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Prévia do material em texto

III.IIIIIIII~III
126087.
Coleção
HISTÓRIA & HISTORIOGRAFIA
Coordenação
Eliana de Freilas Dulra
François Hartog
Evidência da história
o que os historiadores veem
Tradução
Guilherme João de Freitas Teixeira
com a colaboração de Jaime Á. Clasen
1Q edição
1Q reimpressão
autêntica
1---.
i
Copyright © 2005 tditions de I'EHESS
Copyright © 2011 Autêntica Editora
TITULO ORIGINAL
Évidence de /'histoire - ce que voient les historiens
COORDENADORA DA COLEÇÃO HISTORIA E HISTORIOGRAFIA
Eliana de Freitas Outra
PROJETO GRÁFICO DE CAPA
Teco de Souza
EDITO RAÇÃO ELETRÓNICA
Conrado Esteves
Christiane Morais de Oliveira
REVISÃO TtCNICA
Vera Chacham
REVISÃO
Vera Lúcia De Simoni Castro
Lira Córdova
EDITORA RESPONSÁVEL
Rejane Dias
Revisadoconforme o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990,
em vigor no Brasil desde janeiro de 2009.
Todos os direitos reservados pela Autêntica Editora. Nenhuma parte desta publicação
poderá ser reproduzida, sejapor meios mecânicos, eletrônicos, sejavia cópia xerográfica,
sem a autorização prévia da Editora.
AUTÊNTICA EDITORA LTOA.
Belo Horizonte
Rua Aimorés, 981, 8° andar. Funcionários
30140-071 . Belo Horizonte. MG
Tel.: (55 31) 3214 5700
Televendas: 0800 283 1322
www.autenticaeditora.com.br
São Paulo
Av. Paulista, 2073 . Conjunto Nacional
Horsa I . 23" andar. Canj. 2301 . Cerqueira César
01311-940. São Paulo. SP
Tel.: (55 11) 3034 4468
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Hartog, François
Evidência da história: o que os historiadores veem / François Hartog;
tradução Guilherme João de Freitas Teixeira com a colaboração de Jaime
A. Clasen. -1. ed., 1. reimp. - Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2013.-
(Coleção História & Historiografia / coordenação Eliana de Freitas Dutra, 5)
Título original: Évidence de l'histoire : ce que voient les historiens.
ISBN 978-85-7526-584-0
1. Historiografia. 2. História - Filosofia. I. Dutra, Eliana de Freitas.
11. Título. 111. Série.
11-10406 CDD-907.2
fndices para catálogo sistemático:
1. Historiografia 907.2
AGRADECIMENTOS
Agradeço a Caroline Béraud, que mostrou tanta dedicação
(e mais do que isso) por este livro. Minha gratidão também pela
fidelidade dos primeiros leitores que, mais uma vez, continuam
sendo Gérard Lenclud, Jacques Revel e Jean-Pierre Vernant. Meu
obrigado, igualmente, a Pierre Nora, que me incentivou a olhar
para a história contemporânea.
SUMÁRIO
Prefácio........................................................................ 11
PRIMEIRA PARTE
Ver na Antiguidade
Capítulo I - As primeiras escolhas................................... 19
Memória e história...................................................... 24
A evidência antes da evidência..................................... 30
Capítulo 11- Oradores e historiadores...... 37
Eloquência e cidade....................................................... 38
Palavras e ações............................................................ 41
Capítulo 111- Ver e dizer: a via grega
da história (séculos VI-IV a.c.)............................ 45
Escrita e história............................................................ 47
Listase arquivos............................................................. 51
Epopeia e história: Heródoto........................................... 56
Do kleos ao ktema......................................................... 62
O século IV: tornar o passado visível................................ 68
Capítulo IV - O olhar de Tucídides
e a história "verdadeira"................................................ 77
Capítulo V - Ver a partir de Roma:
Polibio e a primeira história universal............................... 93
Quem é Políbio? 95
De que maneira escrever a história? . 101
Tornar-se historiador em Roma..................................... 104
A Constituição Mista. 112
A história contínua..................................................... 115
Capítulo VI - Ver a partir de Roma:
Dionísio de Halicarnasso e as origens gregas de Roma........ 119
Gregos, bárbaros, romanos......................................... 122
Dionísio de Halicarnasso entre os modernos.................. 127
Roma, cidade modelo................................................. 132
SEGUNDA PARTE
Evidências nos Tempos Modernos
Capítulo I - O olhar do historiador e a voz da história .
"Na poeira das crônicas " .
"A visibilidade invisível" .
O visível como ilusão .
Capítulo 11- Michelet, a vida, a história .
A "própria vida" .
"O f" d t"o ICIO os mor os .
Capítulo III - Disputas a respeito da narrativa .
História-narrativa .
História-Geschichte .
"U ., I d . tri /Ima vanave a m nga .
Capítulo IV - O olhar distanciado: Lévi-Strauss e a história .
Primeiro ato .
Continuação e intermédio .
Segundo ato e desfecho .
Capítulo V - A testemunha e o historiador .
A testemunha, de que modo e por quê? .
Da testemunha que escuta à testemunha que vê .
A autoridade da testemunha ocular .
Da testemunha dispensada ao retorno da testemunha .
Capítulo VI - Conjuntura do final
d ' I idênci t- 2e secu o: a eVI encro em ques ao .
Arquivos e história (1979-2001) .
Julgar. .
A hi ,. duzid I . I' 2istório se UZI a pe a episterno ogla .
143
145
149
157
163
165
168
173
175
178
182
185
187
192
198
203
204
212
216
221
229
231
238
246
Epílogo - Michel de Certeau 253
A escrita da viagem........... 256
APÊNDICES
Fontes 265
Referências..................................................................... 267
Prefácio
Há muito tempo - para não dizer, desde a noite dos tempos -, a
história não será uma "evidência"? Ela é relatada, escrita, feita. A his-
tória, aqui e lá, ontem como hoje, é evidente. No entanto, dizer
a "evidência da história" não será, por isso mesmo, suscitar uma
dúvida, reservar espaço para um ponto de interrogação: será isso
assim tão evidente? E depois, de qual história se fala? Daquela que a
Europa Moderna pretendeu transformar, durante algum tempo, na
medida de todas as outras, a ponto de decretar tranquilamente que
certo número de sociedades não tinha história? Sem ser necessário
avançar mais, esse enunciado por si só instila a possibilidade de um
questionamento, convidando a voltar, por exemplo, às primeiras
escolhas efetuadas por uma coletividade humana, uma monarquia
ou um Estado. O que significa dizer que se faz a escolha da história,
que se adota e reivindica uma história? O que implica o fazer histó-
ria e, em primeiro lugar, de que e de quem depende tal operação?
Eis aí um primeiro emprego do termo e uma primeira pista.
Existem ainda outras duas. "Evidência" é uma palavra que está mais
associada à retórica e à filosofia do que à história. Se estivermos
na França, vamos pensar de bom grado em Descartes e em uma
evidência concebida como intuição, visão completa, que fornece a
certeza de um conhecimento claro e distinto (DESCARTES,1953, p.
43-45). Se recuarmos ainda mais no tempo, até a Antiguidade e a
etimologia, vamos encontrar os nomes de Cícero e de Quintiliano,
além de Aristóteles. "Evidência" deriva, com efeito, de evidentia,
11
EVIDÊNCIA DA HISTÓRIA - O QUE OS HISTORIADORES VEEM
palavra que entrou na língua latina graças a Cícero, o qual a havia
forjado para traduzir o étimo grego: enargeía.
Em Homero, o adjetivo enarges qualifica a aparição de um deus
que se mostra" em plena luz".' A palavra orienta para a visibilidade
do invisível, uma epifania, o surgimento do invisível no visível. Para
Aristóteles, é a visão que, "por excelência, é o sentido da evidência".
Associada, com efeito, à visão, a evidência dos filósofos é "critério
de si, índex suí, ligada ao verdadeiro e necessariamente verdadeira.
A enargeía está aí para garantir que o objeto é tal como ele apare-
ce" (CASSIN,1997, p. 19). Desde então, é necessário, e suficiente,
um dizer que diga o mais apropriadamente possível "o que se vê
tal como isso é visto". É, em primeiro lugar, essa evidência que
Cícero (Lucullus, 17) traduz por evidentia. É totalmente diferente o
que se passa com a evidência dos oradores:ela nunca é dada, mas
impõe-se fazê-Ia surgir, produzi-Ia inteiramente pelo logos. Não
estamos na visão, no primeiro sentido, mas no como se da visão,
já que o verdadeiro trabalho do orador consiste em transformar,
como é sublinhado por Plutarco, o ouvinte em espectador. A força
da enargeia permite justamente colocar sob os olhos (pro ommaton
tithenai; ante oculos ponere): ela mostra, ao criar um efeito ou uma
ilusão de presença. Pela potência da imagem, o ouvinte é afetado à
semelhança do que teria ocorrido se ele estivesse realmente presente.
Entre essas duas formas de evidência, em que existe um nítido
deslocamento de uma em relação à outra, mas em que tanto uma
como a outra recorrem à potência do ver, onde situar a história?
O historiador antigo não pode ter acesso à visão do filósofo, mas
também não poderia satisfazer-se com a visão (secundária) do orador.
Surge então o problema, persistente até hoje, da história e da ficção,
e mesmo da história "entre ciência e ficção". De que modo - para
formulá-Io nos termos forjados na atualidade por Paul Ricceur
(2000, p. 306) - "manter a diferença de princípio entre a imagem
do ausente como irreal e a imagem do anterior?".2
1 CHANTRAINE, s.», "cnarges" (claramente, visível, brilhante, evidente), 1968.
2 Sobre esta questão, ver o trabalho meticuloso e inovador de Adriana Zangara, 2004 e 2005.
12
PREFÁCIO
Existe um último sentido da palavra "evidência", aquele que
foi adotado pelo idioma inglês - evidence - como sinal, marca,
prova, testemunho. De natureza principalmente jurídica e judicial,
mas também na área da medicina, esse registro tem sido utilizado
pela história. Uma leitura dos primeiros capítulos de Tucídides é
suficiente para fazer tal demonstração: não prescindindo, de modo
algum, de indícios e provas, ele define a história como pesquisa e
investigação, busca da verdade. Mais amplamente, a associação en-
tre história e justiça, a história como uma forma de justiça, é uma
velha questão da qual dão testemunho, em seu próprio movimento,
as Investigações de Heródoto; além disso, no século Il, Luciano de
Samósata ainda vai adotá-Ia como a última palavra de seu texto -
Como se deve escrever a história -, associando o verdadeiro, a visão
em direção do futuro e uma história justa.
A primeira maneira, entre outras, de questionar a evidência
consiste em recuarmos a montante, em direção das primeiras es-
colhas, em épocas justamente em que a história não era (ainda)
uma evidência. Em seguida, após essa abertura tendo como pano
de fundo o horizonte comparatista, chegaremos às escolhas gregas.
A histeria, como se sabe, emerge da epopeia. Vem dela e a aban-
dona. O mundo mudou. Os deuses deixaram de aparecer; a Musa
desapareceu e ficou em silêncio;' além de se ter fixado a separação
entre o visível e o invisível. Passar da epopeia para a história signi-
fica, em particular, trocar a evidência da visão divina - aquela que
é possuída, justamente, pela Musa que vê e apreende tudo - pela
visão (a estabelecer) do historiador. Aliás, é inclusive esta última que
o levará a ser reconhecido como historiador. Tal como é proposta
e praticada por Heródoto, ela se apresenta como um análogo à - e
um substituto da - visão de que se beneficiava o aedo inspirado.
Adquirida pelo investigador às próprias custas, mistura de vista e
de ouvido, ela é, com efeito, forçosamente incompleta e sempre
precária. Em breve, Tucídides torna ainda mais rígidas as condições
de seu exercício, apostando tudo na autópsia (o fato de ver por si
3 No original: "s'est tue". Vale lembrar que, além de particípio do verbo se taire [calar-se], O termo
"rue" é homônimo de diferentes formas do verbo (se) lIIer [matar-se). (N.T.).
13
EVIDÊNCIA DA HISTÓRIA - O QUE OS HISTORIADORES VEEM
mesmo), a única capaz de produzir um conhecimento claro e dis-
tinto (saphos eidenaii. Mas, para ser validada, essa autópsia, seja ela
direta (a do historiador) ou indireta (a de uma testemunha), deve
ainda passar pelo filtro da crítica dos testemunhos. Esses são os pri-
meiros passos, ou seja, a via grega, do que se pode designar como
a evidência antes da evidência.
Quando, na sequência, a historia se torna cada vez menos uma
investigação, no sentido herodotiano, e cada vez mais a narrativa do
que aconteceu, quando a formulação em narrativa ocupa o primei-
ro lugar, a questão da evidência se desloca do ver para o fazer ver.
Preocupado, antes de tudo, não em relação ao que dizer - os fatos
existem -, mas ao como (a maneira de dizer), o historiador tem,
neste caso, de lidar com a enargeia do orador que, entrementes, se
tornou um conceito operatório. Chega-se, então, à definição ca-
nônica da história como narratio gesto: rei: expressão de que Isidoro
de Sevilha se serve no século VII, mas já posta em prática muito
antes, amplamente em Roma, assim como na Grécia e, muito de-
pois, durante toda a Idade Média até a Época Moderna (GUENÉE,
1980, p. 18-19). Não é verdade que Aristóteles tinha afirmado que
o historiador se limitava a dizer (legein) o que tinha acontecido, ao
passo que o poeta trágico, encarregado do que poderia acontecer,
era um "criador de narrativas"? Um diz (legei), enquanto o outro
faz (poiei). Idealizador de uma história nova - a história universal, a
do mundo conquistado por Roma -, Políbio se esforça por escapar,
nem bem nem mal, dessa camisa de força.
Para La Popeliniere, ainda no século XVI, a história é entendida
como "o narrado das coisas feitas"; por sua vez, Fénelon, ao refletir
sobre a maneira de escrever a história, continua apoiando-se, como
veremos, na divisão entre retórica e poética. Dedicada à historio-
grafia moderna, a segunda parte deste livro acompanha, de fato, o
mesmo questionamento, essas mesmas pistas da evidência, através
de algumas de suas reformulações modernas. De qualquer modo,
é exatamente essa fronteira entre res gestce e historia rerum gestarum
que constitui o alvo das questões formuladas pelos historiadores
modernos, os quais, por sua vez, pretendem deslocá-Ia, superá-Ia,
até mesmo suprimi-Ia ou fazer com que seja esquecida. Para eles,
14
PREfÁCIO
também, a história é uma questão de olhar e de visão: ver em me-
lhores condições, de forma mais abrangente e profunda, além de
ver em termos de verdade, trazer à luz o que tinha permanecido
invisível, mas também fazer ver. Eis o que é testemunhado, por
exemplo, mediante as reflexões sobre a cor local (CESAR, 2004),
por volta de 1820, e muito mais ainda, mediante todos os esforços
despendidos por Michelet, durante quarenta anos, para reencontrar
a vida e "fazer algo de vivo". Mais amplamente, eis o que serve
de inspiração ao movimento da história que, recusando a arte (a
retórica), pretende atingir a visão real das coisas e penetrar na via
da ciência, a partir do modelo das ciências naturais.
Por outros expedientes, os questionamentos dos últimos trinta
anos sobre a narrativa e sobre a escrita da história reencontram (sem
terem conhecimento disso ou, muitas vezes, de maneira confusa)
algo da problemática da evidência (no sentido de enargeia). Meu
objetivo não é certamente dar a entender que a questão teria sido
resolvida, há muito tempo, pelos antigos (entre Aristóteles e Quin-
tiliano) e que, portanto, só nos restaria passar para outro assunto.
Pelas idas e vindas que meu trabalho propõe entre os antigos e os
modernos, ele sugere, ao contrário, que esses percursos ajudam a
compreender melhor tanto uns como os outros: os desafios de seus
debates respectivos, ou seja, também seus não ditos, os impasses aos
quais eles conduzem, além das evidências em que estão apoiados.
A conjuntura do final do século XX poderia ser analisada como
um questionamento da evidência da história (no primeiro sentido).
No momento em que ela parecia triunfar, tendo conseguido conter
a ameaça estruturalista e envolver-se em novas "frentes pioneiras",
eis que surge o "desafio narrativista" - de acordo com a denomina-
ção que, às vezes, lhe tem sido atribuída - com Hayden White no
papel de arauto. O tumulto [trouble] suscitado em torno da narrativa(sobretudo quando o período em questão corresponde ao dos "anos
tumultuados" ["années troubles"]; cf LABORIE, 2001) redundou,
pouco a pouco, em indagações referentes ao papel do historiador
nos dias de hoje: o historiador e os arquivos, seu lugar em relação
à testemunha, ao juiz e, de qualquer modo, sua responsabilidade.
Assim, os últimos capítulos deste livro dedicam-se a circunscrever
15
EVIDÊNCIA DA HISTÓRIA - O QUE OS HISTORIADORES VEEM
algumas das características dessa conjuntura, no momento em que
a divisão entre visível e invisível passava por uma profunda desesta-
bilização, e em que deveria ser repensada a definição a respeito da
evidência: o que há para ver quando se pode ver tudo? Um epílogo,
enfim, evoca Michel de Certeau, grande questionado r da história;
na verdade, trata-se de um autor que, de acordo com a observação
de Jacques Revel, "não se satisfazia com um regime de evidência
fragmentada, nem com um regime de suspeita generalizada" (CIARD;
MARTIN; REVEL, 1991, p. 114).
