto do ano mil, a guerra era uma atividade fundamental a ser conduzida pela aristocracia e o Ocidente Medieval. Observe a seguir as diferentes nomeações compreendidas para este processo enfrentado. 25/05/2023, 21:46 Feudalismos https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04616/index.html# 20/47 Pierre Toubert (2006) Chamou de incastellamento (encastelamento) Robert Fossier (2019) Nomeou de encelulamento. Em ambas as noções, que são similares, a sociedade medieval era organizada em três células bases: A junção dessas três células, que existia em toda a cristandade, forma, para Le Goff (2007) e outros historiadores, o sistema senhorial. Sistema feudal O uso dos termos sistema feudal, sistema senhorial e feudalismo tem gerado uma série de embates entre os historiadores. Em linhas gerais, sistema senhorial é a perspectiva de que a sociedade medieval se organizava fundamentalmente em torno das três células mencionadas anteriormente, que se integram e se pautam em um senso de hierarquia vassálica, que na paróquia se traduz nos clérigos como representantes da voz de Deus, o suserano maior. O senhorio O território que era dominado pelo castelo e as terras campesinas. A aldeia O grupamento de camponeses. A paróquia O conjunto de fiéis sob a autoridade de um padre. 25/05/2023, 21:46 Feudalismos https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04616/index.html# 21/47 A noção de sistema feudal se baseia, sobretudo, nas relações senhoriais que se expressam no âmbito socioeconômico (onde a servidão é um fator primordial), e também cultural e político, e assumiu formas diversas no Ocidente Medieval. Já o termo feudalismo traz consigo uma forte carga político-jurídica, visto que o que caracteriza a lógica de organização social seriam os laços de dependência jurídica que conectavam os que partilhavam dos laços de suserania e vassalagem. Resumindo Logo, o que definia a vassalagem era a perda de autonomia jurídica diante do suserano. Como esclareceu Bloch: “Na sua utilização actual, «feudalismo» e «sociedade feudal» abrangem um conjunto intrincado de imagens em que o feudo propriamente dito deixou de figurar em primeiro plano.” (BLOCH, 2009, p. 14). Apesar das divergências teórico-metodológicas, que criaram uma diversidade de perspectivas que se propuseram a explicar a forma como a sociedade medieval se constituiu a partir, sobretudo, de fins do século IX e X, é clara a noção de que esses séculos foram de intensas transformações políticas, econômicas, sociais e culturais que afetaram a organização da sociedade medieval. Especialmente a que se configura na Europa Oeste e Central, e colocou a aristocracia e o clero no topo da sociedade medieval. A economia feudal A base do poder senhorial, exercido tanto pelos laicos quanto pelos clérigos, estava no exercício de um poder coercitivo fundamentado na posse da terra. Daí o senhorio ter uma dupla natureza, a fundiária e a banal, sendo a posse da terra o fator definidor da estratificação social. A terra senhorial estava dividida em terra indominicata e mansionária. Observe a seguir. Indominicata Se referia às reservas senhoriais que eram exploradas diretamente pelos servos e onde se localizavam o castelo, celeiros, estábulos, moinhos, oficinas artesanais, pastos, bosques e terras cultiváveis. Mansionária Já a terra mansionária era as parcelas de terreno (mansus) dadas aos camponeses. “Cada manso era a unidade produtiva e fiscal do domínio” (FRANCO JR., 2001, p. 33). Era dos mansos que os senhores retiravam seus recursos fiscais e produtos agrícolas. A extensão dos mansos variava de acordo com o estatuto jurídico do seu detentor. Curiosidade 25/05/2023, 21:46 Feudalismos https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04616/index.html# 22/47 A exploração dos mansos era assegurada pela utilização de uma capacidade produtiva maior do que a que seria necessária. A mão-de-obra excedente dos mansos era empregada nas terras senhoriais, na forma de corveias, nome dado a esse tipo de imposto. A corveia era paga pelos camponeses, em forma de trabalho realizado durante alguns dias na semana nas terras senhoriais. No restante dos dias da semana, os camponeses trabalhavam seus mansos, de onde retiravam os recursos para sua sobrevivência, que também embasariam o cálculo dos impostos senhoriais. Os camponeses que haviam assumido com os senhores um laço de servidão tornavam-se servos e perdiam sua autonomia jurídica, ficando ligados à terra e à obrigação senhorial, que só poderia ser rompida com a liberação do senhor. O compromisso de servidão era considerado vitalício, o que não impedia que houvesse formas diversas de os servos romperem com a servidão, como as fugas. Para além dos senhorios como unidades produtivas, a atividade agrícola era desenvolvida também nas pequenas e médias propriedades de terras pertencentes aos camponeses livres, que atuavam