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1 IFRO Assistente de Alunos Adolescência: caracterização da adolescência; aspectos físicos e psicossociais. Noções das características de desenvolvimento psicossocial do adolescente. Qualidade de Vida do Adolescente: saúde, esporte e lazer ......................................................................................... 1 Sexualidade: conceitos básicos; educação sexual na escola; prevenção de problemas .... 25 Drogadição: conceitos legais; drogas lícitas e ilícitas; percepção sobre o usuário; conhecimento básico sobre diagnóstico e prevenção ao uso de drogas ................................. 42 Disciplina escolar: agressividade, limites e violência; autonomia e obediência .................. 69 Trabalho em equipe: níveis de interação ........................................................................... 81 Estatuto da Criança e do Adolescente – Lei nº 8.069/1990 e posteriores .......................... 90 Noções sobre educação de jovens e adultos ................................................................... 146 Noções de Administração: conceitos básicos, organogramas e fluxogramas ................... 158 Noções de relações humanas e relações públicas; comportamento grupal e liderança e equipe multiprofissional ........................................................................................................ 183 Noções sobre a acessibilidade e normas gerais e critérios básicos para a promoção da acessibilidade das pessoas portadoras de deficiência ou com mobilidade reduzida – Lei nº 10.098/2000 e posteriores .................................................................................................... 183 Regulamentação das Leis n os 10.048/2000 e 10.098/2000 – Decreto nº 5.296/2004 e posteriores ........................................................................................................................... 190 Política Nacional para integração da Pessoa Portadora de Deficiência – Decreto nº 3.298/1999, e a Lei nº 7.853/1989 ........................................................................................ 211 Diversidade cultural, gênero, preconceito, uso de drogas, violência e mídia nas relações escolares .............................................................................................................................. 229 Noções de Segurança do Trabalho, Ergonomia e Primeiros Socorros no Ambiente Escolar. ..................................................................................................................................... 261 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM ADM Realce ADM Realce ADM Realce ADM Realce ADM Realce 2 Olá Concurseiro, tudo bem? Sabemos que estudar para concurso público não é tarefa fácil, mas acreditamos na sua dedicação e por isso elaboramos nossa apostila com todo cuidado e nos exatos termos do edital, para que você não estude assuntos desnecessários e nem perca tempo buscando conteúdos faltantes. Somando sua dedicação aos nossos cuidados, esperamos que você tenha uma ótima experiência de estudo e que consiga a tão almejada aprovação. Pensando em auxiliar seus estudos e aprimorar nosso material, disponibilizamos o e-mail professores@maxieduca.com.br para que possa mandar suas dúvidas, sugestões ou questionamentos sobre o conteúdo da apostila. Todos e-mails que chegam até nós, passam por uma triagem e são direcionados aos tutores da matéria em questão. Para o maior aproveitamento do Sistema de Atendimento ao Concurseiro (SAC) liste os seguintes itens: 01. Apostila (concurso e cargo); 02. Disciplina (matéria); 03. Número da página onde se encontra a dúvida; e 04. Qual a dúvida. Caso existam dúvidas em disciplinas diferentes, por favor, encaminhar em e-mails separados, pois facilita e agiliza o processo de envio para o tutor responsável, lembrando que teremos até cinco dias úteis para respondê-lo (a). Não esqueça de mandar um feedback e nos contar quando for aprovado! Bons estudos e conte sempre conosco! 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM 1 CONCEITO DE ADOLESCÊNCIA Se buscarmos a definição de adolescência, vamos descobrir que a origem da palavra vem do latim “adolescentia”, que significa período da vida humana entre a infância e a fase adulta. Vamos encontrar ainda quem defina adolescência como uma fase natural da vida marcada pelas transformações biológicas e comportamentais. Alguns pesquisadores vão entender e descrever a adolescência como um processo de construção social e histórico como sugerido no artigo “Adolescência como uma construção social - Ana Bock”. A Organização Mundial de Saúde (OMS) define adolescência como sendo o período da vida que começa aos 10 anos e termina aos 19 anos completos. Para a OMS, a adolescência é dividida em três fases: - Pré-adolescência - dos 10 aos 14 anos; - Adolescência - dos 15 aos 19 anos completos; - Juventude - dos 15 aos 24 anos. No Brasil, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA)considera a adolescência, a faixa etária dos 12 até os 18 anos de idade completos, sendo referência, desde 1990, para criação de leis e programas que asseguram os direitos desta população. Como vimos, são muitas as definições que tentam explicar a adolescência. Algumas definições utilizam conceitos (embasados em estudos da psicologia, da educação, da filosofia, da medicina etc.), outras definições utilizam recortes etários como é o caso da OMS. É importante saber que os conceitos existem e atendem a objetivos específicos de programas, pesquisas e políticas públicas. Entretanto não podemos reduzir esse período do desenvolvimento humano aos conceitos que os caracterizam, exatamente porque estamos falando de seres humanos, não é mesmo? O que sabemos atualmente, é que a adolescência é o resultado de uma construção social, significada historicamente, que hoje se caracteriza, por exemplo, pela ampliação da tutela dos(as) filhos(as) em suas famílias. Ou seja, observando o contexto social, econômico e cultural do momento que vivemos hoje, os/as adolescentes, em geral, precisam de um período maior de estudos e de capacitação profissional para entrada no mercado de trabalho, o que exige deles e delas um tempo maior de dependência das famílias. Não podemos negar também que este período é marcado pelas transformações biológicas e comportamentais. E são essas mudanças que, muitas vezes, determinam a maneira como a sociedade olha para os(as) adolescentes e cria formas de agir com eles e elas, como por exemplo: a proibição do trabalho antes dos 16 anos, a tutela dos pais até os 18 anos, todo adolescente é “aborrescente” e tantas outras formas que acabam caracterizando, ou melhor, rotulando esse período da vida. Esta discussão, sobre a construção histórica do conceito de adolescência, é importante porque possibilita a mudança de olhar para a própria adolescência e para o/a adolescente. É importante desconstruir a visão de adolescência como uma fase de crise e olhar criticamente para o perfil rotulado do adolescente visto como “aborrescente”, intolerante, irresponsável, rebelde etc. Características Psicológicas da Adolescência No Aspecto Psicológico - O adolescente nesta etapa vive no seu mundo interior, para conhecer a própria personalidade, as suas ideias e ideais, compara-se com o mundo dos outros. - Dá impressão de apatia devido à preocupação repousada e reflexiva pelos próprios estados anímicos. - Esta interiorização abarca também as esferas intelectuais, filosóficas e estéticas, enchendo a sua vida com estas teorias. - As características mais próprias deste período, são: a) Crescente consciência e conhecimento do “eu”. b) Nascimento da independência. c) Adaptação progressiva aos núcleos sociais da família, escola e comunidade em geral. Adolescência: caracterizaçãoda adolescência; aspectos físicos e psicossociais. Noções das características de desenvolvimento psicossocial do adolescente. Qualidade de Vida do Adolescente: saúde, esporte e lazer 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM ADM Realce ADM Sublinhado ADM Sublinhado ADM Realce ADM Realce ADM Realce ADM Realce ADM Realce ADM Realce 2 - O espírito de independência cresce rapidamente, mas é imaturo ainda e manifesta-se com brusquidão e agressividade. - Independência e liberdade são a sua constante exigência. - Opõe-se, portanto, a que o tenham sujeito ou lhe perguntem sobre os seus assuntos, projetos, amigos com quem anda, ou a que se imiscuam na sua vida privada. - É capaz de albergar sentimentos de rancor, vingança e violência, embora de modo esporádico e sejam pouco duradoiros. - Manifesta uma grande preocupação por pormenores e gestos que observa na pessoa a quem imita e idealiza. - Interessa-lhe e procura conhecer a própria personalidade, mas é mais observador em relação à dos outros, tanto dentro como fora do núcleo familiar. - Aos 16 anos, o adolescente é já um pré-adulto, possui uma mente mais segura, porque está melhor ordenada e controlada. - Manifesta uma maior confiança em si mesmo e uma autonomia mais arraigada. - Em geral, domina perfeitamente as próprias emoções, possuindo um maior equilíbrio. - Valoriza mais os motivos pessoais dos outros, sejam colegas ou adultos, e pensa mais neles, pois apercebe-se de que o segredo da sua própria felicidade se encontra relacionada com a vida dos outros. - Sente-se mais livre e independente do que aos 15 anos, por isso já não o preocupa tanto esta exigência. Conduta Social em Relação com a Vida Escolar - Aos 15 anos, em geral, manifestam uma atitude hostil para com a escola, vão contra as exigências e normas rígidas. - Revoltam-se às vezes contra a autoridade, em geral, não individualmente, mas em grupo. - Entre os 15 e os 16 anos, começam-se a interessar novamente pelo estudo sempre que for interessante e vital para a sua experiência o conteúdo instrutivo, como por exemplo a Religião, as Ciências Sociais, etc. - Integram-se na comunidade escolar, participando nas atividades que a escola oferece. - Às vezes a vida escolar converte-se em válvula de escape, em meio para afrouxar as ataduras familiares. - No âmbito escolar, põem-se de manifesto certas diferenças individuais, acadêmicas e sociais, relacionadas com a capacidade de liderança, o talento e as atitudes intelectuais. Atitudes das pessoas Implicadas na sua Educação - É necessária uma atitude de abertura e de conhecimento das fases desta idade, para evitar atitudes inadequadas para com os filhos, o endurecimento da autoridade e o não reconhecer ao adolescente qualquer tipo do direito. Isto, unido à conduta do próprio adolescente, provoca choques violentos. - Deve-se aceitar a emancipação progressiva dos filhos, e incluso favorecê-la, para os ajudar a serem livres e a manifestarem-se como tais. - A existência da crise tem a sua origem num problema afetivo, por isso temos de favorecer no adolescente a criação de vínculos familiares, ambientais, … (amor à Pátria por exemplo …). - Devem sentir-se realizados numa atividade ou numa coisa, aspirando sempre a algo, isto é, devem ter um ideal, fé. Também é importante o relacionarem-se com a família, o grupo, etc.… - Convém saber que estas crises passam com o tempo e que tudo volta a normalizar-se, o que não significa que se deixe de atuar e não se procure orientar positivamente o desenvolvimento dessas crises de modo a que não deixem conflitos na personalidade do jovem. - É muito inseguro, procura a orientação e o conselho de pessoas alheias à sua vida familiar; assim, os educadores encontram um campo propício para uma ação de formação mais profunda. - Precisam de uma mão compreensiva para os ajudar no esforço de esclarecer e definir os seus pensamentos e estados anímicos, coisa que é difícil para ele e o faz cair em estados depressivos. - Às vezes convém tratá-lo com a mesma frieza ou indiferença com que se comporta, para que repare na sua própria atitude. - As formas mais extremas de desafio exigem um guia habilidoso, bem como prudência nas medidas de controle mais estritas que se pretendam utilizar. - Temos de passar a ser “observadores participantes” na vida dos adolescentes. - Devemos ajudá-los a encontrar a forma de se expressarem nas diversas atividades, e procurar que o ensino seja estimulante e interessante, senão podem cair no desleixo e na apatia perante o estudo. - Recordando as tensões e inquietações da nossa própria adolescência, estaremos em condições de ajudar os jovens e de sermos mais compreensivos para com eles. 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM 3 - Devemos inculcar-lhes o respeito pelos pontos de vista alheios e o sentido da realidade. Como lidar com o Adolescente1 A adolescência é uma fase cheia de questionamentos e instabilidade, que se caracteriza por uma intensa busca de “si mesmo” e da própria identidade, os padrões estabelecidos são questionados, bem como criticadas todas as escolhas de vida feita pelos pais, buscando assim a liberdade e autoafirmação. Os teóricos da adolescência há muito têm concordado que a transição da segunda infância para a idade adulta é acompanhada pelo desenvolvimento de uma nova qualidade de mente, caracterizada pela forma de pensar sistemática, lógica e hipotética. Estágio Operacional Formal Piagetiano Esse estágio constitui o ápice do desenvolvimento intelectual, Piaget afirmava que as mudanças na maneira como os adolescentes pensam sobre si mesmos, sobre seus relacionamentos pessoais e sobre a natureza da sua sociedade têm como fonte comum o desenvolvimento de uma nova estrutura lógica que ele chamava de operações formais. O pensamento operatório formal é o tipo de pensamento necessário para qualquer pessoa que tenha de resolver problemas sistematicamente. O adolescente constrói teorias e reflete sobre seu pensamento, o pensamento formal, que constitui uma reflexão da inteligência sobre si mesma, um sistema operatório de segunda potência, que opera com proposições. Segundo Piaget uma das consequências de se adquirir pensamento operatório formal é a capacidade de construir provas lógicas em que a conclusão segue a necessidade lógica. Essa habilidade constitui o raciocínio dedutivo. O pensamento do adolescente se difere do pensamento da criança, ou seja, a criança consegue chegar a utilizar as operações concretas de classes, relações e números, mas não as utiliza num sistema fundido único e total que é caracterizado pela lógica do adolescente. O pensamento liberta-se da experiência direta e as estruturas cognitivas da criança adquirem maturidade. Isso significa que a qualidade potencial do seu pensamento ou raciocínio atinge o máximo quando as operações formais se encontram plenamente desenvolvidas. A criança não ultrapassa a lógica elementar de agrupamentos ou grupos numéricos aditivos ou multiplicativos, apresentando deste modo, uma forma elementar de reversibilidade. O adolescente apresenta a lógica das proposições relacionando-a a estrutura de classes e das relações. O pensamento formal encontrado nos adolescentes é explicado pelo fato de se poderem estabelecer as coordenações entre os objetos que também se originam de determinadas etapas da maturação deste sujeito. No entanto, esta constituição da estrutura, não apenas tem ligação com o aparato maturacional do sujeito, mas também com o meio social no qual este está inserido. Para que o meio social atue sobre os indivíduos é necessário que estes estejam em condições de assimilar as contribuições desse meio, havendo a necessidade de uma maturação suficiente da capacidade cerebral deste indivíduo. Estes fatores estão relacionados dinamicamente. Se o adolescente constrói teorias é porque de um lado, tornou-se capaz dereflexão e, de outro, porque sua reflexão lhe permite fugir do concreto atual na direção do possível e do abstrato. A lógica não é algo "estranho” a vida do sujeito, é justamente a expressão das coordenações operatórias necessárias para atingir determinada ação. O pensamento do adolescente tem a necessidade de construir novas teorias sobre as concepções já dadas, no meio social, tentando chegar a uma concepção das coisas que lhe seja própria e que lhe traga mais sucesso que seus antecessores. São característicos do processo de pensamento, os patamares de desenvolvimento, que leva o nível mais elementar de egocentrismo à descentração, subordinando o conhecimento sempre a uma constante revisão das perspectivas. O adolescente exercita ideias no campo do possível e formula hipóteses, tem o poder de construir à sua vontade reflexões e teorias, com estas capacidades, o adolescente começa a definir conceitos e valores. Neste sentido, caracteriza-se a adolescência por um egocentrismo cognitivo, pois o adolescente acredita que é capaz de resolver todos os problemas que aparecem, considerando as suas próprias concepções como as mais corretas (crença na onipotência da reflexão). 1 MELO Maria Aparecida Silva. Como lidar com o Adolescente, 2009. 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM ADM Realce ADM Realce ADM Realce ADM Realce ADM Realce ADM Realce 4 A propriedade geral mais importante do pensamento operacional formal, a partir da qual Piaget deriva todas as demais, refere-se à distinção entre o real e o possível. Ao contrário da criança que se encontra num período operacional concreto, o adolescente, ao começar a examinar um problema com que se defronta, tenta imaginar todas as relações possíveis que seriam válidas no caso dos dados em questão; e seguir, através de uma combinação de procedimentos de experimentação e de análise lógica, tentando verificar quais destas relações possíveis são realmente verdadeiras. Uma estratégia cognitiva que tenta determinar a realidade no contexto das possibilidades tem um caráter fundamentalmente hipotético-dedutivo. O adolescente ingressa corajosamente no reino hipotético. O pensamento formal é um pensamento proposicional, as mais importantes entidades que o adolescente manipula, ao raciocinar deixaram de ser os dados rudimentares da realidade e passaram a ser afirmações que contem estes dados. O que é realmente alcançado entre os 7 e 11 anos de idade, é a cognição organizada de objetos e acontecimentos concretos per se. O adolescente realiza estas operações, mas realiza também algo que as transcende, algo necessário que é precisamente o que faz com que seu pensamento seja formal e não mais concreto. Ele toma os resultados destas operações concretas, formula-os sob a forma de proposições e continua a operar com eles, ou seja, estabelece vários tipos de conexão lógica entre eles. Portanto, as operações formais, na realidade, são operações realizadas com os resultados de operações anteriores. A partir destas considerações pode-se estabelecer um paradigma inicial de como os adolescentes pensam. Inicialmente organizam os vários elementos dos dados brutos com as técnicas operacionais concretas dos anos intermediários da infância. A seguir estes elementos organizados são transformados em afirmações ou proposições que podem ser combinadas de várias maneiras. Através do método de análise combinatória, eles examinam isoladamente todas as combinações diferentes destas proposições. Para Piaget o pensamento formal é uma orientação generalizada, explicita ou implícita, para solução de problemas: uma orientação no sentido de organizar os dados, isolar e controlar variáveis, formular hipóteses e justificar e provar logicamente os fatos. As operações formais podem ser caracterizadas não só em termos descritivo-verbais gerais, como também em termos das estruturas lógico-matemáticas que são seus modelos abstratos. As operações interposicionais não são ações isoladas sem relações mútuas. Tal como os agrupamentos das operações intraposicionais dos anos intermediários da infância, elas formam um sistema integrado, e o problema consiste em determinar a estrutura formal deste sistema. O conjunto de instrumentos conceituais que Piaget chama de esquemas operacionais formais encontra-se num nível intermediário de generalidade. Grande parte da diferença existente entre o comportamento diário da criança e do adolescente pode ser expressa da seguinte maneira: o adolescente, como a criança vive no presente, mas ao contrário da criança também vive muito na dimensão ausente, isto é, no futuro e o no reino do hipotético. Seu mundo conceitual está povoado de teorias informais sobre si mesmo e sobre a vida, cheio de planos para o seu futuro e o da sociedade, em resumo, cheio de ideias que transcendem a situação imediata, as relações interpessoais atuais, etc. O Pensamento e suas Operações O que surpreende no adolescente é o seu interesse por problemas inabituais, sem relação com as realidades vividas no dia-a-dia, ou por aqueles que antecipam, com uma ingenuidade desconcertante, as situações futuras do mundo, muitas vezes utópicas, com uma facilidade de elaborar teorias abstratas. Existem alguns que escrevem, que criam uma filosofia, uma política, uma estética ou outra coisa. Outros não escrevem, mas falam. Por volta de onze a doze anos efetua-se uma transformação fundamental no pensamento da criança, que marca o término das operações construídas durante a segunda infância; é a passagem do pensamento concreto para o “formal” (hipotético-dedutivo). Quais são na realidade, as condições de construção do pensamento formal? Para criança, trata-se não somente de aplicar as operações aos objetos, ou melhor, de executar, em pensamento, ações possíveis sobre estes objetos, mas de refletir estas operações independentemente dos objetos e de substituí-las por simples proposições. O pensamento concreto é a representação de uma ação possível, e o formal é a representação de uma representação de ações possíveis. As operações formais fornecem ao pensamento um novo poder, que consiste em destacá-lo e libertá- lo do real, permitindo-lhe, assim, construir a seu modo as reflexões e teorias. 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM ADM Realce ADM Realce ADM Realce ADM Realce ADM Realce ADM Realce ADM Realce ADM Realce ADM Realce ADM Realce ADM Realce ADM Realce 5 Processo Adaptativo do Indivíduo As reflexões precedentes poderiam levar a crer que o desenvolvimento mental termina por volta de onze anos ou doze anos, e que a adolescência é simplesmente uma crise passageira, devida à puberdade, que separa a infância da idade adulta. A maturação do instinto sexual é marcada por desequilíbrios momentâneos, que dão um colorido afetivo muito característico a todo este último período da evolução psíquica. Embora o conteúdo exato das ideias do adolescente varie, tanto numa mesma cultura como em culturas diferentes, este fato não deveria obscurecer aquilo que, segundo Piaget, é o denominador comum importante: a criança se ocupa, sobretudo com o presente, com o aqui e a agora, o adolescente amplia seu âmbito conceitual e inclui o hipotético, o futuro e o espacialmente remoto. Esta diferença tem um significado adaptativo. O adolescente começa a assumir papéis adultos; para ele o mundo de possibilidades futuras pessoalmente relevantes - escolha profissional, escolha do cônjuge, etc. - passa a ser o objeto de reflexão mais importante. De modo semelhante, o adulto que ele será em breve deverá relacionar-se intelectualmente com coletividades sociais muito menos concretas e imediatas do que a família e o círculo de amigos: a cidade, o estado, os pais, o sindicato, a igreja, etc. Em geral, o adolescente pretende inserir-se na sociedade dos adultos por meio de projetos, de programas de vida, de sistemas muitas vezes teóricos, de planos de reformaspolíticas ou sociais. A verdadeira adaptação à sociedade vai-se fazer automaticamente quando o adolescente, de reformador, transformar-se em realizador. A experiência reconcilia o pensamento formal com a realidade das coisas, o trabalho efetivo e constante, desde que empreendido em situação concreta e bem definida, cura todos os devaneios. Assim é o desenvolvimento mental, constata-se que a unidade profunda dos processos que da construção do universo prático, devido à inteligência senso-motora do lactente, chega à reconstrução do mundo pelo pensamento hipotético-dedutivo do adolescente, passando pelo conhecimento do universo concreto devido ao sistema de operações da segunda infância. Estas construções sucessivas consistem em descentralização do ponto de vista, imediato e egocêntrico, para situá-lo em coordenação mais ampla de relações e noções, de maneira que cada novo agrupamento terminal integre a atividade própria, adaptando-a a uma realidade mais global. A afetividade liberta-se pouco a pouco do eu para se submeter, graças à reciprocidade e a coordenação dos valores, às leis da cooperação; a afetividade que atribui valor às atividades e lhes regula a energia, mas ela atua em conjunto com a inteligência, que lhe fornece meios e esclarece fins. A Crise de Identidade Própria da Adolescência De acordo com Lepre2, o período da adolescência é marcado por diversos fatores, mas sem dúvida o mais importante é a tomada de consciência de um novo espaço no mundo, a entrada em uma nova realidade que produz confusão de conceitos e perda de certas referências. O encontro dos iguais no mundo dos diferentes é o que caracteriza a formação dos grupos de adolescentes, que se tornarão lugar de livre expressão e de reestruturação da personalidade, ainda que essa fique por algum tempo sendo coletiva. Essa busca do “eu” nos outros na tentativa de obter uma identidade para o seu ego é o que o psicanalista Erik Erikson chamou de “crise de identidade”, o que acarreta angústias, passividade ou revolta, dificuldades de relacionamento inter e intrapessoal, além de conflitos de valores. Para Erikson, o senso de identidade é desenvolvido durante todo o ciclo vital, onde cada indivíduo passa por uma série de períodos desenvolvimentais distintos, havendo tarefas específicas para se enfrentar. A tarefa central de cada período é o desenvolvimento de uma qualidade específica do ego. Para esse autor, dos 13 aos 18 anos a qualidade do ego a ser desenvolvida é a identidade, sendo a principal tarefa adaptar o sentido do eu às mudanças físicas da puberdade, além de desenvolver uma identidade sexual madura, buscar novos valores e fazer uma escolha ocupacional. Segundo Erikson, em termos psicológicos, a formação da identidade emprega um processo de reflexão e observação simultâneas, um processo que ocorre em todos os níveis do funcionamento mental, pelo qual o indivíduo se julga a si próprio à luz daquilo que percebe ser a maneira como os outros o julgam, em comparação com eles próprios e com uma tipologia que é significativa para eles; enquanto que ele julga a maneira como eles o julgam, à luz do modo como se percebe a si próprio em comparação com os demais e com os tipos que se tornaram importantes para ele. 2 LEPRE, R. M. Adolescência e construção da identidade.,2003. 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM ADM Realce ADM Realce ADM Realce ADM Realce ADM Realce ADM Realce ADM Realce ADM Realce ADM Realce ADM Realce ADM Realce ADM Realce ADM Realce ADM Realce ADM Realce ADM Realce 6 Portanto, a construção da identidade é pessoal e social, acontecendo de forma interativa, através de trocas entre o indivíduo e o meio em que está inserido. Esse autor enfatiza, ainda, que a identidade não deve ser vista como algo estático e imutável, como se fosse uma armadura para a personalidade, mas como algo em constante desenvolvimento. Como vimos, entre os aspectos importantes no desenvolvimento da identidade está o controle vital, ou seja, as fases ou períodos da vida que o indivíduo atravessa até chegar à idade adulta, que são marcados por crises apresentadas como situações a serem resolvidas. Como afirma Erikson, entre as indispensáveis coordenadas da identidade está o ciclo vital, pois partimos do princípio de que só com a adolescência o indivíduo desenvolve os requisitos preliminares de crescimento fisiológico, amadurecimento mental e responsabilidade social para atravessar a crise de identidade. De fato, podemos falar da crise de identidade como o aspecto psicossocial do processo adolescente. Desta forma, o grande conflito a ser solucionado na adolescência é a chamada crise de identidade e essa fase só estará terminada quando a identidade tiver encontrado uma forma que determinará, decisivamente, a vida ulterior. É importante entender que o termo crise, adotado por Erikson, não é sinônimo de catástrofe ou desajustamento, mas de mudança; de um momento crucial no desenvolvimento onde há a necessidade de se optar por uma ou outra direção, mobilizando recursos que levam ao crescimento. É no período da adolescência que o indivíduo vai colocar em questão as construções dos períodos anteriores, próprios da infância. Assim, o jovem assediado por transformações fisiológicas próprias da puberdade precisa rever suas posições infantis frente à incerteza dos papéis adultos que se apresentam a ele. A crise de identidade é marcada, também, por uma confusão de identidade, que desencadeará um processo de identificações com pessoas, grupos e ideologias que se tornarão uma espécie de identidade provisória ou coletiva, no caso dos grupos, até que a crise em questão seja resolvida e uma identidade autônoma seja construída. É exatamente essa crise e, consequente confusão, de identidade que fará com que o adolescente parta em busca de identificações, encontrando outros “iguais” e formando seus grupos. A necessidade de dividir suas angústias e padronizar suas atitudes e ideias, faz do grupo um lugar privilegiado, pois nele há uma uniformidade de comportamentos, pensamentos e hábitos. Com o tempo, algumas atitudes são internalizadas, outras não, algumas são construídas e o adolescente, paulatinamente, percebe-se portador de uma identidade que, sem dúvida, foi social e pessoalmente construída. A Adolescência Segundo Piaget3 Ao desenvolver-se o ser humano está em constante processo de evolução que ocorre gradativamente, esse processo se dá a partir de estruturas organizadas que norteiam o processo de desenvolvimento humano, baseando-se principalmente no processo de acomodação e assimilação. Portanto, o aprendizado é um processo gradual no qual o adolescente vai se capacitando seguindo uma sequência lógica. Ao atingir a fase da adolescência, o indivíduo adquire a sua forma final de equilíbrio, ou seja, ele consegue alcançar o padrão intelectual que persistirá durante a idade adulta. Isso não quer dizer que a partir do ápice adquirido, ocorra uma estagnação das funções cognitivas. A teoria de Piaget é um sistema consistente, contínuo e abrangente que possui raízes biológicas comuns com o sistema psicanalítico. Seu principal objetivo é mostrar como o indivíduo vai evoluindo, desde os primeiros meses da vida até adquirir uma solidez e uma consistência próprias que o configuram e distinguem do resto do meio onde está contido. A criança vai aprendendo que as coisas têm diferentes aspectos e como essas características servem para distingui-las e classificá-las: têm formas, têm uma composição interna, são comparáveis, até se chegar a um ponto em que o objeto não só é concebido de acordo com as suas qualidades, mas também é imaginável e previsível em sua transformação futura não- existente. No período das operações formais o indivíduo tem a capacidade de raciocinar com hipóteses verbais e não apenas com objetos concretos, portanto o real é percebido como um caso particular do possível. Logo, o crescimento cognitivose dá através de assimilação e acomodação. O ser humano constrói esquemas de assimilação mentais para abordar a realidade, no processo de assimilação a mente não se modifica, o conhecimento da realidade não é modificado. Entretanto, a teoria do desenvolvimento mental é formada baseada na interação do organismo com o meio, e isso acontece graças a um processo interno de organização e um processo externo de adaptação. Sabemos que as estruturas mentais são todas construídas, ao longo do desenvolvimento do indivíduo, 3 SILVA, P. S. M.; VIANA, M.N; CARNEIRO, S. N. V. O desenvolvimento da adolescência na teoria de Piaget. 2011. 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM ADM Realce ADM Realce ADM Realce ADM Realce ADM Realce ADM Realce ADM Realce ADM Realce ADM Realce ADM Realce ADM Realce 7 neste momento ele interage com o meio utilizando-se dos processos de acomodação e assimilação. Portanto, o que seria essa acomodação e assimilação? A primeira leva o organismo a adaptar-se, para sobreviver, à realidade, e a segunda tende a fazer a realidade adaptar-se às necessidades do organismo. A partir desses processos a criança estrutura sua vida mental, passando pela fase sensório-motora, período pré-conceitual até alcançar o período do pensamento lógico-concreto. Nesta fase que antecede a puberdade, as operações mentais exigem situações concretas, presentes, a fim de se processarem. É devido a maturação e a cooperação com outros indivíduos que a pessoa, na puberdade, é levada ao desenvolvimento da lógica formal, baseada nos símbolos e na ação internalizada ou operação. No período das operações formais, que corresponde ao período da adolescência até chegar a vida adulta, ocorre a passagem do pensamento formal, abstrato, isto é, o adolescente realiza as operações no plano das ideias, sem necessitar de manipulação ou referências concretas, como no período anterior. É capaz de tirar conclusões de puras hipóteses. O livre exercício da reflexão permite ao adolescente, inicialmente, submeter o mundo real aos sistemas e teorias que o seu pensamento é capaz de criar. Isto se vai atenuando de forma crescente, através da reconciliação do pensamento com a realidade, até ficar claro que a função da reflexão não é contradizer, porém se adiantar e interpretar a experiência. Nas relações sociais, o adolescente passa por um processo de se caracterizar por uma fase de interiorização, que pode até no princípio ser identificado como antissocial. Ele se afasta da família, não aceita conselhos dos adultos; contudo, na realidade, o ponto chave de sua reflexão é a sociedade. Depois, ele atinge o equilíbrio entre pensamento e realidade, quando compreende a importância da reflexão para a sua ação sobre o mundo real. No período da afetividade, o adolescente vive conflitos. Deseja libertar-se do adulto, mas ainda depende dele. Deseja ser aceito pelos amigos e pelos adultos. O grupo de amigos é um importante referencial para o jovem, determinando as palavras, as vestimentas e outros aspectos de seu comportamento. Aqui ele começa a estabelecer sua moral individual, que é referencial a moral do grupo. Entretanto, os interesses dos adolescentes são diversos e mutáveis, sendo que a estabilidade chega quando está próximo da idade adulta. Os teóricos da adolescência há muito têm concordado que a transição da segunda infância para a idade adulta é acompanhada pelo desenvolvimento de uma nova qualidade de mente, caracterizada pela forma de pensar sistemática, lógica e hipotética. Questões 01. (Fundação Casa - VUNESP) Pode-se dizer que o período da adolescência (A) favorece a emergência de uma série de problemas e conflitos dentro do contexto familiar. (B) afeta apenas os indivíduos que estão passando por este período, pouco interferindo na família. (C) promove o diálogo no ambiente familiar, dado que o adolescente geralmente reconhece que precisa de orientação. (D) é particularmente difícil para os pais, dado que explicita o quanto precisam ser capazes de se sacrificar pelos filhos. (E) é uma construção teórica que pouco tem a ver com a vivência real da puberdade em termos sociais, psicológicos ou biológicos. 02. (Prefeitura de Cascavel/PR - Agente Comunitário de Saúde - CONSULPLAN) A AIDS na adolescência A adolescência é um período da vida caracterizado por intenso crescimento e desenvolvimento, que se manifesta por transformações físicas, psicológicas e sociais. Ela representa um período de crise, na qual o adolescente tenta se integrar a uma sociedade que também está passando por intensas modificações e que exige muito dele. Dessa forma, o jovem se vê frente a um enorme leque de possibilidades e opções e, por sua vez, quer explorar e experimentar tudo a sua volta. Algumas dessas transformações e dificuldades que a juventude enfrenta, principalmente relacionadas à sexualidade, bem como ao abuso de drogas ilícitas, aumentam as chances dos adolescentes de adquirirem a infecção por HIV, fazendo-se necessária a realização de programas de prevenção e controle da AIDS na adolescência. Estudos de vários países têm demonstrado a crescente ocorrência de AIDS entre os adolescentes, sendo que, atualmente, as taxas de novas infecções são maiores entre a população jovem. Quase metade dos novos casos de AIDS ocorre entre os jovens com idade entre 15 e 24 anos. Considerando que a maioria dos doentes está na faixa dos 20 anos, conclui-se que a grande parte das infecções aconteceu no período da adolescência, uma vez que a doença pode ficar por longo tempo assintomática. 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM ADM Realce ADM Realce ADM Realce ADM Realce ADM Realce ADM Realce ADM Realce ADM Realce ADM Realce ADM Realce ADM Realce ADM Realce ADM Realce 8 Existem algumas características comportamentais, socioeconômicas e biológicas que fazem com que os jovens sejam um grupo propenso à infecção pelo HIV. Dentre as características comportamentais, destaca-se a sexualidade entre os adolescentes. Muitas vezes, a não utilização dos preservativos está relacionada ao abuso de álcool e outras drogas, os quais favorecem a prática do sexo inseguro. Outras vezes os jovens não usam o preservativo quando em relacionamentos estáveis, justificando que seu uso pode gerar desconfiança em relação à fidelidade do casal, apesar de que, no mundo, hoje, o uso de preservativo nas relações poderia significar uma prova de amor e proteção para com o outro. Observa- se, também, que muitas jovens abrem mão do preservativo por medo de serem abandonadas ou maltratadas por seus parceiros. Por outro lado, o fato de estar apaixonado faz com que o jovem crie uma imagem falsa de segurança, negando os riscos inerentes ao não uso do preservativo. Outro fator importante a ser levado em consideração é o grande apelo erótico emitido pelos meios de comunicação, frequentemente direcionado ao adolescente. A televisão informa e forma opiniões, unificando padrões de comportamento, independente da tradição cultural, colocando o jovem frente a uma educação sexual informal que propaga o sexo como algo não planejado e comum, dizendo que “todo mundo faz sexo, mas poucos adoecem”. (Disponível em: http://www.boasaude.com.br/artigos-de-saude/3867/-1/a-aids-na-adolescencia.html. Adaptado. Acesso em: 19/04/2016.) De acordo com as informações textuais sobre a adolescência é correto afirmar que (A) representa um período de crise. (B) ocorre uma explosão de desejos. (C) refere-se a uma fase homogênea. (D) há uma mudança típica de amadurecimento. (E) trata-se de um fenômeno de forte caracterização cultural. 03. (SEDS/TO - Analista em Defesa Social - Pedagogia/FUNCAB) Para Jean Piaget (1941), um adulto que completou seu processo de aprendizagem deveria encontrar-se no estágio de: (A) heteronomia. (B) operações formais (C) operações concretas (D) operações pré-operacionais 04. (Prefeitura de Venda Nova dosImigrantes - Psicólogo/CONSULPLAN) A teoria psicossocial de Erikson avança em oito estágios de desenvolvimento. Os primeiros quatro estágios ocorrem durante o período de bebê e de infância, e os três últimos durante os anos adultos e a velhice. Nos textos de Erikson, é dada uma ênfase especial ao período da adolescência, pois é nele que se faz a transição da infância para a vida adulta. O que ocorre durante esse estágio é da maior importância para a personalidade adulta. A partir dessa conceituação, é correto afirmar que a principal importância dos estudos de Erikson são formulados a partir de: (A) Adolescência, somente. (B) Infância, adolescência e idade adulta. (C) Relação primária do bebê com o mundo. (D) Identidade, crises de identidade e confusão de identidade. 05. (TCU - Auditor Federal de Controle Externo - Psicólogo/CESPE) À luz da teoria de desenvolvimento psicossocial, julgue os itens seguintes. O termo crise de identidade foi cunhado por Erikson, para quem essa crise ocorre a partir da adolescência e tem papel fundamental no fortalecimento ou enfraquecimento da personalidade. ( ) Certo ( ) Errado Gabarito 01.A / 02.A / 03.B / 04.D / 05.Certo Comentários 01. Resposta: A "As mudanças psicológicas que se produzem neste período, e que são a correlação de mudanças corporais, levam a uma nova relação com os pais e com o mundo. Isto só é possível quando se elabora, lenta e dolorosamente, o luto pelo corpo de criança, pela identidade infantil e pela relação com os pais da 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM 9 infância. (...) O adolescente provoca uma verdadeira revolução no seu meio familiar e social e isto cria um problema de gerações nem sempre bem resolvidos." 02. Resposta: A A adolescência é um período da vida caracterizado por intenso crescimento e desenvolvimento, que se manifesta por transformações físicas, psicológicas e sociais. Ela representa um período de crise, na qual o adolescente tenta se integrar a uma sociedade que também está passando por intensas modificações e que exige muito dele. 03. Resposta: B Esse estágio constitui o ápice do desenvolvimento intelectual, Piaget afirmava que as mudanças na maneira como os adolescentes pensam sobre si mesmos, sobre seus relacionamentos pessoais e sobre a natureza da sua sociedade têm como fonte comum o desenvolvimento de uma nova estrutura lógica que ele chamava de operações formais. O pensamento do adolescente se difere do pensamento da criança, ou seja, a criança consegue chegar a utilizar as operações concretas de classes, relações e números, mas não as utiliza num sistema fundido único e total que é caracterizado pela lógica do adolescente. O pensamento liberta-se da experiência direta e as estruturas cognitivas da criança adquirem maturidade. Isso significa que a qualidade potencial do seu pensamento ou raciocínio atinge o máximo quando as operações formais encontram-se plenamente desenvolvidas. 04. Resposta: D É a fase em que mais foram reconhecidas as publicações cientificas de Erik Erikson, reflete a busca do adolescente em encontrar o seu papel na sociedade fato que provoca uma confusão de identidade. A crise de identidade é marcada, por uma confusão de identidade, que desencadeará um processo de identificações com pessoas, grupos e ideologias que se tornarão uma espécie de identidade provisória ou coletiva, no caso dos grupos, até que a crise em questão seja resolvida e uma identidade autônoma seja construída. 05. Resposta: Certo Essa busca do “eu” nos outros na tentativa de obter uma identidade para o seu ego é o que o psicanalista Erik Erikson chamou de “crise de identidade”, o que acarreta angústias, passividade ou revolta, dificuldades de relacionamento inter e intrapessoal, além de conflitos de valores, assim podemos falar da crise de identidade como o aspecto psicossocial do processo adolescente. PSICOLOGIA ESCOLAR: QUESTÕES DE ADOLESCÊNCIA E JUVENTUDE 4"A culpa é dos hormônios." Até há bem pouco tempo, a indisciplina e o comportamento emocionalmente instável dos adolescentes eram atribuídos à explosão hormonal típica da idade. Pesquisas recentes mostram, no entanto, que essa não é a única explicação para a agressividade, a rebeldia e a falta de interesse pelas aulas, que tanto preocupam pais e professores. Nessa fase, o cérebro também passa por um processo delicado, antes desconhecido: as conexões entre os neurônios se desfazem para que surjam novas. Simplificando: o cérebro se "desmonta", reorganiza as partes e em seguida se "monta" novamente, de forma definitiva para a vida adulta. Entre 13 e 19 anos, é comum os jovens apresentarem reações e comportamentos que independem da vontade deles. Portanto, nem sempre palavras ditas de maneira agressiva ou arrogante são fruto da falta de educação. Para quem convive diariamente com turmas dessa faixa etária - que ora parecem estar no mundo da lua, ora com pane no sistema - e quer conquistá-las, a saída é agir de forma firme, mas respeitosa. 5Não adianta bater de frente A primeira "lição" para quem trabalha com adolescentes e jovens é não tomar para o lado pessoal qualquer tipo de afronta vinda de um aluno. Responder a uma provocação no mesmo tom só faz você perder o respeito e a admiração do grupo, o que dificulta o trabalho em classe. Além disso, ao perceber que tirou o professor do sério, o jovem se sente vitorioso e estimulado a repetir a dose. "Educar não é um 4 CAVALCANTE, M. Adolescentes - Entender a cabeça dessa turma é a chave para obter um bom aprendizado, 2004. 5 STRAUCH, B. Como Entender a Cabeça dos Adolescentes. Ed. Campus, 2013. / BOSSA, N.; OLIVEIRA, V. B. Avaliação Psicopedagógica do Adolescente. Ed. Vozes.2013. 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM 10 jogo em que se determina quem vence ou perde", afirma a psicopedagoga Maria Helena Barthollo, do Centro de Estudos da Família, Adolescência e Infância, no Rio de Janeiro. Ela sugere que a luta com a garotada dê lugar a parcerias. Os acordos incluem regras, direitos e limites que valem para todos, inclusive você. O jovem, a partir dos 12 ou 13 anos, está passando por um período de instabilidade psicológica natural. De acordo com a psicopedagoga Nadia Bossa, professora da Universidade Santo Amaro, em São Paulo, nesse período ele revive conflitos típicos da infância. "Aos 2 ou 3 anos, quando a criança percebe sua fragilidade, grita, teima, testa os adultos. Quando a mãe, por exemplo, impõe um limite, ela tem a garantia de que está sendo cuidada", explica. O adolescente faz o mesmo. "Ele testa os limites dos adultos numa tentativa de estabelecer novos parâmetros de poder sobre sua realidade." Considerando a informação, fica mais fácil para você não interpretar reações intempestivas como uma agressão pessoal. O professor de História Renato Mota Duarte, da Escola Municipal de Ensino Fundamental e Médio Derville Allegretti, em São Paulo, já se deu conta de particularidades dessa fase. "Não grito quando os alunos ignoram que eu entrei na sala. Dou bom dia e começo a chamada em voz baixa. Aos poucos eles se acalmam." Mas quando o professor encontra a turma na maior briga? É hora de estabelecer a ordem e ouvir os motivos da discussão. "Não adianta fingir que nada aconteceu porque a cabeça deles está longe da matéria", observa o professor de Ciências e Biologia Jefferson Marcondes de Carvalho, do Colégio Madre Alix, também em São Paulo. Nessas situações, ele age como um intermediário, levando os estudantes a entrar em acordo, mantendo sempre o respeito. Os alunos precisam ter voz Os dois educadores apostam na qualidade do relacionamento com os alunos como um dos fatores determinantes para a aprendizagem. Carvalho organiza oficinas de malabarismo com a turma e Duarte incentivou a grafitagem, depois de encontrar a parede do corredor pichada. Dessa forma, os alunos dele perceberam quetinham liberdade de pedir o que desejavam. "A escola tem que acolher as sugestões dos estudantes, analisá-las e ver se são viáveis. Assim, eles se sentem considerados e respeitados", explica Nadia Bossa. Na escola de Duarte, a cada 15 dias os intervalos têm tempo dobrado, porque os estudantes fazem apresentações musicais para os colegas. O professor também trabalha a interação e o respeito entre os jovens, debatendo assuntos que tanto os inquietam, como sexualidade, drogas, violência e desemprego. Ele costuma atender cada um de seus alunos em particular. "Procuro saber como eles estão se sentindo, os problemas pelos quais estão passando e como é o relacionamento com a família. Deixo que fiquem à vontade para falar." O interesse facilita a aprendizagem Confiança e consideração O professor Renato Duarte, da Escola Derville Allegretti, atende em particular cada um dos alunos, que confidenciam a ele angústias e inseguranças Se os adolescentes admiram e respeitam o professor, ele já tem meio caminho andado para desenvolver os conteúdos curriculares. Para percorrer a outra metade do caminho, é preciso ter boas táticas. Uma das melhores formas de ensinar os jovens é fazer da sala de aula algo bem próximo do mundo deles. Por isso, Duarte fica por dentro da onda hip-hop e aprende parte da linguagem e dos interesses da garotada, enquanto Carvalho assiste à MTV, canal aberto com programação dirigida aos jovens, para saber as novidades. Ambos já sabem que o adolescente só retém na memória o que chama muito a atenção. E a ciência confirma o que eles concluíram no dia-a-dia. Atividades feitas com base em um rap que a moçada adora, por exemplo, permitem que as informações sejam fixadas na memória com mais facilidade. "A música estimula o lobo temporal no cérebro e faz com que os circuitos estabelecidos com o córtex pré-frontal, região que analisa a informação, sejam mais consistentes", afirma a neuropediatra Tania Saad, professora do Instituto Brasileiro de Medicina de Reabilitação, no Rio de Janeiro. O lobo frontal é a região responsável pelas emoções e pelas experiências de vida. Como o cérebro está se reorganizando, o adolescente não tem ideia do que é ou não importante. Por isso, se ele não vê relevância de uma informação para sua vida, o novo dado se perde no turbilhão que é a sua cabeça. Para fazer das aulas algo que instigasse seus alunos da 6ª série, Carvalho recebeu o jogo Super Trunfo com entusiasmo em sala. Na brincadeira, vence quem tem as cartas com carros mais potentes ou velozes. Com base no conteúdo estudado, a meninada bolou o Super Trunfo Animal. Os alunos pesquisaram vertebrados e invertebrados e levantaram uma série de características de diversos bichos. 