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TEORIA E PRÁTICA EM 
ANTROPOLOGIA 
AULA 5 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Prof. Everson Araujo Nauroski 
 
 
2 
CONVERSA INICIAL 
Os estudos antropológicos a partir do final do século XIX manifestam 
maior interesse em compreender os processos de construção das identidades 
nacionais. Diversos países mobilizaram seus intelectuais e movimentos 
nacionais para buscar em sua cultura popular elementos unificadores, símbolos 
e crenças em torno de uma identidade nacional. Ao longo desta aula, veremos 
como isso aconteceu no Brasil. Estudaremos também os limites da democracia 
liberal e sua concepção formalista de igualdade. Avançando, discutiremos o 
chamado “jeitinho brasileiro”, que, para alguns, nada mais é que a corrupção 
culturalizada e, para outros, uma forma de resistência da população mais pobre. 
Por fim, iremos compreender o fenômeno do patrimonialismo e alguns de seus 
efeitos, bem como apresentar contribuições de Roberto DaMatta sobre os 
significados culturais das festividades populares como o carnaval. 
TEMA 1 – A ANTROPOLOGIA BRASILEIRA E BRASILIDADE 
A contribuição de Roberto DaMatta é importante para compreendermos a 
cultura brasileira em suas conformações. Conceitos como brasilidade e jeitinho 
são aprofundados e explicados histórica e socialmente. Outras características 
que fazem da cultura brasileira um desafio de compreensão interdisciplinar 
também são abordadas pelo autor. 
DaMatta nasceu no ano de 1936 na cidade de Niterói, no Rio de Janeiro. 
Estudou história, sociologia e antropologia cultural. O contexto do início de seus 
estudos é marcado pela Ditadura Militar, e o próprio DaMatta reconhece que sua 
trajetória inicial é a de um jovem despolitizado e alienado, o que ele vê como 
positivo: 
com poucas ambições literárias ou políticas, mas foi precisamente isso 
que me permitiu abraçar a antropologia cultural como um instrumento 
tão poderoso quanto apaixonante de entendimento do mundo social e 
dedicar-me a ela com a cabeça aberta e limpa dos preconceitos 
formais e dogmas políticos. (DaMatta, 1987, p. 175) 
Com certo descolamento do que seriam as perspectivas canônicas em 
relação à análise social desse período, DaMatta entende como positivo poder 
iniciar sua trajetória intelectual sem a tutela epistemológica que vigorava mais à 
esquerda-marxista. O avanço de suas pesquisas sobre os povos indígenas fez 
com que a abordagem etnográfica fosse uma característica marcante de seu 
 
 
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olhar como antropólogo. Esse olhar esteve presente em seus inúmeros estudos 
posteriores sobre a realidade urbana e industrial do Brasil, incluindo temas como 
as festividades populares do carnaval e futebol. 
Figura 1 – Carnaval brasileiro (Rio 2017) 
 
Crédito: Gustavo Ardila/Shutterstock. 
Em sua obra Carnavais, Malandros e Heróis, de 1979, DaMatta mergulha 
na relação existe entre a realidade social dura e cinza da sobrevivência e os 
significados sociais do carnaval, do jogo do bicho e do futebol. Para o autor, a 
tensão da vida social, do trabalho e do cotidiano nas cidades encontra alívio na 
dimensão lúdica e até catártica que envolve as diversas festas populares com 
seus rituais e significados, propiciando aos seus participantes um alento da dura 
labuta pela sobrevivência, uma fuga da realidade muitas vezes cruel e sem 
sentido. 
Será no conjunto de várias iniciativas populares, muitas envolvidas no véu 
do religioso e do espetáculo, 
Sendo necessário para isso situar essas procissões, paradas e 
carnavais como modos fundamentais por meio das quais a chamada 
realidade brasileira se desdobra diante dela mesma, mira-se no seu 
próprio espelho social e, projetando múltiplas imagens de si mesma, 
engendra-se como uma medusa, na luta e dilema entre permanecer e 
mudar. (DaMatta, 1997, p. 45) 
 
