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Laurindo Mahoche Beira, Agosto/2017 
 
 
ISCED 
Manual de Curso de Licenciatura em Direito 
 3º Ano 
Disciplina: Direito Processual Penal 
 
Código: ISCED32-CJURCFE026 
TOTAL HORAS/2o SEMSTRE: 115 
CRÉDITOS (SNATCA): 5 
 
Número de Temas: 5 
 
Instituto Superior de Ciências e Educação a Distância (ISCED). 
 
 
 
 
Direitos de autor (copyright) 
Este manual é propriedade do Instituto Superior de Ciências e Educação a Distância (ISCED), 
e contém reservados todos os Direitos. É proibida a duplicação ou reprodução parcial ou 
total deste manual, sob quaisquer formas ou por quaisquer meios (electrónicos, mecânico, 
gravação, fotocópia ou outros), sem permissão expressa de entidade editora (Instituto 
Superior de Ciências e Educação a Distância (ISCED). 
A não observância do acima estipulado o infractor é passível a aplicação de processos 
judiciais em vigor no País. 
 
 
 
Instituto Superior de Ciências e Educação a Distância (ISCED) 
Coordenação do Programa de Licenciaturas 
Rua Dr. Lacerda de Almeida, N.o 211, Ponta - Gêa 
 
Beira - Moçambique 
Telefone: 23323501 
Cel: +258 823055839 
 Fax:23.324215 
 E-mail:.direcção.geral@isced.ac.mz 
 Website: www.isced.ac.mz 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
http://www.isced.ac.mz/
 
 
 
Agradecimentos 
O Instituto Superior de Ciências e Educação a Distância (ISCED) agradece a colaboração dos 
seguintes indivíduos e instituições na elaboração deste manual: 
 
 
Autor Laurindo Mahoche 
Coordenação 
Design 
Financiamento e Logística 
Revisão Científica 
Revisão Lingística 
Ano de Publicação 
Local de Publicação 
Edição 
Tiragem 
Gráfica 
Direcção Académica do ISCED 
Instituto Superior de Ciências e Educação a Distância (ISCED) 
Instituto Africano de Promoção da Educação a Distância 
(IAPED) 
XXXXX 
XXXXX 
ISCED – BEIRA 
XXXXX 
XXXXX 
XXXXX 
XXXXX 
 ISCED CURSO: Direito; Disciplina: Direito Processual Penal 
 i 
 i 
 
Índice 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 ISCED CURSO: Direito; Disciplina: Direito Processual Penal 
 1 
 1 
 
Visão geral 
Bem-vindo ao Módulo de Direito Processual Penal 
Objectivos do Módulo 
Ao terminar o estudo deste módulo de Direito Processual Penal 
deverás ser capaz de: conhecer as noções fundamentais do direito 
processual penal, mormente os conceitos básicos bem como a 
tramitação processual penal no ordenamento jurídico 
moçambicano. 
 
Objectivos 
Específicos 
 Conhecer os princípios fundamentais do processo penal; 
 Aprender em torno dos sujeitos processuais penais; 
 Conhecer o modelo do direito processual penal moçambicano; 
 Conhecer as provas e os meios de coacção; 
 Aprender sobre os recursos em processo penal e a sua 
tramitação em juízo. 
 
 
Quem deveria estudar este módulo 
Este Módulo foi concebido para estudantes do 3º ano do curso de 
licenciatura em Direito. Poderá ocorrer, contudo, que haja leitores 
que queiram se actualizar e consolidar seus conhecimentos nessa 
disciplina, esses serão bem-vindos, não sendo necessário para tal 
se inscrever. Mas poderá adquirir o manual. 
Como está estruturado este módulo 
Este módulo de Direito Processual Penal, para estudantes do 3º 
ano do curso Direito, à semelhança dos restantes do ISCED, está 
estruturado como se segue: 
Páginas introdutórias 
 Um índice completo. 
 Uma visão geral detalhada dos conteúdos do módulo, 
resumindo os aspectos-chave que você precisa conhecer para 
melhor estudar. Recomendamos vivamente que leia esta 
secção com atenção antes de começar o seu estudo, como 
componente de habilidades de estudos. 
 ISCED CURSO: Direito; Disciplina: Direito Processual Penal 
 2 
 2 
 
Conteúdo desta Disciplina / módulo 
Este módulo está estruturado em Temas. Cada tema, por sua vez 
comporta certo número de unidades temáticas visualizadas por 
um sumário. Cada unidade temática se caracteriza por conter uma 
introdução, objectivos, conteúdos. No final de cada unidade 
temática ou do próprio tema, são incorporados antes exercícios de 
auto-avaliação, só depois é que aparecem os de avaliação. Os 
exercícios de avaliação têm as seguintes características: Puros 
exercícios teóricos, Problemas não resolvidos e actividades 
práticas algumas incluíndo estudo de casos. 
 
Outros recursos 
A equipa dos académicos e pedagogos do ISCED pensando em si, 
num cantinho, mesmo o recôndito deste nosso vasto Moçambique 
e cheio de dúvidas e limitações no seu processo de aprendizagem, 
apresenta uma lista de recursos didácticos adicionais ao seu 
módulo para você explorar. Para tal o ISCED disponibiliza na 
biblioteca do seu centro de recursos mais material de estudos 
relacionado com o seu curso como: Livros e/ou módulos, CD, CD-
ROOM, DVD. Para além deste material físico ou electrónico 
disponível na biblioteca, pode ter acesso a Plataforma digital 
moodle para alargar mais ainda as possibilidades dos seus 
estudos. 
 
Auto-avaliação e Tarefas de avaliação 
Tarefas de auto-avaliação para este módulo encontram-se no final 
de cada unidade temática e de cada tema. As tarefas dos 
exercícios de auto-avaliação apresentam duas características: 
primeiro apresentam exercícios resolvidos com detalhes. Segundo, 
exercícios que mostram apenas respostas. 
Tarefas de avaliação devem ser semelhantes às de auto-avaliação 
mas sem mostrar os passos e devem obedecer o grau crescente de 
dificuldades do processo de aprendizagem, umas a seguir a outras. 
Parte das tarefas de avaliação será objecto dos trabalhos de 
campo a serem entregues aos tutores/docentes para efeitos de 
correcção e subsequentemente nota. Também constará do exame 
do fim do módulo. Pelo que, caro estudante, fazer todos os 
exercícios de avaliação é uma grande vantagem. 
 ISCED CURSO: Direito; Disciplina: Direito Processual Penal 
 3 
 3 
 
Comentários e sugestões 
Use este espaço para dar sugestões valiosas, sobre determinados 
aspectos, quer de natureza científica, quer de natureza didáctico-
Pedagógica, etc. deveriam ser ou estar apresentadas. Pode ser que 
graças as suas observações, o próximo módulo venha a ser 
melhorado. 
Ícones de actividade 
Ao longo deste manual irá encontrar uma série de ícones nas 
margens das folhas. Estes ícones servem para identificar 
diferentes partes do processo de aprendizagem. Podem indicar 
uma parcela específica de texto, uma nova actividade ou tarefa, 
uma mudança de actividade, etc. 
Habilidades de estudo 
O principal objectivo deste capítulo é o de ensinar aprender a 
aprender. Aprender aprende-se. 
Durante a formação e desenvolvimento de competências, para 
facilitar a aprendizagem e alcançar melhores resultados, implicará 
empenho, dedicação e disciplina no estudo. Isto é, os bons 
resultados apenas se conseguem com estratégias eficientes e 
eficazes. Por isso é importante saber como, onde e quando 
estudar. Apresentamos algumas sugestões com as quais esperamos 
que caro estudante possa rentabilizar o tempo dedicado aosestudos, procedendo como se segue: 
1º Praticar a leitura. Aprender a Distância exige alto domínio de 
leitura. 
2º Fazer leitura diagonal aos conteúdos (leitura corrida). 
3º Voltar a fazer leitura, desta vez para a compreensão e 
assimilação crítica dos conteúdos (ESTUDAR). 
4º Fazer seminário (debate em grupos), para comprovar se a sua 
aprendizagem confere ou não com a dos colegas e com o padrão. 
5º Fazer TC (Trabalho de Campo), algumas actividades práticas ou 
as de estudo de caso se existirem. 
IMPORTANTE: Em observância ao triângulo modo-espaço-tempo, 
respectivamente como, onde e quando...estudar, como foi referido 
no início deste item, antes de organizar os seus momentos de 
estudo reflicta sobre o ambiente de estudo que seria ideal para si: 
 ISCED CURSO: Direito; Disciplina: Direito Processual Penal 
 4 
 4 
 
Estudo melhor em casa/biblioteca/café/outro lugar? Estudo 
melhor à noite/de manhã/de tarde/fins de semana/ao longo da 
semana? Estudo melhor com música/num sítio sossegado/num 
sítio barulhento!? Preciso de intervalo em cada 30 minutos, em 
cada hora, etc. 
É impossível estudar numa noite tudo o que devia ter sido 
estudado durante um determinado período de tempo; Deve 
estudar cada ponto da matéria em profundidade e passar só ao 
seguinte quando achar que já domina bem o anterior. 
Privilegia-se saber bem (com profundidade) o pouco que puder ler 
e estudar, que saber tudo superficialmente! Mas a melhor opção é 
juntar o útil ao agradável: Saber com profundidade todos 
conteúdos de cada tema, no módulo. 
Dica importante: não recomendamos estudar seguidamente por 
tempo superior a uma hora. Estudar por tempo de uma hora 
intercalado por 10 (dez) a 15 (quinze) minutos de descanso 
(chama-se descanso à mudança de actividades). Ou seja que 
durante o intervalo não se continuar a tratar dos mesmos assuntos 
das actividades obrigatórias. 
Uma longa exposição aos estudos ou ao trabalho intelectual 
obrigatório, pode conduzir ao efeito contrário: baixar o rendimento 
da aprendizagem. Por que o estudante acumula um elevado 
volume de trabalho, em termos de estudos, em pouco tempo, 
criando interferência entre os conhecimentos, perde sequência 
lógica, por fim ao perceber que estuda tanto mas não aprende, cai 
em insegurança, depressão e desespero, por se achar injustamente 
incapaz! 
Não estude na última da hora; quando se trate de fazer alguma 
avaliação. Aprenda a ser estudante de facto (aquele que estuda 
sistematicamente), não estudar apenas para responder a questões 
de alguma avaliação, mas sim estude para a vida, sobre tudo, 
estude pensando na sua utilidade como futuro profissional, na área 
em que está a se formar. 
Organize na sua agenda um horário onde define a que horas e que 
matérias deve estudar durante a semana; Face ao tempo livre que 
resta, deve decidir como o utilizar produtivamente, decidindo 
quanto tempo será dedicado ao estudo e a outras actividades. 
É importante identificar as ideias principais de um texto, pois será 
uma necessidade para o estudo das diversas matérias que 
compõem o curso: A colocação de notas nas margens pode ajudar 
a estruturar a matéria de modo que seja mais fácil identificar as 
 ISCED CURSO: Direito; Disciplina: Direito Processual Penal 
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 5 
 
partes que está a estudar e Pode escrever conclusões, exemplos, 
vantagens, definições, datas, nomes, pode também utilizar a 
margem para colocar comentários seus relacionados com o que 
está a ler; a melhor altura para sublinhar é imediatamente a seguir 
à compreensão do texto e não depois de uma primeira leitura; 
Utilizar o dicionário sempre que surja um conceito cujo significado 
não conhece ou não lhe é familiar; 
Precisa de apoio? 
Caro estudante, temos a certeza que por uma ou por outra razão, o 
material de estudos impresso, lhe pode suscitar algumas dúvidas 
como falta de clareza, alguns erros de concordância, prováveis 
erros ortográficos, falta de clareza, fraca visibilidade, páginas 
trocadas ou invertidas, etc). Nestes casos, contacte os serviços de 
atendimento e apoio ao estudante do seu Centro de Recursos (CR), 
via telefone, sms, E-mail, se tiver tempo, escreva mesmo uma carta 
participando a preocupação. 
Uma das atribuições dos Gestores dos CR e seus assistentes 
(Pedagógico e Administrativo), é a de monitorar e garantir a sua 
aprendizagem com qualidade e sucesso. Dai a relevância da 
comunicação no Ensino a Distância (EAD), onde o recurso as TIC se 
torna incontornável: entre estudantes, estudante – Tutor, 
estudante – CR, etc. 
As sessões presenciais são um momento em que você caro 
estudante, tem a oportunidade de interagir fisicamente com staff 
do seu CR, com tutores ou com parte da equipa central do ISCED 
indigitada para acompanhar as sua sessões presenciais. Neste 
período pode apresentar dúvidas, tratar assuntos de natureza 
pedagógica e/ou administrativa. 
O estudo em grupo, que está estimado para ocupar cerca de 30% 
do tempo de estudos a distância, é muita importância, na medida 
em que permite-lhe situar, em termos do grau de aprendizagem 
com relação aos outros colegas. Desta maneira ficará a saber se 
precisa de apoio ou precisa de apoiar aos colegas. Desenvolver 
hábito de debater assuntos relacionados com os conteúdos 
programáticos, constantes nos diferentes temas e unidade 
temática, no módulo. 
Tarefas (avaliação e auto-avaliação) 
O estudante deve realizar todas as tarefas (exercícios, actividades e 
autoavaliação), contudo nem todas deverão ser entregues, mas é 
 ISCED CURSO: Direito; Disciplina: Direito Processual Penal 
 6 
 6 
 
importante que sejam realizadas. As tarefas devem ser entregues 
duas semanas antes das sessões presenciais seguintes. 
Para cada tarefa serão estabelecidos prazos de entrega, e o não 
cumprimento dos prazos de entrega, implica a não classificação do 
estudante. Tenha sempre presente que a nota dos trabalhos de 
campo conta e é decisiva para ser admitido ao exame final da 
disciplina/módulo. 
Os trabalhos devem ser entregues ao Centro de Recursos (CR) e os 
mesmos devem ser dirigidos ao tutor/docente. 
Podem ser utilizadas diferentes fontes e materiais de pesquisa, 
contudo os mesmos devem ser devidamente referenciados, 
respeitando os Direitos do autor. 
O plágio1 é uma violação do Direito intelectual do(s) autor(es). Uma 
transcrição à letra de mais de 8 (oito) palavras do texto de um 
autor, sem o citar é considerado plágio. A honestidade, humildade 
científica e o respeito pelos Direitos autorais devem caracterizar a 
realização dos trabalhos e seu autor (estudante do ISCED). 
Avaliação 
Muitos perguntam: Com é possível avaliar estudantes à distância, 
estando eles fisicamente separados e muito distantes do 
docente/tutor!? Nós dissemos: Sim é muito possível, talvez seja 
uma avaliação mais fiável e consistente. 
Você será avaliado durante os estudos à distância que contam com 
um mínimo de 90% do total de tempo que precisa de estudar os 
conteúdos do seu módulo. Quando o tempo de contacto presencial 
conta com um máximo de 10%) do total de tempo do módulo. A 
avaliação do estudante consta detalhada do regulamento de 
avaliação. 
Os trabalhos de campo por si realizados, durante estudos e 
aprendizagem no campo, pesam 25% e servem para a nota de 
frequência para ir aos exames. 
Os exames são realizados no final da cadeira disciplina ou modulo e 
decorrem durante as sessões presenciais. Os exames pesam no 
mínimo 75%, o que adicionado aos 25% da média de frequência, 
determinam a nota final com a qual o estudante conclui a cadeira. 
A nota de 10 (dez) valores é a nota mínimade conclusão da 
cadeira. 
 
1 Plágio - copiar ou assinar parcial ou totalmente uma obra literária, 
propriedade intelectual de outras pessoas, sem prévia autorização. 
 ISCED CURSO: Direito; Disciplina: Direito Processual Penal 
 7 
 7 
 
Nesta cadeira o estudante deverá realizar pelo menos 3 (três) 
testes e 1 (um) (exame). 
Algumas actividades práticas, relatórios e reflexões serão utilizados 
como ferramentas de avaliação formativa. 
Durante a realização das avaliações, os estudantes devem ter em 
consideração a apresentação, a coerência textual, o grau de 
cientificidade, a forma de conclusão dos assuntos, as 
recomendações, a identificação das referências bibliográficas 
utilizadas, o respeito pelos Direitos do autor, entre outros. Os 
objectivos e critérios de avaliação constam do Regulamento de 
Avaliação. 
 
 ISCED CURSO: Direito; Disciplina: Direito Processual Penal 
 9 
 9 
 
TEMA – I: NOÇÕES FUNDAMENTAIS DO DIREITO PROCESSUAL PENAL 
UNIDADE Temática I: Considerações Introdutórias ao estudo do 
direito processual penal 
Introdução 
No âmbito do estudo em torno do direito penal verificamos que para 
este ramo, na sua essência, cumpre uma função específica de 
protecção dos bens fundamentais de uma comunidade, que 
directamente se prendem com a livre realização da personalidade 
ética do homem e cuja violação constitui o crime. 
Neste sentido o legislador moçambicano, através do Código Penal 
consagra as condutas que colocam em causa os bens jurídicos 
penalmente relevantes e do mesmo modo trás as sanções devidas. 
Isto é, a lei estabelece a previsão e estatuição, conforme são as 
normas jurídicas punitivas. Ao ser assim, não basta que exista uma 
conduta violadora de direitos e uma sanção legalmente prevista se 
não for possível chamar o processo penal para materializar a pena, 
através de um conjunto de trâmites legais próprios para o efeito. 
O processo penal moçambicano tal como qualquer outro, fazendo um 
direito comparado, detém de um objecto próprio e visa uma certa 
finalidade. No entanto, para que que a sua finalidade seja alcançada é 
necessário que por um lado se delimite o seu âmbito de actuação, a 
sua natureza jurídica, e sem se deixar de lado as fontes de onde 
emana o direito processual penal, adiantando-se desde já que apesar 
de existirem várias fontes, constitui a principal fonte desta ciência, em 
termos de hierarquia, a Constituição da República de Moçambique. 
 
 
Ao completar esta unidade, você será capaz de: 
 
Objectivos 
Específicos 
 
 
 Saber definir o Direito Processual Penal; 
 Conhecer os conceitos básicos do Direito Processual Penal; 
 Distinguir o Direito Penal Geral e o Direito Processual Penal; 
 Conhecer os fins e âmbito do Processo Penal; 
 Conhecera natureza jurídica desta ciência do direito; 
 Conhecer as fontes do direito processual penal; 
 Distinguir os modelos estruturais do processo penal existentes; 
 Conhecer o modelo do processo penal moçambicano. 
 ISCED CURSO: Direito; Disciplina: Direito Processual Penal 
 10 
 10 
 
Direito criminal substantivo e 
direito processual penal 
O Direito Processual Penal constitui (direito adjectivo), em certo 
sentido uma parte do direito penal (direito substantivo), isto é, o 
direito processual penal pode ser entendido como sendo o conjunto 
de normas que concretiza a execução das penas do direito penal. 
Assim sendo, as normas do direito criminal só se aplicam com o 
concurso do direito processual penal. 
O direito penal na sua essência cumpre uma função específica de 
protecção dos bens fundamentais de uma comunidade, que 
directamente se prendem com a livre realização da personalidade 
ética do homem e cuja violação constitui o crime. Como quer que se 
concebam os poderes do Estado e a articulação destes com a 
preservação da esfera de liberdade pessoal dos cidadãos, e por melhor 
que se cumpram os esforços de uma política social preventiva e 
profilática, é seguro não poder o Estado demitir-se do seu dever de 
perseguir e punir o crime e o criminoso, ou sequer negligenciá-lo, sob 
pena de minar os fundamentos em que assenta a sua legitimidade. 
Daquela função de protecção da ordem social (de protecção da vida 
comunitária do homem) advém por conseguinte ao Estado o dever de 
administração e a realização da justiça penal. 
Este dever é o corolário da necessidade, pelo Estado sentida, de tomar 
sobre os seus ombros, de forma exclusiva, a tarefa de investigar, 
esclarecer, perseguir e sentenciar os crimes cometidos dentro da sua 
“jurisdição”2; é só, por diferentes palavras, a outra face do princípio da 
exclusão da autodefesa ou princípio do monopólio estadual da função 
jurisdicional, que constitui uma exigência irrenunciável das sociedades 
modernas, fundado como é por valores tão essenciais como os da 
realização da justiça, da unidade do Estado e da paz jurídica e social. 
Nas primitivas sociedades descentralizadas, ou mesmo destituídas de 
poder central, os conflitos de interesses juridicamente relevantes 
entre os seus membros eram resolvidos ou pelo acordo voluntário, ou 
pela força (o que podia sempre significar a prepotência do ilícito sobre 
o Direito), enquanto, paralelamente, a retribuição e reparação do 
crime era abandonada à autodefesa ou acção directa do ofendido ou 
da comunidade familiar a que pertencia. (Autodefesa que se distingue 
da legítima defesa por não pressupor como esta o repelir de uma 
agressão actual = não consumada, mas significar antes um ressarcir-se 
de um dano já sofrido = consumado. A autodefesa é, assim, a actuação 
da própria sanção pelo titular, imediato ou derivado, do direito 
lesado). 
 
2 Sobre os diversos sentidos desta palavra, Cavaleiro de FERREIRA I, 7 ss.; Anselmo de 
CASTRO, Lições de processo civil I (1964) 7 ss., O. VANINI 47 ss. 
 ISCED CURSO: Direito; Disciplina: Direito Processual Penal 
 11 
 11 
 
Só num estádio ulterior da evolução surge o instituto jurídico da 
arbitragem, primeiro com caracter facultativo e privado (o arbitro não 
é um órgão do Estado, mas uma pessoa privada), depois obrigatória, 
quando o Estado a favorece, disciplina e se reconhece suficientemente 
forte para a impor. Mais tarde a arbitragem, que já era obrigatória, 
passa também a ser pública, abrangendo inicialmente – mesmo no 
domínio da justiça penal – só os casos jurídicos que mais directamente 
punham em causa a existência do Estado, depois a maioria deles, 
finalmente todos. Neste momento pode começar a falar-se, com 
sentido, do monopólio estadual da administração da justiça, passando 
paralelemente a reconhecer-se aos particulares a faculdade de 
recorrer a órgãos do Estado para defesa dos seus direitos. 
O princípio do monopólio estadual da função jurisdicional constitui 
hoje um alicerce inatacável de todas as sociedades, o que não 
significa, no entanto, total exclusão da autodefesa, mas o 
reconhecimento da sua admissibilidade só em casos muito 
excepcionais, rigorosamente delimitados pela lei e subordinados a 
ideia da impossibilidade de recorrer em tempo útil aos meios 
coercivos normais, para evitar a inutilização prática do direito 
conforme se pode ler do artigo 336º do Código Civil. 
De acordo com as palavras do Professor Figueiredo Dias3 o direito 
penal serve a aludida função de proteger os bens e valores 
fundamentais da comunidade através da prevençãode lesões que 
sejam de recear no futuro (função preventiva) e da punição de lesões 
que tiveram já lugar (função repressiva). “Repressão” das lesões não 
significa porém que se parta de um juízo de valor moral absoluto sobre 
a conduta e o seu agente, ou sequer que a ele se aspire, mas apenas a 
utilização de um meio necessário para alcançar, de forma justa, a 
protecção intentada a imposição e execução de uma pena justa é um 
instrumento imprescindível da colectividade para a manutenção da 
paz e da ordem sociais. Deste modo, já a partir da função do direito 
penal total se deixam perspectivar os três “sectores de um idêntico 
ordenamento jurídico” em que aquele se divide: o direito penal 
substantivo (material); o direito processual penal (adjectivo ou formal); 
o direito de execução das penas. 
O direito penal substantivo “estabelece, por forma geral e abstracta, 
quais os factos que devem ser considerados crimes e quais são e quais 
as penas que lhes correspondem”. Ele contém nos seus “tipos” a 
tipificação (individualização) do ilícito e da culpa de cada crime, e nas 
suas estatuições a consequência jurídica que se liga à realização do 
tipo. Porém, a concretização do direito penal substantivo exige uma 
regulamentação complementar que discipline a investigação e 
esclarecimentos do crime concreto e permita a aplicação da 
 
3 V. Clássicos Jurídicos (Direito Processual Penal), 1ª edição, pp. 26 e 27, Coimbra 
Editora, 2004. 
 ISCED CURSO: Direito; Disciplina: Direito Processual Penal 
 12 
 12 
 
consequência jurídica àquele que, com a sua conduta, realizou um tipo 
de crime. 
É o conjunto de normas jurídicas que associam factos penalmente 
relevantes uma determinada consequência jurídica, uma sanção 
jurídica ou, conjunto de normas jurídicas que fazem corresponder a 
uma descrição de um determinado comportamento uma determinada 
consequência jurídica desfavorável. 
A esses factos penalmente relevantes correspondem determinadas 
sanções jurídico-penais, que são basicamente: As penas, e as 
principiais são; Prisão; Multa; As medidas penais, e as principiais são; 
Medidas de segurança; Medidas de correcção, todas estudadas de 
forma cabal na cadeira de Direito Penal ou Direito Criminal, conforme 
for o caso. 
Esta regulamentação complementar é constituída pelo direito 
processual penal, que, implicando a fixação das “condições e dos 
termos do movimento processual destinados a averiguar se um certo 
agente praticou um certo facto e qual a reacção que lhe deve 
corresponder”, se pode funcionalmente definir como a 
regulamentação jurídica da realização do direito penal substantivo, 
através da investigação e valorização do comportamento do acusado 
da prática de um facto criminoso. Do exposto deriva que a relação 
entre direito penal e direito processual penal é, sob diversos pontos de 
vista, uma relação mútua de complementaridade funcional que, só ela, 
permite também concebê-los como participantes de uma mesma 
unidade, isto significa que o direito processual penal visa a 
materialização do direito penal, aqui encontrando-se a 
instrumentalidade estritamente funcional daquele perante este 
atendendo-se que o processo penal é autónomo relativamente ao 
direito substantivo. 
Objecto do direito processual penal 
 
A estrutura do sistema processual penal vigente em Moçambique é 
basicamente acusatória, se bem que integrada por um princípio de 
investigação. Isso implica que o tribunal só possa intervir quando 
solicitado por uma acusação formulada por entidade dele distinta e 
independente (o Ministério Público), e que o conteúdo da acusação 
delimite a própria actividade processual do tribunal. 
Existe assim uma identidade essencial entre o conteúdo da acusação, 
a pronúncia e a sentença final, que constitui importante garantia para 
o arguido, na medida em que só terá de defender-se do que é acusado 
(e pronunciado) e só pelo que é acusado poderá ser julgado. 
Disto resulta que a sentença final, salvo casos excepcionais que a lei 
expressamente prevê, só pode 
 ISCED CURSO: Direito; Disciplina: Direito Processual Penal 
 13 
 13 
 
condenar por factos constantes do despacho de pronúncia ou 
equivalente. É o que dispõe o art. 447º do C.P.P: “O tribunal poderá 
condenar por infracção diversa daquela por que o réu foi acusado, 
ainda que seja mais grave, desde que os seus elementos constitutivos 
sejam factos que constem do despacho de pronúncia ou equivalente. 
 No comentário a este preceito legal, BELEZA DOS SANTOS escreve: 
‘’Este limite imposto ao tribunal de julgamento representa uma justa 
garantia para o réu e tem uma justificação fácil de ver. O réu não deve 
ser surpreendido por uma imputação de factos feita na audiência de 
julgamento e tomada em consideração na sentença, quando por tais 
factos não foi anteriormente pronunciado e não pode, por isso, 
organizar e deduzir a sua defesa a tal respeito. A lei ordena a 
notificação do despacho de pronúncia ou equivalente ao réu, sob pena 
de nulidade (…) precisamente para que ele possa ter conhecimento dos 
factos que lhe são imputados, e com tempo necessário prepare a sua 
defesa. Por isso, haveria uma flagrante incoerência e um manifesto 
contra-senso na lei se ela permitisse que o réu fosse condenado por 
factos diversos daquelas que constassem da acusação de que foi 
notificado e de que lhe deram cópia, por factos de que ela desconhecia 
e que lhe viriam a ser imputados na audiência de julgamento e na 
sentença”4. 
Fim do processo penal 
 
