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Exercícios Quincas Borba Profº Mari Neto Página 1 de 7 TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO: Texto para a(s) questão(ões) a seguir. E Sofia? interroga impaciente a leitora, tal qual Orgon: Et Tartufe? Ai, amiga minha, a resposta é naturalmente a mesma, – também ela comia bem, dormia largo e fofo, – coisas que, aliás, não impedem que uma pessoa ame, quando quer amar. Se esta última reflexão é o motivo secreto da vossa pergunta, deixai que vos diga que sois muito indiscreta, e que eu não me quero senão com dissimulados. Repito, comia bem, dormia largo e fofo. Chegara ao fim da comissão das Alagoas, com elogios da imprensa; a Atalaia chamou‐lhe “o anjo da consolação”. 1E não se pense que este nome a alegrou, posto que a lisonjeasse; ao contrário, resumindo em Sofia toda a ação da caridade, podia mortificar as novas amigas, e fazer‐lhe perder em um dia o trabalho de longos meses. Assim se explica o artigo que a mesma folha trouxe no número seguinte, nomeando, particularizando e glorificando as outras comissárias – “estrelas de primeira grandeza”. Machado de Assis, Quincas Borba. 1. (Fuvest 2020) No excerto, o autor recorre à intertextualidade, dialogando com a comédia de Molière, Tartufo (1664), cuja personagem central é um impostor da fé. Tal é a fama da peça que o nome próprio se incorporou ao vocabulário, inclusive em português, como substantivo comum, para designar o “indivíduo hipócrita” ou o “falso devoto”. No contexto maior do romance, sugere‐se que a tartufice a) se cola à imagem da leitora, indiscreta quanto aos amores alheios. b) é ação isolada de Sofia, arrivista social e benemérita fingida. c) diz respeito ao filósofo Quincas Borba, o que explica o título do livro. d) se produz na imprensa, apesar de esta se esquivar da eloquência vazia. e) se estende à sociedade, na qual o cinismo é o trunfo dos fortes. 2. (Ita 2019) No Realismo, o adultério subverte o ideal romântico de casamento. Machado de Assis, porém, costuma tratá-lo de modo ambíguo, valendo-se, por exemplo, do ciúme masculino ou da dubiedade feminina. Com isso, em seus romances, a traição nem sempre é comprovada, ou, mesmo que desejada pela mulher, não se consuma. Constatamos tal ambiguidade em Quincas Borba, quando a) Palha se enraivece com os olhares de desejo que os homens dirigem a Sofia nos eventos sociais. b) Sofia decide não contar ao marido que Rubião a assediou certa noite, no jardim da casa deles. c) Palha, mesmo interessado na riqueza de Rubião, decide confrontá-lo ao perceber o assédio dele a Sofia. d) Sofia tenta esconder do marido o interesse que tem por Carlos Maria, que a seduziu em um baile. e) Sofia, mesmo interessada em Carlos Maria, faz de tudo para que Maria Benedita se case com ele. 3. (Ita 2018) Em várias passagens de Quincas Borba, de Machado de Assis, as personagens interpretam erroneamente alguns fatos ou fazem ilações equivocadas a partir de algumas falas. Vemos isso, por exemplo, no episódio em que, a partir do relato que ouve de um cocheiro, Rubião se convence de que a) D. Tonica planeja casar-se com ele a qualquer custo. b) Palha pretende desfazer os negócios que tem com ele. c) Sofia deseja casá-lo com Maria Benedita. d) Sofia e Carlos Maria são amantes. e) Maria Benedita e Carlos Maria namoram em segredo. 4. (Ufu 2018) CAPÍTULO I Rubião fitava a enseada, – eram oito horas da manhã. Quem o visse, com os polegares metidos no cordão do chambre, à janela de uma grande casa de Botafogo, cuidaria que ele admirava aquele pedaço de água quieta; mas, em verdade, vos digo que pensava em outra coisa. Cotejava o passado com o presente. Que era, há um ano? Professor. Que é agora? Capitalista. Olha para si, para as chinelas (umas chinelas de Túnis, que lhe deu recente amigo, Cristiano Palha), para a casa, para o jardim, para a enseada, para os morros e para o céu; e tudo, desde as chinelas até o céu, tudo entra na mesma sensação de propriedade. “Vejam como Deus escreve direito por linhas tortas”, pensa ele. Se mana Piedade tem casado com Quincas Borba, apenas me daria uma esperança colateral. Não casou; ambos morreram, e aqui está tudo comigo; de modo que o que parecia uma desgraça... ASSIS, Machado. Quincas Borba. São Paulo: Editora Globo, 1997. p 1. a) No primeiro capítulo de Quincas Borba, já se anteveem princípios do Humanitismo, teoria desenvolvida pela personagem Quincas Borba. Explique, em um parágrafo, de que forma essa teoria se apresenta nesse capítulo. b) Em certa medida, Rubião opõe passado e presente, faz oposição entre ser professor e ser capitalista. Redija um parágrafo, evidenciando o pensamento de Rubião diante da nova situação e comparando-a com o antigo estado. 