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Álvaro Vieira Pinto
SETE LIÇÕES
SOBRE EDUCAÇÃO
DE ADULTOS
JL
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
S278e
82-1411
Pinto, Álvaro Vieira, 1909-
Sele lições sobre educação de adultos / Álvaro Vieira Pinto :
Introdução e entrevista de Dermeval Saviani e Belly Antunes de Oliveira :
versão final revista pelo autor, — 8. ed. — São Paulo : Coitez, 1993.
Bibliografia.
ISBN 85-249-0202-7
1, Educação. 2. Educação de adultos 3. Educadores brasileiros -
Entrevistas 4. Pinto, Álvaro Vieira. 1909 - [Saviani, Dermeval. 1944]
[Oliveira, Belly Antunes de]. 1. Título.
CDD-374.000
-370.000
-923.781
índices para catálogo sistemático:
1. Adultos : educação 374
2. Brasil: Educadores : Entrevistas : Biografia 923.781
3. Educação 370
4. Educação de adultos 374
5. Educadores brasileiros : entrevistas : Biografia 923.781
6. Entrevistas com educadores brasileiros : Biografia 923.781
SU M Á R IO
Introdução, 9
19 tema: Conceito de educação, 29
29 tema: Forma e conteúdo da educação, 41
39 tema: As concepções ingênua e crítica da educação, 59
49 tema: Educação infantil e educação de adultos, 69
59 tema: Estudo particular do problema da educação de
adultos, 79
69 tema: O problema da alfabetização, 91
79 tema: A formação do educador, 106
IN TR O D U Ç Ã O
Meu primeiro contato direto com a obra de Álvaro Viei
ra Pinto se deu no início de 1972 quando, perambulando
por livrarias do centro de São Paulo, encontrei, numa banca
de livros com 50% de desconto, a obra Ciência e existência:
problemas filosóficos da pesquisa científica (Rio, Paz & Ter
ra, 1969). A leitura do índice me indicava que o texto trata
va de assuntos que me interessavam vivamente. Adquiri o
livro, certo de ter feito duplamente um bom negócio: com
prara um livro valioso e pela metade do preço. Cerca de um
mês depois, retornei à mesma livraria e encontrei a mesma
obra numa banca de ofertas a 25% do preço de capa.
No segundo semestre daquele mesmo ano de 1972, in-
diquei alguns capítulos do livro como texto de apoio a uma
unidade da disciplina "Problemas da Educação I " que come
cei a ministrar no Programa de Pós-Graduação em Filosofia
da Educação em São Paulo e Piracicaba. A partir daí o livro
passou a ser indicado pelos alunos que eram professores em
diferentes instituições de ensino superior. A obra voltou a
ser comercializada pelo preço normal, acabando por se esgo
tar. Após relutâncias da Editora, a insistência de pedidos le
vou-a a lançar a segunda edição.
9
Narro esse episódio porque as vicissitudes da referida
obra espelham, de uma certa maneira, as vicissitudes pelas
quais passou seu autor. Na verdade, ao que eu saiba, Ciência
e existência é o único livro de Vieira Pinto lançado por uma
editora comercial1. À época em que entrei em contato com
esse livro eu já dispunha de algumas informações sobre seu
autor. Sabia que ele havia sido Diretor do ISEB (Instituto
Superior de Estudos Brasileiros), que havia desempenhado
importante papel na mobilização político-social do início
da década de 60, que provocara o seu exílio em decorrência
do golpe militar de 1964. Conhecia também algumas refe
rências e comentários à sua obra, como por exemplo a de
Antônio Paim, para citar uma apreciação desfavorável, e a
de Paulo Freire, para citar uma apreciação favorável. Paim,
em História das idéias fiiosóficas no Brasil, a despeito das
ressalvas e objeções, resultantes, a meu ver, do fato de que
se coloca numa posição filosófico-ideológica oposta àquela
em que se situa A. V. Pinto, nem por isso deixa de reconhe
cer o lugar proeminente que Vieira Pinto ocupa no âmbito
do pensamento filosófico brasileiro. Já Paulo Freire, em di
versas passagens de Educação como prática da liberdade, re
gistra a influência e ressalta a importância da obra de Álva
ro Vieira Pinto, a quem ele chama de "mestre brasileiro".
Apesar das informações de que dispunha, persistia em
mim uma grande curiosidade a respeito daquele polêmico
pensador que era apresentado, na quarta capa do livro Ciên
cia e existência, como sendo, na opinião de muitos, "o pri
meiro universal mente importante filósofo brasileiro". Quem
era ele? Como se tinha tornado filósofo? 0 que tinha sido
feito dele? Onde estaria ele e o que estaria fazendo?
A oportunidade para responder a essas indagações sur
giu em 1977, quando fui informado que o Professor Álvaro
V. Pinto estava morando no Rio de Janeiro. Consegui, en
1. Consciência e realidade nacional e ideologia e desenvolvimento nacio
nal foram editados pelo ISEB. A questão da Universidade, pela UNE (União Na
cional dos Estudantes). E l pensamiento crítico en demograffa, por sua vez, foi
editado pela ONU (Organização das Nações Unidas).
10
tão, visitá-lo em companhia de três colegas, à época minhas
colaboradoras na Universidade Federal de São Carlos. Essa
visita nos causou um forte impacto. Impressionou-nos a de
terminação com que o professor (assim costumamos cha
má-lo) se dedicava a um trabalho intelectual anônimo, soli
tário, porém sistemático. Eram vários livros cujos manuscri
tos já estavam prontos, constituindo um considerável nú
mero de volumes.
Soubemos, então, que o professor Vieira Pinto partiu
para o exílio em setembro de 1964. Passou um ano na Iugos
lávia, vivendo amargamente a experiência de exilado. Trans
feriu-se, depois, para o Chile, onde produziu vários traba
lhos, entre eles Ciência e existência, publicado no Brasil em
1969, e Sete lições sobre educação de adultos, que só agora
temos a satisfação de apresentar ao público brasileiro. As
saudades do Brasil, contudo, precipitaram sua volta, o que
ocorreu em fins de 1968, portanto no período mais negro
da ditadura militar, quando desabou sobre o país o famige
rado A 1-5. V. Pinto se recolheu em seu apartamento, onde
se dedicou exclusivamente à incansável tarefa de redigir os
manuscritos de um conjunto de obras até agora inéditas.
Em julho de 1981 retornei à sua casa, agora munido de
um gravador. Minha intenção era colher um depoimento
para a "A N D E — Revista da Associação Nacional de Educa
ção". A esta altura a anistia tinha tornado possível a regula
rização da sua situação. Ele obtivera a aposentadoria pela
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que absor
vera a Faculdade Nacional de Filosofia onde Vieira Pinto
havia obtido, por concurso, a cadeira de História da Filoso
fia. As precárias condições de saúde do professor, o cansaço,
o pouco tempo de que dispus não permitiram a realização
de uma entrevista estruturada, acabada. Considero, porém,
importante transcrevê-la tal como foi possível obtê-la, não
só pelas informações que contém mas principal mente por
que constitui um documento de quem resistiu de forma
peculiar ao arbítrio e sobreviveu a ele. 0 professor Álvaro
11
e Dona Maria estão lá bem vivos. Ele, revelando um ar de
superior indiferença, própria dos intelectuais que atingiram
a maturidade, quando afirma que, se tinha alguma contri
buição a dar, já a tinha dado. Mas não se furta a discorrer
com lucidez e firmeza sobre os temas a respeito dos quais
é solicitado a se manifestar. Ela, recordando com entusias
mo seu trabalho no ISEB, do qual foi a primeira funcioná
ria, re$ponsabilizando-se pelos serviços de secretaria. Foi lá
que ela conheceu Vieria Pinto, com quem - afirma agora
amorosamente - ela implicava porque era quem mais lhe
dava trabalho; aparecia frequentemente com longos manus
critos para ela datilografar. Mas envolve-se com o mesmo
entusiasmo nas tarefas do presente, datilografando os ma
nuscritos e se propondo a registrar os "insights" do marido
para eventuais publicações posteriores.
Segue, pois, a transcrição da entrevista que se desen
rolou de maneira informal, sem questões prévias ou rotei
ro pré-estabelecido. Não se pretendeu discutir as idéias do
autor; o objetivo foi reconstituir, na medida do possível, a
sua trajetória intelectual.
* * *
DermevalSaviani O senhor podería falar um pouco sobre
sua vida, sua formação intelectual?
Álvaro Vieira Pinto — Minha origem é de um rapaz de classe
média pobre, que teve necessidade de trabalhar logo cedo.
Fui aluno do colégio dos jesuítas, o Santo Inácio no Rio de
Janeiro. Naquele tempo, os exames eram feitos no Pedro II,
para passar de um ano para outro no colégio. Quando termi
nei os estudos no Colégio Santo Inácio fiquei um ano dispo
nível, sem poder entrar na faculdade, pois era muito jovem.
Tinha decidido estudar medicina. Minha família morou al
gum tempo em São Paulo onde fiquei um ano, mas sem es
tudar nada de ciências. Foi um ano importante, porque foi
um ano de formação literária e filosófica. Muito moço, com
12
14 anos, foi quando vim para o Rio de Janeiro, fazer o con
curso vestibular para a Faculdade Nacional de Medicina. Pas
sei em penúltimo lugar na turma e depois fui ser um dos pri
meiros alunos, porque eu não tinha formação nenhuma pre
paratória para aquele concurso: em São Paulo estudei muito
e fiz relações com alguns intelectuais que naquele tempo es
tavam saindo da agitação do período da Semana de Arte
Moderna. Eu já os peguei quando eles se reuniam todas as
semanas, todas as noites, todos os dias quase, no café do
Largo do Ouvidor, se não me engano, em São Paulo. Segui
a carreira médica com muita dificuldade, porque logo depois
meu pai teve um fracasso econômico e fiquei sem apoio,
tendo que trabalhar para sustentar a família. Perdi minha
mãe nesse período e ficamos quatro irmãos. Ficamos sem
apoio e sem condições de fazer alguma coisa. Comecei a dar
aulas num colégio de freiras, aulas de filosofia, de física, cur
so primário. Apesar disso ia fazendo aos poucos os meus es
tudos de medicina muito mal, para terminar o 59 e 6P anos
e me formar. Quando me formei, tentei fazer Clínica, justa
mente em São Paulo, em Aparecida, mas não tive sucesso
nenhum e não havia a menor condição para isso. Meu con
sultório era num quarto de hotel. Voltei para o Rio e aqui,
com apoio de um amigo que me apresentou ao Álvaro Osó
rio de Almeida, que naquele tempo estava com grande fa
ma, porque estava fazendo pesquisas sobre o câncer, e tra
balhos submetendo pacientes a pressões atmosféricas eleva
das, com câmaras especiais. Fiquei trabalhando nisso, mas
os resultados foram nulos. Assim trabalhei 16 anos, mas já
nesse tempo com a minha inclinação filosófica, eu estava
dando aulas também na Faculdade de Filosofia, que tinha
sido fundada no Distrito Federal naquele tempo, mas logo
depois essa faculdade fechou e criou-se a Faculdade Nacio
nal de Filosofia, para onde eu passei na qualidade de profes
sor adjunto. Comecei a dar cursos sobre lógica matemática,
mas um ano depois veio a guerra, houve a vaga na cadeira de
História da Filosofia por causa de uma mudança de profes
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sores que saíram porque eram alemães e eu era o único assis
tente na cadeira de Filosofia, sendo então nomeado profes
sor substituto em História da Filosofia.
Saviani — Mas o senhor não tinha feito curso de Filosofia...
Vieira Pinto - Não tinha feito nenhum curso de Filosofia,
tinha apenas estudado muito, em livros todos eles de orien
tação tomista evidentemente, porque fiz o curso que havia
no Colégio Santo Inácio, com a duração de um ano de Filo
sofia, coisa que era uma novidade naquela época. Depois de
quatro anos na Faculdade Nacional de Filosofia, pude então
ir à Europa onde fui estudar na Sorbonne, o tempo suficien
te para ver e sentir o ambiente filosófico de Paris.
Saviani — Isso foi em que época?
Vieira Pinto - Isso foi em 1949.
Saviani — 0 senhor ficou quantos anos na França?
Vieira Pinto — Na França fiquei quase um ano estudando;
aí eu já tinha em mente o tema da minha tese, para defesa
da cátedra na Faculdade de Filosofia na volta. Foi a tese so
bre a cosmologia de Platão. Dei duas conferências sobre essa
tese lá em Paris que foi discutida, muito comentada. Reco
lhí material e com isso fiz o meu trabalho aqui no Brasil pa
ra apresentá-lo na Faculdade. Afinal, fui aprovado e nomea
do para a Faculdade de Filosofia. Logo depois terminou o
meu trabalho no laboratório de Biologia, porque o laborató
rio foi transformado em instituição privada, com o que não
concordei. Fiquei então na Faculdade como professor, mas
aí não mais de Lógica e sim de História da Filosofia, onde
permanecí vários anos.
Saviani — 0 seu estudo na Europa foi só na França ou em al
gum outro país mais?
Vieira Pinto — Não. Visitei outros países: Itália, Espanha,
Portugal, mas estudo só na França.
Saviani — E os seus conhecimentos de línguas?
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Vieira Pinto — Bom, isso af foi um pouco inclinação natural
que eu tive sempre pelas línguas e fui aprendendo com a lei
tura, não tive professor particular, fui aprendendo quase que
sozinho, decorando palavras e aprendendo textos, exceto o
grego que aprendi com um rapaz ex-seminarista que sabia
muito bem o grego e que me deu aulas, urna vez por sema
na, durante 2 anos.
Saviani — No Colégio Santo Inácio o senhor não estudava
línguas?
Vieira Pinto - Só inglês e francês e foi mesmo a única base
que tive, porque eu estudava seriamente e a prova está que
só com aquele estudo pude me preparar para o trabalho de
leitura e conversação em inglês e francês. O alemão foi por
acaso. Estudei sozinho lendo gramáticas e livros de textos.
O russo, eu tive por professor um começo de ensino com um
velho oficial de marinha, refugiado, que me dava aulas gra
tuitamente e depois sozinho com dicionários e textos fui
aos poucos me desenvolvendo.
Saviani — Mais uma coisa sobre as línguas. E o latim o se
nhor estudou no Colégio Santo Inácio?
Vieira Pinto — Sim, o latim estudei no Colégio Santo Inácio.
Era um bom estudo.
Saviani — O senhor então domina o latim, o grego, o francês,
o inglês, o alemão, o russo, o espanhol e o italiano?
Vieira Pinto — Sim. Tenho conhecimentos suficientes des
ses idiomas. Mais tarde aprendi um pouco de sérvio-croata,
quando estive no exílio na Iugoslávia, mas isso foi uma coi
sa efêmera, pois sabia que não precisava mais daquele estu
do. Estudei para ler o jornal daquele país para saber as, no
tícias da nossa terra.
Saviani — 0 senhor fez curso de Matemática?
Vieira Pinto — Sim. Fiz o curso de matemática superior,
porque tinha um amigo, que depois foi meu colega de facul
dade, hoje falecido, que me incentivou para fazer o curso
15
de matemática. Era professor de mecânica superior. Fiz o
curso na Universidade do Distrito Federal, que então exis
tia. Mas o curso tinha dois alunos só, eu e um repetente. No
meio do 3P ano encerrou-se o curso, pois a escola fechou.
As aulas eram dadas em um café. Mas com professores da
melhor qualidade, homens de grande valor, 2 ou 3 só. Fi-
quei num dilema, pois precisava da matemática para enten
der o problema do raio-X. Como eu usava muito o raio-X
no tratamento de doentes e de animais, eu precisava conhe
cer bem a física corpuscular e daí a necessidade que tive de
me fazer competente também nessas questões.
Saviani — E a F ísica, o senhor chegou a fazer algum curso
regular dentro da própria Medicina?
Vieira Pinto - Dentro da Medicina não. O curso de Física
foi feito juntamente com o curso de Matemática.
Saviani — Então o senhor estudou Matemática e Física na
época em que o senhor trabalhava no laboratório?
Vieira Pinto - Sim, no laboratório de Biologia.
Saviani - O laboratório pertencia ao hospital?
Vieira Pinto — Não, não pertencia ao hospital, apenas fun
cionava lá.
Saviani — O senhor era assistente no laboratório e também
médico no hospital?
Vieira Pinto — O laboratório também era um hospital, por
que tínhamos uma parte de pesquisa e outra de enfermaria.
Saviani - Paramos quando o senhor, voltando da Europa,
assumiu a cadeira de História da Filosofia.
Vieira Pinto — Eu já era professor adjunto na Faculdade
quando saí com uma licença especial para ir à Europa estu
dar. Fui, fiquei um tempo, voltei e reassumi a cadeira deHis
tória da Filosofia.
Saviani — Isto já era 1951?
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Vieira Pinto — Sim, pois foi em 1951 que fiz o concurso e
fui aprovado e nomeado professor catedrático.
Saviani — Como professor de História da Filosofia qual era a
orientação filosófica que o senhor desenvolvia nos cursos?
Vieira Pinto — Era uma orientação exclusivamente pragmá
tica, quer dizer, eu dava o curso seguindo os manuais da filo
sofia comum, idealista, mas sempre num nível superior e ele
vado, desenvolvia cronologicamente o pensamento. Porque
eram 3 anos de filosofia grega, medieval, moderna e contem
porânea. Isso tinha que ser dado em condições precárias, eu
não tinha assistente algum. Mais tarde um ex-aluno tornou-
se meu assistente, José Américo Pessanha, que dividiu comi
go um pouco as atividades. Depois entra outro período, que
é o do aparecimento do ISEB, e o convite casual que recebi
de Roland Corbisier, para ser professor de Filosofia no ISEB.
Isto em 1955. Com a entrada para o ISEB fui mudando aos
poucos de orientação, fui tomando uma orientação mais ob-
jetivista, menos idealista e deixando de lado toda aquela for
ma clássica de ensinar História da Filosofia, que era pura
mente repetir o que o outro disse. Passei a fazer uma expo
sição sobre o autor e depois a crítica, o que me dava oportu
nidade de alargar mais o meu campo de pensamento, embo
ra sem jamais ter chegado a impor a ninguém qualquer idéia
extremista, ou qualquer idéia que julgava tal, que fosse con
siderada indevida num currículo de Filosofia. Na Faculdade
de Filosofia jamais saí da linha puramente ortodoxa do ensi
no da Filosofia; o que fazia era seguir os autores, natural
mente que se o autor dissesse alguma coisa com a qual eu
não concordava tinha que dizer o mesmo, porque a minha
obrigação era ensinar, não o que eu pensava, mas o que os
outros pensavam. Então eu tinha que repetir, resumir, repe
tir e depois fazer alguma crítica, mas muito pouco elabora
da, porque senão eu perdería muito tempo na crítica e aca
bava não podendo adiantar a matéria.
Saviani — O senhor assumiu a perspectiva existencialista?
17
Vieira Pinto — Realmente, nessa época, como estava numa
transição rápida, eu assumi muitas das posições existencia
listas que não conhecia até então, e assim tive oportunidade
de sentir o que havia de verdade nelas, não apenas no siste
ma que apresentavam, mas nos conceitos que se podiam
aproveitar e procurava formular por mim novas maneiras de
expor certas idéias de ordem humanista, de ordem histori-
cista e nacionalista; e acabou sendo o oposto do próprio
existencialismo, mas que tinha tirado do existência lismo> no
sentido de que via a realidade do homem passando por aque
la situação e chegando a outras conclusões. Depois, quando
fecharam o ISEB, fui para o exílio.
Saviani - Sobre o ISEB, o senhor chegou a tomar conheci
mento de alguns estudos posteriores a respeito do ISEB
quando estava no exílio?
Vieira Pinto •- Não, não cheguei.
Saviani — Nem do Nelson Werneck Sodré?
Vieira Pinto — Não.
Saviani — E o exílio na Iugoslávia?
Vieira Pinto — Fui para a Iugoslávia e lá fiquei um ano total
mente inativo, sem poder dar aula, pois conhecia muito mal
a língua. Depois de um ano fui para o Chile, por sugestão de
Paulo Freire. Ele conseguiu arranjar alguma coisa que eu pu
desse fazer e de fato recebí convite para fazer conferências,
organizadas por professores do Ministério da Educação jun
tamente com o Paulo Freire.
Saviani ~ Esse curso de conferências que o senhor preparou
sobre educação em 1966, o senhor se lembra dos itens?
Vieira Pinto - Educação, origem, base, finalidade, significa
do, técnicas, recursos, meios, como a realidade é modificada
pela educação, todo problema geral da educação para adul
tos, para professores que educavam adultos, analfabetos, ho
mens do campo geralmente. Dei conferências também para
professores. Eram cursos extras de verão.
18
Saviani — O senhor ficou quanto tempo no Chile?
Vieira Pinto — Fiquei quase três anos no Chile, em fins de
68 voltei.
Saviani - 0 trabalho principal que o senhor fez no Chile, fo
ram esses cursos?
Vieira Pinto — Esses cursos e ao mesmo tempo também ti
nha conseguido que um amigo brasileiro que trabalhava no
C ELA D E (Centro Latino-americano de Demografia) me
apresentasse à Diretora que me deu trabalho de tradução de
alguns pequenos panfletos. Depois a Diretora resolveu me
contratar a fim de escrever um livro sobre Demografia para
o CELAD E. Eu não sabia o que fazer porque não sabia nada
sobre Demografia, mas acabei estudando e escreví um livro
sobre o pensamento crítico em Demografia, que dois anos
depois o C ELA D E mandou editar, mas que não teve entra
da no Brasil. Está difundido na América toda, menos no
Brasil.
Saviani — Foi editado só em espanhol?
Vieira Pinto — Sim, só em espanhol.
Saviani — E o senhor não tem exemplares desse livro?
Vieira Pinto — Tenho ainda dois exemplares. Você já viu o
livro?
Saviani — Ainda não vi.
Vieira Pinto — Escrevi o livro em 8 meses. Considero um li
vro de grande importância para o meu pensamento; é um li
vro de grande significação.
Saviani — Gostaria de ler esse livro.
Vieira Pinto — Tenho apenas 2 exemplares. No C ELA D E
talvez haja ainda outros, deve haver. No México foi muito li
do, teve muita repercussão, foi muito procurado. Quando
acabei esse livro, no ano seguinte a Diretora do C E LA D E me
deu outro contrato para fazer outro livro. A í é que eu escre
vi o livro sobre Ciência e existência que não interessava ao
19
C ELA D E publicar. Publiquei-o quando voltei ao Brasil, pela
Editora Paz & Terra. E agora fico só com o que tenho guar
dado para publicar, mas é muita coisa! Tenho um livro sobre
Tecnologia, que é muito grande, vários volumes para abran
ger a matéria toda. Tenho pronto um livro sobre a Filosofia
Primeira; outro com o título A educação para um país opri
mido. Tenho outro sobre os roteiros do curso de Educação
de Adultos feito no Chile. Considerações éticas para um po-
i(o oprimido, livro sobre a ética que considero de grande va
lor riõ meu pensamento, porque não se dá à ética a impor
tância que ela tem e centralizo um grande número de ques
tões em torno de problemas éticos. Daí desenvolví um livro
que trata exatamente da ética, mas da ética concreta, da
ética real, de um País como o nosso, não é ética abstrata dos
valores, das teorias, ou noções abstratas do dever, obediên
cia, finalidade, nada disso. A ética real que funciona no
mundo. A sociologia do povo subdesenvolvido é outro livro
que tenho pronto. Cada livro tem 3 ou 4 volumes. A çrjtiçja
da existência ê outro livro que está guardado, um volume só,
incompleto, pois não pude continuar escrevendo o que de
sejava porque estava cansado.
