Prévia do material em texto
W BA 00 76 _V 3. 0 ECONOMIA E MERCADOS 2 Renato José da Silva Londrina Editora e Distribuidora Educacional S.A. 2023 ECONOMIA E MERCADOS 1ª edição 3 2023 Editora e Distribuidora Educacional S.A. Avenida Paris, 675 – Parque Residencial João Piza CEP: 86041-100 — Londrina — PR Homepage: https://www.cogna.com.br/ Diretora Sr. de Pós-graduação & OPM Silvia Rodrigues Cima Bizatto Conselho Acadêmico Alessandra Cristina Fahl Ana Carolina Gulelmo Staut Camila Braga de Oliveira Higa Camila Turchetti Bacan Gabiatti Giani Vendramel de Oliveira Gislaine Denisale Ferreira Henrique Salustiano Silva Mariana Gerardi Mello Nirse Ruscheinsky Breternitz Priscila Pereira Silva Coordenador Ana Carolina Gulelmo Staut Revisor Vaine Fermoseli Vilga Editorial Beatriz Meloni Montefusco Carolina Yaly Márcia Regina Silva Paola Andressa Machado Leal Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)_____________________________________________________________________________ Silva, Renato José da Economia e Mercados/ Renato José da Silva. – Londrina: Editora e Distribuidora Educacional S.A., 2023. 32 p. ISBN 978-65-5903-487-1 1. Economia. 2. Mercado. 3. Macroeconomia. I. Título. CDD 330 _____________________________________________________________________________ Raquel Torres – CRB 8/10534 S586e © 2023 por Editora e Distribuidora Educacional S.A. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida ou transmitida de qualquer modo ou por qualquer outro meio, eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia, gravação ou qualquer outro tipo de sistema de armazenamento e transmissão de informação, sem prévia autorização, por escrito, da Editora e Distribuidora Educacional S.A. https://www.cogna.com.br/ 4 SUMÁRIO Apresentação da disciplina __________________________________ 05 Fundamentos de economia __________________________________ 07 Oferta, demanda e equilíbrio de mercado ___________________ 21 Estruturas de Mercado ______________________________________ 35 Macroeconomia e Políticas econômicas _____________________ 49 ECONOMIA E MERCADOS 5 Apresentação da disciplina A disciplina Economia e Mercados tem a finalidade de proporcionar ao estudante a oportunidade de compreender os princípios fundamentais da economia, analisar o funcionamento dos mercados e desenvolver habilidades para interpretar e prever os fenômenos econômicos. Com o objetivo de alcançar esse propósito, é necessário adquirir conhecimento acerca dos fundamentos essenciais da economia enquanto ciência social e compreender o processo lógico de distribuição de recursos no sistema econômico. Dessa forma, será apresentada a dinâmica de interação econômica entre empresas e famílias, bem como os preceitos das principais escolas do pensamento econômico. Quanto ao sistema de mercados, você vai conhecer os fundamentos de demanda e oferta. A partir deles, será apresentada a dinâmica do equilíbrio de mercado, que é fundamental para entender como os preços são determinados, além da aplicação da elasticidade, que permite avaliar a sensibilidade da demanda e da oferta às mudanças nas variáveis econômicas. Ainda durante as aulas você explorará as características das estruturas de mercado, compreenderá a diferença entre competição perfeita e monopólio, analisará o comportamento estratégico em oligopólios e entenderá o funcionamento da concorrência monopolística. Isso fornecerá a você um conhecimento abrangente das diversas dinâmicas de mercado e como elas influenciam a economia e as estratégias empresariais. 6 Por fim, aborda-se, no material, a macroeconomia, o que vai compreender os principais indicadores econômicos e os conceitos fundamentais que regem a economia em ampla escala. Além disso, você explorará as políticas econômicas, incluindo as políticas fiscal e monetária, e como o governo utiliza essas ferramentas para influenciar a atividade econômica, controlar a inflação e promover o crescimento do país. Sendo assim, ao término da leitura deste material, você será capaz de aplicar, de maneira eficaz, os conceitos e princípios da economia e dos mercados, em situações do mundo real, para tomar decisões assertivas baseadas em uma compreensão sólida das dinâmicas econômicas. 7 Fundamentos de economia Autoria: Renato José da Silva Leitura crítica: Vaine Fermoseli Vilga Objetivos • Conhecer os princípios básicos da economia como ciência social. • Compreender o processo racional de alocação de recursos no sistema econômico. • Entender a dinâmica de interação econômica entre empresas e famílias. • Diferenciar os preceitos das principais escolas do pensamento econômico. 8 1. Introdução à economia Olá, estudante. Seja bem-vindo a nossa primeira unidade de aula da disciplina Economia e Mercados. Para iniciar o nosso estudo, vamos realizar a seguinte reflexão: seja em nosso cotidiano, na internet, no rádio ou na TV, nos deparamos com termos relacionados a questões econômicas, tais como: inflação, taxa de juros, desemprego, crescimento econômico, impostos, taxa de câmbio etc. Esses temas, dentre outros, são assuntos pertencentes à economia. Mas o que de fato é a economia? O termo economia origina-se das palavras gregas oikos (casa) e nomos (normas). Na Grécia antiga, economia significava a arte de bem administrar o lar. Modernamente, define-se economia como a ciência que estuda o emprego de recursos escassos, entre usos alternativos, com o fim de obter os melhores resultados, seja na produção de bens, ou na prestação de serviços, a fim de satisfazer as necessidades humanas (Vasconcellos; Garcia, 2023). Logo, a economia é uma ciência social que se dedica ao estudo das escolhas humanas no contexto da escassez de recursos. Ela busca entender como as sociedades alocam seus recursos limitados para satisfazer suas necessidades e desejos ilimitados. Os recursos escassos são os bens e serviços empregados na produção (mão de obra, capital, terra e matérias-primas), mediante uma tecnologia conhecida, para a produção de outros bens e serviços de maior valor total e destinados a atender à demanda (intenção de compra de bens e serviços) (Vasconcellos, 2015). 9 Independentemente do quão ricos ou avançados tecnologicamente sejam os países, a escassez é uma realidade inerente à condição humana. Os problemas econômicos fundamentais surgem da escassez e podem ser resumidos em quatros questões principais, conforme pode- se visualizar na Figura 1. Figura 1 – Problemas eonômicos fundamentais Fonte: elaborada pelo autor. Segundo Vasconcellos e Garcia (2023), os problemas econômicos fundamentais podem ser assim compreendidos: • O que produzir? Refere-se à decisão sobre quais bens e serviços serão produzidos na economia. Os recursos são limitados e as sociedades precisam tomar decisões sobre quais bens e serviços são mais importantes ou prioritários para atender às necessidades e desejos das pessoas. • Quanto produzir? Está relacionado à quantidade de bens e serviços que a economia deve produzir. As decisões sobre a quantidade a ser produzida estão ligadas ao equilíbrio entre a oferta e a demanda. Produzir muito pode levar ao excesso de oferta e desperdício de recursos, enquanto produzir pouco pode resultar em escassez. • Como produzir? Este problema diz respeito às técnicas de produção e à alocação de recursos para a produção de bens e serviços. As sociedades precisam decidir qual tecnologia, métodos de produção e combinação de recursos (trabalho, terra e capital) serão usados para produzir eficientemente os bens desejados. • Para quem produzir? Esta questão está relacionada à distribuição dos bens e serviços produzidos. As decisões sobre como a renda e 10 os bens são distribuídos afetam a equidade e a justiça social. Isso também se relaciona com a determinação de como as pessoas têm acesso aos bens produzidos. Compreendido o problema da escassez e os problemas econômicos fundamentais,você pode se perguntar: quais são os recursos escassos? Os recursos escassos são os insumos, ou fatores de produção, utilizados no processo produtivo para obter outros bens, destinados à satisfação das necessidades dos consumidores (Silva; Luiz, 2017). Os fatores de produção são: • Trabalho (mão de obra): refere-se ao esforço humano, incluindo habilidades, conhecimento e tempo dedicado à produção. • Terra: representa os recursos naturais, como solo, água, minerais e recursos energéticos que são utilizados na produção, e o espaço físico utilizado no processo de produção de um bem ou prestação de serviços. • Capital: refere-se aos bens manufaturados que são usados para produzir outros bens e serviços. Isso inclui máquinas, equipamentos, fábricas e tecnologia. • Capacidade empresarial: representa a capacidade de organizar os outros fatores de produção e tomar decisões de negócios. Os empreendedores são responsáveis por identificar oportunidades econômicas e assumir riscos. Na economia, portanto, para produzir bens e serviços, os agentes devem combinar os fatores de produção da melhor forma possível, visando atender às necessidades e aos desejos dos homens, visto que a quantidade de fatores