Depois do que ficou dito acerca das relações entre direito penal e 
direito processual penal, aceitar-se-á sem custo ser o fim do processo 
penal o elemento que opera a relacionação funcional e teleológica 
daqueles dois ramos de direito, ou seja, numa fórmula 
propositadamente neutral e incolor, a afirmação (realização) do 
direito substantivo que corresponde ao objecto do processo. Com o 
que pouco se terá adiantado, no entanto, relativamente ao que logo 
decore da mera consideração da função do direito processual penal. 
Quando se pergunta pelo “fim” do processo penal pretende-se alguma 
coisa mais: obter um critério de valor (ou, se preferirmos, um modelo 
axiológico) adequado à interpretação teleológica das singulares 
normas e à solução dos concretos problemas jurídico-processuais. 
Importa portanto ver-se, em que medida e com que sentido ele se 
deixa determinar. 
Não se intenta legitimar assim a solução de problemas jurídicos 
concretos por deduções lógicas retiradas da consideração do fim do 
processo: isso seria mero dedutivismo conceitualista, mesmo que 
merecesse então o cognome de “teleológico”. Pretende-se, antes, a 
revelação das grandes relações (enquadramentos) funcionais entre as 
 
4 In A sentença condenatória e a pronúncia em processo penal, Rev. Legis. Jurisp., 
63º Ano, págs. 385 e seguintes. 
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singulares normas e problemas jurídico-processuais e a totalidade da 
ordem jurídica; o que, se não serve para dar ao juiz a solução que lhe 
falte para um certo problema concreto, ajuda ao esclarecimento dos 
pressupostos últimos, na base dos quais hão-de ser encontrados os 
critérios básicos de solução dos problemas concretos. Só neste quadro 
amplo se torna compreensível, por forma justa, a querela à volta do 
fim do processo penal. 
Um marco fundamental na questão foi posto por alguns autores ao 
assinalar como fim do processo, fosse penal ou civil, a obtenção de 
umasentença com força de caso julgado. Deste modo, todavia, não só 
se opera uma insuportável cisão entre direito substantivo e direito 
processual, como, sobretudo, acaba por impedir-se a obtenção de 
qualquer critério de valoração das normas e problemas processuais. O 
juiz possuiria, através da força de caso julgado cabida à suas decisões, 
poder e legitimidade bastante para impor uma espécie de “segundo 
ordenamento” que, pairando sobre o direito material, nunca poderia 
ser falso, injusto ou inválido: o caso julgado constituiria, digamos, a 
última palavra e a última ratio da juridicidade. Além de que a tradução 
deste fim no plano ideal conduziria a uma terminante acentuação do 
valor da segurança jurídica, em completo detrimento do outro valor 
que com ele necessariamente conflitua no processo: o da justiça. 
Deixando fora de consideração concepções como é sobretudo o caso 
da que vê o fim do processo na afirmação, exercício ou execução dos 
direitos subjectivos materiais que só são defensáveis em processo civil 
e não num processo, como o penal, em que não pode falar-se de um 
direito subjectivo do Estado à aplicação da pena”5. Afirma-se 
correntemente que esta questão tem de perspectivar-se 
relativamente a um fim ideal, perante o qual quaisquer categorias 
intraprocessuais vêm a revelar-se meros “meios” de o realizar. E assim 
se criou o consenso, praticamente unânime e de que a nossa 
jurisprudência se faz eco6, de que o verdadeiro fim do processo penal 
só pode ser a descoberta da verdade e a realização da Justiça (ou 
mesmo desta última, já que também perante ela surge a descoberta 
da verdade como mero pressuposto). 
A justiça é, por certo, fim do processo penal, no sentido de que este 
não pode existir validamente se não for presidido por uma directa 
intenção ou aspiração de justiça. Isso não obsta, porém, a que 
institutos como o do “caso julgado”, ou mesmo princípios como o in 
dúbio pro reo, indiscutivelmente de reconhecer em processo penal, 
possam conduzir, em concreto, a condenações e absolvições 
 
5 Cf. infra, no vol. II, a teoria da acção processual; e, na perspectiva que agora nos 
interessa, Cavaleiro de FERREIRA, I, 34 ss. 
6 Neste último se afirma, muito vincadamente, que “o processo penal tem por 
ambição um fim impessoal e objective: a realização do direito objective, com um fim 
superior de justiça”. 
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materialmente injustas. Continuar a afirmar, perante hipóteses destas, 
que a justiça foi, em absoluto fim do processo penal respectivo, pode 
ser ainda ideal e teoricamente justificável – v. g. porque se argumente 
que as exigências de segurança surgem ainda como particular modus 
de realização do Direito e, por conseguinte, do “justo”, quando este se 
lança no contexto amplo de todos os interesses sociais conflituantes, 
mas é também, seguramente, renunciar à obtenção de um critério 
prático adequado de valoração das normas e problemas processuais. 
Também a segurança é como acabamos de verificar um fim do 
processo penal. O que não impede que institutos como o do “recurso 
de revisão” (art. 673º CPP e seguintes) contenham na sua própria 
razão de ser um atentado frontal àquele valor, em nome das 
exigências da justiça. Acresce que só dificilmente se poderia exigir a 
segurança em fim ideal único, ou mesmo prevalente, do processo 
penal. Ele entraria então constantemente em conflitos frontais e 
inescapáveis com a justiça; e, prevalecendo sempre os 
sistematicamente sobre esta, pôr-nos-ia face a uma segurança do 
injusto que, hoje, mesmo os mais cépticos têm de reconhecer não 
passar de uma segurança aparente e ser só, no fundo, a força da 
tirania7. 
Na determinação do fim ideal do processo há ainda, por conseguinte, 
de subir mais um degrau relativamente aos puros valores da “justiça” 
e da “segurança”, não cedendo à tentação fácil de os absolutizar: é um 
facto comprovado nada haver de mais perigoso que a absolutização de 
valores éticos singulares, pois ai se inscreverá a tendência irresistível 
para uma santificação dos meios pelos fins. Importa sim reconhecer 
que se está aqui, como em toda a autêntica “questão-de-direito”, 
mesmo no cerne de uma ponderação de valores conflituantes, cujo 
resultado há-de corresponder ao ordenamento axiológico do Direito, 
há-de constituir a síntese das antinomias entre justiça e segurança 
encontrada no degrau mais elevado da ordem jurídica. 
Vimos acima que o processo penal visa a aplicação do direito penal 
substantivo aos casos concretos. Essa função instrumental que lhe é 
característica exprime-se de forma simples nestas duas máximas 
latinas: impunitum non relingui facinus (nenhum criminoso deve ficar 
sem punição) e innocentum non condemnari (nenhum inocente deve 
ser condenado). 
De acordo com uma certa maneira de encarrar o direito, e o processo 
penal em particular, a aludida natureza instrumental impõe a este, 
como fim a prosseguir, a ideia de realização da justiça, que só é 
possível obter com a descoberta da verdade material e o 
restabelecimento da paz jurídica violada. 
 
7 Em geral, sobre todo este ponto, Castanheira NEVES, Lições de introdução ao 
estudo do Direito (1968-9) 186 ss. 
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Âmbito e designação do Direito Processual Penal 
 
A função essencial do direito processual penal cumpre-se, na decisão 
jurisdicional de saber se foi praticado um crime e, em caso afirmativo, 
qual a consequência jurídica que dai deriva. 
Formalmente considerado, o direito processual penal surge como o 
conjunto das normas jurídicas que orientam e disciplinam o processo 
penal. A função essencial deste cumpre-se na decisão sobre se, na 
realidade, se realizou em concreto um tipo-legal de crime, em caso 
afirmativo, na decisão sobre a consequência jurídica que dali deriva. 
Quanto à concreta execução da consequência jurídica decretada no 
processo penal, tem-se dito que a sua índole é inteiramente 
administrativa, pelo que o direito que a regula e a que por vezes se 
chama “direito penitenciário”, mas cuja designação exata será a de 
direito de execução das penas (ou das reacções criminais), não sendo 
assunto respeitante à administração da justiça, não poderia nunca 
pertencer ao direito processual penal: este terminaria com o trânsito 
em julgado da sentença. 
Esta concepção peca, ao que nos parece, por demasiado estrita. Como 
por demasiado ampla pecará a uma concepção que integre no direito 
processual penal todo o direito de execução das penas; não tanto por 
se tratar aqui de matéria não integralmente jurisdicionalizada, como 
porque a sua regulamentação revela, em larga medida, características 
jurídico-substantivas. 
Exacta nos parece ser a distinção, dentro do direito de execução das 
penas, da regulamentação directamente atinente à determinação 
prática do conteúdo da sentença condenatória e, portanto, à 
realização concreta da reacção criminal naquela imposta: aqui tratar-
se-á de matéria substantiva; e da regulamentação imediatamente 
respeitante ao efeito executivo da sentença (num sentido análogo 
àquele em que, no processo civil, se fala da “exequibilidade da 
sentença”8) e, portanto, aos preliminares e ao controlo geral da 
execução (neste compreendidos os chamados “incidentes da 
execução”9: aqui estaremos perante matéria processual, que cabe 
intrinsecamente ao direito processual penal e que só por razões 
meramente técnicas dele pode ser distraída. 
Neste sentido, certos autores entendem que o seu âmbito de 
aplicação se esgota com o trânsitoem julgado da sentença, já não 
abrangendo a fase de execução da pena, que teria índole puramente 
administrativa. Outros, pelo contrário, sustentam que o direito 
processual penal, pese embora a circunstância de à administração 
penitenciária estar reservada uma esfera de actuação própria, que 
pode dizer-se “livre da jurisdição”. 
 
8 Cf. por todos M. ANDRADE – A. VARELA, Noções elementares de processo civil I 
(1963) 311. 
9 V., sobre este conceito, BELEZA dos SANTOS, Supl. XV ao BFDC 292 e Jacinto 
Duarte, BMJ 130/162 ss. 
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 17 
 
Nesta última corrente se situa FIGUEIREDO DIAS, para quem no 
entanto, é necessário distinguir a regulamentação respeitante à 
determinação prática do conteúdo da sentença condenatória e, por 
conseguinte, à realização concreta da pena imposta, da 
regulamentação referente ao efeito executivo da sentença (num 
sentido análogo àquele em que, no processo civil, se fala da 
exequibilidade da sentença) e, consequentemente, aos preliminares e 
ao controlo geral da execução (incluindo os incidentes da execução). 
No primeiro caso, tratar-se-á de matéria substantiva e, no segundo, de 
matéria processual. 
Natureza jurídica do Direito Processual Penal 
O Direito Processual Penal como parte do direito processual 
 
Para uma certa corrente do pensamento jurídico, desenvolvida entre 
os finais do século passado e o começo do actual, a existência de 
distintos ramos de direito processual – de que são exemplo o processo 
civil, o processo penal, o processo administrativo e o processo 
constitucional, entre outros - com princípios básicos semelhantes, 
idêntica estrutura fundamental e problemas comuns ou análogos, 
justificaria o surgimento de uma nova ciência, que se ocupasse da 
teoria geral do processo. 
Os seus defensores não conseguiram, porém, escapar às críticas que 
lhes foram endereçadas, a principal das quais reside no facto de que 
os resultados de uma teoria geral, relativa ao processo, em nada 
conseguiram esbater ou minorar as extensas divergências entre cada 
um dos principais tipos processuais, respeitantes ou à sua estrutura 
ou, sobretudo, aos seus fundamentos e princípios e às suas formas de 
realização10. De facto, o tempo das grandes teorias gerais de direito 
está hoje devidamente ultrapassado, por se considerar estar nelas 
latente o perigo de quebrarem a relacionação, que cada vez se quer 
mais próxima e estreita, da ordem jurídica com a vida e a realidade 
social que aquela procura servir11. 
Não obstante a inconveniência de elaboração de uma teoria geral do 
processo, deve reconhecer-se a utilidade de estabelecer a comparação 
entre o processo penal e o processo civil, quer por se tratar de dois 
tipos processuais inteiramente jurisdicionalizados – ou seja, 
submetidos ao domínio da actividade jurisdicional – quer porque, por 
força da lei, o processo civil funciona como direito subsidiário 
relativamente ao processo penal. 
Vejamos, pois, alguns traços diferenciados destes dois tipos de 
processo: 
 
10 FIGUEIREDO DIAS, op. cit., pág. 54 
11 Idem 
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 18 
 
 
Enquanto no processo civil se dirimem conflitos de interesses 
particulares, tutelados pelo direito privado, no processo penal está em 
causa a Justiça da pretensão punitiva do Estado, derivada de um 
crime, isto é, da violação de interesses fundamentais da ordem 
jurídica, tutelados pelo direito público; 
O processo civil não é forçosamente chamado a intervir para que, 
através da decisão judicial, se concretize uma relação de direito 
privado – na generalidade dos casos, a realização concreta do direito 
privado tem lugar independentemente do processo; ao passo que o 
processo penal é o pressuposto necessário de realização do direito 
penal substantivo – a submissão do agente de um ilícito criminal às 
sanções previstas na lei só pode realizar – se por via de um processo e 
da consequente decisão jurisdicional: vigora aqui o princípio nulla 
poena sine processu (ou nulla poena sine judicio); 
No processo civil tem plena aplicação o princípio da disponibilidade do 
objecto processual pelas partes, pois estas gozam da faculdade de 
fazerem valer o processo as suas pretensões ou de renunciarem a elas; 
no processo penal o objecto do processo é indisponível pelos sujeitos 
processuais, pois de outra forma seria impossível satisfazer o interesse 
da comunidade e do próprio Estado em esclarecer os crimes e punir os 
seus responsáveis. 
Destes três principais elementos de distinção entre o processo civil e o 
processo panal resultam outras diferenças que importa salientar: em 
processo penal, contrariamente ao que sucede no processo civil, não 
domina o princípio da auto – responsabilidade das partes em matéria 
de prova e, por consequência, é inexigível o ónus de provar, 
contradizer e impugnar; em processo penal, o juíz goza de uma ampla 
discricionariedade na apreciação dos factos que constituem o objecto 
do processo – por força do princípio da investigação ou da verdade 
material, o que não acontece no processo civil; entre as partes 
(tomadas aqui no sentido meramente formal do conceito) não existe, 
no processo penal, uma verdadeira contraposição de interesses, pois, 
como veremos na altura devida, o Ministério Público não actua no 
sentido de obter a condenação do arguido a qualquer preço, mas está 
(como o próprio defensor) obrigado a um dever de objectividade - 
contraposição de interesses existe, sim, entre as partes no processo 
civil. 
Considerando as diferenças acima elencadas podemos afirmar que o 
processo penal moçambicano é um ramo do direito público. E é direito 
público porque a prevenção e repressão da criminalidade, através da 
administração da justiça penal, constitui tarefa exclusiva do Estado, 
que a realiza no exercício de uma das suas funções essenciais – a 
função jurisdicional. 
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O DIREITO PROCESSUAL PENAL E A SUA APLICAÇÃO 
Fontes do direito processual 
penal moçambicano 
a) A Constituição da República de Moçambique 
A Constituição, porque lei fundamental e hierarquicamente superior, é 
a fonte primeira do direito processual penal. Tanto é assim, que o 
direito processual penal é considerado como “direito constitucional 
aplicado”. Na verdade, ele contém preceitos respeitantes aos direitos, 
liberdades e garantias fundamentais dos cidadãos que são 
directamente aplicáveis, vinculando entidades públicas e privadas. 
Especial referência deve ser feita aos seguintes dispositivos 
constitucionais como fontes do nosso direito: art. 66º - igualdade dos 
cidadãos perante a lei; art. 70º - direito à vida e integridade física; o 
Capítulo IV reporta-se à garantia dos direitos e liberdades, dele se 
destacando os artigos 96º, 98º, 99º, 100º a 104º, entre outros; no 
Capítulo V, referente aos tribunais, são disposições relevantes para a 
matéria em questão os artigos 171º a 176º e 181º. 
b) O Código de Processo Penal e legislação avulsa 
O Código de Processo Penal vigente é, sem dúvida uma das mais 
importantes fontes do Direito Processual Penal. O diploma em questão 
foi aprovado e publicado pelo Decreto nº 16489, de 15/02/1929 e 
mandado aplicar ao Ultramar (nas então colónias portuguesas) pelo 
Dec. nº 19271, de 24/01/1931, com as alterações nele constantes. 
Outro diploma de relevo é o Decreto-Lei nº 35007, de 13/10/1945, 
mandadoaplicar ao Ultramar, com modificações, pela portaria nº 
17076, de 20/03/1959. Por sua vez, o Decreto-Lei nº 185/72, de 31 de 
Maio, contém a última e mais extensa e importante das reformas 
sofridas, desde 1929, pelo Código de Processo Penal, reforma esta que 
tirou também vigência a várias disposições do DL nº 35007 sem, 
contudo, as nomear mas apenas incorporando-as no texto legal. 
O Código de Processo Penal de 1929 tem por fontes principais o 
direito anterior, a jurisprudência portuguesa e a prática dos tribunais, 
além de vários projectos que antecederam a sua aprovação. 
Considerado à luz do estado caótico da legislação e da prática 
processuais anteriores, o CPP de 1929 logrou englobar numa 
concepção unitária e ordenada, os princípios do direito processual 
penal e de os regulamentar dentro de um sistema livre de 
contradições. Com ele deu-se mais ênfase à descoberta da verdade 
material como fim do processo penal, ampliou-se, consequentemente, 
os poderes de cognição do juiz e vedaram-se as práticas processuais 
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abusivas e as dilações voluntárias da prossecução processual. 
O Código veio substituir a anterior concepção, de base acusatória, por 
outra, de índole inquisitória, em que competia ao juiz, para além de 
julgar, realizar a investigação preliminar, fundamentadora da acusação 
– a que designou de corpo de delito. Não deixou, porém, de respeitar 
formalmente a concepção acusatória na medida em que era ao MP 
que competia deduzir a acusação. É o princípio da forma acusatória, 
ou acusatório formal. Coincidiam na mesma pessoa as funções de 
investigar e julgar, o que acarreta sérios riscos de lhe criar, naquela 
primeira fase, um preconceito do qual, na segunda, não consegue 
livrar-se deste modo se lhe furta a objectividade e a imparcialidade 
necessárias a um correcto julgamento. 
O DL nº 35007 procurou eliminar estes inconvenientes. Para tanto, 
atribuiu ao MP, não só a titularidade da acção penal (art. 1º) como, na 
fase inicial da instrução preparatória, os poderes e as funções que no 
CPP eram atribuídas ao juiz. A grande crítica que se faz a este diploma 
é o facto de atribuir a uma magistratura dependente e 
hierarquicamente estruturada funções e poderes que implicam 
intromissões na esfera das liberdades do cidadão sem fixar 
mecanismos de controle judicial do exercício daquelas funções. 
O DL nº 185/72 não deu solução ao problema acima enunciado, muito 
embora tenha reformado extensas zonas do processo penal 
relacionadas com a fase da instrução (preparatória e contraditória), a 
acusação e defesa e as execuções. Deixou, portanto, persistir um dos 
maiores problemas no que respeita à instrução – o da falta de controle 
judicial da actividade instrutória de todos os órgãos do Estado (mesmo 
dos que cumpram funções administrativas), desde que tal actividade 
se prenda com a esfera dos direitos do cidadão constitucionalmente 
garantidos. 
Tal problema só veio a ser resolvido pela Lei nº 2/72 e pelo Decreto nº 
343/72 que permitiram a criação dos juízes de instrução criminal nas 
comarcas em que o movimento processual assim o exigia. Tais 
diplomas não foram, porém tornados extensivos aos territórios sob 
administração colonial. No nosso país é recentemente, com a 
aprovação e publicação da Lei nº 2/93, de 24 de Junho, a questão veio 
a ser parcialmente colmatada. 
Para além do CPP, há que considerar legislação avulsa pertinente ao 
processo penal como fonte do nosso direito processual penal o 
Decreto-Lei nº 28/75, de 1 de Março que alarga o âmbito de aplicação 
do processo sumário e simplifica o processo de transgressão; o 
Decreto-Lei nº 4/75, de 16 de Agosto que, além de proibir o exercício 
da advocacia como profissão liberal, contém disposições relativas ao 
exercício da acção penal pelo Ministério Público e à impossibilidade de 
constituição de assistente; a Lei nº 9/92, de 6 de Maio – que imprime 
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alterações ao formalismo processual penal e reintroduz a figura do 
assistente, derrogando os artigos 17º e 19º do Decreto-Lei nº 4/75; a 
Lei nº 24/2007, de 24 de Agosto – Lei Orgânica dos Tribunais Judiciais; 
e a Lei nº 2/93, de 24 de Junho – relativa à institucionalização dos 
Juízes da Instrução Criminal. 
c) Fontes legislativas internacionais 
Os textos jurídicos internacionais são fonte do direito processual penal 
na medida em que vigorem na ordem jurídica interna. Aflora-se aqui o 
problema de duplicabilidade e vigência interna do Direito 
Internacional, cujo desenvolvimento encontra sede em cadeira 
própria. 
Assim sendo e, sem pretender esgotar a matéria, nomeiam-se apenas 
os textos mais significativos: 
- Declaração Universal dos Direitos dos Homem, de 10 de Dezembro 
de 1948; 
- Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos e respectivo 
Protocolo facultativo; 
- Convenção contra a tortura e outras formas de tratamento ou 
punição cruel, desumano ou degradante, de 26 de Junho de 1987; 
- Carta Africana dos Direitos do Homem e dos Povos, de Junho de 
1981. 
d) Fontes doutrinárias 
A doutrina tem um papel de relevo na construção da dogmática 
jurídico-processual penal. A renovação e desenvolvimento da doutrina 
resulta da busca incessante de soluções justas e adequadas para 
concretos problemas da vida comunitária. Contribuições nesse sentido 
são vastas e variadas, situando-se no tempo desde o séc. XVIII até aos 
nossos dias. 
Na indicação bibliográfica deste manual, encontram-se algumas obras 
mais significativas da doutrina que é, apesar de tudo, aquela a que 
temos acesso mais facilmente. 
e) Fonte jurisprudencial 
A jurisprudência não é fonte em sentido formal mas cabe-lhe, de 
algum modo, uma função “criadora” do direito. Na verdade, não se 
coloca ela ao mesmo nível de obrigatoriedade geral própria da lei, 
nem tao pouco em conflito com ela, o que poderia suscitar uma 
questão de prevalência ou de hierarquização. A sua força reside no 
facto de o direito ter deixado de ser um conjunto de princípios gerais e 
 ISCED CURSO: Direito; Disciplina: Direito Processual Penal 
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abstractos, achando-se aqui aplicado a um caso concreto. 
Todavia, tem a jurisprudência, desempenhado um papel de relevo, de 
parceria com a doutrina processual penal, na construção teórica e 
dogmática do respectivo direito. Tal contribuição patenteia-se hoje na 
afirmação de princípios jurídicos com reflexos de tal ordem no direito 
positivo, que nele alcançam assento por via da consagração legal. 
Uma questão particular e específica é a suscitada pela figura dos 
assentos que se traduz na fixação, pelos tribunais, de doutrina com 
força obrigatória geral. Resulta ela da necessidade de se saber se o 
conteúdo normativo do assento assumira’ a mesma natureza e valor 
próprios da lei em sentido formal. Se atentarmos ao facto de que a 
função do tribunal assenta na aplicação do direito ao caso concreto, 
não se coadunando, portanto, com a fixação de doutrina com força 
obrigatória geral, facilmente se aprenderá da delicadeza do problema 
em análise. Trata-se, com efeito, de uma questão actual e pertinente, 
dividindo opiniões e correntes entre a aceitação e a rejeição desta 
figura por “inconstitucional” e se traduzir no uso pelos tribunais de 
poderes que são próprios de um órgão legislativo. 
Modelos estruturais do 
processo penal 
O conceito de “parte” e os modelos estruturais do processo penal 
 
É extraordinariamente discutida, na generalidade das doutrinas do 
processo penal, a questãode sabe se este pode (e deve) conceber-se 
como um “processo de partes”. 
A primeira reacção de quem tome contacto com uma tal controvérsia 
será porventura a de a degradar para mera questão terminológica ou, 
em todo o caso, a de a minimizar como puro problema de construção 
e de conceitualização formal12. 
Discute-se muito se o processo penal é ou não um “processo de 
partes” (à semelhança do processo civil), considerando o significado 
adjectivo ou instrumental13 do conceito. 
Alguns autores como EDUARDO CORREIA, CAVALEIRO DE FERREIRA, 
CASTANHEIRA NEVES e os italianos MANZINI e CARNELLUTTI, entre 
outros, definem como “partes” os sujeitos processuais que discutem a 
causa e esperam do juiz uma apreciação do mérito dela. É nesta 
perspectiva que eles consideram o processo penal como um “processo 
 
12 V. FIGUEIREDO DIAS, pág. 242, 2004. 
13 Uma vez que o sentido substantive, ligado que está à ideia de acção material, se 
encontra hoje superado, mesmo no processo civil (v. FIGUEIREDO DIAS, op. cit., pág. 
243) 
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de partes”, não em sentido puro, mas em sentido meramente formal, 
porquanto os sujeitos processuais que discutem a causa – o Ministério 
Público e o acusado – apenas formalmente estão colocados em 
campos opostos. 
Na verdade, ao Ministério Público não cabe o dever de obter a 
condenação do arguido, mas, tal como não cabe ao juiz, um dever de 
objectividade (v. arts. 12º, § 1º e 25º do Decreto – Lei nº 35007 e art. 
647º, nº 1, do C.P. Penal). Por outro lado, ao arguido cabe 
indiscutivelmente um direito de defesa, mas não, por certo, um dever 
de defesa (não se lhe exige que se oponha à acusação), pelo que bem 
pode acontecer não se verificar uma necessária contraposição de 
interesses entre o Ministério Público e a defesa. 
Outros, FIGUEIREDO DIAS e alguns autores alemães, dando ao 
conceito de “parte” um sentido processual material, definem como tal 
os titulares de interesses contrapostos que no processo se discutem e 
se encontram concretamente em jogo. Para estes não se pode, 
relativamente ao processo penal, falar em “processo de partes”, nem 
mesmo em sentido formal, já que, precisamente por não existir uma 
necessária contraposição de interesses entre a acusação e a defesa, a 
distinção que se pretende assinalar (entre os sujeitos que pretendem 
fazer valer, perante o juiz, as suas posições), nada contribui para 
explicar a estrutura íntima do processo penal. 
Esta estrutura processual (resultante do modo de actuação dos 
sujeitos) explica-se, de acordo com esta corrente, através da 
referência aos modelos estruturais que historicamente se 
desenvolveram, sobretudo o de tipo inquisitório e o do tipo 
acusatório. 
O processo inquisitório (que, como já foi referido, teve a sua 
consagração nas legislações europeias continentais dos séculos XVII e 
XVIII, embora surja em épocas mais recentes nos Estados de regime 
autoritário), é o exemplo-padrão de um processo sem partes. Nele, a 
investigação da verdade e, de uma forma geral, o domínio do processo 
estão concentrados num único órgão – o juiz: a este compete 
simultaneamente inquirir, acusar e julgar, sem que intervenha 
qualquer outra entidade oficial encarregada da acusação. O processo 
é, em regra, totalmente escrito e secreto, do que resulta a 
impossibilidade, para o arguido, de exercer efectivamente o seu 
direito de defesa. Todos os meios, incluindo a tortura, são 
considerados legítimos para extorquir o réu a confissão, tida por 
rainha das provas. 
Como é fácil de imaginar, de um órgão no qual convergem as funções 
de instrução, acusação e julgamento, não pode esperar-se uma atitude 
de imparcialidade e de independência face ao poder político. 
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 O processo acusatório (que vigora, ainda hoje nos países anglo-
saxónicos ou influenciados por estes) é, pelo contrário, o exemplo 
marcante de um processo penal de partes. O interesse público da 
perseguição e punição das infracções penais é encabeçado no 
representante da acusação (que pode ser uma entidade pública ou 
privada), o interesse do arguido é representado pelo defensor e o 
processo surge, deste modo, como uma discussão, uma autêntica 
confrontação entre ambos, sob o olhar imparcial e passivo do juiz. A 
este não cabe colher o material probatório, mas sim às “partes”, por 
meio do sistema de interrogatório e contra-interrogatório das 
testemunhas, dos peritos e do próprio arguido (que pode testemunhar 
em causa própria). O papel do juiz é unicamente o de dirigir a 
audiência, formalismo prescrito, e proferir a decisão final na base das 
provas apresentadas pela acusação e pela defesa. 
 
