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8 ará: periquito.
9 uru: pequeno cesto.
10 crautá: bromélia.
11 juçara: palmeira de grandes espinhos.
12 ignoto: que ou o que é desconhecido.
13 lesto: ágil, veloz.
14 uiraçaba: estojo em que se guardavam e transportavam
as flechas.
15 quebrar a flecha: maneira simbólica de se estabelecer
a paz entre os indígenas
Agora, leia o trecho do romance O cortiço, de Aluísio
Azevedo (1857-1913), publicado em 1890.
E [Jerônimo] viu a Rita Baiana, que fora trocar o ves-
tido por uma saia, surgir de ombros e braços nus, para
dançar. A lua destoldara-se nesse momento, envolvendo-a
na sua coma1 de prata, a cujo refulgir os meneios da mesti-
ça melhor se acentuavam, cheios de uma graça irresistível,
simples, primitiva, feita toda de pecado, toda de paraíso,
com muito de serpente e muito de mulher.
Ela saltou em meio da roda, com os braços na cintura,
rebolando as ilhargas2 e bamboleando a cabeça, ora para
a esquerda, ora para a direita, como numa sofreguidão
de gozo carnal, num requebrado luxurioso que a punha
ofegante; já correndo de barriga empinada; já recuando
de braços estendidos, a tremer toda, como se se fosse
afundando num prazer grosso que nem azeite, em que se
não toma pé e nunca se encontra fundo.
[...]
Mas, ninguém como a Rita; só ela, só aquele demô-
nio, tinha o mágico segredo daqueles movimentos de
cobra amaldiçoada; aqueles requebros que não podiam
ser sem o cheiro que a mulata soltava de si e sem aque-
la voz doce, quebrada, harmoniosa, arrogante, meiga e
suplicante.
[...]
Naquela mulata estava o grande mistério, a síntese
das impressões que ele recebeu chegando aqui: ela era
a luz ardente do meio-dia; ela era o calor vermelho das
sestas da fazenda; era o aroma quente dos trevos e das
baunilhas, que o atordoara nas matas brasileiras; era a
palmeira virginal e esquiva que se não torce a nenhuma
outra planta; era o veneno e era o açúcar gostoso; era
o sapoti mais doce que o mel e era a castanha do caju,
que abre feridas com o seu azeite de fogo; ela era a
cobra verde e traiçoeira, a lagarta viscosa, a muriçoca
doida, que esvoaçava havia muito tempo em torno do
corpo dele, assanhando-lhe os desejos, acordando-lhe
as fibras embambecidas pela saudade da terra, pican-
do-lhe as artérias, para lhe cuspir dentro do sangue uma
centelha daquele amor setentrional, uma nota daquela
música feita de gemidos de prazer, uma larva daquela
nuvem de cantáridas3 que zumbiam em torno da Rita
Baiana e espalhavam-se pelo ar numa fosforescência
afrodisíaca.
(O cortiço, 2012.)
1 coma: cabeleira.
2 ilharga: anca.
3 cantárida: besouro.
Em que medida a descrição da personagem Rita
Baiana afasta-se da descrição de Iracema? Exem-
plique sua resposta com dois trechos retirados do
texto de Aluísio Azevedo. Que traço da estética na-
turalista se mostra mais visível na descrição de Rita
Baiana?
12 Fuvest 2017 Considere o excerto em que Araripe Jú-
nior, crítico associado ao Naturalismo, refere-se ao
“estilo” praticado “nesta terra”, isto é, no Brasil.
O estilo, nesta terra, é como o sumo da pinha, que,
quando viça, lasca, deforma-se, e, pelas fendas irregulares,
poreja o mel dulcíssimo, que as aves vêm beijar; ou como
o ácido do ananás do Amazonas, que desespera de sabor,
deixando a língua a verter sangue, picada e dolorida.
a) O modo pelo qual o crítico explica a feição que
o “estilo” assume “nesta terra” indica que ele
compartilha com o Naturalismo um postulado
fundamental. Qual é esse postulado? Explique re-
sumidamente.
b) As características de estilo sugeridas pelo críti-
co, no excerto, aplicam-se ao romance O ortiço,
de Aluísio Azevedo? Justifique sucintamente sua
resposta.