5. (Upf 2014) CAPÍTULO CCI Queria dizer aqui o fim do Quincas Borba, que adoeceu também, ganiu infinitamente, fugiu desvairado em busca do dono, e amanheceu morto na rua, três dias depois. Mas, vendo a morte do cão narrada em capítulo especial, é provável que me perguntes se ele, se o seu defunto homônimo é que dá o título ao livro, e por que um antes que outro – questão prenhe de questões, que nos levariam longe... Eia! chora os dois recentes mortos [Rubião e o cão], se tens lágrimas. Se só tens riso, ri-te! É a mesma coisa. O Cruzeiro que a linda Sofia não quis fitar, como lhe pedia Rubião, está assaz alto para não discernir os risos e as lágrimas dos homens. MACHADO DE ASSIS – Quincas Borba Assinale a afirmação correta sobre o texto acima. a) O narrador emprega, de modo magistral, as técnicas do distanciamento, ao narrar objetivamente, sem qualquer comentário dirigido ao leitor, as ações das personagens. b) O narrador claramente se solidariza com os sofrimentos do protagonista da sua narrativa. c) O narrador mostra a cruel indiferença universal à dor humana, ao neutralizar a distinção, por um lado, entre o homem e o cão quanto ao título do livro e, por outro lado, entre o riso e as lágrimas como possíveis reações às duas mortes e às desditas da personagem Rubião. d) O narrador mostra o universo em comunhão com a dor humana, aqui representada pelo desengano, loucura e morte da personagem Rubião. e) O narrador se refere à constelação do Cruzeiro do Sul como metáfora do universo essencialmente orientado pelo amor. 6. (Upf 2014) Leia as seguintes afirmações sobre a obra Quincas Borba de Machado de Assis. I. O autor realiza uma profunda análise social, revelando ceticismo em relação à sociedade de seu tempo e em relação à espécie humana. Página 2 de 7 II. Sofia é uma personagem ambígua, astuciosa e cerebral, que se distancia da fragilidade das heroínas românticas. III. A afeição de Sofia por Rubião, principalmente no final da narrativa, deixa transparecer a preocupação universal diante da dor humana. Está correto apenas o que se afirma em: a) I e III. b) II e III. c) I e II. d) I. e) II. TEXTO PARA AS PRÓXIMAS 3 QUESTÕES: CAPÍTULO XXI Na estação de Vassouras, entraram no trem Sofia e o marido, Cristiano de Almeida e Palha. Este era um rapagão de trinta e dois anos; 1ela ia entre vinte e sete e vinte e oito. Vieram sentar-se nos dois bancos fronteiros ao do Rubião [...]. [Rubião] — O senhor é lavrador? [Palha] — Não, senhor. [Rubião] — Mora na cidade? [Palha] — De Vassouras? Não; viemos aqui passar uma semana. Moro mesmo na Corte. Não teria jeito para lavrador, 2conquanto ache que é uma posição boa e honrada. Da lavoura passaram ao gado, à escravatura e à política. Cristiano Palha maldisse o governo, que introduzira na fala do trono uma palavra relativa à propriedade servil; mas, com grande espanto seu, Rubião não acudiu à indignação. Era plano deste vender os escravos que o testador lhe deixara, exceto um pajem; se alguma coisa perdesse, o resto da herança cobriria o desfalque. Demais, a fala do trono, queele também lera, mandava respeitar a propriedade atual. Que lhe importavam escravos futuros, se os não compraria? O pajem ia ser forro, logo que ele entrasse na posse dos bens. Palha desconversou, e passou à política, às câmaras, à guerra do Paraguai, tudo assuntos gerais, ao que Rubião atendia, mais ou menos. Sofia escutava apenas; movia tão somente os olhos, que sabia bonitos, fitando-os ora no marido, ora no interlocutor. — Vai ficar na Corte 3ou volta para Barbacena? perguntou o Palha no fim de vinte minutos de conversação. — 4Meu desejo é ficar, e fico mesmo, acudiu Rubião; estou cansado da província; 5quero gozar a vida. Pode ser até que vá à Europa, mas não sei ainda. Os olhos do Palha brilharam instantaneamente. Machado de Assis, Quincas Borba. 7. (Fgv 2014) Manifesta-se, no excerto de Quincas Borba, um tema que, relativamente frequente na ficção dos dois últimos séculos, é central nesse romance, a saber, o tema a) do contraponto entre o apego provinciano à tradição e a modernização urbana. b) do interiorano ingênuo esbulhado pela gente da capital. c) do “fugere urbem” — o do abandono das cidades, em busca do bucolismo campestre. d) da mulher sentimental, dividida entre dois amores. e) da oposição entre tendências nacionalistas e cosmopolitas. 