de produção disponível é finita (Silva; Luiz, 2017). Nesse contexto, os fatores de produção são direcionados para produzir os chamados bens econômicos. Um bem econômico, assim, é o que possui 11 uma raridade relativa e, portanto, um preço, e pode ser classificado como bem de consumo — durável, não durável e semidurável —, bem de capital e bem intermediário, conforme a Tabela 1. Tabela 1 – Tipos de bens econômicos Tipo de Bem Conceito Consumo Utilizados pelas pessoas para satisfazer suas necessidades. Semidurável Consumidos integralmente ao ser usado. (Ex.: alimentos). Não durável Utilizados diversas vezes, mas seu período de utilização é relativamente curto. (Ex: artigos de vestuário). Durável Utilizados várias vezes e durante muito tempo. (Ex.: meios de transporte, eletrodomésticos). Capital Utilizados para produzir outros bens. (Ex.: máquinas, equipamentos). Intermediário São os insumos utilizados na produção de bens e serviços. (Ex.: matérias-primas e componentes). Fonte: adaptada de Malassise e Salvalagio (2014). Outro conceito econômico importante é a fronteira de possibilidades de produção (FPP), também conhecida como curva de possibilidades de produção (CPP), que representa o ponto máximo de produção que uma sociedade pode atingir, assumindo que todos os seus recursos ou fatores de produção estejam totalmente utilizados em um determinado momento (Vasconcellos; Garcia, 2023). Ainda segundo os autores, esse é um conceito teórico que ajuda a demonstrar como a escassez de recursos impõe limites à capacidade de produção de uma sociedade, obrigando-a a tomar decisões entre diferentes opções de produção disponíveis. Para compreender o conceito, suponha uma economia que só produza equipamentos (bens de capital) e alimentos (bens de consumo) e que as alternativas de produção de ambos sejam as seguintes: 12 Tabela 2 – Possibilidades de produção Alternativas de produção Equipamentos (milhares) Alimentos (toneladas) A 25 0 B 20 30 C 15 50 D 10 60 E 0 70 Fonte: adaptada de Vasconcellos e Garcia (2023). Conforme pode-se visualizar na Tabela 2, na primeira alternativa (A), todos os fatores de produção seriam alocados para a produção de equipamentos; na última (E), seriam alocados somente para a produção de alimentos; e nas alternativas intermediárias (B, C e D), os fatores de produção seriam distribuídos na produção de ambos os bens. Esse exemplo esclarece os limites que uma economia tem para produzir o necessário ao atendimento das necessidades das pessoas, no entanto, sabe-se que as pessoas gostariam de consumir equipamentos e alimentos (Silva; Luiz, 2017). Na Figura 2 é representado graficamente o exemplo dado. Nela temos um sistema de eixos cartesianos. No eixo das abscissas (horizontal), representamos a quantidade de equipamentos que a nossa economia hipotética pode produzir. No eixo das ordenadas (vertical), representamos a quantidade de alimentos que pode ser produzida. 13 Figura 2 – Curva (ou fronteira) de possibilidades de produção Fonte: adaptada de Vasconcellos e Garcia (2023). De acordo com a Figura 2, a curva ABCDE indica todas as possibilidades de produção potencial de equipamentos e de alimentos. Qualquer ponto sobre (em cima) essa curva significa que a economia irá operar no pleno emprego, isto é, à plena capacidade, utilizando todos os fatores de produção disponíveis. No ponto Y, ou em qualquer outro ponto interno à curva, quando a economia está produzindo 10 mil equipamentos e 30 toneladas de alimentos, pode-se afirmar que a economia está com capacidade ociosa, ou seja, os fatores de produção estão sendo subutilizados (Vasconcellos; Garcia, 2023). O ponto X, por sua vez, exemplifica uma combinação de produção inviável (25 mil máquinas e 40 toneladas de alimentos), uma vez que os recursos de produção e a tecnologia disponíveis na economia não seriam adequados para alcançar tais níveis de produção. Esse ponto vai além da capacidade máxima de produção ou do pleno emprego dos 14 recursos disponíveis nessa economia. Isso se deve às limitações dos recursos à disposição (Vasconcellos; Garcia, 2023). Essa dinâmica da curva de Possibilidade de Produção nos leva ao conceito de Custo de Oportunidade. Segundo Mankiw (2019), o custo de oportunidade de um item é aquilo de que você abre mão para obtê-lo. Em outras palavras, é o custo de renunciar a algo quando se faz uma escolha. Por sua vez, o tradeoff refere-se à própria ação de comparar e equilibrar os benefícios e desvantagens entre duas ou mais alternativas (Mankiw, 2019). Em decisões econômicas e de vida cotidiana, estamos constantemente enfrentando tradeoffs, pois a alocação de recursos, seja tempo, dinheiro ou esforço, implica em escolhas que têm custos de oportunidade. De outro modo, a realocação dos recursos de produção de um produto X para a produção de um produto Y implica um custo de oportunidade, que corresponde ao que é sacrificado ao deixar de produzir parte do produto X a fim de aumentar a produção do produto Y (Vasconcellos; Garcia, 2023). Por exemplo, na Figura 2, ao aumentar a produção de alimentos de 30 para 60 toneladas (mudando do ponto B para o ponto D), o custo de oportunidade em termos de equipamentos é de 10 mil, que é a quantidade de máquinas que precisou ser sacrificada para produzir mais 30 toneladas de alimentos. 2. Fluxo circular da renda Sabemos que a economia de mercado é formada por agentes econômicos, tais como famílias e empresas, que interagem em um 15 complexo sistema de trocas e transações. O fluxo circular da renda é uma representação fundamental desse processo, permitindo a visualização de como os recursos e o dinheiro fluem entre esses dois pilares essenciais da atividade econômica (Viceconti; Neves, 2013). Esse conceito é uma base sólida para a compreensão de como a economia opera, destacando como as famílias fornecem fatores de produção às empresas em troca de renda, enquanto as empresas produzem bens e serviços que são adquiridos pelas famílias, gerando um ciclo econômico contínuo. Segundo Viceconti e Neves (2013), a renda, ou seja, a remuneração paga pelas empresas para as famílias, pelo uso dos fatores de produção que são de propriedade das famílias, é classificada pelos economistas em quatro grandes categorias, sendo elas: 1. Salários: as famílias recebem salários em troca do trabalho que fornecem às empresas. Essa é a forma mais comum de renda para a maioria das famílias. 2. Juros: se as famílias possuem poupanças ou investimentos financeiros, recebem juros sobre esses ativos. 3. Aluguéis: se possuem propriedades, como imóveis ou terras, recebem aluguéis de empresas que utilizam esses ativos. 4. Lucros: algumas famílias também podem ser proprietárias de empresase recebem lucros como retorno sobre seu capital investido. Na Figura 3, pode-se visualizar a dinâmica do fluxo circular da renda. 16 Figura 3 – Fluxo circular da renda Fonte: Vasconcellos e Garcia (2023, p. 16). Ao visualizar a Figura 3, perceba que o conceito do fluxo circular da renda nos proporciona uma visão clara de como o mercado de bens e os fatores de produção estão interligados, e como os diversos agentes econômicos dependem uns dos outros. Nas empresas, os bens e serviços são disponibilizados para as famílias (isto é, no mercado real), e, em contrapartida, as famílias efetuam pagamentos por esses bens e serviços (ou seja, no mercado nominal). Por outro lado, as famílias fornecem mão de obra e outros recursos de produção para as empresas (novamente, no mercado real), e, em troca, recebem compensações na forma de salários, juros, aluguéis e outros pagamentos (ainda no mercado nominal) por parte das próprias empresas (Silva; Luiz, 2017). Em resumo, o fluxo circular da renda em uma economia fechada, considerando apenas as famílias e as empresas, é um modelo conceitual que ilustra como a renda flui entre esses dois principais agentes econômicos. Famílias fornecem fatores de produção e recebem renda, 17 enquanto as empresas produzem bens e serviços e geram receita. Esse ciclo contínuo é fundamental para o funcionamento da economia e para a manutenção da estabilidade econômica. 