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DESCOLONIZAÇÃO E LUTAS SOCIAIS NO “TERCEIRO MUNDO” 177 105° L 15° N VIETNà DO NORTE VIETNà DO SUL CAMBOJA TAILÂNDIA LAOS Vientiane Phnom Penh Saigon Hué Haiphong Mar da China Meridional Golfo da Tailândia Hanói Rio M ekong 0 235 km 470 Adaptado de: SCALZARETTO, R.; MAGNOLI, D. Atlas: geopolítica. São Paulo: Scipione, 1996. p. 32. A divisão do Vietnã A llm ap s/ A rq u iv o d a ed it o ra A ss o ci at ed P re ss /G lo w Im ag es No Oriente Médio, em 1947, ao � nal da Segunda Guerra Mundial, a ONU dividiu o território da Pales- tina, então sob administração inglesa, em duas áreas: uma judaica e outra palestina. Os dois povos reivin- dicavam o território, baseados em disputas milenares que remontavam aos tempos bíblicos. Submetendo os dois lados, a colonização inglesa atenuou os con- � itos. Entretanto, em 1948, por determinação das Na- ções Unidas, os ingleses se retiraram da região. No mesmo ano, foi criado o Estado de Israel. Os países árabes vizinhos (Egito, Iraque, Jordânia, Líbano e Síria) saíram em defesa dos palestinos, que se con- sideraram prejudicados pela partilha realizada pela ONU. Iniciou-se a Primeira Guerra Árabe-Is raelen- se (1948-1949), que resultou na vitória de Israel, na ampliação do seu território e no desencadeamento de uma permanente tensão na região. O con� ito árabe-israelense passou para a órbita da Guerra Fria com o apoio dado pelos Estados Uni- dos a Israel, o que forçou os países árabes a uma apro- ximação com a União Soviética. Em 1956, o Egito, governado por Gamal Abdel Nasser, decidiu pela nacionalização do Canal de Suez, meio de ligação vital entre o Mediterrâneo e o Índico- -Pací� co. Essa iniciativa levou França e Inglaterra a uma intervenção armada no país, com o apoio de Is- rael, cujas tropas tomaram toda a Península do Sinai: foi a Segunda Guerra Árabe-Israelense. A interven- ção da ONU e o desejo das superpotências de não ge- neralizar a guerra na região levaram à restauração da situação anterior à guerra. Em 1967, a tensão na região voltou a crescer. A Organização para a Libertação da Palestina (OLP) organizava guerrilhas, enquanto as tropas paci� cado- ras da ONU se retiravam da Península do Sinai, dei- xando frente a frente tropas israelenses e egípcias. O bloqueio de portos israelenses pelo Egito aca- bou desencadeando a Guerra dos Seis Dias ou Ter- ceira Guerra Árabe-Israelense. Em pouco tempo, tropas de Israel tomaram o Sinai, a Faixa de Gaza e as colinas de Golã, na fronteira com a Síria. O prolongado domínio israelense sobre os ter- ritórios conquistados em 1967 gerou enorme insa- tisfação nos países árabes e a preparação de uma nova guerra, que explodiu em 1973: a Guerra do Yom Kippur (o “Dia do Perdão” judaico) ou Quarta Guerra Árabe-Israelense. A iniciativa árabe de reconquista de alguns territórios foi logo detida. Mais uma vez, as pres- sões das superpotências encerraram o con� ito, com a manutenção de Israel nos territórios ocupados em 1967. Em 1979, o egípcio Anuar Sadat e o israelense Menachem Begin assinaram os acordos de Camp David, nos Estados Unidos, com a mediação do pre- sidente norte-americano Jimmy Carter, encerrando as disputas entre Egito e Israel. A questão palestina, todavia, continuou existindo, com a OLP lutando pela criação de um Estado independente na Cisjordânia e na Faixa de Gaza. Observe os mapas a seguir. p Na foto de 1972, crianças vietnamitas fugindo de bombar- deio de napalm (gasolina gelatinosa usada como bomba incendiária) da aviação norte-americana. Além do Vietnã, dividido e sob intervenção norte-americana e confrontação generalizada, também o Laos e o Camboja mergulharam na violência da guerra e das disputas da Guerra Fria. No Camboja, o governo do grupo guerrilheiro Khmer Vermelho radicalizou o extermínio de rivais e opositores, deixando, segundo dados ofi ciais, 2,8 milhões de mortos e centenas de milhares desaparecidos. HGB_v3_PNLD2015_174a196_U2_C10.indd 177 22/04/2013 17:39 178 DO PÓS-GUERRA AO SÉCULO XXI Durante toda a década de 