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© Relógio D’Água Editores, Junho de 2001 Composição e paginação: Relógio D’Água Editores Impressão: Rainho & Neves, Lda. / Sta. Maria da Feira Depósito Legal n.°: 167026/01 Rua Sylvio Rebelo, n.° 15 1000-282 Lisboa Telef.: 21 8474450 Fax: 21 8470775 Internet: http://www.relogiodagua.pt mail: relogiodagua@relogiodagua.pt Título: A Alma e o Caos — 100 poemas expressionistas Selecção, tradução, introdução e notas: João Barrento Capa: Fernando Mateus http://www.relogiodagua.pt mailto:relogiodagua@relogiodagua.pt A Alma e o Caos 100 poemas expressionistas Selecção, tradução, introdução e notas de JOÃO BARRENTO Poesia SBD-FFLCH-USP lllffllllll 4 1 5 2 6 5 <^953541 > Nota DEDALUS - Acervo - FFLCH nnniiiii 20900202414 A Alma e o Caos — 100 Poemas Expressionistas é uma versão revista actualizada e aumentada da antologia de poesia expressionista alemã que publiquei em 1978. Para a presente edição foi completamente refeita a ordenação dos poemas, organizados agora segundo os núcleos da poesia expressionista propostos na nova introdução. Ante-estação: Programas Emst Stadler DER SPRUCH (1914) 28 In einem alten Buche, stieB ich auf ein Wort, Das traf mich wie ein Schlag und brennt durch meine Tage fort: Und wenn ich mich an trübe Lust vergebe, Schein, Lug und Spiel zu mir anstatt des Wesens hebe, Wenn ich gefállig mich mit raschem Sinn belüge, Ais ware Dunkles klar, ais wenn nicht Leben tausend wild verschlossne Tore trüge, Und Worte wiederspreche, deren Weite nie ich ausgefühlt, Und Dinge fasse, deren Sein mich niemals aufgewühlt, Wenn mich willkommnerTraum mit Sammethãnden streicht, Und Tag und Wirklichkeit von mir entweicht, Der Welt entfremdet, fremd dem tiefsten Ich, Dann steht das Wort mir auf: Mensch, werde wesentlich! Emst Stadler A SENTENÇA 29 Num velho livro topei com uma palavra escrita, Que como um choque me marcou e ilumina toda a minha vida: E quando me entrego ao prazer embotante, E à essência prefiro a aparência, a mentira e o falso semblante, Quando, de ânimo leve, a mim mesmo me engano com pequenos nadas, Como se fosse clara a escuridão, como se a vida não tivesse mil portas brutalmente fechadas, E repito palavras cuja vastidão eu nunca senti, E agarro coisas cujo sentido profundo não vivi, Quando, com mãos aveludadas, o sonho bem-vindo me acaricia E de trabalhos e dias me alivia, Alienado do mundo, estranho à minha própria consciência, Então ergue-se em mim essa palavra: Homem, toma à tua essência! FORMIST WOLLUST (1914) 30 >en, drangen — Form und Riegel muBten erst zerspringen, Welt durch aufgeschlossne Rõhren dringen: Form ist Wollust, Friede, himmlisches Genügen, Doch mich reiBt es, Ackerschollen umzupflügen. Form will mich verschnüren und verenge Doch ich will mein Sein in alie Weiten dr Form ist klare Hãrte ohn’ Erbarmen, Doch mich treibt es zu den Dumpfen, zu den Armen, Und in grenzenlosem Michverschenken Will mich Leben mit Erfüllung trãnken. FORMA É VOLÚPIA 31 Foi preciso que forma e ferrolho rebentassem, E que mundos por tubos abertos penetrassem: Forma é volúpia, paz, divina contenção, Mas eu quero revolver tudo, torrão a torrão. A forma quer atar-me e limitar-me, Mas com todo o meu Ser em tudo hei-de espraiar-me — A forma é rigorosa, clara, sem piedade, Mas para os fracos e