A estrutura fundamental do processo penal em Moçambique 
 
Face aos modelos estruturais acabados de descrever, e em função do 
que acima foi dito, quer a propósito do objecto do processo, quer das 
diferenças entre os processos penal e civil, facilmente se conclui que o 
tipo de processo penal definitivo na legislação entre nós vigente não 
corresponde a um puro processo de partes. E não é um puro processo 
de partes, pelas seguintes razões essenciais: 
Contrariamente ao que sucede com as partes naquele processo, o 
Ministério Público e o arguido não se encontram, de facto e de jure, ao 
mesmo nível, as suas posições não são idênticas, nem entre ambos se 
verifica uma absoluta igualdade de oportunidades no tratamento do 
objecto do processo. 
Na realidade, o Ministério Público beneficia de uma posição jurídica 
supraordenada em relação à do arguido: dispõe de um aparelho 
investigatório e coactivo (formado pelos chamados órgãos auxiliares 
do Ministério Público a Policia de Investigação Criminal e as outras 
forças policiais, os estabelecimentos especializados de investigação, 
enfim, todos os organismos do poder do Estado), de que pode e deve 
fazer uso e que falta por completo ao arguido; pode impor ao arguido 
a prisão (art. 293º do C. P. Penal, na nova redacção que lhe foi 
introduzida pela Lei nº 2/93, de 24 de Junho), requerer ao juiz da 
instrução criminal esta e outras medidas coercivas, de limitação ou 
privação da liberdade. 
O Ministério Público não tem, como as partes em processo civil, o 
domínio do objecto do processo: não lhe cabe qualquer margem de 
discricionariedade em acusar ou não acusar, nem a acusação pode ser 
retirada a partir do momento em que o tribunal foi chamado a decidir 
 ISCED CURSO: Direito; Disciplina: Direito Processual Penal 
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sobre ela. Por outro lado, a confissão do arguido não produz qualquer 
efeito processual quando desacompanhada de outros elementos de 
prova (v. art. 174º do C. P. Penal), nem sobre aquela recai 
responsabilização alguma pela não produção de uma prova14. 
Do exposto resulta que o processo penal em Moçambique é 
tipicamente um processo sem partes, embora isso não signifique que a 
sua estrutura se confunde com a do tipo inquisitório (pelo menos na 
sua forma pura). Ele é, na verdade, um processo basicamente 
acusatório, mas integrado por um princípio de investigação, que, como 
vimo, está consagrado com carácter geral no art. 9º do C. P. Penal. 
 
Sumário 
Nesta unidade temática tratamos em torno das noções fundamentais 
do direito processual penal, onde referimos que ao direito penal 
cumpre uma função específica de protecção dos bens fundamentais 
de uma comunidade, que directamente se prendem com a livre 
realização da personalidade ética do homem e cuja violação constituio crime. 
Abordamos ainda em torno da natureza jurídica deste ramo, a sua 
aplicação, o modelo estrutural moçambicano, e dissemos que para a 
sua finalidade seja alcançada é necessário que se delimite o seu 
âmbito de actuação, a sua natureza jurídica, e sem se deixar de lado as 
fontes de onde emana o direito processual penal. 
 
Exercícios do tema I. Unidade temática I: 
1. Estabeleça a diferença entre direito penal e direito processual 
penal. 
 
RESPOSTA: A diferença existe nos seguintes termos - O direito 
penal é um ramo do direito público que visa proteger os bens 
fundamentais de uma comunidade, que directamente se 
prendem com a livre realização da personalidade ética do 
homem e cuja violação constitui o crime, enquanto o Direito 
Processual Penal constitui o conjunto de normas jurídicas que 
concretiza a execução das penas do direito penal. 
 
2. O direito processual penal é: 
a) Uma ciência autónoma e incomunicável com o direito 
penal; 
 
14 V. FIGUEIREDO DIAS, Ónus de alegrar e de provar em processo penal, in Revista de 
Legislação e Jurisprudência, pág. 125 e seguintes. 
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b) Uma ciência independente do direito penal; 
c) Uma ciência instrumental do direito penal; 
d) Um ramo de direito privado porque destina-se as pessoas. 
 
A resposta correcta é: C. 
 
3. O fim do Processo Penal é alcançar: 
a) A justiça e a segurança; 
b) A independência total; 
c) Autonomia própria; 
d) A paz social. 
 
A resposta correcta é: A. 
 
4. O dever de administração e a realização da justiça penal cabe: 
a) Ao Ministério Público; 
b) À sociedade; 
c) Ao Tribunal Supremo; 
d) À Polícia da República de Moçambique; 
e) Ao Estado. 
A resposta correcta é: E. 
5. A estrutura do processo penal é: 
a) Somente acusatória; 
b) Somente de investigação; 
c) Punitiva; 
d) Acusatória e investigativa. 
 
A resposta correcta é: D. 
 
6. Falar de direito processual penal significa o mesmo que falar 
de direito executivo: 
a) Sim; 
b) Não; 
c) Por vezes sim e por vezes não; 
d) Nenhuma das opções acima é correcta. 
 
A resposta correcta é B. 
 
7. Sobre as fontes do processo penal: 
a) O Código Penal é a primeira fonte; 
b) O Código de Processo Penal não é fonte; 
c) A Constituição da República de Moçambique é fonte 
primeira; 
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d) Nenhuma das opções é correcta. 
 
A resposta correcta é: C. 
 
8. Segundo Figueiredo Dias, quando em direito processo penal 
fala-se de partes, quer-se referir: 
a) Ao conjunto de pessoas que compõem a sala do julgamento; 
b) Aos familiares do lesado; 
c) Aos sujeitos processuais que discutem a causa e esperam do 
juiz uma apreciação do mérito dela; 
d) Aos titulares de interesses contrapostos que no processo se 
discutem e se encontram concretamente em jogo. 
A resposta correcta é: D. 
9. As fontes legislativas internacionais: 
a) Não são verdadeiras fontes do processo penal; 
b) São meras ilusões do legislador; 
c) São fontes do processo penal mesmo quando não 
ractificadas em Moçambique pois visam punir os 
infractores e isso é benéfico para a sociedade; 
d) São fontes do direito processual penal na medida em que 
vigorem na ordem jurídica interna. 
A resposta correcta é: D. 
10. O Ministério Público goza sempre de mesmos direitos e 
oportunidades que o réu: 
a) Verdadeiro; 
b) Falso; 
c) Apenas em casos em que houver acusação do ofendido; 
d) Nenhuma opção esta correcta. 
A resposta correcta é: B. 
 
 
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TEMA – II: PRINCÍPIOS GERAIS DO PROCESSO PENAL 
 
UNIDADE TEMÁTICA II: DOS PRINCÍPIOS GERAIS 
Introdução 
Quando se fala sobre princípios do Direito, estes valem como sendo os 
pressupostos essenciais para a existência daquele, ou seja, são as 
traves mestras que guiam a ciência jurídica. Princípios são enunciações 
normativas de valor genérico, que condicionam e orientam a 
compreensão do ordenamento jurídico em sua aplicação ou mesmo 
para a elaboração de novas normas. 
Na presente unidade temática apresentam-se um leque de princípios 
que guiam o processo penal moçambicano em particular, sendo que 
alguns também se podem encontrar em outras ciências d direito. 
Dentre os vários existentes, na presente unidade teremos a 
oportunidade de estudar em torno dos Princípios relativos à promoção 
processual, Princípios relativos à prossecução processual, Princípios 
relativos à forma bem como os Princípios relativos à forma dos 
processos penais. Não obstante, estudaremos ainda sobre o âmbito de 
aplicação da lei processual penal, interpretação e integração de 
lacunas. 
 
Objectivos Específicos 
 Conhecer os princípios que norteiam o processo penal 
moçambicano; 
 Saber identificar os princípios aplicáveis a cada 
circunstância devida; 
 Conhecer o âmbito de aplicação da lei processual penal; 
 Aprender sobre a interpretação e integração de lacunas. 
Princípios relativos à promoção processual 
Princípio da oficialidade 
Trata-se aqui a questão de saber a quem compete a iniciativa (o 
impulso) de investigar a prática de uma infracção e a decisão de a 
submeter ou não a julgamento. Não no sentido de determinar se uma 
tal competência deve ser diferida ao juiz da causa ou antes a qualquer 
outra entidade dele diferenciada, uma vez que a problemática relativa 
ao princípio em questão decorre a nível diferente da querela sobre a 
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estrutura acusatória ou inquisitória do processo penal, embora não 
deva negar-se que o principio se afirmou historicamente em 
conjunção com a viragem para o processo inquisitório. Mas naquele 
outro sentido de estabelecer se uma tal iniciativa deve pertencer a 
uma entidade pública ou estadual – que interprete o interesse da 
comunidade, constituída em Estado, na perseguição oficiosa das 
infracções, ou antes a quaisquer entidades particulares, 
designadamente ao ofendido pela infracção. 
Considerando-se o direito penal como o direito de “protecção” dos 
bens fundamentais da comunidade e o processo penal como um 
“assunto da comunidade jurídica”, em nome e no interesse da qual se 
tem de esclarecer o crime e perseguir e punir o criminoso, torna-se de 
imediato compreensível que a generalidade das legislações actuais, e 
entre elas a nossa, votem no sentido de reputar a promoção 
processual das infracções tarefa estadual, a realizar oficiosamente e 
portanto em completa independência da vontade e da actuação de 
quaisquer particulares. 
No nosso direito processual penal actual o princípio da oficialidade 
pretende receber consagração plena. A instrução preparatória do 
processo penal encontra-se em princípio entregue a entidades oficiais 
sem funções jurisdicionais, que devem promover oficiosamente o 
conjunto de diligências destinadas a provar a culpa ou a inocência dos 
arguidos: em regra ao MP (artigos 12º e 14º do DL nº 35007) – que 
pode delegar, em certos casos, nas autoridades policiais (artigo 16º do 
DL nº 35007); excepcionalmente a outros entes públicos, ou porque 
lhes seja especialmente atribuído efectuar a instrução preparatória, ou 
porque lhes caiba a própria titularidade da acusação (artigo 17º, 
combinado com o artigo 2º). 
Do mesmo modo, e dissociando-se do direito anterior,pretendeu o DL 
nº 35007, no seu artigo 1º, acentuar o carácter público da acção penal, 
no sentido de que o Estado é titular exclusivo da acusação penal15, que 
exerce oficiosamente por intermédio do MP (artigo 6º) ou, em casos 
particulares (artigo 2º), de outras entidades oficiais como as 
autoridades administrativas, e outros organismos do Estado com 
competência para a fiscalização de certas actividades ou da execução, 
de outras entidades oficiais como as autoridades administrativas, e 
outros organismos do Estado com competência para a fiscalização de 
certas actividades ou da execução regulamentos especiais16. 
 
15 Sobre este significado do carácter público da acção penal v. especialmente 
Eduardo CORREIA, Proc. Crim. 216 s. e RLJ 91/304; e depois Campos COSTA, ScIvr 
5/192 ss. 
16 Sobre as questões aqui referidas v., com mais pormenor, infra § 12 e vol. II, na 
parte respeitante à instrução preparatória e à titularidade da acusação; e Campos 
COSTA, cit. 
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A partir daqui – a partir do momento, pois, em que uma entidade 
oficial decide da submissão à julgamento de uma infracção, em 
princípio independentemente da vontade de um particular – o tribunal 
toma nas mãos o processo penal na sua totalidade e condu-lo 
oficiosamente até à decisão (CPP, artigos 400º e seguintes). 
No nosso direito processual penal actual, porém, o princípio da 
promoção processual oficiosa não se afirma sem limitações. 
Limitações de ordem legal, por um lado, derivadas da existência dos 
crimes semi-públicos e dos crimes particulares. Limitações de ordem 
jurisprudencial, por outro lado, derivadas de continuar a admitir-se 
amplamente a possibilidade de os particulares assistentes acusarem, 
por crimes públicos, ainda quando o MP se tenha abstido de deduzir a 
acusação. 
Dizem-se crimes públicos aqueles em que o MP promove 
oficiosamente e por sua própria e iniciativa o processo penal e decide 
com plena autonomia – embora estritamente ligado por um princípio 
de legalidade – da submissão ou não submissão de uma infracção a 
julgamento. Dizem-se crimes particulares em sentido lato aqueles em 
que a legitimidade do MP para por eles acusar precisa de ser integrada 
por uma denúncia (chamados crimes semi – públicos ou semi - 
particulares) ou também por uma acusação particular (crimes 
particulares em sentido estrito). 
Princípio da legalidade 
Com o princípio da perseguição oficiosa das infracções visa o Estado 
corresponder ao seu dever de administração da justiça penal, de onde 
resulta a condenação de todos os culpados, e somente deles, da 
prática de uma infracção. Daqui se extrai que a peça fundamental 
deste processo – de modo contrário ao que acontece no processo civil; 
onde se dá ao autor a faculdade de aquilatar da oportunidade de 
propositura da acção – é o princípio da legalidade. Tal asserção 
encontra fundamento em dispositivos legais, designadamente os arts. 
1º, 165º e 349º do código do processo penal e 26º do DL nº 35007. De 
acordo com tais comandos normativos, o MP está obrigado a proceder 
e dar acusação por todas ai infracções de cujos pressupostos – factuais 
e jurídicos, substantivos e processuais – tenha tido conhecimento e 
tenha logrado recolher, na instrução, indícios suficientes. 
Em processo penal não há lugar a qualquer juízo de oportunidade 
sobre a promoção e prossecução do processo penal apresenta-se 
como um dever para o MP, uma vez reunidos os seguintes requisitos: 
a) existência de pressupostos processuais (v.g., competência e 
inexistência de obstáculos processuais como, por exemplo, a 
imunidade); b) punibilidade do comportamento segundo direito penal 
substantivo (v.g., ilicitude, culpa, condições objectivas de 
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punibilidade); c) conhecimento da infracção (art. 165º do CPP) e 
existência de indícios suficientes (art. 349º) ou prova bastante (ao 
contrário dos arts. 345º do CPP e 26º do DL nº 35007) que 
fundamentam a acusação. 
 A actividade do MP desenvolve – se, assim, sob estrita vinculação da 
lei – daí o princípio da legalidade – e não segundo considerações de 
oportunidade (exemplo: de ordem política – ‘’Raison d’Etat’’ – ou 
financeira – custas). 
O interesse do Estado neste princípio é de tal ordem, que o 
incumprimento do dever nele contido poderá integrar uma infracção 
penal (art. 480º do CP). 
Como corolário lógico do princípio da legalidade no que respeita à 
acusação pública, resulta o chamado princípio da imutabilidade.de 
acordo com este princípio, a acusação não pode ser retirada a partir 
do momento em que um tribunal foi chamado a decidir sobre ela. Por 
esta via está excluída a renúncia à acusação (art. 18º do CPP) e, bem 
assim, a desistência dela. Ressalva – se, no entanto, a eficácia do 
perdão dos ofendidos no caso dos crimes particulares (DL nº35007, § 
único do art.3º) e semi - públicos, exceptuando os casos em que a 
sentença condenatória haja transitado em julgado, e ainda em casos 
especificamente fixados por lei (art. 151º, no 9, do CP). 
Resumindo: Sob este princípio da imutabilidade ou da 
indisponibilidade, os sujeitos processuais não podem dispor da relação 
processual. O MP não pode desistir da acusação, o arguido não pode 
pôr fim ao processo, mesmo que confesse, as partes não podem 
transigir. 
Este princípio é dominante nos crimes públicos, em relação aos quais o 
MP não só tem a obrigação de promover a acção penal, como o dever 
de com ela prosseguir depois de requerida. 
Nos crimes semi-públicos é reconhecido ao participante ou 
denunciante o direito de perdoar ou renunciar a queixa, extinguindo – 
se assim o procedimento criminal (art. 151º, nº 1, alínea d), do CP e 
art.7º, § 2º, do CPP). 
O princípio da legalidade impõe ao MP a obrigação de promover 
sempre a acção penal, desde que existam os necessários elementos 
(art. 165º CPP). A este princípio opõe-se o princípio de oportunidade, 
que dá ao MP competência para deixar de exercer a acção penal 
quando razoes de consciência pública assim o exijam, ou quando se 
trate de infracções de pequena gravidade. 
O princípio da legalidade preserva um dos fundamentos essenciais do 
Estado de direito, na medida em que isenta a justiça penal de 
suspeitas e tentações de parcialidade 
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arbítrio. Se acaso fosse permitido aos órgãos públicos encarregados do 
procedimento penal apreciarem da ‘’conveniência’’ do seu exercício e 
omiti – lo por inoportuno, avolumar-se-ia perigo de apreciamento de 
influências externas da mais variada ordem, na administração da 
justiça penal e, mesmo que tais influências não lograssem impor – se, 
ficaria irremediavelmente comprometida a confiança da comunidade 
na incondicional objectividade e imparcialidade daquela 
administração. 
Depreende-se destas normas que o titular público da acusação deve 
exercer os poderes conferidos por lei sem atentar no estado ou na 
qualidade da pessoa ou nos interesses de terceiros. Ressalvam-se, 
naturalmente, as limitações derivadas dos pressupostos processuais 
ou de condições de aplicabilidade do próprio direito penal 
substantivo17. 
O princípio da legalidade defende e potencia, neste contexto, o efeito 
da prevenção geral que deve estar e continuar ligado não só à pena, 
mas a toda a administração da justiça penal. 
Princípio da acusação 
 
A imparcialidade e objectividade que, associadas à independência, são 
condiçõesindispensáveis de uma autêntica decisão judicial, só estarão 
asseguradas quando a entidade julgadora não tenha também funções 
de investigação preliminar e acusação de infracções mas apenas possa 
“investigar e julgar dentro dos limites que são postos por uma 
acusação fundamentada e deduzida por um órgão diferenciado (em 
regra o MP ou o juiz de instrução) ”18. É assim que modernamente se 
afirma o princípio da acusação. De realçar, no entanto, que pode 
formalmente existir um órgão diferenciado encarregado da acusação 
sem, todavia, estar-se perante o princípio da acusação. 
No direito processual vigente em Moçambique, que, como é do 
conhecimento de todos, é basicamente o que herdamos do direito 
português – nem sempre o princípio da acusação foi adoptado 
plenamente. Basta reparar que o Código de processo penal, aprovado 
pelo Decreto nº 16489, de 15 de Fevereiro de 1929, e tornado 
posteriormente extensivo às então colónias, atribuía MP competência 
para deduzir acusação (art. 349º CPP), mas em função de uma 
instrução preliminar (chamada “corpo de delito”), dirigida pelo mesmo 
juiz a quem depois caberia o julgamento (art. 171º e segts). Este 
sistema só se alterou com a aprovação do DL nº 35007, de 13 de 
Outubro de 1945, mais tarde posto igualmente em vigor nas colónias, 
 
17 De modo diverso expende CASTANHEIRA NEVES, ao considerar a invocação da 
garantia política ou administrativa como verdadeiro limite ao princípio da legalidade. 
18 FIGUEIREDO DIAS, op. cit., pág. 136 e segts. 
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que veio confiar ao MP a direcção da instrução preparatória e o 
exercício da acção penal. 
Da consagração deste princípio resultam substancialmente as 
seguintes implicações: 
1. O tribunal a quem cabe o julgamento não pode, por sua 
iniciativa, começar uma investigação tendente ao 
esclarecimento de uma infracção e à determinação dos seus 
agentes; tal só pode ter lugar numa fase processual cuja 
iniciativa e direcção caiba a uma entidade diferente; 
2. A dedução da acusação é pressuposto de toda a actividade 
jurisdicional de investigação, conhecimento e decisão. Ela 
afirma publicamente que sobre alguém recai uma suspeita tao 
forte de responsabilidade por uma infracção, que impõe uma 
decisão judicial; é, por consequência, a afirmação pública e 
solene de que a comunidade jurídica chama um seu membro à 
responsabilidade; 
3. A acusação define e fixa, perante o tribunal o objecto do 
processo. Num processo de tipo inquisitório puro, a cognição 
do tribunal poderia dirigir-se indiscriminadamente a qualquer 
suspeita de infracção ou de infractor, mesmo que aquela não 
tivesse nenhum reflexo no contexto da acusação (se esta 
existisse). Segundo o principio do acusatório, pelo contrário e 
esta é, sem dúvida, a sua implicação mais relevante, a 
actividade cognitiva e decisória do tribunal está estritamente 
limitada pelo objecto da acusação (e da pronúncia). É a este 
efeito que alguns autores chamam a vinculação temática do 
tribunal e é nele que se consubstanciam os princípios da 
identidade, da unidade ou da indivisibilidade e da consunção 
do objecto do processo penal, isto é, os princípios segundo os 
quais o objecto do processo deve manter-se o mesmo desde a 
acusação ao trânsito em julgado da sentença, deve ser 
conhecido e julgado na sua totalidade (unitária e 
indivisivelmente) e deve considerar-se irrepetivelmente 
decidido. 
Os valores e interesses subjacentes a esta vinculação temática do 
tribunal, implicada no princípio da acusação, facilmente se apreendem 
quando se pense que ela se constitui a pedra angular de um efectivo e 
consistente direito de defesa do arguido sem o qual o fim do processo 
penal é inatingível, que assim se vê protegido contra arbitrários 
alargamentos da actividade cognitiva e decisória do tribunal e 
assegura os seus direitos de contrariedade e audiência; e quando se 
pense também que só assim o Estado pode ter a esperança de realizar 
o seu interesse de punir só os verdadeiros culpados. 
Após o DL nº 35007 é terminante a confissão do direito processual 
penal moçambicano a favor do 
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princípio da acusação. Em geral não pode o juiz julgar e decidir sobre 
uma infracção, se esta lhe não previamente acusada por uma entidade 
diferenciada, em princípio o MP ou outras entidades públicas (artigos 
10º e 2º), excepcionalmente o assistente (crimes particulares ou casos 
de acusação autónoma por crime público). 
Uma excepção encontramo-la todavia no artigo 44º do Decreto-Lei nº 
35007, que permite ao juiz, que eventualmente irá presidir ao 
julgamento, ordenar o MP, finda a instrução contraditória, que deduza 
a acusação. Esta doutrina nem se compreende na medida em que ao 
juiz competiu já presidir e dirigir a instrução contraditória; mas a 
inconveniente violação do princípio da acusação poderia e deveria ser 
evitada através da distinção entre o juiz da instrução criminal e o do 
julgamento. Na falta desta distinção reside de resto, quanto a nós, 
uma das razões principais que determinam o pequeníssimo relevo 
que, na prática da nossa vida judiciária, assume a instrução 
contraditória. O inconveniente, no entanto, foi parcialmente minorado 
com a criação, em certas comarcas, de juízos de instrução criminal a 
quem cabe, nos termos da base II, I b) da L nº 2/72, dirigir a instrução 
contraditória. 
Princípios relativos à prossecução processual 
O princípio da investigação 
O princípio da investigação pretende traduzir-se como o “poder-dever 
que ao tribunal incumbe de esclarecer e instruir autonomamente, 
mesmo par alem das contribuições da acusação e da defesa, o «facto» 
sujeito a julgamento, criando aquele mesmo as bases necessárias à 
sua decisão”19. 
O princípio da investigação poderia designar-se também por princípio 
“instrutório” ou “inquisitório” não fosse a circunstância de tais 
designativos se prestarem a equívocos. O termo instrutório poderia 
fazer crer que o domínio do princípio se estenderia apenas à “fase 
instrutória” do processo penal. O segundo despertaria, 
eventualmente, reminiscências do antigo processo de tipo inquisitório. 
Este principio, para além de servir de orientador a prossecução ou 
desenvolvimento de todo o processo penal, incide primeiramente na 
obtenção das bases da decisão e, consequentemente na matéria das 
provas. É por essa razão que também é designado por princípio da 
verdade “material”. 
Princípio da contrariedade e audiência 
Cabendo ao juiz penal cuidar de reunir as bases necessárias à sua 
decisão, não deve ele, todavia, levar a cabo a sua actividade 
isoladamente, pelo contrário, deve ouvir tanto a acusação como a 
defesa. 
 
19 FIGUEIREDO DIAS, op. cit., pág. 148 
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Tal não significa, porém que o juiz deve permanecer passivo a ouvir o 
debate que perante ele se desenrola – o que caracterizaria um sistema 
acusatório puro e não um sistema como o que vigora no nosso direito 
processual penal, com uma estrutura acusatória integrada por um 
princípio de investigação – antes, sim, que toda a prossecução 
processual deve cumprir-se de modo a fazer ressaltar não só as raízes 
da acusação mas também as da defesa e, portanto, aceitando a 
iniciativa própria destes sujeitos processuais. 
O princípio do contraditório encontra assento generalizado na 
legislação processualpenal, se bem que em medida e sob formas 
diferentes, consoante o concreto estádio do processo. No que se 
refere à fase do julgamento, o preceito onde ele surge de forma mais 
explícita é o artigo 450º do CPP: O juiz ouvirá sempre o Ministério 
Público e os representantes da parte acusadora sobre os 
requerimentos dos representantes da defesa e estes sobre o que 
tenham requerido aqueles”. 
Quanto à fase chamada de acusação e defesa, a contraditoriedade 
transparece sobretudo nos artigos 379º e segts., 390º e 398º, sendo 
ela própria, por outro lado, o autêntico fundamento da fase da 
“instrução contraditória” (vide art. 326º e segts.) 
É de resto, para assegurar o contraditório que o artigo 98º, nºs 5º e 6º, 
do CPP considera como nulidade principal a falta de notificação do 
despacho de pronúncia ou equivalente ao arguido e o seu defensor, 
bem como a falta de entrega do rol d testemunhas. 
Uma achega, conferindo maior estabilidade e concretização ao 
princípio do contraditório, provém da corrente moderna no sentido de 
atribuir verdadeira autonomia substancial perante o princípio da 
verdade material e perante o direito de defesa do arguido, através da 
sua concepção como principio ou direito de audiência. O princípio da 
audiência traduz-se na oportunidade conferida a todo o participante 
processual de influir, através da sua audição, pelo tribunal no 
desenrolar do processo. 
 
