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Flávio Carneiro PASSE DE LETRA FUTEBOL & LITERATURA Para pular o Sumário, clique aqui. Aquecimento SELEFAMA ESPORTE CLUBE DIAS DE CHUVA PELADA EM BERLIM FUTEBOL & LITERATURA JANELA OU CORREDOR? O ÚLTIMO JOGO CANAL 100 COMO SE DIZ HISTÓRIAS POSSÍVEIS O LOUCO DE BUENOS AIRES OS IRMÃOS DA MINHA MÃE OS RECADOS DO NOME O CAMISA 7 O MAIOR CAMPEONATO DO MUNDO TORCEDORES ESTRELA SOLITÁRIA O NARRADOR Os PERSONAGENS O ENREDO MEU PEQUENO AMIGO CUBANO UM TIME CHAMADO CADUCA Acréscimos Créditos O Autor S Aquecimento empre quis escrever sobre futebol. Já havia escrito um conto e o roteiro de um curta-metragem, mas a oportunidade de escrever de forma mais regular sobre o tema surgiu a partir de um convite do Rogério Pereira, editor do jornal de literatura Rascunho, de Curitiba. Inicialmente, o convite era para assinar uma coluna sobre ficção brasileira atual. A partir, porém, de uma sugestão do escritor e jornalista José Castello, que também escrevia para o jornal, acabei mudando o rumo do projeto. Durante dois anos – 2007 e 2008 –, escrevi para o Rascunho a coluna “Passe de Letra”, que buscava juntar no mesmo espaço duas paixões antigas: futebol e literatura. O resultado está aqui, no livro que serve de novo abrigo às crônicas publicadas nesse período e que o leitor abre agora, dando início a mais um jogo. FC “O conhecimento da alma humana passa por um campo de futebol.” ALBERT CAMUS (filósofo, escritor e goleiro) O time de garotos mirrados comandado por Fausto e campeão goiano de Tampinhas em 1973. O autor é o oitavo, da esquerda para a direita. A Selefama Esporte Clube conteceu em Goiânia, no início dos anos 1970, num bairro da cidade chamado Fama. O nome vinha de uma instituição bastante conhecida naqueles tempos: a Fundação Abrigo ao Menor Abandonado. Eu era ainda bem pequeno para perceber a ironia que viajava clandestina na sigla da fundação. O que aqueles garotos tinham de famosos? O que neles poderia se aproximar de algo sequer parecido com fama? Eram garotos sem pai nem mãe, deixados à míngua por motivos diversos, eram moradores de rua. Não tinham nome ou sobrenome que os abrigasse, e mesmo o nome de batismo era muitas vezes esquecido, trocado por um apelido qualquer, tragado pelo turbilhão do anonimato ou adormecido sob o manto nada generoso da expressão: menor abandonado. Era na Fama que morava um certo Fausto, ex-jogador do Vila Nova, ponta- direita de chute poderosíssimo. Dizem que chegou a matar um zagueiro adversário. O cara ficou de costas na barreira, Fausto chutou com força, e a bola atingiu os rins do zagueiro, que morreu poucas horas depois de hemorragia interna. Pois esse Fausto era também, ironicamente, um quase anônimo. Pouco importava se seu nome carregava séculos de história. Não almejava o sobre-humano, não fez pacto com o diabo, não teve a glória do personagem de Goethe, eternizado para todo o sempre. Era apenas o Fausto, dono de bar e esquecido ídolo do Vila Nova. E eis que o destino quis juntar as duas ironias e fez com que Fausto tivesse uma ideia: criar um time de futebol com os meninos do bairro e arredores. Raspou as economias do bar, conseguiu aqui e ali uma ajudazinha do dono do armazém, do gerente do posto, do borracheiro da esquina, e com isso comprou as camisas amarelas, imitando as da seleção brasileira. Depois conseguiu comprar alguns metros de brim azul, com que sua mulher costurou os calções. Sobrou algum, que ele investiu na compra de três bolas de couro e alguns pares de meiões, também amarelos (nunca soube por que amarelos e não brancos, para fechar de vez com os da seleção). As chuteiras foram compradas com a ajuda de alguns pais e com o que restou do fundo do pote das doações. Na tal Fundação Abrigo ao Menor Abandonado havia um campo de futebol bem razoável para os padrões da época, com um gramado regular, traves, redes e tal. Fausto conseguiu de graça o uso do campo para treinos e jogos, com a condição de convocar para seu escrete alguns dos meninos da instituição. Ele aceitou (até porque isso já fazia mesmo parte dos seus planos) e, em breve, estava fundado o glorioso Selefama Esporte Clube. O nome, desnecessário dizer, acrescentava mais uma volta à espiral das ironias. Juntava-se aos garotos anônimos e ao ídolo esquecido uma palavra mágica: seleção. Quer dizer, aqueles garotos mirrados, alguns passando fome, que nunca tinham calçado uma chuteira na vida, aqueles sem-nome liderados por um ex-famoso eram agora nada mais nada menos do que os selecionados! Eram os eleitos, os craques da seleção da fama! Eu tinha onze anos e era o ponta-direita do Selefama. Morava num bairro vizinho, e se minha família não era exatamente pobre, rica também não era. Éramos de classe média, quem sabe tendendo a baixa, meu pai dava aulas de datilografia, e minha mãe era balconista numa loja de tecidos. Fui a um dos primeiros treinos do time e de repente me vi o dono da camisa 7, sem dúvida um dos maiores orgulhos da minha vida. Depois de alguns treinos e da papelada toda em ordem junto à Federação, entramos num campo de terra, terra vermelha, campo duro e esburacado, do Crimeia Leste, cuja torcida tinha ficado famosa pelas pedras, paus, laranjas e outras coisas inomináveis que atiravam no juiz, nos bandeirinhas e nos jogadores do time adversário. Naquele dia nos pouparam e só recebemos mesmo uns tomates podres (eu tive que mudar o esquema traçado pelo Fausto, não dava para ficar aberto na ponta, os caras da torcida deles ali pertinho de mim, convenhamos!). Era nossa estreia no campeonato estadual, categoria Tampinhas. Ninguém, claro, botava fé naquele time, ainda mais que o campeonato contava com as divisões de base dos quatro grandes da capital: Vila Nova, Goiás, Goiânia e Atlético. Pois de jogo em jogo, de surpresa em surpresa, o Selefama foi se aproximando do verdadeiro sentido de seu nome iluminado, e quem não esperava ficou boquiaberto quando chegamos à final. O jogo era contra o bicho-papão: o Goiás. E era na Serrinha, o campo deles (onde os profissionais treinavam!). Precisávamos de um empate, e eles acharam que iríamos jogar na retranca. Ledo engano. Fomos direto para o ataque, os caras se assustaram, começaram a ficar nervosos, a errar passes, a entrar de sola, e a gente só ali, tum-tum-tum, tocando bola de pé em pé, numa boa, com classe, como convinha aos seletos. Final do jogo: 0 x 0. E o Selefama Esporte Clube levantava a taça de campeão goiano de Tampinhas, no inesquecível ano de 1973. Tomamos muito guaraná Antarctica e comemos muito frango assado no bar do Fausto naquele dia. E antes de acabar a farra, o Fausto pediu silêncio e anunciou que um repórter de O Popular (o maior jornal da cidade) tinha pedido a ele para fazer uma foto do time, uma foto oficial, com troféu e tudo. Tinha pensado em fazer lá no campo mesmo, mas a gente fez tanta zona depois do jogo, e ficou todo mundo tão sujo, e depois saímos todos tão misturados até o caminhão – que tinha levado o time (já uniformizado) até o estádio, jogadores e torcedores se espremendo na boleia –, foi tanta bagunça que ele preferiu marcar um outro dia e fazer uma foto mais limpinha. Tiramos a foto. Uma foto muito estranha, hoje sei. Todo mundo de pé, uma longa muralha de moleques extremamente bem-comportados e limpos (vestimos o uniforme só para a foto), o capitão segurando a taça. A foto era estranha, mas pelo menos era nossa chance de finalmente fazer jus ao nome do time e adentrar o reino da mídia! Dias depois lá estava a foto, no caderno de esportes de O Popular (e aí nem me atrevo a cansar o leitor falando de mais essa ironia, a do nome do jornal). Estávamos quase todos na foto. Para caber no jornal, cortaram um pedaço e alguns dos valorosos atletas do Selefama Esporte Clube ficaram de fora (dois deles, os das pontas, foram cortados ao meio) e do Fausto não se viu nem a sombra. Para os que ficaram, o destino reservava ainda um toque de classe, uma bola debaixo daspernas, um lençol com que nos mandaram de uma vez por todas ao nosso lugar. E esse toque foi o seguinte: na legenda da foto, não vinha o nosso nome. A Dias de chuva lguém já deve ter escrito um livro sobre os estádios de futebol no Brasil. Caso o livro exista, dele certamente devem constar algumas palavras sobre o Estádio Olímpico Pedro Ludovico, em Goiânia. Inaugurado nos anos 1960, com capacidade para dez mil torcedores e por muitos anos ostentando o título de maior e mais moderno do centro-oeste, o Olímpico foi palco de jogos memoráveis, como, por exemplo, um Goiás e Santos, em 1973, válido pelo Campeonato Brasileiro. E o camisa 10 do Santos era ele, Édson Arantes do Nascimento, o Pelé. Era a primeira vez que um time goiano disputava o Brasileiro, e o Olímpico se transformou em palco de festas homéricas de torcedores alucinados. E havia outra novidade: a preliminar era sempre disputada por times de crianças. Ora jogavam os Tampinhas (categoria até doze anos), ora os Dente de leite (até catorze). Qualquer garoto da cidade sonhava em jogar no Olímpico. Se o simples fato de ir ao estádio ver um jogo do Goiás no Brasileiro já era um programa e tanto, imagina jogar naquele campo imenso, de grama retinha, num domingo à tarde ou numa quarta de noite, sob a luz dos refletores. Na condição de ponta-direita do Selefama Esporte Clube, eu não era uma exceção. Perdia noites sem sono imaginando um dia pisar a grama do estádio. Quando nos sagramos campeões estaduais, o sonho começou a ganhar contorno de realidade. Foi se desenhando aos poucos, o sonho, e já quase podia ver a figura pronta quando nosso técnico, Fausto, nos disse num treino que havia sim essa hipótese. Alguém da Federação falara com ele, a gente soubesse esperar. Saber esperar não é uma coisa fácil, convenhamos, ainda mais se você tem onze anos de idade. De todo modo, para não ficar pensando demais no assunto, comecei a estudar feito maluco. Devorava os livros de geografia, história, português, fazia contas que nem a professora de matemática havia pedido, quase explodia a escola com as experiências de química. Ninguém entendia nada, achavam que ou eu era ótimo aluno ou doido varrido. Até que chegou o dia em que o Fausto reuniu o time antes de um treino e anunciou que tinha uma coisa importante a dizer. Ficamos todos sentados no meio do campo, ele de pé, andando de um lado para o outro, as mãos nas costas, esperando não sei o quê. E a gente ali, roendo unha. Então chegou um cara todo bem-vestido, de terno e tal. O Fausto apresentou o sujeito, um cartola qualquer da Federação. E o cartola falou um tempão, uma conversa chata de doer, sobre esporte, educação, comunistas (eu nem sabia o que era comunista), um saco! E no final disse que gostaria de explicar o verdadeiro sentido da frase que vinha na nossa carteirinha de atleta (plastificada, com foto e tudo): CRAQUE NA BOLA, CRAQUE NA ESCOLA. Depois disso o cara da Federação falou o que devia ter falado desde o início. A diretoria do Goiás tinha pedido uma revanche – amistosa – da final do campeonato daquele ano. E o jogo seria no Olímpico. Foi uma gritaria danada, lógico, aquelas crianças aparentemente bem- comportadas, aqueles anjinhos, de repente, aprontaram uma zorra, alguém deu um bico na bola, que voou longe, e a farra foi tanta que quase ninguém ouviu quando o sujeito disse que iríamos jogar na preliminar de Goiás e Santos. Quase ninguém ouviu, mas eu ouvi. Ouvi muito bem. Aquilo significava o seguinte: você não apenas vai jogar no Olímpico como vai ver um jogo do Pelé! Era um pouco demais, sinceramente. O desenho do sonho estava pronto e ainda vinha em papel colorido! Passei a semana inteira pensando no jogo. Foi uma péssima semana na escola (o cartola complicou meus pensamentos com aquela falação toda, e minha tática de estudar para esquecer o assunto não deu certo). Quando ia dormir, contava os dias que faltavam para chegar quarta-feira (o jogo seria de noite). Seis, cinco, quatro, três. O problema começou quando, na terça-feira de tarde, os meninos da vizinhança entraram no quintal da minha casa gritando: tem chuva! Aquelas eram palavras mágicas. E traziam verdades indiscutíveis: o tempo está nublado, daqui a pouco vai cair um toró, você precisa se dirigir (descalço, obviamente) ao campinho de terra da praça de esportes. Já vivi algumas décadas e acredito que haja poucos prazeres na vida comparáveis ao de jogar bola na chuva. No campinho, o ritual era o mesmo de sempre. A garotada chegava e ficava por ali, de bobeira, jogando conversa fora. Alguns, mais afoitos, ainda batiam uma bola. Mas a pelada só começava mesmo quando caíssem os primeiros pingos de chuva. Aí era festa. Lama, caneladas, tombos (uma vez caí, bati a nuca numa pedra e desmaiei), tudo entrava como ingrediente na receita da alegria. Cheguei em casa pensando num banho quente. Não podia facilitar, no dia seguinte jogaria no Olímpico, na preliminar do jogo do Pelé. Não contava, porém, com o bilhete que vi na porta de casa. “Fui ao armazém, volto já”, estava escrito, com a letra da minha mãe. O armazém ficava a uns quinze minutos da minha casa. Eu sabia onde era e poderia ter ido lá, para pegar a chave. Acontece que a chuva apertou muito, era uma tempestade aquilo, e achei melhor esperar ali mesmo. Enquanto minha mãe não chegava, fiquei encostado na parede do alpendre, todo encharcado, tiritando de frio. Tinha visto um programa na televisão sobre um tal de pensamento positivo e achei que era uma boa praticar naquela hora. Fiquei repetindo para mim mesmo, em voz alta: não fica gripado, não fica, não fica, não fica! Continuei repetindo, cada vez mais alto, até ser interrompido por uma interminável sessão de espirros, que pareciam rir da minha cara, dizendo: nãoadianta, nãoadianta, nãoadianta!!! E não adiantou mesmo. De noite tive febre, e meu pai teve que me levar ao médico. O diagnóstico do médico não foi um diagnóstico, foi um veredicto: nada de futebol! Na quinta-feira não teve treino, mas se tivesse eu não teria ido. Nem na sexta. Só voltei aos treinos do Selefama um bom tempo depois (porque quando estava quase bom voltei a jogar bola na chuva e tive princípio de pneumonia). No dia seguinte tive notícias do que aconteceu naquela noite. Ganhamos o jogo de 1 x 0, o time entrou em campo aplaudido pela torcida do Goiás, antes da partida principal o Pelé tirou foto com o nosso time, e a foto virou pôster no bar do Fausto. Coisas assim, desimportantes. Muito tempo já se passou, claro. Parafraseando Drummond, diria hoje que aquele jogo é apenas um retrato na parede. Mas como dói. O timaço de peladeiros na Alemanha. O autor é o segundo, agachado, da esquerda para a direita. Dawid está logo atrás, de pé. P Pelada em Berlim eladeiro é igual em qualquer lugar. Sempre achei isso. Minha teoria, no entanto, carecia de alguma comprovação científica, de algo que lhe conferisse status de verdade incontestável, e a tese pudesse então, quem sabe, ser publicada em livro e servir de tema para seminários internacionais com a presença de doutores em pelada chegados dos cinco continentes. Pois tal comprovação veio em Berlim, durante a Copa do Mundo de 2006. Eu estava lá como curador (na área de literatura) do projeto Copa da Cultura, do MinC, e fui chamado para integrar um time de escritores e músicos brasileiros, capitaneado pelo Chico Buarque, que jogaria contra um combinado de jornalistas alemães. O jogo estava marcado para a Arena da Adidas, uma réplica de estádio de futebol, com arquibancada e tudo. Na parte de baixo, um campo de futebol society, de grama sintética. Cheguei ao local da peleja levando a tiracolo uma bolsa com meu material: chuteiras, caneleiras, calção, meiões. Estava tudo certo. Um belíssimo dia de sol, o calor ameno, as arquibancadas cheias. Ao tentar entrar para os vestiários, no entanto, fui barrado por um segurança alemão, me dizendo que com aquela credencial eu teria acesso apenas às arquibancadas.Abri a bolsa, mostrei a ele o material e respondi que tinha vindo para jogar no time do Brasil. Ele arregalou os olhos: você, no time do Brasil? Não no Brasil, Brasil, tive que explicar, no time do Chico Buarque. Mesmo assim não pode entrar, ele retrucou, é preciso outra credencial, com essa só na arquibancada. Pensei em retrucar que não dava para jogar futebol na arquibancada, mas receei que seu senso de humor não fosse lá essas coisas. E de nada adiantaram meus apelos, nem os da produtora que havia me convidado e até um funcionário da embaixada brasileira ali presente foi acionado. Nada demovia o alemão, absoluto, irredutível, imutável como um cartão vermelho. Quando dei por mim, os dois times já estavam em campo e o juiz apitava, dando início à partida. Resignado, fui me sentar ao lado da minha turma. Na arquibancada. E eis que um amigo berlinense, Dawid Bartelt, da anistia internacional, que havia acompanhado tudo a distância (talvez prevendo que minha batalha seria em vão), se aproximou, colocou a mão no meu ombro e disse: liga não, sábado te levo pra bater uma bola com uns amigos meus. Pelada de verdade tem que ser aos sábados. Em dia de semana é meio sem graça e no domingo não tem nada a ver. Poderia, claro, elencar aqui todos os motivos que me levaram a essa conclusão. Se os tivesse. Não tenho motivos mas sei que é assim: pelada tem que ser no sábado. Por isso gostei quando o Dawid me fez o convite. Combinamos de nos encontrar numa estação de trem, num subúrbio de Berlim, onde ele me pegaria de carro. Às 15:35, ele me disse, e fingi não estranhar tamanha exatidão. Desci do trem exatamente às 15:32, me sentei num banco de madeira e fiquei esperando. Minutos depois chega ele, caminhando calmamente pela estação, de camisa branca arrumada dentro do enorme calção preto, na altura do umbigo, meiões brancos e chuteiras. Diante do meu olhar de espanto, tentou se explicar: é meu uniforme de vôlei. E completou: quer dizer, sem as chuteiras. Ah, bom, respondi. Chegamos ao local do evento. Ele estacionou o carro num pátio. Ao descer do carro, travei a porta do carona. Foi a vez de ele se vingar, abrindo um largo sorriso: ei, não estamos no Rio não. Um a um, concluí. Caminhamos até o portão, e lá estava o gramado, um imenso campo aberto, cercado de árvores. Olhei em volta e não demorei a entender que estávamos num campo de rugby! Isso não vai dar certo, pensei comigo. Perguntei ao meu amigo onde estavam as traves de futebol, quer dizer, se é que havia traves. Claro que tem, ele respondeu, ligeiramente ofendido, já estão chegando. Não me atrevi a perguntar exatamente o que ele queria dizer com aquilo: as traves chegando? Logo depois entraram pelo portão alguns dos outros peladeiros, um dos quais trazendo uma bolsa, e dentro dela quatro pedaços de madeira, longos e finos, pintados de azul com listras verdes. Eram elas que chegavam, as traves. Um deles fincou as traves no lugar, e começaram a dividir os times. Como em toda pelada que se preze, havia um número ímpar de jogadores: nove. Decidiram, sem discussão, como se fosse uma decisão óbvia, que o time em que eu jogasse teria um jogador a menos. Ninguém sabia se eu era craque ou perna de pau, contava apenas um fato: ser brasileiro. Confesso que me senti a própria pátria de chuteiras e roguei aos céus que não fizesse nenhuma grande besteira, tentando manter a boa imagem do país no exterior. Começou o jogo, e só então me dei conta de que o alemão fincara as traves na transversal do gramado, quer dizer, o campo ficara curto no comprimento e imenso na largura. A lateral direita era marcada por uma estradinha de terra, toda torta, e a esquerda se estendia ao infinito e além. Aquilo me comoveu, confesso. Era um convite ao improviso e gostei mais ainda dos alemães (talvez porque naquele momento, sem que ninguém me dissesse nada, tenha aprendido um pouco mais sobre eles). Depois de uma hora de correria alucinante a partida estava empatada, acho que 4 a 4, quando o goleiro deles rebateu a bola, que veio parar justo à minha frente. Matei no peito e quis fazer bonito: tentei encobrir o goleiro, com estilo. Bola fora. Virei o corpo e dei de cara com meu time me olhando com cara de quem comeu chucrute estragado. Por que não chutou com força?, perguntou Dawid, desolado. E não disse, mas deve ter pensado: brasileiros, bah! A certa altura do jogo minhas pernas simplesmente se recusavam a me obedecer, enquanto os caras, quarentões que nem eu, corriam sem parar, parece que disputando a final da Copa. Para minha sorte, a pelada foi interrompida por uma senhora, que entrou no gramado querendo saber quem trancara a bicicleta junto com a dela. Resolvido o problema, recomeça a partida, justo na hora em que soam as seis badaladas do sino da igreja ao lado do campo. Viajei. Voltei à minha infância e me vi não entre aqueles simpáticos grandalhões de rosto afogueado mas entre moleques brasileiros, pés descalços, jogando bola no campinho em frente à igreja, até a hora da ave-maria. Quando a pelada já estava acabando, ainda chegou um retardatário, de óculos e todo vestido de preto. E entrou no time deles, que já tinha um a mais! No final, a glória: ganhamos o jogo. Recolhi o que sobrara de mim depois de quase duas horas de futebol e fui saindo de campo. Alguns caras do outro time se aproximaram e me cumprimentaram (eu acho), dizendo palavras das quais só distinguia uma: Ronaldo. Ainda não sei se era elogio ou ironia, mas o certo é que tudo terminou com abraços calorosos, piadas que não entendi e uma foto para registrar o momento histórico. No caminho de volta para casa, já dentro do trem, me lembrei do que me dissera um outro amigo: há duas palavras para “peladeiro” em alemão. Uma delas é A mateurkicker. Literalmente: chutador (de bola) amador. Aqueles alemães sabiam o que era isso, e me presentearam com uma bela tarde, de amadores. H Futebol & Literatura á mais afinidades entre futebol e literatura do que sonha nossa vã filosofia. E se na época de Shakespeare os ingleses já tivessem inventado o futebol, ele certamente teria sido tema de um dos sonetos do poeta. Ou quem sabe teria feito parte de alguma de suas tragédias. Ou das comédias, tudo bem. Como o futebol, a literatura também é um jogo. E como jogo, tem suas regras. Você pode transgredir uma ou outra mas não vai poder transgredir todas. O