Saviani — Esse foi o último livro?
Vieira Pinto — É o último e talvez o primeiro, porque eu co
mecei escrevendo o texto quando estava na Iugoslávia. Nada
de maior a dizer, nada de maior a esperar a não ser que não
se percam, que vocês jovens professores cuidem de procurar
um dia talvez publicar essas coisas se merecerem.
Saviani — Uma questão ainda que desperta alguma curiosi
dade é sobre aquele seu livro a respeito da Questão da Uni
versidade.
Vieira Pinto — Sei, aquele livro foi uma conferência que fiz
em Belo Horizonte e depois a diretoria da antiga UNE me
pediu para publicar.
¥ * ¥
20
LCB
Sublinhado
Como se vê, trata-se de um intelectual que se caracte
riza, praticamente, pelo autodidatismo. Não nos apressemos,
entretanto, a ver nesse fato um indicador de uma suposta
pouca importância da escola na formação dos intelectuais.
Lembremo-nos, conforme está registrado na entrevista, que
V. Pfrito estudou no Colégio Santo Inácio, dQS jesuítas, que
era, à época, um dos melhores do Rio de Janeiro, além de
ter feito os exames no Colégio Pedro 11. É, pois, pelo menos
plausível a suposição de que o autodidatismo produziu bons
frutos porque se desenvolveu sobre a base de uma sólida for
maçãogeral propiciada pela escolarização fundamental. De
qualquer forma, não é possível ignorar a importância educa
cional de Álvaro Vieira Pinto. De um lado, porque é um tes
temunho do modo como eram formados os intelectuais bra
sileiros até início dos anos 50. De outro lado, porque exer
ceu importante influência na formação e no trabalho de ou
tros intelectuais. Entretanto, é preciso registrar, além disso,
que o professor Álvaro Vieira Pinto se preocupou explicita
mente com a questão pedagógica. Essa preocupação fica evi
denciada no depoimento obtido pela professora Betty Oli
veira, em 13/03/82, cuja transcrição é reproduzida a seguir.
"Betty — O senhor poder ia resumir a sua visão sobre edu
cação?
Vieira Pinto — O caminho que o professor escolheu para
aprender foi ensinar. No ato do ensino ele se defronta com
as verdadeiras dificuldades, obstáculos reais, concretos, que
precisa superar. Nessa situação ele aprende. No meu livro so
bre tecnologia trato da teoria da comunicação que contribui
para a análise desse processo. Fiz a crítica da cibernética en
contrando algumas noções que, se não são originais, preci
sam ser consideradas fundamentais. Por exemplo: é indis
pensável o caráter de encontro de consciências no ato da
aprendizagem, porque a educação é uma transmissão de uma
consciência a outra, de alguma coisa que um já possui e o
11 21
LCB
Realce
outro ainda não. A teoria dialética do conhecimento é fun-
damentalmente cibernética, no sentido dialético da palavra.
Não a cibernética empírica que é essa af que se faz. Não se
trata da entrega de um embrulho de uma pessoa para outra,
mas de possibilitar uma modificação no modo como essa ou
tra pessoa, que é o aluno, está capacitado para receber em
brulhos. Na pedagogia, o princípio é a teoria da recepção do
sabido, porque é preciso que se modifique a outra consciên
cia. Isso tem muita importância porque permite estudar a
educação do ponto de vista cibernético, não material, como
se costuma fazer (quer dizer, só com dados estatísticos, com
método e técnicas, etc.), mas avaliando o resultado pela
transformação que a educação imprime à consciência do alu
no. Se ela não fizer isso, de nada adianta seu esforço. Um
dos graves erros na pedagogia alienada é esse. ê avaliar o re
sultado da prática educacional pela devolução do embrulho,
sem compreender que isso não é educação. A educação im
plica uma modificação de personalidade e é por isso que é
difícil de se aprender, porque ela modifica a personalidade
do educador ao mesmo tempo que vai modificando a do alu
no. Desse modo, a educação é eminentemente ameaçadora.
Ela consiste em abalar a segurança, a firmeza do professor,
sua consciência professoral (que teme perder o estabelecido,
que é o seu forte no plano da prática empírica) para se fle
xionar de acordo com as circunstâncias. A resistência do alu
no ao aprendizado é um fator de modificação da consciên
cia do educador, e não uma obstinação, uma incompetên
cia. Mostrar e trazer a educação para o domínio da ciberné
tica é uma imposição causada por duas ordens de fatores:
1) as massas educadas cada vez maiores; 2) e ao mesmo tem
po a mecanização dos processos pedagógicos. Se o educador
não se preparar, não terá condições para introduzir o verda
deiro fator, decisivo, no ato educativo, que é o papel da
consciência. Fica prisioneiro do que a cibernética chama de
hard-ware (todo o material, toda a parte mecânica, instru
mental). É evidente que o professor não pode transmitir fle
22
xibilidade ao seu ensino se não a possui ele próprio na sua
formação e na sua prática.
Não Èscrevi nenhum livro de pedagogia, embora tenha
muitas observações a fazer sobre ela.
Betty — Em outra ocasião o senhor falou sobre "pedagogia
filosófica". Em que consiste?
Vieira Pinto — Para construção de uma pedagogia filosófica
é preciso reunir dados ou elementos provenientes de quatro
setores do saber: 1) da teoria do pensamento (dialética);
2) da organização dos atos do conhecimento em seus diver
sos pontos; 3) do estudo fisiológico ideal da psicologia;
4) da teoria do desenvolvimento humano, essencial mente
histórico, marcado pelas diferentes culturas e civilizações.
Esses aspectos que abordei fazem parte do material pa
ra um livro sobre pedagogia que pensei em escrever. A polí
tica, a técnica, a ciência, têm que ser consideradas na peda
gogia, na teoria da pedagogia, para poder unificar e ao mes
mo tempo inspirar a verdade pedagógica nos diversos cam
pos em que ela se desdobra. O grande defeito que encontro
nos educadores é principal mente o de procurar uma pedago
gia pronta, quando não existe essa pedagogia pronta. E se
existisse seria imprestável. A pedagogia nasce (aí teria que
se dizer em grego paidos agogos, que é o ato, o verbo paida-
gogen, isto é, como é preciso saber, como conduzir a criança
à escola) no tempo da escravidão antiga, onde o escravo era
o educador que tinha que ser educado com o próprio ato
de tratar as crianças que lhe eram confiadas. Atualmente,
de uma certa maneira, isso tem que ser feito, pelo educador,
mas com uma consciência científica. É isso que falta com
preender. A educação é um ato intransitivo, quer dizer, o
educador não pode transformar a outrem que não esteja se
transformando no próprio trabalho de ensinar. Por isso é
que ele, ao ensinar, ele aprende.
Betty — O senhor podería explicitar melhor a sua frase: " A
resistência do aluno ao aprendizado é um fator de modifica
23
ção da consciência do educador e não uma obstinação, uma
incompetência"?
Vieira Pinto ~ 0 que quero dizer é que não há uma rigidez,
não há um a priori em educação. Ê o caso de repetir com
Leibniz, quando corrigiu Aristóteles, "exceto a própria edu
cação". Este á o único a priori que existe. Isso serve de afo
rismo. (Isso corresponde a pequenos enunciados de verdade
que o educador emite a propósito de um determinado ponto
que serve para condensar o pensamento exposto, de maneira
mais geral, na aula ou no livro. 0 aforismo é sempre uma
verdade condensada. Ao mesmo tempo é simbólica. De mo
do que há o risco das interpretações errôneas. Isto é preciso
evitar.)
A prática pedagógica é contraditória, é duplamente
contraditória porque ela supõe que quem ensina sabe, quan
do não sabe e quem aprende não sabe, quando, na verdade,
sabe. Essa é a contradição da pedagogia. Os erros que o edu
cador comete só criticamente podem ser chamados de erros,
e tem que se verificar até que ponto é ele o autor desses
erros.^E preciso entrar aí toda a teoria de Bacon sobre os
eidoia (tribus, specus, fori e teatri). Os ídolos são os erros
que os homens fazem. Todas essas condições interferem no
ato da educação. Têm que ser depuradas. Mas só a dialética
consegue. £ o que Bacon não podia fazer. Toda a minha
idéia consiste em criar uma teoria da educação que não se
ja teórica, no sentido em que fica desfigurada como teoria,
e sim corrigida pela prática da aula, pelo próprio ato de en
sinar. E por outro lado que seja uma prática que não se con
funda com um mero exercício, porque tem que valer como
compreensão teórica. Dessa forma a teoria responde às dú
vidas da prática. Sem essas dúvidas não havería teoria. A
teoria seria uma coisa sem maior significado, estéril. Essa
relação entre teoria e prática é outro aforismo muito im
portante. O professor deve praticar a organização crítica de
sua aula, em todos os aspectos. Por conseguinte, precisa bus
24
car os fundamentos, os pressupostos para cada coisa que faz
e também respostas para todas as objeções. £ uma justifica
tiva, um ato de buscar os fundamentos, continuamente, do
seu fazer. A í é que entra o papel da teoria da abstração. Um
aluno traz consigo todos os problemas que só são dele (en
quanto educando) porque ele está se formando. Quero mos
trar aqui a identidade de educação e formação. Como ele es
tá se formando, tem aqueles problemas que são dele; porque
está se formando para ser ele mesmo e nãooutra pessoa. Lo
go, na fase de educação é que se dá a fase de formação. É
um crescimento que tem dois aspectos: o aluno cresce como
aluno porque aprende e com isso se forma. Quer dizer, o
adulto educando é aquele que aprendeu o conjunto de co
nhecimentos que o formaram. É a noção de formação ligada
à de educação.
Seria importante agora tratar do aforismo sobre o pa
pel da escola que é uma coisa fundamental, muito comple
xa, para o qual a filosofia tem muito a contribuir. A escola é
o meio que o aluno vai viver como aluno. £ preciso aí estu
dar a relação entre os aspectos peculiares desse meio — a es
cola — com os demais. A escola representa a sociedade do
aluno para o educador crítico, para o qual a sociedade re
presenta a escola do educador. Quer dizer, a escola é um
ambiente e, ao mesmo tempo, um processo. E como tal
precisa ser entendida dinamicamente.
O ato de ensinar apresenta muitos obstáculos. Tudo vai
depender de como se considera esses obstáculos. Podem ser
de natureza material (falta de dinheiro, por exemplo) ou de
outro tipo de natureza, como uma incompreensão de um co
lega para outro. Isso também são formas de obstáculos. Po
de-se dizer que a pedagogia reproduz a sociologia; que não
há problema pedagógico que não seja sociológico, e vice-ver
sa. Toda transformação sociológica é fonte de modificações
pedagógicas. Eu gostaria de tratar desse assunto unindo ao
máximo a sociologia dialética com a pedagogia. £ necessário
levar também em conta a evolução do conteúdo da ciência.
25
A pedagogia não se torna científica por vontade do pesqui
sador ou do educador, mas quando as condições da prática
social permitem uma determinada explicação do ensino tor
nar-se científica. A ciência tem sua evolução própria e a pe
dagogia tem que se adaptar a essa evolução, mas de uma
perspectiva crítica que permita estabelecer o jogo de contra
dições.
Existe a ciência que também é uma forma de consciên
cia e tem influência decisiva para construir a representação
do objeto ou da atividade. E preciso também dar o máximo
valor è noção de finalidade. Não há teoria da educação sem
teoria da finalidade da educação.
£ preciso que o êxito de uma determinada atitude pe
dagógica não se transforme em obstáculo ao prosseguimento
do curso da própria educação. Os métodos bem sucedidos,
como o do Paulo Freire, podem acabar se tornando um quis
to, uma coisa que impede o prosseguimento do seu próprio
desenvolvimento."
* * *
Penso que a afirmação de Vieira Pinto "não escrevi ne
nhum livro de pedagogia, embora tenha muitas observações
a fazer sobre ela", decorre do fato de que as Sete lições so
bre educação de adultos foram aulas-conferências que ele
proferiu no Chile em 1966. Os textos que escreveu então,
ele os redigiu como roteiros das aulas que ministrou. No seu
entender, um livro exigiría maior desenvolvimento e apro
fundamento. Entretanto, Betty e eu o convencemos a pu
blicar os referidos roteiros na forma original. E isto não ape
nas pelas importantes contribuições que este pequeno livro
contém, e que reputamos ser de grande utilidade para os
educadores brasileiros de hoje, mas também como testemu
nho de um trabalho que vem se desenvolvendo já há mui
tos anos e que permanece vivo e atuante.
Hoje, quando diversos estudos já surgiram reconstituin
do o momento histórico em que A. V. Pinto se configurou
26
como um intelectual militante, pode-se fazer reparos a con
ceitos por ele emitidos e, mesmo, ao conjunto do seu pensa
mento filosófico. É impossível, porém, não reconhecer a sua
importância e a envergadura intelectual de um trabalho de
senvolvido em condições bastante adversas.
Após as considerações feitas, penso ter* ficado claro o
sentido da afirmação que fiz no início desta Introdução,
quando disse que as vicissitudes da obra Ciência e existência
espelham as vicissitudes pelas quais passou seu autor. Com
efeito, assim como a referida obra correu o risco de cair no
esquecimento mas se impôs, tornando obrigatória a sua re
edição, assim também seu autor, que parecia já ter-se retira
do do cenário cultural brasileiro, resistiu e retorna agora
através da presente obra.
A publicação deste livro é, pois, ao mesmo tempo uma
contribuição à cultura brasileira e uma homenagem a um
dos intelectuais que mais se empenhou na consolidação da
referida cultura.
A presente Introdução pretendeu trazer alguns subsí
dios que facilitassem ao leitor situar as Sete lições sobre edu
cação de adultos no contexto da vida e da obra do autor. Es
pero ter atingido esse objetivo.
Dermeval Saviani
São Paulo, abril de 1982
27
i
J
1P TEM A: CONCEITO DE ED U C A Ç Ã O
Que é a educação?
Deixaremos de lado as numerosas definições eruditas,
que não vamos mencionar, nem podemos *discutir e consi
deraremos a educação em seus dois significados: restrito e
amplo.
Em significado restrito, o da pedagogia clássica, con
vencional, sistematizada, refere-se a educação às fases infan
til e juvenil da vida do ser humano. Não se deve, no entanto,
reduzi-la a esses limites. Seria um erro lógico, filosófico e so
ciológico.
Em sentido amplo (e autêntico) a educação diz res
peito à existência humana em toda a sua duração e em todos
os seus aspectos. Desta maneira deve-se justificar lógica e so
ciologicamente o problema da educação de adultos. Daqui
deriva a verdadeira definição de educação.
A educação é o processo pelo qual a sociedade forma
seus membros à sua imagem e em função de seus interesses.
29
f) Por conseqüência, educação é formação (Bildung)
do homem pela sociedade, ou seja, o processo pelo qual a
sociedade atua constantemente sobre o desenvolvimento
do ser humano no intento de integrá-lo no modo de ser so
cial vigente e de conduzi-lo a aceitar e buscar os fins cole
tivos.
Caráter histórico-antropológico da educação
Partindo da definição exposta, podemos explicitar os
caracteres da educação:
a) A educação é um processo, portanto á o decorrer de
um fenômeno (a formação do homem) no tempo, ou seja,
é um fato histórico. Todavia,.é histórico em duplo sentido:
primeiro, no sentido de que representa a própria história in
dividual de cada ser humano; segundo, no sentido de que es
tá vinculada à fase vivida pela comunidade em sua contínua
evolução. Sendo um processo, desde logo se vê que não po
de ser racionalmente interpretada com os instrumentos da
lógica formal, mas somente com as categorias da lógica dia
lética.
b) A educação é um fato existencial. Refere-se ao mo
do como (por si mesmo e pelas ações exteriores que sofre) o
homem se faz ser homem. A educação configura o homem
em toda sua realidade. Pode-se dizer (em outra versão da de
finição) que é o processo pelo qual o homem adquire sua es
sência (real, social, não metafísica). É o processo constituti-
«t
vo do ser humano.
c) A educação é um fato social. Refere-se á sociedade
como um todo. É determinada pelo interesse que move a
comunidade a integrar todos os seus membros à forma social
vigente (relações econômicas, instituições, usos, ciências, ati
vidades, etc.). É o procedimento pelo qual a sociedade se
reproduz a si mesma ao longo de sua duração temporal.
Contudo, neste processo de auto-reprodução está contida,
30
desde logo, uma contradição: a sociedade desejaria fazer-se
no tempo futuro o mais igual possível a si mesma; porém, a
dinâmica da educação atua em sentido oposto, uma vez que
engendra necessariamente o progresso social, isto é, a dife
renciação do futuro em relação ao presente. Daí deriva o
duplo aspecto do fato social da educação: incorporação dos
indivíduos ao estado existente (a intenção de perpetuidade,
de conservação, de invariabilidade, inércia pedagógica, esta
bilidade educacional) e progresso, isto é, necessidade de rup
tura do equilíbrio presente, de adiantamento, de criação do
novo. Est'a contradição pertence à própria essência da educa
ção, dada sua natureza histórico-antropológica. Por ser con
traditória é quea educação é instrumental (no sentido em
que a consciência crítica emprega este qualificativo). Quan
do se verifica a simultaneidade consciente de incorporação
e progresso, tem-se a educação em sua forma integrada, isto
é, a plena realização da natureza humana.
d) A educação é um fenômeno cultural. Não somente
os conhecimentos, experiências, usos, crenças, valores, etc.
a transmitir ao indivíduo, mas também os métodos utiliza
dos pela totalidade social para exercer sua ação educativa
são parte do fundo cultural da comunidade e dependem do
grau de seu desenvolvimento. Em outras palavras, a educa
ção é a transmissão integrada da cultura em todos os seus
aspectos, segundo os moldes e pelos meios que a própria cul
tura existente possibilita. 0 método pedagógico é função da
cultura existente. O saber é o conjunto dos dados da cultura
que se têm tornado socialmente conscientes e que a socieda
de é capaz de expressar pela linguagem. Nas sociedades ile
tradas não existe saber graficamente conservado pela escrita
e, contudo, há transmissão do saber pela prática social, pela
via oral e, portanto, há educação.
e) Nas sociedades altamente desenvolvidas, com divi
sões internas em classes opostas, a educação não pode con
sistir na formação uniforme de todos os seus membros,
porque: por um lado, é excessivo o número de dados a trans
31
mitir; e, por outro, não há interesse nem possibilidade em
formar indivíduos iguais, mas se busca manter a desigualda
de social presente. Por isso, em tais sociedades, a educação
pelo saber letrado é sempre privilégio de um grupo ou clas
se, no sentido que se segue:
— somente este grupo tem assegurado o direito (real,
concreto) de saber (p. ex., alfabetização);
— somente membros desse grupo se especializam na ta
refa de educar;
— somente esse grupo tem o direito e o poder de legis
lar sobre a educação, ou seja, de definir aquilo em que deve
consistir a educação institucionalizada, escolarizada. Em
conseqüência, essa minoria unicamente reconhecerá como
educação a deste último tipo. Todo o restante do saber não
letrado, e as demais formas de cultura que a sociedade trans
mite a seus outros membros, é considerado incultura e au
sência de educação.
f) A educação se desenvolve sobre o fundamento do
processo econômico da sociedade. Porque é ele que:
— determina as possibilidades e as condições de cada
fase cultural;
— determina a distribuição das probabilidades educa
cionais na sociedade, em virtude do papel que atribui a ca
da indivíduo dentro da comunidade;
— proporciona os meios materiais para a,execução do
trabalho educacional, sua extensão e sua profundidade;
— dita os fins gerais da educação, que determina se
em uma dada comunidade serão formados indivíduos de
níveis culturais distintos, de acordo com sua posição no
trabalho comum (na sociedade fechada, dividida) ou se to
dos devem ter as mesmas oportunidades e possibilidades de
aprender (sociedades democráticas).
g) A educação é uma atividade teleológica. A formação
do indivíduo sempre visa a um fim. Está sempre "dirigida
para". No sentido geral esse fim é a conversão do educando
em membro útil da comunidade. No sentido restrito, for
32
mal, escolar, é a preparação de diferentes tipos de indiví
duos para executar as tarefas específicas da vida comunitária
(daí a divisão da instrução em graus, em carreiras, etc.). 0
que determina os fins da educação são os interesses do gru
po que detêm o comando social.
h) A educação é uma modalidade de trabalho social.
Para compreendê-la é necessário utilizar as categorias histó-
rico-antropológicas dialéticas, que definem o conceito de
"trabalho". A educação é parte do trabalho social porque:
— trata de formar os membros da comunidade para o
desempenho de uma função de trabalho no âmbito da ati
vidade total;
— o educador é um trabalhador (reconhecido como
tal);
— no caso especial da educação de adultos, dirige-se a
outro trabalhador, a quem tenciona transmitir conheci
mentos que lhe permitam elevar-se em sua condição de tra
balhador.
i) A educação é um fato de ordem consciente, é deter
minada pelo grau alcançado pela consciência social e obje
tiva suscitar no educando a consciência de si e do mundo.
É a formação da autoconsciência social ao longo do tempo
em todos os indivíduos que compõem a comunidade. Parte
da inconsciência cultural (educação primitiva, iletrada) e
atravessa múltiplas etapas de consciência crescente de si e
da realidade objetiva (mediante o saber adquirido, a cultura,
a ciência, etc.) até chegar à plena autoconsciência. Esta será
a etapa em que todos os indivíduos alcançam igualmente o
máximo de consciência crítica de si e de seu mundo permiti
da pelo estado de adiantamento do processo da realidade
(máxima consciência historicamente possível).
j) A educação é um processo exponencial, isto é, mul
tiplica-se por si mesma com sua própria realização. Quanto
mais educado, mais necessita o homem educar-se e portan
to exige mais educação. Como esta não está jamais acabada,
uma vez adquirido o conhecimento existente (educação
33
transmissiva) ingressa-se na fase criadora do saber (educação
inventiva).
k) A educação é por essência concreta. Pode ser conce
bida a priorí, mas o que a define é sua realização objetiva,
concreta. Esta realização depende das situações históricas
objetivas, das forças sociais presentes, de seu conflito, dos
interesses em causa, da extensão das massas privadas de co
nhecimento, etc. Por isso, toda discussão abstrata sobre
educação é inútil e prejudicial, trazendo em seu bojo sem
pre um estratagema da consciência dominante para justi
ficar-se e deixar de cumprir seus deveres culturais para
com o povo.
l) A educação é por natureza contraditória, pois im
plica simultaneamente conservação (dos dados do saber
adquirido) e criação, ou seja, crítica, negação e substitui
ção do saber existente. Somente desta maneira é profícua,
pois do contrário seria a repetição eterna do saber conside
rado definitivo e a anulação de toda possibilidade de cria
ção do novo e do progresso da cultura.
