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indivíduo o poder de conhecer é a idéia do bem. Podes conce- bê-la como objeto de conhecimento por ela ser o princípio da ciência e da verdade, mas, por mais belas que sejam estas duas coisas, a ciência e a verdade, não te equivocarás se pensares que a idéia do bem é distinta delas e as ultrapassa em beleza. Como no mundo visível se considera, e com razão, que a luz e a visão são semelhantes ao Sol, mas se acredita, erroneamente, que são o SoL da mesma forma no mundo inteligível é correta pensar que a cidade e a verdade são, uma e outra, semelhantes ao bem, mas é errado julgar que uma ou outra seja o bem; a natureza do bem deve ser considerada muito mais preciosa. Adimanto — No teu moda de ver, a sua beleza é extraor- dinária, sempre que produz a d&ria e a verdade, e é ainda mais belo do que elas. Por certo que não o identificas com o prazer. Sócrates — Deus me livre de tal coisa! Mas considera a imagem da bem da maneira que vou dizer. Adimanto — Como? Sócrates — Creio que admitirás que o Sol fornece às coisas visíveis não apenas a capacidade de serem vistas, mas também a criação, o crescimento e a nutrição, apesar de ele mesmo não ser criação. Adimanto — Efetivamente, não o e. Sócrates — Admite também que as coisas cognoscíveis não recebem da bem apenas a sua inteligibilidade, mas também retiram dele a sua existência e a sua essência, apesar de o bem não ser a essência, mas estar muita acima desta em dignidade e poder. Nesse momento, Glauco exclamou com vivacidade: — Por Apoio! Que maravilhosa superioridade! Sócrates — A culpa é também tua! Por que me forçar a dizer o que penso acerca desse assunto? Glauco — Termina a tua comparação com o Sol, se par acaso tens alga mais a dizer. Sócrates — Com certeza, ainda me falta muito a dizer! Glauco — Então, não omitas nada. Sócrates — Penso que, sem querer, omitirei muitas coisas. Contudo, tomarei o cuidada de tudo dizer neste momento. Glauco — Está bem. Sócrates — Considera, então, que existem dois reis, rei- nando um sobre o campo do cognoscível e o outro, do visível: não diga do céu, com receio de que penses que brinco com as palavras. Mas consegues imaginar estes dais gêneros, a visível e o cognoscível? Glauco — Consigo. Sócrates — Agora, pega uma linha cortada em dois seg- mentos desiguais, representando um o gênero visível, o outro o cognoscivel, e corta de novo cada segmento respeitando a mesma proporção; terás então, classificando as divisões obtidas conforme o seu grau relativo de clareza ou de obscuridade, no mundo visível, um primeiro segmento, a das imagens. Denomino imagens pri- meiramente às sombras, depois aos reflexos que se vêem nas águas ou na superfície dos corpos opacos, polidos e brilhantes, e a todas as representações semelhantes. Compreendes? Glauco — Lógico que sim. Sócrates — Considera agora que o segundo segmento cor- responde aos objetos que essas imagens representam, ou seja, os animais que nos cercam, as plantas e todas as obras de arte. Glauco — Estou considerando. Sócrates — Concordas também em dizer que, no que con- cerne à verdade e ao seu contrário, a divisão foi feita de tal modo que a imagem está para o objeto que reproduz como a opinião está para a ciência? Glauco — Concordo plenamente. Sócrates — Vê agora cama deve ser dividido o mundo cognoscível. Glauco — Como? Sócrates — Na primeira parte desse segmento, a alma, uti- lizando as imagens dos objetos que no segmento precedente eram os originais, é obrigada a estabelecer suas análises partindo de hipóteses, seguindo um caminho que a leva, nao a um pnn- clpia, mas a uma conclusão. Na segundo segmento, a alma parte da hipótese para chegar ao princípio absoluto, sem lançar mão das imagens, como no caso anterior, e desenvolve a sua análise servindo-se unicamente das idéias. Glauco — Não compreendo muita bem o que dizes. Sócrates — Sem dúvida, compreenderás mais facilmente depois de ouvires o que vou dizer. Sabes, penso eu, que aque- les que se dedicam à geometria, à aritmética ou às outras ciências do mesmo gênero pressupõem o par e o ímpar, as figuras, três espécies de ângulos e outras coisas da mesma familia para cada pesquisa diferente; que, tendo pressuposto estas coisas como se as conhecessem, não se dignam justifi- cá-las nem a si próprios nem aos outros, considerando que elas são evidentes para todos; que, finalmente, a partir daí, deduzem o que se segue e acabam por alcançar, de forma con- seqüente, a demonstração que tinham em vista. Glauco — Sei isso perfeitamente. Sócrates — Então, sabes também que eles utilizam figuras visíveis e raciocinam sobre elas pensando não nessas mesmas figuras, mas nos originais que elas reproduzem. Os seus racio- cínios baseiam-se no quadrado em si mesmo e na diagonal em si mesma, e não naquela diagonal que traçam; o mesmo vale para todas as outras figuras. Todas essas figuras que modelam ou