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F R E N T E 2 223 A primeira área industrial estadunidense instalou-se no nordeste do país, onde há grandes cidades localizadas pr- ximas ao mar e à região dos Grandes Lagos, o que facilita o transporte, e onde há presença de minério de ferro e carvão mineral, recursos naturais essenciais às indústrias típicas da Primeira Revolução Industrial. Esses fatores contribuíram para a intensa industrialização da região e para a formação de um cinturão de fábricas, o manufacturing belt, formado pelas cidades de Cleveland, Buffalo, Detroit, Chicago, Pittsburgh, Columbus, Nova York, Boston, Baltimore e Filadélfia. Essa região era responsável por cerca de 75% da produção industrial nos Estados Unidos no contexto em questão. Porém, desde a desconcentração industrial – observada mais intensamente a partir da década de 1980 – e o surgimento de novos polos industriais ao sul e na costa oeste do país, a participação dessa região vem diminuindo, sendo inferior a 50% atualmente. Entretanto, ainda é uma área muito industrializada, densamente povoada e com o territrio altamente tecnificado. As grandes siderúrgicas concentram-se no estado da Pensilvânia, atraídas pela disponibilidade de carvão e pelo sistema de transporte, que tanto a abastece com minério de ferro vindo de Minnesota quanto escoa a produção para os centros consumidores por meio dos Grandes Lagos. Apesar do fechamento e da transferência de muitas usinas para outros locais, Pittsburgh ainda é a “capital do aço”. No Estado de Michigan, mais especificamente na região metropolitana de Detroit, consolidou-se um polo automobilístico, indústria de grande expressão durante a Segunda Revolução Industrial, além de todo o conjunto de indústrias fornecedoras de peças e acessrios necessários à fabricação de automveis. Entretanto, a outrora “capital mundial do automvel” entrou em decadência em razão da concorrência com as mais modernas e eficien- tes montadoras asiáticas. Sendo assim, muitas fábricas fecharam, deixando um exército de desempregados e a cidade de Detroit empobrecida. A paisagem atual ostenta fábricas e galpões abandonados. A desindustrialização é tão intensa que a região vem sendo chamada de rust belt (cinturão da ferrugem) em alusão às indústrias que deixaram de operar. Mundo: produção automotiva Fonte: elaborado com base em Production d’automobiles en 2010. Le Diplomatique. Disponível em: <www.monde-diplomatique.fr/local/cache-vignettes/L800xH408/prod-autos-dc700- 74a39.png?1512040538 >. Acesso em: 29 out. 2018. No mapa: A partir do mapa, é possível notar a diminuição da produção de automóveis nos países centrais, com destaque para os Estados Unidos e o Japão, e o aumento da produção nos países periféricos, com destaque para a China e a Índia. 0° OCEANO GLACIAL ÁRTICO OCEANO PACÍFICO OCEANO ATLÂNTICO OCEANO ÍNDICO OCEANO PACÍFICO Círculo Polar Ártico Círculo Polar Antártico M e ri d ia n o d e G re e n w ic h Trópico de Câncer Equador 0° Trópico de Capricórnio OCEANO GLACIAL ANTÁRTICO CANADÁ MÉXICO ESTADOS UNIDOS ALEMANHA FRANÇA ESPANHA REINO UNIDO REPÚBLICA TCHECA POLÔNIA ESLOVÁQUIA ROMÊNIA TURQUIA CASAQUISTÃO RÚSSIA COREIA DO SUL JAPÃO CHINA TAILÂNDIA MALÁSIA AUSTRÁLIA INDONÉSIA ÍNDIA ÁFRICA DO SUL TAIWANIRÃ BRASIL ITÁLIA EGITO Evolução da produção entre 2000 e 2010 (%) Produção de automóveis em 2010 (milhões de veículos) –83 0 100 200 783 20 10 1 0,1 5 0 ESCALA 2 430 km Mais ao sul, sobretudo no estado do Texas, a industrialização se desenvolveu no século XX com a descoberta de imensas bacias petrolíferas justamente em um momento em que esse recurso natural passava a ganhar muita relevância no processo industrial, tanto como fonte de energia como matéria-prima. A exploração do petrleo possibilitou a acumulação de capital, e a instalação de infraestruturas variadas e complexas no territrio estimulou a indústria petrolífera e química, atraindo também outros ramos industriais, como o aeronáutico e o aeroespacial. Esse desenvolvimento se intensificou durante e logo aps a Segunda Guerra Mundial, condição que fez alavancar o mercado consumidor e revelou a necessidade estratégica desse tipo de indústria e tecnologia para as pretensões políticas e econômicas dos Estados Unidos. Destacam-se nesse setor a cidade de Houston, com a presença do Centro Espacial da Nasa, e o Cabo Canaveral, na Flrida, com sua base de lançamentos de foguetes. Já na Costa Oeste, o processo de industrialização é mais recente e está muito associado às empresas de alta tecnologia, vinculadas às características que determinam a Terceira Revolução Industrial. Mas, antes disso, os atributos naturais da região e as políticas governamentais de incentivo à ocupação e à exploração desse territrio, bem como a instalação de infraestru- tura de transporte e energia, foram essenciais para criar condições para o desenvolvimento industrial local. As Montanhas Rochosas e a Serra Nevada são ricas em minerais metálicos, e