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<p>LITERATURA sem segredos volume Clenir Bellezi de Oliveira Realismo 5 Machado de Assis HOT Um jeito simples e organizado de entender literatura escala educacional</p><p>Rogério Castelo 02/10/2015 escala educacional Responsabilidade Editorial Vicente Paz Fernandez Gerência Editorial Duda Albuquerque Gerência Comercial Fabyana Desidério Ricardo Abílio da Silva Coordenação Editorial Angelo Stefanovits Assistência Editorial Ana Mortara Revisão Beto Celli Márcio Della Rosa Vera Lucia da Costa Coordenação de Arte Thais Ometto Capa, projeto gráfico e editoração eletrônica Ulhôa Cintra Comunicação Visual e Arquitetura Iconografia Maria Alice Bragança Impressão e acabamento Oceano Ind. Gráfica (11) 4446-6544 São Paulo - edição - 2007 Escala Educacional Av. Ida Kolb, 551 3° andar - Casa Verde - São Paulo CEP 02518-000 Fone: (11) 3855-2178 Fax.: (11) 3855-2189 www.escalaeducacional.com.br ISBN 978-85-7666-848-0</p><p>LITERATURA SEM SEGREDOS Realismo Machado de Assis Millet (1814-1875) foi um dos precur- sores da pintura realista na Europa. A pintura do Rea- lismo retoma os estudos de luz e sombra das escolas clás- sicas, no entanto seus temas são contemporâneos, como o trabalho no campo e na cidade. Nesta que é uma de suas obras mais conhecidas, Millet retrata as mulheres que recolhiam as sobras da plantação, depois da colheita. Esse tipo de trabalho era considerado um dos piores no campo, mas Millet capta dele a beleza e harmonia dos movimentos. As Respigadeiras. Millet, 1857. Óleo sobre tela. o século XIX, especialmente em sua BEDS. segunda metade, foi pródigo em transforma- ções de toda ordem: políticas, econômicas, the ciais, filosóficas e, sobretudo, científicas. Essas mudanças determinaram os rumos do século XX e obrigaram à reformulação de várias pers- pectivas tidas como fundamentais até então. o capitalismo industrial já estava em cur- so, criando uma nova elite e uma nova burgue- sia. No momento pós-abolição da escravatu- ra, eram impingidos salários miseráveis à numerosa classe proletária, ge- Uma Corte para o Rei rando conturbações sociais. As ciências fervilhavam de Punch, 1852. descobertas, especialmente as ligadas à Biolo- 0 trabalho urbano, ligado às in- gia, levando a novas concepções dústrias, fez crescer a população ficas e à revisão de conceitos religio- nas cidades após a Revolução In- sos consagrados. dustrial. No entanto, a infra-estru- tura não deu conta desse cresci- Dentre as correntes de pensa- mento. Grande parte da população mento, destacam-se o Positivismo, vivia sem saneamento básico e em o Marxismo, o Determinismo e o condições miseráveis devido aos baixos salários. 131</p><p>Positivismo Augusto Comte (1798-1857) só admitia as ver- Augusto Comte acreditava que dades positivas, ou seja, as científicas, aquelas que a sociedade possuía três fases emanam do experimentalismo, da observação e de evolução de acordo com seu da constatação, e repudiava a metafísica. Para conhecimento, definidas por ele ele, apenas cinco ciências eram relevantes: a As- na "Lei dos três Na tronomia, a Física, a Química, a Fisiologia e a primeira as idéias são influen- Sociologia, em ordem de importância. Esta última, pela ciadas pelo sobrenatural, en- sua complexidade, permitiria reformas sociais. Acreditava quanto na última as idéias são também que a finalidade do saber científico é a previsão, pautadas pelo positivismo. "saber para poder". Sua primeira obra chamou-se Plano dos Trabalhos Científicos para Reorganizar a Sociedade (1822), rebatizada, mais apropriadamente, em sua segunda edição, de Sistema de Política Positivista (1824). Sua teoria apresenta a seguinte máxima: "o amor por princípio, a ordem por base, o progresso por meta", e objetiva a retomada de uma "ordem" que visa suprimir a indisciplina dos costumes. Para isso é preciso renunciar à busca do abso- luto, o que turva o caminho das ciências positivas. No âmbito socioeconômico, Comte propõe uma organização eminente- mente racional, que se direcione para os interesses coletivos, neutralizando os motivos de guerra e a discórdia entre as nações. Ele acreditava na possibilidade de se alcançar qualquer objetivo, desde que se saiba imprimir às situações as causas necessárias à obtenção dos objetivos desejados. Augusto Comte. Socialismo Em 1848, os economistas e filósofos alemães Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895) publicaram o Manifesto Comunista, destinado sobretudo à classe operária, pretendendo despertar sua consciência de classe. Pregavam uma revolução internacional que derrubasse a burguesia e o siste- ma capitalista, e implantasse o comunismo. A pedra fundamental do marxis- Homem e Máquina, Parede mo está na idéia de socialização dos meios de produção. Em Capital, obra de Norte e Parede Sul. Diego Marx, estão os principais conceitos do marxismo. Rivera, 1932-1933. Afresco. The 132</p><p>Evolucionismo Ao apresentar A Origem das Es- A obra A Origem das Espécies pécies, Darwin foi criticado e re- (1859) foi elaborada pelo naturalista chaçado por muitas publica- inglês Charles Darwin (1809-1882), ções. Poucos queriam acreditar que retomou a teoria da evolução das que os humanos tiveram sua espécies de Lamarck, apoiando-se origem nos macacos. A caricatu- ainda em experimentos de seleção ra da revista Vanity Fair, mais de artificial da cultura de plantas e de uma década depois do lança- criação de animais. mento de A Origem das Espécies, mostra Charles Darwin tentan- do parecer mais alto do que Darwin organizou a Teoria da realmente é. Seleção Natural, defendendo que a concorrência entre as espécies elimi- naria os organismos mais fracos, per- mitindo à espécie inteira evoluir, graças às heranças genéticas favorá- veis dos indivíduos mais fortes e mais aptos. A Teoria da Evolução abrange também a espécie humana e é apoia- da pela Paleontologia, ciência que estuda os fósseis, e que demonstra existirem espécies intermediárias en- tre as fósseis e as vivas. Darwin demonstrou cientifica- mente que os seres humanos e os macacos têm um antepassado em comum - questionando assim a cri- ação do mundo baseada no Gênesis bíblico, e colocando em discussão a existência de Deus, o que criou um Caricatura de Charles escândalo na sociedade da época. Vanity Fair 1871. Determinismo No século XIX, com 0 capitalis- Essa corrente foi desenvolvida por Hipólito Adolfo Taine (1828-1893), que mo industrial em ritmo aplicou o método experimental das Ciências Naturais às diversas produções CO, a classe operária se viu na do espírito humano. Taine afirmava que o comportamento humano era condi- das situações. Mal pagos cionado pelas influências de raça, de contexto histórico e de meio ambiente. e trabalhando mais de 10 ho- ras por dia, homens, mulheres e crianças sofriam com os abu- de seus Com a pu- blicação de Manifesto Comu- nista, em 1848, Marx e Engels procuraram disseminar a luta contra a esse sistema. A obra de Diego Rivera, criada quase 90 anos depois, retrata a re- lação entre homem e máquina nas 133</p><p>REALISMO/NATURALISMO Nesses tempos de efervescências científicas e filosóficas, acompanhadas de convulsões sociais e de profundas mudanças econômicas, era natural que a arte não permanecesse atada à subjetividade romântica. Era necessário um compromisso maior com a realidade objetiva, para combater o idealismo da escola antecessora. Desde os idos de 1830, quando o Romantismo ainda era a estética pre- dominante, já se percebiam indícios dessas transformações em obras de au- tores como Sthendal e Honoré de Balzac, precursores do movimento realista. Em 1855, surge o manifesto Le Réalisme, escrito pelo pintor Gustave No ano seguinte, dois importantes marcos na consolidação da nova estética acontecem: Gustave Flaubert publica na Revue, de Paris, os folhetins de Ma- As Damas na Margem do dame Bovary, considerado o primeiro romance realista, que sairia em livro em Sena. Gustave Courbet, 1857; e, sob a direção de Duranty, é lançado o periódico Le Réalisme, que cir- 1856-1857. Óleo sobre tela. culou durante dois anos. Esta obra de Courbet é uma das mais representativas do Em 1867, Émile Zola publica Thérèse Raquin, que dá início ao Natu- realismo. As expressões do ralismo, propondo um método científico para escrever: coleta de dados, for- rosto e a integração das figu- mulação de hipóteses, criação de personagens para comprovar a validade des- ras femininas com a paisagem sas hipóteses. Esses princípios estão expostos em Romance Experimental. são responsáveis pela sensua- lidade da cena. Anos mais Realismo e o Naturalismo têm princípios comuns como a objetividade, tarde, cenas como essa, retra- o universalismo, a correção e clareza de linguagem, o a conten- tando o cotidiano de burgue- ção emocional, o antropocentrismo o descritivismo, a lentidão da narrativa, a ses, seriam a principal inspi- impessoalidade do narrador. Cabe lembrar que o Naturalismo é uma ramifi- ração para os impressionistas. cação cientificista do Realismo. Distinguem-se em vários pontos, uma vez que tinham objetivos diferentes. No boxe (página 135) destacamos algumas dessas peculiaridades entre as duas estéticas. REALISMO/NATURALISMO NO BRASIL No Brasil, a obra Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, marca o início do Realismo; Mulato, de Aluísio Azevedo, marca o início do Naturalismo. Ambas foram publicadas em 1881. Realismo/ Naturalismo tem início no Brasil num momento bastante peculiar: o tráfico negreiro tinha sido extinto, a Abolição era iminente, havia a crise de mão-de-obra, os imigrantes começavam a chegar, a decadência da economia açucareira era inexorável, o eixo do país deslocava-se para o sul, havia divergências do Segundo Império com a Igreja e com o Exército. Era um clima propício para a proliferação de idéias liberais, abolicionistas e republicanas, alicerçadas pelo Positivismo e pelo Determinismo. A elite considerava que a Abolição, imposta por lei, daria aos libertados a idéia de direito, podendo gerar um conflito racial sério. Assim, a abolição da escravatura fez-se aos poucos: em 1871, foi aprovada a Lei do Ventre Livre, que declarava livres todas as crianças negras nascidas após a assinatura da em 1885, a Lei do Sexagenário, que libertava todo escravo com 60 anos ou mais. 134</p><p>A discussão em torno da abo- lição da escravidão permeou a vida intelectual na segunda me- tade do século Proclamada em 13 de maio de 1888, a Lei Áurea proibiu qualquer tipo de trabalho escravo no Brasil. país foi 0 penúltimo da América a extinguir a escravidão. Na fo- to, a família imperial assiste à missa campal em ação de gra- ças pela abolição, no campo de São Rio de Janeiro, maio de 1888. primeiro estado a proclamar a Abolição foi o Ceará, em 1884. Fi- nalmente, em 1888, veio a Lei Áurea, que libertou todos os escravos irrestrita- mente. Entretanto, com um novo tipo de mão-de-obra, a do imigrante assa- lariado, que vinha substituir o trabalho escravo, o negro passou a ser ainda mais marginalizado, uma vez que não representava mais a força de trabalho. Partido Republicano Paulista (PRP), predominantemente formado pela burguesia cafeeira, ganhou força e em 15 de novembro de 1889 estava procla- mada a República, tendo como primeiro presidente o militar Marechal Deo- doro da Fonseca. DIFERENÇAS ENTRE REALISMO E NATURALISMO Os escritores realistas a fazer o "romance de revolução", pre- tendendo reformar a sociedade por meio da literatura crítica. Preferem tra- balhar com um pequeno elenco de personagens e analisá-las psicologica- mente. Esperavam que os leitores se identificassem com as personagens e as situações retratadas e, a partir de uma auto-análise, pudessem transfor- mar-se. Tratava-se, portanto, de um trabalho de educação intelectual e mo- ral, que pretendia converter-se em transformação social. Já os naturalistas, comprometidos com a ótica cientificista da época, ob- jetivavam desenvolver o "romance de tese", no qual seria possível a de- monstração das diversas teorias científicas. Tinham uma perspectiva bio- lógica do mundo, reduzindo, muitas vezes, o homem à condição animal, colocando o instinto sobre a razão. Os aspectos desagradáveis e repul- sivos da condição humana são valorizados, como uma forma de reação ao idealismo romântico. Os naturalistas retratam preferencialmente o co- letivo, envolvendo as personagens em espaços corrompidos social e/ou moralmente, pois acreditavam que a concentração de muitas pessoas num espaço desfavorável fazia aflorar os desvios psicopatológicos um alvo de interesse desses escritores, o que denota uma visão determinista, em que o meio e o contexto histórico têm influência. 