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SOCIOLOGIA COM VIVIANE CATOLÉ 1 2 SOCIOLOGIA COM VIVIANE CATOLÉ SIMONE DE BEAUVOIR: A CONSTRUÇÃO DO SER SOCIAL “Nunca se esqueça que basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados. Esses direitos não são permanentes. Você terá que manter-se vigilante durante toda a sua vida” Simone de Beauvoir Onde está a raiz da desigualdade entre homens e mulheres? O radical ponto de partida de ‘O Segundo Sexo’ continua válido 70 anos depois de seu surgimento. Filósofa, ativista, feminista, autora de ficção e não ficção, Simone de Beauvoir (Simone Lucie Ernestine Marie Bertrand de Beauvoir) nasceu em Paris, França, em 9 de janeiro de 1908 e faleceu na mesma cidade em 14 de abril de 1986, aos 78 anos. Suas principais influências filosóficas foram: Hegel, Husserl, Heidegger, Marx, Descartes e Bergson. Os principais interlocutores contemporâneos de Beauvoir foram os filósofos Maurice Merleau- Ponty e Jean-Paul Sartre. Os três intelectuais se conheceram quando eram estudantes de Filosofia nos anos 1920. Simone de Beauvoir escreveu muitos romances, contos, ensaios, biografias, autobiografia e monografias sobre filosofia, política e questões sociais. É conhecida pelo seu tratado O Segundo Sexo de 1949, além de seus romances A Convidada e Os Mandarins. “Querer ser livre é também querer livres os outros” A liberdade sempre foi uma das maiores preocupações de Simone de Beauvoir, que abordou o tema em livros como Por uma Moral da Ambiguidade. A frase descreve também o relacionamento com Sartre, que durou 50 anos. Os dois tinham uma relação aberta dentro da proposta de “pacto de liberdade”, para não se amarrarem um ao outro. Em A Cerimônia do Adeus, a filósofa fala sobre a relação e sobre o luto após a morte do companheiro. “Viver é envelhecer, nada mais” A velhice era outro tema recorrente nos textos de Simone de Beauvoir. Em 1970, aos 60 anos, publicou A Velhice, no qual tratou do assunto como algo não apenas biológico, mas cultural. No livro, ela questiona a desumanização da velhice e a sexualidade tolida das idosas. “Ninguém nasce mulher: torna-se mulher” É a frase mais clássica de Beauvoir, retirada do livro O Segundo Sexo, de 1949, que se tornou uma obra basilar para a compreensão dos mecanismos de opressão empreendidos pela sociedade patriarcal. Estudando o patriarcado, com o intuito de derrubar as suas estruturas mentais e sociais, a autora também desmontava estereótipos acerca do que significava, afinal, ser mulher. SOCIOLOGIA COM VIVIANE CATOLÉ 3 Dividido em dois volumes, O Segundo Sexo foi um importante tratado feminista, publicado por Simone de Beauvoir em 1949. No livro, a autora define "patriarcado", expondo de que modos o sistema machista reproduz a opressão das mulheres. Entre estes mecanismos, a autora destaca o casamento e a maternidade, encarados como verdadeiras prisões impostas ao sexo feminino. Por tudo isto, Simone de Beauvoir se tornou uma referência fundamental nos estudos de gênero, deixando um enorme legado para a libertação, o reconhecimento e o empoderamento das mulheres. A autora destrói a falácia biológica, demonstrando que ninguém nasce, por exemplo, com predisposição para cumprir tarefas domésticas. Pelo contrário, essas noções associadas ao gênero partem de ficções e construções sociais de um sistema de dominação masculina. Outro aspecto crucial do texto foi o fato de defender que os temas da esfera privada (relacionamentos íntimos e familiares, por exemplo) também eram questões políticas importantes que precisavam ser debatidas, ou seja, "o privado é público". Em outras palavras, ela defende a distinção entre sexo e gênero. O primeiro é um fator biológico, ligado à constituição físico-química do corpo humano. Já o segundo é construído pela sociedade, ou seja, ser homem ou ser mulher não é um dado natural, mas algo performático e social — ao longo da história, cada cultura criou os padrões de