1980, continuaram os con� itos no Oriente Médio, incluindo a ocupação israelense do Líbano e as intifadas (“revolta das pe- dras”) – con� itos de rua entre população palestina e tropas israelenses – em territórios palestinos ocupa- dos por Israel. Apenas na década de 1990, uma pretensa paz de� nitiva foi esboçada na região. Em 1993, Yitzhak Rabin, primeiro-ministro de Israel, e Yasser Arafat, líder histórico da OLP, assinaram um acor- do segundo o qual a organização palestina reconhecia o Estado de Israel e renunciava à violência, enquanto Israel concedia au- tonomia aos palestinos (ainda que limita- da) em certas áreas de Gaza e Cisjordânia. Mesmo assim, prevaleceram as di� culda- des herdadas de décadas de confrontação, como o radicalismo político e religioso (fundamentalismo) tanto dos árabes como dos israelenses. Um duro golpe nesse pro- cesso de paz deu-se com o assassinato de Yitzhak Rabin, em 1995, por um fanático israelense. Ao longo da década de 1990, continu- aram ocorrendo con� itos localizados entre palestinos e israelenses, ao mesmo tempo que se promoviam novos entendimentos e encontros de cúpula, especialmente em 1999 e 2000. Sob supervisão principalmen- JORDÂNIA SÍRIA EGITO ISRAEL Mar Mediterrâneo Mar Morto LÍBANO CisjordâniaTelavive Jerusalém 0 60 km 120 Palestina sob domínio britânico (até 1948) Estado de Israel (1948) Israel após 1949 32° N 35° L JORDÂNIA ARÁBIA SAUDITA SÍRIA EGITO ISRAEL Península do Sinai M ar V erm elho LÍBANO Golã Cisjordânia Telavive Gaza Jerusalém Suez G olfo de S uez Ocupação do sul do Líbano por Israel depois de 1982 Ofensivas em 1956 (Guerra de Suez) Territórios ocupados por Israel por ocasião da Guerra dos Seis Dias (1967) Guerra do Yom Kippur (1973) 0 270 km 540 35° L 35° N Mar Morto Mar Mediterrâneo p No mapa à esquerda, podem-se ver as etapas de formação do Estado de Israel e, no da direita, as sucessivas guerras árabe-israelenses e o difícil equilíbrio político da região. p Desde 2002, o governo israelense constrói, na divisa com a Cisjordânia, um muro de aproximadamente 350 quilômetros, para proteger o seu território e assentamentos israelenses de atentados terroristas. Porém, o muro vem sendo recriminado pela comunidade internacional, pois tem avançado sobre territórios palestinos e piorado as negociações de paz entre árabes e israelenses. Na foto de 2012, trecho nas cercanias de Ramallah, centro administrativo da Autoridade Nacional Palestina. Ad ap ta do d e: D UB Y, Ge or ge s. A tla s hi st ór ico m un di al . M ad rid : D eb at e, 1 98 9, p . 2 13 . Israel Conflitos árabe-israelenses M ap as : A llm ap s/ A rq u iv o d a ed it o ra O rg . p el o a u to r. te dos Estados Unidos, os dois lados discutiam os impasses da região, disputada em décadas de con- frontos: assentamentos de judeus em territórios ocu- pados, retorno de refugiados palestinos que estavam nas áreas vizinhas, bem como o domínio da cidade de Jerusalém, dos recursos hídricos e das fronteiras. Sempre presente estava a questão da criação de� ni- tiva do Estado palestino e seu reconhecimento por parte de Israel. Is sa m R im aw i/A PA Im ag es /Z u m a Pr es s/ E as yp ix B ra si l Morto Suez HGB_v3_PNLD2015_174a196_U2_C10.indd 178 22/04/2013 17:39 Descolonização e lutas sociais no “terceiro munDo” 179 De 2002 a 2012, ganharam intensidade os con- flitos violentos entre palestinos e israelenses, resul- tando em muitas mortes para os dois lados. Os pa- lestinos, por meio de contínuos atentados suicidas e lançamento de mísseis, e Israel, respondendo com medidas militares, comprometiam o encaminhamen- to do processo de pacificação regional. Depois da morte de Yasser Arafat (dezembro de 2004), o novo líder palestino e presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP) passou a ser o moderado Mahmoud Abbas,da facção Fatah, que retomou as negociações com o primeiro-ministro israelense Ariel Sharon. Até 2012 foram feitos vários ensaios de entendimento, se- guidos de violentas confrontações com inúmeras ví- timas. Nesse ano, a Palestina foi reconhecida pela