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM 11 Eles criaram os critérios de pontuação, que variaram conforme a sala. "Numa turma, os animais em extinção venciam porque eram raros. Em outra, eles perdiam porque, se houvesse uma alteração ambiental, seriam os primeiros a morrer", conta Carvalho. Duarte vai pelo mesmo caminho e igualmente relaciona o cotidiano dos alunos aos temas do currículo. "Pedi para eles observarem onde eram fabricados os tênis ou as canetas que usavam. Essa foi a forma de introduzir a discussão sobre a abertura econômica da década de 1990 e os índices de desemprego no Brasil", comenta. "Quando o professor aproxima o conteúdo escolar dos interesses dos alunos, a necessidade de resistir fica em segundo plano", analisa Nadia Bossa. Quando o problema é outro Nem sempre, contudo, atitudes inadequadas do aluno são totalmente justificadas pela fase por que passa. Agressividade ou problemas de socialização podem ter causas mais sérias, com as quais o adolescente não sabe lidar. "Vale o professor ficar atento também à vida familiar do estudante", alerta Tania Saade. "O jovem não tem um bom rendimento escolar se os pais o agridem física ou moralmente." Há ainda alunos que chegam à adolescência com problemas auditivos ou visuais nunca tratados, o que justifica o desinteresse pelas aulas. Outro tipo de caso citado pela neuropediatra é o dos estudantes que não cursaram a Educação Infantil. Nessa etapa da escolarização, o aluno aprende a se socializar e a conviver com regras, além de desenvolver a linguagem oral e a psicomotricidade. "É fundamental o professor estudar o histórico completo do aluno e estar atento ao que se passa com ele fora da escola", recomenda Tania. Trabalhar dessa maneira, conhecendo bem o aluno, fazendo pontes constantes entre o mundo jovem e a matéria a ser dada e driblando o comportamento agitado da turma, requer comprometimento, planejamento apurado e alto grau de paciência. Para não perder o equilíbrio, as especialistas dão uma sugestão importante: deixe seus problemas do lado de fora da sala e não absorva aqueles que surgirem lá dentro. Não é fácil, mas dados os primeiros passos, não só o conteúdo vai ser bem trabalhado como também a formação humana, que justifica a existência da escola. Cada atitude pede uma solução Você evita prejudicar suas aulas quando lida adequadamente com reações típicas da adolescência. Desinteresse- O jovem está mais preocupado com a roupa que vai usar do que com os presidentes da época da ditadura. Tente saber o que passa pela cabeça dele e contemple em suas aulas as dúvidas que traz sobre sexualidade, por exemplo, por meio de dinâmicas, pesquisas ou debates. Para não expor ninguém, procure ter conversas particulares. O estudante precisa sentir que a escola satisfaz suas expectativas. Agressividade- Vandalismo e agressões verbais e físicas, por exemplo, podem ser resposta do jovem ao mundo que o cerca. Cobranças por bom desempenho escolar e por atitudes maduras geram ansiedade e reações inadequadas, já que ele não se sente apto a atender às expectativas. Procure saber como é o relacionamento do aluno com os pais e que ideia faz de si mesmo e de seu futuro. Se ele encontrar na escola um local para expressar seus pensamentos e descobrir suas aptidões, o nível de ansiedade e a agressividade diminuem. Arrogância - O adolescente acha que pode tudo. A ideia de que está sempre certo faz com que ele desdenhe do que é dito ou imposto. Em vez de responder à altura, uma boa solução é questioná-lo. Peça que explique o que tem em mente e pergunte porque usou aquele tom de voz. Para responder, ele vai formular melhor os argumentos. Pode ser que reconheça o erro, mas, mesmo se ele mantiver o que disse, já terá ao menos aprendido a se expressar de forma educada. Rebeldia- Você sugere à turma a apresentação oral de um conteúdo estudado. Responder com um baita "Ah, não!" Geralmente é a primeira reação. Os motivos podem ser insegurança ou mesmo uma forma de se auto afirmar frente aos colegas. O problema é quando a negação vem de forma brusca. O melhor a fazer, nesse caso, é não entrar no embate já que o jovem testa os mais velhos para ver até onde pode ir. Ao falar o que é necessário e deixar claro o papel de cada um, você conquista o respeito deles pelo bom exemplo. 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM 12 Resistência- O jovem quer experimentar tudo, viver tudo, saber de tudo. Só que tem sempre um adulto dizendo o que ele não pode fazer. Mesmo que essas sejam orientações sensatas, é preciso compreender que sensatez ainda não é uma qualidade que eles valorizam. O adulto é quem impede as coisas que dão prazer. Por isso a resistência ao que vem do professor ou dos pais (e nisso se inclui o conteúdo escolar). Antes de começar a aula, por que não bater um papo rápido sobre algo que interessa à moçada. Aberto o espaço, os jovens baixam a guarda e percebem que para tudo tem hora. A neurologia explica Tudo o que pode parecer estranho no comportamento dos adolescentes e jovens têm explicação neurológica. A falta de interesse pelas aulas, por exemplo, é consequência de uma revolução nas sinapses (conexõesentre as células cerebrais, ou seja, neurônios). Nessa etapa da vida, uma série de alterações ocorre nas estruturas mentais do córtex pré-frontal, área responsável pelo planejamento de longo prazo e pelo controle das emoções, daí a explicação para ações intempestivas e às vezes irresponsáveis. Por volta dos 12 ou 13 anos, o cérebro entra num processo de reconstrução. "É o que eu chamo de 'poda' das sinapses para que outras novas ocupem o seu lugar", afirma o psiquiatra Jorge Alberto da Costa e Silva, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), que estuda essas alterações na Escola Médica de Nova York. Segundo Silva, o cérebro faz uma limpeza de conexões que não têm mais utilidade, como as que surgiram para que a criança aprendesse a andar ou a falar, por exemplo, e abre espaço a novas. Grosso modo, funciona assim: quanto mais são usadas, mais as conexões se desenvolvem e amadurecem. Imagine que para tocar um instrumento o indivíduo necessite de algumas sinapses. Quanto mais ele pratica, mais "fortes" ficam as conexões. Se não são usadas, elas ficam lá só ocupando espaço e são descartadas na adolescência. Ao mesmo tempo, o que a pessoa aprende nesse período fica para a vida inteira. Esse intenso processo de monta e desmonta remodela toda a estrutura básica cerebral. Por isso, afeta "desde a lógica e a linguagem até os impulsos e a intuição", explica a jornalista Barbara Strauch, editora de medicina do jornal norte-americano The New York Times e autora do livro Como Entender a Cabeça dos Adolescentes, que apresenta as últimas pesquisas sobre o assunto. Questões 01. Considere a afirmação: Tudo o que pode parecer estranho no comportamento dos adolescentes e jovens têm explicação neurológica. A falta de interesse pelas aulas, por exemplo, é consequência de uma revolução nas sinapses.” ( )Certo ( )Errado Gabarito 01.Certo Comentários 01.Respostas: Certo Tudo o que pode parecer estranho no comportamento dos adolescentes e jovens têm explicação neurológica. A falta de interesse pelas aulas, por exemplo, é consequência de uma revolução nas sinapses, ou seja, nas conexões entre as células cerebrais, denominadas como neurônios. Pois, nessa etapa da vida, uma série de alterações ocorre nas estruturas mentais do córtex pré-frontal, área responsável pelo planejamento de longo prazo e pelo controle das emoções, daí a explicação para ações intempestivas e às vezes irresponsáveis. 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM ADM Realce ADM Realce ADM Realce ADM Realce ADM Realce ADM Realce 13 CARACTERÍSTICAS E NECESSIDADES BÁSICAS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE Concepção de criança e de pedagogia da Educação Infantil De acordo com os Parâmetros Curriculares6, a criança é um sujeito social e histórico que está inserido em uma sociedade na qual partilha de uma determinada cultura. É profundamente marcada pelo meio social em que se desenvolve, mas também contribui com ele. A criança, assim, não é uma abstração, mas um ser produtor e produto da história e da cultura. Olhar a criança como ser que já nasce pronto, ou que nasce vazio e carente dos elementos entendidos como necessários à vida adulta ou, ainda, a criança como sujeito conhecedor, cujo desenvolvimento se dá por sua própria iniciativa e capacidade de ação, foram, durante muito tempo, concepções amplamente aceitas na Educação Infantil até o surgimento das bases epistemológicas que fundamentam, atualmente, uma pedagogia para a infância. Os novos paradigmas englobam e transcendem a história, a antropologia, a sociologia e a própria psicologia resultando em uma perspectiva que define a criança como ser competente para interagir e produzir cultura no meio em que se encontra. Essa perspectiva é hoje um consenso entre estudiosos da Educação Infantil. A interação a que se referem os autores citados não é uma interação genérica. Trata-se de interação social, um processo que se dá a partir e por meio de indivíduos com modos histórico e culturalmente determinados de agir, pensar e sentir, sendo inviável dissociar as dimensões cognitivas e afetivas dessas interações e os planos psíquico e fisiológico do desenvolvimento decorrente. Nessa perspectiva, a interação social torna-se o espaço de constituição e desenvolvimento da consciência do ser humano desde que nasce. Muitas vezes vista apenas como um ser que ainda não é adulto, ou é um adulto em miniatura, a criança é um ser humano único, completo e, ao mesmo tempo, em crescimento e em desenvolvimento. É um ser humano completo porque tem características necessárias para ser considerado como tal: constituição física, formas de agir, pensar e sentir. É um ser em crescimento porque seu corpo está continuamente aumentando em peso e altura. É um ser em desenvolvimento porque essas características estão em permanente transformação. As mudanças que vão acontecendo são qualitativas e quantitativas— o recém-nascido é diferente do bebê que engatinha, que é diferente daquele que já anda, já fala, já tirou as fraldas. O crescimento e o desenvolvimento da criança pequena ocorrem tanto no plano físico quanto no psicológico, pois um depende do outro. Embora dependente do adulto para sobreviver, a criança é um ser capaz de interagir num meio natural, social e cultural desde bebê. A partir de seu nascimento, o bebê reage ao entorno, ao mesmo tempo em que provoca reações naqueles que se encontram por perto, marcando a história daquela família. Os elementos de seu entorno que compõem o meio natural (o clima, por exemplo), social (os pais, por exemplo) e cultural (os valores, por exemplo) irão configurar formas de conduta e modificações recíprocas dos envolvidos. No que diz respeito às interações sociais, ressalta-se que a diversidade de parceiros e experiências potencializa o desenvolvimento infantil. Crianças expostas a uma gama ampliada de possibilidades interativas têm seu universo pessoal de significados ampliado, desde que se encontrem em contextos coletivos de qualidade. Essa afirmativa é considerada válida para todas as crianças, independentemente de sua origem social, pertinência étnico- racial, credo político ou religioso, desde que nascem. Por sua vez, a visão da criança como ser que é também parte da natureza e do cosmo merece igualmente destaque, especialmente se considerarmos as ameaças de esgotamento de recursos em nosso planeta e as alterações climáticas evidentes nos últimos anos. Conforme alerta Tiriba (2005), os seres humanos partilham a vida na Terra com inúmeras espécies animais, vegetais e minerais, sem as quais a vida no planeta não pode existir. Essas espécies, por sua vez, interagem permanentemente, estabelecendo-se um equilíbrio frágil e instável entre todos os seres que habitam o ar, a água dos rios, dos lagos e dos mares, os campos, as florestas e as cidades, em nosso sistema solar e em todo o universo. A intenção de aliar uma concepção de criança à qualidade dos serviços educacionais a ela oferecidos implica atribuir um papel específico à pedagogia desenvolvida nas instituições pelos profissionais de Educação Infantil. Captar necessidades que bebês evidenciam antes que consigam falar, observar suas reações e iniciativas, interpretar desejos e motivações são habilidades que profissionais de Educação Infantil precisam desenvolver, ao lado do estudo das diferentes áreas de conhecimento que incidem sobre essa faixa etária, a fim de subsidiar de modo consistente as decisões sobre as atividades desenvolvidas, o formato de organização do espaço, do tempo, dos materiais e dos agrupamentos de crianças. 6 http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/Educinf/eduinfparqualvol1.pdf 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM ADM Realce ADM Realce ADM Realce ADM Realce ADM Realce ADM Realce ADM Sublinhado ADM Realce 14 Pesquisas realizadas desde a década de 1970 enfatizam que todas as criançaspodem aprender, mas não sob qualquer condição. Antes mesmo de se expressarem por meio da linguagem verbal, bebês e crianças são capazes de interagir a partir de outras linguagens (corporal, gestual, musical, plástica, faz- de-conta, entre outras) desde que acompanhadas por parceiros mais experientes. Apoiar a organização em pequenos grupos, estimulando as trocas entre os parceiros; incentivar a brincadeira; dar- lhes tempo para desenvolver temas de trabalho a partir de propostas prévias; oferecer diferentes tipos de materiais em função dos objetivos que se tem em mente; organizar o tempo e o espaço de modo flexível são algumas formas de intervenção que contribuem para o desenvolvimento e a aprendizagem das crianças. As iniciativas dos adultos favorecem a intenção comunicativa das crianças pequenas e o interesse de umas pelas outras, o que faz com que aprendam a perceber-se e a levar em conta os pontos de vista dos outros, permitindo a circulação das ideias, a complementação ou a resistência às iniciativas dos parceiros. A oposição entre parceiros, por exemplo, incita a própria argumentação, a objetivação do pensamento e o recuo reflexivo das crianças. Ao se levar em conta esses aspectos, não se pode perder de vista a especificidade da pedagogia da Educação Infantil, como afirma Rocha: Enquanto a escola tem como sujeito o aluno, e como objeto fundamental o ensino nas diferentes áreas através da aula; a creche e a pré-escola têm como objeto as relações educativas travadas num espaço de convívio coletivo que tem como sujeito a criança de 0 até 6 anos de idade. É importante destacar que essas relações educativas, às quais a autora se refere, na instituição de Educação Infantil são perpassadas pela função indissociável do cuidar/educar, tendo em vista os direitos e as necessidades próprios das crianças no que se refere à alimentação, à saúde, à higiene, à proteção e ao acesso ao conhecimento sistematizado. Este último aspecto torna-se especialmente relevante no caso das creches no Brasil, onde em muitas delas ainda predomina um modelo de atendimento voltado principalmente à alimentação, à higiene e ao controle das crianças, como demonstra a maioria dos diagnósticos e dos estudos de caso realizados em creches brasileiras. Essa afirmação evidencia a não-superação do caráter compensatório da Educação Infantil denunciado por Kramer que ainda se manifesta nos dias atuais, como também a polarização assistência versus educação, apontada insistentemente por Kuhlmann Jr. Sabemos que não basta apenas transferir as creches para os sistemas de ensino, pois “na sua história, as instituições pré-escolares destinaram uma educação de baixa qualidade para as crianças pobres, e isso é que precisa ser superado”. Assim, a ênfase na apropriação de significados pelas crianças, na ampliação progressiva de conhecimentos de modo contextualizado, com estratégias apropriadas às diferentes fases do desenvolvimento infantil, parece bastante justificada. Da mesma forma que defendemos uma perspectiva educacional que respeite a diversidade cultural e promova o enriquecimento permanente do universo de conhecimentos, atentamos para a necessidade de adoção de estratégias educacionais que permitam às crianças, desde bebês, usufruírem da natureza, observarem e sentirem o vento, brincarem com água e areia, atividades que se tornam especialmente relevantes se considerarmos que as crianças ficam em espaços internos às construções na maior parte do tempo em que se encontram nas instituições de Educação Infantil. Criando condições para que as crianças desfrutem da vida ao ar livre, aprendam a conhecer o mundo da natureza em que vivemos, compreendam as repercussões das ações humanas nesse mundo e sejam incentivadas em atitudes de preservação e respeito à biodiversidade, estaremos difundindo uma concepção de educação em que o ser humano é parte da natureza e não seu dono e senhor absoluto. Os aspectos anteriormente abordados devem ser considerados no processo de discussão e elaboração de diretrizes pedagógicas dos sistemas de ensino e das propostas pedagógicas das instituições de Educação Infantil. Vale ressaltar a relevância da participação dos professores, dos demais profissionais da instituição e da comunidade nesse processo, não só para que os aspectos citados sejam efetiva- mente considerados no desenvolvimento da proposta como também para cumprir a legislação. Em síntese, para propor parâmetros de qualidade para a Educação Infantil, é imprescindível levar em conta que as crianças desde que nascem são: - Cidadãos de direitos; - Indivíduos únicos, singulares; - Seres sociais e históricos; - Seres competentes, produtores de cultura; - Indivíduos humanos, parte da natureza animal, vegetal e mineral. Por sua vez, as crianças encontram-se em uma fase de vida em que dependem intensamente do adulto para sua sobrevivência. 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM ADM Realce ADM Realce ADM Realce 15 Precisam, portanto, ser cuidadas e educadas, o que implica, - Ser auxiliadas nas atividades que não puderem realizar sozinhas; - Ser atendidas em suas necessidades básicas físicas e psicológicas; - Ter atenção especial por parte do adulto em momentos peculiares de sua vida. Além disso, para que sua sobrevivência esteja garantida e seu crescimento e desenvolvimento sejam favorecidos, para que o cuidar/educar sejam efetivados, é necessário que sejam oferecidas às crianças dessa faixa etária condições de usufruírem plenamente suas possibilidades de apropriação e de produção de significados no mundo da natureza e da cultura. As crianças precisam ser apoiadas em suas iniciativas espontâneas e incentivadas a: - Brincar; - Movimentar-se em espaços amplos e ao ar livre; - Expressar sentimentos e pensamentos; - Desenvolver a imaginação, a curiosidade e a capacidade de expressão; - Ampliar permanentemente conhecimentos a respeito do mundo da natureza e da cultura apoiadas por estratégias pedagógicas apropriadas; - Diversificar atividades, escolhas e companheiros de interação em creches, pré-escolas e centros de Educação Infantil. A criança, parte de uma sociedade, vivendo em nosso país, tem direito: - À dignidade e ao respeito; - Autonomia e participação; - À felicidade, ao prazer e à alegria; - À individualidade, ao tempo livre e ao convívio social; - À diferença e à semelhança; - À igualdade de oportunidades; - Ao conhecimento e à educação; - A profissionais com formação específica; - A espaços, tempos e materiais específicos Desenvolvimento da Criança e do Adolescente Quanto às crianças e os adolescentes verifica-se uma mudança de concepção e tratamento dispensados aos mesmos, tanto no aspecto relacionado às relações de conduta (legal) como no aspecto sóciopsicológico (familiar e social). Em relação às regras de condutas, a trajetória histórica das Constituições Federais bem como da legislação na área menorista, demonstram esta evolução, cujo ápice, em nível nacional, pode ser traduzido pela Constituição Federal de 1988 e o pelo Estatuto da Criança e do Adolescente. O ECA dentro desta perspectiva representa o instrumento legal para o desenvolvimento da criança e do adolescente. Trata-se de uma verdadeira constituição infanto-juvenil, pois regulamenta os direitos fundamentais das crianças e dos adolescentes, como direito à vida, à saúde, à educação, à convivência familiar e comunitária, ao lazer e profissionalização. Comparando a atual legislação com as passadas que disciplinavam a matéria, verifica-se que se rompeu com um passado marcado pela discriminação e violência, colocando a criança e o adolescente no lugar que merecem, ou seja, como prioridade absoluta, para o governo, para a família e para a sociedade em geral. Assim, o desenvolvimento da criança e do adolescente, dentro de uma perspectiva legal, implica em ações que venham contemplar o que estabelece a lei, em especial, no que diz respeitoà família, educação, esporte e ao lazer. No aspecto sóciopsicológico, a concepção de criança e de adolescente também sofreu evolução. Na antiguidade, a criança era caracterizada por uma ideia de ser inacabado e que os primeiros anos de existência fazia parte de um período insignificante de sua vida. Até o século XVIII, a criança foi tida como estranha e era desprezada por seus próprios pais naturais que as tinham como estorvo. A ordem era se livrar das crianças sem qualquer sentimento de culpa. Esta situação somente foi desaparecendo com o surgimento da família burguesa, quando então as crianças são incorporadas no grupo e se desenvolve o amor materno. No entanto, o aparecimento da família burguesa mudou em parte este cenário, pois se antes dela todas as crianças, ricas ou pobres estavam sujeitas ao abandono, com o seu surgimento, passam a ser exposto o diferente, o pobre e o marginalizado. 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM ADM Realce 16 A mudança em relação à concepção de criança foi gradativa e lenta. Somente nas “últimas duas décadas do século passado é que a infância passou a ser reconhecida como a fase do desenvolvimento pessoal onde se encontram as melhores qualidades humanas”, chegando a contemplar as crianças e os adolescentes como sujeitos de direitos. Esta evolução ocorreu diante das transformações verificadas na organização familiar, que culminou com a família moderna, é na evolução da própria sociedade. Hoje, diante do mundo globalizado e da atual concepção de criança e adolescente, torna a mesma o centro das atenções para ações que venham a proporcionar-lhes um “desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social, em condições de liberdade e dignidade” (ECA. art. 3º). Revela-se importante para cumprir tal desiderato à família e a educação. Educação A evolução e mudança, típica da globalização, fez ampliar o reconhecimento da educação como forma de promoção do desenvolvimento sustentável para a superação das desigualdades sociais. Por conseguinte, a escola passou a desempenhar um novo papel, diferente daquele que realizava, não mais se limitando a ensinar a ler, a escrever e a fazer cálculos aritméticos, reconhecendo, ainda, sua importância na construção da cidadania infanto-juvenil. O professor também teve o seu papel redesenhado para atender a estas novas exigências, com novas atribuições, compatíveis (e em certas situações até incompatível) com este processo evolutivo. Diante deste movimento global, exige-se uma nova maneira de pensar a respeito do papel da escola e do professor. Em outros termos: o que se espera da escola e do professor no mundo atual. Que iniciativas poderão tomar nesta perspectiva de desenvolvimento da criança e do adolescente para o futuro. Quanto à escola, diante desta evolução e do mundo globalizado, DI GIORGIO esclarece qual seria a orientação a ser seguida: “A escola deve avançar no sentido de ser legitimamente, institucionalmente e no imaginário social, uma entidade que cumpra socialmente uma função de dinamizadora cultural e social do seu entorno e é a partir do cumprimento dessa função mais ampla que ela poderá efetivamente atuar eficazmente no sentido de não mais instruir, mas educar crianças, jovens, adolescentes e também adultos”. Também aponta para esse sentido o Parecer nº CNE/CP 009, aprovado em 08 de maio de 2001, do Conselho Nacional de Educação, que trata das Diretrizes Curriculares Nacionais para a formação de Professores de educação básica, em nível superior, que enseja este novo contexto: Reforça a concepção de escola voltada para a construção de uma cidadania consciente e ativa que ofereça aos alunos as bases culturais que lhes permitam identificar-se e posicionar-se frente às transformações em curso e incorporar-se na vida produtiva e sócio-política. Novas tarefas passam a se colocar à escola, não porque seja a única instância responsável pela educação, mas, por ser a instituição que desenvolve uma prática educativa planejada e sistemática durante um período continuo e extenso de tempo na vida das pessoas. E, também, porque é reconhecida pela sociedade como a instituição de aprendizagem e de contato com o que a humanidade pôde produzir como conhecimento, tecnologia e cultura. O ECA também vai nessa direção quando traça os objetivos da educação previstos no artigo 53, que são: a) pleno desenvolvimento da criança e do adolescente; b) preparo para o exercício da cidadania; c) qualificação para o trabalho. Mas para atingir tal desiderato, revela DI GIORGIO a necessidade da ocorrência de diversos fatores, como: a escola deverá ser antes de tudo formativa; que o processo educativo deverá dar conta de problemas reais; a necessidade de uma maior proximidade das escolas com a Universidade; a escola terá que receber mais verbas e utilizar, de forma mais efetiva, as novas tecnologias; desenvolver a capacidade dos alunos de ensinar; as escolas deverão aumentar os espaços de comunicação (intercâmbios) e menor número de alunos por professor. Também deverá ter relevância a formação do professor que deve considerá-lo como um profissional reflexivo, que é chamado a desempenhar o papel de verdadeira liderança intelectual no sentido mais amplo da expressão. É necessário que o professor deixe de se ver como professor de uma determinada disciplina, para se ver como um educador. Neste particular, constata-se que a globalização, atinge o professor, já que a tecnicidade (assim entendida como “atividade profissional, sobretudo, instrumental, dirigida para a solução de problemas 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM ADM Realce 17 mediante a aplicação rigorosa de teorias e técnicas cientificas”), própria da formação do professor na década de 70, não mais atende às exigências atuais de um mundo conectado. Isto porque esta globalização, que envolve mudanças de caráter social, política, econômica e legal, cria situações incertas e variáveis que não encontram respaldo no modelo tecnicista empregado. Em outros termos, o professor, como trabalhador inserido neste novo contexto, está suportando os reflexos das mudanças paradigmáticas que estão refletindo em sua atuação profissional, com uma concepção diferenciada do modelo até então concebido. Ademais, com a democratização da educação, típica do modelo socioeconômico atual, com um sistema de ensino de massas, o significado atual das instituições escolares, exige um novo posicionamento do professor. Pois, o ensino em massa, para “escolarizar cem por cento das crianças de um país implica pôr na escola cem por cento das crianças com dificuldades, cem por cento das crianças agressivas, cem por cento das crianças conflituosas, em suma, cem por cento de todos os problemas sociais pendentes que se convertem assim em problemas escolares”. O mundo globalizado apresenta, ao professor, uma nova realidade decorrente de seus avanços, como a informação compartilhada e a cidadania global. O professor deve lidar com a informação, como parte de seu conhecimento, que não deve se limitar a ela e trabalhar em prol da construção de uma nova ordem cidadã. Estas mudanças sociais, políticas, econômicas e legais transformaram, profundamente, as relações estabelecidas com a escola, o professor, os alunos, os pais e a sociedade em geral. Interferiram no trabalho, na imagem social e no valor que a sociedade atribui a educação (escola) e ao professor. Diante desta nova ordem, da terceira revolução industrial, desta sociedade pós-moderna, ou em rede, à educação, muitas vezes é concebida como uma panaceia, onde está sendo creditada a redenção do mundo, a harmonia dos povos, a solução da pobreza, a eliminação dos males que afligem a humanidade, transferindo-se, ao professor, este viés redentor, posto que um dos responsáveis pelo desenvolvimento do sistema educativo. Nesse sentido, “há uma retórica cada vez mais abundante sobre o papel fundamentalque os professores são chamados a desempenhar na construção da sociedade do futuro”. A importância da educação e dos professores nesses desafios é sempre lembrada, “ou porque lhes cabe formar os recursos humanos necessários ao desenvolvimento econômico, ou porque lhes compete formar as gerações do século XXI, ou porque devem preparar os jovens para a sociedade da informação e da globalização, ou por qualquer outra razão, os professores voltam a estar no centro das preocupações políticas e sociais”. Nesse sentido, vale lembrar que o professor não deve estar sozinho. A família e a própria sociedade são corresponsáveis deste processo educativo para o completo desenvolvimento da criança e do adolescente, numa perspectiva de futuro melhor. Família A família, como corresponsável pela educação e pela efetivação dos direitos fundamentais das crianças e dos adolescentes, também é chamada para assumir o seu relevante papel, numa perspectiva de um futuro melhor para os filhos. Mas a família também sofreu evolução decorrente desta nova ordem socioeconômica. Da família nuclear burguesa, calcada na monogamia e no trabalho doméstico da mulher, seguiu-se para a família patriarcal, caracterizada por uma hierarquia vertical, centrada no matrimônio. Hoje, experimenta-se um novo modelo familiar, ou seja, a família nuclear moderna, caracterizada pelo ingresso da mulher no mercado de trabalho; a igualdade de direitos entre os cônjuges com divisão de tarefas na vida comum; o casamento não se apresenta como fonte primária de procriação com liberdade na questão da filiação e as relações se firmam numa linearidade. A garantia da convivência familiar não é uma obrigação imposta somente à mulher e passa a ser compartilhada com o homem, quando da vida comum. Nesse sentido arremata BADINTER: “... de agora em diante, as mulheres obrigarão os homens a serem bons pais, a dividirem equitativamente não só os prazeres como também os encargos, as angustias e os sacrifícios da maternidade”. Ocorre que nem sempre a família acaba por desempenhar este papel, transferindo o encargo aos outros responsáveis, sociedade ou o Poder Público. Especificamente em relação à questão educacional, este problema é visível. As mudanças ocorridas na sociedade obrigaram a mãe, que geralmente desempenhava este papel educativo, a assumir outras atribuições como mão de obra indispensável para a garantia do sustento familiar. E como decorrência desta nova ordem “são cometidas à escola maiores responsabilidades 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM 18 educativas, nomeadamente no que diz respeito a um conjunto de valores básicos que, tradicionalmente, eram transmitidos na esfera familiar” . Assim, se antes se ouvia dizer que a escola era nosso segundo lar, hoje, muitas vezes ela representa o primeiro lar, onde são transmitidos conceitos básicos de educação, valores e princípios, anteriormente transmitidos pelos pais. O professor torna-se, muitas vezes, o referencial familiar de muitas crianças. Não porque ele queira, mas porque as famílias não estão mais desempenhando seus papéis. Pensar no futuro das crianças e dos adolescentes é pensar no papel da família na atualidade. Toda e qualquer iniciativa que venha a contemplá-la, dando-lhe assistência, apoio e orientação, traduz numa forma de se buscar o desenvolvimento adequado das crianças e dos adolescentes. Lazer O esporte e o lazer enquadram-se dentro desta perspectiva de um futuro melhor para criança e adolescente. A Constituição Federal (art. 227) reconheceu expressamente esta situação, apontando como um direito fundamental da criança e do adolescente. E políticas públicas nesse sentido devem ser desenvolvidas para que se possa oferecer à população infanto-juvenil oportunidades de se desenvolverem neste aspecto. O mundo do futuro, leva muitos incautos a se preocuparem com a formação intelectual e moral das crianças e dos adolescentes, contemplando-os com uma gama infindável de atividades para o seu “completo desenvolvimento”. Cada vez mais são atribuídas à população infanto-juvenil atividades que a levariam a um lugar de destaque diante da competitividade. Se antes era necessário apreender uma língua estrangeira, hoje, são necessários duas. Hoje é indispensável os conhecimentos de informática, cursos complementares, pós-graduação, etc. O mundo está nos levando a uma preocupação incessante com o futuro, que acabamos por ignorar o presente. E o presente deve contemplar, não somente as atividades intelectuais, mas também àquelas que levam ao desenvolvimento sadio e harmonioso da criança e do adolescente. Nesse sentido é que a legislação não ignorou a questão do esporte e do lazer. Elas fazem parte do desenvolvimento infanto- juvenil e se apresentam como um antídoto das questões oriundas da globalização. O desenvolvimento de uma criança ou adolescente encontra na família e na educação (incluindo esporte e lazer) o seu elemento básico e fundante. Garantir as famílias apoio, orientação, formação, promoção e sustentação, através de políticas sociais públicas e programas, apresenta-se indispensável, constituindo fator decisivo para a garantia dos direitos fundamentais da criança e do adolescente. Quanto à educação, uma mudança de concepção quanto ao papel da escola e uma adequada formação do professor vem contemplar este processo de desenvolvimento das crianças e dos adolescentes. Pois, não obstante a transformações ocorridas na sociedade, no campo social, econômico, cultural, ético e político, permanece o consenso em torno da família e da educação como espaços privilegiados para o desenvolvimento da criança e do adolescente. Trata-se da base necessária e insubstituível capaz de transformar crianças em cidadãos do mundo. Conceito de Adolescência7 Se buscarmos a definição de adolescência, vamos descobrir que a origem da palavra vem do Latim “Adolescentia”, que significa período da vida humana entre a infância e a fase adulta. Vamos encontrar ainda quem defina adolescência como uma fase natural da vida marcada pelas transformações biológicas e comportamentais. Alguns pesquisadores vão entender e descrever a adolescência como um processo de construção social e histórico como sugerido no artigo “Adolescência como uma construção social – Ana Bock”. A Organização Mundial de Saúde (OMS) define adolescência como sendo o período da vida que começa aos 10 anos e termina aos 19 anos completos. Para a OMS, a adolescência é dividida em três fases: - Pré-adolescência – dos 10 aos 14 anos, - Adolescência – dos 15 aos 19 anos completos - Juventude – dos 15 aos 24 anos. 7 http://www.adolescencia.org.br/site-pt-br/adolescencia 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM 19 No Brasil, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) considera a adolescência, a faixa etária dos 12 até os 18 anos de idade completos, sendo referência, desde 1990, para criação de leis e programas que asseguram os direitos desta população. Como vimos, são muitas as definições que tentam explicar a adolescência. Algumas definições utilizam conceitos (embasados em estudos da psicologia, da educação, da filosofia, da medicina), outras definições utilizam recortes etários como é o caso da OMS. É importante saber que os conceitos existem e atendem a objetivos específicos de programas, pesquisas e políticas públicas. Entretanto não podemos reduzir esse período do desenvolvimento humano aos conceitos que os caracterizam, exatamente porque estamos falando de seres humanos, não é mesmo? O que sabemos atualmente, é que a adolescência é o resultado de uma construção social, significada historicamente, que hoje se caracteriza, por exemplo, pela ampliação da tutela dos(as) filhos(as) em suas famílias. Ou seja, observando o contexto social, econômico e cultural do momento que vivemos hoje, os/as adolescentes, em geral, precisam de um período maior de estudos e decapacitação profissional para entrada no mercado de trabalho, o que exige deles e delas um tempo maior de dependência das famílias. Não podemos negar também que este período é marcado pelas transformações biológicas e comportamentais. E são essas mudanças que, muitas vezes, determinam a maneira como a sociedade olha para os(as) adolescentes e cria formas de agir com eles e elas, como por exemplo: a proibição do trabalho antes dos 16 anos, a tutela dos pais até os 18 anos, todo adolescente é “aborrescente” e tantas outras formas que acabam caracterizando, ou melhor, rotulando esse período da vida. Esta discussão, sobre a construção histórica do conceito de adolescência, é importante porque possibilita a mudança de olhar para a própria adolescência e para o/a adolescente É importante desconstruir a visão de adolescência como uma fase de crise e olhar criticamente para o perfil rotulado do adolescente visto como “aborrecente”, intolerante, irresponsável, rebelde etc. Características Psicológicas da Adolescência 1. No aspecto psicológico: 1.1. O adolescente nesta etapa vive no seu mundo interior. Para conhecer a própria personalidade, as suas ideias e ideais, compara-se com o mundo dos outros. 1.2. Dá impressão de apatia devido à preocupação repousada e reflexiva pelos próprios estados anímicos. 1.3. Esta interiorização abarca também as esferas intelectuais, filosóficas e estéticas, enchendo a sua vida com estas teorias. 1.4. As características mais próprias deste período, são: a) Crescente consciência e conhecimento do “eu”. b) Nascimento da independência. c) Adaptação progressiva aos núcleos sociais da família, escola e comunidade em geral. 1.5. O espírito de independência cresce rapidamente, mas é imaturo ainda e manifesta-se com brusquidão e agressividade. 1.6. Independência e liberdade são a sua constante exigência. 1.7. Opõe-se, portanto, a que o tenham sujeito ou lhe perguntem sobre os seus assuntos, projetos, amigos com quem anda, ou a que se imiscuam na sua vida privada. 1.8. É capaz de albergar sentimentos de rancor, vingança e violência, embora de modo esporádico e sejam pouco duradoiros. 1.9. Manifesta uma grande preocupação por pormenores e gestos que observa na pessoa a quem imita e idealiza. 1.10. Interessa-lhe e procura conhecer a própria personalidade, mas é mais observador em relação à dos outros, tanto dentro como fora do núcleo familiar. 1.11. Aos 16 anos, o adolescente é já um pré-adulto, possui uma mente mais segura, porque está melhor ordenada e controlada. 1.12. Manifesta uma maior confiança em si mesmo e uma autonomia mais arraigada. 1.13. Em geral, domina perfeitamente as próprias emoções, possuindo um maior equilíbrio. 1.14. Valoriza mais os motivos pessoais dos outros, sejam colegas ou adultos, e pensa mais neles, pois apercebe-se de que o segredo da sua própria felicidade se encontra relacionada com a vida dos outros. 1.15. Sente-se mais livre e independente do que aos 15 anos, por isso já não o preocupa tanto esta exigência. 2. Conduta social em relação com a vida escolar: 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM ADM Realce ADM Realce 20 2.1. Aos 15 anos, em geral, manifestam uma atitude hostil para com a escola, vão contra as exigências e normas rígidas. 2.2. Revoltam-se às vezes contra a autoridade, em geral, não individualmente mas em grupo. 2.3. Entre os 15 e os 16 anos, começam-se a interessar novamente pelo estudo sempre que for interessante e vital para a sua experiência o conteúdo instrutivo, como por exemplo a Religião, as Ciências Sociais, etc. 2.4. Integram-se na comunidade escolar, participando nas atividades que a escola oferece. 2.5. Às vezes a vida escolar converte-se em válvula de escape, em meio para afrouxar as ataduras familiares. 2.6. No âmbito escolar, põem-se de manifesto certas diferenças individuais, académicas e sociais, relacionadas com a capacidade de liderança, o talento e as atitudes intelectuais. 3. Atitudes das pessoas implicadas na sua educação 3.1. É necessária uma atitude de abertura e de conhecimento das fases desta idade, para evitar atitudes inadequadas para com os filhos, o endurecimento da autoridade e o não reconhecer ao adolescente qualquer tipo do direito. Isto, unido à conduta do próprio adolescente, provoca choques violentos. 3.2. Deve-se aceitar a emancipação progressiva dos filhos, e incluso favorecê-la, para os ajudar a serem livres e a manifestarem-se como tais. 3.3. A existência da crise tem a sua origem num problema afetivo, por isso temos de favorecer no adolescente a criação de vínculos familiares, ambientais, … (amor a Deus, à Pátria …). 3.4. Devem sentir-se realizados numa atividade ou numa coisa, aspirando sempre a algo, isto é, devem ter um ideal, fé. Também é importante o relacionarem-se com a família, o grupo, etc.… 3.5. Convém saber que estas crises passam com o tempo e que tudo volta a normalizar-se, o que não significa que se deixe de atuar e não se procure orientar positivamente o desenvolvimento dessas crises de modo a que não deixem conflitos na personalidade do jovem. 3.6. É muito inseguro, procura a orientação e o conselho de pessoas alheias à sua vida familiar; assim, os educadores encontram um campo propício para uma ação de formação mais profunda. 3.7. Precisam de uma mão compreensiva para os ajudar no esforço de esclarecer e definir os seus pensamentos e estados anímicos, coisa que é difícil para ele e o faz cair em estados depressivos. 3.8. Às vezes convém tratá-lo com a mesma frieza ou indiferença com que se comporta, para que repare na sua própria atitude. 3.9. As formas mais extremas de desafio exigem um guia habilidoso, bem como prudência nas medidas de controle mais estritas que se pretendam utilizar. 3.10. Temos de passar a ser “observadores participantes” na vida dos adolescentes. 3.11. Devemos ajudá-los a encontrar a forma de se expressarem nas diversas atividades, e procurar que o ensino seja estimulante e interessante, senão podem cair no desleixo e na apatia perante o estudo. 3.12. Recordando as tensões e inquietações da nossa própria adolescência, estaremos em condições de ajudar os jovens e de sermos mais compreensivos para com eles. 3.13. Devemos inculcar-lhes o respeito pelos pontos de vista alheios e o sentido da realidade. Estágio Operacional Formal Piagetiano8 Piaget afirmava que as mudanças na maneira como os adolescentes pensam sobre si mesmos, sobre seus relacionamentos pessoais e sobre a natureza da sua sociedade têm como fonte comum o desenvolvimento de uma nova estrutura lógica que ele chamava de operações formais. O pensamento operatório formal é o tipo de pensamento necessário para qualquer pessoa que tenha de resolver problemas sistematicamente. O adolescente constrói teorias e reflete sobre seu pensamento, o pensamento formal, que constitui uma reflexão da inteligência sobre si mesma, um sistema operatório de segunda potência, que opera com proposições. Segundo Piaget uma das consequências de se adquirir pensamento operatório formal é a capacidade de construir provas lógicas em que a conclusão segue a necessidade lógica. Essa habilidade constitui o raciocínio dedutivo. O pensamento do adolescente se difere do pensamento da criança, ou seja, a criança consegue chegar a utilizar as operações concretas de classes, relações e números, mas não as utiliza num sistema fundido único e total que é caracterizado pela lógica do adolescente. O pensamento liberta-se da experiência direta e as estruturas cognitivas da criança adquirem maturidade. Isso significa que a qualidade potencial 8 https://psicologado.com.br/psicologia-geral/desenvolvimento-humano/concepcoes-de-adolescencia-em-jean-piaget 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM 21 do seu pensamento ou raciocínio atinge o máximo quando as operações formais encontram-se plenamente desenvolvidas. A criança nãoultrapassa a lógica elementar de agrupamentos ou grupos numéricos aditivos ou multiplicativos, apresentando deste modo, uma forma elementar de reversibilidade. O adolescente apresenta a lógica das proposições relacionando-a a estrutura de classes e das relações. O pensamento formal encontrado nos adolescentes é explicado pelo fato de se poderem estabelecer as coordenações entre os objetos que também se originam de determinadas etapas da maturação deste sujeito. No entanto, esta constituição da estrutura, não apenas tem ligação com o aparato maturacional do sujeito, mas também com o meio social no qual este está inserido. Para que o meio social atue sobre os indivíduos é necessário que estes estejam em condições de assimilar as contribuições desse meio, havendo a necessidade de uma maturação suficiente da capacidade cerebral deste indivíduo. Estes fatores estão relacionados dinamicamente. Se o adolescente constrói teorias é porque de um lado, tornou-se capaz de reflexão e, de outro, porque sua reflexão lhe permite fugir do concreto atual na direção do possível e do abstrato. A lógica não é algo "estranho” a vida do sujeito, é justamente a expressão das coordenações operatórias necessárias para atingir determinada ação. O pensamento do adolescente tem a necessidade de construir novas teorias sobre as concepções já dadas, no meio social, tentando chegar a uma concepção das coisas que lhe seja própria e que lhe traga mais sucesso que seus antecessores. São característicos do processo de pensamento, os patamares de desenvolvimento, que leva o nível mais elementar de egocentrismo à descentração, subordinando o conhecimento sempre a uma constante revisão das perspectivas. O adolescente exercita ideias no campo do possível e formula hipóteses, tem o poder de construir à sua vontade reflexões e teorias. Com estas capacidades, o adolescente começa a definir conceitos e valores. Neste sentido, caracteriza-se a adolescência por um egocentrismo cognitivo, pois o adolescente acredita que é capaz de resolver todos os problemas que aparecem, considerando as suas próprias concepções como as mais corretas (crença na onipotência da reflexão). A propriedade geral mais importante do pensamento operacional formal, a partir da qual Piaget deriva todas as demais, refere-se à distinção entre o real e o possível. Ao contrário da criança que se encontra num período operacional concreto, o adolescente, ao começar a examinar um problema com que se defronta, tenta imaginar todas as relações possíveis que seriam válidas no caso dos dados em questão; a seguir, através de uma combinação de procedimentos de experimentação e de análise lógica, tentando verificar quais destas relações possíveis são realmente verdadeiras. Uma estratégia cognitiva que tenta determinar a realidade no contexto das possibilidades tem um caráter fundamentalmente hipotético-dedutivo. O adolescente ingressa corajosamente no reino hipotético. O pensamento formal é um pensamento proposicional. As mais importantes entidades que o adolescente manipula, ao raciocinar deixaram de ser os dados rudimentares da realidade e passaram a ser afirmações que contem estes dados. O que é realmente alcançado entre os 7 e 11 anos de idade, é a cognição organizada de objetos e acontecimentos concretos per se. O adolescente realiza estas operações, mas realiza também algo que as transcende, algo necessário que é precisamente o que faz com que seu pensamento seja formal e não mais concreto. Ele toma os resultados destas operações concretas, formula-os sob a forma de proposições e continua a operar com eles, ou seja, estabelece vários tipos de conexão lógica entre eles. Portanto, as operações formais, na realidade, são operações realizadas com os resultados de operações anteriores. A partir destas considerações pode-se estabelecer um paradigma inicial de como os adolescentes pensam. Inicialmente organizam os vários elementos dos dados brutos com as técnicas operacionais concretas dos anos intermediários da infância. A seguir estes elementos organizados são transformados em afirmações ou proposições que podem ser combinadas de várias maneiras. Através do método de análise combinatória, eles examinam isoladamente todas as combinações diferentes destas proposições. Para Piaget o pensamento formal é uma orientação generalizada, explicita ou implícita, para solução de problemas: uma orientação no sentido de organizar os dados, isolar e controlar variáveis, formular hipóteses e justificar e provar logicamente os fatos. As operações formais podem ser caracterizadas não só em termos descritivo-verbais gerais, como também em termos das estruturas lógico-matemáticas que são seus modelos abstratos. As operações interposicionais não são ações isoladas sem relações mútuas. Tal como os agrupamentos das operações intraposicionais dos anos intermediários da infância, elas formam um sistema integrado, e o problema consiste em determinar a estrutura formal deste sistema. O conjunto de instrumentos conceituais que Piaget chama de esquemas operacionais formais encontra-se num nível intermediário de generalidade. 