8. (Fgv 2014) Vista no contexto da obra e observada nos termos em que se dá, a consideração da “questão servil”, que ocorre no excerto, remete a um contexto histórico no qual a) os processos de atualização em curso no País já encontram na escravidão um entrave ou um embaraço, tal como ocorre em O cortiço. b) o aumento desmedido do tráfico negreiro demanda a intervenção da Coroa, tal como ocorre nas Memórias de um sargento de milícias. c) o brilho social, a que almeja a Corte, se vê empanado pela presença dos escravos, tal como se postula em Senhora. d) já se considera a presença do elemento servil no ambiente escolar um impedimento à formação do jovem, tal como se declara em O Ateneu. e) a prefiguração do fim do cativeiro já enseja uma compreensão do Brasil como ente multirracial, conforme se verá, simbolicamente, em Macunaíma. 9. (Fgv 2014) Entre as técnicas narrativas que entram na composição do excerto encontra-se I. o emprego dos discursos direto, indireto e indireto livre; II. o foco da narração incidindo primeiramente sobre a vida mental e de relação, mas bem situado em contexto histórico-social determinado; III. o narrador onisciente, que, no entanto, constitui as personagens principalmente a partir da disseminação de indícios e de sugestões, demandando a perspicácia do leitor. Está correto o que se afirma em a) I, apenas. b) II, apenas. c) I e III, apenas. d) II e III, apenas. e) I, II e III. TEXTO PARA AS PRÓXIMAS 2 QUESTÕES: — Mas que Humanitas é esse? — Humanitas é o princípio. Há nas coisas todas certa substância recôndita e idêntica, um princípio único, universal, eterno, comum, indivisível e indestrutível, — ou, para usar a linguagem do grande Camões: Uma verdade que nas coisas anda, Que mora no visíbil e invisíbil. Pois essa sustância ou verdade, esse princípio indestrutível é que é Humanitas. Assim lhe chamo, porque resume o universo, e o universo é o homem. Vais entendendo? — Pouco; mas, ainda assim, como é que a morte de sua avó... — Não há morte. O encontro de ditas expansões, ou a expansão de duas formas, pode determinar a supressão de uma delas; mas, rigorosamente, não há morte, há vida, porque a supressão de uma é a condição da sobrevivência da outra, e a destruição não atinge o princípio universal e comum. Daí o caráter conservador e benéfico da guerra. Supõe tu um campo de batatas e duas tribos famintas. As batatas apenas chegam para alimentar uma das tribos, que assim adquire forças para transpor a montanha e ir à outra vertente, onde há batatas em abundância; mas, se as duas tribos dividirem em paz as batatas do campo, não chegam a nutrir-se suficientemente e morrem de inanição. A paz, nesse caso, é a destruição; a guerra é a conservação. Uma das tribos extermina a outra e recolhe os despojos. Daí a alegria da vitória, os hinos, aclamações, recompensas públicas e todos demais efeitos das ações bélicas. Se a guerra não fosse isso, tais demonstrações não chegariam a dar-se, pelo motivo real de que o homem só comemora e ama o que lhe é aprazível ou vantajoso, e pelo motivo racional de que nenhuma pessoa canoniza uma ação que virtualmente a destrói. Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas. (ASSIS, Joaquim Maria Machado de. Quincas Borba. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1997. p. 648-649.) 10. (Insper 2013) Nesse excerto, Quincas Borba explica a base de sua teoria humanitista, finalizando com a máxima “Ao vencedor, as batatas”. O personagem apresenta, em seu discurso, uma concepção a) subjetiva, tipicamente romântica, que revela uma visão idealizada da guerra. Página 3 de 7 b) maniqueísta, tipicamente parnasiana, que vê o mundo dividido entre o bem e o mal. c) ingênua, tipicamente determinista, que expressa uma visão destituída de valores morais. d) pragmática, tipicamente naturalista, que expressa um olhar impassível diante de vitórias ou mortes. e) estereotipada, tipicamente realista, que enxerga os homens como seres movidos por instintos primitivos. 