nas terras alodiais e em geral mantinham certo grau de dependência em relação aos senhores, motivada, sobretudo, pela necessidade de proteção militar frente às invasões externas e conflitos internos. A produção agrícola exercida através da servidão foi a base das relações econômicas no ano mil, mas isso não significou a inatividade do artesanato e do comércio. Uma imagem típica da paisagem feudal: o castelo do senhor controlando as terras onde seus súditos trabalham. Iluminura em Les très riches heures du duc de Berry. A dificuldade de se conseguir mão-de-obra para as atividades agrícolas em um momento em que a taxa demográfica era reduzida no ocidente e enfrentava-se a escassez no fornecimento de matéria-prima promoveu a redução da atividade artesanal entre os séculos IV a X. Contudo, as medidas econômicas tomadas pelos reis carolíngios favoreceram o desenvolvimento do setor artesanal e, a partir do século VIII, já é possível identificar alguns grupos de artesãos assalariados que se deslocavam de um senhorio a outro oferecendo seu ofício. Place du marché. Thomas III de Saluces. Quanto ao comércio interno, ele foi sustentado pela produção realizada nos senhorios. Apesar de a tendência econômica ser a de que cada senhorio produzisse aquilo de que necessitava, a comercialização dos produtos entre os senhorios era fundamental para que fosse suprida alguma falta ocorrida em função de uma dificuldade produtiva que tivesse alcançado a região. Logo, a ideia de uma produção senhorial autossuficiente torna-se mais um mito produzido acerca da economia medieval do que uma realidade. 25/05/2023, 21:46 Feudalismos https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04616/index.html# 23/47 Atenção! Além do comércio interno existia também um fluxo considerável de comércio externo em função da atuação da marinha bizantina que garantia a segurança para os navegadores e comerciantes mediterrânicos que abasteciam o ocidente dos produtos orientais. Como afirma Franco Jr. ao referir-se à atuação da marinha bizantina, ela “continuou ainda por algum tempo a dominar o Mediterrâneo. Procurando proteger as regiões não ocupadas pelos islamitas, a frota bizantina bloqueou a faixa central daquele mar,isolando sua zona ocidental da oriental.” (FRANCO JR, 2001, p. 35). Desenho da batalha do livro de Cantigas por Alfonso X, o Sábio. Tal perspectiva acerca da existência do comércio externo no Ocidente Medieval entre os séculos V a X representa uma contestação à tese defendida por Pirrene (1963), que considerou a expansão muçulmana na bacia mediterrânica como o fator que lançou o Ocidente Medieval em um isolamento comercial em relação ao oriente, que só foi rompido com a abertura mercantil promovida pelas cruzadas. Para Pirrene, a ausência de possibilidades na navegação mediterrânica obrigou os reis carolíngios a incrementar o comércio realizado através do norte da Europa, sendo esse o fator que melhor explicaria a ascensão política carolíngia na Gália. Sociedade feudal A população do Ocidente Medieval era bastante eclética e nenhum esquema é capaz de identificá-la sem que se incorra em reducionismos. Historiadores como Duby se dedicaram a refletir sobre os modelos ideológicos explicativos forjados no próprio contexto medieval que buscaram retratar a sociedade. Em As três ordens ou o imaginário do feudalismo (1994), Duby identificou a trajetória que envolveu a construção da noção das três ordens medievais. Veja a seguir. Orant Os que rezam. Pugnant 25/05/2023, 21:46 Feudalismos https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04616/index.html# 24/47 Os que combatem. Laborant Os que trabalham Recuando ao século XVII, Duby observou que essa noção de ordens não foi entendida somente como referente ao campo social, mas também político, por viabilizar a elaboração das bases de uma sociedade hierarquizada, onde cada ordem tinha funções específicas que garantiriam o pleno funcionamento e o ordenamento social através de uma espécie de “solidariedade triangular”. Tal solidariedade foi a base política da monarquia moderna, mas sua gênese pode ser encontrada na teologia medieval e difundiu- se a partir dos escritos de Adalberão, bispo de Laon, no início do século XI. Os princípios da desigualdade e da obediência fundamentaram o discurso teológico que justificava essa solidariedade, ao considerar que a ordem imaterial (espiritual) se projetava na ordem material (mundo físico). Logo, a ordem exemplar existente na corte celeste (onde Deus é o centro de todo o poder e a partir dele se estabelecia a hierarquia dos seres espirituais, cada qual com sua função) deveria orientar a disposição hierárquica das ordens sociais. Hemma de Gurk doando a Catedral de Gurk à Virgem Maria. Duby chamou a atenção para o fato de que esse princípio de ordenamento social que teve sua gênese no âmbito teológico foi apropriado pela aristocracia