pobres vai a minha amizade, E nesta oferta de mim mesmo, sem limitação, A vida me dará plena compensação. Quarta estação: Outono, Morte e Transfiguração Emst Stadler LOVER’S SEAT (1911) 178 Im Abend sind wir steile grünbebuschte Dünenwege hingeschritten. Du ruhst an mich gedrângt. Die Kreideklippe schwingt ihr schim- memdes Gefieder über tiefem Meere. Hier, wo der Fels in jãher Todesgier ins Leere Hinüberlehnt, sind einst zwei Liebende ins weiche blaue Bett geglitten. Fem tõnt die Brandung. Zwischen Küssen lausch ich der Legende, Die lachend mir dein Mund in den erglühten Sommerabend spricht. Doch tief mich beugend seh’ ich wie im Glück erstarren dein Gesicht Und dumpfe Schwermut hinter deinen Wimpem warten und das nahe Ende. Emst Stadler LOVER’S SEAT 179 Na noite, percorremos os íngremes atalhos, entre verdes arbustos, pelas dunas. Tu descansas, enlaçada a mim. A falésia branca lança a plumagem cintilante sobre profundos mares. Aqui, onde o rochedo se suspende nos ares Em brusca avidez de morte, resvalaram outrora dois amantes para o leito azul de espumas. Ao longe soa a ressaca. Entre beijos a lenda me deleita, Que a tua boca, a rir, pela cálida noite de verão me vem dizer. Mas inclino-me mais, e vejo o teu rosto como de felicidade estarrecer E surda melancolia à espera por detrás dessas pestanas, e o fim que espreita. Emst Stadler LOVER’S SEAT (1911) 178 Fem tõnt die Brandung. Zwischen Küssen lausch ich der Legende, Die lachend mir dein Mund in den erglühten Sommerabend spricht. Doch tief mich beugend seh’ ich wie im Glück erstarren dein Gesicht Und dumpfe Schwermut hinter deinen Wimpem warten und das nahe Ende. Im Abend sind wir steile grünbebuschte Dünenwege hingeschritten. Du ruhst an mich gedrãngt. Die Kreideklippe schwingt ihr schim- memdes Gefieder über tiefem Meere. Hier, wo der Fels in jaher Todesgier ins Leere Hinüberlehnt, sind einst zwei Liebende ins weiche blaueBett geglitten. DER AUFBRUCH í cÈ (1914; escrito antes de 1913) 1801 Einmal schon haben Fanfaren mein ungeduldiges Herz blutig gerissen, DaB es, aufsteigend wie ein Pferd sich wütend ins Gezãum verbissen. Damals schlug Tambourmarsch den Sturm auf allen Wegen, Und herrlichste Musik der Erde hieB uns Kugelregen. Dann, plõtzlich, stand Leben stille. Wege führten zwischen alten Baumen. Gemãcher lockten. Es war siiB, zu weilen und sich versãumen, Von Wirklichkeit den Leib so wie von staubiger Rüstung zu entketten, Wollüstig sich in Daunen weicher Traumstunden einzubetten. Aber eines Morgens rollte durch Nebelluft das Echo von Signalen, Hart, scharf, wie Schwerthieb pfeifend. Es war wie wenn im Dunkel plõtzlich Lichter aufstrahlen. Es war wie wenn durch Biwakfrühe TrompetenstõBe klirren, Die Schlafenden aufspringen und die Zelte abschlagen und die Pferde schirren. Ich war in Reihen eingeschient, die in den Morgen stieBen, Feuer über Helm und Bügel, Vorwarts, in Blick und Blut die Schlacht, mit vorgehaltnem Zügel. Vielleicht wurden uns am Abend Siegesmãrsche umstreichen, Vielleicht iagen wir irgendwo ausgestreckt unter Leichen. Aber vor dem Erraffen und vor dem Versinken, Würden unsre Augen sich an Welt und Sonne satt und glilhend trinken. I L ' A PARTIDA coração impaciente 181 Uma vez já fanfarras fizeram sangrar o meu coração impaciente Que, empinando-se como um cavalo, mordeu