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM 22 Grande parte da diferença existente entre o comportamento diário da criança e do adolescente pode ser expressa da seguinte maneira: o adolescente, como a criança vive no presente, mas ao contrário da criança também vive muito na dimensão ausente, isto é no futuro e o no reino do hipotético. Seu mundo conceitual está povoado de teorias informais sobre si mesmo e sobre a vida, cheio de planos para o seu futuro e o da sociedade, em resumo, cheio de ideias que transcendem a situação imediata, além das relações interpessoais atuais. O Pensamento e suas Operações O que surpreende no adolescente é o seu interesse por problemas inabituais, sem relação com as realidades vividas no dia a dia, ou por aqueles que antecipam, com uma ingenuidade desconcertante, as situações futuras do mundo, muitas vezes utópicas, com uma facilidade de elaborar teorias abstratas. Existem alguns que escrevem, que criam uma filosofia, uma política, uma estética ou outra coisa. Outros não escrevem, mas falam. Por volta de onze a doze anos efetua-se uma transformação fundamental no pensamento da criança, que marca o término das operações construídas durante a segunda infância; é a passagem do pensamento concreto para o “formal” (hipotético-dedutivo). Quais são na realidade, as condições de construção do pensamento formal? Para criança, trata-se não somente de aplicar as operações aos objetos, ou melhor, de executar, em pensamento, ações possíveis sobre estes objetos, mas de refletir estas operações independentemente dos objetos e de substituí-las por simples proposições. O pensamento concreto é a representação de uma ação possível, e o formal é a representação de uma representação de ações possíveis. As operações formais fornecem ao pensamento um novo poder, que consiste em destacá-lo e libertá- lo do real, permitindo-lhe, assim, construir a seu modo as reflexões e teorias. Processo Adaptativo do Indivíduo As reflexões precedentes poderiam levar a crer que o desenvolvimento mental termina por volta de onze anos ou doze anos, e que a adolescência é simplesmente uma crise passageira, devida à puberdade, que separa a infância da idade adulta. A maturação do instinto sexual é marcada por desequilíbrios momentâneos, que dão um colorido afetivo muito característico a todo este último período da evolução psíquica. Embora o conteúdo exato das ideias do adolescente varie, tanto numa mesma cultura como em culturas diferentes, este fato não deveria obscurecer aquilo que, segundo Piaget, é o denominador comum importante: a criança se ocupa, sobretudo com o presente, com o aqui e a agora, o adolescente amplia seu âmbito conceitual e inclui o hipotético, o futuro e o espacialmente remoto. Esta diferença tem um significado adaptativo. O adolescentecomeça a assumir papéis adultos; para ele o mundo de possibilidades futuras pessoalmente relevantes - escolha profissional, escolha do cônjuge, etc. - passa a ser o objeto de reflexão mais importante. De modo semelhante, o adulto que ele será em breve deverá relacionar-se intelectualmente com coletividades sociais muito menos concretas e imediatas do que a família e o círculo de amigos: a cidade, o estado, os pais, o sindicato, a igreja, etc. Em geral, o adolescente pretende inserir-se na sociedade dos adultos por meio de projetos, de programas de vida, de sistemas muitas vezes teóricos, de planos de reformas políticas ou sociais. A verdadeira adaptação à sociedade vai-se fazer automaticamente quando o adolescente, reformador, transformar-se em realizador. A experiência reconcilia o pensamento formal com a realidade das coisas, o trabalho efetivo e constante, desde que empreendido em situação concreta e bem definida, cura todos os devaneios. Assim é o desenvolvimento mental, constata-se que a unidade profunda dos processos que da construção do universo prático, devido à inteligência senso-motora do lactente, chega à reconstrução do mundo pelo pensamento hipotético-dedutivo do adolescente, passando pelo conhecimento do universo concreto devido ao sistema de operações da segunda infância. Estas construções sucessivas consistem em descentralização do ponto de vista, imediato e egocêntrico, para situá-lo em coordenação mais ampla de relações e noções, de maneira que cada novo agrupamento terminal integre a atividade própria, adaptando-a a uma realidade mais global. A afetividade liberta-se pouco a pouco do eu para se submeter, graças à reciprocidade e a coordenação dos valores, às leis da cooperação; a afetividade que atribui valor às atividades e lhes regula a energia, mas ela atua em conjunto com a inteligência, que lhe fornece meios e esclarece fins. 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM 23 Qualidade de Vida na Adolescência 9A adolescência é uma etapa do desenvolvimento humano caracterizado por alterações físicas, psíquicas e sociais. Sendo uma das mais ricas e plenas das variantes e condicionantes etapas da vida pelas quais passa o ser humano antes de atingir a fase adulta. Durante essa fase ocorrem alterações dinâmicas, envolvendo tanto o crescimento biológico como o emocional; e também é o ponto final das transformações físicas, sexuais, intelectuais, emocionais e sociais que preparam os adolescentes para a vida adulta10. Esse período é marcado com muita ansiedade, apreensão, agressividade e muitas dúvidas, sendo estes reflexos da incompreensão sobre si próprio, seu corpo, do que dizem sobre ele e do que ele próprio sente11. Tal fase turbulenta por vezes é caracterizada por crises religiosas, conflitos familiares, principalmente no que refere-se às questões relacionadas à imposição de limites, agressividade, introspecção e dificuldades sexuais12. Gata13 afirma que a modernidade trouxe muitos benefícios e avanços para a sociedade, mas junto com eles, vieram uma série de pressões, vida acelerada, tensão constante, desafios, competições e a violência. Não é de hoje que a adolescência é reconhecida por ser caótica, rebelde e inovadora, porém é necessário considerar que ao fazer parte de uma sociedade que estar em constante transformação, todos os seus integrantes, inclusive os adolescentes, sofrem com as consequências desse estado. É sabido que as mudanças drásticas que vêm ocorrendo em diversos setores, valores éticos, econômicos e políticos, e o crescente fenômeno da globalização, que alastra-se através do mundo todo, tem um papel determinante na evolução entre todos os indivíduos, inclusive nos adolescentes. Visto que nesta fase existe uma predisposição ao desenvolvimento de quadros patológicos, os fatores ambientais desfavoráveis podem ser responsáveis por desencadear alguns desses processos, manifestados por estados depressivos, fobias, comportamentos obsessivos - compulsivos, consumo de bebidas alcoólicas, violência, miséria e uso de drogas14. Histórico e Definições A primeira vez que o termo Qualidade de Vida (QV) foi utilizado ocorreu em 1964, quando o presidente dos Estados Unidos, Lyndon Johnson, afirmou “os objetivos não podem ser medidos através do balanço dos bancos, eles só podem ser medidos através da QV que proporcionam às pessoas”15. Entretanto, somente na década de 90 que se observou um grande avanço nas investigações científicas visando um maior entendimento sobre a QV e sua relação com questões biológicas, sociais e culturais16. A Organização Mundial de Saúde (OMS) define QV como “a percepção do indivíduo de sua posição na vida no contexto da cultura e sistema de valores nos quais ele vive e em relação aos seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações”17. Na área da saúde são identificadas duas terminologias utilizadas frequentemente na literatura: qualidade de vida relacionada à saúde (QVRS), que se refere aos aspectos da QV influenciados por doenças ou por intervenções de saúde e QV, como um conceito mais amplo18. O primeiro termo (QVRS) relaciona-se ao impacto da condição de saúde do indivíduo sobre a sua capacidade de viver plenamente19. Para Bolton20, QVRS é uma medida multidimensional baseada na satisfação em vários aspectos da vida que afetam a saúde ou são afetados por ela. Já o termo QV inclui uma variedade maior de condições que podem afetar a percepção, sentimentos e comportamentos do indivíduo, incluindo, porém não se limitando às condições e intervenções de saúde 21 9 ARAÚJO, T. R. O. Fatores que afetam a qualidade de vida na adolescência. 10 NÓBREGA, F. G. Distúrbios da Nutrição. 1 ed. Rio de Janeiro: Revinter, 1998. 11 KALINA, E; GRYNBERG, H. Aos Pais de Adolescência. Rio de Janeiro: Francisco Alves. 1985. 12 CIULLA, L. Saúde Mental: Nas Etapas da Vida. Porto Alegre-RS: DPA & A. 4 ed. 1976. 13 GATA, A. O. O Estress no Brasil: Pesquisas Avançadas. 1ª Ed.Campinas- SP: Papirus. 2004. 14 ZAGURY, T. Limites sem trauma. Rio de Janeiro, Ed: Record, 2000. 15 FLECK, M. P. DE A. et al. Desenvolvimento da versão em português do instrumento de avaliação de qualidade de vida da OMS (WHOQOL-100). Revista Brasileira de Psiquiatria, v. 21, n. 1, p. 19–28, 1999. 16 GORDIA, A. P. et al. Qualidade de vida: contexto histórico, definição, avaliação e fatores associados. Revista Brasileira de Qualidade de Vida, v. 3, n. 1, p. 40–52, 2011. 17 THE WHOQOL GROUP. The World Health Organization Quality of Life assessment (WHOQOL): position paper from the World Health Organization. Soc Sci Med, v. 41, n. 10, p. 1403–9., 199 18 SEIDL, E. M. F.; ZANNON, C. M. L. DA C. Qualidade de vida e saúde: aspectos conceituais e metodológicos. Cadernos de Saúde Pública, v. 20, n. 2, p. 580– 588, 2004. 19 FLECK, M. P. DE A. et al. Desenvolvimento da versão em português do instrumento de avaliação de qualidade de vida da OMS (WHOQOL-100). Revista Brasileira de Psiquiatria, v. 21, n. 1, p. 19–28, 1999. 20 BOLTON, K. et al. The effect of gender and age on the association between weight status and health-related quality of life in Australian adolescents. BMC public health, v. 14, p. 898, 2014. 21 BULLINGER, M. et al. Developing and evaluating cross-cultural instruments from minimum requirements to optimal models. Quality of Life Research, v. 2, n. 6, p. 451–459, 1993. 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM 24 Fatores que Influenciam a Qualidade de Vida (QV) A QV não se restringe à satisfação com necessidades materiais, mas também está relacionada com inserção social, liberdade e bem-estar. Mudanças no estilo de vida, como a prática de exercícios físicos e dieta balanceada, além de serem fundamentais para a promoção da saúde, visam melhorar a QV dos indivíduos. A literatura demonstra que outros fatores também podem influenciar a QV dos adolescentes, como: a idade, o sexo, o estado nutricional, a satisfação corporal,a presença de doenças e a renda. Questões 01. (Pref. de Tanguá/RJ - Professor I Ensino Infantil - MS CONCURSOS/2017) Conforme os Parâmetros Curriculares Nacionais para Educação Infantil quanto à concepção de criança, assinale a alternativa incorreta: (A) As crianças possuem natureza singular, descaracterizando-se como seres que sentem e pensam o mundo de um jeito muito próprio. (B) É um ser humano, sujeito social e histórico, o qual faz parte de uma organização familiar que está inserida em uma sociedade, com uma determinada cultura, em um determinado momento histórico. (C) A criança é profundamente marcada pelo meio social em que se desenvolve, mas também o marca. (D) A criança tem na família, biológica ou não, um ponto de referência fundamental, apesar da multiplicidade de interações sociais que estabelece com outras instituições sociais. 02. (Pref. de Salesópolis/SP - Professor de Ensino Infantil – INTEGRI) De acordo com os Parâmetros Nacionais de Qualidade para a Educação Infantil vol I, olhar a criança como ser que já nasce pronto, ou que nasce vazio e carente dos elementos entendidos como necessários à vida adulta ou, ainda, a criança como sujeito conhecedor, cujo desenvolvimento se dá por sua própria iniciativa e capacidade de ação, foram, durante muito tempo, concepções amplamente aceitas na Educação Infantil até o surgimento das bases: (A) estruturais que fundamentam, atualmente, uma pedagogia para a infância. (B) disciplinares que fundamentam, atualmente, uma pedagogia para a infância. (C) epistemológicas que fundamentam, atualmente, uma pedagogia para a infância. (D) estéticas que fundamentam, atualmente, uma pedagogia para a infância Gabarito 01.A / 02.C Comentários 01. Resposta: A Para propor parâmetros de qualidade para a Educação Infantil, é imprescindível levar em conta que as crianças desde que nascem são: - Cidadãos de direitos; - Indivíduos únicos, singulares; - Seres sociais e históricos; - Seres competentes, produtores de cultura; - Indivíduos humanos, parte da natureza animal, vegetal e mineral. As crianças precisam ser apoiadas em suas iniciativas espontâneas e incentivadas a: - Brincar; - Movimentar-se em espaços amplos e ao ar livre; - Expressar sentimentos e pensamentos; - Desenvolver a imaginação, a curiosidade e a capacidade de expressão; - Ampliar permanentemente conhecimentos a respeito do mundo da natureza e da cultura apoiadas por estratégias pedagógicas apropriadas; - Diversificar atividades, escolhas e companheiros de interação em creches, pré-escolas e centros de Educação Infantil. 02. Resposta: C Olhar a criança como ser que já nasce pronto, ou que nasce vazio e carente dos elementos entendidos como necessários à vida adulta ou, ainda, a criança como sujeito conhecedor, cujo desenvolvimento se 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM 25 dá por sua própria iniciativa e capacidade de ação, foram, durante muito tempo, concepções amplamente aceitas na Educação Infantil até o surgimento das bases epistemológicas que fundamentam, atualmente, uma pedagogia para a infância. SEXUALIDADE A sexualidade tem grande importância no desenvolvimento e na vida psíquica das pessoas, pois independentemente da potencialidade reprodutiva, relaciona-se com a busca do prazer, necessidade fundamental dos seres humanos. Nesse sentido, a sexualidade é entendida como algo inerente, que se manifesta desde o momento do nascimento até a morte, de formas diferentes a cada etapa do desenvolvimento. Além disso, sendo a sexualidade construída ao longo da vida, encontra-se necessariamente marcada pela história, cultura, ciência, assim como pelos afetos e sentimentos, expressando-se então com singularidade em cada sujeito. Indissociavelmente ligado a valores, o estudo da sexualidade reúne contribuições de diversas áreas, como Antropologia, História, Economia, Sociologia, Biologia, Medicina, Psicologia e outras mais. Se, por um lado, sexo é expressão biológica que define um conjunto de características anatômicas e funcionais (genitais e extragenitais), a sexualidade é, de forma bem mais ampla, expressão cultural. Cada sociedade cria conjuntos de regras que constituem parâmetros fundamentais para o comportamento sexual de cada indivíduo. Nesse sentido, a proposta de Orientação Sexual considera a sexualidade nas suas dimensões biológica, psíquica e sociocultural. Sexualidade na Infância e na Adolescência22 Os contatos de uma mãe com seu filho despertam nele as primeiras vivências de prazer. Essas primeiras experiências sensuais de vida e de prazer não são essencialmente biológicas, mas constituirão o acervo psíquico do indivíduo, serão o embrião da vida mental no bebê. A sexualidade infantil se desenvolve desde os primeiros dias de vida e segue se manifestando de forma diferente em cada momento da infância. A sua vivência saudável é fundamental na medida em que é um dos aspectos essenciais de desenvolvimento global dos seres humanos. A sexualidade, assim como a inteligência, será construída a partir das possibilidades individuais e de sua interação com o meio e a cultura. Os adultos reagem, de uma forma ou de outra, aos primeiros movimentos exploratórios que a criança faz em seu corpo e aos jogos sexuais com outras crianças. As crianças recebem então, desde muito cedo, uma qualificação ou “julgamento” do mundo adulto em que está imersa, permeado de valores e crenças que são atribuídos à sua busca de prazer, o que comporá a sua vida psíquica. Nessa exploração do próprio corpo, na observação do corpo de outros, e a partir das relações familiares é que a criança se descobre num corpo sexuado de menino ou menina. Preocupa-se então mais intensamente com as diferenças entre os sexos, não só as anatômicas, mas também com todas as expressões que caracterizam o homem e a mulher. A construção do que é pertencer a um ou outro sexo se dá pelo tratamento diferenciado para meninos e meninas, inclusive nas expressões diretamente ligadas à sexualidade e pelos padrões socialmente estabelecidos de feminino e masculino. Esses padrões são oriundos das representações sociais e culturais construídas a partir das diferenças biológicas dos sexos e transmitidas pela educação, o que atualmente recebe a denominação de relações de gênero. Essas representações absorvidas são referências fundamentais para a constituição da identidade da criança. As formulações conceituais sobre sexualidade infantil datam do começo deste século e ainda hoje não são conhecidas ou aceitas por parte dos profissionais que se ocupam de crianças, inclusive educadores. Para alguns, as crianças são seres “puros” e “inocentes” que não têm sexualidade a expressar, e as manifestações da sexualidade infantil possuem a conotação de algo feio, sujo, pecaminoso, cuja existência se deve à má influência de adultos. Entre outros educadores, no entanto, já se encontram bastante difundidas as noções da existência e da importância da sexualidade para o desenvolvimento de crianças e jovens. 22 BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: Orientação Sexual. Portal MEC. Sexualidade: conceitos básicos; educação sexual na escola; prevenção de problemas 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM ADM Realce ADM Sublinhado 26 Em relação à puberdade, as mudanças físicas incluem alterações hormonais que, muitas vezes, provocam estados de excitação incontroláveis, ocorre intensificação da atividade masturbatória e instala- se a função genital. É a fase das descobertas e experimentações em relação à atração e às fantasias sexuais. A experimentação dos vínculos tem relação com a rapidez e a intensidade da formação e da separação de pares amorosos entre os adolescentes. É uma questão bastante atual e presente no cotidiano de todos os profissionais da educação a postura a ser adotada, dentro das escolas, em facedas manifestações da sexualidade dos alunos. Como dito anteriormente, sexo também é coisa de criança23. Tendo sempre em mente que cada criança é uma criança, vamos pensar o desenvolvimento sexual da criança. Tomando por base os modos de viver e expressar a dimensão humana, temos seis períodos distintos - primeira infância, fase pré-escolar, segunda infância, adolescência, maturidade e terceira idade. Aqui vamos nos ater apenas aos três primeiros: primeira infância (0 a 2 anos), fase pré-escolar (2 a 6 anos) e segunda infância (6 a 10 anos). Primeira Infância (0 a 2 anos) “A educação sexual começa a partir das atitudes dos pais, no momento em que decidem ter filhos”. As primeiras atitudes dos pais podem proporcionar ou um ambiente afetivo e amoroso, ou um ambiente ríspido e tumultuado. Esse ambiente será a primeira influência no desenvolvimento da criança. É “nos primeiros anos de vida que se estabelecem as bases do comportamento erótico do adulto e se inicia a formação de uma sexualidade saudável”. Neste período (0 a 2 anos) a criança começa a explorar seu mundo através de seu corpo, de suas sensações. Será através do gosto, do cheiro, do toque, do olhar e do ouvir que a criança vai experimentar o prazer. Essa relação com seu corpo e com os sentidos formará suas atitudes sexuais mais tarde. A relação que essa criança tem com seus cuidadores também será definidor das suas atitudes relacionais. Esse primeiro vínculo é um primeiro passo. Ele será fortalecido, ou não, no seu desenvolvimento. É nessa fase que começamos a amar e sermos amados. A nossa capacidade de amar e de se relacionar está diretamente ligada a esse aprendizado na infância. Fase pré-escolar (2 a 6 anos) Essa fase tem quatro momentos importantes: 1. Formação da Identidade de gênero A identidade de gênero é a condição de pertencer a um sexo. Nesta fase a criança começa a definir- se como menino ou menina. Os pais e educadores(as) devem, neste momento, favorecer o processo de identificação da criança, através da brincadeira. Mostrar as diferenças e semelhanças entre ser menino e ser menina (evitar ao máximo estereótipos!). Reforçar a visão de sexo da criança, sem nunca desvalorizar o sexo oposto. A questão não é superioridade/inferioridade, mas sim diferenças. 2. Assimilação do papel sexual (social) O papel sexual diz respeito ao comportamento que a criança terá diante sua identidade de gênero. Importante evitar a manutenção de preconceitos de comportamentos tipicamente masculinos e/ou femininos. 3. Aprendizagem e controle dos esfíncteres É a primeira oportunidade da criança de aprender e exercer o autocontrole, através do treinamento do controle dos esfíncteres. Segundo as considerações de Figueirêdo Netto, a aprendizagem do controle dos esfíncteres, no que se refere ao desenvolvimento da sexualidade, tem fundamental importância, pois: a) “As áreas genitais se encontram na mesma zona do corpo que intervém na excreção. Os músculos que participam deste ato são exatamente os mesmos que posteriormente atuarão na resposta sexual. b) O ato de reter e expulsar os excrementos (urina e fezes) produz prazer sensual, pela tensão e alívio ou relaxamento, que acompanham estes comportamentos. c) O controle voluntário desses músculos, assim como as sensações prazerosas deles resultantes, são associados à sexualidade”. Para não adiantar nem atrasar esse processo da criança é preciso ter em mente que ele(a) poderá ter este tipo de controle entre os dois e três anos de idade. Adiantar ou atrasar esse momento pode ser 23 Colunista Portal Educação, 2013. http://www.portaleducacao.com.br. 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM ADM Realce ADM Realce 27 prejudicial ao desenvolvimento da criança. Importante, ainda, salientar que pais e educadores devem evitar relacionar questões negativas (como sujo, feio, associar a castigos e chantagens), no decorrer do treinamento do controle dos esfíncteres. 4. Interesses e curiosidades sexuais É a conhecida fase dos porquês. Além das perguntas, as crianças querem ver e saber. Com tantas perguntas, é um bom momento para ensinar às crianças os nomes corretos das partes de seu corpo. Como parte de seu desenvolvimento a masturbação aparece como curiosidade natural da criança de seu corpo e suas sensações. É um jogo exploratório de sensações. Não tem a mesma conotação da masturbação na adolescência e no adulto. Assim, é um bom momento para ensinar às crianças sobre a intimidade. O público e o privado. Não precisa problematizar a situação, apenas orientar. A repressão é indesejada. Além de se tocarem, as crianças exploram também os outros. É a fase da conhecida “brincadeira de médico”. Se a brincadeira for entre crianças da mesma idade não há razão para se preocupar, é conhecimento não abuso. Nessa fase o pensamento é mágico e fantasioso, por isso devem ser evitadas conversas como a da “cegonha” e da “sementinha”. As respostas devem ser claras e objetivas o suficiente para satisfazer a curiosidade da criança. Ela quer saber do fato, a maldade está na cabeça do(a) adulto(a). Outro cuidado com as histórias fantasiosas é que elas podem gerar fantasias negativas, temores e culpas. Desnecessário. Segunda Infância (6 a 10 anos) Período no qual a sexualidade entra em latência. Ou seja, entra em adormecimento para ser mais bem elaborada. É um momento de sensualidade, pois as crianças estão aptas a experimentar as sensações. Por isso, há muitos jogos sexuais nesta fase. O lúdico aparece na imitação de modelos. É um momento em que pais e educadores(as) devem tomar cuidado com o que falam e com o que fazem. A criança está em constante observação. Assim, é um bom momento para transmitir informações e valores (confiança, respeito, amor, honestidade, responsabilidade), as crianças estão prestando atenção. É nesse período que se fortalece a identidade de gênero e prepara a criança para o próximo período, a puberdade. O que são jogos sexuais? Definição: são brincadeiras que ajudam a satisfazer a curiosidade sexual. Alguns tipos: - Cócegas; - Pegar nos próprios genitais e nos dos / das coleguinhas; - Brincadeiras de médico; - Brincadeiras de papai e mamãe. Atenção: essas brincadeiras devem ser feitas com crianças da mesma idade. E de acordo com Suplicy “os professores constataram que em geral os jogos sexuais são realizados na hora do recreio. As crianças escolherem um lugar protegido, fora da vista do adulto; não tiram a roupa e brincam de médico e de papai- e-mamãe. Se esses jogos forem observados, mas não atrapalharem nenhuma atividade, não precisam ser interrompidos, pois fazem parte do desenvolvimento sexual da criança. O professor só deve estar atento para que não haja coação nessas brincadeiras”. Sexualidade e Escola: Um espaço de Intervenção24 Desde a antiguidade a sexualidade vem gerando polêmicas, mexendo com a sensação e fantasia das pessoas, associada a coisas feias, inconvenientes e impróprias. Apesar da revolução sexual, da globalização e dos meios de comunicação terem contribuído para uma modificação nas atitudes morais e nas questões ligadas ao sexo e sexualidade, esse assunto ainda assim continua sendo um tabu. O estudo da sexualidade envolve o crescimento global do indivíduo, tanto intelectual, físico, afetivo- emocional e sexual propriamente dito. A maioria dos pais acham constrangedor conversar sobre sexo com seus filhos, ora pela educação recebida de seus pais, ora pela repressão ou por não saberem como abordar o tema. Assim, os filhos na maioria das vezes, ficam sem respostas para suas dúvidas, gerando 24 BERALDO, F. N.de M. Sexualidade e escola: um espaço de intervenção. Psicol. Esc. Educ. (Impr.) vol.7 no.1 Campinas, 2003. 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM 28 conflitos ou acidentes inesperados por terem informações errôneas ao consultar variadas fontesimpróprias. A maior parte dos adolescentes passam seu tempo na escola onde começam a se sociabilizar, aflorando sua sexualidade devido ao desenvolvimento corporal gerado pelos hormônios. A escola é o ambiente onde a interação com o mundo ao redor e com as pessoas que o cercam acontece. Depois do ambiente familiar é a escola que complementa a educação dada pela família onde são abordados temas mais complexos que no dia-a-dia não são ensinados e aprendidos, tendo esta uma imensa responsabilidade na formação afetiva e emocional de seus alunos. E quanto ao assunto sexo e sexualidade? Qual o papel da escola frente a esse tema? A escola não deve nem vai tomar o lugar da família, mas cabe a ela possibilitar uma aprendizagem correta, já que essa instituição visa o crescimento do indivíduo como um todo. A educação sexual acontece no seio familiar. É uma experiência pessoal contida de valores e condutas transmitidos pelos pais e por pessoas que o cercam desde bebê. Já a Orientação Sexual é dada pela escola onde são feitas discussões e reflexões a respeito do tema de uma maneira formal e sistematizada que constitui em uma proposta objetiva de intervenção por parte dos educadores. O que nos cabe é refletir acerca da importância da Orientação Sexual na Escola para a construção da cidadania, de uma sociedade livre de falso moralismo e mais feliz. O trabalho de Orientação Sexual tem como objetivo principal as mudanças nos padrões de comportamento, levando-se em conta três aspectos fundamentais: a transmissão de informações de maneira verdadeira; a eliminação do preconceito e a atuação na área afetivo-emocional. Para se fazer um bom trabalho de Orientação Sexual dentro da escola é importante dar atenção a alguns passos: a) apresentar um projeto para a instituição com o objetivo do trabalho; b) fazer uma reunião com os pais e professores para esclarecer quaisquer dúvidas que possam surgir ao longo do trabalho e explicar o papel de ambos junto à escola neste projeto; c) observar a demanda da escola para que se atinja a expectativa desta; d) a partir das séries estabelecidas para o trabalho entrar em contato com elas para explicar como este será administrado; e) colher, por meio de “bilhetinhos sigilosos, ” dúvidas e curiosidades de cada aluno garantindo-lhes total sigilo; f) após levantar as dúvidas e curiosidades fazer uma estruturação do programa a ser cumprido em diferentes séries (conteúdo, horário, encontros, local), para uma maior eficácia; g) estabelecer um contrato (regras sugeridas pelo grupo); h) garantir a ética do trabalho tanto para os alunos como para os professores; i) garantir a liberdade de opinião e o respeito do grupo pelas dúvidas de seus colegas, sem monopólio da verdade de ambas as partes. O primeiro conteúdo indispensável neste trabalho é a diferenciação de sexo e sexualidade e também de Educação Sexual e Orientação Sexual, que são muito confundidos na maioria das vezes. O educador de Orientação Sexual deve ser uma pessoa aberta, livre de mitos e preconceitos referentes à sexualidade para melhor ministrar a turma sem causar problemas com a instituição, pais, alunos e professores, podendo abordar os assuntos através de aulas expositivas, dinâmica de grupo, folhetos explicativos, filmes e outros materiais referentes ao tema. O trabalho não envolve nota ou reprovação. Para finalizar seguem dois lembretes essenciais: é necessário ressaltar a importância dos pais nesse processo para que estes não se acomodem, julgando a escola responsável pelo processo da educação sexual de seus filhos; não cabe ao professor de Orientação Sexual virar conselheiro ou confidente dos alunos. Deve, se necessário, encaminhar para um profissional especializado. Os Jovens e a Sexualidade25 Para realizar uma prática adequada de Orientação Sexual com jovens, é necessário que o profissional conheça o público beneficiário de sua ação, ou seja, de quem e com quem falamos na condição de educadores. Segundo o Estatuto da Criança e do Adolescente - ECA (Lei 8.069, de 13 de julho de 1.990 - Art. 2º) “considera-se criança, [...], a pessoa até doze anos de idade incompletos, e adolescente aquela entre doze e dezoito anos de idade” (Brasil, 1990). 25 BRANCO, M. A. O.; PINTO, M. J. C.; VIANNA, a. M. S. A. Orientação Sexual com Jovens: Construindo um Exercício Responsável da Sexualidade. Simpósio Internacional de Educação Sexual da UEM, 2009. 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM ADM Realce 29 Muitos autores que se preocupam com a temática da infância e juventude afirmam que não é possível definir o período que compreende a infância e a adolescência apenas pela faixa etária. Quando podemos afirmar que uma criança deixou de sê-lo e passou a ser adolescente? Quais comportamentos são considerados infantis, juvenis e/ou adultos? Estes são questionamentos complexos. Em todos os questionamentos que formulamos a respeito dos seres humanos, devemos sempre conceber o homem enquanto ser integral, biopsicossocial. Desta forma, precisamos considerar as dimensões biológica, psicológica e social das pessoas, compreendendo que estas não são separadas, mas integradas na existência humana. Em relação à dimensão biológica, percebemos que uma criança começa a deixar de sê-lo quando ela vivencia o período do desenvolvimento humano chamado de puberdade. Para esta discussão, tomaremos como referência o trabalho de Gewandsznajder. Na puberdade, o corpo do menino ou da menina passa por um processo de transformação, deixando de ser um corpo infantil para se tornar um corpo adulto, ou seja, pronto para reprodução. A faixa etária que corresponde a este período é variável. Em geral, a puberdade ocorre nos garotos entre 11 e 13 anos e nas garotas entre 10 e 12 anos. É necessário saber que estas idades não são fixas, podendo variar de pessoa para pessoa. Tanto em garotos quanto em garotas ocorre o chamado “estirão”, ou seja, um crescimento do corpo acentuado em um curto período de tempo. O “estirão” costuma iniciar mais cedo nas meninas que nos meninos, razão pela qual as meninas por volta dos 12 anos de idade são frequentemente mais altas que os meninos. Também tanto em garotos quanto em garotas ocorre o aparecimento de pêlos pubianos e axilares. A pele se torna mais oleosa e o corpo, através do suor, passa a ter um cheiro característico de pessoa adulta, diferenciando-se da criança. Nos garotos ocorre o aparecimento da barba, e a laringe se alarga provocando a tendência da voz se tornar mais grave. Também ocorre o aumento da massa muscular, com consequente ampliação da força física, e o aumento do pênis e testículos. Nas garotas ocorre o aumento dos seios, quadris, nádegas e coxas, dando ao corpo o aspecto de mulher em fase adulta. A partir da puberdade a garota passa a menstruar, característica que sinaliza que seu organismo está pronto para gerar filhos. É preciso deixar claro que puberdade não é sinônimo de adolescência. Puberdade compreende as transformações corporais que tornam o corpo humano adequado para a reprodução, deixando de ser um corpo infantil para tornar-se um corpo adulto. A adolescência compreende um período mais extenso e significativo que a puberdade, sendo esta etapa constituinte daquela. O termo adolescência vem do termo latino adolescere, que significa “crescer, engrossar, tornar maior”. Em relação à dimensão psicológica, segundo Canosa Gonçalves et. al. e Tavares, as crianças que se tornam adolescentes também passam por transformações. A principal delas é em relação à própria identidade. Neste momento, o adolescente necessita se reconhecer num corpo transformado, que não é mais o corpo infantil que ele tinha, e que agora é um corpo adulto, visivelmente modificado. Outro passo importante é a consolidação de si próprio enquanto pessoa “independente”, sob o ponto de vista da determinação de suas escolhas pessoais e da responsabilidade que elas trazem. É nestemomento que pode haver uma divergência, e até um questionamento, com as regras determinadas pela família e pela sociedade. Na adolescência é comum ocorrer uma identificação muito intensa do jovem com seu grupo de “iguais”, em geral outros jovens. Não é raro este grupo (galera, turma, etc.) compartilhar um determinado modo de conversar, de se vestir, enfim, de se comportar. Esta identificação com o grupo é importante na construção da própria identidade (pessoal, sexual, social) do adolescente. Em geral, nesta fase do desenvolvimento ocorrem as primeiras manifestações da sexualidade adulta, ou seja, o primeiro beijo, o “ficar”, o namoro, as primeiras experiências eróticas. Trata-se de uma busca pelo outro para um relacionamento afetivo-sexual. “A adolescência é uma fase de descobertas, de desafios e a sexualidade humana talvez seja, para a maioria dos jovens, o aspecto mais interessante desta jornada”. Em relação à dimensão social, precisamos considerar que a adolescência enquanto processo de desenvolvimento humano não é universal, ou seja, não é igual para todos os jovens. Cada um vivenciará a sua adolescência de acordo com suas condições de vida, o seu lugar de moradia, a dinâmica de sua família de origem, as características de acesso à escola ou aos serviços de saúde, as modalidades de lazer a que tem acesso, dentre outros condicionantes. Todas as transformações vivenciadas pelo jovem são construídas mediante as relações sociais que eles estabelecem. Não existe um “padrão”. Cada indivíduo, a partir de sua realidade social, vivenciará sua juventude de forma particular. Não devemos pensar a juventude como crise, mas como um processo do ciclo vital do jovem. Isto quer dizer que devemos compreender o jovem não enquanto um “problema” ou um “fardo”. Deve ser 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM 30 compreendido sempre a partir da sua pessoa em condição peculiar de desenvolvimento inserida num determinado contexto sociocultural. Outro fator importante a ser abordado é o prolongamento da juventude. Atualmente vivenciamos uma clara dificuldade em delimitar o término deste período. Não é raro encontrarmos pessoas que pretendem terminar seus estudos, incluindo até cursos de mestrado e doutorado, antes de decidirem morar sozinhos ou casaram-se, e então deixar de morar com seus pais. Partindo da premissa de todas estas transformações contemporâneas, é interessante tomarmos a definição do Conselho Nacional da Juventude no que diz respeito a estender até os 29 anos a faixa etária das pessoas que são consideradas jovens. São estes jovens que constituem o público beneficiário da prática de Orientação Sexual, no enfoque deste trabalho. Orientação Sexual X Educação Sexual Os autores que se preocupam atualmente com a temática da Orientação Sexual formulam questionamentos a respeito do termo que deve ser utilizado para definir tais práticas. Quando falamos em Orientação Sexual e em Educação Sexual, utilizamos a mesma definição para as duas expressões? De acordo com Ribeiro falamos em Educação Sexual quando nos referimos aos “processos culturais contínuos [...] que direcionam os indivíduos para diferentes atitudes e comportamentos ligados à manifestação de sua sexualidade”. Nesta definição, podemos pensar que a educação sexual tem seu início no nascimento de cada indivíduo, sendo que o processo educacional acontece através da relação deste indivíduo com seu meio social. Então, as “atitudes e comportamentos ligados à manifestação da sexualidade” são construídos por cada pessoa em contato com a sociedade, ou seja, amigos, grupos religiosos e/ou de convivência, meios de comunicação e, principalmente, a família. Portanto, a sociedade pratica ações educativas em sexualidade em relação aos indivíduos que a constituem. Porém, em grande parte das vezes, estas ações se tornam “deseducativas”, na medida em que reproduzem e perpetuam tabus, desinformações e atitudes repressivas em relação à sexualidade humana. Para Ribeiro, a Orientação Sexual pressupõe uma intervenção institucionalizada, sistematizada e realizada por profissionais especialmente preparados para exercer esta função. Diferencia-se, portanto, da Educação Sexual, que acontece durante toda a vida das pessoas, e que diz respeito ao processo educacional referente às atitudes em relação à sexualidade. Desta forma, podemos pensar a Orientação Sexual enquanto prática interventiva na vida das pessoas, prática que intervém na Educação Sexual que todas elas receberam em contato com a sociedade em que vivem. Citando Suplicy et. al. “Orientação Sexual é um processo de intervenção sistemática na área de sexualidade, realizado principalmente nas escolas e envolve o desenvolvimento sexual compreendido como: saúde reprodutiva, relações interpessoais, afetividade, imagem corporal, autoestima e relações de gênero. Enfoca as dimensões fisiológicas, sociológicas, psicológicas e espirituais da sexualidade, através do desenvolvimento das áreas cognitiva, afetiva e comportamental, incluindo as habilidades para a comunicação e a tomada responsável de decisões”. Percebemos a concordância de Suplicy et. al. com Ribeiro em afirmar que a Orientação Sexual é uma prática interventiva sistemática na área da sexualidade. Suplicy et. al., na definição citada, enfatiza que a Orientação Sexual deve ser pensada e executada a partir da consideração do orientando enquanto ser integral, ou seja, devem ser consideradas suas dimensões fisiológicas, sociológicas, psicológicas e espirituais no exercício de sua sexualidade. Além disso, a Orientação Sexual deve contemplar diversos aspectos do desenvolvimento sexual dos indivíduos, ou seja, saúde reprodutiva, relações interpessoais, afetividade, imagem corporal, autoestima e relações de gênero. Compreende-se o ser humano enquanto ser sexuado inserido num meio social, que continuamente se relaciona com outros seres humanos. Desta forma, amplia-se o enfoque da Orientação Sexual no Brasil que, no início e meados do século XX priorizava a dimensão biológica da sexualidade. No final do século XX e nos dias atuais, deve-se compreender a sexualidade enquanto manifestação humana, com desdobramentos além da mera reprodução e da possibilidade de contágio de doenças sexualmente transmissíveis. Tais aspectos não devem ser descartados, mas deve-se somar a eles outros aspectos como o prazer, as relações afetivas e os papéis sexuais na (re)definição de gênero. Neste contexto, Santos e Bruns apontam que um dos objetivos da Orientação Sexual é levar o indivíduo a valorizar o prazer, o respeito mútuo, possibilitando-lhe uma vivência mais íntegra e feliz. 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM 31 Breve histórico da Orientação Sexual no Brasil No Brasil, a sexualidade tem sido um aspecto polêmico do cotidiano das pessoas, desde a época da Colônia do século XVI. O homem brasileiro branco, nos primeiros anos da colonização, mantinha relações sexuais com várias índias, tendo com elas muitos filhos, caracterizando um comportamento sexual bastante promíscuo. Com o advento da escravatura, os jovens homens filhos dos senhores de engenho eram incentivados a se relacionar sexualmente com as escravas negras, para provar que eram “machos”. As mulheres brancas eram dominadas e submetidas às regras de seus pais, inicialmente, e de seus maridos, após o casamento. Em geral, casavam ainda adolescentes com homens bem mais velhos que elas. Era-lhes exigido um comportamento acanhado e humilde frente à sociedade. Tal cenário brasileiro se mantém praticamente o mesmo durante os séculos XVII, XVIII e XIX. Neste período da História do Brasil não há registros conhecidos de Orientação Sexual enquanto intervenção sistematizada. A preocupação com a Orientação Sexual no Brasil, enquanto tema científico e pedagógico, data do início do século XX. Neste momento da história brasileira registra-sea organização dos primeiros espaços urbanos, que originaram as cidades brasileiras. Nestes locais a comunidade científica brasileira se organizava sofrendo forte influência europeia. Barroso e Bruschini afirmam que, no início do século XX, esta influência europeia manifesta-se no Brasil através de algumas correntes médicas e higienistas de sucesso na Europa. Tais correntes pregavam a necessidade de uma Educação Sexual eficaz no combate à masturbação e às doenças venéreas (termo utilizado na época para referir-se às infecções sexualmente transmissíveis - IST´s) e que preparasse a mulher para desempenhar adequadamente seu “nobre papel de esposa e de mãe”. Notamos que, logo no início de suas atividades no Brasil, a Orientação Sexual carrega uma característica de incitação do medo aos jovens (combate à masturbação e às doenças sexualmente transmissíveis - IST´s), além de ser impregnada pela chamada ideologia de gênero machista (preparar a mulher para desempenhar adequadamente seu papel de esposa e mãe). Neste momento, emerge a produção de teses, livros e manuais que tratam da Orientação Sexual, todos baseados no modelo médico higienista vigente. Referenciando este período, Chauí cita uma obra datada de 1938, de autoria de Oswaldo Brandão da Silva, intitulada Iniciação Sexual-Educacional. Este livro, segundo consta, tinha um conteúdo destinado somente aos “meninos de valor”. Segundo esta autora, o autor da obra não explica o significado do termo “valor”, mas fica claro que as meninas estavam proibidas de ler tal obra, pois deveriam manter-se inocentes e ser iniciadas na vida sexual apenas por seus maridos. Interessante ressaltar que, do grupo de meninas excluídas do acesso ao conteúdo da obra, não fazem parte as prostitutas. Estas eram consideradas uma tentação para os meninos enquanto aquelas eram chamadas de meninas de “boa família”. Entre as décadas de 1920 e 1940, mesma época em que foi publicado o manual citado por Chauí, foram publicados vários outros livros de orientação sexual cientificamente fundamentados, escritos por médicos, professores e até sacerdotes. Assim foi criada a sexologia enquanto campo oficial do saber médico. Concomitante à consolidação do conhecimento científico da época em relação à sexualidade, a Igreja Católica imprime severa repressão às práticas sexuais da população brasileira. Desta forma, a década de 50 é considerada pobre no sentido de não contar com nenhuma iniciativa no campo da Orientação Sexual. Na década de 60 surgem as primeiras experiências de Orientação Sexual nas escolas dos estados de Minas Gerais (Belo Horizonte, em 1963, no Grupo Escolar Barão do Rio Branco), Rio de Janeiro (Rio de Janeiro, em 1964, no Colégio Pedro Alcântara; em 1968, nos colégios Infante Dom Henrique, Orlando Rouças, André Maurois e José Bonifácio) e São Paulo (São Paulo, de 1963 a 1968, no Colégio de Aplicação Fidelino Figueiredo; de 1961 a 1969, nos Ginásios Vocacionais; de 1966 a 1969, no Ginásio Estadual Pluricurricular Experimental). Estas experiências são realizadas com base na ênfase ao aspecto biológico da sexualidade humana, tal qual era o tratamento dado a esta questão nos livros que possibilitaram o surgimento da sexologia enquanto área do conhecimento da medicina. Além disso, estas experiências foram fortemente carregadas com as marcas da repressão das manifestações da sexualidade. Na época das primeiras experiências em Orientação Sexual nas escolas brasileiras, o país vivia seu período histórico e político chamado de ditadura militar. Em 1964, a população assiste à chegada das forças armadas ao poder da República Federativa do Brasil, através da imposição do Golpe de Estado. A partir daí o regime militar reprime não só as manifestações políticas, mas também as manifestações sexuais e as implicações nos padrões de comportamento delas decorrentes. 