 
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De fato, a explicação de DaMatta encontra fundamento nos diversos 
relatos de pessoas pobres, de vida humilde e cercada de dificuldades, como a 
maioria dos moradores das comunidades e favelas, que se preparam o ano 
inteiro para poder desfilar em suas escolas de samba, e, por alguns minutos, 
realizarem um sonho, um desejo profundo de fazer parte de algo maior, de se 
sentirem especiais, sendo, de alguma maneira, o centro das atenções. 
Existe uma forte ambiguidade que acompanha o comportamento social do 
povo brasileiro. Essa ambuiguidade é analisada por DaMatta para além da ótica 
da oposição de classe, não sendo uma exigência necessária partir da 
epistemologia marxista para compreender e explicar a sociedade brasileira. Uma 
sociedade que, em sua complexidade e multiplicidade, nos convida a indagar 
sobre como podemos de pronto tornar 
o limem e o paradoxal como negativos em sistemas relacionais, como 
o Brasil, uma sociedade feita de espaços múltiplos, na qual uma 
verdadeira institucionalização do intermediário como um modo 
fundamental e ainda incompreendido de sociabilidade é um fato social 
corriqueiro? Como ter horror ao intermediário e ao misturado, se pontos 
críticos de nossa sociabilidade são constituídos por tipos liminares 
como o mulato, o cafuzo e o mameluco (no nosso sistema de 
classificação racial); o despachante (no sistema burocrático); a(o) 
amante (no sistema amoroso); o(a) santo(a), o orixá, o “espírito” e o 
purgatório (no sistema religioso); a reza, o pedido, a cantada, a música 
popular, a serenata (no sistema de mediação que permeia o cotidiano); 
a varanda, o quintal, a praça, o adro e a praia (no sistema espacial); o 
“jeitinho”, o “sabe com quem está falando?” e o “pistolão” (nos modos 
de lidar com o conflito engendrado pelo encontro de leis impessoais 
com o prestígio e o poder pessoal); a feijoada, a peixada e o cozido, 
comidas rigorosamente intermediárias (entre o sólido e o líquido) no 
sistema culinário; a bolina e a “sacanagem” (no sistema sexual). Isso 
para não falar das celebridades inter, trans, homo ou pansexuais, que, 
entre nós, não são objeto de horror ou abominação (como ocorre nos 
Estados Unidos), mas de desejo, curiosidade, fascinação e admiração. 
Tudo isto me levou a repensar o ambíguo como um estado 
axiomaticamente negativo (DaMatta, 2000, p. 14-15) 
A vida social ganha fluidez e a incompletude numa dualidade que se 
desdobra entre permanecer e mudar, o rir e o sofrer, o ser e não ser. Na 
dimensão da festa e do lúdico que envolve esses eventos, materializa-se ao 
mesmo tempo na riqueza e grandiosidade dos elementos da identidade nacional, 
mas também da miséria que os acompanha. 
TEMA 2 – DEMOCRACIA LIBERAL E CIDADANIA FORMALISTA 
A democracia moderna, mesmo como seus limites e imperfeições, é tida 
pela tradição da filosofia e da ciência política como a maior das conquistas das 
 
 
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sociedades ocidentais. Por limites e imperfeições, podemos citar a questão da 
representatividade política, muito mais próxima das elites econômicas e seus 
interesses que das necessidades do povo em geral. São fortes os indícios de 
que o Estado, no contexto do capitalismo global, sofre forte influência de 
diferentes lobbys, fazendo com que o interesse público não seja sempre a 
principal prioridade dos governos (Nauroski, 2017). 
Segundo Bobbio (1980), talvez o principal fator de sucesso de democracia 
liberal moderna seja a liberdade individual tida como valor fundamental. Desde 
as Revoluções Francesa e Industrial, liberdade e economia fundiram-se fazendo 
nascer o liberalismo econômico. A força dessa doutrina está em sua 
materialização nas instituições do Estado e na defesa da livre iniciativa 
econômica na indústria, no comércio, serviços e finanças. 
Figura 2 – Dinheiro 
 
Crédito: Dean Drobot/Shutterstock. 
Quando pensamos a democracia no bojo do liberalismo econômico, 
algumas contradições são difíceis de serem superadas, entre elas a questão da 
igualdade, pois conforme Goyard (2003, p. 214): 
Por um lado, ela é a promoção do eu e corresponde à descoberta 
metafísica do homem de que se orgulha Descartes: todo homem pode 
dizer “Eu”.Todavia, por outro lado, ela rompe a longa cadeia que ligava 
os homens no Tempo e no Espaço: o pontilhismo das mônadas 
humanas embriagadas com sua autosuficiência prevaleceu, no mundo 
democrático, sobre o grande Todo da humanidade. O individualismo 
democrático só faz com que os homens não se aproximem de seus 
semelhantes e se deleitem com seu “eu”, mas também as revoluções 
 