11. (Insper 2013) As imagens abaixo fazem parte do game “Filosofighters”. Inspirado em jogos de lutas, ele propõe uma batalha verbal entre importantes filósofos. Nele os argumentos dos pensadores valem como golpes, conforme se verifica na ilustração abaixo. (imagem aumentada para a leitura ao final das questões) Relacione as teorias dos pensadores citados ao excerto de Machado de Assis. Por defender posição similar, infere-se que, no jogo, o “filósofo” Quincas Borba NÃO poderia ser adversário de a) Aristóteles, pois ao definir a paz como “destruição” e a guerra como “conservação”, Quincas Borba recupera a ideia de que “o homem é livre só dentro de regras”. b) Jean Paul-Sartre, pois, assim como o filósofo existencialista, o mentor do Humanitismo mostra que a necessidade de alimentação determina a obediência ou a violação às regras. c) Hobbes, pois a tese do Humanitismo reafirma a ideologia do autor de “Leviatã”, entendendo que o estado natural é o conflito. d) Rousseau, pois defende os mesmos princípios do filósofo iluminista, mostrando que, embora pareça ser uma solução, a guerra traz grandes prejuízos à humanidade. e) nenhum dos pensadores citados, pois Quincas Borba, ao contrário deles, prevê um destino promissor para a humanidade. TEXTO PARA AS PRÓXIMAS 4 QUESTÕES: Não há morte. O encontro de duas expansões, ou a expansão de duas formas, pode determinar a supressão de uma delas; mas, rigorosamente, não há morte, há vida, porque a supressão de uma é a condição da sobrevivência da outra e a destruição não atinge o princípio universal e comum. Daí o caráter conservador e benéfico da guerra. Supõe tu um campo de batatas e duas tribos famintas. As batatas apenas chegam para alimentar uma das tribos, que assim adquire forças para transpor a montanha e ir à outra vertente, onde há batatas em abundância; mas, se as duas tribos dividirem em paz as batatas do campo, não chegam a nutrir-se suficientemente e morrem de inanição. A paz, nesse caso, é a destruição; a guerra é a conservação. Uma das tribos extermina a outra e recolhe os despojos. Daí a alegria da vitória, os hinos, aclamações, recompensas públicas e todos os demais efeitos das ações bélicas. (...) Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas. (Machado de Assis, Quincas Borba) 12. (Espm 2013) Em relação às orações anteriores, a frase “Daí o caráter conservador e benéfico da guerra.” traduz ideia de: a) concessão b) comparação c) causa d) oposição e) conclusão 13.(Espm 2013) Segundo o texto: a) a concorrência entre os homens é regulada pela sede inata de poder. b) a concorrência entre os povos é determinada pela lógica da guerra. c) a disputa entre as tribos gira invariavelmente em torno de alimentos. d) a competição entre os grupos humanos é condicionada pela busca das recompensas. e) a competição entre os homens resulta, em última análise, da evolução das espécies. 14. (Espm 2013) Entende-se do trecho que: a) a paz é destruidora porque não produz alimentos em abundância para os povos. b) a paz é destruidora porque sempre provoca a inanição da sociedade mais fraca. c) a guerra é benéfica porque assegura a sobrevivência da espécie mais forte. d) a guerra é benéfica porque permite a eliminação dos fracos e incompetentes. e) a guerra é benéfica porque corrompe o princípio universal e comum. 15. (Espm 2013) As batatas a que o texto se refere: a) simbolizam a solidez dos bens materiais. b) representam o objeto concreto de luta entre as tribos famintas. c) sintetizam os despojos e a precariedade da natureza humana. d) evidenciam figuradamente as ações bélicas. e) expressam metaforicamente a cota material do perdedor. 16. (Enem 2010) Capítulo III Um criado trouxe o café. Rubião pegou na xícara e, enquanto lhe deitava açúcar, ia disfarçadamente mirando a bandeja, que era de prata lavrada. Prata, ouro, eram os metais que amava de coração; não gostava de bronze, mas o amigo Palha disse-lhe que era matéria de preço, e assim se explica este par de figuras que aqui está na sala: um Mefistófeles e um Fausto. Tivesse, porém, de escolher, escolheria a bandeja, – primor de argentaria, execução fina e acabada. O criado esperava teso e sério. Era espanhol; e não foi sem resistência que Rubião o aceitou das mãos de Cristiano; por mais que lhe dissesse que estava acostumado aos seus crioulos de Minas, e não queria línguas estrangeiras em casa, o amigo Palha insistiu, demonstrando-lhe a necessidade de ter criados brancos. Página 4 de 7 Rubião cedeu com pena. O seu bom pajem, que ele queria por na sala, como um pedaço da província, nem o pode deixar na cozinha, onde reinava um francês, Jean; foi degradado a outros serviços. ASSIS, M. Quincas Borba. In: Obra completa. V.1. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1993 (fragmento). Quincas Borba situa-se entre as obras-primas do autor e da literatura brasileira. No fragmento apresentado, a peculiaridade do texto que garante a universalização de sua abordagem reside a) no conflito entre o passado pobre e o presente rico, que simboliza o triunfo da aparência sobre a essência. b) no sentimento de nostalgia do passado devido à substituição da mão de obra escrava pela dos imigrantes. c) na referência a Fausto e Mefistófeles, que representam o desejo de eternização de Rubião. d) na admiração dos metais por parte de Rubião, que metaforicamente representam a durabilidade dos bens produzidos pelo trabalho. e) na resistência de Rubião aos criados estrangeiros, que reproduz o sentimento de xenofobia. 17. (Enem 2ª aplicação 2010) Quincas Borba mal podia encobrir a satisfação do triunfo. Tinha uma asa de frango no prato, e trincava-a com filosófica serenidade. Eu fiz-lhe ainda algumas objeções, mas tão frouxas, que ele não gastou muito tempo em destruí-las. — Para entender bem o meu sistema, concluiu ele, importa não esquecer nunca o princípio universal, repartido e resumido em cada homem. Olha: a guerra, que parece uma calamidade, é uma operação conveniente, como se disséssemos o estalar dos dedos de Humanitas; a fome (e ele chupava filosoficamente a asa de frango), a fome é uma prova a que a Humanitas submete a própria víscera. Mas eu não quero outro documento da sublimidade do meu sistema, senão este mesmo frango. Nutriu-se de milho, que foi plantado por um africano, suponhamos, importado de Angola. Nasceu esse africano, cresceu, foi vendido; um navio o trouxe, um navio construído de madeira cortada no mato por dez ou doze homens, levado por velas, que oito ou dez homens teceram, sem contar a cordoalha e outras partes do aparelho náutico. Assim, este frango, que eu almocei agora mesmo, é o resultado de uma multidão de esforços e lutas, executadas com o único fim de dar mate ao meu apetite. ASSIS, M. Memórias póstumas de Brás Cubas. Rio de Janeiro: Civilização Brasiliense, 1975. A filosofia de Quincas Borba — a Humanitas — contém princípios que, conforme a explanação do personagem, consideram a cooperação entre as pessoas uma forma de a) lutar pelo bem da coletividade. b) atender a interesses pessoais. c) erradicar a desigualdade social. d) minimizar as diferenças individuais. e) estabelecer vínculos sociais profundos. 18. (Fuvest 2021) Leia o texto para responder à questão. Nessa mesma noite, leu-lhe o artigo em que advertia o partido da conveniência de não ceder às perfídias do poder, apoiando em algumas províncias certa gente corrupta e sem valor. Eis aqui a conclusão: "Os partidos devem ser unidos e disciplinados. Há quem pretenda (mirabile dictu!1) que essa disciplina e união não podem ir ao ponto de rejeitar os benefícios que caem das mãos dos adversários. Risum teneatis!2 Quem pode proferir tal blasfêmia sem que lhe tremam as carnes? Mas suponha mos que assim seja, que a oposição possa, uma ou outra vez, fechar os olhos aos desmandos do governo, à postergação das leis, aos excessos da autoridade, à perversidade e aos sofismas. Quid inde?3 Tais casos, – aliás, raros, – só podiam ser admitidos quando favorecessem os elementos bons, não os maus. Cada partido tem os seus díscolos e sicofantas. È interesse dos nossos adversários ver-nos afrouxar, a troco da animação dada à parte corrupta do partido. Esta é a verdade; negá-lo é provocar-nos à guerra intestina, isto é, à dilaceração da alma nacional. Mas, não, as ideias não morrem; elas são o lábaro da justiça. Os vendilhões serão expulsos do templo; ficarão os crentes e os puros, os que põem acima dos interesses mesquinhos, locais e passageiros a vitória indefectível dos princípios. Tudo que não for isto ter-nos-á contra si. Alea jacto est4". (...) Rubião aplaudiu o artigo; achava-o excelente. Talvez pouco enérgico. Vendilhões, por exemplo, era bem dito; mas ficava melhor vis vendilhões. – Vis vendilhões? Há só um inconveniente, ponderou Camacho. É a repetição dos vv. Vis vem... Vis vendilhões; não sente que o som fica desagradável? – Mas lá em cima há vés vis... – Vae victis. Mas é uma frase latina. Podemos arranjar outra coisa: vis mercadores. – Vis mercadores é bom. – Contudo, mercadores não tem a força de vendilhões. – Então, por que não deixa vendilhões? Vis vendilhões é forte; ninguém repara no som. Olhe, eu nunca dou por isso. Gosto de energia. Vis vendilhões. Machado de Assis. Quincas Borba. 