Os capítulos seguintes constituem pontos de referência e de
passagem: sem terem a pretensão de acompanhar cada um dos re-
gistros da evidência - marcando as diferenças nos usos, rigorosos
ou não, adotados pela história a seu propósito -, menos ainda de se
envolver em uma pesquisa continuada de seus diferentes intrinca-
mentos ou interferências com as reformulações e os retornos desde
a Antiguidade até a Época Contemporânea. Eis o que equivaleria
a escrever, visando o cerne de sua epistemologia, uma história da
historiografia ocidental. A evidência é, aqui, o fio condutor e um
motivo que atravessa, trabalha, reúne estas páginas ao abri-Ias para o
mesmo questionamento: ver e dizer, verdade e visão, dizer e fazer
ver. Se a indagação incide sobre o estatuto da narrativa histórica e
sobre a escrita da história, ela traz em seu bojo outra questão, exa-
tamente aquela que Moses Finley (1981, p. 251) havia formulado
ao terminar sua aula inaugural, em Cambridge: "Qual é o efeito do
estudo da história? Cui bono?Quem escuta? Por quê? Por que nào?"."
Os textos reproduzidos neste livro - artigos e textos publicados
em outras obras - se inscrevem em um percurso de grande amplitude.
O fato de reuni-los me levou a corrigi-los, às vezes, emendá-los - além
de tornar, sempre que me foi possível, a expressão mais precisa -, mas
sem reescrevê-Ias como se tivessem sido concebidos todos em um só
momento. Inscreve-se aí, igualmente, a marca de um trabalho conti-
nuado, portanto, do tempo.
4 o tema da aula era a Constituição dos antepassados e foi proferida em 1971.
16
PRIMEIRA PARTE
Ver na Antiguidade
CAPíTULO I
As primeiras escolhas
Ao pronunciar uma conferência, em Oxford, sobre a escrita
da história na Grécia, Ulrich von Wilamowitz, o grande filólogo
alemão, acentuava que tal assunto nunca tinha sido tratado na
Antiguidade, mesmo que, é claro, se tivesse escrito história nessa
época e mesmo que o historiador se tivesse tomado um personagem
bastante familiar (WILAMOWITZ, 1908). Ora, prosseguia Wilamowitz,
no mundo oriental - mesopotâmico, egípcio ou judaico -, tinha
aparecido muito cedo uma literatura incontestavelmente histórica,
mas sem historiadores. Com efeito, o historiador, como figura
"subjetiva", está ausente dessas historiografias, diferentemente da
Grécia, país em que Heródoto - narrado r-autor, presente desde as
primeiras palavras da primeira frase de suas Histórias - foi designado
justamente como "o pai" da história. Mas, acrescentava ele ainda,
se os gregos haviam conseguido praticar, desde o século V a.c.,
uma história com historiadores, elas não chegaram a conceber uma
história científica que, em resumo, teve de esperar até o século XIX
(o grande Edward Gibbon, 1737-1794, era ainda bastante tributário
de Plutarco). Os antigos permaneceram bem distantes dessa história,
considerando que os postulados da reflexão jônica poderiam ter
culminado mais diretamente em uma ciência da natureza, e não pro-
priamente conduzir para uma ciência da história. E se é exato que,
durante algum tempo, Atenas soube criar, sob o signo da liberdade,
condições favoráveis à constituição de tal ciência, o fracasso final
da democracia, incapaz de fundar um verdadeiro Estado nacional,
deslocou esse quadro e sufocou tais germes. A busca da verdade
19
EVIDÊNCIA DA HISTÓRIA - O QUE OS HISTORIADORES VEEM
desapareceu: a sofistica e a retórica acabaram impondo sem reserva
seu predomínio, e lá se foi a história. Estamos em 1908, e a palavra
está com o professor da Universidade de Berlim.
Iniciar estas reflexões sobre a evidência da história com Wila-
mowitz apresenta uma tripla vantagem: para começar, lembra-nos
que a historiografia é sempre história da história da história (no caso
concreto, da Grécia à Alemanha e vice-versa); o que não implica, no
entanto, produzir um comentário sobre a conferência de Wilamo-
witz! Em seguida, delimita claramente que, se ninguém na Antigui-
dade se tinha dedicado ao exercício ao qual o sábio de Berlim - no
período, pelo menos, de uma visita a Oxford - se tinha prestado,
não é por incapacidade, mas porque simplesmente a questão não se
formulava nesses termos. Escreviam-se histórias: conforme o caso,
explicava-se em um prefácio como convinha proceder (em regra
geral, denunciando os erros e as mentiras dos outros), mas nunca
ocorria o questionamento sobre a história enquanto tal (HARTOG,
1999). Sua evidência não era questionada.
De fato, são raríssimas as observações dos gregos, nem que fosse
apenas a respeito das condições de possibilidade de sua prática. Esta,
por exemplo: "A mitologia e a investigação sobre os tempos anti-
gos só aparecem nas cidades? com o lazer e quando alguns cidadãos
constatam que haviam conseguido juntar tudo o que é necessário
para a vida. Nunca antes" (PLATÃO,Crltias, 110a). Além disso, essa
proposição - que, para concluir, associa preocupação em relação ao
passado, à arqueologia, à pesquisa mitológica e à vida em sociedade-
é apresentada não por um historiador "titular", mas por Platão, que,
por sua vez, a coloca na boca de Crítias citando Sólon, que, por seu
turno, se fazia o eco de afirmações proferidas pelos sacerdotes egípcios!
O texto - Como se deve escrever a história - de Luciano de Samósata,
no século II de nossa era, não constitui uma exceção ao silêncio dos
historiadores sobre os fundamentos de sua escrita, visto que Luciano
era tudo, menos um historiador. E, em terceiro lugar, essas reflexões
No original, cites - plural de cité -, termo utilizado correntemente neste livro e que foi traduzido
por "cidade" com o sentido de "forma específica de organização social"; aliás, tal como é sugerido
nesta citação de Platão, e era o caso das cités da Grécia antiga. (N.T.).
20
As PRIMEIRAS ESCOlHAS
de Wilamowitz nos propõem um critério de divisão entre a Grécia e
o Oriente que nos faz escapar da busca, tão estéril quanto enfadonha,
do que os sábios gregos da Antiguidade designavam como "primeiro
inventor". Não será verdade que os escribas mesopotâmicos se tinham
antecipado amplamente ao jovem Heródoto? A história começa, eis
o que é sobejamente conhecido por todo o mundo, na Sumêria] A
não ser que se deva deixar o papel principal, por impossibilidade de
atribuir o primeiro lugar, à Bíblia.
Vamos inscrever, assim, a questão em um horizonte compara-
tista. Em vez de desdobrar o programa de uma comparação perfei-
ta, trata-se de mostrar uma atenção comparatista (como se fala de
atenção flutuante), preocupada em se referir aos mais importantes
regimes de historicidade, às formas de história, a seus usos e a suas di-
ferenças. Como ocorre com maior frequência, os tempos relevantes
do questionamento surgem por ocasião de momentos de encontro
ou de choque entre duas culturas e duas formas de história: como
se pode verificar em relação ao mundo mesopotâmico e ao antigo
Israel ou, muito mais tarde, como é testemunhado pela aventura
intelectual de um Flávio Josefo, hesitante entre as concepções ju-
daicas da história e a historiografia helenística. No âmbito do mesmo
regimehistórico, os tempos de crise são os mais eloquentes, sempre
que se toma urgente retomar, "revisitar" uma tradição, para estabe-
lecer a legitimidade de um poder e fixar novos pontos de referência.
Assim, entre um grande número de exemplos possíveis, é viável
pensar no estabelecimento de uma lista de reis sumérios, no final
do terceiro milênio; nas novas redações deuteronomistas da Bíblia;
ou nas narrativas produzidas por cidades gregas, preocupadas subi-
tamente com seu passado, no exato momento em que elas saem do
abalo representado pela Guerra do Peloponeso. Nessa perspectiva
de longo alcance, onde situar os primórdios da história em Roma?
Será que eles vêm se inscrever simplesmente nas formas de história
abertas com a Grécia, como um novo exemplo ou, na melhor das
hipóteses, uma variante da "história local", da forma como ela havia
sido inaugurada por Helânico de Lesbos no século V? Ou não se
deixam reduzir completamente a esse modelo, dando testemunho
talvez de outra relação com a memória, a escrita e a instituição?
21
EVIDÊNCIA DA HISTÓRIA - O QUE OS HISTORIADORES VEEM
Essa primeira forma de atenção comparatista pode ser com-
binada com outra que, por sua vez, viria tirar partido da distância
entre antigo e moderno. Evidentemente, não se trata de repetir, na
esteira de Wilamowitz e de um grande número de outros autores,
que a história como ciência é uma conquista do século XIX. Mas,
servindo-nos das reflexões sobre a escrita da história na época moder-
na, deveríamos ser capazes de circunscrever, em melhores condições,
o que ela não era e, acima de tudo, não podia ser, no Mediterrâneo da
Antiguidade. Tal operação teria a vantagem de enriquecer e conferir
maior precisão ao questionário, além de fornecer melhor elucidação
a alguns dos pressupostos constitutivos da prática moderna.
A operação historiográfica moderna, de acordo com a observação
de Michel de Certeau, está colocada, em primeiro lugar, sob o signo
da separação entre o passado e o presente. Concebida desde o final
do século XVIII como desenvolvimento ou processo, a história pres-
supõe - para que sua escrita seja possível - um corte entre o passado
e o presente, entre ela e seu objeto, entre os vivos e os mortos. Ela
"enuncia" a morte e "nega" a perda (DECERTEAU,1975, p. 12). Uma
pesquisa sobre as maneiras de escrever a história encontraria, portanto,
rapidamente o problema das maneiras de aculturar a morte. Que tipo
de relação uma sociedade mantém com os seus mortos? Com a morte?
Em que aspecto e como a história é um discurso de imortalidade que
vem - por exemplo, na Grécia - substituir o canto épico que celebra
a "glória imperecível" dos heróis mortos em combate, forjando algo
de memorável para uma nova memória social do grupo?
A obsessão da morte transformou o historiador ocidental
moderno em homem da dívida. À exigência de ser verdadeiro,
veio acrescentar-se uma dívida, nunca completamente solvável,
em relação aos mortos ou de alguns mortos. Ninguém, além de
Michelet, conseguiu exprimir melhor essa concepção do historiador
como pontifice: ninguém, além dele, viveu mais intensamente esse
sacerdócio do historiador (ver il1Jra, p. 171-172). O que se passa,
atualmente, com ele? Mas o que se passava, antes de mais nada, com
seu longínquo "colega" da Antiguidade? Será que ele estava em
débito" relativamente às gerações do passado? Será que atravessava
(, No original, débiteur, termo francês que admite várias acepções, entre outras, aquele que divulga
notícias. (N.T.).
22
As PRIMEIRAS ESCO~AS
também o rio dos mortos, à semelhança de Ulisses ou de Eneias, ou
então acampava resolutamente na margem do presente, tendo como
primeira, senão única, preocupação "dizer o que havia acontecido"?
Quem é esse historiador? E, antes de tudo, será que ele existe
realmente? Qual seria a existência, de fato, desses escribas com O
encargo de se tornarem os "porta-vozes" e os "porta-cálamos"
(porte-plume) do rei ou do deus? Enquanto, no mundo grego, o
historiador, rival e sucessor do aedo inspirado pela Musa, assina sua
narrativa com seu nome próprio e diz "eu". Mas é também nesse
ponto, pelo fato precisamente de que o historiador reivindica um
lugar, que surge - talvez, pela primeira vez - a distinção, a alter-
nativa entre fazer a história e fazer história, sob a dupla figura do
historiador e do político. Tratando-se de Tucídides e de Políbio,
eles foram sucessivamente: homens de ação, envolvidos na política;
e, em seguida, historiadores ao começar para ambos o tempo do
exílio. Mas eles acabaram por conceber e apresentar a história como
um análogo da política, para não dizer, inclusive, como uma política
de categoria superior, simultaneamente retrospectiva e prospecti-
va, destinada em prioridade aos políticos do presente e do futuro.
Com a questão do político e do historiador, consolida-se uma das
encarnações recorrentes das relações entre a história e o poder. Qual
é, então, a autoridade da história? Quem a autoriza, mas também
de que autoridade é portadora ao ser produzida e depois de sua
produção? Cui bano?
Ao longo dos séculos, tornou-se evidente para nós que a histó-
ria se escrevia, que um poder, um grupo, uma sociedade, segundo
modalidades e protocolos diversos, tinha o cuidado, o encargo,
para não dizer, o dever de registrar sua memória e de escrever sua
história. Será que foi sempre assim? Ninguém está em condições de
fazer tal afirmação. Pode-se vislumbrar vários cenários possíveis de
seu desaparecimento; eis o que poderia ser outra maneira de refle-
tir sobre suas condições de possibilidade. Terá sido sempre assim?
Todos sabem muito bem que a resposta é negativa. Sob as formas
pelas quais temos conseguido conhecê-Ia, ela teria aparecido, de
preferência, como uma singularidade ocidental, ou seja, como o
23
EVIDÊNCIA DA HISTÓRIA - O QUE OS HISTORIADORES VEEM
vestígio e a expressão de uma relação particular à escrita, à memória
e ao tempo, assim como à morte. Ainda recentemente, Marshall
Sahlins - ao pesquisar a partir das ilhas do Pacífico que haviam entrado
tardiamente em nossa história - trabalhou o axioma: "outro tempo,
outros costumes, outra história". Por outro tempo, convém entender
outra relação com o tempo, outras formas de temporalidade; outro
regime de historicidade (SAHLINS,1989; HARTOG, 2003, p. 38-42).
Memória e história
Vou apresentar dois exemplos: o primeiro - o da Índia - vai
além do horizonte do Mediterrâneo na Antiguidade; o outro nos
reconduz completamente a esse horizonte, o do antigo Israel. Ao
chamar a atenção para o "problema da história" na Índia, Louis
Dumont se tinha dedicado, outrora, a mostrar a necessidade de
"construir os dados indianos em suas próprias coordenadas em vez
de projetá-Ios nas nossas" (DUMONT, 1964, p. 33); caso contrário,
torna-se impossível escapar às considerações, mais ou menos sofisti-
cadas, sobre um mundo indiano sem história. Essa era, por exemplo,
a posição de Wilamowitz em sua conferência.
Quando falamos de história - escrevia Dumont -, além de uma
cronologia absoluta ou relativa, temos em vista uma cadeia
causal, ou, melhor ainda, um conjunto de mudanças significa-
tivas, um desenvolvimento. [... ] Vivemos na história no sentido
em que concebemos a existência dos homens, das sociedades e
das civilizações como se ela não aparecesse de forma verdadeira
e completa a não ser em seu desenvolvimento no tempo. [...]
Por pouco chegaríamos a crer que o sentido é algo exclusivo
da mudança e que a permanência não o tem, enquanto a maior
parte das sociedades acreditaram o contrário (DUMONT,p. 32,
grifo do autor)."
Essa concepção do tempo como vetor e fator de progresso é
recente. Datando da Europa do Iluminismo, ainda de acordo com
a evocação desse autor, ela é ao mesmo tempo afirmação nova e
retomada, laicizada, de uma visão cristã escandida pela criação, pela
Sobre estas questões, ver a obra esclarecedora de: RAO; SHULMAN; SUBRAHMANY AM,
2004; THAPAR,2000.
24
As PRIMEIRAS ESCOlHAS
encarnação e pelo fim dos tempos. Ela encontra sua plena realização
na filosofia hegelianada história e no materialismo histórico de
Marx. A verdade já não está em um livro ou, de preferência - para
retomar uma fórmula de Herder -, a história se apresenta como o
verdadeiro livro "da alma humana nos tempos e nas nações", em
que é possível decifrar a imortalidade (pelo menos, potencial) não
dos indivíduos, mas da humanidade. Daí em diante, a história é
para os homens o que a espécie é para os animais; em relação ao
historiador, o mais importante aspecto de sua tarefa é, portanto,
tornar-se historiador da espécie.
Do ponto de vista da prática da história, tal apreensão do tempo
pode levar à sua instrumentalização. O tempo é a cronologia, e a cro-
nologia é o princípio de classificação dos objetos históricos. O anacro-
nismo se torna, portanto, o principal pecado. Mas, na evidência da sua
onipresença, o tempo corre, então, o risco de se tornar o impensado
de uma disciplina que se proclama o mais rigoroso de seus contadores.
Ao lado dessa perspectiva moderna e ocidental, na qual pre-
domina a lei da sucessão, há motivo, portanto, para reservar lugar
a outras maneiras que privilegiem o "empilhamento", a "superpo-
sição", a "imitação", a "coexistência" e a "reabsorção". Assim, na
Índia bramânica, a memória não se preocupava com o encadeamento
das lembranças, nem com sua distribuição segundo uma cronologia.
Procurava-se inutilmente, escreve Charles Malamoud, a ideia de
um "mundo da memória". "Bem longe de desenhar os contornos
de uma biografia, as lembranças transformam os limites da pessoa
em uma zona fora de foco e um circuito não fechado".
A tal ponto que, "se consegui dominar as técnicas apropriadas
e, sobretudo, se ganhei os méritos necessários, posso, como se sabe,
me lembrar de minhas vidas anteriores" (MALAMOUD,1989, p. 303).