 
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democráticas – a exemplo da França revolucionária – os dispõem a se 
evitarem até a morte. 
 Assim, o legado da Revolução Francesa responsável pela transformação 
mais importante da sociedade moderna permanece como horizonte 
inalcançável. A liberdade foi reduzida à liberdade econômica da empresa, a 
igualdade a uma condição formal perante as leis, e a fraternidade a uma palavra 
sem efetividade no campo das relações socais. 
 No contexto da democracia liberal surge oposição entre liberdade e 
igualdade, quando esta for coletiva e representar interesses para além dos 
objetivos econômicos. Diante disso, Berlin (1981, p. 137) assim se posiciona: 
Cada coisa é o que é: liberdade, e não igualdade, imparcialidade, 
justiça, cultura, felicidade humana ou uma consciência tranquila. Se a 
liberdade de mim mesmo, de minha classe ou de meu país depende 
da infelicidade de um grande número de outros seres humanos, então 
o sistema que promove tal situação é injusto e imoral. Mas se eu mutilo 
ou perco minha liberdade individual, de forma a reduzir o opróbio de tal 
desigualdade e, desse modo, não amplio substancialmente a liberdade 
individual de outros, ocorre uma perda de liberdade. 
 A tensão que marca liberdade e igualdade coletiva tende a ser mitigada 
pela ordem constitucional, na figura do Estado Democrático de Direito, que 
idealmente é baseada na soberania popular com atuação na mediação dos 
conflitos e manutenção da ordem social. O aparato constitucional materializado 
no ordenamento jurídico nacional em diferente níveis e esferas deveria, em tese, 
estabelecer os direitos e deveres de todos os cidadãos. Falamos em tese, pois 
sendo a sociedade um espaço de tensões e embates, nem sempre a aprovação 
de uma lei representa a manifestação da justiça ou do progresso social. 
 Em face da discussão apresentada, a cidadania que emerge no contexto 
das democracias liberais está muito mais voltada ao consumo que a formação 
cultural. A ideia de direitos ligados à dignidade humana passa a ser vinculada à 
realidade de mercado. O espaço da cidadania é principalmente o espaço do 
mercado, da compra e da venda de mercadorias, de serviços, de sonhos e 
ilusões. Um sem número de estratégias buscam reforçar mais que 
comportamentos, ideias, símbolos e crenças nesse direcionamento, associando 
ao ato do consumo a afirmação do eu como entidade livre e soberana. 
Aspectos que configuram uma noção apequenada e restritiva de 
cidadania, bem diferente de uma noção ampliada e substantiva sobre os direitos 
e a dignidade humana, assemelham-se a algo apresentado por Dimenstein 
 
 
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(2005, p. 10-11), para quem ser cidadão é ter direito à vida, à liberdade, à 
propriedade e à igualdade perante a lei: 
é, em resumo, ter direitos civis. É também participar no destino da 
sociedade, votar, ser votado, ter direitos políticos. Os direitos civis e 
políticos não asseguram a democracia sem os direitos sociais, aqueles 
que garantem a participação do indivíduo na riqueza coletiva: o direito 
à educação, ao trabalho, ao salário justo, à saúde, a uma velhice 
tranquila. Exercer a cidadania plena é ter direitos, civis, políticos e 
sociais. 
Na verdade, uma noção ampliada de cidadania é em si um obstáculo, um 
problema para a própria lógica do liberalismo econômico. Um cidadão pleno é, 
por certo, uma pessoa com capacidade de reflexão, de crítica e de participação 
social e política, atributos que nem sempre se coadunam com os interesses 
dominantes. 
TEMA 3 – O PÚBLICO E O PRIVADO: ELEMENTOS ANTROPOLÓGICOS DO 
COTIDIANO 
A abordagem de DaMatta busca compreender a realidade social muito 
mais por suas manifestações culturais que pela análise de suas clássicas 
contradições, como a luta de classes. Nesse aspecto, a teoria antropológica 
desse autor apresenta uma inovação, pois sua análise segue uma lógica 
estruturalista, dado que os fenômenos culturais diversos (carnaval, futebol, jogo 
do bicho, festas populares etc.) representam a manifestação da sociedade em 
sua pluralidade com diferentes aspectos a serem analisados no campo 
linguístico, simbólico ou axiológico, sem que seja necessário passar pelo crivo 
da análise das classes sociais e dos fatores econômicos. 
Outro elemento da abordagem relacional desse autor, a dualidade casa e 
rua, consiste em uma dicotomia entre o público e o privado, diferenciação de 
valores e de comportamentos em relação aos dois espaços. 
Figura 2 – Rua: espaço público 
 