Historicidade da educação
A historicidade pertence à essência da educação. Não
se confunde com a temporal idade (que é o fato de haver ti
do um passado), porém se define por sua essencial transiti-
vidade (o fato de haver futuro). Por isso, a história da educa
ção favorece a compreensão do processo educacional; é in
dispensável, mas não a esgota. Porque o exercício da tarefa
educativa conduz à sua própria modificação, ao desenvolvi
mento de abertura para o futuro, ao adiantamento do pro
cesso como um todo. Por isso, todo "programa de educa
ção" é por natureza inconcluso e, até se poderia dizer, irrea-
lizável, pois sua própria execução altera a qualidade dos ele
mentos que o compõem (o aluno, o professor, os métodos,
as finalidades, etc.) e determina a necessidade de um segun
do programa, mais perfeito, mais adiantado. A educação é
I
34
histórica não porque se executa no tempo, mas porque é um
processo de formação do homem para o novo da cultura, do
trabalho, de sua autoconsciência. A educação como aconte
cimento humano é histórica não somente porque cada ho
mem é educado em um determinado momento do tempo
histórico geral - aquele em que lhe cabe viver* (historicidade
extrfnseca) — mas porque o processo de sua educação, com
preendido como o desenvolvimento de sua existência, é sua
própria história pessoal (historicidade intrínseca).
Dependência do conceito de "homem"
A educação é necessariamente intencional. Não se pode
pretender formar um homem sem um prévio conceito ideal
de homem. Este modelo, contudo, é um dado de consciên
cia e portanto pertence à consciência de alguém; concreta
mente, de alguém que está num dado tempo, num espaço,
em definida posição social. Desacordo com a natureza (posi
ção, interesse, fins) da consciência que comanda o processo
educacional, tal será o tipo social de educação. Nas formaselementares de consciência (sociedades aristocráticas ou oli-
gárquicas) o grupo dominante acredita que cabe a ele ditar a
seu gosto o processo educativo, porque acredita também
que o educando é um ser que não possui ainda consciência
e por isso necessita recebê-la pela educação. Nas formas su
periores de consciência (autoconsciência) o legislador, assim
como o educador, sabe que se enfrenta com uma outra cons
ciência e que seu papel consiste em trazê-la ao conhecimento
dos interesses gerais da sociedade mediante um permanente
diálogo entre consciências. Na forma elementar, ingênua, a
educação é considerada como o procedimento de transfor
mação do não-homem em homem. Na forma superior, crí
tica, a educação se concebe como um diálogo entre dois ho
mens, na verdade entre dois educadores. Daí que a educação
seja uma forma particular de responsabilidade da ação entre
os homens.
35
Fundamentos sociais do conceito de educação
Excetuando a etapa primitiva, todos os tipos de socie
dade têm produzido um conceito de educação, que natural
mente reflita as peculiaridades de sua estrutura e os interes
ses de seus grupos dirigentes. Por isso, não é possível conce
ber em abstrato um “modelo" de educação e pretender le
vá-lo à prática. A educação real tem sido sempre a educação
que era possível em determinada formação histórico-social,
dada a etapa em que se encontrava o processo de seu desen
volvimento (qualidade e quantidade das forças de trabalho,
adiantamentos técnicos, natureza e fins dos objetos produ
zidos, etc.). Todo o empenho de uma sociedade subdesen
volvida num esforço de crescimento, como a nossa, deve
consistir em desenvolver seus fundamentos materiais para
que sobre estes se possa edificar uma educação mais adian
tada, que reverterá em maior desenvolvimento destes mes
mos fundamentos.
A educação como fenômeno da cultura
A educação pertence à cultura em dois sentidos:
— primeiramente, no sentido de que o mesmo concei
to de educação é um dos produtos ideológicos da cultura.
Como tal reflete e resume a totalidade cultural que o enun
cia;
— em segundo lugar, a educação pertence ao campo
cultural por ser o processo produtor (e transmissor) da cul
tura.
Por conseqüência a educação é a cultura simultanea
mente como feita (porém não como acabada) no educador
que a transmite, e como fazendo-se no educando, que a re
cebe (refazendo-a), por conseguinte, capacitando-se a se
tornar o agente da ampliação dela.
Esta é uma indicação sumária. Há necessidade de um
debate mais amplo sobre o tema da “cultura", sobre as no
36
ções ingênua e crítica de "cultura". 0 analfabeto não é um
ignorante, não é um inculto, mas apenas o portador de for
mas pré-letradas de cultura (as quais coexistem às vezes com
uma nascente consciência crítica de seu estado, de seu papel
social, de seu trabalho).
<4
A educação como possibilidade humana
A espécie e a extensão da educação distribuída por
uma sociedade a seus membros são função de seu estado de
desenvolvimento material e cultural. Este é que determina
as possibilidades da educação tanto em qualidade (conteúdo
e métodos) como em quantidade (a quem e a quantos será
distribuída).
Do ponto de vista do indivíduo, as probabilidades de
receber educação diferenciada e de recebê-la em determina
do grau dependem de sua posição no contexto social, da na
tureza de seu trabalho e do valor atribuído a este pelos in
teresses da consciência social dominante.
Para que aumentem as possibilidades individuais de
educação, e para que se tornem universais, é necessário que
mude o ponto de vista dominante sobre o valor do homem
na sociedade, o que só ocorrerá pela mudança de valoração
atribuída ao trabalho. Quando o trabalho manual deixar de
ser um estigma e se converter em simples diferenciação do
trabalho social geral, a educação institucionalizada perderá
o caráter de privilégio e será um direito concretamente igual
para todos.
Nas sociedades divididas as possibilidades do indivíduo
de receber educação institucionalizada dependem:
a) do grau de desenvolvimento geral de tal sociedade,
que determina a necessidade de incorporação de seus mem
bros a formas superiores de cultura para o fim de executar
tipos mais complexos e mais produtivos de trabalho;
b) consciência de si, de seus grupos dirigentes, que
os conduz a criar seu "modelo" de homem e a nutrir a exi
37
gência de incorporação de m aior núm ero de ind iv íduo s às
form as letradas do saber;
c) a tribu ído a cada in d iv íduo ou que a cada in d iv íduo
cum pre no todo social, de onde deriva sua capacidade de
pressão coletiva (associado a outros da mesma condição)
sobre o centro de decisão social, no sentido de que lhes
seja d istribu ída educação em graus sempre mais elevados;
d) daí, a im portância dos m ovim entos de educação
conjunta de grandes grupos sociais (cam panhas de alfabeti
zação) pois determ inam o fenôm eno histórico da passagem
da quantidade à qualidade. D e fato, a exigência de muitos
(educandos) se converte em exigência de mais e de m elhor
educação.
A educação com o função social permanente
a) A educação é apenas o aspecto prático, ativo, da
convivência social. Na sociedade todos educam a todos per
manentemente. C om o o ind iv íduo não vive isolado, sua edu
cação é contínua. M ais particularmente, considerando-se
apenas a transm issão dos conhecim entos com pendiados, a
educação tam bém é permanente, pois o grupo dom inante
tem todo interesse em reproduzir-se nas gerações sucessivas,
o que faz transm itindo às novas gerações seu estilo dev ida,
seu saber, seus hábitos, seus valores, etc. Não existe socieda
de sem educação, ainda que nas form as prim itivas possa fal
tar a educação formalizada, institucionalizada (que a í é re
presentada pelos ritos sociais). Por conseqüência, nenhum
m em bro da com unidade é absolutam ente ignorante, do con
trário não poderia viver.
b) A sociedade está continuam ente equ ipando seus
m em bros com conhecim entos e atitudes que perm item a so
brevivência do grupo humano. O equ ívoco das concepções
instrum entalistas da educação (J. Dewey, behaviorism o em
geral) está em proceder segundo uma perspectiva ind iv idua
lista, acreditando que o m otor da educação está no interes
38
se do indivíduo de adaptar-se ao meio social, aprendendo as
respostas úteis aos desafios do ambiente, adquirindo o saber
como um instrumento que lhe permitirá resolver os proble
mas criados para si pelas experiências com que haverá de en
frentar-se. Esta é uma concepção que supõe que a sociedade
é naturalmente hostil ao homem e que ess^terá de prepa
rar-se para defender-se, o que faz por meio da educação (so
ciedade onde impera a competência desenfreada e a luta de
todos contra todos).
Na verdade, o motor da educação está no interesse da
sociedade em aproveitar para seus fins coletivos (sempre
estabelecidos, nas sociedades divididas, pelas camadas diri
gentes) a força do trabalho de cada um de seus membros
(sua capacidade criadora). Por isso, a educação não é uma
conquista do indivíduo (o que seria dar-lhe um fundamento
ou princípio subjetivo) mas uma função da sociedade e co
mo tal sempre dependente de seu grau de desenvolvimento.
Onde há sociedade há educação: logo, esta é permanente.
A educação é um processo histórico de criação do homem
para a sociedade e simultaneamente de modificação da
sociedade para benefício do homem
a) O homem é por essência um ser inacabado, pois se
constitui a si mesmo ao longo de sua existência social. A so
ciedade configura todas as experiências individuais do ho
mem, transmite-lhe resumidamente todos os conhecimentos
adquiridos no passado do grupo, e recolhe as contribuições
que o poder criador de cada indivíduo engendra e que ofe
rece à sua comunidade. Neste sentido, a sociedade cria o
homem para si.
b) Mas, sendo o homem um ser livre e criador (por suas
faculdades intelectuais) de cultura, as criaçõesque produz,
as inovações técnicas, artísticas, as idéias originais que des
cobre são incorporadas à cultura geral do grupo e logo trans
mitidas a outros indivíduos (da mesma ou das gerações se
39
guintes) que não as descobriram. Vão ser parte da educação
desses novos membros da sociedade, e deste modo o saber
e a cultura se desenvolvem e a educação se revela como um
processo expansivo incessante. O homem, educado pela so
ciedade, modifica esta mesma sociedade como resultado da
própria educação que tem recebido dela. Nisso consiste o
progresso social, no processo de autogeraçâo da cultura.
c) Verifica-se assim que a sociedade desempenha um
papel de mediação entre os homens no processo de criação
e transmissão da cultura, no qual consiste a educação. Entre
o educador e o educando se interpõe a sociedade, que, de
uma parte constitui o educador (e o institucionaliza) para
educar, e de outra, pressiona o educando para educar-se.
Mas essa transmissão da cultura pela educação, justamente
porque supõe a mediação (dialética) da sociedade, na reali
dade, pelo trabalho concreto dos homens, não é mecânica,
e por isso o saber não se comunica inalterado de um indiví
duo ao outro. Ao contrário, na passagem de um ao outro,
altera-se, torna-se maior pela contribuição da criação inte
lectual do educador, recebida pela sociedade e considerada
por ela como um acréscimo indispensável para ser comuni
cado ao educando.
40
<4
29 TEM A: FO R M A E CO N TEÜ DO D A ED U C AÇ AO
Diferença entre conteúdo e forma da educação
a) 0 que constitui o conteúdo da Educação comporta
duas respostas distintas:
a.1) Segundo o conceito ingênuo (o mais comum), o
conteúdo da Educação está definido pela totalidade dos co
nhecimentos que se transmitem do professor ao aluno. São
as disciplinas, o currículo do curso, aquele que enche as li
ções e são objeto da aprendizagem.
A Pedagogia convencional, oficial (alienada), concen
tra toda sua atenção na discussão deste conteúdo, com a in
tenção de o fazer mais adequado mais funcional possível
para cada fase da vida do educando, de modo a escolher co
mo assunto a transmitir somente aquele que será desejável
para a formação da criança, do adolescente, do universitá
rio. Percebe-se, desde logo, que esta escolha (na qual se re-
suhne todo o trabalho dos pedagogos de gabinete) terá que
ser ditada pelas concepções (estas mesmas dependentes dos
41
interesses) do pedagogo em relação ao tipo de homem que
convém formar mediante a educação.
É aqui onde se coloca o grande problema, a divergên
cia (de larga repercussão histórica) entre educação "huma
nista" e educação "tecnológica". O que se decide, com isto,
é o conceito que o pedagogo tem da natureza do homem, de
seu papel na sociedade, em última análise, do conceito de
sociedade para a qual deve preparar o educando. 0 debate
persiste até hoje, agora com marcada preponderância dos
defensores da educação "técnica", "educação para o mundo
de amanhã", etc.
Mostrar o vício de ingenuidade que afeta toda esta dis
cussão: não existe a diferenciação em tela, quando se parte
do conceito crítico unitário do "homem" e de sua realidade
num mundo em processo de desenvolvimento, com o qual
está indissolúvel mente ligado.
Porém a origem deste vício está na própria deficiência
da noção ingênua de "conteúdo" da educação (tal como aci
ma exposto).
É que:
Em primeiro lugar, a educação, como temos mostrado,
não deve se reduzir à transmissão escolar dos conhecimentos.
Em segundo lugar, o conteúdo da educação não está
constituído somente pela "matéria" do ensino, por aquilo
que se ensina, mas incorpora a totalidade das condições
objetivas que concretamente pertencem ao ato educacio
nal; assim, são parte do conteúdo da educação: o professor,
o aluno, ambos com todas suas condições sociais e pessoais,
as instalações da escola, os livros e materiais didáticos, as
condições locais da escola, etc. Não aceitar este ponto de
vista, é deliberadamente se colocar à margem do mundo
real, e raciocinar sobre uma reduzida e arbitrária abstração
(a "matéria" do ensino).
Em terceiro lugar, o conteúdo da educação está subme
tido ao processo em que ela consiste, não se pode conside
rá-lo como um volume estático, delimitado de conhecímen-
42
tos, como se fora uma carga a ser transportada de um lugar
a outro, porém é algo dinâmico, é fundamentalmente histó
rico, por isso não tem contornos definidos, é variável, não
se repete e só se realiza parcialmente em cada ato educati
vo, pois cada aluno absorve diferentemente a matéria de en
sino distribuída à classe comum.
Em quarto lugar, o conteúdo não pode ser considerado
desligado da forma. Ora, o conceito ingênuo do "conteúdo"
o destaca da "form a" e pretende tratá-lo por si mesmo à
parte, valorizá-lo em sua significação e utilidade intrínseca.
Em consequência, vê-se que é necessário alcançar o
conceito crítico do conteúdo da educação.
a.2) 0 conceito crítico do conteúdo envolve a totalida
de do processo educativo, a qual está sempre presente em
cada ato pedagógico (em uma lição, por exemplo). Não está
constituído somente por "aquilo que" se ensina, mas igual
mente por aquilo "que" ensina, "aquilo que" é ensinado,
com todo o complexo de suas condições pessoais, pelas cir
cunstâncias reais dentro das quais se desenvolve o processo
educacional. Unicamente nos graus mais elementares, a "ma
téria" do ensino se apresenta com qualidade de fixação e de
limitação, ainda que relativa. Ao passar a planos mais eleva
dos do saber, o ensino se torna cada vez mais objeto da com
preensão pessoal do professor, do autor de livros de texto,
do legislador, etc.
O conteúdo da educação — tal como a forma —, tem
caráter eminentemente social e, portanto, histórico. Ê defi
nido para cada fase e para cada situação da evolução dè uma
comunidade. Por conseguinte, deve atender primordialmen
te aos interesses da sociedade. Se esta é democrática, os in
teresses dominantes têm que ser os do povo, e se considera
mos um país em esforço de crescimento, tem que ser o de
suas populações que anseiam por modificar sua existência.
A discussão propriamente pedagógica sobre a conve
niência desta ou daquela "matéria" em um currículo escolar
não pode se fazer abstratamente, nem estar sujeita aos pre
43
conceitos do pedagogo. Deve refletir os objetivos gerais mais
prementes da sociedade como um todo, o que significa os
interesses das grandes massas e não os de uma elite letrada e
afortunada. O conteúdo da educação é "popular"por exce
lência. Só deixa de sê-lo de fato em condições de alienação
cultural (praticamente dominantes nas sociedades subdesen
volvidas).
O conteúdo da educação não é um adorno do espírito,
mas um "instrumento de realização do homem" dentro de
seu ambiente social. Daí a denúncia do exibicionismo cultu
ral, ingenuidades típicas das elites que a si mesmas se deno
minam "cultas", dos países atrasados.
b) 0 que constitui a forma da Educação?
Igualmente duas respostas distintas:
b.1) Segundo o conceito ingênuo, a forma da educação
são os procedimentos pedagógicos, o método (com todos
seus implementos técnicos) de acordo com o qual é admi
nistrado o ensino. É a maneira de transmitir o conhecimento.
Neste aspecto, a forma adquire importância capital na
pedagogia corrente, porque neste campo é onde se travam
de preferência os debates ociosos que caracterizam a peda
gogia ingênua. A forma é entendida aqui como realidade à
parte, destacada do conteúdo. Daí a tendência a concentrar
a atenção sobre a melhoria dos procedimentos da técnica pe
dagógica, como se isso representasse o essencial no progres
so do ensino.
Esta orientação se faz sentir especialmente no que se
refere à Educação de Adultos, muito particularmente no
problema da alfabetização. O afã (ingênuo) de buscar o
"melhor" método de produzir a "melhor" cartilha é típico
desta consciência.
b.2) Existe, evidentemente, um problema de forma, de
método, de transmissãodo saber. Porém não deve ser enten
dido ingenuamente e sim de maneira crítica.
Para começar, é necessário compreender que forma e
conteúdo são apenas aspectos — distintos, mas unidos — de
44
uma mesma realidade, que é o ato educacional com o um to
do, concretam ente indivisível e só analiticam ente separável
em partes. Por isso, estão inter-relacionados e se cond ic io
nam um ao outro. São aspectos e não com ponentes au tô
nom os.
Em segundo lugar, a form a da educação é função de
seus fin s sociais. Tem que ser em cada caso aquela que se
adapta ao conteúdo, isto é, à cond ição do educando, suas
possib ilidades im ediatas de ascensão cultural^ É em pírica e
segue apenas a regra de ser a m elhor possível para aquele a
quem é dada a educação, no sentido de ser a mais adequada
para fazê-lo sub ir de sua cond ição hum ana presente para o u
tra melhor, im ediatam ente e concretam ente possível. A fo r
ma da educação tem que ser aquela que perm ita a grandes
cam adas da popu lação passarem à etapa im ediatamente se
gu inte em seu processo de desenvolvim ento.
E inútil decretar, in-abstrato, que a educação escolari
zada deve ser obrigatória, universal e gratuita. A sociedade
não está capacitada para realizá-la concreta mente dessa m a
neira. A form a da educação, in c lu indo sua extensão e d istri
buição, deve tender para esse ideal, porém não se in stituc io
nalizar desde agora desse m odo, com o se já existissem as
condições para tanto. Fa ltando estas, a form a social da edu
cação tem que ser ditada pelo grau de adiantam ento do p ro
cesso de desenvolvim ento.
Relação de interdependência entre form a e conteúdo
Já tem os ind icado a relação m útua entre estes aspec
tos da Educação. Esta, com o realização concreta em um
processo objetivo, é um todo no qual conteúdo e form a se
d istinguem e se opõem apenas co m o fatores. Só se diferen
ciam pela análise conceituai à luz da qual aparecem com o
opostos, porém se identificam na constitu ição de um ato
real único.
45
Conteúdo e form a da educação significam m ais que
a sim ples coexistência e justaposição dos fatores. Repre
sentam um a unidade real, isto é, a dependência recíproca
de um ao outro. Assim , o conteúdo determ ina a form a da
educação na qual é m inistrada, porém esta por sua vez de
term ina a possibilidade da variação do conteúdo, aum entan
do-o, em um processo sem fim. A execução form al da trans
m issão de certo conteúdo instrutivo possib ilita a abertura
desse m esm o conteúdo para se inclu ir em algo mais, com o
adiantam ento e progresso do saber.
P o r isso, o m étodo educacional — em particular, o
m étodo de alfabetização — tem que ser defin ido com o de
pendência de seu conteúdo (e significado) social, ou seja, o
elem ento hum ano ao qual vai ser aplicado, de quem o deve
executar, dos recursos econôm icos existentes, das cond ições
concretas nas quais será levado à prática. Fora disso, é ape
nas obra imaginativa (cartilhas, cam panhas de alfabetização,
etc.), é pensam ento em abstrato, é projeto no vácuo social.
Quatro questões prim ordiais:
A quem educar? Q uem educa? C om que f in s ? Por que m e ios?
Nestas questões, resume-se todo o processo educa
cional em sua essencial inter-relaçao de conteúdo e forma.
T o d o projeto pedagógico tem que as considerar, com preen
dendo o seguinte:
Constituem uma unidade, são aspectos de um a só
totalidade.
Não se pode resolver quaisquer delas sem que esta
solução influa sobre as demais.
A atenção conjunta de todas elas não quer dizer
uniform idade, senão, sim plesm ente reconhecim ento de sua
interconexão.
É a sociedade, com o fundam ento e agente, quem ,
em última análise, as resolve, em função da consciência de si
46
que possui (esta, por sua vez, na dependência de seu estado
de desenvolvim ento).
A questão " A quem e d u c a r ? " se refere ao lado p r in
cipal do conteúdo hum ano da educação (o outro lado é o
educador). A resposta a esta pergunta é proporc ionada
pela sociedade com o um todo. A sociedadé onde imperam
desigualdades nas oportunidades, pela força de seu estado
presente de desenvolvim ento e de seus interesses, está co n
tinuam ente procedendo a um julgam ento de seus elem en
tos hum anos, destinando uns à educação sistematizada, es
colarizada, erudita; e ou tro s à educação inform al, livre, não
letrada.
A inda entre os que recebem educação escolar (e u n i
versitária) a d istribu ição das oportun idades e favores deriva
do jogo de influências sociais que fazem uns mais a fortuna
dos que outros.
A idéia do direito igual para todo s de receber educação
escolar começa por ser exigência de v isionários po lít ico s e
sociais e só passa a ser um a dem anda da consciência geral
quando se dão as condições objetivas que fundam entam
esse intento.
A exigência de educação para um m aior núm ero (e por
fim para todos) só chega a ser irresistível quando parte da
própria massa que com eça a recebê-la. Porque de agora em
diante se constitu i em fato po lítico. N ão é mais o projeto
bem intencionado de alguns pedagogos generosos.