escritor inventa dentro de certos limites, a começar pelos próprios limites da língua. Guimarães Rosa burlava algumas regras da gramática oficial, mas o que ele escrevia, claro, era português. Na verdade, ele criava uma espécie de gramática própria dentro da língua portuguesa, quer dizer, inventava um jogo – com as regras que ele mesmo foi criando e o leitor aceitou. É importante isso, leitor e escritor precisam entrar num acordo sobre as regras. Quer um exemplo? Você está lendo um romance policial, buscando descobrir por sua conta quem é o assassino, e, de repente, no final do livro, o narrador revela que é Fulano, que não tinha nada a ver com a história. O assassino não pode vir assim, do nada, não pode cair de paraquedas no final do romance. Se isso acontece, o leitor vai ficar uma fera. Por quê? Porque o autor trapaceou. Leitor não perdoa trapaça de autor, pode ter certeza. E há algo que liga as regras do futebol às regras da literatura. São ambas da mesma natureza, digamos assim. São feitas para permitir a entrada do imponderável. Pense na regra do impedimento. Ela é aparentemente simples e diz, em outras palavras, o seguinte: quando a bola é lançada, o jogador que a recebe tem que ter, entre ele e a linha de fundo, pelo menos dois jogadores adversários. Depois começam as complicações. Se a bola vem de um arremesso lateral, não tem impedimento, se o jogador que recebe o passe está atrás da linha da bola, também não tem, e por aí vai. E o mais importante: o impedimento deve ser identificado exatamente na hora em que o jogador dá o passe. Em alguns casos, é humanamenteimpossível o bandeirinha ver isso. É tudo muito rápido e só mesmo o olho da câmera de televisão consegue detectar o impedimento. É uma regra feita para criar o inesperado. Tudo pode acontecer nessa hora, inclusive um gol mal anulado, que represente a perda do título do campeonato. Outra coisa: a maioria das regras do futebol depende de interpretação. É a leitura feita pelo árbitro que determina se um zagueiro atrasou intencionalmente ou não a bola para o goleiro (e aí ele não pode pegá-la com as mãos), ou se o atacante colocou a mão na bola de propósito e fez o gol da vitória, ou se aquele carrinho merecia cartão vermelho, amarelo ou só uma advertência verbal e passar bem. Resumindo, no futebol, como na literatura, tudo depende de como se lê. No futebol e na literatura as regras funcionam apenas para tornar possível a chegada do inusitado. Um bom romance é aquele que você sabe como começa, mas não sabe como vai terminar. Se já sabe, nem vale a pena ler. Um bom romance é uma caixinha de surpresas. Uma partida de futebol é a mesma coisa, com a vantagem, do futebol, de que mesmo uma partida ruim é imprevisível, ao contrário de um romance. E o tal do montinho artilheiro? Tentaram mandá-lo mais cedo para o chuveiro criando gramados perfeitos, que aparentemente evitam um quique inesperado da bola e o engano, fatal, do goleiro. Mas mesmo em campo bom não há uma ou outra falha, ainda mais se estiver chovendo? Montinho artilheiro é pura literatura. Quando algo inexplicável acontecia num jogo, Nelson Rodrigues dizia tratar-se de intervenção de uma entidade chamada Sobrenatural de Almeida. Se uma bola indefensável de repente morria nas mãos do goleiro, tinha sido por obra e arte do Sobrenatural de Almeida. Se um chute completamente torto de uma hora para outra mudava de trajetória e a bola ia se aninhar no fundo das redes, o goleador era ele, o Sobrenatural de Almeida. O montinho artilheiro não precisa de tanto. Basta estar ali no campo mesmo, sem ajuda do além. E, ainda hoje, ele continua aprontando das suas, ajudando a criar a fantasia, rindo de quem acredita ser possível abolir as artimanhas do acaso. Na Copa dos Estados Unidos, uma emissora de televisão convidou um americano para ver, pela primeira vez na vida, uma partida daquele estranho esporte. O jogo terminou 0 x 0 e esta foi a primeira surpresa do inocente espectador: como pode um jogo de noventa minutos terminar sem pontos para as duas equipes? Como pode um jogo terminar sem vencedor? Ele certamente estava acostumado com o basquete, o futebol americano, o beisebol, onde isso jamais aconteceria. E quando perguntado, afinal, o que tinha achado da partida, respondeu: parece um jogo de xadrez. Ele estava certo, com relação àquela partida. Às vezes o futebol pode ser isso mesmo, um jogo de xadrez. Às vezes não, é uma rodada de pôquer, uma partida de damas, um jogo da velha. E sendo tudo isso, é mais do que isso, justamente devido ao imponderável – venerando senhor a sobrevoar as partidas, dando apenas ao final o seu implacável veredicto. Agora, os poetas me expliquem: o que era um drible do Garrincha? Quando o mané pegava a bola e ficava estático, na frente do marcador, todo mundo sabia o que iria acontecer. Até a mãe do juiz, se estivesse no estádio, saberia. E ainda assim o drible acontecia. Exatamente como previsto. E o impressionante é que algo naquele drible soava como absolutamente inesperado, como uma grande novidade, um lance jamais visto. Como podia um drible ser tão inédito e tão familiar? E como aquele anjo torto, gauche de chuteiras, conseguia tal façanha com suas pernas tortas (as duas para o mesmo lado)? Garrincha dominava – como Bandeira, como Drummond – a arte da simplicidade. Sabia que do simples podem brotar o sonho e a alegria. Romário, um grande frasista, disse certa vez: Pelé, calado, é um poeta. A frase obviamente não tinha nada de elogiosa, era um revide à afirmação de Pelé de que Romário devia se aposentar. Como ocorre, porém, com um poema, o alcance do que se diz pode ser bem mais amplo do que imagina seu autor. Romário, sem querer, acertou na mosca. Diria que acertou noutra mosca. Pelé falava e fala, fora de campo, coisas questionáveis, mas dentro dele era um poeta. Poeta não de palavras mas de passes, dribles, gols antológicos. E caso o leitor ainda não esteja convencido de que futebol e literatura são pouco mais do que bons amigos, deixo-lhe uma pergunta final, para reflexão profunda, na solidão do travesseiro: como definir um passe de letra? S Janela ou corredor? onho a gente não escolhe. Você está andando à toa na rua, distraído, pensando na vida, e de repente acontece: um sonho vem e atropela você. Aí pronto, aquilo que entrou na sua cabeça sem pedir licença não vai sair tão cedo, nem você pedindo com jeitinho. Descobri isso na escola, quando tinha catorze anos. A professora de redação tinha pedido que escrevêssemos sobre o tema “Meu grande sonho”. Naquela época não poderia supor que se tratasse de tema tão pouco original, me cabia apenas dar conta da tarefa, sem maiores divagações. Anos mais tarde, em tempos de vacas magras e obrigado a corrigir redações para um colégio particular, me deparei com uma montanha delas cujo tema era justamente aquele da minha infância. E no meio daquelas linhas tortas surgiu uma pérola. Um garoto preencheu o espaço vazio da folha de papel com apenas uma frase: “Meu grande sonho é poder realizá-lo.” A redação era só isso, sem mais, apenas esta maravilha do nonsense, poesia em estado bruto. Naquele dia distante, porém, sentado diante do caderno, não me veio frase tão inspirada. Peguei o lápis disposto a simplesmente escrever a verdade. Até então estava claríssimo para mim qual era meu grande sonho: ser jogador profissional de futebol. Minha breve carreira (tinha começado a jogar em time com onze anos) contava já com um título de campeão estadual, categoria Tampinha, e isso, de alguma forma, servia de lastro ao sonho, impedindo que ele voasse sem destino até sumir nas nuvens, como tantos outros. Além disso, uma tia coruja que sempre assistia aos meus jogos dizia que eu tinha futuro. Obviamente, não me passava pela cabeça que aquela podia ser uma opinião bem pouco confiável, a começar pelo fato de que ela entendia tanto de futebol quanto eu de física quântica. De todo modo, o sonho permanecia ali, alimentado a pão e água mas pelo menos sem morrer de fome. Levantei o lápis e quando ia escrever a primeira letra me deu um branco. O braço permaneceu levemente levantado, a mão no ar, segurando o lápis, como se de repente eu estivesse num filme, e alguém congelasse a imagem. A professora se aproximou e perguntou o que estava acontecendo. Nada, estou pensando, respondi. Ela deu um sorriso de aprovação, como se dissesse: bom menino, pensando antes para não escrever besteira. Mas não era isso o que havia acontecido. Eu simplesmente fora transformado em estátua pela chegada de um sonho novo, que lançou de uma hora para outra seu raio paralisante sobre mim. Aquilo deve ter durado segundos mas na minha memória consta que levou séculos. Quando finalmente minha mão desceu sobre o papel, o que saiu foi: “Meu grande sonho é ser escritor.” De onde tinha vindo tamanha maluquice? Hoje penso que talvez do meu pai, um desses típicos contadores de histórias que raramente se vê por aí. Meu pai emendando um caso no outro, e todo mundo em volta ouvindo com atenção, sem desgrudar os olhos e os ouvidos da figura dele. Ou podia ser também da minha mãe, dizendo que minha letra era muito bonita e elogiando as histórias que eu escrevia. Na verdade, e ela sabia disso, o que eu fazia era chegar em casa e reescrever no caderno as histórias que a professora contava na escola. Depois meu pai, que na época era professor de datilografia, batia tudo à máquina, minha mãe costurava as folhas com agulha e linha e então criávamos a capa com recortes, colagens etc. Pode ser que fosse isso, não sei. O que sei é quenaquele dia um segundo sonho resolveu medir forças com o primeiro, e minha cabeça virou um ringue, com um socando de lá, outro de cá, e eu ali no meio, só recebendo bordoada. Até os meus dezoito anos, os dois sonhos foram obrigados a dividir espaço. Num dia em que eu jogava bem, o sonho de ser jogador ocupava a janela naquele ônibus imaginário. Se a professora de redação me dava dez com estrelinha – a estrelinha era um adesivo que ela comprava não sei onde (nunca ninguém soube) –, o sonho de ser ponta-direita num time grande era empurrado para o corredor pelo sonho de escrever um daqueles livrões enormes que eu via na sala da diretora. E houve vezes em que os dois iam tão mal das pernas que dava empate. Um empate sofrível, em que os dois perdiam. Por exemplo, no dia em que errei um gol feito, aos 44 do segundo tempo, na final de um torneio em Brasília. A bola veio cruzada da esquerda, rasteira, passou por todo mundo, o zagueiro furou, o goleiro deixou passar, e a bola sobrou limpinha na minha frente, quase na linha do gol. Era só tocar e correr pro abraço. Mas não sei o que houve, me desconcentrei e quando dei por mim a bola já tinha passado e saía pela linha de fundo. Ouvir todo mundo me xingando nem foi o pior. O pior foi escutar o massagista dizer para o técnico, no vestiário (ele pensou que eu não estava ouvindo mas estava sim, ouvi tudo debaixo do chuveiro): esse menino até que leva jeito, mas de vez em quando apaga, some no jogo, parece que está no mundo da lua. E arrematou: parece poeta. Aquilo doeu, sinceramente. O que o nosso massagista estava dizendo, em outras palavras, era o seguinte: para jogador, esse aí não serve. Mas se ele disse que eu parecia poeta, era de se esperar que nessa hora o sonho de ser escritor se achasse o cara. Poderia ter acontecido assim, claro, se logo no dia seguinte, bem cedo, eu não chegasse na escola e recebesse das mãos da diretora o resultado do meu teste vocacional. Tinham contratado uma psicóloga para fazer esse teste com a gente, era meio moda na época. A moça tinha feito várias perguntas para cada um de nós, além de ter pedido alguns desenhos: uma casa, uma árvore, uma pessoa da família, coisas assim. Li o resultado do meu teste e aquela foi uma experiência que a psicóloga, se estivesse ao meu lado na hora, chamaria de traumática. Não me lembro de tudo que havia naqueles papéis. Para ser sincero, só me lembro mesmo, com certeza, de uma frase, colocada na parte em que a psicóloga anotara o que não combinava com nossa personalidade, em termos de vocação profissional. E a frase dizia: desaconselhamos qualquer atividade ligada a redação. Isso não é exatamente o que um aspirante a escritor desejaria ouvir. Devo ter escrito algo muito horrível no meu teste, devo ter cometido erros de português gigantescos, homéricos, imperdoáveis! Nada de redação, meu filho, vai tentar outra coisa na vida, era o que ela estava querendo dizer. E nessa peleja quase interminável meus dois sonhos foram se batendo todos os dias, até que chegou o momento do apito final. Quando completei dezoito anos, ou me profissionalizava como jogador – aquela era a idade limite da categoria Juvenil, a última das categorias de base daquele tempo – ou pendurava as chuteiras. Por outro lado, precisava escolher o que iria estudar na faculdade, e onde. Se em Goiânia, onde morava, ou num centro maior. Foi então que recebi um convite do Guarani, de Campinas. Dois anos antes, em 1978, o Guarani tinha sido campeão brasileiro. O time estava em alta e resolveu investir em garotos de fora do eixo Rio-São Paulo. Era um convite para jogar no profissional! Poucos dias depois, recebi um telefonema dizendo que eu havia vencido um concurso importante, do governo do estado de Goiás. Um concurso de contos. Precisava decidir e precisava ser rápido. Venceu o sonho de ser escritor. Fiz vestibular para Letras na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Me mudei para lá no ano seguinte. Fui para a cidade grande sem conhecer ninguém, sem parentes nem amigos, apenas com a cara, a coragem e o sonho de ser escritor viajando contente na janela do ônibus. Mais de uma vez me arrependi. Poderia ter sido um jogador de futebol medíocre, poderia ter quebrado a perna e abandonado a carreira, poderia ter sido marginalizado por uma panelinha qualquer de time grande. Tudo isso poderia ter acontecido. Mas também poderia ter dado certo. A verdade é que, qualquer que tivesse sido a decisão, iria sempre ficar faltando um pedaço. Um dos sonhos viria sempre cobrar sua parte. Fazer o quê? Como diria João Saldanha, dando de ombros: vida que segue. Esporte Clube Jaó, 1980, no estádio Serra Dourada. O autor é o primeiro, agachado, da esquerda para a direita. P O último jogo ara os jovens atletas do Esporte Clube Jaó, de Goiânia, 1980 foi um ano marcante. Disputávamos o campeonato estadual, categoria Juvenil, e naquele ano a maior parte dos jogos foi realizada no moderníssimo Serra Dourada, na preliminar das partidas dos profissionais. Até então, o máximo de glória que cada um de nós havia alcançado fora ter jogado no Olímpico. Agora, o Olímpico se destinava apenas a jogos da segunda divisão, e o Serra Dourada assumia o lugar do velho estádio na fantasia da garotada. O último jogo do campeonato foi contra o todo-poderoso Goiás, na preliminar de um clássico: Goiás e Vila Nova. Não aspirávamos mais ao título. Uma vitória, no entanto, nos garantiria um honroso segundo lugar (o campeonato era por pontos corridos). Ainda guardo a foto daquele domingo. Impressionante como todo mundo do nosso time saía nas fotos com cara de bravo. Quem visse nossas fotos acharia que se tratava de gente muito séria, disposta a dar o sangue pela vitória, mal sabendo que éramos tão moleques que disputávamos torneio de golzinho na sala de aquecimento antes do jogo, para desespero do nosso preparador físico. Daquela vez não foi diferente. Apenas nosso centroavante, o Cacau, aparece sorrindo na foto, talvez antevendo as alegrias que teria nos anos seguintes, jogando pelos profissionais do Goiás, do Fluminense e do Corinthians. Ninguém nos obrigava a fazer cara de mau, mas fazíamos assim mesmo e sem combinar antes. Acho que queríamos imitar time profissional, aqueles jogadores todos compenetrados, encarando a partida como uma batalha de vida ou morte. Meu pai, que não gostava de futebol, mas mesmo assim me dava força, naquela tarde estava no estádio. Antes de começar o jogo olhei para a arquibancada, vendo aquele monte de pontinhos coloridos e tentando adivinhar qual deles seria meu pai. Pouco importava, na verdade, saber onde ele estava, o importante era não fazer feio. Além de tudo, aquele era o meu último jogo. No ano seguinte, estaria morando no Rio de Janeiro, com minhas chuteiras dormindo empoeiradas num canto qualquer do sótão da casa dos meus pais, devidamente aposentadas. Logo no início, eles marcaram um gol. Sabíamos que o jogo não seria nada fácil, mas um gol assim, antes de cinco minutos, é para deixar qualquer um à beira de um ataque de nervos. Aos poucos, porém, nosso time foi se recompondo, e o jogo começou a ficar equilibrado. No final do primeiro tempo, empatamos, numa cobrança de falta. Na volta do vestiário, saindo do túnel, levei um susto. De uma hora pra outra o estádio tinha ficado simplesmente lotado! Certamente não acontecera assim, de repente, o mais provável é que eu não tenha reparado que o público fora aumentando aos poucos. Estivera concentrado na partida, claro. Pode ter sido isso, certo, mas a impressão era a de que todo mundo tinha resolvido chegar na mesma hora, só pra assustar a gente. Agora sim, pensei, nunca vou saber onde meu pai está. O segundo tempo foi de arrepiar porque a torcida do Goiás começou a incentivar o time deles e a do Vila Nova, em represália, passou a torcer por nós. Eram nada mais nada menos que as duas maiores torcidas do estado e parecia que estavam todos ali, que nenhum torcedor tinha ficadoem casa. Poucas vezes na vida senti um frio na barriga como o daquela volta para o segundo tempo. Se fizesse besteira, não era só do meu pai que iria ter vergonha. O jogo seguiu disputado e, por volta dos 35 minutos, aconteceu. Eu jogava de ponta-direita, bem aberto, mas num lance resolvi correr pelo meio, trocando de posição com o Cacau (ensaiávamos essa jogada nos treinos). Alguém lançou a bola em profundidade, e lá fui eu. A bola estava mais para o lateral esquerdo deles, que me acompanhara de perto, e percebi que ele chegaria primeiro. Então dei uma puxada rápida no braço dele e com o bico da chuteira toquei na bola. Ele ficou pra trás, corri com a bola nos pés e fiquei cara a cara com o goleiro. Nessas horas o goleiro cresce enormemente, vira um gigante. Quando o goleiro estava já monstruoso de tão grande, chutei rasteiro, no canto. Gol. Na hora foi uma festa, claro. A parte ruim veio depois. O lugar do campo em que eu jogava ficava perto da torcida do Goiás que estava na geral (ainda existia geral naquela época). De dentro do campo dava pra ouvir tudo o que eles gritavam. O juiz não tinha visto a minha falta, mas aquele povo todo ali do lado viu e começou a me xingar de coisas impublicáveis. E um bando deles desandou a gritar para o lateral: pega ele! Pega o cara! O cara, no caso, era eu. O lateral se aproximou de mim e disse baixinho, numa voz tristíssima: não precisava disso. Olhei bem pra ele. Era franzino, tinha os olhos fundos e a pele meio amarelada. O Goiás costumava trazer uns garotos do interior pra morar na concentração do clube, no bairro da Serrinha. Os meninos comiam lá, recebiam tratamento dentário, tinham médico etc. Quando estavam na idade de assinar contrato, subiam para o profissional ou eram vendidos para outro time. Alguns se davam bem, mas a maioria acabava voltando para a cidade de onde viera, com uma mão na frente e outra atrás. Eu tinha ouvido dizer que o lugar era meio precário, e a alimentação não era grandes coisas. Você mora na Serrinha?, perguntei. O lateral fez que sim. Quando percebi, o jogo estava pegando fogo, e nós dois conversando na ponta do campo. A galera da geral continuava gritando, pedindo a minha cabeça, e o lateral na minha sombra. Percebi logo que ele estava com medo. O coitado precisava tomar uma atitude, a torcida exigia uma reação, um companheiro de time fez um gesto pra ele me descer a botina, mas havia o problema de eu ser mais forte do que ele, não precisava comer a comida da Serrinha, almoçava na minha casa mesmo. E agora, o que que eu faço?, ele me perguntou, apontando com os olhos os torcedores da geral. Aquela pergunta me pegou em cheio. Tudo estava acontecendo por minha causa, afinal de contas. Mas tinha aprendido que em futebol não tem disso não, futebol é pra homem – não vê os profissionais nas fotos, tudo com cara de quem come pimenta de sobremesa? –, se fiz a falta, melhor ainda, valeu a malandragem, e lateral existe é pra isso mesmo, não é não? Enquanto esses pensamentos todos rondavam minha cabeça, ele me perguntou, à queima-roupa: você deixa eu te dar uma porrada? Olhei pra ele e vi que não estava brincando, o rosto estava sério. Mas de repente ele sorriu. Era um meio sorriso, de canto de lábios, parecia que estava pedindo a um amigo pra dar uma volta na sua bicicleta. Definitivamente, aquele lateral não combinava com nenhum que eu conhecera até então. Tudo bem, respondi. E completei: mas só finge, não bate de verdade não. Ele concordou. Logo depois alguém tocou a bola pra mim. Eu fiz que tentava um drible e trombei com o lateral, ele esticou a perna como se fosse me derrubar e dei um salto espetacular, caindo no chão com a mão no joelho e gritando de dor. Os caras da geral foram ao delírio. E dá-lhe palavrão nos meus ouvidos. Um deles me atirou uma laranja que passou raspando. Logo chegou a maca. Nem contava com aquilo, com a realização daquele desejo antigo: sair de campo de maca. Enquanto me levavam, eu realmente me sentia um profissional, se até sair de campo na maca eu saía! Voltei para o jogo e minutos depois o juiz apitou o final. Dois a um para a gente. Na geral, ninguém entendeu o abraço que o lateral veio me dar depois da partida, como se fôssemos velhos amigos. Mais tarde meu pai foi se encontrar comigo no vestiário, todo feliz. Chegou até a me chamar de artilheiro. Meu pai nunca soube da verdadeira história, do que realmente aconteceu dentro de campo naquele dia. Quer dizer, agora sabe. Q Canal 100 uem gosta de futebol e já era grandinho nos anos 1980 há de se lembrar do Canal 100. Quando as luzes da sala de cinema se apagavam, a tela se enchia de bolas coloridas de variados tamanhos, explodindo como se fossem fogos de artifício, e se ouvia em alto e bom som a musiquinha inesquecível: pananan nanammm... Nesse momento abriam-se, de par em par, as janelas do sonho. E por elas atravessávamos de corpo e alma, entregues à grandiosidade das imagens, à magia da câmera lenta, ao encanto de uma voz potente e familiar que narrava cada lance da partida como se fosse uma decisão de Copa do Mundo. Criado no final da década de 1950 por Carlos Niemeyer, o Canal 100 surgia como um telejornal provocador. Não era como os pequenos números da televisão: 2, 3, 5, 6, 7. Era o Canal 100 ora essa, faça-me o favor! Exibido antes das sessões de cinema, e renovado a cada semana, o telejornal abordava assuntos do momento, mas seu forte mesmo eram as matérias sobre futebol. Às vezes, o filme em si era fraquinho, e saíamos do cinema com aquela sensação de tempo perdido. Quer dizer, quase perdido. Por pior que fosse o filme, tínhamos assistido antes ao Canal 100 e isso já fazia valer o ingresso. Em artigo para o site Cinemascópio, Kleber Mendonça Filho lembra bem o que era aquilo: “O futebol do Canal 100 tinha releituras de jogadas impossíveis de serem vistas das arquibancadas ou na televisão, um futebol em 35 mm, gingado nos seus mínimos detalhes. Mulheres na plateia geralmente amavam as imagens ampliadas de coxas musculosas dos atletas, os jogadores escarravam elegantemente ansiosos em câmera lenta, a tensão de uma barreira de homens preocupados com um chute potente, a bola rodopiando doida em direção à rede.” Era isso. E era mais do que isso. Quando assistia às sessões do telejornal, ficava em mim a vaga intuição de que aquilo não era apenas efeito da arte de um grupo de cinegrafistas de primeira linha, com destaque para Francisco Torturra. Havia algo mais, que não se podia explicar pela técnica do cinema. Quem sabe fosse alguma coisa no campo da intuição, do espírito, talvez uma fagulha divina que se insinuava em algum lugar indecidível entre a câmera, a arquibancada, o gramado e, se metendo em meio aos torcedores, jogadores, juiz, bandeirinhas, gandulas, repórteres, encontrava o espaço exato para o indizível, para o que não se pode pegar com a mão. Minha intuição ganhou força quando um cinema do Rio, o Estação Botafogo, resolveu apresentar sessões mais longas do telejornal. Não seriam sessões que antecedessem as de um filme qualquer, nada disso, o Canal 100 deixaria de ser o jogo preliminar e passaria a ser ele mesmo o grande clássico. Seriam sessões editadas, reunindo séries de apresentações de modo a compor cada uma mais ou menos o tempo de duração de um longa-metragem. Não me lembro bem de quando se deu o festival do Estação, mas me lembro do que pensei quando soube da notícia: não vai dar certo. O Canal 100 funcionava justamente porque era curto e porque antecedia o longa-metragem. Colocado assim, no meio do palco, sob a luz dos holofotes, o coitado corria o risco de dar vexame, de gaguejar na frente da plateia, de esquecer a fala e ser vaiado ostensivamente por espectadores raivosos. Confesso, fiquei com pena do Canal 100. Nutria por ele um carinho fraternal e me doeu o coração saber que estaria exposto ao ridículo. Claro que não poderia me furtar ao compromisso de assistir. Afinal, era quase um irmão que estava lá,na berlinda. Escolhi uma sessão que apresentava um histórico dos clássicos entre Flamengo e Botafogo. Botafoguense de carteirinha, achei que não deveria ir sozinho. Seria fundamental convidar um flamenguista, já que o programa, se tinha a ver com futebol, exigia uma cerveja depois, acompanhada de apaixonado embate. Convidei meu amigo Miguel Falbo, músico de primeira e jogador de segunda, que apesar de tudo se dizia grande entendedor do esporte bretão. Quando entramos na sala de cinema, o que vi foi absolutamente insólito. Todos os lugares praticamente tomados (tivemos que ficar espremidos num cantinho lá na frente) por alucinados torcedores, alguns portando enormes bandeiras, a maioria com latas de cerveja ou refrigerante nas mãos. Ao meu lado, um senhor estava sentado sobre uma almofada rubro-negra que trouxera de casa e tinha um radinho de pilha colado no ouvido. A almofada até dava para entender, fora um capricho, mas radinho de pilha?! Como diria o velho Simão Bacamarte, saído da pena genial de Machado de Assis: “insânia, insânia, e só insânia”. Eram na maioria homens os espectadores, mas havia mulheres também. E muitos usando as camisas dos times (não entendi a presença de um moço branco, magro, pálido, com a camisa do Vasco – talvez tivesse errado de sessão ou talvez fosse um poeta romântico em busca de emoções fortes). Boa parte da plateia fumava desbragadamente, o que tornava ainda mais nebuloso o cenário, de onde surgiriam dali a pouco as tão esperadas imagens na tela. Aquilo não era uma sala de cinema, era uma mistura de bar e Maracanã em dia de decisão. Começa a sessão. Bolinhas coloridas pipocando na tela, música: pananan nanammm... Delírio da galera, bandeiras desfraldadas, uivos. Insânia, insânia, e só insânia. Diante de tudo isso, desse clima de paixão prestes a explodir, não era de se estranhar que, a cada cena passada na tela, os torcedores reagissem como se estivessem assistindo ao jogo ao vivo! Quando Paulo César Caju deu um toque de classe, a turba alvinegra gritou em coro: PC! PC! PC! Quando Zico bateu uma falta que passou arrancando tinta do travessão, foi a vez de os flamenguistas soltarem um urro vindo do fundo d’alma: uhhh!!! Um gol do Gérson quase fez o cinema vir abaixo. Um gol, aliás, vindo de que lado fosse, era seguido de verdadeira apoteose. Todos sabiam de cor e salteado o resultado dos jogos. Para os que não se lembrassem, um cartaz na porta do cinema ainda ajudava, anunciando os jogos (com placar e tudo) que seriam exibidos naquele horário. A maioria já havia assistido aos lances – boa parte mais de uma vez até –, e, no entanto, todos torciam como se fora a primeira vez. Na condição de quem estava ali para analisar o fenômeno e quem sabe utilizá-lo como matéria-prima para um conto futuro, resistia o quanto podia ao frenesi coletivo. Mas quando olhei pro lado e ouvi o Miguel mandando o Mozer (do Flamengo) ir tomar naquele lugar, percebi que o caso estava perdido. Não havia volta. Aquelas pessoas reunidas na sala de cinema eram a nata da nata do manicômio, e o grande louco, na verdade, era eu. Eu era o próprio Bacamarte, era o estrangeiro, o estranho no ninho e só havia um jeito de salvar minha alma. E este jeito tomou forma quando surgiu a ocasião: um zagueiro do Flamengo deu um carrinho por trás, uma entrada criminosa no centroavante do Botafogo, e o juiz nem falta marcou. Então me levantei, convicto, e do alto da minha doida sanidade gritei a plenos pulmões: ladrão! Pronto, estava decretada enfim minha entrada no país do delírio. Um garoto passou vendendo cerveja numa caixa de isopor e isso, claro, me pareceu perfeitamente normal, cheguei a perguntar onde é que ele estava que não havia chegado antes. Comprei duas latinhas, dei uma para o meu amigo. Quando houve um pequeno intervalo na projeção, brindamos como se nossas latinhas fossem grandes canecas de vinho tinto nas mãos de valorosos guerreiros vikings. E enquanto bebíamos olhávamos desconfiados um para o outro, na breve trégua que antecedia o segundo tempo. N Como se diz ão sei se você já parou para pensar num tema profundíssimo, que mereceria, sem dúvida, páginas e páginas de estudo por parte de sábios pesquisadores país afora: as palavras e expressões utilizadas no futebol. Há dentre elas uma em especial, que me encantou desde a primeira vez que a ouvi: ao apagar das luzes. Fulano fez um gol ao apagar das luzes. O atacante que aos 44 minutos do segundo tempo faz o gol da vitória não é apenas o herói do seu time. Tampouco o estádio é um mero espaço para o delírio coletivo numa noite qualquer. Nada disso. O estádio agora é um teatro monumental, o artilheiro é um tenor e seu gol é nada mais nada menos do que um último dó de peito antes que as cortinas se fechem e novamente se abram para que o artista, comovido, receba os aplausos extasiados da plateia, ao apagar das luzes. E se o gol foi bonito será chamado de gol de placa. Ou quem sabe gol antológico. Se foi difícil, dirão que foi um gol impossível. E se foi muito, mas muito difícil, algo que acontece de mil em mil anos, dirão os entendedores: aquele foi um gol espírita. Se, no entanto, bastou ao atacante tocar a bola para o gol vazio, haverá algum invejoso dizendo: esse até minha sogra fazia. Há também expressões exatas como um teorema. Nelson Rodrigues era mestre no assunto. Se um torcedor, por exemplo, se sentia indignado com algum erro do árbitro, Nelson não dizia que o sujeito estava danado da vida ou arrancando os cabelos ou carregado de fúria. Não, estas seriam palavras usadas pelos reles mortais. Nelson dizia: o pobre coitado subiu pelas paredes como lagartixa profissional. Dizem também que é dele uma outra preciosidade. É um monumento à exatidão o modo como foi definido aquele tipo de jogador franzino que corre pelo campo todo, corre sem parar durante noventa minutos, corre às vezes mais do que a bola (nesses momentos a bola até parece um detalhe). Eis a definição: coelhinho de desenho animado. As palavras e expressões ligadas à bola de futebol mereceriam um capítulo à parte. Você que se considera uma sumidade no assunto responda: quantos sinônimos para bola conhece? No seu clássico Dicionário de futebol, Haroldo Maranhão apresenta trinta e oito. A bola pode ser tratada de forma carinhosa, quase infantil: gorduchinha, boneca, criança, menina, bichinha, neném. Ou de modo passional: infiel, caprichosa, enganosa, demônia. Pode ser definida por sua forma ou matéria: redonda, esfera, pneu, número cinco, caroço, castanha, pelota. Ou por sua natureza feminina: nega, maricota, leonor, maria, ela, guiomar, margarida, moça. Isso, digamos, no seu estado de inércia. Em movimento, durante uma partida de futebol, ela assume outras identidades. Se é o craque que a ela se dirige, a bola é chamada de você, de meu bem. Se, no entanto, quem busca o diálogo não tem com ela a mínima intimidade, se é um perna de pau que não deixa dúvidas, a bola é no mínimo Vossa Excelência. E se um de seus vários nomes é “perseguida”, às vezes a história se inverte, e a bola passa a ser a perseguidora. É então que se diz que Fulano está apanhando da bola. É preciso, nesses casos, que alguém com mais habilidade trate de arredondar a bola, o que parece absurdo mas não é, se você imaginar que alguns jogam uma bola bem quadradinha. Há situações em que a bola assume nomes absolutamente delirantes para quem não sabe do que se trata, ou até para quem sabe e para um pouco para pensar no que está dizendo. Senão vejamos: bola com açúcar, bola no fogo, bola corrida, espirrada, limpa, pingada, trabalhada, venenosa (esta então você deve evitar sempre que quiser comer a bola). Agora imagine que você está em campo, em pleno jogo, e vai bater uma falta na entrada da grande área do time adversário. Um companheiro de time se aproxima, coloca a mão no seu ombro e sussurra no seu ouvido: chuta na orelha dela. Se você está lá nessa hora e se lhe deixaram bater a falta, é porque entendeo que o outro disse e portanto não vai dar o vexame de perguntar: na orelha de quem? Se, ao bater a falta, ela tocar na trave, alguém de fora poderá dizer, levando as mãos à cabeça: caramba, essa beijou o poste! Se a bola que você chutou tiver passado bem perto do gol antes de sair pela linha de fundo, é bem provável que se ouça: rapaz, essa tirou tinta da trave! E apesar de tudo isso ao final do jogo as traves estarão lá, intactas, sem falha de tinta ou marca de beijo. Agora, se você fez o gol e deu a vitória ao seu time, é quase certo que vai rolar um bicho. Se você jogasse nos tempos de antigamente, quando os cartolas da época tiveram essa ideia (inspirados no jogo do bicho), o dono do seu time poderia lhe dar, pelo gol e pela vitória, um cachorro (5 mil-réis), um coelho (10 mil-réis), um galo (50 mil-réis) ou quem sabe até uma vaca (100 mil-réis), se o jogo fosse decisão de campeonato. Numa crônica publicada no Jornal do Brasil em 1995, Sérgio Noronha conta que Pelé dormia antes dos jogos. Dormia na concentração, no vestiário, no ônibus, onde fosse. E se algum jogador do time fizesse barulho, havia sempre outro a dar a bronca: não acorda o bicho. O bicho, no caso, não era exatamente o Pelé, mas a grana que ele significava com seus gols. Se o goleiro sobe bonito e faz uma defesa sensacional, você pode ouvir o narrador do jogo, na televisão, dizer que o goleirão foi buscar a bola no segundo andar. Se o zagueiro brutamontes dá uma entrada violenta no centroavante, alguém vai dizer que o cara abriu a caixa de ferramentas. Se a bola entra na grande área, diz-se que ela está na zona do agrião (esta, confesso que nunca entendi). E se você nunca ouviu falar dessas expressões, não se preocupe. Isso não é nem de longe motivo para você se achar um bola murcha. São expressões cunhadas em épocas diversas, algumas ainda valem até hoje, outras ficaram paradas no tempo. Há em todas algo da necessidade que o apaixonado tem de dar nome às coisas que giram em torno da sua paixão. De certa forma, dar um nome é uma tentativa de entender, de desenhar o contorno do invisível, do intocável. E antes que a crônica descambe para a filosofia, embolando o meio de campo, é bom parar por aqui, ao apagar as luzes. O Histórias possíveis grande nome da final da Copa do Mundo de 1950 não foi Ghiggia, autor do gol que deu a vitória (2x1) ao time uruguaio, contra o Brasil, para desespero de um Maracanã com quase 200 mil torcedores e motivo de luto oficial no país. O nome do jogo foi o capitão do Uruguai, Obdulio Varela, que, segundo comentário de Nelson Rodrigues, nos tratou a chutes e pontapés. Com sua força, seus gritos, Obdulio comandou os uruguaios numa batalha heroica, cujo desfecho nem o mais pessimista dos brasileiros poderia esperar. Pois dizem que depois do jogo, enquanto a equipe uruguaia comemorava a conquista num hotel no Flamengo, Obdulio saiu solitário pela cidade. No dia seguinte, numa entrevista concedida a um jornal de seu país, ele diria que naquela noite, caminhando por um Rio de Janeiro absolutamente vazio, o capitão se deu conta da tragédia que havia ajudado, e muito, a consumar. Fico imaginando o que Obdulio teria visto pela cidade, o que chegou a pensar, o que sentiu quando viu caída na calçada a primeira página de um jornal qualquer, com a foto do escrete brasileiro e a frase: Campeão do Mundo. Frase e foto que, publicadas na manhã daquele mesmo dia, anteviam uma festa que só se realizou para os visitantes. Em parceria com Adolfo Lachtermarcher, escrevi o roteiro de um curta- metragem, A noite do capitão, resgatando o episódio. A história é contada sob a ótica de um jovem repórter que sai pela noite seguindo Obdulio, em busca de uma foto para a matéria do dia seguinte. O que escrevemos foi apenas uma versão ficcionalizada, possível talvez. Há, no entanto, dentro da história daquela decisão, várias outras histórias. Desse jogo resultou o livro de Paulo Perdigão, Anatomia de uma derrota, que reproduz cada minuto da peleja, numa preciosa pesquisa sobre as narrações da partida veiculadas nas emissoras de rádio naquele domingo. Ao final do livro, Perdigão publica um conto em que um homem – que assistiu ao jogo quando criança e nunca conseguiu se livrar do trauma – usa uma máquina do tempo e volta ao dia fatídico, tentando avisar o goleiro do Brasil, Barbosa, do lugar em que Ghiggia iria chutar a bola. O conto, por sua vez, ganhou nova versão no cinema, num curta de Jorge Furtado e Ana Luiza Azevedo, com o título de Barbosa. E há também uma história não escrita, pelo menos não sob a forma de ficção. É aquela contada pelo próprio Barbosa. Ele disse certa vez que naquela noite, ao voltar para casa, se deparou no meio da rua com uma mesa posta, um verdadeiro banquete sendo devidamente devorado por cachorros. Alguém havia preparado a ceia contando como certíssima a vitória brasileira, e a derrota havia sido tão frustrante que o camarada nem teve ânimo para retirar dali toda aquela comida. O que Barbosa teria pensado ao ver a cena? Ele, que durante anos carregaria o peso da culpa pela derrota, depois de falhar no gol de Ghiggia, o que teria sentido ao ver os vira-latas devorando os pratos que lá estavam para alimentar o corpo e a alma de torcedores famintos depois de uma acachapante goleada no fraco time do Uruguai, que chegara àquela final nem se sabe como? O mundo do futebol está repleto de histórias possíveis, esperando quem sabe a vez de serem contadas. Que belo conto não poderia sair das mãos habilidosas que se dispusessem a passar para o papel alguma história girando em torno do milésimo gol de Pelé. E nem falo do jogo contra o Vasco no Maracanã, em que Pelé, batendo pênalti, conseguiu a marca histórica. Falo do que o rei pode ter sentido quando soube que, na verdade, aquele era o gol de número 999. Por um erro de cálculo, o milésimo gol só seria marcado mesmo na partida seguinte, contra o limitado Botafogo da Paraíba, em João Pessoa, num jogo que nem de longe teve o glamour daquele clássico no Maracanã, cercado de pompa e circunstância, como era de se esperar. E o que terá sentido o goleiro quando soube que, apesar de tudo, acabou não passando para a história, cabendo a honra ao arqueiro do Vasco, Andrada? Pensando bem, que narrativa beirando o absurdo não poderia sair do episódio ocorrido no jogo de estreia do Brasil na Copa de 1978, contra o time sueco? Um escanteio a favor do Brasil foi cobrado aos 45 minutos do segundo tempo, e Zico completou para as redes. Pois o juiz Clive Thomas, nascido no País de Gales, simplesmente anulou o gol, dizendo que encerrara o jogo enquanto a bola girava da batida do escanteio até o meio da área. Em função disso, o jogo não terminou com a vitória brasileira, mas com um suado 1x1. O que teria passado na cabeça daquele cidadão soprador de apito numa hora dessas? Que delírio o teria levado a cometer tamanha insanidade? Se era para acabar o jogo, por que permitiu que o escanteio fosse cobrado? E Zico, o que poderia ter dito? Xingou o juiz em um português que o outro jamais entenderia? Ficou em estado de choque, pasmo diante do que acabara de acontecer? Riu de nervoso? O que dizer, então, das mil e uma histórias envolvendo Garrincha? Dizem que num treino do Botafogo, em General Severiano, o técnico certa vez colocou uma cadeira na lateral do gramado e pediu aos atacantes que carregassem a bola, passassem pela cadeira como se fora um adversário, corressem com a bola nos pés até a linha de fundo e cruzassem para a área. Na vez de Garrincha fazer o exercício, em vez de contornar a cadeira, como os outros vinham fazendo, meteu a bola entre as pernas da distinta. Claro, era o que ele faria se a cadeira fosse um lateral esquerdo. Perfeitamente aceitável, ora essa. E no jogo semifinal da Copa de 1962, no Chile, quando o lateral chileno Eladio Rojas, depois de provocá-lo o tempo todo, deu-lhe uma bela cusparada em pleno rosto, seguido de um tapa na cara que se ouviuaté em território brasileiro? Garrincha revidou. Revidou com um modesto chute na bunda do chileno. Foi expulso. A biografia de Mané já foi escrita, mas suas histórias ainda não se esgotaram. O que o levou a criar aquele seu drible inconfundível, que deixava humilhados mesmo os marcadores mais ferrenhos e talentosos? Dizem que no seu primeiro treino no Botafogo quem o marcou foi ninguém menos do que Nilton Santos. Mané não se intimidou com a fama do craque e deu-lhe logo uma série de dribles. O lateral, então, imediatamente chamou o técnico e pediu que passasse Garrincha para o time titular. Não vou ficar aqui fazendo papel de palhaço, teria dito Nilton Santos. Numa crônica intitulada Cartão de visita, o saudoso João Saldanha diz que houve um tempo em que os profissionais de futebol adoravam apresentar cartões de visita. Curiosamente, eram todos escritos em letras azuis (sabe-se lá por quê). Um ex-técnico do Vasco, Telémaco Frazão de Lima, bem pouco modesto, pediu para imprimirem no seu: “professor de futebol”. Havia um outro, que Saldanha preferiu não identificar, que entrara de sócio numa firma comercial. No seu cartão vinha: “Fulano de Tal – sócio”. Apenas isso: sócio, não se sabia de quem ou de que empresa. O melhor deles era do Noronha, atacante do Canto do Rio. Logo abaixo do seu nome, lia-se: “impetuoso ponta- esquerda”. Fico imaginando que histórias poderiam sair daí, desse tema. Como seria, por exemplo, um cartão de visita do Rivelino? Talvez viesse assim: “inventor do famoso drible elástico”. E o cartão do Dadá Maravilha? “Dadá – além do helicóptero e do beija-flor, o único que para no ar”. Nos cartões do time do Íbis, poderia estar escrito: “o pior do mundo, com muito orgulho, com muito amor”. E no cartão de uma conhecida bandeirinha – que roubou feio o Botafogo em pleno Maracanã lotado na semifinal da Copa do Brasil de 2007, contra o Figueirense, e depois virou capa da Playboy –, o que viria? Bom, esse é melhor deixar pra lá. O pênalti que o italiano Roberto Baggio perdeu na final da Copa dos Estados Unidos, em 1994, contra o Brasil, num erro que nos deu o título. A cena mostrada pela TV: no vestiário, antes do jogo, Romário olha para a saída do túnel, com aparência tranquila, serena, enquanto Baggio olha fixamente para ele. O choro de Cerezo depois da falha contra a mesma Itália, em 1982, que resultou num dos gols de Paolo Rossi e nos eliminou da Copa, justo quando tínhamos uma das melhores seleções brasileiras, sob o comando do mestre Telê Santana. São, todas essas, sementes de histórias, adormecidas em algum canto por aí. Algum dia talvez venham a fazer parte também do baú imaginário que guarda já tantos casos engraçados, líricos, trágicos, com que se tece a magia do futebol. Magia que se estende para além de qualquer gramado e, vez ou outra, adquire forma de papel e tinta. V O louco de Buenos Aires isitar estádio de futebol é uma boa forma de se conhecer uma cidade. Uma visita ao Maracanã ou ao estádio da Vila Belmiro ajuda a vislumbrar as almas de cidades como o Rio de Janeiro e Santos, por exemplo. O melhor é ir em dia de jogo. Pode ser um clássico, com casa lotada, mas também um jogo de gatos