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História da psiquiatria e saúde mental

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História da psiquiatria e saúde
mental
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História da Psiquiatria e Saúde Mental
A Psiquiatria é um campo que se dedica ao estudo e ao tratamento das doenças mentais.
Ela é uma especialidade da Medicina e, para se tornar um psiquiatra, o profissional deve
se formar médico e depois fazer a residência na área.
Hipócrates (pai da Medicina), foi o primeiro a afirmar que a epilepsia era uma doença do
cérebro e não um problema causado por espíritos. Nesse momento da história, começou a
noção de que os órgãos de um corpo — dentre eles, o próprio cérebro — também seriam
responsáveis pela criação do pensamento e das emoções.
Podemos dizer que a psiquiatria iniciou teve sua gênese no final do século 18, quando o
médico francês Philippe Pinel começou a classificar os doentes separando o que seria um
desvio social de uma enfermidade mental. 
Pinel reorganizou o espaço institucional de Bicêtre (unidade de hospital geral em Paris) e
aplicou suas ideias sobre a abordagem dos alienados e do tratamento moral. Além disso,
implantou medidas de cunho humanitário. No transcorrer deste processo, o manicômio
surgiu do hospital geral reformado.
Pinel defendia uma abordagem clínica que partisse dos sintomas para chegar aos quadros
clínicos. O importante era permanecer nos limites da descrição empírica dos sintomas das
doenças mentais, como um pesquisador das ciências naturais, para depois traçar os
caminhos de uma classificação e de um tratamento, frutos da avaliação sistemática
obtida. O alienista deveria se ocupar exclusivamente daquilo que fosse captado pelos
sentidos: os gestos, o comportamento, as expressões faciais, os movimentos, as emoções
expressas pelos alienados. Já que a natureza profunda das lesões responsáveis pela
alienação mental era desconhecida, o médico se limitaria a descrever e classificar estas
manifestações objetivas, evitando especulações. Segundo Pinel:
(...) "o estudo dos ideólogos franceses e ingleses foi-me, portanto, necessário para partir
de um termo fixo e para exprimir o caráter distinto das diversas espécies de alienados,
descartando a propósito todo tema controverso, toda discussão metafísica: a marcha
seguida em todas as partes da história natural serviu-me como guia, agarrei-me aos sinais
exteriores, às mudanças físicas que poderiam corresponder às lesões das funções
intelectuais e afetivas: assim é que foram descritos os traços da fisionomia, os gestos, os
movimentos, que são como presságios da próxima explosão de um acesso de mania; a
expressão da fisionomia, que caracteriza o acesso em seu auge ou declínio, não foi
omitida bem como as diversas formas de crânio relacionadas às lesões dos sentidos
internos, e que se tornaram objeto especial de minhas pesquisas" (PINEL, 2007, p. 68).
A constituição do alienismo reforçou o sonho de superação da loucura por meio de uma
eficiente gestão técnica e científica, coerente com a utopia iluminista. No entanto, este
fracassou, visto que passou a legitimar um grande processo de exclusão social do doente
mental, feito em nome do isolamento terapêutico e do uso indiscriminado e exclusivo de
recursos manicomiais. 
Já no Brasil, a gênese do cuidado institucionalizado aconteceu no Hospício Pedro II
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(1841) com pressupostos higienistas e de privação da liberdade dos que representavam
ameaças à ordem pública (os loucos) e apresentava um caráter religioso e caritativo.
Figura 1 - Hospício Pedro II
Fonte: Revista FAPESP (2018)
Em 1889, a partir da Proclamação da República, o Hospício Pedro II foi desvinculado da
Santa Casa de Misericórdia e passou ao domínio da psiquiatria científica, com aumento da
abordagem medicalizante.
Desde então, o hospício ocupou lugar central no modelo de assistência à loucura,
apresentando-se com caráter asilar e o de normalização social, com intensificação de
práticas violentas e higiênicas.
A partir desta realidade, os hospitais psiquiátricos passaram a ser questionados pelas
situações de maus-tratos, abandono, superlotação e elevada quantidade de óbitos.
No final da década de 1970 aconteceram as primeiras ações em prol da Reforma
Psiquiátrica Brasileira (RPB) e da criação do Movimento dos Trabalhadores de Saúde
Mental, cujo objetivo principal era propiciar condições para desconstrução do modelo
manicomial vigente.
Com a RPB houve o estabelecimento de uma nova relação entre sociedade, sofrimento
mental e instituições, a fim de ofertar outro lugar social para a loucura e promover o
aumento das potências de vida das pessoas em sofrimento mental.
Ao longo de 30 anos, a RPB demonstrou grandes avanços na reorganização do modelo de
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assistência: inversão do gasto em saúde mental com implantação e estímulo à expansão
de serviços comunitários, incentivo às ações intersetoriais, redução de leitos em hospitais,
desinstitucionalização e fortalecimento no protagonismo dos usuários e familiares.
Contudo, em 2016, com a queda da Dilma Roussef e a assunção de grupos conservadores
e ultraliberais nos espaços de poder do país, foram desencadeadas mudanças na
organização e no direcionamento ideológico da Política Nacional de Saúde Mental (PNSM)
e da Política Nacional sobre drogas.
As principais alterações que ocorreram neste momento foram, inclusão de hospitais
psiquiátricos na Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), aumento de repasse financeiro para
instituições hospitalares especializadas, foco na abstinência e o fortalecimento e
financiamento das comunidades terapêuticas.
As mudanças foram na contramão das proposições da RPB e representam importante
retrocesso nos avanços alcançados e no modelo de desinstitucionalização defendido.
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Referências
ODA, Ana Maria Galdini Raimundo; DALGALARRONDO, Paulo. O início da assistência aos
alienados no Brasil ou importância e necessidade de estudar a história da psiquiatria.
Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, [S.L.], v. 7, n. 1, p.
128-141, mar. 2004. 
SAMPAIO, Mariá Lanzotti; BISPO JÚNIOR, José Patrício. Entre o enclausuramento e a
desinstitucionalização: a trajetória da saúde mental no brasil. Trabalho, Educação e
Saúde, [S.L.], v. 19, n. 1, p. 1-19, jan. 2021. 
TEIXEIRA, Manoel Olavo Loureiro. Pinel e o nascimento do alienismo. Estudos e
Pesquisas em Psicologia, Rio de Janeiro, v. 19, n. 2, p. 540-560, ago. 2019.

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