laica feudal para justificar sua autoridade e liderança sobre os demais extratos sociais. Contudo, a partir do século XII, uma série de transformações no campo político, social, econômico e cultural fez surgir uma sociedade mais complexa, e os novos tipos sociais lutaram para encontrar seu espaço nesse modelo tripartido. “Por esta razão, os sistemas de classificação que formam o enquadramento das ideologias sociais tiveram de dar lugar a uma categoria nova.” (DUBY, 1994, 236). Atenção! Sendo assim, apesar da existência de um modelo social tripartite difundido na cultura teológica e política medieval este não correspondia exatamente à realidade social e nem seu uso sustentaria uma análise mais detida dos tipos sociais medievais. 25/05/2023, 21:46 Feudalismos https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04616/index.html# 25/47 Atividade discursiva Vamos organizar um debate historiográfico? Agora é sua vez, faça uma discussão sobre as visões históricas sobre o feudalismo, comparando-as. Digite sua resposta aqui Exibir solução De alguma maneira, você deve ter uma relação bem próxima com o texto, notar o primeiro uso do termo, depois como isso impacta a sociedade, ou economia, e assim você ganha mais possibilidades. Vamos ouvir o comentário do professor Rodrigo Rainha sobre a questão. 25/05/2023, 21:46 Feudalismos https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04616/index.html# 26/47 Falta pouco para atingir seus objetivos. Vamos praticar alguns conceitos? Questão 1 A casa de Deus, que acreditam una, está, portanto, dividida em três: uns oram, outros combatem, outros, enfim, trabalham. Essas três partes que coexistem não suportam ser separadas; os serviços prestados por uma são a condição das obras das outras duas; cada uma por sua vez encarrega-se de aliviar o conjunto… Assim a lei pode triunfar e o mundo gozar da paz. (ADALBERON DE LAON. In: SPINOSA, F. Antologia de textos históricos medievais. Lisboa: Sá da Costa, 1981.) O objetivo maior da ideologia veiculada por Adalberon de Laon, expressa no texto acima era A justificar a divisão da sociedade em ordens estabelecidas de acordo com a vontade divina. B subverter a hierarquia social. C promover a igualdade jurídica entre os membros da ordem social. D garantir a igualdade social do clero, da nobreza e do povo. 25/05/2023, 21:46 Feudalismos https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04616/index.html# 27/47 Parabéns! A alternativa A está correta. Estamos diante das três ordens sociais do imaginário medieval e como elas se relacionam na construção da explicação de mundo, justificando os papéis sociais de maneira estratificada. Neste sentido, como representantes do divino na terra a alta hierarquia da Igreja convencionou a organizar ideologicamente a sociedade em estamentos sociais. Questão 2 As relações entre suseranos e vassalos foram a base da organização social e econômica do sistema feudal. Assinale a alternativa que corresponde a uma característica dessas relações. Parabéns! A alternativa D está correta. Apesar de parecer estranho, suseranos e vassalos eram iguais em relação aos seus papéis sociais, e por isso selavam seus acordos relacionados a sua classe. Estruturas como homenagem e impostos eram mais locais, sem uma estrutura recorrente que possamos analisar. E combater os princípios teológicos que justificavam a desigualdade social. A Senhor e servo eram categorias semelhantes a suseranos e vassalos. B O servo prestava homenagem ao senhor feudal. C O senhor feudal concedia o benefício ao vassalo. D As obrigações entre vassalos e suseranos eram recíprocas. E O juramento de fidelidade podia ser rompido a qualquer momento. 25/05/2023, 21:46 Feudalismos https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04616/index.html# 28/47 3 - A Igreja e a sociedade feudal Ao �nal deste módulo, você será capaz de analisar a atuação da Igreja na con�guração da ordem feudal. A Igreja e a dinâmica baixo medieval O poder da Igreja na Idade medieval Vamos refletir e produzir conexões sobre o que você vai ler. Professora Nathália Serenado entrevista a professora Marta Carvalho e convida você para trocar ideias sobre a Igreja na Idade Média. A aliança entre os carolíngios e a Igreja Romana foi fundamental para estabelecer as bases políticas da monarquia carolíngia e para justificar seu processo de expansão territorial e conquista militar sobre os demais povos germânicos. Tal aliança tornou-se ainda mais efetiva quando os muçulmanos encerraram sua expansão pela bacia mediterrânica e conquistaram a Península Ibérica, no início do século VIII. A vitória dos carolíngios sobre as tropas muçulmanas, em 732, foi considerada por alguns historiadores a origem da cristandade e os reis carolíngios, seus defensores por excelência. Estes passaram a ser entendidos como os “campeões da cristandade” e 25/05/2023, 21:46 Feudalismos