É necessário d istingu ir entre o ponto de vista ingênuo
e o c r ít ico na resposta a esta pergunta. A consciência
ingênua, ainda que não o declare, não deseja que todo s se
jam instruídos. A consciência crítica, ao contrário, com pre
ende que todo s devem ser in stru ídos e hão de sê-lo. Porém
não cai no engano de acreditar que possa fazê-lo de im edia
to, e por isso é dócil aos e stím u los da realidade. Sabe que só
é possível forçar a realidade com a ux ílio dela mesma, ou se
ja, que só é possível fazer a educação total do povo pela
47
ação da fração deste que se vai educando. Daí que a cons
ciência crítica seja imediata mente realista, não utópica.
À pergunta "Quem educa?" responde-se: a fração
ilustrada da sociedade, nas pessoas de seus professores, para
tal devidamente preparados. A função de educar é um atri
buto da elite social. Deriva de seu status de possuidora do
saber e da cultura.
Nas sociedades onde não há oportunidades e o poder
econômico se acha concentrado, a função de educar é dele
gada a um pequeno grupo de indivíduos instruídos e deles se
espera que sirvam aos objetivos de tal sociedade. O educador
é concebido sempre como um funcionário, um servidor e
não como portador de uma consciência. Daí a necessidade
de despertar nos educadores o sentimento de dignidade e
autonomia, sendo esta concebida não como desligamento do
solo social e sim como poder de escolha pessoal, crítica, li
vre das forças sociais a que se identifica.
A preparação do educador é permanente e não se con
funde com a aquisição de um tesouro de conhecimentos que
lhe cabe transmitir a seus discípulos. É um fato humano que
se produz pelo encontro de consciências livres, a dos educa
dores entre si e os destes com os educandos.
O educador deve ser o portador da consciência mais
avançada de seu meio {conjuntamente com o filósofo, o so
ciólogo). Necessita possuir antes de tudo a noção crítica de
seu papel, isto é, refletir sobre o significado de sua missão
profissional, sobre as circunstâncias que a determinam e a
influenciam, e sobre as finalidades de sua ação.
A questão "Com que finalidade?" é respondida di
versamente de acordo com o ponto de vista do educador ou
do legislador.
A finalidade da educação está implícita no conteúdo e
na forma como é executada. É próprio da consciência críti
ca fazer dara a finalidade que concebe para o processo edu
cativo, enquanto a consciência ingênua, porque devem mui
tas vezes proceder de má fé (contra os interesses populares),
48
oculta ou dissimula as finalidades da educação sob os mais
diversos e sutis disfarces.
A finalidade da educação tem que ser nacional em sua
plena significação. Deve visar à transformação da nação, se
é atrasada, em país progressista, no mesmo planodas comu
nidades nacionais mais desenvolvidas. *
A educação tem que ser popular, por sua origem, por
seu fim e por seu conteúdo. O país é atrasado em virtude do
modo de vida de suas massas (não de suas elites). Por isso, a
transformação da existência do povo é o que constitui a
substância da mudança na realidade da nação.
Para ser popular, a educação tem que ser uma possibi
lidade igual para todos, em qualidade e quantidade. Por is
so, a alfabetização é apenas o início de um processo educa
cional que de direito deve sempre visar aos graus mais altos
do saber.
A finalidade da educação não se limita à comunicação
do saber formal, científico, técnico, artístico, etc. Esta co
municação é indispensável, está claro, porém o que se inten
ta por meio dela é a mudança da condição humana do indi
víduo que adquire o saber. Por isso, a educação é substanti
va, altera o ser do homem. A não ser assim, seria apenas ad
jetiva, mero ornamento da inteligência. O homem que
adquire o saber, passa a ver o mundo e a si mesmo deste ou
tro ponto de vista. Por isso se torna um elemento transfor
mador de seu mundo. Esta é a finalidade essencial da educa
ção. Tal é a razão de que todo movimento educacional te
nha conseqüências sociais e políticas.
A questão "Por que meios?" se refere fundamental
mente ao método e, acessoriamente, às circunstâncias mate
riais nas quais se cumpre o processo educacional. Tudo aqui
lo que influi executivamente no trabalho educacional, deste
ponto de vista é educador.
Devemos acentuar a importância das condições mate
riais (instalações e prédio da escola), em duplo sentido: pór
seu efeito psicológico e por sua significação sociológica. Nes-
49
I
te último sentido, a escola representa a primeira revelação à
criança de seu status social (a escola rica, a escola pobre),
porque é no edifício escolar que pela primeira vez a criança
toma contato com a capacidade da sociedade de atendê-la.
A escola é o primeiro "produto" social que está feito exclu
sivamente para ela.
A questão do método é decisiva. Não vamos debatê-la
neste momento. Basta assinalar que possui dois aspectos: o
técnico e o ideológico. É importante distingui-los bem, pois
o educador frequentemente procura encobrir com roupa
gens técnicas os interesses que não deseja discutir. Existe, es
tá claro, um problema muito sério de técnica pedagógica,
desde a alfabetização até a organização dos currículos uni
versitários, porémo que desejamos advertir é que toda solu
ção técnica de um problema pedagógico contém uma atitu
de ideológica.
Não se deve superestimar a significação do método, co
mo faz a consciência ingênua. Não é admissível considerá-la
como a única realidade do processo educacional, até o pon
to de admitir que as virtudes de um determinado método
podem suprir as deficiências dos demais fatores. Isso seria a
artificial ização do método.
Caráter ideológico da educação
Temos ressaltado várias vezes o caráter ideológico da
educação. Aqui desejamos apenas deixar explícito que esse
caráter, sendo dado pela consciência social, traz a marca de
sua origem, isto é, em termos concretos, refere-se à cons
ciência de alguém. É um dos modos do pensar social, porém
se expressa pela consciência dos indivíduos que se ocupam
desta questão, que são indivíduos vivos, dotados de condi
ções materiais e intelectuais, com interesses confessados e
implícitos, com desejos e intenções, etc.
A discussão completa deste assunto só pode ser feita
depois de se estudar o problema da consciência geral, sua
I
50
forma coletiva e individual, suas modalidades (ingênua e crí
tica}, etc.
Por ora, desejamos estabelecer que não há educação
sem idéia da educação. Nas sociedades primitivas, de educa
ção não institucionalizada, esta idéia é inconsciente e se
cumpre mediante os ritos sociais. Nas sociedades civilizadas,
esta idéia pode continuar implícita ou alcançar o nível da
plena consciência (ingênua ou crítica), na mentalidade dos
educadores e legisladores educacionais.
A idéia da educação (implícita ou explícita) dirige o
processo educacional. Por isto é que este tem caráter ideoló
gico. Daqui esta tese fundamental: Não há educação sem
teoria da educação (implícita ou explícita).
Igualmente, por isso é que constitui um processo social
(histórico-antropológico) e não um processo material. São
objetivos tanto um como o outro processo, porém as leis, os
momentos do primeiro são ditados pela consciência huma
na, enquanto as leis e fatos do segundo são independentes
da consciência do homem.
A educação é um fenômeno social totaf. Para aten
dê-la é indispensável empregar a categoria de totalidade. Sig
nifica que não se pode interpretá-la (nem planejá-la) se não
se tem em vista todo o conjunto de valores reais (sociais)
que sobre ela influem e dos efeitos gerais que dela resultam
sobre os demais aspectos da realidade social. A educação é
parte de um conjunto de interações e de interconexões re
cíprocas e não pode ser dissociada dele, tratada isoladamen
te. É parte de um todo, porém este todo sendo um proces
so, só a noção de totalidade permite compreender a inter-
relação de cada parte com as demais, pois não se trata de um
todo estático, e sim de uma realidade total em movimento,
na qual a alteração de qualquer elemento influi sobre todos
os demais. A noção de totalidade introduz uma nova percep
ção de fatos sociais, como são as campanhas de alfabetiza
ção e de educação de adultos. Porque coloca estes fatos à
luz do princípio de totalidade e mostra como repercutem
51
necessariamente sobre todos os aspectos da sociedade, ao
mesmo tempo que as mudanças ocorridas nos demais cam
pos, como efeito daquelas campanhas, revertem sobre a
compreensão, a valoração e o curso destas mesmas campa
nhas.
A alienação educacional como característica da
atividade piedagógica do país em vias de desenvolvimento
Que é a alienação? Em sua expressão mais geral, fi
losófica, é um conceito que define a condição de um ser que
se encontra privado de sua essência, ou porque se encontre
separado dela ou porque ela não se realiza completa mente,
perfeitamente em tal ser. Este é o aspecto antropológico do
conceito de alienação.
Em sentido mais restrito, histórico, social, a alienação
se refere ao estado do indivíduo; ou da comunidade, que
não retira de si mesma, de seus fundamentos objetivos, os
motivos, os determinantes (as matrizes) com que constitui
sua consciência, e sim os recebe passivamente de fora, de
outros indivíduos ou comunidades (para os quais são váli
dos), e se comporta de acordo com esses motivos e deter
minantes como se fossem seus. Neste sentido é que o indi
víduo ou a comunidade perdem sua essência. O homem per
de sua dignidade de ser livre, a sociedade perde suas carac
terísticas de autonomia, de capacidade criadora de si, ma
terial e culturalmente. A essência que exibem não é a sua,
é emprestada, quase sempre imposta a eles por outro indi
víduo ou sociedade mais forte que os submete. Assim, a
essência de tais seres está deslocada, eles são estranhos
(alheios) a ela, ao que deveríam ser, perdem por isso a con
dição, a dignidade antropológica, existencial, de sujeitos
de si, tornando-se objetos de outro.
A consciência alienada não se sente ligada à sua reali
dade autêntica (a seu ser nacional), à sua condição na so
ciedade, e sim se comporta como indiferente à sua realida
52
de ou alheio a ela, e se transporta em pensamento a um
mundo que não é o seu, ao qual passa a pertencer, adotando
suas atitudes, seu estilo de vida, seus valores, etc. É a trans
ferência imaginária do indivíduo para um mundo alheio, no
qual vai buscar inspiração para seus atos e suas idéias despre
zando o autêntico fundamento de sua realidatle {que lhe pa
rece pobre, feia, atrasada, suja, enferma, etc.). Pretende mo
dificar sua realidade com o auxílio de idéias e procedimen
tos que não foram induzidos do seu próprio mundo e sim
importados de realidadessociais e culturais alheias.
A alienação é um fato social objetivo e se refere à
consciência toda (por isso é um fenômeno total). 0 indiví
duo alienado repele totalmente sua inserção em seus funda
mentos histórico-nacionais e pretende resolver os problemas
de sua sociedade, de seu mundo (em particular o problema
da educação) por meio de critérios e métodos que não fo
ram extraídos de sua realidade, e sim recebidos de fora, ve
nerados justamente por ter esta origem. Vê-se assim que a
consciência alienada se impermeabiliza à sua realidade obje
tiva. Entre os dados de sua alienação figura evidentemente
o desconhecimento da mesma alienação e a repulsa a acei
tar esta acusação.
A alienação é característica da pedagogia nos paí
ses em vias de desenvolvimento. Tratando-se de países eco
nomicamente dependentes de um centro poderoso e tam
bém culturalmente dependentes desse centro, é natural que
sua consciência social comum seja do tipo ingênuo e por is
to sua visão de si mesmos e do mundo não se origina de sua
realidade, e sim é parte da dominação cultural que recebem
dos centros dominantes. Não possuem óptica própria, ven-
do-se a si mesmos e a toda a realidade com olhos alheios.
Somente quando se inicia o processo de tomada dé
consciência por uma sociedade, surge a possibilidade da de
núncia da alienação cultural da qual se encontra imbuída.
A pedagogia é naturalmente um dos campos prediletos
de exercício da consciência alienada. Os pedagogos desta es
53
pécie não buscam extrair de sua realidade as idéias com as
quais devem compor sua visão do processo educacional (que
teria então por tarefa principal a denúncia e o término da
alienação), e sim aceitam docilmente e sem críticas as fór
mulas que lhes são oferecidas ou insufladas pelas áreas cul
turalmente e economicamente mais adiantadas, porque acre
ditam ser a última palavra do progresso científico.
A possibilidade da implantação das idéias alienadas de
riva do prestígio dos centros que as produzem. O pedagogo
do país pobre (o intelectual em geral) julga inconsciente
mente que não está à altura, não tem condições de produzir
o saber, a arte, o gosto, o estilo de existência, crendo que
isso só é patrimônio de nações ricas. E por isso julga que só
lhe cabe imitar o que estas produzem, "aproveitando" (co
mo diz) o que de bom e de grande se produz, se descobre
e se usa em outras partes. Temos assim os fenômenos do
mimetismo e da transplantação cultural, que caracterizam
a existência das áreas atrasadas. Num período inicial do de
senvolvimento social, estes fenômenos são inevitáveis (e po
dem então até desempenhar um papel útil). Quando a socie
dade adquire suficiente consciência de si, baseada em um já
substancial desenvolvimento material, a alienação não mais
se justifica e traz o mais nefasto obstáculo à livre expansão
da força criadora do povo.
O imperativo da desalienação
Compreende-se portanto que a principal tarefa do edu
cador dotado de consciência crítica seja o incessante comba
te a todas as formas de alienação que afetam a sua socieda
de, particularmente aquelas que imperam no terreno da edu
cação.
Para isso é imprescindível que o educador se converta
à sua realidade, seja antes de tudo do seu próprio povo, ou
melhor, das camadas populares de sua nação. Aceitar "ser
do " país é o primeiro passo para compreender o "ser" do
país.
54
Isso significa que toda a produção cultural estrangeira
tem que ser recebida, estudada, assimilada, porém submetí-
da a um exame crítico, de maneira que se conserve aquilo
que se revela útil à tarefa nacional, e isso apenas em virtude
de razões internas (não por efeito de prestígio). Esta é a fase
de assimilação crítica. Por isso se vê que não deve existir
(não tem sentido) nenhuma atitude de xenofobia, de nacio
nalismo cego e estreito.
Depois desta conversão à sua própria realidade, a essên
cia do educador se transforma de tal modo que começa a
discernir por si mesmo um sem-número de verdades, a criar
idéias e lançar-se a iniciativas originais, que antes não seriam
possíveis em razão do respeito e da dependência que o para
lisavam.
Mesmo o conceito de educação mudará. Compreende
rá que a educação é antes de tudo prática sociat, e por isso
intransferível (no que tem de essencial) de uma sociedade
a outra. Terá que inventar os procedimentos técnicos e as
concepções diretrizes de sua atividade pedagógica, em fun
ção da resposta que dará às quatro questões antes formula
das. Estas serão agora respondidas de modo autêntico, não
alienado.
Somente a educação não alienada pode servir aos obje
tivos da sociedade em luta pelo seu desenvolvimento, e pela
transformação da vida do homem. E isto pela razão de que
se funda nas próprias condições de atraso e de miséria, não
as rechaça, e sim as aceita como um dado histórico-antropo-
lógico que terá que suprimir. Pelo contrário, se assume a
postura alienada, destacando-se dé sua base social, o educa
dor passará a construir no abstrato, no vácuo, seu trabalho
não teria possibilidade de reverter em proveito de sua socie
dade.
55
A busca e a definição de critérios autênticos para a
orientação da educação e para o desenvolvimento da
cultura numa sociedade em esforço de ascensão histórica
A denúncia e a supressão da alienação constituem as
condições prévias para o trabalho fecundo no campo da edu
cação. Antes disso, qualquer trabalho educativo só parcial
mente, incompleta mente se adaptará à realidade e dificil
mente contribuirá para transformá-la. Quando o educador
se conscientiza do fenômeno da alienação e se liberta dela
pela identificação com a essência histórica de seu próprio
povo, está capacitado a produzir o correto delineamento
da educação.
Para isso é necessário buscar e definir critérios au
tênticos que devem regular seu trabalho. Sabe agora que não
poderá recebê-tos de fora, pois só tem validade se forem de-
salienados. Terá então que se voltar para seu país, seu povo
e construir (com sua personalidade) a resposta para a reali
dade que o circunda.
Poderá cometer enganos, porém estes não se identifi
cam com a alienação (que é essencial, enquanto os erros nas
investigações são acidentais).
Terá que se valer da experiência alheia, porém agora
com visão crítica e somente disposto a utilizar o que for co
mum a seu povo e a outro.
Em termos gerais, o critério autêntico da educação
desalienada é o interesse do povo. Porém como não se pode
alterar a existência do homem do povo sem alterar os funda
mentos dessa existência, é atuando sobre as condições eco
nômicas do país, sobre as condições sociais do trabalho, que
a educação irá adquirindo o caráter de autenticidade, de de-
salienação que assegurará sua utilidade para o bem do homem.
Deste modo, o pedagogo dotado de consciência de
salienada compreende que terá que se unir aos pensadores e
sociólogos de mesma orientação para, num esforço comum,
descobrir o procedimento mais conveniente a adotar em sua
56
tarefa específica e de criar um sistema pedagógico adequa
do, em conteúdo e forma, às necessidades das populações a
que se destinam. Somente assim poderá assentar bases cultu
rais fecundas para que sobre elas o trabalho de todo o povo
se unifique num esforço consciente de ascensão histórica.
57
3 P TEM A:
A S CO NCEPÇÕ ES IN G ÊN U A E C R IT IC A D A
ED U C A Ç Ã O
Noção de consciência: representação mental da realida
de exterior, do objeto, do mundo, e representação mental
de si, do sujeito, autoconsciência.
A concepção ingênua
A concepção ingênua é aquela que procede de uma
consciência ingênua. Portanto, é necessário definir esta:
a) Consciência ingênua é aquela que — por motivos que
cabe à análise filosófica examinar — não inclui em sua repre
sentação da realidade exterior e de si mesma a compreensão
das condições e determinantes que a fazem pensar tal como
pensa. Não inclui a referência ao mundo objetivo como seu
determinante fundamental. Por isso julga-seum ponto de
partida absoluto, uma origem incondicional, acredita que
suas idéias vêm dela mesma, não provêm da realidade, ou se
ja, que têm origem em idéias anteriores. Assim, as idéias se
59
originam das idéias. A realidade é apenas recebida ou enqua
drada em um sistema de idéias que se cria por si mesmo.
b) A consciência ingênua pode refletir sobre si, tomar-
se a si mesma como objeto de sua compreensão, porém não
chega a ser uma autoconsciência. A simples reflexão sobre si
pode ser apenas introspecção, porém não se identifica com a
autoconsciência, porque esta só existe quando a percepção
do estado presente da consciência (por ela mesma) é acom
panhada da idéia clara de todos seus determinantes, vale di
zer, da totalidade da realidade objetiva que sobre ela influi
(o que só ocorre com a consciência crítica).
c) A consciência crítica é a representação mental do
mundo exterior e de si, acompanhada da clara percepção
dos condicionamentos objetivos que a fazem ter tal repre
sentação. Inclui necessariamente a referência à objetividade
como origem de seu modo de ser, o que implica compreen
der que o mundo objetivo é uma totalidade dentro da qual
se encontra inserida. Refere-se a si mesma sempre necessa
riamente no espaço e no tempo em que vive. É pois, por es
sência, histórica. Concebe-se segundo a categoria de proces
so, pois está ligada a um mundo objetivo que é um proces
so e reflete em si esta objetividade nas mesmas condições
lógicas que definem um processo.
d) A consciência crítica, quando reflete sobre si (sobre
seu conteúdo), torna-se verdadeiramente autoconsciência,
não pelo simples fato de chegar a ser objeto para si, e sim
pelo fato de perceber seu conteúdo acompanhado da repre
sentação de seus determinantes objetivos. Estes pertencem
ao mundo real, material, histórico, social, nacional, no qual
se encontra. A autoconsciência é portanto uma consciência
justificativa de si (em sua forma ou procedimento, em seu
conteúdo ou aquilo que percebe em função das condições
históricas e sociais de sua realidade, em particular, do grau
de desenvolvimento do processo nacional ao qual pertence).
60
A concepção ingênua da educação
No campo da educação — como em todos os de
mais — a consciência ingênua é sempre nociva, pois engendra
as mais equivocadas idéias, que se traduzem em ações e juí
zos que não coincidem com a essência do processo real, que
não são pois verdadeiras. Não podem levar à completa e rá
pida solução dos problemas que considera, e somente se tor
na uma fonte de equívocos, de desperdício de recursos, de
intentos frustrados.
Unicamente a título de exemplo, consideraremos a
seguir algumas amostras do pensar pedagógico ingênuo:
a) 0 educando como "'ignorante” em sentido absoluto.
Noção falsa em relação à criança, e muito mais todavia em
relação ao adulto. A educação escolar ou(a de adultos sem
pre toma o educando já como portador de um acervo de co
nhecimentos (por exemplo, a linguagem na criança ou o tra
balho no adulto). Estes conhecimentos prévios são o resulta
do da prática social do homem (criança ou adulto) e de sua
formação até o momento em que começar a receber educa
ção institucionalizada. A criança e o adulto vêm à escola já
preparados (inclusive para desejar vir è escola) por uma ou
tra escola geral, que é a sociedade, o meio onde vivem.
b) 0 educando como puro "objeto” da educação. E a
atitude ingênua mais freqüente: supor que cabe ao educador
formar, plasmar o aluno (como se costuma dizer), conceben
do-o como massa amorfa à qual compete dar a forma viva, o
saber. As concepções alienadas da educação têm precisa men
te esse caráter de alienação, porque concebem o educando
como objeto, e por isso não reconhecem nele a dignidade de
sujeito, de consciência autônoma (para si), que só pode ser
educada, instruída, em um diálogo esclarecedor e não em
uma imposição de idéias, procedimento que parte do supos
to de direito de domínio de uma consciência sobre outra.
c) A educação como transferência de um conhecimen
to finito. Esta ingenuidade se refere à noção de conteúdo e
61
form a da educação. Supõe que o professor é apenas o trans
m issor de um a mensagem defin itivam ente escrita, de um
conjunto de noções, de acordo com determ inado m étodo, e
que essa mensagem não se m odifica com as condições de
tem po e lugar, com o s interesses do educador e com o mes
m o ato de ser transm itida. A principal nocividade desta ati
tude está em preceituar lim ites ao processo pedagógico, em
dar caráter absoluto às divisões em graus, níveis, carreiras, etc.
d) A educação com o dever moraí da fração adulta, edu
cada e dirigente da sociedade. Esta ingenuidade é grave, po r
que converte a educação em ato caritativo e transfere para
o plano do s valores éticos (inteiramente alheios a este p ro
blema) a essência, o significado e a valoração em inentem en
te sociais da educação.
e) Para a consciência ingênua, a criança ou o adu lto a
educar são absolutam ente "igno ran te s". Porém a noção de
ignorância é tom ada aqui em sentido abstrato, isto é, não é
concebida com o "igno rânc ia de a lgo ", de algum conheci
mento (sempre concreto). Abso lutiza-se o conceito de " ig n o
rante " para as classes populares, enquanto se relativiza esse
m esm o conceito para as elites (a fim de que os representantes
dessa elite possam aparecer com o não ignorantes). Vê-se a
duplicidade de critérios, que revela o caráter interessado da
noção de ignorância: o hom em do povo é ignorante porque
não sabe alguma coisa, enquanto o m em bro da elite é culto
porque sabe alguma coisa. U m ind iv íduo não pode ignorar
assim alguma coisa, que é concretam ente sabida por outro.
