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Historia em movimento Vol 2-22

Capítulo sobre a independência da América espanhola: aborda a hierarquia social colonial (criollos, mestiços, indígenas, africanos escravizados), revoltas (Juan Santos Atahualpa, Tupac Amaru, Miguel Hidalgo, Francisco Miranda), emancipação pós-1807, caudilhismo e manutenção das haciendas.

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146 Unidade 3 A luta pela cidadania
terra. Apesar de deter parte do poder econômico, os 
criollos não tinham influência política, pois estavam 
impedidos de ocupar os cargos públicos mais eleva-
dos, reservados para os espanhóis.
Numa posição inferior, encontravam-se os 
mestizos e mulatos, descendentes da união de 
espanhóis com indígenas e negras, respectivamen-
te. Eles compunham a grande massa da população. 
De modo geral, eram trabalhadores livres. Os indí-
genas, em contrapartida, embora fossem conside-
rados livres, eram obrigados a prestar serviços para 
os chapetones e criollos, o que desestruturou as 
sociedades indígenas preexistentes à colonização.
Na base da sociedade encontravam-se os africa-
nos escravizados. Eles concentravam-se quase que ex-
clusivamente na região do Caribe. Vítimas dos mais va-
riados tipos de violência, não tinham nenhum direito.
América hispânica 
em guerra
As desigualdades sociais e a espoliação impos-
ta pela Espanha fizeram com que a América espa-
nhola fosse palco de revoltas em diversos momen-
tos. No vice-reino do Peru, por exemplo, em 1742 
o líder indígena Juan Santos Atahualpa (c. 1710-
-1756) mobilizou indígenas e mestiços (mestizos e 
3
Uma das primeiras 
rebeliões pela 
independência na América 
espanhola ocorreu em 
1810, na região do atual 
México. Essa rebelião é 
representada no afresco 
ao lado (detalhe), de 
1962, do pintor mexicano 
Juan O’Goman, no qual 
aparece com destaque 
o padre Miguel Hidalgo, 
líder do movimento (de 
braços erguidos).
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mulatos) em uma luta que se estendeu por catorze 
anos com o objetivo de restaurar o Império Inca.
Em 1780, outro líder indígena, José Gabriel 
Condorcanqui (1738-1781), adotou o nome do úl-
timo chefe inca – Tupac Amaru, morto pelos es-
panhóis em 1572 – e comandou uma das maiores 
rebeliões indígenas da América Latina, ao mobili-
zar cerca de 60 mil pessoas contra o domínio espa-
nhol no vice-reino do Peru. Sufocado o levante em 
1781, Tupac Amaru foi amarrado a quatro cavalos 
e despedaçado em público.
Em 1806, eclodiu na capitania-geral da Vene-
zuela nova rebelião contra o domínio espanhol. Lide-
rada pelo criollo Francisco Miranda (1750-1816), foi 
rapidamente sufocada pelas forças leais à Espanha.
Com a deposição, na Espanha, do rei Fernando 
VII pelas tropas de Napoleão em 1807 (releia capítu-
lo 16), os criollos, aproveitaram da fragilidade espa-
nhola e destituíram as autoridades nomeadas pelo 
governo da metrópole em diversas regiões.
As lutas na América se intensificaram a par-
tir de 1814, ano em que Fernando VII recuperou o 
Trono espanhol e, além de abolir a Constituição fei-
ta pelos revoltosos em 1812, enviou tropas à Amé-
rica. Mas, até meados do século XIX, praticamente 
todas as colônias hispano-americanas já se encon-
travam emancipadas.
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147A independência da América espanhola Capítulo 17
O caudilhismo
Os movimentos de emancipação 
da América espanhola mobilizaram di-
versos setores da sociedade – criollos, 
camponeses, militares, indígenas, 
mestiços. Os benefícios da indepen-
dência, porém, não foram distribuí-
dos de forma equitativa entre eles. Os 
grandes privilegiados foram os criollos, 
que ocuparam o lugar dos peninsula-
res como grupo politicamente domi-
nante (veja o boxe a seguir).
