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Aula 27 – Primeira Geração do Modernismo II 
 
 
 
 
 
 
89 VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 
 
 
Menino com 
estilingue 1947 
 
 
Meninos soltando 
pipas 1943 
 
 
Meninos brincando 
1955 
Disponível em: <www.portinari.org.br/candinho/candinho/quebra1/jogo_q.htm>. 
Acesso em:10 nov. 2008. 
 
Na série de pinturas apresentada, Portinari 
a) valoriza o folclore brasileiro com a representação de tradicionais 
brincadeiras infantis, fenômeno da cultura popular. 
b) revela seu apego à cultura rural, mediante imagens 
impressionistas de tipos regionais remanescentes em algumas 
áreas do Brasil. 
c) apresenta figuras humanas em estilo tradicionalmente 
acadêmico, com técnica de óleo sobre tela, uma influência 
europeia em sua arte. 
d) representa cenas de sua cidadezinha do interior e de sua 
infância de menino pobre, mas livre, que pertencem a um passado 
que se perdeu. 
e) apresenta uma maneira própria de ver a arte, à medida que usa 
traços, luzes, formas, texturas, com impressões de seu estado de 
espírito no momento da criação. 
 
 
 
 
 
 
CURSO ANUAL DE LITERATURA 
Prof. Steller de Paula – VOLUME 2 
VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 
 
