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146 Unidade 3 A luta pela cidadania terra. Apesar de deter parte do poder econômico, os criollos não tinham influência política, pois estavam impedidos de ocupar os cargos públicos mais eleva- dos, reservados para os espanhóis. Numa posição inferior, encontravam-se os mestizos e mulatos, descendentes da união de espanhóis com indígenas e negras, respectivamen- te. Eles compunham a grande massa da população. De modo geral, eram trabalhadores livres. Os indí- genas, em contrapartida, embora fossem conside- rados livres, eram obrigados a prestar serviços para os chapetones e criollos, o que desestruturou as sociedades indígenas preexistentes à colonização. Na base da sociedade encontravam-se os africa- nos escravizados. Eles concentravam-se quase que ex- clusivamente na região do Caribe. Vítimas dos mais va- riados tipos de violência, não tinham nenhum direito. América hispânica em guerra As desigualdades sociais e a espoliação impos- ta pela Espanha fizeram com que a América espa- nhola fosse palco de revoltas em diversos momen- tos. No vice-reino do Peru, por exemplo, em 1742 o líder indígena Juan Santos Atahualpa (c. 1710- -1756) mobilizou indígenas e mestiços (mestizos e 3 Uma das primeiras rebeliões pela independência na América espanhola ocorreu em 1810, na região do atual México. Essa rebelião é representada no afresco ao lado (detalhe), de 1962, do pintor mexicano Juan O’Goman, no qual aparece com destaque o padre Miguel Hidalgo, líder do movimento (de braços erguidos). M u s e u N a c io n a l d e H is tó ri a , C h a p u lt e p e c / G ir a u d o n /T h e B ri d g e m a n A rt L ib ra ry mulatos) em uma luta que se estendeu por catorze anos com o objetivo de restaurar o Império Inca. Em 1780, outro líder indígena, José Gabriel Condorcanqui (1738-1781), adotou o nome do úl- timo chefe inca – Tupac Amaru, morto pelos es- panhóis em 1572 – e comandou uma das maiores rebeliões indígenas da América Latina, ao mobili- zar cerca de 60 mil pessoas contra o domínio espa- nhol no vice-reino do Peru. Sufocado o levante em 1781, Tupac Amaru foi amarrado a quatro cavalos e despedaçado em público. Em 1806, eclodiu na capitania-geral da Vene- zuela nova rebelião contra o domínio espanhol. Lide- rada pelo criollo Francisco Miranda (1750-1816), foi rapidamente sufocada pelas forças leais à Espanha. Com a deposição, na Espanha, do rei Fernando VII pelas tropas de Napoleão em 1807 (releia capítu- lo 16), os criollos, aproveitaram da fragilidade espa- nhola e destituíram as autoridades nomeadas pelo governo da metrópole em diversas regiões. As lutas na América se intensificaram a par- tir de 1814, ano em que Fernando VII recuperou o Trono espanhol e, além de abolir a Constituição fei- ta pelos revoltosos em 1812, enviou tropas à Amé- rica. Mas, até meados do século XIX, praticamente todas as colônias hispano-americanas já se encon- travam emancipadas. HMOV_v2_PNLD2015_144a148_U03_C17.indd 146 3/20/13 4:36 PM 147A independência da América espanhola Capítulo 17 O caudilhismo Os movimentos de emancipação da América espanhola mobilizaram di- versos setores da sociedade – criollos, camponeses, militares, indígenas, mestiços. Os benefícios da indepen- dência, porém, não foram distribuí- dos de forma equitativa entre eles. Os grandes privilegiados foram os criollos, que ocuparam o lugar dos peninsula- res como grupo politicamente domi- nante (veja o boxe a seguir). A reforma agrária, que se en- contrava nas propostas de muitos re- volucionários, mal saiu do papel. As haciendas (latifúndios) continuaram intocáveis. Muitas aumentaram de área depois que seus proprietários se apoderaram das terras comunais ocu- padas anteriormente pelos indígenas. Quanto às camadas mais pobres da população, a situação não melho- rou. Socialmente marginalizados, esses grupos passaram a servir de massa de manobra para um novo tipo de político surgido no continente: o caudilho. O termo caudilho designa os líderes políticos e chefes militares pertencentes ao grupo dos criollos que, após a independência de seus países, tornaram- -se senhores de exércitos particulares e, ao assumi- 4 Adaptado de: WORLD History Atlas: Mapping the Human Journey. London: Dorling Kindersley, 2005. OCEANO PACÍFICO 0º 