A reforma agrária, que se en-
contrava nas propostas de muitos re-
volucionários, mal saiu do papel. As 
haciendas (latifúndios) continuaram 
intocáveis. Muitas aumentaram de 
área depois que seus proprietários se 
apoderaram das terras comunais ocu-
padas anteriormente pelos indígenas.
Quanto às camadas mais pobres 
da população, a situação não melho-
rou. Socialmente marginalizados, esses 
grupos passaram a servir de massa de 
manobra para um novo tipo de político 
surgido no continente: o caudilho.
O termo caudilho designa os líderes políticos e 
chefes militares pertencentes ao grupo dos criollos 
que, após a independência de seus países, tornaram-
-se senhores de exércitos particulares e, ao assumi-
4
Adaptado de: WORLD History Atlas: Mapping the Human Journey. 
London: Dorling Kindersley, 2005.
OCEANO
PACÍFICO 
0º 
60º O 
OCEANO
ATLÂNTICO
CUBA
1898
HAITI
1804
MÉXICO
1821 REPÚBLICA
DOMINICANA
1844
VENEZUELA
1819
COLÔMBIA
1819
EQUADOR
1822
PERU
1824
BOLÍVIA
1825
PARAGUAI
1811
BRASIL
1822
ARGENTINA
1816
URUGUAI
1828
GUIANA 1966
GUIANA FRANCESA
SURINAME 1975
BELIZE 1981
HONDURAS 1838
NICARÁGUA 1838
GUATEMALA
1838
EL SALVADOR
1838
COSTA RICA
1838
PANAMÁ
1903
CHILE
1818
Equador
Trópico de Capricórnio
Trópico de Câncer
A INDEPENDÊNCIA DA AMÉRICA LATINA
0 800
QUILÔMETROS
ESCALA
1600
O beneficiário mais evidente da independência 
da América espanhola foi a elite criolla. No fim do 
período colonial, a maioria de seus membros eram 
proprietários rurais, muitos podiam ser encontra-
dos no clero e alguns exerciam atividades no co-
mércio internacional de grande escala. Alguns 
também ocupavam postos no governo, mas princi-
palmente em cargos menos importantes, como ad-
vogados, fiscais de renda ou administradores pro-
vinciais do segundo escalão.
Conquistada a independência, multiplicaram-
-se as oportunidades de carreira no governo e na 
política para os criollos, não apenas por terem subs-
tituído os espanhóis nos postos mais elevados, mas 
também em razão da própria natureza dos gover-
nos republicanos que conseguiram instaurar. En-
quanto o sistema colonial havia requerido apenas 
um corpo relativamente pequeno de juízes, admi-
nistradores provinciais, oficiais militares e fiscais 
de renda, as novas repúblicas exigiam todos esses 
e muitos mais: foram criados sistemas mais ela-
borados de tribunais de apelação; foi preciso ins-
tituir legislativos federais, usualmente compostos 
de duas câmaras, e muitas vezes também legisla-
O poder dos criollos
rem o governo de suas nações (ou de suas regiões), 
exerceram o poder de forma personalista, autoritária 
e em benefício próprio.
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148 Unidade 3 A luta pela cidadania
Mundo virtual
 n Biblioteca virtual da América Latina – Organizada pelo Memorial da América Latina, 
disponibiliza link direto com acervos de arte e bibliotecas on-line dos países latino-americanos. 
Disponível em: <www.bvmemorial.fapesp.br/php/index.php?lang=pt>. Acesso em: 22 nov. 2012.
Hora DE REFLETIR
Pode-se afirmar que, com a conquista da in-
dependência, as populações hispano-americanas 
adquiriram também a cidadania plena, com to-
dos os seus direitos e deveres? Elabore um ar-
gumento escrito sobre o assunto em defesa de 
sua opinião. Seu texto deve ser curto e objetivo, 
com duas ou três linhas. Com a ajuda do profes-
sor, participe de uma apresentação oral “instan-
tânea” na qual todos os alunos contribuam com 
seus argumentos.