As- sembleia Geral da ONU, como Estado observador das Nações Unidas, um passo importante frente o acesso às agências da ONU. Ao mesmo tempo, ganhavam impulso as manifestações internacionais em favor de negociações para se alcançar a paz na região. p caricatura húngara de szego, de 1960, sobre a des- colonização africana. T h e B ri d g e m a n A rt L ib ra ry /K e y s to n e R e p ro d u ç ã o /K e y s to n e ∏ a paz de Washington, assinada por ra- bin e arafat (foto ao lado), em 1993, não foi o estabelecimento de uma completa era de paz para a região. a linguagem das armas e da intimidação, com aten- tados palestinos e represálias do exérci- to israelense, foi acompanhada por no- vos encontros de cúpula política, nego- ciações e promessas de pacificação. até o início de 2013, embora persistissem as manifestações em favor dos acordos di- plomáticos entre os dois lados, os con- frontos entre palestinos e israelenses continuavam a ocorrer. África A colônia francesa da Argélia só obteve sua in- dependência após uma violenta guerra. Entre 1952 e 1956, ataques terroristas atingiram instalações fran- cesas no país e, a partir de 1956, a Frente de Liberta- ção Nacional argelina intensificou suas ações, moti- vada pela derrota francesa no Vietnã e pelo apoio da opinião pública internacional a sua causa. Diante da indecisão do governo francês em manter o domínio sobre a região, o comandante militar francês em Argel, general Salan, por sua própria conta, estabeleceu um Comitê de Segu- rança Pública, destinado a garantir a Argélia fran- cesa. Passou a pressionar militarmente o governo da França, enviando tropas de paraquedistas para a Córsega, a fim de preparar um eventual golpe em Paris. A iminente guerra civil levou ao poder, na França, o general De Gaulle (1958), líder da resis- tência francesa ao nazismo e bastante prestigiado nas Forças Armadas. HGB_v3_PNLD2015_174a196_U2_C10.indd 179 4/15/13 10:29 AM 180 Do pós-guerra ao século XXi Após a Conferência de Berlim, em 1885, o Congo passou a ser propriedade pessoal do rei belga, Leo- poldo II, tornando-se em seguida colônia belga, que servia à pilhagem e exploração de diamantes, ouro, cobre e estanho pelas companhias metropolitanas e estrangeiras. Violentas manifestações populares, em 1959, obrigaram a Bélgica a conceder a independência ao país. Em 1960 foi transformado em Esta- do livre do Congo, tendo como presidente Joseph Kasavubu e como primeiro-minis- tro Patrice Lumumba. Logo após a independência do Congo, uma de suas províncias também se decla- rou independente: Katanga. O movimento de emancipação dessa província mine- radora, promovido por soldados belgas e mercenários a serviço da companhia belga Union Minière, levou à guerra civil no Con- go. Lumumba, que não conseguiu obter ajuda de tropas das Nações Unidas nem apoio da União Soviética para enfrentar os rebeldes, foi demitido por Kasavubu — aliado aos belgas e aos norte-americanos —, preso e assassinado por mercenários. De Gaulle afastou os militares golpistas e, de- pois de consultar a população argelina em plebis- cito, iniciou negociações pela independência do país com a Frente Argelina. Em 1962, formava-se a República Democrática Argelina, sob a liderança de Ahmed Ben-Bella. Lumumba transformou-se em símbolo da in- dependência africana, num Congo dividido em vá- rias facções rivais e marcado por lutas crescentes, só contidas com a intervenção da ONU e com a entre- ga do cargo de primeiro-ministro, em 1964, a Moisés Tshombe, o líder da independência de Katanga. Em 1965, Tshombe foi derrubado por um golpe liderado por Mobutu Joseph Désiré, que implantou uma ditadura pessoal e permaneceu no poder até 1997, quando foi destituído, vindo a morrer no exí- lio logo em seguida. Nesse mesmo ano, o país, que mudara seu nome para República do Zaire em 1971, adotou a denominação República Democrática do Congo, permanecendo mergulhado em sucessivas crises, confrontos entre etnias rivais e facções políti- cas, com o agravamento de suas dificuldades socio- econômicas. Um processo de