a bacia da Califrnia possui petrleo e gás natural. A mão GEOGRAFIA Capítulo 3 Indústria224 de obra começou a se formar no período da Marcha para o Oeste e da Corrida do Ouro, eventos que atraíram milhões de pessoas. Sua localização geográfica, às margens do Oceano Pacífico, facilita as trocas com os países asiáticos, bem como a chegada de imigrantes desses países. Na posição noroeste, destaca-se a cidade de Seattle, sede da Boeing, grande indústria aeronáutica, e de mui- tas empresas de informática – a Microsoft está também no estado de Washington, na cidade de Redmond, a poucos quilômetros de Seattle. Entretanto, a Califrnia é o mais rico estado do país, que concentra a maior parte das indústrias e dos centros de pesquisa da Costa Oeste e lidera o novo cinturão industrial estadunidense, o sun belt, “cinturão do sol’’, nome dado em alusão ao clima mais quente e ensola- rado dessa região. O eixo entre San Diego e São Francisco, passando por Los Angeles, apresenta um parque industrial formado por in- dústrias petroquímicas, automobilísticas, navais, alimentícias, aeronáuticas e muitas outras ligadas à alta tecnologia. Os tecnopolos estadunidenses O primeiro e mais importante tecnopolo mundial loca- liza-se no Vale do Silício, área ao norte da Califrnia que compreende as cidades de Palo Alto, Cupertino, Santa Clara, entre outras dispersas no eixo entre São Francisco e San Jose. O nome dessa região é uma alusão à mais significativa matéria-prima utilizada na produção de micro- processadores, o silício. A corrida armamentista no contexto da Guerra Fria di- recionou o investimento estatal para o desenvolvimento de tecnologia de ponta e garantiu recursos e outros incentivos, como a instalação de centros de pesquisa, universidades e laboratrios na região, assim como gerou um mercado consumidor para tudo aquilo que era produzido. Vontade política, capital disponível, presença de mão de obra qualifi- cada e grande demanda por tecnologia de ponta explicam a concentração atual das mais significativas empresas rela- cionadas à informática, à biotecnologia e à internet no Vale do Silício. Lá estão as sedes de grandes empresas como Apple, Google, Oracle, HP, Facebook, Adobe, Intel e muitas outras – mesmo as com sedes em outros locais, como IBM e Microsoft, possuem filiais ali instaladas. Outro significativo tecnopolo estadunidense está lo- calizado na Costa Leste, curiosamente em meio a uma área de industrialização tradicional, que é a região me- tropolitana de Boston, no estado de Massachusetts. Ao contrário das cidades vizinhas, em relativa ou acentuada decadência, Boston conseguiu se destacar por ter sido capaz de promover um processo de reconversão indus- trial graças à concentração de renomados centros de pesquisa em tecnologia lá localizados, como Cambridge e MIT − sigla em inglês para Instituto de Tecnologia de Massachusetts –, além de Harvard, uma das mais impor- tantes universidades do mundo. Além da mão de obra altamente qualificada, as empresas de ponta também puderam contar com um espaçoequipado com moderna tecnologia para os rápidos fluxos exigidos pelas indús- trias de tecnologia de ponta. Este tecnopolo também é conhecido como Route 128. Industrialização nos países periféricos ou subdesenvolvidos América Latina Apesar da diversidade de realidades sociais, econômicas, culturais e territoriais entre os países latino-americanos, pode- mos distingui-los em dois grupos ao considerar o processo de industrialização e a importância desse setor na economia. No grupo dos países mais industrializados da região estão a Ar- gentina, o Brasil e o México. Todos os demais, mesmo com suas especificidades, como é o caso de Cuba e sua economia planificada, da Venezuela e sua grande exploração de petrleo e forte presença do Estado na economia, e do Chile, com uma política de impostos mais favorável às empresas privadas e uma tradicional indústria extrativa, podem ser classificados como países de menor relevância industrial, pois não possuem um parque industrial diverso, dinâmico e de grande porte compa- ráveis aos que têm os três países do primeiro grupo. América Latina: regiões industriais Fonte: elaborado com base em FERREIRA, Graça Maria Lemos. Atlas Geográco: espaço mundial. 4. ed. São Paulo: Moderna, 2013. p. 71. 