Prévia do material em texto
LÍNGUA PORTUGUESA Capítulo 16 Literatura contemporânea166 Ela e o mar entardeciam, mas, a um leve movimento que fez, seus olhos tomaram o brilho doce da adolescên- cia, sua voz era um pouco rouca Não teve filhos Talvez pense na filha que não teve... A forma do vaso sagrado não se repetirá nestas gerações turbulentas e talvez desapareça para sempre no crepúsculo que avança. Que fizemos desse sonho de deusa? De tudo o que lhe fizemos só lhe ficou o olhar triste, como diria o pobre Antônio, poeta português. O desejo de alguns a seguiu e a possuiu; outros ainda se erguerão como torvas chamas rubras, e virão crestá-la, eis ali um homem que avança na eterna marcha banal. Contemplo-a... Não, Deus não tem facilidade para desenhar Ele faz e refaz sem cessar Suas figuras, porque o erro e a desídia dos homens entorpecem Sua mão: de geração em geração, que longa paciência Ele não teve para juntar a essa linha do queixo essa orelha breve, para firmar bem a polpa da panturrilha Sim, foi a própria mão divina em um momento difícil e feliz. Depois Ele disse: anda E ela começou a andar entre os humanos Agora está aqui entardecendo; a brisa em seus cabelos pensa melancolias. As unhas são rubras; os cabelos também ela os pintou; é uma mulher de nosso tempo; mas neste mo- mento, perto do mar, é menos uma pessoa que um sonho de onda, fantasia de luz entre nuvens, avideusa trêmula, evanescente e eterna. Mas para que despetalar palavras tolas sobre sua ca- beça? Na verdade não há o que dizer; apenas olhar, olhar como quem reza, e depois, antes que a noite desça de uma vez, partir (Rubem Braga. A traição das elegantes. R.J.: Editora Sabiá, 1967, pp. 61-63.) 22 FCMMG 2018 A crônica de Rubem Braga, ao abordar o corpo feminino, demonstra: A atitude compassiva em relação às diferentes fases da vida. b visão crítica no confronto entre privilégios masculi nos e femininos. c perspectiva lírica na contemplação de um ser ex posto à ação do tempo. d viés sociológico mesclado ao lirismo na fixação de um episódio do cotidiano. 23 FCMMG 2018 O cronista faz alusão ao poeta portu- guês António Nobre (1867-1900), que escreveu os seguintes versos: “Ó grandes olhos outonais! Místicas luzes! Mais tristes do que o amor, solenes como as cruzes!” O adjetivo “outonais” corresponde, na crônica, ao ter- mo “crepúsculo” porque A aborda, ironicamente, a transitoriedade das coisas. b trata, metaforicamente, do envelhecimento da mulher. c remete, liricamente, ao passado romântico das mu- lheres. d recorre, hiperbolicamente, ao poder do tempo so- bre as pessoas. 24 UCS 2014 Assinale a alternativa correta a respeito de Ai de ti, Copacabana, de Rubem Braga A As crônicas versam tanto sobre lembranças de in- fância do escritor quanto sobre suas vivências em grandes cidades, como Paris e Nova Iorque. b Os temas das crônicas estão organizados de maneira cronológica, de modo que há uma con- tinuidade nos textos que acompanha a linearidade da vida do escritor. c Os textos de Ai de ti, Copacabana possuem um tom humorístico que se revela inclusive na crônica que dá título ao livro d O cronista Rubem Braga é essencialmente ligado à cidade do Rio de Janeiro; por isso, é lá que ele escreve todos os seus textos E O livro Ai de ti, Copacabana de Rubem Braga inau- gura o gênero crônica no Brasil. Para responder à questão 25, leia o texto a seguir. De ficção e realidade: diálogo possível – Literatura é fuga do real, cara! Veja o Brasil que te- mos: propina, tráfico de influência, delações, politicalha, trapaças... Quem disse que a Literatura não tem os pés fincados na realidade? Para o momento brasileiro, valem os versos: “Começa o mundo enfim pela ignorância,/ e tem qualquer dos bens por natureza”. Que bens? A rifa das licitações? O propinoduto? – É isso mesmo, cara! Diferente do fantasma român- tico, parece que o dinheiro virou uma “febre que nunca descansa,/ O delírio que te há de matar!...”