o freio raivosamente. Então rufavam no tambor marchas de ataque por caminhos e valas, E a mais gloriosa música do mundo era para nós chuva de balas. Depois, subitamente, a vida parou. Os caminhos corriam entre árvores familiares. Era o fascínio de alcovas, e a doçura de passear e perder-se em vagares, Libertar o corpo de realidade e de armaduras poeirentas E acamar-se voluptuosamente na penugem de horas de sonho macientas. Mas uma manhã rolou pelo ar de névoa o eco de sinais, Duro, agudo, silvando como golpe de espada. Como se no escuro subitamente se acendessem faróis. Como quando, pela madrugada do acampamento, soa a cometa da alvorada, Os homens saltam do seu sono, desmontam tendas e aparelham a montada. Fui alinhado em fileiras que entravam pela manhã, fogo sobre o elmo e o arreio, Para a frente, a batalha no olhar e no sangue, sustendo o freio. Talvez nos envolvessem marchas de vitória ao anoitecer, Talvez tivéssemos ficado algures entre corpos a apodrecer. Mas, antes de serem levados e antes de irem ao fundo, Os nossos olhos ardentes iriam saciar-se de sol e de mundo. JUDENVIERTEL IN LONDON (1913) 182 Man sitzt vor Türen, drückt sich um die Karren. Zerlumpte Kinder kreischen über dürftigem Spiele. Ein Grammophon quãkt auf, zerbrochne Weiberstimmenknarren, Und fem erdrõhnt die Stadt im Donner der Automobile. Gestank von faulem Fleisch und Fischen klebt an Wãnden. SüBlicher Brodem trãnkt die Luft, die leise nachtet. Ein altes Weib scharrt Abfall ein mit gierigen Hãnden, Ein blinder Bettler plãrrt ein Lied, das keiner achtet. Die vollgestopften Lãden drãngen sich ins Freie. Auf langen Tischen staut sich Plunder wirr zusammen: Kattun und Kleider, Fische, Früchte, Fleisch, in eklerReihe Verstapelt und bespritzt mit gelben Naphtaflammen. Dicht an den Glanz der Plãtze fressen sich und wühlen Die Winkelgassen wüst in sich verbissen, Wie Narben klaffend in das nackte Fleisch der Hãuser eingerissen Und angefüllt mit Kehricht, den die schmutzigen Gossen überspülen. BAIRRO JUDEU EM LONDRES 183 Perto do brilho das praças vão-se engolindo e agitando Vielas tortuosas, caoticamente encarniçadas, Como cicatrizes abertas na carne nua das casas, rasgadas, E cheias de dejectos, que os esgotos imundos vão banhando. -Ni’ Há gente comprimida em volta de carroças, ou sentada à porta. Crianças esfarrapadas gritam em jogos sem finalidade. Uma grafonola berra, a voz estridente de mulheres aborta, E ao longe, no troar dos automóveis, ecoa a cidade. Lojas a abarrotar transbordam para a rua. Em longos balcões amontoa-se tralha em confusão: Chita e vestidos, peixe, fruta e carne em abjecta combinação, Em pilhas, e manchados pela luz de nafta, amarelada e crua. Às paredes pega-se o cheiro de carne e peixe apodrecidos. Vapor adocicado satura o ar, que em silêncio vai crepusculando. Uma velha enterra lixo com dedos ressequidos, E ninguém liga a um pedinte cego, que em tom lamuriante vai cantando. SOMMER 184 Mein Herz steht bis zum Hals in gelbem Emtelicht wie unter Sommerhimmeln schnittbereites Land. Bald lãutet durch die Ebenen Sichelsang: mein Blut lauscht tief mit Glück gesãttigt in den Mittagsbrand. Komkammem meines Lebens, lang verõdet, alie eure Tore sollen nun wie Schleusenflügel offen stehn, Über euem Grund wird wie Meer die goldne Flut der Garben gehn. VERÃO 185 