80° O OCEANO PACÍFICO OCEANO ATLÂNTICO Tróp ico de C ânc er Trópic o de Ca pricórnio Equador 0° Monterrey Guadalajara Déficit O processo de industrialização dos países dessa região é recente, já que eles não participaram como protagonis- tas nas duas primeiras revoluções industriais, sendo, em sua maioria, resultado daquilo que se passava nos Estados Unidos e na Europa. Grande parte de seu parque industrial é consequência da expansão das indústrias dos países de- senvolvidos, que instalaram filiais na região, atraídas pelas vantagens locacionais da época e pelo grande mercado consumidor em potencial, além de amplos investimentos estatais, sobretudo nas indústrias de base. Foi apenas a partir da década de 1930 que as indús- trias da região passaram a ganhar alguma relevância na economia desses países, resultado de investimentos das elites, e a obter investimentos do Estado na instalação de siderúrgicas, metalúrgicas e petrolíferas. O Estado também investiu na tecnificação do territrio, ou seja, na instalação F R E N T E 2 225 de infraestruturas necessárias à reprodução do capital in- dustrial, típicas do modelo da Segunda Revolução Industrial, como sistema de transporte terrestre e marítimo (rodovias, ferrovias e portos), geração de energia (hidrelétricas e ter- melétricas) e rede de telecomunicações. A industrialização por substituição de importações teve relevância até pouco depois da Segunda Guerra Mundial, quando as limitações de capital e tecnologia nacionais im- pediram os avanços necessários no setor, e a concorrência com o capital e as indústrias estrangeiras, advindas dos paí- ses que rapidamente se recuperavam da guerra, passou a ordenar a industrialização em outra lgica: a da instalação das multinacionais dos ramos automobilístico, eletroeletrô- nico, farmacêutico, químico, alimentício e têxtil. Foi nesse período que ocorreu a maior industrialização da Argentina, do Brasil e do México. Assim como em muitos outros países de economia capitalista, as indústrias estão concentradas em algumas áreas ou regiões dos países latino-americanos: na Argen- tina, estão entre Buenos Aires – a capital – e Rosário; no México, estão no eixo Cidade do México-Guadalajara; e, no Brasil, estão na região Sudeste, sobretudo em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, caso que estuda- remos com mais detalhes adiante, ainda neste capítulo. Tigres Asiáticos Coreia do Sul, Cingapura, Taiwan e Hong Kong ficaram conhecidos como Tigres Asiáticos em razão de seus rápi- dos crescimentos industriais e da participação agressiva na pauta comercial internacional por meio da venda de produtos por preços altamente competitivos, conquistando, assim, parte do mercado mundial a partir dos anos 1970. Países até então de tradição agrícola inspiraram-se no modelo de desenvolvimento e industrialização japonês, estabelecendo uma pauta de produção para o mercado exterior e de investimento maciço na formação educacional de sua população desde o início da escolarização, além de contarem com incentivos e capitais dos países capitalistas desenvolvidos no contexto da Guerra Fria. Esses países não dispunham da maioria dos fatores loca- cionais clássicos para atração e desenvolvimento industrial. Tinham economias pouco expressivas, não possuíam merca- do consumidor interno e tampouco contavam com recursos minerais e energéticos. Apesar das diferenças entre os quatro países, que vão desde o tamanho de seus territrios e de suas populações até seus respectivos processos histricos de formação, em todos eles o Estado adotou medidas de redução de impostos para incentivar as exportações. Ao mesmo tempo, esses países sobretaxaram produtos importados, desvalorizando a moeda para oferecer produtos a preços mais competiti- vos, investiram em educação, inibiram a ação dos sindicatos, favoreceram o aumento da poupança interna, restringindo o consumo, e investiram pesado em toda infraestrutura ne- cessária ao desenvolvimento industrial. Também contavam com mão de obra mais barata que os concorrentes, que era também bastante disciplinada e se submetia a longas jornadas de trabalho. Assim, foram capazes de assimilar, re- produzir e aperfeiçoar as novas tecnologias da informação. Tigres Asiticos: político Fonte: elaborado com base em IBGE. Atlas geográco escolar. 8. ed. Rio de Janeiro: IBGE, 2018. p. 32. 135° E Trópico de Câncer Equador 0° OCEANO PACÍFICO COREIA Atualmente, a condição de vida e de trabalho nesses países está bastante diferente de anos atrás. Os salários são significativamente mais altos, e boa parte da população tem acesso a bens de consumo, equipamentos culturais e assistência médica, além da elevada qualidade da educa- ção, uma conquista mais antiga. Dentre os quatro países, destaca-se a Coreia do Sul – com maiores territrio e população e parque industrial di- versificado, composta de redes empresariais originalmente familiares denominadas chaebols, como Samsung, Hyundai e LG, que atuam em vários segmentos. Outros quatro países do Sudeste Asiático – Malásia, Tailândia, Indonésia e Filipinas – tiveram grande crescimen- to a partir dos anos 1980, seguindo passos semelhantes aos dos Tigres Asiáticos, e passaram a ser identificados como Novos Tigres. Assim como os quatro pioneiros, eles têm suas economias alicerçadas na exportação e, conse- quentemente, em uma boa infraestrutura portuária, o que atrai a concentração industrial para as regiões litorâneas. A partir de 1990, o Vietnã – país que possui uma economia planificada em transição – também passou a atrair inves- timentos estrangeiros, sobretudo na instalação de plantas fabris manufatureiras (calçados, roupas etc.). Atenção