ação e comportamento de determinado gênero. Entre várias reflexões sobre a sociedade e o gênero (que exploraremos mais adiante), Beauvoir chamou a atenção para o modo como o mundo era observado e explicado através do olhar masculino, colocando a mulher sempre numa posição de alteridade (vista como "outro"): “A humanidade é masculina, e o homem define a mulher não em si, mas relativamente a ele; ela não é considerada um ser autônomo.” https://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,mae-filha- e-boneca-retrato-da-perda-de-direitos-das-mulheres-viraliza- apos-taleban-tomar-o-poder,70003813741 “O opressor não seria tão forte se não tivesse cúmplices entre os próprios oprimidos” Ainda em O Segundo Sexo, Beauvoir escreve sobre a hierarquia social do gênero masculino e a cumplicidade feminina com sua própria opressão. O estudo serviu como pontapé para diversas vertentes feministas se debruçarem sobre a questão e buscarem formas de resolver as desigualdades entre os gêneros. Nesta passagem, Simone de Beauvoir fala de um tema bastante complexo: a forma como podemos contribuir para a própria opressão. Por serem condicionadas e manipuladas pelas normas patriarcais, algumas mulheres acabam reproduzindo estereótipos e discursos machistas. Isso reforça a opressão do sexo feminino; daí ser tão importante o conceito de sororidade, a união e colaboração entre as mulheres. “O mais escandaloso dos escândalos é que nos habituamos a eles” Em Memórias de Uma Moça Bem-Comportada, obra autobiográfica e existencialista de 1958, Beauvoir critica a opressão moral e religiosa das mulheres de sua geração. Na visão da filósofa, tais imposições sociais e o peso do conservadorismo são capazes de matar as mulheres. 4 SOCIOLOGIA COM VIVIANE CATOLÉ SOCIOLOGIA COM VIVIANE CATOLÉ 5 EXERCÍCIOS 1. Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam o feminino. BEAUVOIR, S. O segundo sexo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980 Na década de 1960, a proposição de Simone de Beauvoir contribuiu para estruturar um movimento social que teve como marca o(a) a) .ação do Poder Judiciário para criminalizar a violência sexual. b) .estabelecimento de políticas governamentais para promover ações afirmativas. c) .organização de protestos púbicos para garantir a igualdade de gênero. d) .oposição de grupos religiosos para impedir os casamento homoafetivos. e) .pressão do Poder Legislativo para impedir a dupla jornada de trabalho. 2. “Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam o feminino.” Essa é uma frase de Simone de Beauvoir. Marque qual das afirmações abaixo é uma consequência lógica de seu pensamento sobre a mulher: a) .uma das consequências de dizer que a mulher “não nasce mulher” é romper com a ideia de que a mulher tem um papel predefinido a ocupar na sociedade, para o qual ela nasceu. b) .ninguém nasce mulher, portanto todos e todas nascem homens e só depois de um tempo é que vão assumindo papéis de mulheres. c) .se nenhum destino biológico, psíquico e econômico definem o que é ser mulher, então a mulher deve seguir aquilo que deseja seu marido. d) ninguém nasce mulher, portanto as crianças nascem assexuadas pensava Beauvoir. 3. A mulher tem progesterona; estrogênio. A questão é afirmar que a produção desses hormônios definem e determinam o comportamento da mulher. Ou, em relação ao homem, dizer: a testosterona faz com que o homem seja mais aguerrido, um líder. Logo, uma mulher pode pensar: “eu não tenho testosterona, então não faz parte da minha natureza ser líder”. Comparando o pensamento deBeauvoir ao expresso na frase anterior, marque qual das afirmações abaixo está correta: a) .O pensamento de Beauvoir e o expresso acima não tem qualquer relação. b) .Beauvoir concordaria com o autor ao reconhecer que a biologia humana define os papéis que a mulher poderá assumir na sociedade. c) .Beauvoir diria que a mulher e os papéis que irá assumir na sociedade não são determinados por sua biologia. d) .Beauvoir não poderia aceitar as ideias relatadas acima caso não quisesse mudar de ideia. 