O princípio da suficiência – as questões prejudiciais 
 
O princípio da suficiência vem consagrado no artigo 2º do CPP. De 
acordo com este princípio, o processo penal é o lugar adequado ao 
conhecimento de todas as questões cuja solução se revele necessária 
à decisão a tomar. 
 Na tramitação do processo que há-se conduzir a esta decisão podem 
surgir questões de diversa natureza (penal, civil, administrativa, etc.), 
cuja resolução condiciona o ulterior 
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desenvolvimento do processo. Ao dar competência ao juiz penal para 
delas conhecer, a lei considera que o processo penal se basta a si 
mesmo, que é auto-suficiente. 
A razão de ser do princípio é fácil de entender: se não se limitar a 
possibilidade de o processo penal ser sustido ou interrompido, pelo 
facto de nele surgir uma questão susceptível da apreciação autónoma, 
pôr-se-ão em risco as exigências da concentração processual ou da 
continuidade do processo e permitir-se-á colocar obstáculos ao 
exercício da acção penal. 
Pelo que acima ficou exposto fácil apreender que a questão da 
suficiência suscita o problema das questões prejudiciais. São questões 
prejudiciais “aquelas que possuindo objecto – ou até natureza – 
diferente do da questão principal do processo em que surgem, e 
sendo susceptíveis de constituírem objecto de um processo 
autónomo, são de resolução prévia e indispensável para se conhecer 
em definitivo da questão principal dependendo o sentido deste 
conhecimento da solução que lhes for dada.”20 
Uma questão prejudicial terá de reunir os seguintes requisitos: i) um 
antecedente jurídico concreto da decisão do fundo da causa, impondo, 
por isso o seu conhecimento prévio à decisão final da questão 
principal; ii) uma questão autónoma quer no seu objecto quer na sua 
natureza, podendo o problema jurídico concreto ser susceptível de 
constituir objecto próprio de um processo independente; iii) uma 
questão necessária à decisão da questão principal, porque 
condicionante do conhecimento e decisão da questão principal. 
 O problema dos limites da suficiência em processo penal revela-se na 
sua verdadeira dimensão e autonomia, só relativamente às questões 
prejudiciais não penais em processo penal. No que respeita às 
questões prejudiciais penais em processo penal, a matéria vem 
regulada nos artigos 4º, 153º e 154º do CPP. 
Retomando agora as questões prejudiciais não penais em processo 
penal, o seu tratamento vem consignado no artigo 3º do CPP. 
Reconhece-se neste dispositivo legal a excepção ao princípio da 
suficiência. Teve, no entanto, o legislador o cuidado de acautelar que 
se criem obstáculos ao exercício do processo penal com a devolução 
da questão prejudicial para o tribunal normalmente competente (v. 
artigo 3º § 3º do CPP). 
Princípio da concentração 
Considerado na sua mais ampla acepção, o princípio da concentração 
do processo penal exige uma prossecução tanto quanto possível 
unitária e continuada de todos os termos e actos processuais, 
devendo, no seu conjuntos e, em todos os termos e actos processuais, 
 
20 FIGUEIREDO DIAS, op. cit., pág. 164 
 ISCED CURSO: Direito; Disciplina: Direito Processual Penal 
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devendo, no seu conjunto e, em todas as fases do processo, 
desenvolver-se concentradamente, quer no espaço quer no tempo. 
Do que atras foi dito, e extrai-se que este princípio enforma todo o 
processo penal e funda-se na necessidade de conferir livre curso ao 
processo penal, sem obstáculos ou impedimentos ao seu exercício. 
O princípio em questão, embora presente em todas as fases do 
processo, ganha mais relevo e autonomia na audiência de julgamento, 
associando-se aos princípios de forma, enquanto corolário dos 
princípios da oralidade e de imediação (v. artigos 414º, 337º, 76º § 1º 
e 403º do CPP). 
Princípios relativos à prova 
Princípio da investigação ou da “verdade material” 
Perante o acto inicial de promoção de qualquer processo dão-se 
fundamentalmente duas possibilidades opostas de construir a 
respectiva prossecução processual: a) em uma delas as partes 
disporão do processo (tal qual dispõe da respectiva relação jurídica 
material) como coisa ou negócio seu; b) na outra será o tribunal a 
investigar, independentemente das contribuições dadas pelas partes, 
o facto sujeito a julgamento e, assim, a construir autonomamente as 
bases da sua decisão. Deste modo se opõe dois princípios que, dizendo 
sobretudo respeito à maneira de adquirir para o processo o material 
probatório, não deixam de condicionar toda prossecução processual: 
de um lado o principio dispositivo, de contradição ou discussão, ou da 
verdade formal – que domina o processo civil; do outro, o princípio da 
investigação, instrutório, inquisitório ou da verdade material – que 
rege o nosso processo penal. 
Do princípio da verdade formal resultam certas consequências, de que 
importa assinalar as mais relevantes: 
a) É às partes que compete trazer ao processo toda matéria 
fáctica e o material probatório que há-de servir de base à 
decisão. Nesta, o juiz só poderá, portanto, ter em conta os 
factos alegados pelas partes e as provas por elas produzidas; 
b) Na lógica da consequência anterior, está a circunstância de 
recair sobre as partes todo o risco da condução do processo, 
através do ónus, que sobre elas incide, de afirmar, contradizer 
e impugnar: é a isto que se chama o princípio da auto-
responsabilidade probatória das partes. À sua luz terá o juiz de 
considerar como não necessitados de prova todos os factos 
que, apresentados por uma parte, não sejam contraditados 
pela outra: sobre eles haverá acordo, expresso ou apenas 
tácito por força da não impugnação. Estes factos, possam 
embora não ser verdadeiros, são tidos (valem) como tal para 
efeitos de decisão. Por isso se diz que a sentença procura e 
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declara a verdade formal; 
c) Finalmente, sendo objecto do processo uma relação jurídica 
material disponível, às partes pertence o direito de disporem 
do objecto do processo, quer pondo-lhesfim através da 
desistência da instância, quer determinando o próprio 
conteúdo da sentença de mérito através da confissão, da 
desistência ou da transacção. 
Na base do princípio da investigação ou da verdade material é 
totalmente diversa a posição do juiz perante a investigação do facto 
sujeito a julgamento: 
i) A adução e esclarecimento do material de facto e dos 
elementos probatórios não pertencem aqui exclusivamente 
às partes mas, em último termo, ao juiz: é sobre ele que 
recai o ónus de investigar e esclarecer ex-officio – 
independentemente das contribuições das partes – o facto 
submetido a julgamento. Esta consequência do principio da 
verdade material encontra-se consagrada, com carácter 
geral no artigo 9º e, a propósito de problemas específicos, 
nos artigos 330º, 332º § único, 404º § 1º, 425º § 3º, 435º, 
443º §§ 2º e 3º, … do CPP; 
ii) Dado o dever de investigação judicial autónoma da verdade, 
logo se compreende que não impenda nunca sobre as 
partes, em processo penal, qualquer ónus de afirmar, 
contradizer e impugnar, como, igualmente, que se não 
atribua qualquer eficácia à não apresentação de certos 
factos não contraditados, como finalmente, que o tribunal 
não tenha de limitar a sua convicção por sobre os meios de 
prova apresentadas pelos interessados. Por isso se diz que 
em processo penal está em causa não a verdade formal, 
mas a verdade material, entendida como verdade subtraída 
à influência do comportamento processual da acusação e 
da defesa e como verdade judicial, prática e 
processualmente válida; 
iii) Não há aqui lugar para o princípio do dispositivo, pois se está 
perante a indisponibilidade do objecto processual, a 
impossibilidade de desistência da acusação pública, de 
acordos eficazes entre a acusação e a defesa e de 
limitações postas ao tribunal na apreciação jurídica no caso 
submetido a julgamento. Este último ponto vale, 
sobretudo, perante as alegacões orais na audiência de 
discussão e julgamento (artigos 467º, 533º e 539º do CPP). 
Pode o MP ter pedido a absolvição do arguido e o tribunal 
condena-lo, como pode a defesa, considerando provado o 
crime, pedir apenas a condenação, em uma pena leve e o 
tribunal absolver o arguido. 
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Princípio da livre apreciação da prova 
 
Com a produção da prova em julgamento, tem-se em vista oferecer ao 
tribunal as condições necessárias para que este forme a sua convicção 
sobre a existência ou não dos factos ou situações relevantes para a sua 
decisão – sentença. 
Ao tratar desta matéria, importa, desde logo dar resposta cabal à 
seguinte questão: a apreciação da prova deve ter lugar seguindo 
regras legais pré-determinadas do valor a atribuir-lhes (sistema de 
prova legal) ou antes, de acordo com a livre valoração do juiz da sua 
convicção pessoal (sistema da prova livre). Tal questão tem recebido 
ao longo do tempo soluções divergentes, quer nos diferentes estádios 
evolutivos do direito processual pena, quer nos diversos sistemas 
processuais. 
Por um lado, vastas legislações do passado, receosas de que o juiz 
incorresse em erro na valoração dos meios de prova, fixavam critérios 
de apreciação da prova fundadas em regras da vida e da experiência 
que tradicionalmente eram tidas por seguras. Através delas se 
determinava ou se hierarquizava o valor dos distintos meios de prova. 
É neste contexto que a confissão era tida como a rainha de todas as 
provas (no processo canónico medieval defendia-se que, ao confessar, 
“o arguido exprimia uma vontade expiatória que, afinal se identificaria 
com a própria vontade da lei”). Do mesmo modo se aponta a razão de 
ser das regras das ordenações filipinas no que respeitava à apreciação 
da prova testemunhal – “unus testis, nullus testis.” 
Com o advento das reformas legislativas do processo penal 
consequentes à Revolução Francesa, afirmou-se a ideia de que o valor 
e a força dos meios de prova não podem ser correctamente aferidos a 
pripri, através de regras com o carácter de generalidade próprio dos 
critérios legais, mas só o devem ser no contexto das circunstâncias 
concretas do caso. 
Vários factores concorrem em reforço a esta ideia, designadamente a 
instituição do júri como entidade competente para a apreciação da 
prova em processo penal, a difusão dos chamados métodos científicos 
de prova que permitiram a redução da margem de erro na livre 
apreciação daquela e, por último, o facto de que só através da livre 
valoração se lograria apreciar a personalidade do delinquente. 
Segundo o princípio da livre apreciação da prova, a valoração das 
provas pelo juiz não está sujeita a critérios legais, a regras pré-
determinadas que indicam o valor de certo meio de prova. Esta 
valoração é feita segundo a livre convicção do juiz, convicção esta que 
não pode ser puramente subjectiva, emocional, motivável, portanto 
arbitrária. A apreciação da prova deve ser racional e aplicar – se nos 
 ISCED CURSO: Direito; Disciplina: Direito Processual Penal 
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elementos de prova produzidos. O juiz não pode servir-se, para 
fundamentar a sua decisão, de factos conhecidos fora do processo – 
“Quod non est in actis non est in mundo”. 
O princípio da livre apreciação da prova e da livre convicção do juiz 
vale em geral, no nosso direito processual penal, para todo o domínio 
da prova produzida. No entanto, considerados os singulares meios de 
prova admitidos, há que assinalar algumas questões que, por vezes se 
traduzem em importantes limitações ou mesmo excepções a este 
princípio. 
a) No que respeita à prova testemunhal e por declarações (art. 
214º e segts. do C. P. Penal) o principio vale hoje sem 
quaisquer limitações, sendo este o seu campo de eleição. 
Todavia, a lei dá a entender, por diversos modos, não ter a 
prova por declarações a mesma dignidade probatória que a 
testemunhal, mas nada disto se reflecte em termos de critérios 
de apreciação da prova. O juiz é livre de formar a sua convicção 
na base de depoimento de um declarante em desfavor de 
testemunho (s) contrário (s). 
b) No tocante ao depoimento do arguido (244º, 250º e seguintes 
e 425º e seguintes do CPP), há que distinguir duas situações 
conforme este negue ou confesse os factos. Em caso de 
negação, recorre-se por inteiro ao princípio da livre apreciação 
e convicção. A confissão, contudo está sujeita, quanto ao seu 
valor a um verdadeiro critério legal de apreciação. Com efeito, 
o artigo 174º do CPP dispõe que “a confissão do arguido 
desacompanhada de quaisquer outros elementos de prova não 
vale como corpo de delito”. E acrescenta, no seu § único: 
“ainda que o arguido tenha confessado a infracção, o juiz 
deverá proceder a todas as diligências para o apuramento da 
verdade, devendo investigar, com todos os elementos de que 
dispuser, se a confissão é ou não verdadeira”. 
c) Quanto à prova pericial, afirma-se no nosso direito a ideia da 
absoluta liberdade da sua apreciação pelo juiz, ao contrário do 
que sucedeu no deslumbramento consequente ao advento da 
chamada “prova científica” em que se advogava que os 
pareceres dos peritos deviam considerar-se como contendo 
verdadeiras decisões às quais o juiz tinha de sujeitar-se. 
d) A apreciação de factos constantes de documentos autênticos 
ou autenticados traduz-se num verdadeiro critério legal (v. art. 
468º § único, art. 165º e 169º do CPP). 
Princípio “in dubio pro reo” 
Vimos já que em processo penal cabe ao juiz o dever de, 
oficiosamente, instruir e esclarecer o facto sujeito a julgamento: não 
há, em processo penal, qualquer verdadeiro ónus de prova que recaia 
sobre o acusador ou o arguido. Em direito processual penal não há, 
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seguramente, o chamado ónus da prova formal, segundo o qual as 
partes teriam o dever de produzir as provas necessárias como 
fundamento das suas afirmações de facto, sob pena de os mesmos 
factos não serem tidos como provados. 
Se o tribunal, em processo penal, através da sua actividade probatória, 
não lograr obter a certeza dos factos mas antes permanecer na 
dúvida, terá de decidir-se em desfavor da acusação, absolvendo o 
arguido por falta de provas. Este é o conteúdo do princípio de, na 
dúvida, dever decidir-se a favor do réu. 
Princípios relativos à forma 
Os princípios de forma como princípios estruturais da fase de 
julgamento 
Estes princípios integram, por sua vez, os princípios da publicidade e 
da oralidade, com o seu corolário mais importante que é o princípio da 
imediação. Tais princípios dizem respeito, de modo directo, à forma 
sob a qual há de decorrer e a que deve obedecer o processo penal. 
Afirmam-se, no entanto, com maior expressão na fase de audiência e 
julgamento, sendo esta o seu campo de eleição. 
Princípio da publicidade 
Nos termos do artigo 407º do CPP e do art. 6º da Lei nº 10/92, de 6 de 
Maio (Lei Orgânica dos Tribunais Judiciais), as audiências dos tribunais 
são públicas. Significa isto que qualquer cidadão tem direito a assistir 
(e a ouvir o) desenrolar da audiência de julgamento, mas também que 
sai admissíveis os relatos públicos daquela audiência. As excepções à 
publicidade da audiência de julgamento estão previstas no artigo 407º 
do CPP. 
Princípios da oralidade e da imediação 
Outro dos princípios fundamentais do processo penal a que importa 
fazer referência é o princípio da oralidade, que se afirma com maior 
relevo na fase da audiência de discussão e julgamento. 
Oralidade não significa exclusão da escrita, no sentido de proibição de 
que nos actos que tenham lugar oralmente fiquem registos, actas ou 
protocolos, (que servem, por exemplo, fins de controle de produção 
da prova, sobretudo em matéria de resumo). Significa, tao somente, 
que a actividade processual é exercida na presença dos participantes 
do processo e, portanto, oralmente. 
Quando se fala de “oralidade” como princípio geral do processo penal, 
tem-se em vista a forma oral de atingir a decisão: o processo será 
dominado pelo princípio da escrita quando o juiz prefere a decisão na 
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base de actos processuais que foram produzidos por escrito (exames, 
peritagens, etc.) e será, pelo contrário, dominado pelo princípio da 
oralidade quando a decisão é proferida com base em uma audiência 
de discussão oral da matéria a considerar. 
A importância do princípio da oralidade reside no facto de permitir o 
indispensável contacto vivo e imediato com o arguido, a recolha da 
impressão deixada pela sua personalidade. Só a oralidade permite, por 
outro lado, avaliar o mais correctamente possível da credibilidade das 
declarações prestadas pelos participantes processuais. E só ela 
permite, por último, uma plena audiência destes mesmos 
participantes, possibilitando-lhes da melhor forma que tomem posição 
perante o material de facto recolhido e comparticipem na declaração 
do direito do caso. 
 O princípio sofre algumas limitações quando a audiência de 
julgamento se realiza sem a presença do arguido – v. entre outros, os 
artigos 413º, 547º e 562º e seguintes do CPP. Do mesmo modo, a fase 
dos recursos decorre sob a forma escrita. 
Em conexão estreita com o princípio da oralidade está o princípio da 
imediação, alias corolário daquele. Pode em geral, definir-se como “a 
relação de proximidade comunicante entre o tribunal e os 
participantes no processo, de modo tal que aquele possa obter uma 
percepção própria do material que haverá de ter como base da sua 
decisão”. Por exemplo a exibição de documentos (artigo 426º do CPP) 
é uma manifestação do princípio da imediação. Também aqui, tal 
como no princípio da oralidade, o ponto de vista decisivo é a forma de 
obter a decisão. 
Aplicação da lei penal processual penal no tempo e no espaço 
Âmbito de aplicação material 
O âmbito de aplicação material do direito processual penal 
moçambicano coincide com os limites da jurisdição21 moçambicana 
em matéria criminal; é, pois, exactamente demarcado pela 
especificidade do objecto de que se trata em processo penal: as 
questões referentes à realização do direito penal que em último 
termo, consideram o crime acusado (tomado em sentido amplo, como 
equivalente de “infracção” e abrangendo portanto as próprias 
contravenções) e as reacções criminais que em abstracto lhe caibam. 
Está, naturalmente, fora de questão a autonomia das jurisdições penal 
e civil. Todavia a lei manda que o pedido civil de indemnização por 
perdas e danos derivado de um crime deva ser deduzido em processo 
penal (artigo 29º do CPP). Optou assim o legislador pelo chamado 
sistema da interdependência ou da adesão da acção civil à penal. 
 
21 Tomada no sentido de “actividade através da qual se exerce a função 
jurisdicional”: Cf. CAVALEIRO de FERREIRA, I, 7. 
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Âmbito de aplicação espacial 
O âmbito de aplicação espacial do direito processual penal assenta na 
ideia de que a jurisdição penal se contém estritamente dentro dos 
limites do Estado – vigora aqui o princípio da territorialidade. Nada 
impede, porém, que a jurisdição processual penal se aplique a crimes 
cometidos no estrangeiro (v. artigos 46º, 48º, 49º e 50º do C. P. Penal), 
o que acontece naqueles precisos casos em que seja aplicável a lei 
penal substantiva. Significa isto que é inadmissível, salvo tratado 
internacional em contrário, executar em território estrangeiro actos 
processuais cabidos na jurisdição nacional e vice-versa. 
Em consequência do princípio acima aludido, que domina as relações 
entre a jurisdição nacional e as estrangeiras, à sentença penal 
estrangeira não são reconhecidos efeitos positivos ou executórios, 
embora lhe possam ser reconhecidos efeitos negativos. Assim, no caso 
de infracções cometidas no estrangeiro, a sentença ai proferida 
impede que a questão seja de novo julgada em Moçambique (artigo 
59º, nº 3 do C. Penal) e em caso de novo processo, ter-se-á em conta a 
pena já cumprida pelo reu no estrangeiro. 
Excepções ao princípio da territorialidade resultam de tratados 
internacionais firmados por Moçambique com outros países, de entre 
os quais se destacam os acordos de cooperação jurídica e judiciária 
com Cuba e Portugal. 
Âmbito pessoal de aplicação 
O âmbito pessoal de aplicação do direito processual penal coincide 
com o da aplicação do direito penal substantivo. Daqui se extrai que o 
direito processual penal não atinge apenas os arguidos ou suspeitos, 
mas também uma ampla gama de “terceiros” se encontra sujeita a 
determinações processuais em matéria de prazos, de deveres de 
comparecer, prestar declarações, suportar exames, buscas e 
apreensões etc. cabe, assim, ao próprio direito processual determinar 
os direitos e deveres processuais de todas as pessoas, nacionais ou 
estrangeiras, participantes de um processo penal que devem 
submeter-se ao nosso direito. 
Há, no entanto, limitações a considerar no que respeita ao âmbito 
pessoal de aplicação. A primeira ordem resulta de preceitos do direito 
internacional como expressão do princípio da extraterritorialidade. 
São as chamadas imunidades diplomáticas que atingem Chefes de 
Estado estrangeiros, diplomatas e agentes equiparados,suas famílias 
e, em parte, também o seu pessoal administrativo e técnico, pessoal 
de serviço e cônsules. O texto legal mais importante é a Convenção de 
Viena sobre as relações diplomáticas, de 28/04/1961. 
Outro grupo de limitações deriva do direito constitucional e atinge o 
Presidente da República (artigo 153º da Constituição) e os deputados 
da Assembleia da República (artigo 174º da Constituição). Esta 
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imunidade estende-se a entidades nomeadas pelo Presidente da 
República e aos magistrados judiciais e do Ministério Público. 
Âmbito de aplicação temporal 
 
A lei processual penal, como em geral toda a lei, “só dispõe para o 
futuro”, nos termos do artigo 12º do Código Civil. Todavia, a aplicação 
da lei processual penal a actos ou situações que decorram na sua 
vigência, mas que se ligam a uma infracção cometida no domínio da lei 
processual antiga, não deve contrariar nunca o conteúdo da garantia 
conferida pelo princípio da legalidade. Resulta daqui que não deve 
aplicar-se a nova lei processual penal a um acto ou situação processual 
que ocorra em processo pendente ou derive de um crime cometido na 
vigência da lei antiga, sempre que a nova lei possa resultar um 
agravamento da posição processual do arguido ou, em particular, uma 
limitação do seu direito de defesa. 
Interpretação e integração da lei processual. A analogia 
 
As normas do direito processual penal suscitam, como as de direito 
material, problemas de interpretação. Buscar e encontrar o sentido e 
o espírito da norma para esclarecer a sua obscuridade ou para 
determinar o seu alcance, ou mesmo decidir sobre qual a norma 
aplicável a casos não expressamente previstos, são problemas comuns 
a todos os ramos de direito. 
Interpretar a lei significa fixar exactamente o seu conteúdo e alcance, 
determinando qual é a vontade expressa pela norma em conexão com 
as demais normas e com as exigências sempre novas da vida 
comunitária. 
Há, em princípio, quanto aos elementos utilizados, a interpretação 
literal e a interpretação lógica. Quanto aos efeitos ou resultados, a 
interpretação pode ser declarativa, extensiva ou restritiva. Em todas 
estas formas de interpretação da lei está sempre implícito o 
pressuposto de uma contradição entre a verdadeira vontade do 
legislador e a sua imperfeita manifestação e, por via disso, a 
necessidade da rectificação desta, com o objectivo de assegurar a 
supremacia e predomínio daquela. 
De todo o modo, e nas suas linhas gerais, o problema da interpretação 
não ganha, em direito processual penal, autonomia em relação aos 
demais ramos do direito. É de assinalar, no entanto, a relevância que 
no direito processual penal assume a consideração do fim do processo 
para uma interpretação axiológica e teleológica. Na verdade, 
assumindo-se o direito processual penal como verdadeiro “direito 
constitucional aplicado” não será, por demais, acentuar a necessidade 
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de se tomar em conta o princípio da interpretação conforme a 
Constituição. 
Lacunas e sua integração 
 
O problema das lacunas da lei e da sua integração merece, em direito 
processual penal, uma consideração especial. 
O artigo 1º, § único, do C. P. Penal dispõe que “nos casos omissos, 
quando as suas disposições não possam aplicar-se por analogia, 
observar-se-ão as regras do processo civil que se harmonizem com o 
processo penal e, na falta delas, aplicar-se-ão os princípios gerais do 
processo penal”. 
Há, pois, três caminhos a percorrer no processo de integração das 
lacunas em processo penal: 
a) A analogia; 
b) As regras do processo civil que se harmonizem com o processo 
penal; 
c) Os princípios gerais do processo penal. 
Quanto à analogia, ela é aqui permitida, ao contrário do que sucede 
no direito penal substantivo, no que respeita à fundamentação da 
pena (incriminação) ou ao seu agravamento. Mas o facto de a analogia 
ser permitida em processo penal, não significa que ela possa ser usada 
em detrimento dos direitos processuais do arguido ou para 
enfraquecer a sua posição processual. É que, tal como no Direito 
Penal, o Direito Processual Penal deve reger-se pelo princípio da 
legalidade, constitucionalmente consagrado. 
Constituindo o princípio da legalidade a mais sólida garantia das 
pessoas contra possíveis arbítrios do poder, não se vê porque não haja 
ele de estender-se, na medida imposta pelo seu conteúdo de sentido, 
ao processo penal, cuja regulamentação pode a todo o momento pôr 
em perigo a liberdade das pessoas. 
Não sendo possível a integração por via da analogia, há que recorrer 
às regras do processo civil que se harmonizem com o processo penal. 
Confere-se assim às normas do processo civil o estatuto de direito 
subsidiário, desde que se demonstre a sua harmonia, no caso 
concreto, com os princípios do processo penal. 
Só quando a lacuna não tenha pedido ser colmatada com o recurso à 
analogia e às normas do processo civil, é possível atender aos 
princípios gerais do processo penal. 
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Sumário 
Na unidade temática supra apresentamos os princípios que guiam o 
processo penal moçambicano, onde destacamos quatro principais 
grupos de princípios que por sua vez encontram-se subdivididos, 
mormente os Princípios relativos à promoção processual, Princípios 
relativos à prossecução processual, Princípios relativos à forma bem 
como os Princípios relativos à forma dos processos penais. Na mesma 
ordem, tratamos de debruçar em torno do âmbito de aplicação da lei 
processual penal, o regime da interpretação e integração de lacunas 
no direito processual moçambicano. 
Exercícios do tema II. Unidade temática II: 
 
1. A acusação penal tem como titular exclusivo: 
a) O juiz da causa; 
b) As testemunhas; 
c) O Estado; 
d) Os declarantes. 
A resposta correcta é: C. 
2. O princípio da oficialidade procura: 
a) Saber a quem compete o impulso de investigar a prática de 
uma infracção e a decisão de a submeter ou não a 
julgamento; 
b) Conhecer quem são os titulares dos direitos violados; 
c) Responsabilizar os malfeitores pelos danos que causam a 
sociedade; 
d) Dar oportunidades aos sujeitos processuais de intervirem 
no processo. 
A resposta correcta é: A. 
 
3. O processo penal deve conduzir-se com base em pressupostos 
que emanam de lei desde o início até o seu fim. 
a) Trata-se de obedecer ao princípio da dupla jurisdição do 
processo penal; 
b) Trata-se de obedecer ao princípio da isonomia; 
c) Significa que o julgador deve apenas fazer um estudo 
comparado para poder 
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decidir sobre o mérito da causa; 
d) Trata-se do princípio da legalidade. 
A resposta correcta é: D. 
 
4. É verdade que: 
a) Se o Ministério Público não deduzir acusação pode o juiz 
proceder de forma oficiosa; 
b) O agente do Ministério Público será punido porque esta é 
sua função; 
c) O juiz não tem funções de investigação preliminar e 
acusação de infracções; 
d) Onde não haver representação de um agente do 
Ministério Público não se pode acusar para dar início a 
instância. 
A resposta correcta é: C. 
 
5. Em Moçambique não existe o direito ao contraditório por se 
entender que é um país do terceiro mundo: 
a) Verdadeiro; 
b) Falso. 
A resposta correcta é:B. 
6. Se é verdade que o contraditório constitui um direito 
fundamental dos cidadãos, tal significa que o juiz deve se 
manter passivo e decidir de acordo com o que ouviu e não se 
importar em criticar a veracidade. 
a) Falso; 
b) Verdadeiro. 
A resposta correcta é: A. 
 
7. Depois da investigação, a principal tarefa do Ministério 
Público em processo penal é criminalizar o réu. 
a) Verdadeiro; 
b) Falso; 
A resposta correcta é: B. 
 
8. Sob o ponto de vista jurídico, o princípio da oralidade e 
imediação não são relevantes porque basta apenas a 
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existência do contraditório. 
a) Verdade; 
b) Falso. 
A resposta correcta é: B. 
 
9. No âmbito da aplicação espacial da lei, o princípio Nem bis in 
idem significa: 
a) Todos os crimes cometidos no estrangeiro envolvendo pelo 
menos um moçambicano deve ser julgados novamente em 
Moçambique; 
b) A sentença proferida no estrangeiro impede que a questão 
seja de novo julgada em Moçambique; 
c) O juiz não deve julgar os seus familiares; 
d) O tribunal competente pata conhecer da causa é o do lugar 
de nascimento do réu. 
A resposta correcta é: B. 
 
10. No processo de integração das lacunas em processo penal os 
caminhos a percorrer são: 
a) A analogia; 
b) As regras do processo civil que se harmonizem com o 
processo penal; 
c) Os princípios gerais do processo penal. 
d) Nenhuma das opções acima são verdadeiras. 
As respostas correctas são: A, B e C. 
 
11. A publicidade das audiências depende apenas do 
entendimento do juiz, pois a lei processual penal nada dispõe 
a esse respeito. 
a) Verdadeiro; 
b) Falso. 
A resposta correcta é: B. 
 
12. A única resposta correcta é: 
a) Em decorrência da aplicação do princípio da audiência, o 
arguido tem o direito de ser ouvido sobre todos os factos 
que lhe são imputados; 
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 49 
 
b) O princípio da verdade material consagra que só o 
Ministério Público e o arguido podem fornecer ao processo, 
todos os elementos necessários para a descoberta da 
verdade material; 
c) O processo penal não recorre as normas de processo civil 
em nenhum momento; 
d) Os detentores de altos cargos políticos nunca são passiveis 
de responsabilização criminal porque actuam em nome da 
Nação. 
A resposta correcta é: A. 
TEMA III. SUJEITOS PROCESSUAIS 
UNIDADE TEMÁTICA III: DOS SUJEITOS PROCESSUAIS 
 
Introdução 
Na unidade temática que aqui se inicia abordaremos em torno dos 
sujeitos processuais, entendidos como todos aqueles que intervém na 
relação jurídico-processual, ou seja, aqueles que atuam no processo. 
São pessoas e entidades que, investidas nas mais diversas funções, 
desenvolvem actividades no processo e recebem a designação 
genérica de participantes processuais. Dentre eles podemos destacar o 
Tribunal, o Ministério Público, o arguido e o seu defensor. Neste 
sentido, trataremos ainda de estudar em torno da organização dos 
tribunais em Moçambique, o que também facilitará o entendimento 
quando estivermos a tratar dos recursos em processo penal. Pela 
existência dos referidos sujeitos processuais, não implica que em 
qualquer processo tenham de intervir, havendo pois, de outro lado 
das competências, alguns impedimentos e suspeições, que em certa 
medida podem obstar a um dos sujeitos de intervir no processo. Não 
se entendendo que o juiz seja a figura principal do processo, na 
presente unidade teremos a oportunidade de debruçar em torno do 
arguido e o seu defensor, alias, figuras estas de extrema relevância 
para que a se componha a instância em processo penal. 
 ISCED CURSO: Direito; Disciplina: Direito Processual Penal 
 50 
 50 
 
 
 
Objectivos específicos 
 Definir os sujeitos processuais penais; 
 Especificar os sujeitos processuais penais; 
 Descrever as competências processuais penais dos tribunais 
hierarquicamente organizados; 
 Especificar os momentos de limitação dos processos penais na 
intervenção dos processos; 
 Entender sobre a relação existente entre o Tribunal e o Ministério 
Público enquanto sujeitos processuais; 
 Saber sobre as formas do processo penal e o seu campo de 
aplicação. 
 