135</p><p>AUTOR MACHADO DE ASSIS (1839-1908) Eu gosto de catar o mínimo e o escondido. Onde ninguém mete o nariz, entra o meu, com a curiosidade estreita e aguda que descobre o encoberto. (Trecho de uma crônica de Machado de Assis) Joaquim Maria J oaquim Maria Machado de Assis nasceu dia 21 de junho de 1839, na atual Ladeira do Livramento, Rio de Janeiro. Seu pai era mulato, pintor de pare- Machado de Assis des, sua mãe uma açoriana. Machado não pôde a escola regu- larmente. Alguns biógrafos afirmam que ele a cursou apenas até a metade do segundo ano primário, outros dizem que nem isso. Foi um autodidata. Era vis- to com assiduidade no Gabinete Português de Leitura, uma biblioteca com mais de 16 mil volumes. Aos 15 anos já sabia francês e trabalhava no jornal Marmota Fluminense, de propriedade de Paula Brito. Foi nesse jornal que pu- blicou seu poema de estréia, aliás, nada expressivo: "A Palmeira". Assim ingres- sou no universo da imprensa, onde permaneceu como colaborador até sua morte. Aos 19 anos, enveredou para a prosa, publicando seu primeiro conto, Três Tesouros Perdidos, além de artigos polêmicos e crítica literária. teatro foi um dos seus interesses: em 1861, publicou sua primeira peça, Queda que as Mu- Têm pelos Tolos. Em 1864, publicou seu primeiro livro de poemas, Crisálidas, o primeiro de uma trindade de obras poéticas de sua fase imatura, que incluiria ainda Falenas (1869) e Americanas (1875). Essas três obras apre- sentam influências nítidas do Romantismo, notadamente de Álvares de Aze- vedo, Alexandre Herculano, Garrett, Gonçalves Dias, Alencar, Musset, Byron, e até de Antônio Feliciano de Castilho e de Gonçalves de Magalhães. Machado tornou-se competente tradutor, como se vê até hoje em algu- mas edições de Os Trabalhadores do Mar, do grande romântico francês Victor Hugo. Enfim, foi poeta, cronista, contista, ensaísta, jornalista político, repórter, polemista, epistológrafo e crítico de literatura e de teatro. Em 1869, publicou Óculos usado por seu primeiro livro de histórias curtas: Contos Fluminenses. Pouco antes disso, Machado de Assis, exposto começou uma carreira de funcionário público que iria provê-lo de segurança no Centro de Memória da até a morte, acabando com sua insegurança econômica. Academia Brasileira de ano de 1869 foi também o de seu casamento. Dizem alguns que Ma- Letras. Rio de Janeiro, chado fazia uma travessia de balsa para a Ilha de Paquetá, quando encontrou maio de 2004. seu amigo e escritor Faustino Xavier de Novais, que lhe teria apresentado um retrato de sua irmã Carolina. Um ano e meio depois do ocorrido, Machado e Carolina se conheceram, e foi um amor fulminante: casaram-se em seis meses. 136</p><p>A Palmeira Meu caro Paz, À Carolina palmeira, eu te saúdo, Obrigado pelas tuas palavras e pelo teu Querida, ao pé do leito derradeiro tronco valente e mudo, abraço. Ainda que de longe, senti-lhes 0 Em que descansas dessa longa vida, Da natureza expressão! afeto antigo, tão necessário nesta minha Aqui venho e virei, pobre querida, Aqui te venho ofertar desgraça. Não sei se resistirei muito. Trazer-te coração do companheiro. Triste canto, que soltar Fomos casados durante 35 anos, uma Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro Vai meu triste coração. existência inteira; por isso, se a solidão Que, a despeito de toda a humana lida, Sim, bem triste, que pendida me abate, não é a solidão em si mesma, Fez a nossa existência apetecida Tenho a fronte amortecida, é a falta da minha velha e querida mu- E num recanto pôs um mundo inteiro. Do pesar acabrunhada! Obrigado. Até breve, segundo me Trago-te flores, restos arrancados Sofro os rigores da sorte, anuncias, e oxalá concluas a viagem sem Da terra que nos viu passar unidos Das desgraças a mais forte as contrariedades a que aludes. E ora mortos nos deixa e separados. Nesta vida amargurada! Que eu, se tenho nos olhos malferidos Abraça-te Pensamentos de vida formulados, (Poema de estréia de Machado de velho amigo, São pensamentos idos e vividos. Assis publicado no jornal Mar- Machado de Assis mota Fluminense de 6 de janeiro (Poesias Completas, 1901) de 1855, contando o autor 16 (Carta ao amigo Ramos Paz, de anos incompletos) 15 de dezembro de 1904) Em 1872, publicou seu primeiro romance, Ressurreição, tendo reconhe- cimento de seu talento. A partir daí, publicou livros de contos, romances, poe- sias e peças de teatro. Mas o grande divisor de águas de sua carreira foi, sem dúvida, o ano de 1881, quando o romance Memórias Póstumas de Brás Cubas vem a lume, inaugurando a fase madura de sua obra. A esse, sucedem-se mais quatro obras-primas nesse gênero, todas honrando a primeira. Em 1897, Machado de Assis fundou, com outros escritores e jornalistas, a Academia Brasileira de Letras (ABL), que presidiu até a morte. Machado atra- vessou a passagem do século sob a capa de vinte anos de glórias, reconheci- mentos e honrarias. Quase sem escolaridade, era um poliglota: dominava o francês o inglês, o latim, o alemão e tinha conhecimentos de grego. Sua cul- tura autodidata abrangia ainda sólidas noções de História, Filosofia e Teologia. Levava uma vida pacata de homem que nunca quis sair de sua terra natal, embora já tivesse algumas de suas obras traduzidas e publicadas na Europa. A morte leva sua companheira de vida, Carolina Augusta Xavier de No- Ela se foi primeiro, embora Machado, desde jovem, tivesse tido uma saúde muito fragilizada por ataques epiléticos. Sua tristeza foi terrível. Ma- chado resistiu mais quatro anos, na velha casa da Rua de Cosme Velho, 18, ocupando posição de diretoria num órgão público. Morreu vitimado pela arte- riosclerose, dia 29 de setembro de 1908, às 3h45 da tarde. Antes, porém, publi- cou vários poemas inéditos no volume Poesias Completas, em 1901, sob o títu- lo de Ocidentais. segundo deles é dedicado a sua mulher. 137</p><p>GÊNIO E A OBRA A obra genial de Machado de Assis foi tecida num estilo elegantíssimo, trespassada da mais fina ironia, da mais aguda percepção da natureza humana e da vida. A História lhe fez justiça, e seu trabalho vem sendo cada vez mais traduzido e interpretado, e em todos os continentes, estu- diosos se debruçam sobre ele, descobrindo-lhe mais e mais facetas. En- saios e teses extremamente interessantes têm saído a respeito de sua pro- dução, em várias universidades de todo o mundo. Não é fácil classificá-lo como membro dessa ou daquela estética. Seu realismo destoava do de seus contemporâneos. A obra machadiana tem muito de modernidade, a agudeza de sua percepção permitiu-lhe antecipar conceitos que mais tarde Freud formalizaria. ESTA A GLORIA QUE FICA A sua produção pode ser dividida em duas fases: a imatura e a madura. Na primeira fase, Machado ainda estava sob certa influência romântica, mas de maneira invulgar. Entrevê-se, sob nesgas de romantismo, a luz de seu gênio e a originalidade de seu estilo. Na fase madura, encontramos seu Estátua de Machado de talento cristalizado. Assis em frente ao prédio da Academia Brasileira de o teatro não foi o forte de Machado de Assis. Seus textos, apesar de bons, Letras (ABL). Rio de são um tanto pesados e concentrados, relegando a ação e os demais Janeiro, agosto de 1998. recursos desse gênero. Como poeta, foi muito bom, alcançando mo- mentos de excelência. Mas é no conto e no romance que reside seu mais alto grau de competência literária. microrrealismo due A Como já dissemos, Machado foi um escritor peculiar, de estilo bem mar- cado. A primeira preocupação do leitor deve ser a advertência feita pelo autor numa crônica: "Eu gosto de catar o mínimo e o escondido. Onde ninguém mete o nariz, aí entra o meu, com a curiosidade estreita e aguda que descobre PELO o encoberto". Eis aí o desafio inicial de sua esfinge: a sutileza. o essencial em Machado de Assis reside no detalhe, o que exige uma leitura atenta, minuciosa, que não se deixe levar pela aparente casualidade com que ele apresenta os fa- tos. Estes, por mínimos que sejam, guardam uma chave com que o leitor po- derá desvendar o que é fundamental para a compreensão de seu trabalho. o crítico Eugênio Gomes, em sua obra Machado de Assis, de 1958, define- A CARRO o como um microrrealista para se referir à meticulosidade com que engendra seus enredos e suas análises psicológicas. Psicologia e filosofia A obra de Machado de Assis traz aventura, emoção e suspense, mas tudo isso diluído em duas prioridades: a análise psicológica e a especulação filosó- fica acerca da condição humana. É preciso que sua leitura seja atenciosa, deti- da, experta. 138</p><p>Machado não nutria grandes esperanças sobre a condição da huma- nidade: suas personagens masculinas são medíocres, de pouca inteligência e de objetivos superficiais, salvam-se apenas pelo status, revelando uma socie- dade em que as pessoas valem pelo que têm, e não pelo que são. As persona- gens femininas não são melhores: vaidosas, fúteis, trazem em si o veneno da sedução. Um exemplo acabado disso é a personagem Rita, do conto A Carto- mante, esposa de Vilela, melhor amigo de Camilo, de quem ela se tornaria amante. Veja que poder fulminante de sedução: Camilo quis sinceramente fugir, mas já não pôde. Rita, como uma ser- pente, foi-se acercando dele, envolveu-o todo, estalar os ossos num espasmo, e pingou-lhe o veneno na boca. Ele ficou atordoado e subjugado. o egoísmo do homem, a vaidade ridícula que faz com que ele não perce- CONSOLA ba a precariedade de sua condição no mundo, tudo isso vai sendo destilado com precisão por Machado. Ele interrompe a narrativa para CHADO DE ASSIS fazer digressões, ou seja, incursões por assuntos que reforçam, esclarecem ou ilustram o assunto principal; essas digressões têm muitas vezes tom filosófico Em julho de 1897, Machado de Assis fez o discurso de inauqu- e são norteadas por agudo pessimismo, que resulta numa atitude francamente ração da ABL, órgão que tem niilista, de negação total de qualquer transcendência nas coisas. Machado cria por fim cultivo da e lite- realmente que o homem é o lobo do homem: ratura Machado presi- A onça mata o novilho, porque o raciocínio da onça é que ela deve diu a ABL até a sua morte. viver, e se o novilho é tenro, tanto melhor; eis o estatuto universal. A anulação da existência e 0 poder de sedução das mulhe- res e a ingenuidade masculina Os protagonistas machadianos majoritariamente anulam a própria exis- são os temas do conto A carto- tência: Brás Cubas nada construiu ou influenciou; Quincas Borba morreu se- mante. Nesta cena ilustrada em midemente, solteiro e sem filhos; Rubião, também solteiro e sem filhos, foi tra- forma de quadrinhos, Camilo se paceado, perdeu sua fortuna e morreu na sarjeta como mendigo; Bentinho sente um outro homem ao rece- morreu só e casmurro; Pedro e Paulo, os gêmeos de Esaú e Jacó, brigam até o ber um bilhete de