pingados muitas vezes vale a pena. No primeiro você pode participar da emoção da partida, sentir a vibração das arquibancadas (em alguns estádios, a arquibancada vibra literalmente), observar um pouco do comportamento passional do torcedor. Mas assistir a um jogo no estádio quase vazio também pode ser uma rica experiência, se pensarmos que nesse caso você tem condições de sentir mais de perto a solidão acompanhada do torcedor sentado com seu radinho no ouvido, ou se ater a detalhes que se diluem em dias de grande público. E até em dias em que não há jogo você pode aproveitar a visita, vendo o estádio sem torcedores, o gramado sem ninguém a pisá-lo, nenhuma bola rolando, e naquele silêncio imaginar o que já se passou ali – as glórias, os lances grotescos e as angústias, o que teria acontecido no grande palco, agora em repouso. Em dezembro de 2007 estive em Buenos Aires para um encontro de escritores. Quando um poeta argentino me perguntou o que mais gostaria de conhecer na cidade não falei dos cafés, dos restaurantes, das inúmeras livrarias. Respondi convicto: La Bombonera. Não poderia sair de Buenos Aires sem conhecer o estádio do Boca Juniors, o time mais popular da Argentina, seguido pelo River Plate. Já sabia, de ter lido em algum lugar, que o nome do estádio se deve à sua forma de caixa, com as arquibancadas formando quatro longas paredes, ao contrário da maioria dos estádios, em que elas se espraiam na diagonal. É como uma caixa de bombons. Precisava ver isso de perto. Do hotel até o estádio, no bairro La Boca, levei noventa minutos de caminhada. Exatamente o tempo de uma partida de futebol. Aquilo podia não significar nada, mas vai você querer entender como funciona de fato o mundo dos signos? Então anotei sucintamente, no meu diário de bordo imaginário: valeu. Antes de entrar no estádio, caminhei um pouco ao seu redor. Dei uma volta completa, vendo a parte externa dos muros, pintados de amarelo e azul, e pensei que estádios pequenos como aquele são os que têm mais histórias para contar, justamente porque foram construídos antes da era dos estádios gigantes e moderníssimos. Não era dia de jogo e por isso podia caminhar com calma pelos arredores. Quando vi, estava me afastando de La Bombonera e me entranhando pelas ruas pequenas e tortuosas do velho bairro de operários, situado – daí seu nome – na boca do rio Riachuelo, e que até o final do século XIX era a entrada obrigatória da cidade. Desde logo ficou claro o que já era de se esperar: bairro, estádio e time formam uma única coisa, numa comunhão que se mostra ao visitante nas lojas, nas cantinas, nas crianças trajando mil variações da camisa oficial do Boca. Consta que, em 1905, alguns imigrantes italianos resolveram criar um time de futebol. Deram a ele o nome do bairro e acrescentaram um “Juniors” para conferir à equipe um ar britânico, numa tentativa de amenizar a condição de lugar pobre e com traços latinos numa Buenos Aires de feições europeias. Não conseguiram. O bairro continua pobre, meio atípico, e essa autenticidade talvez seja sua maior riqueza. Caminhei para o estádio. Logo na entrada, o sofisticado museu nos mostra um cartão de visita: somos de primeiro mundo. O cuidado com o registro da história do time se junta a uma grande maquete do bairro, simulando o traçado das ruas, a arquitetura, o interior das casas. Telões espalhados pelo caminho mostram uma infinidade de gols, comemorações, jogadas antológicas, que se mesclam a momentos importantes da história política do país, retirados de telejornais e documentários. Tudo no museu aponta para a profunda relação entre futebol, bairro, cidade e país. Ao entrar no estádio, porém, o cartão de visita é outro: precisamos de reforma. Os corredores, as arquibancadas, o próprio campo (de gramado sofrível), mostram o descaso, lembrando antigos e decadentes estádios de futebol no Brasil. Isso não impede que, sentados ali, possamos imaginar a vertigem que deve ser assistir a um jogo naquele lugar apertado e quase dentro do gramado, a poucos metros dos jogadores. Saí pensando que aquele contraste entre o campo e o museu definia bem a história do Boca... Juniors. De um lado a vontade de manter as raízes do bairro, de outro o desejo de fazer parte da Buenos Aires europeizada. Contradição que remonta não apenas ao nome do time mas à própria escolha das cores: amarelo e azul. Antes delas, o time usava um uniforme branco e preto, depois modificado para as cores da bandeira de um navio estrangeiro que atracara no porto. Um navio sueco. Andei um pouco mais pelas ruas e parei numa cantina. Enquanto tomava cerveja, vi na praça em frente uma cena digna de filme: um homem de cabelos desgrenhados, olhar perdido no tempo, calças jeans surradas e tênis, usava, sem o menorconstrangimento, uma camisa branca atravessada por uma faixa vermelha. Era a camisa do River. O garçom percebeu minha surpresa, aproximou-se da minha mesa e disse, apontando para o sujeito na praça: el Loco. Olhei para o garçom, pedindo com os olhos uma continuação. E ele, meio impaciente, como se eu fosse obrigado a saber de toda a história do bairro, explicou que se tratava de um tipo bastante conhecido nas redondezas. Era torcedor fanático do Boca, mas uma vez por mês, sem aviso prévio (não havia critério aparente para a escolha do dia, podia ser qualquer um), o sujeito vestia uma camisa do arquirrival, do maior inimigo, e se postava feito estátua naquela praça durante horas, naquele mesmo banco, no mais absoluto silêncio. E não ouse se aproximar dele, o garçom foi logo me advertindo, num argentinês legítimo que não ouso reproduzir aqui. Era um doido manso mas se chegassem perto dele nessa hora tornava-se violento. Está vendo as pedras? Olhei para o banco e vi um monte de pedras de variados tamanhos, formando um pequeno monte ao lado do homem. Quer levar uma pedrada?, continuou perguntando o garçom, me parecendo talvez mais louco do que el Loco. A advertência apenas acentuou minha vontade de me aproximar do homem. Não duvidei, porém, de que uma daquelas pedras pudesse ter como destino final minha pobre cabeça de turista e preferi ficar onde estava, até pensar num plano alternativo: não poderia falar com ele, mas poderia vê-lo mais de perto, quem sabe. Me mudei para uma mesa na calçada, de onde podia não apenas vê-lo melhor como também ser visto por ele, se assim o desejasse. Olhava vez ou outra para a praça, disfarçadamente, até que, ganhando um pouco mais de confiança, fixei meu olhar no seu rosto. Ele deve ter percebido e virou-se na minha direção. Para meu espanto, não havia agressividade alguma naquele olhar. Ficamos assim por um momento, um olhando para o outro, e pode ser que tenha sido efeito da longa caminhada, das coisas todas que eu havia visto no bairro, no estádio, no museu, ou efeito da cerveja, que me deixava mais sentimental, mas acreditei ver no olhar do homem algo quase infantil. Era uma criança que estava ali? Uma criança solitária, tentando chamar a atenção dos outros, buscando algum afeto? El Loco era, na verdade, el Niño? Ou, sendo criança, estava apenas brincando de ser outro, como um garoto brinca de ser médico, artista, jogador de futebol? Fiquei nessas viagens comigo mesmo até que o olhar mudou. El Loco voltou a ser o que era, as sobrancelhas se arquearam, o olhar adquiriu a fama que acompanhava a figura, a de doido varrido. Apanhou uma pedra no monte ao lado e ficou com ela suspensa no ar, enquanto sustentava para mim seu olhar ameaçador. Desviei meus olhos. Pedi a conta e saí. Caminhei por outra rua com um propósito definido: continuar observando o homem, agora sem que ele me observasse. Dei a volta e encontrei meu esconderijo. Encostado a um muro, podia vê-lo de costas, bem de perto. Foi então que pude ler o que estava escrito na parte de trás da camisa, no alto. No lugar em que normalmente vem o nome do jogador, não havia menção a qualquer valoroso atleta do River. Vinha apenas: EL LOCO. E logo abaixo: (NO ME PREGUNTES POR QUÉ). O que exatamente ele não queria que lhe perguntassem? Não me pergunte por que o quê? Por que me chamam de el Loco? Ou, sendo eu de fato louco, por que me tornei um? Era isso? Não me perguntem sobre a origem da minha loucura? Ou a frase entre parênteses se referia ao ato em si de se vestir com a camisa do rival e ficar sentado no meio na praça? Quer dizer, não me perguntem por que faço tamanha maluquice? Jamais pude saber, claro. E isso não era importante. Valia mesmo era o personagem e a biografia apenas sugerida. O homem não sabia que em breve viajaria para um país vizinho, na bagagem de um desconhecido, trajando apenas sua nobre loucura. Da esquerda para a direita: Ézio, Neném, Pereira e Hugo. (Álbum de família.) A Os irmãos da minha mãe Em memória do meu tio Hugo lguém aí teve quatro tios jogadores de futebol? E se teve, me responda com sinceridade: eram eles um goleiro, um zagueiro, um meio-campo e um centroavante? Duvido. Pois eu tive. Os quatro disputaram campeonatos de futebol amador em Goiânia, numa época em que não havia muitas diferenças entre amador e profissional. Minha avó teve quatro filhos e uma filha (minha mãe). E talvez tenha se sentido aliviada quando viu que pelo menos minha mãe não ligava muito para aquele jogo maluco que ralava joelhos e sujava a roupa dos meninos de uma terra vermelha que não saía de jeito nenhum. José, que todos conhecem por Pereira, era goleiro. De pernas finas e compridas, o corpo esguio, se lançava ao ar atrás da bola sem ligar para o fato de que, na aterrissagem, o esperava não um tapete de grama verdinha e felpuda mas um chão duro, feito sob encomenda para maltratar goleiros. Na foto que tenho dele trajando seu honroso uniforme de arqueiro, mais parece um Dom Quixote de chuteiras, prestes a alçar voo atrás de um sonho qualquer. Esse meu tio defendia as cores do Banco Cooperativo Luzzati, que nem existe mais. O gerente do banco era o técnico do time e mais tarde veio a ser presidente do Vila Nova e da Federação Goiana de Futebol por mais de vinte anos. Naquela época, no entanto – todos eles jogaram nos anos 1960, com exceção do caçula, que também atuou durante a década seguinte –, quem mandava mesmo no time era o Pereira, segundo fonte fidedigna (minha tia). Era o grande Pereira que orientava a defesa, gritava com o meio-campo e o ataque, e se preciso duelava com centroavantes em bolas divididas, armado não de escudos de ferro, como os antigos heróis dos romances de cavalaria, mas apenas de seu valoroso par de joelheiras, colocadas não onde se espera que estejam – nos joelhos – mas nas canelas! Imprevisível o Pereira, como convém a um verdadeiro Quixote. Quando comecei a jogar, aos onze anos, era ele que, sempre acompanhado da minha tia, ia assistir aos meus jogos, mesmo quando começavam às oito da manhã de um domingo chuvoso. Valente também era seu irmão, Neném, cujo apelido contrastava com sua função em campo: zagueiro. Zagueiro não pode ter esse apelido, convenhamos. Tem que ser chamado de Zezão, Pedrão, Junão, sei lá, qualquer coisa que soe como um sonoro aumentativo. Neném? Neném não dá. Mas tinha que dar, então meu tio se desdobrava em dois para compensar a sugestão do apelido e não consta que nenhum atacante tenha tido o atrevimento de brincar com coisa tão séria (pelo menos não na sua frente). O problema maior, aliás, não era o contraste entre o apelido e a virilidade que precisava demonstrar em campo. O problema mesmo já começava no nome do time: Cruzadinha do Padre Domingos. Fico imaginando: que cruzada era aquela empreendida campos afora pelos atletas de padre Domingos? Uma cruzadinha significa exatamente o quê? Que era humilde, sem grandes pretensões de derrotar os inimigos? Ou que era feita por crianças (e aí sim o apelido do meu tio combinava bem), no caso jovens, ainda iniciantes nas guerras santas do futebol? Não sei. O que se sabe mesmo é que só jogava no time quem fosse à missa. E não bastava estar presente, do início ao final, precisava também participar da comunhão, o que significava ter que se confessar primeiro. E nesse ponto imagino o conflito existencial por que passava padre Domingos, técnico do time. Suponha que seja você o padre. No jogo você vibrou com o gol da vitória do seu time no último minuto. No dia seguinte você está lá, no confessionário, e chega justo quem? Ele, o artilheiro, o grande herói, a estrela do grupo que você comanda. E ele te diz: padre, eu pequei. É mesmo, meu filho? Sim, padre, eu pequei. E que pecado foi esse? Sabe o gol do jogo de ontem? Claro que sei, um gol muito bonito, meus parabéns! Pois é, padre, só que foi com a mão. Como, meu filho? O gol não foi de cabeça, padre, foi com a mão, meti a mão na bola, e o juiznem viu. O que você faria nessa hora, além de respirar fundo e suspirar dizendo: ai, Jesus! Como o Domingos agiria numa hora dessas, como padre ou como técnico? Como padre deveria, seguindo seu papel, repreender o menino, dar- lhe um belo sermão sobre os males da mentira e lhe receitar uma boa de uma penitência, mas e depois, lá no campo do Cruzadinha, o que diria aos seus atletas? Para ser coerente, deveria começar recomendando a todos o seguinte: meus filhos, sempre que vocês cometerem alguma infração durante o jogo, e o juiz não apitar, vocês respeitosamente peçam a ele que interrompa a partida, dizendo: senhor juiz, desculpe, mas eu errei. Se for o caso, vocês podem dizer, por exemplo: senhor juiz, mil perdões, mas fui eu que chutei a bola para a lateral, não foi ele. Ou: caríssimo árbitro, desculpe incomodá-lo mas é preciso dizer que houve um equívoco, quem fez a falta não foi o nosso amigo aí, fui eu. Fico imaginando então o meu tio, que precisava ser mais viril do que os outros, para fazer jus à sua compleição física (era grande, forte) e à sua condição de xerife, tendo além de tudo que compensar a sugestão do apelido. Talvez mentisse no confessionário, dizendo que não, não pegou o cara não, foi só um esbarrão à toa, bobagem. O padre talvez até acreditasse, mas e o técnico? Fosse o que fosse, violento ou não, meu tio Neném nunca foi expulso. Nenhum deles foi, aliás. Quer dizer, houve apenas um, uma única vez. E foi justo o mais calmo, técnico e disciplinado dos quatro: meu tio Ézio. Ézio jogava de volante no Flamenguinho e depois se transferiu para o Campinas, tendo inclusive começado uma carreira de profissional, que depois abandonou pela faculdade de Medicina. Era o mais novo dos irmãos e o único que vi jogar. Vestia a camisa cinco, era um volante habilidoso, de boa colocação e bom passe. Um dia Ézio entrou em campo contra um adversário considerado mais fraco. O jogo estava fácil, tudo corria bem, com a vitória parcial do seu time, até que um zagueiro deu-lhe uma entrada violenta por trás. Ele, normalmente tranquilo, não se sabe por que foi tomado de uma ira inesperada e xingou o sujeito de coisas que nem ele mesmo, quase um adolescente ainda, sabia muito bem o que eram. Ele não sabia e quem sabe o adversário também não, mas o juiz sim. E o expulsou no ato. O mais curioso é que, pouco tempo depois, meu tio e o cara do outro time se encontraram, acertaram os ponteiros e permaneceram amigos durante décadas. Não, o mais curioso não é isso. O que realmente me chamou a atenção foi outra coisa. Meu tio não gostava de ser fotografado e não guardou as poucos fotos que tirou durante seus tempos de jogador. A muito custo conseguiu, com amigos, resgatar uma, a meu pedido. Pois a única foto que ele tem daquela época, o único registro que guarda de sua carreira de jogador de futebol é justamente a foto tirada antes do jogo em que foi expulso. Agora me diga, você que conhece os atalhos do destino, você me responda: como foi que meu tio resolveu tirar uma foto exato naquele dia? Teria pressentido que seria um dia marcante na sua história? Teria pressentido que seria expulso e que precisaria ter uma recordação disso? Mas então não seria melhor, digamos, pressentir o dia em que fosse fazer um golaço de fora da área e guardar a foto daquele jogo? Que raios de pressentimento foi esse, afinal de contas? Mas não foi apenas meu tio Ézio que experimentou dessas ironias. Seu irmão mais velho, Hugo, também tinha uma história para contar. Centroavante artilheiro, com perfil de atacante húngaro (pelo menos é o que vejo na foto que tenho dele), meu tio Hugo jogava no Santa Rita Futebol Clube. Dizem que era muito veloz e não acreditava em bolas perdidas. Ia em todas, e numa delas sofreu uma lesão séria numa dividida com o goleiro adversário, uma fratura na perna que o tiraria definitivamente dos campos de futebol. O Santa Rita era o time mais popular da Vila Operária, onde treinava e jogava, num campo de terra. Meus quatro tios jogaram nesse campo. E anos depois foi minha vez de jogar nele também, como ponta-direita do Selefama. Continuava de terra na minha época, e é incrível como naquele tempo isso não fazia muita diferença, era um campo de futebol, grande, lisinho, com marcas de cal, traves (de madeira) e arquibancadas em volta, grama pra quê? Meu tio viajava com o Santa Rita de vez em quando para o interior do estado. Certa vez foram jogar numa cidade chamada Cromínia. Na volta para Goiânia, já de noite, chovendo muito, o motorista da jardineira velha em que se misturavam jogadores, técnico e torcida (a meia dúzia de heróis de sempre) parou de repente na entrada de uma ponte estreita. Desceram todos para ver o que estava acontecendo. Logo à frente da jardineira havia um carro atolado, impedindo a passagem, e todos resolveram ajudar. O motorista do carro deve ter rendido glórias ao inventor do futebol! Não fosse ele, como estariam ali aqueles cidadãos todos, atletas e simpatizantes, dispostos a tirá-lo do sufoco? Meu tio, meio a contragosto porque estava não apenas cansado como sentindo as dores de uma pancada levada durante o jogo em Cromínia, também ajudou a empurrar o carro do camarada, que seguiu viagem (supõe-se que desde então convertido a torcedor fanático do Santa Rita). O que meu tio não poderia prever, no entanto, é que dez anos depois estaria casado com ninguém menos do que a filha daquele desconhecido, o mesmo que ele ajudara naquela noite distante. Guardo com muito carinho a história dos meus quatro tios. Um com alma de Quixote (todo goleiro é um pouco sonhador, caso contrário não aceitaria jogar em posição tão ingrata), outro dividido entre seguir as orientações de um técnico e de um padre, enquanto um terceiro guarda para a eternidade apenas a foto do dia em que foi expulso de campo e o mais velho encontra a mulher da sua vida graças aos caminhos enviesados do futebol. Você consegue explicar isso? Nem eu, só sei que é verdade. N Os recados do nome uma crônica de 1905, João do Rio divaga sobre os nomes de estabelecimentos comerciais na cidade do Rio de Janeiro. A crônica, belíssima, tem como título “Tabuletas” e nela o cronista nos diz que as tabuletas são os brasões das ruas. Não se trata apenas de uma marca necessária à publicidade do estabelecimento, mas sim de um conjunto de escudos seculares de toda uma complicada heráldica urbana, ele diz. E completa dizendo que assim que alguém realiza algo que julga importante, seja a conclusão de uma epopeia ou a abertura de uma casa comercial, trata logo de batizar sua obra. Segue então o cronista caminhando pela cidade, lendo, à sua maneira, tabuletas como Armazém Teoria, Grande Armazém de Líquidos Comestíveis, Café de Ambos Mundos, Casa Idealista, Açougue Celestial, Vulcão das 49 Flores, Hotel Livre Câmbio (imagine o leitor de que tipo de hotel se tratava), e por aí vai. Um nome traz sempre em si um recado, como percebera João do Rio e também, décadas mais tarde, a escritora Ana Maria Machado, que se lançou à aventura – digna de um detetive – de decifrar os nomes de alguns personagens de Guimarães Rosa. Sua investigação virou livro, com o título Recado do nome, de que me apropriei aqui, pilhando honestamente a biblioteca alheia. Para quem se interessa pelo tema, o mundo do futebol é um prato cheio. Por exemplo, que recado (ou recados) teria querido passar ao Brasil e ao mundo o heroico pernambucano fundador do Íbis Sport Club? Estaria pensando na ave pernalta, de pescoço longo e bico comprido, a ave que vive e se alimenta em grupos, o que seria sem dúvida um bom recado para um time de futebol? Claro que não – santa ignorância! –, há de refutar algum torcedor mais exaltado. O nome foi criado pelo lendário Onildo Ramos, grande admirador das histórias do antigo Egito. O nome tem a ver com Toth, deus da sabedoria e da escrita, representado por um homem com uma cabeça de íbis. O recado parece claro, ainda mais que o nome se complementacom um aristocrático “Sport Club”. Não nos confunda com qualquer um, diz o nome do time, nossa glória vem de longe e se sustenta no presente. Mas e o futuro? Saberia o fundador do time, ao passar esse recado, que décadas mais tarde seu clube seria conhecido como o pior time do mundo? O epíteto, certamente injusto, foi dado por uma torcida adversária, depois de nove derrotas consecutivas e uma sequência de vinte e três jogos sem vitória. Injusto ou não, acabou pegando, e todo boleiro autêntico já ouviu falar dele. É normal que aconteçam de vez em quando esses desvios. Quem sabe alguém não tenha dado o recado direito, pode ser. Quem criou o nome sabia o que estava querendo dizer mas vai você confiar nos recadeiros desse mundo? Agora, quando o recado já sai ruim na sua origem, a coisa se complica. Veja o caso do time tcheco FK Mladá Boleslav, fundado em 1902 como Studenstký? Sportovní Klub Mladá Boleslav. Em cerca de oitenta anos, mudou de nome doze vezes. O seu time, por exemplo, já mudou de nome? Então, o desses tchecos meio confusos já mudou doze! Não há recado que se recupere numa situação dessas (ainda mais para quem não tem a mínima ideia do que significa Mladá Boleslav). Minha amiga Rúbia, gaúcha de Mormaço, é jogadora de futebol. Orgulhosamente, veste a camisa de um time feminino chamado Esporte Clube Sempre Com Sede. Uma vez lhe fiz a pergunta óbvia: de onde vinha o nome do time. Ela balançou os ombros, dizendo que não tinha a mínima ideia. Ao dizer isso, porém, seu riso cínico deixava claro que havia uma longa história escondida ali. Foi essa mesma amiga que me contou que há no