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N eg ociação e g estão d e con fl itos Fab ian o C axito Código Logístico 59637 Fundação Biblioteca Nacional ISBN 978-85-387-6701-5 9 7 8 8 5 3 8 7 6 7 0 1 5 Negociação e gestão de conflitos Fabiano Caxito IESDE BRASIL 2020 Todos os direitos reservados. IESDE BRASIL S/A. Al. Dr. Carlos de Carvalho, 1.482. CEP: 80730-200 Batel – Curitiba – PR 0800 708 88 88 – www.iesde.com.br © 2020 – IESDE BRASIL S/A. É proibida a reprodução, mesmo parcial, por qualquer processo, sem autorização por escrito do autor e do detentor dos direitos autorais. Projeto de capa: IESDE BRASIL S/A. Imagem da capa: Andrii Yalanskyi/Shutterstock CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ C377n Caxito, Fabiano Negociação e gestão de conflitos / Fabiano Caxito. - 1. ed. - Curitiba [PR] : IESDE, 2020. 106 p. : il. Inclui bibliografia ISBN 978-85-387-6701-5 1. Negociação (Administração de empresas). 2. Administração de conflitos. I. Título. 20-67666 CDD: 658.405 CDU: 658.310.42 Fabiano Caxito Mestre em Administração Estratégica pela Universidade Nove de Julho (Uninove). MBA em Recursos Humanos pela Fundação Instituto de Administração (FIA). Pós-graduado nos seguintes cursos: Business Intelligence, Big Data e Analytics, pela Universidade Anhanguera; Língua Portuguesa: Redação e Oratória, pela Universidade São Franscisco; e Filosofia, pela Universidade Estácio de Sá. É pós-graduado, também, em Educação Corporativa, Educação Financeira, Tecnologias e Educação à Distância, Antropologia, Sociologia Política e Urbana e Coaching pela UniBF. É graduado em Administração Financeira pela Universidade Cidade de São Paulo (Unicid). Atuou nas áreas comerciais, de logística e de recrutamento e seleção, treinamento e desenvolvimento em diversas empresas de distribuição e venda de bebidas. É diretor da FCAX consultoria em Canais de Distribuição. Foi coordenador de cursos de pós-graduação lato sensu em Logística das Operações Comerciais e em Negócios Internacionais. Foi professor dos cursos de Marketing, Logística e Recursos Humanos. Hoje, é professor da Fundação Instituto de Administração (FIA/USP) e influenciador digital. Agora é possível acessar os vídeos do livro por meio de QR codes (códigos de barras) presentes no início de cada seção de capítulo. Acesse os vídeos automaticamente, direcionando a câmera fotográ�ca de seu smartphone ou tablet para o QR code. Em alguns dispositivos é necessário ter instalado um leitor de QR code, que pode ser adquirido gratuitamente em lojas de aplicativos. Vídeos em QR code! SUMÁRIO 1 Conceitos e fases da negociação 9 1.1 Conceitos de negociação 9 1.2 Importância da negociação na gestão de empresas 13 1.3 Fases da negociação 15 1.4 Estilos de negociação 21 1.5 Princípios da negociação 24 2 Estratégias e táticas de negociação 29 2.1 Uma estratégia para cada negociação 29 2.2 Principais táticas de negociação utilizadas no mercado 34 2.3 Contornando objeções 37 2.4 Comunicação e argumentação 42 2.5 Diferenças culturais nas negociações 45 3 Os conflitos na organização 49 3.1 Comportamento humano e conflitos organizacionais 49 3.2 Tipos de conflitos nas organizações 52 3.3 Causas, elementos e impactos 58 3.4 Níveis e estágios de conflito 63 4 A mediação de conflitos 69 4.1 Mediação de conflitos 69 4.2 Conceitos, aplicações e modelos 73 4.3 Estratégias de resolução dos conflitos 78 5 Administração de conflitos na organização 85 5.1 A relação entre negociação e gestão de conflitos 85 5.2 Gestão dos processos do conflito 90 5.3 Perfil e papel do mediador na gestão de conflitos 98 Gabarito 103 Agora é possível acessar os vídeos do livro por meio de QR codes (códigos de barras) presentes no início de cada seção de capítulo. Acesse os vídeos automaticamente, direcionando a câmera fotográ�ca de seu smartphone ou tablet para o QR code. Em alguns dispositivos é necessário ter instalado um leitor de QR code, que pode ser adquirido gratuitamente em lojas de aplicativos. Vídeos em QR code! A negociação ocorre a todo momento em nossa vida, tanto em contextos pessoais, familiares e sociais, quanto em nossa atuação profissional. Apesar de muitos de nós não nos considerarmos negociadores, usamos técnicas, conhecimentos, habilidades e atitudes relacionados à negociação constantemente, não apenas para comprar ou vender algo, mas principalmente para nos relacionarmos com outras pessoas e obtermos aquilo que desejamos e precisamos. O conflito, por sua vez, é uma característica inerente aos grupos sociais. Quando há desalinhamento de opiniões, diferenças de comportamento ou uma disputa por algo, ele surge. Se for bem administrado, poderá fortalecer as relações e criar oportunidades de crescimento e aprendizagem. Porém, se não for adequadamente tratado, pode impactar negativamente as relações ao ponto de impossibilitar a convivência entre as pessoas de um grupo social ou profissional. Os dois conceitos – negociação e conflito – estão intimamente relacionados, pois a negociação é a principal ferramenta para a gestão de situações conflituosas. Esta obra aborda os dois conceitos separadamente e mostra a relação entre ambos, com o objetivo de apresentar as estratégias de gestão de conflitos, principalmente no contexto empresarial. No primeiro capítulo, discutiremos os conceitos de negociação e apresentaremos seus vários modelos e suas estratégias, incluindo um dos métodos mais utilizados: o Modelo Harvard de Negociação. A relação entre negociação e comunicação também será objeto de nossa discussão, pois são conceitos intrinsecamente relacionados. No segundo capítulo, nos aprofundaremos em cada um dos passos do Modelo Harvard, além de apresentarmos táticas e ferramentas que podem ser usadas durante os processos de negociação que ocorrem no cotidiano das organizações. Discutiremos também as formas de lidarmos com as objeções que surgem durante a negociação. APRESENTAÇÃOVídeo No terceiro capítulo, apresentaremos e discutiremos o conceito de conflito e de diversos tipos e classificações dos conflitos que ocorrem no contexto empresarial, como os funcionais e disfuncionais; os intrapessoais, interpessoais e intergrupais; e os de relacionamento, de tarefas e de processos. As causas e os elementos do conflito organizacional e principalmente os impactos que o conflito pode trazer para a empresa também serão discutidos nesse capítulo. Introduziremos, no quarto capítulo, o conceito de mediação de conflitos. Discutiremos, então, os diversos modelos de gestão de situações conflituosas que podem ser utilizados nas empresas. Estratégias como o litígio, a arbitragem, a ouvidoria, a conciliação e a mediação serão apresentadas de maneira comparativa, mostrando a adequação de cada uma delas de acordo com o tipo de conflito. Por fim, no quinto capítulo, estabeleceremos a relação entre negociação e conflito, mostrando que a primeira é uma das principais ferramentas para a implantação de qualquer um dos modelos de gestão de conflitos. Incluiremos nesse capítulo, também, o perfil de negociações e mediadores de conflito e o papel da liderança na gestão do conflito como principal articuladora na busca de resultados positivos que possam ser gerados por meio dele. Com esta obra, pretendemos preparar os gestores e líderes para atuar como mediadores de conflitos organizacionais, tendo como base os conhecimentos adquiridos sobre os conceitos de negociação e de gestão de conflitos. Conceitos e fases da negociação 9 1 Conceitos e fases da negociação O ato de negociar está presente em grande parte das nos- sas interações, tanto nas relações pessoais – que ocorrem em nosso cotidiano – quanto nas atividades profissionais. Apesar de ser uma atividade e uma competência comumente relacionada aos profissionais da área comercial, a negociação é utilizada em diversos momentos duranteos processos operacionais e de gestão empresarial. Ao conhecer os conceitos e as fases de um processo de nego- ciação, é possível que os profissionais das demais áreas de uma empresa, como operações, finanças, recursos humanos, logística, entre outros, notem que realizam, sem perceber, a atividade de negociar em diversos momentos de suas atuações profissionais. A oferta de cursos, de livros e de conteúdos sobre negociação é muito grande. No entanto, os conteúdos concentram-se apenas nos aspectos técnicos da negociação, sem abordar com maior pro- fundidade a importância dos conhecimentos sobre a comunicação, o relacionamento e o comportamento, fundamentais para o su- cesso de uma negociação. Desse modo, veremos, neste capítulo, como as competências ligadas à comunicação e ao comportamento humano são funda- mentais para os profissionais que buscam atuar nos diversos pro- cessos de negociação presentes no cotidiano das organizações. 1.1 Conceitos de negociação Vídeo Entender o processo de negociação em uma relação de compra e venda é relativamente simples. De um lado temos uma pessoa ou uma empresa que deseja vender algo: um produto, uma ideia ou um serviço. Do outro temos, ainda, uma pessoa física ou jurídica que demonstra in- teresse no que está sendo oferecido. Em vista disso, consideramos que 10 Negociação e gestão de conflitos o processo de negociação se inicia somente quando há interesse da se- gunda parte. Caso seja bem-sucedido, haverá uma troca clara, a qual ocorrerá por meio da entrega de um produto/serviço e do recebimento de um valor monetário ou, também, de outro produto/serviço. Contudo, na hipótese das condições ofertadas pelo proponente não serem consideradas adequadas pela parte interessada, o negó- cio deixa de existir e, consequentemente, o processo de negociação termina. Isso também pode acontecer em situações nas quais o com- prador realiza uma proposta que seja considerada inadequada por parte do vendedor. Quando o processo de negociação ocorre dentro de uma empre- sa entre áreas distintas, o cenário é diferente: seja com clientes finais, fornecedores ou entre um líder e seus colaboradores, dificilmente um dos lados abandonará a negociação. No entanto, para que as ativida- des da organização sejam realizadas, cada uma das negociações que ocorrem no cotidiano precisa chegar a um acordo, que muitas vezes poderá resultar na renúncia dos objetivos iniciais por uma das partes. Caxito (2019, p. 6) exemplifica esse processo do seguinte modo: a área comercial quer atender um cliente. Será um faturamento alto, o que permitirá que o vendedor alcance sua meta. Entretan- to, esse cliente já teve problemas anteriores de pagamento, e a área financeira tem o objetivo de reduzir a inadimplência. Se a venda for liberada para o cliente, portanto, corre-se o risco de não o atingir. Podemos perceber que a negociação entre os dois se- tores da mesma empresa para liberar a compra será muito mais complexa do que a negociação entre a área comercial e o cliente. Com base no case descrito, Silva, Gonçalves e Dias (2010) apontam que a forma como uma negociação acontece depende do interesse principal entre os envolvidos: a relevância nos relacionamentos e a uti- lidade que terá nos resultados corporativos. Nas relações comerciais, em geral, o interesse está no resultado que será obtido em determinada negociação. Já nas negociações que ocorrem dentro da empresa, ele está na manutenção do relacionamen- to profissional entre as pessoas ou áreas que convivem. Os autores mencionam que os dois tipos de interesses citados não se excluem. Na verdade, em cada negociação que ocorre no cotidia- no de uma empresa há uma mescla deles nos resultados e no rela- Conceitos e fases da negociação 11 cionamento interpessoal. Dessa forma, mesmo em uma negociação de vendas, as partes podem privilegiar a manutenção do relaciona- mento, como nos casos em que os clientes são antigos e comumente fecham acordos. Dependendo dessa união de dimensões de relacionamento e re- sultados, diversas abordagens e estratégias podem ser utilizadas no processo de negociação para que seja eficaz e cumpra seus objetivos. Tamada, Medeiros e Scheffer (2020) afirmam que a negociação pode ser vista como uma competência possível de ser aprendida por meio do estudo das teorias ou, ainda, desenvolvida por meio da prática. De acordo com os autores, a negociação como competência é uma relação social e tem no negociador seu elemento-chave. A necessidade de identificar as habilidades e o perfil do negociador torna-se um fator crucial para que se aperfeiçoe e se desenvolva a competência para a negociação. (TAMADA; MEDEIROS; SCHEFFER, 2020, p. 135) Essa relação entre a negociação e as competências comportamen- tais também é destacada por um dos mais importantes autores no que diz respeito a modelos de negociação da atualidade, William Ury. Para o autor, a definição de negociação mostra que a competência relacionada a ela, seja com interesse nos resultados ou no relaciona- mento, está ligada às capacidades comportamentais, em especial à de comunicação, que tem como princípio chegar a uma decisão conjunta dos envolvidos. Ury também reitera que qualquer tipo de negociação começa quan- do se estabelece um relacionamento entre os participantes. Caso a relação seja de desconfiança, dificilmente a negociação ocorrerá de modo satisfatório para ambos os lados. Contudo, se os participantes do processo de negociação conseguirem estabelecer uma relação de confiança e respeito mútuo, o processo será mais fácil e a chance do resultado atingir o esperado será grande. A esse tipo de relacionamen- to dá-se o nome de Rapport 1 . Em seu mais recente livro solo, Como chegar ao sim com você mesmo (2015), Ury destaca a importância do comportamento na negociação e realça que, em muitas delas, o maior empecilho para que um dos lados alcance seu resultado não está nas demandas do outro lado, mas nas limitações autoimpostas. William Ury é fundador do Programa de Negociação de Har- vard. Também, é autor de alguns dos livros mais vendidos sobre negociação, dentre eles: Supere o Não (2010); Como chegar ao sim com você mesmo (2015) e Como Chegar ao Sim (2018), escrito em coautoria com Roger Fisher e Bruce Patton. Curiosidade O conceito de Rapport é utilizado na área da psicologia para descrever uma relação fundamentada em atenção e positividade mútuas, e coordenação, o que torna o relacionamento agradável e respeitoso. 1 12 Negociação e gestão de conflitos Ainda, há a importância do comportamento durante o processo de negociação. Segundo Ury (2015), os maiores obstáculos para atingir um bom resultado estão no próprio indivíduo, pois muitos profissionais até hoje pensam a negociação como um fator ganha-perde, no qual, para que um lado atinja seus objetivos, o outro precisa perder. Dessa maneira, antes mesmo de iniciar o processo, o negociador adota uma postura agressiva que poderá prejudicar a negociação. Para que essa atitude negativa seja evitada, o autor elucida alguns passos que podem ser adotados pelo negociador no momento de estabelecer o primeiro contato com o cliente. O primeiro passo é planejar a negociação, entender as necessidades e os objetivos pessoais que estão sendo buscados. Esse passo nos leva ao segundo, em que se ressalta a importância de não atribuir culpa pelo conflito ou pelas dificuldades do processo na outra parte, bem como de compreender a responsabilidade de cada um no processo. Ao passar por esses primeiros passos, Ury (2015) sugere que o negociador tente enxergar o processo de negociação por outro ponto de vista, bus- cando compreender que é possível obter um acordo em que ambos ganhem, sem que seja necessário adotar uma postura hostil. Outro passo fundamental é se manter centrado “no agora”, sem trazer para o ambiente de negociação ressentimentos ou questões passadas e até mesmo perspectivas de conflitos futuros. Assim, o foco estarána resolução do problema que se busca negociar. Esse terceiro passo está diretamente ligado a outro (quarto passo) apontado pelo autor: respeitar as outras pessoas que fazem parte do processo de negociação. É importante evitar a postura de ataque, mesmo quando o outro lado adotar esse comportamento. Respeito e inclusão são essenciais para manter a negociação e alcançar resultados produtivos. Como últi- mo passo, o especialista destaca a importância de entender que o pro- cesso de negociação é fundamentado em uma troca: dar e receber. Quando esta se realiza de maneira justa, ambos os lados saem vitorio- sos, resultando em uma autêntica relação de ganha-ganha. Todos esses passos são considerados por Ury (2010) como o método do sim interior. Vamos observar, na Figura 1, como esse processo está elencado e qual é a ordem correta, para o autor, desses acontecimentos. Em uma palestra feita em outubro de 2010 ao TED Talks, o autor William Ury, um dos maiores especialistas em negocia- ção do mundo e criador do Modelo Harvard de Negociação, discute o caminho, às vezes difícil e longo, para se chegar a um acordo que possa satisfazer todos os lados de uma negociação, seja em uma discussão fami- liar ou a paz entre países. Acesse o link a seguir para assistir à palestra. Disponível em: https://www. ted.com/talks/william_ury_ the_walk_from_no_to_ yes?language=pt-br. Acesso em: 10 nov. 2020. Vídeo https://www.ted.com/talks/william_ury_the_walk_from_no_to_yes?language=pt-br https://www.ted.com/talks/william_ury_the_walk_from_no_to_yes?language=pt-br https://www.ted.com/talks/william_ury_the_walk_from_no_to_yes?language=pt-br https://www.ted.com/talks/william_ury_the_walk_from_no_to_yes?language=pt-br Conceitos e fases da negociação 13 Figura 1 O método do sim interior SIM INTERIOR 1 25 34 6 Coloque-se no seu lugar Desenvolva sua Batna interior Reenquadre seu panorama Mantenha-se no presente Respeite os outros Saiba dar e receber SIM PARA SI M ESM O SI M P AR A O S OU TR OS SIM PARA A VIDA Fonte: Adaptada de URY, 2015, p. 10. Com base na figura anterior, é possível notar que autor relaciona cada um desses passos com as relações internas do indivíduo; as re- lações que se estabelecem com outras pessoas no processo de nego- ciação; e as relações com o ambiente que o envolve. Esses são fatores importantes e estão presentes em todo tipo de processo de negociação. O termo batna, cunhado pelos autores William Ury e Roger Fisher, foi criado com base em uma experiência desenvolvida no Projeto de Negociação da Universidade de Harvard. O termo é um acrônimo da frase Best Alternative To Negociated Agreement, que pode ser tradu- zido como A Melhor Alternativa para um Acordo Negociado. Segundo os autores, quanto maior a precisão e o poder de síntese com que a proposta de negociação é apresentada, maior a chance de se chegar a um acordo benéfico para ambos. Saiba mais 1.2 Importância da negociação na gestão de empresasVídeo No contexto da moderna economia da informação, em que a co- municação se tornou mais rápida e ágil, empresas dos mais variados países precisam estabelecer acordos comerciais, parcerias em canais de suprimentos e desenvolvimento de tecnologias que estabeleçam alianças duradouras, visando o longo prazo. Compreendermos os conceitos e as técnicas de negociação é parte fundamental das com- petências dos profissionais de diversas áreas de uma empresa, não apenas da área comercial. 14 Negociação e gestão de conflitos No meio empresarial, a negociação ganha ainda mais importância à medida que as empresas estabelecem relações com outras empresas e passam a integrar as cadeias de valor e de suprimentos. Essa integração exige maior adaptação entre as diversas culturas empresariais, que de- vem objetivar a definição e o estabelecimento dos interesses comuns. Nesse contexto, as negociações são fundamentais para que uma re- lação de confiança a longo prazo seja estabelecida. Para Paula e Souza (2007), as relações que se estabelecem entre as organizações que fa- zem parte de uma cadeia de valor podem ser comparadas aos sistemas políticos, nos quais a negociação se torna indispensável para a sobrevi- vência. Ainda, Sobral e Carvalho (2002, p. 1) afirmam que “é difícil pen- sar qualquer iniciativa empresarial que não necessite de uma forma qualquer de negociação”, isto é, considera-se que ela está presente em diversos momentos da rotina empresarial. Em vista disso, as negociações entre duas ou mais empresas podem acontecer de modo constante e frequente (relacionais), ou, ainda, es- poradicamente (transacionais). As relações que se estabelecem nesses dois tipos de interações – frequente ou esporádica – são diferentes. Nas empresas que mantêm negociações relacionais, a preservação do relacionamento após a negociação que está sendo realizada precisa ser levada em consideração durante todo o processo. Assim, os lados estarão mais dispostos a ceder e a abrir concessões. Já nas negociações transacionais, as partes estão menos dispostas a renunciar a alguns de seus objetivos e fazem menos concessões, uma vez que o objetivo comum não é manter uma relação duradoura. Logo, a negociação entre duas ou mais empresas pode se estabele- cer de três diferentes formas. Na primeira, os objetivos e os interesses das empresas são comuns, tornando a negociação mais fácil, pois am- bos alcançarão aquilo que desejam se o negócio for fechado. A segun- da forma é quando os objetivos e os interesses são complementares. Assim como na primeira, a negociação também é interessante para ambos os lados, que conseguem chegar a uma conclusão conjunta no fator ganha-ganha. Já a terceira forma, que elucida como as negociações entre empre- sas se estabelecem, é mais desafiadora; ou seja, é uma situação em que os interesses entre as empresas são conflitantes. Nesse contexto, Conceitos e fases da negociação 15 a negociação será mais complexa, pois cada um dos lados buscará as melhores condições para atender aos seus interesses e aos interesses das demais partes. Além disso, nesses processos de tratativas, dois aspectos estão pre- sentes e precisam ser levados em consideração. O primeiro se refere aos fatores técnicos e condicionantes de cada negociação específica, como: os objetivos a serem alcançados, as concessões que podem ser feitas, as relações de poder que se estabelecem, a disponibilidade de tempo, o acesso à informação por parte de cada um dos lados, soman- do a experiência dos negociadores. O segundo aspecto está ligado aos elementos subjetivos, associados à questões relacionais e comporta- mentais, como: as percepções de cada um dos lados a respeito dos outros, as emoções envolvidas na negociação e o modo como a comu- nicação se estabelece entre os participantes. Conforme destacam Leite e Barella (2005), nas relações estabeleci- das entre empresas que precisam negociar, um fator fundamental é a reputação. No contexto dessa negociação, em especial entre aquelas que negociam pela primeira vez, a reputação, isto é, o reconhecimento sobre o quanto uma empresa realiza seus negócios de maneira correta e honesta em seu mercado de atuação, diminui a incerteza das outras partes durante o processo. Os autores ainda enfatizam que a negociação no ambiente empre- sarial é fundamentada na criação de valor e na reivindicação de valor para si (LEITE; BARELLA, 2005). Dessa forma, quando uma empresa não conhece suficientemente as outras partes, sente-se menos segura na hora de aceitar uma proposta ou de fazer um acordo. A reputação au- xilia a empresa a avaliar previamente o nível de confiança das demais partes da negociação, o que possibilita que o acordo possa ser alcança- do com maior facilidade e objetividade. 1.3 Fases da negociação Vídeo Nesta seção, nos aprofundaremos nos fatores que compõem o Modelo Harvard. Esses fatores são considerados passos, ou fases, que orientam o negociador durante todo o processo denegociação para que o resultado alcançado seja satisfatório. 16 Negociação e gestão de conflitos 1.3.1 Planejamento A primeira fase consiste no planejamento, momento no qual o negociador reunirá as informações que possui, tanto sobre os obje- tivos que busca atingir quanto em relação aos demais participantes do processo. Entender quem estará do outro lado da mesa é fundamental, pois nem sempre o processo de negociação será realizado com quem real- mente decide ou influencia as decisões. Além disso, compreender o ní- vel de conhecimento, a experiência do negociador e suas expectativas, pode auxiliar a traçar uma estratégia que permitirá estabelecermos uma relação saudável entre todas as partes. Outro fator é perceber qual é o motivo da negociação, ou seja, qual é o problema, a disputa, o conflito ou a oportunidade que a motivou. Os objetivos dessas tratativas nem sempre estão perfei- tamente claros e explícitos para todos os participantes do proces- so. Termos o motivo da negociação claramente delimitado ajudará a identificarmos demandas e necessidades ocultas que podem ser utilizadas no decorrer do processo. É fundamental considerar não apenas os motivos e os objetivos próprios ou da instituição que o negociador representa, mas também os interesses e as demandas dos demais participantes da negociação. Um bom planejamento também deve considerar as concessões que poderão ser realizadas e os limites a serem respeitados ao longo da negociação. A falta de clareza, no que diz respeito aos limites das concessões, é um dos grandes erros de um negociador, que pode, durante a negociação, acabar aceitando condições que futuramente não poderá honrar. Para que tudo funcione em harmonia, é necessário identificarmos a zona de acordo, ou seja, o ponto existente entre os objetivos e os limites de cada um dos lados, além do que é essencial para alcançá-los. A Figura 2 demonstra de modo prático como é possível reconhecermos a zona de acordo durante o planejamento inicial. Conceitos e fases da negociação 17 Figura 2 Zona de acordo Objetivos desejados na negociação pelo LADO B Objetivos desejados na negociação pelo LADO A Limite máximo de concessões que o LADO A está disposto a aceitar Limite máximo de concessões que o LADO B está disposto a aceitar Zona de Possível Acordo Fonte: Elaborada pelo autor com base em Fisher; Ury; Patton, 2018. Portanto, podemos concluir que se a zona de acordo não estiver clara, um dos lados poderá aceitar alguma proposta que não propor- cionará o alcance dos objetivos. Em um quadro ainda mais negativo, a negociação pode ser abandonada por um dos lados caso seja conside- rado que a proposta em discussão está fora da zona. Em suma, se faz importante estarmos sempre atentos aos procedi- mentos a serem seguidos durante o planejamento inicial, uma vez que, ao seguirmos esses passos, temos a chance do resultado de uma nego- ciação estar de acordo, ou próximo, no que diz respeito às expectativas de todas as partes. 