13 UFG 2014 Leia o texto a seguir:
Mas o cortiço já não era o mesmo; estava muito di-
ferente; mal dava ideia do que fora. O pátio, como João
Romão havia prometido, estreitara-se com as edificações
novas; agora parecia uma rua, todo calçado por igual e
iluminado por três lampiões grandes simetricamente dis-
postos. […] notavam-se por último na estalagem muitos
inquilinos novos, que já não eram gente sem gravata e
sem meias. A feroz engrenagem daquela máquina terrível,
que nunca parava, ia já lançando os dentes a uma nova
camada social que, pouco a pouco, se deixaria arrastar
inteira lá para dentro.
AZEVEDO, Aluísio. O cortiço. 20 ed. São Paulo: Ática, 1997. p. 181-2.
O trecho transcrito ilustra as transformações física e
social ocorridas no cortiço, que se relacionam aos
novos rumos estabelecidos por João Romão em sua
vida. Considerando esse episódio no contexto geral
do romance, responda:
a) Que transformação física foi essa e qual sua cau-
sa imediata?
b) Que relação direta se estabelece entre as mudanças
ocorridas na vida de João Romão e a transformação
social dos novos moradores do cortiço?
14 UFRGS 2018 Leia o trecho final de O cortiço.
A negra, imóvel, cercada de escamas e tripas de peixe,
com uma das mãos espalmada no chão e com a outra
segurando a faca de cozinha, olhou aterrada para eles,
sem pestanejar.
Os policiais, vendo que ela se não despachava, de-
sembainharam os sabres. Bertoleza então, erguendo-se
com ímpeto de anta bravia, recuou de um salto e, antes
LÍNGUA PORTUGUESA Capítulo 8 Naturalismo: o homem é bicho256
que alguém conseguisse alcançá-la, já de um só golpe
certeiro e fundo rasgara o ventre de lado a lado.
E depois embarcou para a frente, rugindo e esfoci-
nhando moribunda numa lameira de sangue.
João Romão fugira até ao canto mais escuro do arma-
zém, tapando o rosto com as mãos.
Nesse momento parava à porta da rua uma carruagem.
Era uma comissão de abolicionistas que vinha, de casaca,
trazer-lhe respeitosamente o diploma de sócio benemérito.
Ele mandou que os conduzissem para a sala de visitas.
Considere as seguintes armações sobre o trecho.
I. O narrador em terceira pessoa aproxima-se de
Bertoleza, assumindo seu ponto de vista para
desmascarar o falso abolicionismo de João Ro-
mão; ao mesmo tempo, mantém-se distante dela
ao descrevê-la com traços animalescos.
II. A morte terrível de Bertoleza destoa do anda-
mento geral do romance, marcado pelo lirismo
da narração, característica naturalista presente no
texto de Aluísio Azevedo.
III. A última frase do trecho sugere que João Romão
receberá a comissão a despeito do fim de Berto-
leza, em uma alegoria do Brasil: abolicionista na
sala de visitas, escravocrata na cozinha.
Quais estão corretas?
A Apenas II.
B Apenas III.
c Apenas I e II.
 Apenas I e III.
E I, II e III.
15 UFRGS 2016 Sobre o romance O cortiço, de Aluísio
Azevedo, assinale com V (verdadeiro) ou F (falso) as
seguintes afirmações.
J No início do romance, está o vendeiro português
João Romão que, com força de trabalho e boa dose
de oportunismo, constrói o cortiço, seu primeiro ca-
minho para a ascensão social.
J No romance, a ex-escrava Bertoleza é a companhei-
ra de João Romão, por ele tratada com respeito, o
que dá mostras do resolvido.
J No sobrado contíguo ao cortiço de João Romão,
vivem Miranda, Dona Estela e a filha Zulmirinha, fa-
mília financeiramente confortável, que cria sinceros
vínculos de amizade com João Romão e Bertoleza.
J No romance, Dona Estela, sempre descrita pelo
narrador como uma dama séria e decorosa, sofre
com as constantes traições de seu marido Miranda.
A sequência correta de preenchimento dos parênte-
ses, de cima para baixo, é
A V – F – V – F.
B F – V – F – V.
c V – F – F – F.
 F – F – V – V.
E V – V – F – V.