independência diferente ocor- reu nas colônias ultramarinas portuguesas. A dita- dura portuguesa de António de Oliveira Salazar, ini- ciada na década de 1930, conservou Portugal duran- te quarenta anos distante dos avanços econômicos, políticos e sociais do período, retardando o processo de independência de suas colônias, desencadeado so- mente a partir de 1970. O Movimento Popular pela Libertação de Angola (MPLA), fundado em 1956 por Agostinho Neto, iniciou o processo guerrilheiro contra o co- lonialismo salazarista, mas outras organizações de libertação também surgiram, como a Frente Nacio- nal de Libertação de Angola (FNLA), dirigida por Holden Roberto, e a União Nacional pela Indepen- dência Total de Angola (Unita), chefiada por Jonas Savimbi. p populares comemorando a independência nas ruas de argel. C e n tr a l P re s s /G e tt y I m a g e s B e tt m a n n /C o rb is /L a ti n s to ck p na foto, patrice lumumba, sím- bolo da luta pela libertação afri- cana, pouco antes de ser assas- sinado, em 1961. p retrato de agostinho neto em 1976, quando visitou moscou. B e tt m a n n /C o rb is /L a ti n s to ck HGB_v3_PNLD2015_174a196_U2_C10.indd 180 4/15/13 10:29 AM Descolonização e lutas sociais no “terceiro munDo” 181 A Revolução dos Cravos (1974), que derrotou a ditadura fascista portuguesa, resultou no Acordo de Alvor, marcan- do a libertação angolana para 1975. Diante da ocupação do norte de Angola pela FNLA, apoiada pelo Zaire, e do sul pela Unita, com apoio da Áfri- ca do Sul e dos Estados Uni- dos, o MPLA ocupou a capital, Luanda, e proclamou a inde- pendência. A luta contra as outras facções continuou, arrasando cada vez mais a economia na- cional. A normalização do país começou com a distensão in- ternacional do início dos anos 1990 e o fi nal da Guerra Fria, fato que estimulou a decisão de promover eleições pluripartidárias em 1992. Po- rém, Jonas Savimbi (Unita) não reconheceu a vitória de José Eduardo dos Santos (MPLA), presidente des- de 1979, e a guerra civil reiniciou. Em 1996, tentou-se uma composição de go- verno em Angola formada pelo MPLA e pela Unita, que logo resultou em novos confrontos armados. Em 2001 já se computavam aproximadamente 1 mi- lhão de mortos, milhões de desabrigados e destrui- ção generalizada. Os angolanos viviam sob ameaça constante, pois havia 12 milhões de minas terrestres espalhadas pelo país. Em fevereiro de 2002, Jonas Savimbi foi morto por soldados do exército angolano e, em abril, foi assinado um acordo de cessar-fogo na Assembleia Na- cional, em Luanda. O armistício, que prometia anistia e paz depois de 27 anos de guerra, foi apoia- do pela nova liderança da Unita e pelo pre- sidente José Eduardo dos Santos. Nos anos seguintes prevaleceu o empenho do governo na reconstrução nacional e a ativação dos negócios regionais, com a participação do país na Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC – Southern African Development Community), que procura am- pliar o livre-comércio e eliminar as barrei- ras tarifárias entre os países da região. Nas eleições de 2012, José Eduardo dos Santos (MPLA) foi reeleito à presidência do país. p a revolução dos cravos derrubou a ditadura salazarista em abril de 1974, irradiando esperanças de liberdade para as colônias africanas. na foto de 1974, militares em lisboa usam cravos – símbolo de liberdade – em suas armas. B e tt m a n n /C o rb is /L a ti n s to ck A mina terrestre é um artefato enterradosob o solo, que explode sob a passagem de veículos ou pessoas, difi cultando assim o avanço de forças inimigas. A ONU calcula que 23 mil civis (entre os quais muitas crianças) tenham sido mutilados por pisar acidentalmente em minas terrestres instaladas no país durante a guerra civil. A ameaça persiste até os dias de hoje, não apenas em Angola, pois milhões de minas permanecem enterradas em diversas áreas de confl ito no mundo, e nem sempre há registros de sua localização. MInAs terrestres S h a y n e R o b in s o n /A s s o c ia te d P re s s /G lo w I m a g e s ∏ garota angolana, vítima de