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DESCOLONIZAÇÃO E LUTAS SOCIAIS NO “TERCEIRO MUNDO” 177
105° L
15° N
VIETNÃ
DO NORTE
VIETNÃ
DO SUL
CAMBOJA
TAILÂNDIA
LAOS
Vientiane
Phnom Penh
Saigon
Hué
Haiphong
Mar da
China
Meridional
Golfo da
Tailândia
Hanói
Rio M
ekong 
0 235
km
470
Adaptado de: SCALZARETTO, R.; MAGNOLI, D. Atlas: geopolítica. São Paulo: Scipione, 1996. p. 32.
A divisão do Vietnã
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No Oriente Médio, em 1947, ao � nal da Segunda 
Guerra Mundial, a ONU dividiu o território da Pales-
tina, então sob administração inglesa, em duas áreas: 
uma judaica e outra palestina. Os dois povos reivin-
dicavam o território, baseados em disputas milenares 
que remontavam aos tempos bíblicos. Submetendo 
os dois lados, a colonização inglesa atenuou os con-
� itos. Entretanto, em 1948, por determinação das Na-
ções Unidas, os ingleses se retiraram da região.
No mesmo ano, foi criado o Estado de Israel. Os 
países árabes vizinhos (Egito, Iraque, Jordânia, Líbano 
e Síria) saíram em defesa dos palestinos, que se con-
sideraram prejudicados pela partilha realizada pela 
ONU. Iniciou-se a Primeira Guerra Árabe-Is raelen-
se (1948-1949), que resultou na vitória de Israel, na 
ampliação do seu território e no desencadeamento de 
uma permanente tensão na região.
O con� ito árabe-israelense passou para a órbita 
da Guerra Fria com o apoio dado pelos Estados Uni-
dos a Israel, o que forçou os países árabes a uma apro-
ximação com a União Soviética.
Em 1956, o Egito, governado por Gamal Abdel 
Nasser, decidiu pela nacionalização do Canal de Suez, 
meio de ligação vital entre o Mediterrâneo e o Índico-
-Pací� co. Essa iniciativa levou França e Inglaterra a 
uma intervenção armada no país, com o apoio de Is-
rael, cujas tropas tomaram toda a Península do Sinai: 
foi a Segunda Guerra Árabe-Israelense. A interven-
ção da ONU e o desejo das superpotências de não ge-
neralizar a guerra na região levaram à restauração da 
situação anterior à guerra.
Em 1967, a tensão na região voltou a crescer. A 
Organização para a Libertação da Palestina (OLP) 
organizava guerrilhas, enquanto as tropas paci� cado-
ras da ONU se retiravam da Península do Sinai, dei-
xando frente a frente tropas israelenses e egípcias.
O bloqueio de portos israelenses pelo Egito aca-
bou desencadeando a Guerra dos Seis Dias ou Ter-
ceira Guerra Árabe-Israelense. Em pouco tempo, 
tropas de Israel tomaram o Sinai, a Faixa de Gaza e as 
colinas de Golã, na fronteira com a Síria.
O prolongado domínio israelense sobre os ter-
ritórios conquistados em 1967 gerou enorme insa-
tisfação nos países árabes e a preparação de uma 
nova guerra, que explodiu em 1973: a Guerra do Yom 
Kippur (o “Dia do Perdão” judaico) ou Quarta Guerra 
Árabe-Israelense. A iniciativa árabe de reconquista de 
alguns territórios foi logo detida. Mais uma vez, as pres-
sões das superpotências encerraram o con� ito, com a 
manutenção de Israel nos territórios ocupados em 1967.