Essas breves citações são suficientes para nos levar a apreender a in-
terdependência desses três termos problemáticos (tempo, memória,
indivíduo) e para lançar, durante um instante, um clarão sobre sua
configuração singular.
Ao lado dessa memória comum, voltada para a rememoração,
existe outra, trabalhada, reservada e controlada estreitamente, que tende
inteiramente para a memorização, na qual se apoia a aprendizagem
25
EVIDENCIA DA HISTÓRIA - O QUE OS HISTORJADORES VEEM
decorada do texto sagrado do Veda. Se ele já se encontra escrito, no
núnimo, desde o século Ill antes da nossa era, esse livro serve-se, como
suporte para sua transmissão, não da escrita, mas, em primeiro lugar,
da memória e da voz. Por uma verdadeira série de técnicas bastante
elaboradas, que levam a "desarticular" o texto, os brâmanes garantem,
de fato, sua progressiva "incorporação" à pessoa do aluno. Até que a
recitação possa ser feita sem faltas: um erro seria um pecado e, ao mesmo
tempo, uma catástrofe no plano ritual. Malamoud explica como, no
termo dessa ascese, o texto se apresenta como um objeto desprendido
de qualquer contexto e atemporal.
Ele impõe sua presença fixa, amadurecendo no espírito que
o acolhe sem que as etapas da maturação sejam perceptíveis à
consciência. Além disso, no saber assim incorporado, apaga-se
a percepção daquilo que une esse texto ao mundo dos fatos ex-
tratextuais no qual ele havia surgido (MALAMOUD, 1989, p. 305).
Sem visar à apreensão de um indivíduo por si mesmo, em e
através de uma cronologia, essa memória-rememoração não funciona
absolutamente como uma memória biográfica. Pelo recurso a essa
forma codificada de aprendizagem decorada, ela mantém a distância
qualquer possível historicização da tradição.
Com essa impressionante cultura da memória, estamos posiciona-
dos nos antípodas do que se havia estabelecido, durante muito tempo
a partir de um modo crítico, entre a memória e a história no mundo
europeu. Para prolongar as observações de Sahlins, seria possível propor:
"Outra memória, outra temporalidade, outra historicidade". Desde o
início de suas Histórias, Heródoto, o pai da história ocidental, estabe-
lece, de fato, que ele pretende salvar do esquecimento as marcas (pelo
menos, as "grandes") da atividade dos homens (erga megala). Diante da
imutabilidade da natureza e à imortalidade dos deuses, a palavra/fà.la
[parole] do historiador assume o encargo desses vestígios fundamental-
mente efêrneros, os quais são fixados por sua escrita. Sucessor do aedo
épico, ele aspira a se apresentar como "senhor" da imortalidade.
Mas se história e memória tiveram, de saída, um projeto comum,
suas relações efetivas foram complexas, mutáveis e conflitantes. Assim,
em sua pretensão de comprovar que só a história do presente pode
ser" científica", Tucídides concluía que a história se faz amplamente
contra a memória (sempre falível). E seus longínquos colegas do
26
As PRIMEIRAS ESCOLHAS
século XIX são, por sua vez, favoráveis a uma estrita separação
entre história e memória, mas desta vez em nome do ideal de uma
história no passado e apenas no passado: a história termina onde
começa a memória. Somente há pouco tempo é que ocorreu uma
reviravolta: a invasão do campo da história pela memória. Daí, a
obrigação de repensar a articulação das duas. Como será possível, a
propósito do Shoah [Holocausto], conciliar a exigência de memória
com a necessária história? Essa situação nova, que coincidiu com
a crise da década de 1970, foi testemunhada pela enorme onda das
comemorações, com suas liturgias e encenações: para quais crentes
ou espectadores? Ao passo que, entre os historiadores, a memória,
até então considerada uma fonte impura, transformou-se em um
objeto de história de pleno direito, com sua história.
Zakhor, "Lembra-te!", em hebraico, é a injunção que vem
escandir a narrativa bíblica e todo o judaísmo: eis o nosso segundo
exemplo. Israel recebe, incessantemente, a ordem de lembrar-se,
de não ceder ao esquecimento. "Recordarás todo o caminho
que Javé, teu Deus, te fez percorrer durante os quarenta anos no
deserto. [...] Presta atenção para não esqueceres teu Deus que te
fez sair da terra do Egito, da casa dos escravos". Zakhor é, obvia-
mente, o título do livro de Y osef Yerushalmi que se apoia nesse
imperativo de memória para estudar a relação dos judeus com
seu passado. Texto sagrado, texto escrito, a Bíblia é, em primeiro
lugar, um texto revelado: como o Veda, deve-se estudar a Torah,
aprendê-Ia e memorizá-la; mas a maneira de fazer é totalmente
diferente daquela que é adotada em relação com o Veda. Nada
leva a desarticular e a descontextualizar o texto. Pelo contrário, é
importante o que se passou, o próprio acontecimento e a maneira
como ele ocorreu: a começar pela revelação divina (MALAMOUD,
p. 305-306). "Vai, reunirás os anciãos de Israel- eis a ordem de
Javé a Moisés - e tu lhes dirás: Javé, Deus de vossos pais, apareceu
a mim, ele, o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó, para dizer: Eu
vos visitei realmente e sei o que vos foi feito no Egito". Israel
aprende e ensina a aprender "quem é Deus pelo que ele fez na
história" (YERUSHALMI,1984, p. 25). A revelação é história, e,
desde a saída do paraíso, o tempo das origens transformou-se
em tempo histórico. Assim, a narrativa bíblica - histórica em
sua economia profunda - deve ser a memória dessa marcha do
27
E~DÊNCIA DA HISTÓRIA - O QUE OS HISTORIADORES VEEM
tempo e dos homens. Ela é memória da história ou, igualmente,
história-memória. Dando testemunho das transgressões em relação
à Aliança, ela é memória dos esquecimentos e, ao mesmo tempo,
recurso para lutar contra o esquecimento. De modo diferente da
Índia, a injunção a se lembrar é válida não, em primeiro lugar ou
exclusivamente, para um grupo ou para uma casta, mas para todo
o povo judeu. Longe de ser "saída" fora do tempo, essa memória,
que memoriza e não cessa de se lembrar, é inscrição em uma tem-
poralidade: no tempo em que é relatada, mas também no tempo
daquele que relata. Neste aspecto, indica-se uma configuração
totalmente diferente do tempo, da memória e da história.
Mas a exigência de memória não implica nenhuma curiosi-
dade em relação ao passado enquanto tal. Nem a ideia de que se
deve, de acordo com Heródoto, salvar do esquecimentoos erga,
as marcas e os vestígios de valor relacionados com a atividade
dos homens. Israel "recebe a ordem de se tornar uma dinastia
de sacerdotes e uma nação santa; em nenhum lugar, é sugerido
que se torne uma nação de historiadores" (Ibíd., 1984, p. 26).
De Manassés, por exemplo, rei poderoso de Judá, nada sabemos
além de que "praticou más ações diante de Javé". O único pas-
sado importante é o das intervenções de Deus na história, assim
como o das reações humanas que lhes são inerentes; deste modo,
o único esquecimento que se deve ter sempre na memória, ou
nunca esquecer, seria o "esquecimento" de Javé.
Ora, se osjudeus nunca renunciaram ao imperativo de memó-
ria, chegou o momento em que eles deixaram de escrever a história;
talvez eles tivessem se tomado de tal modo um "povo-memória" que
cessou essa escrita. Memória e história, até então reunidas, davam
a impressão de se separarem. De fato, "os rabinos nunca chegaram
a escrever a história que aconteceu depois da Bíblia": a literatura
rabínica nada tem de historiográfico, em nenhum sentido do termo
(YERUSHALMI, 1984, p. 36).8
• Na sequência, a resposta de Amos Funkenstein (1993), para quem os judeus não cessaram de
compartilhar uma consciência histórica entre Yavne [cf parágrafo seguinte e última frase deste
subcapítulo] e o século XIX. Ver, daqui em diante, a pesquisa de longo alcance empreendida por
Sylvie-Anne Goldberg (2000 e 2004) sobre a noção de temporalidade no mundo judaico, a qual
permite sair da oposição, demasiado simples, entre a memória e a história.
28
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As PRIMEIRAS ESCOlHAS
A linha divisória coincide, como já tem sido observado, com
o Sínodo de Yavne (c. 100 d.C.), que fixou o cânon definitivo da
Bíblia judaica. Como a exceção acaba confirmando a regra, ergue-
-se, do lado da historiografia, a figura de Flávio Josefo, sacerdote e
historiador: "Atualmente, sabemos que, entre os judeus, o futuro
pertencia aos rabinos, não a Josefo. Sua obra não teve nenhuma
posteridade entre os judeus, e foi necessário esperar quase quinze
séculos para que outro judeu se declarasse como verdadeiro historia-
dor" (YERUSHALMI, 1984, p. 32). No entanto, prossegue Yerushalmi,
seria falso tirar a conclusão de que a história não suscitava o interesse
dos rabinos; pelo contrário, sua atitude é mais compreensível se
lhes for atribuída uma "impregnação absoluta" pela história. Livro
da história já ocorrida, a Bíblia fornece também a trama de toda a
história presente e futura. Seu sentido é claro, todo o resto é apenas
contingência sem verdadeiro interesse. Em 70 d.C. (com a destrui-
ção do Templo de Jerusalém por Tito) , como em 587 a.c. (com a
tomada de Jerusalém por Nabucodonosor), encontra-se o pecado.
Nos tempos da Bíblia, o sentido dos acontecimentos históricos
particulares era desvendado pelo olhar em profundidade lançado
pela profecia. Mas esses tempos eram passados. Se os rabinos eram
os sucessores dos Profetas, eles mesmos não reivindicavam tal
função. As idas e vindas dos procuradores romanos, as questões
dinásticas dos imperadores romanos, as guerras e as conquistas dos
partos e dos sassânidas não forneciam aparentemente nenhuma
revelação nova, nem útil, ao que já se sabia (Ibid., 1984, p. 40).
Tampouco as lutas entre os próprios judeus. Já não havia
necessidade de profetas, nem havia necessidade de historiadores;
daí o drama, talvez, o dilema e, para nós, o lugar excepcional de
Flávio Josefo.
O importante, aqui, é somente esse fim da história - pelo
menos, de sua escrita -, ao passo que o caráter fundamentalmente
histórico do judaísmo permanecia imutável. Tal abordagem suscita
questões difíceis. Em primeiro lugar, onde e quando seria seu "iní-
cio"? Será que é suficiente fazê-lo coincidir com Yavne e a fixação
do cânon? Será impensável fazê-lo recuar mais longe, até a volta
do Exílio, ou até o Exílio propriamente dito? Ou, outra maneira
29
EVlD~NCIA DA HISTÓRIA - O QUE OS HISTORIADORES VEEM
de formular a mesma questão (à qual não sou capaz de responder):
na Bíblia, onde se interrompe a escrita e onde começa a reescrita? E
ainda: como considerar o profetismo e a apocalíptica? Qual seria o
tipo de objetivo histórico visado por um e pela outra? Enfim, que
vínculo se estabelece entre a história e o lugar? Na ausência de lugar,
com a destruição do segundo Templo, a escrita da história será (ainda)
possível? De novo, seria possível recorrer ao testemunho de Flávio
Josefo, que sublinha com vigor o vínculo entre a historiografia, em
sua própria possibilidade e seu exercício, por um lado, e, por outro, o
Templo, que é o único a credenciar e autorizar "o historiador". Nos
antípodas da "cacofonia" grega em que cada um, autoproclamando-se
historiador, começa por autorizar-se a si mesmo. Quanto a Yavne, a
escola aberta por Yohanan ben Zakkai, no momento da destruição do
Templo, foi um "lugar de memória" ("uma fortaleza erguida contra
o esquecimento"; YERUSHALMI,1988, p. 3), mas não uma oficina de
história. Eis o que, em 1938, Freud diz de modo admirável:
A desventura política da nação (judaica) ensinou-Ihes a apre-
ciar, em seu devido valor, a única propriedade que lhes restara,
sua Escritura. Imediatamente após a destruição do Templo de
Jerusalém por Tito, o rabino Yohanan ben Zakkai solicita a
autorização para abrir, em Yavne, a primeira escola em que
havia de ser ensinada a Torah. A partir desse momento, a Es-
critura Sagrada e o interesse espiritual é que mantiveram junto
o povo disperso (FREUD, 1986, p. 214).
A evidência antes da evidência
Ao falar das artes da Índia e da China, Maurice Merleau-Ponty
sugeria "avaliar as possibilidades de que nos havíamos privado ao
nos tornarmos ocidentais". A proposição poderia ser válida igual-
mente para refletir sobre os primórdios da história. Não se trata
de um gosto particular da minha parte pelas origens, mas porque
assim é possível dispor de uma espécie de situação experimental;
deste modo, verifica-se a possibilidade de apreender configurações
a partir das quais se efetuaram bifurcações ou escolhas que poderiam
não ter existido ou terem sido diferentes; em seguida, tinham sido
esquecidas ou se tornaram tão evidentes que se deixou de pensar em
30
As PRIMEIRAS ESCOLHAS
questioná-Ias. Avalia-se também a verdadeira distância que há entre
um "interesse civilizado: o passado" e a emergência de um "pen-
samento histórico", sempre movido pela preocupação do presente.
Voltemo-nos durante um instante para a Mesopotâmia já
evocada, região em que, no final do terceiro milênio, a monarquia
de Akkad - a primeira que havia conseguido unificar o país sob
sua autoridade - recorreu a escribas para escrever "sua" história,
ou seja, legitimar seu poder no presente. Mas, sem me deter nesse
primeiro modelo de historiografia régia e monumental, tão incontes-
tável quanto simples no seu procedimento, eu gostaria de chamar a
atenção para os intercâmbios que, segundo parece, se estabeleceram
entre a adivinhação e a história. Sabemos que, na antiga Mesopotâ-
mia, a adivinhação tinha muita importância na tomada de decisões
(BOTTERO, 1974; GLASSNER, 1993). De que maneira trabalhavam os
adivinhos? Eles acumulavam, classificavam casos, elaboravam listas
e compilavam, de modo que chegavam a constituir verdadeiras bi-
bliotecas. Eles eram orientados por um ideal de exaustividade que,
por sua vez, era regulado pela lógica do precedente. Tal atividade
nos aponta para o saber do juiz e a prática do tribunal; ou, dito por
outras palavras, antes de perscrutar o futuro, a adivinhação é, em
primeiro lugar, uma ciência do passado.
Ora, em Mari, foi encontrada uma série de oráculos (datados do
começo do II milênio) aos quais os eruditos modernos atribuíram a
denominação de "oráculos históricos" . Em vez de enunciar segundo
o modelo canônico - "Se o fígado do animal (sacrificado) se apre-
senta assim, é sinal de que o rei tomará a cidade de tal maneira" -,
eles dizem: "Se o fígado do animal se apresenta desse modo, é sinal
de que o rei tomou a cidade de tal maneira". Essa passagemdo futuro
para o fato consumado tem algo de surpreendente e, talvez, tanto
mais que os acontecimentos a que fazem referência são considerados
pelos modernos como eventos realmente ocorridos. Assim, alguns
autores pretenderam descobrir nesse material o verdadeiro início da
historiografia mesopotâmica. Em primeiro lugar, a adivinhação e,
em seguida, a história. Sinólogos, tais como Léon Vandermeersch,
têm defendido o mesmo ponto de vista a propósito da historiografia
chinesa (VANDERMEERSCH, 1994, p. 108).
31
EVIDÊNCIA DA HISTÓRIA - O GlUE OS HISTORIADORES VEEM
Minha incompetência no assunto me impede de tomar partido,
mas o único ponto que me interessa neste caso é o seguinte: os dois
procedimentos, o divinatório e o historiográfico, parecem depender
do mesmo espaço intelectual. Do ponto de vista do consulente, em
regra geral, o rei: ele vem procurar uma ajuda para a decisão. Do
ponto de vista dos especialistas consultados, os escribas: anotar um
oráculo "histórico", transcrevê-Io e estudá-Io é acrescentar uma
configuração oracular às suas listas e aumentar seu estoque de pre-
cedentes. Pode-se imaginar também que o trabalho se faz, então,
no outro sentido, partindo do acontecimento (o anúncio da tomada
da cidade) para decifrar (verificar) os sinais inscritos no figado. Ou,
outra possibilidade: não será que eles podem copiar inscrições régias
históricas que relatam essa ou aquela ação do rei? Em seguida, com
base nas listas de oráculos já devidamente repertoriadas, eles tentam
levá-l o a corresponder à prótase (o estado do figado) implicada ou
que deveria implicar normalmente esse acontecimento.
Tal investigação poderia ser prolongada até Roma, levando em
conta os famosos Anais pontiJicais, inclusive, tanto mais famosos pelo
fato de terem desaparecido. É sabido que, em cada ano, o soberano
pontífice redigia uma crônica (tabula) que ele afixava na frente da
sua residência. Cícero fez dessa transcrição o ponto de partida, ainda
desajeitado e sem afetação, da historiografia romana. Ao retomar esse
dossiê, John Scheid mostrou que devia tratar-se de um documento
que, no final de cada ano, fazia o balanço do estado das relações da
cidade com os deuses (SCHEID,1994). Competia ao pontijex maximus
compilá-lo, em função do poder que recebera para "fixar em sua tabula
a memória dos acontecimentos". Quais acontecimentos? As vitórias, as
calamidades, os prodígios, mas coletados e tratados unicamente como
outros tantos sinais que permitem manter em dia a contabilidade da
piedade. Em particular, o que convinha receber como prodígios e de
que maneira deveriam ser "expiados". História "oficial" de Roma,
se preferirmos, ou história "religiosa", mas dividida segundo o ritmo
do calendário da cidade, essa compilação respondia às perguntas:
em que situação nos encontramos em relação aos deuses? Teríamos
feito o que convinha? Quem está em débito? O que se deve fazer?