cumprimen- fim, sem chegar a nenhuma conclusão; o Conselheiro Aires, viúvo sem filhos, tos de Rita. vira uma espécie de voyeur da vida alheia, relatando em seus diários que acontecia na vida de seus conhecidos mais próximos. A nenhum deles Machado concede o poder de gerir, conduzir, transfor- mar a própria vida ou a alheia. A existência naufraga numa lama gelada de adiamentos, preguiças, vaidades, covardias, egoísmos, superficiali- dades e acomodações. A personagem machadiana sempre comete o equívoco de tornar o essencial secundário e o dispensável, fundamental. Os finais dos contos e dos romances do autor raramente são previsíveis. Ele parece ter um perverso prazer em romper a expectativa do leitor, especial- mente do leitor acostumado aos folhetins românticos com seus arremates tan- tas vezes presumíveis. Foge a todos os clichês, e se alguma vez eles aparecem, são contextualizados de tal forma, que ficam salientemente É o anti- clímax uma das características mais fundamentais do autor. Veja-se o episó- dio de Póstumas de Brás Cubas, quando o personagem-título está na casa de sua amante, Virgília, e chega o marido dela: 139</p><p>Fui até a janela, e comecei a rufar com os dedos no peitoril. Virgília chamou-me; deixei-me estar, a remoer os meus zelos, a desejar estran- gular o marido, se tivesse ali à mão... Justamente, nesse instante, apa- receu na chácara o Lobo Neves. Não tremas assim, leitora pálida; des- Capítulo 139 cansa, que não hei de rubricar esta lauda com um pingo de sangue. Lo- De Como Não Fui Ministro go que apareceu na chácara, fiz-lhe um gesto amigo, acompanhado de de Estado uma palavra graciosa; Virgília retirou-se apressadamente da sala, onde ele entrou daí a três minutos. Em lugar de uma passional cena de ciúme, a cordialidade. humor o humor de Machado de Assis tem nítidas influências da literatura ingle- sa. Ele dá um tom grave ao ridículo, acentuando-o, ou dá leveza a coisas sérias, desanuviando-as, usando o humor como recurso crítico. Através dele corta a tensão dramática. No conto A República, por exemplo, fabula uma república de aranhas, e a partir daí faz uma crítica sarcástica às fraudes elei- torais e políticas de um modo geral. Aquela república resolveu fazer um siste- ma de eleições. Para tanto, as aranhas teceram um saco para colocar as bolas com os nomes dos candidatos a serem sorteados. A eleição fez-se a princípio com muita regularidade; mas, logo depois, um dos legisladores declarou que ela fora viciada, por terem entrado no saco duas bolas com o nome do mesmo candidato. A assembléia verificou a exatidão da denúncia, e decretou que saco, até ali de três polegadas de largura, tivesse agora duas; limitando-se a capacidade do saco, restrin- gia-se o espaço à fraude, era o mesmo que suprimi-la. Aconteceu, porém, que na eleição seguinte, um candidato deixou de ser inscrito na compe- tente bola, não se sabe se por descuido ou intenção do oficial público. Este declarou que não se lembrava de ter visto o ilustre candidato, mas acres- centou nobremente que não era impossível que ele the tivesse dado o no- me; neste caso não houve exclusão, mas distração. A assembléia, diante de um fenômeno psicológico inelutável, como é a distração, não pôde casti- gar o oficial; mas, considerando que a estreiteza do saco podia dar lugar a exclusões odiosas, revogou a lei anterior e restaurou as três polegadas. (ASSIS, Machado de. A Desejada das Gentes e Outros Contos. São Paulo: Moderna, 1997). tempo, os capítulos, a conversação Machado tem duas técnicas formais que seriam comuns na modernidade: a dos capítulos curtos, ligeiros; e a ordem não-cronológica na disposição dos fatos. Além disso, arrisca algumas construções de capítulos absolutamente ori- Charge publicada em Meque- ginais, como os capítulos 139 e 140 de Memórias Póstumas de Brás Cubas. trefe, julho de 1889. A política era tema constante em obras de Outro recurso tipicamente machadiano é a técnica da conversação com o Machado de Assis. Na charge, leitor. Muitas vezes, ao lermos seus livros, sentimo-nos acompanhados pelo nar- Silva Jardim persegue Conde D'Eu rador, que nos convida a entrar nas cenas, a testemunhá-las como um espectador pelo Republicano e aboli- invisível, com quem ele conversa, argumenta, e a quem, muitas vezes, ironiza. cionista fervoroso, Silva Jardim 140</p><p>os ROMANCES DA SEGUNDA FASE Capítulo 140 Póstumas de Brás Cubas Que Explica o Anterior Publicado em 1881, Memórias Póstumas de Brás Cubas é considerado o Há coisas que melhor marco do Realismo no Brasil. É uma obra original sob todos os aspectos: o se dizem calando; tal é a matéria título pressupõe que Brás Cubas esteja morto, e é justamente a partir de sua do capítulo anterior condição de defunto que ele retoma e narra a própria vida. Temos, portan- to, um "defunto-autor", em primeira pessoa. A dedicatória do romance é jocosa: Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas memórias póstumas. Note que ele está morto, que mais tem a perder um morto, já que não parece estar nem no inferno, nem no paraíso convencionais? Em dado mo- Capítulos 139 e 140 de mento confessa estar escrevendo para se "distrair da eternidade", denuncian- Memórias Póstumas do o tédio que ela lhe desperta. de Brás Cubas. Na advertência ao leitor, o narrador deixa claro que a aceitação ou não da obra não lhe é importante, assim como tudo o mais. [...] A obra em si mesma é tudo: se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote, e adeus. A imunidade de morto que tem Brás Cubas deixa-o livre e desembaraça- do para confessar com uma ironia torpe, eivada de mórbida indiferença, suas mais baixas torpezas, assim como para denunciar as alheias. Brás Cubas, filho de família abastada, na adolescência, apaixonou-se por Marcela, uma cortesã, que o explorava financeiramente. Quando seu pai ficou sabendo do caso, mandou-o para Coimbra, para estudar Direito. Formado, Brás Cubas retorna ao Rio de Janeiro, onde, por sugestão do pai, fica noivo de Virgília, filha de um homem influente, que o troca por Lobo Neves, um CO ambicioso. Mais tarde, ambos reencontram-se e tornam-se amantes. caso se arrasta durante anos, mas Brás Cubas não assume Virgília, nem mesmo quando ela fica viúva. Aos 64 anos, resolve lançar no mercado o emplastro "Brás Cubas", que curaria todos os males. Numa tarde, ele sai para tomar as providências necessárias ao lançamen- to do produto. Apanha uma chuva, contrai pneumonia e morre. Essas são as linhas gerais do enredo; entre elas existe uma crítica contundente à ética social vigente, às instituições, e, sobretudo, à natureza humana. Texto 1 de mim? o Delírio teme que Conde D'Eu assuma o Que me conste, ainda ninguém relatou o seu próprio delírio; faço-o poder após a abolição da escra- eu, e a ciência me agradecerá. vidão, ocorrida em Dá Se o leitor não é dado à contemplação desses fenômenos mentais, cio, então, a uma campanha re- pode saltar o capítulo; vá direto à narração. Mas, por menos curioso publicana pelo Brasil, seguindo conde nas mesmas cidades que seja, sempre the digo que é interessante saber o que se passou na que este visita. minha cabeça durante uns vinte a trinta minutos. 141</p><p>Primeiramente tomei a figura de um barbeiro chinês, bojudo, destro, escanhoando um mandarim, que me pagava o trabalho com belisções e confeitos: caprichos de mandarim. Logo depois, senti-me transformado na Summa Theologica de São Tomás, impressa num volume e encader- nada em marroquim, com fechos de prata e estampas; idéia essa que me deu ao corpo a mais completa imobilidade; e ainda agora me lembra que, sendo as minhas mãos os fechos do livro e cruzando-as eu sobre o ventre, alguém as descruzava (Virgília decerto), porque a atitude dava a imagem de um defunto. Ultimamente, restituído à forma humana, vi chegar um hipopótamo, que me arrebatou. Deixei-me ir, calado, não sei se por medo ou confian- ça; mas, dentro em pouco, a carreira de tal modo se tornou vertiginosa, que me atrevi a interrogá-lo, e com alguma arte disse que a viagem me parecia sem destino. Engana-se replicou o animal nós vamos à origem dos séculos. Insinuei que deveria ser muitíssimo longe; mas o hipopótamo não me entendeu ou não me ouviu, se é que não fingiu uma dessas coisas; e, per- guntando-lhe, visto que ele falava, se era descendente do cavalo de Aquiles ou da asna de retorquiu-me com um gesto peculiar a esses dois abanou as orelhas. Pela minha parte fechei os olhos e deixei-me ir à ventura. Já agora não se me dá de confessar que sentia umas tais ou quais cócegas de curiosidade, por saber onde ficava a origem dos séculos, se era tão misteriosa como a origem do Nilo, e sobretudo se valia alguma coisa mais ou menos do que a consumação dos mesmos séculos: reflexões de cérebro enfermo. Como ia de olhos fe- chados, não via o caminho; lembra-me só que a sensação de frio au- mentava com a jornada, ocasião em que me pareceu entrar na região dos gelos eternos. Com efeito, abri os olhos e vi que o meu animal ga- lopava numa planície branca de neve, com uma ou outra montanha de neve, vegetação de neve, e vários animais grandes e de neve. Tudo neve; chegava a gelar-nos um sol de neve. Tentei falar, mas apenas pude gru- nhir esta pergunta ansiosa: Onde estamos? Já passamos o Éden. Bem; paremos na tenda de NOTAS Referência ao episódio bíblico Mas se nós caminhamos para trás! motejando a em que a asna de Balaão é dota- minha cavalgadura. da de fala por Deus. Possuía um Fiquei vexado e aturdido. A jornada entrou a parecer-me enfado- Janto, que lhe previu a morte no combate contra os nha e extravagante, o frio incômodo, a condução violenta e o resulta- troianos. do impalpável. E depois cogitações de enfermo dado que che- 2 Patriarca hebreu e uma das gássemos ao fim indicado, não era impossível que os séculos, irritados grandes figuras da Bíblia. É con- com lhes devassarem a origem, me esmagassem entre as unhas, que siderado o antepassado dos israelitas e dos árabes. deviam ser tão seculares como eles. Enquanto assim pensava, íamos devorando caminho, e a planície voava debaixo dos nossos pés, até 3 A primeira segundo o que o animal estacou e pude olhar mais em torno de mito contado pelo poeta grego (séc. VIII no mim. Olhar somente; nada vi além da imensa brancura da neve, que poema Os Trabalhos e os Dias. dessa vez invadira o próprio céu, até ali azul. Talvez, a espaços, me conta que Zeus enviou Pandora a Fascinado aparecia uma ou outra planta enorme, brutesca, meneando ao vento por sua beleza, ele a desposou, 142</p><p>Vista da rua Direita, Rio as suas largas folhas. silêncio daquela região era igual ao do se- de Janeiro. Emil Bauch, pulcro: dissera-se que a vida das coisas ficara estúpida diante do século XIX. Óleo sobre tela. homem. Rio de Janeiro é palco para Caiu do ar? Destacou-se da terra? Não sei; sei que um vulto imen- as personagens de so, uma figura de mulher me apareceu então, fitando-me uns olhos Póstumas de A então rutilantes como o sol. Tudo nessa figura tinha a vastidão das formas capital do país recebia os princi- selváticas, e tudo escapava à compreensão do olhar humano, porque pais nomes da política e dos os contornos perdiam-se no ambiente, e que parecia espesso era eventos culturais e artísticos. muita vez diáfano. Estupefato, não disse nada, não cheguei sequer a soltar um grito; mas, ao cabo de algum tempo, que foi breve, pergun- tei quem era e como se chamava: curiosidade de delírio. Chama-me Natureza ou sou tua mãe e tua inimiga. Ao ouvir esta última palavra, recuei um pouco, tomado de susto. A figura soltou uma gargalhada, que produziu em torno de nós o efeito de um tufão; as plantas torceram-se e um longo gemido quebrou a mudez das coisas externas. Não te assustes disse ela minha inimizade não