Em 1979, o egípcio Anuar Sadat e o israelense 
Menachem Begin assinaram os acordos de Camp 
David, nos Estados Unidos, com a mediação do pre-
sidente norte-americano Jimmy Carter, encerrando 
as disputas entre Egito e Israel. A questão palestina, 
todavia, continuou existindo, com a OLP lutando pela 
criação de um Estado independente na Cisjordânia e 
na Faixa de Gaza. Observe os mapas a seguir.
p Na foto de 1972, crianças vietnamitas fugindo de bombar-
deio de napalm (gasolina gelatinosa usada como bomba 
incendiária) da aviação norte-americana. Além do Vietnã, 
dividido e sob intervenção norte-americana e confrontação 
generalizada, também o Laos e o Camboja mergulharam 
na violência da guerra e das disputas da Guerra Fria. No 
Camboja, o governo do grupo guerrilheiro Khmer Vermelho 
radicalizou o extermínio de rivais e opositores, deixando, 
segundo dados ofi ciais, 2,8 milhões de mortos e centenas 
de milhares desaparecidos.
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178 DO PÓS-GUERRA AO SÉCULO XXI
Durante toda a década de 1980, continuaram 
os con� itos no Oriente Médio, incluindo a ocupação 
israelense do Líbano e as intifadas (“revolta das pe-
dras”) – con� itos de rua entre população palestina e 
tropas israelenses – em territórios palestinos ocupa-
dos por Israel.
Apenas na década de 1990, uma pretensa paz 
de� nitiva foi esboçada na região. Em 1993, Yitzhak 
Rabin, primeiro-ministro de Israel, e Yasser Arafat, 
líder histórico da OLP, assinaram um acor-
do segundo o qual a organização palestina 
reconhecia o Estado de Israel e renunciava 
à violência, enquanto Israel concedia au-
tonomia aos palestinos (ainda que limita-
da) em certas áreas de Gaza e Cisjordânia. 
Mesmo assim, prevaleceram as di� culda-
des herdadas de décadas de confrontação, 
como o radicalismo político e religioso 
(fundamentalismo) tanto dos árabes como 
dos israelenses. Um duro golpe nesse pro-
cesso de paz deu-se com o assassinato de 
Yitzhak Rabin, em 1995, por um fanático 
israelense.
Ao longo da década de 1990, continu-
aram ocorrendo con� itos localizados entre 
palestinos e israelenses, ao mesmo tempo 
que se promoviam novos entendimentos 
e encontros de cúpula, especialmente em 
1999 e 2000. Sob supervisão principalmen-
JORDÂNIA
SÍRIA
EGITO
ISRAEL
Mar
Mediterrâneo
Mar
Morto
LÍBANO
CisjordâniaTelavive
Jerusalém
0 60
km
120
Palestina sob domínio
britânico (até 1948)
Estado de Israel (1948)
Israel após 1949
32° N
35° L
JORDÂNIA
ARÁBIA
SAUDITA
SÍRIA
EGITO
ISRAEL
Península
do Sinai
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LÍBANO
Golã
Cisjordânia
Telavive
Gaza
Jerusalém
Suez
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Ocupação do sul do Líbano
por Israel depois de 1982
Ofensivas em 1956
(Guerra de Suez)
Territórios ocupados por
Israel por ocasião da Guerra
dos Seis Dias (1967)
Guerra do Yom Kippur (1973) 
0 270
km
540
35° L
35° N
Mar
Morto
Mar
Mediterrâneo
p No mapa à esquerda, podem-se ver as etapas de formação do Estado de Israel e, no da direita, as sucessivas guerras 
árabe-israelenses e o difícil equilíbrio político da região.
p Desde 2002, o governo israelense constrói, na divisa com a Cisjordânia, 
um muro de aproximadamente 350 quilômetros, para proteger o seu 
território e assentamentos israelenses de atentados terroristas. Porém, 
o muro vem sendo recriminado pela comunidade internacional, pois tem 
avançado sobre territórios palestinos e piorado as negociações de paz 
entre árabes e israelenses. Na foto de 2012, trecho nas cercanias de 
Ramallah, centro administrativo da Autoridade Nacional Palestina.
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Israel Conflitos árabe-israelenses
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te dos Estados Unidos, os dois lados discutiam os 
impasses da região, disputada em décadas de con-
frontos: assentamentos de judeus em territórios ocu-
pados, retorno de refugiados palestinos que estavam 
nas áreas vizinhas, bem como o domínio da cidade 
de Jerusalém, dos recursos hídricos e das fronteiras. 