E o pontífice era, por sua vez, um homem de arquivos, orientado
32
As PRIMEIRAS ESCOLHAS
pela investigação de precedentes (particularmente, em matéria de
prodígios), mas sobretudo preocupado com o presente. Competia-lhe
fornecer, em cada ano, aos novos cônsules, no momento de sua
tomada de posse, um relatório sobre a situação religiosa da Cidade.
Outras, certamente, foram as escolhas da cidade grega. A adi-
vinhação estava também presente, e existiam coletâneas de oráculos.
Mas a historiografia - o que já para os gregos e, em seguida, para os
modernos, se tomou a "história" - procedeu de outra maneira. Ela
pressupunha a epopeia. Heródoto pretendeu rivalizar com Homero e,
como já escrevi, ele tomou-se finalmente Heródoto, tendo decidido
fazer - em relação às recentes guerras contra os persas - o que Homero
tinha feito relativamente à guerra de Troia. Escrever a história será,
desde então, tomar como ponto de partida o conflito e relatar uma
grande guerra, fixando sua "origem" (designação de seu responsável
- aitios - para Heródoto, ou dedução da "causa mais verdadeira" para
Tucídides (DARBo-PESCHANSKI,2004, p. 28). De modo diferente da
Bíblia, que pretende ser uma história contínua desde o começo dos
tempos, os primeiros historiadores gregos se fixam um ponto de partida
e se restringem à narrativa de uma sequência limitada (o que não im-
pede, ao contrário, para Heródoto, o retomo a episódios do passado).
Ao celebrar as façanhas dos heróis, o aedo da epopeia tinha a ver
com a memória, com o esquecimento e com a morte. Do mesmo
modo, Heródoto pretende impedir que as marcas da atividade dos
homens se apaguem, ao deixarem de ser relatadas. Mas ele se limita
ao que aconteceu "por obra dos homens", em função do que ele
"sabe" e em um tempo definido, igualmente, como "tempo dos
homens". Enquanto o aedo recebia seu saber da Musa, a qual, tendo
o privilégio de estar sempre presente, via tudo, o historiador não
terá outra escolha além de recorrer à historia: espécie de substituto
destinado a fornecer-lhe, dentro de certos limites, uma "visão"
análoga àquela, daí em diante inacessível, prodigalizada pela Musa
(HARTOG, 2001, p. 31). Essa primeira "operação" historiográfica
encontra e fortalece a primazia concedida pelos gregos ao sentido da
visão como instrumento de conhecimento. A partir daí, a história
da historiografia ocidental poderia ser escrita em contraponto de
uma história do olhar e da visão.
33
EVIDÊNCIA DA HISTÓRIA - O QUE OS HISTORIADORES VEEM
Se, em relação às historiografias orientais, os gregos são retar-
datários, é com eles - justamente, com Heródoto - que surge o
historiador como figura "subjetiva". Sem estar diretamente comis-
sionado por um poder político, desde suas primeiríssimas palavras,
ele vem marcar a narrativa que começa pela inscrição de um nome
próprio: o seu. De saída, reivindicado, esse lugar de saber deve ser,
no entanto, inteiramente construído: ele corresponde, evidente-
mente, à obra em si. Deste modo, os gregos seriam os inventores
não tanto da história, mas do historiador como sujeito que escreve.
Tal modo de afirmação de si e de produção de um discurso não foi
absolutamente a realização apenas da historiografia; pelo contrário,
ele é a marca, propriamente falando, a assinatura dessa época da his-
tória intelectual grega (entre os séculos VI e V a.c.) que, no mesmo
período, assistiu ao ascendente do "egotismo" entre os artistas, os
filósofos da natureza e os médicos (LLOYD,1987, p. 58-70).
Figura nova no cenário dos saberes, mas não surgida do nada, o
historiador não tardará, no entanto, a inclinar-se diante do filósofo
que, a partir do século IV, há de tomar-se a referência principal e,
por assim dizer, o padrão do intelectuaL O filósofo vai tomar-se um
homem de escola, o que não ocorrerá com o historiador; mas, daí
em diante, a questão de seu lugar, de sua relação com a instituição
não cessará de ser formulada. Desde o momento em que a história
deixará de pretender a ser a ciência política tal como Tucídides
desejava ou teria desejado que ela fosse, restará ao historiador
esforçar-se por convencer que a história é também filosófica e pode
ser agradável e útiL Eis o que será, finalmente, a apresentação da
história como magístra vitce e filosofia moral: pregando por meio de
exemplos, ela pretende ser não tanto uma ciência da ação, mas a ação
sobre si. No entanto, em relação às escolhas de Tucídides, restará
este ponto, sublinhado frequentemente por Arnaldo Momigliano: a
história verdadeira será, antes de tudo e durante um longo período
de tempo, a história política, deixando de lado todo o campo das
Antiguidades ou da erudição. É somente na época moderna, com
Gibbon, que há de verificar-se a associação entre investigações de
acervos antigos e história (MOMIGLIANO,1983, p. 334).
Uma das freadas, com graves consequências, impostas às ambi-
ções da história tucididiana foi certamente o que Aristóteles havia
34
As PRIMEIRAS ESCOLHAS
formulado no capítulo IX da Poética. Tucídides tivera a ambição de
transformar sua obra, segundo a fórmula célebre, em um ktema (uma
aquisição valiosa) para sempre: ao invés de selimitar a evitar que as
realizações notáveis fossem atingidas pelo esquecimento, cuja ação
nada faz além de apagar, sua finalidade consistia em transmitir aos
homens do futuro um instrumento de inteligibilidade dos próprios
presentes. Ao avançar assim do presente (e não do passado) para
o futuro, o objetivo não era o de uma previsão, mas antes o de
uma decifração dos presentes por vir, porque, considerando o que
são os homens, outras crises - não as mesmas, mas análogas - não
deixarão de se desencadear no futuro. A permanência da natureza
humana serve de fundamento à exemplaridade (ideal-típica) desse
conflito, designado (para sempre) por seu historiador, como "a"
guerra do Peloponeso.
Ora, opondo-a à poesia, Aristóteles, como se sabe, instala
a história do lado do "particular", ao que Alcibíades fez ou lhe
aconteceu. Por sua vez, o "geral", por definição, está fora de seu
alcance. Daí, segue-se que a poesia é mais "filosófica" do que a
história. Na sequência, Políbio, por exemplo, tentou contradizer
a argumentação de Aristóteles, ao demonstrar que a história é mais
filosófica que a poesia porque ela é uma tragédia verdadeira, mas
seus esforços não chegaram a ser realmente coroados de sucesso.
A posteridade não lhe reconheceu grande importância, embora
os humanistas tivessem retomado os termos do debate (ver infra,
p. 109-112). Em compensação, a divisão aristotélica permanecerá
uma das principais escansões da historiografia ocidental e há de
alimentar questionamentos recorrentes. Se as maneiras de formulá-
los passaram por consideráveis modificações - tratando-se, por
exemplo, das indagações sobre as partes respectivas do individual
e do coletivo, da história concebida como ideográfica ou nomoté-
tica, ou dos debates em torno de ficção e história, etc. -, elas não
deixam de remontar, em resumo, a esse primeiro abalo. Temos aí
o início de uma configuração de duração muito longa referente
ao problema da evidência da história.
Essas observações não visavam, de modo algum, defender que
tudo se encontra ou tudo se decide nos primórdios, mas convidavam
35
EVIDÊNCIA DA HISTÓRIA - O QUE OS HISTORIADORES VEEM
apenas a considerá-los como um espaço experimental em que se
comunicam ainda experiências históricas divergentes, iniciam-se
divisões, formulam-se escolhas positivas, esboçam-se rupturas, em
suma, constrói-se um "pensamento histórico ocidental"."
9 Essa expressão reproduz o titulo de um texto de Peter Burke: "La pensée historique occidentale
dans une perspective globale" [O pensamento histórico ocidental em uma perspectiva global].
Por iniciativa de Jom Rüsen, envolvido em uma reflexão coletiva, de longo alcance, sobre o
sentido da história, considerado como construção (historische Sinnbildung), o historiador britânico,
professor de História Cultural em Cambridge, tinha sido solicitado a esboçar o que podia ser a
especificidade da história ocidental em reiação a outras práticas e a outras formas de consciência
histórica. Em seguida, Rüsen havia convidado uma quinzena de historiadores para reagir ao texto
de Burke. As páginas precedentes retomam, em parte, minha própria contribuição (RÜSEN, 1999;
2002). Segundo Burke, a especificidade do pensamento histórico ocidental - ou, para retomar
O título do livro de Bemard Guenée (1980), de sua "cultura histórica" - deve ser procurada não
propriamente em cada um dos elementos que a compõem, mas na combinação de todos eles. Os
ingredientes se encontram alhures, apenas a preparação é singular. Além disso, esse "pensamento"
é, em si mesmo, heterogêneo. Ele é formado por um conjunto de proposições: cada uma tem sua
história e a própria cronologia. Sem se harmonizarem forçosamente entre si. elas coexistem, em
maior ou menor grau, umas com as outras. Há espaço para a interação e para o conflito. Com
esta consequência, entre outras: a distância entre essa "cultura histórica" e as outras historiografias,
longe de ter sido constante, passou por variações no decorrer dos séculos, aumentando nitida-
mente a partir da Renascença e diminuindo no século XIX. Ao retomar Heródoto como ponto
de partida, Burke pretende mostrar, em um longo período de tempo, esse "pensamento" que
se faz e se transforma, reformula e critica proposições anteriores. Ao historicizar com nitidez o
modelo ocidental, tal abordagem tem o mérito de relativizá-lo; ao recusar, de saída, qualquer ideia
de uma grande Divisão, ela visa apenas fornecer certo número de entradas para um "inventário
descritivo das diferenças". Segue-se um rastreamento em dez pontos: cada um suscita discussões
ou constrói tensões no próprio âmago da tradição ocidental em que se tinha formado. Em resu-
mo, esses pontos formam um sistema ou, pelo menos, uns remetem aos outros, elaborando no
decorrer dos séculos os termos de um debate feito de acordos, desacordos e, até mesmo, de opções
opostas. Burke chega a sugerir que se considere essa proposição como um "sistema de conflitos"
(à imagem, talvez, do espaço da democracia?). A fórmula é engenhosa, esclarecedora, inclusive,
sedutora. Será suficiente para convencer? Ela propõe, no mínimo, um rastreamento que visa uma
etapa ulterior da pesquisa, a qual haveria de se empenhar em encontrar a causa das diferenças.
Ocorre, no entanto, que esse "modelo" ocidental- em parte, à semelhança de um quadro em
que se destacam e avaliam ausências e presenças - é, mesmo assim, aquele que "compreende" as
outras experiências, evocadas rapidamente através da China, do Japão e do mundo islâmico.
36
CAPíTULO 11
Oradores e historiadores
"Pelo fato de que nós [seres humanos] recebemos o poder de
nos convencer mutuamente e de fazer aparecer claramente a nós
próprios o objeto de nossas decisões, não somente nos libertamos
da vida selvagem, mas também nos reunimos para construir cidades;
estabelecemos leis; descobrimos as artes (technai)" (IsócRATEs, Nlco-
eles, 5-9; cf. MACIEL DE BARROS, 1993). Assim começa o elogio da
linguagem (logos) como aptidão para falar e, ao mesmo tempo, para
falar bem, atribuído a Isócrates, o mestre da eloquência atenien-
se; elogio semelhante encontra-se em Cícero, mestre não menos
incontestado da eloquência latina, que o coloca nos discursos do
orador Crasso. "Que outra força [além da energia da palavra] teria
conseguido reunir no mesmo lugar os homens dispersos, tirá-los
de sua vida grosseira e selvagem, para levá-los a nosso grau atual
de civilização, construir as cidades e fazer reinar as leis, os tribunais
e o direito?" (Cícero, Do orador 1, 8, 33) Próprio do homem, o
logos - como capacidade de falar e de se falar, de convencer e de se
convencer - é colocado, portanto, no fundamento da vida civilizada,
ou seja, da vida em sociedade. O cidadão será, então, orador, e o
melhor cidadão será o melhor orador.
De Isócrates a Cícero, o mesmo elogio soa afinado na medida
em que exprime uma característica essencial e de longa duração
da civilização antiga e, ao mesmo tempo, desafinado por estar
amplamente defasado em relação às realidades políticas dos séculos
IVe I a.c. Na Guerra do Peloponeso, Atenas quase desapareceu,
37
EVIDÊNCIA DA HISTÓRIA - O QUE OS HISTORIADORES VEEM
e, logo depois, Filipe da Macedônia triunfará sobre Demóstenes e
toda a sua eloquência. Em Roma, a República está moribunda, e,
contrariamente às teses ciceronianas, os generais são mais impor-
tantes que o orador. A toga cede às armas: Crasso, Pompeu, César
dividem entre si o poder, ao passo que, proscrito, Cícero acabará
assassinado no ano 43.
Eloquência e cidade
"Bom para dar opiniões" e "bom para realizar façanhas" (erga):
essedeve ser o herói homérico. Duplamente excelente: em palavras e
em ações, tanto na guerra como na assembleia. Seja diante de Troia,
a assembleia dos chefes aqueus, em que cada um, alternadamente,
é convidado a fazer prevalecer sua opinião e em que, passando de
mão em mão, o cetro régio marca a inviolabilidade do orador e
torna visível o primeiro modelo de circulação regulada de uma fala
quase "política"; seja em Esquéria ou em Ítaca, territórios em que
a assembleia, convocadaem princípio por iniciativa do rei, reúne
os membros (o demos) da comunidade. Nessa ocasião, Telêmaco
exige até ser tratado como "orador de ágora".
Quase dez séculos mais tarde, em sua obra Preceitos políticos,
dirigidos a um jovem desejoso de fazer carreira, Plutarco apoia-se
na mesma fórmula homérica, como a melhor definição do "polí-
tico", ou seja, aquele que daí em diante, personalidade importante
entre aspersonalidades importantes, é visto como o "chefe natural"
da cidade. Mas estamos, pelo menos parcialmente, no registro da
metáfora: com efeito, desde que se estendeu o reinado da "paz
romana", deixava de ser questão tratar de guerras e de combates.
Em compensação, sua fala é, ao mesmo tempo, lagos e ergon, fala e
ação, porque é unicamente com esse "instrumento" que ele "mo-
dela" a cidade.
Com a cidade clássica, da qual Atenas permanece como o tipo
ideal, a fala se torna, segundo a fórmula de jean-Pierre Vernant,
"o instrumento político por excelência. [...] Elajá não é a palavra
ritual, a fórmula exata, mas o debate contraditório, a discussão e
a argumentação. Ela supõe um público ao qual se dirige como a
38
ORADORES E HISTORIADORES
um juiz que decide em última instância, com as mãos levantadas,
entre as duas propostas que lhe são apresentadas; é essa escolha pu-
ramente humana que avalia a respectiva força de persuasão dos dois
discursos, garantindo a vitória de um dos oradores em relação a seu
adversário" (VERNANT, 1962, p. 45). Está nitidamente marcado o
vínculo essencial existente entre a cidade como tal e a fala persuasiva:
é impossível a existência de uma sem a outra. Mas, imediatamente
depois, se introduzem uma ambiguidade e um risco inelutável. A
persuasão (peitho) não é, nem pode ser, unívoca. Ao lado da boa
persuasão, preocupada com a verdade, há outra que, para conven-
cer, adula, desencaminha, engana o interIocutor; no alvorecer da
civilização grega, Ulisses surge já como mestre de eloquência e
como mestre velhaco.
Até aqui, trata-se apenas de oralidade, mas, entre o século VII
e o final do século V a.C., a cidade se põe a escrever suas leis, seus
decretos, seus regulamentos; imprimindo e exprimindo sobre seus
muros a mesma exigência de publicidade que já manifestava, à sua
maneira, a circulação da palavra entre os cidadãos. Movimento de
grande consequência: a importância reconhecida à fala (como ins-
trumento político) e a prática da escrita (pelo poder de objetivação
que ela implica) levaram ao desenvolvimento das reflexões sobre
o logos, sobre seus poderes e sua influência: com a retórica - cuja
lenda pretende que ela tenha aparecido na Sicília justamente após a
derrubada dos tiranos (únicos senhores da palavra, especialmente em
matéria de justiça) - e a sofistica, escola do "falar bem", portanto,
escola do poder na cidade. Se as grandes figuras de Atenas do século
V, Temístocles ou Péricles, não deixaram nenhum discurso escrito
(de certa maneira, suas obras, embora anônimas, são os decretos
votados e expostos sobre os muros da cidade), Demóstenes, por sua
vez, redigia-os (pelo menos, parcialmente) e, no século I, Cícero
afirmará que o melhor treino para o orador é a escrita; quanto a
Isócrates, sabe-se que ele nunca compôs senão discursos fictícios,
em estilo trabalhado pacientemente e de forma esmerada.