 
AULA 28 - SEGUNDA GERAÇÃO DO MODERNISMO 
– A PROSA DE 30 
MANIFESTO REGIONALISTA 
Toda terça-feira, um grupo apolítico de "Regionalistas" vem se 
reunindo na casa do Professor Odilon Nestor, em volta da mesa de 
chá com sequilhos e doces tradicionais da região - inclusive 
sorvete de Coração da Índia - preparados por mãos de sinhás. 
Discutem-se então, em voz mais de conversa que de discurso, 
problemas do Nordeste. Assim tem sido o Movimento Regionalista 
que hoje se afirma neste Congresso: inacadêmico mas constante. 
Seu fim não é desenvolver a mística de que, no Brasil, só o 
Nordeste tenha valor, só os sequilhos feitos por mãos 
pernambucanas ou paraibanas de sinhás sejam gostosos, só as 
rendas e redes feitas por cearense ou alagoano tenham graça, só 
os problemas da região da cana ou da área das secas ou da do 
algodão apresentem importância. Os animadores desta nova 
espécie de regionalismo desejam ver se desenvolverem no País 
outros regionalismos que se juntem ao do Nordeste, dando ao 
movimento o sentido organicamente brasileiro e, até, americano, 
quando não mais amplo, que ele deve ter. 
Procurando reabilitar valores e tradições do Nordeste, repito que 
não julgamos estas terras, em grande parte áridas e heroicamente 
pobres, devastadas pelo cangaço, pela malária e até pela fome, as 
Terras Santas ou a Cocagne do Brasil. Procuramos defender esses 
valores e essas tradições, isto sim, do perigo de serem de todo 
abandonadas, tal o furor neófilo de dirigentes que, entre nós, 
passam por adiantados e "progressistas" pelo fato de imitarem 
cega e desbragadamente a novidade estrangeira. A novidade 
estrangeira de modo geral. De modo particular, nos Estados ou nas 
Províncias, o que o Rio ou São Paulo consagram como "elegante" 
e como "moderno": inclusive esse carnavalesco Papai Noel que, 
esmagando com suas botas de andar em trenó e pisar em neve, as 
velhas lapinhas brasileiras, verdes, cheirosas, de tempo de verão, 
está dando uma nota de ridículo aos nossos natais de família, 
também enfeitados agora com arvorezinhas estrangeiras 
mandadas vir da Europa ou dos Estados Unidos pelos burgueses 
mais cheios de requififes e de dinheiro. 
Talvez não haja região no Brasil que exceda o Nordeste em 
riqueza de tradições ilustres e em nitidez de caráter. Vários dos 
seus valores regionais tornaram-se nacionais depois de impostos 
aos outros brasileiros menos pela superioridade econômica que o 
açúcar deu ao Nordeste durante mais de um século do que pela 
sedução moral e pela fascinação estética dos mesmos valores. 
(...) Ao voltar da Europa há três anos, um dos meus primeiros 
desapontamentos foi o de saber que a água de coco verde era 
refresco que não se servia nos cafés elegantes do Recife onde 
ninguém se devia lembrar de pedir uma tigela de arroz doce ou um 
prato de munguzá ou uma tapioca molhada. Isto é para os "frejes" 
do Pátio do Mercado. Os cafés elegantes do Recife não servem 
senão doces e pastéis afrancesados e bebidas engarrafadas. E 
nas casas? Nas velhas casas do Recife? Nas casas-grandes dos 
engenhos? Quase a mesma vergonha de servirem as senhoras 
pratos regionais que nos cafés e hotéis elegantes da capital. 
Mestras de arte de decoração são as negras de tabuleiro que 
enfeitam seus doces com papel recortado: outro assunto popular, 