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM 32 Em 1968, a deputada federal do Rio de Janeiro Júlia Steinbruk apresentou um projeto de lei que previa a introdução obrigatória da Educação Sexual nas escolas brasileiras. Tal projeto de lei não foi transformado em legislação porque o então Ministério da Educação e Cultura, através de sua Comissão Moral e Civismo, rejeitou o projeto, demonstrando o severo receio por parte dos gestores da educação brasileira da época em relação ao tratamento de questões sexuais com os estudantes. Na década de 70, cresce a censura do governo militar e há um quase desaparecimento de projetos de Orientação Sexual nas escolas brasileiras. Apenas em 1978, com a abertura política trazida pelo presidente Ernesto Geisel, a Prefeitura Municipal de São Paulo implantou projetos de Orientação Sexual em três escolas, os quais, posteriormente, foram ampliados para muitas escolas municipais, envolvendo orientadores educacionais e professores de Ciências e Biologia. Em 1979, a rede pública estadual paulista iniciou um trabalho de informação aos estudantes sobre os aspectos biológicos da reprodução, por intermédio da disciplina de Ciências e Programas de Saúde da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo. Ao fim da década de 70 e durante a década de 80, surgem novas ações no plano da Orientação Sexual, como o aparecimento de serviços telefônicos, programas de rádio e de televisão, enciclopédias e fascículos, congressos e encontros de professores. Proliferam as iniciativas na rede particular de ensino. Nasce nessa época a SBRASH - Sociedade Brasileira de Sexualidade Humana. De 1989 a 1992, na cidade de São Paulo, foi desenvolvido um abrangente projeto de Orientação Sexual nas escolas municipais, com a participação do renomado GTPOS (Grupo de Trabalho e Pesquisa em Orientação Sexual). Este projeto atingiu 30.000 alunos e foram capacitados 1.105 professores para oferecer ações de orientação sexual nas escolas. Nota-se que, desde as primeiras experiências de projetos de Orientação Sexual na década de 1960, não existiram ações continuadas, sendo que estes projetos historicamente ficaram atrelados às vontades político-partidárias de prefeitos ou governadores. Ribeiro corrobora dizendo que, somente com a aprovação da LDB - Lei de Diretrizes e Bases em 1996 e o estabelecimento dos Parâmetros Curriculares Nacionais em 1997 como linhas a serem seguidas para se concretizar a meta da educação para o exercício da cidadania, a Orientação Sexual teve oficialmente reconhecida sua necessidade e importância enquanto ação educativa escolar. Os programas de Orientação Sexual Podemos constatar na maioria dos programas de Orientação Sexual executados no Brasil, ainda nos dias atuais, uma tendência de mostrar apenas os problemas e possíveis más consequências da sexualidade. Em geral, no conteúdo destes programas são enfatizadas (quando não são exclusivas) as IST - Infecções Sexualmente Transmissíveis e as gravidezes precoces na adolescência, com maternidade e/ou paternidade indesejadas. Este conteúdo não sensibiliza os jovens para a discussão construtiva do tema sexualidade humana. Eles costumam não se sentir à vontade para receber uma adequada Orientação Sexual, pois identificam claramente a repressão sexual que experimentam em seu meio social, aqui também reproduzida pelos profissionais orientadores sexuais. Em contato com um conteúdo de Orientação Sexual que prioriza os problemas advindos de uma vivência inadequada da sexualidade e não os aspectos afetivos, prazerosos, e de respeito às relações humanas, os jovens costumam não perceber uma relação coerente entre o conteúdo abordado e suas próprias experiências reais concretas. Comenta-se que o sexo traz problemas, mas a maioria dos jovens percebe suas experiências sexuais como prazerosas, surgindo aí um paradoxo. Desta forma, urge a necessidade da discussão de conteúdos adequados à realidade dos jovens para que eles possam realmente tomar atitudes responsáveis na vivência de suas sexualidades. Assim, um programa efetivo de Orientação Sexualdeve reconhecer o exercício prazeroso da sexualidade, sem deixar de contemplar as medidas de proteção à saúde e os métodos contraceptivos para tornar possível a emergência de maternidades e paternidades responsáveis, no momento de escolha consciente de cada pessoa que deseje ter filhos. Nos dias atuais, percebe-se a crescente preocupação de alguns pais e educadores diante do número de gestações na adolescência. Segundo o Ministério da Saúde, enquanto a taxa de fecundidade de mulheres adultas tem caído nas últimas quatro décadas, entre as mulheres jovens existe uma relação inversamente proporcional. “Desde os anos 90, a taxa de fecundidade entre adolescentes aumentou 26%. Tal preocupação mobiliza e estimula o avanço das ações em orientação sexual, o que pode ser intensamente benéfico para os jovens, visto que eles poderão ter maior acesso a programas desta natureza. No entanto, cabe questionar se pais e educadores ainda mantêm seu foco sob uma concepção repressiva da sexualidade humana, desejando que uma Orientação Sexual possa produzir uma atitude sexualmente abstinente dos jovens brasileiros, desejo que se mostra absolutamente inalcançável e 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM 33 indesejável. De outro modo, a preocupação advinda dos pais e educadores quanto ao número de gestações na adolescência pode ser um ponto de partida para propiciar espaços abertos de discussão, onde o jovem possa refletir sobre sua própria sexualidade, no sentido de conscientemente poder efetuar escolhas para sua vida, que incluem ter ou não filhos. Para tal escolha, o jovem, que num futuro próximo se tornará um adulto, deve ter conhecimento e autonomia sobre o uso de métodos contraceptivos. Outra preocupação de pais e educadores que mobiliza a execução de programas de Orientação Sexual são as doenças sexualmente transmissíveis uma vez que, ao iniciar a vida sexual, muitos jovens, ainda que possuam conhecimento de prevenção, não utilizam preservativo. Infelizmente a maioria dos programas brasileiros de Orientação Sexual não é contínua. Caracterizam- se muitas vezes pelo oferecimento de palestras pontuais sobre sexualidade. Este tipo de programa não atinge os objetivos de propiciar elementos para uma construção adequada do exercício da sexualidade dos jovens. Para trazer efetivos benefícios à juventude, o processo de educação precisa de continuidade, de vínculo, de tempo, de reconhecimento. Orientação Sexual como Tema Transversal O governo federal brasileiro, através do Ministério da Educação - MEC, em seus Parâmetros Curriculares Nacionais (1997), estabelece a Orientação Sexual no Ensino Fundamental enquanto tema transversal, isto é, um assunto a ser trabalhado em todas as disciplinas escolares, por quaisquer professores que se sintam mobilizados, sempre que houver espaço na grade curricular ou em horários extraclasses. Segundo os Parâmetros Curriculares Nacionais - PCN, “propõe-se que a Orientação Sexual oferecida pela escola aborde com as crianças e os jovens as repercussões das mensagens transmitidas pela mídia, pela família e pelas demais instituições da sociedade. Trata-se de preencher lacunas nas informações que a criança e o adolescente já possuem e, principalmente, criar a possibilidade de formar opinião a respeito do que lhes é ou foi apresentado. A escola, ao propiciar informações atualizadas do ponto de vista científico e ao explicitar e debater os diversos valores associados à sexualidade e aos comportamentos sexuais existentes na sociedade, possibilita ao aluno desenvolver atitudes coerentes com os valores que ele próprio eleger como seus”. Percebemos o complexo dever atribuído à Orientação Sexual no âmbito escolar na medida em que é sua função a reflexão contínua sobre as informações constantes recebidas pelos jovens em suas relações sociais. Daí decorre a necessidade de que os profissionais que executam programas de Orientação Sexual tenham conhecimentos científicos suficientes e adequados para abordar as demandas cotidianas da juventude em relação à sexualidade. É preciso que, pela Orientação Sexual, os jovens possam formar suas opiniões a respeito do tema para propiciar um pleno exercício de suas sexualidades. Apesar da clara proposição dos PCN de conceber a Orientação Sexual no âmbito escolar enquanto tema transversal extremamente importante para a formação de valores conscientes pelos jovens em relação à sexualidade, muitas dificuldades têm permanecido no exercício diário desta prática educacional. Como sexo é um assunto intensamente repleto de repressões em nossa sociedade ocidental, muitos educadores não manifestam interesse sobre o tema, deixando de buscar formação adequada para o trabalho de Orientação Sexual com a juventude. Além dos profissionais diretamente em contato com os jovens, há uma grande parcela de educadores que são dirigentes de estabelecimentos educacionais e, reproduzem as mesmas repressões sociais em relação à sexualidade, não contribuindo positivamente para a execução de bons programas de Orientação Sexual, uma vez que não acreditam que este tema seja importante para a comunidade estudantil ou acreditam que falar sobre sexualidade com jovens estudantes pode induzi-los à prática precoce de relações sexuais. A Orientação Sexual na escola ainda tem um extenso caminho a ser trilhado para que a sexualidade, presente na vida de todas as pessoas, possa ser tratada (e aprendida) pelos profissionais da educação e seus respectivos educandos sem os massacrantes e silenciadores tabus e com respeito e propriedade, para inibir práticas inadequadas e produzir práticas saudáveis do exercício da sexualidade. O Educador/Orientador Sexual Retomando a discussão sobre a definição dos termos “educação sexual” e “orientação sexual” presente no item “Orientação Sexual X Educação Sexual” deste trabalho, encontramos com maior frequência na literatura especializada o termo “educador sexual” referindo-se àquele profissional que exerce a prática educacional de Orientação Sexual, enquanto prática institucionalizada e sistematizada. 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM ADM Realce ADM Sublinhado ADM Realce ADM Realce ADM Sublinhado 34 Desta forma, neste momento, utilizaremos o termo “educador sexual” para fazermos referência a este profissional especializado e não aos membros da família e demais relações interpessoais dos jovens, que contribuem para a sua educação em um sentido mais amplo, conforme Vitiello. Segundo Canosa Gonçalves, o desenvolvimento psicossexual é um processo único e pessoal, que sofre transformações ao longo do processo por diversos aspectos do comportamento sexual humano sendo eles: constituição biológica do indivíduo (hereditariedade, níveis hormonais), relações familiares, padrão econômico, características culturais, adoção da fé, entre outros. Portanto, o educador sexual, ao realizar sua prática, está inserido neste complexo contexto do comportamento humano e deve intervir nesta realidade. Os jovens com os quais o educador sexual trabalhará trazem em suas histórias de vida diversas realidades, variadas construções biopsicossociais em um mesmo grupo de jovens orientandos. Cabe ao educador sexual ter capacidade para perceber tais diferenças e pautar suas ações de maneira a privilegiar a diversidade, num contexto de respeito às escolhas pessoais de cada jovem. Ao educador sexual é requerida abertura intelectual, moral e afetiva para tornar possível a realização da Orientação Sexual com jovens tão diversos. A Orientação Sexual deve ser uma prática ofertada a todos os jovens, mas não uma prática arbitrária e unidimensional, que reproduz os preconceitos repressivos de nossa sociedade. Assim, o educador sexual deve ser flexível em relação às diversas orientações afetivo-sexuais, às religiosidades, enfim, diversas concepções construídas sobre sexualidade na história pessoal decada jovem. Orientação Sexual “se destina à pessoa humana, com a prerrogativa de igualdade entre os seres humanos, em primeiro lugar”. O educador sexual deve apresentar adequação sexual, isto é, reconhecer-se enquanto pessoa sexuada, com suas preferências e limites, e não influenciar as decisões dos jovens a partir destas preferências. Diferenciar-se pessoalmente de quem orienta é imprescindível para que o educador sexual possa propiciar condições para reflexão ao jovem para que este possa realizar suas próprias escolhas. Segundo Canosa Gonçalves um bom educador sexual é “aquele que convive com os jovens no dia-a-dia, que os conhece e é reconhecido por eles, e que tem em sua prática profissional os pressupostos da educação”. Desafiante para o trabalho do educador sexual com jovens é utilizar métodos e técnicas que prendam a atenção deste público, que provoquem reflexão e que sejam capazes de fazer com que o jovem se comprometa consigo próprio e com suas parcerias. É imprescindível que o educador sexual possua conhecimentos científicos adequados sobre desenvolvimento humano, constituição dos órgãos sexuais, saúde reprodutiva, métodos de prevenção às IST´s e/ou contraceptivos, relacionamentos interpessoais e relações de gênero. Não é necessário que o profissional detenha estes conhecimentos em nível de especialista em sexualidade humana, mas deve continuar a buscar atualizar tais saberes, afim de oferecer uma prática de qualidade em relação à Orientação Sexual. Nesta realidade, o desafio proposto ao orientador sexual é que, através de seu trabalho, possa propiciar condições para que os jovens reflitam a respeito de suas sexualidades e possam exercê-las de maneira saudável. Segundo Vitiello educar é dar ao educando condições e meios para que cresça interiormente. Mas afinal o que é diversidade sexual de gênero no ambiente escolar? Gênero e Sexualidade: Diálogos e Conflitos Marcas epistemológicas O modo de compreender a diferença evoluiu no sentido de pensa-la junto com o seu duplo, seu contrário, seu avesso, ou seja, ela é sempre relacional e dificilmente bipolarizada. Esse modo de compreensão aguça a sensibilidade humana e sua condição de experimentar, de se (auto) inventar. A relevância do debate crítico ancorado no domínio discursivo da heterossexualidade que, pretensiosamente hegemônica e unificada em um modo de ser, desconsidera outras formas que não atendem às suas práticas discursivas. Pensamos que essa situação se reflete diretamente nas práticas curriculares, prejudicando o entendimento de diversas relações sociais e culturais presentes na escola, e mais amplamente, na sociedade. Estamos entendendo como currículos as ações escolares, culturais e tecnológicas (arquitetura, livros didáticos, vestimentas, músicas, conteúdos e dizeres científicos, meios midiáticos e outros) que, significadas na cultura, ensinam e regulam o corpo, produzindo subjetividades e arquitetando formas e configurações de viver na sociedade. 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM 35 Os equívocos Recorda-se que, no Brasil, a homossexualidade deixou de se configurar como doenças nos instrumentos médicos (mais precisamente como desvio mental e transtorno sexual), em fevereiro de 1985. Essa alteração foi fruto de uma intensa campanha, liderada pelo antropólogo Luiz Mott, junto com o Conselho Federal de Medicina (CFM) que, por resolução, retirou a homossexualidade da lista de doença. Sendo importante lembrar que, já em 1973, a American Psychiatric Association, afirmara que a homossexualidade não tinha ligação alguma com qualquer tipo de patologia e propusera a sua retirada do Manual de Diagnóstico e Estatística de Transtornos Mentais (DSM-IV). Já a Organização Mundial de Saúde (OMS), somente no dia 17 de maio de 1990, reuniu-se em Assembleia Geral e retirou a homossexualidade de sua lista de doenças mentais, declarando que ela não constituía um distúrbio, uma doença ou perversão. Assim, o que antes tinha sido classificado, estabelecido e difundido como desvio e anormalidade, a partir dessa assembleia, seria considerado normal. Se aceitarmos a sexualidade assim como a experiência estão condicionadas pela necessidade humana de se construir nas interações sociais, culturais e históricas, aceitaremos também que não há uma única sexualidade. A ausência de liberdade impede o movimento de busca pela completude, na qual a sexualidade, como dimensão da humanidade, se constitui. Existe um nexo entre a sexualidade, a vida e a curiosidade pelo saber. Esse movimento infinito em busca de completude e em busca de conhecimento é fator que constitui o ser humano e seu desejo de liberdade. No entanto, ainda que pareça contraditório, não confiamos no desejo como princípio, condição e direito de liberdade. Não cremos, em absoluto, que haja desejo anterior a um conjunto de normas ou acordos sociais que o faça livre. Nós o pensamos como criado singularmente, mas em redes de relações. Sem dúvidas, a compreensão da sexualidade poderá contribuir, de modo significativo, para novas possibilidades de construção de conhecimentos e caminhos de busca do saber. Não se trata, portanto, de aprisioná-la nos discursos sobre o ato sexual, mas de aproveitá-la em seu potencial epistemológico. Essa análise é especialmente oportuna e necessária à escola. A Discussão na Escola Na escola, as atitudes de hostilidade às identidades sexuais dissidentes são capazes de gerar inúmeras situações de violências homofóbicas. Algumas, que não se encontram na esfera dos números e dados quantitativos, são vivenciadas no silêncio e ocultadas na invisibilidade. A discriminação afirma o “direito” dos que discriminam e a subalternidade dos que são discriminados. Nesse sentido, ela é observada nos espaços-tempos escolares. As identidades vinculadas às expectativas de gênero e/ou sexo biológico estão no interior das hierarquizações e classificações sociais, tanto quanto nos currículos e, mais amplamente, nas ações e relações do cotidiano escolar. A sexualidade, infelizmente, é algo temido e capaz de gerar tantos discursos na sociedade, na ciência e na cultura. Sua estreita relação com o conhecimento amedronta os que se nutrem da arrogância, porque fragiliza suas verdades e certezas. Foucault26 nos ajuda a observar que é preciso fortalecer, aprofundar e prosseguir contra a dicotomia e lógica binária, até que as oposições binárias deixem de ter sentido e se consolidem convivências solidárias, em contextos sem discriminações e violências. Como estratégia para fazer difuso o antigo jogo de poder que se instala na relação entre opressor e oprimido, a proposta foucaultiana é a “proliferação” de saberes sobre os seres humanos e as relações e de poder que os oprimem, de tal modo que o modelo jurídico de poder como opressão e regulação deixe de ser hegemônico. Talvez, desse significado de “proliferação” de saberes, possamos retirar as bases para “proliferar” inúmeras e ilimitadas formas de compreender os seres humanos, sem as violências, já tantas vezes vivenciadas, e com tantas exterminações em massa, como na Segunda Guerra, devido à não aceitação do “outro”, a quem se atribui dessemelhança e desigualdade, potencializando os efeitos destrutivos da xenofobia que, em todas as suas manifestações, incluindo as homofóbicas, conduz e justifica a aversão, o domínio ou a eliminação dos “estranhos”, que ameaçam e incomodam o exercício arbitrário do poder. Diversidade e Educação: Apontamentos Sobre Sexualidade e Gênero na Escola Desde as décadas de 1960 e 1970, expressivas mudanças socioculturais e históricas ocorreram, no que se refere às perspectivas das relações de gênero e sexualidade. Essas mudanças se acentuaram de modo significativo, a partir, não apenas da atuação de movimentos sociais, mas também da emergência da discussão da AIDS nos anos 80. 26 FOUCAULT, M. História da sexualidade - A vontade de saber. Rio de Janeiro: Graal,1988. 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM 36 Novas maneiras de entender e discutir as questões foram sendo consideradas, com desdobramentos na esfera social e política (por meio de Organizações Não Governamentais/ONGs, de movimentos sociais e de políticas públicas) e, na esfera acadêmica, com a efetivação de estudos em vários campos de conhecimento, que têm direcionado seu foco para a sexualidade e as relações de gênero, como fenômenos a serem conhecidos de modo mais fundamentado, expandindo sua discussão para outros aspectos, como os das identidades e seus fundamentos históricos e culturais. Sexo e sexualidade são frequentemente tomados como sinônimos; todavia, sexo admite uma compreensão referida ao aspecto natural, biológico, da distinção física entre o homem e a mulher. No senso comum, o sentido de sexo remete ao ato sexual. Já a sexualidade refere-se à esfera mais ampla, dos sentimentos, das interações entre as pessoas. Recorda-se e reafirma-se, portanto, que a sexualidade, como construção social, tem absorvido, historicamente, em seus significados, elementos das relações de gênero, frequentemente submetidas a prescrições de como homens e mulheres devem vivenciá-las. Contudo, apesar da sexualidade estar imbricada, implícita ou explicitamente às relações de gênero, essas não são consideradas sinônimas27. A vivência da sexualidade não é determinada por normas padronizadas às quais homens e mulheres devem se adaptar. Esse é um dos princípios que motivam e sustentam significados, mas amplos da sexualidade e promovem a sua problematização, que incorpora aportes como os que são revistos nas relações de gênero. Problematização das Relações de Gênero: Revisão de Dados Históricos e Conceituais O entendimento das relações de gênero implica a noção de que, no decorrer da vida, por intermédio das mais díspares instituições e práticas sociais, os sujeitos se constituem como homens e mulheres, em uma ação que não é unidimensional, coerente ou congruente e que também sempre estará inacabada ou incompleta. Sendo assim, partindo desse pressuposto de incompletude, encontra-se fundamento para realçar a noção de gênero na educação, já que essa disposição teórica expande socialmente a própria ideia de educação, podendo-se entender que educar envolve um conjunto de forçasse de processos, em cuja dinâmica os sujeitos aprendem a se aceitar como homens e mulheres, na esfera das sociedades e dos grupos que estão inseridos. Essa é mais uma premissa que contribui para a desconstrução de estereótipos que limitam e reduzem a compreensão social, culturalmente contextualizada, de gênero. Identidades Sexuais: Revisão de Perspectivas de Desconstrução de Estereótipos É oportuno indagar se é plausível que a manifestação aparente de identidades sexuais não normativas na escola colabore para desajustar dispositivo de rejeição ou, ao contrário, para realçá-lo, uma vez que a construção da heterossexualidade e da homossexualidade tem configurado por meio de oposição recíproca. No mesmo sentido, é apropriado indagar sobre o alcance político de transformação para uma escolarização radicalmente não heterossexista e excludente, com base na visibilidade dessas identidades. Dessa forma, enfatiza-se a relevância da efetivação de pesquisas sobre a presença de sexualidades não normativas no espaço escolar como forma de ampliar vetores de análises dos processos educacionais possivelmente geradores de antagonismos e exclusão que se contrapõem a políticas que realçam o princípio da autonomia na educação inclusiva e, nela, o respeito ao significado plural da diversidade, sem imposição de uma única identidade central, padrão. Contudo, o que se espera da escola, no interesse de ensinar e aprender, mais amplamente, sobre sexualidade, encontra barreiras em processos de atitudes homofóbicas que ainda permanecem contaminando o seu ambiente. Ninguém Pode Calar a Homossexualidades e Homofobia na Escola Recorda-se que, desde os anos 90, a preocupação com a prevenção da AIDS e da gravidez na adolescência inseriu-se nas escolas de modo mais evidente e sistematizado. A ideia era a de que várias disciplinas agregassem o assunto de modo conectado com outros temas. No entanto, o tratamento alicerçado em uma ótica biologizante do sexo prosseguiu, sendo o debate sobre a diversidade de orientação sexual ainda incipiente ou, na melhor das hipóteses, relegado a segundo plano. Espera-se que a instituição escolar, como espaço de formação, local onde se formam cidadãos e se estudam e consolidam direitos, reconheça o problema da discriminação gerada pela homofobia em suas salas de aula e perceba a necessidade de enfrentá-lo, no interesse de que sejam superadas a intolerância e a violência, que se multiplicam em sofrimento, silêncio, invisibilidade, medo e morte física e existencial. 27 LOURO, G.L. Gênero, sexualidade e educação: uma perspectiva pós-estruturalista. 2 ed., Petrópolis: Vozes, 1998. 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM 37 Para Saber Mais... A seguir alguns termos relevantes a serem considerados sobre a diversidade de gênero: Assimetrias de Gênero: desigualdades de oportunidades, condições e direitos entre homens e mulheres, gerando hierarquias. Por exemplo: no mercado de trabalho. Binarismo: forma de pensamento que separa e opõe masculino e feminino, apoiando-se numa concepção naturalizante dos corpos biológicos. Bissexual: pessoa que tem desejos, práticas sexuais e relacionamento afetivo-sexual com pessoas de ambos os sexos; Corpo: inclui além das potencialidades biológicas, todas as dimensões psicológicas, sociais e culturais do aprendizado pelo qual as pessoas desenvolvem a percepção da própria vivência. Não existe um corpo humano universal - mas sim corpos marcados por experiências específicas de classe, de etnia, de raça, de gênero, de idade. Visto que os corpos são significados e alterados pelas diferentes culturas, pelos processos morais, pelos hábitos, pelas distintas opções e possibilidades de desejo, além das diversas formas de intervenção e produção tecnológica. Por isso, o corpo é uma produção histórica. Foucault ao analisar instituições como escolas, prisões, hospitais psiquiátricos, fábricas, fala das maneiras como as diferentes disciplinas controlam, domesticam, normalizam os corpos. Sua preocupação é com as práticas sociais, sendo que é no corpo que se dá o controle da sociedade sobre os indivíduos. Os corpos apresentam as marcas do processo de passar ou não pela escola como o auto disciplinamento, o investimento continuado e autônomo do sujeito sobre si mesmo. Louro parte do pressuposto antropológico de que "os corpos são o que são na cultura”, isto é, que os corpos adquirem seu significado apenas através dos discursos na cultura e na história. Essa vertente se afasta das discussões teóricas nas quais o corpo é tido como “natural”, no qual o biológico determina o gênero. Desigualdade: é um fenômeno social que produz uma hierarquização entre os indivíduos e/ou grupos que não permite o tratamento igualitário (em termos de mercado de trabalho, de acesso a bens e recursos, para todos e todas. Essa desigualdade existe na divisão dos atributos entre homens e mulheres. Esse desnível se evidencia em vários contextos: familiar, social, escolar, religioso, econômico, político, .... Dessa forma, fica claro que existem fronteiras que separam atitudes e comportamentos tidos como apropriados, válidas e legítimas relacionadas ao sexo masculino e ao feminino. Diferença: indivíduos e/ou grupos possuem várias formas de distinção e de semelhanças (cor, sexo, idade, nacionalidade). A desigualdade pauta-se por essas diferenças e semelhanças que constituem os indivíduos e/ou grupos. Direitos Sexuais: direitos que asseguram aos indivíduos a liberdade e a autonomia nas escolhas sexuais, como a de exercer a orientação sexual sem sofrer discriminaçõesou violência. Os direitos sexuais englobam múltiplas expressões legítimas da sexualidade, como por exemplo, o direito à saúde - direito de cada pessoa de ver reconhecidos e respeitados o seu corpo (autonomia), o seu desejo e o seu direito de amar (reconhecimento da diversidade sexual). Discriminação: ação de discriminar, tratar diferente, excluir, marginalizar. Estereótipo: é uma generalização de julgamentos subjetivos feitos a um grupo ou a um indivíduo. Pode ser atribuindo valor negativo desqualificando-os e impondo-lhes um lugar inferior, ou simplesmente, reduzindo determinado grupo ou indivíduo a algumas características e, assim, definindo lugares específicos a serem ocupados. Feminilidade: se refere às características e comportamentos considerados por uma determinada cultura associados ou apropriados às mulheres. Caracterizar os comportamentos como “masculinos” ou “femininos” é basear-se nas noções essencialistas do binarismo mulher/homem, isto quer dizer que, atributos que muitas vezes são considerados femininos podem estar baseados no biológico e nas diferenças físicas. Dessa forma, a 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM 38 feminilidade nos homens, bem como a masculinidade nas mulheres, é considerada negativa por agir contra os papéis tradicionais da nossa cultura. Um estereótipo comum para homens homossexuais é de que são efeminados porque utilizam ou exageram comportamentos tidos como femininos, por exemplo. Gênero: conceito formulado a partir das discussões trazidas do movimento feminista para expressar contraposição ao sexo biológico e aos termos “sexo” e “diferença sexual”, distinguindo a dimensão biológica da dimensão sexual e, acentuando através da linguagem, “o caráter fundamentalmente social das distinções baseadas no sexo”. Não com a intenção de negar totalmente a biologia dos corpos, mas para enfatizar a construção social e histórica produzida sobre as características biológicas. Dessa forma, gênero seria a construção social do sexo anatômico demarcando que homens e mulheres são produtos da realidade social e não decorrência da anatomia dos seus corpos. Heteronormatividade: termo utilizado para expressar que existe uma norma social que está relacionada ao comportamento heterossexual como padrão. Dessa forma, a ideia de que apenas o padrão de conduta heterossexual é válido socialmente, colocando em desvantagem os sujeitos que possuem uma orientação sexual diferente da heterossexual. Heterossexismo: se refere à ideia de que a heterossexualidade é a orientação sexual “normal” e “natural”. Considerar a heterossexualidade como “natural”, aponta para algo inato, instintivo e que não necessita de ser ensinado ou aprendido. Ao considerar a heterossexualidade “normal”, contrapõe-se a ideia de que as outras orientações sexuais (homossexualidade e bissexualidade, por exemplo) são um desvio à norma e reveladoras de perturbação, não sendo encaradas como um dos aspectos possíveis na diversidade das expressões da sexualidade humana. O heterossexismo funciona através de um sistema de negação e discriminação - a sociedade tende a negar a existência da homossexualidade, tornando-a invisível (em quantos manuais escolares existem referências neutras ou positivas à homossexualidade?) e tende a reprimir e discriminar todos aqueles que se tornam visíveis. Heterossexual: quem tem atração sexual por pessoas do sexo oposto ao seu, e relacionamento afetivo-sexual com elas. Heterossexuais não precisam, necessariamente, terem vivido experiências sexuais com pessoas do mesmo sexo ou do sexo oposto para se identificarem como tal. Heterossexualidade Compulsória: sistema que acomoda e hierarquiza as relações de gênero, no qual o homem é o modelo para todas as relações, inclusive aquelas em que ele não está presente. Homoafetivo: é um termo utilizado para descrever relações entre pessoas do mesmo sexo e tem relação com os aspectos emocionais e afetivos envolvidos na relação amorosa e sexual entre essas pessoas. Homofobia: termo usado para descrever vários fenômenos sociais relacionados ao preconceito, a discriminação e à violência contra os homossexuais (ter desprezo, ódio, aversão ou medo de pessoas com orientação sexual diferente do padrão heterossexual). O termo, no entanto, não se refere ao conceito tradicional de fobia, facilmente associável à ideia de doença e tratados com terapias e antidepressivos. Atualmente, grupos lésbicos, bissexuais e transgêneros, com o intuito de conferir maior visibilidade política à suas lutas e criticar normas e valores postos pela dominação masculina, propõem, também, o uso dos termos lesbofobia, bifobia e transfobia. Daniel Borrillo faz uma leitura epistemológica e política desse conceito, não para compreender a origem e o funcionamento da homossexualidade, mas para “analisar a hostilidade provocada por essa forma específica de orientação sexual”. Segundo este autor quando a homossexualidade requer publicamente sua expressão é que se torna insuportável, pois rompe com a hierarquia da ordem sexual. Por isso, a tarefa pedagógica deve ser questionar a heterossexualidade compulsória e mostrar que a hierarquia de sexualidades é tão insustentável quanto a de sexos, bem como incluir a ideia de diversidade sexual em livros e apostilas escolares. Homossexual: é a pessoa que tem atração sexual e afetiva por pessoas do mesmo gênero e relacionamento com elas. Homossexualidade: é a atração sexual e afetiva por pessoas do mesmo sexo. Cabe uma ressalva, não é correto o uso do termo homossexualismo, porque reveste de conotação negativa, atribuindo-lhe 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM 39 significado de doença e aberração. Por isso, devemos preferir a utilização dos termos homossexualidade, lesbianidade, bissexualidade, travestilidade, transgeneridade e transexualidade. Identidade De Gênero: expressão utilizada primeiramente no campo médico-psiquiátrico para designar os “transtornos de identidade de gênero”, isto é, o desconforto persistente criado pela divergência entre o sexo atribuído ao corpo e a identificação subjetiva com o sexo oposto. Entretanto, atualmente, a identidade de gênero corresponde à experiência de cada um, que pode ou não corresponder ao sexo do nascimento. Podemos dizer que a identidade de gênero é a maneira como alguém se sente e se apresenta para si ou para os outros na condição de homem ou de mulher, ou de ambos, sem que isso tenha necessariamente uma relação direta com o sexo biológico. É composta e definida por relações sociais e moldadas pelas redes de poder de uma sociedade. Os sujeitos têm identidades plurais, múltiplas, identidades que se transformam, que não são fixas ou permanentes, que podem até ser contraditórias. Os sujeitos se identificam, social e historicamente, como masculinos e femininos e assim constroem suas identidades de gênero. Cabe enfatizar que a identidade de gênero se trata da forma que nos vemos e queremos ser vistos, reconhecidos e respeitados, como homens ou mulheres, e não pode ser confundida com a orientação sexual (atração sexual e afetiva pelo outro sexo, pelo mesmo sexo ou por ambos). Identidade Sexual: identidades sexuais se constituem através das formas como vivemos nossa sexualidade, e refere-se a duas questões diferenciadas: 1) É o modo como a pessoa se percebe em termos de orientação sexual; 2) É o modo como ela torna pública (ou não) essa percepção de si em determinados ambientes ou situações. Quer dizer, corresponde ao posicionamento (nem sempre permanente) da pessoa como homossexual, heterossexual, ou bissexual, e aos contextos em que essa orientação pode ser assumida pela pessoa e/ou reconhecida em seu entorno. Intersexual ou Intersex: a palavra intersexual é preferível ao termo hermafrodita e é um termo usado para se referir a uma variedade de condições (genéticas e/ou somáticas) com que uma pessoanasce, apresentando uma anatomia reprodutiva e sexual que não se ajusta às definições de masculino e feminino, tendo parcial ou completamente desenvolvidos ambos os órgãos sexuais, ou um predominando sobre o outro. A intersexualidade, enquanto transgeneridade é uma condição e não uma orientação sexual. Portanto, as pessoas que se autodenominam intersexuais podem se identificar como homossexuais, heterossexuais ou bissexuais. Lesbofobia: termo usado para descrever vários fenômenos sociais relacionados ao preconceito, a discriminação e à violência contra as lésbicas (ter desprezo, ódio, aversão ou medo de pessoas com orientação sexual diferente do padrão heterossexual). Ver homofobia. Machismo: é a crença de que os homens são superiores às mulheres. É uma construção cultural que definiu que as características atribuídas aos homens, tem um valor maior. Se pensarmos na educação de meninos e meninas, veremos que há um tratamento diferenciado que reproduz as manifestações de machismo nos meninos, e às vezes, nas próprias meninas. Ao incentivar (infidelidade, violência doméstica, esporte, diferença de direitos). Masculinidade: faz oposição ao termo feminilidade e diz respeito a imagem estereotipada de tudo aquilo que seria próprio dos indivíduos homens, ou seja, às características e comportamentos considerados por uma determinada cultura como associados ou apropriados aos homens. Ver feminilidade, pois são conceitos relacionais que não passíveis de serem entendidos separadamente. Masculinidade Hegemônica: é um modelo construído socialmente que controla, domina e substima as diversas formas de expressão de outras masculinidades, tornando-se um padrão de masculinidade. Movimento Feminista: o movimento feminista surgiu para questionar a organização social, política, econômica, sexual e cultural de uma sociedade profundamente hierárquica, autoritária, masculina, branca e excludente. Sendo assim, o feminismo pode ser entendido como uma luta pela transformação da condição das mulheres, que é pública e também privada. E que pode ser entendida, a partir de três eixos: 1) como movimento social e político; 2) como política social; 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM 40 3) e como ciência, ampliando os debates teóricos e conceituais (derivando a categoria gênero como analítica de sexo). Essas vias se entrecruzam, por diversas vezes, para desestabilizar representações, questionar a divisão sexual da sociedade, opor-se à hierarquização dos gêneros e, por isso, as teorias nem sempre podem dissociar-se de suas ações políticas, e vice-versa. Poder/Relações de Poder: nossas definições, crenças, convenções, identidades e comportamentos sexuais têm sido modeladas no interior de relações definidas de poder. Para Michel Foucault, o poder está em toda parte; não porque englobe tudo e sim porque provém de todos os lugares. O poder se exerce de diversas formas: poder de produzir os corpos que controla, produz sujeitos, fabrica corpos dóceis, induz comportamentos. Foucault propõe que observemos o poder como uma rede que, capilarmente, se distribui por toda a sociedade. Nas palavras dele: “lá onde há poder, há resistência e, no entanto (ou melhor, por si mesmo) esta nunca se encontra em posição de exterioridade em relação ao poder”. Preconceito: é um pré-conceito uma opinião que se emite antecipadamente alimentada pelo estereótipo, é um juízo preconcebido, manifestado geralmente na forma de uma atitude discriminatória perante pessoas, lugares ou tradições consideradas diferentes ou "estranhos". Racismo: conjunto de princípios que se baseia na superioridade de uma raça sobre a outra. A atitude racista é aquela que atribui qualidades aos indivíduos conforme seu suposto pertencimento biológico a uma determinada raça. Não é apenas uma reação ao outro, mas é uma forma de subordinação do outro. Sexismo: atitude preconceituosa que difere homens de mulheres definindo características específicas para cada um, subordinando o feminino ao masculino. Sexo Biológico: é o conjunto de características fisiológicas, informações cromossômicas, órgãos genitais, potencialidade individual para o exercício de qualquer função biológica que diferencia machos e fêmeas. Entretanto, o sexo não é simplesmente algo que lhe foi dado pela biologia. Foucault analisa o sexo biológico como um efeito discursivo. O poder cria o corpo ao anunciá-lo sexuado, ao fazer de sua constituição biológica um fator natural que carrega características específicas e torna indiscutível a divisão dos humanos em dois blocos distintos (homens e mulheres). Isto não significa que o corpo não exista de forma sexuada. O que o poder cria é outra coisa: é a importância dada a esse fator corporal (biológico). O sexo produz, interdita, possibilita e regula o corpo limitando certos tipos de escolhas para a produção de um corpo sexuado que seja culturalmente aceitável e inteligível. Assim, o sexo é uma norma através da qual alguém se torna viável. Sexualidade: é aprendida, ou melhor, é construída ao longo de toda a vida, de muitos e diferentes modos, por todos os sujeitos por isso, é entendida como um conceito dinâmico que se modifica conforme as posições do sujeito e suas disputas políticas. A sexualidade tem a ver tanto com o corpo, como também com os rituais, o desejo, a fantasia, as palavras, as sensações, emoções, imagens e experiências. Ela não tem ligação somente com a questão do sexo e dos atos sexuais, mas também com os prazeres e sua relação com o corpo e a cultura compreendendo o erotismo, o desejo e o afeto; até questões relativas a reprodução, saúde sexual, utilização de novas tecnologias. Transexual: pessoa que possui uma identidade de gênero diferente do sexo designado no nascimento. Homens e mulheres transexuais podem manifestar o desejo de se submeterem a intervenções médico-cirúrgicas para realizarem a adequação dos seus atributos físicos de nascença (inclusive genitais) à sua identidade de gênero constituída. Transfobia: termo usado para descrever vários fenômenos sociais relacionados ao preconceito, a discriminação e à violência contra transexuais (ter desprezo, ódio, aversão ou medo de pessoas com orientação sexual diferente do padrão heterossexual). Ver homofobia. Transgêneros ou Trans: são termos utilizados para reunir, numa só categoria, travestis e transexuais como sujeitos que realizam um trânsito entre um gênero e outro. Travesti: pessoa que nasce do sexo masculino ou feminino, mas que tem sua identidade de gênero oposta a seu sexo biológico, assumindo papéis de gênero diferentes daquele imposto pela sociedade. Muitas travestis modificam seus corpos através de hormonioterapias, aplicações de silicone e/ou cirurgias 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM 41 plásticas, porém vale ressaltar que isso não é regra para todas (Definição adotada pelo Conferência Nacional LGBT em 2008). Orientação Sexual: refere-se ao sexo das pessoas que elegemos para nos relacionar afetiva e sexualmente. Atualmente temos três tipos de orientação sexual: heterossexual, homossexual e bissexual. Contrapõem a OPÇÃO SEXUAL entendida como escolha deliberada e realizada de forma autônoma. Violência De Gênero: é aquela oriunda do preconceito e da desigualdade entre homens e mulheres e apoia-se no estigma da virilidade masculina (legítima defesa da honra) e da submissão feminina. Quando as vítimas são crianças e adolescentes o Art. 245 do ECA, obriga os profissionais da saúde e educadores e educadoras a comunicarem o fato aos órgãos competentes. Na escola a discriminação é manifestada por meio de apelidos, exclusões, perseguição, agressão física. Questões 01. (SEDUC/SP - Conhecimentos Pedagógicos - FGV) Leia o fragmento a seguir. “Além das novas demandas e dos entraves do cenário escolar e suas próprias condições de vida e de trabalho, o professor ainda sedepara com outras dificuldades que complicam a realização das intenções dos PCNs de ênfase em parâmetros curriculares não tradicionais, como sexualidade e gênero”. (Abramovay et al., 2004) Assinale a alternativa que apresenta a proposta que tem como objetivo mitigar o apresentado no fragmento. (A) Suspender a aplicação do tema transversal orientação sexual. (B) Deixar o tema da sexualidade e da afetividade como responsabilidade exclusiva dos professores da área de Biologia, já que configuram o “saber competente”. (C) Capacitar os professores para lidar com o tema sexualidade. (D) Delegar a responsabilidade pela orientação sexual aos movimentos sociais. (E) Delegar a responsabilidade pela orientação sexual às famílias dos alunos. 02. (SEDUC/RJ - Conhecimentos Básicos - Todos os cargos - CEPERJ) Uma das questões formativas fundamentais da vida humana, incorporadas pelos Parâmetros Curriculares Nacionais, é a orientação sexual. Segundo os PCNs, as questões relativas à orientação sexual devem constituir: (A) uma nova disciplina com horário específico de aulas na escola (B) uma nova área de conhecimento a ser desenvolvida em interface com as agências de educação permanente da sociedade (C) uma área de conhecimento específica do ensino médio e tratada como disciplina (D) um tema específico a ser tratado nas aulas de Biologia e Sociologia (E) um tema transversal que permeia as diferentes disciplinas e áreas de conhecimento 03. (IF/PE - Assistente de alunos) Leia a seguinte sentença: “Temas como gênero, sexualidade e diversidade sexual estão pautados dentro das políticas sociais e devem ser discutidos em diferentes instâncias da sociedade”. A expressão “gênero”, na sentença transcrita, refere-se (A) exclusivamente às características físicas e biológicas entre o corpo do homem e da mulher, do menino e da menina. (B) às diferenças entre o masculino e o feminino que foram construídas a partir do século XXI. (C) às diferenças entre o masculino e o feminino que foram construídas exclusivamente depois dos movimentos feministas. (D) às diferenças entre o masculino e o feminino que foram construídas no decorrer da história da humanidade por meio dos costumes, ideias, atitudes, crenças e regras criadas pela sociedade. (E) exclusivamente às características físicas e biológicas entre o corpo do homem e da mulher, depois que eles atingem a maturidade sexual. 04. (IF/PE - Assistente de Alunos) Leia a seguinte sentença: “Temas como gênero, sexualidade e diversidade sexual estão pautados dentro das políticas sociais e devem ser discutidos em diferentes instâncias da sociedade”. A expressão “gênero”, na sentença transcrita, refere-se (A) exclusivamente às características físicas e biológicas entre o corpo do homem e da mulher, do menino e da menina. (B) às diferenças entre o masculino e o feminino que foram construídas a partir do século XXI. (C) às diferenças entre o masculino e o feminino que foram construídas exclusivamente depois dos movimentos feministas. 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM 42 (D) às diferenças entre o masculino e o feminino que foram construídas no decorrer da história da humanidade por meio dos costumes, ideias, atitudes, crenças e regras criadas pela sociedade. (E) exclusivamente às características físicas e biológicas entre o corpo do homem e da mulher, depois que eles atingem a maturidade sexual. Gabarito 01.C / 02.E / 03.D / 04.D Comentários 01. Resposta: C A letra A trata a suspensão do tema e essa não é uma pratica proposta uma vez que a orientação sexual esta como tema transversal nos PCN desde 1995. A letra B trata de deixar o tema como responsabilidade do professor de biologia, está errada pois como tema transversal não é um saber competente de uma única disciplina. A letra C está correta. A letra D sugere delegar a responsabilidade pela orientação sexual aos movimentos sociais, está errada pois os movimentos sociais podem até tratar o tema, mas não deve ser colocado como responsabilidade destes. A letra E está errada uma vez que a responsabilidade pela orientação sexual não deve ser somente da família, mas também da escola. 02. Resposta: E O governo federal brasileiro, através do Ministério da Educação - MEC, em seus Parâmetros Curriculares Nacionais (1997), estabelece a Orientação Sexual no Ensino Fundamental enquanto tema transversal, isto é, um assunto a ser trabalhado em todas as disciplinas escolares, por quaisquer professores que se sintam mobilizados, sempre que houver espaço na grade curricular ou em horários extraclasses. 03. Resposta: D Ao falar em sexo referem-se às características físicas e biológicas de cada um, às diferenças entre um corpo de homem e de mulher, de menino e de menina. Porém ao falar em gênero, trata-se às diferenças que foram construídas ao longo da história da humanidade por meio dos costumes, ideias, atitudes, crenças e regras criadas pela sociedade. 04. Resposta: D Quando falamos em sexo nos referimos às características físicas e biológicas de cada um, às diferenças entre um corpo de homem e de mulher, de menino e de menina. Mas, quando falamos em gênero, nos referimos às diferenças que foram construídas ao longo da história da humanidade por meio dos costumes, ideias, atitudes, crenças e regras criadas pela sociedade. Relações de Gênero: “...Saber a respeito das diferenças sexuais - histórica, social e culturalmente construída. Portanto relativa, contextual, contestável e mutável. É um saber que atravessa todas as relações que se constituem na sociedade, organizando as relações de poder a partir dos significados que cada sociedade atribui à diferença sexual”. É mais do que a maneira que as pessoas se relacionam é o jeito de olhar e compreender a realidade. DROGAS O alarde da mídia, os gastos vultosos nas ações de “guerra às drogas” e de repressão à comercialização e ao consumo não têm produzido impactos sensíveis, a não ser o de situar a questão como caso de polícia. É necessário reconhecer que o fenômeno moderno das drogas é produto da própria vida em sociedade, das rupturas nas relações afetivas e sociais e da desproteção de seus membros. Atualmente, as drogas são distribuídas segundo regras financeiras e comerciais do mercado, como todas Drogadição: conceitos legais; drogas lícitas e ilícitas; percepção sobre o usuário; conhecimento básico sobre diagnóstico e prevenção ao uso de drogas 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM 43 as demais mercadorias, ocupando um lugar altamente lucrativo na economia e uma posição própria no modo de organização social. 