 
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Crédito: Dirk Hudson/Shutterstock. 
Na rua, a sobrevivência, o “jeitinho”, a indiferença; na casa, a vida íntima, 
o pessoal, a proximidade. De certa forma, os espaços da rua e da casa existem 
como continuidade e descontinuidade da ação de diferentes sujeitos que se 
complementam, algo próprio e original do jeito do brasileiro viver: 
e às vezes, sobreviver, num sistema em que a casa nem sempre fala 
com a rua e as leis formais da vida pública nada têm a ver com as boas 
regras da moralidade costumeira que governam a nossa honra, o 
respeito e, sobretudo, a lealdade que devemos aos amigos, aos 
parentes e aos compadres. Num mundo tão profundamente dividido, a 
malandragem e o jeitinho promovem uma esperança de juntar numa 
totalidade harmoniosa e concreta. Essa é a sua importância, esse é o 
seu aceno. Aí está a sua razão de existir como valor social. (Damatta, 
1986, p. 107) 
O espaço da rua é, por excelência, o da manifestação do jeitinho. Em 
sentido estrito, o jeitinho poderia ser visto como a corrupção no plano individual 
e generalizada, contudo, DaMatta reconhece nesse comportamento um 
expediente daqueles que estão fora das posições de poder, ou gozam de algum 
status mais elevado de reconhecimento. A rua e o jeitinho integram a estratégia 
popular de lidar com os conflitos da vida social cotidiana. Trata-se tanto do 
arranjo negocial e cordial quanto da carteirada (você sabe com quem está 
falando?). O jeitinho tem essa dupla manifestação, de modo que todos têm o 
direito de se utilizar da carteirada. Além disso, 
sempre haverá alguém no sistema pronto para recebê-lo (porque é 
 
 
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inferior) e pronto a usá-lo (porque é superior). Aliás, tudo indica que 
uma das razões sociais do ritual de separação em estudo é 
precisamente o de permitir e legitimar a existência de um nível de 
relações sociais com foco na pessoa e nos eixos e dimensões deixados 
necessariamente de lado pela universalidade classificatória da 
economia, dos decretos e dos regulamentos (DaMatta, 1997, p. 195) 
 A dinâmica de funcionamento da sociedade brasileira extrapola esquemas 
burocráticos, racionais e impessoais. Existe uma fronteira fluida entre o público 
e o privado, algo que estudaremos mais adiante quando discutirmos as noções 
de patrimonialismo. No entanto, como explica Lima (2011, p. 53), “o público” para 
nós está associado a uma interação social indiscriminada: se é público, é ou do 
Estado – da “viúva” – ou “de todos”; se é de todos, é “geral”, não é de ninguém 
em particular e, por isso, pode ser apropriado particularizadamente por qualquer 
um... É o lugar da ausência da regra de aplicação universal. Essa fronteira 
borrada entre o público e o privado remonta ao Brasil Colônia e à herança da 
cultura lusitana na formação da sociedade brasileira, aspectos que estudaremos 
a seguir. 
TEMA 4 – EISTES, POVO E PATRIMONIALISMO 
 Um dos primeiros autores a tratar do assunto, Max Weber (1864-1920), 
formulou o conceito de patrimonialismo para explicar o processo de formação 
política e econômica de sociedades anteriores à racionalidade técnica e 
burocráticado Estado Moderno. Para Weber, existia uma clara relação entre 
patriarcalismo e patrimonialismo na forma de exercer o poder político e 
econômico, sem muita distinção e distanciamento entre as esferas públicas e 
privadas. 
Como forma de exemplificar, podemos pensar na eleição de um político 
(prefeito, governador, presidente) que usa seu cargo de modo a instrumentalizar 
o aparato estatal (município, estado ou país) para satisfazer seus interesses e 
ambições pessoais. Essa quase indistinção entre o público e o privado demarca 
a diferença em relação à cultura política ateniense no seu período clássico entre 
os séculos IV e V a.C. A ideia de corrupção como uma conduta criminosa tem 
origem nessa distinção que faziam os atenienses entre a vida familiar e privada 
e a esfera da vida pública, na qual se discutiam as demandas coletivas. Quando 
essa fronteira se rompe, fazendo com que os interesses privados adentrem a 
esfera pública, ocorre uma clássica situação de corrupção. 
 