Generalidades 
O processo penal, como relação da vida comunitária, não se conforma 
a si mesmo, mas exige uma actuação de pessoas e entidades como 
força ou meio de desenvolvimento processual. 
Conforme se vem definindo o processo penal, este é entendido como 
sendo uma sequência de actos juridicamente pré-ordenados e 
praticados por certas pessoas legitimamente autorizadas, com vista a 
lograr a decisão sobre se foi praticado algum crime e, em caso 
afirmativo, sobre as respectivas consequências jurídicas e a sua justa 
aplicação. 
Essas pessoas e entidades que, investidas nas mais diversas funções, 
desenvolvem actividades no processo, recebem a designação genérica 
de participantes processuais. 
Mas nem todos os participantes processuais realizam uma função 
determinante, a ponto de imprimirem ao processo ima certa direcção 
ou fisionomia própria. Os funcionários judiciais, por exemplo, 
colaboram no processo e, no entanto, a sua actuação não é decisiva. O 
mesmo se passa com as testemunhas, os declarantes e os peritos, que 
intervêm como meios de prova, mas não têm poder de iniciativa nem 
decisão relativamente às questões processuais. 
Aos participantes a quem, por força da sua particular posição jurídica, 
são reconhecidos direitos e deveres processuais autónomos, no 
sentido de poderem condicionar a concreta tramitação do processo, 
costuma chamar-se sujeitos processuais22. 
 
22 A distinção entre sujeitos e simples participantes processuais ou, como preferem 
alguns autores, entre os sujeitos principais e sujeitos secundários ou acessórios é 
meramente doutrinal, não tem reflexo na lei. Apresenta, todavia, um certo interesse 
sistemático, como veremos adiante, ao estudar a posição jurídica de cada um deles 
no processo. 
 ISCED CURSO: Direito; Disciplina: Direito Processual Penal 
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 51 
 
Assim, são sujeitos processuais, além do tribunal (ou, por outras 
palavras, do juiz penal), o Ministério Público, o arguido e o seu 
defensor, o ofendido e o assistente. 
Iremos estudar detalhadamente cada um deles. Antes porém, convirá 
fazer uma breve referência à estrutura fundamental do processo 
penal, com particular relevo para a que resulta da legislação em vigor. 
O Tribunal 
Organização dos tribunais judiciais 
A jurisdição penal pertence aos Tribunais Judiciais, que estão 
hierarquicamente organizados de acordo com o estabelecido na 
respectiva Lei orgânica (LOJ). 
Nessa esteira, ao abrigo do artigo 29 da LOJ existem as seguintes 
categorias de Tribunais Judiciais: 
a) Tribunal Supremo – TS 
b) Tribunais Superiores de Recurso – TSR 
c) Tribunais Judiciais de Província - TJP 
d) Tribunais Judiciais de Distrito (Classificados em de 1.ª Classe e 
2.ª Classe nos termos das Resoluções n.º 1/2009, de 18 de 
Maio e 1/2013, de 2 de Dezembro, para o caso de Sofala são 
de 1.ª Classe os Tribunais Judiciais da Cidade da Beira, do 
Distrito do Dondo e do Distrito de Nhamatanda sendo de 2.ª 
Classe os restantes. 
Competência Penal 
O Tribunal Supremo 
Ao abrigo do disposto no artigo 225º, n.º 1 da CRM, o Tribunal 
Supremo é o órgão superior da hierarquia dos Tribunais Judiciais ou 
seja, é o mais altoórgão da hierarquia dos Tribunais Judiciais e tem 
jurisdição em todo o território nacional (artigo 39º, da LOJ). 
Para o exercício da função jurisdicional, nos termos do artigo 39º, da 
LOJ, o TS organiza-se em: 
a) Plenário – como Tribunal de segunda instância (artigo 45º, al. 
c) da LOJ) compete julgar recursos de decisões proferidas em 
primeira instância pelas secções do TS e de instância única 
(artigo 46 da LOJ) competindo julgar processos crimes 
instaurados contra determinadas individualidades e exercer 
demais competências expressamente previstas na Lei. 
 
b) Secções - como tribunal de primeira instância (artigo 51 da 
LOJ) competindo julgar processos crimes instaurados contra 
determinadas individualidades e exercer demais competências 
 ISCED CURSO: Direito; Disciplina: Direito Processual Penal 
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expressamente previstas na Lei e de segunda instância (artigo 
50, al. a) da LOJ) compete julgar recursos de decisões 
proferidas pelos TSR. 
Tribunais Superiores de Recurso 
São por essência Tribunais de recurso, e podem funcionar como 
Tribunais de: 
a) Primeira Instância (artigo 63º da LOJ) competindo julgar processos 
crimes instaurados contra determinadas individualidades e exercer 
demais competências expressamente previstas na Lei. 
b) Segunda Instância (artigo 62º, al. a) da LOJ) compete julgar 
recursos de decisões proferidas pelos Tribunais Judiciais de Província. 
 Tribunal Judicial de Província 
Podem funcionar como Tribunal de: 
a) Primeira Instância (artigo 73º, n.º 2, al. a) da LOJ) – compete em 
matéria criminal compete julgar infracções criminais cujo 
conhecimento não seja atribuído a outros Tribunais – ou seja crimes 
puníveis com penas superiores a 12 anos e superiores a 8 anos em se 
tratando dos Distritos de 1. e 2 Classes, respectivamente, estamos em 
face da competência material que vem definida segundo as molduras 
penais abstractas aplicáveis que cabe na alçada destes Tribunais. 
b) Segunda Instância (artigo 74º, da LOJ) compete julgar recursos de 
decisões proferidas pelos Tribunais Judiciais do Distrito. 
 
Tribunal Judicial do Distrito 
Como antes nos referimos estão classificados em de 1.ª e 2.ª Classes, 
podem funcionar como de: 
 a) Primeira instância - (artigos 84, n.º 2, al. b) e 85, n.º 2, al. b) ambos 
da LOJ) competindo aqueles em matéria criminal julgar crimes cuja 
moldura penal abstracta vai até 12 anos de prisão maior e estes ate 8 
anos de prisão maior. 
 b) Segunda instância - tanto os de 1.ª assim como os de 2.ª Classes – 
julgar recursos interpostos das decisões proferidas pelos Tribunais 
Comunitários (artigo 86, n.º1, al a) da LOJ). 
Muito se fala, no seio dos cultores da ciência jurídica, em torno deste 
dispositivo legal e nós não podemos ser excepção a regra, tudo porque 
os Tribunais Comunitários (TC) não fazem parte da estrutura 
hierárquica dos Tribunais judiciais não estando por isso mesmo 
vinculados pelas decisões que, eventualmente, podem ser tomadas 
 ISCED CURSO: Direito; Disciplina: Direito Processual Penal 
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por qualquer dos Tribunais integrantes dessa estrutura. 
Outrossim, nos Tribunais Comunitários os litígios são dirimidos com 
base em usos e costumes – direito consuetudinário – contraposto ao 
primado da lei que vinga na resolução dos litígios ao nível da justiça 
“formal”, para além de que por lá o procedimento é oral (produção de 
provas) fazendo com que o Tribunal de recurso não disponha de 
elementos probatórios para o conhecimento da matéria controvertida 
objecto de recurso – somos chamados a reflectir. 
O Juiz penal 
Função e características 
 
Nos termos do artigo 133 da Constituição da Republica de 
Moçambique – CRM, os Tribunais são órgãos de soberania, estes 
administram a justiça em nome do povo - vide artigo 1 da Lei n.º 
24/2007, de 20 de Agosto – Lei da Organização Judiciaria (LOJ). 
No tocante ao processo penal, dizer que os tribunais são únicos órgãos 
competentes para, como representantes da comunidade jurídica e do 
poder oficial do estado em que aquela se constitui, decidirem os casos 
jurídicos penais que processualmente lhe sejam levados a sua 
apreciação, aplicando o direito penal substantivo. 
Sendo, por conseguinte, os tribunais no seu conjunto – e cada um dos 
juízes de per si – órgãos de soberania, e pertencendo só a eles a 
função judicial (cujo exercício se consubstancia naquilo a que se 
costuma designar por jurisprudência), tem forçosamente de concluir-
se que a independência material (objectiva) dos tribunais – reforçada 
pela independência pessoal (subjectiva) dos juízes que os formam – é 
condição indispensável da administração da justiça. 
Daí que a Constituição consagre o princípio da independência dos 
tribunais (art. 217º, nº 1), que é retomado e desenvolvido pelo 
Estatuto dos Magistrados Judiciais (Lei nº 24/2007, de 20 de Agosto – 
artigo 10º, no 1), e que constitui a característica fundamental destes 
órgãos. 
A independência dos tribunais, quando analisada em pormenor nos 
seus elementos essenciais, assume diversos significados e comporta 
várias consequências: 
a) Em primeiro lugar, independência perante os outros poderes 
do Estado ou perante os restantes órgãos de soberania23. 
 
23 O Presidente da República, a Assembleia da República, o Conselho de Ministros e o 
Conselho Constitucional, Segundo a enumeração contida no artigo 109º da 
Constituição da República. 
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 54 
 
b) Em segundo lugar, independência perante quaisquer grupos ou 
entidades da vida pública, como os partidos políticos, os 
grupos de interesse ou de pressão, os “lobbies”, os meios de 
comunicação social e outros. 
Atendendo ao nível de desenvolvimento técnico e tecnológico 
atingido, e à evolução que o próprio Estado conheceu nos tempos 
mais recentes, deve reconhecer-se que não é fácil preservar os 
tribunais da influência de tais grupos, e da opinião pública em geral. 
Essa influência é, pelo menos, muito mais latente e próxima de 
concretização do que a dos outros poderes do Estado e da própria 
hierarquia judicial. Daí que, para reduzir os efeitos negativos que este 
fenómeno pode produzir no exercício independente e imparcial da 
administração da justiça, o Estado criar um adequado um adequado 
conjunto de condições que permitem a independência subjectiva dos 
juízes, nomeadamente nos domínios social e económico. 
c) Em terceiro lugar, independência perante a organização 
hierárquica dos próprios tribunais, no tribunais de não 
poderem os juízes receber “ordens” ou “instruções” concretas 
vindas de outros juízes de categoria superior. 
Evidentemente que esta independência diz respeito ao exercício da 
função judicial propriamente dita (ou seja, à decisão que ao juiz 
cumpre tomar nos caso submetidos à sua apreciação), e não a 
assuntos relacionados com a organização e fiscalização dos serviços 
judiciais. Neste domínio existe uma hierarquia a respeitar – Presidente 
e Vice-Presidente do Tribunal Supremo, Juízes Conselheiros, Juízes de 
Direito e Juízes (dos tribunais judiciais de distrito). Além disso, a 
própria lei ressalva o dever de acatamento, pelos tribunais inferiores, 
das decisões proferidas, em via de recurso, pelos tribunais superiores 
(art. 10º, no 2 da Lei nº 24/2007, de 20 de Agosto) 
Intrinsecamente ligado ao princípio da independência judicial, e como 
seu limite, está o dever que sobre os juízes impende de obediência à 
lei (art. 217º; nº 1, da Constituição).Além da Independência, são características da função judicial, 
igualmente salvaguardadas pela Constituição (nos 2 e 3), a 
irresponsabilidade e a inamovibilidade dos juízes. 
A competência do tribunal em matéria penal 
O princípio do “juiz natural” 
O princípio da legalidade em matéria penal obriga, como se sabe, ao 
afastamento da analogia em matéria de incriminação e determinação 
das penas: nullum crimen, nulla poena sine lege. Não se ficam, no 
entanto, por aqui, as implicações deste princípio fundamental. 
Também no processo penal ele se manifesta através do chamado 
princípio do “juiz natural”, ou do “juiz 
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 55 
 
legal”, que representa o direito fundamental dos cidadãos a que uma 
causa seja julgada por um tribunal previsto como competente por lei 
anterior, e não designado arbitrariamente. 
Este princípio tem um triplo significado: 
1- Só a lei pode instituir o tribunal e fixar-lhe a competência; 
2- A fixação do tribunal e da sua competência têm de ser feitas 
por uma lei vigente ao tempo em que foi praticado o facto 
criminoso que será objecto do processo; 
3- A fixação legal da competência visa excluir qualquer 
possibilidade de arbítrio ou discricionariedade na 
determinação do juiz competente. 
Muito embora não tenha assento constitucional, o princípio do “juiz 
natural” está claramente aflorado no artigo 37º da Lei nº 24/2007, 
segundo o qual “Nenhuma causa pode ser deslocada do tribunal 
competente para outro, excepto nos casos especialmente previstos na 
lei”. 
Espécies de competência 
Em relação a cada feito criminal, a cada caso penal em concreto, 
importa, pois, que a lei determine qual, de entre os tribunais 
existentes, deve apreciar e julgar a causa. É nisto que se traduz a 
determinação da competência em processo penal. 
Esta determinação da competência implica a resposta a três perguntas 
diferentes: 
1- Qual o tribunal que, segundo a sua espécie deve conhecer de 
uma infracção penal de certa natureza (uma contravenção ao 
Código de Estrada, um furto simples, um homicídio qualificado, 
um crime de deserção, uma violação das lei sobre pesca nas 
águas jurisdicionais, etc.). Trata-se aqui do problema da 
determinação da competência material; 
2- Qual o tribunal que, entre os da mesma espécie, deve, segundo 
a sua localização no território, ser chamado para conhecer do 
mérito da causa. É o problema da determinação da 
competência territorial. 
3- Qual o tribunal competente para a prossecução de certas fases 
processuais, ainda ao nível da primeira instância, ou para o 
desenvolvimento do processo na fase de recurso. Trata-se da 
determinação da competência funcional. 
Deste modo, o problema da determinação da competência resolve-se 
definindo a natureza e sede territorial do tribunal e a sua categoria, 
dando lugar às três espécies de competências que apontamos: 
competência material, territorial e funcional. 
 ISCED CURSO: Direito; Disciplina: Direito Processual Penal 
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Vejamos em seguida quais os critérios seguidos pela doutrina e pela lei 
vigente para a definição de cada uma destas espécies de 
competências. 
Competência material 
Na distribuição da competência para apreciação dos feitos criminais 
pelas várias espécies de tribunais existentes, pode o legislador servir-
se de um de dois métodos ou vias de procedimento: 
a) O método de determinação abstracta da competência que 
resulta directamente da lei, atribuindo esta a cada tribunal 
poderes para o conhecimento e decisão de certo tipo de crimes 
ou para aplicação de certo tipo de penas. 
b) O método de determinação concreta da competência que 
deriva de uma previsão do crime, tal como é de esperar que 
venha a ser definido concretamente na sentença, ou da pena 
que virá a ser aplicada em concreto. 
As legislações que se baseiam no método da determinação abstracta – 
como é o caso da que vigora ente nós – utilizam, geralmente, três 
tipos de critérios distintos: 
i) Um critério quantitativo que atende à gravidade das 
infracções, determinada pelo máximo da pena aplicável; 
ii) Um critério qualitativo que leva em conta a natureza das 
infracções em causa; 
iii) Um critério fundado na qualidade da pessoa do arguido em 
que a específica função pública por este exercida (ou o grau 
de perigosidade demonstrada pelo delinquente) funciona 
como elemento de conexão determinante da competência. 
Embora o critério mais utilizado na nossa legislação seja o 
quantitativo24, os outros dois também aparecem referenciados25. 
É de realçar que o disposto no nº 2 do artigo 29º da Lei nº 24/2007, de 
20 de Agosto, que permite a criação de tribunais de competência 
especializada, como é o caso das Secções de Menores do Tribunal 
Judicial da Cidade de Maputo, a quem cabe a aplicação de medidas de 
prevenção criminal (relativas a menores inimputáveis). 
Relacionada com o problema da competência material, pode pôr-se a 
questão da prorrogação da competência, de acordo com as regras 
 
24 Quer fazendo a lei traduzir o máximo da pena aplicável no facto de se utilizar Uma 
certa forma de processo (v. arts, 63º, 64º e 65º do C. P. Penal, aplicável por força e 
com as alterações constantes do art. 11º do Decreto nº 19271, de 24 de Janeiro de 
1931 – o diploma que pôs em vigor nas então colónias o Código de Processo Penal, e 
o artigo 1º do Decreto-Lei nº 28/75, de 1 de Março). 
 
25 V. art. 66º do Código de Processo Penal quanto ao critério qualitativa. 
 ISCED CURSO: Direito; Disciplina: Direito Processual Penal 
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enunciadas nos §§ 1º e 2º do art. 447º e no art. 61º, ambos do C. P. 
Penal. 
A prorrogação da competência resulta do facto de o tribunal, ao 
qualificar diversamente a matéria que constitui objecto do processo, 
condenar em penas que caberiam na competência de um tribunal 
inferior, a qual é, deste modo, absorvida (tendo em conta o principio 
“quem pode o mais pode o menos”). 
A situação inversa não pode verificar-se, pois que se estaria perante a 
excepção da incompetência, prevista no artigo 138º, 1ª, do C. P. Penal, 
pelo que o caminho a seguir será o de proceder nos termos do § 2º do 
artigo 447º, com a consequente aplicabilidade do artigo 145º (remessa 
do processo ao tribunal competente), ambos do mesmo Código. 
Assim, a competência por excesso está coberta pela prorrogação, mas 
se ela for por defeito dá lugar à excepção atrás referida. 
Competência territorial 
A competência territorial obtém-se estabelecendo a conexão entre o 
tribunal e o facto criminoso objecto do processo, de acordo com um 
critério de localização geográfica, e tendo em vista a afirmação do 
princípio da imediação. 
A regra geral para a determinação da competência territorial é a do 
locus deliciti, segundo a qual é competente para o conhecimento da 
infracção o tribunal do local da sua prática ou da sua ocorrência. 
Mas como apurar o local da ocorrência de uma infracção, para efeitos 
de determinação da competência? 
São três os critérios adoptados para obter a resposta a esta questão: 
1- O critério da actividade – de acordo com o qual o local da 
ocorrência do delito é o espaço geográfico em que se 
processou a actividade típica, independentemente do local de 
produção do evento; 
2- O critério do resultado – nos termos do qual o “locus deliciti” é 
o da ocorrência do evento, ou seja, do resultado típico, sendo 
competente o tribunal com jurisdição nessa área; 
 O critério da antecipação da consumação – o qual leva à definiçãodo “locus deliciti” como o espaço em que tenha começado a 
produção do evento, mesmo que a produção do resultado típico só 
finde noutra área. 
O artigo 45º do C. P. Penal, reportando-se aos crimes materiais, 
consagra o critério do resultado. 
Mas, como nem todos os crimes atingem o estádio da consumação, é 
evidente que o princípio geral da 
 ISCED CURSO: Direito; Disciplina: Direito Processual Penal 
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 58 
 
determinação da competência territorial – baseando no critério do 
resultado não se aplica sem excepções. 
Assim, o § 1º do artigo 45º do C. P. Penal estabelece que “se a 
infracção não chegou a consumar-se é competente o tribunal em cuja 
área se praticou o último acto de execução ou facto punível”. Este 
preceito aplica-se às hipóteses de tentativa e frustração, bem como 
aos actos preparatórios cuja punição esteja prevista como crime 
autónomo, e, por identidade de razão, aos crimes formais. 
Nos termos do § 2º do mesmo preceito, sendo a consumação 
efectuada através de factos sucessivos ou reiterados, como acontece 
nos crimes habituais (exemplo: lenocínio – artigo 227º do C. Penal), ou 
de um acto ou omissão susceptível de se prolongar no tempo e no 
espaço, como sucede com os crimes permanentes (exemplo: cárcere 
privado – artigo 200º do C. Penal), o locus deliciti é o da cessação da 
consumação (que se verifica com o termo do evento nos crimes 
materiais) ou da prática do último facto (que se verifica com o termo 
da execução nos crimes formais). 
Relativamente a crimes só parcialmente cometidos em território 
moçambicano, o critério do “locus deliciti” sofre uma restrição 
resultante da regra da absorção, que então se aplica, e que leva à 
atribuição da competência aos tribunais moçambicanos, mesmo que o 
iter criminis (ou seja, o processo executivo do delito) só findar no 
estrangeiro. Competente será neste caso, o tribunal moçambicano em 
cuja área se praticou o último facto de consumação, execução ou 
comparticipação que seja punível pela lei moçambicana, conforme 
estabelece o artigo 46º do C. P. Penal (com as especificidades referidas 
nos seus §§ 1º e 2º). 
Outras restrições ao princípio geral, do “locus deliciti” verificam-se 
relativamente: 
- Aos crimes cometidos no estrangeiro, a que seja aplicável a lei 
moçambicana – v. os arts. 49º e 50º; 
- Aos crimes cometidos nos limites territoriais de diversos tribunais da 
mesma espécie (por exemplo, nos limites de dois ou mais tribunais 
judiciais de distrito), quando houver dúvidas acerca do lugar em que o 
foi – v. § 3º do art. 45º do C. P. Penal (principio de prevenção da 
jurisdição); 
- Aos crimes praticados em local desconhecido – art. 47º do C. P. Penal 
(principio do forum deprehensionis); 
- Aos crimes cometidos a bordo de navio ou aeronave – art. 48º do C. 
P. Penal. 
 ISCED CURSO: Direito; Disciplina: Direito Processual Penal 
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 59 
 
Problemas comuns à determinação da competência 
material e territorial – a competência por conexão 
Além das restrições que acabamos de ver, as regras de atribuição da 
competência material e territorial, sofrem outras alterações for força 
da existência de conexões (ou ligações) especiais entre diversas 
infracções criminais. Dá-se então a chamada competência por 
conexão. 
A conexão pode ser subjectiva (ou pessoal) quando se verifica a 
identidade do agente e uma pluralidade de crimes; e objectiva (ou 
material), quando se observa uma pluralidade de agentes e de crimes, 
estando estes particularmente interrelacionados. 
À conexão subjectiva refere-se o art. 55º do C. P. Penal. Como se pode 
ver por este dispositivo legal, a conexão ocorre quando as infracções 
são praticadas pelo mesmo agente, ou seja, no caso de concurso real 
de infracções (em que as penas não se acumulam materialmente, mas 
juridicamente - art. 102º, nºs 1 e 2 e § 1º do C. P. Penal). 
A regra é, pois, no sentido do julgamento conjunto das infracções, 
sendo excepcional o conhecimento separado (§§ 2º e 3º do art. 55º). 
Tem-se aqui em vista permitir a apreciação unitária da personalidade 
do réu, garantir a economia processual, evitar decisões contraditórias 
e possibilitar o cúmulo jurídico das penas. 
Na mesma linhagem escreve FIGUEIREDO DIAS26 que a razão 
justificativa desta competência por conexão será, antes de tudo, de 
economia processual. Mas não só, pois a ela acrescem – quando não 
mesmo se sobrepõe – razões de boa administração da justiça penal 
(juntando processos conexos será provavelmente mais esgotante a 
produção probatória e respectiva cognição) e mesmo de prestígio das 
decisões judiciais (pois desaparecerá o perigo de uma pluralidade de 
decisões sobre infracções conexas se contradizerem materialmente)27. 
O que tudo se alcança, anote-se ainda, sem prejuízo do conteúdo 
ínsito na garantia do “juiz natural”, por isso que os critérios de 
conexão estão contidos em lei anterior e elegem, de forma geral e 
abstracta, o tribunal em definitivo competente. 
No caso de se ter de efectuar o julgamento separado, resta saber qual 
o tribunal competente para proceder ao cúmulo jurídico das penas – 
será, naturalmente, o que proferir a última sentença condenatória 
(parte final do § 2º do art. 55º). 
 
26 Op. cit. pp. 347 
27 Mesmo que formalmente não devam ser consideradas como contraditórias, v. g. 
para efeitos dos arts. 668º, 669º, 673º nº 1, 698º, etc. 
 ISCED CURSO: Direito; Disciplina: Direito Processual Penal 
 60 
 60 
 
A conexão objectiva verifica – se quando uma determinada infracção 
foi levada a cabo por diversos agentes (dá-se uma comparticipação 
criminosa a que se refere o art.56º), ou quando diversas infracções 
foram levadas a cabo na mesma ocasião reciprocamente ou por varias 
pessoas reunidas (V. art.57º), ou ainda quando tratando-se de diversas 
infracções cometidas em ocasiões diferentes, umas forem causa ou 
efeito das outras (V. art.58º). Nos dois primeiros casos (dos arts.56º e 
57º), a conexão é obrigatória, pois funciona ope legis, e, no terceiro 
caso (do art.58º), é facultativa, sendo declarada ope judicis. 
Além dos exemplos acabados de referir de conexão entre várias 
infracções ou agentes da mesma infracção, a regra geral de 
determinação da competência territorial pode sofrer ainda um outro 
desvio. Trata-se dos casos de remoção de competência, também 
chamada de desaforamento: por motivos muito especiais, que têm de 
estar previstos na lei, a infracção criminal é julgada por um tribunal 
diferente do normalmente competente. 
A essas situações de desaforamento e ao seu carácter excepcional se 
referem os arts. 671º, 683º e 698º do C. P. Penal. 
Competência funcional 
Já acima se disse que a questão essencial da determinação da 
competência funcional é a de saber qual o tribunal competente para a 
prossecução de certas fases processuais – estando o processo a 
decorrer em primeira instância – ou para o seu conhecimento na fase 
de recurso. 
Esta espécie de competência pode, pois, sintetizar-se em duas 
categorias distintas (há quem se refira a uma terceira categoria, mas 
veremos em seguida que não tem aplicação no nosso caso): 
a) Competência funcional por graus – deriva da circunstância de 
as decisões penais não adquirirem carácter definitivo logo que 
são proferidas, mas permitir a lei o seu reexame sucessivo por 
parte de outros órgãos judiciais. 
De acordo com a nossa organização judiciária, e no que diz 
respeito à jurisdição comum, temos a considerar, como 
tribunais de primeira instância, os tribunais judiciais de distrito 
e de província (e, só excepcionalmente,o Tribunal Supremo). 
Como tribunal de segunda instância, temos o Tribunal Supremo 
(Secções), relativamente aos recursos interpostos das decisões 
dos tribunais judiciais de distrito. A última instância pertence 
ao plenário do Tribunal Supremo, que julga, unicamente sobre 
matéria de direito, os recursos interpostos das decisões 
proferidas nas diversas jurisdições previstas na lei (incluindo, 
portanto, a jurisdição penal). 
É a mais importante, ao ponto de ser considerada por muitos a única 
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espécie de competência funcional28: ela deriva da circunstância de as 
decisões penais não adquirirem carácter definitivo logo que são 
proferidas, mas permitirem em regra o seu exame sucessivo por parte 
de outros órgãos jurisdicionais. 
b) Competência funcional por fases – tendo em conta a 
complexidade do recurso do processo penal, necessária para 
que este atinja plenamente o seu fim, ele desenvolve-se numa 
pluralidade de fases; três dessas fases são determinantes para 
a fixação da competência funcional: a fase da instrução – em 
que intervêm os juízes da instrução criminal, instituídos pela 
Lei nº 2/93, de 24 de Junho; a fase de julgamento – em que as 
decisões pertencem exclusivamente aos tribunais (de jurisdição 
comum ou especializada); e a fase de execução – que, no nosso 
país, já pertenceu ao chamado Tribunal de Execução das Penas, 
entretanto extinto pela Lei nº 5/81, de 8 d Dezembro, e hoje 
decorre nos tribunais criminais. 
c) Competência funcional por órgãos, é a terceira categoria, 
admitida por alguns autores, pela qual se faz a distinção entre 
o juiz monocrático ou singular e o juiz colegial. Ora, como 
sabemos, segundo a Lei Orgânica dos Tribunais Judiciais (já 
assim era na vigência da Lei nº 12/78, de 2 de Dezembro e na 
10/92, de 09 de Maio), todos os tribunais moçambicanos têm 
uma composição colegial, não existindo a figura do juiz 
singular, pelo menos para efeitos de julgamento e decisão. 
Também do ponto de vista da sua constituição orgânica se dá 
uma certa complexidade nos órgãos decisórios do processo 
penal, que permite falar ainda aqui de uma repartição de 
competência funcional. 
A declaração de incompetência – dedução e conhecimento 
A incompetência do tribunal é uma das excepções referidas no art. 
138º do C. P. Penal. As outras são a litispendência, o caso julgado e a 
prescrição. 
Como regra, as excepções devem ser conhecidas e declaradas 
oficiosamente pelo juiz, ou deduzidas pelo Ministério Público, e 
podem ser também deduzidas pela parte acusadora ou pelo arguido, 
depois de admitidos a intervir no processo (v. art. 139º). 
Também como regra, as excepções, incluindo a incompetência do 
tribunal, podem ser deduzidas ou conhecidas em qualquer altura do 
processo até decisão final (ou seja, até ao trânsito em julgado da 
sentença em primeira instância, ou do acórdão que julgar o recurso, se 
este tiver sido interposto). Ressalva-se o caso referido no § 1º do art. 
140º (respeitante à excepção fundada na incompetência territorial). 
 