1“Coisa admirável de dizer.” 2“Contereis o riso.” 3“O que então?” 4“Á sorte está lançada. a) Segundo Camacho, os partidos possuem entre os seus membros “díscolos e sicofantas, isto é, dissidentes e caluniadores. De que modo a retórica do político constitui um artifício para persuadir o seu ouvinte quanto aos erros de alguns correligionários? b) A expressão latina Vae victis! (“Ai dos vencidos!”) lembra ao leitor a máxima da filosofia que Quincas Borba apresenta a Rubião no início do romance. Como essas duas frases se contrapõem na trajetória do protagonista? 19. (Fuvest 2021) Rubião fitava a enseada, – eram oito horas da manhã. Quem o visse, com os polegares metidos no cordão do chambre, à janela de uma grande casa de Botafogo, cuidaria que ele admirava aquele pedaço de água quieta; mas em verdade vos digo que pensava em outra coisa. Cotejava o passado com o presente. Que era, há um ano? Professor. Que é agora! Capitalista. Olha para si, para as chinelas (umas chinelas de Túnis, que lhedeu recente amigo, Cristiano Palha), para a casa, para o jardim, para a enseada, para os morros e para o céu; e tudo, desde as chinelas até o céu, tudo entra na mesma sensação de propriedade. – Vejam como Deus escreve direito por linhas tortas, pensa ele. Se mana Piedade tem casado com Quincas Barba, apenas me dano uma esperança colateral. Não casou; ambos morreram, e aqui está tudo comigo; de modo que o que parecia uma desgraça... Machado de Assis, Quincas Borba. O primeiro capítulo de Quincas Borba já apresenta ao leitor um elemento que será fundamental na construção do romance: a) a contemplação das paisagens naturais, como se lê em “ele admirava aquele pedaço de água quieta”. Página 5 de 7 b) a presença de um narrador-personagem, como se lê em “em verdade vos digo que pensava em outra coisa”. c) a sobriedade do protagonista ao avaliar o seu percurso, como se lê em “Cotejava o passado com o presente”. d) o sentido místico e fatalista que rege os destinos, como se lê em “Deus escreve direito por linhas tortas”. e) a reversibilidade entre o cômico e o trágico, como se lê em “de modo que o que parecia uma desgraça...”. Gabarito: Resposta da questão 1: [E] Na peça de Molière, Tartufo é personagem símbolo de uma sociedade hipócrita, em que a maioria tem como objetivo granjear privilégios e elevar seu status social, mesmo que para tal tenha de mentir, roubar ou transgredir qualquer preceito ético e moral. Segundo o enunciado, o termo tartufo passou a ter a acepção de pessoa hipócrita ou falso religioso, o que permite deduzir que a tartufice caracteriza não só a personagem Sofia, mas, de forma genérica, a sociedade, “na qual o cinismo é o trunfo dos fortes”, como transcrito em [E]. Resposta da questão 2: [D] [A] Incorreto. Palha sente ciúmes em relação ao comportamento de Carlos Maria e sua esposa, e se desespera com tal suspeita. [B] Incorreto. Sofia conta ao marido que Rubião tem interesse nela. [C] Incorreto. Palha, por interesses financeiros, não confronta Rubião. [D] Correto. Sofia tem interesse em Carlos Maria e procura contornar a situação, uma vez que seu marido sente ciúmes do contato entre os dois. [E] Incorreto. Quem apoia o casamento entre Maria Benedita e Carlos Maria é D. Fernanda. Resposta da questão 3: [D] [A] Incorreta. O cocheiro faz referências a um casal, que Rubião pensa ser Sofia e Carlos Maria. [B] Incorreta. O cocheiro menciona vagamente um casal de amantes. [C] Incorreta. O cocheiro não menciona casamento, mas sugere que um determinado casal seja amante. [D] Correta. O cocheiro faz referências a um casal, que Rubião pensa ser Sofia e Carlos Maria. [E] Incorreta. Rubião associa os comentários a Sofia e Carlos Maria. Resposta da questão 4: a) O Humanitismo, teoria desenvolvida pelo personagem Quincas Borba, não se preocupa com a fraqueza e com a derrota dos indivíduos isolados, pois seu desígnio consiste justamente na vitória do mais forte: “(...) não há morte, há vida, porque a supressão de uma é a condição da sobrevivência da outra”. Logo, ao que vence, ao que sobrevive, caberiam merecidamente as recompensas: “ao vencedor, as batatas”. O Humanitismo acontece no trecho, pois Rubião é levado a se sentir um exemplo de vencedor, já que ele estava vivo e rico, ao passo que Quincas Borba e Piedade já estavam mortos. Para ele, a morte nesse contexto não representou o fim, mas a propulsão para a sua prosperidade, filosofia fictícia