. O que nós temos é uma safra de corruptos e cor- rompidos. – Verdade! Sujeito assim safado mereceria “ser das gentes o espectro execrado”. O tal “Ouro branco! Ouro preto! Ouro podre” corrompeu muito político “De cada ribeirão trepidante e de cada recosto/ de montanha, o metal rolou na cascalhada/ Para o fausto d’El-Rei”. Que vergonha! É! Mas, certamente, esse não é o “Ouro nativo que na ganga impura/ A bruta mina entre os cascalhos vela ” – Sei lá! O que mais nos reserva a Lava-Jato? – Veja só, cara! Ouvindo os noticiários, tenho a im- pressão que o assalto do vampiro tem mais equidade: “ Cê vem com a gente É uma loja Nós roubamos e dividimos o dinheiro. Em partes iguais”. – Então, ainda há o que cantar neste país? – Claro! Vai o legado das Olimpíadas e das Para- limpíadas: “Entre o laboratório de erros/ e o labirinto de surpresas,/ canta o conhecimento do limite,/ a madura experiência a brotar da rota esperança”. F R E N T E 2 167 25 Unioeste 2017 Com base na leitura do texto, assinale a alternativa incorreta. A O tom paródico do texto ironiza a corrupção pre sente na atual política brasileira. B O texto ampara-se na relação existente entre litera tura e realidade. C O “assalto do vampiro”, no texto, faz referência ao conto “O grande assalto”. D O “assalto do vampiro” remete ao escritor Dalton Trevisan, alcunhado, literariamente, de “O vampiro de Curitiba”. E De acordo com os versos nais de Manuel Ban- deira, o “laboratório de erros” da política impede “a rota esperança” 26 UEM 2015 Assinale o que for correto em relação aos elementos da narrativa transcrita: 92 Tarde de verão, é levado ao jardim na cadeira de bra ços – sobre a palhinha dura a capa de plástico e, apesar do calor, manta xadrez no joelho Cabeça caída no peito, um fio de baba no queixo. Sozinho, regala-se com o trino da corruíra, um cacho dourado de giesta e, ao arrepio da brisa, as folhinhas do chorão faiscando – verde, verde! pri- meira vez depois do insulto cerebral aquela ânsia de viver. De novo um homem, não barata leprosa com caspa na sobrancelha – e, a sombra das folhas na cabecinha trêmula adormece. Gritos: Recolha a roupa Maria, feche a janela Prendeu o Nero? Rebenta com fúria o temporal. Aos trancos João ergue o rosto, a chuva escorre na boca torta. Revira em agonia o olho vermelho – é uma coisa, que a família es- quece na confusão de recolher a roupa e fechar as janelas? TREVISAN, Dalton. In: Ah, é?. 2. ed. Rio de Janeiro: Record, 1994. p. 67 01 A voz narrativa é de primeira pessoa Trata-se de um narrador protagonista, a personagem João, que relata o momento em que sofre um “insulto cere bral” acidente vascular cerebral , acontecimento que o impede de retornar ao interior da casa 02 As indicações temporais cumprem importantes funções na estrutura narrativa, especialmente a de imprimir verossimilhança e movimento ao relato. O conto em foco, embora sua natureza seja pre- dominantemente psicológica e os fatos estejam intimamente ligados ao estado de espírito da perso- nagem, apresenta marcas cronológicas da passagem do tempo, como se observa no trecho: “Primeira vez depois do insulto cerebral aquela ânsia de viver”. 04 Embora não existam diálogos na narrativa, o narra dor, ao empregar o discurso indireto livre, permite que a voz da personagem aflore no texto. Espécie mista de discurso indireto e direto , o indireto livre concilia de tal forma as falas do narrador e de João que elas se confundem na enunciação, como se observa no excerto: “... é uma coisa, que a família esquece na confusão de recolher a roupa e fechar as janelas?”. 08 O texto, curto e condensado, dificulta o reconheci- mento de elementos que o configurem plenamente como gênero narrativo. Trata-se, predominante- mente, de uma manifestação do “eu lírico”, apenas um pretexto para a expressão do estado de aban- dono e desalento do “eu poético”, como se pode observar no trecho: “Cabeça caída no peito, um fio de baba no queixo” 16 Alguns elementos revelam-se importantes na es- trutura narrativa por identificarem-secom o estado emocional da personagem Na situação inicial da narrativa, apesar do desconforto ao ser deixado no jardim (“palhinha dura”, “capa de plástico”, “apesar do calor, manta xadrez sobre os joelhos”), João mostra-se tranquilo e a natureza reflete esse sentimento: “Sozinho, regala-se com o trino da corruíra, um cacho dourado de giesta e, ao arrepio da brisa, as folhinhas do chorão faiscando ver de, verde!”. No final, o espaço, modificado pelo agente transformador da situação de equilíbrio inicial o temporal , apresenta íntima conexão com o estado emocional da personagem, que, sentindo-se abandonada, “revira em agonia o olho vermelho...”