1.3.2 Sondagem No Modelo Harvard de Negociação, a comunicação é fator funda- mental. É por meio dela que estabelecemos as relações que irão possi- bilitar uma negociação. Portanto, a segunda fase desse modelo ocorre no momento inicial de uma reunião, quando são estabelecidas as bases sobre as quais o processo deverá ocorrer. Nos minutos iniciais, a comu- nicação entre os participantes normalmente tem o objetivo de aproxi- mar os negociadores, especialmente se estes ainda não se conhecem. Esse momento, também conhecido como quebra-gelo, é marcado tanto pelas apresentações formais quanto por assuntos genéricos. É por essa conversa que todos os participantes buscam entender algu- mas características dos negociadores. No entanto, os temas abordados 18 Negociação e gestão de conflitos devem ser neutros, evitando assuntos polêmicos que possam gerar discussões ou impressões negativas em um primeiro momento. Após a comunicação inicial ser estabelecida e o conhecimento pré- vio ter resultado positivo, os negociadores devem buscar identificar de maneira mais objetiva os interesses das outras partes. Durante esse momento, devem ser feitas perguntas e comentários direcionados com o objetivo de compreender, de modo mais aprofundado, todos os as- pectos que poderão estar relacionados à negociação. Em suma, nessa fase, devemos ter como foco principal os interesses das partes. Para que esse princípio seja colocado em prática, é neces- sário que os interesses dos demais participantes da negociação sejam compreendidos. Essa compreensão ocorre no momento da sondagem, em que devem ser feitas perguntas abertas, que façam o interlocutor discorrer sobre seus objetivos, facilitando a obtenção de informações fundamentais para a negociação. Dependendo da relação anteriormente construída entre os ne- gociadores, ou da urgência que um dos lados pode ter para alcan- çar os resultados esperados, esse momento de sondagem pode ser explorado de maneira mais lenta ou mais rápida. Porém, para um bom negociador, mesmo que o interlocutor busque abreviar esse momento, é importante explorar ao máximo as informações obtidas durante a conversa. Uma das principais competências do negociador deve ser a comu- nicação: tanto a capacidade de argumentação e de oratória, quanto a capacidade de escutar atentamente para identificar pontos importan- tes que podem ser repassados pelo interlocutor durante a negociação. Destacamos, ainda, a importância da capacidade de escutar, uma vez que nossa compreensão do que é dito pode ser prejudicada pelos cha- mados filtros da comunicação, por exemplo: diferenças culturais; ques- tões ligadas ao idioma; crenças religiosas, políticas ou sociais; além de atitudes e expectativas que cada lado traz para a mesa de negociação. Durante o processo de tratativas, o momento da sondagem deve buscar novas informações que possam ser utilizadas nas propos- tas e no acordo final. Ou seja, o que foi conseguido anteriormente, no momento de apresentação inicial, deve ser obtido para conduzir o processo. Conceitos e fases da negociação 19 1.3.3 Propostas O momento das propostas é o ponto central de um processo de negociação. É nessa fase que cada um dos lados apresentará seus ar- gumentos e proporá, aos demais lados, ações, trocas ou barganhas por meio das quais considerem que seus objetivos poderão ser alcançados. Inicialmente, a primeira proposta feita por um dos lados não é acei- ta integralmente pelos demais interlocutores, é nesse momento que o processo de negociação começa. O planejamento realizado pelo ne- gociador, somado às informações captadas durante o momento de sondagem, possibilita que ambos os lados façam propostas acompa- nhadas dos devidos argumentos que as embasam, os quais poderão ser refutados ou aceitos pela outra parte. Novamente, nesse momento, a capacidade de comunicação é fun- damental, sendo importante entender não apenas o que o interlocu- tor afirma ao aceitar ou recusar uma determinada parte da proposta, mas também identificar possíveis motivos ocultos que possam ter influenciado tal posicionamento. Ao entender os reais motivos das objeções feitas, o negociador poderá traçar novas estratégias e reali- zar uma nova proposta que busque contornar os motivos iniciais do desacordo, permitindo que a negociação continue a fluir em direção a um acordo satisfatório para todos. Em um processo de negócios com base na barganha, o momento pode ser marcado por uma rápida sucessão de propostas, nas quais os lados se aproximam de um ponto central, em que provavelmente ambos os lados alcançarão seus objetivos. Apesar disso, conforme destacam Fischer, Ury e Patton (2018), nem sempre esse ponto cen- tral, equidistante entre os objetivos de cada um dos lados, realmen- te resultará em uma negociação satisfatória para ambos. Os autores ainda apontam que devemos evitar ceder às barganhas sem termos uma argumentação adequada que justifique a proposta, além de evitar cedermos à empolgaçãoque pode surgir à medida que a negociação se encaminha para os momentos finais. Além de tentar compreender os motivos das negativas e das obje- ções, o negociador deve valorizar cada uma das concessões feitas du- rante o momento das propostas. Ao ceder em relação a algum ponto ou item da proposta para atender a uma demanda do interlocutor, o 20 Negociação e gestão de conflitos negociador deve destacar o valor dessa concessão, de modo que seja transmitido ao outro lado sua intenção de buscar a melhor negociação para ambos. A cada negativa ou objeção, cada um dos lados deve formular novas propostas e contrapropostas que possibilitem novas oportunidades de se chegar ao acordo final. O objetivo dessas propostas deve ser buscar uma negociação ganha-ganha, na qual ambos os lados sintam que suas demandas e seus objetivos foram atingidos. 1.3.4 Acordo O acordo é o objetivo final de todo processo de negociação. Conforme destaca Sparks (1992), ela é um processo de troca, consi- derando o “dar e receber” que se estabelece entre dois ou mais nego- ciadores, a qual tem como objetivo chegar a uma conclusão agradável ou aceitável no ajuste de um problema ou disputa. É nessa fase, a última do processo de negociação, que é possível chegarmos a algum tipo de conclusão. Contudo, dizermos que uma negociação chegou a um acordo nem sempre significa afirmar que ambos os lados atingiram seus objetivos. Isso porque diversos fatores podem interferir nela, fazendo com que o contrato final seja mais favorável a um dos lados – dependendo do po- der de cada um dos negociadores, de suas competências de negocia- ção, da urgência pelos resultados a serem alcançados ou até mesmo de questões que envolvem fatores comportamentais ou relacionais entre os negociadores. A negociação ideal é aquela em que ambos os lados compreendem que seus limites foram respeitados e seus objetivos foram alcançados. Porém, é comum que muitas boas negociações, mesmo chegando a um acordo satisfatório, apresentem problemas quando as decisões e as ações negociadas são implantadas, pois, na ânsia de fechar o acordo, diversos pontos cruciais não são devidamente acertados ou alinhados entre as partes, resultando em desacordos que podem, inclusive, levar ao cancelamento do negócio ou à necessidade de novas negociações. Para evitar que o processo de negociação resulte em situações como essa, o momento de fechar um acordo deve receber especial atenção por parte do negociador. Antes de fechar definitivamente a tratativa, Conceitos e fases da negociação 21 cada um dos pontos estabelecidos e acordados devem ser revisados, sanando todas as dúvidas ou má interpretações que possam surgir. Idealmente, o acordo deve ser acompanhado de um plano de ação, ou seja, um planejamento de cada um dos passos, das ações, das ati- vidades e das decisões que precisam ser implementadas a partir do acordo firmado, estabelecendo prazos e responsáveis. Ao tratarmos de todos esses pontos com cuidado e atenção, é possível garantir que o acordo resulte em bons indicadores, uma vez que alcançou os objeti- vos propostos por ambas as partes negociantes. 1.4 Estilos de negociação Vídeo Diversas literaturas abordam os estilos apresentados pelos nego- ciadores, no ambiente organizacional. Apesar de nenhuma das clas- sificações serem consideradas definitivas ou completas, é importante conhecermos os diversos conceitos desses estilos de negociação para facilitar, durante uma tratativa, a identificação de características dos interlocutores. Uma das classificações mais conhecidas, no que diz respeito aos es- tilos de negociação, foi desenvolvida por Sparks (1992). O autor criou quatro classes diferentes, cada uma delas relacionada a dois diferentes impulsos que determinam o comportamento do negociador. Vamos observar no Quadro 1 como isso ocorre. Quadro 1 Classes de impulso na negociação Impulso Característica Controle Desejo do negociador dominar o interlocutor. Relação de rivalidade clara. Desconsideração Negociador se colocar acima do interlocutor. Posição de superioridade em relação ao outro lado. Deferência Postura passiva nas negociações. Permite que o outro lado assuma as rédeas da negociação. Confiança Colaboração é o melhor caminho para se chegar a um acordo. Fonte: Elaborado pelo autor com base em Sparks, 1992. 22 Negociação e gestão de conflitos Ainda de acordo com Sparks (1992), os estilos de negociação são formados por meio da combinação de dois dos impulsos citados. Um exemplo dessa combinação é o estilo restritivo, o qual surge com base nos impulsos de controle e de desconsideração. O negociador adepto a esse estilo de negociação tende a não ter um perfil colabora- tivo, tentando impor suas necessidades e seus objetivos, mesmo que isso leve a uma situação em que o outro lado seja prejudicado. Já os negociadores que adotam o estilo ardiloso combinam os im- pulsos de desconsideração e de deferência, o que faz com que sejam pouco confiáveis, uma vez que buscam apenas o benefício próprio, adotando uma postura falsamente amigável e colaborativa para conse- guirem o acordo que querem. Há também o estilo amigável, característico de negociadores que unem o impulso da deferência com o impulso da confiança. Esses são negociadores que buscam a colaboração e constroem propostas que visam a alcançar uma negociação ganha-ganha, com ênfase na manu- tenção de um relacionamento de respeito e de consideração, mesmo que a negociação não seja concluída de modo satisfatório para ambos os lados. Por último, o estilo confrontador une os impulsos de confiança e de controle. Apesar do nome dado pelo autor sugerir aspectos negati- vos, os negociadores que adotam esse estilo contestam cada um dos argumentos de maneira positiva, buscando construir bases para uma negociação em que ambas as partes alcancem seus objetivos e que o acordo seja claro e justo. Figura 3 Estilos de negociação Estilo confrontador Estilo ardiloso Estilo restritivo Estilo amigável Controle Confiança Desconsideração Deferência Fonte: Elaborada pelo autor. O filme De porta em porta (Door to Door) é funda- mentado na história de Bill Porter, que sofre de paralisia cerebral e tem limitações, tanto de mo- vimentos quanto de fala. Ele atua como vendedor de produtos domésticos e faz visitas de porta em porta, nas casas de uma cidade americana. Devido às dificuldades de fala, utiliza como principal ferramenta a comunica- ção, ouvindo atentamen- te as necessidades e os desejos dos clientes. Ao assistir ao filme, é possí- vel compreendermos a importância de ouvir e observar os clientes para atendermos suas necessi- dades, bem como a ca- pacidade de superarmos as objeções que poderão surgir no processo de negociação. Direção: Steven Schachter. Estados Unidos: Warner Home Video, 2002. Filme Conceitos e fases da negociação 23 Para Sparks (1992), o estilo restritivo e o estilo confrontador são per- fis considerados iniciadores; ao passo que o ardiloso e o amigável são, em sua maioria, reativos. Os negociadores considerados oponentes e que adotam um estilo restritivo ou confrontador têm normalmente maior índice de acordos fechados de modo claro e eficaz. Já os oponen- tes de estilo ardiloso e amigável são menos produtivos, demorando para fechar acordos ou atingindo resultados insatisfatórios. Há também uma classificação proposta por Gottschalk (1974), a qual divide as negociações em quatro diferentes estilos chamados: estilo duro, no qual o negociador é dominante, agressivo, inflexível e coercivo, impondo seu ponto de vista e suas demandas; o segundo é o estilo caloroso, ligado ao relacionamento e às pessoas, o qual tem como ponto negativo a baixa capacidade de dizer não; já o terceiro, o estilo dos números, descreve os negociadores altamente analíticos e orientados para as questões objetivas que estão sendo negocia- das, sendo excelentes em planejar, mas pouco ligados aos relaciona- mentos e às emoçõesda partes; por fim, temos o estilo negociador, característico dos negociadores flexíveis, fáceis de se relacionar, que buscam o acordo a qualquer preço. Existem, ainda, os modelos estabelecidos por Kinston & Algie (1989), os quais citaremos brevemente, que dividem os negociadores em sete estilos baseados em seus perfis psicológicos: estilo racionalista, estilo empírico, estilo pragmático, estilo dialético, estilo sistêmico, estilo es- truturalista e estilo intuitivo. Já a classificação de Wanderley (1998) usa um conceito seme- lhante ao de Sparks (1992), no qual as características básicas do comportamento do negociador – dominância, condescendência, for- malidade ou informalidade – combinam-se para criar quatro tipos diferentes de estilos de negociação: o estilo catalisador, que reúne características de dominância e de informalidade; o estilo apoiador, formado pelas características de informalidade e de condescendên- cia; o estilo analítico, que une as características de formalidade e de condescendência; e o estilo controlador, composto pelas caracterís- ticas de dominância e de formalidade. 24 Negociação e gestão de conflitos 1.5 Princípios da negociação Vídeo De acordo com Fischer, Ury e Patton (2018), ao analisarmos como são desenvolvidas as negociações, é possível identificarmos que, em geral, cada um dos lados participantes adota uma sequência de po- sições e ocorre uma espécie de “dança”, em que cada proposta re- presenta um passo dado pelos negociadores em direção a uma nova posição ou ao acordo final. O exemplo mais simples desse modelo é a barganha de preços que ocorre em uma compra. O vendedor propõe um preço normal- mente mais alto do que realmente deseja, esperando que o com- prador faça uma proposta mais baixa. Na sequência da negociação, eles proporão novas posições de preços, cada vez mais próximas a um ponto central. No entanto, quem depende menos da conclusão da negociação pode adotar uma postura mais firme, sem renunciar a proposta, o que nem sempre levará ao melhor cenário para ambos os lados. Um fator que pode ser exaustivo no processo de negócios é discutir posições, pois pode gerar acordos insensatos, tornando a negociação ineficaz, além de prejudicar a manutenção do relacio- namento, principalmente quando há mais de dois lados. O estudo das negociações que ocorre entre as empresas é a base do mode- lo desenvolvido por Fischer, Ury e Patton (2018), conhecido como Modelo Harvard de Negociação, que tem como objetivo propor uma nova abordagem não apoiada na discussão de posições. Esse mode- lo também é chamado de Negociação Baseada em Princípios, consti- tuído de quatro princípios fundamentais. O primeiro princípio está relacionado às pessoas, pois, para os au- tores, os seres humanos não são máquinas e permitem que suas emo- ções, suas percepções, suas ansiedades, seus medos e suas dúvidas influenciem suas decisões em um processo de negociação. Desse modo, os negociadores têm a tendência de misturar seus sentimentos e suas experiências anteriores com os negociadores que estão, naquele mo- mento, do outro lado da mesa. Assim, considera-se que o primeiro prin- cípio deve ser o ato de separar as pessoas do problema a ser negociado. Conceitos e fases da negociação 25 Ou seja, o objetivo dos negociadores deve ser apenas o de resolver o problema com as pessoas que representam o outro lado, não adotar uma postura contra os negociadores. O segundo princípio é inverter a lógica de se concentrar nas po- sições, perfil típico do modelo de barganha. No Modelo Harvard, parte-se da ideia de que uma negociação ocorre devido ao fato de existirem interesses em comum entre os lados. Assim, as negocia- ções devem levar em consideração esses pontos de contato nos objetivos e nesses interesses, evitando-se adotar posições que pre- judiquem seu andamento. Esse segundo princípio da negociação pode ser descrito como o ato de se concentrar nos interesses, não nas posições. Para que a negociação possa ser mais eficiente, ambos os lados precisam estabelecer opções a serem discutidas e que auxiliem a so- lucionar o problema em questão. Em geral, quando os negociadores estão sob pressão, eles tendem a buscar uma proposta única com o objetivo de resolver rapidamente a situação. No entanto, essa solução nem sempre é a mais adequada, o que nos leva ao terceiro princípio: buscar opções de benefícios mútuos. Por último, o quarto princípio do Modelo Harvard pretende trazer para a negociação critérios objetivos pelos quais o sucesso do processo possa ser avaliado. No modelo de negociação com base na barganha, muitas vezes o negociador mais intransigente e menos aberto a bus- car uma solução mais adequada para ambos os lados pode alcançar seus objetivos, levando a um método de negociação conhecido como ganha-perde. Os negociadores com resultados mais satisfatórios bus- cam entender as demandas, as necessidades e os objetivos de ambos os lados, propondo sempre soluções ganha-ganha. Esse quarto princí- pio é fundamentado no ato de insistir em critérios objetivos. As diferenças entre as abordagens do modelo de negociação de bar- ganha e o modelo de princípios podem ser compreendidos de modo objetivo no Quadro 2. 26 Negociação e gestão de conflitos Quadro 2 Diferença entre o método de barganha e o de princípios Problema Barganha Posicional: Que estilo você adotaria? Solução Mude o jogo: Negocie sobre os méritos. Afável Áspero Baseado em Princípios Os participantes são amigos. Os participantes são adversários. Os participantes são solucionadores de problemas. A meta é um resultado sensato, atin- gido de maneira eficiente e amigável. Separe as pessoas do problema. Seja afável com as pessoas e áspero com o problema. Proceda independentemente da con- fiança. Concentre-se nos interesses, não nas posições. Explore os interesses. Evite ter um piso mínimo. Invente opções de benefícios mútuos. Desenvolva opções múltiplas dentre as quais escolher; decida depois. Insista em critérios objetivos. Tente chegar a um resultado basea- do em padrões independentes da vontade. Raciocine e permaneça aberto à razão; ceda aos princípios e não às pressões. A meta é o acordo. A meta é a vitória. Faça concessões para cultivar o relacionamento. Exija concessões como condição do relacionamento. Seja afável com as pessoas e com o problema. Seja áspero com o problema e com as pessoas. Confie nos outros. Desconfie dos outros. Mude facilmente de posição. Aferre-se a sua posição. Faça ofertas. Faça ameaças. Revele seu piso mínimo. Iluda quanto ao seu piso mínimo. Aceite perdas unilaterais para chegar a um acordo. Exija vantagens unilaterais, como preço do acordo. Busque apenas uma resposta: a que eles aceitarão. Busque apenas uma resposta: a que você aceitará. Insista no acordo. Insista em sua posição. Tente evitar as disputas de von- tades. Tente vencer as disputas de von- tades. Ceda à pressão. Exerça pressão. Fonte: Adaptado de Fisher; Ury; Patton, 2018, p. 30. As principais diferenças entre os modelos da barganha posicional e da negociação com base em princípios são: enquanto no primeiro modelo a negociação se baseia em trocas nas quais se objetiva impor pressões, ou uso de poder, para forçar o interlocutor a aceitar condi- ções que muitas vezes são inadequadas ou insuficientes para ambos os Conceitos e fases da negociação 27 lados e para seus objetivos; no segundo modelo o foco está em buscar uma solução conjunta que possa garantir uma negociação em que am- bas as partes alcancem seus objetivos de maneira justa e equilibrada. CONSIDERAÇÕES FINAIS As competências relacionadas aos processos de negociação são fun- damentais para que os profissionais que atuam nos ambientes corpora- tivos possam desenvolver suas atividades. Dentre essas competências, destacam-se a capacidade de se comunicar com eficiência, a empatia e o conhecimento sobre o comportamento humano; bem como sobre o modo que ocorremas interações entre pessoas e grupos. A capacidade de analisar as informações de que se dispõem e de- senvolver um plano de negociação em que estejam claros os objetivos a serem alcançados, as concessões que podem ser feitas e os limites acei- táveis também é fundamental para que o profissional realize os processos de negociação e obtenha um resultado satisfatório. Na ciência da Administração, o estudo da negociação é uma das áreas mais prolíficas em estudos e em desenvolvimento de teorias e modelos que podem ser aplicados no cotidiano das organizações. Dentre essas teorias, destaca-se o Modelo Harvard de Negociação, constituído de diver- sas etapas ou passos que discutimos no decorrer desse capítulo. ATIVIDADES 1. Qual é a importância da negociação no contexto das cadeias de valor e de suprimentos, nas quais as empresas se relacionam intensamente com outras? 2. As negociações entre empresas podem ser estabelecidas de diferentes maneiras, dependendo da relação entre os objetivos e os interesses de cada empresa. Explique quais são essas diferentes formas. 3. Ao desenvolver o Modelo Harvard de Negociação, também conhecido como Modelo baseado em princípios, William Ury faz críticas ao modelo de negociação com base na barganha. Cite e explique essas críticas. 28 Negociação e gestão de conflitos REFERÊNCIAS CAXITO, F. A. Negociação e Vendas. Curitiba: IESDE, 2019. FISHER, R.; URY, W; PATTON, B.. Como Chegar Ao Sim - Como Negociar Acordos Sem Fazer Concessões. Rio de Janeiro: Editora Sextante, 2018. GOTTSCHALK, A. W. G. Cedep Teaching Notes, 1974. Mimeografado, não publicado. KINSTON, W; ALGIE, J. Seven distinctive paths to decisin and action. Systems Research. Nova York; Londres, v. 6, n. 2, p.117-132, 1989. LEITE, J. C.; BARELLA, R. M. Reputação: fator crítico nas negociações. In: 29º EnANPAD. Anais [...] Brasília: ANPAD, 2005. Disponível em: http://www.anpad.org.br/admin/pdf/ enanpad2005-apsa-2973.pdf. Acesso em: 20 nov. 2020. PAULA, M. M. V. de; SOUZA, J. M. de. 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Já o conceito de táticas, também amplamente utilizado, está intimamente relacionado ao conceito de estratégia. As táticas são ações específicas pelas quais as estratégias são colocadas em prá- tica. Em negociação, os termos estratégia e tática estão presentes em todas as fases do processo, desde o momento do planejamen- to inicial, quando são definidos os objetivos a serem alcançados, até o momento de fechamento do acordo. Neste capítulo, vamos discutir como esses conceitos são utiliza- dos em cada um dos momentos da negociação, além de abordar a importância da comunicação e da argumentação na condução de um processo de negócios. 2.1 Uma estratégia para cada negociação Vídeo No Método Harvard de Negociação, desenvolvido por Fisher, Ury e Patton (2018), todo o processo de preparação para a negociação se inicia com o planejamento, que é essencial para que sejam definidos os objetivos a serem alcançados ao fim de uma negociação. Prado (2016) aponta que existem dois tipos de relações que podem ser estabeleci- das entre empresas que negociam. No primeiro tipo, denominado relacional, as empresas continuam a se relacionar mesmo após o fim da negociação, pois como o vínculo entre as empresas permanecerá após a conclusão do processo de ne- 30 Negociação e gestão de conflitos gociação e do estabelecimento de um acordo, é importante que, desde o planejamento dos objetivos, das estratégias e das táticas a serem uti- lizadas seja levado em consideração o fator de que o relacionamento entre as instituições deve ser preservado, permitindo que novos con- tratos sejam realizados futuramente. Esse tipo de relacionamento de longo prazo nas empresas tem ga- nhado cada vez mais importância no que diz respeito ao desenvolvi- mento de cadeias de suprimentos globais, em que diversas empresas se relacionam constantemente para entregar produtos e serviços aos consumidores finais. Essas cadeias desenvolvem canais de distribuição estáveis, nos quais diversas empresas negociam constantemente com o objetivo de, segundo Caxito (2019b, p. 136), reunir informações sobre os clientes, ambientes e concorrentes; desenvolver e divulgar a mensagem para estimular a compra; negociar preços; fornecer condições de armazenagem e movi- mentação; fornecer condições de financiamento; e assegurar a transferência de posse do bem do fabricante para o comprador. Em cada uma das negociações que ocorrem entre as empresas de uma cadeia de valor é necessário manter um relacionamento de lon- go prazo. Assim, durante o processo de planejamento, o negociador define estratégias e táticas de negociação que garantam que o rela- cionamento estabelecido não seja quebrado. Com essa antecipação e com os aspectos bem estabelecidos, evita-se utilizar táticas agressivas, como o uso da posição de poder durante a negociação, que pode levar a uma postura de conflito entre todos os lados. Já para o segundo tipo de relação, Prado (2016) dá o nome de tran- sacional, pois, em geral, não ocorrerão novas interações e negociações entre as empresas no futuro. Nesse tipo de negociação, ainda confor- me o autor, não há a necessidade de ser estabelecida uma estratégia ou de adotar táticas que busquem preservar o relacionamento entre as instituições. Nesses casos, os negociadores podem ser mais objetivos e menos flexíveis em suas concessões, buscando atingir suas metas iniciais mesmo que o outro lado possa ser prejudicado. Em vista disso, é comum serem utilizadas táticas de negociação mais agressivas,que têm como base principalmente as diferenças de poder e no acesso à informação de cada um dos lados. Desse modo, é de suma importância, ao iniciar o planejamento de negociação, identifi- Estratégias e táticas de negociação 31 car corretamente o tipo de relação que se pretende estabelecer com a empresa que fará parte do processo. Algumas perguntas podem ser utilizadas para definir qual deverá ser a melhor estratégia a ser adotada durante a negociação. Thomp- son (2009) as divide em três tipos: autoavaliação, avaliação da outra parte e avaliação da situação. As perguntas de autoavaliação são utili- zadas para compreender quais são os objetivos a se alcançar e qual é o problema ou a situação a ser resolvida por meio da negociação, uma vez que nem sempre essas necessidades estão claras. É comum que o interesse declarado de uma negociação, como realizar a compra de um equipamento, inclua outros objetivos mais amplos ou específicos, como ter acesso a determinado tipo de tecnologia que esteja incluída no equipamento. Os questionamentos que envolvem a autoavaliação também auxi- liam na definição das concessões que a empresa ou que o negociador estão dispostos a fazer, assim como os limites a que se pode chegar para que o objetivo seja alcançado de modo viável para todos. Definir claramente concessões e limites é de fundamental importância para que, durante o processo de negociação, esses limites não sejam ultra- passados e não sejam aceitas condições que resultem em um desacor- do com os objetivos esperados. Compreender que informações disponíveis podem influenciar as negociações, além de saber onde as encontrar, também são importan- tes tópicos das perguntas de autoavaliação. As informações sobre a negociação podem estar dispersas em diversos locais e em formatos diferentes, algumas de fácil acesso, como relatórios ou documentos de negociações passadas; outras menos organizadas, como impressões, experiências, lembranças e emoções de pessoas que participaram de negociações anteriores. O segundo tipo de pergunta a ser feita durante o processo de definição das estratégias está relacionado à avaliação da outra par- te envolvida. É importante saber especificamente quem são as pes- soas participantes da negociação, pois nem sempre o negociador ou a pessoa que estará à mesa de negociação é quem definirá o acordo. Nas empresas é comum que outras pessoas e áreas interfiram no processo de negociação, como influenciadores, áreas técnicas, usuá- rios e decisores. 