sintetizada na frase “Vejam como Deus escreve direito por linhas tortas”. b) O excerto do Capítulo I de Quincas Borba faz uma síntese da trajetória do personagem Rubião a partir da filosofia fictícia do Humanitismo, numa perspectiva irônica. Rubião faz reflexões diante da sua situação de novo- rico, estabelecendo uma comparação entre a diferença marcante de sua condição de vida passada (como um professor pobre, em Barbacena) e a presente, como um abastado capitalista vivendo na capital. Quando professor, ele só possuía o saber, mas, ao tornar-se capitalista, pôde desfrutar de confortos e de prazeres jamais antes experimentados, como morar em uma grande casa confortável, bem localizada, vestido com roupas de luxo à moda europeia, sendo paparicado por novos e influentes amigos. a nova vida do personagem trazia-lhe , antes de tudo, o prazer da propriedade (“aqui está tudo comigo”), princípio básico da lógica capitalista, que o deslumbramento de Rubião faz crescer sem medidas, indo facilmente do gozo da posse banal de artigos de luxo à megalomania da sensação de ser dono do mundo: “desde as chinelas até o céu, tudo entra na mesma sensação de propriedade. Resposta da questão 5: [C] [A] O narrador, ao contrário, interage com o leitor, como no exemplo a seguir: Mas, vendo a morte do cão narrada em capítulo especial, é provável que me perguntes (...). É com o leitor que o narrador está falando. [B] O narrador mostra-se indiferente às mortes, tanto do protagonista quanto do cão homônimo. Essa indiferença está ligada ao desprezo que a maioria das pessoas sente com relação ao sofrimento alheio, segundo a interpretação do cético narrador. [C] Correta. O narrador sabe da indiferença universal com relação aos destinos e à dor humana. Para destacá-la, tanto o dono quanto o cão aparecem em pé de igualdade, dessa forma, a indiferença das pessoas com relação ao sofrimento de um e de outro passa a ser aceitável. [D] O narrador mostra-se indiferente aos sentimentos e reações que poderiam advir do inusitado destino de Rubião no desfecho da narrativa. [E] O Cruzeiro do Sul acaba servindo de metáfora para expressar o distanciamento do narrador e dos leitores com relação ao destino do protagonista. Resposta da questão 6: [C] [I] Correto. O autor mostra o mundo da corte, das amizades interesseiras, do mundo das aparências acima de tudo, o que permite uma crítica ácida à sociedade burguesa. [II] Correto. Sofia era uma mulher sem escrúpulos, oportunista, ambiciosa, muito longe da descrição de uma heroína romântica. [III] Incorreto. Nunca Sofia nutriu por Rubião nenhum tipo de afeto, apenas interesses estavam em jogo. Resposta da questão 7: [B] Na realidade, todos os temas apresentados fazem parte de uma forma ou de outra das narrativas do séc. XIX. Contudo, o excerto escolhido já dá entender a ingenuidade de Rubião, a partir do momento em que dava muita atenção ao que falava Palha, fossem coisas interessantes ou generalidades. Rubião mostra sua ingenuidade também quando menciona os escravos e uma herança que havia recebido. Já a malícia do casal aparece no olhar vivo de Sofia que percebia uma possibilidade de golpe ou no brilho nos olhos de Palha, quando ouve o simplório falar a respeito de uma possível viagem à Europa. Resposta da questão 8: [A] Página 6 de 7 O embaraço possível está no fato do Brasil ser dos últimos países a abolirem a escravidão no mundo. Isso o dispunha a uma situação de atraso perante os países da Europa e mesmo das Américas. Em O Cortiço, Aluísio de Azevedo mostra como João Romão explora Bertoleza, fazendo-a trabalhar muito para poder comprar sua alforria. Os ideais mais humanitários dos abolicionistas começam a exibir um status de civilidade e modernidade para aqueles que queriam ascender socialmente. Resposta da questão 9: [E] [I] Correta. Há três tipos de discurso no excerto em questão: 1. Discurso direto: — O senhor é lavrador? — Não, senhor. 2. Discurso indireto: Da lavoura passaram ao gado, à escravatura e à política. 