No mundo homérico, o aedo estava encarregado da memória
social do grupo. Ele celebrava a gesta dos heróis que, para escapa-
rem do anonimato dos mortos comuns, tinham preferido morrer
39
EVlD~NCIA DA HISTÓRIA - O QUE OS HISTORIADORES VEEM
na primeira fileira da batalha, garantindo assim uma glória (kleos)
imortal para eles: tal como ocorreu com Aquiles, acima de qualquer
outro. A Musa era a sua inspiradora; todo o seu saber havia sido
adquirido por intermédio dela. O aedo era declamado r ou porta-
voz, mas não "autor".
Em compensação, quando, bem no começo do século V, He-
cateu de Mileto inicia suas Histórias com estas palavras - "Hecateu
de Mileto fala assim" -, ele se apresenta como autor, assinando sua
obra, enquanto Hecateu, cidadão de Mileto. Depois, na frase seguin-
te, a assinatura se reduplica e se desloca (a primeira pessoa sucede
à terceira): "Eu escrevi essas narrativas, como elas me parecem ser
verdadeiras. Com efeito, as narrativas dos gregos, de acordo com a
minha impressão, são múltiplas e risíveis". O narrador transforma-se
em um sujeito de enunciação que se constrói e se reconhece como
"eu" que escreve; além disso, pela escrita, ele mantém distância
das narrativas dos gregos, cuja multiplicidade se torna de repente
visível. Daí, o riso que ele não consegue conter (DETIENNE,1981,
p. 137-145). Nesse novo espaço político e intelectual, há condições
para o começo da historiografia e para que o historiador venha
substituir o aedo.
Mas, enquanto o aedo inspirado via, imediatamente, pelos olhos
da Musa, o historiador não tem outro recurso além de investigar
(historein) para tentar ver mais longe e aumentar seu saber. Se o
aedo era o porta-voz da Musa, o historiador, que recorre à escrita,
reivindica-se como escritor. Preocupado com os mortos e senhor
da imortalidade, seu desejo seria o de conservar tal prerrogativa,
mas a imortalidade que ele proclama ou consigna já não é a dos
heróis individuais, mas a da cidade. Os cidadãos mortos na guerra
só podem, de fato, exigir a glória da lembrança porque cumpriram
seu dever, obedecendo às ordens da cidade. Tal como Tucídides
leva Péricles a expor na famosa Oração fúnebre pronunciada no des-
fecho do primeiro ano da Guerra do Peloponeso (TUCÍDIDES,2,
34-47; LORAUX,1981, p. 183-204). Daí em diante, a imortalidade
é questão da cidade; no entanto, em breve, Atenas vai descobrir
que ela mesma é mortal.
40
ORADORES E HISTORIADORES
Palavras e ações
Logoi e erga: o herói homérico deve sobressair nesses dois do-
mínios, sem que ainda tenha sido realmente formulada a questão
das relações entre eles. Com o desenvolvimento da cidade, assim
como das reflexões sobre a própria linguagem, a situação passa por
mudanças. Seria até mesmo possível, ao longo da história da cidade
antiga, identificar uma tripla escansão: do logos inspirador do ergon, ao
logos como ergon e, inclusive, ao logos sem ergon. Ou, para formular
isso de outro modo, do político - por exemplo, Péricles - como
orador, ao orador (rhetor) como político - Demóstenes ou Cícero -, e
depois ao politikos de Plutarco ou, melhor ainda, ao sofista (no sen-
tido assumido pelo termo no século II d.e., tais como Élio Aristides
ou Dion de Prusa; cf REARDON,1971). Reeleito, com regularidade,
estratego em Atenas, Péricles reúne eloquência e ação, ao passo que
os estrategos do século IV serão, antes de tudo, homens de guerra.
A condução da política se torna, então, tarefa dos rhetores, como
Demóstenes, que são oradores profissionais, independentemente
de qualquer cargo eletivo. Se o poder deles reside em seu logos, sua
palavra tende a ser também seu ergon.
Retomando e prolongando Isócrates no contexto de Roma,
Cícero "heroiciza" o orador. Certamente, Roma não esperou por
Cícero para possuir grandes oradores. Catão já o definia como
"homem hábil em falar bem" (vir bonus dícendi peritus). Existiam até
mesmo usos "puramente latinos" ou "funcionais" da palavra orator.
Independentemente de qualquer ideia de arte oratória, o romano
"tornava-se" oratorao sair do exército, antes de retomar as armas como
chefe militar (imperator), e, em seguida, ingressar no Senado (MICHEL,
1961, p. 8). Mas Cícero desenvolve, em particular em Do orador, uma
concepção da eloquência e da cidade que atribui a primeira posição ao
orador, transformando-o no verdadeiro princeps da cidade. Parodiando
as afirmações de PIatão sobre os reis e os filósofos, ele poderia dizer:
"Enquanto os bons oradores não forem reis das cidades, e enquanto
aqueles que, atualmente, são chamados reis e soberanos não forem
verdadeira e seriamente oradores, não cessarão os males das cidades".
Os logoi e os erga: as palavras e as ações, mas também os dis-
cursos e as façanhas - eis o problema para o historiador. Eledeve
41
42
EVIDÊNCIA DA HISTÓRIA - O QUE OS HISTORIADORES VEEM
encontrar as palavras (adequadas, precisas, verdadeiras) para relatar
as proezas dos homens e as ações das cidades com o objetivo de
preservá-Ias do esquecimento. Mas ele sabe que as palavras correm
sempre o risco de ser inferiores, insuficientes, ou, como observava
Heródoto, os erga são maiores que aspalavras. "Heródoto de Túrio
expõe, aqui, suas investigações para impedir, por um lado, que as
obras dos homens venham com o tempo a apagar-se da memória e,
por outro, que as grandes e maravilhosas façanhas realizadas, tanto
pelos bárbaros quanto pelos gregos, cessem de ser relatadas".
Mesmo depois de se tornar um topos literário, a polaridade
logoi/erga não cessará de exercer influência sobre a escrita da his-
tória. Ela começa por atravessar A Guerra do Peloponeso de Tucídi-
des, na qual se verifica a sucessão, a correspondência, a oposição
e a contradição entre discursos e narrativas dos acontecimentos.
Qual é, portanto, a parte dos logoi na história, seus efeitos? Qual é
o peso das coisas e a função das palavras? Uma historiografia que
não tivesse reservado espaço para os discursos teria sido totalmente
inconcebível nesse mundo da palavra política, tal como era a cidade
antiga. Mas, ao mesmo tempo, introduzia-se um problema que,
durante muito tempo, vai atormentá-Ia: como conciliar a exigência
de verdade com a falsidade inevitável dos discursos que - de acordo
com o beneplácito do próprio Tucídides - não conseguem, de
modo algum, ir além do verossímil? Para compor tais discursos, o
historiador não deveria distinguir-se na arte oratória? Cícero jul-
gava, aliás, que competia ao orador, de preferência e em melhores
condições do que outra pessoa, escrever a história, concebida de
fato como opus oratorium maxime (CíCERO,Das leis, 1,2,5 e infra, p.
157-158). Nesse ponto, a fronteira entre o historiador e o orador,
entre a eloquência e a história, corre o risco de se emaranhar ou
desaparecer: o historiador julga-se, então, orador ou faz o papel
de político que ele não é ou deixou de ser.
Se Heródoto não tivesse conhecido o exílio e as viagens, será
que ele teria sido considerado, mesmo assim, "o pai da História"?
Se Tucídides não tivesse sido obrigado a se exilar de Atenas após
seu fracasso como estratego, será que ele teria permanecido um
homem político? Se Políbio tivesse conservado seu posto como
ORADORES E HISTORIADORES
um dos chefes da Liga Aqueia, sem ter conhecido a condição de
refém e o exílio em Roma, ele não teria escrito provavelmente
sua história. Outros tantos "se" que são suficientes para sugerir o
vínculo - nem que seja de um ponto de vista negativo - entre a
política e a história: a prática da história na falta da política. Em
Roma, a relação é ainda mais nítida: durante muito tempo, assunto
reservado aos senadores, a história é a atividade séria que serve de
refugio para quem abandonou a política ou foi abandonado por
essa. Tal foi o procedimento de Salústio ou, até mesmo, de Tácito
(SALÚSTIO,Guerra deJugurta, 4; SYME,1970). Classificada do lado do
otium, ela não deixa de ser mais "útil" que a atividade (negotium) de
um grande número de pessoas, de acordo com a tentativa de Salústio
para convencer, além de seus leitores, a si mesmo. Afinal de contas,
ela não será uma forma de tirar desforra do político? Ao dedicar-se
a essa profissão, o historiador acaba almejando, além do presente e
de suas vicissitudes, uma sobrevida para sua obra e, portanto, para
si mesmo além de si mesmo.
Frequentemente um exilado, o historiador - de modo diferente
do orador - não é ou deixou de ser o homem de uma só cidade,
mesmo que essa permaneça seu horizonte. Ao mesmo tempo, fora e
dentro, entremeio [entre-deux), intermediário, até mesmo "traidor",
ele conserva algo da itinerância do aedo épico; além disso, sua escri-
ta, obrigando-se a ser suggraphie (de sun, com, e graphein, escrever),
colocando junto, estabelecendo relações, aplica-se a construir uma
visão sinóptíca do mundo habitado. Assim fez, no grau mais eleva-
do, Políbio a partir de Roma. Até mesmo exilados do interior, os
historiadores romanos permaneceram os homens de uma cidade:
Roma foi sempre seu único objeto. Eles se mostraram, assim, mais
especialistas do gênero da história local do que da grande historio-
grafia à maneira de Heródoto. Essa, talvez, teria sido também uma
forma de continuar fazendo política por outros meios?
Do mesmo modo que há uma eloquência dos historiadores
(os discursos fabricados por eles), assim também há uma história
"oratória" ou para o uso dos oradores: a dos exempla que, através
de personagens ou de episódios célebres, recorre ao passado a fim
de fornecer precedentes ou propor modelos a imitar. O exemplo
é um momento da argumentação e um expediente da persuasão.
43
EVIDÊNCIA DA HISTÓRIA - O QUE OS HISTORIADORES VEEM
o recurso aos exempla é, portanto, uma maneira adotada pelo ora-
dor para relatar a história de sua cidade; e, em relação ao público,
é uma forma de aceitar que lhe seja relatada essa história. Atenas
não se privou dessa prática: eis o que foi testemunhado de maneira
profusa pelos oradores do século IV (NouHAuD, 1982). Tampouco
Roma, cidade em que a importância do mos majorum conferia a tal
procedimento ainda um acréscimo de autoridade.
Na cidade helenística e romana, verifica-se o pleno funciona-
mento dessa eloquência histórica com seu cortejo de exempla (Rhéto-
rique et histoíre, 1980). E ainda mais pelo fato de que, em uma Grécia
dominada por Roma, "a fortuna neutralizou qualquer tipo de desafio
em nossas lutas". A fórmula é de Plutarco, que a retoma diretamente
de Homero, significando literalmente que, daí em diante, já não há
"nenhum prêmio do combate depositado no meio do círculo dos
guerreiros". Como a guerra tinha deixado de ser um problema para
as cidades, já não existem erga (a realizar), mas somente logoi (a pro-
duzir), discursos que valem como erga. Eles imitam a ação, ocupam
seu lugar e são também ação. O principal efeito dessa eloquência, a
dos sofistas da segunda sofistica, tende de fato a preservar a concórdia
(homonoia) no interior da cidade, ou seja, o poder das personalidades
importantes e o statu quo social na moldura do Império Romano.
Em Roma, Cícero pensava que a eloquência era a "compa-
nheira da paz", incapaz de se desenvolver nos tumultos que acom-
panhavam o surgimento das cidades ou quando se alastrava a guerra
(CíCERO, Brutus, 12, 45). Nem sequer um século depois, Tácito
se questiona sobre a rápida decadência da eloquência. Sua resposta
pode ser entendida como um contraponto desiludido ou irônico.
Um Estado bem organizado, observa ele, não tem nenhuma ne-
cessidade de eloquência, ao passo que ela floresce, pelo contrário,
no meio dos distúrbios. "Para que serve acumular os discursos,
visto que não incumbe aos incompetentes, nem à multidão, tomar
deliberações, mas ao mais sábio dos homens sozinho?" (TÁCITO,
1936, 41). Em Roma, também deixou de haver qualquer desafio,
qualquer prêmio depositado no centro. Deixou de haver centro ou
um centro investido por um homem sozinho. Resta apenas compor
panegíricos ao imperador ou elogios a Roma.
44
CAPíTULO 111
Ver e dizer: a via grega da história
(séculosVI-IV a.C.)
L
Se a história ou, de preferência, sua escrita começa na Meso-
potâmia, no final do terceiro milênio com a monarquia de Akkad,
que é a primeira a unificar o país sob sua autoridade e a recorrer a
escribas para escrever sua história (GLASSNER,1993, p. 20-22);10 se
o Livro do Antigo Israel, habitado inteiramente pela exigência de
memória, apresenta-se, fundamentalmente, como um livro de his-
tória, o que se passa, então, com os gregos? Que lugar lhes atribuir?
Confinados em seus estreitos cantões nas margens do Oriente, não
serão apenas "retardatários"? No entanto, não é verdade que uma
longa tradição, retomada até nossos dias, não cessou de constituí-los
como "primeiros inventores"? A Grécia não teria sido o lugar de
todos os começos e, portanto, também o dos primórdios da histo-
riografia?Heródoto não é, pelo menos desde a designação cicero-
niana, o pai da história? (FORN&~, 1983; ALoNso-NUNEz, 1991;
MOMIGLIA o, 1982 e 1992; FINLEY,1981, p. 9-40; ]ACOBY, 1949)
Eles são indiscutivelmente retardatários, nem que seja pelo fato
de terem encontrado a escrita apenas no decorrer do século VIII
a.C, ao adaptar o alfabeto siro-fenício. E ainda terão de esperar três
séculos antes de escrever suas primeiras histórias. Em compensação,
é com eles, justamente com Heródoto, que surge o historiador
como figura "subjetiva". Sem estar diretamente associado a um
poder político, sem ser comissionado por ele, desde o começo,
10 Seria possível evocar também O Extremo Oriente e os primeiros anais chineses, tais como os Anais
do país de Lu (722-481), os mais antigos conservados até hoje.
45
EVIDÊNCIA DA HISTÓRIA - O QUE OS HISTORIADORES VEEM
desde as primeiríssimas palavras, Heródoto vem marcar, reivindicar
a narrativa que inicia, pela inscrição de um nome próprio: o seu,
no genitivo ("De Heródoto de Halicarnasso, eis... "). À semelhança
do que já havia sido feito anteriormente por Hecateu de Mileto e,
posteriormente, por Tucídides de Atenas. Mas não por Xenofonte,
nem por Políbio. Heródoto é o autor de seu logos; ora, esse logos
é que, diante de outros, vem estabelecer a sua autoridade. Nesse
aspecto, verifica-se nítida diferença em relação às historiografias
orientais. Os gregos são os inventores não propriamente da história,
mas do historiador como sujeito que escreve, tal como foi observado
por Wilamowitz (1908).
Esse modo de afirmação e esse dispositivo de produção de um
discurso não foram reservados, como se sabe, unicamente à histo-
riografia. Pelo contrário, essa época da história intelectual grega
(entre os séculos VI e V a.Cc) assiste à tomada da palavra na primeira
pessoa tanto pelos cientistas quanto pelos artistas: ainda não "preo-
cupação consigo mesmo", mas certamente vontade de assinar e de
se reivindicar como autor. Contudo, no caso da historiografia, essa
afirmação não deixará de manifestar certa fragilidade, na medida em
que a história vai tornar-se bem depressa um gênero, mas não uma
disciplina: em nenhum momento, ela será reconhecida e assumida
por uma instituição (escola ou outra entidade) que se dispusesse a
codificar suas regras de credenciamento e a controlar seus modos
de legitimação. Além disso, figura nova no cenário dos saberes, mas
não surgida do nada, o historiador não tardará a se inclinar diante
do filósofo que, a partir do século IV a.c., vai tornar-se a principal
referência e, por assim dizer, o padrão do intelectual grego. A partir
de então, o historiador criticará o filósofo, tentará apresentar-se às
vezes como filósofo, ou vai dedicar-se a mostrar que a história é
filosófica. Por seus exemplos, ela pode ajudar, senão a fazer a his-
tória, pelo menos a suportar suas vicissitudes.
N esse breve apanhado acerca das condições de possibilidade da
escrita na área da história, considerada em um horizonte compara-
tista, convém evidentemente atribuir o primeiro lugar ao desenvol-
vimento da cidade isonôrnica, ou seja, a todo o universo intelectual
46
,...
VER E DIZER: A VIA GREGA DA HISTÓRIA (SÉCULOS VI-IV A.C.)
que lhe garante sua forma e a exprime (VERNANT,1988, p. 202-260).
Liberação de um espaço público, valorização do debate público e
contraditório, importância do nomos como instrumento que institui
propriamente as comunidades humanas, reflexões sobre os diferen-
tes regimes políticos. Nessas investigações que abordam qualquer
tipo de assunto e nessa intensa vontade de saber, de questionar e
de repensar o mundo com base nessa experiência política inédita,
o papel de força motriz é desempenhado, em primeiro lugar, pelos
cientistas originários das cidades daJônia; foram eles que elaboraram
os novos questionários. Amaldo Momigliano chamou a atenção
para a diferença que há entre a lei judaica, ou seja, a Torah, e a lei
grega: a primeira apresenta um caráter a-histórico - "Na Torah,
não há antes, nem depois" - e mostra a inutilidade da historiografia,
ao passo que o nomos se torna um objeto frequente de historia para
um grande número de intelectuais gregos do século V. Eis ainda
outra diferença que mantém a distância esses dois universos: para
os autores da Bíblia, a regra não consiste, de modo algum, em con-
signar diferentes versões do mesmo acontecimento, ao passo que o
historiador grego julgará que, entre as atribuições de seu trabalho,
ele deve coletá-Ias, depois classificá-Ias, especialmente, em função
da verossimilhança entre elas (MOMIGLIANO,1992, p. 22, 25). Sua
competência será reconhecida mediante tal exercício.