Rio Grande do Sul uma cidade chamada Tio Hugo. Isso mesmo: Tio Hugo. E na cidade foi construído um ginásio, batizado solenemente de Ginásio Poliesportivo Nunca Pensei. Comecemos pelo final: o que estaria querendo dizer quem batizou com esse nome o moderno ginásio? Que nunca pensou que Tio Hugo pudesse contar com obra de engenharia de tamanha envergadura? Ou que nunca pensou o quê, afinal? Mais um enigma do universo que não encontra resposta, há de dizer o leitor, balançando filosoficamente a cabeça. Há, no entanto, uma bela explicação para o “poliesportivo”. Não pense você que se trata apenas de um ginásio com uma quadra de futebol. Nada disso. Há também, num canto, uma modesta cancha de boliche. E se há futebol e boliche, pronto, está dado o recado: poliesportivo! Na cidade onde moro, Teresópolis, jogo num time de veteranos ou masters (para dar a isto uma cor poética, como diria Machado) chamado Clube Atlético Duque de Caxias. O nome tem a ver com a rua em que ficava a loja de um dos fundadores do time, que funcionava como ponto de encontro dos amigos. Certo, mas o que vale mesmo é a sigla: CADUCA. Perfeito para um time de velhos, dirá você, leitor abusado. Acontece que também tem isso: o recado do nome às vezes se revolta com sua origem, quebra os grilhões da mensagem inicial e ganha vida própria, navegando sozinho (ou bem acompanhado) por mares insuspeitos. Por que não? É o caso do CADUCA, que, modéstia à parte, está a anos-luz da caduquice. Às vezes, o nome aponta para um lado, e o recado cai para o outro, como um goleiro na cobrança de pênalti. Falando nisso, temos um dos melhores goleiros da cidade. Não fosse pelo avançado dos seus cinquenta anos, seria titular de vários times por aí. Qual o nome dele? Confesso que não sei, de tão acostumado com seu apelido: Peru. Sim, Peru, num exemplo claro de que o recado às vezes erra de endereço. Não sei se errou no disputadíssimo campeonato de várzea de Pirituba, em São Paulo, que conta com times como o Meia-Sola, o Casaca, o Só Nós e o Praça da Fumaça. São, todos eles, nomes carregados de histórias possíveis, mas fico pensando mesmo é nos recados que quiseram enviar ao futuro os fundadores de outros dois valorosos escretes da Copa Pirituba: o Pânico e o Panela Problema. Nomes de jogadores, então, mereceriam uma crônica à parte. Pelo avançado da hora, ficará para outro dia, embora não seja de todo impossível deixar aqui pelo menos o aperitivo. No caso dos jogadores, não importa pensar no nome de batismo, cujo recado cifrado no mais das vezes, se existe, permanece restrito à memória dos pais, mas no apelido. O apelido, este sim interessa. O apelido é como um rico e singelo regalo que alguém generosamente oferta à história do futebol. E tendo origem na vida real, no meio mesmo da paixão do futebol, o apelido deixa recados que estouram os limites da realidade e vão explodir no céu da fantasia. Numa de suas crônicas, João Saldanha conta de sua passagem como jogador do Posto 4 FC, campeão de futebol de praia no Rio, dirigido por aquele que o cronista considera, com razão, o técnico mais famoso de toda a costa atlântica (pelo menos na época dele): Neném Prancha. Saldanha conta do dia em que estava reunido com os jogadores do seu time num bar em Copacabana. Estavam lá o Caveira de Burro, o Botina, o Pé de Chumbo, o Cuíca, entre outros. Além, claro, do Neném Prancha. Aquilo não era, convenhamos, um time, era uma convenção de apelidos. E eis que na alta madrugada chega, fazendo jus ao codinome, ninguém menos que o Coruja, boêmio e impetuoso lateral direito. Chega e se dirige aos outros dizendo: “Como é, poetas?” A crônica nem precisava continuar, já estava bom. O Coruja, querendo ou não, acertou o pé (pelo menos dessa vez): eram mesmo poetas os que estavam ali, capazes de transfigurar o Hélio, o Jaime, o Antônio, o Orlando naquelas figuras riquíssimas, que carregavam cidade afora seus recados nos nomes que eles próprios criaram para batizar uns aos outros. É provável (eis aí outro recado perdido) que a palavra “recado” tenha vindo do latim recapitare, que significa: receber, acolher, recuperar. Quer dizer, recado é a recuperação de uma mensagem original. Mas é também acolhimento. O recado acolhe em si a mensagem de alguém e a repassa a outro, é uma espécie de ponte que liga as pessoas. Mesmo um recado malcriado, grosseiro, tem um pouco desse senso de humanidade, tão presente no futebol e tão difícil de definir. C O camisa 7 omo arrumar um time para sair na foto? O mais comum é alinhar, em pé, aqueles jogadores cuja principal função em campo é defender: goleiro, laterais, zagueiros, volante. Agachados, vêm os que jogam mais à frente: armadores e atacantes. Na época em que eu jogava de verdade, valendo título de campeonato estadual, ainda havia um detalhe: em pé, as extremidades eram ocupadas pelos laterais – o direito à direita, e o esquerdo à esquerda, como era de se esperar. Acontecia o mesmo com o pessoal de baixo: o ponta-direita numa extremidade, e o ponta-esquerda na outra. Simples e exato como um tiro de meta. A foto que tenho, porém, de um jogo do meu time, o Selefama, tirada em algum dia do ano de 1976, quando eu contava com catorze anos e disputava o campeonato goiano de Dente de leite, mostra que nem sempre as coisas são tão previsíveis. Como ponta-direita, meu lugar na foto era sempre o mesmo, agachadinho na ponta. Nesta, porém, não é ali que estou. Sou o quarto, agachado, da esquerda para a direita (na perspectiva de quem olha a foto). Que diabos estaria fazendo ali?, perguntei a mim mesmo quando, revirando antigos guardados, me deparei com essa pérola. E o pessoal de cima, então, nem se fala, uma bagunça generalizada. O volante onde devia estar o lateral, o lateral onde devia estar o zagueiro, e por aí vai. Na pose para as fotos, o técnico Fausto resolveu alinhar os jogadores pela estatura: nascia o Escadinha Esporte Clube. Não demorou muito e a história que não se vê na foto me veio logo à memória. Naquele ano nosso técnico, Fausto, sabe-se lá por que delírio, decidiu que as fotos antes do jogo ficariam melhores se ele montasse o time de outro modo, usando um critério até então absolutamente inédito em toda a história do futebol: a altura dos jogadores. Critério que valia, explique-se, apenas para o pessoal de trás. Quer dizer, nossovaloroso plantel de defensores se alinhava conforme a fita métrica, indo do mais baixo para o mais alto e culminando nele, o técnico. Nas primeiras rodadas do campeonato, o Selefama começou a se destacar, vencendo os considerados grandes, e por isso alguns jornais da época estamparam nossa foto nas páginas de esportes. Isso foi o suficiente para que as más-línguas do modesto mundo futebolístico em que vivíamos – composto de crianças, pais, irmãos, tios e um ou outro maluco que não tinha mais o que fazer aos domingos – espalhassem pelas praças esportivas da cidade o novo apelido de nosso jovem porém valoroso escrete: Escadinha Esporte Clube. Como atacante eu não fazia exatamente parte da escadinha, mas é claro que isso não diminuía a minha irritação quando uma torcida adversária (quando havia torcida) nos recebia aos gritos de es-ca-di-nha, es-ca-di-nha! Nosso técnico, irredutível como uma trave de ferro (na época ainda havia algumas de madeira, que tremiam ou às vezes até desabavam diante de um chute mais forte), continuava mantendo o arranjo da foto, o que matava a gente de vergonha – repare que a cara dos atletas, principalmente os de cima, não é nada boa. Certo domingo fomos jogar com um time bastante enjoado, daqueles que não têm muita qualidade, sem jogadores habilidosos, sem esquema definido, mas que batalham o tempo todo e, para completar, fazem uma catimba de deixar uruguaio parecendo anjinho de primeira comunhão. O jogo era no campo deles, do temido Balneário Meia Ponte. Era um campo de terra, num lugar longe à beça. Não tinha arquibancada e a plateia ficava em volta, de pé ou sentada nuns tamboretes. Quando entramos em campo, o coro já esperado se fez ouvir em alto e bom som. Ignorei. Naquele dia tinha acordado com uma determinação de monge budista: vou ignorar. Queria jogar meu futebol, pronto, só isso. Não estou indo para a guerra nem nada, pensei comigo enquanto tomava café da manhã. A primeira parte do meu plano correu muito bem. Fingi que não ouvia a cantoria dos moleques à beira do campo na hora em que o Fausto, contrariando solenemente nossas súplicas, insistiu em tirar uma foto, firme na defesa do seu curioso (para dizer o mínimo) senso estético. Acho que ele fazia aquilo para provocar mesmo, para dar munição à torcida adversária e assim insuflar de brio nosso ânimo de pequenos guerreiros (e aí pouco importava que eu já tivesse, como disse, tomado minha decisão íntima: isso não é uma guerra, não sou um guerreiro). Mal o jogo começou e sofri uma falta na entrada da área. O goleiro deles montou a barreira e naquele instante mínimo de espera, em que a barreira está montada e o batedor aguarda para dar um final à cena, naquela fração de segundo pude reparar que a barreira deles, por acaso, também formava uma escadinha! Comecei a rir, sozinho. Aquilo era o máximo, será que ninguém percebia que era o máximo! Um dos caras da barreira não gostou e olhou feio pra mim. Nosso batedor de faltas oficial era o filho do técnico (está ao lado dele na foto, é o degrau mais alto da escadinha) e felizmente não se desconcentrou com a minha risada. Também se chamava Fausto – embora fosse mais conhecido como Neném –, era um dos melhores do time e mais tarde veio a jogar nos profissionais do Guarani e depois do Palmeiras. Pois o Neném tomou distância, correu e pegou firme. Bola no ângulo. Golaço! Logo em seguida começou meu martírio. Eu realmente não dava muita sorte com lateral esquerdo. Vivia tendo problema com eles. Era raro um que topasse conversar durante o jogo, bater um papo mais saudável, quem sabe falar de literatura (ou de gibis, que era a minha literatura na época). Não, a maioria não queria nem saber, já entrava em campo me olhando como se eu tivesse xingado a mãe e dado um chute na bunda do pai. Francamente! O lateral era o mesmo que havia me encarado quando ri da barreira. Chegou perto de mim e disse, babando no meu pescoço: estava rindo do quê, seu Escadinha? Fiz que não era comigo (monge budista ponta-direita). Ele insistiu. Me desloquei para a esquerda, trocando de lugar com o outro ponta do nosso time. Ele foi atrás. Reclamei com o juiz. O juiz me mandou calar a boca e jogar bola. Não tinha jeito, precisava reagir ou aquele estrupício era capaz até de me dar uma bela de uma botinada. Então disse pra ele: e você, que joga no Meia Ponte! Nem ponte inteira é! Ele ficou puto da vida e disse que ia me pegar, na primeira dividida ia me quebrar! Não teve primeira dividida. Alguém começou uma briga fora do campo que acabou virando pancadaria dentro do campo mesmo. Era briga de adulto, não tinha nada a ver com a gente (eu acho). O Fausto saiu reunindo seus filhotes e mandou todo o mundo entrar na kombi. O juiz estava meio baratinado no meio daquela confusão toda, alguém deu um tiro pra cima, e quando vi o juiz estava do meu lado, dentro da kombi, branco que nem um fantasma. O Fausto mandou o motorista sair logo dali, e fomos embora, nosso time e o juiz. A história poderia ter terminado aí mas não terminou. A Federação anulou a partida e marcou outro jogo, em campo neutro. Fomos jogar num lugar mais aprazível, um campo de grama, com algumas árvores em volta. Nas laterais havia pequenas arquibancadas de alvenaria, de duas fileiras. Quase vazias, falei comigo, rendendo graças aos céus. É justamente deste segundo jogo a foto que tenho. Na véspera da peleja, nosso centroavante pegou uma gripe de dar dó e não pôde jogar. O reserva estava machucado e sobrou pra mim. O Fausto disse, enquanto a gente fazia aquecimento no vestiário: você vai de centroavante hoje, e me deu a camisa 9, em vez da minha velha amiga camisa 7. Na minha posição entrou um garoto que estava estreando no time (infelizmente não me lembro mais do nome dele). Tinha treinado umas duas ou três vezes só. Era veloz, e o Fausto quis testá-lo na ponta, me deixando pelo meio da área. Quando os dois times estavam em campo, reparei logo que o lateral esquerdo do Balneário Meia-Ponte não era o mesmo da outra partida. Talvez o titular estivesse machucado, sei lá. A bola rolou e, logo no primeiro lance, toquei para o nosso ponta, que deu um drible seco no lateral e tomou uma pancada de levar defunto às lágrimas. O jogo continuava e, a distância, eu percebia cena parecida com a que tinha vivido no domingo anterior: o lateral deles ameaçando o nosso ponta. Foi assim o jogo todo, o garoto que me substituiu naquele setor do campo sofreu noventa minutos com aquele lateralzinho endiabrado. No final, o lateral acabou expulso. Terminou em 0 x 0 aquele jogo. Já no vestiário, fui conversar com nosso mártir do dia. O cara te pegou mesmo, hein?, eu disse, dando um tapinha no ombro dele. E o nosso ponta: não entendi nada, o lateral ficou o tempo todo dizendo que o amigo dele estava doente mas ele ia resolver tudo, ia resolver tudo mesmo. Resolver o quê?, perguntei. Sei lá, resolver alguma coisa, ficou me xingando, dando pontapé por trás, e toda hora dizendo que ia se vingar e tal, que o outro tinha contado tudo pra ele, de meia ponte, ponte inteira, não entendi nada. Fiquei calado. E ainda teve mais, ele continuou, teve uma coisa que não entendi de jeito nenhum. O que foi?, perguntei. O lateral me chamou de Flávio. Continuei calado (monge budista no vestiário). E o nosso ponta arrematou: mas Flávio não é você? Era, era eu. E aí se entende como é importantíssima a numeração nas camisas dos times de futebol. S O maior campeonato do mundo e você quer formar um time de futebol, só tenho um conselho a lhe dar: não procure matéria-prima numa faculdade de Letras. Por algum motivo que me escapa, não é bem ali que se encontram os melhores praticantes desse esporte. Comecei a me dar conta disso lá pelos idos de 1980, quando fiz minha graduação em literatura na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. A UERJ fica em frente ao Maracanã e isso, juro, não foi o motivo que me levou à escolha quando me inscrevi no vestibular. De todo modo,imaginei que talvez, quem sabe, a proximidade do estádio despertasse nos futuros colegas algo como um sopro poético que os levasse a tentar a sorte também nos gramados. Ledo engano. Era sempre uma tremenda dificuldade montar nosso time para as nada saudosas olimpíadas universitárias. Lembro que num sábado à tarde estávamos nós, os valorosos atletas da Letras, reunidos e concentrados num bar em frente à universidade, quando nos demos conta do que era óbvio: não ia dar para jogar naquele dia. Nem tanto pelo teor etílico dos atletas (felizmente não havia exame antidoping) mas pelo simples fato de que faltavam dois jogadores no nosso time. A dupla Valdo (à esquerda) e Flávio. A dupla Bith (à esquerda) e Miguel. E não digo dois titulares, não, nada disso, faltavam dois mesmo, para completar onze. Certo, tínhamos lá a Mary Kimiko – minha amiga, filha de japonês, com nome inglês e professora de latim –, goleira do time de handebol e que poderia até quebrar um galho, se fosse o caso. E havia também o garçom do bar, que a gente chamava de Nestor porque era a cara daquele amigo do Zé Carioca. O problema era convencer os organizadores das olimpíadas a aceitarem uma mulher no time e um atleta inscrito na hora (a carteirinha do Nestor que falsificamos ali na mesa do bar estava até convincente). Depois de árdua argumentação, e talvez porque os caras tivessem ficado com pena daquele nosso verdadeiro exército de Brancaleone, aceitaram o Nestor e a Mary. Resultado: perdemos sei lá de quanto a zero. Depois dos sete desisti de contar, sem remorso. O jogo era contra os caras da Matemática, eles que contassem! Aliás, nem o juiz estava contando muito bem porque me deu simplesmente dois cartões amarelos. Achei graça e disse que ele ia ser reprovado (os juízes eram recrutados entre os alunos da Educação Física, e a atuação deles valia nota). Ele não gostou e me expulsou de campo. Para completar o estrago, o Bith, craque do nosso time, resolveu tomar as minhas dores e foi expulso também. Com dois a menos, reafirmamos nosso protesto contra as ciências exatas num gesto revolucionário: tiramos as camisas, saímos de campo e voltamos ao bar, que infelizmente já estava fechado, por falta de garçom. Nem tudo, porém, estava perdido. Foi dali, daquela frustração pelas coisas injustas, que nasceu o campeonato mais estranho de que já se teve notícia em todo o planeta e quem sabe até mesmo noutras galáxias: nosso campeonato de duplas. Eu e três amigos, contrariados com as dificuldades de armar um time decente na faculdade de Letras, decidimos criar um campeonato que só dependesse de nós mesmos. Formamos então duas duplas e, contrariando qualquer lógica futebolística, armamos um campeonato que contava, no total, com quatro jogadores! Um campeonato de golzinho. Para os leigos é preciso explicar que existe um jogo muito popular no Brasil, cujo nome varia de região para região. Em Goiás, é golzinho. No Rio, gol a gol. Funciona da seguinte maneira: você pega duas pedras, dois chinelos de dedo, duas camisetas amassadas, qualquer coisa que possa substituir as traves, e as coloca a uma pequena distância uma da outra, alinhadas. Faz o mesmo do outro lado do campo. Estas serão as balizas. As regras são as mesmas do jogo comum, com a diferença de que, neste, não há goleiros, ou seja, nenhum jogador pode pegar a bola com a mão. O número de jogadores de cada time fica a critério dos peladeiros. No nosso caso, eram dois para cada lado. Um time era formado por mim e pelo Valdo Gomes. Do outro, Bith e Miguel (o mesmo da crônica sobre o Canal 100). O local dos jogos: uma estreita faixa de grama, retangular (muito retangular!), atrás de um campo de terra horroroso – inclinado, cheio de pedras – ao fundo do estacionamento da universidade. Podia não ser grandes coisas a nossa cancha futebolística, mas tinha pelo menos uma bela vista: o Maracanã. Compramos a bola (naqueles tempos uma bola decente era muito cara, fique sabendo) e também um kit de futebol para crianças (novidade nas Lojas Americanas), do qual jogamos fora umas coisas estranhas e aproveitamos as balizas de metal, com rede e tudo. Tínhamos jogadores, grama, bola e traves. O que mais poderíamos querer? Faltava elaborar a tabela dos jogos. A tabela dos jogos, nem me lembre! Tarefa dificílima! Imagine você como é complicado fazer a tabela de um campeonato, com jogos fora e dentro de casa, turno e returno etc. Agora, imagine como isso é muito mais difícil se o campeonato tem apenas dois times, um único campo de jogo e ninguém quer sair prejudicado. Deu pra entender? Não me pergunte como resolvemos, mas sei que resolvemos. Tanto que nosso campeonato – e aí você acredite se quiser – durou nada mais nada menos do que dez anos! Tínhamos talvez, além da vontade de jogar bola, uma sede de infinito que só podem ter os que descobrem, sem muito esforço, que serão amigos para sempre. Jogávamos todo sábado de manhã, na sagrada graminha atrás do campo maluco. Quer dizer, os caras que jogavam naquele campo é que nos achavam malucos. Só podem ser doidos, deviam pensar, todo sábado, as mesmas duplas, naquele corredor longo e estreitíssimo. Impraticável jogar bola num lugar desses, algum deles (quem sabe o mais ponderado) pode ter comentado um dia. Mas se já desafiávamos as leis da matemática, encarar as da física era moleza. Houve uma época em que alguém resolveu ampliar o estacionamento da UERJ e nessa dançaram o campo de terra e, de sobra, o nosso memorável estádio. Não nos abatemos. Noutro ponto da universidade, já próximo da rampa do metrô (que não havia quando toda essa história teve início), estabelecemos nossa nova sede. A vida continuava, os atletas agora tinham outras responsabilidades e talvez não pegasse muito bem serem vistos assim, jogando bola feito meninos, mas o campeonato continuava, longo e fascinante como nunca houve nenhum, pelo menos que eu saiba. Havia um ritual que logo no início se estabeleceu e foi seguido à risca todos esses dez anos. Antes da partida havia sempre provocações de parte a parte. A dupla deles se achava muito técnica, como se fosse composta de dois craques do passado desfilando categoria naquela grama rala, e diziam que o nosso time só pensava em resultados, em gols, gols, gols. Respondíamos com um futebol de primeira, que aliava plasticidade e eficiência (pelo menos na nossa opinião). O jogo era com tempo marcado (quando a bola caía na rua parávamos o cronômetro), tendo primeiro e segundo tempos. Se desse empate havia prorrogação e, persistindo o empate, disputa de pênaltis (fica a seu cargo imaginar como se bate pênalti sem goleiro). Depois de cada partida íamos ao bar de sempre, o bar da Cris, agora desfalcado do nosso amigo Nestor, que, não se sabe por quê, abandonara precocemente a profissão. Ali, fazíamos a ata da partida. Qual fora o resultado do jogo, quem fizera gol, quem dera passe para gol, qual a jogada mais bonita, o melhor drible, a besteira do dia (essa eles ganhavam sempre), estava tudo lá, registrado. Redigida solenemente a ata, cabia então a cada jogador dar uma nota para a performance dos outros naquele dia. Cada nota era discutida – da forma mais honesta possível – por todos, e o autor poderia retificá-la, se quisesse. Dadas as notas definitivas, eram feitas as médias e eleitos, enfim, o melhor e o pior do jogo. Só depois de elaborado todo o documento oficial é que estávamos finalmente liberados para conversar sobre outro assunto. Feito o dever de casa, estávamos agora bem à vontade para falar de... futebol. O sábado terminava quando já anoitecia, o que quase sempre era motivo de brigas com as respectivas namoradas e/ou esposas, que raramente conseguiam entender que ficássemos os quatro naquele bar, todo sábado, o dia inteiro, discutindo detalhes de uma partida de golzinho! Vez ou outra recebíamos algum convidado, ou mais de um. Nesses dias, o jogo era amistoso, não valendo pontos na tabela. Ninguém lembra mais qualfoi, afinal, a dupla campeã. Quer dizer, talvez não seja