https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04616/index.html# 29/47 consequentemente do papado. Os reis carolíngios conseguiram deter o avanço territorial-militar dos muçulmanos no oeste europeu, mas isso não impediu que os saques e as pilhagens no litoral mediterrânico se perpetuassem. Carlos Magno instruindo seu filho Luís, o Piedoso. A desagregação do Império Carolíngio retirou do papado a proteção militare limitou sua atuação política. Abadias e poderes religiosos No caso das autoridades eclesiásticas locais, dois efeitos podem ser considerados: por um lado, houve um enfraquecimento notório e gradativo da sua autonomia, que implicou o controle dos altos cargos eclesiásticos e, consequentemente, das terras da igreja, pelas autoridades senhoriais locais. Iluminura medieval mostrando a abadessa Hildegard von Bingen e o monge Volmar. São Bento, retratado por Fra Angelico. Na sua regra, definiu algumas das normas relativas ao cargo abacial. Por outro lado, diante da necessidade de exercer o poder senhorial sobre seus domínios, alguns teólogos inspirados no Direito Canônico e nos escritos de Santo Agostinho desenvolveram a teoria do “agostinianismo político”, que afirmava a superioridade do poder eclesiástico sobre o poder temporal (FRANCO JR., 2003, p. 73), evocando a teoria dos dois gládios criada pelo Papa Gelásio, em fins do século V. 25/05/2023, 21:46 Feudalismos https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04616/index.html# 30/47 Dessa maneira, o poder do papa e dos bispos seria superior ao dos reis e nobres, e quem se rebelasse contra essa lógica exerceria o poder tiranicamente. Contudo, se por um lado o agostinianismo político fortalecia o poder clerical, por outro ele enfraquecia o poder régio e consequentemente estimulava a nobreza a avançar sobre o poder monárquico, apropriando-se de algumas parcelas dele e utilizando-as para submeter as autoridades eclesiásticas que estavam sob a circunscrição dos seus senhorios. Vitrais retratando um mártir cristão na catedral de Leão, Castille e Leon, Espanha. Sobre os efeitos do agostinianismo político no contexto feudal, Franco Jr. conclui que “apesar de não ter sido intenção clerical enfraquecer a monarquia (mas apenas submetê-la ao controle episcopal), tal teoria contribuiu para aumentar a autonomia da nobreza, o que teve reflexos negativos sobre a Igreja, com a generalização do sistema de “igrejas próprias”, já existentes no século VII e que se estenderia até o século XII. Curiosidade De acordo com o sistema de igrejas próprias, quando um latifundiário levantava uma igreja ou mosteiro em suas terras, mantinha esse bem como plena propriedade, podendo vendê-lo, doá-lo ou transmiti-lo em herança. Podia apropriar-se das esmolas e dízimos recebidos pela Igreja ou mosteiro. Podia, sobretudo, nomear quem quisesse como sacerdote, função que desde o século VIII era atribuída como beneficium ou feudo” (FRANCO JR., 2001, p. 73). O agostinianismo político também contribuiu para que os monastérios firmassem seu poder senhorial sobre os amplos territórios que passaram a controlar desde a reforma monástica conduzida no reinado de Carlos Magno. Os reis carolíngios, especialmente Carlos Magno, entenderam que os monges eram aliados poderosos para a difusão do ideal imperial entre a população conquistada levando a cabo sua tarefa evangelizadora para as regiões mais remotas, onde o poder imperial era pouco atuante e eficaz. Mosteiro clunyacense. O estímulo à fundação de monastérios, em especial nas áreas rurais e inóspitas, foi uma prática carolíngia que implicou a doação a essas casas religiosas de um considerável patrimônio fundiário que era explorado, assim como os senhorios laicos, tendo camponeses como mão de obra em estado de servidão. Para consolidar sua aliança com os monastérios e garantir certo controle sobre as casas monásticas, Carlos Magno estimulou a unificação monástica, “que modelou no seu começo a Europa Medieval em razão do número, prestígio e da atividade dos monges” (LE GOFF, 2007, p. 55). 25/05/2023, 21:46 Feudalismos https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04616/index.html# 31/47 A unificação monástica consistiu na determinação, por parte do imperador carolíngio Luís, o Piedoso, de que todas as abadias passassem a adotar a regra fundada por Bento de Núrsia, monge do século VI, que dividia o tempo dos monges em três momentos: Além disso, os monges deveriam dedicar-se à missão de pregação e de conversão dos pagãos. Santo Amândio. Quando o Império Carolíngio se desagregou, os povos invasores avançaram e o poder da aristocracia se consolidou. Os monges se tornaram peças-chaves na estruturação da sociedade feudal. Em função do enfraquecimento crescente do poder régio, os monges não só passaram a gozar de maior autonomia em seus senhorios, acumulando, em decorrência, mais riquezas materiais, mas também