mata; é so- bretudo pela vida que se afirma. Vives: não quero outro flagelo. Vivo? perguntei eu, enterrando as unhas nas mãos, como para certificar-me da existência. Sim, verme, tu vives. Não receies perder esse andrajo que é teu orgulho; provarás ainda, por algumas horas, o pão da dor e o vinho da miséria. Vives: agora mesmo que ensandeceste, vives; e, se a tua cons- ciência reouver um instante de sagacidade, tu dirás que queres viver. Dizendo isso, a visão estendeu o braço, segurou-me pelos cabelos e levantou-me ao ar, como se fora uma pluma. Só então pude ver-lhe de perto o rosto, que era enorme. Nada mais quieto; nenhuma con- torção violenta, nenhuma expressão de ódio ou ferocidade; a feição única, geral, completa, era a da impassibilidade egoísta, a da eterna surdez, a da vontade imóvel. Raivas, se as tinha, ficavam encerradas no coração. Ao mesmo tempo, nesse rosto de expressão glacial, havia um ar de juventude, mescla de força e viço, diante do qual me sentia eu o mais débil e decrépito dos seres. Entendeste-me? disse ela, no fim de algum tempo de mútua esquecendo a advertência de seu contemplação. irmão Prometeu, que lhe dissera Não respondi- nem quero entender-te; tu és absurda, tu és não aceitar nenhum presente de Havia uma caixa que con- uma fábula. Estou sonhando, decerto, ou, se é verdade que enlou- tinha todos os males, e Pandora, queci, tu não passas de uma concepção de alienado, isto é, uma coisa muito curiosa, destampou-a. Os males escaparam pelo mundo que a razão ausente não pode reger nem palpar. Natureza, tu? a Apenas a Esperança, que Natureza que eu conheço é só mãe e não inimiga; não faz da vida estava no fundo, não escapou, porque Pandora recolocou a um flagelo, nem, como tu, traz esse rosto indiferente, como o sepul- tampa. Segundo outra versão, cro. E por que Pandora? essa caixa continha não os Porque levo na minha bolsa os bens e os males, e o maior de males, mas os bens, e Pandora a teria levado como presente a todos, a esperança, consolação dos homens. Tremes? Epimeteu. Abrindo-a inadver- Sim; o teu olhar tidamente, ela deixou escapar os bens, que voltaram para a mora- Creio; eu não sou somente a vida; sou também a morte, e tu es- da dos deuses. Aos homens tás prestes a devolver-me o que te emprestei. Grande lascivo, espera- restou apenas a Esperança, para te a voluptuosidade do nada. consolo de seus males. 143</p><p>Quando essa palavra ecoou, como um trovão, naquele imenso vale, afigurou-se-me que era o último som que chegava a meus ouvidos; pareceu-me sentir a decomposição súbita de mim mesmo. Então, enca- rei-a com olhos súplices e pedi mais alguns anos. Pobre minuto! Para que queres tu mais alguns ins- tantes de vida? Para devorar e seres devorado depois? Não estás farto do espetáculo e da luta? Conheces de sobejo tudo o que eu te deparei menos torpe ou menos aflitivo: o alvor do dia, a melancolia da tarde, a quie- tação da noite, os aspectos da terra, o sono, enfim, o maior benefício das minhas mãos. Que mais queres tu, sublime idiota? Viver somente, não te peço mais nada. Quem me pôs no coração esse amor da vida, se não tu? E, se eu amo a vida, por que te hás de golpear a ti mesma, matando-me? Porque já não preciso de ti. Não importa ao tempo minuto que passa, mas o minuto que vem. minuto que vem é forte, jucundo, supõe trazer em si a eternidade, e traz a morte, e parece como outro, mas tempo subsiste. Egoísmo, dizes tu? Sim, egoísmo, não tenho outra lei. Egoísmo, conservação. A onça mata o novilho porque o raciocínio da onça é que ela deve viver, e se o novilho é tenro tanto melhor; eis o esta- tuto universal. Sobe e olha. Isso dizendo, arrebatou-me ao alto de uma montanha. Inclinei os olhos a uma das vertentes e contemplei, durante um tempo largo, ao longe, através de um nevoeiro, uma coisa única. Imagina tu, leitor, uma redução dos séculos, e um desfilar de todos eles, as raças todas, todas as paixões, o tumulto dos impérios, a guerra dos apetites e dos ódios, a destruição recíproca dos seres e das coisas. Tal era espetáculo, acerbo e curioso espetáculo. A história do homem e da Terra tinha assim uma intensidade que the não podiam dar nem a imaginação nem a ciência, porque a ciência é mais lenta e a imaginação mais vaga, enquanto o MACHADO DE ASSIS que eu ali via era a condensação viva de todos os tempos. Para descrevê- la seria preciso fixar o Os séculos desfilavam num turbilhão, e, não obstante, porque os olhos do delírio são outros, eu via tudo o que OALIENISTA passava diante de mim flagelos e delícias desde essa coisa que se chama glória até essa outra que se chama miséria, e via o amor multi- plicando a miséria, e via a miséria agravando a debilidade. Aí vinham a que devora, a cólera que inflama, a inveja que baba, e a enxa- da e a pena, úmidas de suor, e a ambição, a fome, a vaidade, a melan- colia, a riqueza, amor, e todos agitavam o homem, como um chocalho, até destruí-lo, como um farrapo. Eram as formas várias de um mal, que ora mordia a víscera, ora mordia o pensamento, e passeava eterna- mente as suas vestes de arlequim, em derredor da espécie humana. A dor ILUSTRAÇÕES DE PORTINARI cedia alguma vez, mas cedia à indiferença, que era um sono sem so- nhos, ou ao prazer, que era uma dor bastarda. Então o homem, flagela- do e rebelde, corria diante da fatalidade das coisas, atrás de uma figura nebulosa e esquiva, feita de retalhos, um retalho de impalpável, outro de improvável, outro de invisível, cosidos todos a ponto precário, com a agulha da imaginação; e essa figura nada menos que a quimera da felicidade ou fugia perpetuamente, ou se deixava apanhar pela fralda, e o homem a cingia ao peito, e então ela ria, como um escárnio, e sumia-se, como uma ilusão. 144</p><p>Ao contemplar tanta calamidade, não pude reter um grito de an- gústia, que Natureza ou Pandora escutou sem protestar nem rir; e não sei por que, lei de transtorno cerebral, fui eu que me pus a de um riso descompassado e idiota. Tens razão disse eu a coisa é divertida e vale a pena, talvez monótona, mas vale a pena. Quando amaldiçoava o dia em que fora concebido, é porque davam ganas de ver cá de cima o espe- táculo. Vamos lá, Pandora, abre o ventre, e digere-me; a coisa é diver- tida, mas digere-me. A resposta foi compelir-me fortemente a olhar para baixo, e a ver os séculos que continuavam a passar, velozes e turbulentos, as ge- rações que se superpunham às gerações, umas tristes, como os He- breus do cativeiro, outras alegres, como os devassos de Cômodo5, e todas elas pontuais na sepultura. Quis fugir, mas uma força mis- teriosa me retinha os pés; então disse comigo: "Bem, os séculos vão passando, chegará o meu, e passará também, até o último, que me dará a decifração da eternidade". E fixei os olhos, e continuei a ver gens de as idades, que vinham chegando e passando, já então e mas de Brás Cubas, resoluto, não sei até se alegre. Talvez alegre. Cada século trazia a dré Klotzel, 2000. sua porção de sombra e de luz, de apatia e de combate, de verdade e de erro, e o seu cortejo de sistemas, de idéias novas, de novas ilu- em cada um deles rebentavam as verduras de uma prima- vera, e amareleciam depois, para remoçar mais tarde. Ao passo que a vida tinha assim uma regularidade de calendário, fazia-se a história e a civilização, e o homem, nu e desarmado, armava-se e vestia-se, construía o tugúrio e o palácio, a rude aldeia e Tebas de do conto Alienista, cem portas, criava a ciência, que perscruta, e a arte que enleva, fa- de Assis, com zia-se orador, mecânico, filósofo, corria a face do globo, descia ao de Cândido ventre da Terra, subia à esfera das nuvens, colaborando assim na nari. obra misteriosa, com que entretinha a necessidade da vida e a me- los romances de sucesso, lancolia do desamparo. Meu olhar, enfarado e distraído, viu enfim do de Assis escreveu inú- chegar século presente, e atrás dele os futuros. Aquele vinha ágil, contos. Entre eles figura destro, vibrante, cheio de si, um pouco difuso, audaz, sabedor, mas que narra a história dico Simão Bacamarte e ao cabo tão miserável como os primeiros, e assim passou e assim orias sobre a loucura em passaram os outros, com a mesma rapidez e igual monotonia. Re- i, onde constrói o hospi- dobrei de atenção; fitei a vista; ia enfim ver o último o último! sa Verde. Mas então já a rapidez da marcha era tal que escapava a toda a compreensão; ao pé dela o relâmpago seria um século. Talvez por isso entraram os objetos a trocarem-se: uns cresceram, outros min- guaram, outros perderam-se no ambiente, um nevoeiro cobriu tu- do, menos o hipopótamo que ali me trouxera e que aliás começou a diminuir, a diminuir, a diminuir, até ficar do tamanho de um gato. Era efetivamente um gato. Encarei-o bem; era o meu gato Sultão, que brincava à porta da alcova com uma bola de papel... ersonagem bíblico, conhe- pelo livro do Antigo Tes- que traz seu nome. (ASSIS, Machado. Obra completa, vol. I. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.) odo (161-192): imperador no célebre por sua cruel- 145</p><p>Texto 2 o Menino é Pai do Homem Cresci; e nisso é que a família não interveio; cresci naturalmente, como as magnólias e os gatos. Talvez os gatos são menos ma- treiros, e, com certeza, as magnólias são menos inquietas do que eu era na minha infância. Um poeta dizia que o menino é pai do homem. Se isso é verdade, vejamos alguns lineamentos do menino. Desde os cinco anos merecera eu a alcunha de "menino-diabo"; e verdadeiramente, não era outra coisa; fui dos mais malignos do meu tempo, arguto, in- discreto, traquinas e voluntarioso. Por exemplo, um dia quebrei a cabe- ça de uma escrava, porque me negara uma colher do doce de coco que estava fazendo, e, não contente com o malefício, deitei um punhado de cinza ao tacho, e, não satisfeito da travessura, fui dizer à minha mãe que a escrava é que estragara o doce "por pirraça "; e eu tinha apenas seis anos. Prudêncio, um moleque de casa, era o meu cavalo de todos os dias; punha as mãos no chão, recebia um cordel nos queixos, à guisa de freio, eu trepava-lhe ao dorso, com uma varinha na mão, dava mil voltas a um e outro lado, e ele obedecia algumas vezes ge- mendo - mas obedecia sem dizer palavra, ou, quando muito, um "ai, nhonhô!", ao que eu retorquia: "Cala a boca, besta!". Esconder os cha- péus das visitas, deitar rabos de papel a pessoas graves, puxar pelo ra- bicho das cabeleiras, dar belisções nos braços das matronas, e outras muitas facanhas desse jaez, eram mostras de um gênio indócil, mas de- vo crer que eram também expressões de um espírito robusto, porque meu pai tinha-me em grande admiração; e, se às vezes me repreendia, à vista de gente, fazia-o por simples formalidade: em particular dava- XIX me beijos. CONSERVACAO! AFORMOS Não se conclua daqui que eu levasse todo o resto da minha vida a que- brar a cabeça dos outros nem a os chapéus; mas opiniá- tico, egoísta e algo contemptor dos homens, isso fui; se não passei o tempo a esconder-lhes os chapéus, alguma vez lhes puxei pelo rabicho das cabeleiras. Outrossim, à contemplação da injustiça humana, incli- nei-me a atenuá-la, a explicá-la, a classificá-la por partes, a entendê-la, não segundo um padrão rígido, mas ao sabor das circunstâncias e lu- gares. Minha mãe doutrinava-me a seu modo, fazia-me decorar alguns preceitos e orações; mas eu sentia que, mais do que as orações, me go- vernavam os nervos e o sangue, e a boa regra perdia o espírito, que a faz viver, para se tornar uma fórmula. De manhã, antes do mingau, e de noite, antes da cama, pedia a Deus que me perdoasse, assim como eu perdoava aos meus devedores; mas entre a manhã e a noite fazia uma Propaganda de tônico para grande maldade, e meu pai, passado o alvoroço, dava-me pancadinhas cabelo, século