Sempre presente estava a questão da criação de� ni-
tiva do Estado palestino e seu reconhecimento por 
parte de Israel.
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	 Descolonização	e	lutas	sociais	no	“terceiro	munDo”	 179
De 2002 a 2012, ganharam intensidade os con-
flitos violentos entre palestinos e israelenses, resul-
tando em muitas mortes para os dois lados. Os pa-
lestinos, por meio de contínuos atentados suicidas 
e lançamento de mísseis, e Israel, respondendo com 
medidas militares, comprometiam o encaminhamen-
to do processo de pacificação regional. Depois da 
morte de Yasser Arafat (dezembro de 2004), o novo 
líder palestino e presidente da Autoridade Nacional 
Palestina (ANP) passou a ser o moderado Mahmoud 
Abbas,da facção Fatah, que retomou as negociações 
com o primeiro-ministro israelense Ariel Sharon. Até 
2012 foram feitos vários ensaios de entendimento, se-
guidos de violentas confrontações com inúmeras ví-
timas. Nesse ano, a Palestina foi reconhecida pela As-
sembleia Geral da ONU, como Estado observador das 
Nações Unidas, um passo importante frente o acesso 
às agências da ONU. Ao mesmo tempo, ganhavam 
impulso as manifestações internacionais em favor de 
negociações para se alcançar a paz na região. 
p	 caricatura	húngara	de	szego,	de	1960,	sobre	a	des-
colonização	africana.
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∏	 a	paz	de	Washington,	assinada	por	ra-
bin	e	arafat	(foto	ao	lado),	em	1993,	não	
foi	o	estabelecimento	de	uma	completa	
era	 de	 paz	 para	 a	 região.	 a	 linguagem	
das	armas	e	da	intimidação,	com	aten-
tados	palestinos	e	represálias	do	exérci-
to	israelense,	foi	acompanhada	por	no-
vos	encontros	de	cúpula	política,	nego-
ciações	e	promessas	de	pacificação.	até	
o	início	de	2013,	embora	persistissem	as	
manifestações	em	favor	dos	acordos	di-
plomáticos	entre	os	dois	lados,	os	con-
frontos	 entre	 palestinos	 e	 israelenses	
continuavam	a	ocorrer.
África
A colônia francesa da Argélia só obteve sua in-
dependência após uma violenta guerra. Entre 1952 e 
1956, ataques terroristas atingiram instalações fran-
cesas no país e, a partir de 1956, a Frente de Liberta-
ção Nacional argelina intensificou suas ações, moti-
vada pela derrota francesa no Vietnã e pelo apoio da 
opinião pública internacional a sua causa.
Diante da indecisão do governo francês em 
manter o domínio sobre a região, o comandante 
militar francês em Argel, general Salan, por sua 
própria conta, estabeleceu um Comitê de Segu-
rança Pública, destinado a garantir a Argélia fran-
cesa. Passou a pressionar militarmente o governo 
da França, enviando tropas de paraquedistas para 
a Córsega, a fim de preparar um eventual golpe em 
Paris. A iminente guerra civil levou ao poder, na 
França, o general De Gaulle (1958), líder da resis-
tência francesa ao nazismo e bastante prestigiado 
nas Forças Armadas.
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180	 Do	pós-guerra	ao	século	XXi
Após a Conferência de Berlim, em 1885, o Congo 
passou a ser propriedade pessoal do rei belga, Leo-
poldo II, tornando-se em seguida colônia belga, que 
servia à pilhagem e exploração de diamantes, ouro, 
cobre e estanho pelas companhias metropolitanas e 
estrangeiras.
Violentas manifestações populares, em 1959, 
obrigaram a Bélgica a conceder a independência ao 
país. Em 1960 foi transformado em Esta-
do livre do Congo, tendo como presidente 
Joseph Kasavubu e como primeiro-minis-
tro Patrice Lumumba.