Ao lado da polis, fenômeno central e singular, ao qual somos
sempre reconduzidos, levaremos em consideração dois fatores que
desempenharam papel considerável na emergência de uma histo-
riografia propriamente grega: o lugar da escritura e o da epopeia.
Depois, tomaremos como fio condutor a questão da relação com
o tempo entre o final do século VI e o século IV.
Escrita e história
Para o antropólogo Jack Goody, a prática da escrita permitiu
tornar perceptível a diferença entre muthos e histeria, assim como,
correlativamente, entre passado e presente (GOODY, 1979, p. 55;
Id., 1994; ver também DETlE NE, 1988). Ao equiparar, colocando
umas ao lado das outras, narrativas até então transmitidas oralmente
e ao permitir apreendê-Ias na simultaneidade, a transcrição desses
47
48
EVIDÊNCIA DA HISTÓRIA - O QUE OS HISTORIADORES VEEM
textos torna, de repente, visíveis as defasagens, as impossibilidades
e as contradições entre uns e outros: suas ínconsistencies. Com efeito,
é impossível que o mesmo personagem esteja aqui e lá ao mesmo
tempo; atribuir-lhe tal ação é impossível porque ele teria sido jovem
ou velho demais, etc. Vê-se facilmente que as primeiras "vítimas"
desse enfoque inédito são as narrativas genealógicas.
Tal é exatamente o sentido da observação que Hecateu de
Mileto propõe na introdução de uma obra, conhecida pela tradi-
ção sob o título de Genealogías, Histórias ou Herología: "Hecateu de
Mileto se exprime assim: escrevo o que se segue (tade grapho), tal
como me parece (dokei) ser verdadeiro; com efeito, as narrativas
(logoi) dos gregos, de acordo com a minha impressão, são numerosas
e risíveis" (Hecateu, in]AcOBY, FrGrH, 1 F. 1; HARTOG, 1991, t.
5, p. 177-188; ]ACOB, 1994, p. 171-173). O mesmo Hecateu é o
autor de uma Periegese ou Percurso da terra habitada, dividida em dois
livros (um dedicado à Europa, o outro à Ásia). Exemplo claro da
ascendência do "egotismo", Hecateu é, nesse final do século VI, um
dos principais representantes da ambição de saber jônica. Inventariar
o mundo e colocar ordem nas narrativas dos gregos: duas operações
que fazem parte do mesmo projeto intelectual que se apoia na escrita.
"Eu, Hecateu, escrevo e, passando essas múltiplas narrativas pelo
crivo do meu dokein, desato a rir". O que são esses "logoi dos gre-
gos"? Dos gregos, para distingui-los de outras narrativas não gregas
ou dos bárbaros? De qualquer modo, dos gregos e não as narrativas
das pessoas de Mileto ou de alguma outra cidade. Hecateu adota
um ponto de vista pan-helênico. Será que ele visa, então, a poesia
épica de Homero e de Hesíodo que tinha justamente um alcance
pan-helênico? Obviamente, há motivos para ser tentado a fazer tal
conjectura. Aliás, subsistem alguns exemplos do modo de exercício
de seu dokeín. O "cão do Hades" não era um verdadeiro cão, mas
uma serpente que fazia estragos no Cabo Ténaro e tinha esse nome
por causa de seu veneno mortal. Ele não acredita que Gerião - contra
quem Euristeu tinha enviado Hércules com a missão de lhe roubar
os bois - tenha algo a ver com o país dos iberos; tampouco que
Hércules tenha sido enviado para uma ilha, Erítia, localizada além
do oceano. Gerião reinava, de fato, no continente (grego), na região
VER E DIZER: A VIA GREGA DA HISTÓRIA (SÉCULOS VI-IV A.C.)
de Ambrácia e Anfilóquia. Egito, em sua opinião, não tinha vindo
pessoalmente a Argos e, contrariamente ao que pensava Hesíodo,
elenão tinha certamente cinquenta filhos: na realidade, nem sequer
vinte (Hecateu, in jACOBY, FrGrH, 1 F. 26, 27, 19).
Esses casos são suficientes para mostrar como as "narrativas"
eram tratadas. A escrita vem depois, em posição subalterna. Talvez,
até mesmo, ela tenha retomado, com a condição de terem existido
transcrições ou inícios de transcrições anteriores? Pode-se pensar,
por exemplo, na compilação conhecida pelo título de Catálogo das
mulheres, colocada sob o nome de Hesíodo, embora seja datada
atualmente da segunda metade do século VI. Seu princípio orga-
nizador é a categoria do verossímil, que vai ganhar importância
cada vez maior nas décadas seguintes. Observemos, porém, que
essa reorganização do saber, apesar das aparências, não solapa abso-
lutamente seus fundamentos. Nem a existência de Gerião, nem a
de Hércules ou de Egito se encontram questionadas como tais. As
aventuras desses heróis são, até, tanto mais verdadeiras porque, no
termo dessa operação, estão inscritas no verossímil da época.
Praticamente ao mesmo tempo que Hecateu e, na sequência, ao
longo de todo o século V, vários autores empenharam-se também em
escrever, transcrever as mesmas narrativas: por exemplo, Acusilao de
Argos, Ferécides de Leros, Damastes de Sigeo, Helânico de Lesbos,
e ainda outros. Não sabemos quase nada a respeito desses autores;
além disso, nada restou de seus escritos, que, segundo parece, foram
numerosos, para não dizer, prolixos. A respeito deles a tradição parece
hesitante ou bastante confusa. Para começar, ela não sabe muito bem
seu nome nem como classificar suas obras: estarão (ainda) do lado
do muthos ou já pertencem à esfera do logos (até mesmo da historia)?
Seus escritos parecem ser bastante semelhantes aos dos poetas, e, no
entanto, eles usam a prosa. Diz-se que plagiam ou dão continuidade a
Hesíodo, sem deixarem de retificá-lo. Eles teriam escrito Genealogias
ou Histórias, Antiguidades ou Arqueologias? Que qualificativo deveria
ser atribuído a cada um: genealogoi (genealogistas), historiographoi (histo-
riógrafos), logopoíoi (fabricantes de narrativas), até mesmo, logógrafos?
Heródoto, por sua vez, designará Hecateu como logopoios. Tucídides
vai reuni-Ias sob a mesma denominação de logógrqfos,o que está longe
49
EVID~NCIA DA HISTÓRIA - O QUE OS HISTORIADORESVEEM
de ser um elogio; com feito, aquele que transcreve narrativas apoia-se
no oral, que, inevitavelmente, busca sobretudo o prazer dos ouvintes
e não tanto o que é verdadeiro. Sua escrita obedece a uma economia
do prazer, em vez de ser regulada pela ascese da busca do verdadeiro
(TUCÍDIDES,1, 21, 1).
Uma característica, talvez nova, nesses autores é sua capacidade
para passar além da época heroica a fim de chegar ao presente ou
torná-lo como ponto de partida. Assim, Ferécides é capaz de remontar
de Hipócrates de Cos até Hércules e Asclépio; ou também partir de
Ajax para chegar a Milcíades, o colonizador do Quersoneso, decli-
nando sem interrupção, em treze gerações, a genealogia da prestigiosa
família ateniense dos Filaides a partir de seu epônimo (Ferécides, ín
]ACOBY,FrGrH,3 F. 59,2; THOMAS,1989, p. 155-195). De fato, o que
se espera do genealogista senão que esteja em condições de produzir
uma sequência contínua e (daí em diante) verossímil de nomes? Que
preencha os vazios entre o ancestral prestigioso já designado e a atua-
lidade. Neste caso, apreende-se o papel (de legitimação) que acabou
por lhes ser atribuído pelas cidades ou por algumas grandes famílias:
associá-Ios às grandes linhagens, aos nomes de grande envergadura,
introduzi-los nos logoí famosos e garantir-lhes um lugar no "mapa
mítico" dos gregos. Essa preocupação com o presente e essa atenção
focalizada no plano local são dois traços que caracterizam as histórias
locais, destinadas a ganhar grande amplitude no século seguinte.
Para desfiar o Catálogo das naves, o aedo homérico tinha neces-
sidade do saber da Musa, enquanto o saber genealógico dos primeiros
prosadores deve ser constituído por sua conta (HOMERO, Illada, 2).
É uma ciência dos nomes, cuja rede -local, regional ou em escala
da terra inteira - circunscreve o espaço e, ao mesmo tempo, cria
uma profundidade de campo que torna perceptível a sucessão das
gerações. O melhor genealogista será aquele que vier a conhecer o
maior número de nomes; no entanto, ele deve ser capaz também de
questionar o porquê desses nomes. Ele perscruta epônimos e topôni-
mos, além de passar da etimologia para a aitiologia. Concebe-se que,
uma vez lançada, essa forma de escrita possa desenvolver-se quase
indefinidamente. Haverá sempre falta de nomes ou, até mesmo,
de um nome; haverá sempre nomes que terão sido esquecidos,
50
VER E DIZER: A VIA GREGA DA HISTÓRIA (SÉCULOS VI-IV A.C.)
deformados ou mal localizados. Haverá sempre pedidos de incor-
poração ou de retificação. Se, em um primeiro momento, esse saber
provocou um distanciamento (quando Hecateu desata a rir diante da
multiplicidade das histórias gregas), em seguida, ele aprofundou menos
a separação entre muthos e historia, privilegiada pela produção de ampla
rede, espaços em vazios, em que os nomes - conhecidos em maior ou
menor grau, ou então desconhecidos - deveriam ter a possibilidade
de ser associados, fortalecendo-se e ajudando-se mutuamente, Mas,
cuidado! O verossímil era obrigatório: independentemente de traba-
lhar para uma fàmília, uma cidade ou em escala de todos os gregos, o
genealogista utiliza sempre o mesmo método.
Esse saber é ainda caracterizado por dois últimos traços. Quan-
do, no século I d.C.; Flávio Josefo sublinha "o quanto Helânico
é diferente de Acusilao a respeito das genealogias, assim como as
correções de Acusilao a Hesíodo", é evidentemente para estigma-
tizar o estado precário da certeza na ciência histórica grega_ Mas,
ao mesmo tempo, observa-se a ausência - e não pode deixar de
faltar - do caráter plural, multívoco em seu princípio, dessa primeira
escrita que admite várias versões entre as quais se pode escolher e
que faz jus às retificações. Pode-se, enfim, passar da genealogia para
a cronologia, como se vê em Helânico de Lesbos: valendo-se de um
estudo do santuário de Hera em Argos, ele estabelece, com efeito,
a lista das sacerdotisas que, sucessivamente, haviam exercido sua
função nesse local. Além da recapitulação válida para a história do
próprio santuário, essa lista se tomou um ponto de referência que
acabou permitindo a organização de um conjunto de acontecimen-
tos GACOB, p_ 195). Assim, a sucessão das sacerdotisas se transforma
em instrumento cronológico de maior alcance. Nesse sentido, o
ajustamento da divisão por olimpíadas marca um desfecho bem-
sucedido: instrumento pan-helênico que permite remontar até a
Primeira Olimpíada (776 a.Ci), ele havia sido implementado por
Erastóstenes no século Ill a.C
Listas e arquivos
Na opinião de Goody, as listas de reis do Oriente próximo
são, ao mesmo tempo, uma condição prévia e um começo da
51
EVID~NCIA DA HISTÓRIA - O QUE OS HISTORIADORES VEEM
história. Registrando por escrito o nome dos soberanos, assim como
a duração de seus reinados com o aditamento, às vezes, de algumas
anotações, a lista de reis é já uma espécie de primeira história, cuja
cronologia é organizada com base na lei da sucessão. Mas ela é tam-
bém um material que, tendo sido acumulado e conservado, contri-
bui, com outros acervos, para a formação de arquivos. Verifica-se,
portanto, a anotação que Heródoto reserva apenas aos egípcios, que,
precisamente, desde sempre se tinham empenhado em anotar por
escrito: "Como eles se dedicam a conservar a lembrança do passado,
considero que se trata do povo com uma cultura muito mais elevada
do que asoutras populações conhecidas por mim" (HERÓOOTO,2, 77).
Arquivos? Esse termo corrente e demasiado impreciso não corre
o risco de induzir em erro? Os assiriólogos chamaram a atenção para
o fato de que essa lista de reis, bem longe de ser um documento
"bruto", era o resultado de uma compilação e o produto de uma
fabricação, para não dizer, de uma falsificação, elaborada em um
momentoque pode ser datado: a primeira dinastia de Isin (primeiro
século do segundo milênio). Composta sem dúvida em Nipur, ela
combina informações de origem e de proveniência diversas: anota-
ções tiradas de outras listas redigidas nos principais centros do país
GAC013SEN, 1939, p. 167-180), mas também elementos extraídos
da literatura épica e, até mesmo, de crônicas preexistentes. Longe
de ser a primeira escrita de escribas arquivistas, encarregados do
registro, ela é já, ou de saída, reescrita - e, de novo, em um mo-
mento preciso - de um poder que procura, acima de tudo, fundir
fontes diversas em um todo único e sobretudo contínuo. Em vez
de um documento, trata-se do monumento de um poder novo que,
proclamando a própria legitimidade e justificando suas ambições,
escreve já sua história. Um dogma serve de suporte a todo o em-
preendimento: desde sempre, a Mesopotâmia "limitou-se a ser um
só e único reino, com uma só capital" (Ibíd., p. 164). Deste modo,
é impossível, por definição, que a realeza viesse a ser exercida, ao
mesmo tempo, em duas cidades. Para acomodar-se a essa visão da
história, convém, portanto, trazer de volta à ordem da sucessão o
que, eventualmente, tivesse conseguido desenvolver-se no espaço
da simultaneidade. Essa é a lei organizadora da escrita; na sequência,
52
-----------'
VER E DIZER: A VIA GREGA DA HISTÓRIA (SÉCULOS VI-IV A.C.)
pouco importa se reis que reinaram durante quinze ou vinte anos
tivessem sido substituídos por outros cujos reinados chegaram a
durar oitocentos e quarenta ou novecentos e sessenta anos (Ibid.,
p. 79). A questão não se situa neste ponto, e o verossímil obedece
a outros protocolos.
Adotada como exemplo por Goody, essa lista tende, em par-
te, a não corresponder a tal critério." Remetendo, por sua vez, a
outros escritos preexistentes, a outros "arquivos", ela não é o ma-
terial evocado pelo uso moderno da palavra "arquivos". Vestígio,
certamente, mas trabalhado e retrabalhado, essa lista representa um
dos monumentos que foram sendo construídos e reconstruídos
por esses reis, construtores inveterados. Ao lado do arquiteto, há o
escriba para elaborar a mesma mensagem "monumental". Como
é que - desta vez, na Grécia - se faz a articulação entre escrita
e arquivos? (GEORGOUDI, 1988). Entre listas e escrita? Qual é o
papel desempenhado pelas listas nessa região? No sentido moderno
da palavra, os arquivos são um conjunto, um acervo organizado de
documentos produzidos por uma instituição que, depois de proce-
der à sua escolha, vai juntá-los e conservá-Ios.'" Inseparáveis de uma
instituição (servindo de justificação para seu funcionamento, eles
contribuem para credenciá-la), os arquivos formam um conjunto (a
pertinência é a base de sua organização) que serve de orientação para
as escolhas. Arquivar tudo significaria a ruína da própria ideia de arqui-
vos, de modo que acabariam subsistindo apenas pilhas de papéis. Essa
concepção de arquivos traduz a relação que uma sociedade mantém
com o tempo: arquiva-se para guardar vestígios escritos de - fixa-se
uma memória, a de - uma instituição, mobilizável no futuro. Entre
passado e futuro, os arquivos pressupõem um horizonte histórico
(mas não necessariamente relacionado com a profissão de historiador).
Cerca de 500 a.c., uma pequena cidade de Creta faz um
contrato com um indivíduo chamado Espensítio para que ele seja
11 Sobre o caráter, por sua vez, heterogêneo ou complexo das listas dosreis assírios, ver GRA YSON,
1980, p. 177-179. Quanto a FINKELSTEIN (1963), ele prefere enfatizar as coletâneas de presságios
como uma forma de historiografia.