4. Até os doze anos a menina é tão robusta quanto os irmãos e manifesta as mesmas capacidades intelectuais; não há terreno em que lhe seja proibido rivalizar com eles. Se, bem antes da puberdade e, às vezes, mesmo desde a primeira infância, ela já se apresenta como sexualmente especificada, não é porque misteriosos instintos a destinem imediatamente à passividade, ao coquetismo, à maternidade: é porque a intervenção de outrem na vida da criança é quase original e desde seus primeiros anos sua vocação lhe é imperiosamente insuflada. (BEAUVOIR, Simone. O segundo sexo (Vol. 2). Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980, p. 9-10.) Os estudos de Simone de Beauvoir (1908-1986) contribuíram incontestavelmente para os debates acerca da situação da mulher e a luta para a igualdade de gênero. A partir do trecho acima, assinale a opção que melhor demonstra o problema apresentado pela filósofa. a) .Beauvoir discute a consolidação da posição social da mulher, pois, biológica e psiquicamente suas distinções se apresentam de forma clara para um tratamento diferenciado em relação aos homens. c) Beauvoir afirma a distinção entre os sexos e inaugura o pensamento de uma feminilidade que faz parte da condição humana da mulher. A natureza feminina é que compõe seu ser enquanto mulher. d) A ideia de que “ninguém nasce mulher: torna-se mulher” representa o ápice da filosofia feminista presente em O segundo sexo, afirmando que, por 6 SOCIOLOGIA COM VIVIANE CATOLÉ natureza, qualquer um pode-se tornar mulher socialmente. e) Não há, para Beauvoir, qualidades, valores, modos de vida especificamente femininos. Esse é um mito inventado pelos homens para prender as mulheres na sua condição de oprimidas. 5. TEXTO I “Há um princípio bom que criou a ordem, a luz e o homem, e um princípio mau que criou o caos, as trevas e a mulher.” Essa frase foi escrita por Pitágoras (570 – 495 a.C), o mesmo criador do Teorema de Pitágoras. TEXTO II “Não se nasce mulher, torna-se mulher.” Essa segunda frase foi escrita por Simone de Beauvoir (1908 – 1986). Comparando a citação de Pitágoras e de Beauvoir, é correto afirmar que: a) Ambos concordam que homem e mulher possuem uma essência. A diferença é que para Pitágoras, a essência da mulher era diferente da do homem, já Beauvoir pensava que ambos tinham a mesma essência. b) Eles discordam: Pitágoras acreditava que os seres humanos tinham uma essência definida, enquanto Beauvoir dá a entender que não existe essa essência. c) Ambos pensam a mulher como um ser essencialmente igual ao homem. d) Ambos estão repetindo aquilo que a sociedade do seu tempo pensava sobre a mulher. 6. TEXTO I É preciso, inicialmente, reunir as pessoas que não podem passar umas sem as outras, como o macho e a fêmea para a geração. Essa maneira de se perpetuar não é arbitrária e não pode, na espécie humana, assim como entre os animais e as plantas, efetuar-se senão naturalmente. É para a mútua conservação que a natureza deu a um o comando e impôs a submissão ao outro. ARISTÓTELES. A Política. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. TEXTO II Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam o feminino. BEAUVOIR, S. O segundo sexo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. Comparando os dois texto, é correto afirma que a) Beauvoir, como Aristóteles, partia da biologia para entender que papéis a mulher deveria desempenhar. b) Beauvoir discorda de Aristóteles ao defender que a natureza não determina o que deverá ser a mulher. c) Beauvoir concorda com Aristóteles quando ele afirma que a natureza deu ao homem o comando e a submissão à mulher. d) Aristóteles defendia a importância de fatores culturais na definição de papéis de gênero, da mesma forma que Beauvoir. 