Logo após a independência do Congo, 
uma de suas províncias também se decla-
rou independente: Katanga. O movimento 
de emancipação dessa província mine-
radora, promovido por soldados belgas e 
mercenários a serviço da companhia belga 
Union Minière, levou à guerra civil no Con-
go. Lumumba, que não conseguiu obter 
ajuda de tropas das Nações Unidas nem 
apoio da União Soviética para enfrentar 
os rebeldes, foi demitido por Kasavubu — 
aliado aos belgas e aos norte-americanos 
—, preso e assassinado por mercenários.
De Gaulle afastou os militares golpistas e, de-
pois de consultar a população argelina em plebis-
cito, iniciou negociações pela independência do 
país com a Frente Argelina. Em 1962, formava-se a 
República Democrática Argelina, sob a liderança de 
Ahmed Ben-Bella.
Lumumba transformou-se em símbolo da in-
dependência africana, num Congo dividido em vá-
rias facções rivais e marcado por lutas crescentes, só 
contidas com a intervenção da ONU e com a entre-
ga do cargo de primeiro-ministro, em 1964, a Moisés 
Tshombe, o líder da independência de Katanga.
Em 1965, Tshombe foi derrubado por um golpe 
liderado por Mobutu Joseph Désiré, que implantou 
uma ditadura pessoal e permaneceu no poder até 
1997, quando foi destituído, vindo a morrer no exí-
lio logo em seguida. Nesse mesmo ano, o país, que 
mudara seu nome para República do Zaire em 1971, 
adotou a denominação República Democrática do 
Congo, permanecendo mergulhado em sucessivas 
crises, confrontos entre etnias rivais e facções políti-
cas, com o agravamento de suas dificuldades socio-
econômicas.
Um processo de independência diferente ocor-
reu nas colônias ultramarinas portuguesas. A dita-
dura portuguesa de António de Oliveira Salazar, ini-
ciada na década de 1930, conservou Portugal duran-
te quarenta anos distante dos avanços econômicos, 
políticos e sociais do período, retardando o processo 
de independência de suas colônias, desencadeado so-
mente a partir de 1970.
O Movimento Popular pela Libertação de 
Angola (MPLA), fundado em 1956 por Agostinho 
Neto, iniciou o processo guerrilheiro contra o co-
lonialismo salazarista, mas outras organizações de 
libertação também surgiram, como a Frente Nacio-
nal de Libertação de Angola (FNLA), dirigida por 
Holden Roberto, e a União Nacional pela Indepen-
dência Total de Angola (Unita), chefiada por Jonas 
Savimbi.
p	 populares	comemorando	a	independência	nas	ruas	de	argel.
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p	 na	foto,	patrice	lumumba,	sím-
bolo	da	luta	pela	libertação	afri-
cana,	pouco	antes	de	ser	assas-
sinado,	em	1961.
p	 retrato	 de	 agostinho	 neto	 em	
1976,	quando	visitou	moscou.
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	 Descolonização	e	lutas	sociais	no	“terceiro	munDo”	 181
A Revolução dos Cravos 
(1974), que derrotou a ditadura 
fascista portuguesa, resultou 
no Acordo de Alvor, marcan-
do a libertação angolana para 
1975. Diante da ocupação do 
norte de Angola pela FNLA, 
apoiada pelo Zaire, e do sul 
pela Unita, com apoio da Áfri-
ca do Sul e dos Estados Uni-
dos, o MPLA ocupou a capital, 
Luanda, e proclamou a inde-
pendência.
A luta contra as outras 
facções continuou, arrasando 
cada vez mais a economia na-
cional. A normalização do país 
começou com a distensão in-
ternacional do início dos anos 
1990 e o fi nal da Guerra Fria, 
fato que estimulou a decisão 
de promover eleições pluripartidárias em 1992. Po-
rém, Jonas Savimbi (Unita) não reconheceu a vitória 
de José Eduardo dos Santos (MPLA), presidente des-
de 1979, e a guerra civil reiniciou.
Em 1996, tentou-se uma composição de go-
verno em Angola formada pelo MPLA e pela Unita, 
que logo resultou em novos confrontos armados. 