32 Negociação e gestão de conflitos Por esse motivo, identificar qual é o papel de cada uma dessas pessoas auxilia a desenvolver uma postura mais adequada à mesa, uma vez que, quando mais de uma pessoa participa desse processo, é comum que pelo menos uma adote uma postura mais questionado- ra, opondo-se ao andamento da negociação; enquanto a outra pessoa poderá adotar um tom mais conciliador, buscando o acordo. Deve-se buscar identificar, também, se existem interesses ocultos ou não decla- rados pela outra parte que podem não estar evidentemente expostos. Vamos ver um exemplo da importância de compreender o papel de cada um dentro de um processo de negociação. Pense em uma negociação entre uma empresa que fornece equipamentos para outras empresas, como computadores. O vendedor e o comprador dessas empresas farão a negociação, no entanto, em cada um dos lados existem diversas pessoas envolvidas. No lado da empresa compradora, o funcionário que será o usuário do equipamento pode influenciar o comprador usando o artifício de sua posição hierárquica – que seria de maior experiência – para obter o equipamento que deseja. Já a área técnica definirá os padrões e as especificações desse equipamento, que muitas vezes não serão aquelas desejadas pelo usuário final. Já a área financeira definirá o orçamento e a forma de pagamento da compra, fator que também poderá restringir as escolhas tanto da área técnica quanto do usuário. Já do lado da empresa vendedora há a área de logística, que definirá as condições de entrega do bem adquirido. Além disso, a área comercial será a que definirá as políticas e os preços sobre aquele produto; a área financeira irá autorizar o financiamento da ven- da, fator que também influenciará nas estratégias e nas táticas adotadas pelo vendedor no momento da negociação. Além disso, temos o terceiro tipo de perguntas, que tem como ob- jetivo auxiliar no processo de definição da estratégia de negociação. De acordo com Thompson (2009), elas estão relacionadas ao entendi- mento do contexto no qual a negociação ocorre, tanto em relação aos aspectos mais amplos – momento econômico, político, social e tecno- lógico que as empresas atuam, por exemplo – quanto aos aspectos da relação estabelecida entre as empresas que negociam. Esses três tipos de perguntas relacionadas pelo autor estão eluci- dadas no Quando 1 e nos permitem uma visualização resumida dos pontos. Vejamos: Estratégias e táticas de negociação 33 Quadro 1 Preparação para negociação ETAPAS PONTOS A SEREM ANALISADOS AUTOAVALIAÇÃO Essa fase se resume na identificação de um alvo ou uma aspiração, sa- ber realmente o que se quer com a negociação, analisar e estudar to- das as possibilidades, almejando coisas possíveis e objetivas para obter bons resultados na negociação. Em uma negociação é importante ter um conjunto de alternativas que representam opções viáveis caso a alternativa atual seja eliminada. De- ve-se traçar um objetivo, analisar possibilidades máximas e mínimas e avaliar a propensão de riscos. AVALIAÇÃO DA OUTRA PARTE Analisar cuidadosamente quem são as partes envolvidas, pesquisar ao máximo para identificar os interesses da outra parte. AVALIAÇÃO DA SITUAÇÃO O processo de negociação se faz em etapa única, de longo prazo ou repetitivo? A negociação envolve recursos escassos, ideológicos ou ambas as coisas? A negociação é decorrente da necessidade ou da oportunidade? A negociação decorre da troca ou de uma situação de disputa? Verificar os efeitos de ligação referente a outras negociações. Um acordo será necessário? Analisar a questão legal da negociação. Certificar-se de que a ratificação é necessária. Verificar se existem limitações de tempo ou outros custos ligados ao fator tempo (pressão do tempo e existência de prazos, custos relaciona- dos e que consequências o fator tempo terá na negociação). Os contratos são formais ou informais? Onde as negociações acontecem? As negociações são públicas ou privadas? Existe a possibilidade de intervenção por parte de terceiros? Que convenção orienta o processo de negociação? A negociação envolve mais de uma oferta? A forma de negociação é explícita ou tácita? Existe um diferencial de poder entre as partes envolvidas? Existem precedentes importantes? Fonte: Adaptado de Thompson, 2009, p. 27. A utilização dessas perguntas durante a etapa de planejamento da negociação não garante que todos os objetivos sejam atingidos, mas oferecem uma base sólida para que seja criada uma estratégia bem delineada, a partir da qual serão determinadas as táticas que serão utilizadas durante a negociação. 34 Negociação e gestão de conflitos 2.2 Principais táticas de negociação utilizadas no mercadoVídeo Definida a estratégia a ser adotada durante o processo de nego- ciação, a fase do planejamento prossegue com a definição das táticas mais adequadas para que os objetivos sejam alcançados. Segundo Braga (1998, p. 164), “as táticas e técnicas são constituídas por padrões de decisão e conduta estudados experimentalmente, e que podem contribuir para um melhor desempenho dos negociadores”. Com base nesse conceito é possível compreender que as táticas, como ferramentas ou técnicas, podem ser utilizadas com o objetivo de facilitar o processo de negociação. Para Lima (2009), as táticas são ferramentas utilizadas na busca da solução de conflitos e, muitas vezes, podem ser interpretadas de modo negativo, com o sentido de manipu- lação, oque pode levar o outro lado a se sentir enganado. Em decorrência disso, o autor divide as táticas de negociação em: coercitivas, fundamentadas na intimidação, no controle, no confron- to, na negação e na coação positiva; que têm como objetivo ridiculari- zar, intimidar ou manipular o outro lado. Já as táticas de negociação de união positiva têm como base a informação e o esclarecimento, bus- cando reforçar os pontos positivos de ganho comum, redirecionando a negociação para uma possível flexibilização e/ou concessão para que um objetivo comum seja atingido. Pimentel (2007) lista outras táticas de negociação que podem ser utilizadas. A tática de pressão é utilizada quando o negociador acredita que o outro lado está em desvantagem e quer debilitá-lo ainda mais. Essa tática pode ser combinada com a tática da autoridade superior, em que o negociador usa seu status ou sua posição hierárquica para obter o que deseja durante o processo. Há também a tática do desgaste, que objetiva prolongar o processo de negociação fazendo com que a outra parte utilize todos os seus re- cursos, chegando ao limite no que diz respeito às opções de negocia- ção. Outra tática semelhante é a das exigências crescentes, na qual a cada concessão feita pela outra parte o negociador aumenta o nível das exigências para que seja possível fechar o acordo. Estratégias e táticas de negociação 35 Além disso, temos as táticas do ultimato, em que se determina um prazo e, à medida que este se aproxima, pressiona-se o outro nego- ciador. A tática de ataque ou confronto também é semelhante à do ultimato; para que ela ocorra, cria-se um ambiente tenso durante o processo, utilizando o fator pressão para obter controle sobre a nego- ciação. No entanto, uma das táticas mais perigosas e questionáveis é a tática enganosa, por meio da qual o negociador utiliza informações falsas e faz promessas que não pretende cumprir com o objetivo de enganar a outra parte e fechar rapidamente um acordo. Com base nas táticas indicadas por Pimentel (2007) e o conceito das táticas coercitivas de Lima (2009), é possível traçar um paralelo entre os conceitos. Já com relação às táticas de união positiva (LIMA, 2009), Pi- mentel sugere a de desenvolvimento, na qual ambos os lados buscam positivamente estabelecer uma relação de confiança. Além disso, outra tática utilizada é a da opção, em que são criadas várias possibilidades de acordo durante todo o processo de negociação. Assim, os lados po- dem avaliar diversas opções propostas e escolher a mais adequada para ambos. Outros autores também tratam em suas literaturas de diversas tá- ticas que podem ser usadas no processo de negociação. Para Fontana (2014), a tática das perspectivas futuras utiliza em seu método uma promessa de benefício a ser entregue posteriormente, que é feita com o objetivo de se chegar a um acordo no processo de negociação. Já a tática da pretensão extremada parte do pressuposto de que se deve fazer uma oferta ou uma proposta absurdamente fora dos padrões para pressionar o outro lado. A tática da ameaça se aproxima da tática do ultimato, apresentada por Pimentel (2007), e é muito utilizada quando há uma relação de su- bordinação ou uma grande diferença de poder entre os negociadores. A tática da recusa em negociar pode ser relacionada à tática do des- gaste de Pimentel, em que se utiliza o fator ansiedade e a urgência do outro negociador em prol de melhores condições na negociação para o lado oposto. Fontana (2014) cita que o tempo e o local em que ocorre a negociação podem ser utilizados como ferramentas de pressão. Uma tática interessante citada pelo autor é o apelo emocional, na qual o ne- gociador tenta manipular as emoções do outro lado para alcançar seus objetivos. Essa técnica de apelo é muito utilizada por vendedores que 36 Negociação e gestão de conflitos solicitam aos clientes que os ajudem a alcançar seus objetivos, como se fosse um tipo de “favor pessoal”. Mello (2003) propõe em seus estudos um quadro com as principais táticas de negociação consideras por eles em que é possível compreender cada uma dessas táticas propostas de modo resumido (Quadro 2). Quadro 2 Táticas da negociação competitiva TÁTICAS DESCRIÇÃO Tática pessoal Relativa à postura e à atitude do negociador. Destaca-se a persistência, a postura de ouvinte, separar as pessoas dos problemas e o poder da legitimidade (apresentam-se pro- postas por escrito). Tática de associação Relacionada ao ato de juntar esforços com pessoas ou em- presas para obter os resultados desejados. Tática para obter informações Usada na estratégia competitiva como uma arma podero- síssima, em que é permitido usar a hipótese e a agenda prévia para conseguir informações. Tática da surpresa Utilizada para surpreender, destacando a mudança de rumo e a troca do negociador. Tática de comparação Usada para realçar pontos positivos da proposta; destaca-se o alívio induzido, as altas apostas e a chance para melhorar propostas. Tática de autoridade Transfere, eficazmente, a responsabilidade da decisão para outro negociador que não está presente, pode observar a autonomia limitada, o orçamento limitado, a aprovação su- perior, a aprovação prévia e o especialista. Tática de pressão Objetiva pressionar para que o acordo seja decidido ra- pidamente a favor de quem utilizou à tática. Destaca-se o impasse imediato, a tática do bom e do mau, o leilão e as ameaças. Tática de tempo Refere-se ao tempo, que é uma variável importante, pois sabendo administrá-lo, ganha-se poder. Destaca-se em es- ticar o assunto, o prazo fatal, a negociação rápida e a pausa na negociação. Fonte: Adaptado de Mello, 2003. Com base nas diversas táticas estudadas até aqui, é importante re- forçar que, no processo de planejamento, o negociador deve levar em consideração o contexto no qual a negociação ocorrerá para escolher quais táticas serão mais adequadas. Para Prado (2016), nas negocia- ções transacionais podem ser utilizadas táticas mais coercitivas, visto que não há, segundo o autor, a preocupação em se construir e manter um relacionamento de longo prazo com o outro lado após o acordo. Caso haja um desequilíbrio de poder entre os negociadores, ou um dos Estratégias e táticas de negociação 37 lados dependa menos dos resultados da negociação, é comum que se- jam adotadas táticas mais agressivas e coercitivas. Por outro lado, nas negociações relacionais, também apontadas por Prado, como um dos objetivos do processo de negociação, é criar e manter relacionamentos duradouros, as táticas de união positiva são as mais indicadas, uma vez que há maior troca de informações e confiança entre as partes. Ao utilizar a tática positivista, as chances de manter uma relação duradoura com as instituições presentes na nego- ciação são grandes, objetivando o bom relacionamento e bons resulta- dos em futuros contratos. 2.3 Contornando objeções Vídeo Durante o processo de negociação, após a fase do planejamento, há o momento inicial do contato entre os negociadores; esse momento é chamado por Fisher, Ury e Patton (2018) de sondagem. Essa fase ini- cial da negociação pode ser dividida em dois momentos: no primeiro, ocorrem as apresentações formais dos participantes e os comentários; as informações e os temas são mais genéricos e superficiais. As apre- sentações e a troca de informações objetivam uma aproximação entre os negociadores e permitem que seja estabelecido um padrão de co- municação comum, sobre o qual as negociações serão realizadas. No segundo, os negociadores de ambos os lados sondam – por meio de perguntas, declarações e comentários – os interesses, os limi- tes, as concessões, as expectativas e os objetivos das partes para que seja possível validar ou redirecionar o planejamento, as estratégias e as táticas já definidas. Com base nas informações obtidas durante essa sondagem, inicia-se efetivamente o processo de negociação, momento no qual um dos lados apresenta umaproposta formal a respeito do objeto da ne- gociação. Ao receber a primeira proposta, o outro lado tem três possí- veis alternativas: Aceitar a proposta nos termos apresentados. Nesse caso, não há, necessariamente, uma negociação, pois o acordo foi fechado sem a necessidade de serem discutidas as condições, os limites e as concessões. 38 Negociação e gestão de conflitos Negar totalmente a proposta e se retirar da negociação. O negociador pode entender que a proposta apresentada está fora de seus limites de concessão ou que foge totalmente de seus interesses e objetivos. Assim, não é necessário realizar uma negociação, visto que não ocorrerá o acordo. Negar a proposta inicial. No entanto, o negociador entende que é possível, por meio da negociação dos limites, das concessões e das condições, chegar a um acordo que possa atender, mesmo que parcialmente, aos objetivos pretendidos. Desse modo, podemos considerar que a verdadeira negociação se ini- cia com base nas objeções, uma vez que nas duas primeiras alternativas (aceitação total da proposta inicial ou negação total da proposta inicial), o processo de negociação não chega a ocorrer. Caso o negociador deci- da iniciar o processo, ele apresentará suas objeções à outra parte. Para Cônsoli, Castro e Neves (2007), a objeção é um estado de dúvida que pode ser causado pela falta de entendimento da proposta inicial ou, ainda, pela percepção de que as condições propostas não são as mais favoráveis. Já para Kotler e Keller (2019), em processos de negociação entre empresas, as objeções surgem tendo em vista dois diferentes tipos de resistência. A resistência psicológica inclui o medo da mudança, a di- ficuldade de quebrar modelos, hábitos e paradigmas, e pode ser repre- sentada pela dificuldade em mudar de marca ou fornecedor. Também são fontes de resistência psicológica as experiências negativas, os pre- conceitos e a aversão ao risco. As objeções causadas pela resistência lógica estão relacionadas aos aspectos objetivos, como preço, condi- ções de pagamento e características técnicas da negociação. Em processos de negociação que ocorrem no contexto de venda de produtos e serviços entre empresas, ou de uma empresa para um consumidor final, as objeções listadas por Kotler e Keller (2019) são fa- cilmente identificáveis. Por esse motivo, lidar com objeções no âmbito de venda é relativamente simples. Para Caxito (2019a, p.10): normalmente, as contestações em uma negociação relacionada a um processo de vendas são racionais e práticas, envolvendo divergências sobre valores, prazos, condições e características do produto, fatores objetivos que podem ser comparados e ana- lisados em relação aos produtos ou serviços concorrentes. Estratégias e táticas de negociação 39 O autor sugere que, para lidar com objeções racionais e objetivas, como as que ocorrem em negociações de venda, devem ser utilizadas as táticas de perguntas abertas e fechadas, que possibilitem ao nego- ciador maior entendimento sobre os reais motivos das objeções. As perguntas fechadas são aquelas que comportam uma resposta simples, que permitem apenas o “sim” ou o “não”. Esse tipo de pergun- ta é usado durante o processo para compreender as objeções e tem como finalidade obter confirmações sobre os motivos e as razões da negação. Um exemplo de uma pergunta fechada que pode ser utilizada nas negociações é: o tamanho desse produto é adequado para você? Além de ajudar a obter confirmações, as perguntas fechadas tam- bém podem ser utilizadas para estabelecer a comunicação inicial, ainda no momento do quebra-gelo, especialmente com interlocutores mais tímidos, que se sentem constrangidos no início de uma conversa. Ao usar uma série de perguntas fechadas, de modo direcionado, o nego- ciador pode levar seu interlocutor a uma situação na qual não é possível sustentar a objeção inicial, possibilitando que o acordo seja fechado de modo mais fácil. No entanto, essa técnica deve ser usada com cuidado para que a outra parte não se sinta pressionada e acabe abandonando a negociação, incorrendo na perda de um contrato. Já as perguntas abertas não comportam respostas simplificadas, levando o interlocutor a explicar suas opiniões e suas considerações de modo expositivo. Caxito (2019a) lista quatro diferentes tipos de perguntas abertas que podem ser usadas no entendimento de obje- ções. As perguntas de situação são utilizadas para compreender o contexto no qual ocorre a objeção e para confirmar se o negociador de fato entendeu os motivos que baseiam essa objeção. Consideran- do esse entendimento, o negociador pode utilizar perguntas de pro- blema, que buscam identificar as reais necessidades do interlocutor, seus desejos e seus objetivos. Há, também, a possibilidade de perguntas de implicação, que elu- cidam ao interlocutor as consequências que a objeção pode trazer ao andamento da negociação e quais seriam os objetivos finais de ambos os lados. Por último, perguntas de necessidade de solução são usa- das para que o interlocutor que levantou a objeção apresente possí- veis soluções ou ajustes à proposta inicial para que suas metas sejam alcançadas. 40 Negociação e gestão de conflitos Ainda no campo das objeções, Xausa (2013) propõe a regra dos 3Rs: Reconhecer, Repetir e Reverter. Segundo a autora, esses três passos possibilitam ao negociador atuar sobre a motivação do interlocutor que levantou a objeção. O primeiro momento é o de reconhecer os mo- tivos pelos quais ocorreu a objeção. Isso é feito ouvindo de modo aten- to as argumentações e fazendo perguntas abertas e fechadas. Para se certificar de que realmente compreendeu os motivos e para mostrar ao interlocutor que entende o ponto de vista e as razões da objeção, o negociador deve repetir, usando suas palavras, aquilo que ouviu. Por último, deve-se tentar reverter a objeção, mostrando pontos importan- tes da proposta que tenham passado despercebidos pelo interlocutor, fortalecendo-os e eliminando as dúvidas que possam ter permanecido. A regra proposta por Xausa é bastante alinhada às considerações de Kotler e Keller (2019) sobre a resistência psicológica e aos conceitos de Fisher, Patton e Ury (2018) a respeito das objeções. Para os autores, as objeções que ocorrem em negociações complexas nem sempre são de- correntes de questões, ou problemas, objetivos ou racionais. Quando as objeções tem como base aspectos subjetivos, emocionais ou relacio- nais, a técnica das perguntas abertas e fechadas pode não ser suficien- te para se contornar as objeções feitas no processo de negociação. Os autores também destacam que, em negociações do tipo relacio- nais, nas quais o relacionamento entre os negociadores e as institui- ções que eles representam precisa ser preservado, lidar com objeções é mais complicado, uma vez que estas podem esconder motivos mais profundos, como questões não resolvidas em negociações anteriores, problemas de relacionamento entre os negociadores ou a necessidade de manter a relação de longo prazo. No método relacional é possível que os negociadores se sintam pres- sionados a atingir os objetivos propostos. Caso não tenham equilíbrio emocional, preparação técnica ou informações completas sobre os im- pactos da negociação quanto ao relacionamento futuro dos parceiros, podem perder o controle de suas decisões. Por esse motivo, os autores sugerem que o negociador experiente, ao sentir que está sendo pressio- nado ou que as propostas e objeções colocadas estão fazendo com que ele se distancie de seus objetivos e limites iniciais, retome o controle do processo por meio de uma técnica conhecida como subir ao camarote. Apesar de ser uma animação que tem como pano de fundo os medos das crianças, o filme A Casa Monstro contém uma divertida cena em que uma das persona- gens tenta realizar uma venda e demonstra ma- neiras de lidar com obje- ções utilizando o método de perguntas abertas e fechadas, mostrando novos caminhos para a negociação. Éuma ótima maneira de ver como ocorre a aplicação dessas táticas e as possíveis rea- ções do lado interessado. O recorte da cena citada e sua contextualização para o modelo de nego- ciação pode ser visto no link a seguir. Disponível em: https:// www.youtube.com/ watch?v=ReszlvTDyz0 Acesso em: 26 nov. 2020. Direção: Gil Kenan. Estados Unidos: Columbia Pictures, 2006. Vídeo https://www.youtube.com/watch?v=ReszlvTDyz0 https://www.youtube.com/watch?v=ReszlvTDyz0 https://www.youtube.com/watch?v=ReszlvTDyz0 Estratégias e táticas de negociação 41 O que os autores propõem com essa técnica é que o negociador tente enxergar o que está acontecendo durante a negociação, bem como as objeções e as relações que se estabelecem, considerando um ponto de vista neutro, sem deixar que suas emoções interfiram em seu julgamento e o afaste de seus objetivos. Em suma: o negociador deve “se retirar” da mesa e analisar atentamente todo o processo a fim de identificar os motivos que o estão distanciando e tornando a negocia- ção desfavorável a ele. É comum que um dos lados, ao se sentir pressionado, comece a defender suas posições e suas crenças de maneira obstinada, sem con- siderar os impactos negativos de suas objeções e a possibilidade de a negociação não chegar a um acordo. Em razão disso, ao visualizar o processo como se estivesse “do lado de fora”, o negociador pode iden- tificar os reais interesses de ambos os lados e fazer novas propostas mais alinhadas às necessidades de todos. Durante esse momento de reflexão e observação, que pode ser um simples intervalo nas negociações ou um período mais longo para que cada lado realize uma nova análise do cenário da negociação, é impor- tante voltar ao planejamento inicial e analisar cada uma das informa- ções, estratégias e táticas inicialmente pensadas, agora, à luz das novas informações obtidas durante as primeiras rodadas de negociação. Muitas vezes, as objeções colocadas são tão profundas que inviabilizam os objeti- vos e as concessões planejadas. Portanto, os autores sugerem que sejam identificadas alternativas para que a negociação continue. Esse procedi- mento é chamado de Best Alternative to a Negotiated Agreement (Batna); ou, em português, Melhor Alternativa à Negociação de um Acordo (Maana). Ao retornar à mesa de negociação após essa análise profunda e definir novas estratégias, o negociador pode redirecionar as conver- sações agindo de modo empático, buscando ouvir o outro lado sem refutar suas colocações e sem desmerecer suas opiniões. No entanto, é importante ter em mente que “subir ao camarote”, reanalisar as estratégias e buscar uma atitude empática não significa que o negociador deve aceitar as objeções e as propostas do interlo- cutor em sua totalidade apenas para fechar um acordo. O negociador deve mostrar seus limites e suas concessões e, caso estes não sejam respeitados, ou o outro lado se mantenha irredutível em suas objeções, deve-se tentar novos caminhos e novas abordagens. Nesse momen- to da negociação, as capacidades de comunicação, tanto a de escutar quanto a de argumentar, são fundamentais para o sucesso do acordo. 42 Negociação e gestão de conflitos 2.4 Comunicação e argumentação Vídeo Em suas literaturas, diversos autores deixam evidente que negocia- ção e comunicação são competências intrinsecamente relacionadas. Para Fisher, Patton e Ury (2018, p. 30), “negociação é um processo de comunicação bilateral com o objetivo de se chegar a uma decisão con- junta”. Já para Lempereur e Colson (2004), a negociação é basicamente um processo de comunicação e integração entre duas ou mais pessoas. Para Thompson (2009), a comunicação dentro do contexto da ne- gociação ocorre com base na interação entre os negociadores e en- volve quatro diferentes aspectos. O primeiro aspecto diz respeito às fontes da argumentação utilizadas, que podem estar fundamentadas tanto em aspectos lógicos e objetivos – como fatos e dados – quanto podem estar relacionados às opiniões ou à intuição de cada um dos negociadores. O segundo aspecto trata da complexidade dos proces- sos de comunicação, que envolvem a linguagem utilizada, como termos técnicos específicos, diferença de níveis educacionais entre os negocia- dores, questões relacionadas ao idioma, ao sotaque, ao regionalismos ou à cultura organizacional. Já o terceiro aspecto está relacionado ao estilo preferencial de comunicação, que envolve o modo como cada negociador se comunica: mais objetivo e direto; ou subjetivo, abordan- do o tema da negociação de maneira indireta. Por último, há o aspecto emocional de cada negociador durante a comunicação, que pode in- fluenciar as percepções sobre o que está sendo dito. A relação entre estes aspectos pode ser compreendida no Quadro 3. Quadro 3 Comunicação no contexto da negociação Aspecto Tipos Exemplo Fontes da argumentação Lógicas e objetivas Utiliza fatos e dados em sua argumentação. Subjetivas Utiliza opiniões ou intuição em sua argumentação. Estilo preferencial de comunicação Objetivo e direto Aborda o tema da negociação de maneira direta. Subjetivo Aborda o tema da negociação de maneira indireta. (Continua) Estratégias e táticas de negociação 43 Aspecto Tipos Exemplo Complexidade dos pro- cessos de comunicação Linguagem utilizada Uso de termos técnicos. Diferenças de idioma, regionalismos e sotaques. Níveis educacionais Negociadores com diferentes níveis de educação e uso da linguagem. Cultura organizacional Diferença de cultura organizacional entre as em- presas representadas pelos negociadores. Aspecto emocional Envolvido emocional- mente na negociação Emoções interferem na comunicação e nas deci- sões. Não envolvido emocio- nalmente na negociação Emoções não interferem na comunicação e nas de- cisões. Fonte: Elaborado pelo autor com base em Thompson, 2009. É comum que a capacidade de comunicação durante uma nego- ciação seja confundida com a capacidade de argumentação do nego- ciador. Saber argumentar é, sem dúvida, uma das mais importantes características do negociador. Contudo, tão importante quanto saber convencer o outro lado por meio de argumentos consistentes e uma boa capacidade de influência e convencimento, é ter a capacidade de escutar e compreender o interlocutor. Já destacamos, durante este capítulo, a importância de escutar as ra- zões objetivas e subjetivas para lidar de modo efetivo com as objeções que surgem durante a negociação. Todavia, nem sempre o que é dito pelo interlocutor é completamente compreendido pelo negociador. Em qualquer processo de comunicação e, em especial nas comunicações que ocorrem durante as negociações, a mensagem emitida por um dos lados passa por diversos filtros que podem prejudicar o entendimento daquilo que se pretendeu transmitir no momento. Segundo Treasure (2011), ouvir é diferente de escutar; ouvir é um processo mecânico e automático, que envolve a captação pelo apare- lho auditivo de uma onda sonora. É possível ouvir outra pessoa falando, mas isso não quer dizer que ela esteja compreendendo ou escutando de fato aquilo que está sendo dito, seja por questões linguísticas, seja porque não se está prestando a devida atenção àquilo que está sen- do dito. Já o ato de escutar envolve a intenção de compreender o que 44 Negociação e gestão de conflitos está sendo dito, o esforço consciente de tentar compreender de fato a mensagem. É comum existir momentos que, apesar de ouvirmos, não escutamos. Treasure (2011) ainda aponta diversos filtros que interferem no pro- cesso de comunicação, como a cultura do país, da região ou da empresa na qual o negociador trabalha. Quando dois negociadores de diferen- tes culturas empresariais precisam negociar, é comum existir alguns conflitos no processo de comunicação, devido à linguagem adotada ou à forma mais ou menos direta e objetiva. O idioma é outro importante filtro da comunicação e envolve não só diferentes línguas, mas o uso de termos específicos de cada negócioe de cada empresa, como siglas, estrangeirismos e variantes de palavras características. Outro aspecto relevante nesse processo são as crenças, que tam- bém funcionam como um filtro – crenças religiosas, políticas, sociais, culturais ou de conceitos previamente estabelecidos. É comum que, quando um negociador defende determinada crença contrária à do in- terlocutor, ou ataca a crença deste, a comunicação fique prejudicada e se percam as conexões de confiança entre ambos os lados. As atitudes, expectativas e intenções que cada negociador leva para a mesa de negociação interferem no processo de comunicação, uma vez que impactam o modo como cada um recebe e processa as informações recebidas. Entre as diversas características do bom negociador, Fisher, Patton e Ury (2018) destacam que está a capacidade de ouvir o interlocu- tor sem deixar que preconceitos e estereótipos interfiram em suas deci- sões. Os autores também elucidam que a melhor forma de desenvolver a capacidade de se comunicar adequadamente no processo de negociação é praticar regularmente a escuta e a argumentação. Fiorin (2014) define argumentação como o encadeamento dos enun- ciados que conduz a uma conclusão. Esse conceito, que se relaciona à visão da argumentação como recurso linguístico, está relacionado ao estudo da filosofia e pode ser utilizado pra entender a importância da argumentação na negociação. É por meio do uso da comunicação que o negociador encadeia uma série de argumentos consistentes com o ob- jetivo de conduzir o interlocutor à conclusão desejada, que é aceitar a proposta e selar o acordo. Para Sousa (2015, p. 91), “a argumentação é uma memorável arte que, quando adaptada às técnicas de um negocia- dor, pode revolucionar ideias e principalmente o mundo dos negócios”. Robert Cialdini apresenta em seu livro As Armas da Persuasão – Como influenciar e não se deixar influenciar, seis princípios básicos que devem ser utilizados nos processos de negociação para alcançar os objetivos pro- postos. A obra, ao relatar passo a passo cada um desses princípios, permi- te uma boa compreensão da aplicação dos métodos durante o processo de negociação. Essa leitura pode ser muito enrique- cedora e complementar os estudos. CIALDINI, R. São Paulo: Editora Sextante, 2012. Livro Estratégias e táticas de negociação 45 Em razão disso, é possível compreender que a argumentação, com a capacidade de escutar, constituem a competência de comunicação, fator fundamental para que o negociador desempenhe sua atividade de modo efetivo e com resultados consistentes. 