12 Para uma definição de trabalho, ver, por exemplo, RICCEUR,1985, lll, p. 171-172, e úifra p. 231-238.
53
EVIDÊNCIA DA HISTÓRIA - O QUE OS HISTORIADORESVEEM
o escriba e o mnemon (o registro vivo) para a cidade, "nos assuntos
públicos, seja dos deuses ou dos homens". Poinikazen (escrever em
letras vermelhas ou em caracteres fenícios) e Mnemoneuen (ser um
homem memória) são os dois termos que definem as competências
mediante as quais ele ganha um salário bem razoável e, apesar de
sua origem estrangeira, recebe um status análogo ao do primeiro
magistrado da cidade. Além de ser um cargo vitalício, ele pode
transmiti-lo aos filhos. Esses são os termos principais de um contrato
que mostra uma comunidade modesta que assume uma despesa não
desprezível e regular para garantir os serviços de um perito (VAN
EFFENTERRE,1973).13 Essa inscrição, bastante fecunda, não deixa de
suscitar mesmo assim várias questões. Será que se trata de uma prática
corrente? Será o indício, ao mesmo tempo, de um progresso geral
da alfabetização (uma cidade tem o dever, daí em diante, de deixar
por escrito os assuntos públicos) e de um atraso relativo de Creta,
ou dessa região no interior da ilha, que manda vir um especialistar"
Sobretudo, qual é a relação entre o ato de escrever e a fun-
ção de mnemon? Será que, além de escrever, Espensítio serve de
mnemon? Ou ele desempenha a função de mnemon porque escreve?
No pressuposto de que, daí em diante, o homem-memória é um
especialista da escrita. Poinikazen kai mnemoneuen? A cidade teria
adotado a escrita, mais ou menos como passamos da escrita à mão
para o computador? (VANEFFENTERRE,p. 39) Daí a lutar contra o
esquecimento na cidade há apenas um passo que, às vezes, acaba
sendo dado. Mas nada indica que haja essa intenção retrospectiva
na decisão da cidade, resolvida a recorrer a esse médico de tipo
novo que, armado com seu estilete, viria inclinar-se à cabeceira de
uma memória repentinamente amnésica. Mais ainda, Espensítio é
contratado para (exibindo suas letras vermelhas?) tomar visível o
campo dos assuntos públicos relativos, ao mesmo tempo, à adminis-
tração, seja dos deuses, seja dos homens (isto é, traduzir finalmente
13 o personagem do escriba, na Grécia, encontra-se evocado e pesquisado in DETIENNE,1988, em
particular, p. 17-19 e 64-72.
l' Ver a hipótese de VAN EFFENTERRE, p. 35-36: o território de Dattalla na margem do Lassithi
e), de qualquer modo, um poljé [grande depressão, situada em terreno calcário, e que apresenta
fundo chato] de elevada altitude.
54
r
VER E DIZER: A VIA GREGA DA HISTÓRIA (SECUlOS VI·IV A. C.)
a própria definição da polis e as exigências que lhe são inerentes).
Ao recorrer a esse especialista, a cidade pensa em seu presente e
em seu futuro próximo, em vez de seu passado; e mais do que um
arquivista do sagrado, ele é um "instrumento" político, senão até
mesmo um "homem" político."
Será que Espensítio tinha colegas? Na própria Creta, o Código
de Gortina (480-450 a.Ci) abre espaço para o mnemon, que, ao lado
dos magistrados, intervém em decisões de justiça. Mas com que
função exatamente? Como testemunha, avalista, relator, escrivão?
"Registro vivo", associado às magistraturas, ele é, segundo Louis
Gernet, "o personagem que guarda a lembrança do passado em vista
de uma decisão de justiça"." Espécie de testemunha pública, mas
reconhecido, antes de tudo, por sua memória individual, ele "inicia
as instituições características de um direito moderno que são as dos
arquivos e do registro" (GERNET, 1968, p. 286).17
Uma lei de Halicarnasso (datada de 465-450) fornece ajuda para
especificar essa função. A propósito de contestação de propriedade -
após um período de tumultos - ela superpõe dois procedimentos: o
antigo, o do juramento, que vale como prova decisória (em favor do
antigo proprietário, durante certo intervalo de tempo, mas em favor
do novo proprietário no termo do prazo estipulado); e o segundo, o
recurso ao testemunho dos mnemones. Considerando que "o saber deles
deve ser tido como estabelecido", a lei subordina, a partir daí, a solução
de um litígio ao "testemunho de um passado publicamente admitido e
consignado"(GERNET, p. 287; SIMONDON,p. 296). A própria inabilidade
da redação sugere dois níveis de verdade jurídica. Ou, dito por outras
palavras, o personagem mnemon (tenha ele, ou ainda não, registro escrito)
indica o "advento no direito de uma função social da memória". Por
seu lugar e sua função, ele permiteapreender a constituição no direito
da "categoria do tempo", fazendo sobressair, "para fins de ação e de
15 "Instrumento" e não "homem" político porque as próprias cláusulas do contrato convidam a
considerar que ele é estrangeiro na cidade. Acerca dos magistrados que têm o encargo da docu-
mentação manuscrita da cidade, cf ARISTÓTELES, Polltica, VI, 1321b 34.
16 Os principais elementos do dossiê estão reunidos in SIMONDON, 1982, p. 293-301.
17 Este autor considera o mnemon como a transposição de um personagem, cuja "lenda" se tornou
um "motivo de conto": o servidor do herói "depositário das advertências divinas que deveriam
ser lembradas por ele no momento oportuno".
55
EVIDÊNCIA DA HISTÓRIA - O QUE OS HISTORIADORES VEEM
regulamento, a noção de um passado que é válido como tal, a noção de
um futuro que é garantido como tal" - duas faces do mesmo processo
de pensamento que só pode parecer "natural" urna vez que tenha sido
adquirido (GERNET,p. 285, 287). O essencial está provavehnente nessa
qualidade de testemunha pública, aberta e comum, na qual vêm se
inscrever - daí em diante, de fonna visível- as leis da cidade.
Epopeia e história: Heródoto
Se Heródoto está inscrito em todo esse contexto de inves-
tigação e nessas práticas de escrita, é também evidente que seu
projeto continha, de saída, outra dimensão. Ele desejou empreen-
der, em relação às guerras entre gregos e bárbaros, o que Homero
havia elaborado relativamente à guerra de Troia. À semelhança da
epopeia, a história de Heródoto, assim como a de Tucídides - ou
seja, aquela que, para os modernos, há de se tornar justamente "a
história" - mostra o conflito como ponto de partida: o confronto
entre aqueus e troianos, os desentendimentos entre os bárbaros e
os gregos, a guerra entre os peloponésios e os atenienses. O aedo
declamava o confronto, e o início da flíada registrava o momento em
que se desencadeava a disputa funesta entre os dois heróis, enquanto
o historiador prefere relatar uma grande guerra e começa fixando
sua "origem". Heródoto procura determinar a aítia, Tucídides vai
deduzir a alethestate prophasis (a causa mais verdadeira). De modo
diferente da Bíblia, que pretende ser uma história contínua, desde
o começo dos tempos, o historiador grego estabelece um ponto
de partida e restringe-se ao desenrolar de uma sequência limitada.
Inspirado pela Musa, o aedo "vê" nos dois campos. Sabendo
perfeitamente que ninguém escapa aos desígnios de Zeus, ele conhe-
ce e proclama as façanhas e as desventuras tanto dos aqueus quanto
dos troianos. Do mesmo modo, o primeiro historiador, homem
de exílio desde que saiu de sua cidade de Halicamasso, atribui a si
mesmo a tarefa de repertoriar e relatar os grandes feitos, igualmente,
tanto dos gregos como dos bárbaros. E a história continua: exilado,
por sua vez, de Atenas, Tucídides indica que chegou a "assistir aos
episódios nos dois campos" (TUCÍDIDES,5, 26). Essa disponibilidade
ou essa abertura tem, obviamente, um preço a pagar: em relação ao
56
VER E DIZER: A VL'I GREGA DA HISTÓRL'I (SECUlOS VI·IV A.C.)
aedo, se dermos crédito à tradição, a cegueira dos próprios olhos;
e relativamente ao historiador, o exílio.
Com Heródoto, a história não pretende romper completa-
mente com a economia do kleos, que fixava o status e a função da
palavra épica. Como se o historiador esperasse retomar, prolongan-
do o canto do aedo em um mundo que mudou do ponto de vista
político e social. No entanto, desde a primeira frase das Histórias,
elaborada quase à maneira épica, já se manifestam várias fraturas.
Ao proclamar desde logo sua preocupação com a memória,
Heródoto pretende que as marcas e os vestígios da atividade dos
homens, os "monumentos" produzidos por eles, não sejam esque-
cidos, nem se apaguem - como uma pintura que, com O tempo,
desvanece (exitela) -, tampouco fiquem "privados de kleos" (aklea;
HERÓDOTO,1, 1). Com efeito, o grande apagador, designado desde
logo, é o tempo. A economia do kleos produzia algo do passado,
imediatamente, quase sem o saber. Pelo simples fato de ser celebrado
pelo aedo, o herói se transformava em homem de outrora.
O historiador, por sua vez, mostrou-se menos exigente em
relação às certezas do aedo. Já não se promete o kleos, nem se
questiona a validade dos termos da troca (a vida contra a glória);
assim, o único desejo seria lutar contra o apagamento dos vestígios,
impedir - de preferência, retardar - o esquecimento de tais erga
que tinham deixado de ser assumidos por uma palavra autorizada.
No deslocamento da positividade do kleos para o simples adjetivo
privativo aklea, aparecem as marcas da referência e do recurso à
palavra épica e, ao mesmo tempo, de uma ruptura em relação a ela.
Enquanto o aedo tinha naturalmente como repertório a "ges-
ta dos heróis e dos deuses", o historiador adota como seu único
domínio de competência "o que aconteceu por obra dos homens"
(genomena ex anthropon), em um tempo que, por sua vez, é circuns-
crito como "tempo dos homens" .18 O tempo, seja dos deuses, seja
dos heróis, é "passado" que certamente ocorreu, mas que escapa
18 HERÓDOTO,3, 122: "Policrates [o tirano de Sarnas] é o primeiro dos gregos, pelo que sabemos
(ton hemeis idmen}, que sonhou com o império dos mares - deixo de lado Minos de Cnossos e
aqueles que antes dele, se houve, reinaram sobre ° mar -, o primeiro, repito, do tempo que se
designa como o tempo dos homens" (grifo meu); VIDAL-NAQUET, 1981, p. 81-83.
57
EVIDÊNCIA DA HISTÓRIA - O QUE OS HISTORIADORES VEEM
ao saber do historiador que olha a partir de seu presente. Os deu-
ses não estão, de modo algum, ausentes, tampouco são rejeitados,
mas as modalidades de sua presença e as marcas de sua intervenção
são, daí em diante, diferentes das formas que haviam assumido
na epopeia. De saída, entalado no tempo e às voltas com ele, o
historiador se posiciona entre passado e presente, mas, a partir do
próprio presente, a partir do nome próprio que ele lança ao iniciar
sua tarefa e que lhe permite distinguir claramente entre "agora" ou
"no meu tempo" e "antes", "outrora". Uma vez definido esse lugar
de palavra (e de observação), ele pode "avançar" na sequência de
sua narrativa e designar -, em função do saber adquirido por ele,
Heródoto - aquele que foi o primeiro a tomar a iniciativa de atos
ofensivos contra os gregos. No caso concreto, trata-se de Creso, o
rei da Lídia (ver supra, p.32-33).
Ulisses "viu as cidades de um grande número de homens e
conheceu sua mentalidade". Do mesmo modo, o historiador viaja
com seus pés (ele deve estar firme e forte, vigilante);" mas também
por meio e através dos logoí dos outros, detendo-se em alguns,
passando rapidamente por outros. Além disso, ele sabe que não
basta ver hoje, ou ter visto ontem, as cidades dos homens porque
o tempo, além de apagamento, é mudança.
Avançarei na sequência de minha narrativa - anuncia Heródoto
- percorrendo de modo semelhante (homoíos) asgrandes cidades
dos homens, assim como as de pequeno porte; com efeito,
daquelas que antigamente eram de grande porte, a maioria
tomou-se de pequeno porte; e as que eram de grande porte no
meu tempo haviam sido, outrora, de pequeno porte; sabendo
que a prosperidade humana nunca permanece fixa no mesmo
ponto, vou deixar a memória de modo semelhante a respeito
de umas, assim como das outras (HERÓDOTO,1,5, grifo meur."
Heródoto enuncia aí como que uma lei da história, a meio
caminho entre a profecia e o prognóstico. Por uma espécie de
conversão, a distância entre o passado e o presente é avaliada e
apreendida na dinâmica da oposição entre o grande e o pequeno,
19 No original, avoir bon pied, bon rei/-literalmente, ter pés e olhos saudáveis. (N.T.).
20 A tradução de Ph.-E. Legrand foi ligeiramente modificada.
58
VER E DIZER: A VIA GREGA DA HISTÓRIA (SÉCULOS VI-IV A.C.)
encontrando a figura simples (e tranquilizante por ser geradora de
inteligibilidade) da reviravolta e da inversão. Diante dessa situação,
a tarefa do historiador consiste em ser justo em relação ao passado
ou ao presente, falando homoios das cidadesdos homens.
Ainda convém observar que Heródoto, em vez de utilizar
"são", escreve: aquelas que, no meu tempo, "eram" grandes. Qual
seria a razão, com esse imperfeito epistolar, de situar seu presente
no passado? Não seria já, ao se olhar a si mesmo no passado, uma
forma de dirigir-se às "pessoas do futuro", que, por sua vez, deverão
abster-se de esquecer que nada, nunca, permanece no mesmo lugar?
Atenas não poderia ter a certeza de continuar sendo uma cidade" de
grande porte"; aliás, nem sempre ela havia tido tal porte. O futuro
não está de modo algum fixado, mas ele nunca é completamente
inédito: verifica-se um movimento entre essas duas balizas do gran-
de e do pequeno. Mais ainda, esse imperfeito, que aparece em um
prólogo (provavelmente redigido por último, como todo prefácio
digno desse nome), no qual o historiador apresenta e recapitula seu
empreendimento, poderia ser já a expressão de um olhar retrospec-
tivo lançado sobre o caminho percorrido. A obra está acabada, e o
tempo passou desde o dia em que, tendo deixado Halicarnasso, o
futuro Heródoto havia iniciado suas viagens.
O domínio de competência do aedo era "a gesta dos heróis e
dos deuses". Por sua vez, o historiador, que se limita ao que acon-
teceu "por obra dos homens", no "tempo dos homens", acrescenta
a seu domínio este princípio de seleção: escolher o que é "grande"
e suscita o "espanto" (thauma). Assim, ele adota um instrumento
de avaliação da diversidade dos acontecimentos e de ordenamento
da variedade do mundo.
Não é certo que esse tempo dos homens, dividido de forma
tão nítida, seja uniforme. No momento em que evoca os primeiros
povoamentos da Grécia, Heródoto indica que alguns bárbaros con-
seguiram transformar-se em gregos: esse é, até mesmo, o caso dos
atenienses, ou melhor, dos futuros atenienses. Eles haviam sido, em
primeiro lugar, pelasgos; ora, os pelasgos eram bárbaros. "De tal modo
que o povo ateniense teve, ao mesmo tempo que se transformava em
59
EVIDÍ'NCIA DA HISTÓRIA - O QUE OS HISTORIAOORESVEEM
grego, de aprender uma nova língua" (HERÓDOTO, 1, 56). Depois
veio um tempo em que, segundo parece, essas passagens deixaram de
ser possíveis, como se duas temporalidades diferentes tivessem se colo-
cado em marcha. Os gregos conheceram, então, grande crescimento
demográfico, ao passo que os bárbaros "nunca chegaram a crescer
consideravehnente" (Id., 1,58; HARTOG, 1996, p. 89). Neste ponto,
verifica-se o início de duas temporalidades qualitativamente diferentes:
um tempo dos gregos e um tempo dos bárbaros. Um, por si mesmo,
portador de crescimentos, enquanto o outro não apresenta esse traço. É
quase uma primeira formulação do famoso paradigma de Lévi-Strauss
a respeito das "sociedades quentes" e das "sociedades frias".
O tempo dos homens possui ainda uma terceira característica:
sua longa duração. Ao visitar o Egito, Hecateu de Mileto chega a
Tebas e nessa cidade, como bom genealogista que é, recita aos sacer-
dotes a própria genealogia, que, em dezesseis gerações, o conduz a
um ancestral divino. Do ponto de vista dos padrões gregos, dezesseis
gerações está realmente de bom tamanho! A dos filaides, estabelecida
por Ferécides, especialista no assunto, contava apenas treze. Longe de
caírem em êxtase, qual foi a atitude dos sacerdotes? Em companhia de
seu hóspede, eles percorrem a fileira de trezentos e quarenta e cinco
estátuas de sacerdotes que, de acordo com o esclarecimento fornecido
pelos anfitriões, representam uma sucessão de gerações humanas e
apenas humanas (HERÓDOTO, 2, 143). É tudo! Essa anedota justifica
perfeitamente o riso do próprio Hecateu diante dos logoi dos gregos,
mas dessa vez vamos sorrir às suas custas. Assim, Heródoto leva a sentir
a diferença entre o tempo dos egípcios e o dos gregos. Esse encontro
físico com a Antiguidade do Egito e a longa duração do tempo nunca
mais deixarão de suscitar o fascínio dos gregos.
"Dize-me, Musa, o homem de um número incontável de ha-
bilidades", tal era o contrato inaugural da epopeia. A Musa, filha de
Memória e inspiradora, era avalista do canto do poeta. Com a pri-
meira história, terminou desde logo esse regime de palavras. A prosa
substituiu o verso, a escrita se impõe: a Musa desapareceu. No seu
lugar, está um termo novo e uma nova economia narrativa: "De He-
ródoto de Halicamasso, eis a exposição de sua historie ... " Palavra em-
blemática, histotie (formajônica de historia), aos poucos, vai impor-se
60
VER E DIZER: A VIA GREGA DA HISTÓRU'\ (SECUlOS VI·IV A.C.)