 
10 
Associados ao patrimonialismo, temos, ainda, outros fenômenos 
igualmente danosos ao interesse público, como o nepotismo, que consiste em 
empregar familiares de políticos com cargos públicos. O nepotismo pode ser 
direto, quando um prefeito nomeia seu filho ou esposa para um cargo público 
qualquer, ou nepotismo cruzado, quando há um jogo combinado de políticos para 
nomear parentes – não seus, mas de outros políticos e apoiadores – buscando, 
dessa forma, disfarçar tal prática. 
Figura 3 – Corrupção 
 
Crédito: Freedomz/Shutterstock. 
Atualmente no Brasil, o nepotismo é vedado pela legislação. A 
Constituição Federal (CF) de 1988, em seu art. 37, discorre: 
A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da 
União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá 
aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade 
e eficiência […]. 
Ainda com base na CF, o Supremo Federal, em 2008, aprovou a súmula 
n. 13, que traz de maneira expressa: 
A nomeação de cônjuge, companheiro ou parente em linha reta, 
colateral ou por afinidade, até o terceiro grau, inclusive, da autoridade 
nomeante ou de servidor da mesma pessoa jurídica investido em cargo 
de direção, chefia ou assessoramento, para o exercício de cargo em 
comissão ou de confiança ou, ainda, de função gratificada na 
administração pública direta e indireta em qualquer dos Poderes da 
União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, 
 
 
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compreendido o ajuste mediante designações recíprocas, viola a 
Constituição Federal. 
 A prática do nepotismo costuma ser danosa, pois acaba por priorizar os 
laços de parentesco e amizade sobre a carreira e a competência técnica. Trata-
se de situação que, via de regra, acarreta malfeitos e prejuízos ao erário público 
e, consequentemente, ao povo como um todo. A prática do nepotismo tem íntima 
relação com situações de corrupção com fartos registros e processos legais 
envolvendo irregularidades, tráfico de influências, improbidade administrativa e 
pagamento de propinas. 
TEMA 5 – AS FESTIVIDADES NACIONAIS E A CATARSE BRASILEIRA 
A abordagem de DaMatta sobre sua compreensão da sociedade brasileira 
apresenta a situação de dilema em que vive a cultura popular na oscilação entre 
as unidades sociais, ora como indivíduo e destinatário da modernidade legal e 
coletiva, ora como pessoa submetida às diferentes hierarquias das relações 
sociais. De um lado, há a dualidade entre espaço público da rua, com suas 
determinações sociais e, de outro, a casa como espaço da vida privada, da 
intimidade própria de cada um. 
Figura 4 – Ilustração do malandro brasileiro 
 
Crédito: Beto Chagas/Shutterstock. 
 