2.5 Diferenças culturais nas negociações Vídeo Os aspectos culturais impactam não apenas a comunicação, mas todo o processo de negociação. Em pesquisas e estudos realizados por Sobral, Carvalhal e Almeida (2012), concluiu-se que, de modo geral, no Brasil a negociação é compreendida como um processo de colabora- ção e partilha, em que se busca construir uma solução ganha-ganha. No estudo, apenas 30% dos executivos entrevistados entendem a ne- gociação como uma competição, na qual um lado deve perder para o outro ganhar. Alguns aspectos têm pesos semelhantes na cultura dos negociadores brasileiros, como a barganha, em que há uma troca de concessões de todos os lados até se chegar a um ponto médio entre as propostas iniciais; e a integração, quando ambos os lados buscam uma resolução conjunta por meio da comunicação. Outras características identificadas pelos autores dizem respeito a como é a cultura de negociação no país. O brasileiro é, em geral, avesso ao risco, ou seja, tende a decidir apenas quando se sente seguro. Já com relação à comunicação no processo de negociação, o estudo apon- ta que a maioria dos negociadores brasileiros adota uma comunicação mais indireta e subjetiva, em que aspectos relacionados à comunicação não verbal, como gestos e toques entre as pessoas, são importantes durante o processo. Tais características corroboram com os aspectos relacionais da cultura nacional. Consequentemente, considera-se que o brasileiro tem uma cultura não territorial, em que os espaços sociais são comuns e as pessoas têm o hábito de se tocar e manter uma proximidade física, além de não ter dificuldade em demonstrar afeto nas relações interpessoais. Outra ca- racterística da cultura nacional que interfere no modo de negociar dos profissionais é a preferência por uma comunicação na qual o debate não é valorizado, ou seja, diversos assuntos são discutidos simultanea- mente, interferindo no tema central da discussão, evidenciando que há uma tendência a ser menos objetivo e direto na comunicação e, por isso, na negociação. 46 Negociação e gestão de conflitos Sobral, Carvalhal e Almeida (2012), ao compararem os resultados obtidos com profissionais brasileiros a estudos semelhantes realizados em outros países, destacam que os negociadores nacionais, exatamen- te por essa comunicação mais subjetiva e relacional, interrompem com mais frequência os interlocutores e pouco utilizam períodos de silên- cio entre as falas. Essa característica pode prejudicar a capacidade de escutar ativamente os argumentos e as objeções dos interlocutores, fazendo com seja menos eficiente uma importante característica dos bons negociadores. Outra característica que difere os negociadores brasileiros dos pro- fissionais de outros países é a de que os brasileiros tendem a exagerar quando ocorre uma disputa verbal. Elevar o tom de voz, utilizar gestos amplos e defender apaixonadamente suas crenças e suas posições são atitudes comuns nos negociadores, em especial nos momentos em que a discussão sai do controle, o que também prejudica os processos de escuta ativa, tão fundamentais ao andamento da negociação. Essas características presentes nos negociadores podem apresen- tar um aspecto negativo, em especial quando a negociação envolve participantes de outros países e culturas. A expressividade e a espon- taneidade dos brasileiros são conhecidas por negociadores de outras culturas, que podem utilizar essas características para pressionar e in- duzir os negociadores brasileiros a uma decisão apoiada na emoção. Por esse motivo, o controle das emoções é algo a ser trabalhado por quem deseja atuar como negociador. Ainda, o estudo de Sobral, Carvalhal e Almeida (2012) elucida que os negociadores brasileiros têm consciência das características que os prejudicam e buscam usar a lógica e os fatos para fundamentar seus argumentos. Mais de dois terços dos respondentes do estudo afirma- ram que utilizam mais a lógica e a objetividade do que as percepções e a intuição nas negociações em que participam. No entanto, não é apenas quando se negocia com pessoas de ou- tros países que os aspectos culturais são relevantes. Em um país de dimensões continentais como o Brasil, onde cada região e estado tem culturas próprias – fator que pode ser percebido nas diferenças lin- guísticas, em como a comunicação se estabelece e no modo como as pessoas se relacionam –, a negociação entre empresas e pessoas des- sas diferentes regiões e culturas pode ser ainda mais complexa. Por Estratégias e táticas de negociação 47 isso, é necessário termos muita atenção e cuidado em todas as etapas do processo de negociação, para que o resultado seja satisfatório para todas as partes. CONSIDERAÇÕES FINAIS Para que uma negociação seja bem-sucedida, é fundamental que se tenha entendimento sobre os objetivos a serem alcançados. Um bom planejamento, no qual seja definido a estratégia a ser adotada durante o processo de negociação e as táticas a serem utilizadas para se chegar ao acordo desejado, é o primeiro passo rumo ao objetivo estabelecido. Um planejamento bem estruturado também ajuda a prever as possíveis objeções que podem ser apresentadas pelos interlocutores, permitindo que as linhas de argumentação sejam preparadas antecipadamente, bem como propostas alternativas que aumentem a probabilidade de fecha- mento do acordo. Além disso, obom negociador deve levar em consideração a importân- cia da comunicação e dos aspectos culturais no processo de negociação, já que estes podem prejudicar e até mesmo inviabilizar o acordo final, caso não sejam adequadamente conduzidos. ATIVIDADES 1. Quais são as diferenças entre as perguntas abertas e fechadas? Dê exemplos de cada um desses tipos que podem ser utilizados em uma negociação. 2. Explique a diferença entre a negociação transacional e a negociação relacional. 3. O processo de negociação se inicia quando um dos lados apresenta uma proposta formal a respeito do objeto da negociação. Ao receber a primeira proposta, o outro lado da negociação tem três possíveis alternativas, explique cada uma delas. REFERÊNCIAS BRAGA, D. G. Conflitos, eficiência e democracia na gestão pública [online]. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 1998. CAXITO, F. de A. Negociação e vendas. Curitiba: Iesde, 2019a. CAXITO, F. de A. Logística: um enfoque prático. 3. ed. São Paulo: Saraiva, 2019b. 48 Negociação e gestão de conflitos CÔNSOLI, M. A.; CASTRO, L. T.; NEVES, M. F. Vendas: técnicas para encantar os seus clientes. Porto Alegre: Bookman, 2007. FIORIN, J. L. Argumentação e discurso. Bakhtiniana: Revista de Estudos do Discurso, São Paulo, v. 9, n. 1, p. 53-70, jul. 2014. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_ arttext&pid=S2176-45732014000100005&Ing=en&nrm=iso. Acesso em: 26 nov. 2020. FISHER, R.; PATTON, B.; URY, W. Como chegar ao sim: como negociar acordos sem fazer concessões. Rio de Janeiro: Sextante, 2018. FONTANA, M. P. L. B. O processo de negociação nas organizações num contexto atual. Criciúma: UNESC, 2014. KOTLER, P.; KELLER, K. L. Administração de marketing. São Paulo: Pearson Universidades, 2019. LEMPEREUR, A. P.; COLSON, A. Méthode de négociation: on ne naît pas bon négociateur, on le deviant. Paris: Dunod, 2004. LIMA, J. C. Negociação de conflitos: estratégia para o sucesso. São Paulo: LTr, 2009. MELLO, J. C. M. 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Contudo, os conflitos que acontecem nas organizações não são necessariamente ruins. É por meio deles que possíveis di- retrizes e modos de agir cristalizados nos indivíduos podem ser quebrados, proporcionando a evolução e o desenvolvimento da cultura. É também a partir desses conflitos que ocorrem entre as instituições, que fazem parte de uma mesma cadeia de valor e desta com o mercado, clientes e concorrentes, que a empresa pode melhorar seus processos e se adequar às novas exigências do mercado consumidor. O resultado dos conflitos, se negativo ou positivo, dependerá do modo como a liderança da organização lida com ele. Se a gestão do conflito for feita de maneira adequada, poderá gerar oportuni- dades de desenvolvimento para a empresa. No entanto, se a ges- tão não souber lidar com o conflito, o efeito será negativo e poderá gerar grandes prejuízos. 3.1 Comportamento humano e conflitos organizacionaisVídeo Em seu conceito mais genérico, segundo Houais e Villar (2009, p. 797), o conflito pode ser definido como a “profunda falta de entendi- mento entre duas ou mais partes; choque; enfrentamento; discussão acalorada; altercação”. Em vista disso, podemos compreender que o conflito é um fenômeno inerente aos grupos e às relações sociais e está 50 Negociação e gestão de conflitos presente em diversos momentos e áreas das nossas vidas, como nos grupos familiares, nas relações sociais e nas relações profissionais que ocorrem nas organizações. Na Ciência da Administração, os conflitos no ambiente de trabalho e entre organizações têm sido objeto frequente de estudo, pois represen- tam um dos maiores desafios na gestão de empresas. Para Chiavenato (2020), o conflito organizacional existe porque em uma empresa cada indivíduo tem crenças, ideias, sentimentos, atitudes ou, ainda, inte- resses diferentes dos demais e, muitas vezes, antagônicos em relação àqueles defendidos por outras pessoas. Em diversos momentos, essas diferenças colidem, gerando desacordos ou desaprovações em relação às ideias defendidas por outros, e, se não tratadas adequadamente, essas situações podem gerar desentendimentos, discordâncias e opo- sições que, em última instância, podem paralisar a empresa. Já para Griffin e Moorhead (2006), os conflitos organizacionais sur- gem a partir de desacordos entre as diversas pessoas ou diversos gru- pos que compõem uma empresa ou uma rede de empresas. O autor ainda salienta que os conflitos tomam proporções maiores quando há a percepção por parte de membros da equipe de que o trabalho, as atividades, os objetivos e os esforços são boicotados pelas demais pes- soas ou grupos que compõem a empresa. Chiavenato (2020) ainda destaca que os conflitos são resultado das desigualdades que existem tanto entre as pessoas dentro de uma mes- ma organização quanto entre organizações que interagem em uma ca- deia de valor. Nas interações que ocorrem entre os membros de um mesmo grupo, algumas pessoas podem considerar que as atitudes, ações ou decisões de outrem podem interferir ou até mesmo impedir a realização de suas tarefas e o atingimento de seus objetivos. De modo semelhante, para Wagner e Hollenbeck (2009), o conflito surge da oposição e do confronto entre pessoas e/ou grupos que bus- cam atingir suas metas e, ao encontrar empecilhos, consideram que outras pessoas dentro da mesma organização podem estar impedindo suas ações. Já Robbins (2004) acredita que, em muitos casos, algumas pessoas agem intencionalmente para contrariar e impedir as ações de outras pessoas, seja nas execuções das tarefas cotidianas ou na busca para atingir as próprias metas. Os conflitos na organização 51 Na visão de Moscovici (2008), os conflitos ocorrem quando as pessoas de um determinado grupo social se posicionamde maneira antagônica. No entanto, para o autor, os conflitos são inevitáveis e ne- cessários à vida nos grupos sociais. Em todos os conceitos estabelecidos pelos autores até aqui fica evidente o fato de que os conflitos ocorrem de maneira natural nos grupos e entre os indivíduos. Nas empresas, as divergências são ainda mais presentes, pois as organizações são formadas por pessoas dife- rentes, com crenças, valores e culturas diferentes, em diferentes mo- mentos do ciclo de vida, que enxergam a relação com o trabalho de outra maneira. Além disso, cada cargo, função, área e departamento tem objetivos diferentes, que muitas vezes entram em conflito com os objetivos de outras áreas. Pense nas relações que ocorrem em uma empresa. A área comercial tem como objetivo atingir suas metas de venda e faturamento. Para isso, dependem da aprovação dos limi- tes e dos prazos de pagamento de cada venda realizados pela área financeira. Essa, por sua vez, tem como objetivo manter baixo o índice de inadimplência dos clientes. Em vista disso, a área financeira pode decidir negar uma autorização de faturamento caso julgue que há risco de as duplicatas relativas às compras realizadas pela área comercial não serem pagas. No entanto, ao negar o prazo a fim de atingir seu objetivo, indire- tamente acaba interferindo no objetivo da área comercial, que não realizará a venda. É exatamente esta diversidade de culturas, comportamentos, per- sonalidades, interesses, valores culturais e religiosos, estilos de vida e momentos diferentes na vida de cada indivíduo que cria um ambiente passível de conflitos interpessoais nas relações profissionais, podendo levar a hostilidades, atitudes negativas e, até mesmo, a situações extre- mas, como o caos, a desordem da empresa ou a falência. No entanto, Vecchio (2008) defende a ideia de que, por ser inevitá- vel nas organizações, o conflito não é desejável nem indesejável: é a maneira como se lida com os conflitos que impactam diretamente nos resultados dessa situação, que podem ser positivos ou negativos. Como é algo que ocorre naturalmente nos grupos sociais, o conflito faz parte do cotidiano das empresas e é um dos maiores desafios com os quais as lideranças se deparam. Para Cecílio (2005), o gestor precisa constantemente tomar decisões para controlar, orientar, direcionar e solucionar os conflitos que surgem no dia a dia. Mas, para Moscovici 52 Negociação e gestão de conflitos (2008), o conflito não é necessariamente negativo: dependendo da ma- neira como os gestores lidam com essa situação, ele pode ter conota- ções positivas ou negativas. Se a condução do conflito não for feita de maneira adequada pelos gestores, os resultados sobre a motivação e o rendimento dos funcio- nários serão negativos, interferindo na organização do trabalho e nos resultados obtidos pela empresa. Por outro lado, o conflito pode trazer resultados positivos para a organização quando a liderança usa essas situações para desenvolver tanto a organização quanto os funcioná- rios. As situações de conflito podem incentivar tanto mudanças pes- soais quanto o desenvolvimento do grupo, além da melhoria da cultura organizacional. Por esse motivo, saber o momento de lidar com essas situações e como lidar é de suma importância para obter resultados positivos tan- to na organização como um todo quanto na relação interpessoal de equipes. Ao tirarmos bons resultados dos conflitos, entendemos que os maiores objetivos e metas poderão ser alcançados com maior facilidade. 3.2 Tipos de conflitos nas organizações Vídeo Robbins (2004) também reforça a ideia de que nem todos os confli- tos geram resultados negativos. Para o autor, alguns trazem evolução para a empresa e melhorias que podem ser sentidas tanto no modo como a empresa desenvolve suas atividades quanto na cultura da or- ganização como um todo. Desse modo, Robbins apresenta esses conflitos de duas maneiras: o conflito disfuncional e o conflito funcional. O disfuncional está mais ligado à forma como as pessoas se relacionam e é considerado o tipo mais destrutivo, que tem maior potencial de atrapalhar o desenvolvi- mento do grupo e da organização como um todo, uma vez que prejudi- ca o trabalho, a interação entre as pessoas, os processos e a consecução das metas, além dos objetivos da empresa. Como surgem a partir des- sas disputas interpessoais, os desacordos gerados em decorrência dos diferentes pontos de vista e crenças geram tensão, desentendimentos, e levam a desperdícios de tempo, de recursos e de energia, fatores que deveriam estar direcionados à geração de valor na própria empresa. Em casos extremos, as pessoas passam a se preocupar apenas com o Os conflitos na organização 53 próprio bem-estar e agem com descaso em relação aos objetivos da organização. Já o conflito funcional está relacionado à forma como as atividades e os processos são realizados no cotidiano da empresa. Na visão do autor, os conflitos funcionais são positivos, pois podem gerar melho- rias no desempenho do grupo e na organização da empresa, desde que seja tratado de modo a aproveitar as oportunidades de desenvol- vimento. Assim, os conflitos funcionais geram benefícios tanto para a organização quanto para o indivíduo. Corroborando as ideias de Robbins (2004), o pesquisador Dubrin (2006) afirma que o conflito funcional contribui para os interesses da organização. Se essas disputas e/ou conflitos forem administrados de modo que promovam a integração dos membros da equipe e das áreas funcionais, é possível gerar maior motivação, incentivar a inovação e a criatividade, além de possibilitar que mudanças positivas e constru- tivas sejam implantadas por meio da resolução desses conflitos. Des- se modo, o conflito organizacional, desde que administrado pelo líder de maneira positiva, traz diversos benefícios para a organização, uma vez que intensifica a comunicação e a troca de informações, opiniões e pontos de vista. Ainda, ao ter resultados positivos, tem-se melhores decisões, as quais aumentam a produtividade e incentivam a criativida- de da equipe. Esses conflitos organizacionais elencados por Robbins (2004) e Dubrin (2006) são classificados em três diferentes categorias por Marquis e Huston (1999): os intrapessoais, os interpessoais e os intergrupais. O conflito intrapessoal se origina nos valores, nas crenças, nas ne- cessidades e nos desejos da pessoa, que podem ser contraditórios ou antagônicos em relação à cultura da empresa, às atividades que preci- sam ser realizadas ou às decisões que a pessoa precisa tomar para exe- cutar suas tarefas. Em vista disso, o indivíduo passa a viver um conflito interior, uma vez que precisa decidir seguir seus próprios valores ou acatar aqueles defendidos pela empresa. Já em relação ao conflito interpessoal, o autor explica que acontece a partir do relacionamento estabelecido entre duas ou mais pessoas. Ele pode surgir tanto pela divergência entre os valores e as crenças des- ses indivíduos quanto pela interferência das atividades, dos processos No filme Advogado do Dia- bo, Kevin Lomax (Keanu Reeves) enfrenta o dilema de escolher entre seus valores pessoais e os va- lores do escritório de ad- vocacia em que começa a trabalhar. Apesar de ser um advogado desconhe- cido, de uma cidadezinha do interior, Lomax recebe um convite do maior escritório de advocacia de Nova Iorque dirigido por John Milton (Al Pacino). Poderoso, Milton exerce uma estranha influência sobre Lomax, que o faz pensar em ir contra seus princípios para perma- necer no escritório. No entanto, ao descobrir que Milton é, na verdade, o verdadeiro Diabo, Lomax deverá decidir que lado tomar: a favor ou contra seus princípios. Direção: Taylor Hackford. Estados Unidos: Warner Vídeo, 1997. Filme 54 Negociação e gestão de conflitos e das metas de cada um, fatores que geram pontos de tensão entre essas pessoas que já não se relacionam muito bem. No cotidiano das empresas, diversosaspectos podem levar os indi- víduos a estabelecerem relações harmoniosas com alguns colegas ao mesmo tempo em que estabelecem relações de conflito com outros. Esses aspectos podem estar ligados às crenças religiosas, políticas, es- portivas, aos momentos do ciclo de vida e às relações que ocorrem fora do ambiente empresarial, mas que acabam interferindo, de modo indireto, nas relações profissionais. O terceiro tipo de conflito apontado pelo autor é o conflito intergrupal. A empresa é constituída por diversos grupos, sejam eles de áreas funcionais, como os departamentos; ou informais, cria- dos por meio de relacionamentos pessoais entre os colaboradores. Esse tipo de conflito também pode acontecer em uma relação entre empresas que fazem parte de uma mesma cadeia de valor. Quando os diversos departamentos de uma empresa são bem de- terminados e destacados, é comum que se manifeste, entre os mem- bros que os constituem, um sentimento de pertencimento que, se não for bem administrado pela liderança estratégica da organização, pode acarretar em um distanciamento cada vez maior entre determinada área e as demais. Em vista disso, é comum que cada setor passe a ado- tar palavras, expressões, símbolos e posturas que marquem a diferen- ça entre cada departamento. Galpin, Hipirt e Evans (2007) acreditam que as áreas funcionais (departamentos) são diferentes não apenas em relação às habilidades e às competências presentes nos colaboradores que as compõem, mas também no que diz respeito à interpretação dos objetivos da organização. Na mesma esteira, Moses e Ahlström (2008) apontam que, com a especialização de cada uma das áreas funcionais, tanto as ações e atividades desenvolvidas quanto os focos de cada área se tornam dis- tintos e estão relacionados aos interesses, aos objetivos, aos sistemas de premiação, à recompensa e aos controles de cada um dos depar- tamentos, além dos programas de treinamento e das competências desenvolvidas. Em suma, quanto mais específicas e especializadas as atividades de cada área, maior é a possibilidade de surgirem conflitos entre elas, em especial nas atividades e nos processos que envolvem decisões, ações, metas e objetivos individuais. Os conflitos, segundo Os conflitos na organização 55 os autores, surgem devido à falta de integração interna entre os di- versos setores. Outro ponto importante em relação aos conflitos que ocorrem no cotidiano corporativo é que eles podem ser facilmente observáveis e se manifestam de maneira clara; ou se estão encobertos, ou seja, se apresentam de maneira velada. Os conflitos velados são muitas vezes mais prejudicais à empresa do que os conflitos manifestos. Por não serem claramente observáveis, não são devidamente acompanhados pela gestão, mas se fazem presentes nas relações cotidianas gerando ruídos nas comunicações e nos relacionamentos. Como não são tratados da melhor maneira, os conflitos resultam em intrigas e formação de grupos antagônicos que se “enfrentam” por meio de ações veladas. Esses conflitos geram sentimentos negativos, como raiva, ansiedade e medo, e precisam ser acompanhados com atenção pelo gestor para que possam ser devidamente tratados antes de causarem conflitos manifestos em toda a empresa. A preparação do líder para uma gestão de conflitos efetiva é funda- mental, pois, além de ser necessário trabalhar seus próprios conflitos internos, deve atuar como mediador dessas situações, que podem ser veladas e dentro de uma equipe, entre as diversas áreas da empresa, ou, ainda, com outras organizações que fazem parte de uma mesma cadeia de valor. Para tanto, o líder deve agir como mediador das situações de con- flito buscando não só resolver o problema específico, mas também identificar e tratar as origens desse problema utilizando ferramen- tas e estratégias de negociação e mediação. Visando bons resulta- dos no processo, é necessário ter credibilidade em sua relação com a equipe, agir de modo imparcial, ter conhecimento não só sobre a situação geradora como sobre as metodologias de gestão de conflito e usar a comunicação de maneira clara, respeitando a confidenciali- dade de cada tema. Diversos autores apontam estratégias de resolução para que os gestores gerenciem as situações de conflitos. Spagnol (2006) reuniu di- versas dessas estratégias de modo objetivo em seus estudos. Vamos observar cada uma delas no Quadro 1. 