plebeu, rasteiro que está a merecer um bom estudo regional. 
Mestras da arte de promover o que o sábio Branner chamou "o 
bem estar humano" são as muitas cozinheiras boas, pretas, 
pardas, morenas, brancas, que ainda existem por este Nordeste; 
que não se deixam corromper pela cozinha francesa nem pela 
indústria norte-americana das conservas. 
Mestres de música são alguns dos cantadores de modinha e dos 
tocadores de violão deste velho trecho do Brasil. Mestres de dança 
são alguns dos babalorixás e algumas das ialorixás dos xangôs. 
Mestres de medicina são alguns dos curandeiros da região, 
doutores em ervas e plantas regionais. Mestres de higiene regional 
do trajo são os sertanejos e os matutos que andam com camisas 
leves por fora das calças também leves, chapéus de palha, 
alpercatas. 
Mestras de adorno pessoal de acordo com o clima e a paisagem 
da região são as morenas, as mulatas e caboclas, cujo cabelo 
brilha à luz da lua amaciado pelo mais puro óleo de coco, 
perfumado pelos mais cheirosos jasmins. Mestres da arte náutica 
são os jangadeiros das praias do Nordeste. 
É um contato que não deve ser perdido em nenhuma atividade de 
cultura regional. E dessas atividades não deve ser excluída nunca 
a arte do quitute, do doce, do bolo que, no Nordeste, é um 
equilíbrio de tradições africanas e indígenas com europeias; de 
sobrevivências portuguesas com a arte das negras de tabuleiro e 
das pretas e pardas do fogareiro. Por conseguinte, brasileiríssima. 
Pois o Brasil é isto: combinação, fusão, mistura. E o Nordeste, 
talvez a principal bacia em que se vêm processando essas 
combinações, essa fusão, essa mistura de sangue e valores que 
ainda fervem: portugueses, indígenas, espanhóis, franceses, 
africanos, holandeses, judeus, ingleses, alemães, italianos. 
Donde a necessidade deste Congresso de Regionalismo definir-se 
a favor de valores assim negligenciados e não apenas em prol das 
igrejas maltratadas e dos jacarandás e vinháticos, das pratas e 
ouros de família e de igreja vendidos aos estrangeiros, por 
brasileiros em quem a consciência regional e o sentido tradicional 
do Brasil vem desaparecendo sob uma onda de mau 
cosmopolitismo e de falso modernismo. É todo o conjunto da 
cultura regional que precisa ser defendido e desenvolvido. 
Gilberto Freyre 
CONTEXTO HISTÓRICO 
- O crack da Bolsa de Nova Iorque, em 1929; 
- A consolidação de regimes totalitários do Comunismo (1917), do 
Fascismo (1922) e do Nazismo (1933) como alternativas válidas de 
superação da crise do capitalismo burguês; 
- A Revolução de 30, no Brasil, como uma resposta à crise 
econômica e uma reação ao movimento tenentista (1922) e à 
Coluna Prestes (1924-1928), que revelaram uma insatisfação dos 
militares jovens, das classes médias, do proletariado urbano e das 
oligarquias nordestinas e sulistas em relação ao domínio da velha 
elite cafeicultora de São Paulo; 
- Estabelecimento do Estado Novo (1937 - 1945), que, de caráter 
ditatorial, impôs uma censura férrea e perseguiu intelectuais 
críticos do regime: Jorge Amado foi obrigado a exilar-se no 
Uruguai, Monteiro Lobato exilou-se em Buenos Aires, Graciliano 
Ramos passou onze meses preso, Dyonélio Machado foi torturado, 
Érico Verissimo prestava depoimentos diários no DOPS. 
- A Segunda Grande Guerra Mundial, Holocausto, Bomba Atômica. 
Aula 28 – Prosa de 30 
 
