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Professora Ana Paula Quadros Gomes _ 2020-1 _ anpola@gmail.com 13 A.3- Julgamentos de valor de verdade Ele está nadando? A Semântica Formal se ocupa de como temos uma resposta para casa situação (foto). A.4- Pressuposição Vamos considerar uma palavra: ‘inventar’. Em que situações podemos usá-la? Vejamos: (1) a. Santos Dumont inventou o avião em 1906, com o 14 bis. b. Graham Bell inventou o telefone em 1876. Tomando as sentenças (1) como verdadeiras, temos de aceitar que não existiam aviões antes de 1906, nem existiam telefones antes de 1876. ‘Inventar’ significa criar o que ainda não existe, e que passará a existir pela primeira vez. Dizemos que ‘inventar’ pressupõe que a referência de seu complemento esteja existindo pela primeira vez. Por exemplo, os norte-americanos diriam que (1a) é falsa, porque os irmãos Wright realizaram um voo antes, em 1903. Brasileiros afirmam que o voo dos irmãos Wright não conta, porque foi catapultado. Quer dizer, para os americanos, o avião não foi inventado em 1906 porque já existia em 1903; para os brasileiros, o avião propriamente dito não existia antes de 1906. A briga pela glória de ser o país inventor do avião gira em torno de definir a data correta do início de sua existência. E o telefone? Bell teve oportunidade de ver a invenção do professor italiano Antonio Meucce em 1856, e pode comprar os direitos dele em 1870. Os escoceses e os italianos discordam sobre quem inventou o telefone. A briga é sobre a data em que aquilo que se entende por telefone começou a existir. Logo, inventar é dar existência a alguma coisa. Se trocamos o verbo ‘inventar’ por outro, a disputa entre americanos e brasileiros, sobre o avião, e entre italianos e escoceses, sobre o telefone, desaparece: (1) c. Santos Dumont usou o avião em 1906, com o 14 bis. d. Graham Bell patenteou o telefone em 1876. Professora Ana Paula Quadros Gomes _ 2020-1 _ anpola@gmail.com 14 Certamente todos os nacionalistas estarão de acordo com as sentenças (1c) e (1d), porque os verbos usados aí não pressupõem que o avião e o telefone passaram a existir nesse momento. Quem acha que já existiam antes não terá problema com essas sentenças. ‘Usar’ e ‘patentear’ não carregam a pressuposição de que os objetos usados e patenteados nunca existiram antes, mas ‘inventar’ carrega sim a pressuposição de que os objetos inventados nunca existiram antes de sua invenção. Observe que as sentenças (1a) e (1b) não trazem as palavras “o objeto inventado não existia antes”, mas mesmo não estando expresso, esse significado está preso ao verbo ‘inventar’, é parte do seu significado, e não pode ser separado desse verbo. Vamos considerar agora a palavra: ‘descobrir’. Vocês concordam com a afirmação em (2)? (2) O Brasil foi descoberto em 22 de abril de 1500 por Pedro Álvares Cabral. O Descobrimento do Brasil (tela de Oscar Pereira da Silva) Por que não estamos de acordo com (2)? Como pode o Brasil ter sido descoberto em 1500, se antes da chegada dos portugueses, e desde milhares de anos antes, já havia milhões de indígenas habitando as terras brasileiras? As histórias oficiais/ escolares portuguesa e a brasileira afirmam (2) por etnocentrismo. Há outras formas de contar o que aconteceu nessa data que não ofendem os indígenas: (2) b. O Brasil foi dominado em 22 de abril de 1500 por Pedro Álvares Cabral. c. O Brasil foi invadido em 22 de abril de 1500 por Pedro Álvares Cabral. d. Os portugueses, liderados por Pedro Álvares Cabral, chegaram ao Brasil pela primeira vez em 22 de abril de 1500. Qual a diferença entre (2a) e as outras sentenças (2)? O verbo ‘descobrir’ pressupõe que não existia aquilo que foi descoberto. Mas ‘dominar’, ‘invadir’ e ‘chegar’ não carregam essa pressuposição. Vejamos mais alguns exemplos: (3) a. João descobriu que hoje é o aniversário de Pedro. b. Maria descobriu que está grávida. c. Cientistas descobriram a cura para a AIDS. d. A roda foi descoberta pela humanidade antes de 3.500 a.C. e. A pólvora foi descoberta no Século I, na China, por acidente: os alquimistas misturaram certos materiais procurando pelo elixir da longa vida. Os exemplos em (3) mostram