56 Negociação e gestão de conflitos Quadro 1 Síntese conceitual de estratégias de resolução de conflitos ESTRATÉGIAS CONCEITOS Confrontação Tentativa de resolver problemas por meio de uma abordagem frontal entre as partes envol- vidas. Compromisso Método clássico de resolução que consiste em estabelecer um acordo por meio de um ter- ceiro que conduz uma negociação. Abrandamento Enfatiza os interesses comuns, procurando minimizar as diferenças entre os membros con- flitantes. Competição Utilizada quando uma das partes busca o que deseja às custas dos demais. Colaboração Todos os envolvidos colocam de lado suas metas originais e trabalham em conjunto para estabelecer uma meta comum. Negociação Cada uma das partes renuncia a alguma coisa, conciliando as diferenças entre as partes envolvidas. Evitar o conflito O gerente procura constituir equipes mais homogêneas, com maior afinidade de pontos de vista, metas, objetivos, valores etc.; controla as relações interpessoais, separando os indiví- duos agressivos, evitando assuntos polêmicos em reuniões, enfim, manipulando as condi- ções ambientais, físicas e emocionais. Reprimir o conflito O gerente mantém as diferenças individuais encobertas sob o ideal do trabalho em equipe, não propicia um ambiente em que as divergências possam ser expressadas, ao contrário, cria um clima de repressão, utilizando recompensas para aqueles que aceitam as normas vigentes e punições para aqueles que tentam quebrar a harmonia da equipe. Aguçar as divergên- cias O gerente reconhece e aceita as divergências, procura criar situações para expressar o con- flito abertamente, de maneira que possa ser visto e entendido como tal pela equipe. Transformar as dife- renças em resolução de problemas As divergências individuais ou grupais devem ser compreendidas como enriquecedoras ao invés de se estabelecer um clima de competição do tipo certo-errado; assim, as situações conflitivas passarão a ser problemas que podem ser resolvidos de maneira criativa e coo- perativa. Retirada Demorar para responder à uma questão, esquecer-se do problema, deixar que os proble- mas se resolvam com o tempo e não ter compromisso com as questões problemáticas, são algumas atitudes dos gerentes que utilizam essa técnica quando querem simplesmente evitar o conflito ao invés de enfrentá-lo. Mudanças compor- tamentais Pretende-se atingir as causas do conflito procurando solucioná-lo definitivamente na pers- pectiva de mudar atitudes e comportamentos pessoais. Mudanças organiza- cionais Geralmente os conflitos internos são resolvidos por meio de mudanças estruturais, como: criação de novos cargos, transferência de funcionários, descentralização da decisão, delega- ção de autoridade, entre outras. Peso da autoridade A última palavra decisória é dada por uma autoridade competente. Fonte: Spagnol, 2006, p. 54-55. Os conflitos na organização 57 Outra maneira de classificar os conflitos, de acordo com Robbins (2003) é separá-los de acordo com sua origem: os conflitos de relacio- namentos são aqueles que surgem a partir das relações, ou seja, do modo como os indivíduos e grupos se relacionam. Nesse tipo de confli- to, a diversidade etária, étnica, sexual, de orientação política, religiosa ou sexual, assim como os valores culturais podem ser fatores originá- rios. À medida que as organizações buscam aumentar a diversidade entre o grupo de colaboradores, essas situações podem se tornar cada vez mais presentes nos grupos de trabalho e precisam ser acompanha- das frequentemente pela gestão. Há ainda os conflitos de relacionamentosinterpessoais, que são os mais complexos de serem gerenciados, uma vez que envolvem valores enraizados no comportamento das pessoas. Caso esse tipo de conflito ocorra de modo velado, pode ser extremamente prejudicial, tanto para os resultados da empresa quanto para o clima organizacional e para a convivência entre os colaboradores, uma vez que as pessoas despen- dem de tempo em conversas, reclamações, críticas e fofocas quando esse mesmo período e esforços poderiam ser utilizados na busca pelo atingimento dos resultados da organização e das metas individuais. A segunda classificação dos conflitos, ainda de acordo com o autor, são os conflitos de tarefa. Eles estão relacionados às atividades coti- dianas de trabalho, às metas e aos objetivos, ou seja, ao modo como o trabalho é realizado. Um exemplo dessa situação se dá quando os ob- jetivos de uma área, para serem atingidos, acabam interferindo direta, ou indiretamente, nos objetivos de outra área. Vejamos: a busca pelo crescimento de vendas e do faturamento pela área comercial pode re- sultar no aumento da inadimplência, prejudicando as metas da área financeira. Para lidar com esse tipo de conflito, as metas e os objetivos das áreas funcionais devem estar claros para todos na empresa. Assim fica mais simples entender os impactos de cada área nos resultados das demais e evita-se possíveis conflitos de tarefas. Por último, o terceiro tipo de conflito apontado é o conflito de pro- cessos, que surge de acordo com a maneira como o trabalho é execu- tado. Alguns processos são mais rápidos e urgentes, como o ato de a equipe comercial prestar informações para um cliente. Ainda há pro- cessos mais demorados, como uma liberação de crédito pela área fi- nanceira, que precisa buscar informações externas sobre o cliente para ter segurança de qual opção é viável para ambas as partes. Portanto, 58 Negociação e gestão de conflitos como há uma diferença de ritmo entre as áreas, podem existir conflitos que prejudiquem o cotidiano da empresa e, por esse motivo, a integra- ção e a clareza sobre os processos da empresa é um modo de evitar que esse tipo de conflito ocorra. 3.3 Causas, elementos e impactos Vídeo Diversas são as causas que podem originar conflitos no ambiente corporativo. Dificuldades de comunicação, em especial a clareza do que está sendo comunicado, e o entendimento correto da mensagem comunicada estão na base de grande parte dos conflitos organizacio- nais. A falta de clareza sobre a estrutura organizacional, as atividades, as responsabilidades, as competências e as alçadas de cada uma das áreas funcionais e dos cargos podem gerar conflitos na interação entre as diversas áreas durante os processos cotidianos da empresa. A disputa pelo poder, o status e os cargos de destaque também po- dem gerar conflitos; especialmente entre os gestores e os líderes caso esses não estejam bem preparados e o organograma e plano de carrei- ra não sejam claros para todos. Apesar dessas diversas origens, para Robbins (2004), a maioria dos conflitos que ocorrem dentro da empresa são provocados pelos rela- cionamentos interpessoais. Quanto maior e mais complexa é a organi- zação, mais diversas e específicas são as atividades realizadas por cada um dos membros da equipe e cada uma das áreas. Tanto as questões estruturais quanto as diferenças pessoais podem ser mais facilmen- te resolvidas quando há uma boa comunicação entre as partes e um bom relacionamento. De modo contrário, mesmo pequenos conflitos podem ser amplificados caso não exista um bom relacionamento, re- sultando em influências negativas sobre as pessoas, que entrarão em determinada situação predispostas a divergir da opinião dos outros participantes. Chiavenato (2020) destaca que, com a implementação de novas tecnologias, que facilitam a interligação e a comunicação, somadas às mudanças sociais e culturais pelas quais o mundo tem passado, cresce a diversificação do capital humano da organização, o que permite que novos conflitos apareçam e sejam tanto funcionais quanto disfuncio- nais. Na visão do autor, os conflitos são situações inevitáveis no am- Os conflitos na organização 59 biente das organizações, mas, caso não exista um bom relacionamento interpessoal, esses conflitos podem evoluir de um simples desacordo para situações em que ocorram interferências diretas ou indiretas no trabalho dos colaboradores, com o objetivo de tentar atrapalhar ou im- pedir totalmente outros colaboradores de realizarem suas atividades e atingirem seus objetivos. Essas interferências podem ocorrer tanto en- tre indivíduos quanto entre grupos ou áreas funcionais, estendendo-se a empresas de uma mesma cadeia de valor. Já Vecchio (2008) acredita que a comunicação é a maior responsável pela maneira como os conflitos surgem e são gerenciados nas empre- sas. A má comunicação é, segundo o autor, responsável pelos conflitos que ocorrem nas situações cotidianas, em especial nas organizações de grande porte e nas quais diferentes culturas, de cidades, estados e até mesmo países diferentes convivem. O autor também destaca que nas empresas com estruturas hierárquicas complexas a comunicação é ainda mais complicada devido aos caminhos preestabelecidos e aos formatos específicos existentes, que, muitas vezes, não conseguem dar conta da diversidade de informações que precisam ser comunicadas. Ainda, essas situações podem ser acentuadas pelo uso de termos, con- ceitos e siglas que nem sempre são de conhecimento de todos os en- volvidos, gerando interpretações equivocadas e distorcidas que podem resultar em desalinhamentos e conflitos. No processo de comunicação, é importante termos em mente que o emissor da mensagem nem sempre leva em consideração o fato de que o receptor pode não ter todas as informações necessárias para de- codificar a mensagem. É possível que ocorram ruídos na comunicação, interferindo na forma como o receptor entende aquilo que foi informa- do. Para Vecchio (2008), o processo de comunicação dificilmente ocorre de modo perfeito no cotidiano das organizações. Desse modo, a cada novo processo de comunicação podem surgir novas oportunidades de interpretações erradas ou incompletas, entendimentos distorcidos, de- cisões incorretas ou percepções ambíguas que também resultam em situações conflituosas ou de hostilidade. No entanto, Chiavenato (2020) afirma que existem diversas condi- ções que podem criar um ambiente passível de conflitos. Ao analisar essas condições, o autor as organiza em três grandes tipos: a diferen- ciação das atividades e responsabilidades de cada cargo; o comparti- 60 Negociação e gestão de conflitos lhamento de recursos entre as áreas e os indivíduos; e as atividades interdependentes. O primeiro tipo de condição geradora de conflitos está relaciona- do à diferenciação das atividades e responsabilidades de cada cargo e de cada área funcional, especialmente em empresas maiores e mais complexas, nas quais as funções passam a ser cada vez mais especia- lizadas. A própria formação, os conhecimentos e as competências ne- cessárias para atuar em cada área já criam condições de diferenciação entre as pessoas. Profissionais da área financeira, por exemplo, têm conhecimentos e formações ligados às ciências exatas e, por isso, desenvolvem compe- tências e encaram as atividades de modo mais analítico, levando me- nos em consideração os aspectos relacionais e comportamentais das interações. Por outro lado, profissionais da área comercial e da área de recursos humanos estão mais ligados à área de humanas e precisam desenvolver competências relacionadas à comunicação e à relação in- terpessoal, dando mais importância aos aspectos comportamentais. Essa diferença de formação e de comportamento pode ensejar situa- ções de conflitos em determinados momentos. O segundo tipo de condição geradora de conflitos é o compartilha- mento de recursos entre as áreas e os indivíduos. Em geral, nas orga- nizações, os recursos são escassosou limitados pelo orçamento e pela busca de resultados financeiros. A escassez de recursos também pode ser fonte de conflitos, uma vez que as diversas áreas precisam disputar a utilização dos recursos, por exemplo: o orçamento para investimen- tos, ampliação de espaços físicos ou novos equipamentos. Assim, os re- cursos, sejam eles financeiros, de espaço, de tempo ou de mão de obra disponível, precisam ser divididos entres as diversas áreas funcionais da empresa. Se uma das áreas utilizar deliberadamente os recursos em detrimento de outra área, podem surgir conflitos entre os grupos devido à falta de divisão igualitária no uso desses recursos disponíveis. O terceiro tipo de condição, segundo Chiavenato (2020), são as ati- vidades interdependentes. Os processos e as atividades que ocorrem dentro de uma empresa não são totalmente independentes, ou seja, as atividades desenvolvidas por um indivíduo se relacionam a outras exe- cutadas por indivíduos tanto da mesma área funcional quanto de outras áreas. É comum que um processo que começa em uma área continue a Os conflitos na organização 61 ser realizado em outras, mas, para que isso ocorra da melhor maneira, é necessário receber as informações corretas, claras e completas. Vamos observar o exemplo a seguir para compreender como a co- municação é importante para o resultado e para evitar conflitos entre áreas e indivíduos. Pense em um atendimento ao cliente realizado por um profissional da área de vendas. O profissional responsável precisa encaminhar esse cliente, com todas as informações referentes ao processo de compra, para a área financeira, a fim de que seja feita a libe- ração do crédito e a emissão da nota fiscal. Por sua vez, a área financeira precisa enca- minhar esse mesmo cliente com a documentação necessária e as informações corretas para a área de entrega dos produtos comprados. Se uma das áreas não executar corre- tamente sua parte no processo, as demais áreas não conseguirão realizar corretamente o restante do processo de atendimento, o que irá resultar na insatisfação do cliente e, possivelmente, em um conflito entre essas áreas da empresa. De acordo com Chiavenato (2020), a maioria desses desalinhamen- tos nos processos ocorre devido a erros nos processos, considerados falhas processuais naturais. Porém, em determinadas condições, indi- víduos e até mesmo áreas funcionais podem realizar seus processos de maneira incompleta ou inadequada com o objetivo de prejudicar os resultados de outras áreas e indivíduos. O autor ainda aponta que, além desses três tipos de condições de geração de conflitos e divergências nas organizações, é preciso consi- derar que, se as expectativas a respeito das atividades, dos objetivos e dos resultados esperados de cada cargo ou indivíduo não estiverem claras, as pessoas podem concluir que o trabalho não tem significado no contexto geral da empresa. Essa ambiguidade do papel a ser desen- volvido também pode acarretar conflitos na interação dos indivíduos. Já Hitt, Miller e Colella (2011) apontam outros fatores que podem ge- rar condições para os conflitos corporativos. A própria disposição física do ambiente de trabalho pode ser um facilitador de conflitos, especial- mente nas empresas em que o espaço físico é limitado ou não pro- porcionam a privacidade e o conforto necessários aos colaboradores. Algumas funções, como as relacionadas ao atendimento de clientes, podem gerar a necessidade de o colaborador se expressar de modo mais claro, com a fala mais alta, ainda mais em casos nos quais o aten- dimento é telefônico. 62 Negociação e gestão de conflitos Há também áreas que dependem de ambientes mais silenciosos para que o indivíduo realize seu trabalho com atenção, como a área contábil. Se o ambiente físico não garante essas necessidades, aconte- ce o que os autores chamam de interdependência estressante, ou seja, o trabalho de um indivíduo interfere no trabalho de outro gerando situa- ções de estresse e conflito. Ainda, essas situações podem ser agrava- das caso existam outras características que interfiram na relação, como as diferenças culturais e de valores. Por exemplo, um indivíduo que se expressa utilizando palavrões pode incomodar e criar animosidade caso trabalhe ao lado de uma pessoa que, devido aos valores culturais ou religiosos, não aceita esse tipo de comunicação. Além dos fatores organizacionais e de comunicação, Hitt, Miller e Colella (2011) apontam que características individuais podem ser in- corporadas aos fatores resultantes de conflitos. Desse modo, leva-se em consideração que as empresas são formadas por pessoas diferen- tes, por exemplo, algumas apresentam personalidades mais calmas e cooperativas, enquanto outras apresentam personalidades mais com- petitivas, com características de impaciência e de dinamismo. Os indiví- duos com traços competitivos tendem a enxergar as relações entre as demais pessoas da empresa como uma competição, em uma relação ganha-perde, em que há vitoriosos e perdedores. Em vista disso, a diferença comportamental acaba criando inimiza- des, além de piorar a comunicação e colocar os colaboradores da orga- nização em constante estado de alerta. Em suma, são essas diferenças entre os traços de personalidade que se tornam facilitadores de situa- ções de constante conflito. Outro aspecto ligado às características individuais está relaciona- do às experiências anteriores de interação entre as pessoas. Se, em situações anteriores, ocorreram conflitos entre determinadas pessoas, grupos ou áreas, é comum que as novas interações se iniciem com comportamentos receosos, com tendência à repetição dos conflitos já registrados, particularmente se algum dos lados se sentiu ameaçado ou prejudicado no passado. Com isso, esses indivíduos adotam posi- ções mais rígidas e se comunicam de modo agressivo, agravando ainda mais o conflito, mesmo que o motivo esteja mais ligado à tarefa ou aos processos do que à pessoa. Em situações comportamentais como essa, é comum que as pessoas repitam os comportamentos e as posturas que geraram os conflitos O filme Zootopia mostra uma sociedade formada exclusivamente por animais. Reflete-se o cotidiano da sociedade humana por meio de diferentes espécies de animais que representam características diferentes de comportamento. No recorte de cena aqui sugerido, a personagem principal – uma coelhinha acelerada e estressa- da – é atendida por um funcionário do serviço pú- blico, que é representado por um bicho-preguiça. A diferença entre o ritmo de cada indivíduo gera uma situação de conflito que elucida, de maneira acurada, situações que podem ocorrer dentro de grupos de trabalho em uma organização. Disponível em: https://www. youtube.com/watch?v=i8a7ctz- QbI. Acesso em: 18 nov. 2020. Vídeo https://www.youtube.com/watch?v=i8a7ctz-QbI https://www.youtube.com/watch?v=i8a7ctz-QbI https://www.youtube.com/watch?v=i8a7ctz-QbI Os conflitos na organização 63 registrados no passado por não sentir confiança nos outros membros do grupo ou no modo como a liderança direta lida com as situações conflituosas. Ao criar essa expectativa negativa amplificam-se as pos- sibilidades de o conflito ocorrer novamente, mesmo que em contextos diferentes. Ao sentir que o outro lado já inicia a discussão com uma postura de embate, os demais participantes tendem a também adotar posturas de defesa, ou agressivas, criando um círculo vicioso no qual as experiên- cias de conflitos passados geram novas experiências que fortalecerão ainda mais os comportamentos antagônicos, facilitando uma relação cada vez mais negativa entre esses colaboradores. 3.4 Níveis e estágios de conflito Vídeo Conforme estudamos, os conflitos nas organizações surgem a partir de diversas origens e se apresentam de modos diferentes no cotidiano das empresas. Para lidar da melhor forma com essas situações, é pre- ciso compreender os diversos níveis e estágios identificados durante o desenvolvimentoda situação conflituosa. Identificar adequadamente a fase na qual se encontra o conflito é fundamental para definir quais são as melhores estratégias que irão auxiliar na situação. Diversos autores desenvolveram estudos sobre como o conflito evolui nas organizações. Para Robbins (2005), o primeiro nível ou está- gio que pode ser identificado é o conflito latente. Nesse momento, o conflito ainda não é declarado entre as partes. Em algumas situações, nem mesmo os indivíduos e grupos têm a consciência de que existe uma situação que poderá gerar um conflito no futuro. Por exemplo, um dos lados relata situações, sentimentos de desconforto ou de de- salinhamento que ainda não chegaram a gerar conflitos reais, mas que causam descontentamentos e, ao se acumularem, poderão se tornar uma situação real de conflito. Se tais relatos forem identificados pela liderança no momento correto e forem devidamente tratados, os con- flitos latentes podem ser extintos antes de se intensificarem. Robbins (2005) ainda considera que podem existir diversas con- dições precedentes que aumentam e intensificam a possibilidade de conflitos a partir da rivalidade entre as pessoas. A esse nível do processo ele também nomeia o conflito como de oposição potencial 64 Negociação e gestão de conflitos ou incompatibilidade. Destaca também diversos aspectos que podem aumentar a possibilidade do conflito ocorrer, tais como: falhas na co- municação; estrutura da organização e dos grupos de trabalho; tama- nho dos grupos de trabalho; especialização dos cargos; experiências; estilo de liderança. Também leva-se em consideração as variáveis pessoais de cada um dos indivíduos, como: valores pessoais, cultura, comportamento e personalidade. Já os autores Martinelli e Almeida (2006) destacam as diferenças de personalidade, a interligação das atividades e tarefas, o uso de recursos compartilhados e as diferenças na disponibilidade de informação como algumas das principais cau- sas do conflito latente. O segundo nível ou estágio apontado por Robbins (2005) é o con- flito percebido, momento no qual os indivíduos adquirem consciên- cia das divergências, mas ainda não direcionam ações ou, ainda, não ocorreram situações nas quais seja necessário um manifesto. O autor chama esse estágio no qual as condições antecedentes são potenciali- zadas de cognição e personalização. Nessas condições é comum que o relacionamento entre as partes seja cada vez mais marcado por mo- mentos de estresse e que as falhas de comunicação se intensifiquem. Se essas ocorrências não forem administradas de modo correto, a ten- são aumenta até o momento em que um conflito ocorre, mesmo que por motivos considerados pouco importantes. Ainda nesse segundo nível ou estágio, ocorre uma evolução para o conflito sentido, em que ambos os lados passam a agir, muitas vezes deliberadamente, para intensificar os momentos e as razões de pos- síveis conflitos. Em casos extremos, um dos lados pode ter atitudes e ações que prejudiquem conscientemente o outro lado, forçando a si- tuação de conflito. Robbins (2005) nomeia esse estágio como intenções, pois é nele que cada um dos indivíduos envolvidos analisam a situação e tomam decisões sobre que atitude tomarão em relação à desavença. O autor lista a seguir cinco tipos dessas intenções. Acomodar-se Um dos lados se dispõe a renunciar seus interesses e busca apaziguar o conflito. O autor a considera como uma opção “perde-perde”, pois não resolve o problema e pode gerar novos conflitos futuramente. Os conflitos na organização 65 Colaborar É uma solução “ganha-ganha”, pois a cooperação entre os dois lados traz benefícios mútuos, evitando que o conflito ressurja, já que as divergências são resolvidas. Competir Apenas uma das partes, normalmente a que detém mais poder ou habilidade, alcança o que deseja em detrimento das necessidades do outro. O autor considera que essa é uma solução “ganha-perde”, pois apenas um dos lados atinge seus objetivos. Evitar Um lado, ou ambos, tenta suprimir ou abandonar o conflito antes mesmo de discutir as razões e impactos. Por isso, o autor considera essa uma solução “perde-perde”, já que nenhum dos lados alcança seus objetivos e ambos saem insatisfeitos. Conceder Ambos os lados renunciam parte de seus interesses no desejo genuíno de cooperar para que todos alcancem um acordo de benefício mútuo. O autor salienta que, apesar de o acordo garantir que cada um dos lados atinja pelo menos parte de seus objetivos, essa não é uma solução positiva, pois os dois lados renunciam parte de seus objetivos iniciais. Fonte: Elaborada pelo autor com base em Robbins (2005). A evolução dessa situação “sentida” leva ao estágio do conflito ma- nifesto, em que situações de conflito aberto já ocorreram e os resulta- dos atingem ambas as partes. Nesse contexto, as divergências de ideias são percebidas por terceiros e pela liderança, trazendo impactos reais sobre o trabalho e sobre o resultado dos indivíduos, dos grupos ou das áreas. Esse tipo de situação pode evoluir para animosidades e até mesmo para agressões verbais e, em última instância, físicas. Robbins (2005) chama esse estágio de comportamento e afirma que o conflito que chega a esse estágio interfere também sobre as atividades e sobre os processos, prejudicando os resultados e objetivos da organização. 66 Negociação e gestão de conflitos Por fim, após a deflagração do conflito e seu devido tratamento, acontece o estágio que o autor chama de consequências, ou seja, os impactos que o conflito traz para as relações individuais e do grupo, as- sim como as mudanças de atividades e processos que podem ocorrer a partir dos resultados do conflito. A figura a seguir resume os diversos estágios do conflito. Figura 1 O processo de conflito Estágio I Oposição potencial ou incompatibilidade Condições antecedentes: • comunicação; • estrutura; • variáveis pessoais. Estágio III Intenções Intenções para administração do conflito: • acomodar; • colaborar; • competir; • conceder; • evitar. Estágio IV Comportamento Conflito aberto: • comportamento e reação das partes envolvidas. Estágio II Cognição e personalização Conflito percebido Conflito sentido Estágio V Consequências Melhora o desempenho do grupo Piora o desempenho do grupo Fonte: Robbins, 2005, p. 328. Dentre as possíveis consequências do conflito, Chiavenato (2020) aponta como positiva a possibilidade de o conflito despertar novos sentimentos de aceitação da mudança e estimular as energias. As si- tuações conflituosas também podem fortalecer os laços de relaciona- mento e os sentimentos de identidade do grupo. Outro fator positivo destacado pelo autor é o de que toda a situação conflituosa chama a atenção para os problemas ao mesmo tempo em que traz possíveis soluções a situações anteriormente não identificadas. Como fatores negativos, o autor destaca as possíveis consequên- cias disfuncionais e a possibilidade de o conflito paralisar as atividades de trabalho, prejudicando de modo direto ou indireto os resultados da empresa. É possível também que sentimentos como frustração e hostilidade tragam ao ambiente um clima organizacional estressante. Além disso, o conflito “desvia” energias que deveriam estar direciona- das para a busca dos objetivos empresariais. Por fim, é notável que as divergências de ideias e posturas prejudicam o relacionamento tanto entre as partes envolvidas quanto entre o grupo como um todo. Os conflitos na organização 67 CONSIDERAÇÕES FINAIS Os conflitos são inerentes aos grupos sociais, pois surgem das diferen- ças entre as crenças, os valores e as ideias defendidos por cada um dos indivíduos do grupo. Nos grupos profissionais e no ambiente das organi- zações, o conflito está presente no cotidiano das relações e das atividades desenvolvidas. No entanto, nem sempre o conflito é negativo. Se bem administrado, pode trazer consequências benéficas tanto para os indivíduos quantopara o grupo, uma vez que permite que o grupo evolua em busca dos mesmos objetivos. Mas, para que as consequências positivas sejam sentidas, é preciso que as lideranças conheçam e compreendam cada uma das etapas e ca- racterísticas dos conflitos para que seja possível conduzir adequadamen- te a situação e tirar dela os melhores resultados tanto para a organização quando para seu quadro de colaboradores. ATIVIDADES 1. Para Robbins (2004), os conflitos podem ser funcionais ou disfuncionais. Explique cada um desses tipos de conflito. 2. Segundo Marquis e Huston (1999), os conflitos organizacionais podem ser classificados em três diferentes categorias. Cite e explique quais são essas categorias. 3. Para Chiavenato (2020), existem três tipos de condições que podem criar um ambiente passível de conflitos nas organizações. Explique quais são essas condições. REFERÊNCIAS CECÍLIO L. C. O. É possível trabalhar o conflito como matéria prima da gestão em saúde? Cad. saúde pública, v. 21, n. 2, p. 508-16, 2005. CHIAVENATO, I. Recursos Humanos: o capital humano das organizações. São Paulo: Atlas, 2020. DUBRIN, A. J. Fundamentos do Comportamento Organizacional. São Paulo: Pioneira, 2006. GALPIN, T. HIPIRT, R.; EVANS, B. The connected entrepreise: beyonf Division of labor. Journal of Business Strategy, v. 28, n. 2, p. 38-47, 2007. GRIFFIN, R. W.; MOORHEAD, G. Fundamentos do comportamento organizacional. Trad. de Fernando Moreira Leal e André Siqueira Ferreira. São Paulo: Ática, 2006. HITT, M. A.; MILLER, C. C.; COLELLA, A. Comportamento organizacional: uma abordagem estratégica. Trad. de Teresa Cristina Padilha de Souza. Rio de Janeiro: LTC, 2011. 68 Negociação e gestão de conflitos HOUAISS, A.; VILLAR, M. S. Dicionário Houaiss de Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009. MARQUIS, B. L.; HUSTON, C. J. Administração e liderança em enfermagem: teoria e aplicação. Trad. de Regina Machado Garcez e Eduardo Schaan. 2. ed. Porto Alegre: Artes Médicas do Sul, 1999. MOSCOVICI F. Desenvolvimento interpessoal: treinamento em grupo. 17. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2008. MOSES, A.; AHLSTRÖM, P. Problems in cross-functional sourcing decision processes. Journal of Purchasing & Supply Management, v. 14, p. 87-99, 2008. ROBBINS, S. P. A verdade sobre gerenciar as pessoas. Trad. de Celso Roberto Paschoal. São Paulo: Pearson Education, 2003. ROBBINS, S. P. Comportamento organizacional. 11. ed. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2005. ROBBINS, S. P. Fundamentos do comportamento organizacional. São Paulo: Prentice Hall, 2004. SPAGNOL, C. A. A trama de conflitos vivenciada pela equipe de enfermagem no contexto da instituição hospitalar: como explicitar seus “nós”? 2006. Tese (Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva) – Faculdade de Ciências Médicas, Universidade Estadual de Campinas. VECCHIO, R. P. Comportamento Organizacional: conceitos básicos. São Paulo: Cengage Learning, 2008. WAGNER III, J. A.; HOLLENBECK, J. R. Comportamento organizacional: criando vantagem competitiva. São Paulo: Saraiva, 2009. A mediação de conflitos 69 4 A mediação de conflitos Conflitos acontecem de maneira espontânea nos agrupamen- tos humanos, sejam eles familiares, comunitários, sociais ou pro- fissionais. Em razão disso, desde o início da civilização humana ocorre a busca pela melhor maneira de lidar com os conflitos. Com o crescimento das empresas e organizações e o aumento da convivência entre as diversas pessoas que as compõem, cada qual com sua cultura, suas crenças, suas ideias e seus valores, os conflitos pessoais e organizacionais têm ganhado cada vez mais importância no cotidiano empresarial e representam parte im- portante da atuação dos gestores e líderes na administração das organizações. Devido a essas situações de conflito, diversos, modelos, fer- ramentas e estratégias, para lidar com esses cenários, foram de- senvolvidos pelos administradores nas mais variadas áreas das organizações e em diferentes formatos de empresas. O estudo das estratégias de gestão dos conflitos é um fator importante no desenvolvimento de lideranças, uma vez que é fundamental que os líderes, além de conhecer a teoria, desenvolvam as competências necessárias para analisar o contexto no qual os conflitos ocorrem e escolher a estratégia mais adequada para mediar positivamente a situação, resultando em aprendizados que permitam o desenvol- vimento da organização. 4.1 Mediação de conflitos Vídeo Em grupos, sejam eles sociais ou profissionais, os conflitos e as dis- putas pelo poder são ocorrências naturais. Fogaça (2010) salienta que essas situações não são, por si só, danosas ao grupo, uma vez que são parte inerente das relações e das interações entre seus membros. As 70 Negociação e gestão de conflitos consequências do conflito serão positivas ou negativas de acordo com o formato em que irá ocorrer o processo de mediação. Segundo Lascoux (2006), a mediação de conflitos pode ser com- preendida como uma técnica que, utilizando o processo de comuni- cação, a linguagem e as ferramentas de negociação, permite interferir, modificar ou recriar as relações interpessoais que ocorrem dentro dos grupos. Para que ela ocorra, a figura do mediador é indispensável; ele irá incentivar a comunicação, atuando de maneira imparcial na busca da melhor solução possível. Fogaça (2010) ainda destaca que, nos gru- pos profissionais, é comum que os conflitos estejam ligados à relação de poder, ao controle e ao status. Assim, o líder, seja pela posição hie- rárquica ou pela influência que exerce sobre o grupo, assume o papel de mediador dos processos de conflito. O início do processo de mediação de um conflito organizacional pode ocorrer por iniciativa do próprio líder, ao perceber que existem pontos de tensão no cotidiano do trabalho, nas relações interpessoais ou, ainda, em razão da solicitação de um ou mais colaboradores, quan- do estes sentem que não conseguem lidar com alguma situação de di- vergência. Se essa mediação for feita de modo construtivo, o resultado pode ser a evolução do grupo, o fortalecimento das relações, a inova- ção e, consequentemente, o aumento da produtividade. Segundo Nascimento e Simões (2011), identificar, analisar, acompa- nhar e mediar os conflitos que surgem nas organizações são pontos fundamentais da atuação da gestão. Os autores destacam que os líde- res precisam desenvolver as competências relacionadas à mediação de conflito e o conhecimento sobre como ocorrem e se desenvolvem tais situações nos grupos profissionais, além das ferramentas e técnicas que podem ser utilizadas em sua mediação. Os conflitos corporativos podem ter origens internas ou externas. Independentemente da origem, os indivíduos envolvidos no processo influenciam e são influenciados por ele, pois as posturas, as ações e as atitudes que tomam em relação à questão geradora do conflito e aos demais indivíduos envolvidos interferem de modo indireto e contínuo no desenvolvimento da situação conflituosa. Nascimento e Simões (2011) apontam que nas organizações a maioria dos conflitos são oriundos da percepção, por parte de alguns indivíduos, de que as relações que se estabelecem em determinados grupos tem A mediação de conflitos 71 base na desigualdade, no uso do poder e da influência, na dependên- cia de alguns indivíduos em relação aos outros e nas formas utilizadas pela empresa para exercer o controle do trabalho, bem como na diver- gência de interesses entre os diversos grupos e pessoas. No entanto, não é sempre que a expressão do conflito deixa clara essas razões mais profundas, sendo o fato que causa o momento de ruptura nas relações superficial ou pouco relacionado às reais razões que o geraram. Os autores também mencionam que existem determinadas condi- ções antecedentes 1 que podem levar ao conflito e intensificá-lo. Den- tre elas, citam as diferenças culturais e de estilo como algumas das mais importantes, pois pessoas diferentes e com diferentespontos de vista tendem a ter visões divergentes sobre a forma como lidar com as questões e com os problemas que surgem no cotidiano da empresa. As diferentes percepções e bagagens de vivências profissionais e técnicas se somam às dificuldades de comunicação, que podem estar ligadas às diferentes origens culturais, etnias ou idade. Para Sales et al. (2007), a melhor forma de gerenciar uma situação de conflito é por meio da negociação. Quando essas situações ocor- rem apenas entre dois lados, sem uma terceira parte como mediadora, nem sempre a melhor solução é encontrada, pois negociar envolve, em muitos casos, que um dos lados, ou ambos, renuncie as suas posições ou seus objetivos. Assim, o papel do mediador é fundamental para que o conflito gere resultados positivos para a organização, para o grupo e para os indivíduos. Carvalhal et al. (2014) defendem ideia semelhante e consideram que os principais gatilhos para que ocorram conflitos nas organizações são as diferenças comportamentais e as dificuldades de comunicação. Para os autores, o líder deve ter conhecimento sobre como administrar e, principalmente, sobre como mediar conflitos para assumir seu papel, com o objetivo de melhorar os relacionamentos entre os diversos indi- víduos e as áreas das empresas. A competência de administrar conflitos também é destacada por Chiavenato (2014) como uma das principais habilidades de um líder. O autor comenta que, após eclodir, o conflito pode crescer de maneira acelerada e sem controle, desagregando o grupo e tirando o foco dos objetivos centrais da empresa, gerando, ainda, estresse e instabilidade no ambiente social. Caso não seja bem administrada, a situação pode Situações que podem vir se acumulando por muito tempo ou, ainda, questões mais agudas e pontuais que acontecem ime- diatamente antes da negociação. 1 72 Negociação e gestão de conflitos fugir do controle do líder e acarretar resultados devastadores para o grupo. Em razão disso, é papel do líder identificar e gerenciar o conflito, agindo como mediador das negociações e das comunicações entre os grupos, com o objetivo de finalizar o processo e tirar dele os aprendi- zados, as melhorias e os pontos positivos para o futuro das relações. Mais do que simplesmente solucionar o conflito, ainda na visão do autor, o papel do líder é transformar a situação conflituosa em uma oportunidade de desenvolvimento pessoal e profissional para os indi- víduos. Há, também, a possibilidade de utilizar, como gancho de me- lhoria dos processos, ações, tarefas e relacionamentos entre os demais grupos; mas o conhecimento sobre mediação e conflitos que o líder necessita vai além de apenas conhecer as técnicas de negociação e ser um bom comunicador. Mediar um conflito exige competências com- portamentais, como bom relacionamento interpessoal, boa comunica- ção e empatia e conhecimentos sobre o comportamento humano, a psicologia de grupos e as formas como os conflitos se desenvolvem. Como esse conhecimento prévio, é possível identificar as reais causas geradores da situação e conduzir a mediação, respeitando as posições e as crenças de ambos os lados, mantendo sempre claro os objetivos organizacionais. Ricci, Lima e Begnami (2017) destacam que, ao ser considerado parte inerente das relações humanas, o conflito pode ser gerenciado e controlado, mas não extinto totalmente. Os autores fizeram uma ex- tensa pesquisa bibliográfica sobre a mediação de conflitos no ambien- te organizacional e resumiram os principais conceitos de acordo com diversos autores da área. Quadro 1 Gestão de conflitos Gestão de conflitos segundo os autores Autores Visão de Gestão de Conflitos Marques, 2014. Defende os mesmos cinco tipos de gestão também apontados por Dimas e Lourenço (2011). Prudente, 2012. A gestão do conflito é eficaz quando há intervenção do Estado. Dimas e Lourenço, 2011. Existem cinco tipos de Gestão de Conflitos: evitamento, intermediação e cooperação, competição, acomodação e compromisso. Nascimento e Simões, 2011. A sociedade regula os conflitos quando não há intervenção do Estado. Martinelli e Almeida, 2009. Assim como defendido por Sales et al. (2007), uma negociação é para o autor a melhor forma de gerir um conflito. Sales et al., 2007. A melhor forma de gerir conflitos é por meio da negociação. Fonte: Ricci; Lima; Begnami, 2017, p. 32-33. A mediação de conflitos 73 Com base no quadro elaborado por Ricci, Lima e Begnami (2017), é possível notar que os diversos autores abordam a mediação de confli- tos de maneira alinhada e complementar. Os autores também desta- cam que não há um modo certo ou errado de lidar com os conflitos. O ambiente, o momento, o grupo, as relações de poder, as diferenças, a cultura dominante e o espaço nos quais ocorre o conflito influenciam diretamente no desenvolvimento e na forma como deve ser mediado, assim como os próprios participantes mudam sua postura e suas po- sições no decorrer do processo. O mediador deve compreender como todas essas variáveis se relacionam para definir a melhor estratégia a ser aplicada no processo de resolução. Para atuar como mediador de conflitos de maneira efetiva no coti- diano da gestão, o líder deve ter conhecimento a respeito do momento certo para estimular ou solucionar um conflito. Griffin e Gregory (2015) acreditam que um ambiente profissional em que não haja conflitos é tão prejudicial para o futuro da empresa quanto um ambiente em que o conflito aconteça descontroladamente e sem gestão. A afirmação dos autores pode parecer incorreta, mas eles explicam que, em um gru- po em que nenhum tipo de conflito ocorre, o resultado deixará de ser inovador e ficará estagnado. É comum que essa situação ocorra em empresas em que o principal líder é muito centralizador e autocrático, o que comumente ocorre nas empresas familiares. Para que seja possível se adaptar às mudanças que ocorrem no mercado e na concorrência, a empresa precisa, constantemente, me- lhorar seus processos e desenvolver suas formas de atuação. Para isso, um nível controlado e positivo de conflito é importante, pois faz com que tanto os indivíduos quanto os grupos, as áreas funcionais e a empresa como um todo se desenvolvam. A capacidade de mediação e gestão desses conflitos por parte do líder garantirá que não ocorram excessos de embates (estes podem prejudicar a empresa) ou, ainda, que ausência deles a paralise. Diversos filmes abordam a questão dos conflitos nas organizações, bem como as maneiras de mediação. Com base na história real da criação do Facebook, o filme A Rede Social (The Social Network) mostra como diversos conflitos entre os fundadores da empresa moldaram a história da organização e dos indivíduos envolvi- dos. O roteiro nos ajuda a compreender como diversos valores, ideais e diversas crenças podem influenciar positiva e ne- gativamente, se a gestão de determinado conflito não for feita da melhor maneira. Direção: David Finch. Estados Unidos: Columbia Pictures, 2010. Filme 4.2 Conceitos, aplicações e modelos Vídeo Diversos modelos de mediação de conflitos foram observados ou propostos por diferentes autores. Segundo González-Capitel (2001), apesar de apresentar diferentes quantidades de fases e diferentes or- denações, a maioria dos modelos de mediação de conflitos apresen- tam similaridades, quando se analisa o processo como um todo. 74 Negociação e gestão de conflitos Um dos mais conhecidos modelos de mediação de conflitos é co- nhecido como Modelo Harvard de Negociação, que foi desenvolvido no Programa de Negociação de Harvard, fundado por William Ury, Roger Fisher e Bruce Patton. Com base nesse modelo, os estudos de Fiorelli, Fiorelli e Malhadas Junior (2008) apontam as principais etapas da se- guinte maneira: Separar pessoas do problema Significa ter a empatia de se colocar no lugar de cada um dos lados do conflito e tentar entender os pontos de vista, as crenças, os valores e os argumentos de cadaum. O mediador precisa exercitar a empatia, compreender como o conflito impacta em cada um dos lados para, desse modo, dar priorida- de à solução do problema. Ao mostrar a cada um dos participantes do conflito que entende seu ponto de vista, o mediador mostra que é imparcial e busca a solução mais adequada. Muitas vezes, no ápice do conflito, é comum que um dos lados, ou ambos, percam o controle e as emoções negativas tomem conta da discussão. Separar as pessoas do problema significa enxergar o outro como ser humano, com suas necessidades, crenças, culturas, com seus desejos e respeitá-las. Na visão dos autores, qualquer outra etapa do processo de solução do conflito só pode ser iniciada a partir do momento em que o respeito mútuo é estabelecido. Concentrar-se nos interesses, não nas posições Em uma situação de conflito, à medida que os ânimos se exaltam e a comunicação se torna mais difícil, gradativamente cada um dos lados passa a defender posições já conquistadas ou recusam-se a abrir mão de suas opiniões. Esse processo, se não for bem administrado, pode levar à total paralisação da mediação do conflito. Em razão disso, o mediador deve relembrar os participantes do conflito dos reais interesses da empresa e do grupo, além de mostrar como a defesa de posições impede que a situação evolua, em direção à uma solução satisfatória. Criar várias possibilidades antes de decidir Para que se chegue a uma solução positiva, faz parte do processo de negociação que cada um dos lados tenha que abrir mão de algumas de suas posições, opiniões e de seus interesses, com o objetivo de encontrar uma solução que acomode as necessidades de ambos os lados. Para isso, o mediador precisa trabalhar, com os dois lados, o desenvolvimento de diversos cenários ou com linhas de ação que representem possibilidades de acordo em diferentes níveis de concessão antes de decidir algo. Ao envolver as pessoas na construção desses cenários, ouvindo as opiniões e sugestões de soluções, o mediador consegue “quebrar” algumas barreiras de comunicação e fazer com que os indivíduos abandonem posições extremas. As diversas sugestões podem, então, ser analisadas e classificadas de acordo com o nível de relevância das contribuições para a solução do conflito. Além disso, essas aná- lises permitem que o mediador encontre a melhor solução com base em uma linha de ação e fazem com que os lados se sintam envolvidos e corresponsáveis pela implantação das ações. A mediação de conflitos 75 Insistir em um resultado objetivo, independente de vontades Quanto mais os lados que participam do conflito permitem que as emoções tomem conta do processo de conflito, mais difícil é enxergar o problema de maneira objetiva. O mediador tem um papel funda- mental de mostrar que, em uma situação profissional, o conflito pessoal não pode interferir nas deci- sões e nas ações cotidianas tomadas por ambos os lados. Ao envolver os participantes na solução de conflito, o mediador precisa sempre deixar claro quais são os critérios, os objetivos e as necessidades da organização. Lembrar que na negociação não há opositores ou adversários, mas sim participantes Apesar de, no processo de conflito, os lados representarem posições e interesses diferentes e diver- gentes, no ambiente empresarial não pode haver oponentes ou adversários. Isso porque ambos os lados fazem parte da mesma organização e devem colaborar para que os objetivos e as metas sejam alcançados. O mediador deve constantemente relembrar os participantes desse fato, elucidando que os interesses pessoais não podem interferir nos resultados do grupo e que o objetivo final da mediação do conflito é garantir a evolução do grupo, bem como de cada um dos participantes, tanto profissional- mente quanto pessoalmente. O papel do mediador é ser um facilitador na resolução dos conflitos que surgem no cotidiano, além de conduzir as pessoas em direção ao resultado desejado. Para Griffin e Gregory (2015), a administração e a mediação de con- flitos tem base em técnicas de relacionamento interpessoal, uma vez que essas situações surgem pelas interações que ocorrem entre dois ou mais indivíduos ou em grupos. Dentre as possíveis abordagens para mediar um conflito, os autores destacam as seguintes: A Formação de equipes Nessa abordagem, a forma de gerenciar o conflito é buscar a melhoria da relação interpessoal e a integração dos indivíduos e grupos como melhoria para a eficiência da empresa; além disso, busca-se diminuir as condições geradoras de conflito e criar um ambiente em que o compartilhamento de funções e a realização de atividades con- juntas crie uma cultura positiva e cooperativa. A pesquisa de feedback Essa abordagem se baseia na realização de avaliações e acompanhamentos constantes do modo como a equipe, como um todo, sente-se em relação à empresa, aos líderes, às ativida- des e aos demais funcionários. O objetivo dessa ação é medir o grau de satisfação, para identifi- car possíveis pontos com poten- cial de gerar conflitos, atuando de maneira preventiva. A pacificação por meio de terceiros Essa abordagem é indicada quando o conflito já está es- tabelecido na organização e os líderes imediatos estão tão envolvidos nos processos con- flituosos que não apresentam mais condições de gerenciar de maneira adequada a situação. Busca-se, então, um mediador externo à equipe e, em alguns casos, de fora da empresa, para que seja possível exercer o papel de mediador na busca da solução mais adequada. 76 Negociação e gestão de conflitos Chiavenato (2014) também apresenta três diferentes tipos de abor- dagem para a administração e mediação de conflitos. São eles: Abordagem estrutural Segundo essa visão, os conflitos que ocorrem dentro de uma organização têm origem na própria organização da empresa e no modo em que ela ocorre, pois a limitação e a escassez de recursos, além das diversas ati- vidades realizadas por cada uma das áreas e por cada profissio- nal, acabam divergindo das ati- vidades e das responsabilidades relacionadas às demais áreas. O papel do líder como mediador dos processos de conflito, se- gundo essa abordagem, é tentar diminuir as diferenças técnicas, comportamentais e culturais das diversas áreas usando as prá- ticas cotidianas de gestão para orientar os profissionais em relação aos objetivos comuns da organização. Além disso, deve- -se administrar de maneira justa e equilibrada o uso dos recursos da organização, diminuindo as possibilidades de ocorrência de conflitos. Abordagem de processo O papel do mediador, nessa visão, é interferir diretamente no conflito. A interferência pode envolver tanto os participantes do processo conflituoso quanto terceiros que estejam dentro ou fora da organização. O autor apresenta três formas pelas quais essa abordagem é colo- cada em prática: na primeira, o mediador pode procurar de- sativar o conflito, incentivando o comportamento positivo das partes envolvidas. A segunda é provocar o confronto entre as partes, reunindo-as e incen- tivando que as divergências sejam expostas com o objetivo de estabelecer uma relação ganha-ganha a partir da solução dos pontos de divergência. Por último, o mediador pode propor que ambos os lados do conflito colaborem de maneira conjunta na busca de uma solução que seja aceitável e adequada para todos. Abordagem mista Nessa estratégia de solução dos conflitos, tanto as ações indica- das para a abordagem estrutu- ral quanto para a abordagem do processo são utilizadas de maneira conjunta. O mediador deve estabelecer, em conjunto com todos, uma solução que envolva a criação de papéis integradores, assumidos por terceiros, que possam auxiliar na mediação e na busca por uma solução conjunta. Esses terceiros, se possível, devem ser membros da própria organiza- ção e não podem estar envol- vidos no processo de conflito. Eles têm como papel principal mediar as situações conflituosas que possam ocorrerno coti- diano. Ainda existem diversos modelos de administração de conflitos que podem ser utilizados de acordo com o contexto em que ocorre. O líder, no papel de mediador, precisa analisar as diversas informações e as ca- racterísticas comportamentais dos envolvidos para escolher, dentre os modelos, qual é o mais adequando para gerenciar a situação dentro da realidade do cotidiano da organização. Para Depresbiteris (2014, p. 6), o mediador é aquele que é capaz de enriquecer a interação do mediado com seu ambiente, utilizando ingredientes que não per- tencem aos estímulos imediatos, mas que preparam a estrutura cognitiva desse mediado para ir além dos estímulos recebidos, transcendendo-os. Em síntese, o mediador: A mediação de conflitos 77 • tem um papel de parceiro na aprendizagem; • é uma testemunha privilegiada do embate entre mediado e o ambiente; • é um observador do comportamento do mediado, avaliando-o e favorecendo seu progresso, sua melhoria no pensar; • instaura uma relação de ajuda e não de sancionamento, de coerção; • tem uma tarefa essencial de organizar o contexto, imaginando e propondo situações-problema adequadas; • consegue colocar-se no lugar do “outro”, perceber sua lógica e intenções. Independentemente do modelo de mediação escolhido, o mediador deve usar todas as suas competências e dedicar todos os esforços para solucionar positivamente o conflito, pois um conflito mal administrado ou mal resolvido tem a tendência de se tornar cada vez maior e ofere- cer danos mais profundos aos relacionamentos do grupo e aos resulta- dos da empresa em médio e longo prazos. Para Neto (2005), o processo de mediação deve sempre começar por uma investigação profunda do mediador. É necessário que ele compreenda os fatos antecedentes que levaram ao conflito, analise os indivíduos envolvidos, conheça seus comportamentos pregressos, suas condutas profissionais, seus resultados obtidos e seu histórico de relacionamentos no grupo. Assim, o mediador pode ter uma visão ge- ral de todas as variáveis envolvidas no processo, para que suas ações durante a mediação não sejam injustas ou tendenciosas. Em diversas literaturas, outros autores concordam com essa posição. Berg (2012) menciona que não existe jeito certo ou errado de mediar, uma vez que cada estilo e modelo pode ser mais apropriado para cada situação. Será o mediador que, compreendendo a situação e as várias possibilidades de mediação, escolherá o mais adequado de acordo com o resultado que se deseja obter. Para Shamir (2005), a mediação, além de outras vantagens, ajuda a empresa a poupar recursos importantes, como o tempo e a energia de seus colaboradores. Outro ponto importante é que a mediação, co- mumente, busca uma solução que visa representar o desenvolvimento futuro do grupo. Apesar de se basear em fatos e relacionamentos do passado, a mediação permite que a organização avance e renove-se, criando conhecimentos, novos processos e novas formas de relação. 78 Negociação e gestão de conflitos O desenvolvimento dos relacionamentos entre os membros do grupo também é destacado por Cunha e Leitão (2012) como uma das principais vantagens do processo de mediação. Para os autores, se a mediação ocorrer de maneira adequada, os resultados serão positivos para o grupo e possibilitarão uma melhoria significativa de relaciona- mento entre os indivíduos e os grupos, diminuindo o estresse e o des- gaste emocional. A mediação bem realizada proporciona bases para relações mais positivas e melhora a comunicação de todos. 4.3 Estratégias de resolução dos conflitos Vídeo A mediação de conflitos é uma área da administração que envolve competências e conhecimentos das mais variadas áreas. Essa multidis- ciplinaridade é um dos pontos centrais das estratégias de resolução de conflitos por meio do uso da mediação. Além de muito discutida na área da administração de empresas, ela é objeto de estudos da área jurídica, em que o ato de mediar tem sido cada vez mais utilizado como uma alternativa para os longos e custosos processos judiciais. Seja no Direito ou na Administração, a mediação, segundo Shamir (2005), en- volve conhecimentos ligados a algumas áreas, como psicologia humana e dos grupos, Antropologia e Sociologia (já que ambas estudam as rela- ções que ocorrem nos grupo sociais), Ciências Políticas, que estudam a forma como as decisões são tomadas na sociedade; na área do Direito, envolve os conhecimentos ligados à Legislação e à Criminologia. Em qualquer uma das áreas nas quais se aplicam as estratégias de mediação, é fundamental que se busque uma condução constru- tiva dos conflitos. Nas organizações, o conflito pode representar uma grande oportunidade de aprendizagem para o grupo; uma forma de aumentar significativamente a eficácia organizacional é realizar um diagnóstico dos atuais processos da empresa e intervir nas situações de conflito, melhorando os processos não só para resolver o problema específico que gerou o conflito, mas implantando outros que tragam melhorias no longo prazo. Rahim (2002) aponta, também, que se as es- tratégias utilizadas para mediar o conflito forem adequadas, o proces- so possibilita a aprendizagem coletiva na empresa e aumenta a eficácia organizacional, deixando mais claras e explícitas as questões éticas que regem as ações, os valores e a cultura da organização. Para aprofundar o estudo das estratégias de mediação de confli- tos, é importante fazer uma distinção entre dois conceitos que podem A mediação de conflitos 79 parecer sinônimos à primeira vista: a resolução de conflitos e a gestão estratégica de conflitos. Cunha e Leitão (2012) comentam que resol- ver um conflito significa eliminar totalmente, ou ao menos reduzir, os impactos de uma situação conflituosa nas relações interpessoais que ocorrem em uma empresa, sem se preocupar com os possíveis desdo- bramentos que podem se originar dele. Já a gestão estratégica de conflitos, para os autores, vai além e bus- ca definir estratégias para que os benefícios advindos do conflito, como o aprendizado, a melhoria das relações, a mudança dos comportamen- tos, a possibilidade de melhorar os processos e desenvolver a cultura da empresa possam ser totalmente aproveitados. De modo comple- mentar, Rahim (2002) aponta que a gestão de conflitos possibilita o desenvolvimento geral da organização, impactando positivamente os planos e objetivos de longo prazo da empresa. O autor considera que a gestão estratégica de conflitos traz melhorias nos níveis individual, grupal e organizacional e traz alterações na liderança, na cultura e na estrutura da organização. Já para Cisneros, Medina e Dorado (2005), a gestão estratégica de conflitos está intimamente relacionada à estratégia organizacional e pode intervir tanto na estrutura quanto na cultura e no comportamento das pessoas, com o objetivo de reduzir possíveis situações conflituosas. Usada de maneira estratégica, a mediação possibilita que os conflitos sejam tratados já em sua fase inicial, evitando que o crescimento da situação conflituosa traga impactos negativos e ajude na prevenção de problemas futuros. Para Liebman e Hyman (2004), durante a mediação, ocorre um intenso processo de comunicação entre as diversas partes, o que possibilita que informações, dados, opiniões, soluções, sugestões e ideias possam ser transmitidos e ocorra maior compreensão da real situação em que todos estão envolvidos. Esse conhecimento auxilia a empresa a desenvolver e a implementar novos métodos e processos com base no processo de mediação. Outro autor aponta a mediação como uma das estratégias de ges- tão que pode trazer resultados positivos e construtivos com base nos conflitos; este é González-Capitel (2001). Para ele, a mediação ocorre quando vários indivíduos da organização se apoiam mutuamente para que as decisões tomadas sejam as melhores possíveis aos resultados esperados. O autor ainda destaca o caráter colaborativo da estratégiade mediação, pois os lados recorrem, na maioria das vezes, de maneira voluntária e envolvem-se no processo intensamente, até que a situação 80 Negociação e gestão de conflitos seja totalmente resolvida. Em vista disso, considera-se que a mediação é uma estratégia que elucida a evolução do grupo e dos profissionais, além de ser uma forma mais rápida e econômica de resolver os impas- ses que surgem no cotidiano dos negócios. Cunha e Leitão (2012) con- sideram que, por essas vantagens, a estratégia da mediação tem sido cada vez mais utilizada na sociedade, não só no contexto organizacio- nal, mas também nas comunidades, nas escolas e nos demais grupos. Burbridge e Burbridge (2012) acreditam que nem todo conflito pode ser resolvido da mesma forma. Os autores apontam uma série de es- tratégias contrárias à disposição do mediador, desde técnicas de ne- gociação, mais comumente utilizadas, até o extremo do uso do poder do líder em relação aos indivíduos como forma de encerrar o conflito. Outras estratégias sugeridas pelos autores são: Litígio Termo utilizado no meio jurídico, significa uma ação ou controvérsia judicial que surge de um conflito de interesses, gerando uma contenda ou ação. No meio or- ganizacional, pode ser compreendido como uma forma processual de lidar com o conflito, colocando os lados da disputa em confronto direto, utilizando como base as normas e as regras da empresa para resolver o conflito, sem se importar com os impactos dessa solução sobre os relacionamentos da equipe. Arbitragem Nesse conceito, os lados do conflito escolhem um terceiro que possa agir como árbitro do processo de mediação. Nas empresas, e com base nas ideias dos auto- res, essa é uma forma alternativa de lidar com o conflito, evitando que ele escale os níveis hierárquicos da organização. Normalmente, o árbitro é o próprio líder do grupo, mas também pode ser uma pessoa mais experiente e respeitada por ambos os lados. A arbitragem ocorre quando os lados percebem, de maneira au- tônoma, os prejuízos que o conflito traz para ambos e, com isso, resolvem buscar a solução de modo consciente, com a ajuda de alguém da organização. Ouvidoria Em seu conceito mais geral, segundo Saldanha (2013, p. 7), o ouvidor “é o pro- fissional, que, na estrutura das organizações, tem a função de representar o ci- dadão dentro da empresa”. No contexto da gestão de conflitos organizacional, a ouvidoria é considerada uma ferramenta de mediação; na visão de Burbridge e Burbridge (2012), significa a existência, na estrutura da empresa, de uma área ou de um profissional específico para receber as reclamações, questões ou conten- das que geraram um conflito. Assim, é possível tratar a situação atuando como um mediador, mesmo não sendo o líder direto dos indivíduos participantes do con- flito, a fim de repassar a situação. É em decorrência desse filtro feito pelo ouvidor que sua atuação não é considera tendenciosa ou impregnada por pré-impressões ou preconceitos. O livro Gestão adequada de conflitos: do diagnóstico à escolha do método para caso secreto apresenta um modelo prático, usando como ferramenta um fluxograma que facilita o processo de escolha da melhor estratégia de mediação dos conflitos. O autor aborda o modo como o conflito pode impactar na produtivi- dade da empresa, além de gerar insatisfação nos profissionais que dela fazem parte. No texto, de- monstra-se como ocorre o processo de conflito e quais são as técnicas que podem ser utilizadas na mediação. GORETI, R. São Paulo: Editora Juspodivm, 2019. Livro A mediação de conflitos 81 Conciliação Assim como a ouvidoria e a arbitragem, a conciliação usa a figura de um terceiro imparcial, que auxilia na solução de conflitos. No contexto organizacional, a di- ferença é de que o conciliador vai ter um foco maior nas relações interpessoais do que na solução do conflito objetivo, tentando restabelecer os laços entre os indivíduos e criar as condições para que os aprendizados sejam utilizados para a melhoria futura das relações na empresa. Ainda para Burbridge e Burbridge (2012), o grande desafio do me- diador é escolher a melhor ferramenta a ser utilizada no contexto de cada conflito, com o objetivo de obter os resultados mais satisfatórios para os indivíduos, o grupo e a empresa. De modo semelhante aos autores citados, Cunha (2008) aponta estratégias parecidas para desenvolver a mediação de conflitos: a ne- gociação, a mediação, a arbitragem, a conciliação e a ação indepen- dente das partes. Na visão do autor, negociação é uma forma de lidar com o conflito realizado pelas próprias partes envolvidas, no qual, por meio da comunicação e das técnicas negociais, os lados abrem mão de algumas posições ou modificam suas exigências, seus limites e suas concessões para chegar a uma conclusão que possa ser favorável para ambos os lados. Já a mediação, para o autor, é uma estratégia de conflitos que de- pende da ação de um elemento externo: o mediador. O papel desse elemento é analisar a situação dentro do contexto no qual ela ocor- re, utilizando ferramentas e modelos de intervenção, com o objetivo de ajudar os lados do conflito na busca de uma resolução ou de um acordo que possa não apenas resolver a situação, mas trazer melhorias nas relações, incentivando e facilitando a comunicação entre as partes. Uma das características fundamentais da mediação é a de que os lados agem de vontade própria ao buscar a mediação. A arbitragem, para Cunha (2008), é definida como um meio formal de solução de conflitos, uma vez que o fator que difere a arbitragem da mediação é o de que as partes envolvidas escolhem quem será o terceiro elemento a atuar como árbitro do conflito, que é desenrolado por meio contratual. O árbitro, em geral, é alguém externo à organiza- ção, normalmente com formação específica para atuar na arbitragem e que emitirá uma decisão final sobre o conflito, muitas vezes sem levar em consideração os impactos da decisão nas futuras relações interpes- soais entre os lados. 82 Negociação e gestão de conflitos O autor também menciona outra estratégia de gestão do conflito: a conciliação, que difere da mediação e da arbitragem pelo maior foco do mediador em buscar não apenas a resolução do problema, mas to- dos os possíveis impactos dela nas relações interpessoais, grupais e organizacionais. A conciliação busca levar em consideração todas as ramificações técnicas, processuais, organizacionais e relacionais do conflito e resolvê-lo de modo a possibilitar uma melhoria geral para a organização. Por fim, Cunha (2008) elucida que uma estratégia de resolução dos conflitos é a própria ação, que pode ser traduzida em três diferentes linhas de ação: a submissão de um dos lados ao outro, seja pelo uso do poder, da influência ou da força; a persuasão, estratégia na qual um dos lados consegue convencer a outra parte por meio da capacidade da argumentação; e a cooperação, pela qual ambos os lados escolhem cooperar para encerrar o conflito, compreendendo que a continuidade do processo é mais prejudicial do que a busca por uma solução. CONSIDERAÇÕES FINAIS Os conflitos que surgem no cotidiano das organizações podem ser encarados como problemas que precisam ser rapidamente resolvidos e extintos ou, ainda, como oportunidades para que tanto os indivíduos quanto a empresa se desenvolvam com os aprendizados gerados durante o processo conflituoso. Para que todas as oportunidades de aprendizagem e desenvolvimento possam ser aproveitadas, a forma como a liderança da empresa lida com o conflito é fundamental. A gestão de conflitos pode envolver diversos modelos e diferentes estratégias, como a negociação, a mediação, a ar- bitragem e a conciliação. Cada uma delas tem seus pontos positivos e negativos e é mais ou menos adequada para a solução de um conflito específico. Dependendo do contexto no qual ocorre, o nível de desen- volvimento do conflito, o comportamento dos indivíduos envolvidos e a própriamaturidade da organização para lidar com esse tipo de situação auxilia na rápida resolução dessas situações. A mediação de conflitos 83 ATIVIDADES 1. Um dos pontos centrais da administração e da mediação de conflitos é o relacionamento interpessoal, uma vez que esses surgem das interações que ocorrem entre dois ou mais indivíduos. A formação de equipes é uma das estratégias utilizadas em situações conflituosas. Explique como essa estratégia é utilizada. 2. Chiavenato (2014) apresenta três diferentes tipos de abordagem para a administração e mediação de conflitos, dentre elas há abordagem mista. Explique as características desse formato de abordagem. 3. A mediação de conflitos é uma área da administração organizacional que envolve competências e conhecimentos de variadas áreas. Essa multidisciplinaridade é um dos pontos centrais das estratégias de resolução de conflitos. Explique as diversas áreas de conhecimento que utilizam as estratégias de mediação de conflitos. REFERÊNCIAS BURBRIDGE, R. M.; BURBRIDGE, A. Gestão de conflitos: desafios do mundo corporativo. São Paulo: Saraiva, 2012. CARVALHAL, E.; ANDRADE, G. M.; ARAÚJO, J. V.; KNUST, M. Negociação e administração de conflitos. 4. ed. Rio de Janeiro: FGV, 2014. CHIAVENATO, I. Gestão de pessoas: o novo papel dos recursos humanos nas organizações. 4. ed. Barueri, SP: Manole, 2014. CISNEROS, I. F. J. de; MEDINA, F. J.; DORADO, M. A. 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Administração de conflitos na organização 85 5 Administração de conflitos na organização A administração de conflitos que acontecem nas organizações é uma das principais atividades desenvolvidas pelos gestores. Mas o fato de ocupar um cargo de gestão ou de liderança não signi- fica que o profissional esteja preparado para atuar como gestor de conflitos. Diversas são as competências necessárias para quem busca atuar como mediador de conflitos organizacionais. Dentre elas incluem-se tanto conhecimentos comportamentais ligados à comunicação, à negociação e aos relacionamentos humanos, quanto conhecimentos técnicos sobre o próprio processo de ges- tão de conflitos. Neste capítulo abordaremos a relação entre os conceitos de negociação e de conflitos, além de discutirmos os diversos mode- los de gestão de conflitos e as competências necessárias para que o líder atue como mediador e gestor dos conflitos organizacionais. 5.1 A relação entre negociação e gestão de conflitosVídeo Comunicação, negociação e gestão de conflitos não são conceitos sinônimos, mas encontram-se intimamente interligados, pois não é possível gerenciar um conflito organizacional sem utilizar a negociação e não é possível negociar sem utilizar a comunicação. Essa relação é tão intensa que Fisher, Ury e Patton (2018) acreditam que a negocia- ção nada mais é que um processo de comunicação. Já Garbelini (2016) afirma que a gestão de conflitos é um processo de comunicação que tem por objetivo construir um acordo viável e interessante para ambas as partes envolvidas. A busca por uma solução em que todos os lados 86 Negociação e gestão de conflitos ganhem e a visão de que os interesses de cada lado não são antagô- nicos, mas complementares, são alguns dos pontos que, na visão da autora, interligam os conceitos de negociação e de gestão de conflitos. Dentre as diversas competências necessárias para atuar no am- biente corporativo, a capacidade de negociação é uma das mais im- portantes. É comum que confundirmos a competência da negociação com a competência em vendas, e muitos acreditam que apenas os profissionais da área comercial precisam desenvolver esta última. Mas a negociação é uma competência utilizada em várias situações coti- dianas, tanto no contexto empresarial quanto no pessoal. Segundo Caxito (2019, p. 6): “a negociação ocorre em todas as áreas da vida, em situações nas quais nos deparamos com a necessidade de estabelecer acordos que atendam às expectativas dos envolvidos”. A negociação que ocorre nos processos de vendas é mais simples de ser analisada e realizada, pois existem objetivos, normas, critérios e limites claros. Um dos lados quer vender algo, como um produto ou um serviço, e tem um objetivo de preço a ser alcançado, além de limites das concessões que pode fazer para fechar o negócio. Do outro lado há um comprador que deseja o produto ou o serviço oferecido e tem seus próprios objetivos em relação aos preços e às condições. Se os limites de um dos lados forem ultrapassados, a negociação é interrompida, pois os objetivos de ambos não serão alcançados. Porém, as negociações que ocorrem no cotidiano de uma empre- sa entre: líderes e liderados, pessoas de uma mesma área funcional, pessoas de áreas diferentes e com clientes e fornecedores são mais complexas quando comparadas às negociações de vendas, pois nem sempre os objetivos e os limites estão tão claramente delineados, e a manutenção ou a restauração dos relacionamentos é tão ou mais im- portante do que os próprios resultados a serem alcançados. Desenvolver a competência da negociação é também fundamental para que os líderes possam atuar na gestão dos conflitos que ocor- rem na organização. Freitas (1994) afirma que negociar é uma das ati- vidades mais presentes nas organizações, pois é assimque se garante que as operações e os processos cotidianos ocorram como planejados. Logo, a competência de gerir os processos de negociação e as situações de conflito é um quesito que deve ser considerado pela empresa ao preparar ou ao selecionar seus gestores. Administração de conflitos na organização 87 Se nas negociações que ocorrem naturalmente durante os pro- cessos de trabalho a capacidade de comunicação do gestor é impor- tante, são nas situações de conflito que essa competência é ainda mais fundamental. Para Ceribeli e Merlo (2016, p.114), o gestor precisa estar aberto a ouvir para que seja possível buscar uma solução para os con- flitos. A boa comunicação permite que ele entenda os problemas, as dificuldades, as necessidades e os desejos de ambos os lados e possibi- lita que ele construa uma relação de respeito. Para Iamin (2016), o que diferencia a negociação da gestão de con- flitos é o fato de que a primeira busca apenas resolver o problema em questão, enquanto a segunda possibilita um resultado maior e mais significativo, pois permite a melhoria dos processos e dos relaciona- mentos da empresa. O ofício do líder não é somente gerenciar as situações de conflito. Para Freitas (2014), ele deve construir processos de trabalho e usar sua influência neste para construir uma cultura e um clima em sua equipe em que os conflitos raramente ocorram e em que, caso aconteçam, sejam rapidamente resolvidos e usados para que ela evolua. O autor acredita que as situações de conflito ou de divergências de ideias geram oportu- nidades para que a equipe aprenda, e o líder, ao gerenciar o processo de conflito, deve encontrar um ponto de equilíbrio nos relacionamentos que se estabelecem entre os membros da equipe. O conflito pode ser entendido como um embate que ocorre entre dois ou mais membros de um grupo, surgindo a partir de diferentes interesses e necessidades, ideias, crenças e opiniões. Freitas (2014) acredita que nos embates que ocorrem nas estruturas organizacionais o gestor da equipe ou o líder têm a função de um mediador, atuando junto aos seus colaboradores para solucionar a situação, não impondo suas ideias e suas crenças. Para o autor, o papel do líder e dos cola- boradores tem igual peso e importância, pois a solução do problema independe da estrutura hierárquica. Apesar do líder ter a capacidade de intervir na situação caso achar necessário, a solução deve ser com- partilhada, respeitando cada um dos participantes. Ceribeli e Merlo (2016) corroboram essa visão e destacam a impor- tância do bom relacionamento entre os envolvidos, tanto os gestores quanto os subordinados, para que seja construída uma relação positi- va de respeito e de confiança, fundamental para que os processos de Um clássico do cinema, o filme Doze homens e uma sentença mostra o julgamento de um jovem acusado de assassinato. Dos 12 jurados, 11 consi- deram o réu culpado logo na primeira votação rea- lizada. Porém, um deles acredita na inocência do jovem e tenta convencer os demais. À medida que a negociação transcorre, fica claro que diversos jurados têm interesse em que o caso seja julgado rapidamente. Filmado quase que em um só cenário, é um bom exemplo de como a gestão de conflitos pode ser utilizada na prática com o objetivo de se chegar a um acordo justo para todos os envolvidos. O filme também mostra a importância da comunica- ção no processo de nego- ciação. Ouvindo a opinião de cada um, o jurado que acredita na inocência do réu consegue entender seus motivos e construir argumentações para convencer os outros a mudarem o veredicto. Direção: Sidney Lumet. EUA: MGM Television, 1957. Filme 88 Negociação e gestão de conflitos comunicação, de negociação e de gestão do conflito ocorram e tragam resultados positivos. Quando essa confiança existe, a comunicação é facilitada, cada um dos lados leva em consideração os objetivos e as necessidades dos outros, a negociação é realizada com foco em uma relação ganha-ganha e o acordo final é positivo para todos. A comunicação e a negociação são ferramentas para resolver situa- ções de conflito também na visão de Almeida e Sobral (2005), que des- tacam a importância dos líderes terem a capacidade de compreender o problema pelo ponto de vista de cada um dos envolvidos, mas também terem uma visão mais ampla que abarque os interesses do grupo e da empresa. A compreensão correta do problema só é possível se a comu- nicação entre os participantes da situação for clara e direta, construin- do um fluxo de informações a que todos tenham acesso e havendo um esforço para conhecer as necessidades de cada um. É trabalho do líder se expressar de maneira clara e objetiva, sanar as dúvidas de cada participante, garantir que as informações estejam disponíveis para todos e que as mensagens trocadas entre eles sejam respeitosas. Ele deve observar a forma como cada mensagem é inter- pretada e quais as respostas e os feedbacks gerados para garantir a clareza na comunicação e diminuir a possibilidade de ocorrerem falhas na interpretação. O líder deve também reparar na postura de cada um dos participantes durante as sessões de negociação e trabalhar indivi- dualmente com aqueles que considerar não estarem cooperando com a busca de uma solução. A relação entre comunicação, negociação e gestão de conflitos tam- bém é destacada por Coelho Junior (2011, p. 27), o qual entende a últi- ma como um processo que objetiva garantir o melhor acordo possível para todos os envolvidos e que a percepção final não seja negativa, relacionada aos fatos geradores, mas sim positiva, ligada aos aprendi- zados e à melhoria do relacionamento. Os diversos autores citados expõem que existe uma relação pro- funda entre as diversas competências do líder – como negociação, ca- pacidade de usar a comunicação e conhecimento sobre modelos de gestão de conflito – e o sucesso desse líder na condução de situações conflituosas nas equipes profissionais. Essa relação entre os conceitos pode ser melhor entendida na figura a seguir: Administração de conflitos na organização 89 Comunicação negociação gestão do conflito aprendizagem e desenvolvimento possibilita a resulta na leva à Figura 1 Relação entre comunicação, negociação e gestão de conflitos. Fonte: Elaborada pelo autor. ho wc ol ou r/ K iri ll M la ys he v/ da vo od a/ Sh ut te rs to ck A comunicação é a base da negociação e é a ferramenta por meio da qual o conflito é resolvido. Enquanto a primeira está diretamente ligada a aspectos dos relacionamentos interpessoais, a negociação está relacionada à busca da solução do problema que surge com base nes- ses relacionamentos. A gestão dos conflitos vai além da negociação, pois tem por resultado a geração de aprendizados, melhorias e fortale- cimento de relações que permitirão ao grupo se desenvolver e crescer. Martinelli (2015) afirma que o líder, ao gerenciar os conflitos que surgem em sua equipe, tem a possibilidade de construir relações mais fortes e contínuas. Para isso, precisa administrar as situações de con- flito buscando entender e atender aos objetivos individuais e dos gru- pos, já que a relação social que se estabelece dentro dos grupos de trabalho, e entre esses e os demais grupos que compõem a empresa, precisa ser equilibrada. Esse equilíbrio é alcançado quando a liderança administra as situações de conflito, o que cria as condições para que o clima organizacional seja positivo no ambiente de trabalho, facilitando a convivência entre os funcionários e possibilitando que estejam foca- dos nos objetivos da empresa. A utilização de estratégias e de modelos de administração de conflitos pelos líderes contribui para que se identifiquem os motivos que geram os conflitos cotidianos, devendo ser analisados para que não apenas se resolva o conflito em questão, mas se evite que vol- tem a acontecer situações semelhantes. Assim, a administração de conflitos traz a melhoria contínua dos processosda empresa e das relações sociais. Como em todo processo de administração, durante a gestão de um conflito são geradas diversas informações sobre as atividades, os procedimentos, os relacionamentos, a comunicação, as diferenças, as dificuldades e os objetivos de cada lado participante. Se devidamente O autor Marshall Rosenberg atua como mediador em conflitos internacionais e mostra no livro A linguagem da paz em um mundo de conflitos: sua próxima fala mudará seu mundo, fundamentado em suas experiências desenvolvidas na prática, a importância da comunicação nos processos de negociação e gestão de conflitos. O autor destaca como, em cada conversa que estabelecemos, pode- mos adotar uma postura beligerante ou soluciona- dora. A linguagem utilizada é a expressão da postura que decidimos adotar. O livro usa diversas histórias reais que mostram como uma simples palavra ou mu- dança do tom de voz pode alterar todo o rumo de um conflito, além de apontar as competências necessárias para usar a comunicação de maneira positiva na busca da solução dos conflitos. ROSENBERG, M. São Paulo: Palas Athena, 2019. Livro 90 Negociação e gestão de conflitos registradas e posteriormente analisadas, essas informações possibili- tam traçar um histórico das situações de conflito e um perfil dos com- portamentos e das relações que as geram. Os aprendizados gerados auxiliam o líder a redefinir processos, limites e responsabilidades que são fundamentais para o crescimento e a evolução do grupo. 5.2 Gestão dos processos do conflito Vídeo Os conflitos são ocorrências naturais em grupos humanos e estão presentes no cotidiano das organizações. Porém, se mal adminis- trados, podem trazer grandes prejuízos para as empresas. Por esse motivo, a gestão de conflitos em ambientes organizacionais é um tema amplamente estudado na ciência da administração. Diversos autores desenvolveram pesquisas e estudos sobre esse tema nas organizações e propuseram modelos que podem ser utilizados para gerenciar as situações de conflito. Conhecer esses modelos é uma das competências necessárias para que gestores e líderes possam atuar como mediadores. Para Burbridge e Burbridge (2012), o líder tem o papel de promover mudanças significativas na equipe e na empresa e um dos meios de realizá-las é pela gestão dos conflitos, com o uso da comunicação e da negociação. Os autores destacam que a cultura e o clima que se estabe- lecem na organização refletem a forma como a liderança se comporta e a postura com que administra os conflitos. Se a postura dela é positiva, a relação dos membros da equipe será fundamentada na confiança e na divisão de atividades e de responsabilidades. Para Neto (2005), existem duas formas possíveis de se lidar com os conflitos organizacionais: a primeira é negá-los e ignorar os impactos negativos trazidos pela situação de conflito não declarado. Essa pos- tura evita a confrontação entre os participantes, mas a situação vai se agravando até chegar a um ponto no qual o conflito exploda de modo violento, podendo até mesmo impossibilitar a continuidade do traba- lho da equipe. Perissê (2007) afirma que evitar enfrentar o conflito nem sempre é a melhor opção, pois as tensões e os pontos de estresse podem se acu- mular até o momento em que o relacionamento se torne insustentável. O autor chama de recalcamento a atitude de ignorar o conflito na expec- Administração de conflitos na organização 91 tativa de que a situação se acomode naturalmente, sem que os lados precisem se expor. Outra forma de evitar o conflito é a repressão, ati- tude na qual os indivíduos reconhecem que existe um problema, mas buscam escondê-lo, evitando inclusive que se comente sobre ele, por entenderem que torná-lo público pode potencializá-lo e colaborar para intensificar os desgastes. Recalcar ou reprimir o conflito pode até ser eficaz, se o motivo ge- rador da situação for pouco relevante no contexto do ambiente de tra- balho. Porém, se o problema que o originou for importante, retardar a busca da solução pode agravar ainda mais o impacto do conflito sobre os resultados do grupo. A segunda forma indicada por Neto (2005) é enfrentar o conflito abertamente e transformá-lo em instrumento de aprendizagem, de de- senvolvimento e de amadurecimento tanto para os envolvidos quanto para o grupo e para a empresa. Nessa abordagem, mesmo que o re- sultado do conflito não seja o esperado por algum dos lados, o próprio processo de gestão da situação une as partes e melhora o relaciona- mento da equipe. O líder pode enfrentar o conflito utilizando sua força ou sua posição de poder para eliminar a situação. Apesar de ser uma forma de reso- lução rápida, pode trazer um grande risco no futuro, pois os motivos geradores da situação continuam a existir e o conflito permanece ve- lado e latente no cotidiano das relações entre os membros do grupo, podendo se expressar ainda mais fortemente a qualquer momento, pelo mesmo ou por outros motivos, e em geral se apresentam ainda mais fortalecidos pelo desgaste causado nas relações. Outra forma de enfrentar o conflito é o confronto, em que os la- dos se digladiam diretamente sem a intervenção da liderança. Para Perissê (2007), essa é a forma mais perigosa e negativa de se lidar com o conflito, pois não se busca a solução do problema, mas sim a simples medição da força e da influência de cada um dos lados, e as discussões são puramente emocionais e podem levar a situações de agressão ver- bal e até mesmo física. Neto (2005) acredita que essas duas formas de enfrentar o conflito são fundamentadas em uma atitude negativa, em que um dos lados tenta vencer o outro, o que pode levar ao acirramento das rixas exis- tentes dentro do grupo. Mas também é possível enfrentá-los com uma 92 Negociação e gestão de conflitos atitude positiva, em que o líder adota uma postura de mediador e bus- ca unir os lados. A negociação e a mediação são as ferramentas que o gestor pode utilizar para enfrentar o conflito positivamente. Como am- bas as ferramentas têm base na utilização da comunicação como fer- ramenta de entendimento do problema, a gestão positiva do conflito possibilita que os motivos geradores sejam identificados e devidamen- te tratados. Possibilita também que as relações entre os participantes sejam fortalecidas, eliminando possíveis desalinhamentos e erros de comunicação. Negociação e mediação também criam as condições para que os processos de trabalho e os relacionamentos evoluam. O autor também considera que a escolha da melhor forma de en- frentamento do conflito depende do nível de conhecimento e de pre- paração dos líderes. Quando não estão devidamente capacitados, é comum que eles evitem o conflito, seja negando ou ignorando a situa- ção. Líderes mal preparados também podem enfrentar o problema com uma atitude negativa, deixando que os lados entrem em disputa ou impondo uma solução que não leve em consideração as necessida- des de cada uma das partes. Já os líderes bem preparados têm a capa- cidade de utilizar duas competências de comunicação – negociação e mediação – para adotarem uma atitude positiva na solução do conflito. A figura a seguir ilustra as formas de enfrentamento do conflito indica- das por Neto (2005): Figura 2 Formas de lidar com conflitos Formas de lidar com conflitos Negando Tentando vencer a outra parte Disputa, competição, “rixas” Ignorando Tentando unir as partes Mediação, negociação, diálogo 1. Evitando 2. Enfrentando Fonte: Neto, 2005, p. 3. Outro interessante modelo de gestão de conflito foi desenvolvido em 1969 por Walton e Dutton (Bilhim, 2009), o qual se aplica tanto às Administração de conflitos na organização 93 relações que ocorrem dentro dos grupos de trabalho quanto àquelas entre as diversas áreas funcionais que compõem uma empresa, como departamentos, divisões ou filiais. O modelo de Walton e Dutton é com- posto por diversas fases inter-relacionadas. A primeira fase é chamadade antecedentes de conflito. Os diversos ti- pos de conflito que ocorrem durante o trabalho na empresa têm como origem fatores internos, externos e de relacionamento que antecedem a situação conflituosa explicitada. Esses fatores podem estar ligados ao relacionamento entre as pessoas e suas diferenças de cultura, de expe- riência, de crenças ou de expectativas em relação ao trabalho. Outros fatores podem estar ligados aos processos de trabalho e à forma como a empresa é estruturada. Esses fatores iniciais – de relacionamento e de estrutura – geram diferenças entre os membros do grupo e entre as áreas da empresa, que podem ser ainda mais realçadas por meio da falta de comunicação, pela percepção de que existem formas di- ferentes de reconhecimento dos resultados ou de que há injustiça no tratamento dado a cada um pelas lideranças. A segunda fase do modelo proposto por Walton e Dutton (BILHIM, 2009) está ligada à forma como as relações se estabelecem dentro dos grupos e entre as áreas da empresa. Nas relações laterais integrativas existe uma postura positiva e amigável marcada pela troca de informações, pelo respeito e pela abertura quanto às necessidades e aos objetivos de todos. Já nas relações laterais distributivas, o am- biente é negativo e nocivo, há desconfiança em relação aos objetivos e às posturas de cada um dos lados, o que gera discussões pelos mais variados motivos, e as informações não são compartilhadas ou são dis- torcidas, prejudicando o outro lado. As relações que ocorrem entre os indivíduos são rígidas e formais, marcadas pela desconfiança. A possibilidade de ocorrência de um conflito depende dos antece- dentes e das relações destacadas na primeira e na segunda fases. Mas, para Walton e Dutton (BILHIM, 2009), é a forma de se lidar com o con- flito, quando ele ocorre, que diferencia uma organização bem sucedida das demais. Os autores dão o nome de gestão de interface às estra- tégias e às ações tomadas pelos líderes da empresa para mediar as situações de conflito. Se forem adotadas ações e implantados modelos positivos de gestão dos conflitos, a empresa se desenvolverá continua- mente, diminuindo o impacto dos antecedentes e melhorando a natu- reza das relações. 