3. Breve contextualização das principais escolas do pensamento econômico A evolução do pensamento econômico desempenha um papel crucial no entendimento da importância da economia como ciência. Ao longo dos séculos, a economia progrediu de uma disciplina filosófica e moral para uma ciência rigorosa, baseada em modelos teóricos e análises empíricas. De acordo com Vasconcellos e Garcia (2023), a partir do século XVI, surgiu a primeira corrente de pensamento econômico conhecida como mercantilismo. Embora não constituísse um sistema uniforme, o mercantilismo apresentava preocupações claras relacionadas à acumulação de riqueza nacional, incluindo princípios para impulsionar o comércio internacional e aumentar as reservas de ouro e prata que constituíam a principal fonte de riqueza de uma nação. No século XVIII, a fisiocracia, uma escola de pensamento originária da França, produziu obras significativas. Os fisiocratas argumentavam que a riqueza derivava exclusivamente da terra, pois, na visão desse grupo, somente a terra tinha a capacidade de multiplicar um produto (Malassise; Salvalagio, 2014). A escola clássica surgiu a partir da obra A Riqueza das Nações, de 1776, de autoria de Adam Smith. Adam Smith (1723–1790) foi um filósofo e economista escocês cujas ideias desempenharam um papel fundamental na formação da economia moderna e na compreensão do funcionamento do mercado. Uma das principais ideias de Smith é a teoria da mão invisível, que sugere que, quando indivíduos buscam seus 18 próprios interesses egoístas no mercado, como buscar lucro, acabam contribuindo, involuntariamente, para o bem-estar da sociedade como um todo (Malassise; Salvalagio, 2014). Outro conceito central de Smith é a divisão do trabalho. Ele observou que a especialização e a divisão do trabalho em tarefas específicas aumentam drasticamente a produtividade. Isso, por sua vez, leva ao crescimento econômico e ao aumento da riqueza da nação (Vasconcellos; Garcia, 2023). Por fim, Smith também enfatizou a importância da liberdade econômica e da ausência de interferência do governo nos mercados. Ele acreditava que os mercados livres e competitivos eram o caminho para o progresso econômico e que a intervenção governamental excessiva poderia prejudicar a eficiência econômica (Vasconcellos; Garcia, 2023). Em contraste com as concepções de Adam Smith, encontramos as ideias de Karl Marx (1818–1883), um renomado filósofo, economista e sociólogo alemão cujo pensamento exerceu uma influência significativa nos campos da política, economia e teoria social. Uma das principais ideias de Marx é o materialismo histórico, que sugere que a estrutura da sociedade e a evolução histórica são moldadas principalmente pelas relações de produção e pelo modo como a propriedade dos meios de produção é organizada (Malassise; Salvalagio, 2014). Ainda segundo os autores, Marx argumentava que a história da humanidade é uma luta de classes, com conflitos entre a classe trabalhadora (proletariado) e a classe capitalista (burguesia) como motor central da mudança social. Outro conceito central de Marx é a teoria do valor-trabalho, que sustenta que o valor de uma mercadoria é determinado pela quantidade de trabalho socialmente necessário para produzi-la. Essa teoria serve como base para sua crítica ao capitalismo, argumentando que os trabalhadores são explorados porque o valor que eles criam em sua produção excede o salário que recebem em troca. Portanto, o valor que ultrapassa o montante correspondente à força de trabalho é apropriado 19 pelo capitalista, sendo conceituado por Marx como mais-valia. Isso pode ser interpretado como o valor adicional que o trabalhador gera além da remuneração recebida por seu trabalho (Vasconcellos; Garcia, 2023). A chamada escola keynesiana teve início com a publicação da obra Teoria geral do emprego, do juro e da moeda, de John Maynard Keynes (1883–1946), em 1936. Uma das principais ideias de Keynes é a teoria do emprego. Ele argumentou que, em tempos de recessão ou depressão econômica, os mercados não são autorregulados e, portanto, o governo deve desempenhar um papel ativo na gestão da demanda agregada (Malassise; Salvalagio, 2014). Keynes também é conhecido por sua ênfase na demanda efetiva como motor do crescimento econômico. Ele argumentou que a produção é determinada pela demanda agregada e que o desemprego pode ocorrer quando essa demanda é insuficiente (Vasconcellos; Garcia, 2023). Keynes propôs que o governo deveria aumentar os gastos públicos e reduzir os impostos para estimular a demanda efetiva e combater o desemprego. Outra ideia central de Keynes é a importância do consumo e do investimento como impulsionadores da atividade econômica. Ele argumentou que as flutuações econômicas eram frequentemente causadas por mudanças abruptas na confiança dos consumidores e dos investidores (Malassise; Salvalagio, 2014). Portanto, políticas que influenciam positivamente esses fatores podem ser usadas para estabilizar a economia. Referências MALASSISE, R. L. S; SALVALAGIO, W. Introdução à economia. Londrina: Unopar, 2014. MANKIW, N. G. Introdução à economia. 8. ed. São Paulo: Cengage Learning, 2019. 20 SILVA, C. R. L; LUIZ, S. Economia e mercados: introdução à economia. 20. ed. São Paulo: Editora Saraiva, 2017. VASCONCELLOS, M. A. S. Economia: micro e macro. 6. ed. São Paulo: Atlas, 2015. VASCONCELLOS, M. A, S.; GARCIA, M. E. Fundamentos de economia. 7. ed. São Paulo: Saraiva, 2023. VICECONTI, P.; NEVES, S. Introdução à economia, 12. ed. São Paulo: Editora Saraiva, 2013. 21 Oferta, demanda e equilíbrio de mercado Autoria: Renato José da Silva Leitura crítica: Vaine Fermoseli Vilga Objetivos • Conhecer os fundamentos de demanda e oferta. • Compreender a dinâmica do equilíbrio de mercado. • Entender a aplicação da elasticidade. 22 1. Conceitos iniciais Olá, estudante! Seja bem-vindo a nossa segunda unidade de aula da disciplina Economia e mercados. Nesta aula, vamos conhecer os conceitos de demanda, oferta e equilíbrio de mercado. Oferta e demanda são os termos mais frequentemente empregados pelos economistas, e com razão. Essas são as forças que impulsionam o funcionamento das economias de mercado, determinando tanto a quantidade produzida de cada produto quanto seu preço de venda (Mankiw, 2019). No entanto, antes de aprofundar esses conceitos, é importante conceituar o termo “mercado”. Segundo Mankiw (2019), um mercado é um grupo de compradores e vendedores de determinado bem ou serviço. Os compradores, comogrupo, determinam a demanda pelo produto, e os vendedores, também, como grupo, determinam a oferta do produto. Além disso, é possível empregar a expressão “mercado competitivo” para caracterizar um mercado em que a presença de muitos compradores e vendedores resulta em um impacto mínimo de cada um deles sobre o preço de mercado (Mankiw, 2019). De acordo com Krugman e Wells (2023), quando um mercado é competitivo, seu comportamento é bem descrito por um modelo conhecido como modelo de oferta e demanda. Para entendermos o modelo de oferta e de demanda, vamos examinar cada um desses elementos. 2. Curva de demanda Segundo Vasconcellos e Garcia (2023), a demanda, ou procura, refere-se à quantidade de um determinado bem ou serviço que os consumidores têm interesse em adquirir durante um período específico. Segundo a lei geral da demanda, existe uma relação inversamente proporcional entre a quantidade procurada e o preço do bem, com tudo 23 o mais mantido constante. Logo, quando o preço de um bem aumenta, a quantidade demandada dele diminui; quando o preço diminui, a quantidade demandada do bem aumenta (Mankiw, 2019). Para ilustrar o conceito de demanda, considere o exemplo hipotético de demanda pelo bem “X” na Tabela 1. Tabela 1 – Escala de demanda do bem “X” Alternativas de preços (R$) Quantidade demandada (un.) 2,00 600 4,00 400 6,00 200 Fonte: elaborada pelo autor. Perceba que aumentos nos preços levam a uma redução na quantidade demandada. Outra maneira de apresentar essa relação é por meio da curva de demanda que representa, graficamente, a escala de demanda e apresenta como a quantidade demandada do bem varia quando seu preço se altera (Mankiw, 2019). Na Figura 1, apresenta-se a curva de demanda do bem “X”. Figura 1 – Curva de demanda do bem “X” Fonte: elaborada pelo autor. 24 Como se pode visualizar na Figura 1, a curva de demanda é negativamente inclinada, reforçando a chamada “lei geral da demanda”, na qual a quantidade demandada é inversamente proporcional ao preço, tudo o mais permanecendo constante. Matematicamente, a relação entre a quantidade demandada e o preço de um bem ou serviço pode ser expressa pela chamada “função demanda” ou “equação da demanda”, conforme a seguir: Qd = a – b.P Em que: Qd é a quantidade procurada de determinado bem ou serviço; a é o máximo demandado do produto, caso ele fosse gratuito; b é o redutor de quantidade à medida que o preço aumenta; P é o preço do bem ou serviço. No entanto, de acordo com Vasconcellos e Garcia (2023), outros fatores podem influenciar a decisão de compra do consumidor, tais como: preço de outros bens; renda do consumidor; preferências e hábitos; sazonalidade; crédito etc. Destaca-se que mudanças nesses fatores deslocam a curva da demanda, logo que a procura pelo bem pode aumentar ou diminuir, independentemente de alterações dos preços dele. Conforme se pode visualizar na Figura 2, qualquer alteração que resulte em um aumento na quantidade que os compradores estão dispostos a adquirir a um preço específico causa um deslocamento da curva de demanda para a direita (Mankiw, 2019). 25 Figura 2 – Deslocamentos da Curva de demanda Fonte: elaborada pelo autor. Aumento no preço de bens substitutos, aumento da renda, aumento da disponibilidade de crédito ou mudanças nas preferências dos consumidores podem levar a esse aumento de demanda, o que desloca a curva de demanda para a direita. Da mesma forma, qualquer mudança que cause uma redução na quantidade que os compradores desejam adquirir a um preço determinado desloca a curva da demanda para a esquerda (Mankiw, 2019). Diminuição no preço de bens substitutos, redução da renda dos consumidores, redução do crédito ou mudanças nas preferências dos consumidores podem levar a essa redução da demanda, deslocando a curva de demanda para a esquerda. 