28 Na verdade, o uso de drogas não é algo novo para a humanidade e não existem evidências de que deixará de acontecer. O consumo de diferentes substâncias psicoativas no trabalho, no lazer ou em rituais e festas, com papel agregador de comunidades, é comum a todas as culturas, e o uso social e religioso de drogas prazerosas, capazes de modificar o humor, as percepções e sensações, tem sido uma constante ao longo da história humana. Entretanto, neste final de século, o acesso a diferentes drogas vem fugindo cada vez mais ao controle da coletividade, tendo passado a caracterizar-se, também, como um problema sanitário. Isso ocorre em função de inúmeros fatores, entre eles o aumento considerável da oferta como resultado da produção em massa, os crescentes graus de consumo e dependência, as condições psicossociais desagregadoras que geram e se amplificam com o abuso das drogas atualmente oferecidas no mercado e com o crescimento da epidemia da Aids. De que “drogas” estamos falando? O que chamamos habitualmente de “drogas” corresponde às drogas psicoativas, que têm atração por atuar no cérebro, modificando a sensibilidade, o modo de pensar e, muitas vezes, de agir. Isso inclui, além de produtos ilegais como maconha, crack e cocaína, os medicamentos paraemagrecer que contêm anfetaminas, a nicotina, o álcool e a cafeína. Por isso, ao se discutir “drogas”, é necessário diferenciá-las. As drogas não são todas iguais, são distintas do ponto de vista do risco orgânico, dos efeitos e da dependência que podem provocar, da aceitação legal e cultural que desfrutam, implicando distintas situações de risco. E não necessariamente são os riscos decorrentes das convenções sociais, que estabelecem em cada momento e sociedade se cada droga é lícita ou ilícita, mas sim, os riscos orgânicos decorrentes de seu uso ou abuso. O fato é que, no Brasil, as drogas legais representam mais de 90% dos abusos frequentes praticados pela população em geral. Os estudos disponíveis mostram que, entre os escolares, destaca-se também o uso de drogas lícitas: em primeiro lugar aparece o álcool, seguido pelo tabaco, por inalantes e tranquilizantes. Todos esses produtos podem ser obtidos em mercados e farmácias. Fala-se em “drogas” genericamente, sem se levar em consideração as relações cotidianas que se estabelecem com diferentes substâncias químicas. Não são feitas distinções entre medicação e automedicação, atendendo, inclusive, aos chamados da propaganda de remédios, comercializados como quaisquer outros produtos. Em contradição com as práticas visíveis aos jovens e que permeiam o cotidiano de sua vivência social, os discursos de combate às drogas sugerem que elas são produtos ilegais e misteriosos e seus consumidores são os outros, marginais e traficantes, a serem excluídos do convívio social. “Não às drogas”, neste caso, pode constituir-se em um discurso alarmante mas vazio, que não leva em conta os sentidos sociais do fenômeno, nem repercute sobre a capacidade de discernimento dos verdadeiros riscos. É indiscutível, no Brasil, o consumo abusivo de medicamentos de forma não terapêutica, estando os remédios muitas vezes disponíveis à criança e ao adolescente no próprio domicílio. Considerando os problemas de saúde e as internações hospitalares decorrentes do consumo abusivo de produtos psicoativos na população em geral e entre adolescentes, novamente, o álcool, acessível com facilidade pelo seu baixo custo, oferta generalizada e propaganda ostensiva, ocupa, de longe, o primeiro lugar. Da mesma forma, o consumo excessivo de tabaco, embora seja um fator de risco importante para a morte prematura, por aumentar as probabilidades de ocorrência de problemas pulmonares, cardiovasculares e câncer, entre outros, não resultou até hoje na proibição da propaganda de cigarros em função de poderosos interesses econômicos envolvidos. Nota-se que a experimentação ou mesmo o uso frequente de maconha aparecem em quinto lugar nas pesquisas realizadas entre estudantes do ensino fundamental, em nível nacional. Por outro lado, a iniciação no consumo de diferentes drogas psicotrópicas vem se intensificando entre crianças e jovens. O Relatório apresentado pela Organização PanAmericana de Saúde aponta que o hábito de fumar, considerado pela entidade uma epidemia internacional, tem início, em 90% dos casos, na adolescência, assim como os dados relativos à Aids que também sugerem que a contaminação pelo HIV ocorre precocemente, associada não só à iniciação sexual desprotegida, como ao uso compartilhado de seringas para a administração de drogas injetáveis. Esta é também a fase em que a sociedade estimula o adolescente para o consumo, eventualmente abusivo, de álcool, como indicador simbólico de que se atravessou a linha divisória entre a infância e a vida adulta. E, certamente, as drogas psicoativas podem 28 Parâmetros Curriculares Nacionais- Saúde. 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM ADM Realce ADM Sublinhado ADM Realce ADM Sublinhado ADM Realce 44 assumir um papel importante na vida do adolescente como recursos facilitadores da comunicação, da busca do prazer ou na lida com os novos desafios que se apresentam. Mas é necessário deixar claro que todos os dados disponíveis não apontam para uma epidemia das drogas no Brasil; o seu consumo no país não é privilégio de jovens nem se caracteriza principalmente pelo abuso de drogas ilegais. Ao contrário, as drogas legais e banalizadas pela sociedade associam-se aos riscos mais significativos, superar o alarmismo e a sensação de “catástrofe iminente” só pode ajudar na abordagem sensata da questão. Tipos de Drogas Drogas Estimulantes As drogas estimulantes mais conhecidas são as anfetaminas, a cocaína e seus derivados. As anfetaminas podem ser ingeridas, injetadas ou inaladas. Sua ação dura cerca de quatro horas e os principais efeitos são a sensação de grande força e iniciativa, excitação, euforia e insônia. Em pouco tempo, o organismo passa a ser tolerante à substância, exigindo doses cada vez maiores. A médio prazo, a droga pode produzir tremores, inquietude, desidratação da mucosa (boca e nariz principalmente), taquicardia, efeitos psicóticos e dependência psicológica. A cocaína também pode ser inalada, ingerida ou injetada. A duração dos efeitos varia, a chamada euforia breve persiste por 15 a 30 minutos, em média. Nos primeiros minutos, o usuário tem alucinações agradáveis, euforia, sensação de força muscular e mental, os batimentos cardíacos ficam acelerados, a respiração torna-se irregular e surge um quadro de grande excitação. Depois, ele pode ter náuseas e insônia. Segundo os especialistas, em pessoas que têm problemas psiquiátricos, o uso de cocaína pode desencadear surtos paranoides, crises psicóticas e condutas perigosas a ele próprio ou a terceiros. Fisicamente, a inalação deixa lesões graves no nariz e a injeção deixa marcas de picada e o risco de contaminação por outras doenças (DST/aids). Em todas as suas formas, causa séria dependência, sendo o crack o principal vilão. Drogas Depressoras No conjunto das drogas depressoras, as mais conhecidas são o álcool, os soníferos, a heroína, a morfina, a cola de sapateiro, os remédios ansiolíticos e antidepressivos (barbitúricos) e seus derivados. Seu principal efeito é retardar o funcionamento do organismo, tornando todas as funções metabólicas mais lentas. A heroína é uma substância inalável. Excepcionalmente, pode ser injetada, o que leva a um quadro de euforia. Quando inalada, porém, resulta em forte sonolência, náuseas, retenção urinária e prisão de ventre - efeitos que duram cerca de quatro horas. A médio prazo, leva à perda do apetite e do desejo sexual e torna a respiração e os batimentos cardíacos mais lentos. Instalada a dependência, o organismo apresenta forte tolerância, obrigando o usuário a aumentar as doses. A superdosagem pode resultar em coma e morte por insuficiência respiratória. Os derivados da morfina apresentam efeitos muito parecidos com os da heroína, porém, com características euforizantes menores. Seu efeito depressor é explorado pela Medicina há várias décadas, principalmente no alívio da dor de pacientes com câncer em estado terminal. Outra preocupação constante dos médicos é o uso abusivo dos antidepressivos, soníferos e ansiolíticos (barbitúricos). Para pessoas que têm doenças psiquiátricas, como as depressões e os distúrbios de ansiedade, estas drogas são extremamente importantes, pois o tratamento adequado atenua o mal-estar e permite que o indivíduo leve uma vida normal, no entanto, só um médico é capaz de identificar quem deve usar e em que dosagem. Como o próprio nome indica, os antidepressivos aliviam a ansiedade e a tensão mental, mas causam danos à memória, diminuição dos reflexos e da função cardiorrespiratória, sonolência e alterações na capacidade de juízo e raciocínio. A conduta do usuário é muito parecida com a do dependente alcoólico. Em pouco tempo, estas drogas causam dependência, confusão, irritabilidade e sérias perturbações mentais. Alucinógenos As drogas alucinógenas mais comuns são a maconha, o haxixe, o LSD, os cogumelos e o ecstasy. A maconha e o haxixe são usadas em forma de cigarro(também pode ser cheirada ou ingerida). Seu efeito dura entre uma e seis horas. Inicialmente, o usuário tem a sensação de maior consciência e desinibição. Ele começa a falar demais, rir sem motivo e ter acessos de euforia. Porém, ele pode perder a noção de espaço (os ambientes parecem maiores ou menores) e a memória recente, além de apresentar um 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM 45 aumento considerável do apetite (“larica”). A maconha costuma afetar consideravelmente os olhos, que ficam vermelhos e injetados. Com o tempo, pode causar conjuntivite, bronquite e dependência. Em excesso, pode produzir efeitos paranoicos e pode ativar episódios esquizofrênicos em pacientes psicóticos. O LSD é encontrado em tabletes, cápsulas ou líquido e é ingerido. Sua ação dura entre 10 e 12 horas. Inicialmente, a droga intensifica as percepções sensoriais, principalmente a visão, e produz alucinações. Com o tempo, pode causar danos cromossômicos sérios, além de intensificar as tendências psicótica à ansiedade, ao pânico e ao suicídio, pois gera um medo enlouquecedor. O usuário costuma dizer que ouve, toca ou enxerga cores e sons estranhos; fala coisas desconexas e tem um considerável aumento da pupila. Já o cogumelo, geralmente, é ingerido em forma de chá. Seu efeito dura cerca de seis a oito horas, propiciando relaxamento muscular, náuseas e dores de cabeça, seguidos de alucinações visuais e auditivas. A médio prazo, não se conhecem seus efeitos sobre o organismo. Seus sintomas são muito parecidos com os do LSD. Mais recentemente, surgiu no mercado das drogas o Ecstasy, um comprimido que vem sendo comercializado cada vez mais em todo o mundo. Seus efeitos também são alucinógenos, como no caso do LSD e a dependência é inevitável. E como trabalhar a prevenção ao consumo de drogas? Considerando os dados acima descritos sobre o consumo de drogas, considerando a incidência desse uso em adolescentes (em grande maioria em idade escolar), a escola em conjunto com a família desempenha um papel fundamental na conscientização desses adolescentes acerca desse tema. Deste modo o objetivo da escola não se resume ao ensino dos conteúdos das matérias. Sua função alcança o desenvolvimento das crianças e dos adolescentes nas diferentes dimensões da vida. Neste contexto, o professor tem uma multiplicidade de funções. Ao selecionar os conteúdos do ensino e ao fornecer ou construir conhecimentos, ele o faz de determinadas formas e isso já caracteriza o tipo de percepção que os alunos terão de si mesmos, da vida e dos valores. Não é possível negar o papel do educador no desenvolvimento de posturas e comportamentos sobre os mais diferentes assuntos: vida social e familiar, cultura de paz ou de violência, cidadania, ética, relacionamento sexual, uso de drogas, saúde em geral, vida profissional e projeto de vida. Refletir e posicionar-se sobre a questão do uso de drogas é parte integrante desse processo e é preciso que os professores se preparem para esta tarefa. Entre as instituições que têm, entre suas funções, prevenir o uso indevido de drogas, a escola ocupa um lugar privilegiado. Em primeiro lugar porque todas as crianças e adolescentes, por princípio, frequentam a escola e o fazem por um grande número de horas semanais, durante vários anos. É comprovada a influência que a escola exerce na formação das pessoas que só é superada pelo papel familiar. Fundamentos da Prevenção na Escola A prevenção deve ser um grande processo de reflexão sobre a vida, os valores, os comportamentos e os projetos dos alunos e não simples aulas sobre os efeitos das drogas. O objetivo da prevenção é auxiliar as pessoas a, bem formadas e informadas, desenvolverem a sua capacidade de decisão para fazerem escolhas que, incluindo ou não o uso de alguma droga, favoreçam a sua saúde e segurança ao longo da vida. Com base neste objetivo, três eixos orientam o trabalho de prevenção do uso indevido de drogas na escola: a estrutura da escola, as ações implícitas e as ações explícitas. 1. Estrutura da Escola Uma escola que cumpre seu papel de oferecer uma educação de qualidade, proporcionando um ensino competente e dá oportunidades de escolhas e participação aos alunos, valoriza seus valores e sua cultura estará sendo, por sua postura e organização, uma instituição preventiva. Entre as características dessa escola estão: - Oferecer um clima acolhedor e afetivo; - Apresentar altas expectativas para os alunos; - Ter parâmetros de comportamento claros e consistentes; 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM 46 - Favorecer a participação, envolvimento e responsabilidade das crianças e dos jovens nas tarefas e decisões da escola; - Desenvolver um ensino e de uma educação de qualidade. 2. Ações Implícitas São as ações dos educadores na escola que contribuem para o desenvolvimento de habilidades pessoais e sociais dos alunos. Não se está, neste momento, falando sobre drogas ou sobre seus usos, mas favorecendo que os alunos tenham consciência sobre seus comportamentos e saibam como atuar para fazer escolhas saudáveis, em qualquer dimensão da vida. Entre as habilidades a serem desenvolvidas estão: - Capacidade de tomar decisões; - Fortalecimento da autoestima; - Habilidade para resolver problemas; - Desenvolvimento da capacidade de reflexão; - Estabelecimento e manutenção de vínculos interpessoais; - Capacidade de manejar emoções próprias; - Construção de um projeto de vida. 3. Ações Explícitas Além de constituir-se como uma entidade preventiva por sua própria estrutura e forma coletiva de se organizar e pelo desenvolvimento de habilidades, para que a prevenção seja efetiva é necessário complementar o trabalho com referências e informações explícitas sobre as drogas, suas características, efeitos, riscos e usos. Ações explícitas incluem abordar com os alunos temas como: - Conhecimento sobre os tipos de drogas e seus efeitos; - Reflexão sobre as diferentes relações com as drogas; - Informação e reflexão sobre os padrões de consumo; - Reflexão sobre formas de reduzir riscos e danos associados ao consumo de drogas; - Conhecimento da legislação e das políticas; - Reflexão sobre as relações entre a sexualidade e o uso de drogas; - Descoberta de recursos da comunidade para atendimento a usuários e dependentes; - Informações sobre como agir nas emergências. Princípios de Prevenção na Escola29 1. Integração no currículo da escola: a prevenção deve ser realizada, prioritariamente, pelos próprios educadores da escola, dentro do seu trabalho. 2. Desenvolvimento ao longo da escolaridade: a prevenção não deve ser algo pontual, desenvolvido quando surge um problema, mas em longo prazo, em todas as séries. 3. Trabalho coletivo: o trabalho preventivo não é de uma ou duas pessoas, mas do conjunto dos professores, coordenadores, diretores, funcionários, cada um contribuindo com sua especialidade e na sua função. 4. Envolvimento de toda a comunidade: as ações devem ter como objetivo, além dos alunos, os pais e os participantes da comunidade interna e externa da escola. 5. Diminuir fatores de risco e aumentar os de proteção: as bases da prevenção devem levar em conta as características próprias daquela realidade. 6. Ênfase nas drogas de maior risco de consumo na comunidade: devem ser discutidas tanto as drogas lícitas como as ilícitas, principalmente as mais consumidas na realidade próxima (álcool, cigarro, inalantes e outras). 7. Métodos interativos: a prevenção deve incorporar atividades diversificadas e dar prioridade à participação dos alunos. 8. Desenvolvimento de habilidades: entre as metas deve estar o desenvolvimento da capacidade de enfrentar e resolver problemas, de tomar decisões, assertividade e outras habilidades sociais. 29 ALBERTANI, H. M. B. Drogas e Prevenção. São Paulo: Sindepol, (2006. 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREIBRITO AMORIM 47 Algumas Orientações Práticas Para Fazer um Trabalho de Prevenção - Disponha os alunos em círculos para fazer discussões abertas. Evite sermões, palestras e discursos. Ouça suas opiniões, avalie suas ideias e reoriente o que estiver distorcido. - Peça opiniões anônimas por escrito, por exemplo, em tirinhas de papel, sobre as razões para o uso de drogas e as razões para não usá-las e depois discuta-as no grupo. - Traga (ou levante com os alunos) situações-problema sobre o abuso de álcool ou outras drogas e promova dramatizações, discussões e análises dos comportamentos e de suas consequências. - Organize atividades em que os alunos possam desenvolver as habilidades de tomar decisões, posicionar-se, resolver problemas, como por exemplo “saber recusar um cigarro quando não quer fumar” ou “limitar o número de doses de bebida numa festa”. - Promova jogos e dinâmicas nas quais os alunos possam testar seus conhecimentos sobre o assunto e incorporar novas informações corretas. - Desenvolva a motivação para que os alunos construam seus conhecimentos e façam pesquisas de aspectos do assunto de seu maior interesse. - Estimule a reflexão sobre os comportamentos dos alunos, relacionados com a saúde (e o uso de drogas), pontuando com informações e orientações. - Estabeleça trocas entre os alunos, permitindo a aprendizagem por meio de comunicações entre os iguais. - Procure integrar as discussões sobre o uso de drogas com os conhecimentos e atividades de diferentes disciplinas do currículo, por exemplo, um livro de literatura, uma aula de educação física, um conteúdo de história ou ciências, alguns cálculos ou problemas de matemática. - Associe as atividades de prevenção do uso indevido de drogas com outros comportamentos de promoção à saúde, como os relacionados à alimentação, à sexualidade, ao meio ambiente, às relações humanas, ao enfrentamento do stress, aos cuidados com o corpo, entre outros. - Dê prioridade à discussão sobre as drogas mais comuns de uso entre adolescente: álcool, tabaco, inalantes e maconha. - Realize atividades que mostrem a necessidade de retardar o máximo possível o uso das drogas lícitas, ressaltando a legislação que proíbe a venda de bebidas e cigarros aos adolescentes e as possibilidades de, ao beber, fazê-lo moderadamente, evitando riscos. - Enriqueça as aulas com a discussão de filmes, vídeos, visitas a sites, leituras de textos e livros. - Utilize notícias da mídia para ilustrar os temas desenvolvidos, tendo o cuidado para fazer uma crítica às distorções que muitas vezes estão presentes, especialmente o preconceito com os usuários, a demonização das drogas, o “esquecimento” das drogas mais usadas como o álcool e o cigarro. - Busque parcerias com outras pessoas e instituições da comunidade, lembrando sempre que o trabalho de prevenção é mais eficaz quando feito pelas pessoas de dentro da escola e com métodos interativos. - Auxilie os alunos a desenvolverem posturas críticas em relação ao uso de drogas, habilidades sociais para resistir ao uso indevido e discuta maneiras concretas de agir nestas ocasiões. - Procure não trazer pessoas de fora para a discussão dos temas, principalmente ex- usuários, pois os alunos tendem a achar que “isto não vai acontecer comigo” ou que “se ele conseguiu sair, eu também consigo”. - Atualize-se, informe-se, procure enfrentar seus preconceitos e dúvidas, não tenha receio de buscar ajuda e, principalmente, divida o trabalho de prevenção com seus colegas. Classificação das Drogas303132 As drogas são substâncias químicas de origem sintética, quando processadas industrialmente, ou natural, quando extraídas em altas concentrações a partir de órgãos vegetais (as folhas), ou de substâncias provenientes de secreção animal ou de estruturas fúngicas. O consumo contínuo, além de ocasionar a morte do indivíduo quando em altas quantidades (overdose), pode ocasionar sérias sequelas no sistema nervoso (lesões neuronais), no circulatório (tensões arteriais) e respiratório, bem como problemas de ordem social, envolvendo a marginalização de adolescentes atraídos pelo tráfico. 30 Texto adaptado de FONSECA, K. 31 Texto adaptado de ARAGUAIA, M. 32 Texto adaptado de MELDAU, D. C. 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM 48 As drogas podem ser classificadas de acordo com a ação: acentuada ou branda, sobre o sistema nervoso central: Perturbadoras - aquelas com efeito alucinógeno, acelerando o funcionamento do cérebro além do normal, causando perturbações na mente do usuário. Exemplo: LSD (sintetizadas a partir do ácido lisérgico), a maconha e o haxixe (produto e subproduto extraídos da planta Cannabis sativa), os solventes orgânicos (cola de sapateiro). Depressoras (as mais perigosas) - diminuem a atividade cerebral, deixando os estímulos nervosos mais lentos. Exemplo: tranquilizantes produzidos por indústrias farmacêuticas (antidepressivos, soníferos e ansiolíticos), o ópio, a morfina e a heroína (extraídos da planta Papoula somniferum). Estimulantes - substâncias que aumentam a atividade cerebral. Estimulam em especial áreas sensoriais e motoras. Integra esse grupo a cocaína e seus derivados (o crack), extraídos da folha da planta da coca, Erytroxylum coca. Drogas mistas - combinações de dois ou mais efeitos. A mais comum e conhecida desse grupo é o Ecstasy. Portanto, independentemente de sua classificação ou da substância utilizada, gera dependência química e causa sérios danos ao organismo da pessoa viciada, acometendo de forma irreversível o sistema nervoso. Drogas que Atuam em Nível de Sistema Nervoso Central As drogas psicotrópicas agem no sistema nervoso central, produzindo alterações de comportamento, humor e cognição. De acordo com a ação destas no organismo do indivíduo, um pesquisador francês, denominado Chaloult, classificou as drogas em três grandes grupos: Drogas estimulantes do sistema nervoso central: Estas substâncias aumentam a atividade cerebral, uma vez que imitam ou cooperam com os neurotransmissores estimulantes do organismo do indivíduo, como a epinefrina e dopamina. Assim, dão sensação de alerta, disposição e resistência, mas que, ao fim de seus efeitos, conferem cansaço, indisposição e depressão, devido à sobrecarga que o organismo se expôs. Algumas delas são: - Nicotina; - Cafeína; - Anfetamina; - Cocaína; - Crack; - Merla. Drogas depressoras do sistema nervoso central: Tais drogas apresentam uma diminuição das atividades cerebrais de seu usuário, deixando-o mais devagar, desligado e alheio; menos sensível aos estímulos externos. Algumas delas são: - Álcool; - Inalantes/solventes; - Soníferos; - Ansiolíticos; - Antidepressivos; - Morfina. Drogas perturbadoras do sistema nervoso central: São aquelas drogas cujos efeitos são relativos à distorção das atividades cerebrais, podendo causar perturbações quanto ao espaço e tempo; distorções nos cinco sentidos e até mesmo alucinações. Grande parte destas substâncias é proveniente de plantas, cujos efeitos foram descobertos por culturas primitivas, associando as experiências vivenciadas a um contato com o divino. Algumas delas são: - Maconha; 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM 49 - Haxixe; - Ecstasy; - Cogumelo; - LSD; - Medicamentos anticolinérgicos. Hipnóticos e Sedativos Os agentes sedativo-hipnóticos produzem sedação, sono, inconsciência, anestesia cirúrgica, coma e depressão respiratória e da função cardiovascular dependendo da dose. Um fármaco sedativo é definido como um agente capaz de reduzir a excitação e exercer efeito calmante, sem induzir ao sono, embora produza sonolência. A sedação está relacionada à diminuição da estimulação estando associada a alguma redução da atividade motora e do processo de pensamento. Um agente hipnótico induz ao e/ou mantém o sono, semelhante ao estado de sono natural. Emaltas doses, os hipnóticos podem levar à anestesia geral. Ambos os fármacos deprimem o SNC com leves diferenças nas relações de tempo e ação, assim como dose e ação. Esses agentes são classificados como: - Barbitúricos; - Benzodiazepínicos; - Hipnóticos não benzodiazepínicos. Barbitúricos Os barbitúricos (ou derivados do ácido barbitúrico) foram por muito tempo, a droga de escolha para o tratamento da insônia. O declínio de seu uso deu-se por vários motivos como: mortes por ingestão acidental, o uso em homicídios e suicídios, e principalmente pelo aparecimento de novas drogas como os benzodiazepínicos. Hoje em dia, os barbitúricos ainda são utilizados no tratamento de distúrbios convulsivos e na indução da anestesia geral. Os barbitúricos são produzidos através da condensação de derivados do ácido malônico e da ureia. Atualmente existem diversas barbitúricos disponíveis: Nome Genérico Nome Comercial Duração da Ação Amobarbital Amytal Ação curta a intermediária Barbital Veronal Ação prolongada Butabarbital Butisol Ação curta a intermediária Fenobarbital Gardenal, Luminal Ação prolongada Hexobarbital Evipal Ação curta a intermediária Mefobarbital Mebaral Ação prolongada Pentobarbital Nembutal Ação curta a intermediária Secobarbital Seconal Ação curta a intermediária Tiamilal Surital Ação ultracurta Tiopental Delvinal Ação curta a intermediária Ação no organismo A principal ação do barbitúrico é sobre o Sistema Nervoso Central. Eles podem causar depressão profunda, mesmo em doses que não têm efeito sobre outros órgãos. A depressão pode variar sendo desde um efeito sedativo, anestésico cirúrgico, ou até a morte. Outro efeito dos barbitúricos é o de causar sono, podendo induzir apenas o relaxamento (efeito sedativo) ou o sono (efeito hipnótico), dependendo da dose utilizada. Absorção, Metabolismo e Excreção dos barbitúricos O uso de barbitúricos pode ser oral, intramuscular, endovenoso, ou retal. Independentemente da via de administração eles se distribuem uniformemente pelos tecidos. Após a absorção, eles se ligam a proteínas do sangue e vão agir principalmente no cérebro, devido ao seu alto fluxo sanguíneo. Os efeitos depressores aparecem entre 30 segundos e de 15 minutos, dependendo do tipo de barbitúrico utilizado. Os barbitúricos são metabolizados no fígado e excretados na urina 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM 50 Envenenamento Barbitúrico O envenenamento barbitúrico é um problema clínico significativo, podendo levar à morte em alguns casos. A dose letal do barbitúrico varia de acordo com muitos fatores, mas é provável que o envenenamento grave ocorra com a ingesta de uma só vez de doses dez vezes maiores que a dose hipnótica total. Se o álcool ou outros agentes depressores forem utilizados junto com o barbitúrico, as concentrações que causam morte são mais baixas. Em casos de envenenamento grave o paciente apresenta-se comatoso, com a respiração lenta ou rápida e curta, a pressão sanguínea baixa, pulso fraco e rápido, pupilas mióticas reativas à luz e volume urinário diminuído. As complicações que podem ocorrer são: insuficiência renal e complicações pulmonares (atelectasia, edema e broncopneumonia). O tratamento nestes casos é de suporte. Tolerância aos barbitúricos O uso crônico de barbitúricos pode levar ao desenvolvimento da tolerância. Isso ocorre tanto pelo aumento do metabolismo da droga, como pela adaptação do sistema nervoso central à droga. O grau de tolerância é limitado, já que há pouca ou nenhuma tolerância aos efeitos letais destes compostos. Benzodiazepínicos Os benzodiazepínicos produzem cinco efeitos principais no organismo: sedativos, hipnóticos, ansiolíticos, relaxantes musculares e anticonvulsivantes. Os efeitos descritos são diferentes conforme o benzodiazepínico, entretanto, as respostas citadas estão presentes em todos os eles. Por exemplo, o Midazolam (Dormonid), Flurazepam (Dalmadorm) e Flunitrazepam (Rohypnol) são benzodiazepínicos com propriedades eminentemente sedativo-hipnóticas; Eles são usados, também no preparo de pequenas cirurgias e exames laboratoriais. Por outro lado, o Alprazolam (Frontal) tem uma ação mais ansiolítica e menos sedativa. As propriedades descritas acima tornam os benzodiazepínicos úteis no tratamento da ansiedade, insônia, agitação, apreensões, espasmos musculares, abstinência do álcool e como pré-medicação nos procedimentos médicos ou odontológicos. Alguns benzodiazepínicos (entre eles o Rivotril) são também usados nas crises mioclônicas (contrações musculares súbitas e involuntárias), ausências (perda transitória de consciência), crises convulsivas tônico-clônicas e ainda, no tratamento da Doença do Pânico. Na maioria das vezes o benzodiazepínico é administrado por via oral, no entanto, ele também pode ser dado por via intravenosa, intramuscular ou retal. Atenção: o pico do efeito (ponto máximo da concentração sanguínea) do é alcançada mais rapidamente quando a via de administração for oral e não intramuscular. Assim sendo, havendo necessidade de rapidez, a via oral ou endovenosa é preferível à intramuscular. Duração das ações dos Benzodiazepínicos Os diferentes benzodiazepínicos existentes, Clordiazepóxido (Librium, Psicossedin); Diazepan (Valium, etc.); Clonazepam (Rivotril, etc.); Bromazepam (Lexotam, etc.); Alprazolan (Frontal e etc.); Lorazepam (Lorax, etc.); Cloxazolan, (Olcadil) e outros, são classificados como sendo de curto, médio e longo prazo quanto ao tempo que permanecem fazendo efeito (agindo) no organismo. Apoiados na duração do tempo de ação, pode-se deduzir que os benzodiazepínicos de tempo médio são os mais indicados para tratar a insônia. Já os benzodiazepínicos de duração maior são recomendados para o tratamento da Ansiedade Generalizada. Efeitos colaterais O novo grupo de drogas, inicialmente recebida com otimismo pela profissão médica, aos poucos produziu preocupações, em particular, o risco de dependência que se tornou evidente na década de 1980. Embora os antidepressivos com propriedades ansiolíticas foram introduzidos, e existe uma crescente consciência dos efeitos adversos dos benzodiazepínicos, eles continuam a ser usados de forma exagerada e trivial para aliviar qualquer ansiedade. Os efeitos colaterais mais comuns dos benzodiazepínicos estão relacionados à sua ação sedativa e relaxante muscular, variando de indivíduo para indivíduo. A sedação produz a depressão, sonolência, tonturas, diminuição da atenção e concentração. A falta de coordenação muscular pode resultar em quedas e lesões, especialmente entre os idosos, além da dificuldade para andar. A diminuição da libido e dificuldade em ter ereção é um efeito colateral comum. A desinibição pode surgir levando a pessoa a ter uma conduta social inconveniente. A hipotensão e a respiração reprimida podem ser encontrada após o uso intravenoso. Efeitos colaterais menos comuns incluem náuseas e alterações do apetite, visão 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM 51 borrada, confusão, euforia, despersonalização e pesadelos. Casos de toxicidade hepática têm sido descritos, mas são raros. Efeitos a longo prazo Efeitos adversos tardios produzidos pelos benzodiazepínicos incluem uma deterioração geral da saúde mental e física que tendem a aumentar com o tempo. Nem todos, porém, enfrentam problemas com o uso a longo prazo. Os efeitos adversos podem incluir também o comprometimento cognitivo, bem como os problemas afetivos e comportamentais: agitação, dificuldade em pensar de forma construtiva, perda do desejo sexual, agorafobia e fobia social, ansiedade, depressão maior, perda de interesse em atividades de lazer e incapacidade de sentir ou de expressar as emoções. Além disso, pode ocorrer uma percepção alterada de si, do ambiente e nas relações sociais. Uso e abuso dos benzodiazepínicos Os benzodiazepínicos são comumente utilizadosabusivamente e tomado em combinação com outras drogas de abuso. Em geral, os benzodiazepínicos são seguros e eficazes durante poucos dias, apesar dos prejuízos cognitivos e comportamentais, tais como a agressão e desinibição que podem ocorrer ocasionalmente. Os benzodiazepínicos tomados em overdoses podem causar inconsciência perigosa e profunda. No entanto, eles são muito menos tóxicos que seus antecessores, os barbitúricos (Gardenal, etc.). A morte raramente resulta quando um benzodiazepínico é a única droga tomada. Ele, junto a outros depressores do sistema nervoso central (álcool e opiáceos), gera um aumento da toxicidade. Os benzodiazepínicos provocaram uma história original. Eles foram os responsáveis pelo maior número de ações contra os fabricantes de medicamentos no Reino Unido, A disputa envolveu cerca de 14.000 pacientes e 1.800 escritórios de advocacia. A alegação básica foi a de que os fabricantes sabiam do potencial de dependência, mas, intencionalmente, não forneceram essa informação aos médicos. Enquanto isto, 117 médicos de clínica geral e 50 autoridades de saúde foram processados pelos pacientes supostamente atingidos pelo efeito indesejado dos benzodiazepínicos, isto é, a dependência e a difícil retirada do ansiolítico. Alastrou-se o sistema: alguns médicos passaram a exigir um formulário de consentimento assinado pelos clientes. Além disso, os médicos decidiram, antes de iniciar o tratamento, advertir seus pacientes dos possíveis riscos de dependência e da complicada retirada. Entretanto o processo judicial contra os fabricantes do remédio deu em nada. Idosos e os benzodiazepínicos Os efeitos adversos dos benzodiazepínicos são aumentados e os benefícios são diminuídos nos idosos. Os efeitos indesejáveis sobre a cognição neles podem ser confundidos e tratados como resultante da velhice ou de demência (Alzheimer e outras). Assim, os benefícios dos benzodiazepínicos são menores, e os riscos, maiores nos idosos. Os idosos têm o risco de aumentar a dependência e ficarem mais sensíveis aos efeitos adversos, tais como problemas de memória, sedação diurna, dificuldade de coordenação motora e aumento do risco de acidentes automobilísticos e quedas. O efeito a longo prazo dos benzodiazepínicos e a dependência deles em idosos pode assemelhar-se à demência, depressão ou síndromes de ansiedade e, progressivamente piorar ao longo do tempo. Os benzodiazepínicos devem ser prescritos aos idosos com cuidado, em doses baixas e por um curto período de tempo. Os benzodiazepínicos de vida curta ou intermediaria são os preferíveis para os idosos, como Oxazepam e Temazepam. Os benzodiazepínicos de alta potência Alprazolam e Triazolam e os benzodiazepínicos de longa duração não são recomendados para os idosos devido ao aumento dos efeitos adversos. O uso a longo prazo dos benzodiazepínicos tem sido associado ao aumento do risco de comprometimento cognitivo. Mas sua relação com a demência permanece inconclusiva. Os benzodiazepínicos são prescritos, às vezes, para tratar os sintomas comportamentais das demências. No entanto, à semelhança dos antidepressivos, eles não só têm pouca eficácia, como também podem piorar a demência. Hipnóticos não benzodiazepínicos Zolpidem e zaleplon são agentes hipnóticos que atuam seletivamente no receptor de benzodiazepínico subtipo ômega-1 (BZ1), acredita-se que esta seletividade esteja associada a um risco menor de dependência em comparação com os benzodiazepínicos. A ação ansiolítica, anticonvulsivante e miorrelaxante são pouco significativas clinicamente. Esses agentes não formam metabólitos ativos, sendo considerados hipnóticos de curta duração. 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM 52 - Zolpidem (5-10mg) - derivado do imidazopiridínico com ação hipnótica e ação curta; eficácia comprovada na indução e na manutenção do sono. Possui tempo de meia-vida curto e relatos de sedação diurna mínima; - Zaleplon (5-20mg) - derivado do pirazolopirimidima de ação curta; administrado no meio da noite. Possui efeitos sedativos residuais mínimos após 4 horas da administração. Seu metabolismo é inibido por cimetidina. O tratamento de pacientes com disfunção hepática deve ser monitorado. Os efeitos adversos destes fármacos hipnóticos são semelhantes aos descritos com o tratamento com os benzodiazepínicos de ação curta; efeito amnésico e incoordenação motora. Menor incidência no desenvolvimento de tolerância e dependência. Efeitos Colaterais: - Diarreia. - Amnésia Anterógrada (dificuldade de se lembrar de fatos recentes - esquecendo-se de fatos acontecidos pós o trauma nos casos de quando esse sintoma é causado por um trauma e não por um fármaco). - Efeito ressaca: Alucinações, fadiga, prejuízo da coordenação motora (Tendo dificuldade na fala, diminuição da força e comprometimento do equilíbrio, tendo nesse ponto os mesmos efeitos do etanol - molécula que também se liga ao GABAA - consequentemente os barbitúricos e os benzodiazepínicos podem em caso de intoxicação causar efeitos parecidos também). Dificilmente apresenta dependência e tolerância, portanto o risco de abstinência é menor. O zolpidem é comumente indicado ao tratamento de insônia pelo seu efeito alto como depressor do SNC, passando do efeito sedativo e causando diretamente efeito de sonolência, induzindo ao sono (hipnótico). * O receptor GABAA é um dos dois canais iônicos ativado por ligante, responsável por mediar os efeitos do ácido gama-aminobutírico, o principal neurotransmissor inibidor no cérebro. Álcoois alifáticos O etanol é formado por moléculas pequenas que são rápida e facilmente absorvidas após a ingestão. Parte do álcool presente em uma bebida é absorvida pelas paredes do estômago. Se o estômago estiver cheio, a comida reduz o contato do álcool com suas paredes e a absorção pode chegar a ser até seis vezes mais lenta do que se o estômago estiver vazio. O álcool absorvido é metabolizado no fígado, onde é transformado em CO2 e H2O. Assim, é papel do fígado se livrar do álcool ingerido. No entanto, se a ingestão de álcool for mais rápida do que o fígado consegue metabolizá-lo, o teor de etanol no sangue irá subir. Sua atuação se dá principalmente no cérebro, onde, primeiramente, altera a razão. A seguir, a fala e a visão são afetadas. Se a ingestão continuar, o próximo efeito é o da perda de coordenação motora. Finalmente, o indivíduo pode perder a consciência. Se o consumo de bebida alcoólica for rápido e em grande quantidade, pode acontecer de o indivíduo estar com muito álcool no estômago quando perder a consciência. Mesmo inconsciente, o nível de etanol no sangue da pessoa continua a aumentar, podendo conduzir à morte. O álcool não metabolizado pelo fígado é eliminado na urina e pelo ar expirado. Nisso se baseia o batómetro, aparelho que mede o teor de álcool no ar expirado pela pessoa e, em função do resultado da medida, infere seu nível de embriaguez. Entre os muitos riscos do consumo de álcool está a alta chance de uma pessoa embriagada se envolver em acidentes de automóvel. Outro risco se relaciona ao fato de algumas pessoas terem propensão para se tornar alcoólicos (anteriormente denominadas alcoólatras), ou seja, dependentes de etanol. O uso do álcool por longos períodos provoca inúmeros problemas de saúde. O esquema abaixo mostra alguns deles, entre os quais merecem destaque os que envolvem o fígado. O primeiro consiste na produção e na deposição de gordura nesse órgão. A seguir, vem a hepatite alcoólica, que é uma inflamação do fígado. Ambos os problemas regridem se o consumo cessar e uma boa dieta alimentar for retomada. No entanto, se o consumo prosseguir, poder-se-á desenvolver ao longo do tempo uma cirrose hepática, que consiste num acúmulo de proteínas fibrosas no fígado e que 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM 53 interferem em seu funcionamento. Como se trata de um órgão responsávelpor muitas reações químicas fundamentais à sobrevivência, a cirrose hepática pode ser fatal. Consequências: - Cérebro: abuso prolongado de álcool pode acelerar a degeneração de células do cérebro e comprometer as funções nervosas e cerebrais. O cérebro frequentemente apresenta, nesses casos, estruturas anormais como, por exemplo, estrias largas e profundas. - Esôfago: câncer do esôfago é uma possível consequência do abuso prolongado de álcool. O etanol é tóxico para as células da parede esofágica, aumentando a probabilidade de tumores. - Coração: altas doses de bebidas alcoólicas produzem aumento de pressão sanguínea, o que acarreta deposição de gordura e aumento de tamanho dos órgãos. Ataques cardíacos e morte podem ocorrer. - Fígado: o fígado é o principal órgão responsável pela metabolização do álcool. A ingestão prolongada de álcool pode conduzir à cirrose hepática, que leva à falha no funcionamento do fígado e à morte. - Ascite: o fluido produzido pelo fígado lesado preenche o abdome. - Estômago e Pâncreas: o etanol é tóxico para as células do estômago e pode conduzir à inflamação desse órgão (gastrite), com dor e hemorragia. Abuso de álcool também conduz à inflamação do pâncreas, que pode evoluir para falha pancreática e até morte. Anestésicos Gerais São depressores do sistema nervoso central que produzem anestesia geral. Esta corresponde à abolição, de forma previsível e reversível, de percepção de sensações e de estado de consciência. A anestesia geral envolve a combinação dos seguintes elementos: inconsciência, amnésia, analgesia, relaxamento muscular e bloqueio de respostas neuro-humorais ao estresse anestésico-cirúrgico. Porém, nem sempre a presença de todos é necessária, nem com a mesma intensidade. Os anestésicos gerais classificam-se em agentes de inalação e intravenosos, usados em indução (estabelecimento do estado de inconsciência) e manutenção (preservação da perda de consciência e de adequados níveis de analgesia, relaxamento muscular e bloqueio de reflexos neurovegetativos) anestésicas. As necessidades decorrentes de cada procedimento anestésico-cirúrgico habitualmente levam à administração concomitante de anestésicos de inalação e intravenosos em indução e manutenção da anestesia, permitindo manuseio mais preciso e seguro das condições do paciente e favorecendo uso de menores doses, com redução de toxicidade. Efeitos da anestesia geral Em baixas doses: amnésia, euforia, analgesia, hipnose, excitação, hiperreflexia. Em altas doses: sedação profunda, relaxamento muscular, resposta motora diminuída, diminuição das respostas autônomas, proteção miocárdica contra isquemia, depressão cardiovascular/respiratória, hipotermia, náuseas, êmese e até mesmo ocasionando a morte na proporção de 1 : 250.000. Estimulantes do Sistema Nervoso Central Os medicamentos estimulantes centrais podem atuar em diferentes regiões do sistema nervoso central (SNC), sendo classificados de acordo com o local em que atuam de maneira predominante e, muitas vezes, até mesmo específica, em três grandes grupos: • Estimulantes corticais; • Estimulantes bulbares; • Estimulantes medulares. • Estimulantes Corticais Os fármacos deste grupo atuam de forma preponderante sobre os centros superiores. Nesta categoria encontramos a anfetamina e seus respectivos derivados e as metilxantinas (cafeína, teofilina, teobromina) e seus derivados. Causam, em graus distintos, alterações comportamentais; podem levar a excitação e euforia, reduzir a sensação de fadiga e aumentar a atividade motora. Anfetamina e derivados Este grupo de fármacos, na medicina humana, é utilizado no tratamento da obesidade, pois é inibidora do apetite. 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM 54 Além de inibir o apetite, as anfetaminas também podem, em certa dosagem, provocar um estado de excitação e sensação de poder. Seu uso foi popularizado durante a Segunda Guerra Mundial, na década de 50, para combater a fadiga causada pelo combate. O uso deste fármaco passou a ser comum entre os jovens. Conhecida entre eles como “bolinha” ou “rebite”, deixam o indivíduo “ligado”. A partir da década de 1970, iniciou-se o controle da comercialização, pois as anfetaminas passaram e ser consideradas drogas psicotrópicas, sendo, deste modo, ilegal seu uso sem acompanhamento médico adequado. As anfetaminas e seus derivados são simpatomiméticos de ação indireta. Inicialmente, produzem seus efeitos por liberar catecolaminas da terminação nervosa pré-sináptica, dentre outros mecanismos adicionais. Além disso, interagem com receptores de catecolaminas e têm uma pequena ação inibitória da monoamina oxidase (MAO), especialmente a MAO-A, caracterizada por apresentar preferência pela serotonina. Por serem poderosos estimulantes do SNC, quando utilizados como droga de abuso, causam dependência física e psíquica. A remoção abrupta de tratamento prolongado resulta em depressão e, o uso continuado, psicose anfetamínica. Os mecanismos tóxicos destas substâncias envolvem a produção de radicais livres, os quais lesionam os neurônios do sistema nervoso central. Neste aspecto, a anfetamina e seus derivados exercem efeitos importantes sobre a função mental e o comportamento, e podem até produzir neurodegeneração. Metilxantinas e derivados As substâncias derivadas das xantinas são: cafeína, teofilina e teobromina, encontradas naturalmente em alimentos ou bebidas como o café, o chá, o chocolate e certos tipos de refrigerantes de sabor cola. São rapidamente absorvidas pelo organismo, após administração oral, parenteral e retal. Existem evidências de que este grupo de fármacos são antagonistas competitivos de receptores da adenosina, em contraposição a outras possíveis ações observadas com doses mais altas, como a translocação do cálcio, a inibição da fosfodiesterase ou a liberação de neurotransmissores, especialmente a noradrenalina. A teofilina apresenta grande importância no tratamento da asma, na doença pulmonar obstrutiva crônica, além de funcionar como estimulante do SNC. A cafeína é encontrada em certas plantas e utilizada para o consumo em bebidas, na forma de infusão, como estimulantes. Dentre as três substâncias do grupo das xantinas, esta é a que mais atua sobre o SNC. Atua ainda sobre o metabolismo basal e eleva a síntese de suco gástrico. Doses terapêuticas dessa substância aumentam a capacidade de trabalho do músculo cardíaco, além de causar vasodilatação periférica. A teobromina, substância normalmente encontrada no fruto do Theobroma cacao, estando, portanto, normalmente presente no chocolate. Este é indicada para o tratamento de edema, ataques de angina sifilítica e angina degenerativa. Atualmente, esta substância é utilizada como vasodilatador, que auxilia na liberação da urina e estimulação do coração. Esta causa menor impacto no SNC. Mesmo que a teobromina não seja uma substância que leve ao vício, foi incriminada como causadora do vício em chocolate, pois este alimento afeta os níveis de serotonina. A teobromina pode causar efeitos colaterais como: insônia, tremores, inquietude, ansiedade, elevar a excreção de urina. Também pode causar perda de apetite, náuseas e vômitos. Estimulantes Bulbares São medicamentos que apresentam ações estimulantes nos centros bulbares, especialmente no centro respiratório e, em num segundo momento, no centro vasomotor, levando à exacerbada excitabilidade reflexa e, em doses maiores, convulsões. Também são chamados de analépticos. Atuam sobre o centro respiratório, elevando a ventilação pulmonar, efeito mais potente quando ocorre depressão deste centro pelo uso de barbitúricos, hidrato de cloral, entre outros. Nesta categoria estão englobados o doxapram, a niquetamida, o amifenazol, o etamivam, a picrotoxina e o pentilenotetrazol. Estimulantes medulares São fármacos que estimulam de preponderante a medula espinhal. O principal representante desta categoriaé a estricnina, um alcalóide oriundo da planta Strychnus nux vomica. A estricnina age de forma indireta, inibindo seletivamente a neurotransmissão inibitória, o que leva ao aumento da atividade neuronal e aumento exagerado da atividade sensorial de todo o SNC. É um bloqueador de receptores da glicina, mediador dos neurônios medulares, causando hiperpolarização dos motoneurônios e inibindo as células de Renshaw, responsáveis pela condução seletiva de impulsos excitatórios alternados para músculos antagônicos. Além disso, em doses elevadas, a estricnina é 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM 55 também um inibidor da liberação do GABA, que é um dos principais neurotransmissores inibitórios do SNC. Este é um dos estimulantes centrais mais poderosos. Causa convulsões tônicas e simétricas em toda a musculatura esquelética, sendo estes efeitos desencadeados por estímulos ambientais. Neurolépticos Os antipsicóticos ou neurolépticos são medicamentos inibidores das funções psicomotoras, a qual pode encontrar-se aumentada em estados, por exemplo, de excitação e de agitação. Paralelamente eles atenuam também os sintomas neuropsíquicos considerados psicóticos, tais como os delírios e as alucinações. São substâncias químicas sintéticas, capazes de atuar seletivamente nas células nervosas que regulam os processos psíquicos no ser humano e a conduta em animais. Os neurolépticos são drogas lipossolúveis e, com isso, têm facilitada sua absorção e penetração no Sistema Nervoso Central. Os antipsicóticos têm sua primeira passagem pelo fígado, portanto, sofrem metabolização hepática. A grande maioria dos neurolépticos possui meia vida longa, entre 20 e 40 horas, e esse conhecimento é importante na medida em que permite prescrição em uma única tomada diária. Outra consequência desta meia vida longa é o fato de demorar aproximadamente cinco dias para se instalar estado estável da droga no organismo. Por causa disso, o uso contínuo dos antipsicóticos resulta num acúmulo progressivo no organismo, até que o nível se estabilize depois de alguns dias. O equilíbrio ideal seria atingir uma situação onde a quantidade absorvida seja igual à excretada. Neste momento ocorre chamado de Equilíbrio Plasmático. Mecanismo de Ação Apesar dos neurolépticos tradicionais bloquearem ora os receptores adrenérgicos, serotoninérgicos, ora os receptores colinérgicos e histaminérgicos, todos eles têm em comum a ação farmacológica de bloquear os receptores dopaminérgicos. É em relação a estes últimos que os estudos têm demonstrado os efeitos clínicos dos neurolépticos. O bloqueio dos outros receptores, além dos dopaminérgicos, estaria relacionado mais aos efeitos colaterais da droga do que aos terapêuticos. Atualmente, uma das hipóteses mais aceitas como sendo relacionadas na patogenia da esquizofrenia fala de uma combinação de hiperfunção da dopamina e hipofunção dos glutamatos no sistema neuronal, juntamente com um envolvimento pouco esclarecido dos receptores da serotonina (5HT2) e um balanço entre esses receptores com os receptores dopamínicos (D2). Os receptores da dopamina mais conhecidos são o D1 e o D2 (ambos pós-sinápticos), além dos receptores localizados no corpo do neurônio dopamínico e no terminal pré-sináptico. A atividade terapêutica dos antipsicóticos parece estar relacionada, principalmente, com o bloqueio da dopamina nos receptores pós-sinápticos do tipo D2. Os antipsicóticos tradicionais, tais como a Clorpromazina e o Haloperidol, são eficazes em mais de 80% dos pacientes com esquizofrenia, atuando predominantemente nos sintomas chamados produtivos ou positivos (alucinações e delírios) e, em grau muito menor, nos chamados sintomas negativos (apatia, embotamento e desinteresse). Duas vias, mesolímbicas e mesocorticais, são as envolvidas nos efeitos terapêuticos dos antipsicóticos. As vias mesolímbicas e mesocorticais confundem-se anatomicamente e ambas se originam no segmento ventral do mesencéfalo. A via mesolímbica inerva diversos núcleos subcorticais do Sistema Límbico: amígdala, núcleo acumbens, tubérculo olfatório e o septo lateral. A via mesocortical tem suas terminações sinápticas localizadas no córtex frontal, na parte anterior do giro do cíngulo e no córtex temporal medial. As primeiras suspeitas de que este era o sítio da atuação terapêutica surgiram pela observação da semelhança sintomatológica entre determinadas patologias dos lobos frontais e temporais com a esquizofrenia, além da notável importância do sistema límbico nas emoções e na memória. A dopamina liberada próxima aos capilares da circulação porto-hipofisária chega à hipófise anterior e acaba, dentre outros efeitos, por aumentar a liberação secundária de prolactina. Mais um efeito colateral indesejável. A hipotensão, sedação e tontura, efeitos colaterais comuns aos neurolépticos tradicionais, normalmente acontecem devido à capacidade desses medicamentos bloquearem também os receptores alfa-adrenérgicos. Efeitos Colaterais Entre os efeitos colaterais provocados pelos neurolépticos, o mais estudado é o chamado Impregnação Neuroléptica ou Síndrome Extrapiramidal. Essa situação é o resultado da ação do medicamento na via nigro-estriatal, onde parece haver um balanço entre as atividades dopaminérgicas e colinérgicas. Desta 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM 56 forma, o bloqueio dos receptores dopaminérgicos provocará uma supremacia da atividade colinérgica e, consequentemente, uma liberação dos sintomas ditos extrapiramidais. Estes efeitos colaterais, com origem no Sistema Nervoso Central, podem ser divididos em cinco tipos: 1 - Reação Distônica Aguda Este sintoma extrapiramidal ocorre com frequência nas primeiras 48 horas de uso de antipsicóticos, portanto, é uma das primeiras manifestações de impregnação pelo neuroléptico. Clinicamente se observam movimentos espasmódicos da musculatura do pescoço, boca, língua e às vezes um tipo crise oculógira, quando os olhos são forçadamente desviados para cima. A possibilidade dessa Reação Distônica deve estar sempre presente nas hipóteses de diagnóstico em prontos-socorros, para diferenciá-la dos problemas neurológicos circulatórios. O tratamento desse efeito colateral é feito à base de anticolinérgicos injetáveis intramusculares (Biperideno - Akineton®, por exemplo), e são sempre eficazes em poucos minutos. 