Com o, porém, este outro ignora muitas coisas que o prim ei
ro sabe, o caráter da ignorância é sempre relativo. A cons
ciência ingênua necessita absolutizar a ignorância, o que só
pode fazer convertendo-a em um a noção irreal.
A concepção crítica da educação
A concepção crítica da educação procede segundo as
categorias que definem o m odo crítico de pensar. Particular
62
mente há que m encionar as de: objetividade (caráter social
do processo pedagógico), concretidade (caráter vital da edu
cação com o transform ação do ser do hom em ), historicidade
(a educação com o processo^ e totalidade (a educação com o
ato social que im plica o am biente íntegro da existência hu
mana, o país, o m undo e todo s o s fatores cititurais e mate
riais que influem sobre ele).
A concepção crítica é a antítese da ingênua. Portan
to, repudia o s pon to s de vista anteriorm ente expostos, defi
nidores desta última.
A concepção crítica é a única que está dotada da
verdadeira funcionalidade e utilidade, pois conduz à m udan
ça da situação do hom em e da realidade à qual pertence, em
virtude de ser a única que é capaz de oferecer o conteúdo e o
m étodo m ais eficaz para a instrução (alfabetização, escola
secundária, universidade) da criança e do adulto, tendo em
conta aquelas finalidades.
Vejam os a lgun s aspectos e spec íficos da concepção
crítica da educação:
1) O educando como sabedor e desconhecedor. O
educando evidentem ente não sabe aqu ilo que necessita
aprender (por exem plo ler e escrever), mas nem po r isso
pode ser considerado co m o um desconhecedor absoluto.
0 adulto analfabeto é em verdade um hom em culto, no
sentido objetivo (não idealista) do conceito de cultura, pos
to que, se não fosse assim, não poderia sobreviver. Sua in s
trução form al (alfabetização, escolarização) tem que se fazer
sem pre partindo da base cultural que possui e que reflita o
estado de desconhecim ento (material e cultural) da socieda
de à qual pertence.
A q u ilo que desconhece é o que até agora não teve ne
cessidade de aprender. Se tem pod id o viver até agora com o
analfabeto é porque as cond ições de sua sociedade não ex i
giam dele o conhecim ento da leitura e daescrita. Em con-
seqüência, o p rin c íp io fundam ental de toda cam panha de
educação de adu ltos tem que ser o da m udança das condi-
63
ções materiais da existência das populações, para que: 1) por
um lado os analfabetos recebam o estímulo (o desafio) ne
cessário para levá-los a buscar o saber letrado (o que de ago
ra em diante vão necessitar); 2) e, por outro lado, o esforço
e o dispêndio que a sociedade como um todo faz para ins-
truf-los sejam recompensados, revertendo em benefício dela,
pela aplicação social que os recém-alfabetizados vão fazer do
saber adquirido.
2) O educando é o "sujeito" da educação (nunca o
objeto dela). Se necessita da ação do outro, o professor, pa
ra se alfabetizar, instruir-se, isso não significa que seja o
objeto "sobre o qual" o educador atua, e sim unicamente
que é componente indispensável de um processo comum,
aquele pelo qual a sociedade como um todo se desenvolve,
se educa, se constrói, pela interação de todos os indivíduos.
A educação é um diálogo amistoso ("amoroso" — Jas-
pers) entre dois sujeitos. A rigor, deve-se dizer que a educa- ,
ção não tem objeto, e sim somente objetivo. Existencial- \
mente falando, educar é um verbo intransitivo. É a socieda
de que, em sua totalidade, se comporta como agente-pacien
te do processo educativo. Por conseqüência, a expressão teó
rica perfeita da natureza histórico-antropológica da educa
ção resume-se nesta expressão: A sociedade educa.
As concepções ingênuas da educação rebaixam o edu
cando à condição de "objeto" e o levam a conceber-se a si
mesmo como ser passivo, no qual o professor infunde o sa
ber que possui. Este ponto de vista é: 1) moraimente insuf-
tante (pois ignora a dignidade própria do homem pelo sim
ples fato de ser homem, não importando se £ letrado ou não);
2) antropologicamente errôneo (pois ignora que o aluno é
portador de uma cultura, de capacidade .de pensar logica
mente em função de seu contexto social); 3) psicologica
mente esteriiizante (pois desanima, inibe e impede os es
tímulos para a aprendizagem, uma vez que recusa ao alfa
betizando sua capacidade de fazer-se instruído por si, co
mo sujeito); 4) pedagogicamente nocivo (pois deixa de
LJ
64
aproveitar o saber do analfabeto como ponto de partida
para o desenvolvimento de novos conhecimentos).
3) A educação consiste em uma nova proporção
entre conhecimento e desenvolvimento. Excluída a idéia
ingênua de um princípio absoluto do saber no indivíduo
que se educa (por exemplo, que se alfabetiza), a educa
ção só pode consistir em dotá-lo de novos conhecimentos,
que se irão somar ao que já sabe, ou substituir as idéias er
radas, ingênuas que possuía. É portanto um novo balanço
do saber, agora em um plano mais alto do processo cultu
ral. Este caráter de proporção entre conhecimento e desco
nhecimento repete-se em todos os graus da educação, até
nos mais altos (o universitário, a investigação mais avança
da). A educação é uma aquisição retificadora, corretora do
saber (da cultura) tornado inadequado, anacrônico, porque
não corresponde mais ao grau de conhecimento de uma so
ciedade que passa a exigir mais do indivíduo (conquanto
saber agora imprestável, não era errado para a etapa ante
rior, da qual se pretende que o educando se eleve).
Crítica do conceito de "saber"
Para a consciência ingênua, o saber se apresenta co
mo um conjunto de conhecimentos absolutos, abstratos,
a-históricos. É produto do espírito puro, sem relação cau
sai de parte da realidade do mundo, ou somente com uma
relação de tipo ocasional ou apriorista. O espírito por si só
é capaz, em última análise, de engendrar e de justificar o
saber.
Para a consciência crítica, o saber é o produto da
existência real, objetiva, concreta, material do homem em
seu mundo (sendo este concebido como uma totalidade con
creta em processo), imprimindo-se em seu espírito sob a for
ma de idéias ou pensamentos que se concatenam regular
mente (isto é, logicamente). Os caracteres do saber, segundo
a teoria crítica, são:
65
Relativo: 0 que uma cultura entende por saber, em
uma de suas fases, deixa de sê-lo em outra fase, ou não o é
em outra cultura. Daí a ingenuidade radical do critério da
tradição (por exemplo: a teoria heliocêntrica).
Concreto: £ sempre aquilo que um determinado indiví
duo ou uma sociedade (uma cultura) pode descobrir, conhe
cer, criar ou imaginar, em função da etapa de seu processo
de desenvolvimento, que lhe dá a possibilidade de constituir-
se em consciência para si.
Existencial: No sentido de ser constitutivo dr realidade
do indivíduo, e não algo adjetivo, externo, agregado por
causalidade a seu ser. Como é a imagem do mundo material
na consciência, pode-se dizer que o homem é o que sabe.
Sendo um processo (temporal), sua etapa mais alta é aquela
na qual o homem sabe o que é.
Empírico: Com este qualificativo quer dizer-se que o
saber, direta ou indiretamente, deriva da experiência. Re
cusamos assim qualquer origem inata ou a priori para as
idéias. O homem em seu trato myltimilenar com a natureza
e com os outros homens, na sociedade, vai criando suas
idéias * descobrindo as leis de acordo com as quais estas se
combinam de maneira verdadeira, válida (isto é, verificável
pela experiência, pela prática social).
Racional: 0 saber é o produto da capacidade racional
do homem, de sua razão, que é a faculdade intelectual (ex
clusiva do ser humano), de criar idéias e de enlaçá-jas por
procedimentos lógicos (indutivos, dedutivos, analógicos),
denominados raciocínios, que se submetem a um critério de
verdade. O saber é por natureza lógico. Porém este atributo
não deve ser tomado em sentido absoluto e sim como rela
tivo â etapa do processo social em que vive o indivíduo que
enuncia uma proposição. Não existem sociedades prelógicas
(como pensavam Durkheim, Lévy-Bruhlj e sim sociedades
nas quais, pelo grau de atraso de seu desenvolvimento eco
nômico e de primitivismo de sua estrutura humana, o crité
rio de verdade socialmente utilizada é outro, distinto do
66
nosso e que nos aparece como falso porque não pode se ade
quar ao conjunto de dados que agora possuímos. O rito po
pular não é percebido pela sociedade atrasada como ilógico,
como folclore {só aparece assim para a consciência da so
ciedade que superou essa etapa e a olha de fora, como um
momento vencido de seu passado — exemplo: o ritual do
"angelito" no agro chileno).
Histórico: Porque sendo o saber a manifestação inte
lectual da consciência, tem a mesma historicidade intrínseca
desta. Toda valoração do saber é um dado do próprio saber
e por isso é válida unicamente para a fase histórica em que
é anunciada. É o saber constituído em cada momento do
tempo histórico que engendra os novos conhecimentos. Mas,
como estes são a modificação (a negação) do conhecimento
anterior, o saber é simultaneamente o saber (em sua positivi-
dade atual) e é não-saber, como certeza presente de sua ine
xatidão ou falsidade futura, identificados ambos na mesma
unidade.
Não dogmático: Por isso o saber é antidogmático por
natureza, pois na essência de sua afirmação de si encontram-
se a possibilidade e a necessidade de sua superação (por for
ça de sua própria validez positiva) e a passagem a um conhe
cimento distinto, mais alto, mais exato (que suprime, e po
rém incorpora, o saber anterior enquanto etapa necessária
de sua gênese). Esta atitude não deve ser confundida com o
ceticismo, o probabilismo, o relativismo vulgar. Tem que ser
entendida em seu autêntico caráter dialético.
Fecundo: No sentido de que é sempre um conhecimen
to gerador de outro conhecimento. Com isto, fica excluído
o caráter contemplativo, ornamental, não prático do saber.
O saber crítico é, assim, sempre transformador da realidade.
67
i
\
t
4 P T E M A :
ED U C AÇ AO IN FA N T IL E ED U C A Ç Ã O DE A D U LTO S
Educação infantil e educação de adultos.
Caracteres distintos entre essas duas modalidades da
tarefa social geral da educaçãoA educação é uma tarefa social total, em duplo sen
tido:
a) de que nada está isento dela, e
b) de que é permanente ao longo de toda a vida do
indivíduo.
Portanto, o simples fato de ser membro são da co
munidade (não um deficiente mental) implica estar sempre
em processo dé se educar. E isto porque as tarefas (os desa
fios) que a sociedade requer do indivíduo, durante sua exis
tência, vão mudando de conteúdo e de significado com seu
desenvolvimento, orgânico e psicológico, o qual lhe confere
em cadá etapa de sua vida distintas capacidades de ação e de
trabalho. A educação, como temos dito, é o permanente
aproveitamento dessas capacidades pelo todo social em seu
benefício.
69
3) Deste ponto de vista, a educação infantil e a de adul
tos se seguem uma a outra sem solução de continuidade no
mesmo indivíduo (que passa da infância à adolescência e à
maturidade) e no conjunto geral dos membros da sociedade.
Porém isto só se refere à educação coletiva, difusa, não for
mal, não escolarizada. Porque quando se considera a educa
ção institucionalizada é necessário distinguir grandes perío
dos gerais, correspondentes às fases do desenvolvimento in
dividual. Neste segundo aspecto é que a pedagogia corrente
a considera predominantemente.
4) A capacidade de responder aos estímulos sociais, de
criar hábitos de convívio social e de ministrar trabalho útil
(para si e para os outros) é inerente ao ser humano por sua *
simples constituição. 0 animal só possui a capacidade de res
ponder aos estímulos e de, em consonância, adaptar-se ao
seu meio. Com isso consegue sobreviver e se reproduzir. Po
rém o homem, por sua constituição como ente racional, por
sua consciência, tem a capacidade de fazer algo mais, ou se
ja, de trabalhar.
5) Por sua capacidade de trabalbar, o homem modifica
a si mesmo (faz a si mesmo homem), cria objetos artificiais
e estabelece relações com seus semelhantes em um plano his
toricamente (evolutivamente) novo: o plano social. Com o
progresso e o complicar-se do mundo do trabalho (em nú
mero e qualidade dos objetos e procedimentos) a capacida
de humana, a princípio geral, difusa e inespecializada de tra
balhar, vai-se diferenciando e especificando. É fundamental
assinalar que a diversificação do trabalho é efeito do traba
lho social acumulado (conceito da técnica como "fazer o fa
to"). Por isso, a proposição mais geral da teoria do desenvol
vimento social é a seguinte: é o trabalho que transforma o
trabalho (cria as novas formas de trabalho — conceito da
técnica como invenção, como o "fazer o novo").
6) A sociedade, a partir do ponto em que diferencia e
diversifica o trabalho, não pode mais exigir de todos os seus
membros a mesma capacidade de trabalho, a execução das
70
mesmas tarefas. Por conseqüência, a educação, como apro
veitamento da capacidade geral de trabalho, tem que se tor
nar especializada, em concordância com a diversificação
do trabalho social, a fim de aproveitar a este integralmen
te, em todos seus tipos e modalidades.
7) A distinção entre modalidades e tipos de educação
só deriva das diferenças de grau no desenvolvimento fisio
lógico e psicológico do homem {das idades no curso de sua
vida), pela mediação da possibilidade de trabalho que cada
fase permite e da estrutura social que determina as formas
e normas vigentes do trabalho. Na família camponesa ou
operária pobre a criança não vai à escola porque sua capaci
dade de trabalho é prematura mente solicitada social mente
(tempo integral), desde que possui suficiente habilidade de
coordenação motora para executar uma tarefa mecânica.
E, se vai à escola, a abandona ao fim de um ou dois anos,
porque a solicitação de trabalho que já pode oferecer aos 9
ou 10 anos é imperativa, pela razão de que o trabalho que
vai executar o semi-analfabeto vaie mais, socialmente falan
do (para as condições miseráveis de vida de sua família, de
sua comunidade), que o trabalho que podería fazer (embo
ra concretamente não tem condições de chegar jamais a fa
zer) se completasse sua educação na escola.
8) A distinção entre a educação escolarizada da crian
ça e a do adulto, e todos os problemas pedagógicos que sus
cita, tem que se apreciar sempre do ponto de vista das dis
ponibilidades sociais de trabalho, tais como existem em uma
determinada comunidade. Só é possível pensar em concreto.
Fora daí é tratar o teflna em abstrato e permanecer no plano
das generalidades, das idealizações.
9) Por conseqüência, o que distingue essas modalidades
de educação não são seus aspectos pedagógicos específicos
(conteúdo e forma, conhecimento e método). Isto é apenas
o secundáriof estruturado sobre uma realidade de base (e
que a reflete), o primário, que é a distribuição das possibili
dades sociais de trabalho. Para a criança ir à escola não é um
71
dever (noção idealista, abstrata), e sim primordialmente um
poder (que se decide no plano social). £ inútil, é uma atitu
de ingênua fazer apelos morais a famílias para que cumpram
com seu dever de mandar as crianças a escola. Tal dever é o
reflexo do primário, o poder de mandá-los. Se queremos que
em nossa sociedade a ida è escola se torne um dever, é preci
so que antecipadamente criemos as condições para que se
torne um poder.
10) £ evidente que os problemas pedagógicos (a maté
ria a ensinar, os currículos, os métodos) correspondentes a
cada faixa etária são distintos. Por isso a alfabetização do
adulto é um processo pedagógico qualitativa mente distinto
da infantil (a não ser assim, cairiamos no erro da infantil iza-
ção do adulto). Dessa forma, assim como não se pode redu
zir o adulto à criança, tampouco se pode reduzir a criança
ao adulto. Ora, isto é o que inconscientemente fazem os pe
dagogos ao proporem métodos obtusos, alienados, de alfa
betização, de instrução elementar e secundária. A raiz deste
equívoco está em que lhes falta a noção do caráter existen
cial da educação (sempre relativa à existência, isto é, à fase
do existir do ser humano), e por isso é que pensam a forma
ção da criança do ponto de vista de sua futura realidade co
mo adulto. Ora, apesar de, como é evidente, a criança se des
tinar a ser adulto, sua realidade existencial presente é outra.
Não é um ser incompleto, mas sim um ser que está atraves
sando uma fase particular de seu processo vital (como o
adulto também).
1 1 ) 0 que distingue uma modalidade de educação de
outra não é portanto o conteúdo, os métodos, as técnicas de
instruir (isto é o secundário, o reflexo) e sim os motivos, os
interesses que a sociedade, como um todo, tem quando edu
ca a criança ou o adulto. Este é o fator primário, fundamental.
12) Um grande progresso se tem conquistado na histó
ria da pedagogia desde quando se estabeleceu o critério ge
nético da educação. Porém este critério pode advir de um
ponto de vista ingênuo quando se considera o desenvolvi
72
mento psicológico da criança como um dado em si, primiti
vo, autônomo, independente do processo social objetivo so
bre o qual repousa.
13) Como o ponto de partida do processo formal da
instrução não é a ignorância do educando e sim, ao contrá
rio, aquilo que ele sabe, a diferença de procedimento peda
gógico se origina da diferença no acervo cultural que pos
suem a criança e o adulto no momento em que começam a
ser instruídos pela escola. A distinção de idades se traduz
pela distinção da experiência acumulada, ou seja, de educa
ção informal (pré-escolar) que a sociedade distribui à crian
ça e ao adulto em razão do desigual período de vida que ca
da um possui.
14) Não é nossa intenção fazer a análise estritamente
pedagógica deste problema, nem a discussão da teoria gené
tica da educação. Desejamos unicamente nos conservar no
terreno da análise humanista, social, histórico-antropológica.
Breve análise histórica. A educação nas sociedades
primitivas: escravista, feudal e moderna
Como não é possível fazer, senão de modo aproxi
mado, um resumo da história da educação, compreendemospor "análise histórica" a simples menção de que a educação
tem acompanhado o evoluir da espécie humana em sua mile
nar formação de si mesma pelo trabalho social que, em cada
etapa do tempo histórico, tinha capacidade para realizar.
Em primeiro lugar, o trabalho começa por formar,
por originar, o próprio homem, permitindo-lhe emergir do
plano da simples animalidade. Ao atuar sobre o mundo exte
rior, esse ser se modifica a si mesmo em sua estrutura anatô
mica e fisiológica, e possibilita o aparecimento das funções
intelectuais (que o vão distinguir do animal), em particular a
consciência do mundo e de si.
A acumulação deste trabalho cria o mundo dos arte
fatos, a necessidade da conservação das técnicas que se de
73
vem transmitir a todos os membros de uma comunidade em
idades fisiológicas diferentes e de uma geração a outra. Esta
transmissão é a educação em ?eu significado original social.
Em segundo lugar, a posse desta educação é uma exi
gência vital, isto é, a participação de cada um no trabalho
coletivo é condição de sobrevivência pessoal. 0 lema do cris
tianismo primitivo "quem não trabalha não come” (São
Paulo) traduz em condição mais original "quem não traba
lha (isto é, quem não se educa) não existe".
Na sociedade primitiva a educação não é instituciona
lizada, mas levada a cabo pela comunidade inteira e transmi
tida de todos para todos, como se segue:
a) Consiste primordialmente nas técnicas de subsistên
cia (conquista de alimento, defesa, abrigo, vestuário, etc.).
b) Parte essencial dessa educação é o cumprimento dos
ritos religiosos (nas sociedades animistas são parte das técni
cas de produção e de defesa).
c) Ainda nesse estágio cultural, já se manifestam as ten
dências criadoras, artísticas do homem (atividades lúdicas).
d) Como esta etapa é dinâmica (igual a qualquer outra)
surgem nela os indivíduos dotados de capacidade de inven
ção, que, por suas propôstas de idéias ou de procedimentos
novos, conduzem à modificação da realidade. Assim, essa so
ciedade engendra em si os momentos de sua própria superação,
e) As sociedades primitivas são uma forma de cultura.
Como aí os membros recebem educação da coletividade, ne
las não há indivíduos incultos.
f) Contudo, ainda nessas sociedades é possível perce
ber-se o embrião das futuras diferenciações sociais, e parti
cularmente da raiz da especialização educacional, pois cer
tos personagens (feiticeiros, magos, sacerdotes, etc.) são in
cumbidos de zelar pelo fiel cumprimento dos costumes, de
transmitir às gerações novas as crenças gerais e de executar
o cerimonial requerido pelas práticas rituais. São os primei
ros pedagogos social mente reconhecidos, reverenciados e
obedecidos.
74
Na sociedade escravista o desenvolvimento do pro
cesso social é imensamente maior e se faz à base do trabalho
escravo. Representa um progresso em relação à etapa ante
rior, porém ao mesmo tempo um freio à invenção de técni
cas de aproveitamento das forças naturais, pois o braço hu
mano supre toda a demanda social do potencial de trabalho.
Sendo uma sociedade na qual se constituem classes
distintas, a educação não é mais uniforme. Passa a ser ofi
cialmente reconhecida como educação somente aquela que
é cultivada petos proprietários de escravos; urge então a
idéia de que as massas trabalhadoras (ainda os homens livres
que nelas se incluam) são incultas.
A sociedade escravista produz um tipo de saber ade
quado a seus interesses, é capaz de importantes descobri
mentos e criações no dom mio das ciências e principalmente
das artes, porém se revela incompetente em desenvolver
outros setores, nos quais não vê interesses práticos.
E uma sociedade fundada no conceito ético do bem,
entendido como ociosidade. A educação visa a preparar o
homem para aproveitar seu tempo livre (claro está que tão
só os proprietários, as classes dirigentes o possuem). Daí o
grande florescimento das letras e das artes nesta sociedade.
Este caráter é comprovado pela etimologia da palavra "esco
la", que significa literal mente em grego "ociosidade".
Na sociedade feudal o trabalho escravo é substituído
pelo trabalho servil. A s possibilidades de incremento do sa
ber são imensamente maiores. Contudo, o desapreço pelo
trabalho manual leva ao desinteresse pelo conhecimento da
natureza, pois as condições de investigação e descoberta de
seus segredos são identificados com o trabalho manual. So
mente no final da época feudal é que a sociedade se vai
abrindo até uma nova expansão do saber.
No Ocidente, a sociedade feudal é completamente
dominada pela concepção cristã da vida e pela ação ideológi
ca, cultural e política da Igreja Católica. A educaçao é privi
légio da nobreza, deve ser distribuída de acordo com os con
75
ceitos da Igreja e exercida pelos sacerdotes. As escolas são
anexas aos conventos e catedrais.
0 período feudal, a Idade Média em sua fase mais
alta é rica de esforços intelectuais que prenunciam a época
futura, da criação das ciências modernas.