. Soma: Leia os textos I e II para responder às questões 27 e 28. Texto I CLIII Criou a Natureza damas belas, Que foram de altos plectros celebradas; Delas tomou as partes mais prezadas, E a vós, Senhora, fez do melhor delas Elas diante vós são as estrelas, Que ficam com vos ver logo eclipsadas. Mas se elas têm por sol essas rosadas Luzes de sol maior, felizes elas! Em perfeição, em graça e gentileza, Por um modo entre humanos peregrino, A todo belo excede essa beleza Oh! Quem tivera partes de divino Para vos merecer! Mas se pureza De amor vale ante vós, de vós sou digno. CAMÕES, Luís de. Rimas: Segunda parte, Sonetos. In: Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2003 p 529. Texto II 34. Seu João, perdido de catarata negra nos dois olhos: – Meu consolo que, em vez de nhá Biela, vejo uma nuvem. LÍNGUA PORTUGUESA Capítulo 16 Literatura contemporânea168 Trevisan, Dalton 111 ais Ilustração de Ivan Pinheiro Machado. Porto Alegre: L&PM, 2001. p. 39. 27 UFJF/Pism 3 2016 Os textos I e II, ainda que muito dis- tantes entre si do ponto de vista cronológico, tratam basicamente do mesmo tema, evidenciando alguns dos aspectos atemporais da existência humana. En- quanto em Camões (texto I) a Senhora é apreciada em cada detalhe de sua composição, formando um todo perfeito e divino, Seu João de Dalton Trevisan (texto II): A resigna-se em apreciar sua Senhora apenas de longe b idealiza platonicamente a imagem da mulher amada c foge ao julgamento da beleza exterior de nhá Biela d lamenta a cegueira que o impede de ver sua musa. E contenta-se com a indistinção da figura de nhá Biela. 28 UFJF/Pism 3 2016 As referências à Senhora de Camões (texto I) e à nhá Biela de Dalton Trevisan (texto II) têm em comum: A as antíteses reiteradas. b a comparação aos deuses. c a metáfora celeste. d a aliteração sibilante. E a hipérbole da beleza. 29 UFRGS 2016 Leia as seguintes afirmações sobre os contos de Murilo Rubião I O conto “O edifício” é narrado em primeira pes soa pelo próprio engenheiro, João Gaspar, que é contratado para a construção de um arranha-céu II. O conto “O convidado”, narrado em terceira pes soa, conta a história de José Alferes, que, embora tenha recebido um convite estranho para uma festa à fantasia, decide ir mesmo assim. III. O conto “O homem do boné cinzento” é nar- rado em primeira pessoa por Roderico, que responsabiliza o homem do boné cinzento pela intranquilidade que se estabelece desde que se mudou para a vizinhança. Qual(is) está(ão) correta(s)? A Apenas I. b Apenas II. c Apenas III. d Apenas II e III. E I, II e III. 30 UFRGS 2015 No bloco superior a seguir, estão listados os títulos de alguns contos de Murilo Rubião; no in- ferior, aspectos e/ou temas relacionados aos contos. Associe adequadamente o bloco inferior ao superior. 1. “O ex-mágico da Taberna Minhota” 2. “Bárbara” 3. “A cidade” 4. “A flor de vidro” 5. “O lodo” J O conto está disposto de trás para a frente, apre sentando a história de Eronides e Marialice. J O conto narra a viagem de Cariba, único passagei- ro de um trem que para na penúltima estação do destino final. J Um suicida narra sua trajetória de fracassos, até tornar-se funcionário público. J O conto narra a relação de Galateu com seu médico, doutor Pink da Silva, apresentado, ambiguamente, como assustador e cômico. A sequência correta de preenchimento dos parênte- ses, de cima para baixo, é A 4 3 1 5 b 2 4 5 3 c 4 – 3 – 2 – 5 d 5 2 3 1 E 3 – 5 – 1 – 2 31 UFG 2013 Leia o trecho apresentado a seguir. A impassibilidade com que o grupo vencido recebeu a derrota desconcertou o velho: estavam tramando alguma coisa. Mas não o pegariam desprevenido. Conhecia de perto a astúcia dos que viviam do outro lado da montanha. […] Após um mês de ausência, para desapontamento ge- ral, Roque Diadema regressou. Fazia-se acompanhar de numerosa comitiva, onde predominavam os mecânicos […]. […] Enquanto isso, na aldeia, o clima era de mal-estar e desconfiança. […] Pressentiam que chegara a hora de se livrarem dos forasteiros. […] Não encontraram resistência [ ] Contudo, exigiram a imediata demolição das construções O ultimato não perturbou Roque Diadema Buscou a pasta e dela retirou diversas escrituras Aproveitei minha viagem para adquirir os terrenos Sou hoje proprietário de dois terços da área urbana do povoado. RUBIÃO, Murilo. “A diáspora”. Obra completa. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. p. 146-8. A relação entre o enredo do conto “A diáspora”, de Mu- rilo Rubião, e o processo brasileiro de modernização, impulsionado a partir do século XIX, se expressa na A localização geográfica do povoado, que determina um processo de urbanização calcado na segregação b questão da especulação imobiliária, que é visível na organização social do povoado antes da chega- da de Diadema e seu grupo de construtores.