XIX. na cara, e exclamava a rir: "Ah! Brejeiro! Ah! Brejeiro!" Sim, meu pai adorava-me. Minha mãe era uma senhora fraca, de pouco cérebro e muito coração, assaz crédula, sinceramente piedosa, ca- seira, apesar de bonita, e modesta, apesar de abastada; temente às tro- voadas e ao marido. marido era na Terra seu deus. Da colaboração dessas duas criaturas nasceu a minha educação, que, se tinha alguma 146</p><p>coisa boa, era no geral viciosa, incompleta e, em partes, negativa. Meu tio cônego fazia às vezes alguns reparos ao irmão; dizia-lhe que ele me dava mais liberdade do que ensino e mais afeição do que emenda; mas meu pai respondia que aplicava na minha educação um sistema intei- ramente superior ao sistema usado; e por esse modo, sem confundir o ir- mão, iludia-se a si próprio. De envolta com a transmissão e a educação, houve ainda o exemplo estranho, o meio Vimos os pais; vejamos os tios. Um deles, o João, era um homem de língua solta, vida galante, conversa picaresca. Desde os onze anos en- trou a admitir-me às anedotas reais ou não, eivadas todas de obsce- nidade ou Não me respeitava a adolescência, como não respeitava a batina do irmão; com a diferença de que este fugia logo que ele enveredava por assunto escabroso. Eu não; deixava-me estar, sem entender nada, a princípio, depois entendendo, e enfim achan- do-lhe graça. No fim de certo tempo, quem o procurava era eu; e ele gostava muito de mim, dava-me doces, levava-me a passeio. Em casa, quando lá ia passar alguns dias, não poucas vezes me aconteceu achá-lo, no fundo da chácara, no lavadouro, a palestrar com as es- Martinho Prado Júnior e cravas que batiam roupa; é que era um desfiar de anedotas, de di- família, 1890. Chefiada tos, de perguntas, e um estalar de risadas, que ninguém podia ouvir, pelo homem, a família rica porque o lavadouro ficava muito longe de casa. As pretas, com uma do século XIX não permite tanga no ventre, a arregacar-lhes um palmo dos vestidos, umas den- a autonomia da mulher. tro do tanque, outras fora, inclinadas sobre as peças de roupa, a batê- las, a ensaboá-las, a torcê-las, iam ouvindo e redargüindo às pilhé- rias do tio João, e a comentá-las de quando em quando com esta palavra: Cruz, diabo!... Este sinhô João é o diabo! BRILHO LIMPEZA Bem diferente era o tio cônego. Esse tinha muita austeridade e pu- reza; tais dotes, contudo, não em espírito superior, apenas compensavam um espírito Não era homem que visse a par- te substancial da Igreja; via o lado externo, a hierarquia, as preemi- nências, as sobrepelizes, as circunflexões. Vinha antes da sacristia que do altar. Uma lacuna no ritual excitava-o mais do que uma infração dos mandamentos. Agora, a tantos anos de distância, não estou certo se ele poderia atinar facilmente com um trecho de Tertuliano', ou ex- por, sem titubear, a história do símbolo de Nicéia², mas ninguém, nas festas cantadas, sabia melhor o número e caso das cortesias que se de- viam ao oficiante. Cônego foi a única ambição de sua vida; e dizia de coração que era a maior dignidade a que podia aspirar. Piedoso, severo nos costumes, mi- nucioso na observância das regras, frouxo, acanhado, subalterno, pos- suía algumas virtudes, em que era exemplar, mas carecia absolutamen- NOTAS te da força de as incutir, de as impor aos outros. Tertuliano (155-220): um dos Não digo nada de minha tia materna, dona Emerenciana, e aliás era doutores da Igreja. a pessoa que mais autoridade tinha sobre mim; essa 2 Nicéia: antiga cidade da Ásia grandemente dos outros; mas viveu pouco tempo em nossa companhia, Menor em realizou-se uns dois anos. Outros parentes e alguns íntimos não merecem a pena de um concílio ecumênico que con- ser citados; não tivemos uma vida comum, mas intermitente, com gran- denou o arianismo e definiu o Credo ou Símbolo de des claros de separação. o que importa é a expressão geral do meio 147</p><p>doméstico, e essa fica indicada, vulgaridade de caracteres, amor das aparências rutilantes, do arruído, frouxidão da vontade, domínio de do capricho, e o mais. Dessa terra e desse estrume é que nasceu esta (ASSIS, Machado. Op. cit.) Quincas Borba Quincas Borba foi publicado pela primeira vez em 1891. foco narrativo em terceira pessoa apresenta um narrador sutil, que nunca abre o jogo sobre o que realmente está acontecendo, mas vai espalhando pistas no caminho. Na verdade, o título do romance não é uma referência à personagem humana de mesmo nome, mas ao seu cão, que também se chamava Quincas Borba, única criatura dotada de desinteressado afeto por seu dono. Quincas Borba, o homem, tinha sido muito pobre, e conseguiu fortuna. No final da vida dava mostras de um certo desequilíbrio mental (questionável), e acabou por morrer durante uma viagem ao Rio de Janeiro, longe de Barba- cena, sua terra natal. Deixara, ao viajar, o sob os cuidados de Rubião, irmão Private Cadeira. Maria de uma sua noiva que falecera antes do casamento. Ao saber da notícia da década de morte do amigo, Rubião dá o cachorro Quincas Borba a uma vizinha. Mas é Aquarela. surpreendido pela leitura do testamento em que ele é declarado herdeiro uni- versal de Quincas Borba, desde que zele pela saúde e segurança do cão. Rubião e o cachorro partem para o Rio de Janeiro. Ele pretende se apos- sar da herança e passar a morar na Corte. No trem, contudo, conhece o casal Sofia e Cristiano Palha e se encanta pela esposa do desconhecido. Travam amizade, e na Capital o casal oferece seus préstimos: Sofia o ajuda a encon- trar e mobiliar uma casa, Palha se encarrega de arranjar um advogado para resolver suas questões legais. Grave erro de Rubião ao permitir a intrusão de um estranho. dinheiro sobe-lhe à cabeça. Passa a acreditar que ganhou real impor- tância com ele, a ponto de poder pretender Sofia. Uma noite deixa suas inten- ções claras. Ela, depois de uma festa, conta tudo ao marido, que sutilmente a faz ver as vantagens que podem tirar da situação. narrador nunca diz que Sofia faz um jogo de sedução com Rubião. Mas ele concorda em se tornar sócio de Palha, com a mediação de um advogado arranjado por este. Índices de ascensão social do casal começam a aparecer, até que Cristiano rompe a sociedade, esfriando suas relações com Rubião. o herdeiro de Quincas Borba vai perdendo tudo que tem (em falência previa- mente armada por Palha). À medida que perde seu dinheiro, vai também per- dendo sua sanidade. Tem surtos em que manifesta a certeza de ser Napoleão Bonaparte, ocasiões em que chama Sofia de Josefina. golpe de misericórdia vem quando Palha e Sofia arrematam sua casa Alguns dos móveis que em leilão. Em seguida internam-no num hospício a pretexto de caridade. Ru- pertenceram a Machado bião só concorda em ir em companhia do cão. De lá fogem de volta para Bar- de Assis estão expostos na bacena, onde ele se torna um mendigo louco, que dorme na porta da igreja e Academia Brasileira de vive de esmolas. De quando em quando, exclamava, aparentemente descone- Letras, no Rio de Janeiro. "Ao vencedor, as batatas!" 148</p><p>Faminto, adoentado depois de tomar muitas chuvas, Rubião morreu na companhia do seu único e fiel amigo, o cão Quincas Borba, que, dias depois, também se foi. Capítulo 6 Para entenderes bem o que é a morte e a vida, basta contar-te como morreu minha avó. Como foi? Senta-te. Rubião obedeceu, dando ao rosto o maior interesse possível enquanto Quincas Borba continuava a andar. Foi no Rio de Janeiro começou ele, defronte da Capela Imperial, que era então Real, em dia de grande festa; minha avó saiu, atravessou o adro, para ir ter à cadeirinha*, que a esperava no Largo do Paço. Gen- te como formiga. povo queria ver entrar as grandes senhoras nas suas ricas traquitanas. No momento em que minha avó saía do adro para ir à cadeirinha, um pouco distante, aconteceu espantar-se uma das bestas NOTA de uma sege; a besta disparou, a outra imitou-a, confusão, tumulto, Cadeirinha: pequena cadeira minha avó caiu, e tanto as mulas como a sege passaram-lhe por cima. coberta sustentada por dois lon- Foi levada em braços para uma botica da Rua Direita, veio um san- gos varais e conduzida por dois um à frente e outro grador, mas era tarde; tinha a cabeça rachada, uma perna e ombro Era um meio de trans- partidos, era toda sangue; expirou minutos depois. porte comum no século XIX Foi realmente uma desgraça disse Não? Ouve o resto. Aqui está como se tinha passado o dono da se- ge estava no adro, e tinha fome, muita fome, porque era tarde, e almo- cedo e pouco. Dali pôde fazer sinal ao cocheiro; este fustigou as mulas para ir buscar o patrão. A sege no meio do caminho achou um obstáculo e derribou-o; esse obstáculo era minha primeiro ato dessa série de atos foi um movimento de conservação: Humanitas tinha fome. Se, em de minha fosse um rato ou um é certo que minha avó não morreria, mas o fato era o mesmo; Humanitas precisa comer. Se em vez de um rato ou de um fosse um poeta, Byron ou Gonçalves Dias, diferia o caso no sentido de dar matéria a muitos ne- crológios, mas o fundo subsistia. universo ainda não parou por lhe faltarem alguns poemas mortos em flor na cabeça de um varão ilustre ou obscuro; mas Humanitas (e isso importa, antes de tudo), Humanitas precisa comen Rubião escutava, com a alma nos olhos, sinceramente desejoso de en- tender; mas não dava pela necessidade a que o amigo atribuía a morte da Seguramente o dono da sege, por muito tarde que chegasse a ca- sa, não morria de fome, ao passo que a boa senhora morreu de verdade, e para sempre. Explicou-lhe, como pôde, essas dúvidas, e acabou perguntando-lhe: E que Humanitas é esse? Humanitas é o princípio. Mas não, não digo nada, tu não és capaz de entender isso, meu caro Rubião; falemos de outra coisa. Diga sempre. 149</p><p>Quincas Borba, que não deixara de andar, parou alguns instantes. Queres ser meu discípulo? Quero. Bem, irás entendendo aos poucos a minha filosofia; no dia em que a houveres penetrado inteiramente, ah! Nesse dia terás o maior prazer da vida, porque não há vinho que embriague como a verdade. Crê-me, o Humanitismo é o remate das coisas; e eu, que o formulei, sou o maior homem do mundo. Olha, vês como o meu bom Quincas Borba está olhando para mim? Não é ele, é Humanitas... Mas que Humanitas é esse? Humanitas é o princípio. Há nas coisas todas certa substância re- côndita e idêntica, um princípio único, universal, eterno, comum, indi- visível e indestrutível ou, para usar a linguagem do grande Camões: Uma verdade que nas coisas anda, Que mora no visíbil e invisíbil. Pois essa substância ou verdade, esse princípio indestrutível é que é Humanitas. Assim chamo, porque resume o universo, e o universo é o homem. Vais entendendo? Casa de Machado de Assis, Pouco; mas, ainda assim, como é que a morte de sua avó Rio de Janeiro, 2007. Não há morte. encontro de duas expansões, ou a expansão de cuidado com os objetos pes- duas formas, pode determinar a supressão de uma delas; mas, rigorosa- soais e móveis do escritor não mente, não há morte, há vida, porque a supressão de uma é a condição se estende a sua casa no bairro da sobrevivência da outra, e a destruição não atinge o princípio univer- sal e comum. Daí o caráter conservador e benéfico da guerra. Supõe tu um campo de batatas e duas tribos famintas. As batatas apenas chegam para alimentar uma das tribos, que assim adquire forças para a montanha e ir à outra vertente, onde há batatas em abundância; mas, se as duas tribos dividem em paz as batatas do campo, não chegam a nutrir-se suficientemente e morrem de inanição. A paz, nesse caso, é a destruição; a guerra é a conservação. Uma das tribos extermina a outra e recolhe os despojos. Daí a alegria da vitória, os hinos, aclamações, re- compensas públicas e todos os demais efeitos das ações bélicas. Se