que ‘descobrir’ traz a pressuposição de que não se sabia da existência do referente do sintagma nominal complemento até o momento da descoberta. Em (3a), foi surpresa para João que Pedro fazia aniversário naquele dia; em (3b), foi surpresa para Maria que ela tinha engravidado; de (3c), entende-se que a doença não tinha cura até o momento; (3d) afirma que houve um tempo em que os seres humanos não usavam rodas, até que ela fosse inventada; e (3e) diz que não havia pólvora antes do Século I. Vejam como essas interpretações desaparecem se usamos outro verbo no lugar de ‘descobrir’: (4) a. João ouviu dizer que hoje é o aniversário de Pedro. b. Maria me contou que está grávida. c. Cientistas administram a cura para a AIDS. d. A roda foi usada pela humanidade antes de 3.500 a.C. e. A pólvora apareceu no Século I, na China, por acidente: os alquimistas misturaram certos materiais procurando pelo elixir da longa vida. Professora Ana Paula Quadros Gomes _ 2020-1 _ anpola@gmail.com 15 A.5- Distinguindo entre acarretamento e pressuposição Tanto acarretamento quanto pressuposição são significados capturados pelo ouvinte sem que tenham sido ditos abertamente, mas são tipos distintos um do outro. A noção de acarretamento não envolve o contexto, mas se limita à relação entre a verdade/ falsidade de duas sentenças. A noção de pressuposição envolve as suas condições de uso, a relação com o discurso. O conteúdo pressuposto não pode ser debatido ou questionado pelo ouvinte que aceita prosseguir com a conversa de que faz parte a sentença. O único jeito de rejeitar a pressuposição é quebrar a continuidade dessa conversa. O falante escolhe usar uma expressão na construção da sentença, em vez de outra com significado semelhante, por querer incluir a pressuposição no que está dizendo. A informação pressuposta é condição de emprego da oração que a pressupõe. Há uma expressão linguística, chamada de gatilho da pressuposição, que é quem contribui com esse conteúdo pressuposto. Enquanto o gatilho estiver presente, a sentença continuará vinculada àquela pressuposição, mesmo que seu valor de verdade seja suspenso ou alterado. Vamos examinar alguns dados: (5) Maria comeu duas pizzas acarreta... a. Alguém comeu duas pizzas. b. Maria fez alguma coisa com as duas pizzas. c. Maria comeu duas unidades de alguma coisa. d. Algo ocorreu. Se o interlocutor discordar da verdade de (5), ele pode negá-la, dizendo: Você está errado, Maria não comeu duas pizzas, comeu uma só; ou Maria não comeu duas pizzas, comeu dois pasteis; ou Maria não comeu duas pizzas, Pedro comeu duas pizzas. Nenhuma dessas novas sentenças acarreta (5a, 5b, 5c, 5d). Por quê? Porque a negação de uma sentença P (~P ou P) muda o valor de verdade dela para o seu contrário: sempre que P = V, ~P = F; sempre que P = F, ~P = V. Há maneiras diferentes de construir (5), usando clivagem (ensanduichando um constituinte entre o verbo ‘ser’ flexionado e a conjunção ‘que’): (6) a. Foi a Maria que comeu as duas pizzas. (e não o João) b. Foi comer o que a Maria fez com as duas pizzas. (e não vender) c. Foram duas as pizzas que Maria comeu. (e não quatro) d. Foram as duas pizzas que Maria comeu. (e não os três bifes) e. O que aconteceu foi que Maria comeu duas pizzas. (e não que ela quebrou o braço.) Por que alguém usaria as construções de (6) em lugar de (5)? Ao que parece, em (6) temos alguma polêmica ou discussão. Há dúvida ou desacordo sobre a identidade do comedor das duas pizzas (6a), ou sobre o que Maria fez deles (dar, jogar fora, congelar, comer...) (6b), ou sobre quantas eram (6c), ou sobre o que Maria consumiu(uma lasanha, duas maçãs, três amendoins...) (6d), ou sobre que acontecimento ou ocorrência está em debate (6e). Já (5) não está associado a polêmica ou discórdia alguma. Aquilo sobre o qual há discórdia ou debate em (6) é o constituinte clivado. O resto da sentença é dado como certo, não passível de discussão, ou seja, é aceito tacitamente como fato pelos falantes. Ou seja, o material a direita do ‘que’ numa construção clivada tem sua existência ou verdade pressuposta. Pergunta: (6a) acarreta (5a)? Sim. Se for verdade que ‘Foi a Maria que comeu as duas