Em 2001 já se computavam aproximadamente 1 mi-
lhão de mortos, milhões de desabrigados e destrui-
ção generalizada. Os angolanos viviam sob ameaça 
constante, pois havia 12 milhões de minas terrestres 
espalhadas pelo país. Em fevereiro de 2002, 
Jonas Savimbi foi morto por soldados do 
exército angolano e, em abril, foi assinado 
um acordo de cessar-fogo na Assembleia Na-
cional, em Luanda.
O armistício, que prometia anistia e 
paz depois de 27 anos de guerra, foi apoia-
do pela nova liderança da Unita e pelo pre-
sidente José Eduardo dos Santos. Nos anos 
seguintes prevaleceu o empenho do governo 
na reconstrução nacional e a ativação dos 
negócios regionais, com a participação do 
país na Comunidade de Desenvolvimento 
da África Austral (SADC – Southern African 
Development Community), que procura am-
pliar o livre-comércio e eliminar as barrei-
ras tarifárias entre os países da região. Nas 
eleições de 2012, José Eduardo dos Santos 
(MPLA) foi reeleito à presidência do país. 
p	 a	revolução	dos	cravos	derrubou	a	ditadura	salazarista	em	abril	de	1974,	irradiando	
esperanças	de	 liberdade	para	as	colônias	africanas.	na	foto	de	1974,	militares	em	
lisboa	usam	cravos	–	símbolo	de	liberdade	–	em	suas	armas.
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A mina terrestre é um artefato enterradosob o solo, que 
explode sob a passagem de veículos ou pessoas, difi cultando 
assim o avanço de forças inimigas. A ONU calcula que 23 mil 
civis (entre os quais muitas crianças) tenham sido mutilados 
por pisar acidentalmente em minas terrestres instaladas 
no país durante a guerra civil. A ameaça persiste até os 
dias de hoje, não apenas em Angola, pois milhões de minas 
permanecem enterradas em diversas áreas de confl ito no 
mundo, e nem sempre há registros de sua localização.
MInAs terrestres
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∏	 garota	 angolana,	 vítima	
de	 explosão	 de	 minas	
terrestres,	 aprecia	 car-
taz	 de	 concurso	 de	 be-
leza	 destinada	 a	 jovens	
na	 mesma	 condição.	 o	
objetivo	 do	 concurso	 é	
colaborar	 para	 a	 eleva-
ção	 da	 autoestima	 das	
vítimas	destes	artefatos.	
Foto	de	2008.
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182	 Do	pós-guerra	ao	século	XXi
Em Moçambique, o processo de independên-
cia foi iniciado em 1962 pela Frente de Libertação 
de Moçambique (Frelimo), de inspiração socialista, 
liderada por Eduardo Mondlane. Quando Mondlane 
foi assassinado, em 1969, Samora Machel assumiu o 
comando do movimento. Com a revolução de 1974, 
Portugal acelerou as negociações pela libertação 
dessa colônia, reconhecendo sua independência em 
1975, com Machel na presidência.
Governada por uma minoria branca e alinhada 
com o bloco norte-americano nos anos 1980, a África 
do Sul procurou desestabilizar o governo socialista de 
Machel por meio da Resistência Nacional Moçam-
bicana (Renamo). Apesar da assinatura do Acordo de 
Nkomati, que estabeleceu a não agressão com a Áfri-
ca do Sul, os confrontos foram constantes.
Foi somente na década de 1990, com a abertura 
do país, que se estabeleceram acordos entre o gover-
no e os guerrilheiros para a pacificação moçambi-
cana. Em 1994, foram realizadas eleições que deram 
vitória ao líder da Frelimo, sucessor de Machel, Joa-
quim Chissano. O novo presidente voltou-se para a 
reconstrução de Moçambique, arrasada por anos de 
luta, conseguindo um relativo êxito no controle da 
inflação e na aplicação de um programa de privati-
zações. Reeleito em 1999, ele deu ênfase às obras de 
infraestrutura (gasoduto, eletricidade etc.) e ao cres-
cimento econômico, conseguindo a vitória de seu 
candidato à presidência da República nas eleições de 
2004, Armando Guebuza. Nas eleições presidenciais e 
legislativas de 2009, Guebuza, candidato à reeleição, 
e os candidatos do seu partido, Frelimo, receberam 
mais de 75% dos votos.