a guerra não fosse isso, tais demonstrações não chegariam a dar-se, pelo motivo real de que o homem só comemora e ama o que é aprazível ou vantajoso, e pelo motivo racional de que nenhuma pessoa canoniza uma ação que virtualmente a Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as Mas a opinião do exterminado? Não há exterminado. Desaparece o fenômeno; a substância é a mesma. Nunca viste ferver água? Hás de lembrar-te que as bolhas fa- zem-se e desfazem-se de contínuo, e tudo fica na mesma água. Os indi- víduos são essas bolhas transitórias. Bem; a opinião da bolha... Bolha não tem opinião. Aparentemente, há nada mais contristador Ministério da Agricultura, que uma dessas terríveis pestes que devastam um ponto do globo? E, to- Comércio e Obras davia, esse suposto mal é um benefício, não só porque elimina os orga- Públicas, Rio de Janeiro. nismos fracos, incapazes de resistência, como porque dá lugar à obser- vação, à descoberta da droga curativa. A higiene é filha de podridões seculares; devemo-la a milhões de corrompidos e infectos. Nada se per- 150</p><p>de, tudo é ganho. Repito, as bolhas ficam na água. Vês este livro? É Dom Quixote. Se eu destruir o meu exemplar, não elimino a obra, que con- tinua eterna nos exemplares subsistentes e nas edições posteriores. Eter- na e bela, belamente eterna, como este mundo divino e (Obra citada.) Dom Casmurro Esse romance causa intrincadas, e, por vezes, acirradas polêmicas há cer- ca de um século. Publicado em 1899, é, dentre as obras do autor, a mais feliz, a mais bem engendrada, a mais enigmática, a mais rica. O leitor pode se deixar levar pela ótica do narrador, Bentinho, ou pode fazer uma leitura paralela, pondo em questão a confiabilidade do narrador, levando em conta a hipótese de ser ele um paranóico com fantasias persecutórias geradas por uma profun- da insegurança de menino excessivamente protegido. Filho único, órfão de pai aos quatro anos, Bentinho fora criado pela mãe, Dona Glória, na antiga rua de Matacavalos. Os bens deixados pelo pai propor- de Cosme Velho, Rio de cionavam a ambos uma vida bastante confortável. Superprotegido pela Transformada em cortiço e no Bento Albuquerque de Santiago teve uma infância reduzida ao ambiente do- meio de uma favela, a casa não méstico. Não freqüentava a escola, tinha aulas particulares ministradas em ca- recebe qualquer tipo de trata- mento especial dos órgãos pú- sa pelo padre Cabral, velho amigo da família. Para dar cumprimento a uma blicos. promessa feita pela mãe, deveria ingressar num seminário quando tivesse a idade apropriada. isolamento familiar, a superproteção e o destino eclesiástico fizeram de Bentinho uma pessoa bastante ingênua, de personalidade sensível e emo- cional. Possuía, ainda, muita imaginação, segundo confessa no capítulo XL. Isso tudo concorreu para que lhe faltasse objetividade no trato com a realida- de, além de gerar certa insegurança. A única pessoa com quem ele mantém es- treito relacionamento fora do círculo doméstico é a vizinha Capitu, sua amiga de infância, por quem se apaixonaria aos 15 anos. Capitu é dona de uma personalidade forte e marcante, bem diferente da de É interessante salientar que o próprio protagonista afirma no capítulo XXXI que ela era "mais mulher do que eu era homem". A inteligência vivaz e a extroversão da menina o atraíam e perturbavam ao mesmo tempo. Sua presença de espírito, sua capacidade de dissimulação, a astúcia que reve- lava possuir de certo modo chocavam Bentinho, além de, por contraste, acen- tuar sua ingenuidade. Não fosse a atração que Capitu exercia sobre ele, fascínio esse alimentado durante as visitas que o rapaz fazia à família aos sábados, ele teria se tornado padre. De natureza cordata, o narrador-persona- gem confessa no capítulo LXV estar se afeiçoando à vida no seminário. Claro está que ele encontrou no afeto e na consideração que os colegas e os padres lhe dispensavam um segundo aconchego familiar, feito do mesmo isolamento e proteção com que contava em sua casa. Cabe ressaltar ainda que, durante antigo prédio do Ministério sua estada ali, conheceu Ezequiel Escobar, que viria a ser seu melhor amigo, e da Agricultura, localizado no também pomo da discórdia entre ele e Capitu. bairro do Catete, foi local de trabalho de Machado de Assis. As diferenças de personalidade existentes entre Bentinho e Capitu são ní- tidas. A extroversão, a tranqüila segurança, o desembaraço e a objetividade com que ela lidava com o cotidiano eram sempre surpreendentes para ele. 151</p><p>Desde a infância, Capitu se configurava para Bentinho como uma espécie de esfinge, e ele parecia querer desvendar o mistério atrás de cada gesto seu. casamento foi fermento para a paixão e o ciúme, inevitável e obsessivo. Che- gou a ter "ciúmes de tudo e de todos", como declara no capítulo CXIII. o menor gesto o afligia, a mais ínfima palavra, uma insistência qualquer, às vezes só a indiferença bastava para enchê-lo "de terror ou Passou a ter suspeitas, e a semelhança existente entre o filho e o amigo Escobar (semelhan- ça essa reconhecida pela própria fez senão alimentá-las. A descon- fiança de que a esposa o teria traído com seu melhor amigo não se confirma, apesar da parecença do menino com o antigo colega de seminário, mas foi envenenando sua alma. É interessante frisar que seu temperamento introvertido não lhe permitiu nenhuma reação extrema ou raivosa. Talvez mais que o temperamento, tenha pesado o medo de investir contra as aparências e assumir o suposto desmoro- namento da relação e suas no âmbito familiar e social. A morte prematura de Escobar, por afogamento, termina por precipitar os aconteci- mentos. Esta covardia custou-lhe caro, fazendo de sua vida uma farsa. Em ne- nhum momento confessou a quem quer que fosse a suspeita. Capitu tomou conhecimento dela de maneira quase casual e não por ini- ciativa dele. Até na separação foram salvaguardadas as aparências: a esposa e o filho mudaram-se para a Europa e ele anualmente viajava simulando visitá- Capitu. J. da Rocha los. Traído ou não, Bentinho deixou que sua vida fosse arruinada. A desconfi- Ferreira. Óleo sobre t ança minou-lhe o espírito e se generalizou, fazendo com que ele se voltasse mais e mais para dentro de si mesmo, isolando-se, tornando-se cético e amar- go. que retoma sua trajetória de vida não é mais Ben- tinho, mas, definitivamente, Dom Essa breve síntese da trajetória de Bentinho não abrange uma parcela mínima da riqueza do romance. Ele deve ser lido e debatido à exaustão. A Mão de Sancha Tudo acaba, leitor; é um velho truísmo, a que se pode acrescentar que nem tudo o que dura dura muito tempo. Esta segunda parte não acha crentes fáceis; ao contrário, a idéia de que um castelo de vento dura mais que o mesmo vento de que é feito, dificilmente se despegará da cabeça, e é bom que seja assim, para que se não perca o costume daque- las construções quase eternas. nosso castelo era sólido, mas um domingo... Na véspera passado a noite no Flamengo, não só os dois casais inseparáveis, como ainda o agregado e prima Justina. Foi então que Escobar, falando-me à janela, disse-me que lá jantar no dia seguinte; precisávamos falar de um projeto em família, um projeto para os quatro. Para os quatro? Uma contradança. Não. Não és capaz de adivinhar que seja, nem eu digo. Vem Sancha não tirava os olhos de nós durante a conversa, ao canto da janela. Quando o marido saiu, veio ter comigo. Perguntou-me de que é que faláramos; disse-lhe que de um projeto que eu não sabia qual fosse; 152</p><p>ela pediu-me segredo, e revelou-me o que era: uma viagem à Europa dali a dois anos. Disse isto de costas para dentro, quase suspirando. mar batia com grande força na praia; havia ressaca. Vamos todos? perguntei por fim. Vamos. Sancha ergueu a cabeça e olhou para mim com tanto prazer que eu, graças às relações dela e Capitu, não se me daria na testa. En- tretanto, os olhos de Sancha não convidavam a expansões fraternais, pareciam quentes e intimativos, diziam outra coisa, e não tardou que se afastassem da janela, onde eu fiquei olhando para o mar, pensativo. A noite era clara. Dali mesmo busquei os olhos de Sancha, ao pé do piano; encontrei-os em caminho. Pararam os quatro e ficaram diante uns dos outros, uns esperando que os outros passassem, mas nenhuns passavam. Tal se dá na rua entre dois teimosos. A cautela desligou-nos; eu tornei a voltar-me para fora. E assim posto entrei a cavar na memória se alguma vez olhara para ela com a mesma expressão, e fiquei incerto. Tive uma certeza só, é que um dia pensei nela, como se pensa na bela desconheci- da que passa; mas então dar-se-ia que ela adivinhando.. Talvez o sim- ples pensamento me transluzisse cá fora, e ela me fugisse outrora irrita- da ou acanhada, e agora por um movimento invencível. Invencível; esta palavra foi como uma benção de padre à missa, que a gente recebe e repete em si mesma. mar amanhã está de desafiar a gente, disse-me a voz de Escobar, eira e ao pé de mim. Você entra no mar amanhã? Tenho entrado em mares maiores, muito maiores. Você não imagi- na o que é um bom mar em hora bravia. É preciso nadar bem, como eu, e ter estes pulmões disse ele batendo no peito, e estes braços; apalpa. Apalpei-lhe os braços, como se fossem os de Sancha. Custa-me esta confissão, mas não posso suprimi-la; era jarretar a verdade. Não só os apalpei com essa idéia, mas ainda senti outra coisa: achei-os mais gros- e fortes que os meus, e tive-lhes inveja; acresce que sabiam nadar. Quando saímos, tornei a falar com os olhos à dona da casa. A mão dela apertou muito a minha, e demorou-se mais que de costume. A modéstia pedia então, como agora, que eu visse naquele gesto de Sancha uma sanção ao projeto do marido e um agradecimento. Assim devia ser, mas um fluido particular que me correu todo o corpo desvi- ou de mim a conclusão que deixo escrita. Senti ainda os dedos de Sancha entre os meus, apertando uns aos outros. Foi um instante de vertigem e de pecado. Passou depressa no relógio do tempo; quando cheguei o relógio ao ouvido, trabalhavam só os minutos da virtude e da razão. Uma senhora concluiu José Dias um discurso que vinha fazendo. Deliciosíssima! repeti com algum ardor, que moderei logo, emen- dando-me: Realmente, uma bela noite! Como devem ser todas as daquela casa, continuou o agregado. Cá fora, não; cá fora o mar está zangado; escute. 153</p><p>Ouvia-se o mar forte, como já se ouvia de casa, a ressaca era grande, e, à distância, viam-se crescer as ondas. Capitu e prima Justina, que iam adiante, detiveram-se numa das voltas da praia, e fomos con- versando os quatro; mas eu conversava mal. Não havia meio de esque- cer inteiramente a mão de Sancha nem os olhos que trocamos. Agora achava-lhes isto, agora aquilo. Os instantes do diabo intercalavam-se nos minutos de Deus, e o relógio foi assim marcando alternativamente a minha perdição e a minha salvação. José Dias despediu-se de nós à porta. Prima Justina dormiu em nossa casa; iria embora, no dia seguin- te, depois do almoço e da missa. Eu recolhi-me ao meu gabinete, onde me demorei mais que de costume. retrato de Escobar, que eu tinha ali, ao pé do de minha mãe, falou- me como se fosse a própria pessoa. Combati sinceramente os impulsos que trazia do Flamengo; rejeitei a figura da mulher do meu amigo, e chamei-me desleal. Demais, quem me afirmava que houvesse alguma intenção daquela espécie no gesto da despedida e nos anteriores? Tudo podia ligar-se ao interesse da nossa viagem. Sancha e Capitu eram tão amigas que seria um prazer a mais para elas irem juntas. Quando hou- vesse alguma intenção sexual, quem me provaria que não era mais que Chamamento dos uma sensação fulgurante, destinada a morrer com a noite e o sono? Há Apóstolos Pedro e remorsos que não nascem de outro pecado, nem têm maior duração. 