2 - Parkinsonismo Medicamentoso Esse tipo de impregnação geralmente acontece após a primeira semana de uso dos antipsicóticos. Clinicamente há tremor de extremidades, hipertonia e rigidez muscular, hipercinesia e fácies inexpressiva. O tratamento com anticolinérgicos ou antiparkinsonianos é igualmente eficaz. Para prevenir o aparecimento desses desagradáveis efeitos colaterais muitos autores preconizam o uso concomitante ao antipsicótico de antiparkinsonianos (Biperideno - Akineton®) por via oral. Muitas vezes, pode haver desaparecimento de tais problemas após 3 meses de utilização dos neurolépticos, como se houvesse uma espécie de tolerância ou adaptação ao seu uso. Esse fato favorece uma possível redução progressiva na dose do antiparkinsoniano que comumente associamos ao antipsicótico no início do tratamento. Alguns autores preferem utilizar os antiparkinsonianos apenas depois de constatada a existência de efeitos extrapiramidais, entretanto, em nossa opinião essa não é a melhor prática. Sabendo antecipadamente da cronicidade do tratamento com neurolépticos e, principalmente, sendo as doses empregadas um pouco mais incisivas, será quase certa a ocorrência desses efeitos colaterais. Já que o paciente deverá utilizar esses neurolépticos por muito tempo, é desejável que tenham um bom relacionamento com eles. Ora, nenhum paciente aceitará de bom grado um medicamento capaz de fazê- lo sentir-se mal, como é o caso dos efeitos extrapiramidais. 3 - Acatisia A Acatisia ocorre, geralmente, após o terceiro dia de medicação.Clinicamente é caracterizado por inquietação psicomotora, desejo incontrolável de movimentar-se e sensação interna de tensão. O paciente assume uma postura típica de levantar-se a cada instante, andar de um lado para outro e, quando compelido a permanecer sentado, não para de mexer suas pernas. A Acatisia não responde bem aos anticolinérgicos como a Ração Distônica Aguda e o Parkinsonismo Medicamentoso, e o clínico é obrigado a decidir entre a manutenção do tratamento antipsicótico com aquele medicamento e com aquelas doses e o desconforto da sintomatologia da Acatisia. Com frequência é necessária a diminuição da dose ou mudança para outro tipo de antipsicótico. Quando isso acontece, normalmente deve-se recorrer aos Antipsicóticos Atípicos ou de última geração. 4 - Discinesia Tardia Como o próprio nome diz, a Discinesia Tardia aparece após o uso crônico de antipsicóticos (geralmente após 2 anos). Clinicamente é caracterizada por movimentos involuntários, principalmente da musculatura oro-língua-facial, ocorrendo protusão da língua com movimentos de varredura latero-lateral, acompanhados de movimentos sincrônicos da mandíbula. O tronco, os ombros e os membros também podem apresentar movimentos discinéticos. A Discinesia Tardia não responde a nenhum tratamento conhecido, embora em alguns casos possa ser suprimida com a readministração do antipsicótico ou, paradoxalmente, aumentando-se a dose anteriormente utilizada. Procedimento questionável do ponto de vista médico. É importante sublinhar que, embora alguns estudos mostrem uma correlação entre o uso de antipsicóticos e esta síndrome, ainda não existem provas conclusivas da participação direta destes medicamentos na etiologia do quadro discinético. Alguns autores afirmam que a Discinesia Tardia é própria de alguns tipos de esquizofrenia mais deteriorantes. Tem sido menos frequente a Discinesia Tardia depois do advento dos Antipsicóticos Atípicos ou de última geração. 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM 57 5 - Síndrome Neuroléptica Maligna Trata-se de uma forma raríssima de toxicidade provocada pelo neurolépticos. É uma reação adversa dependente mais do agente agredido que do agente agressor, tal como uma espécie de hipersensibilidade à droga. Clinicamente se observa um grave distúrbio extrapiramidal acompanhado por intensa hipertermia (de origem central) e distúrbios autonômicos. A Síndrome Neuroléptica Malígna leva a óbito numa proporção de 20 a 30% dos casos. Os elementos fisiopatológicos desta síndrome são objeto de preocupação de pesquisadores e não há, até o momento, nenhuma conclusão sobre o assunto, nem se pode garantir, com certeza, ser realmente uma consequência dos neurolépticos. Além dos efeitos adversos dos neurolépticos tradicionais sobre o Sistema Nervoso Central, são observados reflexos de sua utilização em nível sistêmico. São seis as principais ocorrências colaterais: 1 - Efeitos Autonômicos Por serem, os antipsicóticos, drogas que desequilibram o sistema dopamina-acetilcolina, em algumas situações podemos encontrar efeitos colinérgicos, em outros efeitos anticolinérgicos. É o caso da secura da boca e da pele, constipação intestinal, dificuldade de acomodação visual e, mais raramente, retenção urinária. 2 - Cardiovasculares Alguns neurolépticos podem produzir alterações eletrocardiográficas, como por exemplo, um aumento do intervalo PR, diminuição do segmento ST e achatamento de onda T. Estas alterações são benignas e não costumam ter significado clínico. Das alterações cardiovasculares a mais comum é a hipotensão (postural ou não) a qual, como dissemos, decorre do bloqueio alfa-adrenérgico proporcionado por essas drogas. Na maioria das vezes a hipotensão desencadeada pela utilização de neurolépticos tradicionais proporciona apenas um certo incômodo ao paciente, entretanto, nos casos com comprometimento vascular prévio, como nas arterioscleroses, poderá precipitar um acidente vascular cerebral isquêmico, isquemia miocárdica aguda ou traumatismos por quedas. 3 - Endocrinológicos A ação dos neurolépticos no sistema túbero-infundibular repercute na hipófise anterior produzindo distúrbios hormonais. Embora incomum, esses antipsicóticos tradicionais podem produzir amenorréia (parada das menstruações) e, menos frequente, galactorréia (secreção de leite) e ginecomastia (aumento da mama). Todos esses efeitos são decorrentes das alterações na síntese de prolactina, ou seja, da hiperprolactinemia. Há também referências de alterações nos hormônios gonadotróficos e do crescimento, porém, ainda não há consenso conclusivo sobre isso. 4 - Gastrintestinais Tendo em vista a ação nos mecanismos da acetilcolina, os neurolépticos tradicionais podem ter boa ação antiemética. A constipação intestinal e boca seca também podem ser observadas durante o tratamento, como consequência dos efeitos anticolinérgicos. 5 - Oftalmológicos Embora raras, duas síndromes oftálmicas podem ser descritas com a utilização dos antipsicóticos tradicionais. A primeira pode ocorrer com uso da Clorpromazina em altas doses, e é consequência do depósito de pigmentos no cristalino. A segunda, com o uso de altas doses de Tioridazina, causando uma retinopatia pigmentosa. 6 - Dermatológicos Com uma incidência de 5 a 10% podemos encontrar o aparecimento de um rash cutâneo, foto- sensibilização e aumento da pigmentação nos pacientes em uso de Clorpromazina. Tipos de Antipsicóticos Os antipsicóticos podem ser divididos em três grupos: 1. Antipsicóticos Sedativos; 2. Antipsicóticos Incisivos; 3. Antipsicóticos Atípicos e de última geração. Ansiolíticos 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM ADM Riscado ADM Sublinhado ADM Sublinhado ADM Sublinhado ADM Sublinhado ADM Riscado 58 Existem medicamentos capazes de atuar sobre a ansiedade e tensão. Estas drogas foram chamadas de tranquilizantes, por tranquilizar a pessoa estressada, tensa e ansiosa. Atualmente, estes tipos de medicamentos são denominados de ansiolíticos, ou seja, que "destroem" (lise) a ansiedade. Quando falamos de ansiolíticos estamos falando, praticamente, dos Benzodiazepínicos. De longe, os Benzodiazepínicos são as drogas mais usadas em todo o mundo e, talvez por isso, consideradas um problema da saúde pública nos países mais desenvolvidos. Os benzodiazepínicos são capazes de estimular no cérebro os mecanismos que normalmente equilibram estados de tensão e ansiedade. Ultimamente as pesquisas têm indicado a existência de receptores específicos para os Benzodiazepínicos no Sistema Nervoso Central (SNC), sugerindo a existência de substâncias endógenas (produzidas pelo próprio organismo) muito parecidas com os benzodiazepínicos. Tais substâncias seriam uma espécie de "benzodiazepínicos naturais", ou mais precisamente, de "ansiolíticos naturais". Aparentemente o efeito ansiolítico dos Benzodiazepínicos está relacionado com um sistema de neurotransmissores chamado gabaminérgico do Sistema Límbico. O ácido gama-aminobutírico (GABA) é um neurotransmissor com função inibitória, capaz de atenuar as reações serotoninérgicas responsáveis pela ansiedade. Os Benzodiazepínicos seriam, assim, agonistas (simuladores) deste sistema agindo nos receptores gabaminérgicos. Assim, quando, devido às tensões do dia-a-dia ou por causas mais sérias, determinadas áreas do cérebro funcionam exageradamente, resultando num estado de ansiedade, os benzodiazepínicos exercem um efeito contrário, isto é, inibem os mecanismos que estavam funcionando demais e a pessoa fica mais tranquila e menos responsiva aos estímulos externos. Como consequência desta ação, os ansiolíticos produzem uma depressão da atividade do nosso cérebro que se caracteriza por: 1) diminuição de ansiedade; 2) indução de sono; 3) relaxamento muscular; 4) redução do estado de alerta. É importante notar que os efeitos dos benzodiazepínicos podem ser fortementeaumentados pelo álcool, e a mistura álcool + benzodiazepínico pode ser prejudicial. Os Benzodiazepínicos são utilizados nas mais variadas formas de ansiedade e, infelizmente, sua indicação não tem obedecido, desejavelmente, determinadas regras básicas. Os Benzodiazepínicos são ansiolíticos e nada mais que isso, não são antineuróticos, antipsicóticos ou antiinsônia, como podem estar pensando muitos clínicos e pacientes. Naturalmente podemos nos valer dos Benzodiazepínicos como coadjuvantes do tratamento psiquiátrico, quando a causa básica da ansiedade ainda não estiver sendo prontamente resolvida. No caso, por exemplo, de um paciente deprimido e, simultaneamente ansioso, os Benzodiazepínicos podem ser úteis enquanto o tratamento antidepressivo não estiver fazendo o efeito desejável. Trata-se, neste caso, de uma associação medicamentosa provisória e benéfica ao paciente. Entretanto, com a progressiva melhora do quadro depressivo não haverá mais razões clínicas para a continuação dos Benzodiazepínicos e/ou ansiolíticos. Efeitos Colaterais Do ponto de vista orgânico, os benzodiazepínicos são bastante seguros, pois são necessárias altas doses (20 a 40 vezes mais altas que as habituais) para trazer efeitos mais graves. Nessas doses pode haver hipotonia muscular, dificuldade grande para ficar de pé e andar, a hipotensão, perda da consciência (desmaio). Com doses maiores a pessoa pode entrar em coma e morrer. O principal efeito colateral dos ansiolíticos benzodiazepínicos é a sedação e sonolência, variável de indivíduo para indivíduo e de acordo com a dose do medicamento. Um aumento da pressão intraocular teoricamente pode ocorrer mas, na clínica, trata-se de raríssima observação. Os efeitos teratogênicos (malformações fetais) são ainda objeto de estudo, porém, tendo em vista sua utilização clínica durante décadas, permite-se uma indicação mais flexível do diazepam durante a gravidez. A prática clínica tem demonstrado que a dependência aos Benzodiazepínicos pode acontecer, mas não invariavelmente. A tendência do paciente em aumentar a dose dos Benzodiazepínicos para obter o mesmo efeito, ou seja, a tolerância, acontece mas não é o mais comum. Em relação a isso notamos, no mais das vezes, uma má utilização da droga. Isto é, em não sendo tratada a causa básica da ansiedade e está se tornando mais intensa, haverá maior necessidade da droga. Essa maior necessidade da droga decorrente do aumento da ansiedade não deve, de forma alguma, ser confundida com o fenômeno da tolerância aos sintomas de abstinência aos Benzodiazepínicos, embora possa ser possível com alguns deles, o que observamos com mais frequência é o retorno dos 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM 59 sintomas psíquicos que promoveram sua indicação por ocasião de sua retirada. Isso pode, eventualmente, ser confundido com abstinência na expressiva maioria dos casos. Ora, se a situação psicoemocional que determinou a procura da droga não foi decididamente resolvida, mas apenas protelada, então, retirando-se o ansiolítico os sintomas voltarão. Isso não pode ser tomado como síndrome de abstinência. Em alguns poucos casos, de fato, observamos sintomas de abstinência. Estes ocorrem, predominantemente, com o Clonazepam e Lorazepam. Quando ocorre a síndrome de abstinência ao benzodiazepínico, esta tem início cerca de 48 horas após a interrupção da droga e os sintomas correspondem à ansiedade acentuada, tremores, visão turva, palpitações, confusão mental e hipersensibilidade a estímulos externos. Antes de confirmar o diagnóstico de síndrome de abstinência convém observar, como alertamos, se tais sintomas não são os mesmos que anteriormente levaram o paciente a iniciar o tratamento. Os casos de dependência aos Benzodiazepínicos relatados na literatura ou constatados na clínica se prendem, na grande maioria das vezes, ao uso muito prolongado e com doses acima das habituais. Há uma tendência atual em se considerar o fenômeno da dependência ao Benzodiazepínico, até certo ponto, mais dependente de traços da personalidade do que de alguma característica da droga. Antes de considerarmos a dependência, pura e simplesmente, devemos ter em mente que, se o Benzodiazepínico não foi bem indicado e estiver sendo usado como paliativo de uma situação emocional não resolvida, como atenuante de uma situação vivencial problemática, como corretivo de uma maneira ansiosa de viver, enfim, como um "tapa-buracos" para alguma circunstância existencial anômala, então a sua supressão colocará à tona a penúria situacional em que se encontra a pessoa, dando assim a falsa impressão de dependência ou até de síndrome de abstinência. Ansiolíticos Benzodiazepínicos disponíveis no Brasil Nome químico Nome comercial Alprazolam Apraz, Frontal, Tranquinal, Altrox Bromazepam Lexotam, Deptran, Somalium, Sulpam Buspirona** Ansitec, Bromoprim, Buspanil, Buspar Clobazam Frizium, Urbanil Clonazepam Rivotril, Clonotril Clordiazepóxido Psicosedim Cloxazolam* Olcadil, Elum Diazepam Diazepam, Noam, Valium, Ansilive, Kiatrium Lorazepam* Lorax, Lorium, Mesmerim *-ansiolíticos usados também como hipnóticos devido a grande sonolência e sedação. **- considerado ansiolítico não-benzodiazepínico Anorexígenos Os anorexígenos, também conhecidos como anotéticos ou anomirineronéticos, são medicamentos usados para induzir a anorexia a base de anfetamina, ou seja, a aversão à comida. Assim, são usados como poderosos remédios para emagrecer há mais de 30 anos. Porém, além disso, causam inúmeros efeitos colaterais, muitas vezes prejudiciais à saúde física e mental. Sendo assim, conheça melhor os anorexígenos para optar em usá-los ou não. Remédios Anorexígenos Os remédios anorexígenos mais comuns são os que levam em suas fórmulas o mazindol, o femproporex e a anfepramona. Alguns dos mais conhecidos são o Delgar, o Desobesi-M, o Fagolipo, o Fluril, o Hipofagin S 75 e o Moderine. Porém, como causam muito mais malefícios que benefícios, foram retirados do mercado pela ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) em 2011. Sendo assim, sua venda é proibida, com ou sem receita médica. Efeitos Colaterais São vários os efeitos colaterais causados pelos anorexígenos porque agem diretamente sobre o sistema nervoso central, aumentado a excitação, a concentração, a atividade autônoma e também, diminuindo o apetite. Alguns desses medicamentos ainda aumentam a liberação dos neurotransmissores serotonina e dopamina, o que aumenta ainda mais a agitação e a falta de apetite e de sono. 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM 60 Além disso, há outros efeitos maléficos como a alteração de humor constante, as tontura, a arritmia cardíaca, o vômito, a sudorese, a confusão mental, a hipertensão arterial, a taquicardia, a dor de cabeça, o calafrio, o enjoo, a ansiedade, a verborragia e a confusão mental. Com isso, muitos usuários tiveram quadros graves de hipertensão pulmonar e de problemas cardiovasculares que os levaram à morte. Isso levou a proibição da venda desses remédios na Europa e nos Estados Unidos. Em outros casos, a depressão e a síndrome do pânico foram instaladas após a supressão do medicamento, além do retorno ao peso inicial ou até mesmo ao ganho de mais quilos que antigamente. Por isso, os pacientes tornaram-se ainda mais deprimidos e menos autoconfiantes que com o seu uso, o que gerou a dependência química. Por fim, pessoas que usavam intensamente os anorexígenos e conseguiram parar, apresentaram sintomas de abstinência como lentidão, depressão, pesadelos, ansiedade, fissura interna, sonolência, agitação e cansaço. Contra Indicações O uso dos anorexígenos é contraindicado para todos os casos, mas principalmente para pessoas que tiveram doenças psicóticas, transtorno de ansiedade, epilépticos, hipertensos, crianças, idosos, gestantes e lactantes. Pacientes com hipertireoidismo, doenças cardiovascularese com glaucoma também devem ficar longe desses remédios. Com tantos efeitos colaterais, o melhor modo de emagrecer é saudavelmente, ou seja, com muita atividade física e alimentação balanceada. Sendo assim, procure um endocrinologista ou um nutricionista para que possam formular o seu cardápio corretamente. Esse procedimento pode ser mais demorado, mas certamente fará com que você continue com saúde e com o corpo esbelto por muito mais tempo. Antidepressivos Os antidepressivos são drogas que aumentam o tônus psíquico melhorando o humor e, consequentemente, melhorando o conforto emocional e o desempenho de maneira global. Acredita-se que o efeito antidepressivo se dê às custas de um aumento da disponibilidade de neurotransmissores no SNC, notadamente da serotonina (5-HT), da noradrenalina ou norepinefrima (NE) e da dopamina (DA), juntamente com a diminuição no número dos neurorreceptores e aumento de sua sensibilidade. Ao bloquearem receptores 5HT2 (da serotonina) os antidepressivos também funcionam como antienxaqueca. O aumento de neurotransmissores na fenda sináptica se dá através do bloqueio da recaptação da noradrenalina e da serotonina no neurônio pré-sináptico ou ainda, através da inibição da Monoaminaoxidase (MAO), que é a enzima responsável pela inativação destes neurotransmissores. Será, portanto, nos sistemas noradrenérgico o serotoninérgico do Sistema Límbico o local de ação das drogas antidepressivas empregadas na terapia dos transtornos da afetividade. Dividindo os antidepressivos em 4 grupos: 1 - Antidepressivos Tricíclicos (ADT) 2 - Inibidores da Monoaminaoxidase (IMAO) 3 - Inibid. Seletivos de Recap. da Serotonina 4 - Antidepressivos Atípicos Antidepressivos Tricíclicos (ADT) O local de ação dos ADT é no Sistema Límbico aumentando a NE e a 5HT na fenda sináptica. Este aumento da disponibilidade dos neurotransmissores na fenda sináptica é conseguido através da inibição na recaptação destas aminas pelos receptores pré-sinápticos. Há também, com o uso prolongado dos ADT, uma diminuição do número de receptores pré-sinápticos do tipo Alfa-2, cuja estimulação do tipo feedback inibiria a liberação de NE. Desta forma, quanto menor o número destes receptores, menor seria sua estimulação e, consequentemente, mais NE seria liberada na fenda. Portanto, dois mecanismos relacionados à recaptação; um inibindo diretamente a recaptação e outro diminuindo o número dos receptores. Em relação à farmacocinética dos ADT, é muito importante saber que o período de latência para a obtenção dos resultados terapêuticos é em torno de 3-4 semanas. Normalmente os resultados terapêuticos são iniciados após um período mínimo de 15 dias de utilização da droga e, não raro, podendo chegar até 30 dias. Os ADT são potentes anticolinérgicos e, por esta característica, justificam-se alguns de seus efeitos colaterais. 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM 61 Infelizmente, enquanto os efeitos terapêuticos exigem um longo período de latência, o mesmo não acontece com os efeitos colaterais. Estes aparecem imediatamente após a ingestão da droga e são responsáveis pelo grande número de pacientes que abandonam o tratamento antes dos resultados desejados. Vem daí a importância da orientação ao paciente. A - Efeitos Colaterais 1 - Oftalmológicos Pode-se observar com certa frequência alguma dificuldade de acomodação visual dependendo da dose do ADT, fato que não é tão importante a ponto de obrigar uma interrupção no tratamento. Midríase (dilatação da pupila) também é uma ocorrência que pode ser observada, tratando-se de uma consequência dos efeitos anticolinérgicos dos ADT. 2 - Gastrintestinais Secura na boca ocorre em quase 100% dos pacientes em doses terapêuticas dos ADT. Embora incômoda, esse sintoma pode perfeitamente ser suportável e em casos mais severos podemos ter como consequência gengivite e mesmo glossite. Constipação intestinal também acontece em quase 100% das vezes e é resolvido com a mudança no hábito alimentar ou com a utilização de laxantes. 3 - Cardiocirculatórios Os ADT podem provocar, principalmente no início do tratamento, um aumento na frequência cardíaca, mas as taquicardias importantes são de ocorrência rara. Embora tenha havido grandes preocupações no passado em relação ao potencial disrítmico dos ADT, na realidade, hoje se constata que podem ter uma atuação até antiarrítmica, principalmente quando a arritmia é consequência de problemas emocionais. Outro efeito circulatório que pode molestar o paciente é a ocorrência de hipotensão postural, também perfeitamente suportável e que não exige mudança na posologia. 4 - Endocrinológico Alguns trabalhos apontam um aumento nos níveis de prolactina e, paradoxalmente, outros autores demonstram diminuição e outros ainda, níveis inalterados. A mesma disparidade encontramos em relação aos trabalhos sobre alterações dos hormônios tireoideanos. Em relação ao eixo hipófise-suprarrenal também não há nada conclusivo. A maioria dos autores concorda em que não há alterações neste sistema. Entretanto, parece ser relevante o aumento nos níveis de hormônio do crescimento com o uso de desipramina, um metabólito da imipramina. 5 - Geniturinário A retenção urinária pode ser observada, principalmente, em pacientes homens e portadores de adenoma de próstata. Embora deva ser dado mais atenção a estes pacientes, tal ocorrência não é contraindicação absoluta ao uso dos ADT. Com muita frequência encontramos disúria em ambos os sexos. Na esfera sexual podemos ter uma diminuição da libido, retardamento do orgasmo e mais raramente, anorgasmia (em ambos sexos). Como frequentemente na depressão a libido já se encontra diminuída ou até abolida, com a melhora do quadro afetivo pelos ADT o paciente notar comumente uma melhora desta função, ao contrário do que poderíamos esperar se considerarmos apenas os efeitos colaterais. 6 - Sistema Nervoso Central A sedação inicial e sonolência são encontradas no início do tratamento, diminuindo sensivelmente após os 6 primeiros dias. Em doses terapêuticas a insônia, agitação e aumento da ansiedade não são comuns de se observar. Em pacientes mais idosos podemos encontrar a chamada "síndrome anticolinérgica central" com agitação, confusão mental, delírios e alucinações. Daí considerar-se a utilização de doses menores em tais pacientes. Em pessoas predispostas podem ocorrer convulsões do tipo generalizadas devido ao fato dos ADT diminuírem o limiar convulsígeno. 7 - Alterações Gerais Tremores finos das mãos são observados com certa frequência e respondem muito bem aos betabloqueadores (Propranolol). Sudorese excessiva pode também incomodar o paciente mas não necessita cuidado especial. 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM 62 É comum um ganho de peso e, às vezes, os pacientes referem impulso para comer doce. Apesar disso os estudos controlados sobre o metabolismo dos glicídios não revelam maiores explicações. C - Intoxicação Sinais de intoxicação começam a aparecer quando a ingestão de ADT ultrapassa 500 mg/dia, porém, a dose letal e maior que isso: varia entre 1.800 e 2.500 mg (a dose terapêutica é de 75-150 mg/dia). Na intoxicação por ADT podemos encontrar agitação ou sedação, midríase, taquicardia, convulsões generalizadas, perda da consciência, depressão respiratória, arritmia cardíaca, parada cardíaca e morte. Tendo em vista a grande afinidade proteica dos ADT, sua eliminação por diálise ou diurese é muito difícil. Nos casos de intoxicação está indicado o uso de anticolinesterásicos (Prostigmina IM ou EV) e medidas de sustentação geral. D - Indicações Os ADT, em geral, estão indicados para tratamento dos estados depressivos de etiologia diversa: depressão associada com esquizofrenia e distúrbios de personalidade, síndromes depressivas senis ou pré-senis, distimia, depressão de natureza reativa, neurótica ou psicopática,síndromes obsessivo- compulsivas, fobias e ataques de pânico, estados dolorosos crônicos, enurese noturna (a partir dos 5 anos e com prévia exclusão de causas orgânicas). A Amitriptilina (Tryptanol®, Amytril®) está mais indicada também para os casos de ansiedade associados com depressão, Depressão com sinais vegetativos, Dor neurogênica, Anorexia e nos casos de dor crônica grave (câncer, doenças reumáticas, nevralgia pós-herpética, neuropatia pós-traumática ou diabética). A Maprotilina (Ludiomil®), embora seja descrito pelo fabricante como tetracíclico, não se justifica uma abordagem em separado dos tricíclicos. Tem melhor indicação na depressão de início tardio (involutiva ou senil), depressão na menopausa e na depressão por exaustão (esgotamento). Alguns autores indicam a maprotilina para os casos de Depressão Mascarada (denominação antiga da Depressão Atípica com Sintomas Somáticos). Também é útil na depressão com ansiedade subjacente, devido sua capacidade sedativa (como a Amitriptilina). A Nortriptilina é um antidepressivo tricíclico cujo mecanismo de ação é desconhecido. Inibe a ação de certos neurotransmissores, como a histamina, a serotonina e a acetilcolina, e aumenta o efeito pressor da noradrenalina, mas bloqueia o da fenetilamina. A indicação mais habitual para a nortriptilina é para as síndromes depressivas de diversas etiologias; a depressão endógena parece responder melhor que outros estados depressivos. Depressão reativa, neurose reativa, neurose depressiva, coadjuvante da terapêutica hormonal na síndrome do climatério, arritmia ventricular, incontinência urinária. Inibidores Seletivos de Recaptação da Serotonina (ISRS) O efeito antidepressivo dos ISRS parece ser consequência do bloqueio seletivo da recaptação da serotonina (5-HT). A fluoxetina foi o primeiro representante dessa classe de antidepressivos e ela tem um metabólito ativo, a norfluoxetina. Esse metabólito é o ISRS que se elimina mais lentamente do organismo. As doses dos ISRS, seja a fluvoxamina, sertralina, paroxetina, fluoxetina ou outros, devem ser individualizadas para cada paciente. A incidência de efeitos colaterais anticolinérgicos, anti-histamínicos e alfa-bloqueantes, assim como o risco de superdosagem é menor nos ISRS que nos chamados antidepressivos tricíclicos (ADT). Estes últimos, causam mais efeitos colaterais que os ISRS, mais intolerância digestiva (até 21 % dos pacientes podem experimentar náuseas, anorexia, boca seca), sudorese excessiva, temores, ansiedade, insônia. Por outro lado, a fluoxetina tem se associado a alguns casos de acatisia, especialmente quando a dose é muito alta, e a estimulação de SNC parece maior com a fluoxetina que com outros ISRS. A fluvoxamina também parece produzir mais intolerância digestiva, sedação e interações farmacológicas que outros ISRS. A paroxetina origina mais sedação (também a fluvoxamina), efeitos anticolinérgicos e extrapiramidais que outros ISRS. Tem-se relatado sintomas de abstinência com a supressão brusca do tratamento com a paroxetina e com a venlafaxima. 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM 63 ANTIDEPRESSIVOS ISRS Nome Químico Nome Comercial Fluoxetina Prozac, Daforim, Deprax, Fluxene, Nortec, Verotina Nefazodona Serzone Paroxetina Aropax, Cebrilim, Pondera, Benepax Sertralina Zoloft, Tolrest, Novativ, Assert Citalopram Cipramil, Procimax, Cittá Indicações Os ISRS estão indicados para o tratamento dos Transtornos Depressivos, Transtorno obsessivo- compulsivo (TOC), Transtorno do Pânico, Transtornos Fóbico-Ansiosos, neuropatia diabética, dor de cabeça tensional crônica e Transtornos Alimentares. Nos casos de Depressão Grave com Sintomas Psicóticos, alguns fabricantes de ISRS não recomendam essas drogas, como é o caso, por exemplo, da orientação da Nafazodona (Serzone®). Outros, como é o caso da Paroxetina (Aropax®), já preconizam-na também para Episódios Depressivos maiores ou severos. Outros, como é o caso do Citalopram (Cipramil®, Procimax®, etc), recomendam a substância para o tratamento das depressões e do abuso do álcool. Precauções A fluoxetina tem ação anorexígena com uma discreta redução do peso corporal durante seu uso. Nos pacientes sensíveis pode ocorrer rash cutâneo, urticária, incluindo febre, leucocitose e artralgias, edema. Esses sintomas de hipersensibilidade são extremamente raros. Antidepressivos Atípicos São os antidepressivos que não se caracterizam como Tricíclicos, como ISRS e nem como Inibidores da MonoAminaOxidase (IMAOs). Alguns deles aumentam a transmissão noradrenérgica através do antagonismo de receptores a2 (pré-sinápticos) no Sistema Nervoso Central, ao mesmo tempo em que modulam a função central da serotonina por interação com os receptores 5-HT2 e 5-HT3, como é o caso da Mirtazapina. A atividade antagonista nos receptores histaminérgicos H1 da Mirtazapina é responsável por seus efeitos sedativos, embora esteja praticamente desprovida de atividade anticolinérgica. ANTIDEPRESSIVOS ATÍPICOS Nome Químico Nome Comercial Fluvoxamina Luvox Mianserina Tolvon Mirtazapina Remeron Reboxetina Prolift Tialeptina Stablon Trazodona Donarem Venlafaxina Efexor Duloxetina Cymbalta Bupropiona Welbutrin, Zetron, Bup Ecitalopram Lexapro Outros atípicos são inibidores da recaptação de Serotonina e Norepinefrina, alguns inibindo também, a recaptação de dopamina. É o caso da Venlafaxina, da Mirtazapina. Algumas dessas drogas também costumam reduzir a sensibilidade dos receptores beta-adrenérgicos, inclusive após administração aguda, o que pode sugerir um início de efeito clínico mais rápido. Também estão aqui os inibidores da recaptação da Norepinefrina (Noradrenalina), como é o caso da Riboxetina. Alguns atípicos, como é o caso da Tianeptina, embora sejam serotoninérgicos, não inibem a recaptação da Serotonina no neurônio pré-sináptico, mas, induzem sua recaptação pelos neurônios da córtex, do hipocampo e do Sistema Límbico. Amineptina, outro atípico, é uma molécula derivada dos tricíclicos mas seu mecanismo de ação é essencialmente dopaminérgico, enquanto que os outros antidepressivos tricíclicos são essencialmente noradrenérgicos e serotoninérgicos. As melhoras sintomáticas poderão ser observadas a partir do 3º ao 5º dias e sobre o sono REM a partir do 20º dia de tratamento em posologia suficiente. 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM 64 Antidepressivos IMAOs Os chamados antidepressivos Inibidores da Monoamina Oxidase (IMAO) promovem o aumento da disponibilidade da serotonina através da inibição dessa enzima responsável pela degradação desse neurotransmissor intracelular. A monoaminoxidase (MAO), é uma enzima envolvida no metabolismo da serotonina e dos neurotransmissores catecolaminérgicos, tais como adrenalina, noradrenalina e dopamina. Os antidepressivos IMAOs são inibidores da MAO e, havendo uma redução na atividade MAO, produz-se um aumento da concentração destes neurotransmissores nos locais de armazenamento, em todo o SNC ou no sistema nervoso simpático. Acredita-se que a ação antidepressiva dos IMAOs se correlacione também, e principalmente, com alterações nas características dos neurorreceptores, alterações essas no número e na sensibilidade desses receptores, mais até do que com o bloqueio da recaptação sináptica dos neurotransmissores, propriamente dita. Isso explicaria o atraso de 2 a 4 semanas na resposta terapêutica. ANTIDEPRESSIVOS IMAOs Nome Químico Nome Comercial Tranilcipromina Parnate, Stelapar Moclobemida Aurorix Selegilina Elepril, Jumexil Indicações para Antidepressivos As indicações para o uso dos antidepressivos veem, progressivamente, sofrendo ampliação, de acordo com o melhor entendimento sobre a participação dos elementos emocionais em outros transtornos médicos, além da própria depressão. A própria manifestação clínica polimórfica da depressão já recomendao uso desses medicamentos para os casos onde essa alteração afetiva se manifesta atipicamente. Indicações Formais - Estados Depressivos; - Estados Ansiosos (Pânico...); - Estados Fóbicos; - Estados Obsessivo-Compulsivos; - Anorexia; - Bulimia. Segundas Indicações - Estados Hipercinéticos; - Somatizações; - Ejaculação Precoce; - Doenças Psicossomáticas; - Enxaqueca; - Dores neurogênicas. Para ilustrar o manejo com antidepressivos, poderíamos didaticamente compará-los com o os antialérgicos; não importa se a manifestação da alergia se dá através de rinite, bronquite, sinusite, urticária, dermatite, etc. Para todos esses casos, tendo como base da patologia uma reação alérgica, estariam indicados antialérgicos indistintamente. Hoje nós sabemos que uma série de manifestações emocionais teria uma base depressiva, portanto, objetos do tratamento com antidepressivos; é o caso, por exemplo, da Síndrome do Pânico, Transtorno Obsessivo-Compulsivo, etc. Nesses casos o próprio paciente pode não se sentir clinicamente deprimido mas o afeto depressivo (inseguro e pessimista) estaria na base da manifestação ansiosa. Opiáceos Ópio O ópio, que significa suco, em grego, é um látex, obtido através da incisão feita nos bulbos da papoula branca (Papaver somniferum), conhecida popularmente como papoula do Oriente. Depois de seco, o látex é transformado em pó de ópio. No pó de ópio, extraído da papoula, existem várias substâncias com 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM 65 grande atividade, sendo que as mais conhecidas são a morfina e a codeína. É possível obter também outra substância, a heroína, fazendo pequena modificação química na fórmula da morfina. Estas substâncias todas são chamadas de drogas opiáceas ou simplesmente opiáceos, ou seja, oriunda do ópio. Elas podem ser opiáceos naturais, quando não sofrem nenhuma modificação (morfina, codeína), ou opiáceos semissintéticos, quando são resultantes de modificações parciais das substâncias naturais do ópio (heroína). Várias substâncias com ação semelhante à dos opiáceos são produzidas em laboratório: a meperidina, o propoxifeno e a metadona são alguns exemplos. Estas substâncias totalmente sintéticas são chamadas de opióides (isto é, semelhantes aos opiáceos). São chamados também de narcóticos, drogas hipnoanalgésicas ou analgésicos narcóticos. São, ainda, classificados como substâncias entorpecentes. O próprio nome da planta de onde é extraído o ópio - Papaver somniferum, que em latim significa papoula sonífera - dá uma ideia da sua ação no organismo. Ele age como depressor do sistema nervoso central (SNC) fazendo com que o cérebro funcione mais devagar. Todos os derivados do ópio, naturais ou sintéticos, têm ação anestésica, diminuindo ou suprimindo a dor, e esse é o propósito da sua utilização em medicamentos. Todas as drogas do tipo opiáceo ou opióide têm basicamente os mesmos efeitos no SNC: diminuem a sua atividade, produzindo analgesia e hipnose (fazem dormir). As diferenças existentes são com relação à quantidade necessária para produzir os mesmos efeitos, ou seja, se são mais ou menos eficientes. Para algumas drogas, a dose necessária para este efeito é pequena, ou seja, elas são muito potentes, como a morfina e a heroína. Outras necessitam de doses maiores para produzir os mesmos efeitos, como a codeína e a meperidina. Algumas drogas podem ter também uma ação mais específica, como a codeína, por exemplo, utilizada nos medicamentos para acalmar a tosse. O ópio e seus derivados levam facilmente à dependência, tanto física quanto psíquica. O organismo humano se torna tolerante a todas as drogas narcóticas, assim como as de outros tipos. Ou seja, como o dependente não consegue se equilibrar sem sentir os seus efeitos, ele precisa tomar cada vez doses maiores. Os opiáceos em geral podem causar grande depressão respiratória e cardíaca. Em doses maiores, o usuário pode perder a consciência e ficar com cor azulada (cianose) porque a respiração se torna muito fraca e não oxigena o sangue adequadamente; a pressão arterial cai e o sangue não consegue circular direito, ocasionando o estado de coma. Se não houver atendimento imediato, pode levar à morte. (Azevedo, 2002) ALUCINÓGENOS Com o nome de drogas alucinógenas denomina-se um conjunto de substâncias naturais ou sintéticas capazes de atuar sobre o sistema nervoso de uma forma ainda não muito bem conhecida. A classificação mais consensualmente aceita para tal classe de substâncias psicoativas foi proposta por Jean Delay que as classifica como Dislépticas (modificadoras) em oposição aos compostos moleculares ou moléculas cujo efeito pode ser considerado como Lépticos (estimulantes) e Analépticos (depressores). A utilização destas drogas com fins recreativos oferecem sérios riscos. Distorcem os sentidos e confundem o cérebro e afetam a concentração, os pensamentos e a comunicação. As drogas sintéticas, a exemplo do LSD, Anticolinérgicos e ecstasy Metilenodioximetanfetamina com um grau de pureza maior podem causar a confusão da noção de tempo e de espaço e causar um efeito similar ao sonho e às psicoses. Observe- se porém que nem todas as drogas que causam alucinações são consideradas alucinógenos, a exemplo da clássica visão dupla induzida pela intoxicação alcoólica ou por grandes doses de café tal como recentemente se constatou e foi amplamente divulgado. As drogas alucinógenas, em Portugal, drogas alucinógenas, são assim chamadas por um de seus possíveis e mais relatados efeitos que é a propriedade de causar alucinações (falsas percepções) e visões irreais ou oníricas aos seus utilizadores. Outros nomes propostos também estão associados a efeitos atribuídos e relatados tais como: Psicotomiméticos e Psicotogênicos por induzir efeitos semelhantes à psicose (mais especificamente as alucinoses e alucinações) ou as causar; Psicodélicos por sua propriedade de fazer aparecer ou revelar a psique oculta; Enteógeno pelo reconhecimento antropológico de que tal classe de substâncias é frequentemente utilizado nas mais diversas culturas em rituais religiosos. Esse último efeito atribuído também decorre da associação dessas substâncias à capacidade de facilitar a concentração ou meditação também descrita como expansão da consciência. No conjunto de alterações da consciência detectáveis por medidas do eletroencefalograma (eeg) situa-se na faixa das frequências alfa - a ou “sonhos lúcidos” entre a vigília plena e sono. No plano das interpretações psicológicas ou psicanalíticas situa-se entre os fenômenos de modificação das emoções e personalidade, superficialmente descritas como uma relação entre o ego e o mundo 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM 66 exterior/interior, análogo as interpretações que se dá ao satori zen-budista, efeitos da yoga ou transe das religiões de possessão africanas, gregas, indígenas entre outras. Na descrição da categoria Psicodislépticos, Goodman & Gilman referem-se a efeitos estimulantes e depressores simultâneos em diferentes sistemas (circuitos) de neurotransmissores ou regiões do cérebro, incluem os anticonvulsivantes não barbitúricos e relaxantes da musculatura esquelética narcoanalgésicos e analgésicos e antitérmicos psicotogênicos. Plantas & Moléculas O inventário de plantas (e elementos ativos) com propriedades alucinógenas proposto por Hofmann (apud: Fontana) inclui: - Lophophora williamsii (mescalina) da América do Norte e Central; - Rivea corymbosa - (Ergina) México (América Central); - Amanita muscaria (Muscimol, ácido ibotênico). Europa, Irã e Ásia; - Psilocybe mexicana (Psilocina, Psilocibina) México A. Norte e Central; - Psilocybe cubensis (Psilocina, Psilocibina) México Américas; - Peganum harmala (harmina) da Ásia e América do Sul; - Banisteria caapi (Harmina, Harmalina) Amazônia / componente da Ayahuasca América do Sul; - Piptadenia peregrina (Anadenanthera peregrina e Anadenantheracolubrina (Dimetiltriptamina) Orenoco / América do Sul; A essa lista que originalmente inclui a Cannabis sativa (haxixe) da Ásia, acerca da qual existe grande controvérsia, assim como também é controversa a inclusão da muscarina - substância derivada do cogumelo Amanita muscaria. Quanto à ampliação dessa classificação, nesse grupo deve-se acrescentar um conjunto de outras plantas que contém a N,N-Dimetiltriptamina a saber: Psychotria viridis (Chacrona, Chacruna) utilizada em combinação com a B. caapi por diversos grupos indígenas da Amazônia a Virola calophylla (V. theidora, V. rufula, V. colophylla) o Epena também da Amazônia, a Jurema (Mimosa hostilis ou M. nigra) do nordeste brasileiro incluindo entre estas sapos do gênero Bufos (Bufo alvarius; Bufo marinus ou Cururu) que contém a bufotenina em suas secreções que por sua vez corresponde a uma variação molecular da dimetiltriptamina. Observe-se também que alguns autores discordam quanto a identidade da planta que seria o ololiuhqui dos astecas/toltecas e contém ácido lisérgico são comuns referências à Rivea coribosa e a Ipomoea violácea (glórias-da-manhã). Essa última também utilizada em preparados homeopáticos do tipo floral. Efeitos Colaterais Estudos antropológicos ou etno farmacológicos com resultados consistentes sobre a utilização ritual e efeito dessas plantas ainda são incipientes. Mesmo os estudos de psicofarmacologia ainda não produziram resultados definitivos. Os relatos de psicose são escassos e se contrapõe as frequências observadas nas populações que tradicionalmente fazem uso. Estima-se para a esquizofrenia, por inquéritos epidemiológicos, uma incidência em torno de 1% em populações urbanas das diversas Américas. O mesmo pode ser dito quanto a segurança de uso para gestantes, ou seja, seu potencial mutagênico e teratogênico há referência à diminuição da quantidade mobilidade de espermatozoides e fertilidade feminina com o uso de maconha (Cannabis sativa) um planta que, para muitos autores, não deveria ser incluída nessa categoria de substâncias e há referências à efeito clastogênico (quebra de cromossomos) em pesquisa com LSD in vitro e aumento do número de abortos (Goth, Mota). Deve-se ressaltar que esses estudos são isolados e não há quaisquer estatísticas massivas para comprová-los. Mecanismos de ação A semelhança das substâncias psicodélicas (como recomendamos designá-las no lugar de alucinógenas) com a Serotonina (5-HT) e Noradrenalina (NA) tem sido a maior pista para explicação do seu efeito. O LSD e a Psilocibina tem em comum a semelhança o núcleo indoletilamina da 5-HT e a Mescalina é um derivado da feniletilamina que por sua vez figura na NA. Contudo por ciclização, isto é fechamento da cadeia lateral, a mescalina pode gerar um composto semelhante a 5-HT. Estudos bioquímicos do composto da B. caapi e P. viridis presentes na bebida dos remanescentes indígenas do império inca a Ayahuasca ou Hoasca como é conhecida no Brasil apontam uma interação entre os inibidores da monoamina-oxidase I-MAO e o composto indólico. A N,N-Dimetiltriptamina (DMT) foi sintetizada pela primeira vez em 1931 (Manzke), isolada de duas plantas distintas por investigadores independentes, em 1946 (Gonçalves) da Mimosa hostilis e em 1955 (Fish, Jonson and Horning) da Piptadenia peregrina. O efeito da Jurema, Chacrona e outras plantas 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM 67 podem ser atribuídos presença pode ser atribuída a presença da N,N-DMT ou N,N-dimethyltryptamine (C12H16N2). Estudando rapés epena (paricá) de uso mágico medicinal entre tribos do norte da amazônia (Tukano, Waika, Araibo, Piaroa e Surara) Holmsted e Lindgren (1967) revelaram a presença de triptaminas (5 Metoxi-N,N, Dimetiltriptamina [5Meo-DMT] e N,N-Dimetiltrptamina [DMT]) e, apenas em 1 amostra (o parica dos Piaroa da região do Orinoco da Venezuela), encontraram além do N,N-DMT, e 5-Meo-DMT a bufoteína 5-OH-DMT junto com o alcaloide beta-carbolínico harmina. Na época observaram que essa composição molecular de triptaminas e betacarbolinas atua sinergicamente para o efeito psicoativo “...as betacarbolinas são inibidoras da monoamina-oxidase e podem potencializar a ação de indóis simples.”