explosão de minas terrestres, aprecia car- taz de concurso de be- leza destinada a jovens na mesma condição. o objetivo do concurso é colaborar para a eleva- ção da autoestima das vítimas destes artefatos. Foto de 2008. HGB_v3_PNLD2015_174a196_U2_C10.indd 181 4/15/13 10:29 AM 182 Do pós-guerra ao século XXi Em Moçambique, o processo de independên- cia foi iniciado em 1962 pela Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), de inspiração socialista, liderada por Eduardo Mondlane. Quando Mondlane foi assassinado, em 1969, Samora Machel assumiu o comando do movimento. Com a revolução de 1974, Portugal acelerou as negociações pela libertação dessa colônia, reconhecendo sua independência em 1975, com Machel na presidência. Governada por uma minoria branca e alinhada com o bloco norte-americano nos anos 1980, a África do Sul procurou desestabilizar o governo socialista de Machel por meio da Resistência Nacional Moçam- bicana (Renamo). Apesar da assinatura do Acordo de Nkomati, que estabeleceu a não agressão com a Áfri- ca do Sul, os confrontos foram constantes. Foi somente na década de 1990, com a abertura do país, que se estabeleceram acordos entre o gover- no e os guerrilheiros para a pacificação moçambi- cana. Em 1994, foram realizadas eleições que deram vitória ao líder da Frelimo, sucessor de Machel, Joa- quim Chissano. O novo presidente voltou-se para a reconstrução de Moçambique, arrasada por anos de luta, conseguindo um relativo êxito no controle da inflação e na aplicação de um programa de privati- zações. Reeleito em 1999, ele deu ênfase às obras de infraestrutura (gasoduto, eletricidade etc.) e ao cres- cimento econômico, conseguindo a vitória de seu candidato à presidência da República nas eleições de 2004, Armando Guebuza. Nas eleições presidenciais e legislativas de 2009, Guebuza, candidato à reeleição, e os candidatos do seu partido, Frelimo, receberam mais de 75% dos votos. Em Guiné-Bissau e Cabo Verde, a luta contra o colonialismo começou em 1961, sob a liderança de Amílcar Cabral, do Partido Africano de Indepen- dência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), assassinado em 1973. A independência da Guiné-Bissau foi então proclamada por Luís Cabral, embora só tenha sido oficializada em 1974, após a Revolução dos Cravos. Em 1980, Cabo Verde separou-se da Guiné-Bis- sau, e, na década de 1990, os dois países abandonaram o regime marxista de um só partido e ampliaram as li- berdades políticas e econômicas. O pluripartidarismo e as eleições não puseram fim às dificuldades sociais e econômicas, muito menos às rivalidades e confronta- ções nas décadas seguintes. Em Cabo Verde, a aridez do solo do arquipélago e outras dificuldades agrícolas têm provocado forte movimento de emigração. Na Guiné-Bissau prevaleceram vários motins, atuação guerrilheira e deposição de presidentes. Em Ruanda, as marcas da turbulenta descoloni- zação no continente africano, como o grave subdesen- volvimento e a instabilidade institucional, refletiram- -se, nos anos 1990, em disputas pelo poder por parte de grupos étnicos hutus (90% da população) e tutsi. Superdimensionando heranças coloniais, os graves e sangrentos conflitos produziram milhões de mortos e refugiados. p milhares de refugiados ruandeses aguardam ajuda da onu, em goma, na fronteira entre zaire e ruanda. Foto de 1996. T h o m a s C o e x /A g ê n c ia F ra n c e -P re s s e /G e tt y I m a g e s Na África do Sul, sob a liderança de Nelson Mandela, a luta contra o apartheid (segregação ra- cial) foi vitoriosa depois de séculos de sujeição. Man- dela tornou-se governante do país em 1994, e a África do Sul foi reconhecida como um exemplo das poten- cialidades africanas, apesar de fortes oposições e dis- cordâncias quanto aos rumos do país. Em 2002, foi constituída oficialmente a União Africana (UA), organização que substituiu a Orga- nização da Unidade Africana (OUA), em vigor desde 1963. Mostrando-se bastante ativa, já em 2003 e 2004, a UA procurou travar entendimentos pela superação de crises regionais e por maior