pizzas’, será necessariamente verdade que ‘Alguém comeu as duas pizzas’. Mas há uma diferença crucial na relação entre (5) e (5a), quando comparada à relação entre (6a) e (5a): a negação de (5) não acarreta (5a). Vejamos: Se de fato Maria não comeu as duas pizzas, não será necessariamente verdade que alguém comeu as duas pizzas. O acarretamento não se mantém se mexemos na verdade da primeira sentença. Agora examinemos como a negação de (6a) afeta sua relação com (5a): assumindo que ‘Não foi Maria que(m) comeu as duas pizzas’, continua sendo necessariamente verdade que ‘Alguém comeu as duas pizzas’. A ligação entre (6a) e (5a) não depende da verdade de (6a). A clivagem obriga a assumir como verdadeira (5a). A negação inverteu o valor de verdade de (6a) sem que pudéssemos deixar de considerar (5a) como verdadeira. Professora Ana Paula Quadros Gomes _ 2020-1 _ anpola@gmail.com 16 Vejamos outras situações em que o valor de verdade de (6a) fica suspenso: - Interrogação (perguntas podem receber resposta positiva ou negativa) (7) Foi Maria quem comeu as duas pizzas? Para fazer a pergunta em (7), o falante ainda precisa considerar que alguém comeu as duas pizzas, ou seja, (6a) continua verdadeiro. - Condicional (hipotético: não se assume o antecedente como factual, há incerteza ou se dá alternativas à realidade) (8) Se foi Maria quem comeu as duas pizzas, então ela saiu da dieta. (8’) Caso tenha sido Maria quem comeu as duas pizzas, então vamos fazer com que seja ela a pagar a conta. Para dizer a condicional em (8), o falante ainda precisa considerar que alguém comeu as duas pizzas, ou seja, (6a) continua verdadeiro. Os exemplos da negação, da interrogação e da condicional estabelecem que a relação entre o conteúdo proposicional de (6a) e (5a) não depende do valor de verdade da primeira sentença, mas é desencadeado pela presença da clivagem. Enquanto a construção for uma clivagem, será preciso assumir (6a); dizemos então que (6a) pressupõe (5a), e que a clivagem é o gatilho da pressuposição. Observe que o falante tem a escolha de expressar-se usando clivagem (6a) ou não (5). Ao decidir usar (6a) em lugar de (5), ele está escolhendo trazer o conteúdo de (5a) como pressuposição, como algo que o seu interlocutor não pode cancelar. Exercícios: Verifique se a primeira sentença do par pressupõe ou não a segunda, suspendendo a verdade da primeira sentença e mantendo seu conteúdo proposicional: (i) a. Foi comer o que a Maria fez com as duas pizzas. b. Maria fez alguma coisa com as duas pizzas. (ii) a. Foram duas as pizzas que Maria comeu. b. Maria comeu duas unidades de alguma coisa. (iii) a. O que aconteceu foi que Maria comeu duas pizzas. b. Algo ocorreu. Gatilhos de pressuposição (9) a. João parou de fumar pressupõe que __________________________________________ b. João continua fumando pressupõe que ________________________________________ c. João começou a fumar pressupõe que ________________________________________ Os verbos acima operam sobre uma das fases de um processo (início, meio ou fim); eles pressupõem a existência desse processo. É impossível não assumir o processo como verdade quando um desses verbos é usado. Por exemplo, afirmar que ‘Pedro parou de bater na mulher’ estabelece que ele batia na mulher. Perguntar ‘Quando foi que você parou de cheirar cocaína’ estabelece que o interlocutor fumava cocaína. E não adianta só negar: quem responder ‘Eu não parei de cheirar cocaína’ não conseguirá se livrar da acusação de ter cheirado cocaína por algum tempo. Será preciso cortar a conversa de outro jeito, mais contundente: ‘Pera aí! O quê disse? Eu nunca cheirei cocaína na minha vida, pare de falar bobagem!’. (10) Bin Laden (não) morreu. (pressupõe: ele vivia) Fonte: semântica do verbo (só viventes podem morrer) (11) Luís (não) voltou a beber. (pressupõe: ele bebia e tinha parado) Fonte: voltar a, recomeçar a, reatar com etc. significam que isso já foi feito antes (12) Eu percebi que estava sem dinheiro. (pressupõe: eu estava sem dinheiro) Fonte: perceber que, descobrir que, dar-se conta de, saber que tomam fatos como argumento interno (13) Estou feliz por você ter vindo. (pressupõe: você veio)