... (Holmsted e Lindgren, 1967). Nessa concepção não basta a presença do anel indólico para se obter o efeito psicodélico ou psicodisléptico dos rituais xamânicos. Psicotomiméticos e serotonina LSD, Psilocibina e Mescalina, variam quanto ao tempo de ação, produzem tolerância e tolerância cruzada, não produzem dependência fisiológica, as duas últimas estão associadas a vômitos como efeito colateral. Esse último efeito pode estar relacionado a alta concentração de 5HT (90% do disponível no organismo) é encontrada nas células enterocromafins do trato gastrointestinal ou a uma ainda não bem conhecida interferência nos centros de vômito e postura do bulbo. Em grandes doses esse neuro-hormônio é sedativo, sua ação depressiva entretanto é bloqueada pela clorpromazina (Himwich). É antagonizado pelo LSD o que levou a elaboração de teorias serontoninérgicas sobre a esquizofrenia, contudo outros antagonistas da serotonina não são alucinógenos (himwich, Barron et all). Há pesquisas que diferenciam os efeitos do LSD e Psilocibina nos diversos receptores da 5-HT e estudos com pontes radioligantes e experimentos funcionais apontam para o efeito agonista dessa classe de substancias sobre a serotonina (receptores 5-HT1a e 5-HT2). Segundo Graeff o LSD combina-se também com receptores da Dopamina reforçando por sua vez as hipóteses dopaminérgicas da esquizofrenia, pois diversos agentes antipsicóticos antagonizam competitivamente com a dopamina. A depressão e os Distúrbios Obsessivos Compulsivos (DOC) também estão associados aos níveis de serotonina e ambos os quadros psicopatológicos tem sido tratados (farmacologicamente) de modo - nem sempre - eficiente com bloqueadores de recaptação sináptica (fluoxetina) que aumentam a serotonina ativa. O surgimento e a explosão de vendas de novos anti- depressivos/anti-psicóticos demonstram que há certo fracasso no tratamento de milhares de casos. Pesquisas neuroetológicas associam os níveis desse neurotransmissor ao comportamento de liderança e agressividade. As funções da serotonina e seus diversos sítios receptores, portanto permanecem como o grande enigma para explicação do efeito psicodélico. O sucesso da utilização de substâncias alucinógenas no tratamento de depressão, alcoolismo e outras drogadições tem explorado a compreensão dos sistemas bioquímicos referidos além dos efeitos psicossociais do contexto (set) de sua utilização ritual. As drogas estão com força total atingindo a sociedade de maneira geral, não importando sexo, idade, profissão, classe social ou etnia. Ainda mais influente do que nos anos anteriores, a dependência física e psicológica das pessoas com relação às drogas, tornou-se algo comum principalmente entre os jovens. A maconha, cocaína, crack, entre outros tipos de drogas são muito mais usados nos dias de hoje, e mesmo com o esforço das autoridades para impedir o tráfico dessas substâncias químicas é praticamente impossível bloquear o comércio para uso dos viciados. O tabaco e o álcool também são considerados tipos de droga, porém são legalizados, por isso mais comum o seu uso. Há tempos atrás fumar era hábito de pessoas de nível social mais alto, sendo considerado um hábito elegante; o que atualmente já está sendo mais recriminado e dispensado pela geração mais nova que possui o pensamento e a personalidade diferente da geração anterior. Há discussões em alguns países com o objetivo de legalizar também a maconha, como a venda de cigarros. Há quem apoie a ideia de legalização dessa droga, pois relatam que esse seria um meio de diminuir o tráfico dela já que seria legalizada. Porém, esse argumento não convenceu totalmente a população, e há quem não concorde com a opinião da legalização da maconha.Quanto às outras drogas, permanecem longe de serem legalizadas, pois são alucinógenos e causam consequências bem mais graves do que o tabaco, o álcool e a maconha, assim não seria possível a discussão de legalização desses outros tipos de drogas em qualquer país. Existem inúmeros casos de mortes causadas por overdose, muitos dos envolvidos nessa vida de dependência acabam morrendo por violência. A violência é uma das principais causas trazidas pela droga. Quem se envolve com esse tipo de assunto, dificilmente consegue sair depois que se arrepende, pois os envolvidos são pessoas de baixo nível psicológico e muitas vezes acabam em situações trágicas, além da dependência ser extremamente 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM 68 forte sendo praticamente insuperável. Por isso muitas pessoas afirmam que uma vez envolvido nas drogas, permanecerá para a vida toda. Obviamente há exceções de casos de pessoas que conseguiram se recuperar em clínicas especializadas para esse objetivo, tratamento com psicólogos, enfim, diversos recursos de ajuda que possibilitam a recuperação do paciente viciado em drogas, mas são casos raros de pessoas que realmente tem vontade e se esforçam para isso. A maioria da população que se envolve, acabam em presídios, sem estudos, sem profissão permanente, sem amigos, sem família e muitas vezes o resultado disso é uma séria doença ou a própria morte por meio da violência. Segundo o promotor de Justiça, César Danilo Ribeiro de Novais, vivemos em tempos terríveis. Dentre os males que assolam nossa sociedade, a droga figura como um de seus grandes expoentes. Esse mal atinge a humanidade principalmente de quatro formas: - a pessoa-usuária, que vive amarrada a um sistema de criminalidade para adquirir a droga, substância destruidora de sua própria saúde; - a família da pessoa usuária, que, dia após dia, é carcomida pelo sofrimento de acompanhar um ente querido destruir paulatinamente a própria vida, em razão de sua dependência química; - o Estado, por assistir sua autoridade sendo afrontada e confrontada pela ação dos traficantes; - a sociedade, que vive aterrorizada pelas ações criminosas, movidas em torno do tráfico de drogas: furta-se, rouba-se e mata-se em decorrência da droga. Fuga, negação da realidade, fonte de prazer, caminho para expandir a percepção, veneno. Todas essas definições podem ser usadas para falar das drogas, principalmente as ilegais. Hoje a sociedade sente o peso dos efeitos catastróficos que o uso indevido e indiscriminado das drogas pode fazer a uma pessoa e a sua família. O balanço das consequências que mudou o curso da história da humanidade, é devastador e difícil de se reparar. Numa época de opressão e luta de classes pelos mais variados tipos de direitos, a droga ganhou força entre as classes tornando-se um catalisador de coesão entre aqueles que defendiam uma causa em comum, até mesmo entre os intelectuais o seu uso passou ser aceito com naturalidade. As relações da sociedade com as drogas estão em discussão, como o problema de saúde pública e a questão de segurança, por exemplo. De todas as faixas etárias, os jovens são os mais envolvidos na questão. Questões 01. (SEDUC/AM - Psicólogo - CESPE) No que concerne às causas do fracasso escolar, julgue os itens subsecutivos. A violência e o uso de drogas constituem problemas de responsabilidade exclusiva de coordenadores e diretores de escolas. ( ) Certo ( ) Errado 02. (FNDE - Especialista em Financiamento e Execução de Programas e Projetos Educacionais- CESPE) A receita para formar bons profissionais é investir em educação desde os primeiros anos de vida, melhorar a qualificação dos professores e apostar no uso de recursos digitais. Os investimentos na primeira infância ocasionam benefícios econômicos e sociais no longo prazo. Nesse sentido, as pesquisas mostram resultados importantes, sobretudo se o foco de ação forem crianças mais pobres, que vivem na periferia do sistema educacional. O mundo mudou: surgiram outras demandas na sociedade contemporânea, novas vontades e diferentes questões a serem enfrentadas. Desse modo, os elementos sociais (política, economia, meio ambiente, etc.) devem ser repensados e reestruturados e a educação também deve participar dessa transição. (Correio Braziliense. Suplemento especial Pensar Brasília. 23/9/2012, capa, p. 5 e 10, com adaptações). Tendo o texto acima como referência inicial, julgue os itens seguintes, relativos a aspectos marcantes da educação contemporânea no Brasil e no mundo. O texto sugere que investimentos na primeira infância proporcionam resultados positivos para a sociedade. Assim, por exemplo, oferecer apoio educacional de qualidade a crianças em situação de vulnerabilidade social pode, com o passar dos anos, reduzir problemas sociais, como crimes variados, gravidez precoce, desemprego e uso de drogas. ( ) Certo ( ) Errado 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM 69 03. Uma escola que cumpre seu papel de oferecer uma educação de qualidade, proporcionando um ensino competente e dá oportunidades de escolhas e participação aos alunos, valoriza seus valores e sua cultura estará sendo, por sua postura e organização, uma instituição preventiva ( ) Certo ( ) Errado 04. O objetivo da prevenção é auxiliar as pessoas a, bem formadas e informadas, desenvolverem a sua capacidade de decisão para fazerem escolhas que, incluindo ou não o uso de alguma droga, favoreçam a sua saúde e segurança ao longo da vida. ( ) Certo ( ) Errado Gabarito 01.Errado / 02.Certo / 03.Certo / 04.Certo Comentários 01. Resposta: Errado O uso de drogas assim como a violência é uma questão que envolve a família, a sociedade e também professores e demais envolvidos do ambiente escolar. 02. Resposta: Certo A educação desde sua primeira fase é fundamental para formar os cidadãos e o investimento na primeira infância oferecendo apoio educacional adequado nessa fase favorecendo a conscientização dos alunos poderá diminuir os riscos de problemas sociais muitas vezes desencadeados pelo contexto em que estão inseridos. O objetivo da escola não se resume ao ensino dos conteúdos das matérias. Sua função alcança o desenvolvimento das crianças e dos adolescentes nas diferentes dimensões da vida sendo que, neste contexto, o professor tem uma multiplicidade de funções ao selecionar os conteúdos do ensino e ao fornecer ou construir conhecimentos, ele o faz de determinadas formas e isso já caracteriza o tipo de percepção que os alunos terão de si mesmos, da vida e dos valores o que torna fundamental que os investimentos sejam feitos. 03. Resposta: Certo Ao agir preventivamente cabe à escola propiciar que o aluno “escolha” suas ações ficando incumbida de oferecer uma educação de qualidade e promovendo a conscientização destes. 04. Resposta: Certo A prevenção deve ser um grande processo de reflexão sobre a vida, os valores, os comportamentos e os projetos dos alunos e não simples aulas sobre os efeitos das drogas, assim sendo a escola deve conscientizar seus alunos e não apenas transmitir conteúdos relacionados ao tema pois assim ele terá informação suficiente para tomar suas próprias decisões. DISCIPLINA 33Segundo o Dicionário Aurélio disciplina significa: - Regime de ordem imposta ou livremente consentida, - Ordem que convém ao funcionamento regular duma organização (militar, escolar, etc.), - Relações de subordinação do aluno ao mestre ou ao instrutor, - Observância de preceitos ou normas, - Submissão a um regulamento. Como definição da palavra indisciplina, segundo também o Dicionário Aurélio, temos: - Procedimento, ato ou dito contrário à disciplina; desobediência; desordem; rebelião. 33SCHELBAUER, v. M. P.; GALERA, O. J. B. (IN) DISCIPLINA NA ESCOLA: Limites e Possibilidades de uma Intervenção Pedagógica Disciplina escolar:agressividade, limites e violência; autonomia e obediência 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM 70 Já Içami Tiba34 define disciplina como “conjunto de regras éticas para se atingir um objetivo. A ética é entendida, aqui, como o critério qualitativo do comportamento humano envolvendo e preservando o respeito, ao bem-estar biopsicossocial”. Ao analisarmos as diversas definições de disciplina ou indisciplina percebemos uma gama de possibilidades, no entanto, elas têm em sua estrutura algo em comum: as palavras ordem, normas ou regras aparecem em todas as definições como sendo premissas para que ocorra a disciplina. Nesse contexto, temos de antemão a certeza de que sem ela (a disciplina), não é possível atingir objetivos dentro de uma organização. 35A indisciplina escolar não é uma problemática recente; ao contrário, é um fenômeno cujo conceito, as causas e a razão de ser variam no espaço e no tempo36. Nas últimas décadas, a indisciplina tem sido objeto de inúmeras investigações que procuraram conceituá-la e explicá-la. As pesquisas transitam entre os campos teóricos da Sociologia, Psicologia, Pedagogia e Psicanálise; os atores do amplo processo de ensino-aprendizagem, professores ou alunos; o espaço escolar, doméstico ou social37. Os resultados dessas pesquisas mostram que professores e alunos tratam a indisciplina como um fenômeno causal, de caráter individual38. Além disso, nessa dinâmica de causalidades as explicações oscilam de acordo com os interesses em jogo e uma geopolítica imaginária39. Nessas perspectivas, não se vê a indisciplina como um fenômeno relacional40 e interacionista41. Entende-se a indisciplina como sendo consequência de problemas de origem moral. Nesse caso, ela “está associada a normas e regras sociais e morais”42, ou seja, é causada pelo descumprimento ou desconhecimento desses regulamentos. Desse modo, na discussão sobre indisciplina torna-se necessário analisar como se dá o desenvolvimento moral e a consciência de regras nos discentes. O desenvolvimento moral segue um caminho psicogenético43. Esse desenvolvimento não é automático, e sim possibilidade. Desenvolve-se em três etapas: anomia, heteronomia e autonomia. Sendo a primeira, a ausência de regras. Já a heteronomia remete a existência de normas com fontes externas ao sujeito, ou seja, o indivíduo conhece as regras, todavia obedece-as pela tradição e/ou coação. Por fim, a autonomia é a consciência da regra como fruto de relações sociais, isto é, as regras estão no próprio sujeito. É importante salientar que o desenvolvimento moral está baseado nas práticas interpessoais. Assim, para se alcançar a autonomia é condição necessária, mas não suficiente, o convívio em espaços cooperativos que sejam a expressão da justiça e da dignidade44. Como a indisciplina é um tema circulante nas escolas, em torno dela estão contidos atitudes, imagens e conhecimentos que promovem intensos debates e questionamentos entre os agentes escolares, que ultrapassam os limites da escola, chegando as mais diversas instâncias. Assim, constituem-se representações sociais, que são fruto de interações intersubjetivas e transubjetivas, que não se limitam aos planos subjetivos. Logo, a indisciplina é perceptível nas diversas manifestações sociais, pois não é um problema isolado, pelo contrário, é carregado de significações e mutável. Poder, Autoridade e Autoritarismo É impossível falar de indisciplina sem falar de autoridade. E percebe-se hoje, que nunca na história, a sociedade viveu tão fortemente a crise de autoridade, desde as instituições mais simples como a família até as mais complexas. Analisando vários autores, podemos ter a consciência de há uma grande diferença entre autoridade e poder, mas que na prática elas se tornam muitas vezes contraditórias o que pode confundir o profissional e fazê-lo seguir os rumos do autoritarismo que é o poder usado de maneira abusiva, para dominar, pressionar, coibir, punir. 34TIBA, lçami. Disciplina.- Limite na medida certa. 8° edição. São Paulo: Editora Gente, 1996. 35SANTOS, E.R.; FERREIRA, A.C.; Indisciplina Escolar: Um Tema Circulante e Controverso Entre Professores Da Rede Estadual De Ensino. XI Congresso Nacional de Educação - EDUCERE. Pontifícia Universidade Católica do Paraná, 2013. 36ESTRELA, Maria Teresa. Relação pedagógica, disciplina e indisciplina na aula. 3. ed. atual. Porto: Porto Codex, 1992. 141 p. (Coleção Ciências da Educação). 37LEDO, Valdir Aguiar. A indisciplina escolar nas pesquisas acadêmicas. 2009, 245 p. Dissertação (Mestrado em Educação: História, Política, Sociedade) - Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2009. 38BELÉM, Rosemberg Cavalcanti. Representações sociais sobre indisciplina escolar no ensino médio. 2008, 103 f. Dissertação (Mestrado em Psicologia) - Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2008. 39AQUINO, Júlio Groppa. Confrontos na sala de aula: uma leitura institucional da relação professor-aluno. São Paulo: Summus, 1996. 40Idem, BELÉM, 2008. 41ROSSO, Ademir José; CAMARGO, Brígido de Vizeu. As representações sociais das condições de trabalho que causam desgaste aos professores estaduais paranaenses. ETD - Educação Temática Digital, Campinas, SP, v. 13, n. 1, p. 269-289, jul./dez. 2011. 42PARRAT-DAYAN, Silvia. Como enfrentar a indisciplina na escola. Tradução de Silvia Beatriz Adoue e Augusto Juncal. São Paulo: Contexto, 2008.143 p. 43PIAGET, Jean. O juízo moral na criança. Tradução de Elzon Lenardon. São Paulo: Summus, 1994. 302 p. 44LA TAILLE, Yves de. A escola e os valores: a ação do professor. In: LA TAILLE, Yves de; PEDRO-SILVA, Nelson; JUSTO, José Sterza. Indisciplina/disciplina: ética, moral e ação do professor. 3. ed. atual. ortog. Porto Alegre: Mediação, 2010. cap. 1. p. 5-21. 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM 71 A autoridade de um professor é construída: tanto na sua preparação que deve ser adequada para o exercício da docência, sua preparação técnica científica, e no compromisso com a sua profissão, na qual não pode se eximir da imensa responsabilidade de ser um modelo ao educando. Suas qualidades, seus valores, até seu temperamento, vão sendo agregados pelos alunos, que a esses vão atribuídos juízos que valor, que podem contribuir para a definição da personalidade do jovem. Paulo Freire, faz uma reflexão bastante significativa sobre isso quando afirma: É na fala do educador, no ensinar (intervir, devolver, encaminhar), expressão do seu desejo, casado com o desejo que foi lido, compreendido. O professor é peça fundamental no processo educacional, pelo papel que ele representa diante do aluno, como educador e transmissor de conhecimentos. Autoridade pressupõe liderança, coerência na ação, pressupõe exemplo, retidão de caráter, mas principalmente competência. Essa competência está intimamente relacionada com a legitimidade do poder que é concedido ao professor no exercício docente, poder esse necessário e que, assumido de maneira justa e democrática, qualifica os alunos como agentes do processo onde são estabelecidas normas, para que a convivência e a cooperação sejam possíveis. As Relações de Poder na Escola Embora não se admita, as relações na escola não são tão justas como deveriam. Percebe-se muito em depoimentos de alunos, o tratamento diferenciado dado a aqueles alunos cujos pais são influentes, cujo nível social é melhor, quando há nível de amizade pessoal entre a família e o professor ou o diretor, etc. Em contrapartida, percebe-se também, que muitos alunos exercem o poder autoritário, quando ameaçam, intimidam ou mesmo agridem sejam outros alunos o professor e até mesmo a direção. Isso acontece quando esses jovens percebem o modelo autoritário dos pais, e vão desenvolvendo-se de maneira a incorporar essas atitudes em sua personalidade. É importante, todo professor ter em mente que: Na salade aula, os alunos não são pessoas para transforma-se em coisas, em objetos, que o professor pode manipular, jogar de um lado para o outro. O aluno não é um depósito de conhecimentos memorizados que não se entende, como um fichário ou uma gaveta. O aluno é capaz de pensar, refletir, discutir, ter opiniões, participar, decidir o que quer e o que não quer.45 Mas normalmente, quando se propõe a construção do Projeto Político pedagógico nas escolas, e o Regimento Escolar há uma grande preocupação de se determinar um conjunto de normas disciplinares para os alunos. Não haveria problema nenhum se essas normas fossem concebidas pelos alunos e não, como normalmente é feito, pelos professores. Pior do que isso: nunca se admite construir algo semelhante para o professor! Imaginem ainda, o que aconteceria se as normas para os professores fossem determinadas pelos alunos? Com certeza nenhum professor as admitiria, no entanto, achamos perfeitamente normal determiná-las para que os alunos as sigam. Não se trata, porém, de a escola abdicar da autoridade em função de parecer democrática. Existem fatores inegociáveis. Não podemos deixar os pais ou alunos determinarem o que será ensinado na escola, deve ficar bem claro aqui, que quem entende de educação, são educadores, que estudaram, discutiram e se formaram para isso! Tânia Zagury46 comenta os efeitos dessa Pedagogia neoliberal na escola: ... na sala de aula dos modelos liberais, atualmente indicados como mais adequados (nem pensar em questionar isso, pelo amor de Deus!), tudo é passível de discussão, desde o conteúdo até a metodologia e a forma de avaliação; nela a hierarquia de poder fica muito menos visível, e para alguns estudantes tem sido compreendida como inexistente; é nessa mesma sala, que alunos (e seus responsáveis) sentem no direito de opinar (determinar?) “o que querem aprender”, “o que gostam” e até como querem o que gostam. Por pensarem que tem competência para opinar nesses aspectos e muitas vezes com a permissão (“omissão”) do professor, vai se abdicando mais uma vez da autoridade, e perdendo-se o conceito do que é certo ou errado na escola. Outro aspecto que nos leva a perceber como as relações de poder acontece na escola, é refletir sobre seu conceito de indisciplina. Esses conceitos divergem muito entre uma escola e outra, e alguns alunos 45SILVA, A.C., e SANTOS, R. M. Relação Professor Aluno: Uma reflexão dos problemas educacionais. Universidade da Amazônia, 2002. 46ZAGURY, T. O Professor Refém 7ª Ed. Rio de Janeiro; Record 2006 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM 72 que são considerados indisciplinados em uma escola, podem não ser em outra. Esse aspecto causa confusão no momento que um aluno muda de escola, onde os próprios pais passam a não entender qual é o comportamento que se esperam do filho, ou ainda, não conseguem identificar comportamento indisciplinados no filho. Assim sendo, a escola deve deixar muito claro aos pais, o critério de indisciplina, bem como dar conhecimento de todas as normas de conduta, dos direitos, deveres, as sanções, etc, e que tudo isso seja fruto de uma construção coletiva, fazendo parte do Projeto Político da escola, buscando sempre uma relação aberta, autêntica e cooperativa. O Professor e a Indisciplina O enfrentamento da indisciplina na escola exige muitas reflexões acerca de muitas variáveis que interferem diretamente no seu processo. A postura do professor em sala de aula é mais uma delas. Andréa Catarina da Silva47, comenta essa postura quando afirma que: O professor quando começa a prática pedagógica, tem em mente uma disciplina rigorosa, autoritária ou uma conduta livre, democrática. Entre esses dois extremos, há um grande número de possibilidades, que dependem de muitos fatores, como a personalidade do professor, a do aluno, as condições ambientais da escola e outros. Apesar disso, em seu exercício docente muitas vezes, o professor é levado a agir de maneira diversa, o que muitas vezes confunde o aluno e prejudica a relação, como mostra o comentário de Venâncio Joana Darc48, quando diz: o professor vem, muitas vezes, com sua permissão ou não, sendo substituído por uma nova personagem, uma para cada ato, ou quem sabe, todas de uma vez no palco da sala de aula ou da escola. Para que seja aceito ou valorizado - se é que se pode chamar isso de valorização - ele assume para si vários papéis, sendo confundido com pai, mãe, amigo, companheiro, orientador... e também professor, satisfazendo-se com o esvaziamento, mesmo sem perceber, de seu singular papel e lugar: ser professor. Nesse sentido, numa tentativa de ganhar a confiança do aluno, substituir suas relações afetivas frustradas (de pai e mãe), ou mesmo de um completo desespero por não saber o que fazer, o professor acaba cedendo seu espaço de autoridade, o que muitas vezes é a causa da indisciplina na sala de aula. Percebe-se que a ausência da autoridade em sala de aula faz com que o professor apele a todo instante por interferências de fora da sala o que acaba confirmando ainda mais, frente aos alunos, sua fragilidade. São muitos os casos atendidos pelas Equipes Pedagógicas das escolas que poderiam ser resolvidos dentro da própria classe, pelo próprio professor, mantendo sua autoridade, e sendo respeitada sua competência como alguém que estudou e se preparou para enfrentar essas situações. Se o professor abdica de sua autoridade em casos simples de indisciplina, como jogar bolinha de papel nos colegas, puxar o cabelo, e outras atitudes sem maiores consequências, pode estar abdicando dela também em situações mais complexas e não ser mais respeitado. Portanto, o exercício profissional do professor é ser professor, e com pressupõe-se que seja: competente, solidário, justo, comprometido com o conhecimento e com cidadania! Ele não pode querer substituir múltiplas personalidades para ser reconhecido ou para sanar a carência social de seus alunos. Não se trata de negar as relações afetivas com os alunos, mas o que se busca é a construção de relações firmes, evitando o sentimentalismo, onde cada um sabe exatamente o seu lugar. Outras vezes, a limitação do professor está em administrar os conflitos de sua própria personalidade e encararam a indisciplina como agressão pessoal, não entendendo a importância de compreender a necessidade que o jovem tem de se expressar ou denunciar seus problemas psíquicos ou familiares. Às vezes isso é um aviso de que o estudante não está integrado ao processo de ensino e aprendizagem, e precisa de um atendimento especial. De um modo geral, os educadores consideram indisciplina as transgressões às regras de convivência ou a não adequação a um modelo ideal. Queremos que todos aprendam rápido, e que sejam todos dóceis e obedientes. É no exercício competente de sua profissão que o professor pode e deve dialogar sobre objetivos e limitações mostrando ao aluno o que a escola (e a sociedade) espera dele. É através de sua atuação consciente que ele garantirá a formação cidadã de seus alunos Na sua competência técnica para a docência o professor além do domínio de conteúdos deve conhecer várias metodologias para tornar as aulas atraentes, como forma de minimizar as necessidades de 47SILVA, A.C., e SANTOS, R. M. Relação Professor Aluno: Uma reflexão dos problemas educacionais. Universidade da Amazônia, 2002. 48JOANA DARC, Venäncio.O Lugar do Professor : Sentido Próprio de sua existência - FEUDUC, 2003 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM 73 experiências novas que as crianças e jovens necessitam, e que contribuem para o enfrentamento da indisciplina, no momento que mantém os alunos motivados. Para isso é necessário que o professor mantenha uma rotina de planejamento de suas aulas, de forma a torná-las mais atraentes. “A mesmice acaba com o ânimo de ambos [alunos e professores], gerando frustrações e aborrecimentos que muitasvezes explodem em violência na sala de aula", afirma Carolina Miles. E Flávio Gikovate, reitera esse fato quando diz: “existe uma relação entre indisciplina e aulas monótonas e desinteressantes”. Portanto, o professor não pode esquecer das necessidades do educando, e também considerar o momento que o aluno vive, com altos e baixos no seu humor, definido pela ação dos hormônios, com medos, problemas, aspirações e desejos a realizar. Sabemos que um clima alegre, onde todos os alunos participam da aula, onde os alunos buscam o conhecimento como forma de conseguir sua autonomia, seria o ideal. Mas, como vamos cobrar do professor que suas aulas sejam atraentes o tempo todo? Com o quadro caótico em que se encontra a educação, isso seria no mínimo injusto! Como poderemos satisfazer os jovens que o tempo todo buscam o hedonismo, buscando o prazer imediato, procurando satisfazer-se a qualquer preço, onde o aluno diz abertamente em sala de aula “que não está a fim” de assistir uma aula chata, sem se questionar a importância que esta aula possa ter em sua formação? A responsabilidade da aprendizagem também é do aluno, é tarefa que exige esforço, dedicação e disciplina. As dificuldades que o professor enfrenta O sentimento de impotência que o professor sente é resultado histórico do insucesso da escola durante séculos (considerados aqui como sucesso, os requisitos: acesso, permanência e qualidade para todos). Ela sempre foi elitista, e mais recentemente quando se vê obrigada a receber todos (senão a maioria), não sabe como agir, pois não tem estrutura para lidar com as diferenças, com a pobreza, com as dificuldades de aprendizagem... quanto mais para lidar com a indisciplina ou violência, pois historicamente a escola era instrumento disciplinador. Celso Vasconcelos49 traduz essa angústia na reflexão: De onde vem o drama do professor? Em parte, da percepção de que está incapacitado para dar conta de sua tarefa: o mundo mudou, o aluno mudou, mudou a relação escola-sociedade e ele continua o mesmo... O que lhe foi ensinado? Transmitir o conteúdo, cumprir o programa, controlar o comportamento do aluno através da nota. Hoje, as exigências são outras! A autoimagem do professor está prejudicada, em muitas situações, a profissão de professor é ridicularizada, seja pela mídia, nas rodas sociais e até mesmo pelos próprios professores que zombam de sua condição em piadas de mau gosto comentários pejorativos. Se ouve muitos pais professores desencorajando seus filhos a seguirem a mesma carreira que eles. As deficiências na formação dos professores têm sido apontadas como um dos maiores problemas educacionais. Instituições não credenciadas, cursos ã distância, de curta duração, currículos de eficiência duvidosa, etc, faz com que o professor não se sinta seguro na sua prática. Também as perversas condições de trabalho constituem fatores determinantes para a desmotivação do professor: Classes superlotadas falta de recursos didáticos, baixos salários, pouco tempo para planejar as aulas (por causa dos baixos salários, precisa assumir muitas aulas, mais do que poderia, para poder prepará-las a contento), consumismo exacerbado entre os jovens, causando a dificuldade de incutir-lhes valores, falta de autonomia, e tantos outros aspectos que levam o professor (e a sociedade) a acreditar cada vez menos no seu trabalho. Indisciplina e práticas metodológicas As exigências tecnológicas do mundo moderno, onde a velocidade de informações determina as relações de poder (informação é poder) exigem também que a escola que se modernize e acompanhe esse processo. Quadro e giz já não satisfazem à curiosidade das crianças, que desde muito cedo já convivem com brinquedos eletrônicos, vídeo games e até computadores. Ë claro que esta não é a realidade da maioria, mas onde esses terão acesso, se na escola elas também não tiverem? Seria sustentar as desigualdades se negássemos a necessidade da inclusão digital, mas como nos coloca Rubem Alves na citação abaixo, “a ciência não começa com aparelhos”: 49VASCONCELLOS, Celso S. Disciplina: construção da disciplina consciente e interativa em sala de aula e na escola. 7.ed. São Paulo: Libertad, 1996. 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM 74 Não gosto de laboratórios nas escolas. Sua função não é ensinar ciência. Sua função é seduzir os pais. Os pais querem sempre o melhor para os seus filhos e o que é moderno deve ser melhor. Uma escola que tem laboratórios com aparelhinhos deve ser uma boa escola. Mas os laboratórios, antes que os estudantes entrem nele, já ensinaram uma coisa fatal para a inteligência científica: que ciência é algo que acontece dentro daquele espaço. A ciência não começa com aparelhos. Ela começa com olhos, curiosidade e inteligência. Cabe, portanto ao professor, saber trabalhar a curiosidade inerente à criança e encantar o querer aprender, e mentalizá-la nesse processo. Neste sentido, os professores precisam estar cientes que não existe nenhuma solução mágica para os problemas da escola, dizer que uma escola não é boa somente por falta de recursos é, no mínimo injusto. Não são os equipamentos que farão o aluno aprender ou prestar a atenção, mas o uso que se faz deles. E para isso é preciso preparo profissional, capacitação, e boa vontade do professor. Além de recursos, metodologias inadequadas também podem gerar indisciplina e prejudicar a aprendizagem. Trabalhos em grupo, tarefas práticas, teatros, música, jogos, são atividades prazerosas para crianças e jovens, e devem ser utilizadas como recurso didático sempre que possível, pois coloca o aluno numa perspectiva de agente de sua aprendizagem, e desmistifica a idéia de que o professor é fonte inesgotável de saber, de que o professor “sabe tudo”, e que ele também pode aprender com o aluno. A visão de construção de conhecimento é a idéia que devemos incutir no aluno para torná-lo independente do professor e livre para buscar outros horizontes além da escola. Uma aula participativa onde o aluno pode intervir questionar, contribuir, aumenta o interesse e desenvolvem a autonomia. Quando o professor é autoritário, e não permite o aluno intervir, pode estar abrindo mão de um recurso importante: a riqueza de vivências advindas de um meio diferente do seu, um ponto de vista diverso, onde a visão adolescente ou infantil permite identificação com os demais alunos, o que muitas vezes contribui para a aprendizagem. Nessa perspectiva também o aluno desenvolverá seus valores de convivência social, onde deverá ter respeito às ideias divergentes, ter iniciativa, colaborar, esperar sua vez de falar, mediar ideias, etc. É claro que existirão momentos em que esse tipo de estratégia não poderá ser usada pela especificidade dos conteúdos, mas de um modo geral, os alunos começam a perceber a relação entre o que aprendem na escola com sua vida, e passam a valorizar mais sua aprendizagem. O aluno e a indisciplina O dicionário da Língua Portuguesa define aluno como: "Aquele que foi criado e educado por alguém; aquele que teve ou tem alguém por mestre ou preceptor; indivíduo que recebe instrução ou educação em estabelecimento de ensino ou não”. Dessa forma, para ser considerado aluno é imprescindível à existência de um mestre, professor, isto é o aluno não existe sem professor, assim como o professor não existe sem o aluno, e para que esta relação tenha sentido, é necessária a aprendizagem. Para haver aprendizagem, algumas condições são indispensáveis, como: matérias e metodologias adequadas, experiências anteriores favoráveis, atenção e concentração, motivação, etc. Quando estas condições não são favoráveis, a aprendizagem é prejudicada. Variações de emoções, mudanças de humor, fazem parte de relacionamentos humanos, e professor e aluno não ficam indiferentes a esses fatos, sendo, portanto determinantes, muitas vezes, da aprendizagem. Mas isso não quer dizer que somente um bom relacionamentopossa garantir o sucesso da aprendizagem, Tânia Zagury50, em seu livro O Professor Refém, confirma essa ideia: ” Não se pode, pois, afirmar que é a” boa” relação afetiva entre o professore seus alunos que determina a qualidade do resultado educacional”. Mas para os alunos, continua Tânia, o bom relacionamento com o professor, muitas vezes, é mais valorizado do que seus avanços pedagógicos: Os “melhores professores” passaram ser aqueles cujos alunos o adoram, não importa tanto se ensinam ou não. O importante é compreender, compreender, entender as dificuldades, considerar seus problemas emocionais sua classe social... “professor” torna-se nesse contexto, sinônimo de especialista em relações humanas”. Ao contrário, o professor mais rigoroso com a disciplina, mais centrado na cientificidade é apontado como chato, e não agradando os alunos, estes, se tornam resistentes, indisciplinados, desafiando sua autoridade. 50ZAGURY, Tânia. O Professor Refém 7ª Ed. Rio de Janeiro;Record 2006 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM 75 Além disso, questões específicas da adolescência vêm reforçar ainda mais os problemas na escola. Os hormônios específicos da sexualidade fazem com que a atenção do jovem fique ainda mais dividida, e as condições de aprendizagem mais prejudicadas. Outro aspecto que atualmente tem sido discutido como uma das causas da indisciplina é a falta de perspectiva de um futuro melhor, isto é, a escola não consegue incutir no aluno a esperança de conseguir melhorar suas condições de vida através da educação. Isto contribui, e muito para a desvalorização do professor e da escola. Nesse sentido, citando Celso Vasconcelos temos que: Hoje, os alunos continuam não vendo sentido nas práticas de sala de aula, e não vislumbram mais um futuro promissor pela via do diploma. O professor que baseava sua autoridade neste mito está perdido. E, o que é pior, não tem conseguido articular outro sentido para o conhecimento, a escola, o estudo. Enfim, é preciso lembrar que aprendizagem envolve componentes internos, e que por mais que um professor se esforce é impossível promovê-la sem que haja uma atitude de vontade interna (motivação). A aprendizagem exige esforço (para não faltar às aulas, fazer tarefas e trabalhos, estudar, ler, planejar as aulas, adequar metodologias, ouvir...), tanto do professor quanto do aluno, e nem sempre é prazerosa. A indisciplina e a aprendizagem Os recentes fracassos obtidos pelo Brasil nos resultados das avaliações tanto a nível nacional como a internacional apontam para os graves problemas encontrados na educação brasileira. Nunca se discutiu tanto as causas, mas a imobilidade permanece, como se todo o sistema se visse impotente diante de tantos problemas. Apesar disso, muitos pesquisadores vêm apontando as causas, e dando algumas sugestões, mas elas não passam para a prática, não chegam à escola como saída possível para trazer novas perspectivas, e os resultados vêm piorando ano a ano. Sabemos que a escola, inserida no contexto social, é um mero reflexo de tudo que acontece em seu entorno, e como a crise é geral, é perfeitamente compreensível que essa crise determine suas relações. O que não se pode admitir, é a incapacidade de todo o sistema, sejam elas instâncias Federais, Estaduais ou Municipais, de controlar, ou pelo menos de minimamente interferir, fazendo com que seus projetos atinjam seus propósitos. Quando verificamos notícias de agressões a professores, diretores, serventes, depredações em escolas, podemos associá-las aos mais diversos tipos de violência moral percebidas nossos senadores, ministros, juízes, deputados, prefeitos e vereadores, envolvidos nos mais vergonhosos sistemas de corrupção que este país já teve notícia, que nos leva a crer que não vale a pena ser honesto, que “não dá nada, mesmo”, pois a impunidade impera para os poderosos, e a única maneira de ter uma vida melhor é passando os outros para trás ou tomando à força, que estudar não garante um futuro melhor, numa sociedade injusta como a nossa. Assim, perpetua-se as relações de poder, que impedem a escola de exercer sua função transformadora. A escola, segundo Claudevone Ferreira dos Santos e Marinildes Figueredo Nunes (2006) “é o local privilegiado dessa formação porque realiza um trabalho sistemático e planejado com o conhecimento, com valores, com atitudes e com a formação de hábitos.”. Para poder realizar um trabalho “sistemático”, planejado, é sem dúvida necessário que existam algumas regras e alguns limites. Não é, portanto, somente prerrogativa da escola que haja disciplina para realizar um bom trabalho. Todas as instâncias que necessitem de organização deverão cultivá-la, do contrário, seu trabalho ficará comprometido. É neste contexto que sentimos a escola, e o professor com refém desse sistema, e dessa imobilidade da qual não consegue se libertar. O papel da família Quando analisamos o modelo familiar de hoje, vários fatores nos chamam a atenção: ela passou por transformações que vão desde sua constituição, até mudanças em suas relações de poder, de quem é provedor, em suas relações afetivas, etc. A constituição da família, não é necessariamente mais pai, mãe, irmãos. Ela se tornou uma enorme gama de possibilidades onde avós ganharam papel de destaque, permitindo a aparição do “namorado da Mãe" (ou namorada do pai) como membro da família, seus filhos, etc. Torna-se ainda mais complicado, quando analisamos a possibilidade de dois pais ou duas mães, (aqui cabe esclarecer que não se trata de uma visão preconceituosa, mas da necessidade de adaptação a 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM 76 essas novas possibilidades de constituição familiar, para a qual o professor deverá estar bem preparado e aberto). Assim, quando refletimos sobre o papel da família frente à indisciplina, não podemos nos reportar ao “nosso” modelo de família, de 20 ou 30 anos atrás, pois correremos o risco de errar e muito, já nas primeiras análises. No contexto atual percebemos os pais mais permissivos e menos punitivos quando: Procuraram ser mais amigos de seus filhos e introduziram o diálogo na relação. O que precisamos considerar é que, para estabelecer tal relacionamento, os pais abriram mão de seu papel de educadores (...) revestidos das melhores intenções de se tornarem amigos de seus filhos, esqueceram-se que são, antes de tudo, pais. E é nesse ponto que a maioria dos educadores toca no momento de apontar as causas mais frequentes da indisciplina na escola: os pais transferiram sua responsabilidade na educação dos filhos para a escola. Tânia Zagury, em seu livro O Professor Refém, trata dessa situação numa perspectiva que resgata o papel do professor: “que não aceita a transferência das atribuições tradicionais da família para a escola, e que a responsabiliza pela violência dos jovens e adolescentes, pela sua falta de limites”. Os pais, na verdade se encontram na mesma crise de autoridade que os professores. Foram criados dentro de uma perspectiva autoritária e não sabem agir diferentemente de seus próprios pais, sofreram com isso, e não querem repetir os mesmos erros. Como não vivenciaram uma relação aberta, onde a “autoridade” sustenta o relacionamento, se sentem incapazes de impor limites coerentes, ou ainda se contradizem em suas ações, agindo ora permissivos ora autoritários. Isso causa um problema ainda maior: a revolta. Quando as crianças e os jovens não conhecem bem os limites, quando eles são vinculados ao humor do dia, às vezes não se pode fazer nada, e às vezes se pode fazer tudo, invariavelmente se revoltam. Por não saber até onde podem ir, se sentem inseguros com relação à pessoa que está à sua frente, e isto lhe causa um extremo desconforto que se revela em atitudes muitas vezes até violenta. Os sistemas de ensino também colaboram com o assoberba mento da escola, que além de suastarefas normais, tem que assumir o papel que seria da família, fato que fica bem claro na afirmação: “... a escola tem mais funções do que parece, sendo que o atendimento a tantas e tão diversificadas funções faz com que as crianças acabem permanecendo mais tempo na escola do que em companhia de seus pais.” Temos ainda, aqueles pais que além de não exercer a autoridade com seus filhos, ainda buscam compensar o tempo que passam longe deles, oferecendo-lhes em troca presentes, dando-lhes a impressão que tudo pode ser comprado. Incentivam assim o consumismo exacerbado, que hoje se observa até nas classes mais pobres, quando a mãe é forçada pelo filho de abrir mão de uma cirurgia, para lhe comprar um celular do último modelo. A criança precisa ser valorizada pela sua existência, não só como uma obrigação dos pais em prover- lhe sustento, mas pelo respeito eles que lhe tem enquanto ser humano, enquanto fruto de uma relação amorosa, e, portanto: amável. É nesse momento que os pais vão incutir-lhe valores. É pelo exemplo que se educa, e como poderá uma criança acreditar que seu pai lhe ama, se as prioridades dele são outras? Isso fica bem claro, quando refletimos sobre a afirmação de Cristovam Buarque: “Os pais terão de assumir a educação dos filhos como uma prioridade maior do que o carro, a casa, o tênis, as viagens. Os empresários terão que aceitar a primazia da infraestrutura educacional na frente da infraestrutura econômica”. Se os pais souberem usar sua autoridade sem serem autoritários, e agirem com intenções honestas, clarificando seus pontos de vista ao tomar uma decisão, os limites ficarão bem estabelecidos para a criança e para o jovem, o que contribuirá, e muito, no momento de entender a autoridade fora do lar. Para Aquino51, a estrutura familiar precisa adaptar-se às circunstâncias novas e transformar determinadas normas, sem deixar, no entanto, de constituir um modelo de referência para os seus membros. Além de se adaptar aos novos parâmetros, é importante lembrar, que o diálogo é fator essencial para que qualquer relacionamento não seja de conflito, mas a palavra final deve ser sempre dos pais, porque eles são os adultos e porque é deles a responsabilidade de educar e de zelar pelo bem-estar das crianças. 51AQUINO, Júlio Groppa (organizador). Indisciplina na escola. Alternativas Teóricas e Práticas. 4° edição. São Paulo: Summus Editorial, 1996. 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM 77 VIOLÊNCIA INTRAESCOLAR Violência Intraescolar 52As violações de direitos humanos são mais perceptíveis em escala macroscópica do que microscópica. A falta de vaga ou transporte escolar é mais perceptível do que o sutil tripé das violências da/na/contra a escola. Entretanto, essas violências, em parte encobertas pela lei do silêncio, contribuem para não efetivar o direito à educação. Isso ocorre pela insegurança escolar, manifesta pelo mal-estar docente e discente, resultante das macro e microviolências entretecidas na trama sutil de relações escolares e da cumplicidade entre adultos e alunos e entre alunos. Para uma parte, as violências deságuam no abandono da escola, no absenteísmo, no desinteresse e no baixo aproveitamento. Mas há um efeito menos ostensivo: o hábito de praticar e sofrer a violência, espelhando a paisagem da comunidade e da própria escola como instituição. Alguns alunos se tornam oprimidos-opressores, tal como analisou Freire, reproduzindo o mundo à sua volta e com frequência ampliando as imagens espelhadas. Nesse jogo de imagens, a nova geração recebe e processa uma herança de violações de direitos humanos. Eis o que revelou uma pesquisa em escolas consideradas violentas, em meio social desfavorecido, ao se deter na tessitura das relações discentes, em que se detectaram novas relações entre “senhores” e “escravos”. Levantando apenas uma ponta do véu, há muito a investigar (e mesmo relatar a partir dos dados existentes), sobre a dura existência de adolescentes, em que faltam a esperança, os exemplos e os sonhos e projetos para superar a opressão. Nessa tessitura, não raro ignorada pelas “amplas” políticas públicas, semeia-se a negação dos direitos humanos, num processo em que a escola, embora não sendo essencialmente vilã, contribui para a germinação e a colheita da violência, seja pela impotência, pela ignorância ou pelo disfarce. Afinal, ela é historicamente uma instituição violenta. Jovens e escola hoje O individualismo, característico de jovens e das sociedades ocidentais, pode nascer com o ser humano e precisa ser trabalhado, em especial pela família e escola, para o convívio social. Por consequência da repressão de alguns instintos naturais em prol do convívio social, a náusea e a violência podem aparecer como efeitos decorrentes. Reconhecendo esse fato, Lipovetsky afirma que o individualismo contemporâneo permite às pessoas observarem e adorarem apenas aquilo que é fruto de si e para si, aumentando a exclusão social. Com isso, os problemas de relacionamento entre colegas multiplicam-se nas escolas, levando em consideração que as disputas de poderes entre os grupos de alunos podem gerar, inclusive, o ostracismo daqueles que não praticam as violências. Assim, excluir no ambiente escolar torna-se, em alguns momentos, fator ou efeito de muitas violências. A violência como parte constitutiva do cenário escolar estimula os grupos de alunos a entrarem em confrontos constantes, em busca da dominação de territórios, dentro e fora do ambiente escolar. Os “senhores” e “escravos”, nos papéis de atores sociais, trocam de posição o tempo todo, em busca de maior poder. Pensando nos termos “senhor” e “escravo” sob a perspectiva hegeliana, o “senhor” parte como um forte opressor. Assim, os conceitos de poder e autoridade construídos por Weber, para quem a autoridade é legitima e o poder não o é, muitas vezes se percebem de maneira distorcida, mudando o comportamento dos estudantes. 