60º O OCEANO ATLÂNTICO CUBA 1898 HAITI 1804 MÉXICO 1821 REPÚBLICA DOMINICANA 1844 VENEZUELA 1819 COLÔMBIA 1819 EQUADOR 1822 PERU 1824 BOLÍVIA 1825 PARAGUAI 1811 BRASIL 1822 ARGENTINA 1816 URUGUAI 1828 GUIANA 1966 GUIANA FRANCESA SURINAME 1975 BELIZE 1981 HONDURAS 1838 NICARÁGUA 1838 GUATEMALA 1838 EL SALVADOR 1838 COSTA RICA 1838 PANAMÁ 1903 CHILE 1818 Equador Trópico de Capricórnio Trópico de Câncer A INDEPENDÊNCIA DA AMÉRICA LATINA 0 800 QUILÔMETROS ESCALA 1600 O beneficiário mais evidente da independência da América espanhola foi a elite criolla. No fim do período colonial, a maioria de seus membros eram proprietários rurais, muitos podiam ser encontra- dos no clero e alguns exerciam atividades no co- mércio internacional de grande escala. Alguns também ocupavam postos no governo, mas princi- palmente em cargos menos importantes, como ad- vogados, fiscais de renda ou administradores pro- vinciais do segundo escalão. Conquistada a independência, multiplicaram- -se as oportunidades de carreira no governo e na política para os criollos, não apenas por terem subs- tituído os espanhóis nos postos mais elevados, mas também em razão da própria natureza dos gover- nos republicanos que conseguiram instaurar. En- quanto o sistema colonial havia requerido apenas um corpo relativamente pequeno de juízes, admi- nistradores provinciais, oficiais militares e fiscais de renda, as novas repúblicas exigiam todos esses e muitos mais: foram criados sistemas mais ela- borados de tribunais de apelação; foi preciso ins- tituir legislativos federais, usualmente compostos de duas câmaras, e muitas vezes também legisla- O poder dos criollos rem o governo de suas nações (ou de suas regiões), exerceram o poder de forma personalista, autoritária e em benefício próprio. HMOV_v2_PNLD2015_144a148_U03_C17.indd 147 3/20/13 4:36 PM 148 Unidade 3 A luta pela cidadania Mundo virtual n Biblioteca virtual da América Latina – Organizada pelo Memorial da América Latina, disponibiliza link direto com acervos de arte e bibliotecas on-line dos países latino-americanos. Disponível em: <www.bvmemorial.fapesp.br/php/index.php?lang=pt>. Acesso em: 22 nov. 2012. Hora DE REFLETIR Pode-se afirmar que, com a conquista da in- dependência, as populações hispano-americanas adquiriram também a cidadania plena, com to- dos os seus direitos e deveres? Elabore um ar- gumento escrito sobre o assunto em defesa de sua opinião. Seu texto deve ser curto e objetivo, com duas ou três linhas. Com a ajuda do profes- sor, participe de uma apresentação oral “instan- tânea” na qual todos os alunos contribuam com seus argumentos. 1. Como estava organizada a sociedade colonial hispa- no-americana por volta do século XIX, quando eclo- diram diversas lutas de independência na região? 2. A América espanhola foi palco de diversas rebe- liões durante o período colonial. Cite três dessas rebeliões derrotadas pelas forças da metrópole. 3. Que relação pode ser estabelecida entre a ocu- pação francesa da Espanha, em 1807, e a eclo- são de movimentos de independência na Amé- rica hispânica? 4. As lutas de independência na América hispâni- ca colocaram no primeiro plano a figura do cau- dilho, um personagem fundamental para a com- preensão da história do continente a partir do sé- culo XIX. Defina o que é um caudilho. 5. Explique a seguinte afirmação: embora os mo- vimentos de emancipação espanhola tivessem mobilizado diversos setores da sociedade, os be- nefícios da independência não foram distribuí- dos de forma equitativa entreeles. Organizando as IDEIas tivos provinciais; finalmente, no plano mais alto, precisou-se distribuir diversos postos no gabinete e no subgabinete, cargos nos conselhos de Estado e pelo menos alguns postos diplomáticos. Para aqueles que não pertenciam ao grupo criollo as recompensas políticas da independên- cia foram limitadas. Os criollos demonstraram pouca disposição de compartilhar o poder com os mestizos e mulatos e outros grupos das camadas baixas da ordem social colonial. É verdade que alguns mestizos e mulatos alcançaram destaque político individualmente durante as lutas pela in- dependência, quase sempre em razão das faça- nhas que realizaram como chefes de guerrilha ou de outras forças militares. Adaptado de: SAFFORD, Frank. Política, ideologia e