1. Como estava organizada a sociedade colonial hispa-
no-americana por volta do século XIX, quando eclo-
diram diversas lutas de independência na região?
2. A América espanhola foi palco de diversas rebe-
liões durante o período colonial. Cite três dessas 
rebeliões derrotadas pelas forças da metrópole.
3. Que relação pode ser estabelecida entre a ocu-
pação francesa da Espanha, em 1807, e a eclo-
são de movimentos de independência na Amé-
rica hispânica?
4. As lutas de independência na América hispâni-
ca colocaram no primeiro plano a figura do cau-
dilho, um personagem fundamental para a com-
preensão da história do continente a partir do sé-
culo XIX. Defina o que é um caudilho.
5. Explique a seguinte afirmação: embora os mo-
vimentos de emancipação espanhola tivessem 
mobilizado diversos setores da sociedade, os be-
nefícios da independência não foram distribuí-
dos de forma equitativa entreeles.
Organizando as IDEIas
tivos provinciais; finalmente, no plano mais alto, 
precisou-se distribuir diversos postos no gabinete 
e no subgabinete, cargos nos conselhos de Estado 
e pelo menos alguns postos diplomáticos.
Para aqueles que não pertenciam ao grupo 
criollo as recompensas políticas da independên-
cia foram limitadas. Os criollos demonstraram 
pouca disposição de compartilhar o poder com os 
mestizos e mulatos e outros grupos das camadas 
baixas da ordem social colonial. É verdade que 
alguns mestizos e mulatos alcançaram destaque 
político individualmente durante as lutas pela in-
dependência, quase sempre em razão das faça-
nhas que realizaram como chefes de guerrilha ou 
de outras forças militares.
Adaptado de: SAFFORD, Frank. Política, 
ideologia e sociedade na América espanhola do 
pós-independência. In: BETHELL, Leslie (Org.). 
História da América: da independência a 1870. 
São Paulo/Brasília: Edusp/Imprensa Oficial do Estado/ 
Fundação Alexandre de Gusmão, 2004. v. 3, p. 360-362.
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149
Quem não gostaria de fazer uma viagem 
no tempo, percorrendo os mesmos caminhos 
trilhados por tropeiros e bandeirantes há mais 
de trezentos anos? Tem sido com esse espírito 
de aventura que um número crescente de 
pessoas vem se interessando por participar de 
caminhadas ou cavalgadas ao longo do que 
restou das chamadas Estradas Reais. Esses 
caminhos atravessam serras e rios e passam por 
construções centenárias, como igrejas e sedes 
de fazendas.
As Estradas Reais eram as únicas vias 
pelas quais as pessoas que viviam na colônia 
portuguesa na América podiam circular, caso 
desejassem entrar ou sair da região que hoje 
compreende o estado de Minas Gerais.
Existiam quatro estradas, conhecidas como 
Caminho Velho, Caminho Novo, Caminho dos 
Diamantes e Caminho da Bahia. Ao longo delas, 
a Coroa portuguesa instalou postos de 
fi scalização para controlar o fl uxo de pessoas.
Trecho da Estrada Real 
“Caminho Velho”. 
Tratava-se de uma das vias 
que dava acesso à região 
das Minas Gerais, durante o 
período colonial, e a unia
às regiões do Rio de Janeiro 
e São Paulo. Foto de 2011.
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Mauricio Simonetti/Pulsar Imagens
Ouro e diamante 
na colônia portuguesa
Capítulo 18
Objetivos do capítulo
 n Perceber a forte influência da mineração de 
ouro e da extração de diamantes sobre o 
processo de colonização.
 n Compreender o processo de centralização e 
o controle de extração de ouro e diamantes 
colocados em prática pelo governo português. 
 n Perceber que, como resultado da mineração, a 
situação cultural e artística da região mineradora 
adquiriu características próprias, o que provocou 
reflexos também em outras regiões da colônia.
 n No âmbito da luta pela cidadania perceber os 
privilégios dados pelo governo aos mais ricos e 
a exploração imposta aos mais pobres.