7. O que é ser mulher? Filósofa francesa, existencialista e feminista, Simone de Beauvoir escreveu O segundo Sexo em 1949 a fim de investigar respostas populares para essa questão. No livro, Beauvoir argumenta que a mulher não nasce com uma essência definida, ela se torna o que é a partir de sua educação e de suas escolhas. Ela não é por natureza incapaz de cuidar de assuntos políticos ou se dedicar a atividades fora de casa, por exemplo. Ao contrário pode fazer isso desde que não seja tolhida pela educação. No entanto, ainda hoje persistem ideias de que mulheres possuem uma essência ou natureza definida, expressas em várias afirmações cotidianas. Assinale a alternativa que seja compatível com o raciocínio de Beauvoir. a) Ao incentivarmos meninos pequenos a brincar de carrinho e de luta, e meninas a brincar de boneca e de cozinha, estamos educando para comportamentos diferentes na vida adulta. b) As mulheres são o sexo frágil e por isso precisam ser protegidas pelos homens. Homens são mais fortes física e emocionalmente. c) Cuidar dos filhos é tarefa primordial das mulheres. Elas ficam grávidas, os homens não. d) As mulheres são mais aptas ao contato humano, ao cuidado interpessoal. Por isso vemos tantas enfermeiras mulheres, e não homens. 8. “O Segundo Sexo” é um clássico publicado por Simone de Beauvoir em 1949. É uma obra seminal que estabeleceu de imediato uma discussão sobre a condição feminina e o(s) feminismo(s). No livro, a autora afirma que: SOCIOLOGIA COM VIVIANE CATOLÉ 7 “Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam o feminino.” Apesar das várias polêmicas suscitadas, tem servido de referência para a maior parte dos ensaios, debates e discussões posteriores. São dois livros sobre a situação da mulher e o seu papel na sociedade. Com base no recorte do texto de Simone de Beauvoir, assinale a alternativa CORRETA: a) O texto de Simone de Beauvoir é uma afirmação determinista sobre o processo de formação da mulher, que se torna plena apenas quando atinge a maturidade. b) Segundo a perspectiva de Beauvoir, uma menina não nasce mulher, mas se torna mulher apenas quando cumprir com a perspectiva tradicional que a sociedade lhe exige. c) Numa perspectiva histórica e apoiando-se sobre experiências vividas, Simone de Beauvoir mostra o conceito de feminilidade como uma construção cultural em um mundo dominado pelos homens. d) Simone de Beauvoir despreza a experiência histórica quando afirma que a mulher se torna plena apenas quando cumpre com seu papel social de mãe e mantenedora dos valores da família. e) Segundo Beauvoir, é impossível uma igualdade total entre os homens e mulheres, já que historicamente os homens conquistaram maiores espaços de poder 9. APÓS 70 ANOS, SIMONE DE BEAUVOIR AINDA MOSTRA CAMINHO DA LIBERDADE FEMININA “Ninguém nasce mulher: torna-se mulher”. A célebre frase que abre o segundo volume de O segundo sexo, de 1949, sintetiza as teses apresentadas por Simone de Beauvoir nas mais de 900 páginas de um estudo fascinante sobre a condição feminina. Beauvoir admite que as diferenças biológicas desempenham algum papel na construção da inferioridade feminina, mas defende que a importância social dada a essas diferenças é muito mais determinante para a opressão. Ser mulher não é nascer com determinado sexo, mas, principalmente,ser classificada de uma forma negativa pela sociedade. É ser educada, desde o nascimento, a ser frágil, passiva, dependente, apagada, delicada, discreta, submissa e invisível. MIRIAN GOLDENBERG, Adaptado de www1.folha.uol.com.br, 10/03/2019. As reflexões de Simone de Beauvoir na obra O segundo sexo continuam presentes nos debates atuais referentes ao feminismo e às condições de vida das mulheres, em diversas sociedades. De acordo com o texto de Mirian Goldenberg, a abordagem realizada por Simone de Beauvoir valoriza princípios do seguinte tipo: a) étnico-raciais b) político-religiosos c) histórico-culturais d) econômico-científicos GABARITO 1.[C] 2.[A] 3.[C] 4.[D] 5.[B] 6.[B] 7.[A] 8.[C] 9.[C] Anotações: