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Composição paisagística Apresentação O paisagismo trata da relação entre o ambiente construído e as áreas abertas, por meio do uso da vegetação, dos elementos construtivos e de revestimentos. Esse trabalho faz com que as áreas abertas tenham tanto conforto e qualidade quanto os espaços internos. Ao longo da história, essas relações foram se transformando, tanto em relação aos estilos quanto em modos de produzi-la. Nesta Unidade de Aprendizagem, você irá conhecer alguns estilos de jardins e como eles se modificaram ao longo da história. Irá aprender também a diferenciar algumas das principais categorias de jardins. Finalmente, irá entender como os estilos históricos foram ressignificados no paisagismo contemporâneo. Bons estudos. Ao final desta Unidade de Aprendizagem, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Categorizar estilos de jardins.• Descrever aspectos compositivos de diferentes jardins.• Relacionar exemplos contemporâneos de jardins.• Desafio O paisagismo é um serviço muito contratado para estabelecimentos de serviço, onde é desejável uma experiência memorável para o cliente e que seja o cenário de momentos felizes. Você é arquiteto e especialista em paisagismo e composição de jardins. Um de seus clientes é a empresa Luxo Natural, uma grande rede de hotéis e proprietária de diversos empreendimentos localizados em grandes metrópoles, dos quais você foi responsável pelo paisagismo dos jardins internos e externos. Você apresentará o estudo preliminar do paisagismo de todo o complexo. Nesse estudo, você precisa: a) explicar qual a base do seu paisagismo, isto é, qual o tipo de jardim será usado como referência, justificando sua escolha; b) apresentar um breve programa de necessidades que contemple os usos e a relação com o tipo de jardim que você usará como inspiração. Infográfico O paisagismo está presente em vários equipamentos da vida humana, entre eles os parques. É preciso ter consciência de que o projeto de paisagismo vai muito além da escolha de espécies vegetais. O paisagismo engloba, assim como o projeto arquitetônico, etapas como o programa de necessidades, no qual são definidos os usos que o espaço aberto terá. Neste Infográfico, conheça alguns itens muito comuns no programa de necessidades de um parque contemporâneo, que deve ser projetado considerando a adequação formal e a materialidade. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://statics-marketplace.plataforma.grupoa.education/sagah/4b8abf3d-e19c-4a07-81c5-9017ca5e3259/d6869f29-e014-4e82-b8cb-2040dfff2e08.jpg Conteúdo do livro Ao longo dos séculos, a relação das pessoas com os jardins se transformou consideravelmente. Se na Antiguidade os espaços abertos eram extensões de templos, servindo como parte das cerimônias religiosas, na Renascença os jardins dos palácios serviam para demonstrar a riqueza e a opulência das cortes. Atualmente, o paisagismo tem função de abrigar um pouco da natureza para uma população cada vez mais urbanizada. No capítulo Composição paisagística, da obra Projetos de paisagismo e de construções rurais, base teórica desta Unidade de Aprendizagem, conheça os principais estilos de jardins ao longo da história e quais suas relações com os locais onde estão inseridos. Estude suas características, para conseguir demonstrar os desdobramentos de cada uma das categorias para o paisagismo contemporâneo. Boa leitura. PROJETOS DE PAISAGISMO E DE CONSTRUÇÕES RURAIS Anna Carolina Manfroi Galinatti Composição paisagística Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Categorizar estilos de jardins. Descrever aspectos compositivos de diferentes jardins. Relacionar exemplos contemporâneos de jardins. Introdução O paisagismo estuda a relação entre a natureza e o ambiente construído, sendo responsável pelas áreas abertas de uma construção, sejam essas tomadas por vegetação ou não. Ao longo da história, os jardins foram se modificando em consonância com as tendências arquitetônicas e culturais, em uma evolução constante. Neste capítulo, apresentaremos alguns estilos clássicos de jardins, passando pelos franceses, ingleses e italianos, e as principais diferenças e semelhanças entre eles. Após conhecer os estilos históricos, explicaremos como esses jardins evoluíram para chegarmos ao paisagismo contem- porâneo, mais livre e preocupado com o meio ambiente. 1 Os estilos de jardins Desde que a humanidade passou a apresentar comportamento sedentário, ou seja, fi xou residência em uma região específi ca e abandonou os hábitos dos povos caçadores-coletores, caracterizadas pela busca constante por condições ambientais favoráveis, as pessoas passaram a domesticar a na- tureza ao seu redor, inicialmente para o cultivo de alimentos e, depois, com o tempo ganho pelo aumento da efi ciência na alimentação, passaram a cultivar jardins ornamentais. Segundo Harari (2015), após 9500 a.C., os descendentes dos natufi anos continuaram a coletar e processar cereais, mas também começaram a cultivá-los de formas cada vez mais elaboradas. Assim, à medida que dedicavam mais esforços ao cultivo de cereais, havia menos tempo para coletar e caçar espécies silvestres, de forma que se tornaram agricultores (HARARI, 2015). Existem registros de um grande jardim realizado na Mesopotâmia no século VI a.C., os conhecidos jardins da Babilônia, construídos por Nabucodonosor, que reinou entre 604 e 562 a.C. Esses jardins eram localizados cerca de 18 metros acima do leito do rio Eufrates, contando com um sistema de bom- beamento de água para sua irrigação. Veja, na Figura 1, uma ilustração da planta do Palácio de Verão da Babilônia, em que se pode notar a importância proporcional dos pátios nos espaços. Figura 1. Palácio de Verão, Babilônia. Fonte: Ching, Jarzombek e Prakash (2019, p. 116). Nas construções da Roma Antiga, por volta do século I, já é possível identificar uma linguagem paisagística predominante, com casas organizadas em volta de jardins com colunatas e esculturas, conferindo uma importância ainda inédita aos espaços abertos das cidades, resultado claro da urbanização Composição paisagística2 e prosperidade daquela sociedade. Ching, Jarzombek e Prakash (2019, p. 162) descrevem esses espaços da seguinte forma: Jardins cercados de colunatas, inspirados na arquitetura egípcia, foram acres- centados no fundo das moradias. Instalavam-se êxedras, bibliotecas, fontes, salas de jantar de verão (algumas no segundo pavimento, para terem belas vistas) e até casas de banho particulares. A organização das casas romanas ao redor de pátios é uma das principais características da arquitetura doméstica desse período. As casas-pátio, como ficaram conhecidas, tinham ocupação total do perímetro do terreno, deixando espaços abertos no centro, por onde entrava a luminosidade, em um tipo cons- trutivo bastante adaptado ao clima da região. Veja na Figura 2, um esquema desse tipo de construção. Figura 2. Casa típica romana do século I. Fonte: Ching, Jarzombek e Prakash (2019, p. 126). Foi nos edifícios públicos, como era de se esperar, que um paisagismo mais elaborado, com elementos compositivos marcantes, desenvolveu-se. Seguindo o esquema doméstico de pátios cercados por colunas, os jardins dos palácios romanos tinham composição geométrica bastante rigorosa, com eixos de simetria, espelhos d'água e elementos construídos. Veja, na Figura 3, como a área dedicada aos jardins no Palácio de Domiciano é consideravelmente maior do que a área construída. 3Composição paisagística Figura 3. Planta do Palácio Domiciano, Monte Palatino. Fonte: Ching, Jarzombek e Prakash (2019, p. 173). Durante a Idade Média, a importância relativa dos jardins diminuiu no Ocidente, sendo resgatada no Renascimento com a revalorização da arqui- tetura clássica. Durante esse período, os jardins romanos foram estudados e reproduzidos ao redor da Europa,combinando elementos arquitetônicos e vegetação em composições rigorosas. Foi durante o século XVII que os jardins europeus iniciaram sua separação em três vertentes principais: 1. os italianos, descendentes diretos dos clássicos romanos; 2. os franceses, com desenho rigorosamente geométrico e vastas extensões; 3. os ingleses, de característica romântica, que tentavam recriar uma paisagem com aspecto natural. Composição paisagística4 O exemplo mais conhecido de jardim francês é o Palácio de Versalhes, cujo paisagismo ficou a cargo de Andre Le Nôtre. Seu trabalho no jardim e nas fontes iniciou em 1661 (CHING; JARZOMBEK; PRAKASH, 2019), complementando a composição do grande palácio encomendado pelo rei Henrique IV e projetado por Louis Le Vau e Jules Hardouin-Mansart. Na Figura 4, veja uma planta do Palácio e note a rigorosa composição dos espaços abertos, que inicia já nas avenidas que levam à construção. Figura 4. Planta de Versalhes. Fonte: Ching, Jarzombek e Prakash (2019, p. 576). Na Inglaterra, credita-se ao Sir William Temple, um aristocrata britânico do século XVII, a criação do jardim pitoresco britânico, no qual os eixos axiais são substituídos por movimentos irregulares, construções temáticas e cenários cuida- dosamente parecidos com paisagens naturais, sempre em busca de efeitos visuais marcantes. Para Ching, Jarzombek e Prakash (2019, p. 585, acréscimo nosso): [Temple], ao escrever sobre os jardins de Epicuro em 1685, exaltou aquilo que chamou de o conceito chinês de sharawadgi, ou seja, o cenário paisagístico irre- gular cuidadosamente arranjado, ao criticar as simetrias axiais e as ordens formais cuidadosamente podadas que caracterizavam os jardins europeus da época. 5Composição paisagística Observe, na Figura 5, como o jardim inglês é marcado pela irregularidade, contrastando com os exemplos franceses do mesmo período. Figura 5. Planta dos Jardins Stowe. Fonte: Ching, Jarzombek e Prakash (2019, p. 585). Agora que você já conhece os principais jardins pré-modernos, vamos analisar em detalhes os jardins franceses e ingleses, e como esses se transfor- maram e deram as bases para os jardins modernos e contemporâneos. 2 Aspectos compositivos de diferentes jardins Você já sabe que os jardins estiveram presentes no cotidiano das popula- ções desde que a agricultura levou à sedentarização dos povos e à criação de espaços urbanizados. Ao longos dos séculos, o paisagismo evoluiu paralelamente às ideias arquitetônicas, levando ao surgimento de estilos de jardins que se diferenciam entre si por sua composição, suas dimensões e seus elementos. Composição paisagística6 Como vimos anteriormente, a partir do século XVII, é possível diferenciar alguns diferentes estilos de jardins produzidos pela aristocracia europeia. Para Tim Waterman (2011), o paisagismo renascentista atingiu seu esplendor máximo na Itália e na França, mas, como você já sabe, os jardins ingleses também tiveram uma influência que até hoje é notada. A seguir, vamos explorar as características dos jardins italianos, franceses e ingleses. Jardins italianos O paisagismo italiano produzido entre o Renascimento e a Modernidade é caracterizado pelo uso da água e da geometria rigorosa, tomando partido da topografi a marcante de regiões no entorno de Roma e Florença para criar uma série de terraços, o que permite que a água possa ser animada com chafarizes a cada patamar, um recurso que foi muito utilizado nesses espaços. O transporte de água é uma das características mais marcantes desse tipo de paisagismo. Um exemplo bastante conhecido são os jardins da Villa d'Este, em Tivoli, uma região próxima à Roma. Esse conjunto foi construído entre os séculos XVI e XVII, e conta com um sistema hidráulico bastante complexo, inspirado nas soluções da engenharia romana. Uma das peças mais conhecidas desse complexo é o Órgão de Água, um sistema de chafarizes em diferentes níveis de uma complexidade até então desconhecida. Veja, na Figura 6, uma foto atual desse sistema, que ainda está em operação. Figura 6. Órgão de Água, Villa D'este. Fonte: MarinaD_37/Shutterstock.com. 7Composição paisagística Jardins franceses Na França, o paisagismo esteve bastante ligado à aristocracia absolutista, que construiu seus palácios barrocos por volta do século XVII. Para Waterman (2011), os jardins de Vaux-le-Vicomte e do Palácio de Versalhes, ambos pro- jetados pelo paisagista André Le Nôtre, são os dois exemplos mais paradig- máticos desse período: “As relações entre solo, água, céu e geometria eram minuciosamente estudadas, projetadas e usadas para criar enormes jardins de lazer. O contraste entre a busca intelectual e a vida frívola é muitas vezes evidente” (WATERMAN, 2011, p. 32). Le Nôtre é uma figura importantíssima para o paisagismo. Suas criações foram, em grande parte, responsáveis pela diferenciação do paisagismo fran- cês barroco. O paisagista era herdeiro de uma família de jardineiros, cujo conhecimento sobre técnicas e métodos de cultivo e composição de jardins foi passado de geração em geração. Suas habilidades lhe renderam o título de paisagista oficial do Rei Luís XIV, mas sua primeira criação importante foram os jardins do Castelo Vaux-le-Vicomte, propriedade de Nicolas Fouquet, o responsável pelas finanças da corte do Rei Sol. Na Figura 7, você pode ver uma imagem desse jardim. Figura 7. Jardins de Vaux-le-Vicomte, por André Le Nôtre. Fonte: Francois BOIZOT/Shutterstock.com. Composição paisagística8 Observe, na Figura 7, como o jardim se expande horizontalmente em grandes canteiros desenhados com bastante detalhe, com a presença de água em superfícies estáticas, contrastando com a dinâmica dos chafarizes dos jardins italianos. A exuberância dos jardins de Vaux-le-Vicomte foi tanta que levantou suspeitas sobre a idoneidade de Fouquet, que acabou preso pelo Rei após se comprovar que os recursos para construção de tamanha opulência vinham de meios pouco nobres. Jardins ingleses Mesmo se considerarmos que a Itália e a França foram os maiores expoentes do paisagismo após o Renascimento, é inegável a importância dos jardins ingleses produzidos a partir daquele período. Inicialmente, a forte infl uência francesa levou à construção de jardins geométricos, como o Hampton Court e o projeto de reconstrução de Londres após o incêndio de 1666, cujo projeto barroco clássico desenvolvido por Sir Christopher Wren acabou nunca sendo executado. No século XVIII, um crescimento no interesse da aristocracia britânica pela vida rural e pela natureza, incluindo elementos da paisagem natural inglesa, como as montanhas e matas, levaram à criação de jardins “[...] compostos por imagens elaboradas, colinas gramadas, lagos artificiais e arranjos de árvores” (WATERMAN, 2011, p. 34), em composições que buscavam uma imagem mais espontânea do que os exemplos franceses e italianos. O personagem mais conhecido do paisagismo inglês do século XVIII foi Lancelot Brown, conhecido como Capability Brown. A Brown, junto com William Kent e Charles Bridgeman, credita-se a criação do estilo inglês de paisagismo, “[...] característico por sua informalidade, criando um contexto pastoral e pitoresco” (WATERMAN, 2011, p. 34). Uma de suas criações mais importantes são os jardins do Palácio de Blenheim, onde a casa é inserida em um contexto pastoral, com um lago cercado de colinas gramadas. Veja, na Figura 8, uma imagem desse jardim. 9Composição paisagística Figura 8. Blenheim Palace, por Lancelot Brown. Fonte: Invisible Edit/Shutterstock.com. Os jardins ingleses são considerados revolucionários por alguns autores, rompendo com a tradição europeia de um paisagismo rigorosamente geométrico. Para Waterman (2011), a influência inglesa ainda é sentida no paisagismo contemporâneo, uma vez que esse estilo formou a base da arquitetura paisagística moderna. A seguir, você verá como os estilos vistos nesta seção evoluíram ao longo do século XX. 3 Jardins contemporâneos A RevoluçãoIndustrial, iniciada na Inglaterra no fi m do século XVIII, levou a uma concentração até então inédita da população em centros urbanos, criando a necessidade de soluções de higiene e bem-estar, como parques e praças dentro da malha urbana. Durante esse período, os jardins públicos Composição paisagística10 ganharam bastante importância, estabelecendo-se como um dos principais espaços paisagísticos. Durante o século XIX, as teorias neoclássicas defendidas pela Escola de Belas Artes francesa se espalharam pelo mundo, influenciando a construção de edifícios e jardins marcados pela tradição francesa. No entanto, a partir do século XX, as vanguardas modernas tomaram os ensinamentos dessa escola e criaram um estilo arquitetônico. A ideia acadêmica de composição como ordenação de partes como elementos de uma sintaxe para formar um todo foi diretamente herdada pelas vanguardas do século XX (COLQUHOUN, 1991). Colquhoun (1991) defende que a importância da composição, nos dois casos, deve-se à mesma causa: a ausência de qualquer regra de estilo culturalmente imposta. Mesmo utilizando procedimentos herdados da escola de Belas Artes, os modernistas negavam a ornamentação, valorizando a composição volumétrica como atributo estético buscado. Para Waterman (2011, p. 42), os jardins modernistas tinham o mesmo objetivo da arquitetura moderna: “[...] a busca da pureza de forma e função”, levando alguns profissionais a buscar espécies vegetais menos “ornamentais” e mais “arquitetônicas”. Na Figura 9, veja o jardim Donnell, de Thomas Church, projetado em 1948 na Califórnia: um típico exemplo do jardim californiano do meio do século. Figura 9. Jardim Donnell, por Thomas Church. Fonte: Waterman (2011, p. 43). 11Composição paisagística No Brasil, a arquitetura moderna apareceu pela primeira vez na década de 1920, com a casa projetada por Gregori Warchavchik em São Paulo. No entanto, Carlos Eduardo Dias Comas (2010) reconhece o projeto do Ministério da Educação e Saúde, de 1936, como o marco inaugural da arquitetura erudita. Esse projeto foi realizado por uma equipe comandada por Lúcio Costa, sob orientação de Le Corbusier, que foi trazido da França como consultor. Um dos destaques desse projeto são os jardins, projetados por Roberto Burle Marx, que preenchem a praça e os terraços-jardim do edifício com formas curvas e vegetação tropical frondosa, contrastando com as linhas da arquitetura e sedimentando a imagem de um modernismo brasileiro. Veja, na Figura 10, uma foto dessa relação. Figura 10. Jardim do Ministério da Educação. Fonte: Fracalossi (2013, documento on-line). Burle Marx manteve sua relevância durante todo o século XX, sendo responsável pelos mais importantes projetos paisagísticos do século passado, como o Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro, e os jardins dos palácios Composição paisagística12 de Brasília, construídos a partir de 1960. Veja, na Figura 11, uma fotogra- fia do terraço do Palácio do Itamaraty, sede do Ministério das Relações Exteriores, em Brasília. Figura 11. Terraço do Itamaraty, por Burle Marx. Fonte: Bárbara (2012, documento on-line). No último quarto do século XX, as ideias modernistas passaram por um processo de questionamento, levando ao movimento que ficou conhecido como pós-modernismo. Durante essas décadas, alguns arquitetos buscaram o retorno à ornamentação como estratégia para dar significado às constru- ções, enquanto outros buscaram em relações fora da arquitetura, como na filosofia e no cinema, para justificar suas escolhas. Um dos exemplos mais importantes de paisagismo pós-moderno é o parque de La Villette (Figura 12), de Bernard Tschumi, construído em Paris no final dos anos 1980. Para Waterman (2011, p. 47): O parque combina as características geométricas do barroco francês com ideias mais contemporâneas oriundas da montagem cinematográfica, entre outros conceitos. Estruturas extravagantes (“follies”) em vermelho brilhante foram distribuídas pelo parque e organizadas sobre uma grelha virtual. 13Composição paisagística Figura 12. Axonométrica do Parque de la Villette, por Bernard Tschumi. Fonte: Souza (2013, documento on-line). Já no século XXI, a revalorização dos centros urbanos levou à criação de espaços paisagísticos em zonas pós-industriais que foram esvaziadas com a diminuição da presença da indústria. Ao mesmo tempo, a valorização dos am- bientes naturais nativos, influenciada pelo ambientalismo, levou ao crescimento de jardins, que utilizam espécies bem adaptadas ao clima local, diminuindo a necessidade de sistemas de irrigação artificial. Um dos exemplos mais conhecidos (e que une as duas tendências con- temporâneas de paisagismo) é a High Line, em Nova York. Esse parque foi construído sobre uma antiga linha de trem, que cortava longitudinalmente o Sul da ilha de Manhattan. No início dos anos 2000, um grupo de moradores se uniu para evitar a demolição iminente dos viadutos desativados, solicitando a criação de um parque linear. Composição paisagística14 O projeto arquitetônico foi realizado pelo escritório novaiorquino Diller Scofidio + Renfro, com paisagismo do holandês Piet Oudolf, que estudou a vegetação que nascera espontaneamente sobre os trilhos para criar um jardim de espécies bem adaptadas ao clima da cidade. Veja, na Figura 13, uma foto desse espaço, que se tornou um dos principais pontos turísticos da ilha. Figura 13. Fotografia aérea da High Line, em Nova York. Fonte: Rick Darke/thehighline.gov. O paisagismo esteve presente na humanidade desde que as edificações humanas começaram a ser construídas permanentemente. Ao longo dos sé- culos, os jardins acompanharam a evolução da linguagem arquitetônica e a cultura contemporânea, desde os jardins formais da Roma Antiga, passando pela extravagância barroca dos franceses e chegando no paisagismo contem- porâneo, em que as formas são livres, resultante de influências ambientais e culturais. Em seus próximos projetos, pense em como as áreas externas se relacionam com o espaço construído, melhorando a qualidade de vida de quem utilizar seus edifícios. 15Composição paisagística BÁRBARA, A. O jardim suspenso do Palácio do Itamaraty em Brasília. 2012. Disponível em: http://www.nosnomundo.com.br/2012/09/o-jardim-suspenso-do-palacio-do- -itamaraty-em-brasilia/. Acesso em: 14 out. 2020. CHING, F. D. K.; JARZOMBEK, M. M.; PRAKASH, V. História global da arquitetura. 3. ed. Porto Alegre: Bookman, 2019. COLQUHOUN, A. Modernidad y tradición clásica. Madrid: Júcar Universidad, 1991. COMAS, C. E. D. Protótipo e monumento, um ministério, o ministério. In: GUERRA, A. (org.). Textos fundamentais da arquitetura moderna brasileira. São Paulo: Romano Guerra, 2010. FRACALOSSI, I. Clássicos da arquitetura: Ministério de Educação e Saúde. ArchDaily Brasil, 2013. Disponível em: https://www.archdaily.com.br/br/01-134992/classicos-da- -arquitetura-ministerio-de-educacao-e-saude-slash-lucio-costa-e-equipe. Acesso em: 14 out. 2020. HARARI, Y. N. Sapiens: uma breve história da humanidade. Porto Alegre: L&PM, 2015. SOUZA, E. Clássicos da arquitetura: Parc de la Villette. ArchDaily Brasil, 2013. Disponível em: https://www.archdaily.com.br/br/01-160419/classicos-da-arquitetura-parc-de-la- -villette-slash-bernard-tschumi. Acesso em: 14 out. 2020. WATERMAN, T. Fundamentos de paisagismo. Porto Alegre: Bookman, 2011. Os links para sites da web fornecidos neste capítulo foram todos testados, e seu fun- cionamento foi comprovado no momento da publicação do material. No entanto, a rede é extremamente dinâmica; suas páginas estão constantemente mudando de local e conteúdo. Assim, os editores declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou integralidade das informações referidas em tais links. Composição paisagística16 Dica do professor As criações de André Le Nôtre, renomado paisagista do século XVII, são consideradas precursoras do jardim francês, com estruturas perfeitamente simétricas e uso de diversoselementos compositivos. Popularmente conhecido como rei dos jardineiros e jardineiro do rei, André foi um dos mais importantes personagens da história do paisagismo e é admirado e reconhecido por profissionais da área até os dias atuais. Na Dica do Professor a seguir, conheça um pouco da história desse renomado paisagista e das suas principais obras, como o Jardim do Palácio de Versalhes e o Jardim das Tulherias. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://fast.player.liquidplatform.com/pApiv2/embed/cee29914fad5b594d8f5918df1e801fd/728d93010426d6c94a156f0b4f425a19 Exercícios 1) Considere as afirmações a seguir sobre a disciplina do paisagismo. I. A disciplina do paisagismo diz respeito a projetos que contemplam o uso de elementos naturais, como a vegetação. Já os espaços artificiais são escopo da disciplina da arquitetura. II. A cultura de um local influencia a manipulação do espaço naquela região. Ao longo da história, alguns modelos de configuração do espaço aberto ficaram conhecidos em razão da sua origem, como o jardim inglês. III. A preocupação com a manipulação do espaço físico é uma das consequências do processo de sedentarização da humanidade. Assinale a alternativa com as afirmativas corretas. A) I, apenas. B) II, apenas. C) III, apenas. D) I e II, apenas. E) II e III, apenas. 