desenham, que produzem sombras e os seus reflexos nas águas, eles as utilizam como tantas outras imagens, para tentar ver esses objetas em si mesmas, que, de outro modo, só podem ser percebidos pelo pensamento. Glauco — É verdade. Sócrates — Eu afirmava que os objetos desse gênero per- tencem à classe do cognoscíveL mas que, para conseguir co- nhecê-los, a alma é obrigada a recorrer a hipóteses, servindo-se destas como de imagens dos mesmos objetas que produzem sombras no segmento inferior, e que, em relação a essas sombras, são tidas e considerados como claros e distintos. Glauco — Compreendo que o que dizes se refere à geo- metria e às ciências da mesma natureza. Sócrates — Percebes agora que entendo por segunda di- visão do mundo cognoscível aquela que a razão alcança pelo poder da dialética, considerando suas hipóteses não princípios, mas simples hipóteses, isto é, pontos de apoia e trampolins para se elevar até o princípio universal que já não admite hi- póteses. Atingido esse princípio, ela se apega a todas as con- seqüências que decorrem dele, até chegar à última conclusão, sem recorrer a nenhum dado sensíveL mas somente às idéias, pelas quais procede e às quais chega. Glauco — Compreendo-te em parte, mas não satisfatoria- mente, porque tratas de um tema muita difícil. Queres estabe- lecer que a conhecimento do ser e do inteligível, que é adquirido pela ciência da dialética, é mais claro que aquele que é adquirido pela que denominamos ciências, as quais possuem hipóteses como princípios. E certo que aqueles que se consagram às ciên- cias são obrigados a utilizar o raciocínio, e não os sentidos. No entanto, visto que nas suas investigações não apontam para um princípio, mas partem de hipóteses, julgas que eles não têm a inteligência dos objetos estudadas, mesmo que a tivessem com um princípio. Parece-me que denominas conhecimento discur- sivo, e não inteligência, a geometria e outras ciências do mesmo gênero, considerando esse conhecimento intermediário entre a opinião e a inteligência. Sócrates — Compreendeste-me bastante bem. Aplica agora a estas quatro seções estas quatro operações da alma: a inteli- gência à seção mais elevada, o conhecimento discursivo à se- gunda, a fé à terceira, a imaginação à última; e dispõe-nas por ordem de clareza, partindo do princípio de que, quanto mais seus objetos participam da verdade, mais eles são claros. Glauco — Compreendo. Concorda contigo e adoto a ordem que tu sugeres. LIVRO VII SÓCRATES — Agora imagina a maneira como segue o es- tado da nossa natureza relativamenteà instrução e à ignorância. Imagina homens numa morada subterrânea, em forma de ca- verna, com uma entrada aberta à luz; esses homens estão aí desde a infância, de pernas e pescoço acorrentadas, de modo que não podem mexer-se nem ver senão o que está diante deles, poisas correntes os impedem de voltar a cabeça; a luz chega-lhes de uma fogueira acesa numa colina que se ergue por detrás deles; entre o fogo e os prisioneiros passa uma estrada ascen- dente. Imagina que ao longo dessa estrada está construída um pequeno muro, semelhante às divisórias que os apresentadores de títeres armam diante de si e por cima das quais exibem as suas maravilhas. Glauco — Estou vendo. Sócrates — Imagina agora, ao longo desse pequeno muro, homens que transportam objetos de toda espécie, que o trans- põem: estatuetas de homens e animais, de pedra, madeira e toda espécie de matéria; naturalmente, entre esses transporta- dores, uns falam e outros seguem em silêncio. Glauco — Um quadra estranho e estranhas prisioneiros. Sócrates — Assemelham-se a nós. E, para começar, achas que, numa tal condição, eles tenham alguma vez visto, de si mesmos e dos seus companheiros, mais da que as sombras pro- jetadas pelo fogo na parede da caverna que lhes fica defronte? Glauco — Como, se são obrigados a ficar de cabeça imóvel durante toda a vida? Sócrates — E com as coisas que desfflam? Não se passa o mesmo? Glauco — Sem dúvida. Sócrates — Portanto, se pudessem se comunicar uns com as outros, não achas que tomariam por objetos reais as sombras que veriam? Glauco — E bem possível. Sócrates — E se a parede do fundo da prisão provocasse eco, sempre que um dos transportadores falasse, não julgariam ouvir a sombra que passasse diante deles? Glauco — Sim, por Zeus! Sócrates — Dessa forma, tais homens não atribuirão rea- lidade senão às sombras dos objetos fabricados. Glauco — Assim terá de ser. Sócrates — Considera agora o que lhes acontecerá, natu- ralmente, se forem libertados das suas cadeias e curadas da sua ignorância. Que se liberte um desses prisioneiros, que seja ele obrigado a endireitar-se imediatamente, a voltar o pescoço, a caminhar, a erguer as olhos para a luz: ao fazer todos estes movimentas sofrerá, e o deslumbramento impedi-lo-á de dis- tinguir os abjetos de que antes via as sombras. Que achas que responderá se alguém lhe vier