28 A uma “competência funcional em sentido próprio” se refere neste contexto 
Cavaleiro de FERREIRA, I, 232. 
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A declaração de incompetência, consequente ao julgamento como 
procedente da excepção, determinará a remessa do processo para o 
tribunal competente, que anulará apenas os actos que se não deviam 
ter praticado ou os que tiverem de ser repetidos, podendo mandar 
repetir quaisquer actos praticados pelo juiz incompetente que possam 
influir na decisão (v. art. 145º e § 1º). 
Impedimentos e suspeições 
A independência dos tribunais constitui uma garantia, não só para os 
juízes como para os próprios cidadãos, da actuação livre daqueles, 
perante pressões ou influências que lhes possam ser dirigidas, tanto 
de dentro como de fora do sistema judiciário. 
Mas isso não basta para que fique preservada e defendida a 
objectividade da actuação dos tribunais: é necessário, para além dessa 
garantia geral, que não seja posta em causa ou em dúvida a 
imparcialidade dos juízes, já não em face de pressões externas, mas 
em virtude de especiais relações que os liguem com o caso concreto 
que devam julgar. 
Podem, com efeito, e por razões diversas, levantar-se dúvidas sobre a 
capacidade de um juiz se revelar isento e imparcial no julgamento. 
Todavia, os fundamentos em que essas dúvidas se baseiam não 
produzem sempre o mesmo efeito jurídico: umas vezes conduzem à 
impossibilidade de o juiz intervir no processo, a qual deve ser 
declarada independentemente de qualquer objecção suscitada pelos 
participantes processuais – estaremos, então, perante um dos 
impedimentos enumerados no artigo 104º C. P. Penal; outras vezes 
limitam-se a dar aos sujeitos processuais a possibilidade de recusarem 
a intervenção do juiz no processo – temos, neste caso, uma suspeição, 
que deve ser levantada com base num dos fundamentos do art. 112º 
do mesmo Código. 
Os impedimentos devem ser declarados oficiosamente pelo juiz (é a 
regra do iudex inhabilis) em qualquer altura do processo; quando o 
não sejam deve o Ministério Público e podes o assistente e o arguido 
requerer a sua declaração, de acordo com os prazos e mediante o 
formalismo que se acham prescritos no artigo 110º do C. P. Penal. 
Nos termos do artigo 111º, a arguição dos impedimentos por qualquer 
dos sujeitos processuais (que não o juiz, pois este não argui, declara) 
suspende o andamento do processo, que pode, porém, seguir os seus 
termos conjuntamente com os do incidente, se o juiz entender tratar-
se de simples expediente dilatório. 
A suspeição não pode ser voluntariamente declarada pelo juiz, mas 
pode ser levantada pelo Ministério Público, pela parte acusadora ou 
pelo arguido (é a regra iudux sespectus), no prazo de cinco dias a 
contar daquele em que o recusante interveio no processo, depois de 
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conhecido o fundamento da suspeição (art. 114º do C. P. Penal, que 
também se refere ao processo a seguir na dedução e decisão desta). 
A dedução da suspeição suspende o andamento do processo até ela 
ser julgada, podendo, no entanto, o juiz que conhecer do incidente 
praticar quaisquer actos urgentes do processo principal (art. 115º do 
diploma em referência). 
 
O MINISTÉRIO PÚBLICO: Posição jurídica do Ministério Público no 
processo penal 
O Ministério Público como órgão autónomo de 
administração da justiça 
A figura do Ministério Público, como titular das funções de 
investigação da suspeita de um crime e de dedução da respectiva 
acusação, surge a partir da consagração do “processo penal 
reformado, misto ou napoleónico” que, segundo as ideias iluministas e 
revolucionárias do séc. XVIII em França, devia substituir o anterior 
processo de estrutura inquisitória. 
É através desta magistratura que se logra obter: 
- A separação entre a entidade que preside à instrução preparatória e 
se encarrega da acusação e a que julga e profere a decisão; 
- A vinculação temática do tribunal ao objecto do processo, pela 
exacta delimitação dos seus poderes cognitivos, o que constitui uma 
importante garantia de defesa do arguido e dos seus direitos 
fundamentais. 
A separação institucional e funcional entre o Ministério Público e o juiz 
não impede, todavia, uma estreita correlação dos dois sujeitos dentro 
do processo penal. Trata-se de duas entidades públicas, órgãos do 
mesmo Estado,às quais a lei confere a categoria de “magistraturas 
paralelas”, como veremos adiante. As actividades por ambas 
desenvolvidas convergem na prossecução de um mesmo fim: a 
administração da justiça penal. 
É este relacionamento estreito entre Ministério Público e o juiz que 
torna difícil e muito discutida a definição da posição jurídica do 
primeiro dentro do processo penal. 
A questão, mas do que respeitar propriamente ao Direito Processual 
Penal, prende-se com o Direito Constitucional e com a Organização 
Judiciária. As principais posições que se têm manifestado na doutrina 
sobre o assunto podem resumir-se em três grupos: 
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a) As que consideram o Ministério Público como pura entidade 
administrativa, verdadeiro órgão da Administração comum 
(numa palavra, como parte do poder Executivo), considerando 
os princípios da amovibilidade, responsabilidade e 
dependência hierárquica, que presidem à sua orgânica 
estrutura. 
As críticas dirigidas a esta posição alicerçam-se no facto de a 
actividade administrativa se orientar predominantemente por critérios 
de oportunidade e discricionariedade – embora sempre na base dos 
limites impostos pelo Direito – e não pelo estrito principio da 
legalidade, a que está vinculada toda a actuação do Ministério Público. 
Atém disso, a actividade do Ministério Público desenvolve-se desde o 
início da instrução preparatória até ao fim do julgamento, em estreita 
colaboração com o juiz (o mesmo é dizer, com a função judicial), tendo 
em vista a descoberta da verdade e a realização da justiça penal. 
b) As que defendem a ideia de que o Ministério Público participa 
na função e no poder judicial e que, por conseguinte, lhe 
atribuem a qualidade de órgão integrante do Poder Judicial. 
Esta tese é rejeitada por muito rejeitada por muitos autores, com a 
argumentação de que a função judicial se concretiza, materialmente, 
pela declaração do direito do caso (ou seja, pela aplicação das normas 
jurídicas a um caso penal concreto), através de uma decisão 
susceptível de transitar em julgado. E esta possibilidade está vedada 
ao ministério Público: ele participa dessa função, é verdade, como dela 
participam os outros sujeitos processuais, mas não lhe pertence 
declarar o direito do caso, nem as suas decisões assumem a 
característica ou virtualidade do caso julgado. 
c) Finalmente, a tese hoje dominante na doutrina alemã (que 
exerce enorme influência nos países de sistema romano-
germânico), e perfilhada, entre outros, por FIGUEIREDO DIAS, 
que qualifica o Ministério Público como órgão autónomo de 
administração da justiça. 
Segundo esta corrente doutrinária, há que distinguir a função de 
administração da justiça da função judicial em sentido estrito, por um 
lado, e da função administrativa comum, por outro lado. A primeira 
funciona como uma ponte entre o Poder Judicial e o Poder Executivo. 
A função de administração da justiça ou administração judiciária, 
abrange toda a actividade, estadual ou não, caracterizada pela sua 
estreita relacionação com o Direito (no sentido e com o fim da sua 
realização no caso concreto) e subordinada aos valores da verdade e 
da justiça. Desta função participam órgãos e entidades como os 
tribunais, os notários, os defensores em processo penal, etc. Só uma 
parte do exercício desta actividade se pode considerar jurisprudência 
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(e, portanto, função “judicial”), enquanto a outra parte constitui 
simplesmente administração da justiça. 
O Ministério Público é, portanto, um órgão autónomo desta 
administração – autónomo, no sentido de independente dos tribunais 
e dotado de estrutura e organização próprias. 
Princípios fundamentais da sua actividade e estrutura 
O principal conteúdo do sentido que se retira da caracterização do 
Ministério Público como órgão de administração da justiça é assim a 
sua incondicional submissão aos valores da descoberta da verdade e 
da realização da justiça, daqui decorrendo a exigência de que, em 
todas as suas intervenções no processo penal, obedeça a critérios de 
estrita objectividade jurídica. 
Como órgão de administração da justiça, o Ministério Público está 
incondicionalmente vinculado aos valores da descoberta da verdade e 
da realização da justiça no caso concreto. 
Daqui decorre a exigência de que, em todas as suas intervenções no 
processo penal, obedeça a critérios de estrita objectividade jurídica. 
Com efeito, ao Ministério Público compete trazer ao processo e ajudar 
a esclarecer, não só os factos que possam demonstrar a culpa do 
arguido, mas também todos os indícios da sua inocência ou da sua 
menor culpa. 
Para que o Ministério Público possa cumprir o seu dever de 
objectividade, é necessário que esteja assegurada a sua 
imparcialidade. Dai que os arts. 105º e 113º do C. P. Penal tenham 
tornado extensivo aos agentes do MP o sistema de impedimentos e 
suspeições que anteriormente vimos ser aplicável aos juízes. 
Outra característica da actividade do Ministério Público, para além da 
objectividade e da imparcialidade, é a da sua submissão à lei. Este 
dever de obediência à lei, de conteúdo análogo ao que também 
verificámos impor-se ao juiz, revela-se através do princípio da 
legalidade da promoção do processo penal. 
Todas estas características se encontram proclamadas no art. 234º, nº 
2, da Constituição29, que estabelece: 
 “No exercício das suas funções, os magistrados e agentes do 
Ministério Público estão sujeitos aos critérios de legalidade, 
objectividade, isenção e exclusiva sujeição às directivas e ordens 
previstas na lei”. 
 
29 E aparecem reafirmadas na Lei Orgânica do Ministério Público – Lei nº 22/2007, de 
1 de Agosto-, nomeadamente no seu art. 2º nº1. 
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Quanto à estrutura do Ministério Público, e como reflexo dos critérios 
de actuação acabados de referir, há que assinalar a sua autonomia em 
relação aos demais órgãos do Estado – consagrada no art. 3º da Lei 
Orgânica do Ministério Público – Lei nº 22/20007, de 1 de Agosto, 
incluindo os tribunais. 
Alias, relativamente a estes, o nº 1 do art. 50º da mesma lei dispõe 
que “A magistratura do Ministério Público é independente da 
magistratura judicial”. 
Por tudo isto, pela sua autonomia e organização hierárquica, pela 
objectividade, isenção e obediência à lei – é que os magistrados do 
Ministério Público estão apenas sujeitos às diretivas e ordens 
emanadas do respectivo superior hierárquico, terminando no 
Procurador-Geral da República. 
De acordo ainda com a Lei Orgânica do Ministério Público, esta 
magistratura tem a seguinte representação: 
- O Procurador-Geral representa o Ministério Público junto do 
plenário do Tribunal Supremo; 
- O Vice-Procurador Geral substitui o Procurador-Geral nas suas 
faltas e impedimentos; 
- Os Procuradores-Gerais Adjuntos representam o MP junto 
das Secções do Tribunal Supremo; 
- Sub-Procuradores-Gerais Adjuntos que representa o MP junto 
dos Tribunais Superiores de Recurso. 
- Os Procuradores Provinciais representam o MP junto dos 
Tribunais Judiciais de Província; 
- Os Procuradores Distritais representam o MP junto dos 
tribunais judiciais de distrito. 
Exactamente por se tratar de uma magistratura hierarquicamente 
organizada, os magistrados do Ministério Público são responsáveis no 
exercício das suas funções, responsabilidadeque se traduz no dever 
de acatamento das directivas e instruções emanadas dos seus 
superiores hierárquicos (desde que não sejam contrários à lei e ao 
Direito). 
Para FIGUEIREDO DIAS pode-se pois concluir que o exercício do poder 
de direcção concreto, desde que respeite os princípios da legalidade e 
da objectividade, é um princípio valido e de obediência devida; 
quando, porém, o cumprimento da ordem vá contra a convicção 
jurídica do agente, objectivamente fundada e será este o caso sempre 
que a decisão corresponda, em seu parecer, a uma exacta aplicação do 
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direito, deve a obediência cessar. 
Dai não resultará qualquer consequência danosa para a realização das 
finalidades que legitimamente o superior hierárquico se proponha; 
ponto é apenas que, informado o superior da convicção do seu 
agente, aquele assuma, como pode, a representação do MP no 
processo respectivo. Assim se obtém um sistema que possui as 
vantagens de defender a objectividade dos agentes do MP e a sua 
liberdade de convicção, sem todavia fazer perigar a realização dos fins 
que os superiores hierárquicos legitimamente se proponham. 
Relações entre o Ministério Público e os tribunais penais 
O princípio geral nesta matéria é posto clara e correctamente em 
evidência pelo já citado nº 1 do art. 50º da mesma lei dispõe que “A 
magistratura do Ministério Público é independente da magistratura 
judicial”. 
As relações entre as duas magistraturas caracterizam-se, assim, por 
uma igualdade e independência, das quais cabe extrair três 
consequências: 
1- Os tribunais (os juízes) não podem dar quaisquer ordens ao 
Ministério Público. A situação prevista nos arts. 44º (segunda 
parte) do Decreto-Lei nº 35007 e 346º do C. P. Penal – segundo 
os quais, se o MP tiver promovido que o processo se arquive 
ou aguarde a produção de melhor prova finda a instrução 
contraditória e o juiz entender que há elementos para se 
prosseguir no processo, assim o declarará em despacho 
fundamentado, ordenado que volte com vista ao MP, para 
deduzir a acusação têm de considerar-se absolutamente 
excepcionais e só justificáveis pela posição de predomínio 
processual que a natureza das coisas obriga a atribuir ao juiz 
em qualquer fase judicial do processo penal; 
2- O Ministério Público não pode dar quaisquer ordens ou 
instruções aos tribunais; 
3- Ninguém pode, simultaneamente, actuar como MP e como juiz 
no mesmo processo penal (já vimos isso a propósito dos 
impedimentos – art. 104º, nº 3, do C. P. Penal). 
Ainda no contexto das relações entre o Ministério Público e os 
tribunais, cabe dizer que os agentes do MP não estão vinculados à 
jurisprudência dos tribunais (jurisprudência, no sentido de decisões 
judiciais, de precedentes formados através da aplicação do direito 
substantivo aos casos concretos), mas, em nome da unidade da 
aplicação do direito, devem respeita-la como orientação a seguir. 
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Funções do Ministério Público no processo penal 
A direcção da instrução preparatória 
Como órgão encarregado de promover a perseguição dos crimes e 
outras infracções à lei penal, compete ao Ministério Público, em 
primeiro lugar, proceder a sua completa investigação e ao seu possível 
esclarecimento. 
Para lhe permitir a plena realização desta finalidade, a lei atribui-lhe a 
direcção da instrução preparatória _ art. 14º do Decreto-Lei nº 35007. 
Esta regra geral sofre, no entanto, algumas restrições, constantes dos 
artigos seguintes (15º, 16º, 17º e 18º) do mesmo diploma legal. 
As autoridades que, além do Ministério Público, podem exercer a 
acção penal são as enumeradas no art. 2º do mesmo Decreto-Lei: 1- as 
autoridades judiciais, nos tribunais onde não haja representante 
titular do MP30; 2 – as autoridades administrativas, quanto às 
transgressões de posturas, regulamentos e editais; 3 – as autoridades 
policiais, quanto às infracções que devam ser julgadas em processo 
sumário e a todas as contravenções; 4 – os organismos do Estado com 
competência para a fiscalização de certas actividades ou da execução 
de regulamentos especiais, quanto às contravenções verificadas no 
exercício dessas actividades ou contra esses regulamentos. 
Órgãos privativos de polícia judiciária – expressão utilizada no art. 18º 
do DL 35OO7 – são os vários policiais em que se organiza e estrutura a 
PRM (Polícia da República de Moçambique) com efeito, os diversos 
ramos policiais são órgãos da administração (do Poder Executivo – dai 
a sua subordinação ao Ministério do Interior) que têm por fim último 
zelar pela ordem e tranquilidade públicas. A sua actividade inscreve-se 
na prevenção e luta contra a criminalidade nas áreas específicas para 
que estão vocacionados – protecção geral, criminalidade nos 
transportes e, criminalidade no trânsito automóvel, etc. ora, no 
exercício de tal actividade, por razoes práticas e de eficiência, esses 
órgãos podem receber competência para a prática de actos 
(designadamente actos instrutórios) que se repercutem no processo 
penal. Por isso eles agem como auxiliares da administração da justiça e 
os actos que praticam podem considerar-se como actos de polícia 
judiciária. 
Quanto à PIC (Polícia de Investigação Criminal), constitui sem dúvida o 
órgão de polícia judiciária por excelência. A sua existência é uma 
necessidade da vida moderna, pois nenhum país pode hoje dispensar 
uma polícia altamente especializada e dotada de poderes, meios e 
instrumentos para exercer uma completa investigação criminal. A PIC 
 
30 Uma interpretação actualizada deste preceito leva necessariamente a concluir que o 
Ministério Público está hoje representado em todos os tribunais. 
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funciona como o mais precioso auxiliar do Ministério Público no 
exercício da sua função de perseguição do crime. 
Um aspecto que não pode deixar de ser realçado é o de que as 
restrições apontadas à realização da instrução preparatória pelo 
Ministério Público não põem minimamente em causa a função de 
direcção que lhe está cometida. 
Efectivamente, nos arts. 15º e 16º do Decreto-Lei nº 35007, acima 
mencionados, o legislador apenas se referiu à possibilidade de a 
instrução preparatória ser delegada noutras autoridades, sem prejuízo 
da sua direcção pelo Ministério Público. Nos artigos 17º e 18º atribuiu 
às autoridades que exercem a acção penal e aos órgãos privativos de 
polícia judiciária competência para efectuar a instrução preparatória, 
sem que haja retirado ao Ministério Público os poderes de direcção e 
de controlo que este possui das actividades instrutórias e processuais 
por aquelas entidades levadas a cabo, poderes que alias, aparecem 
reforçados na Lei nº 22/20007, de 1 de Agosto. 
Dedução da acusação e sua representação em julgamento 
Nos termos do art. 349º do C. P. Penal, “Se da acusação resultarem 
indícios suficientes da existência do facto punível, de que foram os seus 
agentes e da sua responsabilidade, o Ministério Público, se para isso 
tiver responsabilidade, deduzirá acusação (….)”. 
A legitimidade do Ministério Público terá de advir da natureza pública 
do crime, ou da participação do ofendido se se tratar de crime 
semipúblico, ou da participação e acusação particular se se tratar de 
crime particular. 
Através da dedução da acusação, o Ministério Público chama a 
responder perante um tribunal, em nome da sociedade, uma pessoadeterminada sobre a qual recai a fundada suspeita de ter cometido 
um crime. Com isto, o Ministério Público exprime a necessidade, 
sentida pela comunidade jurídica, de punir, com a sanção prevista na 
lei, o responsável por um dano àquela acusado. 
O Ministério Público não detém, todavia, o exclusivo da dedução da 
acusação. Desde logo, nos crimes particulares a acusação principal e 
pode ser a única – está a cargo dos próprios particulares (v. art. 3º § 
único, do Decreto-Lei nº 35007). Mas também, como vimos, outras 
entidades públicas gozam nos termos do art. 2º do mesmo diploma de 
competência para, relativamente a certas infracções, exercer a acção 
penal31. 
 
31 O que significa que essas autoridades realizam no acto processual correspondente 
à acusação – v. art. 543º e segts. para a forma de processo de transgressões, e art. 
556º e segts. Para a forma de processo sumário. 
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A função do Ministério Público no que toca à acusação não se esgota, 
porém, na sua dedução, mas abrange a sua representação em 
julgamento. 
A representação da acusação em julgamento – convém voltar a 
sublinhar – não significa que o Ministério Público deva actuar 
cegamente, na tentativa de obter a todo o custo a condena ao do 
arguido e ver, assim, procedente a acusação deduzida. Pelo contrário, 
o Ministério Público deve pautar a sua acção tendo em vista a 
descoberta da verdade e a realização da justiça, baseando-se sempre 
nos critérios de objectividade e de legalidade a que já nos referimos. 
Esta forma de agir assume particular relevo e importância na fase das 
alegacões orais (arts. 467º, 533º, 539, in fine, do C. P. Penal), durante a 
qual deverá tomar posição, quer sobre a questão-de-facto, quer sobre 
a questão-de-direito. 
A função do Ministério Público no que toca à acusação não se esgota 
porém na sua dedução, mas abrange também, naturalmente, a sua 
representação durante toda a fase de julgamento. O que não significa 
todavia – já o sabemos – que a actuação do Ministério Público seja 
orientada pela tentativa de obter procedência para a acusação 
deduzida, mas unicamente pelos fins da descoberta da verdade e da 
realização da justiça e, portanto, pela observância estrita de um dever 
de objectividade. 
Abstenção da acusação 
De acordo com o art. 25º do Decreto-Lei nº 35007, “Se se verificar não 
ter havido crime, ou estar extinta a acção penal, ou se houver 
elementos de facto que comprovem a irresponsabilidade do arguido, o 
Ministério Público abster-se-á de acusar, declarando nos autos as 
razoes de facto ou de direito justificativas”. 
 O art. 26º do mesmo diploma legal estabelece: “Se não houver prova 
bastante dos elementos da infracção, ou de quem foram os seus 
agentes, o Ministério Público acusará provisoriamente e requererá a 
instrução contraditória, se for de presumir que possa completar-se a 
prova indiciária, ou abster-se-á de acusar, comunicando o facto ao 
Procurador-Geral da República nos termos do art. 23º”. 
Estão aqui previstas as duas hipóteses de abstenção da acusação, a 
qual se refere também o art. 343º do C. P. Penal. 
Dado que a acção penal é pública (art. 1º do Decreto-Lei nº 35007), e 
que o Ministério Público constitui uma magistratura paralela à judicial 
e dela independente, o controle da decisão de abstenção do 
Ministério Público só pode fazer-se, segundo a legislação em vigor, por 
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via hierárquica. 
E esta fiscalização hierárquica da abstenção de acusação pode ser 
desencadeada por um dos seguintes meios: 
1- Por iniciativa do denunciante, que deverá ser notificado do 
despacho de abstenção da acusação e que, “se for pessoa com 
a faculdade de se constituir assistente…”, poderá reclamar para 
o Procurador-Geral da República da falta de acusação – art. 27º 
do Decreto-Lei nº 35007; se o denunciante já se tiver 
constituído assistente, não lhe será permitida a reclamação 
hierárquica, mas poderá deduzir a acusação - § único do 
mesmo art. 27º; 
2- Por intermédio do juiz, a quem, na falta de reclamação, ou não 
havendo denunciantes ou assistentes, os autos serão 
conclusos, e que “se entender que estão verificadas as 
condições suficientes para a acusação, fará constar de 
despacho as suas razoes, subindo os autos oficiosamente ao 
Procurador-Geral da República…” – art. 28º do Decreto-Lei nº 
35007; 
3- Por via directa do próprio Procurador-Geral da República, a 
quem o Ministério Público enviará “trimestralmente… relação 
dos autos de instrução preparatória referentes a crimes 
públicos a que corresponderem penas indicadas nos artigos 
63º e 64º do Código de Processo Penal (pena maior ou pena de 
prisão superior a um ano) que não conduziram a acusação…” – 
art. 23º do mesmo Decreto-Lei. Neste caso, os autos serão 
arquivados se, decorridos trinta dias sobre a comunicação ao 
Procurador-Geral da República, a acusação não for deduzida (v. 
§ único do art. 29º). 
Vê-se, assim, que, em qualquer dos casos – seja qual for o meio 
utilizado é ao Procurador-Geral da República que compete decidir em 
último termo se deve ou não ser proferida a acusação. 
Naturalmente que as disposições do Decreto-Lei nº 35007 devem ser 
interpretadas de modo adequado, tendo em conta a estrutura do 
Ministério Público consagrada na Lei actualmente em vigor. Assim, e 
atento o disposto na Lei nº 22/2007, de 1 de Agosto, é de admitir que, 
do despacho de abstenção da acusação proferido por um Procurador 
Distrital se deva recorrer para o Procurador Provincial e do despacho 
deste para o Procurador-geral da República. No mesmo sentido de 
progressão hierárquica devem os magistrados do Ministério Público 
aos vários níveis dar cumprimento ao disposto no art. 23º do Decreto-
lei nº 35007. 
Tudo quanto se acaba de dizer refere-se à abstenção da acusação que 
tenha tido lugar após a instrução preparatória. Se a abstenção da 
acusação tiver lugar após a instrução contraditória (o que poderá 
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acontecer no caso previsto na primeira parte do art. 26º do Decreto-
Lei nº 35007), há que ter em atenção o disposto no artigo 346º do C. 
P. Penal, a que já se fez referência. 
Outro aspecto a salientar é que a abstenção da acusação do Ministério 
Público pode dar ao processo dois destinos diferentes: 
- Ou o seu arquivamento, de harmonia com o disposto 
no art. 346º do C. P. Penal; 
- Ou o de ficar a aguardar a produção de melhor prova, 
segundo o preceituado no art. 345º do mesmo Código. 
Sobre o valor ou eficácia jurídico-criminal destas decisões 
(arquivamento ou situação de aguardar a produção de melhor prova), 
sobretudo relativamente à primeira, levantam-se alguns problemas 
que não encontram solução uniforme na doutrina e na jurisprudência. 
Quando o processo fica a aguardar a produção de melhor prova, é 
entendimento mais ou menos generalizado de que a decisão assim 
proferida adquire força análoga à do caso julgado, mantendo-se sob 
reserva da cláusula conhecida pela expressão latina rebus sic stantibus 
– quer dizer, a força do caso julgado fica condicionada à 
superveniência de factos ou elementos de prova que devam 
considerar-se “novos” em relação aos já apreciados. 
Relativamente ao arquivamento do processo nos termos do art. 343º 
do C. P. Penal é que se levantam divergências no entendimento dos 
efeitos a atribuir à respectiva decisão. 
A jurisprudência dos tribunais portugueses ea doutrina representada 
por autores como CAVALEIRO DE FERREIRA32 e FERNANDES AFONSO33 
entendem que os despachos de arquivamento proferidos pelo 
Ministério Público têm natureza administrativa e não judicial – não 
estabelecem caso julgado nem são susceptíveis de recurso, só 
podendo ser alterados por via de reclamação hierárquica. 
Outros autores, como EDUARDO CORREIA e FIGUEIREDO DIAS opinam 
que a transferência de poderes para o Ministério Público, operada [elo 
Decreto-Lei nº 35007, não implicou a impossibilidade de aplicar às 
respectivas decisões o regime dos arts. 343º e seguintes do C. P. Penal, 
ou de adquirirem força de caso julgado, para efeitos dos arts. 148º e 
segts. Assim, a definitividade do arquivamento do processo, a que se 
refere o § único 29º do Decreto-Lei nº 35007 corresponde ao 
reconhecimento, pela lei, dos efeitos de caso julgado à respectiva 
situação. 
 