Tamanha vigilância devia-se ao fato de a região 
das minas ter se tornado, durante certo período do 
século XVII, a principal fonte de riqueza de Portugal. 
Isso porque fora descoberto ouro e, mais tarde, 
diamantes em suas terras. O governo português 
procurava de todas as maneiras impedir que essas 
riquezas saíssem da região sem o pagamento do 
devido imposto. Mas, como veremos neste capítulo, 
isso nem sempre acontecia.
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150 Unidade 3 A luta pela cidadania
A Guerra dos Emboabas
Apesar dos perigos e das dificuldades, aumen-
tava cada vez mais o número de pessoas que chega-
vam à região das minas. Os paulistas, contudo, não 
viam com bons olhos esse crescimento. Como tinham 
sido os primeiros a chegar, sentiam-se donos das des-
cobertas e consideravam todos os demais invasores.
Os forasteiros oriundos de Portugal ou de ou-
tras regiões da colônia eram chamados pelos ban-
deirantes de emboabas – palavra derivada de buaba, 
em tupi, que significa ‘ave de patas emplumadas’. Os 
paulistas a associavam aos forasteiros pelo fato de es-
tes utilizarem botas de canos longos, o que os fazia 
parecidos com a ave.
Paulistas e emboabas mantinham relações ten-
sas em torno do domínio das minas de ouro. Em 
1707, a tensão se transformou em conflito armado 
que se estendeu até 1709 e ficou conhecido como 
Guerra dos Emboabas (veja a seção No mundo das 
letras, na página 157).
Os primeiros enfrentamentos ocorreram nas re-
giões de Sabará, Caeté, Vila Rica (atual Ouro Preto) e 
São João Del Rey, no atual estado de Minas Gerais, 
e resultaram em diversas mortes. Em 1708, os emboa-
bas formaram um exército de 3 mil homens sob o co-
mando do português Manuel Nunes Viana, grande 
proprietário de terras no sertão baiano. Seu objeti-
vo era expulsar da região os paulistas, chefiados por 
Borba Gato.
2
A corrida pelo ouro
A partir de 1693, depois de uma longa procura, 
bandeirantes paulistas começaram a descobrir ouro 
em diferentes lugares da região que logo passaria a 
ser chamada de Minas Gerais: Antônio Rodrigues Ar-
zão, em Caeté, Bartolomeu Bueno de Siqueira, em Pi-
tangui, e Borba Gato, em Sabará.
Assim que a notícia da descoberta do metal se 
espalhou, teve início uma verdadeira corrida do ouro 
à região. Homens e mulheres, ricos e pobres, secula-
res e clérigos, negros, brancos, indígenas e mestiços 
largavam tudo (ou fugiam, no caso dos escravos) e se 
dirigiam para as Minas Gerais em busca de enrique-
cimento rápido. De Portugal, passaram a chegar cer-
ca de 4 mil pessoas por ano com destino às minas. A 
miscigenação entre pessoas de etnias tão variadas re-
sultaria, com o tempo, em uma mestiçagem sem pre-
cedentes na história da colônia portuguesa.
Vilas e cidades do litoral ficaram com suas po-
pulações reduzidas quase que exclusivamente a ido-
sos, mulheres e crianças. Engenhos do Nordeste para-
vam de funcionar porque seus proprietários ficavam 
sem mão de obra; outros eram abandonados pelos 
próprios donos, que reuniam seus escravos e partiam 
para a região mineradora.
Alguns aventureiros saíam às pressas de São 
Paulo ou do litoral em direção à região das minas sem 
nenhum tipo de preparo. Dessa forma, muitos deles 
morriam no caminho, de fome ou em confrontos 
com indígenas, que procuravam defender suas ter-
ras da invasão dos forasteiros. Os que sobreviviam à 
jornada também enfrentavam a fome, pois ali os ali-
mentos eram vendidos a preços exorbitantes.