sociedade na América espanhola do pós-independência. In: BETHELL, Leslie (Org.). História da América: da independência a 1870. São Paulo/Brasília: Edusp/Imprensa Oficial do Estado/ Fundação Alexandre de Gusmão, 2004. v. 3, p. 360-362. HMOV_v2_PNLD2015_144a148_U03_C17.indd 148 3/20/13 4:36 PM 149 Quem não gostaria de fazer uma viagem no tempo, percorrendo os mesmos caminhos trilhados por tropeiros e bandeirantes há mais de trezentos anos? Tem sido com esse espírito de aventura que um número crescente de pessoas vem se interessando por participar de caminhadas ou cavalgadas ao longo do que restou das chamadas Estradas Reais. Esses caminhos atravessam serras e rios e passam por construções centenárias, como igrejas e sedes de fazendas. As Estradas Reais eram as únicas vias pelas quais as pessoas que viviam na colônia portuguesa na América podiam circular, caso desejassem entrar ou sair da região que hoje compreende o estado de Minas Gerais. Existiam quatro estradas, conhecidas como Caminho Velho, Caminho Novo, Caminho dos Diamantes e Caminho da Bahia. Ao longo delas, a Coroa portuguesa instalou postos de fi scalização para controlar o fl uxo de pessoas. Trecho da Estrada Real “Caminho Velho”. Tratava-se de uma das vias que dava acesso à região das Minas Gerais, durante o período colonial, e a unia às regiões do Rio de Janeiro e São Paulo. Foto de 2011. J . L . B u lc ã o /P u ls a r Im a g e n s Mauricio Simonetti/Pulsar Imagens Ouro e diamante na colônia portuguesa Capítulo 18 Objetivos do capítulo n Perceber a forte influência da mineração de ouro e da extração de diamantes sobre o processo de colonização. n Compreender o processo de centralização e o controle de extração de ouro e diamantes colocados em prática pelo governo português. n Perceber que, como resultado da mineração, a situação cultural e artística da região mineradora adquiriu características próprias, o que provocou reflexos também em outras regiões da colônia. n No âmbito da luta pela cidadania perceber os privilégios dados pelo governo aos mais ricos e a exploração imposta aos mais pobres. Tamanha vigilância devia-se ao fato de a região das minas ter se tornado, durante certo período do século XVII, a principal fonte de riqueza de Portugal. Isso porque fora descoberto ouro e, mais tarde, diamantes em suas terras. O governo português procurava de todas as maneiras impedir que essas riquezas saíssem da região sem o pagamento do devido imposto. Mas, como veremos neste capítulo, isso nem sempre acontecia. HMOV_v2_PNLD2015_149a158_U03_C18.indd 149 3/20/13 4:37 PM 150 Unidade 3 A luta pela cidadania A Guerra dos Emboabas Apesar dos perigos e das dificuldades, aumen- tava cada vez mais o número de pessoas que chega- vam à região das minas. Os paulistas, contudo, não viam com bons olhos esse crescimento. Como tinham sido os primeiros a chegar, sentiam-se donos das des- cobertas e consideravam todos os demais invasores. Os forasteiros oriundos de Portugal ou de ou- tras regiões da colônia eram chamados pelos ban- deirantes de emboabas – palavra derivada de buaba, em tupi, que significa ‘ave de patas emplumadas’. Os paulistas a associavam aos forasteiros pelo fato de es- tes utilizarem botas de canos longos, o que os fazia parecidos com a ave. Paulistas e emboabas mantinham relações ten- sas em torno do domínio das minas de ouro. Em 1707, a tensão se transformou em conflito armado que se estendeu até 1709 e ficou conhecido como Guerra dos Emboabas (veja a seção No mundo das letras, na página 157). Os primeiros enfrentamentos ocorreram nas re- giões de Sabará, Caeté, Vila Rica (atual Ouro Preto) e São João Del Rey, no atual estado de Minas Gerais, e resultaram em diversas mortes. Em 1708, os emboa- bas formaram um exército de 3 mil homens sob o co- mando do português Manuel Nunes Viana, grande proprietário de terras no sertão baiano. Seu objeti- vo era expulsar da região os paulistas, chefiados por Borba Gato. 2 A corrida pelo ouro A partir de 1693, depois de uma longa procura, bandeirantes paulistas começaram a descobrir ouro em diferentes lugares da região que logo passaria a ser chamada de Minas Gerais: Antônio Rodrigues Ar- zão, em Caeté, Bartolomeu Bueno de Siqueira, em Pi- tangui, e Borba Gato, em Sabará. Assim que a notícia da descoberta