 
 
 
 
 
91 VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta ConcorrênciaO NEORREALISMO E UMA LITERATURA DE DENÚNCIA 
SOCIAL 
Esse novo contexto histórico exigiu dos artistas uma espécie de 
tomada de posição, um olhar mais crítico diante da realidade. A 
Arte passou a ser encarada como um instrumento de participação 
política, de denúncia social. Cabia ao artista, com sua obra, 
denunciar as desigualdades sociais, as injustiças cometidas contra 
o povo. Era preciso que as obra alcançassem as massas, 
despertassem seu pensamento crítico. 
Diante disso, o experimentalismo e o radicalismo formal que 
marcaram a geração anterior, com as vanguardas europeias, são 
abandonados, quando não condenados, e a arte volta-se para o 
estilo realista, que permitia um entendimento mais imediato. 
Na União Soviética, os comunistas impõe o modelo do realismo 
socialista e passam a perseguir artistas vanguardistas. No Brasil, 
como em outros países democráticos, também se impôs a ideia de 
que mais importante que a busca por uma nova linguagem, que o 
rompimento radical com as formas do passado, era assumir uma 
postura mais crítica sobre a realidade de seu tempo, através de 
uma linguagem mais simples e objetiva, numa espécie de “retorno 
à ordem” no campo formal. 
Assim, se a geração de 1922 colocou o projeto renovação estética 
em primeiro plano, desejando modernizar as formas artísticas 
brasileiras com as inovações vanguardistas, a geração de 1930 
enfatizou, em suas obras, as questões sociais e ideológicas. 
A HERANÇA REALISTA 
Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz, Jorge Amado, José Lins do 
Rego, Erico Verissimo e os demais autores adotaram alguns 
princípios básicos do romance realista: 
- a busca por verossimilhança; 
- o retrato objetivo da realidade em seus elementos históricos e 
sociais; 
- a linearidade narrativa (começo, meio e fim); 
- a tipificação social (indivíduos que representam classes sociais); 
- construção ficcional de um mundo que deve dar a ideia de 
abrangência e totalidade. 
Nem a rosa, nem o cravo 
As frases perdem seu sentido, as palavras perdem sua significação 
costumeira, como dizer das árvores e das flores, dos teus olhos e 
do mar, das canoas e do cais, das borboletas nas árvores, quando 
as crianças são assassinadas friamente pelos nazistas? Como 
falar da gratuita beleza dos campos e das cidades, quando as 
bestas soltas no mundo ainda destroem os campos e as cidades? 
Já viste um loiro trigal balançando ao vento? É das coisas mais 
belas do mundo, mas os hitleristas e seus cães danados 
destruíram os trigais e os povos morrem de fome. Como falar, 
então, da beleza, dessa beleza simples e pura da farinha e do pão, 
da água da fonte, do céu azul, do teu rosto na tarde? Não posso 
falar dessas coisas de todos os dias, dessas alegrias de todos os 
instantes. Porque elas estão perigando, todas elas, os trigais e o 
pão, a farinha e a água, o céu, o mar e teu rosto. (...) Sobre toda a 
beleza paira a sombra da escravidão. É como uma nuvem 
inesperada num céu azul e límpido. 
Como então encontrar palavras inocentes, doces palavras 
cariciosas, versos suaves e tristes? Perdi o sentido destas 
palavras, destas frases, elas me soam como uma traição neste 
momento. Mas eu sei todas as palavras de ódio e essas, sim, têm 
um significado neste momento. Houve um dia em que eu falei do 
amor e encontrei para ele os mais doces vocábulos, as frases mais 
trabalhadas. Hoje só o ódio pode fazer com que o amor perdure 
sobre o mundo. Só o ódio ao fascismo, mas um ódio mortal, um 
ódio sem perdão, um ódio que venha do coração e que nos tome 
todo, que se faça dono de todas as nossas palavras, que nos 
impeça de ver qualquer espetáculo - desde o crepúsculo aos olhos 
da amada - sem que junto a ele vejamos o perigo que os cerca. 
Jamais as tardes seriam doces e jamais as madrugadas seriam de 
esperança. Jamais os livros diriam coisas belas, nunca mais seria 
escrito um verso de amor. Sobre toda a beleza do mundo, sobre a 
farinha e o pão, sobre a pura água da fonte e sobre o mar, sobre 
teus olhos também, se debruçaria a desonra que é o nazifascismo, 
se eles tivessem conseguido dominar o mundo. Não restaria 
nenhuma parcela de beleza, a mais mínima. Amanhã saberei de 
novo palavras doces e frases cariciosas. Hoje só sei palavras de 
ódio, palavras de morte. Não encontrarás um cravo ou uma rosa, 
uma flor na minha literatura. Mas encontrarás um punhal ou um 
fuzil, encontrarás uma arma contra os inimigos da beleza, contra 
aqueles que amam as trevas e a desgraça, a lama e os esgotos, 
contra esses restos de podridão que sonharam esmagar a poesia, 
o amor e a liberdade! 
Jorge Amado. "Folha da Manhã", 22/04/1945. 
O artista e a lâmpada 
Lembro-me de que certa noite – eu teria uns quatorze anos, 
quando muito – encarregaram-me de segurar uma lâmpada elétrica 
à cabeceira da mesa de operações, enquanto um médico fazia os 
primeiros curativos num pobre-diabo que soldados da Polícia 
Municipal haviam “carneado” [...] Apesar do horror e da náusea, 
continuei firme onde estava, talvez pensando assim: se esse 
caboclo pode agüentar tudo isso sem gemer, por que não hei de 
poder ficar segurando esta lâmpada para ajudar o doutor a costurar 
esses talhos e salvar essa vida? 
Desde que, adulto, comecei a escrever romances; tem-me 
animado até hoje a ideia de que o menos que o escritor pode fazer 
numa época de atrocidades e injustiças como a nossa, é acender a 
sua lâmpada, fazer luz sobre a realidade de seu mundo, evitando 
que sobre ele caia a escuridão, propícia aos ladrões, aos 
assassinos e aos tiranos. Sim, segurar a lâmpada, a despeito da 
náusea e do horror. Se não tivermos uma lâmpada elétrica, 
acendamos o nosso toco de vela ou, em último caso, risquemos 
fósforos repetidamente, como um sinal de que não desertamos 
nosso posto. 
Érico Veríssimo. Solo de clarineta. 
CRONOLOGIA DOS PRIMEIROS ROMANCES DE 30 
1928 - A bagaceira, de José Américo de Almeida. 
1930 - O quinze, de Rachel de Queiroz; O país do carnaval, de 
Jorge Amado 
1932 - Menino de engenho, de José Lins do Rego; Cacau, de 
Jorge Amado; João Miguel, de Rachel de Queiroz. 
1933 - Doidinho, de José Lins do Rego; Caetés, de Graciliano 
Ramos; Clarissa, de Erico Verissimo; Os Corumbas, de Amando 
Fontes. 
1934 - Bangüê, de José Lins do Rego; São Bernardo, de 
Graciliano Ramos; Suor, de Jorge Amado. 
1935 - Jubiabá, de Jorge Amado; Música ao longe, de Erico 
Verissimo; Os ratos, de Dyonélio Machado. 
Para a classificação das obras produzidas no período, 
recorreremos à proposta do crítico Sergius Gonzaga: 
 
