Prévia do material em texto
© Relógio D’Água Editores, Junho de 2001 io Rebelo, n.° 15 ’ Lisboa Rua Sylvic 1000-2821 Telef.: 21 8474450 Fax: 21 8470775 Internet: http://www.relogiodagua.pt mail: relogiodagua@relogiodagua.pt Composição e paginação: Relógio D’Água Editores Impressão: Rainho & Neves, Lda. / Sta. Maria da Feira Depósito Legal n.°: 167026/01 Título: A Alma e o Caos — 100 poemas expressionistas Selecção, tradução, introdução e notas: João Barrento Capa: Fernando Mateus http://www.relogiodagua.pt mailto:relogiodagua@relogiodagua.pt A Alma e o Caos 100 poemas expressionistas Selecção, tradução, introdução e notas de JOÃO BARRENTO Poesia SBD-FFLCH-USP 4 1 5 2 6 5 <^53^1 > Nota DEDALUS - Acervo - FFLCH ininnnnn 20900202414 A Alma e o Caos — 100 Poemas Expressionistas é uma versão revista actualizada e aumentada da antologia de poesia expressionista alemã que publiquei em 1978. Para a presente edição foi completamente refeita a ordenação dos poemas, organizados agora segundo os núcleos da poesia expressionista propostos na nova introdução. ! Primeira Estação: Fim do mundo1 Jakob van Hoddis WELTENDE (1911) 40 Der Sturm ist da, die wilden Meere hupfen An Land, um dicke Dãmme zu zerdrücken. Die meisten Menschen haben einen Schnupfen. Die Eisenbahnen fallen von den Brücken. Dem Bürger fliegt vom spitzen Kopf der Hut, In allen Lüften hallt es wie Geschrei, Dachdecker stürzen ab und gehn entzwei Und an den Kusten — liest man — steigt die Flut. Jakob van Hoddis FIM DO MUNDO 41 Voa o chapéu ao bicocéfalo burguês. Os ares enchem-se de gritos e rumores. Desintegrando-se, caem telhadores, E — segundo as notícias — sobem as marés. Chegou a tempestade, saltam mares ululantes Para terra: esmagar diques é sua intenção. Em quase toda a parte grassa constipação. Os comboios precipitam-se das pontes. DER VISIONARR (1918) 42 Lampe blõck nicht. Aus der Wand fuhr ein diinner Frauenarm. Er war bleich und blau geâdert. Die Finger waren mit kostbaren Ringen bepatzt. Ais ich die Hand küBte, erschrak ich: Sie war lebendig und warrn. Das Gesicht wurde mir zerkratzt. Ich nahm ein Küchenmesser und zerschnitt ein paar Adem. Eine groBe Katze leckte zierlich das Blut vom Boden auf. Ein Mann indes kroch mit gestrãubten Haaren Einen schrãg an die Wand gelegten Besenstiel hinauf. O VISIOTÁRIO 43 Lâmpada, não fumegues. Da parede saiu um braço magro de mulher. Era pálido e de veias azuladas. Os dedos carregados de preciosos anéis. Quando beijei a mão, assustei-me: Estava viva e quente. Arranhou-me a cara. Peguei numa faca de cozinha e cortei algumas veias. Um grande gato lambia graciosamente o sangue do chão. E entretanto um homem de cabelos em pé trepava Pelo cabo de uma vassoura encostada à parede. KINEMATOGRAPH (1911) 44 Es zieht ihr Pfad sich bald durch Lãrchenwãlder, Bald kriimmt er sich und drãuend steigt die schiefe Felswand empor. Die Aussicht in der Tiefe Beleben Kühe und Kartoffelfelder. Man zückt Revolver, Eifersucht wird rege, Herr Piefke duelliert sich ohne Kopf. Dann zeigt man uns mit Kiepe und mit Kropf Die Ãlplerin auf màchtig steilem Wege. Der Saal wird dunkel. Und wir sehn die Schnellen Der Ganga, Palmen, Tempel auch des Brahma, Ein lautlos tobendes Familiendrama Mit Lebemãnnem dann und Maskenbãllen. Und in den dunklen Raum - mir ins Gesicht - Flirrt das hinein, entsetzlich! nach der Reihe! Die Bogenlampe zischt zum Schluss nach Licht - Wir schieben geil und gãhnend und ins Freie. ANIMATÓGRAFO 45 Puxa-se do revólver, o ciúme investe, O senhor Piefke bate-se sem cabeça. Depois vemos, de cesta e de cabaça, A montanhesa pela encosta agreste. A sala escureceu. Passam os rápidos Do Ganges, palmeiras, templos de Brama, Numa família, um cruel e mudo drama, E logo foliões e mascarados. Segue o caminho, ora por pinheirais, Ora encostado à parede rochosa, E sinuoso. Em baixo, a vista goza Um quadro vivo de vacas e batatais. E sala adentro, mesmo à minha frente, Formiga aquilo sem parar! Mas que cruz! Enfim tremula a lâmpada, vem luz - E, bocejando cio, sai toda a gente.