53A Violência Escolar: Suas implicações no processo Ensino-Aprendizagem A violência na escola associa-se a três dimensões sócio organizacionais distintas. Em primeiro lugar, à degradação no meio ambiente escolar, isto é, à grande dificuldade de gestão das escolas, resultando em estruturas deficientes. Em segundo, a uma violência que se origina de fora para dentro das escolas, por meio do intermédio da penetração das gangues, do tráfico de drogas e da visibilidade crescente da exclusão social na comunidade escolar. Em terceiro, relaciona-se a um componente interno, específico de cada estabelecimento, como demonstra Abramovay Há escolas que historicamente têm-se mostrado violentas e outras que passam por situações de violência. É possível observar a presença de escolas seguras em bairros ou áreas reconhecidamente violentas, e vice-versa, sugerindo que não há determinismo nem fatalidades, mesmo em períodos e áreas caracterizadas por exclusões, o que garante que ações ou reações localizadas sejam possíveis. 52GOMES, C.A., ACIOLI, D., QUEZADA, M.T.P.; Violação intraescolar de direitos humanos: jogo de espelhos. Rev. Diálogo Educ., Curitiba, v. 13, n. 39, p. 505-520, maio/ago. 2013. 53http://leg.ufpi.br/subsiteFiles/ppged/arquivos/files/eventos/2006.gt7/GT7_2006_04.PDF 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM 78 A citação acima demonstra que a segurança tem um papel importante e que não decorre de determinismo, nem fatalidades, mas ações desenvolvidas no próprio ambiente escolar. Observa-se hoje uma crescente preocupação de pais e educadores com as variadas formas no interior das escolas. Nesta perspectiva, existe diferentes formas de violência presentes no cotidiano escolar como segue, apoiado em Charlot apud Abromovay: - violência: golpes, ferimentos, violência sexual, roubos, crimes, vandalismo. - incivilidades: humilhações, palavras grosseiras, falta de respeito; - violência simbólica ou institucional: compreendida comoa falta de sentido de permanecer na escola por tantos anos; o ensino como um desprazer, que obriga o jovem a aprender matérias e conteúdos alheios aos seus interesses; as imposições de uma sociedade que não sabe acolher os seus jovens no mercado de trabalho; a violência das relações de poder entre professores e alunos. Também o é a negação da identidade e satisfação profissional aos professores, a sua obrigação de suportar o absenteísmo e a indiferença dos alunos. Segundo Peralva apud Lucinda as formas de violência são construções culturais que reproduzem relações de força, como constata-se na citação: A violência entre alunos constrói-se em torno de duas lógicas complementares: de um lado, encenação ritual e lúdica de uma violência verbal e física; de outro, engajamento pessoal em relações de força, vazias de qualquer conteúdo preciso, exceto o de fundar uma percepção do mundo justamente em termos de relações de força. Nos dois casos, o que está em jogo é a construção e a auto - reprodução de uma cultura da violência. As ideias acima demonstram que existem diferentes formas de violência presentes no cotidiano das escolas, ressaltando-se, as agressões e ameaças a professores, feitas por alunos, as verbais, físicas ou psicológicas, sofridas por parte de profissionais que atuam nas escolas. As atitudes de violência geram insegurança no meio escolar considerando os crimes e delitos tais como os furtos, roubos, assaltos, extorsões, tráfico e consumo de drogas, entre outros, qualificados no código penal nesta instituição tanto pelo princípio dos direitos humanos. A Visão da Escola Sobre a Violência A violência representa agressão física, simbolizada pelo estupro, brigas em família e também a falta de respeito entre as pessoas para a escola violentar é romper a liberdade e os direitos do cidadão. É alguém que passa dos limites e invade a privacidade do outro. É a falta de solidariedade e o desrespeito aos direitos humanos. É a agressão física, psicológica, sexual e moral. A visão da escola sobre a violência resumidamente é a compreensão como descumprimento das leis e da falta de condições materiais da população, associando à miséria, à exclusão social e ao desrespeito ao cidadão: É atingir o direito do outro, o direito de viver, de trabalhar. É o descumprimento das leis em todos os sentidos. A ênfase dada à importância dos meios de comunicação de defesa nos parece merecer uma maior atenção por parte dos educadores, haja vista que a televisão é um veículo de comunicação que está presente em quase todas as residências de diferentes camadas sociais. De certa forma, as explicações sobre a definição de violência, vem sendo destacado neste estudo respaldando-se nos autores que se voltam para problemática, como segue: Violência é o emprego desejado de agressividade com fins destrutivos. Agressões físicas, brigas, conflitos podem ser expressões de agressividade humana, mas não necessariamente expressões de violência. Na violência a ação é traduzida como violenta pela vítima, pelo agente ou pelo observador. A violência ocorre quando há desejo de destruição. Neste sentido, a marca constitutiva da violência seria a tendência à destruição do outro, ao desrespeito e à negação do outro, podendo a ação situar-se no plano físico, psicológico ou ético. Violência em Relação ao Patrimônio Público: Escola Constata-se que a violência, praticada em relação ao patrimônio público, é decorrente da falta de conscientização da sociedade, bem como da clientela escolar sobre o significado do que é público, considerando como as instituições, se apresentam para os seus usuários. 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM 79 Na percepção dos educadores, a violência se evidencia, de forma mais clara, na relação entre os alunos, estes é que são violentos. Tais educadores no geral, não se percebem promovendo atitudes de violência para com os alunos; é como se os professores, diretores e coordenadores pedagógicos fossem isentos de práticas violentas. Esta problemática, de certa forma, se reproduz na escola. A Revista Veja (maio de 1996), em reportagem sobre este tema mostra que uma das principais explicações para a indisciplina na escola é a falta de educação em casa, ou seja, a socialização primária que se traduz em fala de aprendizagem. O indivíduo não assimilou regras básicas de convivência social, acha que tudo é permitido. Assim, alunos indisciplinados e mal-educados atormentam professores, e estes não apresentam condições para "controlar a bagunça que se alastra na sala de aula. Outra causa apontada nos estudos que têm investigado a questão da indisciplina, é que a escola parou no tempo e não incorporou no seu cotidiano tecnologias e conteúdos a que os alunos têm tido acesso. Embora saibamos que as causas não se restringem a essa realidade, esses dados são importantes para se repensar o papel e a função da escola, especialmente, no atendimento à população de baixa renda. Fatores que Contribuem para a Violência na Escola A violência nas escolas é hoje um fenômeno real que na atualidade entrou, inexoravelmente, na agenda política da nação. Trata-se de uma questão multicausal e complexa que demanda ainda análises e estudos mais aprofundados. A miséria, o desemprego, as desigualdades sociais, a falta de oportunidades para os jovens e a presença insuficiente ou inadequada do Estado fazem aumentar e recrudescer as manifestações de violência no país. Entretanto, não se trata de um fenômeno circunscrito a fatores estruturais de ordem socioeconômica. Por isso, a violência deve ser entendida no âmbito cultural e psicossocial dos indivíduos, dos grupos e da sociedade. Considerando que muitos atos de violência ocorrem dentro do ambiente escolar, o custo para as escolas é também significativo. Ademais, a violação dos direitos humanos nas escolas tem relação direta com o aumento da evasão escolar. Neste caso, os custos/consequências podem ser ainda maiores devido, por um lado, à perda da produtividade dos alunos-vítimas da violência e, por outro, ao comprometimento da formação cidadã das vítimas. A externalização das causas da violência nas escolas é muito conveniente do ponto de vista político e institucional. Essa lógica permite retirar a responsabilidade de um sistema, ocultar sua função na produção da violência. Ora, dois fenômenos estão em crescimento constante e desempenham um papel fundamental: a segregação escolar entre e no seio dos estabelecimentos e, a distância social e cultural entre os professores e os alunos de meios populares. Por exemplo ao relacionar a violência a uma agressão física ou verbal, Guimarães apud Abramovay, no estudo de caso, em duas escolas de Campinas, encontrou que: Todos os professores relacionavam a violência a uma agressão física ou verbal, mas para maioria deles, a escola não era violenta, pois as brigas, os roubos e os xingamentos eram ‘’coisas deles’’, ‘’natural da idade’’. As causas desse ‘’problema disciplinar’’ estariam no ambiente familiar e na estrutura econômica. Todas as soluções mencionadas tinham por objetivo amenizar as manifestações de hostilidade entre os alunos para ‘’melhorar’’ o comportamento deles ou adaptá-los às normas da escola. Assim, cuidadosamente, uma escola em que admite mais situações de violência pode estar mais preparada para implementar programas preventivos, de controle e auto - avaliação sobre suas práticas do que uma escola que negue, pelo não-reconhecimento que há comportamentos violentos no seu ambiente. Pode-se, portanto, constatar que o impacto da violência nas escolas é muito mais amplo do que o raciocínio lógico sobre seus desdobramentos estruturais tangíveis e intangíveis. Embora muitas das causas da violência estejam fora da escola, o seu reflexo no meio escolar representa ameaça a um dos pilares fundamentais da formação das crianças e dos jovens, qual seja, o sistema escolar. Neste sentido,a mobilização de toda a sociedade é de suma importância para a reversão deste quadro. 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM 80 Questões 01. (CS/UFG - IFGoiano - Assistente de Alunos - 2019) A instituição escolar é o espaço de aprendizagem e de socialização, e também o espaço onde há indisciplina de parte de seus estudantes. Quando se diz que a indisciplina, como toda criação cultural, não é um conceito estático, uniforme, nem tampouco universal, entende-se que a relação entre (A) os valores e as expectativas variam ao longo da história, entre as diferentes culturas numa mesma sociedade. (B) os alunos indisciplinados e as regras escolares estão no descumprimento das normas instituídas. (C) a adolescência e a indisciplina se dão por meio das mudanças psicológicas, físicas e sociais dos alunos. (D) o inspetor de ensino e a organização da escola cumprem exigências da legislação em vigor. 02. (INES - Assistente de Alunos - AOCP) A partir de um levantamento efetuado em diferentes fontes (livros, periódicos, teses e dissertações) sobre o fenômeno da (in)disciplina escolar, ao buscar conhecer o “estado da arte” desse problema, identifica-se que o contexto da indisciplina está ligado, comumente à (A) indisciplina do aluno, indisciplina do professor, indisciplina da escola, indisciplina da família e indisciplina ligada ao descumprimento das regras. (B) indisciplina do professor. (C) indisciplina da escola. (D) indisciplina da família e indisciplina do aluno. (E) indisciplina do aluno e indisciplina ligada ao descumprimento das regras. 03. (INES - Assistente de Alunos - AOCP) Assinale a alternativa INCORRETA. Alguns estudiosos apontam como possíveis causadores de manifestações de indisciplina no contexto escolar a perda de autoridade do professor, e isso se manifesta (A) pela utilização de procedimentos metodológicos que pouco desafiam os alunos a pensar, a construir conhecimentos. (B) pelo desconhecimento de que o processo do aprender demanda a colocação do aluno no papel de ativo, mesmo quando ouve, vê, dirige atenção a alguém que fala ou nas atividades que está fazendo. (C) pela prática pedagógica do professor que deve promover desequilíbrios cognitivos no aluno, fazendo com que as iniciativas que são tomadas por esse buscando a retomada do equilíbrio se revertam em estímulo para aprender, para participar do processo. (D) tanto no que se refere ao conhecimento, quanto à postura em sala de aula. (E) pela preparação das aulas e procedimentos que utiliza em sala de aula. Gabarito 01.A / 02.A / 03.E Comentários 01. Resposta: A Os valores e as expectativas são características que são remoldadas ao longo dos períodos, onde por exemplo temos nos dias atuais que auxiliar na disciplina a respeito do uso de celulares, coisas que antigamente não era feito, pois não existia. Dessa forma, sendo sempre algo novo que pode ter valores diferentes, como diferenças entre algumas culturas ocidentais e orientais. 02. Resposta: A A indisciplina pode englobar vários fatores, sendo eles relacionados aos alunos, professores ou até mesmo no âmbito familiar. 03. Resposta: E Observando que a questão solicita a alternativa incorreta, a alternativa E é a única que não apresenta uma evidente causa de indisciplina. 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM 81 INTERPESSOAL E EQUIPE MULTIDISCIPLINAR Desenvolvimento Interpessoal54 Moscovici55 para relatar sobre relacionamento interpessoal, ressalta que desde sempre a convivência humana é difícil e desafiante, e que às vezes interferências ou reações, sejam voluntárias ou não constituem o processo de interação humana, logo o processo de interação é complexo e ocorre entre pessoas, sob a forma de comportamentos, fala verbal e não verbais, pensamentos, sentimentos e reações, ou seja, o fato de sentir a presença do outro já é interação. Assim as relações interpessoais ocorrem em decorrência do processo de interação. Em local de trabalho há atividades predeterminadas a serem executadas, logo interações e sentimentos recomendados, como: comunicação, cooperação, respeito e amizade. A partir do desenvolvimento dessas atividades e interações, os sentimentos podem ser despertados de diversas maneiras. Sendo importante destacar que o ciclo atividades-interações-sentimentos, não se relaciona diretamente com a competência técnica de cada pessoa, ou seja, profissionais competentes individualmente podem render muito pouco em relação a atividades grupais da situação de trabalho. Se as diferenças são aceitas e tratadas em aberto, a comunicação flui fácil, as pessoas falam o que pensam e sentem e tem a possibilidade de dar feedback, se não esse tipo de comunicação, se torna falha, incompleta, há distorções e fofocas. O relacionamento interpessoal pode se tornar prazeroso, permitindo o trabalho cooperativo em equipe, com integrações de esforços, conjugando as energias, conhecimentos e experiências para um produto que é a relação de qualidade das pessoas. Logo se as competências técnicas podem ser adquiridas através de cursos, seminários, leituras e experiência ou prática, a competência interpessoal necessita de treinamento. E em que consiste esta competência? Segundo Moscovic56i competência interpessoal é a habilidade de lidar eficazmente com relações interpessoais, de lidar com outras pessoas de forma adequada às necessidades de uma e ás exigências da situação... é a habilidade de lidar eficazmente de acordo com três critérios: percepção acurada da situação interpessoal de suas variáveis relevantes e respectiva inter-relação; habilidade de resolver realmente os problemas interpessoais, de tal modo que não haja regressões; solução alcançada de tal forma que as pessoas envolvidas continuem juntas tão eficientemente, pelo menos, como quando começaram a resolver seus problemas. Alguns componentes da competência interpessoal são importantes, estes são: a percepção que está relacionada ao autoconhecimento, a habilidade propriamente dita e o relacionamento em si que compreende a dimensão emocional-afetiva. Portanto a competência interpessoal é resultado da percepção realística das situações e de habilidades especificas comportamentais que conduzem a consequências significativas no relacionamento para as pessoas envolvidas. Empatia – Compreendendo a si Próprio e aos Outros Cultivar a habilidade de compreender as pessoas é uma das tarefas mais difíceis que um homem jamais poderia se propor. Mesmo fazendo o maior esforço, somente é possível compreender em parte as necessidades sentidas pelo homem; e, menos ainda, os sentimentos da vida interior. Isto porque a habilidade de compreender abrange mais do que ser capaz de perceber, entender, identificar e interpretar as comunicações ou expressões captadas pelos sentidos. Especificamente no contexto de relacionamento interpessoal, "compreender" é análogo a "empatizar", termo este que significa: - A capacidade de identificação com a disposição ou estrutura psicológica de outra pessoa; - Procurar sentir como se estivesse na situação da outra pessoa; - Tentar entender as razões e o significado da comunicação verbal e não-verbal, mais do que a maneira como esta transparece; 54 PESSOA: J. Relacionamento Interpessoal: Desenvolvimento Pessoal e Profissional. S.D. 55 MOSCOVICI, F. Desenvolvimento Interpessoal: Treinamento em grupo, 13°ed. RJ: Jose Olympio,2003. 56 Idem 2. Trabalho em equipe: níveis de interação 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM 82 - Compartilhar mutuamente desejos e ideias, mesmo que não se concorde com o comportamento exibido - Ter a habilidade de perceber e acompanhar os sentimentos de outra pessoa, mesmo que sejam intensos, profundos, destrutivos ou anormais. O real significado de empatia está em compreender os outros, apesar de não seconcordar, muitas vezes, com o comportamento destes. Procurar ser compreensivo e sentir como a outra pessoa estaria sentindo não significa que se deva ser sempre permissivo e tolerante frente a certos comportamentos agressivos e destrutivos. Compreender implica simultaneamente ser capaz de estabelecer limites, quando necessário. O ato de impor limites poderá gerar ira momentânea no outrem, mas com o tempo o fato será percebido como uma atitude de ajuda. Neste pensamento está intrínseco que o cultivo da habilidade de compreender não é obra do acaso. É a combinação ativa de qualidades e habilidades pessoais de ajustamento emocional, de amor ao próximo, de possuir senso equilibrado de autoestima e autocrítica, e de avaliar inteligentemente as necessidades das outras pessoas. Entretanto, assim como há fatores que influenciam a disposição para ser mais compreensivo, por outro lado há outros que dificultam igualmente. Um destes é o egocentrismo ou egoísmo pessoal, o excesso de preocupação consigo próprio, ou a dificuldade de discernimento do conceito de que é "certo " ou "errado" que pode bloquear as tentativas de empatizar-se com os outros. A Comunicabilidade x Trabalho em equipe = Relacionamento Pessoal Para falarmos de trabalho em equipe primeiramente, temos que definir o que vem a ser a comunicação. - Comunicação é: 1. Ação, efeito ou meio de comunicar; 2. Aviso, informação; transmissão de uma ordem ou reclamação. A comunicação é eficaz quando tanto o transmissor quanto o receptor interpretam a mensagem da mesma forma. - Para que serve a comunicação? A comunicação serve para que as pessoas se relacionem entre elas, trocando ideias, sentimentos e experiências. Estas pessoas são chamadas de interlocutores, ou seja, são as pessoas que estão se comunicando de alguma forma, logo o maior segredo da vida pessoal e profissional é saber ouvir. - Atitudes para uma boa Comunicação A escuta precisa ser ativa, atenta aos detalhes e disposta a entender o que o outro está trazendo; Saber ouvir transcende o ato de escutar. É compreender a pessoa que se expressa, é entender a mensagem que ela transmite, é assimilar o que é dito por palavras, atitudes, gestos ou silêncio. - Vamos promover a cultura do diálogo? E o que vem a ser a cultura do diálogo? É a disposição para se relacionar e compartilhar informações, conhecimento, opiniões, emoções e sentimentos em busca de melhores resultados naquilo que fazemos em nossas dimensões pessoal e profissional. - Qual o maior benefício de se promover uma cultura do diálogo? Qualidade de vida no trabalho e nas demais áreas da vida. - Qual o segredo para uma comunicação bem-sucedida? Antes de tudo, é necessário um estado de espírito favorável à interação humana. Daí em diante, a comunicação bem-sucedida será resultante da postura de saber ouvir e dar retorno ao interlocutor, ter interesse pela opinião dos outros, compartilhar informações e ideias e respeitar as diferenças, bem como promover feedback. Para que a comunicação ocorra, é preciso que haja: Emissor – Mensagem – Receptor. A boa comunicação depende da harmonia destes elementos. 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM 83 Dicas para Facilitar a Comunicação Interpessoal 1. Escolha de vocabulário: escolher palavras condizentes com o momento, evitar gírias ou palavras evasivas. 2. Facilidade de expressão: emitir as palavras de uma forma correta, demonstrando segurança naquilo que fala. 3. Compreensão: empatia, saber entender o que muitas vezes não é dito de forma explícita. 4. Cortesia: tato nas relações humanas, ou seja, não ser ofensivo, descortês. Há um ditado popular que afirma: "A primeira imagem é a que conta" e há grande verdade nisso. Se o primeiro contato for cordial, alegre, expansivo, este será a imagem que cada um fará do outro. Mas, mesmo isso sucedendo, se, no futuro, passarmos a adotar um comportamento hostil, grosseiro, mal educado, com certeza aquela imagem que havíamos construído será destruída. 5. Entusiasmo: irradiar entusiasmo natural, estimulante e contagiante. 6. Imparcialidade: evitar tomar partido, não debater com o outro, mesmo que certos comentários não sejam simpáticos a quem quer que seja. 7. Paciência: jamais apressar o seu colega de trabalho ou cortá-lo no meio de um desabafo. 8. Humildade: não ser o "dono da verdade". Por mais que soubermos e estudarmos sobre um dado assunto, qualquer que seja, se vivermos 100 anos, ainda haverá uma enormidade de aspectos que desconhecemos. 9. Atualização e Desenvolvimento: buscar sempre se manter com um bom nível de conhecimentos de sua área e outros ramos que você possa aprender. Se valorize enquanto profissional. Comportamento Intergrupal e Grupal57 Conceituando Grupo Para Bowditch e Buono58, um grupo consiste em duas ou mais pessoas que são psicologicamente conscientes umas das outras e que interagem para atingir uma meta comum. Para esse autor, os passageiros de um avião não seriam considerados um grupo, porém os participantes de uma excursão aérea seriam um grupo, pois preenchem as condições necessárias para sê-lo, tais como: consciência mútua e interação para atingir uma meta comum. Os Diferentes Tipos de Grupos... Você já tentou caracterizar o seu grupo da escola, do bate-bola no fim de semana ou da balada na sexta-feira? No nosso dia-a-dia fazemos parte de vários grupos, do grupo da família; dos amigos íntimos, dos colegas da escola e do trabalho, da igreja e de tantos outros grupos que fazem parte da nossa vida. Mas como diferenciar um grupo do outro? Quais os critérios para classificar um grupo e outro? Os estudiosos sobre comportamento em grupo definiram os grupos em categorias distintas, as quais são as seguintes: grupos primários e secundários; grupos formais e informais; grupos homogêneos e heterogêneos, grupos interativos ou nominais; grupos permanentes e temporários. Grupos Primários e Secundários Lembra do grupo da família e dos amigos mais íntimos, citados anteriormente? São classificados como grupos primários, pois estes são voltados para os relacionamentos interpessoais diretos, enquanto os grupos secundários são voltados principalmente para atividades ou metas definidas. Como exemplo dos grupos secundários, podemos pensar nos colegas da escola, com os quais nos reunimos para realizar atividades escolares. Embora os grupos primários sejam diferentes dos secundários, os primeiros podem surgir do segundo. Um exemplo disso é um grupo de escola que é um grupo secundário, tendo em vista ter metas e estar voltado para realização de atividades. Desse grupo com objetivos definidos pode surgir uma relação mais próxima entre alguns colegas de sala de aula, os quais se reúnem todas as vezes em que é solicitada alguma atividade em grupo. Ou seja, esse grupo surgiu com o objetivo de concluir um curso, mas pode naturalmente criar laços de amizade os quais irão além desse curso. Os colegas de sala podem se transformar em grandes amigos e assim continuar por toda a vida. Na verdade, é muito provável que isso tenha acontecido com você ainda na sua infância, quando você era uma criança ou já adolescente. Na escola, iniciamos com um grupo secundário e espontaneamente vamos formando grupos menores, de acordo com a afinidade e identificação e, quando menos esperamos, esses simples colegas de sala de aula passam a ser grandes amigos. 57 OLIVEIRA, A. C. F. de. Comportamento intergrupal e grupal. S.D. 58 BOWDITCH, James L., BUONO Anthony F. Elementos de comportamento organizacional. São Paulo: Pioneira, 1999. 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM 84 Grupos Formais e Informais Você, como aluno de uma determinada escola ou funcionário de uma empresa pertence a que tipo de grupo? Formal ou informal? Você escolheu as pessoas com as quais estuda na mesma sala de aula que você? Se você trabalha, pode dizercom quem gostaria de trabalhar? Sabemos que existem alguns grupos com os quais nos sentimos muito bem, transmitem-nos paz, segurança e até nos identificamos com as pessoas que o formam. Já em outros grupos ocorrem conflitos e às vezes não temos identificação com ele, nem gostamos das pessoas que compõem o grupo. Então, como definir esses grupos? Os grupos formais são aqueles que têm metas estabelecidas, voltadas para objetivos, e que são explicitamente formados como parte da organização, tais como grupos de trabalho, departamentos, equipes de projeto. E os grupos informais são aqueles que surgem com o passar do tempo, através da interação dos membros da organização. Embora esses grupos não tenham quaisquer metas formalmente definidas, eles têm metas implícitas, que são frequentemente recreativas e interpessoais. Grupos Homogêneos e Heterogêneos Você tem a mesma idade dos colegas da escola? Ou dos seus amigos mais íntimos? Tem os mesmos gostos que eles? Provavelmente você está na mesma faixa etária que os seus colegas de sala ou seus amigos, mas quanto às suas preferências em relação a eles, até podem ter gostos em comum, assim como pensamentos e desejos, mas vocês também têm suas diferenças, seja em pequenas coisas, como preferir macarrão e não arroz, como seu melhor amigo, ou tomar Coca-Cola e não guaraná. Você deve estar se perguntando: quais os critérios para ser homogêneo ou heterogêneo? É muito relativa essa classificação, pois quando falamos em homogeneidade ou heterogeneidade estamos pensando em uma característica especificamente e não na totalidade das características. Para dizer se um grupo é homogêneo, precisamos primeiro deixar claro qual a característica que está sendo observada. Um exemplo disso pode ser o seu grupo da sala de aula, pois dizemos que um grupo é homogêneo observando a faixa etária, já que todos os alunos estão na mesma faixa etária. Mas esse mesmo grupo pode ainda ser chamado de heterogêneo quanto ao gosto pelo esporte, pois o grupo é dividido: alguns alunos gostam de jogar futebol, já outros, de jogar basquete, e um grupo menor adora nadar. Grupos Interativos ou Nominais Para Bowditch e Buono, os grupos interativos são aqueles nos quais os participantes se envolvem diretamente, com algum tipo de intercâmbio entre si. E os grupos nominais são aqueles cujos membros interagem indiretamente entre si. Grupo em que há relação entre você, aluno, e o professor a distância constitui um grupo nominal, pois o contato é indireto, não existe contato presencial, a não ser através da figura do monitor das aulas e, se existir, será apenas em alguns encontros. E grupos como o do seu ambiente de trabalho, no qual os colegas têm contato frequente e constante são grupos interativos. Grupos Permanentes e Temporários Sua família é um grupo permanente ou temporário? E seus amigos de infância? E aquele grupo que se reuniu apenas para ajudar no combate à dengue no seu bairro ou escola? De acordo com Bowditch e Buono, um grupo temporário é aquele formado com uma tarefa ou problema específico em mente e cuja dispersão é algo esperado assim que o grupo concluir a tarefa. Já os grupos permanentes são aqueles de quem se espera continuidade ao longo de diversas tarefas e atividades. Então, podemos chegar à conclusão de que a sua família e seus amigos fazem parte de grupos permanentes, e o grupo de combate ao dengue constituem um grupo temporário. Atributos Básicos dos Grupos Os grupos de trabalho não são multidões desorganizadas. Eles possuem uma estrutura que modela o comportamento de seus membros e torna possível a explicação e a previsão de boa parte dos indivíduos, bem como o desempenho do grupo em si. Quais são essas variáveis estruturais? Podemos citar entre elas os papéis, as normas, o status, o tamanho do grupo e o seu grau de coesão. Para entender melhor a estrutura do grupo proposta por Robbins vamos estudar sobre cada uma das variáveis citadas por ele. Papéis O que você está fazendo agora? Estudando? Este é o seu papel no momento: você é um estudante. Mas ainda hoje você assumirá outros papéis como o de filho, irmão, neto, mãe, pai, se você já tem filhos, 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM 85 e se é casado(a), o papel de marido ou mulher. Perceba a quantidade de papéis que temos ao longo da nossa vida. Para Bowditch e Buono, a definição de papel se refere aos diferentes comportamentos que as pessoas esperam de um indivíduo ou de um grupo numa certa situação. Vamos a um estudo de caso... Bill Patterson é gerente da fábrica da Electrical Industries, um grande fabricante de equipamentos elétricos situado em Phoenix, no Estado do Arizona. Ele desempenha diversos papéis em seu trabalho: é funcionário da Eletrical Industries, membro da gerência de nível médio, engenheiro eletricista e o principal porta-voz da empresa junto à comunidade. Fora do trabalho, Bill desempenha ainda outros papéis: marido, pai, católico, membro do Rotary Clube, jogador de tênis, sócio do Thunderbird Country Club e síndico do condomínio onde mora. Muitos desses papéis são compatíveis entre si; outros geram conflitos. Por exemplo, de que maneira sua postura religiosa afeta suas decisões administrativas em assuntos como demissões, artifícios de contabilidade ou informações para os órgãos governamentais? Uma recente oferta de promoções exige que ele mude de cidade, embora sua família goste de morar em Phoenix. Como conciliar as demandas de sua carreira profissional com as demandas de seu papel como chefe de família? Normas Você segue normas? Na sua escola ou no seu trabalho você é obrigado a usar uniforme? Caso utilize, esse comportamento é decorrente de uma norma estabelecida pela organização e você, como membro dela, deverá segui-la. Para Robbins, todos os grupos estabelecem normas, ou seja, padrões aceitáveis de comportamento que são compartilhados por todos os membros do grupo. As normas norteiam o comportamento dos componentes, indicando o que deve ou não ser feito em grupo. Todas as normas são iguais quanto a sua importância? Bowditch e Buono afirma que nem todas as normas têm o mesmo peso. Existem as normas centrais, ou seja, aquelas consideradas como particularmente importantes para o grupo ou para a organização. E as normas periféricas, as quais não são tão importantes para os membros do grupo. A distinção do que é uma norma central ou periférica varia de grupo para grupo. E o desvio das normas periféricas não é punido tão severamente quanto o das normas que o grupo considera como centrais por natureza. Imaginemos que no seu trabalho o uniforme seja obrigatório e quem não vier uniformizado seja punido com a proibição da sua entrada no ambiente de trabalho. Podemos considerar como uma norma central, pois a punição foi severa, impediu o acesso à organização. Agora imagine que a norma de uma loja de computadores diz aos seus funcionários que os que chegarem atrasados mais de duas vezes no mês serão punidos, não ganharão a cesta básica do mês. Esta é uma norma mais periférica e não central. Status A posição social que é atribuída a uma pessoa ou a um grupo é o que chamamos status. O status de um gerente é diferente do status de um assistente; o status de um médico também é diferente do de um auxiliar de enfermagem. O status pode advir tanto da posição formal como das qualidades individuais. Pensando no caso dos médicos, podemos presenciar enfermeiros com mais status que médicos em uma equipe de saúde, quando é esperado que os médicos tenham mais status pela posição que ocupam na hierarquia de um hospital. O status também pode ser de um determinado grupo, como exemplo, em uma empresa, o departamento de marketing pode ter mais status que o departamento de compras, pois o primeiro participa de todas as reuniões estratégicas e de planejamento da empresa e tem poder de voz junto a diretoria. O Tamanho do Grupo Na visão de Robbins, otamanho do grupo afeta o desempenho deste, mas o efeito depende de quais variáveis dependentes você vai considerar. Na concepção do autor citado, os grupos menores são mais rápidos na realização das tarefas. Mas se a questão for resolução de problemas, o mesmo autor afirma que grupos maiores conseguem melhores resultados. Coesão O conceito de coesão nos remete à ideia do grau de desejo que os membros de um grupo têm em permanecer juntos e à força de seus compromissos para com o grupo e suas metas. Porém, como os grupos são muito diferentes, a coesão também pode ser maior ou menor em cada grupo, ou seja, a 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM 86 sintonia estabelecida entre seus componentes não é uniforme. E para isso, Robbins faz as seguintes sugestões para aumentar a coesão: 1- Reduzir o tamanho do grupo. 2- Estimular a concordância sobre os objetivos do grupo. 3- Aumentar o tempo que os membros do grupo passam juntos. 4- Aumentar o status do grupo e a dificuldade percebida para a admissão nele. 5- Estimular a competição com outros grupos. 6- Dar recompensas ao grupo, em vez de recompensar seus membros individualmente. 7- Isolar fisicamente o grupo. Mas afinal o que são os processos intergrupais?59 Sempre que houver uma interação entre dois grupos, forma-se uma interface, a qual cria um novo contexto dentro do qual os grupos precisam ser compreendidos. Thompson identifica 3 tipos de interdependência: Conjunta - Dois ou mais grupos funcionam paralelamente, executando o mesmo conjunto de tarefas, sendo coordenados por um grupo superior - Pouco probabilidade de conflito Sequencial - Um grupo depende da conclusão da tarefa para iniciar a sua - Alta probabilidade de conflito Recíproca - O trabalho de um grupo é necessário para manter a continuidade do outro, e este processo tem o efeito de feedback sobre o primeiro - Probabilidade máxima de conflito Conflito intergrupal Divergências entre os membros de dois ou mais grupos, quanto a autoridade, metas, territórios ou recursos. O conflito não é necessariamente ruim: - A falta pode indicar exclusão sistemática de certas informações - Pode levar a novas ideias - Problemas antigos podem ser resolvidos - Por a prova a capacidade, interesse e criatividade É negativo quando: - Quando as pessoas se sentem derrotadas - Se põem na defensiva - Desenvolve clima de desconfiança - Resistência passa a ser a norma e a cooperação exceção. Diversos níveis de conflito Latente - Devido a certas condições anteriores o conflito deveria ocorrer Percebido - Conclusão de que há conflito, nenhuma das partes se incomoda Sentido - Uma das partes sente e se incomoda - gera tensão e stress Manifesto - Envolve comportamentos declaradamente agressivos 59 Bowditch, J,L. & Bouno, A. F. Elementos de comportamento organizacional. São Paulo: Livraria Pioneira editora.1992. 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM 87 Desfecho - Se solucionado o conflito - leva a satisfação e harmonia - Se não solucionado - pode retornar Equipe Multidisciplinar A equipe multidisciplinar é formada por um grupo de profissionais de uma área qualquer (saúde, administração, etc.) que trabalham em conjunto a fim de chegar a um objetivo comum. Desta maneira, cada um profissional vai fazer o que estiver dentro de sua área de formação para alcançar este objetivo em comum. Liderança e Estilo de Liderança60 A liderança sempre foi objeto de interesse e estudos pelos diversos pesquisadores do comportamento humano. De Santo argumenta que as teorias sobre o assunto estiveram atreladas às teorias de administração e que ambas desenvolveram‑se paralelamente, ressaltando ainda que, apesar dos esforços para elucidar esse “fenômeno”, a liderança é um dos processos menos compreendidos, ou pelo menos, que menor concordância possui entre os conceitos criados pelos pesquisadores. Segundo Davel e Machado61 a liderança como campo teórico e empírico de pesquisa tem se desenvolvido de maneira variada, dependendo da concepção e preferências metodológicas adotadas. Para os autores, provavelmente, o aspecto mais controverso nesse campo de pesquisa se refere aos diferentes e, em parte, contraditórios fundamentos epistemológicos que recortam e embasam seus estudos. Entre os conceitos observados na literatura acerca do tema liderança, de certa forma todos destacam o líder como sendo aquele indivíduo capaz de exercer influência sobre os outros. Exercer liderança, portanto, seria ter a capacidade de tomar iniciativa em situações sociais, de planejar, de organizar e conduzir ação e de suscitar colaboração. Para Soto, o líder e sua forma de atuar vão refletir diretamente na construção da cultura organizacional, ou seja, nos valores, crenças, hábitos, normas e condutas que dão identidade, sentido e destino a uma organização para a realização de seus objetivos. Keith e Newstron, por sua vez, argumentam que estilo de liderança pode ser concebido como o padrão global das ações do líder que são percebidas por seus subordinados, representando a filosofia, as habilidades e as atitudes do dirigente em sua prática de trabalho. Já Maximiano define estilo de liderança como a forma do líder se relacionar com os integrantes de sua equipe em interações individuais e grupais. A principal teoria que explica liderança por meio de estilos de comportamento sem se preocupar com características de personalidade do líder é a que se refere a três estilos: autoritária, democrática e liberal, sendo esta a teoria mais conhecida para Chiavenato. Tendo à frente o pesquisador Kurt Lewin, estudos buscaram, a partir de 1950, identificar conjuntos de comportamentos que pudessem configurar aquilo que passou a se chamar “habilidade de liderança”. Não é importante o que o líder é, mas sim o que ele faz. Essa teoria concentrava‑se mais especificamente no modo como os líderes tomam decisões e o efeito que isso produzia nos índices de produtividade e satisfação geral dos trabalhadores. No texto realizado, a opção por adotar esta abordagem mais clássica sobre liderança, enfocando os três estilos citados acima em detrimento de outras abordagens mais atuais sobre o tema, decorre basicamente por duas razões: 1) Muitas organizações baseiam‑se nela para melhor compreensão das interações entre líder e liderados, e a influência que eles – os três estilos de liderança – exercem nas relações grupais, individuais e organizacionais; 60 GOULART JUNIOR, E.; LIPP, M. E. N. Estilo de liderança e stress: uma pesquisa em escolas estaduais de ensino fundamental, 2011. 61 DAVEL, Eduardo and, MACHADO, Hilka Vier. A dinâmica entre liderança e identificação: sobre a influência consentida nas organizações contemporâneas. Rev. adm. contemp. [online]. 2001. 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM 88 2) Entende‑se que esses três estilos caracterizam uma conduta dos dirigentes que influencia no “clima” interno das organizações e nas relações de trabalho em geral, estando mais adequados para se efetuar checagem sobre esses estilos e uma possível associação com o desenvolvimento do stress em professores. Essa opção corrobora com Guerra, quando afirma que os estudos conduzidos por Lewin e sua equipe sobre os três estilos de liderança têm grande aceitação nos meios organizacionais nos dias atuais. Principais características dos estilos Autocrático, Democrático e Liberal de Liderança Uma breve síntese dessas características apontadas por autores indica que a conduta autoritária do líder caracteriza‑se basicamente pela centralização do poder e da determinação de políticas em torno dele, sem a participação do grupo. O dirigente determina as providências a serem tomadas, distribui as tarefas entre a equipe e aponta quem deve executá-las e a sequência mais adequada. Estudos apontam que esse estilo de liderarpode produzir elevada tensão, frustração e até comportamentos agressivos entre os membros do grupo. Para muitos autores, esse estilo dificulta as relações de amizade, podendo acarretar sentimentos generalizados de insatisfação e dificilmente haverá espaços para iniciativas pessoais. Argumentam que, dentre as vantagens originadas por esse tipo de conduta do líder, destacam ‑se o favorecimento de decisões rápidas, a obtenção de resultados favoráveis de funcionários menos competentes e o oferecimento de segurança e bases estruturais para os membros do grupo de trabalho. Em relação à conduta democrática do líder, afirmam que é a antítese da liderança autocrática, ou seja, sua principal característica é a descentralização do poder, sendo as decisões tomadas coletivamente, com a participação e envolvimento do grupo de trabalho. É o grupo que define as políticas e diretrizes; ocorrem debates e discussões e as tarefas podem ganhar novas perspectivas e dimensões; esse estilo de liderar favorece a formação de grupos de amizade e de relacionamentos cordiais entre os membros da equipe. O líder atua como facilitador e apoiador das decisões tomadas no coletivo, oferecendo feedback constante ao grupo e aos seus membros, encorajando a participação e delegando responsabilidades, mas nunca perdendo de vista que é ele o responsável pelo bom andamento das atividades de trabalho e pelo sucesso em busca de objetivos e metas organizacionais. A conduta liberal (laissez‑faire) do líder, segundo os autores, caracteriza‑se principalmente pela omissão deste, pois transfere sua autoridade para os liderados, conferindo‑lhes o poder de tomar decisões. Argumentam ainda que a divisão de tarefas e os critérios para execução ficam a cargo do grupo, sem ou com a mínima participação do líder, que não avalia ou regula o curso dos acontecimentos; são os membros da equipe que treinam a si mesmos e promovem suas próprias motivações. Esse tipo de dirigente tem pouco controle sobre o grupo, deixando os participantes estabelecerem suas próprias regras e o ritmo de trabalho. Ele também não se envolve com as emoções e sentimentos do grupo, deixando‑os com pouca direção, o que pode desencadear falta de motivação para o alcance de metas e objetivos organizacionais. Quanto mais o líder delega e abdica de suas responsabilidades, mais liberal é o seu comportamento. As características sucintamente apresentadas, originadas dos diferentes estilos de comando, representam posições extremas e que dificilmente ocorrerão de forma plena no exercício do trabalho do gestor. Questões 01. (IF/PB - Administrador - IF/PB) Os _______ são criados e delineados para alcançar objetivos específicos e realizar tarefas específicas para a organização, buscando atingir seus objetivos. Esses grupos se estabelecem com base na racionalidade, lógica e eficiência, e são projetados para realizar funções específicas dentro da organização. Essa configuração está presente no organograma institucional. Analise a figura a seguir, identificando o modelo de trabalho em grupo e marque a alternativa que preenche CORRETAMENTE a afirmação. 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM 89 Figura. Configuração de trabalho em grupo numa IES. (A) grupos flexíveis. (B) grupos integradores. (C) grupos informais. (D) grupos interpessoais. (E) grupos formais. 02. (FUB - Administrador - CESPE) A respeito do processo grupal nas organizações, julgue os itens seguintes. Comitê e força-tarefa são exemplos de grupos temporários informais. ( ) Certo ( ) Errado 03. (FUB - Pedagogo - CESPE) Julgue o item que se segue, a respeito das relações humanas no trabalho e dos tipos de liderança. Devido ao fato de que o estilo de liderança depende da situação, os requisitos do exercente da liderança democrática são variáveis. ( ) Certo ( ) Errado 04. (SEDU/ES - Pedagogo - CESPE) Quanto à liderança e às relações humanas no trabalho, julgue o item a seguir. A liderança democrática contrapõe-se à liderança autoritária, sobretudo pela forma de condução compartilhada do processo decisório. ( ) Certo ( ) Errado 05. (SEDUC/AM - Merendeira - CESPE) Julgue o item a seguir, relativos a desenvolvimento interpessoal. Identifica-se relação de empatia quando, por exemplo, o merendeiro atende com mal humor os alunos. ( ) Certo ( ) Errado Gabarito 01.E / 02.Errado / 03.Errado / 04.Certo / 05.Errado Respostas 01. Resposta: E Os grupos formais são aqueles que têm metas estabelecidas, voltadas para objetivos, e que são explicitamente formados como parte da organização, tais como grupos de trabalho, departamentos, equipes de projeto. 02. Resposta: Errado Comitê e força-tarefa são exemplos de grupos temporários porém, formais. 1698595 E-book gerado especialmente para SILVIOCREI BRITO AMORIM 90 03. Resposta: Errado A liderança situacional está envolvida com o líder autocrático pois decisões necessitam ser tomadas de forma rápida, uma vez que o ambiente está em constante mudança. O líder democrático, por sua vez, é contra indicado na teoria situacional pois isto envolve uma tomada de decisão maior. O líder democrático escuta todos os seus membros para tomarem a decisão em conjunto ou ouvi-los para tomar uma decisão. 04. Resposta: Certo Em relação à conduta democrática do líder, afirmam que é a antítese da liderança autocrática, ou seja, sua principal característica é a descentralização do poder, sendo as decisões tomadas coletivamente, com a participação e envolvimento do grupo de trabalho. É o grupo que define as políticas e diretrizes; ocorrem debates e discussões e as tarefas podem ganhar novas perspectivas e dimensões; 05. Resposta: Errado Empatia significa a capacidade psicológica para sentir o que sentiria uma outra pessoa caso estivesse na mesma situação vivenciada por ela. Consiste em tentar compreender sentimentos e emoções, procurando experimentar de forma objetiva e racional o que sente outro indivíduo. LEI Nº 8.069, DE 13 DE JULHO DE 199062 Dispõe sobre o estatuto da criança e do adolescente e dá outras providências. O PRESIDENTE DA REPÚBLICA: Faço saber que o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a seguinte Lei: Título I Das Disposições Preliminares Art. 1º Esta Lei dispõe sobre a proteção integral à criança e ao adolescente. Art. 2º Considera-se criança, para os efeitos desta Lei, a pessoa até doze anos de idade incompletos, e adolescente aquela entre doze e dezoito anos de idade. Parágrafo único. Nos casos expressos em lei, aplica-se excepcionalmente este Estatuto às pessoas entre dezoito e vinte e um anos de idade. Art. 3º A criança e o adolescente gozam de todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, sem prejuízo da proteção integral de que trata esta Lei, assegurando-se lhes, por lei ou por outros meios, todas as oportunidades e facilidades, a fim de lhes facultar o desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social, em condições de liberdade e de dignidade. Parágrafo único. Os direitos enunciados nesta Lei aplicam-se a todas as crianças e adolescentes, sem discriminação de nascimento, situação familiar, idade, sexo, raça, etnia ou cor, religião ou crença, deficiência, condição pessoal de desenvolvimento e aprendizagem, condição econômica, ambiente social, região e local de moradia ou outra condição que diferencie as pessoas, as famílias ou a comunidade em que vivem. (incluído pela Lei nº 13.257, de 2016) Art. 4º É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária. Parágrafo único. A garantia de prioridade compreende: a) primazia de receber proteção e socorro