 
 
 
 92 VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 
CURSO ANUAL DE LITERATURA – (Prof. Steller de Paula) 
- Romances de temática agrária 
Pode-se afirmar que uma parte importante do romance de 30 
centralizou-se em torno do universo rural em declínio ou já 
desaparecido. A tradução deste processo social deu-se em alguns 
núcleos temáticos: 
A) - A ascensão e queda dos "coronéis": Banguê e Fogo morto, 
de José Lins do Rego; Terras do sem fim e São Jorge dos Ilhéus, 
de Jorge Amado; e O tempo e o vento, de Erico Verissimo, por 
exemplo. Estes relatos oscilam entre a saga (exaltação com traços 
épicos) e a crítica mais contundente, seja a ideológica (Jorge 
amado), seja a ética (Erico Verissimo). No caso específico de José 
Lins do Rego, predomina um tom nostálgico e melancólico diante 
das ruínas dos engenhos. 
B) - Os dramas dos trabalhadores rurais: Seara vermelha, de 
Jorge Amado; e Vidas secas, de Graciliano Ramos. Ambos 
correspondem a uma impugnação da realidade fundiária 
nordestina, opressiva e excludente. 
C) - O confronto entre o Brasil rural e o Brasil urbano: este é o 
ponto nuclear de alguns dos mais importantes títulos da narrativa 
brasileira do século XX. O choque entre Paulo Honório e Madalena 
em São Bernardo, de Graciliano Ramos, sintetiza o descompasso 
entre a mentalidade patriarcal-latifundiária e a urbana 
modernizada. Também de Graciliano Ramos, o romance Angústia 
revela a solidão e a destruição de Luís da Silva, descendenteda 
oligarquia, na teia complexa das relações citadinas. Aliás, este 
fenômeno ocorre igualmente em Totonho Pacheco, de João 
Alphonsus. 
Por outro lado, tanto em A bagaceira, de José Américo de Almeida, 
quanto em O quinze, de Rachel de Queiroz, os personagens 
principais, Lúcio e Conceição - embora filhos das velhas elites 
agrárias - foram modernizados pela escolarização na cidade e 
acabaram questionando o horror da seca, da miséria e o atraso do 
latifúndio. 
- Romances de temática urbana 
A urbanização ininterrupta do país levou os narradores a olhar para 
a nova realidade que se constituía, fosse sob o prisma da denúncia 
(Jorge Amado, Amando Fontes), da adesão crítica (Erico 
Verissimo) ou de uma tristeza impotente (Cyro dos Anjos). Os 
núcleos temáticos abordados foram: 
A) - As camadas populares, trabalhadores e marginais: 
Jubiabá, Capitães de Areia e Mar morto, de Jorge Amado; Os 
Corumbas e Rua do Siriri, de Amando Fontes. 
B) - Os setores médios (pequena burguesia): A tragédia 
burguesa, de Otávio de Faria, Os ratos, de Dyonélio Machado e 
toda a primeira fase de Erico Verissimo, o chamado ciclo de 
Clarissa. 
Texto I 
Era o êxodo da seca de 1898. Uma ressurreição de cemitérios 
antigos – esqueletos redivivos, com aspecto terroso e o teor das 
covas podres. Os fantasmas estropiados como que iam dançando, 
de tão trôpegos e trêmulos, num passo arrastado de quem leva as 
pernas em vez de ser lavado por elas. Andavam devagar, olhando 
para trás, como quem quer voltar, não tinham pressa em chegar, 
porque não sabiam aonde iam. Expulsos do seu paraíso por 
espadas de fogo, iam, ao acaso, em descaminhos, no arrastão dos 
maus fados. Fugiam do sol e o sol guiava-os nesse forçado 
nomadismo. Adelgaçados na magreira cômica, cresciam como se o 