(Tucídides, por sua vez, adotará a maior precaução para evitar seu uso).
Palavra abstrata, formada a partir do verbo historein - investigar, em
primeiro lugar, no sentido de inquérito judicial-, hístoria é um termo
derivado de hístor (raiz * wid), que, por sua vez, está associado a idein,
ver, e a oida, saber. Em vez de ser "aquele que sabe por ter visto ou
aprendido", o histor é aquele que sobretudo está em condições de se
apresentar como avalista (CHANTRAINE,s.v. "oida",1968; SAUGE,1992;
HARTOG,2004). Ora, o histor está presente na epopeia, na qual ele
aparece em várias ocasiões como aquele a quem se recorre: em vez de
testemunha direta, ele é aquele que se toma como testemunha.
Heródoto não é um aedo, nem sequer um histor. ele historei; não
tem a autoridade natural do último (ele não é um "mestre da verdade",
tal como Agamenon), nem se beneficia com a visão divina do primeiro
(o aedo é um "vidente"). Ele limita-se a recorrer à historie, a envolver-se
em um procedimento de investigação, aliás, o primeiro momento de
sua operação historiográfica. Tendo o valor, em primeiro lugar, de um
substituto, a historie se toma finalmente um análogo da visão onisciente
da Musa que, por sua vez, sabia por estar presente a tudo. Não tendo
autoridade, em resumo, além de si mesmo, o narrador-historiador
pretende "avançar na sua narrativa, fixando a memória, de maneira
semelhante, das cidades grandes e pequenas dos homens".
Se a historie evoca o saber do aedo e, ao mesmo tempo, rom-
pe com ele, existe outro gesto de começar (o segundo momento
da operação historiográfica) que faz surgir a figura do adivinho e
convoca o campo da adivinhação. Heródoto historei, mas também
semainei: ele designa, revela, significa. O verbo semainein se aplica
a quem viu o que os outros não veem ou não puderam ver: ele
pertence claramente ao registro do saber oracular. Desde a epo-
peia, o adivinho - que conhece o presente, o futuro, mas também
o passado - é apresentado como homem de saber. Epimênides de
Creta, adivinho famoso, era renomado por aplicar sua adivinhação
não àquilo que devia ser, mas ao que, já acontecido, permanecia,
não obstante, obscuro. A célebre fórmula de Heráclito, segundo
a qual o oráculo não diz, nem esconde, mas "significa" tsemaineiv,
pertence ao mesmo registro. Ora, desde o prólogo, exatamente
no momento em que, pela primeira vez, Heródoto toma a palavra
61
Do kleos ao kiema
EVlD~NCIA DA HISTÓRIA - o QUE OS HISTORIADORES VEEM
ao dizer" eu", ele semaínei. Ele revela, significa ... aquele que foi o
primeiro a tomar a iniciativa de atos ofensivos em relação aos gre-
gos. Ele designa Creso, o rei dos lídios, o primeiro a ter escravizado
gregos, como responsável, culpado (aítios). Por essa investigação e
essa designação como responsabilidade, Heródoto não se apresenta,
nem atua, como adivinho, mas ele retoma, em nome do próprio
saber, um estilo de autoridade do tipo oracular.
Assim investidos, hístorein e semaineín funcionam como dois
verbos-encruzilhada onde encontram guarida e se entrecruzam
saberes antigos e saberes novos; eis o que é testemunhado, de ma-
neira brilhante, pela obra de Heródoto. Eles são dois operadores
para "ver claro" mais longe, além do visível, no espaço e no tempo,
dois gestos que conferem estilo à pratica do primeiro historiador e
lançam a evidência da história. Sem ser aedo, nem adivinho, mas
entre o aedo e o adivinho.
Tucídides não compreende historein, nem semainein. Por não ser
aedo, nem adivinho, ele coloca a autópsia (o fato de ver por si mesmo)
no ceme de sua epistemologia.Contudo, ao mesmo tempo que ele
atribui o primeiro lugar à vista, recusa-se sistematicamente a utilizar
o próprio termo hístoría (cuja etimologia misturava, no entanto, ver e
saber) em proveito do verbo suggrapheín. "Tucídides de Atenas compôs
por escrito a guerra entre os peloponésios e os atenienses, a maneira
como eles combateram uns contra os outros; ele começou a escrevê-
-Ia desde seu desencadeamento na expectativa de que ela viesse a ser
grande e a mais digna de ser narrada do que as precedentes; com efeito,
ele verificava que, ao entrar em luta, os dois partidos haviam atingido
o auge de todos os seus recursos; e observava também que as restantes
cidades do mundo grego aliavam-se com um dos dois lados - umas, de
imediato, e as outras, pelo menos, em projeto" (LORAUX,1986, p. 142;
CONNOR, 1984). A obra já não se apresenta como a manifestação de uma
hístoría, mas como uma "inscrição", uma redação, uma composição."
21 Em Heródoto, o verbo suggraphein significa "consignar por escrito", ver CANfORA,1972, p.
108-110. O termo suggrapheus pode ter o sentido técnico daquele que redige um projeto de lei
ou um contrato; ele designa também O escritor em prosa e, mais tarde, o historiador.
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VER E DIZER: A VIA GREGA DA HISTÓRIA (SÉCULOS VI-IV A.C.)
Por sua declamação, retomada incessantemente, o aedo de
outrora oferecia um kleos imortal aos mortos heroicos. Heródoto
tinha pretendido impedir que as marcas da atividade dos homens
viessem a apagar-se, ao deixarem de ser relatadas. Tucídides, ao
escolher "deixar por escrito", desde seu começo, uma guerra que
ele sabia que deveria ser "a maior" de todas, apresenta sua narrati-
va como um "ktema para sempre". É sensível o deslocamento do
kleos ao ktema. O tempo da epopeia havia chegado realmente a
seu termo. Daí em diante, em vez de preservar do esquecimento
as ações valorosas, trata-se de levar os homens do futuro a receber
um instrumento de inteligibilidade do próprio presente: a Guerra
do Peloponeso, constituída por seu primeiro (mas também, em
certo sentido, último) historiador como ideal-tipo. Em vez de um
instrumento de previsão do futuro, ela pretende ser ferramenta de
decifração dos presentes por vir; com efeito, tendo em conta o que
são os homens (to anthropinon), outras crises análogas não deixarão de
ser desencadeadas no futuro (TUCÍDIDES,1,22,4). Para Tucidides,
essapermanência da natureza humana serve de fundamento, de fato,
à exemplaridade desse conflito (começado em 431 e terminado em
404, entrecortado por períodos de trégua), mas designado por ele
- para sempre - A Guerra do Peloponeso.
De modo diferente dos logógrafos, acusados de ceder ao prazer
do ouvinte e de trabalhar apenas em função do curto momento
de suas apresentações públicas, ele não visa seduzir o ouvido, mas
apenas ser útil. Ele não quer uma "produção aparatosa para um
auditório momentâneo" (Ibid.). Essa história do presente só adquire
seu pleno sentido se, respaldada firmemente na escrita e indo além
dos instantes de sua apresentação ao público, ela tiver, por assim
dizer, os olhos fitos no futuro. Como se Tucídides dissesse a seus
contemporâneos: "Procurem compreender que se procedo como
faço, é porque já me dirijo àqueles que virão depois de vocês, ou
só me dirijo a vocês na medida em que vocês compartilham com
os homens do futuro uma natureza humana comum. Portanto,
não esperem de mim belas histórias, ademais inverificáveis ou, até
mesmo, completamente falsas". Forma sutil de captatio em forma
de negação! Curiosamente, esse tipo de história, baseada em
genealogias, permanecerá associado à ideia de prazer. O sofista
63
EVIDÊNCIA DA HISTÓRIA - O QUE OS HISTORIADORES VEEM
Hípias de Élis, que encontraremos um pouco mais adiante, não
se faz de rogado para dizer que os espartanos adoram que ele lhes
recite antigas genealogias; do mesmo modo, Políbio, três séculos
mais tarde, associará ainda a história genealógica com o prazer do
ouvinte (PLATÃO,Hípias maior, 285d; POLÍBIO,9, 1, 4).
O saber deve fundamentar-se na autópsia e ser organizado com
base nos dados que ela fornece. Dos dois recursos do conhecimento
histórico, o olho (opsis) e o ouvido (akoe), o primeiro unicamente
pode conduzir a uma visão clara e distinta (saphos eidenai). Mas
com a condição de ser utilizado adequadamente: a autópsia não
é um dado imediato, convém filtrá-Ia por um verdadeiro proce-
dimento de crítica dos testemunhos para estabelecer os fatos com
tanta exatidão quanto for possível. O ouvido, em compensação,
nunca é fidedigno; com efeito, o que se anuncia e se transmite
não chegou a ser experimentado (abasanístos). Por princípio, é im-
possível basear-se na memória, que esquece ou deforma ou cede,
no momento da exposição, à lei do prazer que preside a prática
de falar ao pé do ouvido.F Quando Nícias, o chefe da expedição
ateniense na Sicília, quer avisar a cidade a respeito da situação crítica
em que se encontra, ele envia, como é normal, mensageiros. Mas,
temendo - acrescenta Tucídides - que eles tenham uma falha na
memória ou que sejam compelidos a dizer, em vez da realidade, o
que a multidão gostaria de ouvir, ele redige uma carta. Assim, sem
intermediário, nem deformação, os atenienses poderão "tomar uma
decisão com pleno conhecimento da verdade". Tucídides apresenta
vários exemplos das deformações da memória, mas sem verdadeira
esperança de corrigi-los porque as ideias preconcebidas têm sempre
a preferência em relação à "busca da verdade" (TUCÍDIDES,7, 8,
1; 1, 20, 1-3). Eis, portanto, o motivo pelo qual a única história
científica é a do presente.
O passado, por sua vez, não é verdadeiramente cognoscível. É
o que será demonstrado por seus primeiros capítulos, conhecidos sob
o nome de "Arqueologia", nos quais Tucídides consegue a façanha
de apresentar a exposição mais clara sobre os tempos antigos e, ao
22 No original, de bouche à l'oreille: literalmente, da boca ao ouvido. (N.T.).
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VER E DIZER: A VIA GREGA DA HISTÓRIA (SÉCULOS VI-IV A.C.)
mesmo tempo, a demonstração mais nítida de que é impossível fazer
uma verdadeira história a seu respeito.
De fato, para o período anterior (à guerra presente) e para as épo-
cas ainda mais antigas, era totalmente impossÍvel- considerando
o recuo do tempo - chegar a um conhecimento claro; mas, a
partir dos indícios que, no decorrer de investigações mais apro-
fundadas, me permitiram chegar a uma convicção, defendo que
nada chegou a assumir, nessas épocas, grandes proporções, seja em
relação às guerras ou aos acontecimentos restantes (Ibid., 1, 1,2).
Ao legetai (diz-se que) dos logógrafos e de Heródoto, que relatam o
que se diz, Tucídides opõe o phainetai (é manifesto, toma-se evidente
que). Mas essa luz incerta deverá ser produzida sempre a partir do
presente, ao avaliar os acontecimentos do passado pela bitola dos
acontecimentos contemporâneos e ao basear-se no rastreamento e na
reunião de indícios (semeia) convergentes. Assim, o império atenien-
se (com seus três componentes: muralhas, frota e dinheiro) serve de
modelo para delinear a história do passado. Desde sempre, a mesma
história vai se desenvolvendo; simplesmente, nunca se dispôs de tão
grande número de navios, nem de tão grande número de cidades
fortificadas, nem de tanto dinheiro. Subjacente a toda a "Arqueo-
logia", enquanto meditação sobre o poderio (dynamis), encontra-se
uma teoria do progresso que faz eco às reflexões contemporâneas
sobre o mesmo tema (DEROMILLY,1966). Mas, no termo de sua
investigação (em que o vocabulário judicial é, de fato, recorrente),
o historiador não alcança a evidência da autópsia: à semelhança do
juiz que procede por reunião de indícios, ele chega somente, e na
melhor das hipóteses, à pistis (convicção).
A elucidação do passado requer a intervenção constante do
historiador para "encontrar" os fatos e raciocinar sobre os indícios.
O presente parece falar ou dar-se a ver por si mesmo; deste modo,
a figura do historiador não deixa traço (LORAUX,1986, p. 156).
Tucídides restringe o campo da história ao presente, e seu tema à
história política da Grécia.Heródoto tinha dedicado quatro livros
de suas Histórias aos bárbaros. Para Tucídides, de saída, era ponto
pacífico que "o mundo grego antigo vivia de maneira análoga ao
mundo bárbaro atual" (TUCÍDIDES,1,6,6). Essa maneira expeditiva
65
EVIDÊNCIA DA HISTÓRIA - O QUE OS HISTORIADORES VEEM
de colocar no mesmo plano os gregos de outrora e os bárbaros de
hoje é uma forma de desvalorizar tanto o passado quanto os bárbaros.
O tempo dos bárbaros é o dos gregos de outrora, e o passado dos
gregos não é, no fundo, mais interessante do que o presente dos
bárbaros. Assim, encontram-se as duas temporalidades sugeridas por
Heródoto: por um lado, o tempo feito de progresso e de acúmulo;
e, por outro, um tempo estagnado e repetitivo.
O encontro com o Egito e sua impressionante reserva de tempo
tinha modificado a percepção de Heródoto relativamente à duração
do "tempo dos homens"; uma expressão dessa mudança foi o cho-
que provocado pela justaposição da genealogia de Hecateu com a
"lista" dos sacerdotes de Tebas. Ao falar da religião grega e do papel
desempenhado por Hesíodo e Homero na fixação do panteão, ele
julgava que essa intervenção era bem recente: ela fora produzida, por
assim dizer, "ontem", ou seja, há "quatrocentos anos" (HERÓDOTO,
2, 53).23 Focalizado no presente e na Grécia, Tucídides nunca diria
que quatro séculos equivalem a um dia. Mas esse mesmo ponto
de vista exclusivo do presente o leva a considerar o passado como
contínuo e igualmente cognoscível (ou incognoscível). Para ele,
Minos é "o mais antigo personagem conhecido que dispôs de uma
frota e conquistou o domínio do mar": ele representa a primeirís-
sima realização do modelo do império. Eis o que lhe confere seu
lugar e seu sentido na evolução da história grega. Para Heródoto,
em compensação, Minos situa-se do outro lado da divisão entre
tempo dos deuses e tempo dos homens, visto que é exatamente a
propósito desse personagem que ele traçou essa distinção. "Polícrates
[o tirano de Samos], escreve ele, é o primeiro dos gregos, pelo que
sabemos, que sonhou com o império dos mares - deixo de lado
Minos e os que, antes dele, se houve, reinaram sobre o mar -, o
primeiro do tempo que se designa como o tempo dos homens"
(HERÓDOTO,3, 122).24A existência de Minos não é questionada por
Heródoto, nem por Tucídides, mas o primeiro vai lançá-Io para
além do círculo de seu saber, ao passo que o segundo o inclui em
23 Em seu cálculo, a guerra de Traia é situada oitocentos anos antes dele.
24 O que é traduzido por "tempo" é o étimo gel1ee, exatamente "geração".
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VER E DIZER: A VIA GREGA DA HISTÓRIA (SÉCUlOS VI-IV A.C.)
seu quadro dos progressos da potência grega, cujo ponto de chegada
(e de partida) é o presente.
Mas eis que esse presente ateniense, autossuficiente e imperia-
lista, encontra-se mergulhado, por causa da guerra - "esse senhor de
maneiras violentas" -, em uma crise sem precedentes em que todas
as certezas acabaram perdendo seus pontos de apoio (LÉVY, 1976).
E essa descoberta se efetua justamente na obra do homem que se
tornou o teórico mais consequente de uma história no presente,
baseada na autópsia e inscrita em uma teoria do progresso. A esse
respeito, é difícil não atribuir um alcance - no mínimo, simbólico
- ao inacabamento da Guerra do Peloponeso." Dois tempos fortes,
particularmente dramáticos, descrevem essa crise, esforçando-se por
atingir suas molas psicológicas mais profundas e apreciando seus
efeitos. Com a epidemia da peste, Atenas experimenta uma praga
que vem questionar a própria ordem da cidade: a doença (nosema)
redunda na anomia (anomia). O número dos cadáveres foi de tal
modo elevado que todos os costumes funerários tiveram de ser mo-
dificados; as pessoas procuravam desembaraçar-se dos mortos sem se
orientarem por qualquer critério. Vivia-se o instante presente sem
respeitar mais nada, seja lei humana, seja lei divina, em uma busca
ávida por satisfações rápidas (TUCÍDIDES,2, 52-53).
Esse brusco ataque desferido contra os alicerces da vida civili-
zada era devido, no caso de Atenas, a um fator exógeno (a doença
viera da Etiópia), mas os corcirenses não tinham essa desculpa. O
mal que os aflige - a stasis, para lhe dar seu nome -, que corroeu
o vínculo social em seu âmago, era completamente endógeno.
Tratava-se de uma doença oriunda da própria cidade. Essa epidemia,
que levava aristocratas e democratas a travar uma guerra inexpiável
uns contra os outros, começou em Córcira, mas" disseminou-se em
seguida, por assim dizer, pelo mundo grego inteiro". Essa guerra
civil subverteu tudo: as leis, assim como as regras mais elementares
do intercâmbio entre seres humanos, sem o qual nenhuma socia-
bilidade é sequer possível, inclusive, no sentido usual das palavras.
25 o livro VIII, inacabado, termina em 411.
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