94 Negociação e gestão de conflitos Já o modelo de gestão de conflito, desenvolvido por Pondy e citado por Bilhim (2009), é composto por 4 estágios sequenciais. O primeiro é a oposição potencial, momento em que alguns motivos que podem gerar o conflito já existem, mas ainda não estão explícitos. Ela pode ser relacionada aos antecedentes do conflito, citados por Walton e Dutton, e inclui problemas de comunicação, diferenças individuais e questões relacionadas à estrutura da empresa. O segundo estágio é chamado de personalização. Nesse momento, o conflito pode ainda não ser percebido, ou seja, mesmo que a oposição potencial esteja presente, uma situação conflituosa só surgirá se ocor- rerem incidentes que causem uma percepção negativa entre os indiví- duos e os grupos. Dependendo da intensidade e da frequência em que esses incidentes ocorrem, a situação vai se agravando, podendo levar ao conflito, que passa a ser explícito e sentido pelos envolvidos. É no terceiro estágio do modelo proposto por Pondy que o confli- to se estabelece de maneira aberta. A postura inicial dos indivíduos, nesse momento, é de defender suas posições e interesses em detri- mento dos interesses gerais da organização. É nessa fase que o líder precisa ser capaz de entender os motivos geradores do conflito para decidir como lidar com a situação. A postura dos indivíduos nessa eta- pa pode ser relacionada aos comportamentos citados por Neto (2005), como: evitar o conflito, negando-o ou ignorando-o; ou enfrentá-lo, competindo ou colaborando com os demais lados. O último estágio é o resultado do conflito. A forma como a lide- rança age em relação a ele é fundamental para gerenciar os impactos desse sobre a organização. Essa fase está relacionada ao conceito de gestão da interface, proposto por Walton e Dutton. Também é possível relacionar esse estágio às formas de se lidar com o conflito propostas por Neto (2005). Se a postura da liderança é negativa, pode resultar em um conflito contínuo e sem solução. Logo, se o líder adota uma postura de buscar a solução do conflito usando ferramentas como a negocia- ção e a mediação, o resultado será positivo, com o fortalecimento do time e a construção de uma relação de cooperação. As quatro fases do modelo proposto por Pondy (BILHIM, 2009) es- tão organizadas na figura a seguir: Administração de conflitos na organização 95 Figura 3 Modelo de Pondy. Fonte: Bilhim, 2009, p. 6. Comportamento adotado: • Competição • Colaboração • Compromisso • Evitação • Acomodação Conflito percebido Aumenta a realização do grupo Conflito sentido Diminui a realização do grupo Conflito aberto Estágio I Oposição potencial Estágio IV Resultados Estágio III Comportamento Estágio II Personalização Antecedentes: • Comunicação • Estrutura • Variáveis pessoais Outro modelo de gestão de conflitos que se destaca é o proposto por Robbins (2005), que divide o processo de conflito em cinco fases distintas, nas quais podemos encontrar diversos pontos de interação com os modelos citados. A primeira fase é chamada pelo autor de opo- sição potencial ou de incompatibilidade. Da mesma forma que nos mo- delos de Pondy e de Walton e Dutton, são as condições anteriores que criam o ambiente para que o conflito ocorra. Essas incompatibilidades podem estar relacionadas à comunicação, que envolvem desde o lin- guajar, a maneira de se comunicar, a intensidade com que se trocam informações ou a presença de ruídos no processo de comunicação que possam distorcer o entendimento da mensagem. A oposição potencial também pode ser fundamentada em questões estruturais, como tama- nho do grupo, grau de especialização dos colaboradores, diferenças de experiência profissional, clareza das regras, processos e normas e até mesmo estilos de liderança. Por fim, as diferenças pessoais de cada indivíduo, como seus valores e suas crenças, seu comportamento e seu momento no ciclo de vida pessoal e profissional. 96 Negociação e gestão de conflitos A segunda fase apontada por Robbins (2005) é a cognição e perso- nalização, momento no qual situações de potencial conflito até podem existir, mas em que ele não é explícito e assumido como tal. Nessa fase, sentimentos e emoções não verbalizados podem gerar insatisfações que levem ao conflito. O autor divide essa fase em dois momentos: a percepção do conflito, em que ambos os lados tomam consciência do problema; e a personalização do conflito, momento em que os indiví- duos assumem um lado e tornam pessoais as questões que levaram à situação conflituosa. Na terceira fase do conflito, os indivíduos transformam os senti- mentos e as emoções gerados pela situação ainda não explicitada em intenções e comportamentos. Ou seja, tomam decisões sobre a forma com que pretendem agir em relação ao conflito. Essa intenção pode ser positiva ou negativa. Nesse momento é comum que os indivíduos adotem posturas por meio de uma percepção muitas vezes equivocada do comportamento que o outro lado tomará. Ou seja, podem decidir adotar uma postura negativa, de competição, por imaginar que o outro lado agirá da mesma forma. O autor aponta cinco tipos de intenção que podem ser adotadas pelos indivíduos: a competição, a colaboração, o compromisso, o evita- mento e o conformismo. A competição ocorre quando cada um dos lados busca defender apenas os interesses próprios, mesmo que isso prejudique o outro lado. A colaboração é o contrário: ocorre quando buscam uma solução conjunta e consensual que possa satisfazer os interesses de ambos e todos saiam ganhando. O compromisso acontece quando os lados es- tão dispostos a renunciar a alguns pontos para que o conflito seja so- lucionado, mesmo que os interesses de cada um não sejam totalmente satisfeitos.Já a intenção de evitamento sucede quando um ou ambos tentam suprimir o conflito, por temer os resultados do enfrentamento. Por fim, o conformismo é quando um dos lados busca apaziguar o con- flito, mesmo que para isso tenha que adotar uma postura submissa e renunciar a seus objetivos. Robbins (2005) classifica essas intenções em uma matriz de duas dimensões: afirmativo/não afirmativo e cooperante/não cooperante, como podemos ver na figura a seguir: Administração de conflitos na organização 97 Figura 4 Matriz de classificação das intenções dos indivíduos Afirmativo Não afirmativo CooperanteNão cooperante Evitamento Conformismo Competição Cooperação Compromisso Fonte: Elaborada pelo autor com base em Robbins, 2005. A quarta fase do conflito, na visão de Robbins (2005), é o comporta- mento, momento no qual o conflito se estabelece e é percebido por todos. É nessa fase que as intenções são explicitadas por meio de declarações, de posturas, de ações tomadas pelos indivíduos e das reações desencadea- das nos demais participantes. Muitas vezes, o comportamento colocado em prática não reflete totalmente a intenção do indivíduo, por falta de capacidade ou pelo contexto externo. Por exemplo, um dos lados pode ter a intenção de cooperar, mas o outro lado pode não aceitar a cooperação. Assim, o comportamento acaba por ser diferente da intenção. As diversas fases do conflito descritas no modelo de Robbins (2005) encontram-se organizadas no Quadro 1: Quadro 1 Fases do conflito Fase 1 Fase 2 Fase 3 Fase 4 Fase 5 Oposição potencial ou incompatibilidade Cognição e personalização Intenções Comportamento Consequências Condições antecedentes: • Comunicação • Estrutura • Variáveis pessoais Conflito percebido ------------------ Conflito sentido Intenções para a manipulação do conflito: Competição Colaboração Compromisso Evitação Conformismo Conflito aberto • Comportamento das partes • Reação dos outros Melhoria do desem- penho do grupo ----------------- Deterioração do de- sempenho do grupo Fonte: Robbins, 2005, p. 328. 98 Negociação e gestão de conflitos Na última fase apontada por Robbins (2005), encontram-se as con- sequências dos comportamentos e das interações que ocorrem por meio da situação de conflito. Se ele for gerenciado de modo correto pelo líder, as consequências tendem a ser funcionais, ou seja, trazem melhorias nos relacionamentos, nos processos de trabalho e no de- sempenho do grupo, além de fortalecerem o sentimento de pertenci- mento e a criatividade do grupo. Porém, se a gestão do conflito não for bem sucedida, as consequên- cias tendem a ser disfuncionais e podem inclusive atrapalhar o desem- penho do grupo, gerando descontentamento, prejudicando as relações pessoais e os laços de companheirismo e reduzindo a eficiência do time. 5.3 Perfil e papel do mediador na gestão de conflitosVídeo Apesar da negociação ser uma característica inerente às relações so- ciais e ocorrer frequentemente no ambiente organizacional, a maioria de seus processos ocorridos no cotidiano profissional não são percebidos como um ato de negociar. Assim, a maior parte dos profissionais reú- ne algumas das competências necessárias para a negociação, mesmo que não sejam treinados para atuar como negociadores. Contudo, esse conhecimento intrínseco dos processos de negociação nem sempre é suficiente para que os profissionais consigam resolver as situações de conflito que surgem nas empresas. Nos conflitos organizacionais, geral- mente as partes envolvidas não têm condições de, sozinhas, resolver a situação conflituosa, seja por estarem emocionalmente envolvidas, seja por não terem a autonomia de tomar decisões e implementar mudanças que sejam necessárias para solucionar o conflito. Assim, se faz necessário que um terceiro elemento atue como mediador do processo de gestão do conflito. Para Andrade, Alyrio e Macedo (2004), por questões hierárquicas e de organização das estru- turas da empresa, é comum que esse mediador seja o líder imediato dos envolvidos, ou no caso de serem indivíduos de diferentes áreas funcionais, o papel de mediador pode ser assumido por um gestor que tenha ascendência hierárquica sobre ambos. É possível também que a função de mediação seja assumida por um gestor ligado à área de Recursos Humanos. Administração de conflitos na organização 99 Porém, o fato de ser um líder ou de ocupar um ofício de gestão não necessariamente significa que o profissional esteja preparado para atuar como mediador. As competências necessárias para atuar como tal em um processo de gestão de conflitos são diversas e bastante complexas, pois exigem uma série de diferentes conhecimentos, ha- bilidades e atitudes de diversas áreas, em especial as relacionadas ao comportamento humano e ao relacionamento que se estabelece nos grupos sociais e profissionais. O gestor de conflitos necessita agir como um conciliador, um me- diador e, em último caso, um árbitro, que definirá a melhor solução para a situação. Como conciliador, sua função é restabelecer a relação interpessoal e a confiança entre os participantes do conflito. Para isso, precisa con- quistar a confiança de cada um, entendendo as questões emocionais envolvidas e reconstruindo a comunicação, tanto formal quanto infor- mal, entre os participantes. Como mediador, seu ofício é mais racional e processual, atuando de maneira neutra e justa, usando as normas, as regras, os aspectos da cultura e dos valores da organização para facilitar a solução do proble- ma usando razão, comunicação e técnicas de negociação. Por fim, como árbitro, seu papel é coletar e analisar todas as in- formações alternativas, tentar conseguir a conciliação e, caso não seja possível que ambos os lados cheguem a uma decisão conjunta, decidir pela melhor forma de solucionar o conflito. Qualquer que seja a função assumida pelo líder, algumas caracte- rísticas são desejadas para que o profissional atue como gestor do conflito. Ele precisa ser confiável e ter o respeito e a credibilidade dos envolvidos. Dentre as competências comportamentais, precisa ser um bom comunicador, ter a capacidade de ouvir com atenção, conhecer as características do comportamento humano, entender como as emo- ções interferem nas decisões e ter sensibilidade para identificar as reais razões que geram ou influenciam o conflito. Ser imparcial é uma das mais importantes características do gestor de conflito, pois ele precisa tomar decisões que levem em considera- ção os interesses e as necessidades de ambos os lados e da organi- zação. Assim, não pode deixar que suas crenças, suas ideias ou suas relações com os participantes interfiram em suas ações. Imparcialida- 100 Negociação e gestão de conflitos de e neutralidade são características interligadas que garantem que as decisões não sejam injustas, mas tomadas tendo como objetivo o bem comum. Mesmo que tenha o poder e a autoridade de tomar e de implantar uma decisão, o gestor de conflitos deve agir com integridade e respei- tar a cultura e os valores de cada um dos participantes, garantindo que a solução não seja imposta, mas aceita pelos lados como a melhor for- ma de resolver o conflito. Dessa forma, todos estarão comprometidos com a implementação das mudanças e das ações necessárias. Como a gestão de conflitos é um processo muitas vezes demorado e cheio de reviravoltas, o mediador precisa também ter paciência e resi- liência, usando sua capacidade de comunicação para manter os canais de negociação abertos e garantir que o processo não seja interrompido. Além dessas competências comportamentais, o gestor de conflitos também precisa reunir uma série de competências técnicas, como o amplo conhecimento da cultura da organização, das normas e das re- gras que regem a estrutura, da legislação do mercado no qual a em- presa atua e das leis trabalhistas que regem as relações profissionais. Precisa da mesma maneira ter conhecimento técnico sobre os pro- cessos de comunicaçãoe de negociação, competências intrinsecamen- te ligadas à gestão de conflitos, como já discutido nesse capítulo. Mesmo que algumas dessas características do perfil do gestor de conflitos sejam ligadas à personalidade do indivíduo, é possível desen- volver e preparar um profissional para atuar como mediador dos con- flitos organizacionais. Essa formação, como pode ser percebido pela diversidade de competências listadas, é marcada pela interdisciplinari- dade e envolve conhecimentos sobre aspectos emocionais, processos de comunicação, diferenças culturais, competências de negociação, co- nhecimentos legais, entre diversos outros. Para ser bem sucedido nesse papel, o profissional precisa também construir relacionamentos sólidos e transparentes com todas as áreas da empresa, para que seja capaz de atuar, se necessário, como conci- liador ou árbitro. Mas sua principal tarefa é ser um facilitador da co- municação e um incentivador da busca por uma solução significativa e positiva para todos os envolvidos. Administração de conflitos na organização 101 CONSIDERAÇÕES FINAIS Além da função de liderar a equipe nas atividades e nos processos diá- rios, o gestor desempenha um papel fundamental na gestão dos conflitos que surgem entre os indivíduos e as áreas funcionais de uma empresa. Para que possa realizar essa importante atividade, assim como as compe- tências ligadas à liderança, o gestor precisa também conhecer como se desenvolvem as etapas de um conflito organizacional e ademais conhecer os diversos papéis que pode desempenhar na gestão de uma situação de conflito, como o de mediador, de conciliador ou de árbitro. Dessa forma, poderá utilizar a estratégia mais adequada para cada caso, atingindo os objetivos da organização e transformando os conflitos em oportunidades de aprendizagem e de desenvolvimento. ATIVIDADES 1. Explique a diferença entre os conceitos de negociação e de gestão de conflitos. 2. Dentre as formas de lidarmos com os conflitos organizacionais, podem ser citadas: a negação do conflito e o enfrentamento do conflito. Explique as duas abordagens destacando pontos positivos e negativos. 3. Dependendo da forma como se gerencia a situação de conflito, as consequências observadas podem ser funcionais ou disfuncionais. Explique a relação entre a gestão do conflito e os tipos de consequências. REFERÊNCIAS ALMEIDA, F. J. R. de; SOBRAL, F. J. B. de A. Emoções, inteligência e negociação: um estudo empírico sobre a percepção dos gerentes portugueses. Revista de Administração Contemporânea, v. 9, p. 9-30, 2005. ANDRADE, R. O. B.; ALYRIO, R. D.; MACEDO, M. A. S. Princípios de negociação: ferramentas e gestão. São Paulo: Atlas, 2004. BILHIM, J. A. Teoria organizacional: estruturas e pessoas. Lisboa: Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, 2009. BURBRIDGE, M.; BURBRIDGE, A. Gestão de conflitos: Desafio do mundo corporativo. São Paulo: Saraiva, 2012. CAXITO, F. de A. Negociação e Vendas. Curitiba: Iesde, 2019. CERIBELI, H. B.; MERLO, E. M. Negociação Empresarial: um estudo multicasos. Revista Pretexto, v. 17, n. 1, p. 99-117, 2016. COELHO JUNIOR, C. P. Negociação empresarial. Curitiba: Iesde, 2011. FISHER, R.; URY, W.; PATTON, B. Como chegar ao sim: como negociar acordos sem fazer concessões. 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As cadeias de valor e de suprimento são construídas com base nas relações comerciais e de parceria entre diversas empresas que procuram atuar em conjunto na busca pelos seus objetivos e interesses. Para que essas cadeias se estabeleçam, é fundamental que existam relações de confiança e de parceria construídas levando em conta negociações claras, nas quais o papel de cada parceiro fica delineado. A boa negociação é indispensável para a sobrevivência das cadeias de valor. 2. De acordo com os objetivos e os interesses que estão sendo negociados, três diferentes relações podem ser estabelecidas em um processo de negociação entre duas empresas. No primeiro tipo, objetivos e interesses são comuns e a negociação é simples e direta. No segundo, objetivos e interesses se complementam, assim, ambas as empresas buscam positivamente o acordo. Já no terceiro tipo, eles são conflitantes, o que exige uma negociação mais elaborada e complexa. 3. No modelo de negociação com base na barganha, é comum que cada um dos lados adote uma sequência de posições, na qual são feitas concessões para que seja possível uma nova posição em relação às propostas. Para Ury, discutir posições gera acordos insensatos: nem sempre a troca é justa, pois um dos lados pode ter mais acesso às informações ou mais poder. É, também, ineficaz, porque os processos podem ser demorados e pouco satisfatórios. Esse tipo de negociação também prejudica a manutenção do relacionamento, segundo o autor, visto que um dos lados pode usar a pressão e o poder para alcançar seus objetivos. 2 Estratégias e táticas de negociação 1. As perguntas fechadas são aquelas que comportam uma resposta simples, como “sim” ou “não”. Alguns exemplos de perguntas fechadas usadas em negociação são: a. Esse produto atende à sua necessidade? b. A forma de pagamento é a mais adequada para você? c. Você concorda com o prazo de entrega? 104 Negociação e gestão de conflitos Já as perguntas abertas não comportam respostas simplificadas e exigem do interlocutor explicar suas opiniões e considerações de modo expositivo. Alguns exemplos de perguntas fechadas usadas em negociação são: a. Para que você usará esse produto? b. Qual característica é mais importante para que você tome a decisão? c. Qual ponto não ficou evidente na apresentação do produto? 2. No modelo de negociação relacional entendemos que o relacionamento continuará após a negociação, de modo que a preservação da relação entre as instituições precisa ser considerada durante o processo. Já no modelo transacional, negocia-se com alguém com quem provavelmente não haverá uma nova interação, portanto, podemos ser mais objetivos, uma vez que não há um vínculo a ser preservado. 3. Após ser apresentada a proposta inicial feita pelo outro lado da negociação, o negociador pode adotar um entre três diferentes caminhos: • Aceitar a proposta nos termos apresentados. Nesse caso, não há, necessariamente, uma negociação, pois o acordo foi fechado sem a necessidade de se discutir as condições, os limites e as concessões. • Negar totalmente a proposta e se retirar da negociação. O negociador pode compreender que a proposta apresentada está fora de seus limites de concessão ou foge totalmente de seus interesses e objetivos. Desse modo, não é necessário realizar uma negociação, visto que não ocorrerá o acordo. • Negar a proposta inicial, mas compreender que é possível, por meio da negociação dos limites, das concessões e condições, chegar a um acordo que possa atender, mesmo que parcialmente, aos objetivos pretendidos. 3 Os conflitos na organização 1. Para o autor, o conflito disfuncional está mais ligado à forma como as pessoas se relacionam. Além disso, é considerado o conflito mais destrutivo, que tem maior potencial de atrapalhar o desenvolvimento do grupo e da organização comoum todo. Já o conflito funcional está relacionado à forma como as atividades e os processos são realizados no cotidiano da empresa. Na visão do autor, os conflitos funcionais são Gabarito 105 positivos, pois podem gerar melhorias no desempenho do grupo e na organização da empresa. 2. O conflito intrapessoal tem como origem os valores, as crenças, as necessidades e os desejos da pessoa que podem ser contraditórios ou antagônicos em relação à cultura da empresa, às atividades que precisam ser realizadas e às decisões que a pessoa precisa tomar para executar suas tarefas. Já o conflito interpessoal acontece a partir do relacionamento que se estabelece entre duas ou mais pessoas. Por fim, o conflito intergrupal surge por que a empresa é constituída de diversos grupos, como as áreas funcionais, departamentos ou grupos informais formados por relacionamentos pessoais 3. O primeiro tipo de condição geradora de conflitos está relacionado à diferenciação das atividades e responsabilidades de cada cargo e de cada área funcional. O segundo tipo de condição é o compartilhamento de recursos entre as áreas e entre os indivíduos. Em geral, nas organizações, os recursos são escassos ou são limitados pelo orçamento e pela busca de resultados financeiros. O terceiro tipo são as atividades interdependentes. Os processos e as atividades que ocorrem dentro de uma empresa não são totalmente independentes. 4 A mediação de conflitos 1. Uma das formas de gerenciar um conflito, na estratégia de formação de equipes, é buscar a melhoria da relação interpessoal e a integração dos indivíduos e dos grupos, com o objetivo de melhorar a eficiência da empresa, diminuir as condições geradoras de conflito e criar um ambiente em que o compartilhamento de funções e a realização de atividades conjuntas permitam uma cultura positiva. 2. Na abordagem mista, o mediador busca estabelecer, em conjunto com os participantes do conflito, uma solução que envolva a criação de papéis integradores assumidos por terceiros, que possam auxiliar na mediação e na busca por uma solução conjunta. 3. Além de muito discutida na área da administração de empresas, a mediação é objeto de estudos da área jurídica, em que a mediação tem sido cada vez mais utilizada como uma alternativa aos longos e custosos processos judiciais. Seja no Direito ou na Administração, a mediação, segundo Shamir (2005), envolve conhecimentos ligados à psicologia humana e dos grupos, à Antropologia e à Sociologia, uma vez que ambas estudam as relações que ocorrem nos grupo sociais; e, também, às Ciências Políticas, que estudam a maneira como as 106 Negociação e gestão de conflitos decisões são tomadas na sociedade. Além disso, na área do Direito, os conhecimentos de mediação também estão ligados à Legislação e à Criminologia. 5 Administração de conflitos na organização 1. Enquanto a negociação tem por objetivo resolver um problema ou uma situação específica de conflito, a gestão de conflitos possibilita um resultado maior e mais significativo, pois permite a melhoria dos processos e dos relacionamentos da empresa. 2. A abordagem de negar o conflito busca evitar o confronto entre os participantes dele. Como ponto negativo, essa abordagem permite que a situação vá se agravando até chegar a um ponto no qual o conflito exploda de maneira violenta, podendo até mesmo impossibilitar a continuidade do trabalho da equipe. Já a abordagem de enfrentar o conflito apresenta como ponto positivo o fato de aproveitar a situação tal qual instrumento de aprendizagem, desenvolvimento e amadurecimento, tanto para os indivíduos quanto para o grupo e para a empresa. 3. Se o conflito for gerenciado de modo correto pelo líder, as consequências tendem a ser funcionais, ou seja, trazem melhorias nos relacionamentos, nos processos de trabalho e no desempenho do grupo, além de fortalecerem o sentimento de pertencimento e a criatividade do grupo. Por outro lado, se a gestão do conflito não for bem sucedida, as consequências tendem a ser disfuncionais e podem inclusive atrapalhar o desempenho do grupo, gerando descontentamento, prejudicando as relações pessoais e os laços de companheirismo e reduzindo a eficiência do time. N eg ociação e g estão d e con fl itos Fab ian o C axito Código Logístico 59637 Fundação Biblioteca Nacional ISBN 978-85-387-6701-5 9 7 8 8 5 3 8 7 6 7 0 1 5 Página em branco Página em branco