vento os levantasse. E os braços afinados desciam-lhes aos 
joelhos, de mãos abanando. Vinham escoteiros, menos os 
hiprópicos – doentes de alimentação tóxica – com os fardos das 
barrigas alarmantes. Não tinham sexo, nem idade, nem condição 
nenhuma. Meninotas, com as pregas da súbita velhice, caretavam 
torcendo as carinhas decrépitas de ex-voto. Os vaqueiros 
másculos, como titãs alquebrados em petição de miséria. 
Pequenos fazendeiros, no arremesso igualitário, baralhavam-se 
nesse anônimo aniquilamento. Fariscavam o cheiro enjoativo do 
melado que lhes exacerbava os estômagos jejunos. E, em vez de 
comerem, eram comidos pela própria fome numa autofagia 
erosiva. 
José Américo de Almeida 
Texto II 
Chico Bento, que tinha saído à procura de qualquer coisa, deu 
também com a roça; com algum trabalho, conseguiu arrancar uns 
pedaços de raiz; e veio para o rancho, trazendo numa trouxa os 
paus de mandioca obtidos. 
Enquanto Cordulina ia raspando para um beiju o achado miserável, 
Josias, ao lado dela, calado, estirado no chão, fazia de vez em 
quando uma careta. Afinal, disse à mãe que estava com dor de 
barriga. 
- De quê? 
Ele contou a história da manipeba. Cordulina levantou-se, 
assustada: - Meu filho! Pelo amor de Deus! Você comeu mandioca 
crua? 
Assombrado, e sentindo a dor mais forte, o pequeno começou a 
chorar. Cordulina, aturdida, topando no madeirame do chão, andou 
até ao terreiro limpo, procurando na terra varrida uma folhas para 
um chá. Depois, caindo em si, foi às trouxas, e do fundo de uma 
lata tirou um punhado ressequido de sene. E enquanto fazia o chá, 
gritava, num pranto, para o marido, que mais longe trocava 
algumas palavras com um passante: 
- Chico! Chico! Valha-me Nossa Senhora! o Josias se envenenou! 
Agora, esgotadas as mezinhas, findos os recursos, sozinha, o 
marido longe – Chico Bento saíra de manhãzinha a ver se 
descobria alguém que ensinasse um remédio – de cócoras junto à 
criança moribunda, a cabeça quase entre os joelhos, um filho 
agarrado à saia, Cordulina chorava sem consolo. 
Um dos outros pequenos, sentado numa trave, chupando o dedo, 
olhava o irmão. E o Pedro, o mais velho, do lado oposto, de vez em 
quando tangia com a mão alguma mosca que tentava pousar no 
rosto do doentinho. 
A criança era só osso e pele: o relevo do ventre inchado formava 
quase um aleijão naquela magreza, esticando o couro seco de 
defunto, empretecido e malcheiroso. 
Quando o pai chegou trazendo consigo uma negra velha rezadeira, 
Josias, inconsciente, já com o cirro da morte, sibilava, mal podendo 
com a respiração estertorosa. 
A velha olhou o doente, abanou o pixaim enfarinhado: 
- Tem mais jeito não... Esse já é de Nosso Senhor... 
Cordulina ergueu por momentos a cabeça, fitou a velha, e depois, 
mergulhando de novo a cara entre os joelhos, redobrou o choro. 
A negra, por via das dúvidas, começou a rodar em torno do 
menino, benzeu-o com um ramo murcho tirado do seio chocalhante 
de medalhas, resmungando rezas: 
- Donde vens, Pedros e Paulo? Venho de Roma. o que há de novo 
em Roma, Pedros e Paulo?... 
Chico Bento se encostara à vara da prensa, sem chapéu, a cabeça 
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Aula 28 – Prosa de 30 
 
 
 
 
 