1308-1311. Agarrei-me a esta hipótese que se conciliava com a mão de Sancha, que Relembrando os personagens eu sentia de memória dentro da minha mão, quente e demorada, aper- bíblicos Esaú e Jacó, Machado tada e apertando... Sinceramente, eu achava-me mal entre um amigo e a atração. A timi- dez pode ser que fosse outra causa daquela crise; não é só céu que dá as nossas virtudes, a timidez também, não contando o acaso, mas o aca- MESA CENTRO é um mero acidente; a melhor origem delas é o céu. Entretanto, como A PUSERA PRATO a timidez vem do céu, que nos dá a compleição, a virtude, filha dela, é, genealogicamente, o mesmo sangue celestial. Assim refletiria, se pudes- se; mas a princípio vaguei à toa. Paixão não era nem inclinação. Capricho seria ou quê? Ao fim de vinte minutos era nada, inteiramente nada. retrato de Escobar pare- NO ceu falar-me; vi-lhe a atitude franca e simples, sacudi a cabeça e fui HORRORIZADO PARA NÃO MATE-O deitar-me. PATAS LOGO! (Obra citada.) Esaú e Jacó o título desse romance alude às personagens bíblicas Esaú e Jacó, filhos gêmeos de Isaac e Rebeca. Inimigos desde o ventre materno, Esaú, que tinha nascido primeiro, vende seus direitos de primogênito a Jacó, em troca de um prato de lentilhas. narrador conta que escreveu esse romance baseando-se nos cadernos escritos pelo Conselheiro Aires, amigo da família dos protagonistas Pedro e Paulo. Estes são gêmeos univitelinos, "tão iguais, que antes pareciam a sombra um do outro, se não era simplesmente a impressão do olho, que via dobrado". 154</p><p>Como o título sugere, eles também são inimigos. A mãe deles, que tem o suges- tivo nome de Natividade, engravidara, acidentalmente, com cerca de 30 anos e teve uma gestação difícil. Ambos debatiam-se em seu ventre como se lutassem já antes de nascer. Disputavam tudo: a mãe, os olhares, os brinquedos. Na adolescência, re- velaram ter pendores políticos diferentes: um era republicano, outro monar- quista. Disputaram também o amor da menina Flora, que faleceu ainda ado- lescente. Crescidos, formaram-se: um tornou-se advogado; outro, médico. Elege- ram-se deputados por partidos diferentes e passaram a brigar na Câmara. A única trégua que se concederam foi por ocasião do falecimento da mãe, que os fez jurar no seu leito de morte que seriam amigos para sempre. Não tardou, po- rém, que o enfrentamento cotidiano os arremessasse noutras discórdias e as- sim eles terminam: inimigos para sempre. Nesse romance parece que o autor quis ironizar a teoria determinista de Taine, concebendo personagens com a mesma herança genética (gêmeos uni- vitelinos), vivendo no mesmo meio e no mesmo momento histórico, mas com personalidades diferentes, contrariando o Determinismo então em voga. de Assis conta a história de Pe- dro e Paulo, gêmeos univitelinos que, como os irmãos são inimigos desde seu nas- Memorial de Aires cimento. Escrito sob a forma de um diário, esse romance apresenta um relato em primeira pessoa de um narrador-observador, Conselheiro Aires, que inciden- talmente participa da ação; portanto, não é protagonista. As anotações vão de Em seu conto A Causa Secreta, Machado de Assis explora o janeiro de 1888 a agosto de 1889. lado sombrio da psique. 0 nar- rador revela a perversão de For- A ação gira em torno de Dona Carmo, personagem inspirada, segundo a crítica, em Carolina, esposa do autor. É o livro mais otimista do autor. Veja a tunato, que sente prazer com a dor alheia. Esse conto contrasta descrição amorosa que o Conselheiro Aires faz de Dona Carmo quando ele a com Memorial de Aires, seu livro revê na festa de bodas de prata dos Aguiar. mais otimista. A dona da casa, afável, meiga, deliciosa com todos, parecia realmente feliz naquela data; não menos o marido. Talvez ele fosse ainda mais feliz que ela, mas não saberia mostrá-lo tanto. D. Carmo possui o dom de falar e viver por todas as feições, e um poder de atrair as pessoas, como terei visto em poucas mulheres, ou raras. Os seus cabelos brancos, colhidos com arte e gosto dão à velhice um relevo particular, e fazem casar nela todas as idades. Não sei se me explico bem, nem é preciso dizer melhor para o fogo a que lançarei um dia estas folhas de solitário. De quando em quando, ela e o marido trocavam as suas impressões com os olhos, e pode ser que também com a fala. Uma só vez a im- pressão visual foi melancólica. Mais tarde ouvi a explicação a mana Ri- ta. Um dos convivas sempre há indiscretos no brinde que lhes fez aludiu à falta de filhos, dizendo "que Deus lhos negara para que eles se amassem melhor entre si". Não falou em verso, mas a idéia suportaria o metro e a rima, que autor talvez houvesse cultivado em rapaz; orçava agora pelos cinqüenta anos, e tinha um filho. Ouvindo aquela referên- 155</p><p>cia, os dois fitaram-se tristes, mas logo buscaram rir, e sorriram. Mana Rita me disse depois que essa era a única ferida do casal. Creio que Fidélia percebeu também a expressão de tristeza dos dois, porque eu a vi inclinar-se para ela com um gesto do cálix e brindar a D. Carmo cheia de graça e ternura: À sua felicidade. A esposa Aguiar, comovida, apenas pôde responder logo com o gesto; só instantes depois de levar o cálix à boca, acrescentou, em voz meia sur- da, como se custasse sair do coração apertado esta palavra de agra- decimento: Obrigada. (ASSIS, Machado de. Memorial de Aires. São Paulo: Ática, 1976. A descrição de dona Carmo faz jus ao espírito fino e à inteligência su- blime do autor. À falta de filhos, o casal Aguiar "adotou" Tristão, filho de uma amiga de dona Carmo o qual dividiu sua criação entre os pais biológicos e os pais "de coração". Ao chegar à idade de cursar uma faculdade, acompanhou os Lagoa Rodrigo de pais a uma viagem a Portugal, e decidiu ficar por lá e fazer Medicina em Lisboa. Marc Ferrez, 1875. A princípio mandava notícias e retratos, mas nos últimos anos, havia silencia- Fotografia. do. Dona Carmo encontrou um sucedâneo na presença de Fidélia, jovem que havia rompido com a família para unir-se ao marido, e, com a morte precoce deste, guardara luto e jurara não se casar novamente. Pouco depois das bodas de prata dos padrinhos, Tristão escreve, descul- pando-se e revelando que lhes destinava ainda o mesmo afeto e a mesma con- sideração. Uma segunda carta revela que ele viria visitá-los. A volta dele turva os votos de castidade que fizera a viúva. A relação de ambos é travada lenta- mente, com alguma resistência dela, e torcida feroz do velho casal Aguiar, que esperava a união dos "filhos postiços", para talvez terem "netos postiços". A união é consumada no casamento, mas logo o casal parte para Portugal, onde Tristão chega já eleito deputado. A notícia abala dona Carmo e Aguiar. No último capítulo Aires vai visitá-los e os encontra assim: Há seis ou sete dias que eu não ia ao Flamengo. Agora à tarde lem- brou-me lá passar antes de vir para casa. Fui a pé; achei aberta a porta do jardim, entrei e parei logo. Lá estão eles, disse comigo. Ao fundo, à entrada do dei com os dois velhos sentados, olhando um para o outro. Aguiar estava encostado ao portal direito, com as mãos sobre os joelhos. D. Carmo, à esquerda, tinha os braços cru- zados à cinta. Hesitei entre ir adiante ou desandar o caminho; conti- nuei parado alguns segundos até que recuei pé ante pé. Ao transpor a porta para a rua, vi-lhes no rosto e na atitude uma expressão a que não acho nome certo ou claro; digo o que me pareceu. Queriam ser risonhos e mal se podiam consolar. Consolava-os a saudade de si mesmos. (Obra citada.) 156</p><p>A poesia Machado de Assis principiou seu ofício de escritor pela poesia. É certo que mereceu glória à custa de sua prosa, mas exerceu a poesia de forma corre- ta e eficaz. Seus três primeiros livros de poemas são ainda influenciados pelo Ocidentais, seu último livro de poemas, afina-se com Parnasia- nismo, e é o melhor da lírica de Machado de Assis. Uma Criatura Sei de uma criatura antiga e formidável, Que a si mesma devora os membros e as entranhas Com a sofreguidão da fome insaciável. Habita juntamente os vales e as montanhas; E no mar, que se rasga, à maneira de abismo, Espreguiça-se toda em convulsões estranhas. Traz impresso na fronte o obscuro despotismo; Cada olhar que despede, acerbo e mavioso, Parece uma expansão de amor e de egoísmo. Friamente contempla o desespero e o gozo Gosta do colibri, como gosta do verme, E cinge ao coração o belo e o monstruoso. Para ela o chacal é, como a rola, inerme; de E caminha na terra imperturbável, como Pelo vasto areal um asto paquiderme. Na árvore que rebenta o seu primeiro gomo, Vem a folha, que lento e lento se desdobra, Depois a flor, depois suspirado pomo. Pois essa criatura está em toda obra: Cresta o seio da flor e corrompe-lhe fruto; E é desse destruir que as suas forças dobra. Ama de igual amor o poluto e o impoluto; Glauco Começa e recomeça uma perpétua lida, 00. Acrílica E sorrindo obedece ao divino estatuto. ada sobre Tu dirás que é a Morte: eu direi que é a Vida.</p><p>Teste seus conhecimentos 1. (PUC/Campinas-SP) As obras da maturidade de Ma- b) Brás Cubas atua como defunto-narrador, capaz chado de Assis (também conhecidas como "as da de alterar a do tempo cronológico. segunda fase") caracterizam-se: c) memorialismo exacerbado acaba por conferir à a) pela cristalização dos princípios estéticos obra um caráter de crônica. ticos já perseguidos por José de Alencar. d) constitui um romance de crítica ao Romantismo, b) pela perfeição com que o autor desenvolveu as te- deixando entrever muita ironia em vários momen- ses cientificistas igualmente abraçadas por tos da narrativa. sio Azevedo. e) revela crítica intensa aos valores da sociedade e c) pela conquista de uma expressão realista original, ao próprio público leitor da época. a que se aliam o espírito pessimista e a lucidez da análise. 4. Sobre Quincas Borba, de Machado de As- d) pela conquista de uma expressão realista original, sis, assinale a alternativa correta. em que se casam sentimento nacionalista e um a) 0 romance é narrado no passado, mostrando as tom profético. reminiscências do autor antes de sua morte. e) pela prática de uma poesia e de um teatro origi- b) Sofia é uma personagem feminina tipicamente nais, que superam as velhas dos machadiana, devido a sua frieza e calculismo. escritores clássicos. c) A filosofia do "Humanitas " prega a harmonia en- tre os povos. 2. (UF/RGS) "Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria." d) Rubião não é uma personagem submetida à 0 texto acima é: cobiça material de dois indivíduos interesseiros. a) final do testamento de Quincas Borba, que faz e) Da afeição entre Bentinho e Capitu, nasce casa- mento. Rubião seu herdeiro, sob a condição de que cuide de seu cachorro. b) um comentário de Bentinho, protagonista de 5. (UF/CE) Assinale a única afirmativa que não é verda- Dom Casmurro, cujo temperamento azedo e me- deira em relação ao romance Dom Casmurro. lancólico lhe valeu 0 apelido. a) Dom Casmurro pode ser considerado um romance c) a conclusão pessimista do Dr. Bacamarte, ao final psicológico, no qual narrador se revela, se do conto "0 Alienista", após dedicar sua vida ao denuncia, se analisa. estudo da "patologia cerebral". b) Em passagens como: "Deus é poeta. A música d) o desabafo do "defunto-autor" das Memórias é de em Dom Casmurro, Póstumas de Brás Cubas, ao final do livro. Machado revela homem como ser dual, buscan- e) a reflexão do Conselheiro Aires ao encerrar a nar- do sempre caminhos opostos. rativa do drama de Flora, em Esaú e Jacó. c) Escobar é a personagem que, em Dom Casmurro, responde pelo clima dúbio que conduz narrador e 3. (UM-SP) Sobre romance Memórias Póstumas de leitor à suspeita de um possível adultério. Brás Cubas, não é correto afirmar que: d) Como tema de fundo para ressaltar 0 tema maior a) é uma obra inovadora do processo narrativo, que de seu romance, Machado de Assis retrata, em introduz o Realismo no Brasil. Dom Casmurro, com pinceladas de artífice-artis- 158</p><p>ta, usos, ritos, credos e crenças da sociedade do quarentona, não havia lugar para ciúmes. É certo Il Império. que, após algum tempo, modificou os elogios a Capi- e) A narrativa machadiana em Dom Casmurro obe- tu, e até lhe fez algumas críticas, disse-me que era dece aos cânones da linearidade romanesca, na um pouco trêfega e olhava para baixo; mas ainda qual leitor avisado observa, no relato da vida de assim não creio que fossem ciúmes. Creio antes... uma personagem qualquer, a evolução de seu sim... sim, creio isto. Creio que prima Justina achou nascimento, vida e morte. no espetáculo das sensações uma ressurrei- ção vaga das próprias. Também se goza por influição dos lábios que narram." 