3. Curva de oferta Segundo Vasconcellos e Garcia (2023), pode-se definir a oferta como as quantidades de bens e serviços que os produtores desejam oferecer ao 26 mercado, em determinado período. Ao contrário da função “demanda”, a função “oferta” mostra uma correlação direta entre a quantidade ofertada e o nível de preços, tudo o mais permanecendo constante (Vasconcellos; Garcia, 2023). É a chamada lei geral da oferta. Para ilustrar o conceito de oferta, considere o exemplo hipotético da oferta pelo bem “X”, na Tabela 2. Tabela 2 – Escala de oferta do bem “X” Alternativas de preços (R$) Quantidade ofertada (un.) 2,00 200 4,00 400 6,00 600 Fonte: elaborada pelo autor. Perceba que aumentos nos preços levam ao aumento na quantidade ofertada. Outra maneira de apresentar essa relação é por meio da curva da oferta que representa, graficamente, a escala de oferta, mostrando como a quantidade ofertada do bem varia quando seu preço se altera (Mankiw, 2019). Na Figura 3, apresenta-se a Curva de Oferta do bem “X”. Figura 3 – Curva de oferta do bem “X” Fonte: elaborada pelo autor. 27 Como se pode visualizar na Figura 3, a curva da oferta é positivamente inclinada. Isso significa que, em geral, quando o preço de um bem ou serviço aumenta, os produtores estão dispostos a fornecer mais desse produto no mercado, e quando o preço cai, a quantidade ofertada tende a diminuir. A inclinação positiva da curva da oferta reflete a lógica econômica de que as empresas visam maximizar seus lucros, e o aumento dos preços, muitas vezes, as incentivam a produzir mais para aproveitar essa oportunidade de lucro adicional (Vasconcellos; Garcia, 2023). Matematicamente, a relação entre a quantidade ofertada e o preço de um bem ou serviço pode ser expressa pela chamada função “oferta” ou “equação da oferta”, conforme a seguir: Qo = a + b.P Em que: Qo é a quantidade ofertada de determinado bem ou serviço; a é o mínimo que a empresa oferece do produto independentemente das vendas; b é o multiplicador de quantidade ofertada, à medida que o preço aumenta; P é o preço do bem ou serviço. No entanto, de acordo com Vasconcellos e Garcia (2023), outros fatores podem influenciar a decisão do empresário em produzir, tais como: custos de produção; fatores tecnológicos; mão de obra; política econômica; e metas e objetivos organizacionais. Destaca-se que mudanças nesses fatores deslocam a curva da oferta, logo que a oferta dos bens e serviços pode aumentar ou diminuir, independentemente de alterações dos preços. Essa dinâmica pode ser visualizada na Figura 4. 28 Figura 4 – Deslocamentos da curva da oferta Fonte: elaborada pelo autor. Qualquer alteração que resulte em um aumento na quantidade que os vendedores estão dispostos a produzir, a um dado preço, causa um deslocamento da curva da oferta para a direita (Mankiw, 2019). Redução dos custos de produção, melhores processos produtivos, melhora do ambiente econômico ou aumento da produtividade do trabalho são exemplos de situações que deslocam a curva da oferta para a direita. Da mesma forma, qualquer mudança que cause uma redução na quantidade que os vendedores desejam produzir, a um dado preço, desloca a curva da oferta para a esquerda (Mankiw, 2019). Aumento dos custos de produção, piores processos produtivos e piora do ambiente econômico são exemplos de situações que deslocam a curva da oferta para a esquerda. 4. Equilíbrio de mercado Depois de compreendidos os conceitos de oferta e demanda separadamente, vamos, agora, combiná-los para conhecer o chamado “equilíbrio de mercado”. 29 Segundo Mankiw (2019), o equilíbrio no mercado competitivo é uma situação na qual o preço de mercado atingiu o nível em que a quantidade demandada é igual à quantidade ofertada, ou seja, a quantidade do bem que os compradores desejam e podem comprar é exatamente igual à quantidade que os vendedores desejam e podem vender. Graficamente, o equilíbrio de mercado ocorre quando as curvas da oferta e da demanda se interceptam, conforme se pode visualizar na Figura 5. Figura 5 – Equilíbrio de mercado do bem “X” Fonte: elaboradapelo autor. Ao analisar a Figura 5, o equilíbrio de mercado ocorre no ponto “A”. Nesse ponto, as curvas da oferta e da demanda se interceptam, e a quantidade ofertada iguala à quantidade demandada. Na Figura 5, esse equilíbrio ocorre ao preço de R$ 4,00 com a quantidade de 400 unidades do bem “X”. No entanto, nem sempre o mercado encontra-se em equilíbrio, podendo ocorrer situações de excesso de oferta ou excesso de demanda. Segundo Mankiw (2019), o excesso de oferta é uma situação em que a quantidade ofertada é maior do que a quantidade demandada. Conforme se pode analisar na Figura 6, a um preço de R$ 5,00 os ofertantes estão dispostos a produzir 500 unidades do bem “X”, no entanto, os consumidores estão dispostos a comprar somente 300 30 unidades, gerando um excesso de oferta de 200 unidades. Essa situação decorre porque o mercado pratica um preço acima do equilíbrio, que, no exemplo, é de R$ 4,00. Figura 6 – Excesso de Oferta do bem “X” Fonte: elaborada pelo autor. Outra situação possível é o chamado “excesso de demanda”. Segundo Mankiw (2019), o excesso de demanda é uma situação em que a quantidade ofertada é menor do que a quantidade demandada. Essa dinâmica é apresentada na Figura 7, a seguir. Figura 7 – Excesso de Demanda do bem “X” Fonte: elaborada pelo autor. 31 Conforme se pode analisar na Figura 07, a um preço de R$ 3,00 os ofertantes estão dispostos a produzir 300 unidades, no entanto, a este preço, os consumidores estão dispostos a comprar 500 unidades, gerando um excesso de demanda de 200 unidades. Essa situação decorre porque o mercado pratica um preço abaixo de equilíbrio, que, no exemplo, é de R$ 4,00. Cabe destacar que as situações de desequilíbrios de mercado são temporárias, já que o mercado sempre vai convergir para o preço e a quantidade de equilíbrio. 5. Elasticidade A elasticidade é um conceito fundamental na economia que mede a sensibilidade das mudanças na quantidade demandada de um bem ou serviço, em resposta a mudanças em seu preço, renda ou outros fatores. Ela é crucial para entender como os consumidores e produtores reagem às flutuações nos preços e condições de mercado (Vasconcellos; Garcia, 2023). A Elasticidade Preço da Demanda (EPD) mede o quanto a quantidade demandada de um bem muda em resposta a uma alteração percentual em seu preço (Mankiw, 2019). A fórmula básica da EPD é a seguinte: Se a EPD for maior do que 1 (EPD> 1), dizemos que o bem é elástico. Isso significa que as mudanças no preço têm um impacto significativo na quantidade demandada. Por outro lado, se a EPD for menor do que 1 (EPD< 1), o bem é inelástico, o que indica que as mudanças de preço têm pouco impacto na quantidade demandada (Mankiw, 2019). 32 Espera-se que, geralmente, no cálculo seja obtido um valor negativo, o que significa que um aumento no preço deverá resultar em uma redução na demanda. Para facilitar a interpretação, é comum apresentar o valor em módulo, ou seja, se você encontrou um resultado da EPD de |-0,08|, ele é apresentado como 0,08. Suponha que, com o aumento de 10% nos preços, o consumidor passe a demandar 5% a menos de gasolina. Isso significa que a alteração na quantidade demandada ocorre em uma intensidade menor do que a alteração nos preços. Para calcular o valor da elasticidade basta dividir a variação da demanda (-5%) pela variação no preço (10%), conforme a seguir: Pode-se interpretar desse resultado que, a cada 1% de aumento na gasolina, a demanda é reduzida em 0,5%, ou seja, é inelástico, pois, seu valor em módulo é menor do que 1. Já a Elasticidade Renda da Demanda (ERD) se concentra na relação entre a quantidade demandada de um bem e as mudanças na Renda do consumidor. Ela é expressa como a variação percentual na quantidade demandada de um bem, dividida pela variação percentual na renda do consumidor (Mankiw, 2019). A fórmula é a seguinte: O valor da Elasticidade Renda pode ser positivo ou negativo. Uma Elasticidade Renda positiva indica que, à medida que a renda do consumidor aumenta, a quantidade demandada do bem também aumenta (Mankiw, 2019). 33 Inserido nessas condições, temos os chamados bens normais, que apresentam ERD maiores do que zero e menores do que um (0 < ERD < 1) e os bens superiores, que apresentam ERD maior do que 1 (ERD > 1). Já uma Elasticidade Renda negativa (ERD < 0) sugere que, com o aumento da renda, a quantidade demandada diminui. Esses bens são chamados de inferiores (Mankiw, 2019). Vamos a um exemplo? Considere que a renda de uma família seja ampliada em 20%. O mais provável é que o aumento no consumo de feijão seja em um percentual menor do que 20%. Se for de 4%, a ERD será igual a 0,2, caracterizando o feijão como um bem normal. Pode-se interpretar, desse resultado, que a cada 1% de aumento na renda, a demanda por feijão aumenta em 0,2%, ou seja, é um bem normal. Por outro lado, considere que a ampliação da renda de uma família de 10% leve ao aumento do gasto com cultura e lazer, em 15%. Assim, a ERD será de 1,5, caracterizando a demanda por cultura e lazer como bem superior. Pode-se interpretar, desse resultado, que a cada 1% de aumento na renda, a demanda por cultura e lazer aumenta em 1,5%, ou seja, é um bem superior. 