Em Guiné-Bissau e Cabo Verde, a luta contra 
o colonialismo começou em 1961, sob a liderança de 
Amílcar Cabral, do Partido Africano de Indepen-
dência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), assassinado 
em 1973. A independência da Guiné-Bissau foi então 
proclamada por Luís Cabral, embora só tenha sido 
oficializada em 1974, após a Revolução dos Cravos.
Em 1980, Cabo Verde separou-se da Guiné-Bis-
sau, e, na década de 1990, os dois países abandonaram 
o regime marxista de um só partido e ampliaram as li-
berdades políticas e econômicas. O pluripartidarismo 
e as eleições não puseram fim às dificuldades sociais e 
econômicas, muito menos às rivalidades e confronta-
ções nas décadas seguintes. Em Cabo Verde, a aridez 
do solo do arquipélago e outras dificuldades agrícolas 
têm provocado forte movimento de emigração. Na 
Guiné-Bissau prevaleceram vários motins, atuação 
guerrilheira e deposição de presidentes. 
Em Ruanda, as marcas da turbulenta descoloni-
zação no continente africano, como o grave subdesen-
volvimento e a instabilidade institucional, refletiram-
-se, nos anos 1990, em disputas pelo poder por parte 
de grupos étnicos hutus (90% da população) e tutsi. 
Superdimensionando heranças coloniais, os graves e 
sangrentos conflitos produziram milhões de mortos 
e refugiados.
p	 milhares	de	refugiados	ruandeses	aguardam	ajuda	da	onu,	
em	goma,	na	fronteira	entre	zaire	e	ruanda.	Foto	de	1996.
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Na África do Sul, sob a liderança de Nelson 
Mandela, a luta contra o apartheid (segregação ra-
cial) foi vitoriosa depois de séculos de sujeição. Man-
dela tornou-se governante do país em 1994, e a África 
do Sul foi reconhecida como um exemplo das poten-
cialidades africanas, apesar de fortes oposições e dis-
cordâncias quanto aos rumos do país.
Em 2002, foi constituída oficialmente a União 
Africana (UA), organização que substituiu a Orga-
nização da Unidade Africana (OUA), em vigor desde 
1963. Mostrando-se bastante ativa, já em 2003 e 2004, 
a UA procurou travar entendimentos pela superação 
de crises regionais e por maior integração entre seus 
membros. O objetivo da organização, inspirado no 
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	 Descolonização	e	lutas	sociais	no	“terceiro	munDo”	 183
modelo da União Europeia (UE), é estabelecer um 
espaço único para seus quase 1 bilhão de habitantes, 
com um Parlamento continental, um tribunal pan-
-africano, um Banco Central e, mais adiante, uma úni-
ca moeda. Os 53 países signatários da União Africana 
se comprometeram a “promover a democracia, a de-
fesa dos direitos humanos, o desenvolvimento eco-
nômico e o combate à miséria”, dando à organização 
poder para intervir em países em conflito e resolver 
mais eficazmente os problemas de desenvolvimento 
socioeconômico.
Criar uma África integrada e forte é um desafio 
imenso para o século XXI, pois se trata de um con-
tinente marcado por pobreza, guerras, rivalidades, 
disputas territoriais, instabilidade política e epide-
mias avassaladoras, segundo palavras do presidente 
sul-africano Tabo Mbeki, anfitrião da reunião que 
criou a União Africana, em Durban (África do Sul), 
em 2002. “Um passo de gigante. [...] Chegou a hora de 
a África tomar o lugar que lhe é devido nas questões 
mundiais”, concluiu ele. 