16 UFRGS 2014 No bloco superior a seguir, estão listados
dois nomes de personagens da obra O cortiço, de
Aluísio Azevedo; no inferior, descrições dessas per-
sonagens.
1. Pombinha 2. Rita Baiana
J É loura, pálida, com modos de menina de boa família.
J Casa-se, a fim de ascender socialmente.
J Tem farto cabelo, crespo e reluzente.
J Mantém personalidade inalterada ao longo do
romance.
J Descobre, a certa altura do romance, sua plenitude
na prostituição.
A sequência correta de preenchimento dos parênte-
ses, de cima para baixo, é
A 2 – 1 – 1 – 2 – 1.
B 1 – 2 – 2 – 1 – 2.
c 1 – 1 – 2 – 1 – 2.
 1 – 1 – 2 – 2 – 1.
E 2 – 2 – 1 – 2– 1.
17 UFG 2014 No romance O cortiço, de Aluísio Azevedo,
tem-se a representação da prestação de serviços do-
mésticos na sociedade carioca do século XIX. Nesse
sentido, a relação entre o enredo e o espaço do tra-
balho doméstico de tal período se expressa pelo fato
de que
A Piedade se torna lavadeira no Brasil, demonstran-
do que os serviços domésticos eram realizados por
pessoas de diversas classes sociais.
B Bertoleza serve João Romão como criada e aman-
te, o que expressa a presença da cultura escravista
em ambiente urbano.
c Pombinha se muda para a casa de Léonie, compro-
vando a possibilidade de ascensão social por meio
da prostituição.
 Rita Baiana se destaca como exímia dançarina, o
que reafirma o exercício das atividades artísticas
como uma especialidade feminina.
E Neném se especializa como engomadeira, o que
mostra a incorporação do modelo fordista de pro-
dução ao ambiente familiar.
18 UFG 2013 As trajetórias das personagens do romance
O cortiço, de Aluísio Azevedo, são representativas da
força com que o meio age sobre seus comportamen-
tos. Afetadas por essa força, as personagens
A Albino e Leocádia se tornam promíscuas devido às
más influências dos amigos do cortiço.
B João Romão e Bertoleza se anulam em nome da
ambição de fazer progredir o cortiço.
c Miranda e Estela se corrompem à medida que se
aproximam dos moradores do cortiço.
 Jerônimo e Pombinha são transformadas pela sen-
sualidade reinante no cortiço.
E Firmo e Rita Baiana têm seu caráter modificado pela
malandragem própria dos habitantes do cortiço.
F
R
E
N
T
E
 2
257
19 Unicamp 2014 Quase sempre levava-lhe presentes [...]
e perguntava-lhe se precisava de roupa ou de calçado.
Mas um belo dia, apresentou-se tão ébrio, que a direto-
ra lhe negou a entrada. [...] Tempos depois, Senhorinha
entregou à mãe uma conta de seis meses de pensão do
colégio, com uma carta em que a diretora negava-se a
conservar a menina [...]. Foi à procura do marido; [...]
Jerônimo apareceu afinal, com um ar triste de vicioso en-
vergonhado que não tem ânimo de deixar o vício [...].
— Eu não vim cá por passeio! prosseguiu Piedade
entre lágrimas! Vim cá para saber da conta do colégio!...
— Pague-a você!, que tem lá o dinheiro que lhe dei-
xei! Eu é que não tenho nenhum! [...]
E as duas, mãe e filha, desapareceram; enquanto
Jerônimo [...] monologava, furioso [...]. A mulata então
aproximou-se dele, por detrás; segurou-lhe a cabeça entre
as mãos e beijou-o na boca... Jerônimo voltou-se para a
amante... E abraçaram-se com ímpeto, como se o breve
tempo roubado pelas visitas fosse uma interrupção nos
seus amores.
AZEVEDO, Aluísio de. O cortiço. São Paulo: Ática, 1983. p. 137 e 139.
O cortiço não dava ideia do seu antigo caráter. [...] e,
com imenso pasmo, viram que a venda, a sebosa bodega,
onde João Romão se fez gente, ia também entrar em obras.