 
93 VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 
 
pendida, fitando dolorosamente a agonia do filho. E a criança, com 
o cirro mais forte e mais rouco, ia-se 
acabando devagar, com a dureza e o tinido dum balão que vai 
espocar porque encheu demais. 
Rachel de Queiroz, O quinze 
Texto III 
A VELHA SINHÁ NÃO sabia mesmo o que se passava com o seu 
marido. Fora ele sempre de muito gênio, de palavras duras, de 
poucos agrados. Agora, porém, mudara de maneira esquisita. Via-
o vociferar, crescer a voz para tudo, até para os bichos, até para as 
árvores. Não podia ser velhice, a idade abrandava o coração dos 
homens. Pobre da Marta que o pai não podia ver que não viesse 
com palavras de magoar até as pedras. Por ela não, que era um 
resto de gente só esperando a hora da morte. Mas não podia se 
conformar com a sorte de sua filha. O que teria ela de menos que 
as outras? Não era uma moça feia, não era uma moça de fazer 
vergonha. E no entanto nunca apareceu rapaz algum que se 
engraçasse dela. Era triste, lá isto era. 
Desde pequena via aquela menina quieta para um canto e pensava 
que aquilo fosse até vantagem. A sua comadre Adriana lhe 
chamava a atenção: 
— Comadre, esta menina precisa ter mais vida. 
Não fazia questão. Moça era para viver dentro de casa, dar-se a 
respeito. E Marta foi crescendo e não mudou de gênio. Botara na 
escola do Pilar, aprendeu a ler, tinha um bom talhe de letra, sabia 
fazer o seu bordado, tirar o seu molde, coser um vestido. 
E não havia rapaz que parasse para puxar uma conversa. Havia 
moças mais feias, mais sem jeito, casadas desde que se puseram 
em ponto de casamento. Estava com mais de trinta e agora 
aparecera-lhe aquele nervoso, uma vontade desesperada de 
chorar que lhe metia medo. Coitada da filha. E depois ainda por 
cima o pai nem podia olhar para ela. Vinha com gritos, com 
despropósitos, com implicâncias. O que sucederia à sua filha, por 
que Deus não lhe dera uma sina mais branda? Pensava assim a 
velha Sinhá enquanto na tenda o mestre José Amaro batia sola. 
Aquele ofício era doentio. A cor de Zeca não era de outra coisa, 
era do cheiro da sola, daquele viver constante pegado em couro. 
Ela mesma, no começo de casada, sofrera muito para se 
acostumar com aquele cheiro dentro de casa. Quando o marido se 
chegava para ela, sentia como se fosse nojo. E lembrava-se 
quando ficara grávida de Marta o quanto padecera para poder 
aguentar a companhia de Zeca. Era o cheirar da sola, a inhaca 
medonha de que não podia se separar. Por fim acostumou-se. 
Teria que viver ali, mas custou-lhe um pedaço da sua vida. Dentro 
de casa, fazendo o almoço, a velha Sinhá passava pela cabeça os 
pensamentos que não se separavam dela. Por mais que 
procurasse fugir deles, eles estavam na sua convivência, doendo-
lhe no coração. De vez em quando parava o mestre de martelar. 
Tudo ficava num silêncio de paradeiro. 
Ouviam-se o fossar dos porcos e o bater das patas dos cavalos 
que passavam pela estrada.Depois o martelo voltava a castigar, e 
ela não se libertava dos pensamentos. Por que Zeca andava com 
os modos de agora? Por que tanto chorava a sua filha? 
Ouvia o bom-dia dos viajantes que cumprimentavam o seu marido. 
E ouvia a resposta de Zeca, o tom áspero de sua resposta. Não lhe 
falava para não sofrer as suas má-criações. Tudo devia fazer 
conquanto que ele não tivesse que falar, senão se saía com gritos. 
Naquele instante Marta fora à beira do rio buscar água. A casa 
assim sem ela, só com o marido no trabalho, parecia-lhe vazia de 