32 Op. cit., vol. III, pág. 163 
33 “O caso julgado e os despachos de abstenção de acusar proferidos pelo Ministério 
Público”, in Scientia Iuridica, Tomo XIII, pág. 153. 
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O Prof. EDUARDO CORREIA expende ainda que, mesmo que a decisão 
de arquivamento seja considerada acto administrativo, terá de ser 
considerada um acto constitutivo de direitos, dominada pelo principio 
da legalidade e não pelo da oportunidade. E, sendo assim, também 
não poderá tal decisão deixar de esgotar o jus puniendi do Estado 
relativamente aos factos apreciados e de criar, para o arguido, o 
direito de por eles não voltar a ser perseguido. 
Outras funções 
Até aqui indicaram-se as funções mais importantes que o Ministério 
Público desempenha no processo penal: a direcção da instrução 
preparatória, a dedução da acusação e a sua representação em 
julgamento e a abstenção de acusar. 
São estas as actividades que melhor caracterizam a posição jurídica 
que o Ministério Público assume no processo penal. 
Todavia, há que fazer igualmente referência, ainda que meramente 
sumária a outras funções que ao Ministério Público cabe realizar: 
- A intervenção na instrução contraditória: nos termos do art. 
330º do C. P. Penal, a direcção desta face processual incumbe ao juiz. 
O Ministério Público exercerá ai a função geral de fiscalização da 
legalidade e de colaboração na descoberta da verdade material e na 
realização do Direito; 
- A interposição de recursos: o Ministério Público tem 
legitimidade para interpor recursos, tanto no interesse da acusação, 
como no interesse (até exclusivo) da defesa – v. arts. 647º e 675º do C. 
P. Penal; 
- A promoção da execução das penas e medidas de segurança: 
veja-se o disposto no art. 627º do C. P. Penal. 
Orientação e dependência funcional dos órgãos de polícia 
judiciária 
Já atrás dissemos que a Polícia de Investigação Criminal (PIC) constitui 
o mais precioso auxiliar do Ministério Público no exercício da sua 
função de perseguir os crimes e de dirigir a instrução preparatória do 
processo penal. 
Muito embora a PIC se encontre hoje organicamente subordinada ao 
Ministério do Interior, por força do estabelecido na Lei nº 19/92, de 31 
de Dezembro, o certo é que ela depende funcionalmente do 
Ministério Público. Essa dependência funcional tanto se revela na 
prática de actos concretos e isolados de instrução, sob a orientação 
directa dos agentes do Ministério 
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Público – no caso de colocação de funcionários ou agentes da polícia à 
disposição daqueles, como na realização pela PIC da instrução 
preparatória, com vista a permitir o exercício da acção penal pelo 
Ministério Público. 
As formas de Processo Penal 
Formas de processo comum e de processo especial 
Após a entrada em vigor do Decreto-Lei nº 605/75 as infracções que 
eram tramitadas pela forma de processo de polícia correccional 
passaram a sê-lo, por conseguinte, pela forma de processo 
correccional. 
As actuais formas de processo comum são, pois, as seguintes: 
1ª – Processo de querela; 
2ª – Processo de polícia correccional; 
3ª – Processo de transgressões; 
4ª – Processo sumário. 
Mas para além do processo comum o Código de Processo Penal (art. 
62º) admite ainda o processo especial. Os processos especiais 
encontram-se regulados no Título VII do Livro II do Código e são os 
seguintes: 
1º - O processo de ausentes (arts. 625º e seguintes); 
2º - O processo por difamação, calúnia e injúria (arts. 587º e 
seguintes); 
3º - O processo por infracções cometidas pelos juízes de direito de 1ª 
instância e magistrados do Ministério Público, junto deles, no exercício 
das suas funções ou por causa delas (arts. 595º e seguintes). 
4º - O Processo por infracções cometidas pelos juízes de 1ª instância e 
magistrados do Ministério Público, junto deles, estranhas ao exercício 
das mesmas funções (arts. 609º e seguintes); 
5º - O processo por infracções cometidas pelos juízes das Relações ou 
do Supremo Tribunal de Justiça, pelos magistrados do Ministério 
Público, junto deles ou outros de igual categoria (arts. 613º e 
seguintes); 
6º - O processo de reforma de autos perdidos, extraviados ou 
destruídos (arts. 627º e seguintes). 
Para além destes processos especiais regulados no Códigos de 
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Processo Penal outros existem constantes de leis avulsas. 
Formas de processo comum – Seu campo de aplicação 
Processo de querela 
A primeira das formas de processo referidas no artigo 62º do Código 
de Processo Penal é o processo de querela. Esta forma corresponde 
aos crimes mais graves34, pelo que logicamente, é a forma de processo 
mais solene. 
Nos termos do artigo 63º do Código, “serão julgados em processo de 
querela os crimes a que corresponde pena de prisão por mais de 3 anos 
ou demissão”. 
Antes do Decreto-Lei nº 402/82 o processo de querela era aplicável 
aos crimes a que correspondesse pena maior ou a pena de demissão. 
Processo de polícia correccional 
A forma de processo de polícia correccional está prevista nos termos 
do artigo 65º do Código de Processo Penal e a letra estabelece o 
seguinte: 
“Serão julgados em processo de polícia correcional os crimes a que 
corresponderem separada ou cumulativamente as seguintes penas:” 
1º - Prisão até dois anos (Há que fazer alguma correcção no texto do C. 
P. Penal conjugando com o artigo 62º do Código Penal vigente); 
2º - Desterro até um ano; 
3º - Multa até um ano ou até 120.000.000,00MT; 
4º - Suspensão do emprego até dois anos; 
5º - Suspensão temporária dos direitos políticos até dois anos; 
6º - Repreensão; 
7º - Censura. 
 
Processo de transgressões 
Nos termos do artigo 66º do Código de Processo Penal, “serão 
julgadas em processo de transgressões as contravenções, qualquer que 
 
34 A gravidade dos crimes é indiciada pela respectiva pena. 
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seja a disposição legal em que estejam previstas, e as transgressões de 
regulamentos, editais, posturas ou quaisquer disposições que, 
atendendo à entidade que as formula, devam qualificar-se de 
regulamentares”. 
O artigo 66º do C. P. Penal distingue entre contravenções e 
transgressões, submetendo-as à mesma forma de processo. 
Contravenções seriam asprevistas na lei, transgressões as constantes 
de regulamentos emanados do poder regulamentar da Administração. 
Mas será que as transgressões constituem materialmente algo de 
diferente das contravenções para o legislador ter tido necessidade de 
as prever expressamente? 
Segundo o ensinamento de EDUARDO CORREIA35, as transgressões 
abrangem as ofensas ao interesse propulsor da Administração, aos 
comandos através dos quais a Administração visa promover a 
realização da finalidade satulista de propulsão do bem-estar e 
progresso social. Por sua vez, as contravenções integram a designada 
actividade jurídica da Administração, ou seja a actividade de mera 
prevenção, abrangendo as ofensas ao interesse preventivo da 
Administração que ponham em causa interesses determinados. 
Sendo, pois, distintos os conceitos de contravenção e transgressão 
(embora integradores do mesmo ilícito) continua a impor-se a 
referência expressa do artigo 66º do Código de Processo Penal às 
“transgressões”, por só assim se abrangerem aquelas infracções, que, 
por envolverem ofensa ao fim propulsor da Administração, não são 
subsumíveis ao conceito legal de contravenção. 
Acresce ser inteiramente justificável que a mesma forma de processo 
abranja as contravenções e as transgressões “não só porque estão 
materialmente próximas mais ainda porque tais delitos aparecem 
frequentemente previstos e regulados nos mesmos diplomas36. 
Processo sumário 
Nos termos do artigo 67º do Código de Processo Penal, lê-se que 
“serão julgadas em processo sumário as infracções a que forem 
aplicáveis penas a que corresponda processo de polícia correcional ou 
de transgressões, sempre que o infractor for preso em flagrante delito 
e o julgamento possam realizar-se no prazo prescrito neste código”. 
NB: Deve interpretar-se estes dispositivos legais tendo em conta o 
disposto no Decreto-Lei no 28/75, de 01 de Março, que alarga o 
âmbito desta forma de processo penal. 
 
35 Direito Criminal, I, pág. 27. 
36 EDUARDO CORREIA, (n. 2, pág. 120). 
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Por sua vez, o artigo 556º do Código de Processo Penal determina que 
“os infractores presos em flagrante, por infracção a que corresponda 
processo correccional ou de transgressões, serão julgados 
sumariamente, nos termos dos artigos seguintes”. 
Tanto o artigo 67º como o artigo 556º exigem para que tenha lugar a 
aplicação desta forma de processo um acto de prisão preventiva em 
flagrante delito37. 
Ora, em face da actual redacção dos artigos 286º e 287º do Código de 
Processo Penal, a prisão preventiva em flagrante delito só é possível 
em relação a crimes puníveis com pena de prisão. Daqui resulta uma 
substancial redução do campo de aplicação do processo sumário. Pois, 
das infracções a que corresponde processo correccional e que 
formalmente poderiam determinar a aplicação da forma de processo 
sumário, apenas poderão ser consideradas aquelas que sejam punidas 
com pena de prisão, pois só essas permitem uma prisão preventiva em 
flagrante. Donde, haverá que excluir do âmbito de tal forma de 
processo todas as infracções puníveis exclusivamente com multa. 
A única dúvida que hoje poderá persistir em relação ao âmbito do 
processo sumário é a de saber se o mesmo poderá ser aplicável a 
infracções a que corresponda processo de transgressões. Isto porque 
na actual redacção do artigo 67º foi eliminada a referência às penas a 
que corresponda o processo de transgressões, mantendo-se tal 
referência no artigo 556º “será, pois, possível julgar as contravenções 
e as transgressões em processo sumário”? 
Imposta desde já referir que tão-só poderão estar em causa 
contravenções e transgressões a que corresponda uma pena de prisão, 
pois só setas poderão admitir uma prisão preventiva em flagrante. 
 
37 Nos termos do artigo 288o do Código de Processo Penal “é flagrante delito todo o 
facto punível que se está cometendo ou que se acabou de cometer. Reputa-se 
também flagrante delito o caso em que o infractor é, logo após a infracção, 
perseguido por qualquer pessoa, ou foi encontrado a seguir à prática da infracção 
com objectos ou sinais que mostrem claramente que a cometeu ou nela participou”. 
A lei equipara, pois, ao flagrante delito, o quase flagrante delito e a presunção legal 
de flagrante delito. 
-O flagrante delito em sentido estrito tem lugar quando o agente é surpreendido na 
execução do crime. O seu elemento essencial é a actualidade dos crimes e não a sua 
visibilidade. 
-O quase flagrante delito tem lugar quando o agente é surpreendido no local da 
infracção quando findou a execução do crime, resultando da sua surpresa a 
evidência da infracção e do seu autor. 
A presunção legal de flagrante delito tem lugar quando se verifica o condicionalismo 
do segundo período do artigo 288º. 
-O fundamento da forma de processo sumário reside, precisamente, no facto de o 
réu ter sido preso em flagrante delito, pelo que, estando praticamente feita a 
investigação, pode ser julgado sumariamente e imediatamente a seguir à prisão, por 
só assim se manterem as provas colhidas em flagrante. 
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Entende-se que a pena de prisão é hoje inaplicável às contravenções e 
transgressões, nunca poderão tais infracções determinar a 
aplicabilidade da forma de processo sumário, que pressupõe uma 
prisão em flagrante, só possível em relação a infracções punidas com 
pena de prisão. 
Formas de processo especial. Seu campo de aplicação 
Processo de ausentes 
Um dos direitos processuais do réu é o direito de estar presente em 
todos os actos processuais. Não resultando tal direito directamente da 
lei, ele é irrecusável em face do direito de defesa e dos princípios 
processuais da contrariedade e audiência, oralidade, imediação e 
publicidade. 
A lei impõe mesmo um dever de comparência pessoal do réu no artigo 
418º do Código de Processo Penal38. 
Como ensina CASTANHEIRA NEVES39 “o alto interesse processual da 
presença e participação pessoal do réu – a impor aquele direito a 
justificar este dever – tem o seu fundamento no carácter também 
eminentemente pessoal de uma incriminação e de um processo 
criminal, com as possíveis consequências morais e jurídicas que lhe 
são próprias, a tocar com a honra e a dignidade do réu, e que como 
tais só podem admitir-se se tudo se passar perante ele, se ele for 
pessoalmente convencido da sua responsabilidade e culpabilidade, 
podendo a todo o momento tomar a iniciativa de esclarecimento, de 
contradição, de impugnação, etc., além de que, se a sua presença, se é 
sempre factor indispensável de verdade e de esclarecimento oficioso, 
através dos interrogatórios que neste sentido lhe força o juiz, não é 
menos imprescindível para que o tribunal possa ter directo acesso à 
personalidade do réu, a atender na culpabilidade, na medida da pena, 
na determinação das medidas de segurança, etc”. 
Havendo, pois, um grande interesse na comparência pessoal do réu 
compreende-se que a lei tenha prescrito um processo especial – o 
processo de ausentes – para a anómala situação de ausência do réu. 
Esta forma de processo especial visa, precisamente, suprir, por 
providências várias, os enormes inconvenientes derivados da falta de 
intervenção pessoal do réu. O processo de ausentes “não funciona ‘ad 
odium’ contra o ausente, como castigo pela sua fuga ou revelia. A 
 
38 Excepcionam-se apenas os casos das contravenções e transgressões não puníveis 
com prisão (547º), o que, como já referimos,nos parece suceder hoje com todas 
elas. 
39 Sumários de Processo Criminal, 1968, págs. 168 e segts. 
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revelia do réu, mesmo procurada, não pode acarretar sanções sobre o 
arguido no sentido de presunção de culpabilidade40”. 
Pelo contrário, o processo de ausentes visa minimizar os 
inconvenientes da falta de defesa pessoal do arguido. Note-se que o 
processo de ausentes não determina a absoluta inaplicabilidade das 
formas de processo comum, mas tão-só daquelas fases de tais 
processos a partir das quais é exigida a presença do arguido, ou 
audiência de julgamento, se não houver tal despacho ou se só nessa 
altura o réu se tornar revel. Antes, aplicar-se-á a forma 
correspondente à infracção, suspendendo-se a sua aplicação nos 
momentos referidos para se continuar o processamento segundo os 
trâmites especiais do processo de ausentes, que é, assim, um processo 
complementar. “Não há, portanto, emprego simultâneo de dois 
processos, mas a suspensão dum e a aplicação de um outro41”. 
O processo de ausentes tem lugar, genericamente, quando o réu não 
pode ser notificado do despacho de pronúncia ou equivalente, não 
sendo encontrado e ainda quando, sendo notificado, faltar 
injustificadamente ao julgamento e não for encontrado (arts. 562º, 
563º, 569º, e 570º do C. P. Penal). 
Como especialidades do processo de ausentes devem referir-se: 
a) O julgamento por juiz singular em processo de querela (§ 1º do 
art. 571º); 
b) Redução obrigatória da prova a escrito em processo de querela 
e processo correccional (art. 568º e § 1º do artigo 571º); 
c) A sentença não chega, em regra, a transitar em julgado, pois: 
1- É praticamente sempre recorrível no prazo de cinco dias 
após a notificação da sentença, quando o réu for preso ou 
se apresentar em juízo (§ 6º do art. 564º e § 3º do art. 
571º); 
2- Se o réu tiver sido condenado em pena de prisão superior a 
2 anos, pode, no mesmo prazo, requerer um novo 
julgamento (§ 3º do artigo 571º) e o tribunal ad quem 
poderá impô-lo oficiosamente (art. 577º). 
Processo por difamação, calúnia e injúria 
Os processos especiais por tais crimes seguem os termos do processo 
correccional com as especialidades dos artigos 587º e seguintes do 
Código de Processo Penal (art. 588º). 
 
40 CAVALEIRO DE FERREIRA, (n. 1), pág. 618. Todavia, se, assim, se protegem 
amplamente os direitos do réu ausente em contrapartida encorajam-se as situações 
de contumácia. Por tal razão tem sido advogada neste domínio a reforma do 
processo penal no sentido de se estabelecer, em princípio a ilegitimidade do 
julgamento de qualquer pessoa ausente. 
41 EDUARDO CORREIA, (n. 2), pág. 126. 
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São processos especiais relativos a infracções que têm de comum 
alguém imputar a outrem factos ofensivos de sua honra e 
consideração. Consoante o agente se dirija a terceiros ou 
directamente ao ofendido, assim teremos a difamação ou a injúria. 
O art. 164º, nº 2 do C. P. Penal admite em dois casos a prova da 
verdade dos factos imputados. Se for feita a tal prova o acusado será 
isento da pena. Caso contrário e se se averiguar que o agente conhecia 
a falsidade da imputação terá praticado o crime de calúnia (art. 167º 
nº 1, al. b) do C. P. Penal). 
Processo por infracções cometidas por magistrados 
judiciais e do Ministério Público 
A especialidade destes processos deriva da indispensável alteração das 
regras de competência motivada pela qualidade de magistrados dos 
arguidos, que gozam, assim, de foro especial. 
Processo de reforma de autos perdidos, extraviados ou destruídos 
Não se trata, como ensina CAVALEIRO DE FERREIRA, verdadeiramente 
de um processo especial mas sim de uma fase extraordinária que se 
segue ao extravio, parda ou destruição de qualquer processo, comum 
ou especial. 
Momento da fixação da forma de processo 
Se para a determinação da forma de processo se atende, como vimos, 
à pena aplicável à infracção e não à pena aplicada, importa determinar 
o momento em que se deve fixar a forma do processo. Tal momento 
será, obviamente, aquele em que seja possível qualificar a infracção 
que constitui o objecto do processo. 
Ora tal qualificação só é possível no termo da instrução preparatória 
ou do inquérito preliminar, pois só em tal momento existem 
elementos que permitam a referida qualificação da infracção e a 
subsequente determinação da pena aplicável. 
Não quer isto significar que se não deva prever logo no início das 
investigações qual a forma de processo a utilizar. Tal é indispensável, 
pois, não só os prazos a instrução preparatória são diversos em 
processo de querela e correccional, como o facto de a investigação ser 
levada a cabo através de instrução preparatória ou de inquérito 
preliminar ou mesmo não haver lugar a qualquer destas formas de 
averiguação criminal42 dependerá da forma do processo. Como ensina 
EDUARDO CORREIA, não se está, porém, em tais casos, “a utilizar 
 
42 Caso do processo sumário e do processo de transgressões. 
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qualquer forma processual determinada, apenas se está, na presença 
de um efeito antecipado da futura fixação da forma do processo”. 
Sendo, pois, certo que a forma do processo deverá ser determinada 
após a instrução preparatória ou o inquérito preliminar, em que 
momento concreto deverá a mesma ser fixada? Devê-lo-á ser, 
logicamente, nos actos que se seguem à instrução ou ao inquérito, ou 
seja, deverá ser fixada na acusação do Ministério Público e no 
despacho de pronúncia ou equivalente ao juiz julgador. Tal resulta, 
aliás, quanto à acusação, do nº 4 do artigo 359º e, quanto à pronúncia, 
do nº 4 do artigo 366º do C. P. Penal, que exige “a indicação da lei que 
proíbe e pune os factos”. 
O ARGUIDO E O SEU DEFENSOR 
O arguido 
Conceito e constituição de arguido 
Nos termos do artigo 521º do C. P. Penal, “é arguido aquele sobre 
quem recaia forte suspeita de ter perpetrado uma infracção, cuja 
existência esteja suficientemente comprovada.” 
A lei dá-nos, assim, uma definição concreta de arguido, exigindo, por 
um lado, que a existência da infracção esteja suficientemente 
comprovada e, por outro lado, que haja forte suspeita – radicada em 
elementos constantes do processo de que tenha sido perpetrada por 
determinada pessoas (o arguido). 
Da constituição de uma pessoa como arguido resultam efeitos 
processuais da maior importância, que não coincidem com os 
atribuídos a outros participantes do processo, designadamente as 
testemunhas e declarantes. Na verdade, é profundamente diverso o 
regime de interrogatório do arguido (v. arts. 250º e 253º e segts. do C. 
P. Penal), relativamente ao simples suspeito (v. art. 252º) e às 
testemunhas e declarantes (v. arts. 218º e segts.), pois aquele reveste-
se de um formalismo muito mais rigoroso e de maiores garantias do 
que estes. Além disso, só em relação ao interrogatório do arguido 
exige a lei a presença de advogado constituído ou de defensor oficioso 
quando se trate de arguido preso (v. arts. 253º e 264º) ou, pelo 
menos, a admite tratando-se de arguido não preso (v. art. 265º). 
Dai que, do conceito de arguido, devam distinguir-se as noções – 
igualmente utilizadas no processo penal de simples suspeito ou réu. 
Suspeita será “…Toda aquele a respeito de quem se procure na 
instrução averiguar dos fundamentos dasuspeita de ter cometido uma 
infracção” – como resulta do disposto no corpo do art. 252º, não 
 ISCED CURSO: Direito; Disciplina: Direito Processual Penal 
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sendo, todavia, esta suspeita ainda forte, como no caso do arguido. 
Por isso, o § único desta disposição legal permite ao simples suspeito 
requerer que lhe passe a ser dado, no processo, tratamento de 
verdadeiro arguido: deste modo obviará a que, através de uma recusa 
ou demora na formal constituição de arguido, se restrinjam ou 
neguem ilegitimamente os direitos e as garantias que a lei atribui à 
àqueles que vêm dirigir contra si um processo penal. 
Réu será considerado unicamente o indivíduo pronunciado, ou seja, 
aquele que foi já solenemente chamado à responsabilidade perante a 
comunidade jurídica através de uma acusação aceite ou recebida por 
um juiz. 
Esta distinção conceitual entre o arguido, suspeito e réu tem valor 
meramente doutrinal. O Código de Processo Penal refere-se, em 
muitos dos seus preceitos, a réu, querendo abranger também o 
arguido em fase anterior à pronúncia (vejam-se, por exemplo, os arts. 
22º e segts. e o art. 98º, nº4), do mesmo modo que utiliza 
indistintamente outras expressões, como acusado (v. arts. 379º e 
segts.), indiciado (v. arts.366º, 370º, etc.) e mesmo ainda que 
impropriamente culpado (v. art. 243º). Por isso, no dizer de 
FIGUEIREDO DIAS, “…deve ser repudiada como conceitualista formal 
qualquer tentativa de partir do qualificativo para se lhe ligarem efeitos 
jurídico-materiais”43. Compreende-se assim que se prefira o 
designativo geral de arguido, quer porque nele, como vimos, se pode 
(até voluntariamente) converter o simples suspeito, quer porque 
abrange no seu âmbito o próprio acusado e pronunciado. Dele deverá 
distinguir-se o condenado ou o absolvido, dos quais, de resto, só em 
rigor deverá falar-se apos o trânsito em julgado da sentença. 
Posição jurídica do arguido no processo penal 
Direitos e deveres do arguido 
O estatuto jurídico que a lei providencia ao arguido no processo penal 
constitui um elemento fundamental para se avaliar que tipo de 
relações se estabelece entre o Estado e a pessoa individual e a 
consequente posição desta na comunidade. 
Num Estado de Direito Democrático o arguido é sujeito e não objecto 
do processo, sendo-lhe assegurada uma posição jurídica que lhe 
permite uma participação determinante na declaração do direito do 
caso concreto, através da concessão de autónomos direitos 
processuais, legalmente definidos. Esses direitos processuais deverão 
ser respeitados por todos os intervenientes no processo penal. 
 
43 Op. cit., pág. 427 
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Isto não significa que o arguido não possa, nos termos expressamente 
definidos pela lei, ser objecto de medidas coactivas e constituir, ele 
próprio, um meio de prova. Significa apenas e fundamentalmente que 
as medidas coactivas e probatórias que sobre ele se exerçam não 
poderão nunca radicar-se na extorsão de declarações ou de qualquer 
forma de auto-incriminação, pois todos os actos processuais do 
arguido deverão ser e expressamente da sua livre personalidade. 
É nisto que se consubstancia o essencial das garantias de defesa 
referidas no art. 35º da Constituição, preceito que se insere nos 
“Direitos, Deveres e Liberdades Fundamentais” dos cidadãos (Título 
III). 
Vejamos então quais são, concretamente, os principais direitos e 
garantias que a lei assegura ao arguido, como sujeito do processo 
penal: 
a) Direito de audiência: o arguido tem o direito de ser ouvido 
quanto aos factos que lhe são imputados. Esse direito 
expressa-se no chamado interrogatório do arguido, o qual, 
sendo um meio de prova, é igualmente um meio de defesa por 
excelência. 
O interrogatório do arguido (a lei também chama de perguntas – v. 
arts. 250º e segts. do C. P. Penal) tem, portanto, esta dupla 
característica, a qual já não está presente nas chamadas declarações 
do arguido (art. 244º do C. P. Penal), que funcionam como um simples 
meio de prova. 
Em termos de interrogatório, a lei estipula como necessária a 
existência de vários, o que não pode considerar-se como redundância 
processual, mas como a consagração deste direito de audiência. 
Existe, desde logo, o chamado primeiro interrogatório, o qual é 
realizado “logo que, com base na denúncia ou no resultado de 
diligências probatórias, a instrução preparatória seja dirigida contra 
pessoas determinadas…” (art. 250º do C. P. Penal), ou quando tiver 
ocorrido a prisão de um réu, quer em flagrante delito, quer fora dele 
(arts. 290º e 311º do C. P. Penal). 
O regime jurídico deste primeiro interrogatório não é o mesmo que se 
aplica aos interrogatórios subsequentes, pois enquanto aquele é feito 
exclusivamente pelo juiz da instrução criminal (ou pelo juiz da causa 
ou do lugar da prisão), estes são feitos pelo Ministério Público na 
instrução preparatória e pelo juiz da causa na instrução contraditória. 
Há ainda a referir os interrogatórios em julgamento, que são feitos 
pelo juiz-presidente (art. 425º do Código de Processo Penal). 
A lei impõe que o inquiridor advirta o arguido, antes do início do 
interrogatório, de que a certas 
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matérias ele não é efectivamente obrigado a responder. Assim, o 
arguido é obrigado a prestar declarações quanto à sua identificação e 
antecedentes criminais (v. art. 254º, nº 1º) – sob pena de 
desobediência (art. 412º nº 1 do C. Penal) ou de falsidade, em caso de 
falsas declarações (art. 558º nº 1 do C. Penal) -, podendo omitir 
qualquer declaração relativamente aos factos que lhe são imputados 
(v. art. 254º, 3º). 
O juíz, ao interrogar o arguido, deve esclarecê-lo claramente quanto 
aos factos que lhe são imputados, indicando, se não houver prejuízo 
para a continuação da instrução, as provas em que se baseia a 
imputação e as suas fontes (v. art. 254º, nº 2º). 
Prestando declarações, o arguido poderá confessar ou negar os factos 
de que é acusado. Confessando, haverá que aplicar-se o disposto nos 
arts. 256º, 258º e 174º, § único, do C. P. Penal. Neste caso, gozará da 
atenuante da confissão espontânea enunciada na alínea i) do art. 43º 
do Código Penal. Se negar, o art. 159º permite ao juíz confrontar o 
arguido com depoimentos anteriores e fazer-lhe ver a eventual da 
inconsistência da negativa quanto à matéria de facto; 
b) Direito de presença – além do direito de audiência, ao arguido 
é reconhecido o direito de presença, como elemento essencial 
de um verdadeiro exercício do direito de defesa. 
 