Duas décadas após o fim do apartheid, o pre-
sidente sucessor de Mbeki, Jacob Zuma, tinha pela 
frente um quadro de enorme desigualdade social: se-
gundo o economista Sampie Terreblanche, formou-se 
“uma elite negra de cerca de 2 milhões de pessoas e 
uma classe média de 6 milhões de pessoas. O fosso 
entre esses 8 milhões de negros ricos e os 20 milhões a 
25 milhões de pobres cresceu perigosamente”4. Soma-
va-se ainda o desemprego que atingia, oficialmente, 
25,5% dos trabalhadores em 2012. 
p	 nelson	 mandela,	 principal	 líder	 da	 luta	 contra	 o	 racismo	
na	África	do	sul,	foi	ganhador	do	prêmio	nobel	da	paz,	em	
1993,	com	o	presidente	sul-africano	na	época,	Frederik	W.	
de	Klerk.	no	ano	seguinte,	seria	eleito	o	primeiro	presiden-
te	negro	do	país	que,	ao	encerrar	seu	mandato,	em	1999,	
transferiria	o	poder	democraticamente	a	seu	sucessor	tha-
bo	mbeki.	em	2004	mbeki	 foi	reeleito	e	sucedido	em	2009	
por	Jacob	zuma.	na	foto,	mandela	na	cidade	do	cabo,	África	
do	sul,	em	11	de	fevereiro	de	2010,	por	ocasião	do	aniversá-
rio	de	20	anos	de	sua	libertação	após	ter	ficado	preso	por	27	
anos	sob	o	regime	do	apartheid.
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2 FONTANA, Josep. História dos homens. Bauru: Edusc, 2004. p. 343.
3 Ibidem, p. 379.
4 CESSOU, Sabine. Impasse social na África do Sul. Le Monde Diplomatique Brasil. Fevereiro 2013. p. 25.
O historiador Josep Fontana, discutindo o trabalho de histo-
riadores e tomando como tema “As Guerras da História”, destaca 
que “as classes dominantes não temem a história – ao contrário, 
procuram produzir e difundir o tipo de história que lhes convém, 
ou seja, uma história que não se dedica à luta pela liberdade e 
pela justiça – mas em todo caso, temem os historiadores que não 
podem utilizar.”2
Fontana também aponta que existem “guerras mais dramá-
ticas por suas consequências. Em Ruanda foram os belgas, e em 
grande medida as ordens religiosas que controlavam o ensino, 
os que fabricaram o mito de uma históriaracista, construída 
sobre o modelo com que Gobineau interpretava a Idade Média 
europeia, onde os tútsi apareciam como os senhores feudais 
opressores e o hutus como o povo explorado por eles. Esta visão 
‘feudal’ serviria de pretexto para a ‘revolução social’ dos hutus 
em 1959-1961 e para o genocídio dos tútsi nos anos noventa. A 
difícil restauração da convivência étnica não poderia fazer-se em 
Ruanda sem eliminar esta visão do passado, substituindo-a por 
outra mais objetiva”.3 
HerAnçA colonIAlIstA
Joseph-Arthur, conde de Gobineau	 (1816-1882),	 autor	
de	Ensaio sobre a desigualdade da raça humana	 (Essai sur 
l’inégalité des races humaines),	de	1853-5,	 foi	um	precur-
sor	 do	 racismo	 moderno.	 Defendia	 a	 superioridade	 dos	
brancos	louros	de	descendência	germânica	(arianos)	so-
bre	outros	brancos	e	demais	grupos	humanos.	teve	gran-
de	influência	no	desenvolvimento	de	políticas	racistas	na	
europa,	especialmente	adaptada	aos	interesses	nazistas.
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184	 Do	pós-guerra	ao	século	XXi
A AméricA lAtinA e As lutAs sociAis
México
Após a proclamação de sua independência por 
Agustín Itúrbide, em 1821, o México passou a viver 
um período de instabilidade política sob a forma de 
ditaduras e de dependência econômica. As condições 
sociais se deterioraram com a perda de quase metade 
de seu território após a guerra travada contra os Esta-
dos Unidos, em 1848, e as intervenções estrangeiras 
sucessivas, como a dos franceses, entre 1861 e 1867, 
que tentaram instalar na região o governo Habsburgo 
de Maximiliano, um prolongamento do Segundo Im-
pério napoleônico na América.