tiveram que lutar mais acirradamente contra a crescente influência da aristocracia laica sobre a estrutura eclesiástica. As abadias se tornaram o centro da vida religiosa no Ocidente Medieval durante o ano mil, a ponto de o historiador Duby ter considerado esse período como “o tempo dos monges”. Ao analisar a importância que as abadias alcançaram no ocidente do ano mil, Duby concluiu que elas estavam “[mais bem] adaptadas aos marcos puramente rurais da vida material, melhor dispostas a responder às exigências da piedade laica – já que abrigavam relíquias, estavam rodeadas de necrópoles, se orava nelas o dia inteiro pelos vivos e mortos, acolhiam aos filhos nobres e os velhos senhores se retiravam para nelas morrer” (DUBY, 2002, p. 20). Curiosidade O tempo das orações litúrgicas e das meditações. O tempo do trabalho manual. O tempo do trabalho intelectual. 25/05/2023, 21:46 Feudalismos https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04616/index.html# 32/47 Pelos serviços espirituais prestados à comunidade, especialmente à aristocracia laica, os monges recebiam constantes e generosas doações que eram muito mais abundantes para os monastérios do que para o clero secular. Como afirma Duby (2002, p. 20), “as doações piedosas não vão então aos bispos e sim para os abades, e os cartulários episcopais são muito mais pobres do que os monastérios”. Isso estimulou a rivalidade crescente entre o clero regular e o clero secular. A imagem dos monges no imaginário da sociedade medieval relacionava-se a à pureza e à santidade. Na ordem social, os monges eram aqueles que pareciam mais próximos da plena espiritualidade. Viviam isolados em seus claustros, longe das tentações mundanas. Os monges praticavam o senso de comunidade entre si e a caridade em relação aos necessitados. O isolamento foi um dos instrumentos empregados pelos monges para garantir a prática de uma vida ascética capaz de permitir-lhes fortalecer-se para a real batalha que travavam cotidianamente: a espiritual. Como concluiu Vauchez (2005, p. 51), “os homens dos séculos X e XI, época caracterizada pela insegurança e a violência, transpuseram seus hábitos e suas preocupações de todos os dias para o campo religioso”. Consagração de Cluny III por Urbano II. Esse tipo de embate motivou vários membros da aristocracia laica. De acordo com Vauchez (2005, p. 51), “o miles que entrava no mosteiro abandonava seu cavalo e sua espada, mas era para empunhar armas espirituais infinitamente mais eficazes do que as do mundo”. Era, então, aos monastérios que todos recorriam quando precisavam de auxílio espiritual para purgar um pecado, assegurar a salvação da sua alma, obter proteção e apoio. O lugar que os monges habitavam também era considerado um espaço santo. As abadias eram os lugares onde se abrigavam as relíquias e o culto aos santos. As relíquias As relíquias eram entendidas como objetos sagrados que, por haverem pertencido a um santo, possuíam um valor espiritual potencializado. Elas representavam, na cultura religiosa medieval, a junção da simbologia cristã e do pensamento marcadamente mágico, sendo canalizado pela Igreja e mais especificamente pelos monastérios. 25/05/2023, 21:46 Feudalismos https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04616/index.html# 33/47 Neles existiam relicários com objetos santificados aos quais os peregrinos tinham acesso e poderiam levar consigo alguma amostra dessas relíquias no retorno para suas casas. Corrente que teria prendido o mártir cristão Vicente de Saragoça.As relíquias eram cobiçadas pelos fiéis que as consumiam largamente em suas visitas peregrinatórias aos monastérios e serviam para definir a importância de uma casa monacal frente a outra. Ao tratar da forma como os eclesiásticos medievais lidaram com as relíquias, Duby concluiu que: Os eclesiásticos mais eruditos prestam atenção aos encantamentos, aos sortilégios, às ambiguidades características do pensamento selvagem e a todas as mediações mágicas. Para eles não cabe nenhuma dúvida: influxos estranhos que emanam do outro mundo, perturbam, de tanto em tanto, os ritmos regulares da natureza O mistério está constantemente presente e é visível, tangível. (DUBY, 2002, p. 60) A presença de relíquias nos monastérios e o culto a um santo local estimulava o movimento peregrinatório que, de acordo com Baschet (2006), é um “grande fenômeno medieval” e se trata sempre de “uma aventura, um risco” que torna o penitente um estrangeiro em terras estranhas, exposto às penas e à dureza do caminho. Além do fruto espiritual que a penitência podia ocasionar ao fim do caminho, o fiel poderia levar consigo a potência espiritual do santo expressa nas relíquias. Comentário A importância religiosa que os monastérios alcançaram no Ocidente Medieval traduziu-se também na ampliação da sua riqueza. Seus cofres foram amplamente reforçados pela devoção da