do metal se espalhou, teve início uma verdadeira corrida do ouro à região. Homens e mulheres, ricos e pobres, secula- res e clérigos, negros, brancos, indígenas e mestiços largavam tudo (ou fugiam, no caso dos escravos) e se dirigiam para as Minas Gerais em busca de enrique- cimento rápido. De Portugal, passaram a chegar cer- ca de 4 mil pessoas por ano com destino às minas. A miscigenação entre pessoas de etnias tão variadas re- sultaria, com o tempo, em uma mestiçagem sem pre- cedentes na história da colônia portuguesa. Vilas e cidades do litoral ficaram com suas po- pulações reduzidas quase que exclusivamente a ido- sos, mulheres e crianças. Engenhos do Nordeste para- vam de funcionar porque seus proprietários ficavam sem mão de obra; outros eram abandonados pelos próprios donos, que reuniam seus escravos e partiam para a região mineradora. Alguns aventureiros saíam às pressas de São Paulo ou do litoral em direção à região das minas sem nenhum tipo de preparo. Dessa forma, muitos deles morriam no caminho, de fome ou em confrontos com indígenas, que procuravam defender suas ter- ras da invasão dos forasteiros. Os que sobreviviam à jornada também enfrentavam a fome, pois ali os ali- mentos eram vendidos a preços exorbitantes. Por exemplo, enquanto em São Paulo um queijo custava 120 réis, na região aurífera era vendido a um valor equivalente a 3 600 réis. Valor equivalente por- que, na maioria das vezes, os produtos eram pagos em ouro. Assim, um queijo custava 2 gramas de ouro, e um boi, 100 gramas. A exploração do ouro teve início onde era mais fá- cil encontrá-lo e extraí-lo: nos córregos e rios. Era o cha- mado ouro de aluvião, encontrado na mistura de areia e cascalho depositados no fundo dos cursos de água. Quando os aluviões se esgotaram, os garimpei- ros passaram a explorar o ouro de grupiara, encra- vado nas pedras das montanhas e cuja retirada era mais trabalhosa. Por fim, os exploradores começaram a perfurar as montanhas para encontrar na rocha os filões do chamado ouro de minas. 1 Aquarela do pintor austríaco Thomas Ender (1793-1875) que representa a cidade de Vila Rica (atual Ouro Preto). Ender veio ao Brasil em 1817 integrando uma expedição científica. T h o m a s E n d e r/ A k a d e m ia D e r B il d e n d e n K ü n s te , V ie n a /A rq u iv o d a e d it o ra HMOV_v2_PNLD2015_149a158_U03_C18.indd 150 3/20/13 4:37 PM 151Ouro e diamante na colônia portuguesa Capítulo 18 Em 1709, trezentos paulistas foram trucidados às margens do rio das Mortes, após terem deposto as ar- mas e se rendido aos emboabas, sob a promessa de que suas vidas seriam poupadas. O episódio ficou co- nhecido como Capão da Traição. Inferiorizadosnume- ricamente, os paulistas se retiraram da região das mi- nas. Alguns voltaram para São Paulo, outros seguiram em direção ao território dos atuais estados de Mato Grosso e Goiás, onde descobriram novas jazidas de ouro (veja a seção Olho vivo, nas páginas 152 e 153). Regulamentação e controle de riqueza Com o fim da Guerra dos Emboabas, em 1709, a Coroa portuguesa criou a Capitania de São Paulo e Minas do Ouro, separada das de São Vicente e Rio de Janeiro. Ao mesmo tempo, enviou para a nova ca- pitania duas companhias de Dragões – força militar destinada a manter a ordem e coibir manifestações de descontentamento. Também foram estabelecidos vários órgãos para representar os interesses do Estado português na região do ouro. Entre eles, a Intendência das Minas, cuja fun- ção era a de cuidar da concessão de terras destinadas à mineração e regular as relações entre os mineradores. De acordo com a lei vigente, quem encontras- se ouro deveria comunicar imediatamente o fato aos funcionários do governo. Estes iam até o local e divi- diam a área – conhecida como lavra – em lotes de no máximo 66 metros quadrados e chamados de datas. Ao descobridor da lavra cabiam duas datas. A Coroa e o chefe da intendência tinham direito a uma data cada um. As demais eram colocadas à venda por meio de leilão. Só podiam comprar uma data inteira pes- soas que possuíssem pelo me- nos 12 escravos*. Além daqueles que procuravam o metal em da- tas concedidas pela Intendência, havia os faiscadores, pessoas que, em geral, viviam no limiar da indigência e saíam em busca do ouro de maneira independen- te. Eles trabalhavam em áreas já exploradas e aban- donadas pelos grandes mineradores ou em locais que acreditavam ser promissores. Muitos eram escravos que tinham uma certa cota de ouro a encontrar. Caso ultrapassassem o montante estipulado, poderiam guardar consigo o excedente e utilizar mais tarde o total assim acumulado para comprar a liberdade, pa- gando-a com o próprio metal. 