Um acontecimento importante desse período na his
tória pedagógica é a fundação das universidades, como cen
tros de cultura teológica, com o fim de defender e conser
var a pureza e a uniformidade da dogmática católica. Contu
do, é imprescindível assinalar que a Idade Média não foi
uma época de estagnação e de imobilidade do pensamento,
mas de vivas lutas sociais, políticas, ideológicas. Os interes
ses objetivos das massas, das nacionalidades em gestação,
quase sempre não se expressavam diretamente, mas sim em
termos de controvérsias ideológicas, de contendas filosóficas.
A sociedade moderna é aquela que se inicia no Oci
dente com a desagregação do feudalismo, a ascensão da bur
guesia, o aparecimento das ciências experimentais, do co
mércio em escala mundial e da indústria, a princípio baseada
na manufatura, depois mecanizada. A sociedade contempo
rânea se segue como desdobrar necessário da época moderna.
Sendo impossível. resumir o processo pedagógico
deste período, basta mencionar o aparecimento de gran
des figuras de pensadores educacionais, que se têm esfor
çado por levar à prática suas idéias, criando escolas reli
giosas, públicas ou laicas, nas quais se busca a preparação
da criança para as novas exigências sociais.
Ao longo desta época a direção geral do desenvolvi
mento pedagógico se faz no sentido da democratização
crescente. Cada vez se compreende mais a necessidade
da educação para todo o povo e se efetuam os esforços
dos governos para alcançar esse resultado. O êxito real
mente obtido é variável segundo as distintas nacionalida
des e seus regimes sociais e políticos.
Importante é assinalar a atual diferença de nível
de desenvolvimento entre as regiões mundiais, que se ex-
76
pressa pela existência de centros econômicos e culturais
motores, ativos (metrópoles) e áreas atrasadas, receptoras
do saber. Nestas últimas existe hoje a intensa preocupação
com os problemas de seu próprio desenvolvimento, da su
peração de seu atraso e da produção de sua autêntica cul
tura. “
Relações entre as diferentes classes de educação e o
desenvolvimento econômico-cultural de cada fase histórica
Pode-se dizer que a lei principal geral que se deduz
da exposição da história da educação é esta: a educação em
cada fase da evolução histórica é sempre um produto cultu
ral da sociedade, reflete os interesses nela dominantes, o
que (para as sociedades onde há diversas classes) significa:
preponderantemente os interesses daqueles que têm a dire
ção da comunidade.
O tipo de homem que cada espécie de educação vi
sa a formar é variável com a respectiva constituição social.
Neste sentido pode-se agregar uma segunda lei da educa
ção: o tipo de homem que cada sociedade deseja formar é
aquele que serve para desenvolver ao máximo as potenciali
dades econômicas e culturais dessa forma social.
Como toda sociedade, de qualquer qualidade, não
é imóvel, uma vez que está sempre em processo, as realiza
ções materiais e culturaisque produz alteram seu conteúdo,
ou seja, operam no sentido de esgotá-la, de fazê-lá superar-
se, isto é, passar a ser outra. Assim, pode-se enunciar uma
terceira lei da educação: a educação é em sua essência con
traditória, porque, visando a conservar a sociedade que a
distribui, é levada a modificá-la e por fim conduz à sua su
pressão e substituição por outra forma social mais adiantada.
A multidimensão do processo educativo
Com este termo indica-se o fato de que tanto na
educação infantil e juvenil como na de adultos, jamais se
77
obtém um conteúdo único e restrito (compartimento) do
saber. A necessidade de proporcionar um determinado con
teúdo de saber obriga a ampliar a área da educação além da
quela intencionada. A educação é por natureza difusa, isto
é, rompe, transcende todo limite que lhe seja imposto e se
diversifica em ramos colaterais.
0 saber adquirido, sendo simultaneamente a cons- .
ciência do nao-saber restante, leva o pensamento a prosse
guir no movimento histórico, é constantemente reveladora
de possibilidades de melhores condições de existência e de
novos e mais perfeitos conhecimentos em múltiplas dire
ções. Daí o caráter exponencial (já referido) da educação.
Por conseqüência, deve-se admitir que a educação,
tanto a infantil como a de adultps, não tem contornos defi
nidos (a não ser aproximados). Por essência é um processo
de desdobramento do ser humano e da cultura imprevisível
em seu curso, e que, apesar de possuir pontos de inflexão
e de parada (épocas de crises e de obscurantismo), segue em
sua marcha geral um caminho indefinidamente progressista
no sentido da criação de melhores condições de vida e de
maior expansão da cultura.
78
5 ? TEM A:
ESTUDO P A R T IC U LA R DO PR O BLEM A D A
ED U C A Ç A O DE A D U LT O S
A realidade social do adulto. Sua qualidade de trabalhador
e o conjunto de conhecimentos básicos que pressupõe
O adulto é o membro da sociedade ao qual cabe a
produção social, a direção da sociedade e a reprodução da
espécie.
Existencial mente, o adulto é o homem na fase mais
rica de sua existência, mais plena de possibilidades. Por isso,
é o ser humano no qual melhor se verifica seu caráter de
trabalhador^ 0 trabalho expressa e define a essência do ho
mem em todas as fases de sua vida (da infância à velhice),
mas é no período adulto que melhor se compreende seu
significado como fator constitutivo da natureza humana.
O homem é produto de seu trabalho (Sartre: o gar
çom se faz ser garçom). Mas como este trabalho se incorpo
ra ao trabalho social geral, que configura a etapa vigente da
sociedade, reverte em forma social, quer dizer, como trabalho
aplicado a construir a sociedade tal como se encontra, ao
próprio executante, sob a forma de condicionamentos so
79
ciais, de salários, de valores, de instituições, de idéias domi
nantes, etc.
O adulto é por conseguinte um trabalhador trabalha
do. Por um lado, só subsiste se efetua trabalho, mas, por ou
tro lado, só pode fazê-lo nas condições oferecidas pela socie
dade onde se encontra, que determina as possibilidades e cir
cunstâncias materiais, econômicas, culturais de seu trabalho,
ou seja, que neste sentido trabalha sobre ele.
Mas o segundo aspecto não significa passividade, não
significa que o homem adulto seja "nosso objeto" da vonta
de social geral, difusa, impessoal. Porque essa vontade é uma
soma de liberdades (de vontades livres) entre as quais se con
ta a do próprio trabalhador ativo, sobre o qual atua, de re
torno, a vontade geral.
Os adultos, a quem cabe a direção da sociedade,
exercem esta função como trabalho. É ação política (no sen
tido sociológico) porque, em última análise, determina o re
gime de trabalho geral e suas modificações. A influência so
bre a superestrutura social (o direito, a legislação, as institui
ções, etc.) é apenas a modalidade de mediação pela qual a
parte social dirigente configura e modifica o regime geral de
trabalho.
A participação cada vez mais ativa das massas — in
cluindo grande número de analfabetos —, no processo polí
tico de uma sociedade, expande a consciência do trabalha
dor e lhe ensina por que e como — ainda que analfabeto —
deve caber a ele uma participação mais ativa na vontade ge
ral.
Nesse sentido, sua situação de analfabeto ou de se
mi-analfabeto não representa um obstáculo à consciência
de seu papel (seu dever) social. A falta de educação formal
não é sentida pelo trabalhador adulto como uma deficiência
aniquiladora, quando a outra educação — a que é recebida
por sua participação na realidade social, mediante o traba
lho — proporciona os fundamentos para a participação po
lítica, a atuação do indivíduo em seu meio. E a prova é que
80
s
estes são indivíduos que exercem importante papel como
representantes da consciência comum em sua sociedade,
chegando até a serem líderes de movimentos sociais.
Por isso é que, na medida em que a sociedade se
vai desenvolvendo, a necessidade da educação de adultos
se torna mais imperiosa. É porque em verdadí eles já estão
atuando como educados, apenas não em forma alfabetiza
da, escolarizada. A sociedade se apressa em educá-los não
para criar uma participação, já existente, mas para permi
tir que esta se faça em níveis culturais mais altos e mais
identificados com os estandartes da área dirigente, cumprin
do o que julga um dever moral, quando em verdade não pas
sa de uma exigência econômica.
Como biologicamente cabe ao adulto a reprodução
da espécie, é a ele que cabe o cuidado com a prole. Tem que
educá-la, o que primordialmente significa cuidar para que
seus filhos aprendam a ler e a escrever, freqüentando a esco
la. Mas, já sabemos que esta necessidade está mediada pelas
exigências materiais de subsistência da família, determina
das, por sua vez, pelas condições de desenvolvimento da so
ciedade. Daí que o problema da educação infantil seja visto
como dependente da consciência dos pais, a qual por sua vez
depende das circunstâncias materiais da existência da fam ília.
A educação do adulto não pode ser conseguida sepa
rada da educação da criança, porque o adulto não desejará
se alfabetizar se não considera necessário saber ao menos
tanto quanto seus filhos.
Mas, universalmente, a escolarização infantil não se
pode fazer sem a simultânea campanha de alfabetização e
educação dos adultos, é uma tese errônea e cruel admitir
que se deve condenar os adultos à condição perpétua de ile
trados e concentrar os recursos da sociedade na alfabetiza
ção da criança, mais barata e de maior rendimento futuro.
Deixando de lado o vergonhoso desprezo moral pela digni
dade do homem que esta tese encerra, ela sociologicamen
te falsa, pois o adulto rende muito mais depois de alfabeti
81
zado; e pedagogicamente errônea, pois não se pode fazer
uma correta escolarização da infância em um meio no qual
os adultos, os chefes de família não compreendem sua im
portância. Entretanto, só a compreenderão na prática, alfa
betizando-se eles mesmos. A educação dos adultos é, assim,
uma condição necessária para o avanço do processo educa
cional nas gerações infantis e juvenis.
O menosprezo pela educação dos adultos, a atitude
dè condená-los definitivamente ao analfabetismo ( de parte
de sua profunda imoralidade) incide no erro sociológico de su
por que o adulto é culpado de sua própria ignorância. Não
reconhece que o adulto não é voluntariamente analfabeto,
não se faz analfabeto, senão que é feito como tal pela socie
dade, com fundamento nas condições de sua existência.
A educação de adultos não é uma parte complemen
tar, extraordinária do esforço que a sociedade aplica em
educação (supondo-se que o dever próprio da sociedade é
educar a infância). É parte integrante desse esforço, parte es
sencial, que tem obrigatoriamente que ser executada para
lelamente com a outra, pois do contrário esta última não te
rá o rendimento que dela se espera. Não é um esforço margi
nal, residual, de educação,mas um setor necessário do de
sempenho pedagógico geral, ao qual a comunidade se deve
lançar.
O educando adulto e seu papel como membro pensante
e atuante em sua comunidade
0 educador de adultos tem que admitir sempre que os
indivíduos com os quais atua são homens normais e real
mente cidadãos úteis. Tem de considerar o educando não
como um ser marginalizado, um caso de anomalia social,
mas, ao contrário, como um produto normal da sociedade
em que vive.
O estado de ignorância relativa no qual se encontra é
um índice social. Revela apenas as condições exteriores da
82
existência humana e os efeitos destas circunstâncias sobre o
ser do homem. Não significa que se trate de indivíduos mal
dotados, de preguiçosos, de rebeldes aos estímulos coleti
vos, em suma, de atrasados.
O educador tem de considerar o educando como
um ser pensante. É um portador de idéias e um produtor de
idéias, dotado freqüentemente de alta capacidade intelec
tual, que se revela espontaneamente em sua conversação, em
sua crítica aos fatos, em sua literatura oral. 0 que ocorre é
que em presença do erudito arrogante, "culto" (o "doutor")
o analfabeto se sente inferiorizado e seu comportamento se
torna retraído. Mas, se o educador possui uma consciência
verdadeiramente crítica, que não pretende se sobrepor ao
educando adulto, e sim se identifica com ele e utiliza um
método adequado (em essência catártico), o analfabeto re
vela uma capacidade de apreensão e uma agudeza de vistas
que o equiparam à média dos indivíduos de sua idade em
melhores condições.
0 educando adulto é antes de tudo um membro
atuante da sociedade. Não apenas por ser um trabalhador,
e sim pelo conjunto de ações que exerce sobre um círculo
de existência. O adulto analfabeto é um elemento freqüen
temente de alta influência na comunidade. Por isso é que se
faz tão imperioso e lucrativo instruí-lo.
As camadas iletradas da população tendem a ser
mais homogêneas pelas próprias condições de pobreza em
que vivem. Mas nelas se destacam sempre (para elas) as per
sonalidades que sobressaem, que dão forma expressa ao pen
samento comum e por isso se tornam os líderes nos quais a
massa se reconhece.
A educação de adultos visa a atuar sobre as massas
para que estas, pela elevação de seu padrão de cultura, pro
duzam representantes mais capacitados para influir social
mente. Seria atitude ingênua acreditar que basta instruir os
elementos mais destacados, supondo que estes irão depois
modificar a massa. Em verdade, o caminho assinalado pela
83
consciência crítica é o oposto. Não é o homem que se eleva
que eleva consigo o mundo, e sim o mundo que se eleva que
eleva consigo o homem.
O que é que o adulto ignora?
A pergunta se refere ao adulto em condições primárias
de cultura, particularmente ao adulto analfabeto. Porque,
como já dissemos, o que cada adulto culto — mesmo o mais
culto — ignora é infinito.
£ evidente que ignora os conhecimentos que defi
nem o padrão médio do saber de sua sociedade em seu tem
po. Isto é o que o define em sua condição de iletrado.
Todavia o que realmente é significativo é que ignora as
causas de sua condição de atraso cultural e de pobreza. Co
mo a compreensão destas causas é matéria ideológica, não
compete ao educador transferir mecanicamente para o edu
cando adulto suas próprias concepções a este respeito, do
contrário não somente estaria.violando os direitos de liber
dade de pensamento de um ser humano, como também pra
ticaria um ato inútil, pois criaria uma cópia de si mesmo,
julgando, apenas por vê-la em outro, que representaria um
outro real. Em verdade, estaria iluminando-se com o sim
ples reflexo de si mesmo ém um espelho.
Assim, o que compete ao educador é praticar um
método crítico de educação de adultos que dê ao aluno a
oportunidade de alcançar a consciência crítica instruída de
si e de seu mundo. Nestas condições eie descobrirá as causas
de seu atraso cultural e material e as exprimirá segundo o
grau de Consciência máxima possível em sua situação.
Não importa que esta expressão esteja abaixo da
compreensão crítica do educador. Este, se é verdadeira men
te crítico, deverá compreender que de nada lhe vale dar ao
outro uma explicação ideológica mais clara, mais exata e
verdadeira, porque o aluno adulto não a entendería e em
qualquer caso não poderia atuar utilmente em sua socieda
de com uma consciência mais avançada que aquela que lhe
84
é permitida por sua própria reflexão. Do contrário passaria
a ter uma atuação em falso, motivada por uma consciência
de empréstimo.
Por tudo isso, a ação do educador tem de consistir
em encaminhar o educando adulto a criar por si mesmo sua
consciência crítica, passando de cada grau ao*seguinte, até
equiparar-se à consciência do professor e eventualmente su
perá-la.
O que é que se necessita aprender?
Esta pergunta está em parte respondida pela resposta à
pergunta anterior.
É evidente que se necessita aprender os elementos
básicos do saber letrado, as primeiras letras, a escrita, os ru
dimentos da matemática, mas este saber, ainda que funda
mental e indispensável, só vale por seu significado instru
mental, por aquilo que possibilita ao educando para chegar
a saber, é o saber para chegar a saber, para o mais saber. Por
conseqüência, é preciso que a sociedade tenha preparado
todo o elenco de oportunidades de saber para ser adquiri
do pelo alfabetizando depois de terminada sua alfabetiza
ção. Do contrário, a simples alfabetização é um jogo sem
finalidade, um luxo social que não recompensa a comuni
dade dos elevados custos que apresenta.
Em conseqüência, ao ensinar as primeiras letras ao
adulto, a sociedade estará abrindo as portas para suas exi
gências educacionais futuras. E não somente é compelida a
satisfazê-las, e portanto deve desde agora preparar-se para
isso, mas unicamente assim adquire sentido o intento atual
da educação de adultos. Se assim não fosse, a sociedade es
taria se empenhando num enorme esforço para nada, pois o
ato de ler ou escrever, em si mesmo, constitui uma habilida
de lúdica, um jogo de decifração, um reconhecimento de
sinais gráficos arbitrários, e só ganha valor pelo conteúdo de
saber real que permite adquirir.
85
d) 0 que o adulto precisa aprender é, em princípio, a
totalidade do saber existente em seu tempo. A este respei
to, sua perspectiva cultural não difere, de direito, daquela da
criança. Unicamente, de fato (pelo menor tempo de vida res
tante, pelos "quefazeres" de trabalho, por sua condição so
cial não imediatamente modificada), suas possibilidades de
alcançar níveis mais altos de conhecimento são com fre-
qüência limitadas.
Como lhe ensinar?
O problema do método é capital na educação de adul
tos. Nesta fase é um problema muito mais difícil que na ins
trução infantil, porque se trata de instruir pessoas já dotadas
de uma consciência formada — ainda que quase sempre ingê
nua — com hábitos de vida e situação de trabalho que não
podem ser arbitrariamente modificados. As características
fundamentais que devem satisfazer o método são as seguin
tes:
Deve ser tal que desperte no adulto a consciência da
necessidade de instruir-se e de alfabetizar-se. Isso só pode
ocorrer se simultaneamente e mais amplamente desperta
nele a consciência crítica de sua realidade total como ser
humano, o faz compreender o mundo onde vive, seu país
— com as peculiaridades da etapa histórica na qual se encon
tra — sua região, desperta nele a noção clara de sua partici
pação na sociedade pelo trabalho que executa, dos direitos
que possui e dos deveres para com seus iguais.
Deve partir dos elementos que compõem a realidade
autêntica do educando, seu mundo de trabalho, suas rela
ções sociais, suas crenças, valores, gostos artísticos, gíria,
etc. Assim, por exemplo, a aprendizagem dos elementos ori
ginais da leitura tem que partir de palavras motivadoras que
são aquelas dotadas de conteúdo semântico imediatamente
percebido pelo aluno, que se destacamcomo expressão de
sua relação direta e contínua com a realidade na qual vive.
Ô6
0 método não pode ser imposto ao aluno, e sim
criado por ele no convívio do trabalho educativo com o edu
cador. Assim, as próprias palavras motivadoras pelas quais
inicia sua aprendizagem da leitura e da escrita não podem
ser determinadas pelo professor, mas devem ser proporcio
nadas - mediante uma técnica pedagógica especial pelo
próprio alfabetizando.
O mesmo raciocínio é válido para as etapas poste
riores do processo educacional, depois da alfabetizaçao. O
conteúdo da instrução não deve ser imposto e sim proposto
pelo professor como adequado às etapas do processo de au-
toconsciência crescente do aluno, e justificado como o sa
ber corrente (nos diversos ramos das ciências) pelas possi
bilidades que oferece de domínio da natureza, de contribui
ção para melhorar as condições de vida do homem.
O equívoco da infantil ização do adulto, concebido
como um "atrasado"
A concepção ingênua do processo de educação de
adultos deriva do que se pode chamar uma "visão regressi
va". Considera o adulto analfabeto como uma criança que
cessou de desenvolver-se culturalmente. Por isso, procura
aplicar-lhe os mesmos métodos de ensino e até utiliza as
mesmas cartilhas que servem para a infância. Supõe que a
educação (alfabetização de adultos) consiste na "retomada
do crescimento" mental de um ser humano que, cultural
mente, estacionou na fase infantil. O adulto é considerado,
assim, um "atrasado".
Esta concepção, além de falsa e ingênua, é inade
quada porque:
— deixa de encarar o adulto como um sabedor;
- ignora que o desenvolvimento fundamental do ho
mem é de natureza social, faz-se pelo trabalho, e
que o desenvolvimento não pára pelo fato de o in
divíduo permanecer analfabeto.
87
- ignora o processo de evolução de suas faculdades
cerebrais.
— não reconhece o adulto íletrado como membro
atuante e pensante de sua comunidade, na qual de
nenhuma maneira é julgado um "atrasado" e onde,
ao contrário, pode até desenvolver uma persona
lidade de vanguarda.
Esta concepção conduz aos mais graves erros peda
gógicos pela aplicação ao adulto de métodos impróprios e
pela recusa em aceitar os métodos de educação integradores
do homem em sua comunidade, quer dizer, aqueles que lhe
fazem compreendê-la e modificá-la, nos quais o conheci
mento da leitura e da escrita se faz pelo alargamento e apro
fundamento da consciência crítica, do homem frente à sua
realidade.
O não reconhecimento do caráter relativo de sua
ignorância e das causas sociais que a explicam
Este é ainda um traço característico da consciência pe
dagógica ingênua. As conseqüências deste comportamento
são nocivas, pois impedem desde o primeiro momento a
correta consideração.do problema da educação de adultos.
Já dissemos que o educador ingênuo recusa ver no
educando analfabeto adulto um sabedor. Classifica o anal
fabetismo entre os "males" sociais, isto significa que dá ca
ráter patológico ao que em realidade é a expressão de um
modo de ser do homem. Esse modo de ser é perfeitamente
normal e explicável pelas condições sociais da existência do
indivíduo. O defeito desta concepção está em que converte
a educação em terapêutica.
Ora, pensando assim, o educador se desvia por eami-
nhos completamente errôneos, passa a ter uma visão idealis
ta e antropocêntrica do processo pedagógico e jamais se en
contrará com a verdadeira realidade que se oculta por trás
do fato do analfabetismo dos adultos. Cada vez acentuará
88
%
mais sua ingenuidade, afastando-se da autêntica compreen
são do fenômeno.
Os erros fundamenta is desta atitude consistem em: .
1) Partir da suposição de ignorância num indivíduo no
qual, em verdade, há considerável acervo de saber.
2) Explicar a realidade do iletrado segundo causas abs
tratas, segundo conceitos imaginários e totalmente inadequa
dos, deixando assim de buscar suas raízes objetivas no pro
cesso social no qual o indivíduo, efetivamente, se encontra
inserido.
3) Apresentar como recursos, para solucionar o proble
ma social do analfabetismo, métodos de alfabetização e de
educação que são de baixo rendimento e elevado custo,
além de não conduzir ao esclarecimento da consciência do
indivíduo, mas unicamente, no melhor dos casos, conse
guem dotá-los da habilidade de saber ler e escrever, que per
manece para eles sem finalidade.
4) Despertar uma atitude geral de alarme social em fa
ce da gravidade do problema do analfabetismo, o que é um
meio seguro de fazê-lo incompreendido em suas verdadeiras
causas objetivas. Em lugar de reconhecer no analfabetismo
um índice natural da etapa em que se encontra o processo
de desenvolvimento nacional, apresenta-o como uma anor
malidade, uma monstruosidade que é preciso "combater",
"erradicar". Estas expressões, frequentes na oratória dos
promotores de campanhas de alfabetização, demonstram
bem que os pedagogos desta estirpe concebem o analfabe
tismo como um "mal", uma "enfermidade", uma "ende-
mia", uma "erva daninha", ou seja, que o vêem como algo
não natural no corpo da sociedade. Assim, enquanto este
for o pensamento dominante não há possibilidade de que o
educador ou o legislador entre pela correta via de resolu
ção do problema do analfabetismo, que é de fato uma de
ficiência culturalmente grave mas que nada tem de socio
logicamente anormal.