[...] levantaria um sobrado, mais alto que o do Miranda
[...]. E a crioula? Como havia de ser? [...] Como poderia
agora mandá-la passear assim, de um momento para outro,
se o demônio da crioula o acompanhava já havia tanto
tempo e toda a gente na estalagem sabia disso? [...] Mas,
só com lembrar-se da sua união com aquela brasileirinha
fina e aristocrática, um largo quadro de vitórias rasgava-
-se defronte da desensofrida avidez de sua vaidade. [...]
caber-lhe-ia mais tarde tudo o que o Miranda possuía...
AZEVEDO, Aluísio de. O cortiço. São Paulo: Ática, 1983. p. 133 e 145.
a) Considerando-se a pirâmide social representa-
da na obra, em que medida as personagens Rita
Baiana e Bertoleza, referidas nos excertos, pode-
riam ser aproximadas?
b) Levando em conta a relação das personagens
com o meio, compare o final das trajetórias do
português Jerônimo e do português João Romão.
20 Unicamp 2011 Pensando nos pares amorosos, já se
afirmou que “há n’O cortiço um pouco de Iracema
coada pelo Naturalismo” (CANDIDO, Antonio. “De cor-
tiço em cortiço”. In: O discurso e a cidade. São Paulo:
Duas Cidades, 1993. p. 142).
Partindo desse comentário, leia o trecho a seguir e
responda às questões.
O chorado arrastava-os a todos, despoticamente,
desesperando aos que não sabiam dançar. Mas, ninguém
como a Rita; só ela, só aquele demônio, tinha o mágico
segredo daqueles movimentos de cobra amaldiçoada;
aqueles requebros que não podiam ser sem o cheiro
que a mulata soltava de si e sem aquela voz doce, que-
brada, harmoniosa, arrogante, meiga e suplicante. [...]
Naquela mulata estava o grande mistério, a síntese das
impressões que ele recebeu chegando aqui: ela era a
luz ardente do meio-dia; ela era o calor vermelho das
sestas da fazenda; era o aroma quente dos trevos e das
baunilhas, que o atordoara nas matas brasileiras; era a
palmeira virginal e esquiva que se não torce a nenhuma
outra planta; era o veneno e era o açúcar gostoso; era
o sapoti mais doce que o mel e era a castanha do caju,
que abre feridas com o seu azeite de fogo; ela era a
cobra verde e traiçoeira, a lagarta viscosa, a muriçoca
doida, que esvoaçava havia muito tempo em torno do
corpo dele, assanhando-lhe os desejos, acordando-lhe
as fibras embambecidas pela saudade da terra, pican-
do-lhe as artérias, para lhe cuspir dentro do sangue uma
centelha daquele amor setentrional, uma nota daquela
música feita de gemidos de prazer, uma larva daquela
nuvem de cantáridas que zumbiam em torno da Rita
Baiana e espalhavam-se pelo ar numa fosforescência
afrodisíaca. Isto era o que Jerônimo sentia, mas o que
o tonto não podia conceber. De todas as impressões
daquele resto de domingo só lhe ficou no espírito o
entorpecimento de uma desconhecida embriaguez, não
de vinho, mas de mel chuchurreado no cálice de flores
americanas, dessas muito alvas, cheirosas e úmidas,
que ele na fazenda via debruçadas confidencialmente
sobre os limosos pântanos sombrios, onde as oiticicas
trescalam um aroma que entristece de saudade. [...] E
ela só foi ter com ele, levando-lhe a chávena fumegan-
te da perfumosa bebida que tinha sido a mensageira
dos seus amores; assentou-se ao rebordo da cama e,
segurando com uma das mãos o pires, e com a outra
a xícara, ajudava-o a beber, gole por gole, enquanto
seus olhos o acarinhavam, cintilantes de impaciência
no antegozo daquele primeiro enlace.
Depois, atirou fora a saia e, só de camisa, lançou-se
contra o seu amado, num frenesi de desejo doido.
AZEVEDO, Aluísio. O cortiço. Rio de Janeiro: Nova Aguilar,
2005. p. 498 e 581. (Ficção Completa).
a) Na descrição anterior, identifique dois aspectos
que permitem aproximar Rita Baiana de Iracema,
mostrando os limites dessa semelhança.
b) Identifique uma semelhança e uma diferença en-
tre Jerônimo e Martim.
LÍNGUA PORTUGUESA Capítulo 8 Naturalismo: o homem é bicho258

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