tudo. Só a sua filha prendia-a ao mundo. Só ela ainda lhe dava 
coragem de viver. Tudo sofrera calada, como escrava, sem direito 
a levantar a voz, a dar uma opinião para resolver uma coisa. 
José Lins do Rego, Fogo Morto 
Texto IV 
Seu Lula já estava velho. D. Amélia era aquela criatura sumida, 
mas sem com seu ar de dona, Neném uma moça que não se 
casava, D. Olívia falando, falando as mesmas coisas. Esta era a 
casa-grande do Santa Fé. 
A carruagem rompia as estradas com o povo mais triste da várzea 
indo para a missa do Pilar, para as novenas, arrastada por cavalos 
que não eram mais nem a sombra dos dois ruços do Capitão 
Tomás. A barba de Seu Lula era toda branca, e as safras de 
açúcar e de algodão minguavam de ano para ano. As várzeas 
cobriam-se de grama, de mata-pasto, os altos cresciam em 
capoeira. Seu Lula, porém, não devia, não tomava 
dinheiro emprestado. Todas as aparências de senhor de engenho 
eram mantidas com dignidade. Diziam que todos os anos ia ele ao 
Recife trocar as moedas de ouro que o velho Tomás deixara 
enterradas. A cozinha da casa-grande só tinha uma negra para 
cozinhar. E enquanto na várzea não havia mais engenho de 
bestas, o Santa Fé continuava com as suas almanjarras. Não 
botava máquina a vapor. Nos dias de moagem, nos poucos dias do 
ano em que as moendas de Seu Lula esmagavam cana, a vida dos 
tempos antigos voltavam com ar animado, a encher tudo de cheiro 
de mel, de ruído alegre. 
Tudo era como se fosse uma imitação da realidade. Tudo passava. 
Na casa de purgar ficavam os cinquenta pães de açúcar, ali onde, 
mais de uma vez, o Capitão Tomás guardara os seus dois mil 
pães, em caixões, em formas, nas tulhas de mascavo seco ao sol. 
Apesar de tudo, vivia o Santa Fé. Era engenho vivo, acendia sua 
fornalha, a sua bagaceira cobria-se de abelhas para chupar os 
restos de açúcar que as moendas deixavam para os cortiços. O 
povo que passava pela porta da casa-grande sabia que lá dentro 
havia um senhor de engenho que se dava ao respeito. Ninguém 
gostava do velho Lula de Holanda, mas ao vê-lo, com as barbas 
até o peito, todo de preto, de olhar duro e fala de rompante, todos o 
respeitavam. Era um homem sério. As histórias com os negros, as 
suas malvadezas iam ficando de longe, de uma outra época. Havia 
os que tinham medo, havia os que falavam de castigo caindo sobre 
a família que era de uma tristeza de luto fechado. Não parava 
ninguém para oferecer uma vendagem, para puxar uma conversa, 
para uma visita. O Santa Fé cobria-se de mistério. 
José Lins do Rego, Fogo Morto 
Texto V 
Maneco recordava sua última visita a Porto Alegre, onde fora 
comprar ferramentas, pouco antes de vir estabelecer-se ali na 
estância. Achara tudo uma porcaria. Lá só valia quem tinha título, 
um posto militar ou então quem vestia batina. Esses viviam a tripa 
forra. O resto, o povinho, andava mal de barriga, de roupa e de 
tudo. Era verdade que havia alguns açorianos que estavam 
enriquecendo com o trigo. Esses prosperavam, compravam 
escravos, pediam e conseguiam mais sesmarias e de pequenos 
lavradores iam se transformando em grandes estancieiros. Mas o 
governador não entregava as cartas de sesmaria assim sem mais 
aquela… Se um homem sem eira nem beira fosse ao paço pedir 
terras, botavam-no para fora com um pé no traseiro. Não senhor. 
Terra é para quem tem dinheiro, pra quem pode plantar, colher, ter 
escravos, povoar campos. 
	SEMANA 28 - LITERATURA - Prosa de 30 - STELLER

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