2) A preocupação com o espaço aberto é uma das consequências do processo civilizatório. À medida que a humanidade se ocupou com a transformação do espaço em busca de condições de vida mais confortáveis, modificou também a paisagem ao seu redor. Um dos tipos mais antigos e importantes na história da arquitetura e do paisagismo é o da casa-pátio romana. Sobre ela, é possível afirmar o seguinte: A) consistia na liberação de uma área considerável na frente do lote urbano, que era destinada a plantações de espécies distintas. B) é uma influência chinesa na arquitetura romana, difundida pelo império em função de conquistas militares no Oriente Médio. C) é um tipo que prosperou no ambiente rural, nas grandes propriedades da aristocracia romana, afastadas dos centros urbanos. D) a disposição do pátio aberto no interior do edifício servia como mecanismo de controle, refletindo os ideais puritanos da sociedade romana. E) consistia na ocupação periférica do terreno e na abertura de um pátio central para a entrada de ar e de luz. 3) Assinale V para Verdadeiras e F para Falsas as afirmações a seguir. ( ) Os jardins italianos tiravam proveito das paisagens planas em torno de Roma e Florença. ( ) Na França, os jardins serviam também como demonstração de riqueza e poder da aristocracia local. ( ) Os jardins ingleses são reconhecidos por romper com a tradição de rigor geométrico, como a presente nos jardins franceses. A sequência que preenche corretamente as lacunas é: A) V - V - V. B) F - F - F. C) V - F - F. D) V - V - F. E) F - V - V. 4) Os jardins de uso público ganharam relevância durante o período da Revolução Industrial, no fim do século XVIII. A partir desse momento histórico, afirmam-se como os principais espaços paisagísticos. Considere as seguintes afirmações: I. Um dos motivos da relevância dos espaços públicos abertos nesse período foi o aumento da população e das suas necessidades básicas, entre elas o bem-estar. II. As vanguardas modernas, a partir do século XX, defendiam as teorias neoclássicas de composição dos espaços. III. A busca da pureza de forma e função foi um ponto importante no paisagismo moderno. Estão corretas as afirmativas: A) I, apenas. B) II, apenas. C) III, apenas. D) I e II, apenas. E) II e III, apenas. 5) No Brasil, os espaços paisagísticos desempenharam um papel de muita relevância na arquitetura moderna. Coberturas verdes, jardins de inverno e terraços caminháveis eram vistos com frequência em obras do período. Assinale V como verdadeiras e F como falsas as afirmações a seguir. ( ) Roberto Burle Marx foi responsável pelo projeto paisagístico da primeira casa modernista brasileira, projetada por Gregori Warchavchik. ( ) Durante o início do século XX, as ideias modernistas buscaram um retorno à ornamentação, como estratégias de dar significado às construções. ( ) O Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro, marca o início do movimento pós-moderno no paisagismo. Assinale a alternativa com a ordem correta. A) V - F - V. B) F - V - F. C) V - V - V. D) F - F - F. E) V - V - F. Na prática O paisagismo pode assumir total protagonismo na arquitetura de alguns espaços. A experiência do usuário se torna mais rica quando os espaços abertos completam os espaços fechados e, sobretudo, quando ambos os ambientes funcionam como unidade única, vivenciada pelos usuários como um todo. Neste Na Prática, conheça o projeto paisagístico de um restaurante localizado em um lote retirado do meio urbano, em meio à natureza, no qual o paisagismo desempenha um papel tão importante quanto a própria edificação. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://statics-marketplace.plataforma.grupoa.education/sagah/31f4d4fe-ccce-48ea-b7f2-fdd39d498914/d17f6fd7-49ad-41cf-b8e7-e68ee75c3dea.jpg Saiba + Para ampliar o seu conhecimento a respeito desse assunto, veja as sugestões do professor: Representação do paisagismo: o papel do desenho em planta para parques e praças Pelo desenho de planta baixa é possível estabelecer as diretrizes estratégicas de um projeto de paisagismo. Veja alguns exemplos de representação gráfica desse tipo de projeto no link a seguir. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. Paisagismo no planejamento arquitetônico Amplie seus conhecimentos sobre a história do paisagismo no Capítulo 1 da publicação a seguir. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. Dicas de pisos, materiais e caminhos para jardim #28 Alguns elementos paisagísticos podem ser implementados facilmente com a ajuda de algumas sugestões. Veja neste vídeo algumas dicas de materiais para aplicação em paisagismo. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://www.archdaily.com.br/br/890014/representacao-do-paisagismo-o-papel-do-desenho-em-planta-para-parques-e-pracas http://repositorio.ufu.br/bitstream/123456789/29687/1/PaisagismoPlanejamentoArquitetonico.pdf https://www.youtube.com/embed/cjLNseXVrSc