população, especialmente em um momento em que a desagregação do Império Carolíngio e as invasões externas davam à sociedade uma nítida sensação de instabilidade e desespero. Contudo, o enriquecimento das casas monacais tornou-as alvos mais fáceis dos invasores, que as reconheciam como locais onde a riqueza estava acumulada, sendo estrategicamente mais interessante pilhá-las. 25/05/2023, 21:46 Feudalismos https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04616/index.html# 34/47 Bernardo de Claraval. Afora a orientação espiritual, os monastérios funcionavam como espaços para onde a população dirigia-se em busca de proteção e onde recebiam a caridade dos monges, que se traduzia na distribuição de alimentos e de atendimento médico àqueles que estivessem necessitados, seguindo os princípios estabelecidos na igreja primitiva descrita na tradição bíblica. Com o desempenho dessas funções, os monges garantiam a proximidade da sociedade com o divino, cumprindo seu papel e favorecendo a preservação da ordem social. Fenômenos políticos Todas as alterações trazidas pelo processo de desintegração do Império Carolíngio e pelas invasões dos séculos IX e X ampliaram a ação e a importância das casas monásticas, agora sem o apoio efetivo de um poder central e consequentemente mais expostas às ambições da aristocracia laica sobre seu patrimônio fundiário. Como resposta a esse quadro de transformações intensas, as casas monacais, que já haviam participado da unificação monástica promovida pelos reis carolíngios, passaram por outra renovação. Retrato de Santo Agostinho por Philippe de Champaigne, século XVII. Conforme Franco Jr. (2001), a Igreja adotou medidas que visaram concretizar o agostinianismo político e reagir ao avanço do poder laico em suas estruturas. Curiosidade Uma das medidas mais significativas foi investir na fundação, em 910, da abadia de Cluny, situada na região da Borgonha, em uma propriedade doada por Guilherme, duque da Aquitânia e conde de Mâcon. Cluny Os cluniacenses adotaram os princípios da regra de São Bento e, de acordo com Baschet, três elementos tornaram essa abadia uma potência política e religiosa no Ocidente Medieval. Observe a seguir. 25/05/2023, 21:46 Feudalismos https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04616/index.html# 35/47 Consagração de Cluny III pelo Papa Urbano II. Primeiro elemento Desde o momento da sua fundação, a abadia foi colocada sob a proteção direta do papa e, em 998, passou a ser totalmente isenta da interferência do bispo local. Inicialmente, essa autonomia frente às forças eclesiásticas locais expandiu-se, em 1097, a todas as abadias que passaram a compor a rede de monastérios dependentes de Cluny em todo o Ocidente Medieval. O abade de Cluny se tornou um “arquiabade”, chefe de todas as casas que estavam sob sua liderança. De acordo com Baschet (2006, p. 185), “forma-se, assim, não uma verdadeira ordem religiosa, pois não há nem organização em províncias nem instâncias colegiadas de direção, mas, antes, uma vasta rede de estabelecimentos que adotam os mesmos costumes monásticos e estão submetidos à autoridade única do abade de Cluny”. Odão, que viajou por boa parte da Europa visitando mosteiros e reformando-os. Segundo elemento Cluny se difere das demais abadias, a ponto de ter se tornado uma rede vasta de casas monásticas e de conventos, pela construção litúrgica que produzia. Os cluniacenses investiram na elaboração de uma liturgia funerária que, quando executada a pedido dos familiares, expressava a importância do morto frente à sociedade, o que estimulava as casas aristocráticas a fazerem vultuosas doações à rede abacial em troca do fausto dos seus defuntos. Mosaico de 944. Mary e Christchild. À direita Constantino, o Grande, com um modelo da cidade. À esquerda Justiniano com a igreja. 25/05/2023, 21:46 Feudalismos https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04616/index.html# 36/47 Terceiro elemento A identificação entre os cluniacenses e a Igreja Romana também caracterizou e diferenciou Cluny das demais ordens religiosas. Segundo Baschet (2006, p. 187), “compreende-se que os cluniacenses tenham frequentemente tendido a confundir sua igreja e a Igreja universal, e mesmo a identificar Cluny e Roma. No século XI, o coração vivo da cristandade é monástico mais do que secular, tanto borguinhão quanto romano”. Os papas dos séculos X e XII estiveram de alguma forma ligados à Cluny ou foram membros dela, a ponto de alguns historiadores chegarem a falar de uma “Igreja de Cluny”, sendo a partir dela desencadeadas as bases da reforma que se desenvolverá em fins do século XI. Os abades cluniacenses não se furtaram de aliar-se, especialmente a partir do século XII, aos monarcas de várias regiões do Ocidente Medieval, como a França, a Inglaterra e os reinos cristãos da Península Ibérica que lutavam pela expansão das bases territoriais e políticas dos seus reinos. A ordem de Cluny esteve envolvida na elaboração da ideia da Paz de Deus e, consequentemente, na de guerra santa. De acordo com Franco Jr., esses dois conceitos buscavam superar os efeitos que a desintegração do Império Carolíngio gerou no que se referia ao aumento das disputas senhoriais e aos crescentes embates militares entre as forças nobiliárquicas, que terminavam por expor os grupos não armados, especialmente o clero e o campesinato, a uma onda de violência e perda de bens. Uma visão geral de Cluny. Como afirmou o historiador, “a violência da expropriação feita pelos senhores laicos provocava reações perigosas, que poderiam subverter toda a ordem social” (FRANCO JR., 2001, p. 74). Atenção! Os conflitos nobiliárquicos internos, motivados sobretudo pelas disputas patrimoniais, desequilibravam a produção agrícola do período. Os constantes saques e pilhagens, vindos dos guerreiros cristãos ou dos invasores, deixavam os camponeses à mercê das ações militares, que, por vezes, ocorriam nos períodos de colheita ou semeadura, o que prejudicava não só o camponês, mas também o senhor. Ao estabelecer regras que visavam ordenar as ações militares dos cavaleiros cristãos, a Igreja pretendia domesticar a prática da guerra interna, já que sobre as invasões externas não havia como estabelecer, de fato, um controle. Logo, a Trégua de Deus, como ficaram conhecidas as medidas reguladoras da prática bélica estabelecidas pela Igreja, considerava ilegal e pecaminoso qualquer conflito travado fora das condições determinadas. Exemplo 25/05/2023, 21:46 Feudalismos https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04616/index.html# 37/47 A Igreja condenava o uso das armas durante determinados dias da semana(quinta-feira, sexta-feira, sábado e domingo) e em dias considerados santos pelo calendário litúrgico (Advento, Quaresma, Páscoa e Pentecostes). A busca pela paz é uma das principais motivações do cristianismo, pois a paz na Terra seria um prenúncio da paz eterna. Ficou conhecido como Paz de Deus uma série de movimentos, geralmente originados pelo clamor popular canalizado pela Igreja por meio de ações religiosas. Como identificou Le Goff (2007, p. 72), “os primeiros atores desse movimento foram a Igreja e as massas camponesas”. A Paz de Deus surgiu no sul da França, em fins do século X, e espalhou seu entusiasmo religioso por toda a Europa Ocidental durante o século XI. Tal entusiasmo serviu como combustível para a Igreja apresentar-se como a que protegia os fracos (órfãos, mulheres, camponeses, dentre outros) e difundir o culto das relíquias e os milagres. O esforço da Igreja para difundir o ideal da paz fez eco também entre os senhores laicos que se consideravam imbuídos da força militar e policial que, quando legitimamente utilizadas, fundamentavam o exercício do poder para a garantia da pacificação social. Iluminura do século XI representando o Papa Gregório I. Cluny e as transformações a partir do ano mil A busca pela pacificação e os movimentos religiosos e políticos dela decorrentes estenderam-se entre os séculos X e XI. Entre os historiadores de tradição francesa, esse período foi denominado ano mil ou milênio, tanto por corresponder, seguindo o calendário gregoriano, ao período de virada do primeiro milênio quanto por se referir a um contexto de intensas transformações políticas, econômicas, sociais e culturais que se prolongaram além do século X. A historiografia romântica do século XIX viu nos símbolos e referências medievais um caminho para construir as bases históricas das nações modernas. Comentário Um dos temas medievais mais explorados por esses historiadores foi justamente a virada do milênio, que na perspectiva deles, foi marcado pelo terror ocasionado pela presença de invasores, pela anarquia política e pelo medo do apocalipse (que traria a volta de Cristo e o consequente Juízo Final). Dessa maneira, o ano mil foi considerado um período de desordem, instabilidade e terror. Foi no sentido de rever essa perspectiva que os historiadores de fins dos anos 1990 até hoje têm se debruçado sobre esse período ainda cheio de sombras que foi o ano mil. Alguns, como Baschet, seguindo Bloch e Duby, entendem que esse período foi marcado por profundas transformações políticas, econômicas, sociais e culturais responsáveis pela construção de uma nova ordem no ocidente: a feudal. 