integração entre seus membros. O objetivo da organização, inspirado no HGB_v3_PNLD2015_174a196_U2_C10.indd 182 4/15/13 10:29 AM Descolonização e lutas sociais no “terceiro munDo” 183 modelo da União Europeia (UE), é estabelecer um espaço único para seus quase 1 bilhão de habitantes, com um Parlamento continental, um tribunal pan- -africano, um Banco Central e, mais adiante, uma úni- ca moeda. Os 53 países signatários da União Africana se comprometeram a “promover a democracia, a de- fesa dos direitos humanos, o desenvolvimento eco- nômico e o combate à miséria”, dando à organização poder para intervir em países em conflito e resolver mais eficazmente os problemas de desenvolvimento socioeconômico. Criar uma África integrada e forte é um desafio imenso para o século XXI, pois se trata de um con- tinente marcado por pobreza, guerras, rivalidades, disputas territoriais, instabilidade política e epide- mias avassaladoras, segundo palavras do presidente sul-africano Tabo Mbeki, anfitrião da reunião que criou a União Africana, em Durban (África do Sul), em 2002. “Um passo de gigante. [...] Chegou a hora de a África tomar o lugar que lhe é devido nas questões mundiais”, concluiu ele. Duas décadas após o fim do apartheid, o pre- sidente sucessor de Mbeki, Jacob Zuma, tinha pela frente um quadro de enorme desigualdade social: se- gundo o economista Sampie Terreblanche, formou-se “uma elite negra de cerca de 2 milhões de pessoas e uma classe média de 6 milhões de pessoas. O fosso entre esses 8 milhões de negros ricos e os 20 milhões a 25 milhões de pobres cresceu perigosamente”4. Soma- va-se ainda o desemprego que atingia, oficialmente, 25,5% dos trabalhadores em 2012. p nelson mandela, principal líder da luta contra o racismo na África do sul, foi ganhador do prêmio nobel da paz, em 1993, com o presidente sul-africano na época, Frederik W. de Klerk. no ano seguinte, seria eleito o primeiro presiden- te negro do país que, ao encerrar seu mandato, em 1999, transferiria o poder democraticamente a seu sucessor tha- bo mbeki. em 2004 mbeki foi reeleito e sucedido em 2009 por Jacob zuma. na foto, mandela na cidade do cabo, África do sul, em 11 de fevereiro de 2010, por ocasião do aniversá- rio de 20 anos de sua libertação após ter ficado preso por 27 anos sob o regime do apartheid. S ch a lk V a n Z u y d a m /P o o l/ E p a /C o rb is /L a ti n s to ck 2 FONTANA, Josep. História dos homens. Bauru: Edusc, 2004. p. 343. 3 Ibidem, p. 379. 4 CESSOU, Sabine. Impasse social na África do Sul. Le Monde Diplomatique Brasil. Fevereiro 2013. p. 25. O historiador Josep Fontana, discutindo o trabalho de histo- riadores e tomando como tema “As Guerras da História”, destaca que “as classes dominantes não temem a história – ao contrário, procuram produzir e difundir o tipo de história que lhes convém, ou seja, uma história que não se dedica à luta pela liberdade e pela justiça – mas em todo caso, temem os historiadores que não podem utilizar.”2 Fontana também aponta que existem “guerras mais dramá- ticas por suas consequências. Em Ruanda foram os belgas, e em grande medida as ordens religiosas que controlavam o ensino, os que fabricaram o mito de uma históriaracista, construída sobre o modelo com que Gobineau interpretava a Idade Média europeia, onde os tútsi apareciam como os senhores feudais opressores e o hutus como o povo explorado por eles. Esta visão ‘feudal’ serviria de pretexto para a ‘revolução social’ dos hutus em 1959-1961 e para o genocídio dos tútsi nos anos noventa. A difícil restauração da convivência étnica não poderia fazer-se em Ruanda sem eliminar esta visão do passado, substituindo-a por outra mais objetiva”.3 HerAnçA colonIAlIstA Joseph-Arthur, conde de Gobineau (1816-1882), autor de Ensaio sobre a desigualdade da raça humana (Essai sur l’inégalité des races humaines), de 1853-5, foi um precur- sor do racismo moderno. Defendia a superioridade dos brancos louros de descendência germânica (arianos) so- bre outros brancos e demais grupos humanos. teve gran- de influência no desenvolvimento