89
: |
1
6P TEM A:
O P RO BLEM A D A A L F A B E T IZ A Ç Ã O
O analfabeto como indivíduo que não necessita ler
Para se discutir corretamente o problema da educação
e chegar a conclusões capazes de orientar sua solução, é pre
ciso que se tome um ponto de partida justo e verdadeiro. Es
te só pode ser o ponto de vista humanista, não idealista.
Conseqüentemente, é necessário partir do analfabeto como
ser humano e não do analfabetismo, que é um conceito abs
trato. Partir do fato real, concreto, existencial, que é o ho
mem adulto analfabeto e considerar como secundário, deri
vado, o aspecto sociológico de tal fato, o analfabetismo. 0
analfabeto é uma realidade humana, enquanto o analfabe
tismo é uma realidade sociológica.
O passo imediato consiste em chegar à definição
autêntica do analfabeto: para encontrá-la é necessário supe
rar a definição espontânea, vulgar e, por isso, ingênua, que
concebe o analfabeto tão-somente como o indivíduo que
não sabe ler. Esta é uma definição literal, etimológica e por
91
isso óbvia, mas imprópria para a análise filosófica que dese
jamos empreender. É imprópria porque não apreende a es
sência da realidade concreta do homem analfabeto.
Limita-se a referir-se ao fato bruto, acidental de um in
divíduo que não sabe ler, mas não contém nenhuma referên
cia ao ser próprio de tal indivíduo, ser este que explica (isto
é, que contém as causas de) sua realidade de iletrado.
A definição autêntica parte da existência concreta
do analfabeto, ou seja, da sua realidade como ente humano
em um mundo circunstante, em uma sociedade que vive de
terminado momento histórico, no conjunto de relações que
mantém com seus semelhantes. Ora, o mais importante dos
aspectos, nos quais se manifesta sua relação com os demais
homens, é seu trabalho. Porque, de acordo coín a natureza
concreta do trabalho que desempenha, está designada a ele
uma posição na sociedade (e não o inverso).
Por conseguinte, o analfabeto, em sua essência, não
é aquele que não sabe ler, sim aquele que, por suas condi
ções concretas de existência, não necessita ter. Esta é sua de
finição real. É a exposição de sua essência, porque não apre
senta o fato de ser iletrado como um acidente, mas como al
go original, essencial, que tem que ser assim, dada sua condi
ção de vida, fundamental mente de trabalho. Porque se assim
não fosse, se necessitasse saber ler para sobreviver, ou bem
sabería (e então não havería o problema) ou então simples
mente não existiría.
O conceito de "necessitar saber" ou "não necessitar
saber" vem da origem, do íntimo do ser considerado emsua
plena realidade, enquanto o de "saber" e "não-saber" (como
fatos empíricos) coloca-se na superfície do ser humano, é
um acidente social, além de ser impossível definir com rigor
absoluto os limites entre o "saber" e o "não-saber" (daí que
não há uma fronteira exata entre o alfabetizado e o analfa
beto). Porque o "necessitar" é uma coisa que ou é satisfeita
(se é exigência interior) ou, se não é, não permite ao indiví
duo subsistir como tal ente (por exemplo: as necessidades
92
biológicas). O "necessitar" ao qual se referem a leitura e a
escrita é de caráter social (uma vez que tem por funda
mento o trabalho).
A leitura e a escrita são primordial mente dois dos
recursos a que o indivíduo recorre para a execução de um
trabalho que não pode ser feito sem esse xonhecimento.
Por conseguinte, o conhecimento da leitura e da escrita é
uma característica do trabalho. Sua vai oração só pode ser
feita tomando em consideração o nível de trabalho que ca
da indivíduo executa ha sociedade.
Pode-se dizer que á o trabalho que alfabetiza ou
analfabetiza o homem, segundo exija dele o conhecimento
das letras, ou seja de tal espécie que o dispense de conhecê-
las. Comó, porém, o trabalho, por sintetizar o conjunto de
relações sociais às quais o homem está sujeito, toca a essên
cia do homem, a definição do analfabeto (definição autênti
ca) tem que ser estabelecida em termos de necessidade ou
não de saber ler, e de nenhum modo pelo fato exterior do
simples desconhecimento.
Esta é a razão pela qual não tem sentido dizer que a
criança (que, por sua idade, está isenta de trabalho) ou o in
dígena de uma tribo primitiva, na qual não há nenhuma es
pécie de trabalho que exija o conhecimento das letras, são
analfabetos.
Concepções ingênuas relativas ao analfabetismo
A consciência ingênua é fértil em atitudes referentes ao
analfabetismo. Algumas delas se referem às causas, outras ao
significado do analfabetismo. Não é possível indicá-las to
das, mas somente algumas.
a) No que diz respeito às causas, refere sempre o anal
fabetismo a um vício de formação individual, pelo qual é
responsável o próprio analfabeto ou sua família, jamais a so
ciedade como um todo. E quando menciona a sociedade, a
entende como um simples meio ambiente, como uma reali
93
dade puramente física, sem conseqüências existenciais. £ as
sim que as causas podem ser:
1 > o descuido da família em educar seus filhos, os ví
cios e o mau ambiente moral em que nasce a criança.
2) a indolência, a preguiça do indivíduo.
3) a incapacidade de adaptação ao meio, a rebeldia aos
bons hábitos.
4) o baixo nível intelectual da criança.
5) as más inclinações da criança que determinam a eva
são da escola.
6) as condições desfavoráveis do meio físico, especial
mente a distância da casa à escola.
7) o desinteresse dos governos em criar espolas para to
dos.
8) a pobreza familiar, entendida como fato isolado do
conceito de classe social.
b) No que se refere às atitudes que cultiva com relação
ao analfabetismo, já temos indicado que o considera como
um "mal", uma "enfermidade" social, e tem por ele enorme
desprezo, porque o considera como incultura, como uma
mancha na face do país. As elites intelectuais com freqüên-
cia preferem desinteressar-se do problema, que pessoalmen
te não lhes diz respeito, considerando-o como um resíduo
de um passado de ignorância, do qual individualmente se
liberaram.
c) Para "combater" ou "erradicar" o analfabetismo, o
que propõem é a ação governamental levada a cabo por
meio de "campanhas", que a consciência ingênua concebe
sempre de forma inadequada. Já temos dito que não deve
haver "campanhas" contra o analfabetismo (que partem do
conceito de analfabeto como o "inim igo" ou o "infiel"), mas
deveria haver apenas a ação normal, constante e intensa do
poder público para dar instrução aos iletrados, dentro de um
programa de governo que começaria por atuar sobre as cau
sas sociais do analfabetismo, as quais se resumem no grau de
94
atraso do desenvolvimento econômico da sociedade e a au
sência de real soberania nacional. A não ser assim, a ação go
vernamental só tendo um valor paliativo, quando não simbó
lico, é meramente sintomática e não etiológica. Vai alfabeti
zar mal (e inutilmente) analfabetos que terão depois filhos
analfabetos. .>
d) Uma das atitudes importantes da consciência ingê
nua está em acreditar que o analfabetismo é uma questão in
dividual, quase se diria de foro íntimo. Dirige-se ao analfabe
to com incitações morais e atitudes reprobatórias e primiti
vas, para acentuar a parte de culpa que lhe compete por en
contrar-se em seu estado. Apega-se à postura de que cabe ao
próprio analfabeto demonstrar suficiente interesse para
aprender a ler e conseguir os meios para tanto. Os partidá
rios desta concepção educacional se opõem à ação do poder
público e são naturalmente defensores da escola privada.
e) Outro grupo que igualmente se desinteressa do pro
blema do analfabetismo é o daqueles que julgam que uma
sociedade, uma nação, só vale pelas elites culturais que pro
duz. A ignorância das massas é apenas um peso morto, uma
carga que impede o desenvolvimento do trabalho superior,
mas ao mesmo tempo permite ter mão-de-obra mais barata.
Este ponto de vista quase nunca é confessado em público,
mas existe e orienta a política prática de muitas autoridades.
Costumam citar como exemplo as sociedades escravistas, on
de a ignorância das massas era total e onde, apesar disso,
produziram-se brilhantes obras de cultura na ciência, nas le
tras e nas artes.
Discussão sobre o valor dos índices de analfabetismo e das
estatísticas educacionais em geral
Da questão anterior passa se è interpretação dos índi
ces educacionais, de seu valor efetivo, de seu significado. Es
pecialmente merece ser discutido o que se refere à taxa de
analfabetismo numa área ou nação. Neste ponto, como sem
95
pre, é preciso distinguir o comportamento da consciência in
gênua do comportamento da consciência crítica.
A consciência ingênua tem a este respeito duas ati
tudes antagônicas.entre si. Ou se recusa a dar qualquer valor
a estes índices, considerando-os números frios, que nada sig
nificam com relação ao progressso real da sociedade (a prova
está em que países atrasados exibem grandes cidades, vida
culta, etc.); ou é tomada de violenta inquietação, de indigna
do furor, de sagrada cólera contra o estado de coisas que tais
índices revelam. Não é necessário dizer que, neste segundo
caso, por sua ingenuidade essencial, cai nas explicações e ati
tudes antes referidas.
A atitude de desdém admite que os índicps são mera
manipulação aritmética e só interessam aos técnicos. A so
ciedade pode ser culta e brilhante com 50%, com 30% ou
com 10% de analfabetos. Além disso, o que importa ao ho
mem é viver feliz e isso não depende de que seja ou não
analfabeto. Por conseqüência, os elevados índices de analfa
betismo não inquietam essa consciência. Acredita que serão
reduzidos por um processo espontâneo, sem dúvida muito
lento, ou seja, que "com o tempo" a nação alcançará a ex
tinção do analfabetismo do povo.
A atitude de indignação conduz a consciência ingê
nua a reclamar o que chama de "medidas imediatas" contra
o mal. Não sabe certa mente que fazer, mas exige que se fa
ça com urgência algo que ponha fim a essa "vergonha nacio
nal". Curioso é que se junta a esta atitude uma visível des
confiança na ação do governo para educar aos adultos anal
fabetos.
A consciência crítica procede de outra maneira. Não
recusa o valor dos índices educacionais, o que seria absurdo,
mas os submete a uma análise crítica com o fim de apreen
der seu verdadeiro significado.
Sabe que estes índices são produzidos por pesquisas
e publicados por organizações educacionais, em sua maioria
formadas de pessoas providas de uma consciência ingênua
96
com relação às questões sociais. Tais índices não trazem
qualquer indicação de seu verdadeiro conteúdo social,são
apresentados quase sempre como dados puros dos proble
mas pedagógicos e, por isso, ainda que se admita que são
verídicos (muitas vezes nem isso são), necessitam ser inter
pretados, isto é, colocados no contexto social a que se refe
rem e explicados à luz da análise crítica dessa realidade. Isto
só pode ser realizado pelo sociólogo ou pedagogo dotado de
consciência crítica.
Os dados estatísticos educacionais têm um valor
sempre relativo a seu contexto e por isso não permitem, se
não aproximadamente, o emprego do método comparativo.
Porque, sendo dados numéricos, quantitativos, trazem em si
uma contradição, que é a de referir-se a fatos sociais, por es
sência qualitativos (a qualidade da sociedade corresponden
te). Como estes não podem ser comparados diretamente,
mas somente interpretados em função do processo histórico
geral e do desenvolvimento, de cada entidade nacional,verifi
ca-se que o exame comparativo das estatísticas educacionais
(como aliás o das estatísticas vitais) só recebem seu verda
deiro significado à luz de uma análise que não é só numéri
ca, e sim sociológica, histórica, dialética.
A consciência crítica se comporta pois de uma ma
neira que não é nem de rejeição nem de aceitação incondi
cional. Não rejeita, porque sabe que a estatística tem um va
lor positivo, legítimo e mujto útil. Porém não permanece no
simples plano de quantidade, mas traduz todo dado numéri
co em expressões qualitativas. O que os índices, curvas e
gráficos revelam, são essencial mente fatos sociais, que, como
tais, só podem ser entendidos em profundidade quando são
relacionados com seu significado humano. Daí, a rejeição
ao excessivo tecnicismo das análises estatísticas. As correla
ções primordiais, elementares, são válidas e úteis pois são de
imediata tradução existencial. Porém, a partir delas, os téc
nicos elaboram uma arquitetura aritmética e analítica, com
a qual perdem todo o contato com a realidade humana e so-
97
ciai. Como isso lhes parece ser a última palavra de sua ciên
cia, estas estatísticas deixam de ter qualquer valor real para
o sociólogo e o pedagogo. A razão dessa lamentável conclu
são está em que a estatística pretende então valer por si, e
esquece seu significado legítimo de simpfes índice de uma
situação histórica complexa (o índice pretende substituir
o fato).
Noção crítica da alfabetização
A simboiização do pensamento 'como atividade
natural do homem. Já tivemos ocasião de assinalar os ca
racteres distintos de um método crítico de alfabetização
de adultos. O ponto que mais sobressai é aquele que não
se limita a considerar que se trata de um mero processo
de transmissão de uma técnica particular (a de ler e escre
ver), mas sim considera que se trata de produzir uma mu
dança na consciência do educando, mudança na qual o
conhecimento da leitura é apenas um dos elementos.
Por isso, o método crítico visa a constituir no edu
cando uma consciência crítica de si e de sua realidade, e ad
mite que, como elemento, como parte dessa consciência,
surge espontaneamente a compreensão da necessidade de al
cançar um plano mais elevado do saber, o plano letrado.
Dessa forma, o sujeito da alfabetização é o próprio
analfabeto. Ao contrário de ser objeto da ação do educador,
é o próprio sujeito de sua transformação pessoal.
A contribuição do educador consiste em possuir
uma técnica adequada para proporcionar os elementos da
linguagem escrita, mas de forma tal, que estes representem
98
a realidade do alfabetizando e sejam reconhecidos por ele
como tais.
O primeiro passo para a constituição da autocons-
ciência crítica do trabalhador, da qual decorre necessaria
mente a aquisição da linguagem escrita, está em fazê-lo
tornar-se observador consciente de sua realidade; desta
car-se dela para refletir sobre ela, deixando de ser apenas
participante inconsciente dela (e por isso incapaz de dis
cuti-la). Tecnicamente, esse resultado é alcançado median
te a apresentação ao educando adulto de imagens de seu
próprio meio de vida, de seus costumes, suas crenças, prá
ticas sociais, atitudes de seu grupo, etc. Com isso, o alfa
betizando se torna espectador e pode discutir sua realida
de, o que significa abrir o caminho para o começo da re
flexão crítica, do surgimento de sua autoconsciência.
A alfabetização decorre como conseqüência ime
diata da visão da realidade, associando-se a imagem da pa
lavra à imagem de uma situação concreta. Posteriormente,
a decomposição da palavra em seus elementos fonéticos e
a recomposição destes em outras palavras se faz sem nenhu
ma dificuldade e é um produto da criação intelectual do
próprio educando (e não uma sugestão externa que lhe é
imposta pelo professor).
0 fundamento humanista e dialético do método
crítico está em que a simbolização do pensamento é uma
atividade natural do homem.; Não precisa aprendê-la (por
que jamais o pensamento existe recluso na cabeça do in
divíduo adulto normal), apenas necessita convencionar só
cia Imente os símbolos que convém adotar.^Nas sociedades
letradas estes símbolos já são estabelecidos por convenção
tradicional, de maneira que o alfabetizando os encontra
prontos e só tem que tomar conhecimento deles.
Em todas as fases de seu desenvolvimento cultural
o homem tem simbolizado seu pensamento, reproduzindo-
o em imagens a princípio figurativas das próprias coisas
(pictogramas), depois das idéias das coisas (ideogramas) e,
99
por fim, em fase mais adiantada, descobre a utilidade de
representar graficamente a expressão oral (o nome) das coi
sas (fonogramas).
Nessa terceira etapa é que se chega à fase alfabética
(que também sofreu uma longa evolução).
As sociedades primitivas, como todas a s ' demais,
possuem seu sistema de simbolização do pensamento, em
função da necessidade de conservar e transmitir os conheci
mentos sociais no tempo e no espá^o de homem a homem,
sem confiar unicamente na faculdade imprecisa e insegura
da memória. O mesmo se verifica com a realização de opera
ções numéricas simples (por exemplo: os "quipus" das po
pulações incaicas). Na medida em que a sociedade evolui,
cresce a quantidade de conhecimentos que devem ser trans
mitidos. Isto vai obrigar a que se torne cada vez maior o vo
lume de símbolos particulares a serem conhecidos e memo
rizados. A partir de um certo número este processo se torna
impraticável e surgem então outras formas de representação,
até chegar à silábica e è alfabética.
O importante é compreender que o analfabeto adul
to atual, ao qual nos dirigimos, vive numa sociedade letrada
e por isso suas exigências culturais implícitas são as da lin
guagem alfabética, que é a de seu meio. Basta, portanto, re
tirá-lo das condições inferiores de existência em que vive e
fazê-lo compreender sua realidade para que imediatamente
incorpore o saber letrado como elemento natural da cons
ciência crítica que começa a produzir para si.
Apesar de ser ajudado pelo professor, este processo
é endógeno, é um fenômeno de conversão da consciência pe
la apropriação de uma realidade que é a do homem, mas
que lhe permanecia oculta ou pela qual não se interessava.
0 papel do professor é apenas incentivador, estimulador de
uma reação que se passa toda ela no íntimo da consciência
do alfabetizando (aspecto socrático do método).
O professor tem apenas a função de comunicar ao
aluno adulto quais são os símbolos de uso corrente na so
100
ciedade, para que o aluno se utilize deles a fim de satisfazer
as novas exigências de sua consciência recém-criada (a não
ser assim, se cada um inventasse o sistema de símbolos que
precisa possuir, haveria confusão geral e a comunicação so
cial se tornaria impossível).
Sua particular importância nas fases superiores, letra
das e da cultura. As fases superiores da cultura se caracte
rizam pelo saber letrado. Este não é causa da ciência mais
rica e sim efeito dela (ainda que como instrumento de fa
cilidade de comunicação reverte sobre a ciência existentecomo fator estimulante), é porque o saber socialmente
acumulado se tornou tão grande que não pode ser mais
conservado pela memória individual, que surge a necessi
dade de conservá-lo em forma material (pintura, caracte
res cuneiformes, hieróglifos, alfabetos, etc.), a fim de se
rem transmitidos de um indivíduo a outro. Com isso a so
ciedade alcança um grau superior de sua evolução e se cons
titui como sociedade letrada.
A escrita como resposta social específica em face
da necessidade de conservação de determinadas formas
do saber para a comunidade. 0 aprendizado da escrita,
como resposta social específica em face da necessidade de
conservar determinadas formas de saber útil para a comu
nidade, não se distingue existencial mente do aprendizado
da leitura. Uma e outra atividade são aspectos da mesma
função intelectual de simbolização, que é própria do ho
mem. O aprendizado da escrita se faz pelo método críti
co, com a mesma facilidade que o da leitura e simultanea
mente, pois se trata do verso e reverso da mesma ativida
de humana. Escreve-se porque se lê e se lê porque se escre
ve, e uma e outra coisa se faz porque se pensa. Neste senti
do, o trabalho do educador consiste apenas em introduzir
o educando no conhecimento do sistema vigente de con
venções gráficas usado pela sociedade e relativo ao idioma
habitual.
A transmissão do saber pelas vias não letradas (oral,
pictográfica, etc.). A transmissão do saber pelas vias não
letradas supõe o prévio conhecimento da linguagem fala
da. Para conhecê-lo basta ao indivíduo adulto ser normal.
101
A linguagem falada não é aprendida na escola e sim no de
senvolvimento social do ser humano. Ela é sem dúvida o
fundamento de todo o conhecimento e por isso pode-se di
zer que o analfabetismo a rígor não existe, pois o homem
(normal) é sempre capaz de expressar em sons falados seu
pensamento. 0 que necessita é apenas progredir até o pon
to em que se torne para ele uma necessidade também ex
pressar por meios gráficos seu pensamento, mas esta neces
sidade deriva sempre da primeira.
Assim, pode-se dizer que o homem lê e escreve por
que fala. Ao falar já está usando o sistema social básico de
comunicação. Só lhe falta passar da palavra falada à palavra
escrita, o que decorre sempre de suas necessidades materiais.
O adulto se toma analfabeto porque as condições
materiais de sua existência lhe permitem sobreviver dessa
forma com um mínimo de conhecimentos, o mínimo apren
dido pela aprendizagem oral, que se identifica com a própria
convivência social. Daí que não há para ele a necessidade de
escola.
Assim sendo, não se abre para o adulto analfabeto o
campo da cultura letrada, e por isso sua atividade cultural (a
qual nunca está ausente, do contrário não seria um ser adul
to normalmente desenvolvido) se expande sob a forma de li
teratura oral (poesia e música popular> os "cantadores de
feira", narrativas e recitativos, etc.).
Para que, a quem e como alfabetizar?
A questão fundamental do método. A sociedade em
preende a alfabetização de adultos fundamentalmente para
poder integrá-los num nível superior de produção. Já temos
dito que não se trata de dever moral, de obras de caridade,
e sim de uma imperiosa exigência social.
A sociedade precisa educar seus adultos, desde que
alcance um nível de desenvolvimento que torne incompatíJ
vel a existência de segmentos marginalizados em seu seio,
que podem aumentar a força de trabalho geral se forem
convertidos em trabalhadores letrados num nível alto de
conhecimento.
102
A finalidade da alfabetização de adultos, o que leva
a sociedade a empreendê-la, é a necessidade de aumentar o
rendimento de sua produção.; Quando o trabalhador não
tem possibilidade de render mais (em virtude do baixo nível
da produção) pode permanecer analfabeto, porque ainda
neste estado proporciona todo o trabalho^ue dele a socie
dade pode obter (dado o nível inferior geral). Porém, quan
do se deflagra o processo de desenvolvimento, as exigências
de trabalho se tornam quantitativa e qualitativamente mais
elevadas e surge então a necessidade de aproveitar melhor o
potencial de trabalho individual. Ora, aquelas possibilidades
são tais que não podem ser mais realizadas a não ser por tra
balhadores capacitados no exercício da leitura e da escrita.
A educação de adultos, sua alfabetização, se torna
assim uma necessidade generalizada. Alcança a todos, ho
mens e mulheres. Anteriormente, a solicitação social da alfa
betização se dirigia apenas a grupo social extremamente res
trito (em princípio os letrados, os escribas, os sacerdotes,
mais tarde toda a aristocracia), pois bastava que esses pou
cos indivíduos soubessem ler e escrever para haver transmis
são do escasso saber existente (Idade Média) e para o desem
penho das funções administrativas exigidas pela organização
relativamente elementar dessa sociedade. Por isso, verificava-
se o caso de que tanto muitos reis como os camponeses eram
analfabetos.