25/05/2023, 21:46 Feudalismos https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04616/index.html# 38/47 A Tapeçaria bayeux, narrando a batalha inglês/normando em 1066 que levou à Conquista Normanda. Logo, para além da existência ou não de uma espécie de medo coletivo que se espalhou pelo ocidente, o ano mil foi um período de mutação que implicou uma profunda transformação política que caracterizaria essa “primeira revolução europeia”. Um rei medieval investe um bispo com os símbolos de seu cargo, a nomeação de clérigos por governantes seculares, feita por interesses pessoais, provocou a corrupção clerical. De acordo com Holland (2008), uma das mutações mais fundamentais ocorridas nesse período foi o resgate, por parte da Igreja Romana, de uma concepção política imperial baseada nos princípios romanos, incialmente empregada para reforçar o poder teocrático papal, mas seguidamente utilizada pelas autoridades laicais para estabelecer as bases do poder imperial. Ao referir-se ao projeto reformista eclesiástico, desencadeado pelo papa Gregório VII (1020-1085) e aos seus consequentes embates políticos com o imperador do Sacro Império Romano Germânico, Henrique IV (1050-1106), que ficaram conhecidos como a Questão das Investiduras, Holland destacou a importância das ações político-religiosas inauguradas pelo pontífice. Segundo Holland (2008, p. 20): “De fato talvez Gregório não desfrute hoje da fama de um Lutero, um Lênin, um Mao — mas isso é reflexo não de seu fracasso, mas da própria escala de sua conquista. São as revoluções incompletas aquelas que são lembradas; o destino daqueles que vencem é terminar sendo considerados normais. O próprio Gregório não viveu para testemunhar sua vitória final — mas a causa pela qual lutou estava destinada a se estabelecer como talvez a característica definidora da civilização ocidental. Que o mundo possa ser dividido entre Igreja e Estado, e que essas duas esferas possam existir de forma distinta: essas são as suposições que o século XI tornou “fundamentais para a sociedade e a cultura europeias, pela primeira vez e permanentemente”. O que antes não passara apenas de um ideal, terminaria sendo algo admitido”. Retrato do Papa Gregório XI. O projeto de uma teocracia papal e da distinção entre os poderes eclesiásticos e laicos, com a defesa da clara da superioridade do primeiro em relação ao segundo, foi fruto do agostinianismo político abraçado e difundido pelos cluniacenses. 25/05/2023, 21:46 Feudalismos https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04616/index.html# 39/47 Os cluniacenses viam nas alianças políticas com senhores e reis a oportunidade de difundir sua liderança e garantir o uso do potencial militar secular para expandir a fé católica. Portanto, as abadias cluniacenses envolveram-se em guerras santas que lhes permitiram ampliar consideravelmente seu patrimônio fundiário. A luta contra os infiéis, como vimos, teve início muitos anos antes da pregação da Primeira Cruzada, em 1095, pelo Papa Urbano II, na cidade de Clermont. A conquista da Península Ibérica (711), a expansão muçulmana sobre o norte da África e as constantes incursões sobre as regiões do litoral mediterrânico ocidental levaram os senhores e reis cristãos a organizarem-se para reagir à ameaça político-militar. Miniatura de Pedro, o Eremita, liderando a Cruzada Popular (Egerton 1500, Avinhão, século XIV). Contudo, é importante entendermos que, até a pregação da primeira cruzada, não havia um esforço coordenado e unificado da cristandade em reação à força muçulmana. O que existiu entre os séculos VIII e XI foram movimentos de resistência locais e, consequentemente, específicos. As abadias cluniacenses funcionaram como apoio político-religioso aos poderes laicos locais. Conhecedores das demandas políticas e militares da sua localidade, os abades cluniacenses aliavam-se aos líderes locais para resistir e eliminar qualquer ameaça à fé católica.Foi nesse sentido, por exemplo, que Cluny aliou-se ao rei de Leão e Castela, Afonso VI, em sua luta contra os muçulmanos na Península Ibérica. Iluminura do Concílio de Clermont Não Livro de Passagens no Exterior, c.1490 (Biblioteca Nacional de França). Com o apoio cluniacense, o rei conseguiu o auxílio militar de cavaleiros vindos dos mais diversos pontos do Ocidente Medieval para levar a cabo a conquista da cidade de Toledo (1085), a antiga capital do reino visigodo. Atenção! Nos reinos ibéricos, os cluniacenses foram peças fundamentais conclamando guerreiros para a guerra movida contra os muçulmanos e garantindo que as regiões reconquistadas pelos cristãos fossem repovoadas por uma população cristã. Em troca do seu apoio militar, os cluniacenses receberam grandes parcelas de territórios, onde instalaram abadias, cuidaram para que os terrenos fossem explorados pelo campesinato e estimularam a formação de povoados que atraíam uma dinâmica população urbana. Os cluniacenses foram os responsáveis também por incrementar um dos caminhos peregrinatórios mais importantes do Ocidente Medieval, o Caminho de Santiago de Compostela, especialmente o chamado caminho francês, que se iniciava na Gália, cortava o norte da Península Ibérica, atravessando os reinos cristãos, e terminava na cidade de Santiago de Compostela, situada na Galícia. 25/05/2023, 21:46 Feudalismos https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04616/index.html#