exatamente isso, um problema de memória. Na verdade, nunca soubemos quem foi de fato e de direito o campeão. Em algum momento as contas começaram a ficar complicadas demais, não dava mais não! Também não há registro, na rica história do futebol brasileiro, do exato motivo que nos levou a terminar com o campeonato. Ainda não estávamos tão velhos a ponto de abandonar o esporte, tampouco paramos por imposição dos seguranças da universidade (para eles, já fazíamos parte da paisagem), então não sei. Acabou, simplesmente acabou. Quando nos demos conta, puf!, o campeonato tinha sumido, ou melhor, tinha se transformado em memória, em um longo capítulo de um livro que vem sendo escrito todos os dias, sem data certa para terminar. C Torcedores erta vez escrevi, num breve ensaio sobre o conto “A cartomante”, de Machado de Assis, que há pelo menos três tipos de leitor: o que nega, o que afirma e o que desconfia. Talvez se possa dizer o mesmo do torcedor de futebol. O tipo que nega normalmente aparece quando se trata de torcer pela seleção brasileira. Para muitos torcedores há uma diferença abismal entre torcer para um clube e torcer pelo Brasil. Quando se trata do seu clube, há torcedores que vibram até com cobrança de tiro de meta. Se, no entanto, diante da televisão está o time de camisa amarela, a emoção só acontece mesmo quando é jogo importante, de Copa do Mundo ou se for contra a Argentina (aí vale até amistoso). Veja, por exemplo, o caso daquele torcedor que aparece numa crônica do Nelson Rodrigues. O Brasil acabara de ganhar de 5 a 1 do Paraguai e, depois do jogo, Nelson esbarra com o amigo lúgubre. “Mas que cara de enterro é essa?”, pergunta. O outro responde: “Estou decepcionado com o escrete!” E Nelson conclui: “A seleção não tem saída. Se vence de cinco, se dá uma lavagem, o torcedor acha que o adversário não presta. Se empata, quem não presta somos nós. Durma-se com um barulho desses!” Há também o torcedor que afirma sempre. Seu time pode estar uma porcaria, mas ele não admite. E torce ufanisticamente pela seleção brasileira, mesmo que seja em jogo treino contra os juvenis do São Cristóvão. Esse é incapaz de autocrítica, pelo menos em público. Pode ser que num domingo à noite, a sós com o travesseiro, ele grite um palavrão contido a ferro e fogo durante o dia e mande seu time inteiro para o inferno! Mas com os amigos, na conversa de segunda-feira, ele volta ao normal. Os que desconfiam são mais raros. Vão para o estádio com a camisa do time escondida debaixo de uma outra. Seu time é o favorito, aliás, o favoritíssimo, mas ainda assim o torcedor desconfiado não assume sua paixão. E quando algum desavisado – preferencialmente o torcedor crédulo, do parágrafo anterior – estranha o hábito de esconder a camisa, ele, cabisbaixo, apenas sussurra: nunca se sabe, nunca se sabe. Para o torcedor que desconfia, vale uma máxima futebolística: o jogo só acaba quando termina. Seu time pode estar ganhando de 4 a 0 faltando cinco minutos para terminar o jogo, tanto faz, ele só acredita na vitória quando o juiz pega a bola e apita o final da peleja. Os três tipos de torcedor de futebol se espalham país afora. E, claro, têm suas manias. Há de tudo nesse tema: as manias de torcedor. E se algum dia você puder conversar com escritores, talvez se surpreenda com o fato de que também entre eles – cujo ofício parece não ter nada a ver com futebol – existem os que praticam a estranha arte de torcer. A propósito, fiz recentemente uma seriíssima pesquisa com alguns, perguntando a respeito da relação deles com seus times. Relato a seguir algumas respostas. O poeta Paulo Henriques Britto não é nada ligado a futebol. É capaz de assistir a um jogo e perguntar quem é aquele sujeito vestido de preto com apito na mão (e querer saber por que nunca pega na bola e seu uniforme é diferente dos outros). Ele respondeu assim à pesquisa: “sou completamente ateu em matéria de futebol”. Pérola das pérolas. Mesmo não gostando do esporte, Paulo reconhece – pelo menos é o que se pode depreender da sua frase – que se trata, mais do que de um mero jogo, de uma verdadeira religião. José Castello, torcedor do Fluminense, respondeu dizendo que, quando fica nervoso vendo um jogo do seu time (e esse nervosismo é bem frequente), tira o som da televisão. Diz que, com isso, tem a impressão de que adquire mais controle sobre o que se passa em campo. Faz sentido, se pensarmos que a narração do jogo, as informações do repórter de campo, o barulho das torcidas, tudo isso faz parte do espetáculo. Sem som, a partida perde muito da sua dramaticidade. Nelson de Oliveira me escreveu surpreso, sem acreditar na incrível coincidência. Disse que, no momento em que recebeu a mensagem, estava justamente trabalhando numa nova antologia de contos brasileiros, que vai se chamar Geração 90 (minutos): manuscritos de torcedor. Imagine o que vai sair daí. Outro torcedor fanático, o Marcelo Moutinho, revela que quando está no Maracanã não tem muitas manias não. Mas diante da televisão, em casa, precisa morder uma caneta (para não acabar com as unhas). E, se o time dele estiver ganhando, não troca jamais o lado da boca. Meu conterrâneo André de Leones, torcedor do Goiás, é o desgosto do pai, nascido e criado na Vila Nova, bairro do arquirrival. Na verdade, André assiste a qualquer jogo de futebol como se estivesse hipnotizado. Ele conta que já cansou de perder o ônibus porque atrás do ponto tem um campinho de terra. Quando o ônibus passa, ele só tem olhos para o jogão que está rolando entre os moleques descalços. Outro André, o Sant’Anna, diz que em casos extremos usa a Figa do João Pelado para inutilizar um jogador adversário e que frequentemente se vale do Método Silva Mind Control. E faz uma revelação bombástica, mantida em segredo por mais de vinte anos: foi ele, André, o responsável pelo tricampeonato do Fluminense em 1985. A corintiana Ivana Arruda Leite viveu uma situação dramática. Foi ao estádio com um primo muito mau, que a forçou a assistir à vitória do Corinthians no meio da torcida do São Paulo. Ela saiu de lá direto para o hospital, com uma taquicardia que podia ser ouvida a quilômetros de distância. Cláudia Lage é um tipo interessante de torcedora: a condicional. Torcedor condicional é aquele que vai sempre lhe responder, se você perguntar se ele vai ou não assistir ao jogo: depende. Se o time vai bem, a Cláudia está lá, firme e forte. Se estiver mal, não quer nem saber. Sua única mania: se o time está perdendo, ela dá um tempo e vai consultar o I Ching sobre a possibilidade de uma virada. Não é o caso do Raimundo Carrero, apaixonado torcedor do Sport Recife. Esse é do tipo que joga sandália no bandeirinha e volta descalço pra casa, como aconteceu mais de uma vez. E geralmente sonha coisas estranhas na véspera de um clássico. Quando acontece isso, não vai ao estádio, não ouve o jogo no rádio, não vê na televisão. É um dia de muita agonia, e ele repetindo o tempo todo pra si mesmo: deixa de ser idiota, Carrero! Há os torcedores que, calmos no dia a dia, de voz macia e semblante tranquilo, se desfiguram na hora do jogo. É o que acontece com o Gustavo Bernardo. De tanto susto com os berros do dono durante os jogos do seu time, os cachorros da casa precisaram fazer tratamento antiestresse. E temos ainda aqueles que pensam a longo prazo, zelando não apenas pelo presente imediato mas pelo futuro do seu time. A esse grupo pertence, por exemplo, a gremista Valesca de Assis, que lá de Porto Alegre revelou que todo dia 31 de dezembro dorme com a camisa do clube, para dar sorte no ano seguinte. O Rafael Cardoso tem tantas manias que se recusou a enumerá-las, com medo (mania das manias) de esquecer alguma e isso prejudicar seu time no próximo jogo. Mas saiu com uma frase muito boa: “O único escritor a ter uma reação lúcida com relação ao futebol foi Lima Barreto, que era louco.” Comentário,aliás, que lembra o do Milton Hatoum. No meio das suas respostas, ele afirma: “Só um louco assiste a um jogo do seu time sem revelar uma reação estranha.” A dele é a de mudar de posição na cadeira ou se sentar no chão e xingar o técnico quando o Flamengo está perdendo. Às vezes, complementa, tomar uma cachaça pura também ajuda. Roberto de Sousa Causo não entende muito de futebol, embora tenha decidido agora enveredar pelo tema. Contou que está escrevendo um conto de ficção científica em que o Flamengo está nas oitavas de final do Campeonato Intergaláctico e vai jogar no Maracanã contra um time do planeta Ocixém, um tal de Acirema. Goleada dos caras do outro planeta: 3 a 0. Cá entre nós, achei o enredo excessivamente realista. Falando em Flamengo, dizem as más-línguas – por favor não espalhe isso, pode ser apenas uma intriga qualquer – que o Luiz Ruffato só vê jogo do seu time em casa, sozinho, trancado no quarto, vestindo um pijama vermelho de bolinhas pretas. O atleticano (do Paraná) Cristovão Tezza é um torcedor tribal, selvagem. Levanta o tempo todo diante da televisão e tem a mania de dar instruções para os jogadores do seu time, como se pudessem ouvi-lo. “Passa pro Netinho, idiota! Viu? Viu? Perdeu a bola.” Seu filho Felipe, um fanático mais apaziguado (se é que isso existe), disse a ele um dia: “Não adianta falar, pai, eles não ouvem daqui. Vai ler um livro que eu vejo o jogo pra você, vai!” Affonso Romano de Sant’Anna encarna um outro tipo comum entre os torcedores: o eclético. Torcedor eclético é aquele que tem um time em cada estado do país. Desse modo, seja qual for o jogo, há de haver adrenalina à solta. Mas, no caso do Affonso, o time de coração mesmo é o Tupi (há torcedores do Tupi, por que não?), de Juiz de Fora. Outro que tem times espalhados pelo país é o Braulio Tavares. O primeiro de todos, no entanto, é o grande “galo da Borborema”. Não está ligando o nome à pessoa, alienado leitor? É o Treze, da Paraíba. Quando tinha uns quinze anos de idade, Braulio inventou que dava azar ao clube. Sem saber se ia ao estádio ou não, escrevia em dois pedacinhos de papel: IR e FICAR, tirando a sorte na hora. Deixou de ver grandes jogos por causa disso e não consta que tenha interferido muito no destino do Treze. O Dapieve, o Fernando Molica e o Verissimo responderam que... Bom, esses são botafoguenses. Torcedor do Botafogo merece uma crônica à parte. Fica para a próxima. S Os personagens e você escrever para 221-B, Baker Street, em Londres, sabe quem vai receber sua carta? Sherlock Holmes. Você pode fazer essa loucura, se quiser, mas fique sabendo: não terá sido o primeiro. Sherlock superou de tal maneira sua condição de personagem de ficção que muitos acreditaram que fosse mesmo real. Daí o Museu Sherlock Holmes – que é uma reprodução da casa do detetive, com alguns de seus objetos (capa, lupa, cachimbo) espalhados aqui e ali, e que fica no mesmo endereço de Holmes citado nos contos e romances – ter registradas todas as cartas recebidas por Sherlock, enviadas de várias partes do mundo. Nem todos sabem quem foi Conan Doyle, mas é difícil encontrar alguém que não conheça seu personagem mais famoso. Acontece algo parecido com Mary Shelley. Pergunte na rua quem foi Mary Shelley. Muitos provavelmente dirão: não sei. Depois pergunte se conhecem Frankenstein e compare o resultado. A existência de Sherlock, Frankenstein, Drácula, Dom Quixote e Sancho Pança, dentre outros, apenas prova que personagens são tão importantes numa narrativa que às vezes voam para além da página impressa. Para se ter uma ideia, Conan Doyle, certa vez, quis matar seu Sherlock – e de fato o matou, no conto O problema final – já cansado das peripécias do detetive e tentado a buscar outros caminhos literários. Houve, no entanto, um verdadeiro boicote dos leitores a seus novos livros, e Doyle acabou tendo que ressuscitar Holmes, que então reaparece em O cão dos Baskerville. E se uma partida de futebol é uma narrativa – e de fato o é, uma narrativa que mistura várias linguagens –, é natural que, também aqui, o personagem seja figura importantíssima, tanto quanto o narrador (de que tratei na crônica passada) e o enredo (de que tratarei na seguinte). Uma partida de futebol pode sempre ser lida como uma história, por trás da qual se escondem outras, e atrás dessas outras ainda, num abismo que beira o infinito. Nesse redemoinho, há incontáveis personagens dignos de nota. Dentre os jogadores que se transformaram em grandes personagens, há vários tipos. Temos os heróis épicos, como Pelé, e também os líricos, como Garrincha. Há os trágicos, marcados pelo destino, como Barbosa, goleiro da seleção brasileira na derrota para o Uruguai, na final da Copa de 1950, e há os cômicos, como Dadá Maravilha. E cada um deles, para além da história que vemos contada em campo, tem histórias particulares, narradas em surdina até que alguém as estampe numa notícia de jornal, numa crônica, numa entrevista na televisão. Aquela do Pelé, por exemplo. Contam que um jogo entre Vasco e Santos estava no final, com a vitória dos cariocas por 2 a 0, quando René, zagueiro do Vasco, se sentiu no direito de provocar Pelé, dizendo: “cadê o rei? O único que eu conheço é o rei Momo.” O outro zagueiro vascaíno, Moisés, prevendo o resultado da brincadeira, manda René calar a boca. Pelé, então, recebe a bola, dribla vários adversários e faz: 2 a 1. René continua provocando, e Moisés preocupado. Faltando três minutos para o apito final, Pelé faz mais dois golaços. Vitória do Santos. Ao final do jogo, Pelé pega a bola, leva a distinta até Moisés e lhe diz: “Entrega para a mãe do René e diz que foi um presente do rei.” Já Garrincha exercia outro tipo de majestade, mais poética, digamos. Era o “anjo de pernas tortas”, como escreveu Vinicius de Moraes. Garrincha jogava cada partida – de torneio regional ou de Copa do Mundo – como se estivesse jogando uma pelada de rua. João Saldanha conta que o Botafogo jogava a final de um torneio na América Central quando Garrincha aprontou das suas. Era um jogo difícil, e o time correndo atrás do título, que valia um polpudo prêmio em dinheiro. Eis que o Mané pega a bola, dribla meio time e fica na cara do goleiro. Para, ameaça chutar e não chuta. O time inteiro, mais todos que estavam no banco, gritam para ele chutar. Nada, ele ali, gingando na frente do goleiro. Até que, finalmente, chuta e faz o gol. Terminada a partida, vem a bronca de Saldanha (na época o técnico do time), querendo saber por que ele não chutara de uma vez. E a resposta de Garrincha: o goleiro deles não queria abrir as pernas, fiquei esperando. Quem conhecia bem o Garrincha era outro personagem de peso: Nilton Santos, um dos grandes nomes do time brasileiro campeão mundial de 1958 e chamado de “a enciclopédia do futebol”. Nilton conta que certa vez foi à cidade natal de Garrincha, Pau Grande (no interior do estado do Rio), para batizar a filha do amigo. “Fui apresentado aos vizinhos todos com um orgulho comovente da parte do Garrincha. Era como se só eu, ali, fosse um jogador famoso”, revelou Nilton Santos. Numa época em que defensor defendia e atacante atacava, Nilton revolucionou: lateral esquerdo, gostava de atacar, para desespero de Feola, técnico do Brasil em 1958. No jogo contra a Áustria, os brasileiros ganhavam de 1 a 0 quando, no início do segundo tempo, Nilton recebe a bola na defesa e se lança ao campo adversário. “Volta”, grita Feola. Ele continua avançando. “Volta, Nilton!”, se desespera o técnico. E o lateral nem aí, já ultrapassando a intermediária austríaca. Rouco, Feola faz uma última tentativa: “Volta, Nilton!!!” O craque apruma o corpo e, num belo chute da entrada da área, marca o segundo gol do Brasil. “Boa, Nilton!”, tenta gritar, afônico, o técnico Feola. Dizem que Nilton Santos marcava o ponta adversário com a ajuda do sol. É ele mesmo quem diz: “Nos dias em que o tempo ficava nublado, os companheiros me perguntavam como euia me virar.” Convenhamos: é ou não é um grande personagem? Mas nem só de heróis (e vilões) vivem as narrativas do futebol. Personagens tidos como secundários muitas vezes assumem papel principal quando menos se espera. Veja por exemplo os gandulas. A função de gandula surgiu com a construção do Maracanã. As bolas caíam no fosso e era necessário que alguém as pegasse de volta. Nessa época, o Vasco trouxera da Argentina um atacante que passava a maior parte do jogo à margem do campo, completamente alheio à partida, como se estivesse apenas vendo o jogo, do lado de fora. Seu nome: Gandula. Vem daí o termo. Pois os anônimos gandulas também têm, vez ou outra, seus dias de protagonista. Foi o caso daquele gandula que virou notícia depois de um jogo em Santa Cruz de Rio Pardo, interior de São Paulo, entre Santa-cruzense e Atlético de Sorocaba. Aos 44 do segundo tempo, um jogador do time da casa, que perdia por 1 a 0, arrisca um chute de fora da área. A bola sai rente à trave e se aninha na rede, pelo lado de fora. A árbitra do jogo vira de costas (nem se deu ao trabalho de apitar o óbvio tiro de meta) mas de repente ouve a reclamação dos jogadores do Santa-cruzense e olha para o bandeira, que corre para o meio de campo. Ela então se volta, vê a bola no fundo da rede e dá o gol, para desespero dos jogadores do Atlético. Só não sabia, a nobre e ingênua juíza, que, aproveitando-se do momento em que ela estava de costas, o gandula simplesmente apanhou a bola, entrou sorrateiramente em campo, jogou a bola no fundo das redes e voltou para o seu lugar, como se não fosse com ele. Com o empate, o time de Rio Pardo assumiu a liderança do campeonato, e o gandula ocupou as telas de televisão e as páginas de jornal, em seus quinze minutos de glória. À margem do campo durante a partida, técnicos de futebol também podem ser eternos personagens. Veja, por exemplo, o lendário Neném Prancha. Tão lendário que Armando Nogueira decidiu começar uma de suas crônicas afirmando logo: “Neném Prancha existiu. Quem quiser que duvide. Digo-o e dou meu testemunho, com firma reconhecida em todos os cartórios do futebol. Dormia embaixo da arquibancada do campo do Botafogo.” Admirado e sempre citado em suas crônicas por João Saldanha, Neném Prancha foi roupeiro e depois técnico do Botafogo, na década de 1950, mas acabou fazendo história como um pensador, um filósofo do futebol, como é conhecido até hoje. Armando Nogueira conta que o Prancha, certa tarde, apontou para as laterais do campo, dizendo: “Olhe, uma coisa está acontecendo com o futebol: a lateral do campo está sempre gramadinha e o meio está careca. Acho que os times estão jogando cada vez menos pelos lados. Um dia, os técnicos vão acabar com os pontas.” Profético, Neném Prancha foi não apenas um pensador, como dizia Armando Nogueira, mas um grande frasista. Há frases que todo boleiro repete sem saber que são de sua autoria. Por exemplo: “Se concentração ganhasse jogo, o time do presídio não perdia uma.” Ou outra: “O pênalti é tão importante que devia ser cobrado pelo presidente do clube.” E tem ainda uma outra, menos conhecida, em que Neném Prancha define, em poucas palavras, a naturalidade com que Didi fazia as jogadas mais brilhantes: “Jogador é o Didi, que joga como quem chupa laranja.” E quanto aos árbitros? A função em campo não condiz com estados emocionais afetados, é preciso ser frio como um iceberg. Pode ser verdade, mas esqueceram de dizer isso ao Margarida, apelido do juiz Jorge Emiliano, que fez furor nos anos 1990 com seu modo nada ortodoxo de apitar um jogo. Margarida muitas vezes roubava a cena. Na hora de dar um cartão, quase se dobrava ao meio (o corpo ficava parecendo um arco). Quando apitava, era para chamar a atenção até de quem estava fora do estádio, com o som longo e estridente do apito. E quando precisava sair da jogada sem perder de vista a bola? Simplesmente corria longas distâncias de costas, aos saltos, como se estivesse não num campo de futebol mas num palco, dançando balé. A torcida delirava. Figurinha fácil dos episódios do Canal 100, Margarida foi, sem dúvida, um personagem e tanto. Para ser justo, precisaria falar ainda de muitos outros. Além de jogadores não citados (e são uma multidão de se perder a conta), de outros gandulas, técnicos e árbitros, precisaria falar também dos massagistas (vide o memorável Mário Américo, massagista da seleção brasileira em nada mais nada menos do que seis Copas seguidas, começando em 1954!), dos roupeiros, dos motoristas do ônibus do time, dos porteiros do estádio e de todos aquele que, de uma forma ou de outra, vão compondo a inesgotável antologia das narrativas de futebol. Mas o tempo urge e, bem ou mal, o recado foi dado, eu acho. Como diz a sabedoria popular: quem quiser que conte outra. Ou, como diria o lendário (porém real) roupeiro, técnico e filósofo Neném Prancha: “O importante é o principal, o resto é secundário.” N Estrela Solitária as crônicas que escrevia semanalmente para a Manchete Esportiva, Nelson Rodrigues vez ou outra elegia o personagem da semana. Era quase sempre um jogador o tal personagem, alguém que havia se destacado na rodada e merecera sua atenção. Pois numa dessas crônicas, Nelson elegeu como personagem da semana não um jogador mas uma torcida: a do Botafogo. A certa altura da crônica, o tricolor Nelson afirma que “nem todo mundo pode imaginar o que é ‘ser Botafogo’. Vejam um vascaíno, um rubro-negro e um tricolor. Eles se parecem entre si como soldadinhos de chumbo. Reagem diante da derrota, da vitória e do empate de maneiras bem parecidas. Suas euforias e depressões são equivalentes. Mas há, no botafoguense, coisas que só ele tem e que o distinguem de tudo e de todos”. Numa crônica anterior, Nelson já havia escrito que há sempre, nas vitórias do Botafogo, “uma pungência, um patético que faltam às demais”. Tanto que ele, naquela semana, passa por cima de uma goleada do América sobre o Corinthians para falar da vitória de 2 x 0 do Botafogo sobre a Portuguesa. O jogo, segundo o cronista, tinha tudo para ser uma festa: o alvinegro, capitaneado por Didi e Garrincha, passeou em campo, dominando plenamente o adversário, e poderia, sem exagero, ter ganhado de 10 x 0. A tal ponto que Nelson se perguntou, ao final da partida, temendo pela sorte do seu Fluminense: “O que seria de nós se o Botafogo jogasse sempre assim?” A partida, no entanto, terminou apenas num dramático, num suado 2 x 0. Por quê? Responde o cronista: “Tudo é mais difícil para o Botafogo e o povo, com seu instinto agudo, costuma dizer: ‘Há coisas que só acontecem ao Botafogo!’ Exato.” E Nelson decifra o enigma ao dizer que o problema todo é que o time “tem contra si a fatalidade, mesmo quando assombra, mesmo quando esmaga, mesmo quando arrebenta”. O botafoguense Arthur Dapieve sabe bem o que é isso. Numa crônica intitulada Esse nosso amor, Dapieve comenta o espetáculo dantesco que teve como palco o Estádio dos Aflitos (o nome do estádio: ironia do destino?), em Recife, na partida Botafogo e Náutico pelo Campeonato Brasileiro de 2008. Aliás, você por favor me responda, caro leitor: algum jogador do seu time já foi preso em pleno gramado e levado à força por policiais pelo meio da torcida adversária? E caso isso tenha acontecido, o presidente do seu time foi atrás do jogador para protegê-lo e acabou preso também, como naquele jogo? Nessa crônica, Dapieve escreve: “Tenho dois amigos jornalistas paulistas e são-paulinos que trabalharam no Rio de Janeiro durante algum tempo. Ambos se tornaram botafoguenses porque se assombraram com a nossa incrível concentração dramática. Eles dizem que em um ano de Botafogo acontece o suficiente para encher cinco anos do São Paulo. Sem os títulos, infelizmente.” Se torcer para um time de futebol é sempre uma aventura, torcer para o Botafogo é um pouco mais do que isso. Nunca se sabe como vai acabar a partida, se é que vai acabar. Aliás, não se sabe exatamente nem como éque vai começar. Quer um exemplo? Essa aconteceu comigo. Em 1996, o time estava disputando a Taça Teresa Herrera, na Espanha, e ia jogar contra o Juventus, da Itália. Só consegui chegar em casa no início do segundo tempo e quando liguei a televisão vi o Juventus com sua camisa tradicional (com listras verticais, brancas e pretas) e o adversário (supostamente o Botafogo) de camisa azul! Levei um tempo até entender aquilo. Parecia outro time. Mas não, lá estava o figuraça Túlio Maravilha, na sua vistosa camisa cor de anil. O que aconteceu: o árbitro achou que as camisas do Juventus e do Botafogo eram parecidas e fez um sorteio para ver quem mudava. O Botafogo foi o escolhido. Como não tinha levado uniforme reserva, pegou emprestadas as camisas do... La Coruña! Agora me responda com sinceridade: é normal isso? E o Botafogo ainda foi o campeão do torneio! A valer a superstição – outro traço típico da torcida botafoguense – o time só deveria jogar de camisa azul ou pelo menos só deveria disputar outras vezes esse torneio com camisa dessa cor. Por curiosidade, resolvi investigar se isso já havia acontecido antes. Claro que não me surpreendi quando descobri que sim, várias vezes. Alguns exemplos. Contra o Americano de Campos, em 1923, o time usou – repare bem – o segundo uniforme do Andarahy Athletico Club! Cor da camisa? Verde! Dez anos depois, mesma confusão de uniforme e o Botafogo novamente joga com camisas emprestadas, agora contra o Engenho de Dentro, entrando em campo com camisas vermelhas (dessa vez sequer se tem registro de quem emprestou o uniforme). Em 1968, em pleno Maracanã (portanto, com mando de campo naquela partida), o time entra com a tradicional camisa listrada, o Grêmio também (com a sua de cores preta, branca e azul) e quem é que vai mudar de uniforme? Adivinha. O Botafogo pega emprestadas as camisas azuis da Adeg (a associação desportiva do antigo estado da Guanabara). Já na década de 1970, o episódio se repete. O estádio é o mesmo Maracanã, o jogo é contra o Paissandu, de Belém. A Adeg agora virou Suderj, quer dizer, o nome é diferente mas a função continua a mesma: emprestar camisa para o Botafogo – dessa feita, amarelas! Talvez por isso, por essa absoluta imprevisibilidade, o Botafogo seja, até prova em contrário, o time que mais combina com quem lida com literatura. Se você, meu amigo ou minha amiga, é poeta, contista, romancista ou exerce a crítica literária e ainda não tem time, não se acanhe: as portas estão abertas. Entre, aperte os cintos e se prepare para embarcar na nave louca! Não era assim que pensava, por exemplo, o Paulo Mendes Campos? É dele a frase: “Enfim, senhoras e senhores, o Botafogo é um tanto tantã (que nem eu). E a insígnia de meu coração é também (literatura) uma estrela solitária.” E o Vinicius de Moraes? Diz ele que escolheu torcer pelo alvinegro por um muito nobre motivo: alguns nomes de ruas do bairro de Botafogo. Nomes sublimes, sugerindo belas senhoras: Bambina, Mariana, Clarisse. Dizem que o poeta, em seus tempos de diplomata, conheceu em Los Angeles o magnata Mr. Buster, arquimilionário que se espantou quando o brasileiro decidiu abandonar o poder e a grana que lhe oferecia o cargo e voltar para o Rio. Mais tarde, Vinicius escreveria um poema criticando a vida de luxo de Mr. Buster e afirmando os motivos de sua decisão. Entre eles: torcer para o Botafogo. E aí estão escritores contemporâneos que não me deixam mentir. De estilos e gerações variados, eles se espalham pelo país e até pelo exterior, como a Adriana Lisboa, botafoguense por herança paterna, materna e o que mais possa existir, e que hoje espalha a glória do clube no país em que futebol se chama soccer. Agora, nem a Adriana nem o Luis Fernando Verissimo têm manias de torcedor, o que é digno de nota em se tratando de botafoguenses. Quer dizer, o Verissimo só não gosta de falar durante o jogo, mas o Verissimo não querer falar não chega a ser, convenhamos, uma grande novidade. O que é diferente, no caso, é que ele também não gosta que falem com ele enquanto o Botafogo (ou o seu Internacional) está jogando. De manias o Jorge Viveiros de Castro diz que se livrou, depois de tantos anos e várias mandingas fracassadas. Continua roendo unha, xingando juiz, mandando algum jogador para aquele lugar, coisas assim, normais. Agora, mania não tem mais não. Cansou. Quer dizer, dia desses ele foi flagrado assistindo a um jogo do Botafogo, na televisão, encostado na parede e plantando bananeira. Jorge explicou que era apenas um exercício de ioga, para amenizar a tensão. Sei. Fernando Molica é um botafoguense autêntico, o que equivale a dizer que não regula muito bem da bola (com o perdão do trocadilho). Repetir (ou não) determinada camisa, rezar para que, depois de um primeiro tempo ruim, algo o obrigue a mudar de lugar no estádio (não pode ser por vontade própria, tem que acontecer alguma coisa), variar (ou não) de amigos na arquibancada, pedir aos céus para ver, no dia do jogo, alguém com a camisa do Botafogo antes que apareça alguém com a camisa do adversário são algumas de suas, digamos, estratégias. O historiador Raul Milliet Filho, autor de Vida que segue: João Saldanha e as Copas de 1966 e 1970, não gosta de ver jogo do Botafogo na televisão. Diz que prefere o estádio porque dali pode ter uma ampla visão do campo e analisar taticamente a partida. “Na televisão você vê o lance, mas não vê o jogo”, justifica. Faz sentido, sem dúvida, mas que pode haver algo estranho por trás disso, pode. Para alguém que jamais cruza as pernas quando está vendo jogo do Botafogo, tudo é possível. Essas histórias todas levam a crer que, se dependesse de manias, o Botafogo seria campeão mundial todos os anos, com folga. E por que não é? Porque se trata de tolice, mera superstição, dirá você, leitor incrédulo. Pois tenho outra hipótese para a explicação do fenômeno: uma esquisitice atrapalha a outra. Isso mesmo, uma está anulando a outra. E são tantas que, claro, nos perdemos. Faço aqui, portanto, nesse momento histórico, uma proposta que pode devolver ao alvinegro seus dias de glória: uma uniformização das manias. Se até a língua portuguesa resolveram uniformizar, que façamos também isso, nós que na história já trocamos tantas vezes de uniforme: uma gramática das manias botafoguenses. Sentar bem no meio do sofá: certo ou errado? Vestir a meia do avesso na véspera do clássico: certo ou errado? Entrar de lado na catraca do Maracanã: certo ou errado? Quem sabe funciona. U O narrador ma pergunta da maior importância atravessa se não os séculos pelo menos algumas décadas, sem encontrar resposta definitiva: qual a função do radinho de pilha na vida do torcedor de futebol? O sujeito está no estádio, digamos que num lugar privilegiado, de onde pode ver perfeitamente tudo o que está acontecendo em campo. Ninguém atrapalha sua visão – nem vendedor de refrigerante ou cerveja, nem torcedor se levantando a toda a hora na sua frente, nem gente passando de um lado para o outro –, nada o impede de ver perfeitamente cada jogador, cada lance da partida. E, no entanto, lá está o dito cujo, colado ao ouvido do cidadão: o radinho de pilha. Você poderá dizer que a explicação é óbvia: o rádio transmite informações que o torcedor não tem, como as que são fornecidas pelo repórter de campo, por exemplo, além de transmitir os comentários de um especialista. Concordo, é bastante razoável, mas não suficiente. Há uma outra coisa que sempre moveu e ainda move o torcedor a levar ao estádio o seu radinho de pilha (ou seu MP de última geração, celular com rádio ou seja lá o que for): ele precisa que alguém lhe conte uma história. Exatamente isso: ele precisa de um narrador. Vivemos de ouvir e contar histórias, essa que é a verdade. Daí a figura do contador de histórias – o narrador – ser absolutamente insubstituível. Ela pode mudar de feição de uma época para outra, de um lugar para outro, mas vai estar sempre presente. Foi issoo que percebeu Walter Benjamin, que na década de 1930 escreveu um ensaio – O narrador: considerações sobre a obra de Nikolai Leskov – mostrando como o contador de histórias das sociedades primitivas foi substituído, no início da modernidade, pelo romance. Quer dizer, se com a era moderna não havia mais espaço para o contador à moda antiga – um velho que reunia em torno de si alguns ouvintes, ansiosos por uma narrativa –, o narrador migrou para outro espaço, o do livro. Quando ainda não havia televisão, o contador de histórias de futebol estava no rádio. Era em volta deste narrador que a família se reunia para acompanhar os jogos importantes. Não havia uma fogueira em torno da qual os ouvintes pudessem se reunir para ouvir o velho contador, mas havia o aconchego da sala e a voz que vinha de longe (às vezes do outro lado do oceano) para descrever cada episódio daquilo que às vezes se configurava como uma verdadeira epopeia. O jogo de futebol, desnecessário dizer, é uma narrativa, com começo, meio e fim. Cabe ao narrador contá-la. E como quem conta um conto aumenta um ponto, a história vai variar conforme o estilo do narrador. Um exemplo. Na Copa da Alemanha, em 2006, o Instituto Ibero- Americano de Berlim montou uma pequena e preciosa exposição sobre futebol. Quem a visitasse teria o privilégio de ouvir algumas gravações memoráveis, dentre elas duas narrações distintas de um mesmo lance: o segundo gol de Ghiggia na final da Copa de 1950, no Maracanã, que deu o título ao Uruguai, contra o Brasil. O brasileiro narrou o lance com uma voz soturna, como se fosse um aviso fúnebre: gol do Uruguai. E repetiu, talvez para convencer a si mesmo de que era verdade: gol do Uruguai. O uruguaio, por sua vez, ultrapassava todos os limites da euforia, verdadeiramente uivando ao microfone, diria mesmo que dava para ouvi-lo saltando da cadeira, de braços abertos e peito estufado, enquanto repetia rouco as palavras mágicas, com vogais e consoantes multiplicadas ao infinito! A partida era a mesma, dirá você, se for alguém sensato, com a balança do juízo bem ajustada. No mundo do futebol, percebe-se, ela pende para o lado da fantasia e, portanto, o que se pode depreender é que eram duas histórias diferentes: uma com final feliz, a outra com desfecho trágico. E se quisermos dar um pulo no tempo, passando do radinho de pilha à era da televisão, veremos que a necessidade do narrador permanece. A situação é ainda mais interessante, em certo aspecto. Agora então é que você não precisaria mesmo de ninguém para lhe contar a história do jogo. Você está na sua casa, sentado confortavelmente no sofá, e à sua frente a televisão vai mostrando as cenas uma a uma, vistas por vários ângulos e com a melhor imagem possível. E por que, apesar disso tudo, você precisa de um sujeito dizendo: Fulaninho recebe o lançamento pela direita (você está vendo isso, se não tiver problema de lateralidade sabe o que é esquerda e direita), coloca a bola no chão (sabe o que é bola e chão, não sabe?) e chuta direto para o gol (você também sabe onde fica o gol, suponho)? Numa crônica anterior, sobre escritores torcedores, citei o caso do José Castello, que tira o som da televisão quando o jogo está muito tenso. Aquilo de alguma forma vai mudar o resultado da partida? Ele sabe que não, mas sabe também que sem narrador a história perde sua dramaticidade, perde sua condição de artifício, ficção, espetáculo. E assim ele pode ter a sensação de que o jogo está sob controle. Se você pensa que o Castello não regula bem da ideia, há coisas piores. Há torcedores que gostam de ver o jogo na televisão mas não gostam do tipo de narrador que ela, na sua linguagem específica, oferece ao espectador. Esses (e posso lhe garantir, com conhecimento de causa, que não são poucos) optam pelo gesto absolutamente intertextual de tirar o som da televisão e ligar o rádio. Quer dizer, veem as imagens na tela mas ouvem a partida no rádio! E o interessante é que, de fato, são duas formas completamente diferentes de narrar. Na televisão, o narrador não conta tudo, justamente porque sabe que você está ali, vendo. Há pequenos intervalos de silêncio na narração e isso não impede que você continue acompanhando a história. Silêncio no rádio é suicídio, convenhamos. Se o narrador para de contar é como se a história estivesse sendo interrompida – aconteceu algum problema de transmissão, o ouvinte há de pensar. É preciso haver algum som, seja de que tipo for, o tempo todo. Outra diferença: na televisão, o narrador não pode inventar muito. Claro que ele precisa dar um toque pessoal na narração, caso contrário seria melhor nem estar ali, dando vaga a outro, mas se a bola passou longe da trave ele não pode dizer que passou raspando. Não dá. Mas no rádio pode?, perguntará o leitor ingênuo, daqueles que nunca ouviu um jogo pelo rádio. Não apenas pode como acontece sempre. O narrador, nesse caso, precisa trabalhar com a imaginação do seu ouvinte, e a estratégia normalmente usada é a da extrema dramaticidade. O drible foi normalzinho? Vira um drible magistral! O lançamento foi até bonitinho? Transforma-se num lance antológico! O gol foi sem querer? Pois agora é gol de placa! Há também, claro, os narradores de rádio que preferem ser mais contidos, sem tanto exagero, e buscam segurar seu ouvinte com outras estratégias, como a do humor, por exemplo. E há, por outro lado, os narradores de televisão que se apropriam da linguagem do rádio, com inflexões de voz mais carregadas e gritos de gol, digamos, um pouco mais sonoros do que o habitual. O que importa, no caso, é o modo que cada narrador encontra para contar sua história. Isto serve, de diferentes maneiras, para o rádio e a televisão. E, sem dúvida alguma, para a literatura. Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, traz um belo enredo, mas o que seria dele sem o modo de contar, o jeito todo torto (que caminha para frente e para os lados), do jagunço-narrador Riobaldo? E o que seria de Dom Casmurro não fosse a sacada genial de Machado de Assis: criar um narrador ambíguo (não por acaso nasce dele a ambiguidade de Capitu) como Bentinho? Como a literatura, o futebol também guarda no seu baú histórias de todo tipo. O drama, a tragédia, a comédia, o suspense, tem para todos os gostos. E para cada uma delas há um narrador. O narrador não é apenas uma voz, é a alma da história. Um jogo de futebol não deixa de existir por não ter quem o narre. Ele está acontecendo lá, no campo, independentemente de alguém estar ou não contando o que se passa. Agora, cá entre nós, uma coisa posso lhe dizer, no segredo confessional das quatro linhas (da página): sem um bom contador de histórias, o jogo não vai ter a mesma graça. C O enredo ada escritor tem seu modo próprio de construir o enredo, a trama de uma história. Edgar Allan Poe, por exemplo, dizia que se deve começar pelo final. Quer dizer, o escritor deve saber exatamente aonde quer chegar e qual efeito pretende causar no leitor durante e, sobretudo, no final da história, e só então, sabendo disso, deve começar a escrever. Jorge Luís Borges afirmava que seus contos nasciam sempre de um sonho – ele não seria mais do que um mero escriba, uma espécie de secretário de si mesmo, cujo ofício se resumiria a escrever, na vigília, o que o outro ele (este sim o verdadeiro autor) vislumbrara durante o sono. Ernest Hemingway achava que tudo numa história, todos os detalhes – incluindo, claro, os do enredo – devem ser econômicos. O escritor, para ele, deve cortar qualquer excesso e deixar na página apenas o que de fato valha a pena narrar. Não por acaso, Hemingway costumava dizer aos jovens escritores que lhe pediam conselhos: escreva como se estivesse passando um telegrama pago do seu próprio bolso. O enredo é parte essencial de uma história. Pode ser rocambolesco, cheio de idas e vindas, pode ser direto, com começo, meio e fim (nessa ordem) ou pode começar no meio, voltar ao início e terminar no clímax (comono conto “A cartomante”, de Machado de Assis). E há, claro, contos e romances com enredos que parecem nem existir, como em boa parte da obra de Clarice Lispector. Mas mesmo aí, nesse tipo de narrativa em que nada parece acontecer, algo está acontecendo (nas entrelinhas, nas sombras, de tal modo que o leitor, quando se dá conta, pronto: lá está a história, acontecida à sua frente durante a leitura, sem que ele percebesse). Outra coisa importante: toda história tem a sua duração. Aristóteles sabia disso e há muitos séculos já falava sobre a importância da duração na tragédia grega. Alguns enredos cabem melhor numa história curta, num conto, outros num romance ou numa novela. E mesmo isso é variável, não há uma receita prévia. Uma partida de futebol, como toda narrativa, também tem o seu enredo. E também aqui o que prevalece é o imprevisível. Você sabe como começa a trama, mas não sabe como vai acabar (pelo menos nas boas histórias de ficção é assim). Só que, no futebol, há ainda um outro traço a pesar na balança das surpresas. E trata-se justamente da duração. Não sei se você já pensou no fato – se não, em que andou pensando durante toda a sua vida que não lhe ocorreu refletir sobre algo tão fundamental? – de que uma partida de futebol não tem um tempo exato de duração. Claro que tem, dirá o leitor mais apressado: 90 minutos. Pois então me responda, o tal leitor que acaba de pensar isso, por favor me diga: qual partida você viu que tenha durado 90 minutos? Nenhuma. E isso porque o árbitro tem o poder de dar acréscimos ao tempo regulamentar, para compensar paralisações de vários tipos, como o tempo gasto para substituições de jogadores, cobranças de pênaltis, atendimento médico, confusões em campo etc. Se considerarmos que tudo num jogo, inclusive as paralisações (que, aliás, dependendo do que sejam, podem ser mais emocionantes do que o jogo em si), tudo faz parte do espetáculo, uma partida tem sempre mais do que uma hora e meia. Noutras palavras, você jamais pode saber com exatidão quando a partida vai acabar. Lembro-me de uma vez em que estava num hotel, em Salvador, aguardando o momento em que o professor que me convidara para dar uma palestra num centro cultural passaria de carro para me apanhar. A palestra havia sido marcada com alguns meses de antecedência e não sei quem foi mais delirante: o professor que marcou o evento para aquele dia ou eu, que aceitei. Só sei que aquilo foi resultado de extremo devaneio: agendar uma conversa sobre literatura para o dia 15 de julho de 1998. Quando a data foi escolhida, ainda não dava para saber, tudo bem, mas talvez se pudesse prever o desacerto de um programa desse justo no dia em que Brasil e Holanda disputariam vaga para a final da Copa da França! Meu anfitrião, muito gentil, me ligou alguns minutos antes do jogo dizendo que eu não me preocupasse: poderia assistir tranquilamente à partida no conforto do meu quarto e, quando terminasse, ele estaria me esperando na recepção do hotel. Eu lhe disse, então, que não seria uma boa ideia: caso o jogo terminasse empatado, haveria prorrogação de 30 minutos. Ele, candidamente, me respondeu que não sabia disso e ficou de ligar mais tarde, para combinarmos melhor. Faltando quinze minutos para acabar o jogo, ele me liga. Não, meu caro, ainda não dá para saber se vai terminar empatado, só dá para saber quando o juiz apitar o final, eu lhe respondi, quase educadamente. Quem se lembra daquele jogo sabe que terminou empatado: 1 x 1. Teve início a prorrogação. No intervalo da prorrogação, novo telefonema – ele estava a caminho, em 15 minutos estaria no hotel. Novamente fui obrigado a esclarecer as coisas: se a prorrogação terminasse empatada, haveria disputa de pênaltis. E aí fui categórico, procurando manter o mínimo de delicadeza: o jogo não tem hora pra acabar, só acaba quando termina, entendeu?! A palestra tinha tudo pra ser um fiasco. Não havia público nenhum quando chegamos. Pouco a pouco foram aparecendo as pessoas, algumas com camisa do Brasil e cara de quem não sabia direito o que iria acontecer ali. A saída foi esquecer tudo o que eu havia preparado e partir para o improviso: falamos do jogaço daquela tarde em que o Brasil venceu a Holanda nos pênaltis, por 4 x 2. Emendamos a conversa com outros assuntos. No final da noite, até de literatura falamos! E há também o chamado jogo de 180 minutos. Trata-se de uma situação comum em certos campeonatos: a final se dá em duas partidas seguidas, e o campeão será o que obtiver mais pontos na soma das duas. Em caso de empate de pontos, vale o saldo de gols. Numa final assim, como classificar a narrativa: são duas histórias de um mesmo livro, como dois contos de uma coletânea, por exemplo, ou é uma única história contada em duas partes? (Diga-se de passagem, se uma partida não dura 90 minutos, essas duas obviamente não