34 Referências KRUGMAN, P.; WELLS, R. Introdução à economia. 6. ed. Barueri, SP: Atlas, 2023. MANKIW, N. G. Introdução à economia. 8. ed. São Paulo: Cengage Learning, 2019. VASCONCELLOS, M. A. S.; GARCIA, M. E. Fundamentos de economia. 7. ed. São Paulo: Saraiva, 2023. 35 Estruturas de Mercado Autoria: Renato José da Silva Leitura crítica: Vaine Fermoseli Vilga Objetivos • Conhecer as principais características das estruturas de mercado. • Compreender a diferença entre competição perfeita e monopólio. • Analisar o comportamento estratégico em oligopólios. • Entender o funcionamento da concorrência monopolística. 36 1. Conceitos iniciais Olá, estudante! Seja bem-vindo a nossa terceira unidade de aula da disciplina Economia e Mercados. Nesta aula, vamos conhecer as características das chamadas “estruturas de mercado”. Essas estruturas descrevem como as empresas interagem umas com as outras e com os consumidores em um determinado setor, e podem variar, significativamente, em termos de características e influências sobre a tomada de decisão das empresas. Segundo Vasconcellos e Garcia (2023), as várias formas ou estruturas de mercado dependem, fundamentalmente, de três características: a. Número de empresas que compõem esse mercado: esse fator refere-se à quantidade de empresas que compõem um mercado específico. Pode variar desde um mercado com apenas algumas empresas até um mercado com muitas delas competindo entre si. b. Tipo do produto (se as firmas fabricam produtos idênticos ou diferenciados): essa característica diz respeito à natureza dos produtos oferecidos pelas empresas. Os produtos podem ser idênticos, ou seja, não diferenciados, como commodities, ou podem ser diferenciados, com características únicas que os distinguem dos produtos de outras empresas no mesmo mercado. c. Se existem ou não barreiras ao acesso de novas empresas nesse mercado: essa característica diz respeito à presença ou ausência de barreiras que dificultam ou impedem a entrada de novas empresas no mercado. Barreiras ao acesso podem incluir fatores como: altos custos iniciais, patentes, controle de recursos essenciais ou até mesmo a lealdade dos clientes às marcas estabelecidas. 37 Portanto, ao compreender essas três características fundamentais das estruturas de mercado, pode-se analisar e compreender melhor como as empresas operam em diferentes contextos econômicos. De acordo com Mankiw (2019), existem quatro estruturas de mercado principais, cada uma com suas próprias características distintas: concorrência perfeita, monopólio, oligopólio e concorrência monopolística. Vamos estudá-las? 2. Concorrência perfeita A concorrência perfeita é caracterizada por um mercado que abriga um grandecontingente de vendedores, tantos que a atuação individual de uma empresa não tem impacto significativo na oferta do mercado, e, por conseguinte, no preço de equilíbrio (Vasconcellos; Garcia, 2023). A abundância de empresas nesse cenário as torna meras seguidoras de preços, conhecidas como “tomadoras de preços” ou “price-takers”. Na concorrência perfeita há muitos compradores, sendo que cada comprador individual tem impacto insignificante sobre o preço de mercado (Mankiw, 2019). Segundo Vasconcellos e Garcia (2023), nesse tipo de mercado, as principais premissas são: • Mercado atomizado: composto de grande número de empresas, como se fossem “átomos”. • Produtos homogêneos: não existe diferenciação entre produtos ofertados pelas empresas concorrentes. • Ausência de barreiras: não existem barreiras para o ingresso de empresas no mercado. 38 • Transparência do mercado: todas as informações sobre lucros, preços etc. são conhecidas por todos os participantes do mercado. Para exemplificar, imagine um mercado de soja em que diversas fazendas produzem e vendem soja para processadores de alimentos e fabricantes de ração animal. Nesse mercado, vê-se: • Muitos compradores e vendedores: existem numerosos produtores de soja e compradores, como processadores de alimentos, fazendas de criação de gado e fábricas de ração animal. • Produto homogêneo: a soja é um produto agrícola padronizado, e todas as safras de soja são praticamente idênticas em termos de qualidade e características. • Livre entrada e saída: novos agricultores podem entrar no mercado de soja facilmente, e os produtores podem decidir cultivar outros produtos se a demanda por soja diminuir. • Transparência de preços: todos os participantes do mercado têm acesso às informações de preços de soja em tempo real, geralmente, por meio de Bolsas de commodities ou outros canais de informação. • Nenhuma influência individual no preço: nenhum produtor individual de soja tem poder de mercado significativo para influenciar o preço dela. O preço da soja é determinado pela interação entre a oferta e a demanda no mercado como um todo. Portanto, nenhum agricultor individual pode definir o preço da soja, independentemente de quão grande seja a sua safra. Com isso, o preço da soja é determinado pelas forças do mercado, levando em consideração fatores como a oferta global de soja, a demanda dos compradores e as condições climáticas que podem afetar a produção. Assim, nesse tipo de mercado não existe qualquer intervenção do 39 governo que influencie as tomadas de decisão, tanto dos consumidores (lado da demanda) quanto dos empresários (lado da oferta), e ocorre o chamado preço de equilíbrio, conforme a Figura 1: Figura 1 – Concorrência perfeita Fonte: Vasconcellos e Garcia (2023, p. 54). Assim, a partir da perspectiva da empresa, em um ambiente de concorrência perfeita, a curva da demanda assume a forma de uma linha reta (Gráfico b). Isso reflete o preço determinado pelas forças do mercado (Gráfico a), e todas as empresas que operam nesse mercado se tornam simples seguidoras de preços (Vasconcellos; Garcia, 2023). Isso significa que nenhuma empresa individual tem a capacidade de influenciar o preço ou cobrar um valor acima do preço estabelecido pelo mercado. 3. Monopólio O monopólio é uma das características de mercado mais debatidas na teoria econômica. É um conceito fundamental que descreve uma estrutura de mercado na qual uma única empresa (ou vendedor) é o único fornecedor de um determinado produto ou serviço (Medeiros, 2020). 40 O termo “monopólio” vem do grego mono (que significa “um”) e polein (que significa “vender”). Ocorre quando uma única empresa ou entidade detém o controle exclusivo sobre a produção e venda de um bem ou serviço específico, em um determinado mercado geográfico. Em outras palavras, não há concorrência direta nesse mercado, pois não existem produtos ou serviços substitutos oferecidos por outras empresas (Medeiros, 2020). Em um mercado monopolista, a curva de demanda enfrentada pela empresa é a própria curva de mercado, uma vez que não há outras empresas que ofereçam produtos substitutos (Vasconcellos; Garcia, 2023). No entanto, a curva de demanda é inclinada para baixo, o que significa que, à medida que a empresa aumenta o preço do produto, a quantidade demandada diminui, conforme a Figura 2: Figura 2 – Demanda de mercado do monopolista Fonte: Vasconcellos e Garcia (2023, p. 54). Quando uma empresa opera como monopólio, ela possui o controle absoluto sobre a determinação do preço de equilíbrio no mercado, influenciado diretamente por sua capacidade de produção. Se a empresa opta por aumentar sua oferta, isso resultará em uma diminuição do preço no mercado. Por outro lado, se a empresa reduz a oferta, o preço no mercado tende a aumentar. 41 Mas por qual motivo surgem os monopólios? Segundo Mankiw (2019), a causa fundamental dos monopólios está nas barreiras à entrada: a empresa permanece como a única participante no mercado devido à impossibilidade das demais empresas entrarem e concorrerem com ela. De acordo com Vasconcellos e Garcia (2023), barreiras à entrada podem advir das seguintes condições: • Monopólio natural: as empresas já estabelecidas operam com instalações industriais de grande porte, desfrutando de significativas economias de escala e custos unitários reduzidos. Isso permite que ofereçam seus produtos a preços relativamente baixos, criando assim uma barreira significativa para a entrada de novos concorrentes. • Patentes: empresas que detêm patentes ou direitos autorais exclusivos sobre produtos ou tecnologias podem operar em um ambiente monopolista durante o período de proteção desses direitos. • Controle de recursos escassos: quando uma empresa detém o controle exclusivo de recursos essenciais para a produção de um bem ou serviço. • Controle estatal: é observado em setores considerados estratégicos ou relacionados à segurança nacional, como energia, saneamento, comunicações e petróleo. A maximização do lucro em um mercado monopolista ocorre quando a empresa produz a quantidade em que o custo marginal (CMg) é igual à receita marginal (RMg). Isso significa que a empresa escolhe um nível de produção onde o custo adicional de produzir uma unidade a mais do produto é igual à receita adicional que ela obtém com a venda dessa unidade adicional. A fórmula para a maximização do lucro em um monopólio é a seguinte: RMg = CMg 42 Onde RMg é a receita marginal e CMg é o custo marginal. Graficamente, essa relação é apresentada na Figura 3: Figura 3 – Maximização do lucro do monopólio Fonte: Mankiw (2019, p. 242). Conforme a Figura 3, a empresa monopolista ajusta seu nível de produção até a quantidade Qmax, no qual a receita marginal é igual ao custo marginal. logo, a quantidade produzida que maximiza o lucro do monopolista é determinada pela intersecção da curva da receita marginal com a curva do custo marginal (ponto a). Então, o monopolista utiliza a curva da demanda para determinar o preço que induzirá os consumidores a comprarem essa quantidade (Ponto B) (Mankiw, 2019). 4. Oligopólio O oligopólio é uma estrutura de mercado que se encontra em algum lugar entre os extremos do monopólio e da concorrência perfeita. Segundo Vasconcellos e Garcia (2023), o oligopólio é um tipo de estrutura de mercado caracterizado por um pequeno número de 43 empresas dominantes que detêm o controle significativo sobre a oferta de um determinado produto ou serviço em um mercado específico. Em um oligopólio, cada empresa reconhece a interdependência estratégica com suas concorrentes, uma vez que as ações de uma empresa afetam diretamente o desempenho e as decisões das outras. A indústria brasileira apresenta um alto grau de oligopolização, e isso fica evidente em uma variedade de setores, incluindo: montadoras de veículos, empresas de cosméticos, fabricantes de papel, indústria química, empresas farmacêuticas,produtores de bebidas, fabricantes de alimentos, e muitos outros (Vasconcellos; Garcia, 2023). Nesse contexto, segundo Vasconcellos (2015), o oligopólio pode ser classificado em duas categorias principais: • Oligopólio puro: nesse tipo, poucas empresas dominam o mercado e oferecem produtos ou serviços idênticos ou muito semelhantes. O comportamento das empresas tende a ser altamente interdependente, levando a estratégias de preços e produção cuidadosamente coordenadas. • Oligopólio diferenciado: aqui, as empresas oferecem produtos ou serviços que têm algumas diferenças perceptíveis. Isso permite que as empresas tenham algum controle sobre o preço, já que os consumidores podem estar dispostos a pagar um pouco mais por certas características ou marcas específicas. As curvas da oferta e da demanda no oligopólio são influenciadas pela interdependência entre as empresas. Como resultado, a curva da demanda enfrentada por uma empresa oligopolista é mais elástica do que a de uma empresa monopolista, mas menos elástica do que em um mercado de concorrência perfeita. A curva da demanda é mais elástica do que no monopólio porque as empresas oligopolistas precisam levar em consideração as reações de 44 seus concorrentes aos preços que definem. Isso acontece porque se uma empresa aumenta seu preço significativamente, ela pode perder uma parcela substancial de sua base de clientes para concorrentes que mantêm preços mais baixos. No entanto, a curva da demanda é menos elástica do que em um mercado de concorrência perfeita porque as empresas oligopolistas ainda têm algum grau de poder de mercado. Os consumidores podem estar dispostos a pagar um pouco mais por produtos diferenciados ou por marcas específicas. Sendo assim, segundo Medeiros (2020), as estratégias das empresas em um oligopólio variam amplamente e podem incluir: • Fixação de preços: empresas podem adotar estratégias de preços agressivas para conquistar participação de mercado ou preços mais altos para maximizar margens de lucro. • Diferenciação de produtos: algumas empresas podem investir em publicidade, branding e inovação para criar produtos diferenciados que atraiam consumidores dispostos a pagar mais. • Concorrência não preço: as empresas também podem competir com base em qualidade, serviço ao cliente, localização, garantias e outros fatores não relacionados a preços. • Táticas de barreiras à entrada: para proteger sua posição no mercado, as empresas podem adotar táticas que dificultam a entrada de novos concorrentes, como acordos exclusivos ou patentes. Quanto aos objetivos de maximização de lucro, de acordo com Vasconcellos e Garcia (2023), os oligopolistas podem seguir a estratégia da teoria da organização industrial, em que o foco é maximizar o mark- up, que é igual a: 45 Mark-up = receita de vendas–custos diretos (ou variáveis) O preço cobrado pela empresa, no modelo de mark-up, é calculado da seguinte forma: p = (1 + m).C em que: p = preço do produto; C = custo direto unitário (que corresponde, na teoria marginalista, ao custo variável médio); m = taxa de mark-up, que é uma porcentagem sobre os custos diretos. A taxa de mark-up deve ser estabelecida de forma a englobar tanto os custos fixos quanto a margem de lucro desejada pela empresa. É importante notar que o conceito de mark-up guarda uma grande semelhança com o conceito de margem de contribuição utilizado na contabilidade empresarial privada (Vasconcellos, 2015). 5. Concorrência monopolística Segundo Mankiw (2019), a concorrência monopolística é caracterizada por várias empresas que produzem produtos ou serviços que são diferenciados de alguma forma. Essa diferenciação pode ocorrer por meio de aspectos como qualidade, marca, design, embalagem, atendimento ao cliente, entre outros. A chave aqui é que, embora os produtos sejam semelhantes, eles não são perfeitamente substituíveis uns pelos outros, ao contrário do que acontece em uma concorrência perfeita (Mankiw, 2019). 46 Assim, segundo Medeiros (2020), os principais pressupostos dessa estrutura são: • Os consumidores constituem um grupo numeroso, porém, individualmente, têm uma influência limitada. • As barreiras à entrada para os vendedores são praticamente inexistentes, permitindo a livre entrada e saída de empresas no mercado, em contraste com mercados oligopolistas, caracterizados por barreiras substanciais à entrada e saída, o que resulta em uma rotatividade frequente de agentes no mercado. • Embora os produtos possam ser substituídos entre si, os consumidores percebem diferenças distintas entre eles. • Existe um considerável número de empresas no mercado que desfrutam de uma relativa liberdade para estabelecer os preços de seus produtos. • Sob essas circunstâncias, as empresas estão sujeitas a serem mutuamente impactadas pelas ações das concorrentes. As curvas de oferta e de demanda em um mercado de concorrência monopolística são influenciadas pela diferenciação dos produtos. A demanda de cada empresa é relativamente elástica, pois os consumidores podem alternar para produtos similares se os preços aumentarem. Nesta estrutura de mercado, a curva da demanda de uma empresa é descendente, mas não tão íngreme quanto em um mercado de monopólio puro. Isso significa que as empresas têm algum controle sobre o preço, mas precisam considerar a elasticidade da demanda ao definir seus preços. A curva da oferta é semelhante à de uma concorrência perfeita, onde a empresa maximiza o lucro produzindo até o ponto onde o custo marginal se iguala à receita marginal. 47 As empresas em um mercado de concorrência monopolística adotam várias estratégias para se destacar e ganhar a preferência dos consumidores, tais quais: • Diferenciação de produto: investir em melhorias de qualidade, design, embalagem, serviço ao cliente e branding para criar uma imagem única e atrair clientes. • Marketing e publicidade: as empresas gastam recursos consideráveis em publicidade para aumentar a conscientização da marca e influenciar a preferência do consumidor. • Preços competitivos: manter os preços competitivos em relação aos produtos concorrentes, considerando a elasticidade da demanda. • Inovação: continuar inovando para desenvolver novos produtos e diferenciações que atraiam consumidores. • Segmentação de mercado: identificar segmentos de mercado específicos e adaptar produtos e estratégias de marketing para atender às necessidades desses segmentos. Dessa forma, percebe-se que as estratégias das empresas se concentram na criação de valor por meio da diferenciação, publicidade e inovação, enquanto enfrentam a constante ameaça de concorrentes e produtos substitutos. É um mercado dinâmico e desafiador, onde as empresas buscam maximizar o lucro, mas podem enfrentar dificuldades em manter margens elevadas a longo prazo. Referências KRUGMAN, P.; WELLS, R. Introdução à economia. 6. ed. Barueri, SP: Atlas, 2023. MANKIW, N. G. Introdução à economia. 8. ed. São Paulo: Cengage Learning, 2019. 48 MEDEIROS, F. B. S. Economia para negócios. Londrina: Editora e Distribuidora Educacional S.A., 2020. VASCONCELLOS, M. A. S. Economia: micro e macro. 6. ed. São Paulo: Atlas, 2015. VASCONCELLOS, M. A. S.; GARCIA, M. E. Fundamentos de economia. 7. ed. São Paulo: Saraiva, 2023. 49 Macroeconomia e Políticas econômicas Autoria: Renato José da Silva Leitura crítica: Vaine Fermoseli Vilga Objetivos • Conhecer os fundamentos da macroeconomia. • Compreender o que são as políticas econômicas. • Entender o funcionamento das políticas fiscal e monetária. 50 1. Conceitos iniciais sobre macroeconomia Olá, estudante! Seja bem-vindo a nossa quarta unidade de aula da disciplina Economia e Mercados. Nesta aula, vamos conhecer os pressupostos básicos da macroeconomia e as políticas econômicas. De acordo com Vasconcellos e Garcia (2023), a macroeconomia se concentra na análise da economia em sua totalidade, examinando como são determinados e comose comportam os principais indicadores econômicos, como a renda, o produto nacional, o nível geral de preços, a situação de emprego e desemprego, a quantidade de dinheiro em circulação e as taxas de juros, além do balanço de pagamentos e da taxa de câmbio. Logo, a macroeconomia se concentra no estudo de agregados macroeconômicos, que são medidas econômicas que se aplicam à economia como um todo, em contraste com a microeconomia, que analisa o comportamento de agentes econômicos individuais, como consumidores e empresas (Vasconcellos, 2015). Uma das ferramentas fundamentais da macroeconomia é a equação identidade do produto ou da renda, que estabelece uma relação entre os principais agregados macroeconômicos (Blanchard, 2017). Essa equação é expressa da seguinte forma: Y = C + I + G + (X − M) Em que: “Y” representa o Produto Interno Bruto (PIB), que é igual à renda total gerada na economia; “C” é o consumo, que representa o gasto das famílias; “I” é o investimento, que inclui o gasto das empresas em capital fixo; “G” são os gastos do governo; “X” representa as exportações; e “M” representa as importações. 51 Essa equação identidade ilustra como o PIB de uma economia é determinado pela soma do consumo das famílias, investimento das empresas, gastos do governo e o saldo entre exportações e importações (Blanchard, 2017). Alterações em qualquer uma dessas variáveis afetarão o nível geral de produção e renda na economia. Dentro dos agregados macroeconômicos existem diversas variáveis- chave que os economistas estudam para entender o funcionamento da economia. Algumas das principais variáveis macroeconômicas incluem: • Desemprego: a taxa de desemprego representa a porcentagem da força de trabalho que está desempregada e em busca de emprego ativamente. É um indicador importante da saúde do mercado de trabalho. • Inflação: a inflação mede o aumento geral dos preços dos bens e serviços em uma economia ao longo do tempo. Uma inflação excessiva pode prejudicar o poder de compra da moeda. • Taxa de Juros: a taxa de juros, definida pelos bancos centrais, influencia o custo do crédito e afeta o investimento e o consumo. • Balança comercial: a balança comercial reflete a diferença entre as exportações e as importações de bens e serviços de um país. Ela tem um papel importante na determinação da saúde financeira de uma nação. • Déficit orçamentário: refere-se à diferença entre as receitas e os gastos do governo. Um déficit pode levar a um aumento na dívida pública. • Taxa de câmbio: a taxa de câmbio determina o valor relativo de uma moeda em relação a outras moedas estrangeiras e afeta o comércio internacional e os fluxos de capital entre países. 52 Compreendido esses conceitos fundamentais da macroeconomia, vamos destacar a importância da chamada política macroeconômica. A política macroeconômica é um conjunto de estratégias e medidas adotadas por um governo ou autoridade monetária para gerenciar e controlar a economia de um país (Vasconcellos, 2015). A política macroeconômica busca equilibrar os objetivos conflitantes de estabilidade de preços, crescimento econômico, pleno emprego e equilíbrio nas contas externas (Vasconcellos, 2015). Destacam-se as duas principais políticas macroeconômicas: • Política fiscal. • Política monetária. A partir de agora, serão apresentados os conceitos e práticas dessas políticas. 2. Política fiscal No complexo ambiente econômico, os governos desempenham um papel importante ao intervir na economia, com o objetivo de promover o bem-estar social, sustentar o crescimento e evitar crises. Essa intervenção decorre da necessidade de corrigir imperfeições que surgem de forma natural nos mercados, a fim de admoestar distorções, promover distribuição de renda e investir em infraestrutura essencial (Giambiagi et al., 2021). De acordo com Vasconcellos (2015), ao analisar tal intervenção, é possível identificar três funções primordiais desempenhadas pelo governo na economia: • Alocativa. • Distributiva. • Estabilizadora. 53 A função alocativa refere-se ao direcionamento eficiente de bens e serviços não oferecidos pelo sistema de mercado, para alcançar metas de utilidade social, como educação, saúde e infraestrutura. Esses bens e serviços são denominados bens públicos, que são bens de consumo coletivo, tendo como principal característica a impossibilidade de excluir determinados indivíduos de seu consumo (Vasconcellos, 2015). Já a função distributiva diz respeito à redistribuição de renda e riqueza, a fim de promover uma sociedade mais equitativa. Por último, a função estabilizadora busca manter a estabilidade macroeconômica, com vistas a promover o emprego, o crescimento econômico e a estabilidade de preços. É dentro desse contexto da função estabilizadora que surge a política macroeconômica, que abrange uma série de ações destinadas a influenciar o sistema econômico. Um dos instrumentos da política macroeconômica é a política fiscal, que se concentra nas decisões relacionadas às despesas públicas, arrecadação de impostos e uso da dívida pública (Vasconcellos, 2015). De acordo com Vasconcellos e Garcia (2023), a política fiscal engloba as ações governamentais que afetam a arrecadação (política tributária) e os gastos públicos (política de gastos). Trata-se de uma ferramenta com a qual os governos buscam alcançar metas econômicas e sociais, influenciando a demanda e o comportamento dos agentes econômicos. Seu objetivo abrange desde promover o crescimento econômico até garantir a estabilidade financeira do país. A importância da política fiscal é notável, dado o seu impacto na vida cotidiana das pessoas e nas operações das organizações. Por exemplo, ao ajustar as alíquotas de impostos ou direcionar investimentos em setores estratégicos, o governo pode estimular ou desacelerar a economia, influenciando diretamente o consumo, a produção e o nível de emprego. 54 De acordo com Krugman e Wells (2023), a política fiscal assume duas principais abordagens: contracionista e expansionista. A primeira é adotada em momentos de superaquecimento econômico, quando a inflação tende a subir. O governo busca conter o excesso de demanda, aumentando os impostos e reduzindo os gastos públicos. Essas ações reduzem a disponibilidade de dinheiro na economia, desacelerando-a e controlando a inflação. Por outro lado, a política fiscal expansionista é aplicada em cenários de desaceleração econômica ou recessão. O governo pode aumentar os gastos públicos e/ou reduzir os impostos para estimular a demanda agregada. Esse estímulo visa reativar a economia, ampliar empregos e gerar crescimento econômico. De acordo com Vasconcellos e Garcia (2023), os conceitos de déficit e superávit primário estão intrinsecamente ligados à política fiscal. O déficit primário ocorre quando os gastos públicos excedem as receitas, enquanto o superávit primário é quando as receitas superam os gastos. A política fiscal contracionista muitas vezes está associada à busca de superávits primários, visando à redução da dívida pública. Já a política fiscal expansionista, que tende a aumentar os gastos governamentais, pode resultar em déficits primários, com foco em estimular a economia. Outro ponto importante é a compreensão da diferença entre superávit e déficit nominal. Ainda de acordo com Vasconcellos e Garcia (2023), o superávit nominal ocorre quando as receitas totais excedem as despesas totais, incluindo os pagamentos de juros da dívida pública, enquanto o déficit nominal, se apresenta quando as despesas totais ultrapassam as receitas, abarcando o pagamento dos juros. Logo, a busca por um superávit nominal é uma maneira de controlar a expansão da dívida pública. 55 Nesse contexto, a relação entre a política fiscal e a dívida pública é um elemento importante a ser considerado pelos formuladores de políticas públicas. A dívida pública é a soma do dinheiro que o governo deve a credores externos e internos.A política fiscal contracionista, ao visar controlar os gastos, busca conter o aumento da dívida, uma vez que menores gastos implicam menor endividamento. Por outro lado, a política fiscal expansionista pode resultar em um aumento da dívida pública, uma vez que o governo emitirá títulos, se endividando para financiar os gastos adicionais. (Vasconcellos, 2015). 3. Política monetária A moeda desempenha um papel crucial na dinâmica econômica. Nesse contexto, o governo elabora estratégias com o intuito de ajustar o sistema monetário de acordo com as demandas econômicas do país. No Brasil, as instituições financeiras responsáveis — o Conselho Monetário Nacional (CMN) e o Banco Central do Brasil (Bacen) — desempenham um papel ativo no âmbito monetário, implementando políticas que empregam mecanismos de impacto direto ou indireto para regular a liquidez geral da economia. Em sua abordagem mais abrangente, podemos adotar a seguinte descrição para a política monetária: A política monetária pode ser definida como o controle da oferta de moeda e das taxas de juros, no sentido de que sejam atingidos os objetivos da política econômica global do governo. Alternativamente, pode também ser definida como a atuação das autoridades monetárias por meio de instrumentos de efeito direto ou induzido, com o propósito de controlar a liquidez do sistema econômico. (Lopes; Rossetti, 2009, p. 253) De acordo com Blanchard (2017), a política monetária poderá ser contracionista ou expansionista. Conforme o autor, na política 56 monetária contracionista, a intenção é reduzir ou manter estável a quantidade de dinheiro em circulação, com o propósito de conter o aquecimento econômico e prevenir o aumento dos preços. Já na política monetária expansionista, prioriza-se aumentar a quantidade de dinheiro em circulação, com o objetivo de estimular a demanda e promover o crescimento econômico. Segundo Vasconcellos e Garcia (2023), os instrumentos disponíveis ao Banco Central para atuação da política monetária são: • Reservas compulsórias (percentual sobre os depósitos que os bancos comerciais devem colocar à disposição do Banco Central). • Open market (compra e venda de títulos públicos). • Redescontos (empréstimos do Banco Central aos bancos comerciais). • Regulamentação sobre o crédito e a taxa de juros. Assim, a política monetária exerce uma influência direta sobre a liquidez do sistema econômico. Portanto, por meio de instrumentos como depósito compulsório, operações de redesconto, mercado aberto e controle de crédito, a política monetária busca influenciar as condições de crédito, o comportamento de consumo e investimentos e, consequentemente, o nível da atividade econômica (Vasconcellos; Garcia, 2023). A partir de agora, vamos compreender como os instrumentos de política monetária são utilizadas pelo Banco Central para operacionalizar a política monetária. Vamos lá? De acordo com Vasconcellos (2015), as reservas compulsórias, ou depósito compulsório, são a fração dos depósitos que os bancos são obrigados a manter junto ao Banco Central de um país. Um aumento 57 no depósito compulsório reduz a disponibilidade de fundos para empréstimos por parte dos bancos junto ao público, diminuindo a criação de moeda escritural, reduzindo também o volume de meios de pagamentos na economia (Vasconcellos, 2015). O oposto ocorre quando o depósito compulsório é reduzido, o que leva ao aumento das disponibilidades de empréstimos bancários, fomentando o consumo e o investimento (Figura 1). Figura 1 – Reservas compulsórias Fonte: adaptada de Lopes e Rossetti (2009). É importante destacar que a escala e a influência desse instrumento variam de acordo com os objetivos da política monetária. Quando o foco principal é controlar a inflação, as taxas de reservas geralmente são mais elevadas. Já para estimular o crescimento econômico, essas taxas tendem a ser reduzidas (SILVA et al., 2017). Nas operações de mercado aberto, ou open market, o Banco Central compra ou vende títulos no mercado de títulos públicos (Blanchard, 2017). Compras de títulos públicos por parte do Banco Central junto aos agentes econômicos injetam dinheiro na economia, aumentando a oferta monetária. Porém, vendas de títulos retiram dinheiro da economia, diminuindo a oferta monetária. Essa dinâmica pode ser visualizada na Figura 2. 58 Figura 2 – Operações de open market Fonte: adaptada de Lopes e Rossetti (2009). Ainda segundo Blanchard (2017), para vender os títulos públicos, o Banco Central normalmente deve elevar a taxa de juros, enquanto para a compra de títulos, reduz a taxa de juros. Com relação às operações de redesconto, segundo Vasconcellos e Garcia (2023), os bancos comerciais podem obter empréstimos junto ao Banco Central para financiar eventuais débitos ou para financiar setores ou atividades específicas. A taxa de redesconto é a taxa de juros cobrada pelo Banco Central nesta operação. Uma taxa de redesconto mais alta torna o empréstimo mais caro, o que desencoraja os bancos a tomarem dinheiro emprestado junto ao Banco Central. Sendo assim, os bancos aumentam suas reservas, reduzem os recursos disponíveis para empréstimos, e consequentemente, isso impacta na redução do consumo e investimento na economia. Em contrapartida, uma taxa de redesconto mais baixa estimula os bancos a aumentarem seus fundos 59 para empréstimos, o que leva a um efeito positivo para o consumo e investimento, conforme Figura 3. Figura 3 – Operações de redesconto Fonte: adaptada de Lopes e Rossetti (2009). Quanto ao controle de crédito, o Banco Central pode estabelecer limites ou diretrizes para a concessão de crédito pelos bancos comerciais. Restrições mais rigorosas desaceleram o crescimento econômico, enquanto flexibilizações podem estimular a atividade econômica (Vasconcellos, 2015). Conhecidos os instrumentos de política monetária, pode- se compreender o seu uso na execução da política monetária contracionista e expansionista. A política monetária contracionista é adotada quando o objetivo é conter o crescimento acelerado da economia e evitar o aumento excessivo da inflação. Nesse cenário, o Banco Central opta por reduzir a oferta monetária e elevar as taxas de juros (Krugman; Wells, 2023). Isso é feito, por exemplo, aumentando o depósito compulsório, que é a parcela dos depósitos que os bancos são obrigados a manterem no Banco Central. Além disso, o Banco Central pode aumentar as taxas de juros das operações de redesconto, dificultando o acesso dos bancos a empréstimos de curto prazo. 60 Ao fazer política monetária contracionista, nas operações de mercado aberto, o Banco Central vende títulos públicos. Os investidores e bancos comerciais compram esses títulos usando dinheiro que, de outra forma, poderia ter sido usado para empréstimos e investimentos. Para diminuir a oferta de moeda em uma economia, o Banco Central também pode impor restrições ou diretrizes mais rígidas aos bancos comerciais em relação a quem pode obter empréstimos, o que leva à contração do crédito na economia. Por outro lado, a política monetária expansionista é implementada para impulsionar a atividade econômica, especialmente durante períodos de desaceleração econômica ou recessão (Krugman; Wells, 2023). Neste caso, o Banco Central incentiva o aumento da oferta de dinheiro e reduz as taxas de juros. Isso pode ser alcançado pela redução do depósito compulsório, tornando mais fácil para os bancos emprestarem dinheiro. Outra possibilidade é a redução da taxa de juros de operações de redesconto, o que possibilita o acesso do banco comercial a empréstimos junto ao Banco Central, disponibilizando tais recursos financeiros ao público em geral. Além disso, o Banco Central pode recorrer a operações de mercado aberto, comprando títulos no mercado para injetar dinheiro diretamente na economia, já que os agentes vendem seus títulos e usam os recursos para consumo e investimento. O Banco Central tambémpode retirar restrições ou levar diretrizes mais brandas aos bancos comerciais em relação a quem pode obter empréstimos, o que leva a uma expansão do crédito na economia. Referências BLANCHARD, O. Macroeconomia. 7. ed. São Paulo: Pearson, 2017. GIAMBIAGI, F. et al. Economia brasileira contemporânea (1945–2015). 3. ed. Rio de Janeiro: Atlas, 2021. 61 KRUGMAN, P.; WELLS, R. Introdução à economia. 6. ed. Barueri, SP: Atlas, 2023. LOPES, J. C.; ROSSETTI, J. P. Economia monetária. 9. ed. São Paulo: Atlas, 2009. MANKIW, N. G. Introdução à Economia. 8. ed. São Paulo: Cengage Learning, 2019. SILVA, R. J. et al. Economia monetária e mercado de capitais. Londrina: Editora e Distribuidora Educacional S.A., 2017. VASCONCELOS, M. A. S. Economia: micro e macro. 6. ed. São Paulo: Atlas, 2015. VASCONCELOS, M. A. S. GARCIA, M. E. Fundamentos de economia. 7. ed. São Paulo: Saraiva, 2023. 62 Sumário Apresentação da disciplina Fundamentos de economia Objetivos 1. Introdução à economia 2. Fluxo circular da renda 3. Breve contextualização das principais escolas do pensamento econômico Referências Oferta, demanda e equilíbrio de mercado Objetivos 1. Conceitos iniciais 2. Curva de demanda 3. Curva de oferta 4. Equilíbrio de mercado 5. Elasticidade Referências Estruturas de Mercado Objetivos 1. Conceitos iniciais 2. Concorrência perfeita 3. Monopólio 4. Oligopólio 5. Concorrência monopolística Referências Macroeconomia e Políticas econômicas Objetivos 1. Conceitos iniciais sobre macroeconomia 2. Política fiscal 3. Política monetária Referências