Tais condições propiciaram a instalação da di-
tadura de Porfirio Díaz (1877-1880, 1884-1911), sob 
a qual se deu intensa concentração fundiária e en-
trada de elevadas somas de capital estrangeiro vol-
tadas para a exploração e o controle dos recursos 
minerais e da produção de artigos de exportação. 
Dessa forma, para a população local, em sua grande 
maioria concentrada nas áreas rurais, aumentaram 
a miséria e a dependência em relação aos grandes 
senhores.
No início do século XX, esse quadro levou ao 
crescimento da insatisfação entre a população, o 
que provocou greves operárias nas cidades e re-
voltas na zona rural. Dessas lutas surgiram líderes 
populares, como Emiliano Zapata e Pancho Villa, 
que, comandando milhares de camponeses, mobi-
lizaram-se reivindicando distribuição de terras por 
meio da reforma agrária, opondo-se aos latifundiá-
rios, aos quais se juntaram a Igreja e as elites cons-
tituídas. Ao mesmo tempo, parte da elite, sob o co-
mando de Francisco Madero, insurgia-se contra a 
ditadura porfirista. Unindo as forças, os exércitos 
revolucionários depuseram Porfirio Díaz em maio 
de 1911.
As camadas populares permaneceram insatisfei-
tas com as tímidas medidas sociais tomadas por Ma-
dero, que foi assassinado em 1913. O general Victoria-
no Huerta reinstalou a ditadura, ligada aos interesses 
dos Estados Unidos.
Pancho Villa voltou a lutar contra as forças fe-
derais, enquanto Zapata liderava no sul a revolução 
camponesa pela reforma agrária. As pressões levaram 
Huerta a renunciar em 1914 em favor de um gover-
no constitucional liderado por Venustiano Carranza 
(1914-1915).
BRASIL
1964
VENEZUELA
COLÔMBIA
PERU
1968
BOLÍVIA
1987
PARAGUAI
1954
URUGUAI
ARGENTINA
1976
CHILE
1973
1973
CUBA
1959-...
GUATEMALA
1987
EL
SALVADOR
1979
PANAMÁ
1989
GRANADA
1983
NICARÁGUA
1979-90
1981-86
REPÚBLICA
DOMINICANA
1965
Ditaduras militares
Regime militar
nos anos 1970
Instauração da
ditadura
Regimes de tendência
marxista e guerrilhas
Intervenções americanas
Regime de tendência marxista
Duração do regime
Guerrilhas marxista-leninistas
Direta
Data da intervenção
Indireta
1973
1973
1979-90
Equador
OCEANO
PACÍFICO
OCEANO
ATLÂNTICO
 Trópic
o de Câ
ncer 
 Trópico de Capricórnio 
60° O
0 800
km
1600
Adaptado de: BAYLAC, M. H. Historie terminale. Paris: Larouse Bordas, 1998. p. 193.
reflexos da Guerra Fria na América latina
Apesar de sua independência política, conquis-
tada a partir do século XIX, os países da América La-
tina mantiveram laços de dependência econômica 
com as grandes potências capitalistas mundiais, ini-
cialmente a Inglaterra e posteriormente os Estados 
Unidos.
As forças tradicionais, defensoras do vínculo 
político-econômico com os grandes centros capita-
listas, não poucas vezes têm se chocado com as for-
ças reformistas e nacionalistas e também com as de 
extrema esquerda, num quadro de busca pela refor-
mulação das estruturas vigentes. Por isso, ditaduras 
militares, governos pró-libertação, movimentos re-
formistas, revolucionários e guerrilheiros têm carac-
terizado o conturbado quadro político da América 
Latina desde o século XIX. O mapa a seguir sintetiza 
esse quadro – observe-o e volte a ele no decorrer de 
seu estudo deste capítulo.
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