duram 180, até porque, havendo empate no número de pontos e também no saldo de gols, há prorrogação ao final da segunda, que pode ser seguida, claro, por cobrança de pênaltis.) Não faz muito tempo aconteceu algo que apenas reforça o que estou dizendo. O jogo era entre Fluminense e Figueirense, já nas últimas rodadas do Brasileiro de 2008. Por problemas com o sistema de iluminação do estádio do Figueirense, onde foi realizada a partida, o início foi adiado em 1 hora e 45 minutos. Pois começa o jogo e, aos 15 minutos, acontece novo problema com os refletores do estádio. O árbitro então decide pelo adiamento do jogo, que só seria realizado do ponto onde fora interrompido, ou seja, começou 1 x 0 para o Fluminense (placar do primeiro jogo até o momento da interrupção), e a etapa inicial, em vez dos 45 minutos regulamentares, teve apenas 30, é claro. Você pode achar exagero, mas, de certa maneira, esse jogo durou uma semana! E imagina a cena: no dia seguinte à segunda parte do jogo – que acabou terminando 1 x 0 mesmo –, algum desavisado chega e lhe pergunta qual foi o resultado. Você diz, e o sujeito quer saber mais: quando é que foi marcado o gol do Fluminense? Nessa hora, então, você pode responder simplesmente a verdade, na maior tranquilidade desse mundo: ah, foi semana passada. Resumindo a ópera: um jogo é pura ficção. Digo mais: é uma ficção fantástica. Talvez algum dia alguém venha a descobrir – a despeito de qualquer coerência histórica – que o futebol foi uma invenção de Hoffman, Maupassant, Calvino, Cortázar ou algum outro contador de histórias que giram em torno do sobrenatural. Senão vejamos. Imagine que você pega um livro e, antes de começar a ler, parte para as preliminares: desliza suavemente a mão pela capa, sentindo a textura, cheira as páginas (se for um livro novo, recém-saído da livraria), lê a orelha, a quarta capa etc. Nesse preâmbulo à leitura você, por curiosidade, resolve ver quantas páginas o livro tem. Digamos que sejam 123. Sim, seu livro tem 123 páginas e você sabe que, ao virar a centésima vigésima terceira estará, irremediavelmente, na última. Não é assim? Pois um jogo de futebol é como um livro que, ao ser manuseado antes da leitura, tem lá as suas, vamos supor, 123 páginas. Você então começa a ler, se empolga, vai acompanhando de corpo e alma a história e, quando já está no finalzinho, o livro subitamente ganha mais duas páginas, surgidas assim do nada, feito mágica! Você se surpreende de início mas, como num conto de Kafka, resolve não pensar na estranheza daquilo e segue adiante. Você lê as duas páginas novas e quando a trama parece, agora sim, se resolver de vez, surgem entre os seus dedos nada mais nada menos do que outras cinco páginas. A essa altura, você já nem liga mais para o absurdo da situação e não se espanta nem um pouquinho quando mais umas seis ou sete páginas são emendadas ao seu livro. Agora me diga com franqueza: é ou não é um conto fantástico? Portanto, quando você se sentar no seu lugar no estádio ou na poltrona diante da televisão e começar a assistir a uma partida de futebol, pense: é umconto novo que está começando. E se deixe levar pela leitura, sem nunca saber ao certo quando é que vai acabar. E Meu pequeno amigo cubano m agosto do ano passado estive em Havana, a convite da Casa de Las Américas, num encontro sobre Machado de Assis. Algumas semanas antes de embarcar, escrevi para o Jorge Fornet, um dos organizadores do evento, perguntando sobre a possibilidade de se organizar um jogo de futebol num intervalo qualquer entre as palestras e debates ou mesmo depois, no final de semana. Não estranharia se ele respondesse que seria mais fácil Cuba se tornar um país capitalista do que atender ao meu pedido. Mais contido do que isso, mas sem deixar de lado seu bom humor, ele me respondeu que seria uma missão impossível marcar um jogo em Havana que não fosse de beisebol. De todo modo, se eu não conseguisse, poderia pelo menos escrever uma crônica sobre como não joguei futebol em Cuba, ele sugeriu. Tentei como pude mas nem os colegas brasileiros presentes ao evento nem os próprios cubanos me levaram muito a sério. O encontro terminou na sexta-feira e no sábado planejava rever alguns lugares da cidade por onde passara muito rapidamente. Quando, no entanto, desci para o café da manhã, a recepcionista avisava a todos que devíamos fazer as malas e ficar a postos, pois a qualquer momento o hotel poderia ser evacuado. O furacão Gustav estaria passando por Havana naquele sábado, e devíamos nos preparar para trocar o hotel por outro mais seguro, talvez noutra cidade. Mais tarde fomos informados de que não haveria necessidade de mudança, podíamos desfazer as malas. De todo modo, a defesa civil determinou que ninguém saísse às ruas, e o pessoal do hotel pediu que ficássemos sempre num lugar onde alguém da recepção pudesse se comunicar conosco (farejando uma ideia para um romance policial, erótico ou de terror, fiquei imaginando em que lugar de um hotel alguém poderia ficar incomunicável). Obrigado a permanecer ali o dia todo, tirei da mochila o meu inseparável caderno espiral (tipo pequeno e, confesso, com o Homem-Aranha na capa), pedi logo ao garçom do bar um mojito (com pouco açúcar e caprichado no rum) e me preparei para seguir o sábio conselho do Jorge Fornet. Afinal, com mais uns dois goles daquele mojito soberbo, seria capaz de escrever até sobre a influência da lua nas plantações de tabaco, que dirá escrever sobre o nada, quer dizer, sobre o jogo que não houve. Escreveria sim a crônica, ora essa, nem que para isso precisasse lançar mão da pena da galhofa e da tinta da melancolia, como diria o velho Brás Cubas. Chovia e ventava muito. Árvores balançavam com força, as raízes se segurando como podiam, e as pessoas do hotel se amontoavam nas enormes vidraças para ver o que se passava lá fora, quem sabe torcendo para ver um carro velho dando cambalhotas ou uma cantora cubana de charuto na mão voando pelos ares. Me lembrei do que havia lido fazia tempo num jornal, depois de uma enchente que quase destruiu a cidade de Goiás, uma matéria sobre uma nova modalidade turística: o turismo-catástrofe. Tentava voltar para o meu caderno quando um garoto de uns doze anos de idade entrou feito um foguete pela porta da recepção, fazendo um barulho danado e quase se estatelando no chão escorregadio. O segurança quis colocá- lo para fora mas o menino – de calção, camiseta, tênis imundo e com uma bola de futebol nas mãos – pediu por favor para ficar ali, protegido da chuva e do vento. Me levantei, caminhei até o porteiro e intercedi a favor do pirralho, que me agradeceu com um sorriso maroto e foi se sentar no chão mesmo, num cantinho da recepção onde não havia ninguém, bem lá no fundo, com sua bola no colo. Era uma bola oficial, de couro, mas muito maltratada. E meio murcha também. Percebi que ele olhava para a rua o tempo todo, pela vidraça. Perguntei se estava preocupado com o furacão. Não, ele respondeu, já estava acostumado. E esse Gustav nem vai passar por Havana, ele me afirmou convicto. Como é que você sabe, viu na televisão? Não, não gosto muito de televisão. Então como foi? Meu tio me disse. Seu tio? É, meu tio, ele disse que o furacão vai passar só pelo sul da ilha. Mas o noticiário está mostrando que ele vai passar por Havana também. É, mas meu tio falou que ele vai apenas soprar de leve no rosto da cidade, como se fosse um carinho. E completou: o pior vai vir depois, o Gustav é só um mensageiro, o furacão de verdade ainda não chegou. Foi seu tio quem disse isso também? Foi, ele entende tudo de furacão e de futebol. Quis saber o nome do menino. Diego, ele respondeu, e emendou sem que eu tivesse perguntado: e jogo no gol! É mesmo? É, ninguém gosta de ser goleiro, mas eu gosto. Perguntei por que ele estava com a bola, se tinha acabado de chegar de algum jogo. Ele então me revelou que era exatamente este o problema: ele não tinha chegado, ele ainda iria para o jogo. Os amigos haviam marcado uma partida contra um outro time. Entendi que ele estava se referindo ao que no Brasil a gente chama de jogo contra, que é quando os garotos de uma turma se reúnem não para a pelada de todo dia, mas para algo bem mais importante: um jogo contra outra turma. E se você não sabe, vai saber agora: jogo contra é algo muito, mas muito sério mesmo! É marcado com antecedência e envolve mais do que os próprios jogadores. Tem a torcida (formada pelos meninos que não jogam mas gostam de assistir e, principalmente, as namoradas ou as meninas que estão na mira dos fogosos atletas) e, de vez em quando, tem até algum adulto assistindo. Via de regra, porém, os adultos não são convidados para um jogo contra. Até porque não se trata de jogo de escola, com todo mundo uniformizado, arrumadinho e tal, jogo contra é em campinho de terra ou de grama ruim, é jogo de rua, e, às vezes, sai até briga. Naquele momento, conversando com o Diego, finalmente confirmei uma antiga teoria, rebatida no Brasil por peladeiros nacionalistas: o jogo contra tem uma dimensão internacional, é um patrimônio da humanidade! O menino não estava nem aí para o furacão. O tio dele, aliás, já havia dito que não haveria problemas e mesmo que houvesse ele já estava acostumado. A questão era que, com aquela chuva e aquela ventania toda, talvez não tivesse o jogo contra. Isto sim, era um problemão. E o pior de tudo: haviam combinado de se encontrar lá no campinho mesmo, e o Diego era o dono da bola. Ele me disse isso, que era o dono da bola, e com orgulho a estendeu pra mim, perguntando se eu não a achava bonita. Sim, concordei, muito bonita. Então, pedindo que eu aproximasse o rosto, disse no meu ouvido: posso lhe contar um segredo? Fiz que sim. Sabe por que resolvi ser goleiro? Não, respondi. Porque não gosto de maltratar a bola. Como assim? Não gosto de chutar a bola, entendeu? Eu tinha entendido. Aquilo era poesia pura. Ele não poderia ter contado seu segredo para ninguém a não ser para um estrangeiro que provavelmente ele nunca mais veria de novo. E seu segredo era que jogava no gol porque assim poderia tratar a bola com carinho, com as mãos. E poderia até abraçá-la às vezes, quando o chute do adversário pedisse que ele a encaixasse com firmeza. Pensei em lhe dizer que a bola também pode ser tratada com carinho pelos pés, muitos craques fizeram e fazem isso. Pensei mas não disse. E nem foi apenas para preservar a bela história do Diego, foi também porque fomos interrompidos por um bando de garotos do lado de fora, que chegaram não sei de onde e começaram a bater na vidraça, bem perto de nós. Diego se levantou de repente. Eram os seus amigos, os caras do seu time que estavam ali, fazendo gestos para que saísse logo, o que estava fazendo escondido no hotel? A chuva e o vento haviam diminuído, e Diego já corria na direção da porta de saída, quando de repente parou e voltou até onde eu estava. Me deu um abraço apertado e foi correndo se encontrar com os amigos. Eu sabia onde era o campinho, já havia passado por lá algumas vezes naquela semanae tinha visto algumas crianças jogando bola (provavelmente o Diego estava entre elas). Meu primeiro impulso foi ir atrás dele mas hesitei. Não estou acostumado com furacões nem tenho um tio que entende tudo sobre eles. Fiquei por ali mesmo, com meu caderno, imaginando o que escrever sobre meu pequeno amigo cubano. Da esquerda para a direita, em pé: Levy, Marcelo, Luiz Paulo, Peru, Pelé, Henrique e Valério. Agachados: Flávio, Isaías, Márcio, Guto, Wilson, Mello e Jorginho. Da esquerda para a direita, em pé: Waldir, Raul, Baú, Mário, Luciano, Robson, Luiz, Osvaldo, Carlos Alberto e Jorge. Agachados: Pedrinho, Bicicleta, Antônio Carlos, Beto, Marcão e Kamarão. N Um time chamado CADUCA uma de suas crônicas, publicada no livro Coroas não se mancam!, João Saldanha brinca com os atletas de final de semana, os quarentões que aos sábados e domingos ocupavam os campos de futebol de alguns bairros do Rio, Petrópolis e Teresópolis na ânsia de praticar um esporte que não seria mais para eles. No seu humor ferino, Saldanha cita o caso de um laboratório francês que ofereceu como brinde para seus clientes um caderninho todo bem-feito, com capa de couro e encadernação caprichada, onde se podia ler: “O que deve fazer um atleta depois dos quarenta anos.” Quando o cliente abria o caderno, se deparava com folhas e folhas completamente em branco. Felizmente os mestres também erram. Estivesse certo o Saldanha, talvez não existisse hoje o glorioso Clube Atlético Duque de Caxias, de Teresópolis, mais conhecido na cidade e arredores por sua sigla: CADUCA. Os outros que me perdoem, mas o CADUCA é diferente. A começar pelo drible do nome, que finge ir para um lado e vai para o outro, no melhor estilo Mané Garrincha. Sim, porque, até prova em contrário, embora quarentões (ou cinquentões, em alguns casos), não tem ninguém caducando no time não! Na verdade, não se trata exatamente de um time, mas de dois. E esses dois nunca repetem a mesma formação de um jogo para o outro. Cada jogo é único, absolutamente único. O CADUCA é um grupo, do qual orgulhosamente faço parte, cujo plantel é formado por aproximadamente (o número exato varia sempre) trinta valorosos atletas. De prancheta em punho, um dos diretores – claro, temos uma diretoria, como não? – vai anotando os nomes dos jogadores, à medida que vão adentrando o estádio do Barra Futebol Clube (onde jogamos, na falta de sede própria), nas manhãs de sábado. Quando a lista chega a vinte e dois nomes, estão definidos os titulares do dia. Quem chega depois disso, seja quem for, fica no banco. Tem início, então, a árdua e insana tarefa de montar as duas equipes para o duelo na arena gramada (o campo é oficial mesmo, onze contra onze, está pensando o quê?). Todos os jogadores usam meiões e calções pretos. As camisas do dia (temos vários jogos de camisa) também são uma incógnita. Só no vestiário ficamos sabendo qual o manto sagrado que haveremos de honrar naquele dia. Azuis, cinza, amarelas, vermelhas, verdes, tem pra todo gosto. Entrando em campo, uma coisa é certa: alguém vai reclamar que seu time está mais fraco. O time deles é muito melhor, isso estraga a pelada, assim não dá – são as frases mais comedidas. Temos uniforme, temos estádio para jogar, com arquibancada e tudo. O que falta? Trio de arbitragem? Não falta não (às vezes falta um bandeirinha, ou os dois, mas juiz sempre tem). Massagista? Temos também. Pegador de bola? Temos. (No nosso caso, prefiro dizer pegador de bola a gandula porque, convenhamos, gandula não vai pegar bola na rua ou no quintal do vizinho.) Torcedores? Vá lá, temos também – uma meia dúzia de três ou quatro que estão sempre lá, faça chuva ou faça sol. E você pode perguntar: tem departamento médico? Claro (quer dizer, serve um centroavante ginecologista?). Segurança? Temos também (em nível estadual e federal, diga-se de passagem). E não poderia faltar, evidentemente, um departamento financeiro, composto por hábeis contadores (de histórias, inclusive). Até cobertura da imprensa já tivemos numa época! Toda semana, mais precisamente às terças-feiras, um jornal da cidade publicava uma crônica sobre nosso jogo. Quem escrevia era um dos caducas, que relatava o que de mais importante havia acontecido no sábado. Era como se cada jogo nosso fosse um grande clássico! Como não dava para dar nome aos times do clássico – éramos todos caducas, em última instância – nosso cronista apelava para as cores das camisas. As crônicas, então, estampadas num dos diários da cidade, traziam como títulos, em letras garrafais, coisas do tipo: CINZA EMPATA COM AZUL EM JOGO QUENTE: 4 X 4. Ou essa outra, mais elegante, conferindo ao nosso jogo ares aristocáticos: BRANCO E AMARELO FAZEM JOGO DE GALA. Ou ainda a pérola seguinte, uma das minhas preferidas: VERDE ARRASA VERMELHO EM GOLEADA HISTÓRICA. Seguindo as manchetes vinham as escalações, o relato do jogo, os comentários, os nomes de quem havia feito gol, recebido cartão etc. Por motivos que não cabe aqui relatar, a coluna não existe mais. Durante um bom tempo, no entanto, éramos notícia semanal na página de esportes de Teresópolis, e tinha gente que deixava de ler a reportagem sobre o treino da seleção brasileira na Granja Comary para saber como havia sido o nosso último jogo. Não acredita? Então venha até aqui e converse com os mais antigos, eles vão dizer se é verdade ou não. E não é pra menos que ocupávamos as páginas do jornal. Além do espetáculo em si, cada jogo do CADUCA rende sempre alguma história. Teve, por exemplo, aquela do nervosinho que foi expulso de campo duas vezes na mesma partida. Para que o leitor entenda o fato insólito, é preciso antes dizer que, no nosso regimento interno, lavrado em ata e registrado em cartório, quando um jogador é expulso deve ficar fora de campo por vinte minutos, podendo retornar depois. Pois naquele dia o dito cujo supracitado deu de reclamar acintosamente do juiz e foi mandado mais cedo para o chuveiro. Chuveiro, entenda-se, é força de expressão, o camarada foi mesmo para o banco de reservas, contando no relógio a hora de acabar o castigo. Quase no final do jogo o caduca retorna ao gramado e, revoltado com a marcação de um pênalti contra o seu time no último minuto, dá um bico na bola para longe das quatro linhas e é expulso. Ou, para ser mais exato com o episódio, é reexpulso. Aconteceu, recentemente, o caso de um dos nossos goleiros ser picado por uma abelha em pleno jogo. O coitado era alérgico e não sabia. Foi parar no hospital. No sábado seguinte alguém chegou no vestiário dizendo que a Paula Toller iria dar um show na cidade. Pronto, foi o suficiente para desestabilizar psicologicamente o goleirão: Kid Abelha? Nãããooo!!! E teve também aquela do zagueiro de dois metros de altura, três de largura e quatro de fundura, ex-jogador do Fluminense e tal, que falava grosso com os atacantes e não levava desaforo pra casa. No vestiário, todo mundo tirando das bolsas suas ferramentas de trabalho, quer dizer, chuteiras, meiões, caneleiras etc. – o problema todo é o “etc.” –, eis que o zagueirão saca da bolsa algo que, definitivamente, não era pra estar ali: um par de sandálias douradas. Femininas. De salto alto. São da minha filha, tentou explicar, em vão. Como era de se esperar, depois do jogo tem sempre a cervejinha, no bar do estádio. É nessa hora que os egos se inflamam, e cada lance é revivido com detalhes. O gol que foi apenas sorte vira um golaço, e o autor cara de pau ainda é capaz de explicar exatamente o que pensou antes de fazer a jogada. Se houve uma furada, a culpa foi do campo, é lógico, que coisa horrível esse gramado, hein! Na hora da cerveja não tem meio-termo: ou você é bola murcha ou é bola cheia, podendo ser inclusive as duas coisas, dependendo de quem esteja avaliando. E o mesmo avaliador pode mudar você de classificação, do céu ao inferno ou vice-versa, dependendo do momento etílico em que for dado o veredicto. E não adianta chiar, a voz do povo éa voz de Deus, o que disserem que você fez no jogo você fez mesmo e pronto, não importam as evidências contrárias. Disseram que você é fominha, que não toca a bola? Pois então você é fominha, mesmo tendo servido os companheiros várias vezes no jogo. Você fez três gols e deu o passe para o quarto mas a galera inventou de dizer que você jogou mal? Pronto, você deve rever seus conceitos futebolísticos. No final do ano há sempre uma festa de encerramento da temporada, com a devida entrega dos troféus. Há o troféu de artilheiro, de craque do ano, de fair play. E há também o renomado troféu Camisolão, ofertado ao atleta que mais vezes faltou aos jogos para ficar em casa, fazendo sabe-se lá o quê. Fundado em 1966 por um pequeno grupo de amigos – um deles tinha uma loja na rua Duque de Caxias e teve a ideia brilhante de criar o nome de modo a compor a sigla –, o CADUCA foi muito além das expectativas de seus fundadores. Diria mesmo que, mais do que um grupo de apaixonados por futebol, tornou-se um patrimônio da cidade. Aliás, acho que deveria rever o título da crônica. O CADUCA não é um time, é um estado de espírito. E tenho dito. A Acréscimos o apagar das luzes, agradeço de coração aos amigos que, de formas diversas, colaboraram na escrita das crônicas, com leituras e comentários sempre bem-vindos. Agradeço a todos. Em especial, obrigado a Claudiney Ferreira, Fabíola Padilha, Gerson Martins de Resende, Maria Isabel Pereira, José Castello, Luiz Ruffato, Luiz Carlos Theodoro, Miguel Rettenmaier, Raul Milliet Filho, Rogério Pereira e Silviano Santiago. Agradeço também aos demais escritores citados nas crônicas “Torcedores” e “Estrela Solitária”, que gentilmente se dispuseram a gastar seu tempo respondendo por e-mail a perguntas (quase) indiscretas. E, claro, muito obrigado a todos os companheiros do CADUCA. Copyright © 2009 by Flávio Carneiro Direitos desta edição reservados à EDITORA ROCCO LTDA. Av. Presidente Wilson, 231 – 8º andar 20030-021 – Rio de Janeiro, RJ Tel.: (21) 3525-2000 – Fax: (21) 3525-2001 rocco@rocco.com.br www.rocco.com.br Conversão para e-book Freitas Bastos 2ª edição eletrônica Rocco Digital Coordenação Digital Lúcia Reis Assistente de Produção Digital Joana De Conti CIP-Brasil. Catalogação na Fonte. Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ C288p Carneiro, Flávio Martins, 1962- Passe de letra [recurso eletrônico]: futebol e literatura / Flávio Carneiro. – Rio de Janeiro: Rocco Digital, 2011. recurso digital ISBN 978-85-6412-647-3 (recurso eletrônico) 1. Futebol – Crônica. 2. Crônica brasileira. 3. Livros eletrônicos. I. Título. 11-0479 CDD: 869.98 CDU: 821.134.3(81)-8 FLÁVIO CARNEIRO nasceu em Goiânia e vive atualmente em Teresópolis, no estado do Rio de Janeiro. É professor de literatura da UERJ e autor de mais de 10 livros e dois roteiros para o cinema. Folha de Rosto Sumário Aquecimento Epígrafe Selefama Esporte Clube Dias de chuva Pelada em Berlim Futebol & Literatura Janela ou corredor? O último jogo Canal 100 Como se diz Histórias possíveis O louco de Buenos Aires Os irmãos da minha mãe Os recados do nome O camisa 7 O maior campeonato do mundo Torcedores Estrela Solitária O narrador Os personagens O enredo Meu pequeno amigo cubano Um time chamado CADUCA Acréscimos Créditos O Autor