 
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A figura do malandro analisada por DaMatta se situa entre essas duas 
realidades, na zona cinzenta entre o ser e o dever, entre a regra e a vontade, 
entre a norma e o desejo. Essa situação dilemática é caracterizada por DaMatta 
ao comprar a normatividade de alguns países como 
Estados Unidos, na França e na Inglaterra, somente para citar três 
bons exemplos, as regras ou são obedecidas ou não existem. Nessas 
sociedades, não há nenhum prazer em escrever normas que aviltam o 
bom senso e as práticas sociais estabelecidas, abrindo caminhos para 
a corrupção burocrática e ampliando a desconfiança no poder público. 
Em face da expectativa de coerência entre a regra jurídica e as práticas 
da vida diária, o inglês, o francês e o norte-americano param diante de 
uma placa de trânsito que diz “parar”, o que – para nós –, parece um 
absurdo mágico. Ficamos sempre confundidos e fascinados com a 
chamada disciplina existente nesses países. (DaMatta, 2004, p. 46) 
 A curiosidade e a admiração em relação à moralidade e à normatividade 
de outros povos reconhece a disciplina como valor, no entanto, para DaMatta, 
essa admiração parece não ser suficiente para provocar mudanças na cultura 
social do brasileiro. Em geral, o brasileiro lida com a lei questionando-a, ou 
burlando-a sempre que possível. Parece existir um estado de suspeição em 
relação aos regramentos em geral, sendo o “jeitinho” a forma “natural” de lidar 
com conflitos, bem como entre a lei e o interesse pessoal. 
DaMatta criou a teoria do triângulo ritual onde distribui os ritos da 
ordem, da desordem e os cerimoniais neutros das religiões nos 
espaços da casa, rua e outro mundo. Porque a sociedade brasileira é 
mestre em transições equilibradas e em conciliações, estabeleceu-se 
no Brasil a lógica relacional, cuja principal característica é a capacidade 
de inventar pontes e formas de passagens entre esses espaços 
estabelecendo as relações. Como esses espaços são segregados e 
afastados uns dos outros, as festas são momentos importantes para a 
sociedade brasileira, pois por meio delas se pode relacionar os 
espaços reunindo-os para a vivência da totalidade. Assim, o carnaval 
– a festa da inversão – encontra nessa sociedade relacional um espaço 
ideal para manifestar-se. [...] O universo carnavalesco é um espaço 
onde os múltiplos da realidade brasileira acontecem. É onde a dialética 
ORDEM x DESORDEM formaliza alguns aspectos da formação da 
sociedade brasileira. O antropólogo explica ainda que é no ritual, em 
especial os coletivos, que a sociedade se manifesta autenticamente. O 
universo do carnaval é um espaço e um tempo diferente do cotidiano e 
possui suas próprias regras, as quais organizam uma nova lógica 
(Pokulat, p. 1091) 
As festividades populares, assim como o carnaval, possuem elementos 
que envolvem o corpo, as emoções, a fantasia e os desejos. Uma confusão de 
sentimentos em que reina a ambuiguidade social com a mistura e até a inversão 
de papéis sociais e de gênero. Em alguma medida, fundem-se rua e casa, 
indivíduo e coletividade, sagrado e profano. Ocorre uma profusão da 
subjetividade sem regramento, um fluir que permite, pelo menos naqueles 
 
 
13 
momentos, extravasar a frustração, a disciplina e o medo. São momentos sui 
generis que possibilitam o alívio das tensões num movimento catártico lúdico e 
de forte intensidade. 
NA PRÁTICA 
Com base nos estudos realizados, faça a leitura do capitulo 6, O mito da 
concórdia: o jeito que consta, no Livro Crítica da razão tupiniquim (1982), de 
Roberto Gomes. O livro pode ser lido pelo link: 
<https://www.academia.edu/5729641/Roberto_Gomes_-
_Critica_da_Razao_Tupiniquim>. Após a leitura, responda à seguinte questão: 
O que é o jeitinho brasileiro? 
FINALIZANDO 
Ao longo desta aula, foi possível compreender fenômenos culturais como 
a construção da identidade nacional no Brasil por meio de elementos da cultura 
popular; os limites da democracia liberal; e o fenômeno do “jeitinho brasileiro”. 
Além disso, abordamos as raízes históricas e culturais do patrimonialismo. Por 
fim, trouxemos a contribuição de Roberto DaMatta para explicar o processo 
catártico que envolve a participação do povo nas festividades populares, como 
o carnaval e o futebol.14 
REFERÊNCIAS 
BERLIN, I. Quatro ensaios sobre a liberdade. Tradução de Wamberto Hudson 
Ferreira. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1981. 
BOBBIO, N. A teoria das formas de governo na história do pensamento 
político. Tradução de Sérgio Bath. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 
1980. 
DAMATTA, R. Individualidade e liminaridade: considerações sobre os ritos de 
passagem e a modernidade. Mana, UFRJ/PPGAS/Museu Nacional, v. 6, n. 1, p. 
7-29, , 2000. 
______. Carnavais, malandros e heróis: para uma sociologia do dilema 
brasileiro. Rio de Janeiro: Rocco, 1997. 
______. O que faz o brasil, Brasil. Rio de Janeiro: Rocco, 1986. 
GOMES, R. Crítica da razão tupiniquim. 5. ed. São Paulo: Cortez, 1982. 
GOYARD-FABRE, S. O que é democracia? Tradução de Claudia Berliner. São 
Paulo: Martins Fontes, 2003. 
NAUROSKI, E. A. Teorias sociológicas e problemas sociais 
contemporâneos. Curitiba: InterSaberes, 2017. 
POKULAT, L. F. Um olhar sobre o romance malando. Disponível em: 
<https://editora.pucrs.br/edipucrs/acessolivre/Ebooks/Web/978-85-397-0198-
8/Trabalhos/61.pdf>. Acesso em: 8 set. 2021.

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