3. Discurso indireto livre: Que lhe importavam escravos futuros, se os não compraria? [II] Correta. O narrador descreve a natureza dos personagens, a fim de demarcar certas características: Sofia escutava apenas; movia tão somente os olhos, que sabia bonitos, fitando-os ora no marido, ora no interlocutor. Ao mesmo tempo em que a discussão sobre alforria ou escravidão situao texto ao final do século XIX. [III] Correta. Machado de Assis tinha como estilo a sugestão nas descrições dos personagens, ou mesmo em descrições de cenas, pode haver sempre algo por trás, dito de maneira indireta: Pode ser até que vá à Europa, mas não sei ainda. Os olhos do Palha brilharam instantaneamente. O brilho é para sugerir uma possível má fé. Resposta da questão 10: [D] A teoria humanitista de Quincas Borba expressa a ideia da supremacia do mais forte e do mais esperto, uma sátira machadiana ao cientificismo do século XIX e à teoria de Charles Darwin acerca da seleção natural. Assim, é correta a opção [D], pois o discurso do personagem apresenta uma concepção típica do naturalismo, ou seja, uma visão concreta e materialista da existência, indiferente a vitórias ou mortes: “A paz, nesse caso, é a destruição; a guerra é a conservação. Uma das tribos extermina a outra e recolhe os despojos”. Resposta da questão 11: [C] Hobbes e Quincas Borba não poderiam ser adversários, pois ambos defendem a tese de que o conflito é inerente à natureza humana. Assim, é correta a opção [C]. Resposta da questão 12: [E] Conclui-se do que foi exposto anteriormente (que com a guerra uma tribo sobreviveria e sem a guerra ambas morreriam) que a guerra é benéfica. Resposta da questão 13: [D] De acordo com o texto, a luta, guerra ou competição se dá pelas melhores condições de sobrevivência, pelas recompensas que dela advirão. Resposta da questão 14: [C] De acordo com o texto, “a supressão de uma [tribo] é a condição da sobrevivência da outra”, o que torna a guerra benéfica, pois, do contrário, ambas as tribos morreriam. Com a guerra, a tribo mais forte sobrevive. Resposta da questão 15: [B] As batatas são a perspectiva de sobrevivência, a razão da luta entre as tribos. Resposta da questão 16: [A] O conflito entre os valores provincianos e os oferecidos pela Corte está evidenciado na hesitação de Rubião em aceitar criados brancos e valorizar objetos que não fossem de ouro ou prata, como as estatuetas de bronze de Mefistófeles e Fausto (personagens de “Fausto” de Goethe, onde se tematiza o fascínio pelo poder e sua obtenção mesmo a troco da própria essência). Rubião, que no passado havia sido um pobre professor na cidade de Barbacena, via-se agora impelido por Palha a adotar atitudes que evidenciassem a sua ascensão social, já que tinha ficado rico através da herança de seu mestre, o filósofo Quincas Borba. Resposta da questão 17: [B] A "Humanitas", pseudofilosofia criada por Quincas Borba, consiste na defesa "do império da lei do mais forte, do mais rico e do mais esperto". Enquanto saboreava a refeição na casa de Brás Cubas, o pretenso filósofo discorria sobre a infinidade de esforços e ações que tiveram que ser desenvolvidas para que ele saboreasse, no momento, aquela asa de frango. Como ele mesmo afirma, “este frango, que é o resultado de uma multidão de esforços e lutas”, teve como finalidade única a de saciar o seu apetite (“executadas com o único fim de dar mate ao meu apetite”). Resposta da questão 18: a) Camacho é um político oportunista, demagogo e de retórica excessiva que critica os seus adversários por, entre outros, usarem sofismas, argumentos ou raciocínios aparentemente lógicos, mas na verdade falsos e enganosos. No entanto, ao defender que esses artifícios enganosos podem ser usados quando favorecem os elementos bons, Camacho acaba por adotar o método que inicialmente critica. b) A expressão latina Vae victis! (“Ai dos vencidos!”) exprime compaixão pelos perdedores, ao contrário da frase “Ao vencedor, as batatas”, máxima da filosofia que valoriza os vencedores e Quincas Borba apresenta a Rubião no início do romance. A máxima do Humanitismo, “Ao vencedor, as batatas”, era considerada adequada por Rubião enquanto usufruiu da riqueza e prazeres de recém-milionário, mas, no final de vida, depois de perder tudo o que possuía, incluindo a própria razão, a expressão torna-se cruel, já que o personagem é objeto de compaixão. Resposta da questão 19: [E] A última frase do excerto, “Não casou; ambos morreram, e aqui está tudo comigo; de modo que o que parecia uma desgraça...”, revela a profunda ironia dos textos machadianos que, com sarcasmo, expõe a hipocrisia do ser humano. Rubião, ao invés de sentir pesar pela morte de Quincas Borba, encara o fato como algo positivo por lhe ter permitido receber a herança e passar, então, a viver de forma bastante confortável. Assim, é correta a opção [E]. 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