dizer que não viu até então senão fantasmas, mas que agora, mais perto da realidade e voltado para objetos mais reais, vê com mais justeza? Se, enfim, mos- trando-lhe cada uma das coisas que passam, o obrigar, à força de perguntas, a dizer o que é? Não achas que ficará embaraçada e que as sombras que via outrora lhe parecerão mais verdadeiras do que as objetos que lhe mostram agora? Glauco — Muito mais verdadeiras. Sócrates — E se a forçarem a fixar a luz, os seus olhos não ficarão magoados? Não desviará ele a vista para voltar às coisas que pode fitar e não acreditará que estas são realmente mais distintas do que as que se lhe mostram? Glauco — Com toda a certeza. Sócrates — E se o arrancarem à força da sua caverna, o obrigarem a subir a encosta rude e escarpada e não o largarem antes de o terem arrastado até a luz do Sol, não sofrerá viva- mente e não se queixará de tais violências? E, quando tiver chegado à luz, poderá, com os olhas ofuscados pelo seu brilho, distinguir uma só das coisas que ora denominamos verdadeiras? Glauco — Não o conseguirá, pelo menos de Inicio. Sócrates — Terá, creio eu, necessidade de se habituar a ver os objetos da região superior. Começará por distinguir mais fa- cilmente as sombras; em seguida, as imagens dos homem e dos outros objetos que se refletem nas águas; por último, os próprios objetos. Depois disso, poderá, enfrentando a claridade dos astros e da Lua, contemplar mais facilmente, durante a noite, os corpos celestes e o próprio céu da que, durante o dia, o Sol e a sua luz. Glauco — Sem dúvida. Sócrates — Por fim, suponho eu, será o Sol, e não as suas imagens refletidas nas águas au em qualquer outra coisa, mas o próprio Sol, no seu verdadeiro lugar, que poderá ver e con- templar tal como e. Glauco — Necessariamente. Sócrates — Depois disso, poderá concluir, a respeito do Sol, que é ele que faz as estações e os anos, que governa tudo no mundo visível e que, de certa maneira, é a causa de tudo o que ele via com os seus companheiros, na caverna. Glauco — E evidente que chegará a essa conclusão. Sócrates — Ora, lembrando-se da sua primeira morada, da sabedoria que aí se professa e daqueles que aí foram seus companheiros de cativeiro, não achas que se alegrará com a mudança e lamentará os que lá ficaram? Glauco — Sim, com certeza, Sócrates. Sócrates — E se então distribuíssem honras e louvares, se tivessem recompensas para aquele que se apercebesse, com o olhar mais vivo, da passagem das sombras, que melhor se re- cordasse das que costumavam chegar em primeiro ou em última lugar, ou virem juntas, e que por isso era o mais hábil em adi- vinhar a sua aparição, e que provocasse a inveja daqueles que, entre os prisioneiros, são venerados e poderosos? Ou então, como o herói de Homero, não preferirá mil vezes ser um simples criado de charrua, a serviço de um pobre lavrador, e sofrer tudo no mundo, a voltar às antigas ilusões e viver como vivia? Glauco — Sou da tua opinião. Preferirá sofrer tudo a ter de viver dessa maneira. Sócrates — Imagina ainda que esse homem volta à caverna e vai sentar-se no seu antigo lugar: não ficará com os olhos cegos pelas trevas ao se afastar bruscamente da luz do Sol? Glauco — Por certo que sim. Sócrates— E se tiver de entrar de nova em competição com os prisioneiros que não se libertaram de suas correntes, para julgar essas sombras, estando ainda sua vista confusa e antes que os seus olhos se tenham recomposto, pois habituar-se à escuridão exigirá um tempo bastante longo, não fará que os outros se riam à sua custa e digam que, tendo ido lá acima, voltou com a vista estragada, pelo que não vale a pena tentar subir até lá? E se a alguém tentar libertar e conduzir para o alto, esse alguém não o mataria, se pudesse fazê-lo? Glauco — Sem nenhuma dúvida. Sócrates — Agora, meu caro Glauco, é preciso aplicar, pon- to por ponto, esta imagem ao que dissemos atrás e comparar o mundo que nos cerca com a vida da prisão na caverna, e a luz da fogo que a ilumina com a força do Sol. Quanto à subida à região superior e à contemplação dos seus objetos, se a con- siderares como a ascensão da alma para a mansão inteligível, não te enganarás quanto à minha idéia, visto que também tu desejas conhecê-la. Só Deus sabe se ela é verdadeira. Quanto a mim, a minha opinião é esta: no mundo inteligível, a idéia do bem é a última a ser apreendida, e com dfficuldade, mas não se pode apreendê-la sem concluir que ela é a causa de tudo o que de reto e belo existe em todas as coisas; na mundo visível, ela engendrou a luz e o soberana da luz; no mundo inteligível, é ela que é soberana e dispensa a verdade e a inteligência; e é preciso vê-la para se comportar com sabedoria na vida particular e na vida pública. Glauco — Concordo com a tua opinião, até onde posso compreendê-la. Sócrates — Pois bem! Compartilha-a também neste ponto e não te admires se aqueles que se elevaram a tais alturas de-