Uma lei geral do desenvolvimento educacional é es
ta: a sociedade nunca desperdiça seus recursos educacionais
(econômicos e pessoais), apenas proporciona educação nos
estritos limites de suas necessidades objetivas. Não educa
ninguém que não precise educar. Por isso, se hoje em dia em
todos os países em desenvolvimento se faz sentir a iniciativa
do poder público, que promove e comanda o esforço de al
fabetização do povo, é porque a sociedade agora precisa que
os atuais analfabetos possam ler e que os indivíduos de es
cassa instrução adquiram outros conhecimentos técnicos e
profissionais.
1 103
A questão do procedimento a seguir para a mais rá
pida promoção do indivíduo ao plano do saber letrado é re
gulada pela sociedade de acordo com as intenções da direção
da comunidade. A pedagogia não é ciência pura. Em virtude
de suas múltiplas implicações políticas e sociais, está sempre
submetida a um critério geral, a normas que transcendem do
campo científico e derivam de um centro de poder que dita
a política educacional.
Por isso, a escolha do método de alfabetização (e da
educação de adultos em geral), por mais que seja uma ques
tão fundamentai, da qual decorre o êxito ou não do esforço
social da alfabetização, não é ditada por razões puramente
pedagógicas, uma vez que está sujeita a estímulos sociais.
O prosseguimento da obra educacional nos graus
superiores (secundário, universitário)
A educação é processo contínuo e permanente no in
divíduo. Não pode ser contida dentro de limites pré-fixa-
dos. Em virtude do caráter criador do saber, que todo saber
possui, o homem que adquire conhecimentos é levado na
turalmente a desejar ir mais além daquilo que lhe é ensinado.
a) Desta forma, a promulgação de programas de educa
ção de aduítos é arbitrária e só tem finalidade utilitária. Em
princípio, não há limites.
b) Na prática os limites são fixados pelas possibilida
des de acesso aos graus süperiores que a sociedade oferece.
Numa primeira fase a sociedade não pode sequer alfabetizar
a seus adultos. Depois, em virtude de seu desenvolvimento,
consegue alfabetizar a muitos, mais tarde a todos. Nessas
condições mais adiantadas chega a um grau no qual já pode
tomar grande parte dos alfabetizados e levá-los aos estudos
secundários. Enfim, quando alcança um elevado grau de de
senvolvimento, está apta a dar educação superior a todos
que a desejarem.
104
c) Importante é compreender que todo esforço social
de alfabetização dá em resultado a criação de um exército
de reivindicantes de maior educação. Ê um resultado nor
mal, mas que significa a criação de novos e mais graves pro
blemas educacionais para o futuro. Os dirigentes políticos
do país devem estar atentos para este efeito cie seus propósi
tos, ao desenvolver a educação de adultos, pois quanto mais
educação se dá ao indivíduo mais exigente este se torna, e
isto porque: 1) ou encontra na sociedade os meios de apli
car em trabalho mais qualificado seus novos conhecimentos,e com isso desejará alcançar mais tarde níveis mais altos de
saber e de trabalho (fazendo-se reivindicante); 2) ou não en
contra essa possibilidade e se torna um reivindicante ainda
mais veemente contra o meio que não lhe permite desenvol
ver os conhecimentos que agora adquiriu. De toda maneira
é sempre um reivindicante.
105
79 TEM A:
A FO R M A Ç Ã O DO ED U C A D O R
Pergunta essencial: "Quem educa o educador?"
0 problema da formação do educador é estudado nessa
tema somente do ponto de vista antropológico-sociológico,
e não em seus aspectos técnicos, pedagógicos. O problema
da formação do educador, especialmente o educador de
adultos, é da mais alta importância. Tem que ser um dos
pontos contemplados em todo programa de expansão peda
gógica. Para tratar do assunto, se não queremos cair nas in-
genuidades habituais, que são também origem de grandes
dispêndios sociais contraproducentes, devemos examiná-lo
pelo enfoque da consciência crítica.
Já dissemos que existem dois processos educacionais
em curso na consciência social. A consciência ingênua consi
dera como educação nada mais do que o primeiro, e acredita
que o esforço principal da educação deve consistir em retirar
o aluno, e principal mente o aluno que se prepara para ser
107
professor, das influências do meio e capacitá-lo somente pa
ra a instrução técnica, para o desempenho de suas funções.
O ponto de vista da consciência crítica é o oposto.
Sabe que não haverá verdadeira função do professor senão
mediante a intensificação das influências sociais e a com
preensão cada vez mais clara que o educador tenha de que
sua atividade é eminentemente social, influi sobre os acon
tecimentos em curso no seu meio e só pode ser valiosa se ele
admite ser conscientemente participante desses aconteci
mentos.
A educação formalizada é um dos processos pelos
quais a sociedade se configura, mas não é, como pensa a pe
dagogia ingênua, o único que a configura. Todos os proces
sos configuradores da sociedade estão em estreita relação re
cíproca e se influenciam mutuamente. Deste modo, a edu
cação só alcança os resultados que o conjunto dos demais
processos lhe permite obter.
A pergunta fundamental, da qual deve partir toda
discussão do problema da formação do professor, é esta:
"quem educa o educador?". A consciência ingênua não sen
te a necessidade de suscitar esta pergunta porque lhe parece
óbvio que quem educa o educador é outro educador, que o
prepara para sua missão. Não percebe que tal resposta não
tem sentido, pois é imediata uma nova interrogação: "quem
educa a este educador que agora está educando o outro?".
Vê-se, portanto, que a primeira resposta não faz senão
estabelecer uma cadeia regressiva de educadores ao infinito,
e por isso é uma simples petição de princípio, sem valor
lógico.
A resposta correta é a que mostra o papel da
sociedade como educadora do educador. Em última análi
se, é sempre a sociedade que dita a concepção que cada edu
cador tem do seu papel, do modo de executá-lo, das finali
dades de sua ação, tudo isso de acordo com a posição que o
próprio educador ocupa na sociedade. A noção de posição
está tomada aqui no sentido histórico-dialético amplo e in-
108
dica por isso não só os fundamentos materiais da realidade
social do educador, mas igualmente o conjunto de suas
idéias em todos os terrenos, e muito particularmente no da
própria educação.
A sociedade está sempre delegando a alguns de seus
membros a função de educar os jovens e adtfltos. Essa dele
gação significa que a sociedade deseja ver compendiados e
transmitidos regularmente às novas gerações os conhecimen
tos que lhe são úteis, que expressam seu grau de avanço cul
tural e de domínio das forças da natureza, dentro de uma
determinada ordem de relações produtivas. A educação es
colar, da infância ou de adultos, é portanto a formalização
da educação espontânea (dada pela consciência social), en
riquecida dos conteúdos de saber que os sábios e os artistas
dessa sociedade têm produzido ou adquirido. Oeve-se enten
der como a ordenação do saber e não como passagem a um
plano de vida social distinto. Por isso continua a possuir a
mesma significação humana e social.
Claro está que tecnicamente a formação do profes
sor é um procedimento complexo de dotação de saber e de
preparação para sua conveniente transmissão a outros jovens
ou adultos. Mas, em essência, este procedimento é apenas a
condensação, a convergência, das influências que a socieda
de exerce sobre seus membros, e que deseja exercer de ma
neira cada vez mais organizada.
O educador deve compreender que a fonte de sua
aprendizagem, de sua formação, é sempre a sociedadç? Mas
está atua de dois modos: um, indiretamente, mas que apare
ce ao educando (futuro educador) como direto (pois é aque
le que sente como ação imediata): é o educador, do qual re
cebe ordenadamente os conhecimentos. E outro, diretamen
te, ainda que apareça ao educando (futuro educador) como
indireto, pois não o sente como pressão imediatamente per
ceptível: é a consciência, em geral, com o meio natural e hu
mano no qual se encontra o homem e do qual recebe os estí
109
mulos, os desafios, os problemas que o educam em sua cons
ciência de educador.
Importância da etapa de desenvolvimento econômico e
cultural da sociedade como determinante das
possibilidades quantitativas e qualitativas da educação e de
sua distribuição entre os membros da comunidade
Se a sociedade é o verdadeiro educador do educador,
sua ação se exerce sempre concretamente, isto é, no tempo
histórico, no momento pelo qual está passando seu processo
de desenvolvimento. Por isso, em cada etapa do desenvolvi
mento social, o conteúdo e a forma da educação que a so
ciedade dá a seus membros vão mudando de acordo com os
interesses gerais de tal momento.
Do feiticeiro da tribo ao pedagogo grego, ao escriba
romano, ao clérigo medieval, ao mestre e ao professor uni
versitário de hoje, a genealogia social é a mesma. A consti
tuição da figura do educador, seu status profissional e sua
valorização social são efeitos das diferentes etapas pelas quais
passa o processo histórico. O nível médio de formação do
professorado é um reflexo do nível médio do desenvolvi
mento social.
Em épocas de aceleração do processo social observa-
se frequentemente com plena nitidez, o descompasso entre a
consciência (e respectiva formação profissional) do educa
dor e as exigências impostas pelo curso dos acontecimentos
no momento. Esse atraso se explica porque a maioria dos
educadores foram preparados pela consciência precedente,
para servir a seus objetivos, dentro da realidade então exis
tente. Com a rápida mudança desta, o reajuste da consciência
de muitos pedagogos não se faz imediatamente, sem ocasio
nais conflitos. Grande parte dos educadores representa, nes
se momento, de maneira geral, um fator de inércia. Nestas
condições seu papel se torna pouco rentável ou francamente
negativo, reacionário, por não poder se adaptar às novas exi
gências da realidade.
110
Isso ocorre porque falta a esses professores a no
ção crítica de seu papel. Sua preparação tem sido realiza
da para uma função regular num suposto ambiente estável.
Quando, no entanto, a realidade, por força de sua natural
mobilidade, vai-se alterando, essa espécie de educadores não
se revela capaz de acompanhar a marcha das transformações.
Por isso é necessário que hoje em dia, quando somos
capazes de perceber este fato, preparemos os educadores pa
ra se converterem em forças atuantes do desenvolvimento
econômico e cultural da sociedade. Enquanto se encontrar
com relativa freqüêncía entre os educadores um conceito in
gênuo de si mesmos, da educação e da realidade nacional em
geral, eles poderão ser homens respeitados e dotados de con
sideráveis conhecimentos mas não estarão à altura de seu
papel na sociedade, que se esforça por produzir um salto
histórico no caminho do progresso.
A etapa história vividapela sociedade determina:
1) a formação do educador.
2) as possibilidades quantitativas da educação, ou se
ja, o número de membros da sociedade aos quais pode ser
distribuída, em seus diversos graus.
3) as possibilidades qualitativas da educação, ou seja,
o conteúdo e a forma do saber que é dado aos alunos em
todos os graus do ensino.
4) a distribuição do ensino escolarizado entre os mem
bros da comunidade, desde o grau zero (o analfabetismo)
até as modalidades avançadas de investigação científica, de
especialização técnica, de instrução universitária.
As possibilidades quantitativas e qualitativas da edu
cação dependem da etapa do desenvolvimento geral, porque
a sociedade dirigida por setores minoritários nunca educa
maior número de indivíduos, nem lhes distribui mais instru
ção que a necessária para que cumpram as tarefas objetivas
que lhes impõe. Em conseqüência, somente a mudança de
fase e a passagem a uma situação de maior desenvolvimento,
com a correspondente criação de maiores e mais complexas
exigências, levam a sociedade em uma curta etapa a incre
111
mentar quantitativamente e qualitativa mente o processo
educacional formalizado.
-A distribuição das oportunidades educativas formais
entre os membros jovens da sociedade, como igual mente a
convocação dos adultos para se incorporarem ao processo
cultural, mediante o conhecimento da leitura e da escrita, é
regido pelo mesmo mecanismo de satisfação das exigências
sociais. Essa distribuição, refletida nos índices estatísticos
pedagógicos, possui uma segunda significação, que é a essen
cial, a verdadeira, pois revela o grau de avanço do desenvol
vimento da comunidade. Os índices têm assim dupla signifi
cação: por um lado indicam um fenômeno (o aparente), a
situação educacional considerada enquanto tal; por outro la
do, manifestam uma essência (a realidade), a fase do desen
volvimento social e político do país.
A oportunidade que cada indivíduo, jovem ou adul
to, tem de figurar numa das faixas de distribuição educacio
nal lhe está designada por sua posição na sociedade, ou seja,
objetivamente falando, por seus determinantes materiais e
culturais. Por conseguinte, para que cada vez maior número
de indivíduos encontre oportunidade de se educar é preciso
que o contexto social se desenvolva, pois o atual estado só
oferece, obviamente, o conjunto de oportunidades presente.
Necessidade da capacitação sempre eficiente do educador
para o cumprimento de sua tarefa social.
Sua indispensável vinculação ao povo.
A sociedade educa o educador num processo sem fim e
de complexidade crescente. Já dissemos que o saber tem ca
ráter exponencial e isso nao somente na existência histórica
coletiva senão também na formação pessoal do educador.
A qualidade técnica e profissional do educador está
sempre submetida ao controle social pelos dispositivos le
gais que lhe atribuem este grau, asseguram-lhe o exercício
da docência e lhe proporcionam meios de constante aper-
112
feiçoamento. Mas, este é apenas o aspecto externo, o condi
cionamento coletivo que o determina em sua condição de
educador e lhe dá os recursos para se tornar um profissional
cada vez mais competente. Contudo, há outro controle, e
este é o que reaimente importa: o que é exercido pela pró
pria consciência do educador. "
Neste segundo sentido compete ao professor, além
de incrementar seus conhecimentos e atualizá-los, esforçar-
se por praticar os métodos mais adequados em seu ensino,
proceder a uma análise de sua própria realidade pessoal co
mo educador, examinar com autoconsciência crítica sua
conduta e seu desempenho, com a intenção de ver se está
cumprindo aquilo que sua consciência crítica da realidade
nacional lhe assinala como sua correta atividade.
A capacitação crescente do educador se faz, assim,
por duas vias: a via externa, representada por cursos de
aperfeiçoamento, seminários, leitura de periódicos especia
lizados, etc.; e a via interior, que é a indagação à qual cada
professor se submete, relativa ao cumprimento de seu papel
social. Uma forma em que se pratica com grande eficiência
esta análise é o debate coletivo, a crítica recíproca, a permu-
ta de pontos de vista, para que os educadores conheçam as
opiniões de seus colegas sobre os problemas comuns, as su
gestões que outros fazem e se aproveitam das conclusões
destes debates.
A condição para este constante aperfeiçoamento do
educador não é somente a sensibilidade aos estímulos inte
lectuais, mas é sobretudo a consciência de sua natureza in-
conc/usa como sabedor. Não são tanto os negligentes, mas
principal mente os auto-suficientes os que estacionam no ca
minho de sua formação profissional. Julgar que sabem todo
o necessário, considerar que seu papel na educação elemen
tar nada mais exige deles, é uma noção que paralisa a cons
ciência do educador e o torna inapto para progredir. Porque
o progresso não consiste na aquisição de novos dados de sa
ber, mas muito mais na aquisição da consciência de sua reali
113
dade como servidor social, de seu papel como interlocutor
necessário no diálogo educacional. Esta consciência não tem
limites em seu progresso, pois muda com o curso do proces
so objetivo, que é interminável.
O educador tem, portanto, que acompanhar o movi
mento da realidade. A forma de vida pessoal mais perfeita
na qual pode realizar este intento é permanecer em constan
te vinculação com o povo. Ao educador dotado de consciên
cia ingênua por muitas maneiras lhe acontece se distanciar
do povo; assim, por exemplo, quando se julga alguém a
quem a cultura transformou em personalidade distinta da
do homem do povo, ou quando acredita que sua função co
mo professor consiste em impor (em sobrepor) o saber ao
aluno inculto. Encontramos neste comportamento um vício
que destaca o professor do conjunto daqueles a quem ensi
na, dando-lhe a falsa idéia de ser uma pessoa de qualidade
diferente, superior.
O educador necessita compreender a natureza neces
sariamente coita do povo para sentir-se desejoso de unir-se
às massas de seu país. Precisa compreender que o povo é a
matriz de toda cultura, e que o saber, como conceito ou lei
que reflete ou apreende um aspecto da realidade, não é em
si mesmo cultura, senão que se torna tal quando representa
um produto da consciência geral. A cultura é por definição
uma totalidade e por isso é sempre possuída pelo povo co
mo unidade social. O conhecimento de um fato ou de uma
lei da realidade, depois de enunciado, torna-se objeto de
apreensão universal, mas em sua origem é sempre produto
de um particular estado social, é criação de alguém que per
tence a tal povo, em tal etapa de seu processo e não pode ser
concebido destacado desta referência à sua raiz histórica.
Depois de enunciado, o saber se torna igualmente produto
da cultura, porque o processo de sua divulgação e apropria
ção por outro contexto social (nacional) que não o produ
ziu expressa ainda o estado da realidade deste último con
texto. E como esta realidade é sempre uma totalidade, o
114
saber aí criado ou aprendido de fora tem conexões com
todos os demais aspectos dessa realidade e a expressa por
seus condicionamentos recíprocos.
Como o contexto social se define primordial mente
pela situação vivida pelo povo como um todo, o educador,
para poder ser um homem autentica mente* culto, tem que
estar ligado às origens da única espécie de cultura que lhe é
acessível: a sua. Sendo esta representada pelo povo como
totalidade, o educador só será de fato culto e só desempe
nhará com proveito suas funções se se conservar fiel às ins
pirações de seu povo, concretamente, das massas trabalha
doras de seu país.
Por isso, é sempre uma atitude ingênua considerar a
formação do educando, e seu constante aperfeiçoamento
exclusivamente técnico, como simples treinamento indivi
dual. é , ao contrário, o progresso de sua consciência críti
ca, de si e de seu mundo, que lhe dá a certeza de ser cada
vez mais competenteem seu ofício e mais culto como in
telectual, pois cada vez se acerca mais das origens legítimas
da cultura.
O educador como sabedor-ignorante, como ser em
permanente processo de aprender para ensinar.
A qualidade de culto adquirida pelo educador lhe dá a
noção de ser incompleto, inacabado, sabedor que ignora
muito mais do que sabe. Seu valor positivo está em que tem
consciência desse fato e se comporta em consonância com
ele, não buscando negá-lo, ocultá-lo ou disfarçá-lo.
é evidente que o educador tem um avanço na escala
de conhecimentos sobre o educando, mas isso não significa
necessariamente maior consciência da realidade. O saber ma
terial possuído não se identifica ainda com o exercício so
cial do saber, que é sempre produtivo de novo e original sa
ber. Para o educador ingênuo o saber é concebido como algo
que deve ser transmitido como um volume de mão em mão.
115
Mas o saber só se converte em instrumento de cultura quan
do é ele mesmo fecundo, ou seja, incorpora na consciência
daquele que o possui a compreensão de sua origem, e se des
tina a frutificar em novas obras de cultura.
O educando, por suposição, está privado do saber
que vai adquirir, mas não da consciência de sua situação, de
julgamento de si e da qualidade do professor que lhe dará a
instrução (ainda quando tal consciência não seja clara). Des
te modo pode ser mais culto que seu professor. Compete a
este ser capaz de reconhecer tal possibilidade, de julgá-la
normal e se beneficiar dela pelo encontro com a consciência
do aluno.
A reciprocidade da relação educacional:
o educando como educador.
Conceito critico da educação como diálogo entre os
educadores. A relação educacional é essencial mente recípro
ca, é uma troca de experiências, um diálogo. O educador in
gênuo não reconhece no aluno sua qualidade de sujeito e
por isso julga ser o único sujeito do ato pedagógico. Com is
so corrompe e deixa incompreendido tudo o que é essen
cial a este ato: o encontro de consciências.
Essa tese não é apenas teórica e somente utilizável
na esfera da filosofia da educação. É, antes, uma concepção
de conseqüências diretamente práticas. Porque se o educa
dor a admite, seu comportamento em relação ao aluno, es
pecialmente ao adulto, torna-se inteiramente diverso do que
se julgasse que sua função se resume a executar um soliló-
quio instrutivo. Altera-se a perspectiva do processo pedagó
gico e o professor, em conseqüência, passará a adotar méto
dos de ensino que são ditados pelo reconhecimento de que
sua atividade oferece dados do saber, mas que estes, enquan
to tais, não são a própria cultura, porém elementos da cultura.
O educando, por seu lado, sendo reconhecido como
sujeito se comporta como tal. Sente sua relação com o pro
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fessor como de cooperação num ato comum. Não se conce
be mais como o participante passivo da operação educacio
nal. Pode dar expansão a seus estímulos interiores de auto-
criação, ao mesmo tempo em que se sente atuante sobre o
processo social pelo fato de estar se alfabetizando, instruin
do-se.
Na situação oposta, o adulto analfabeto se sente co
mo objeto da solicitude social, que busca "salvá-lo" das
"trevas" da ignorância. Por isso, sua atitude é a de um indi
víduo que se julga meramente receptivo e que acredita só
ter que receber uma dádiva, uma mercê da sociedade, sem
poder influir em nada sobre ela. Mas, se adquire a consciên
cia crítica de seu estado no diálogo com a consciência crí
tica do educador, verifica que está mudando sua sociedade,
sua realidade, a essência de seu país pelo fato de estar mu
dando a si mesmo. Em lugar de estar sendo preparado para
a sociedade, está, ao contrário, preparando a sociedade para si.
De fato, a sociedade na qual um indivíduo se alfabe
tiza ou se instrui em grau mais elevado já não á a mesma que
anteriormente. Se o educador dá ao aluno adulto a certeza
de que parte dele mesmo, como sujeito, a aquisição do sa
ber, a concepção do mundo que o educando produz será
necessariamente crítica.
O educador crítico deverá dar a compreender ao
aluno que se está educando da mesma maneira que ele (o
educador) se educou. Porque, para a consciência ingênua do
aluno o professor é um ser diferente, portador de um dom
celeste inexplicável. Isso ocorre porque não é levado pelo
educador a refletir sobre o processo de educação que criou
o próprio educador. Se se faz este esclarecimento, o aluno
não sentirá nenhuma inferioridade, pois verifica que está
simplesmente refletindo aquela aprendizagem que já acon
teceu a outro, e que deu a este último a capacidade de edu
cador. Deste modo, o educando se reconhece como um edu
cador potencial, ou melhor, compreende que está sendo
educado não como ignorante, como permanente educando.
117
mas como possível educador, e de fato já em ação, a iniciar
por sua mudança.
O importante é deixar claramente estabelecida essa
tese fundamental da teoria pedagógica crítica: no processo
de educação não há uma desigualdade essencial entre dois
seres, mas um encontro amistoso pelo qual um e outro se
educam reciprocamente.