de políticas racistas na europa, especialmente adaptada aos interesses nazistas. HGB_v3_PNLD2015_174a196_U2_C10.indd 183 4/15/13 10:29 AM 184 Do pós-guerra ao século XXi A AméricA lAtinA e As lutAs sociAis México Após a proclamação de sua independência por Agustín Itúrbide, em 1821, o México passou a viver um período de instabilidade política sob a forma de ditaduras e de dependência econômica. As condições sociais se deterioraram com a perda de quase metade de seu território após a guerra travada contra os Esta- dos Unidos, em 1848, e as intervenções estrangeiras sucessivas, como a dos franceses, entre 1861 e 1867, que tentaram instalar na região o governo Habsburgo de Maximiliano, um prolongamento do Segundo Im- pério napoleônico na América. Tais condições propiciaram a instalação da di- tadura de Porfirio Díaz (1877-1880, 1884-1911), sob a qual se deu intensa concentração fundiária e en- trada de elevadas somas de capital estrangeiro vol- tadas para a exploração e o controle dos recursos minerais e da produção de artigos de exportação. Dessa forma, para a população local, em sua grande maioria concentrada nas áreas rurais, aumentaram a miséria e a dependência em relação aos grandes senhores. No início do século XX, esse quadro levou ao crescimento da insatisfação entre a população, o que provocou greves operárias nas cidades e re- voltas na zona rural. Dessas lutas surgiram líderes populares, como Emiliano Zapata e Pancho Villa, que, comandando milhares de camponeses, mobi- lizaram-se reivindicando distribuição de terras por meio da reforma agrária, opondo-se aos latifundiá- rios, aos quais se juntaram a Igreja e as elites cons- tituídas. Ao mesmo tempo, parte da elite, sob o co- mando de Francisco Madero, insurgia-se contra a ditadura porfirista. Unindo as forças, os exércitos revolucionários depuseram Porfirio Díaz em maio de 1911. As camadas populares permaneceram insatisfei- tas com as tímidas medidas sociais tomadas por Ma- dero, que foi assassinado em 1913. O general Victoria- no Huerta reinstalou a ditadura, ligada aos interesses dos Estados Unidos. Pancho Villa voltou a lutar contra as forças fe- derais, enquanto Zapata liderava no sul a revolução camponesa pela reforma agrária. As pressões levaram Huerta a renunciar em 1914 em favor de um gover- no constitucional liderado por Venustiano Carranza (1914-1915). BRASIL 1964 VENEZUELA COLÔMBIA PERU 1968 BOLÍVIA 1987 PARAGUAI 1954 URUGUAI ARGENTINA 1976 CHILE 1973 1973 CUBA 1959-... GUATEMALA 1987 EL SALVADOR 1979 PANAMÁ 1989 GRANADA 1983 NICARÁGUA 1979-90 1981-86 REPÚBLICA DOMINICANA 1965 Ditaduras militares Regime militar nos anos 1970 Instauração da ditadura Regimes de tendência marxista e guerrilhas Intervenções americanas Regime de tendência marxista Duração do regime Guerrilhas marxista-leninistas Direta Data da intervenção Indireta 1973 1973 1979-90 Equador OCEANO PACÍFICO OCEANO ATLÂNTICO Trópic o de Câ ncer Trópico de Capricórnio 60° O 0 800 km 1600 Adaptado de: BAYLAC, M. H. Historie terminale. Paris: Larouse Bordas, 1998. p. 193. reflexos da Guerra Fria na América latina Apesar de sua independência política, conquis- tada a partir do século XIX, os países da América La- tina mantiveram laços de dependência econômica com as grandes potências capitalistas mundiais, ini- cialmente a Inglaterra e posteriormente os Estados Unidos. As forças tradicionais, defensoras do vínculo político-econômico com os grandes centros capita- listas, não poucas vezes têm se chocado com as for- ças reformistas e nacionalistas e também com as de extrema esquerda, num quadro de busca pela refor- mulação das estruturas vigentes. Por isso, ditaduras militares, governos pró-libertação, movimentos re- formistas, revolucionários e guerrilheiros têm carac- terizado o conturbado quadro político da América Latina desde o século XIX. O mapa a seguir sintetiza esse quadro – observe-o e volte a ele no decorrer de seu estudo deste capítulo. A ll m a p s /A rq u iv o d a e d it o ra HGB_v3_PNLD2015_174a196_U2_C10.indd 184 4/15/13 10:29 AM