Por exemplo, enquanto em São Paulo um queijo 
custava 120 réis, na região aurífera era vendido a um 
valor equivalente a 3 600 réis. Valor equivalente por-
que, na maioria das vezes, os produtos eram pagos 
em ouro. Assim, um queijo custava 2 gramas de ouro, 
e um boi, 100 gramas.
A exploração do ouro teve início onde era mais fá-
cil encontrá-lo e extraí-lo: nos córregos e rios. Era o cha-
mado ouro de aluvião, encontrado na mistura de areia 
e cascalho depositados no fundo dos cursos de água.
Quando os aluviões se esgotaram, os garimpei-
ros passaram a explorar o ouro de grupiara, encra-
vado nas pedras das montanhas e cuja retirada era 
mais trabalhosa. Por fim, os exploradores começaram 
a perfurar as montanhas para encontrar na rocha os 
filões do chamado ouro de minas.
1
Aquarela do pintor austríaco Thomas Ender (1793-1875) que 
representa a cidade de Vila Rica (atual Ouro Preto). Ender veio 
ao Brasil em 1817 integrando uma expedição científica.
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151Ouro e diamante na colônia portuguesa Capítulo 18
Em 1709, trezentos paulistas foram trucidados às 
margens do rio das Mortes, após terem deposto as ar-
mas e se rendido aos emboabas, sob a promessa de 
que suas vidas seriam poupadas. O episódio ficou co-
nhecido como Capão da Traição. Inferiorizadosnume-
ricamente, os paulistas se retiraram da região das mi-
nas. Alguns voltaram para São Paulo, outros seguiram 
em direção ao território dos atuais estados de Mato 
Grosso e Goiás, onde descobriram novas jazidas de 
ouro (veja a seção Olho vivo, nas páginas 152 e 153).
Regulamentação 
e controle de riqueza
Com o fim da Guerra dos Emboabas, em 1709, 
a Coroa portuguesa criou a Capitania de São Paulo 
e Minas do Ouro, separada das de São Vicente e Rio 
de Janeiro. Ao mesmo tempo, enviou para a nova ca-
pitania duas companhias de Dragões – força militar 
destinada a manter a ordem e coibir manifestações 
de descontentamento.
Também foram estabelecidos vários órgãos para 
representar os interesses do Estado português na região 
do ouro. Entre eles, a Intendência das Minas, cuja fun-
ção era a de cuidar da concessão de terras destinadas à 
mineração e regular as relações entre os mineradores.
De acordo com a lei vigente, quem encontras-
se ouro deveria comunicar imediatamente o fato aos 
funcionários do governo. Estes iam até o local e divi-
diam a área – conhecida como lavra – em lotes de no 
máximo 66 metros quadrados e chamados de datas.
Ao descobridor da lavra cabiam duas datas. A 
Coroa e o chefe da intendência tinham direito a uma 
data cada um. As demais eram colocadas à venda 
por meio de leilão. Só podiam 
comprar uma data inteira pes-
soas que possuíssem pelo me-
nos 12 escravos*.
Além daqueles que procuravam o metal em da-
tas concedidas pela Intendência, havia os faiscadores, 
pessoas que, em geral, viviam no limiar da indigência 
e saíam em busca do ouro de maneira independen-
te. Eles trabalhavam em áreas já exploradas e aban-
donadas pelos grandes mineradores ou em locais que 
acreditavam ser promissores. Muitos eram escravos 
que tinham uma certa cota de ouro a encontrar. Caso 
ultrapassassem o montante estipulado, poderiam 
guardar consigo o excedente e utilizar mais tarde o 
total assim acumulado para comprar a liberdade, pa-
gando-a com o próprio metal.