6. (Fuvest-SP) A narração dos acontecimentos com Machado de. Dom Casmurro. que leitor se defronta no romance Dom Casmurro, São Paulo: Martins Fontes de Machado de Assis, se faz em primeira pessoa, portanto, do ponto de vista da personagem Seria, pois, correto dizer que ela se apresenta: 7. Durante 0 tempo em que prima Justina elogiou as qualidades de Capitu, a) fiel aos fatos e perfeitamente adequada à rea- lidade. a) com receio de se trair, permaneceu calado e indi- ferente. b) viciada pela perspectiva unilateral assumida pelo narrador. b) pensava inteiramente que ela dizia tudo aquilo movida mais pelo ciúme do que pela verdade. c) perturbada pela interferência de Capitu, que aca- ba por guiar narrador. c) dizia que Capitu era lindíssima, a mais bela criatu- ra do mundo. d) isenta de quaisquer formas de interferência, pois visa à verdade. d) limitava-se a concordar e apoiar dissimuladamen- te com gestos as palavras da outra. e) saindo de sua atitude inicialmente contida, mani- (Fuvest-SP) Texto para as questões 7 e 8. festava apoio às palavras de prima Justina por Capitu XXII Sensações alheias meio de diversas formas de expressão. "Não alcancei mais nada, e para o fim arrependi-me do pedido: devia ter seguido 0 conselho de Capitu. 8. 0 título "Sensações alheias", que se explica ao lon- Então, como eu quisesse para dentro, prima Jus- go do texto, deixa a impressão de que: tina reteve-me alguns minutos, falando do calor da a) há pessoas que têm no prazer dos outros des- próxima festa da Conceição, dos meus velhos ora- pertar das próprias emoções. tórios e finalmente de Capitu. Não disse mal dela; ao contrário, insinuou-me que podia vir a ser uma moça b) ciúme, funcionando como barreira, impede 0 de- bonita. Eu, que já a achava lindíssima, bradaria que sabrochar do prazer. era a mais bela criatura do mundo, se o receio me c) prima Justina, com ciúme de Capitu, procura en- não fizesse discreto. Entretanto, como prima Justina volver Bentinho. se metesse a elogiar-lhe os modos, a gravidade, os d) Bentinho somente vibra de emoções com as refe- costumes, o trabalhar para os seus, amor que tinha rências a Capitu. a minha mãe, tudo isto me acendeu a ponto de elo- também. Quanto não era com palavras, era e) prima Justina está escondendo sua paixão por Jo- sé Dias. com gesto de aprovação que dava a cada uma das asserções da outra, e certamente com a felicidade que devia iluminar-me a cara. Não adverti que assim 9. (UCSal-BA) "0 é que era coxa. Uns olhos tão lú- confirmava a denúncia de José Dias ouvida por ela, cidos, uma boca tão fresca, uma compostura tão à tarde, na sala de visitas, se é que também ela não senhoril; e coxa! Esse contraste faria suspeitar que a desconfiava já. Só pensei nisso na cama. Só então natureza é às vezes um imenso escárnio. Por que senti que os olhos de prima Justina, quando eu fala- bonita, se coxa? Por que coxa, se bonita? Tal era a va, pareciam apalpar-me, ouvir-me, cheirar-me, fazer pergunta que eu vinha fazendo a mim mesmo ao ofício de todos os sentidos. Ciúmes não podiam voltar para casa, de noite, sem atinar com a solução ser; entre um pirralho de minha idade e uma viúva do enigma." 159</p><p>Assinale a alternativa cujas propostas, preenchendo 11. (Fuvest-SP) Nesse trecho, Brás Cubas reflete sobre as lacunas da frase seguinte, completariam uma a história de Dona Plácida, reconhecendo a extrema análise adequada do texto apresentado inicialmente. dureza de sua vida. No contexto do livro, esse re- No excerto transcrito,o narrador, que é 0 protago- conhecimento revela que Brás Cubas, embora per- nista da história, questiona-se por que se sente divi- ceba com precisão 0 desemparo dos pobres, não faz dido: ele percebe 0 mundo de um modo mas mais que: aspiraria a que ele fosse organizado de acordo com a) procurar remediá-lo com soluções fantasiosas, os princípios como a invenção do emplasto, cuja finalidade era a) romântico/modernos a de eliminar as desigualdades sociais. b) realista/modernos b) declarar sua impotência para saná-lo, tendo em c) vista a extensão desse problema na sociedade brasileira do Segundo Reinado. d) moderno/realistas c) considerá-lo do ponto de vista de seus próprios e) romântico/realistas interesses, interpretando-o conforme lhe é mais conveniente. 10. (Cefet-MG) se tingirá de no romance e d) transformá-lo em recurso retórico, utilizado por no conto, sempre que fizer personagens e enredos ele nos discursos demagógicos que proferia na se submeterem ao destino cego das 'leis Câmara dos Deputados. que a ciência da época julgava ter codificado." e) interpretá-lo conforme a doutrina do Humanitis- No texto acima, preenchem-se as lacunas, respecti- mo, segundo a qual os sofrimentos dos indivíduos vamente, com: servem para purgar os pecados cometidos em a) Realismo/Naturalismo. vidas passadas. b) Romantismo/Naturalismo c) Realismo/Romantismo. 12. (Fuvest-SP) d) Romantismo/Realismo. "Uma flor, 0 Quincas Borba. Nunca em minha infân- e) cia, nunca em toda a minha vida, achei um menino mais gracioso, inventivo e travesso. Era a flor, e não Texto para a questão 11. já da escola, senão de toda a cidade. A mãe, viúva, com alguma cousa de seu, adorava 0 filho e trazia- "Assim, pois, o sacristão da Sé, um dia, ajudando à amimado, asseado, enfeitado, com um vistoso missa, viu entrar a dama, que devia ser sua colabo- radora na vida de Dona Plácida. Viu-a outros dias, pajem atrás, um pajem que nos deixava gazear a durante semanas inteiras, gostou, disse-lhe alguma escola, in caçar ninhos de pássaros, ou perseguir graça, pisou-lhe o pé, ao acender os altares, nos dias largatixas nos morros do Livramento e da Concei- de festa. Ela gostou dele, acercaram-se, amaram-se. ção, ou simplesmente arruar, à toa, como dous pe- Dessa conjunção de luxúrias vadias brotou Dona Plá- raltas sem emprego. E de imperador! Era um gosto cida. É de crer que Dona Plácida não falasse ainda ver Quincas Borba fazer de imperador nas festas quando nasceu, mas se falasse podia dizer aos auto- do Espírito Santo. De resto, nos nossos jogos pue- res de seus dias: Aqui estou. Para que me cha- ris, ele escolhia sempre um papel de rei, ministro, mastes? E sacristão e a naturalmente lhe general, uma supremacia, qualquer que fosse. responderiam: Chamamos-te para queimar os dedos Tinha garbo traquinas, e gravidade, certa magnifi- nos tachos, os olhos na costura, comer mal, ou não cência nas atitudes, nos meneios. Quem diria que... mer, andar de um lado para outro, na faina, adoecendo Suspendamos a pena; não adiantemos os sucessos. e sarando, com 0 fim de tornar a adoecer e sarar outra Vamos de um salto a 1822, data da nossa indepen- vez, triste agora, logo desesperada, amanhã resignada, dência política, e do meu primeiro cativeiro pessoal." mas sempre com as mãos no tacho e os olhos na cos- (Machado de Assis, Memórias póstumas de Brás Cubas) tura, até acabar um dia na lama ou no hospital; foi para isso que te chamamos, num momento de simpatia." (Machado de Assis, Memórias póstumas de Brás Cubas) 160</p><p>A busca de "uma supremacia, qualquer que fosse", b) A linguagem rebuscada, de tal modo ambígua, que neste trecho caracteriza comportamento de que quase prejudica a compreensão do sentido. Quincas Borba, tem como equivalente, na trajetória c) Um pessimismo irônico, disfarçado sob a aparên- de Brás Cubas: cia de conformidade indiferente. a) o projeto de tornar-se um grande dramaturgo. d) 0 gosto pela frase lapidar, carregada de expres- b) a idéia fixa da invenção do emplasto. sões inusitadas. c) a elaboração da filosofia do Humanitismo. e) A capacidade de sintetizar, em apenas um pará- d) a ambição de obter o título de marquês. grafo, todo 0 enredo do romance. e) a obsessão de conquistar Eugênia. 15. (USF-SP) Machado de Assis, na sua obra de ficção narrativa: As questões 13 e 14 referem-se ao texto a seguir. a) começou romântico e como tal se manteve na "Este último capítulo é todo de negativas. Não alcan- idealização com que descreve as personagens de cei a celebridade do emplasto, não fui ministro, não suas obras. fui califa, não conheci 0 casamento. Verdade é que, b) condenou Romantismo e introduziu no Brasil 0 ao lado dessas faltas, coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com do meu rosto. Mais; Realismo, que só trocou pelo não padeci a morte de Plácida, nem a semide- c) investigou com profundidade homem universal, mência do Quincas Somadas umas coisas e nas personagens cotidianas, indo além da crítica outras, qualquer pessoa imaginaria que não houve à sociedade. nem sobra, e conseguintemente que d) centrou suas críticas na sociedade de sua época; quite com a vida. E imaginará mal; porque ao chegar por isso está hoje ultrapassado: homem moder- a este outro lado do mistério, achei-me com um pe- no não pode ver-se em suas personagens. queno saldo, que é a derradeira negativa deste capí- tulo de negativas: Não tive filhos, não transmiti a e) norteou-se pelos princípios do Naturalismo, res- nehuma criatura legado da nossa miséria." saltando sempre os fatores biológicos do compor- tamento 13. (FUVEST-SP) Trata-se do trecho final de Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. Le- vando isso em consideração, examine a expressão "ao chegar a este outro lado do mistério". Com ela, 0 narrador: a) refere-se ao mistério da semidemência de Quin- cas Borba, cuja causa nunca pôde b) alude ao fato de não ter conseguido tornar-se mi- nistro, embora tivesse condições para tanto. c) alude ao próprio passado, pois só agora percebe como a sua vida foi inútil e negativa. d) refere-se ao mistério da morte, pelo qual ele já passou. e) refere-se ao mistério do casamento e da pater- nidade, que ele não conheceu. 14. (FUVEST-SP) 0 texto evidencia, com clareza, pelo menos uma das características principais de Ma- chado de Assis: a) 0 pessimismo ingênuo dos escritores realistas e naturalistas do século XIX. 161</p><p>Respostas dos testes 1. c. 2. d. 10. a. 3. 11. 4. b. 12. b. 5. e. 13. d. 6. b. 14. 7. e. 15. 8. a 162</p><p>Tudo 0 que voce precisa saber sobre Literatura Brasileira em 14 volumes de forma clara e sem segredos LITERATURA LITERATURA LITERATURA LITERATURA LITERATURA sem segredos sem segredos sem segredos sem segredos sem segredos Barroco 2 Romantismo 3 Romantismo Realismo 5 Machado de LITERATURA LITERATURA LITERATURA LITERATURA LITERATURA sem segredos sem segredos sem segredos sem segredos sem segredos Realismo 6 8 Vanguardas Modernismo 10 e Semana de Arte Moderna LITERATURA LITERATURA LITERATURA LITERATURA sem segredos sem segredos sem segredos sem segredos Modernismo Modernismo 12 Modernismo 13 As gerações de 80 14 1930 de prosa escala educacional 9788576668497</p>

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