3 Pintura de Carlos Julião (século XVIII) representando o trabalho escravo em uma mina da região das Minas Gerais. C a rl o s J u li ã o /F u n d a ç ã o B ib li o te c a N a c io n a l, R io d e J a n e ir o /A rq u iv o d a e d it o ra No início da mineração, os que chegavam pri- meiro tinham a sorte de ficar com o ouro encontra- do. Mais tarde, com a regulamentação imposta pelo governo português, essa situação mudou. A partir de então, verificou-se uma grande concentração de ri- queza nas mãos de poucos. Assim, em 1710, como observa o historiador Angelo Alves Carrara, apenas cinco pessoas ficaram com 47,65% de todo o ouro garimpado na região do rio das Mortes. Um século mais tarde, quando a produção aurífera já escassea- va, enquanto os cinco maiores produtores dividiam entre si 82 quilos do metal (média de 16,4 quilos por pessoa), outros 586 mineradores ficavam com menos de 184 quilos (média de 347 gramas por pessoa). Impostos e revoltas Além de mecanismos para controlar a produção aurífera, o governo de Portugal criou impostos que recaíam sobre todos os mineradores. Entre os vários tributos estabelecidos, os mais significativos foram o quinto e a capitação. * Veja o filme Chico Rei, de Walter Sales Jr., 1987. HMOV_v2_PNLD2015_149a158_U03_C18.indd 151 6/20/14 11:32 AM 152 Unidade 3 A luta pela cidadania No começo do século XVIII, bandeirantes paulistas se instalaram na região do atual estado de Goiás em busca de ouro, onde fundaram diversos arraiais. O mais importante deles foi o arraial de Sant’Ana, fundado em 1727 por Bartolomeu Bueno da Silva, o segundo Anhanguera, filho do sertanista de mesmo nome, o velho Anhanguera (reveja o capítulo 11). Erguido às margens do rio Vermelho, em cujas águas havia ouro, passou a se chamar Vila Boa de Goiás e, em 1748, com a criação da capitania de Goiás, Olho vivo Goiás Velho em 1751 Símbolo do poder público, a Câmara Municipal e a cadeia funcionavam em um mesmo prédio. Em 1766, ambas foram transferidas para outro prédio, existente ainda hoje. O costume de manter as duas instituições em um mesmo edifício perdurou até os primeiros tempos do Império. Casa da Real Intendência, um dos poucos sobrados erguidos em Vila Boa de Goiás, no século XVIII. A Intendência era um órgão criado pelo governo de Portugal para administrar as lavras nas regiões auríferas. Cabia ao intendente regular as concessões, as relações entre os mineradores e a arrecadação dos tributos. O local também funcionou como Casa de Fundição. O prédio, atualmente, é utilizado pelo Ministério Público. Identificada no desenho como “Casas da residência do general”, essa construção é conhecida hoje como Palácio do conde dos Arcos (veja a foto abaixo). Até 1937, funcionou como residência oficial dos governadores de Goiás. Atualmente, sedia a administração municipal da cidade e abriga um museu. Palácio do conde dos Arcos na cidade de Goiás, também conhecida como Goiás Velho, antiga Vila Boa de Goiás, em foto de julho de 2011. Construído em 1751, o palácio foi por muito tempo sede do governo de Goiás. Igreja de Nossa Senhora da Boa Morte. Começou a ser construída pelos militares, mas eles não puderam concluí-la porque havia uma proibição real que os impedia de serem donos de igrejas. Foi doada à Irmandade dos Homens Pardos, que a concluíram em 1779. É sede hoje de um museu de arte sacra. Durante a Semana Santa, dela sai a Procissão do Fogaréu (releia a seção Patrimônio e diversidade do capítulo 11). Fachada da antiga igreja de Nossa Senhora da Boa Morte, em Goiás Velho (atual cidade de Goiás), hoje transformada em museu de arte sacra, em foto de julho de 2011. Vila Boa de Goiás representada em desenho de 1751. A u to r d es co n h ec id o /C as a d a Ín su a, P o rt u g al /A rq u iv o d a ed it o ra S er g io R an al li/ P u ls ar Im ag en s D el fi m M ar ti n s/ P u ls ar Im ag en s HMOV_v2_PNLD2015_149a158_U03_C18.indd 152 3/20/13 4:37 PM