O meu coração mergulha até ao pescoço em luz amarelada de colheitas, como campo à espera da ceifa, sob céus de estivai acalmia. Em breve o canto das foices ecoa pelas planícies: o meu sangue, profundamente saciado de felicidade, põe-se à escuta pelo braseiro do meio-dia. Celeiros da minha vida, há muito abandonados, todos os vossos portões, como comportas de represa, se abrirão agora, E, como mar, a torrente dourada das espigas correrá pelo vosso leito fora. (1913) 186 FAHRT ÜBER DIE KÕLNER RHEINBRÜCKE BEI NACHT wo die Stadt Der Schnellzug tastet sich und stõBt die Dunkelheit entlang. Kein Stem will vor. Die ganze Welt ist nur ein enger, nachtum- schienter Minengang, Darein zuweilen Fõrderstellen blauen Lichtes jâhe Horizonte reiBen: Feuerkreis Von Kugellampen, Dãchem, Schloten, dampfend, strõmend.... nur sekundenweis ... Und wieder alies schwarz. Ais führen wir ins Eingeweid der Nacht zur Schicht. Nun taumeln Lichter her ... verirrt, trostlos vereinsamt... mehr ... und sammeln sich ... und werden dicht. Gerippe grauer Hãuserfronten liegen bloB, im Zwielicht bleichend, tot - etwas muB kommen... o, ich fühl es schwer Im Him. Eine Beklemmung singt im Blut. Dann drõhnt der Boden plõtzlich wie ein Meer: Wirfliegen, aufgehoben, kõniglich durch nachtentrissne Luft, hoch übem Strom. O Biegung der Millionen Lichter, stumme Wacht, Vor deren blitzender Parade schwer die Wasser abwârts rollen. Endloses Spalier, zum GruB gestellt bei Nacht! Wie Fackeln stürmend! Freudiges! Salut von Schiffen über blauer See! Bestimtes Fest! Wimmelnd, mit hellen Augen hingedrãngt! Bis mit letzten Hãusem ihren Gast entlãBt. Und dann die langen Einsamkeiten. Nackte Ufer. Stille. Nacht. Besinnung. Einkehr. Kommunion. Und Glut und Drang Zum Letzten, Segnenden. Zum Zeugungsfest. Zur Wollust. Zum Gebet. Zum Meer. Zum Untergang. 187 PASSAGEM NOCTURNA DA PONTE SOBRE O RENO EM COLÔNIA 0 comboio rápido tacteia e entra pela escuridão. Não há estrela que se afoite. 0 mundo não é mais que estreita galeria de mina, entre os carris da noite, Onde, aqui e ali, fontes de luz azul abrem súbitos horizontes: esfera de fogo De lâmpadas, telhados, chaminés, fumegando, fluindo... uns segundos apenas, e logo Tudo regressa ao negro. Como se nos metéssemos pelas entranhas da noite, para mais um turno no filão. Agora aproximam-se as luzes cambaleantes... dispersas, desconsoladamente solitárias... mais... reúnem-se... ganham concentração. Desnudam-se esqueletos de cinzentas frontarias, empalidecidas na penumbra,mortas — algo vai surgir... oh, sinto-o profundamente No meu cérebro. Uma opressão canta no sangue. Depois o chão ressoa como um mar, subitamente: Voamos, soberanamente elevados sobre o rio, pelos ares arrebatados à noite. Oh, curva de milhões de luzes, mudo esquadrão, Ante cuja parada brilhante correm pesadamente as águas. Cordão sem fim,alinhado na noite para a-saudação! Erupção de archotes! Alegria! Navios saudando sobre mar azul! Festim estrelado! Formigando, percorrido até ao fim com olhos claros! Até onde a cidade se despede do seu hóspede com casario espaçado, depois, as longas solidões. Margens nuas. Silêncio. Noite. Reflexão. Recolhimento. Comunhão. Ardor e tendência Para o supremo, o que abençoa. Para o rito da fecundação. Para a volúpia. Para a oração. Para o mar. Para a decadência.