3
Pintura de Carlos Julião (século XVIII) representando o 
trabalho escravo em uma mina da região das Minas Gerais.
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No início da mineração, os que chegavam pri-
meiro tinham a sorte de ficar com o ouro encontra-
do. Mais tarde, com a regulamentação imposta pelo 
governo português, essa situação mudou. A partir de 
então, verificou-se uma grande concentração de ri-
queza nas mãos de poucos. Assim, em 1710, como 
observa o historiador Angelo Alves Carrara, apenas 
cinco pessoas ficaram com 47,65% de todo o ouro 
garimpado na região do rio das Mortes. Um século 
mais tarde, quando a produção aurífera já escassea-
va, enquanto os cinco maiores produtores dividiam 
entre si 82 quilos do metal (média de 16,4 quilos por 
pessoa), outros 586 mineradores ficavam com menos 
de 184 quilos (média de 347 gramas por pessoa).
Impostos e revoltas
Além de mecanismos para controlar a produção 
aurífera, o governo de Portugal criou impostos que 
recaíam sobre todos os mineradores. Entre os vários 
tributos estabelecidos, os mais significativos foram o 
quinto e a capitação.
* Veja o filme Chico 
Rei, de Walter Sales 
Jr., 1987.
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152 Unidade 3 A luta pela cidadania
No começo do século XVIII, bandeirantes paulistas se instalaram na região do atual estado de Goiás 
em busca de ouro, onde fundaram diversos arraiais. O mais importante deles foi o arraial de Sant’Ana, 
fundado em 1727 por Bartolomeu Bueno da Silva, o segundo Anhanguera, filho do sertanista de mesmo 
nome, o velho Anhanguera (reveja o capítulo 11). Erguido às margens do rio Vermelho, em cujas águas 
havia ouro, passou a se chamar Vila Boa de Goiás e, em 1748, com a criação da capitania de Goiás, 
Olho vivo Goiás Velho em 1751
Símbolo do poder público, a Câmara Municipal 
e a cadeia funcionavam em um mesmo prédio. 
Em 1766, ambas foram transferidas para outro 
prédio, existente ainda hoje. O costume de 
manter as duas instituições em um mesmo edifício 
perdurou até os primeiros tempos do Império.
Casa da Real Intendência, um dos poucos 
sobrados erguidos em Vila Boa de Goiás, 
no século XVIII. A Intendência era um 
órgão criado pelo governo de Portugal 
para administrar as lavras nas regiões 
auríferas. Cabia ao intendente regular 
as concessões, as relações entre os 
mineradores e a arrecadação dos tributos. 
O local também funcionou como Casa 
de Fundição. O prédio, atualmente, é 
utilizado pelo Ministério Público.
Identificada no desenho como “Casas da 
residência do general”, essa construção 
é conhecida hoje como Palácio do conde 
dos Arcos (veja a foto abaixo). Até 1937, 
funcionou como residência oficial dos 
governadores de Goiás. Atualmente, 
sedia a administração municipal da 
cidade e abriga um museu.
Palácio do conde dos Arcos na cidade de 
Goiás, também conhecida como Goiás Velho, 
antiga Vila Boa de Goiás, em foto de julho de 
2011. Construído em 1751, o palácio foi por 
muito tempo sede do governo de Goiás.
Igreja de Nossa Senhora da Boa Morte. Começou a ser construída pelos 
militares, mas eles não puderam concluí-la porque havia uma proibição 
real que os impedia de serem donos de igrejas. Foi doada à Irmandade dos 
Homens Pardos, que a concluíram em 1779. É sede hoje de um museu de 
arte sacra. Durante a Semana Santa, dela sai a Procissão do Fogaréu 
(releia a seção Patrimônio e diversidade do capítulo 11).
Fachada da antiga igreja de Nossa Senhora da Boa Morte, em Goiás Velho (atual cidade 
de Goiás), hoje transformada em museu de arte sacra, em foto de julho de 2011.
Vila Boa de Goiás representada 
em desenho de 1751.
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