O direito de presença ou de comparência, como também é usual 
chamar-se, desdobra-se em duas facetas distintas: 
- Presença física em determinados actos processuais; 
- Presença cognoscente, ou seja, como fonte de percepção de 
informações, através da consulta de documentos e de peças 
processuais, etc. 
A fundamentação deste direito de presença é fácil de entender: que 
dar-se ao arguido a mais ampla possibilidade de tomar posição, a todo 
o momento, sobre o material que possa ser feito valer 
processualmente contra si, ao mesmo tempo que garantir-lhe uma 
relação de imediação com o juiz e com as provas. 
Casos de comparência pessoal obrigatória do arguido, encontramo-
los: 
Como regra geral, impeditiva de substituição por advogado no art. 22º 
do C. P. Penal; 
- No art. 203º, § 2º, quanto às buscas, às quais o arguido estará 
presente sempre que o juiz entenda necessário ou se estiverpreso na 
sede do tribunal; 
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- No art. 153º, quanto ao primeiro interrogatório. 
Como regra geral aplicável no julgamento, no artigo 418º - disposição 
que excepciona dessa obrigatoriedade os réus em processo de 
transgressões, relativo a infracções a que não corresponda pena de 
prisão, os quais poderão fazer-se representa relativo a infracções a 
que não corresponda pena de prisão, os quais poderão fazer-se 
representar pelo advogado (v. artigo 547º do C. P. Penal), podendo, no 
entanto, o juiz tornar obrigatória essa comparência (§§ 1º e 2º deste 
preceito). 
Reconhecida como um direito e imposta por vezes como um dever, a 
presença do arguido só muito excepcionalmente vedada por lei. A 
maioria das situações legais em que esta excepção ocorre é, aliás, alvo 
das maiores críticas e pode considerar-se mesmo inconstitucional… 
A primeira excepção resulta, quanto à instrução preparatória, do 
próprio carácter secreto desta fase (v. artigo 70º do C. P. Penal), do 
qual decorre que, em princípio, o processo só pode ser mostrado ao 
arguido ou ao respectivo advogado quando não houver inconveniente 
para a descoberta da verdade (v. § 1º do artigo 70º). Sucede, porém, 
que, mesmo na fase preparatória, logo que a instrução seja dirigida 
contra uma pessoa determinada (que, neste caso, deverá ser 
interrogada como arguida), o segredo de justiça cede perante o direito 
que assiste á defesa de tomar conhecimento de certas peças 
processuais, nomeadamente: 
 - Das declarações prestadas pelo arguido; 
 - Das declarações e requerimentos dos assistentes; 
 - Das diligências de prova a que puder assistir ou dos incidentes ou 
excepções em que puder intervir como parte. 
Para efeito desta consulta, os autos ficarão patentes na secretaria pelo 
prazo de três dias, sem prejuízo do andamento do processo (v. § 1º do 
artigo 70º). 
Quanto à instrução contraditória, permite-se ao juiz que determine a 
não assistência do arguido a certas diligências – artigo 39º, § único, do 
Decreto-Lei nº 35007 e artigo 330º, § 1º, do C. P. Penal -, tendo estes 
preceitos sido largamente criticados e considerados inconstitucionais 
em Portugal após a constituição de 1976. 
No que toca ao julgamento, sendo, como vimos, a regra geral a da 
comparência obrigatória do réu (artigo 418º), mesmo assim a Lei 
faculta o julgamento sem a presença daquele, no caso de julgamento 
de réus ausentes. 
Tal julgamento pauta-se por um conjunto de princípios especiais 
destinados a garantir, por um lado o 
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direito de defesa do réu, e por outro o interesse da justiça em proferir 
uma decisão que muitas vezes é necessária para a definição da 
situação dos co-réus presentes. 
A audiência de julgamento pode ocorrer em virtude de dois tipos de 
situações distintas: 
 - Ausência justificada – quando, em virtude da idade avançada, o réu 
não possa comparecer no acto do julgamento; 
- Ausência injustificada – quando ocorrer qualquer outra circunstância. 
Tratando-se de ausência justificada a Lei estabelece dois regimes 
distintos, conforme a ausência seja de carácter temporário ou 
definitivo – v. § 1º e corpo do artigo 566º . No caso de ausência 
injustificada (v. artigos 563º e 565º), o julgamento decorrerá sob 
forma especial, designada processo de ausentes, cuja tramitação 
consta no artigo 571º; 
c) Direito à assistência de defensor – este direito constitui uma 
emanação directa e necessária do próprio direito de defesa, 
garantido pelo artigo 62º nº 1 da Constituição. 
O direito de defesa pressupõe, na verdade, que o arguido seja 
esclarecido – por pessoa da sua confiança ou que, em todo o caso, 
tenha por função velar exclusivamente pelo interesse da defesa – 
quanto ao objectivo da culpa e da prova. 
Veremos adiante, com mais pormenor, este direito à assistência de 
defensor, que é referido no artigo 22º do C. P. Penal. 
d) Direito à interposição de recursos – está consignado no artigo 
647º, nº 2, do C. P. Penal, relativamente a todas as decisões 
proferidas contra o arguido e, portanto, com excepção das 
“decisões que lhe sejam fervoráveis” (v. § 3º do artigo 647º). 
 Na altura própria será também estudada a matéria referente aos 
recursos em processo penal. 
Audiência do arguido 
Fez-se atrás referência ao regime jurídico dos interrogatórios a que o 
arguido é submetido nas diversas fases do processo. Também se disse 
que o conteúdo essencial da posição do arguido como sujeito (e não 
objecto) do processo está em que todos os actos processuais que 
pratique e deverão ser expressos da sua livre personalidade. 
Esta ideia assume, naturalmente, a maior importância na matéria de 
interrogatório e conduz directamente á distinção entre muitos 
legítimos e ilegítimos (admissíveis e inadmissíveis) de interrogar e de 
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obter declarações. 
A lei processual penal vigente avança muito pouco na regularização 
desta matéria. Segundo o artigo 255º do C. P. Penal, o arguido não 
pode ser “obrigado a responder precipitadamente…” – ou, em todo o 
caso, sem o tempo conveniente para obter recordações exactas – a 
qualquer pergunta. Por seu turno, o artigo 261º dispõe que “as 
perguntas não serão sugestivas nem cavilosas, nem acompanhadas de 
dolosas persuasões, falsas promessas ou ameaças ”. E acrescenta o § 
único que “o juiz ou agente do Ministério Público que violar o disposto 
nesse artigo incorrerá na respectiva pena disciplinar”. 
 Sendo isto praticamente tudo quanto se encontra na nossa legislação 
processual penal sobre a ilegitimidade dos meios de obter declarações 
do arguido, torna-se evidente que esta disciplina terá de ser 
interpretada nos termos mais amplos e complementar-se com os 
preceitos da Constituição (nomeadamente com referencia aos artigos 
70º, 71º e 96º). 
 Da conjugação de tais direitos resultarão algumas consequências em 
matéria de meios processuais de interrogatório. 
a) Têm de considerar-se proibidos e inadmissíveis em processo 
penal todos os meios de interrogatório e de obter declarações 
que importem ofensa à dignidade da pessoa humana, à 
integridade pessoal (física ou moral) do arguido, em especial os 
que importem qualquer perturbação de sua liberdade de 
vontade e de decisão. 
 
Nesta proibição se abrangerá o emprego de maus tratos, 
castigos corporais, administração de hipnose, bem como a 
perturbação, por qualquer meio, da capacidade de memória e 
de avaliação do arguido, a utilização da força fora dos casos e 
dos limites expressamente permitidos pela lei, a ameaça e a 
promessa de qualquer vantagem não prevista legalmente. 
 
 Do mesmo modo se devem considerar ilegítimos dois outros 
métodos de interrogatório que utilizam técnicas mais 
modernas, nomeadamente a narcoanálise, a que já foi feita 
referência, e o polígrafo44; 
 
b) Estes meios de interrogatório e de obter declarações acabados 
de referir devem continuar a considerar-se proibidos e 
processualmente inadmissíveis, ainda que o arguido consinta 
na sua utilização. Desde logo, um tal consentimento só muito 
 
44 Aparelho que se liga à pessoa a interrogar e que regista os traçados da sua 
respiração, pulsação, tensão arterial, transpiração cutânea, etc. sobre estes 
métodos, v. FIGUEIREDO DIAS, op. cit., pág.455º e segts. 
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raramente poderia considerar-se livre, visto estar o arguido 
coagido pelo receio de que a negação do consentimento 
pudesse ser interpretada como indício da sua culpa. 
Além disso, tal consentimento seria ineficaz por recair sobre 
bens ou valores indispensáveis – a autonomia e dignidade da 
pessoa humana e a sua liberdade de vontade e decisão; 
c) A proibição do emprego de tais métodos de interrogatório 
deve valer, nos mesmos termos, para qualquer pessoa a quem 
caiba ouvir o arguido em declarações, seja o juiz, o Ministério 
Público ou qualquer autoridade policial; 
d) As violações de tal proibição devem, se não determinara a 
insuficiência do corpo de delito e, portanto, a nulidade 
principal do processo penal referida no artigo 98º, nº 1, do C. 
P. Penal, pelo menos a inadmissibilidade de valoração das 
declarações prestadas e das indicações que, por seu 
intermédio, tenham sido obtidas acerca de outros meios de 
prova. 
A garantia constitucional da presunção de inocência 
Já se disse que o arguido é um sujeito processual e que, em razão 
dessa qualidade, o seu estatuto comporta um complexo de direitos e 
deveres atrás anunciados. 
Importa agora referir a especial tutela de que goza por imperativo 
constitucional a presunção de inocência. 
O art. 59º, nº 2, da Constituição estabelece que “os arguidos gozam da 
presunção de inocência até decisão judicial definitiva”. O mesmo 
princípio acha-se consagrado na Carta Africana dos Direitos do 
Homem e dos Povos e no Pacto Internacional dos Direitos Civis e 
Políticos, instrumentos de direito internacional ratificados pela 
Assembleia da República e, como tal, integrados na ordem jurídica 
interna45. 
O princípio da presunção de inocência é, no dizer de MARQUES DA 
SILVA, “…antes de mais uma regra “política” que revela o valor da 
pessoa humana na organização da sociedade e que recebeu 
consagração constitucional como direito subjectivo público, direito 
 
45 A Carta Africana dos Direitos do Homem e dos Povos, adoptada pela XVIII 
Conferência dos Chefes de Estado e do Governo da OU, em Junho de 1981, em 
Nairobi, Quénia, e rectificada pela Resolução nº 9/88, de 25 de Agosto, da 
Assembleia da República, dispõe, no seu artigo 7º, nº 1:”toda a pessoa tem direito a 
que a sua causa seja apreciada. Esse direito corresponde: o direito de presunção de 
inocência, até que a sua culpabilidade seja estabelecida por um tribunal 
competente”. Por sua vez, o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos, 
adoptado pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 16 de Dezembro de 1966, e 
ratificado pela Resolução nº 5/91, de 10 de Dezembro, da Assembleia da República 
estatui, no seu artigo 14º, nº 2: “Qualquer pessoa acusada de uma infracção penal é 
de direito presumida inocente até que a sua culpabilidade tenha sido legalmente 
estabelecida”. 
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que assume relevância prática no processo penal num duplo plano: no 
tratamento do arguido no decurso do processo e como princípio de 
prova”46. 
Como regra de tratamento processual, manifesta-se através do direito 
do arguido a ser considerado como não responsável pela prática dos 
factos que lhe são imputados, enquanto não for condenado por 
sentença com trânsito em julgado. Enquanto princípio de prova, 
significa que toda a condenação deve ser precedida de uma actividade 
probatória a ser levada a cabo tanto pelo Ministério Público, como 
representante da acusação, como pelo tribunal, em homenagem ao 
princípio da investigação ou da verdade material; ao arguido não pode 
exigir-se a prova da sua inocência e, em caso de dúvida, deve ser 
absolvido. 
O defensor 
Função e posição jurídica do defensor em processo penal 
Num verdadeiro processo penal de “partes” – como vimos ser 
característico dos países de inspiração anglo-saxónica, a função 
exercida pelo defensor e a posição jurídica por ele assumida não 
levantará dúvidas de grande monta: trata-se aí, como no processo 
civil, de uma autêntica representação judiciária do arguido, cabendo 
ao defensor a prática, em nome e no interesse daquele, de todos os 
actos processuais para os quais lhe tenha sido concedida procuração 
bastante. 
Mas não é essa a situação prevalecente na nossa legislação processual 
penal. No nosso caso estamos, como já foi dito, perante um processo 
penal sem partes, em que tanto ao juiz como ao Ministério Público 
cabe oficiosamente velar pela protecção dos direitos processuais do 
arguido e, inclusive, pela sua própria defesa. Todavia, é evidente que 
não pertence ao juiz nem ao Ministério Público, como função 
característica e essencial, exercer os misteres da defesa do arguido. 
Justamente porque o juiz e o MP têm de comportar-se imparcial e 
objectivamente, só a existência de um órgão a quem caiba actuar 
ainda que, também ele, objectivamente no exclusivo interesse da 
defesa, pode dar a garantia de que os factos que constituem objecto 
do processo foram esgotantemente investigados, e de que se 
procuram evitar, até onde é humanamente possível, erros 
desfavoráveis ao arguido, na aplicação daqueles factos. 
Assim se caracteriza a função do defensor em processo penal – 
exclusivamente a de fazer avultar no processo tudo quanto seja 
favorável ao arguido. Através dela pode-se, então, determinar a 
posição jurídica do defensor. Deste modo, embora o art. 22º do C. P. 
 
46 Curso de Processo Penal, Volume I, Editorial Verbo, Lisboa, 1993, pág. 219. 
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Penal possa dar a entender que o defensor é um mero representante 
judiciário do arguido nos casos em que este não seja obrigado a estar 
pessoalmente em juízo, o certo é que o fundamento da prática, pelo 
defensor, de actos processuais não reside na “procuração forense” ou 
nos “poderes representativos” concedidos pelo arguido, mas 
encontra-se directamente no poder-dever que a lei lhe confere de 
realizar a função de defesa sem estar condicionado às instruções ou 
vontade do arguido. Neste sentido, pode e deve afirmar-se que a 
função da defesa é pública, tem o seu assento no direito público e não 
no instituto jurídico-privado da representação; 
Também não basta, para caracterizar a posição jurídica do defensor, 
dizer que a sua função é de assistência jurídica do arguido. Se por 
“assistência” quisermos entender uma mera função de auxiliar 
processual, então terá de concluir-se que tal caracterização é inexacta, 
pois o exercício da função de defesa não está essencialmente 
subordinado às intenções ou à vontade do arguido, nem 
exclusivamente dependente do interesse subjectivo deste (p. ex., o de 
obter a absolvição a todo o custo); 
A exacta caracterização da posição do defensor é, pois, a seguinte: tal 
como o Ministério Público, também o defensor, seja ou não advogado, 
é um órgão autónomo de administração da justiça, como tal lhe 
cabendo basicamente colaborar com o tribunal na descoberta da 
verdade e na realização do Direito. A função da defesa ultrapassa o 
eventual interesse subjectivo do arguido para cumprir uma tarefa que 
diz directamente respeito à própria comunidade jurídica a de que só 
sejam punidos em processo penal os verdadeiros culpados e, para isso, 
a de que sejam protegidos todos os arguidos. 
É, pois, profundamente errónea a concepção – infelizmente tao 
disseminada entre os práticos do foro que vê no defensor, a priori, um 
“inimigo” do Ministério Público e até do próprio juiz. Na verdade, a 
posição do defensor penal éa de um colaborador – embora de um 
colaborador à sua própria maneira e de forma diferenciada – na 
realização do fim por todos prosseguido. 
Evidentemente que a sua específica forma de intervenção do defensor 
na realização da justificação o afastam, tanto da actividade judicial, 
como da do Ministério Público (com quem é natural que esteja muitas 
vezes em oposição), na medida em que, servindo embora a descoberta 
da verdade e a realização1 do Direito, serve-as actuando 
exclusivamente em favor do arguido. 
É na interacção destes deveres de protecção, favorecimento 
processual, verdade e sigilo – teórica e abstractamente compatíveis, se 
bem que eventualmente conflituantes no caso concreto que o 
defensor tem de encontrar o equilíbrio da sua actuação, sendo através 
deles que se alcança o essencial da sua posição jurídica no processo 
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penal. 
Admissibilidade e obrigatoriedade da defesa 
Nos termos da 1ª parte do art. 49º do Decreto-Lei nº 35007, “o 
arguido pode constituir advogado em qualquer altura do processo”. 
Por esta forma dá a lei a entender que o exercício da função de defesa 
é admissível em qualquer processo e em qualquer fase em que este se 
encontre. 
Mas, apesar deste princípio geral de admissibilidade, o certo é que só 
em alguns casos a defesa se torna, por lei, necessária ou obrigatória. 
Assim, de acordo com a 2ª e 3ª partes do citado art. 49º, “é 
obrigatória a nomeação de defensor oficioso, se ainda não houver 
advogado constituído, no despacho de pronúncia provisória em 
processo de querela (como desapareceu, entretanto, o despacho de 
pronúncia provisória, a referência a ele feita deve entender-se como 
dirigida ao despacho que recebe o requerimento para abertura da 
instrução contraditória). Nos processos de polícia correccional deverá 
ser nomeado para julgamento. Nos processos de transgressões e 
sumários, o juíz só é obrigado a nomear defensor oficioso se o arguido 
o pedir ou se houver lugar à aplicação de medidas de segurança”. 
Além desses casos, também é obrigatória a intervenção (a presença) 
do defensor nos interrogatórios de quaisquer arguidos presos, durante 
a fase da instrução preparatória, nos termos dos artigos 253º e 264º 
do C. P. Penal. 
Segundo o artigo 98º nº 4, do C. P. Penal a falta de nomeação de 
defensor ao réu, quando necessária, constitui nulidade do processo 
penal, cujo regime é regulado pelo § 5º do mesmo preceito. Para além 
disso, há que ter em conta o disposto no artigo 268º do C. P. Penal, 
segundo o qual “ é nulo…qualquer interrogatório sem assistência de 
defensor, quando obrigatória, ou se o advogado foi indevidamente 
impedido de assistir, quando facultativa”. 
A defesa e a pessoa do defensor 
O defensor pode ser chamado a assumir a sua posição no processo 
penal pelo arguido ou pelo tribunal. Se for o arguido a chama-lo, 
estaremos perante uma constituição de advogado (ou defensor) – 
artigo 49º do Decreto-Lei nº 35007; se for o tribunal, depararemos 
com a nomeação de defensor oficioso (artigo 22º, §§ 1º e 2º do C. P. 
Penal). 
O princípio que rege nesta matéria é o da liberdade de escolha de 
defensor e, portanto, da sobreposição da constituição à nomeação. 
Em qualquer altura do processo em que o arguido constitua defensor, 
cessam as funções do defensor que tiver sido nomeado oficiosamente 
(v. art. 22º, § 3º, do C. P. Penal). 
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Portanto, só quando o arguido não faça uso do seu direito de escolha 
é que, caso se trate de defesa obrigatória, o juiz lhe nomeará defensor 
oficioso. Além desta distinção entre defensores constituídos e 
nomeados, há que ter em conta o que dispõe o estatuto do IPAJ sobre 
a determinação das pessoas que podem intervir no processo penal 
como defensoras (distinção entre advogados, técnicos jurídicos e 
assistentes jurídicos). 
Para o caso de serem vários os arguidos, dispõe o corpo do artigo 23º 
do C. P. Penal que “cada um poderá ser representado no processo e 
até na audiência de julgamento por um advogado ”. 
O defensor não pode ser considerado impedido ou suspeito – seja por 
força da lei ou por acção do juiz ou do Ministério Público – apesar de, 
como se disse, também ele dever ser tido como órgão de 
administração da justiça. Todavia, é claro que, tratando-se de 
advogado constituído, pode o arguido em qualquer altura escolher 
novo defensor e, por este caminho, afastar da defesa o advogado 
anteriormente constituído – dá-se a revogação do mandato, nos 
termos do artigo 39º do C. P. Civil. Se se tratar de defensor 
oficiosamente nomeado, estatui o artigo 26º do C. P. Penal que o juiz 
poderá sempre substituí-lo, a requerimento do arguido, por causa 
justificada. 
Também o defensor pode, em certas condições, recusar ou abandonar 
o patrocínio. Tratando-se de advogado, a recusa assume carácter de 
dever relativamente a toda a causa que não considere justa (v. 
estatuto do IPAJ). Quanto ao abandono, ele só poderá ter lugar, nos 
termos do artigo 28º do C. P. Penal, desde que o defensor tenha sido 
devidamente substituído, sob pena de multa. 
Hipótese diferente desta é a da retirada da palavra ao defensor pelo 
tribunal, confiando a defesa a outro advogado – v. artigo 412º do C. P. 
Penal. 
O concreto exercício da função de defesa 
No concreto exercício da função que lhe está confiada, como órgão de 
administração da justiça, o defensor goza de certos direitos e está 
sujeito a determinados deveres que iremos agora, em breve síntese 
analisar. 
O defensor deve, antes de tudo, prestar ao arguido o mais completo e 
esclarecedor conselho jurídico de que for capaz. Não deve limitar-se a 
estar ao lado do arguido, a assisti-lo ou representa-lo nas suas diversas 
intervenções processuais: a assistência ou representação so ganham 
sentido quando cada intervenção seja, sempre que possível, precedida 
de do esclarecimento da situação jurídica material e processual. 
Naturalmente que, logo nesta matéria, se lhe podem começar a pôr 
alguns problemas resultantes do 
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conflito entre o seu dever de defesa e a participação na descoberta na 
verdade e na justa realização do Direito. Contra o dever de verdade 
(procurada, como vimos, no exclusivo interesse do arguido), actuará o 
defensor que aconselhe o arguido a proferir afirmações inexactas ou 
que sabe serem falsas, mesmo quando elas possam conduzir a uma 
absolvição ou a uma atenuação da pena. 
Ao contrário do que sucede no processo penal de inspiração anglo-
saxónica, não constitui, na nossa lei, tarefa específica do defensor 
proceder a investigações autónomas do material fáctico, paralelas às 
que cabem ao Ministério Público e aos órgãos seus auxiliares. Daí que 
a lei processual penal não reconheça ao defensor quaisquer meios de 
coacção e apenas lhe permita, na instrução preparatória, “apresentar 
ao Ministério Público memoriais, ou requerimentos de diligências de 
prova, que este tomará em consideração ou deferirá na medida em 
que entenda que podem contribuir para a descoberta da verdade” (art. 
13º, § único do Decreto-Lei nº 35007). 
Tal não significa que o defensor não possa ou não deva proceder às 
suas próprias averiguações complementares, sempre que isso seja 
imposto ou aconselhado pela função de defesa – p. ex., exame ao local 
da infracção, procura de testemunhas ou declarantes relevantes para 
a defesa e comprovação do seu conhecimento e da sua razão de 
ciência – sem, evidentemente, tentar influenciar,expressa ou 
encobertamente, o sentido das suas declarações. 
Essência à eficácia da função de defesa é o asseguramento do direito 
de presença do defensor às diligências de provas de que sejam 
passíveis quaisquer participantes processuais. O C. P. Penal assegura 
esse direito ao defensor durante toda a audiência de julgamento, 
conforme se vê dos artigos 406º e segts. o mesmo se pode dizer para a 
instrução contraditória, uma vez que, nos termos da 2ª parte do corpo 
do artigo 330º do C. P. Penal, “aos actos de instrução contraditória 
poderão assistir o agente do Ministério Público, o arguido, o seu 
defensor e o advogado dos assistentes”. 
O direito de assistência do defensor durante a fase da instrução 
preparatória já não é tao ampla e eficazmente assegurada porque, 
nesta fase, deve respeitar-se o segredo de justiça a que já 
anteriormente nos referimos. Vejamos o que dispõe o artigo 70º do C. 
P. Penal: 
“O processo penal é secreto até ser notificado o despacho de 
pronúncia ou equivalente ou até haver despacho definitivo que mande 
arquivar o processo.”. Têm obrigação de guardar segredo de justiça os 
magistrados que dirijam a instrução e os funcionários que nela 
participem. § 1º - no decurso da instrução preparatória o processo 
poderá ser mostrado assistente e ao arguido, ou aos respectivos 
advogados, quando não houver inconveniente para a descoberta da 
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verdade. Logo que a instrução preparatória seja dirigida contra pessoa 
determinada, a defesa tem o direito de tomar conhecimento das 
declarações prestadas pelo arguido e das declarações e requerimentos 
do assistente; tanto a acusação como a defesa têm o direito de tomar 
conhecimento dos autos de diligências de prova a que pudessem 
assistir e de incidentes ou excepções em que devam intervir como 
partes. Para estes efeitos, as referidas declarações, requerimentos e 
autos ficarão patentes, avulsos, na secretaria, pelo prazo de três dias, 
sem prejuízo do andamento do processo. A todos é imposto o dever 
de guardar segredo de justiça…” 
A função atribuída ao defensor em processo penal só poderá ser 
eficazmente cumprida se, além do mais, lhe for conferido um amplo 
direito de consulta dos autos e de exame dos objectos da prova. 
Já vimos que, durante a instrução preparatória, rege o disposto do § 
1º do artigo 70º do C. P. Penal. Apos a notificação do despacho de 
pronúncia ou equivalente, é aplicável o disposto no artigo 72º do 
mesmo Código. 
Outro dos direitos fundamentais do defensor penal é o de comunicar, 
oralmente e por escrito, com o arguido. Se este se encontra em 
liberdade, o problema não se poe, pois é óbvio que a liberdade de 
comunicação é total. Se o arguido se encontra preso, o problema do 
exercício do direito de comunicação com o advogado ganha então 
particular realce. 
Nos termos do § 1º do artigo 311º dp C. P. Penal, os presos não 
poderão comunicar com pessoas alguma ates do primeiro 
interrogatório. E o § 2º acrescenta que, “depois de terminada a 
incomunicabilidade, e enquanto durar a instrução preparatória, o 
agente do Ministério Público pode proibir a comunicação do arguido 
com certas pessoas, ou condiciona-la, se tal se mostrar indispensável 
para evitar tentativas de perturbação da instrução”. 
Estas disposições foram, com razão, objecto de severas críticas na 
doutrina47, pois não se vê justificação plausível para elas num Estado 
 
47 FIGUEIREDO DIAS escreve, a propósito, no seu Direito Processual Penal, págs. 500 
e segts: “é absurdo que a lei se tenha preocupado seriamente (como vimos ter 
sucedido com o DL nº 185/72) em assegurar a assistência do defensor a qualquer 
interrogatório de arguidos presos, durante a instrução preparatória, e ao mesmo 
tempo tenha tirado quase toda a eficácia real a tal assistência, decretando a 
incomunicabilidade total antes do primeiro interrogatório e limitando, assim, o 
direito de comunicação prévia entre arguido e defensor. Uma tal contradição só 
existiria, é claro, se a assistência do defensor aos interrogatórios tivesse por único 
fim desencorajar ou impossibilitar o uso sobre o arguido de sevícias ou quaisquer 
outros métodos ilegítimos de interrogatório. Mas sabe-se que assim não é e que 
uma tal assistência visa também garantir o mais possível a pureza real dos autos, 
evitar declarações emitidas por equívoco, confusão, receio ou ignorância, permitir, 
enfim, a plena consistência futura do direito de defesa. Ora, é medianamente 
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de Direito. Se é compreensível que a lei imponha a incomunicabilidade 
do arguido antes do primeiro interrogatório, já não é de aceitar a 
extensão dessa incomunicabilidade à pessoa do defensor. Em muitos 
países a legislação processual penal dá maior relevância ao 
asseguramento da comunicabilidade entre o arguido e o seu defensor, 
em reais condições de liberdade, segurança e segredo, do que 
propriamente à obrigatoriedade de assistência do defensor aos 
interrogatórios. É o que se passa nos direitos inglês e americano, que 
consideram nulidade do processo o incumprimento, pelos órgãos 
policiais e instrutórios do dever de advertirem o arguido, no momento 
da prisão, de que tem o direito de se consultar com um advogado 
antes de prestar quaisquer declarações. 
O ofendido e o lesado 
Conceito de ofendido em processo penal 
De um ponto de vista estritamente penal, ofendido, é a pessoa que, de 
acordo com o tipo legal de infracção preenchido pela conduta 
criminosa, detém a titularidade do interesse jurídico-penal por aquela 
conduta violado ou posto em perigo. 
Por outras palavras, na definição de Beleza dos Santos, é o titular dos 
interesses que a lei quis, especialmente proteger quando formulou a 
norma penal”. 
Este conceito estrito ou atípico de ofendido é o que resulta do 
disposto no art. 4º. nº 2, do Decreto-Lei nº 35007 (que reproduz, nessa 
parte, o art. 11º do C. P. Penal) e assume relevância quando se trata 
de matérias especificamente penais. 
Uma definição mais lata de ofendido (ou lesado) é utilizada quando 
estão em causa normas de direito civil, para salvaguarda de interesses 
particulares juridicamente protegidos. Neste caso, ofendido será a 
pessoa que, segundo as normas do direito civil, tenha sido prejudicada 
em interesses juridicamente protegidos. A ela, deve, por isso, ser 
reconhecida legitimidade para deduzir, em processo penal, um pedido 
civil de indemnização ou qualquer outro de natureza patrimonial, 
derivado de uma infracção penal. 
A constituição de assistente e a posição jurídica deste no 
processo penal 
Conforme vimos, na determinação das pessoas legitimadas para 
intervir como assistentes em processo penal, parte a legislação em 
 
evidente que nada disto se logrará se não for permitida a consulta e comunicação 
prévia do arguido com o seu defensor… ”. 
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vigor do conceito estrito de ofendido – como tal se considerando o 
titular do interesse ou interesses que a lie penal especialmente quis 
proteger com a incriminação (art. 4º, nº 2, do Decreto-Lei nº 35007). 
Deste princípio geral resulta que, relativamente a certos crimes 
públicos, ninguém poderá constituir-se assistente, uma vez que o 
interesse protegido pela incriminação é exclusivamente público:é o 
que sucede nos crimes contra o Estado, contra a boa administração da 
justiça, contra a ordem e tranquilidade públicas, e outros. 
Pelo contrário, “qualquer pessoa nos processos relativos aos crimes de 
peculato, peita, suborno, concussão e corrupção” pode constituir-se 
assistente (art. 4º, nº 5), o que se traduz, na prática, por um 
alargamento daquele conceito de ofendido, justificado pelo desejo de 
uma colaboração de todos ao particulares na detecção e perseguição 
de tais crimes, que põem em causa a imagem e o prestígio do Estado. 
O direito de constituição de assistente é irrenunciável, conforme 
determina o art. 18º do C. P. Penal: “Ninguém poderá renunciar à 
faculdade de promover a acção penal, salvo o disposto nos §§ 1º, 2º e 
3º do artigo 8º e no § 1º do 140º”. O § único do mesmo preceito 
acrescenta, no entanto, que “o disposto neste artigo não obsta à 
extinção da acção penal pelo perdão da parte nos casos em que a lei o 
permite”. Daqui decorre que uma coisa é a renúncia à faculdade de 
constituição de assistente – que a lei não permite, determinando a 
nulidade se qualquer declaração nesse sentido (corpo do artigo); outra 
coisa é a renúncia ou desistência da posição de assistente, já 
processualmente assumida – que a lei admite em certos casos, através 
do perdão da parte (§ único). 
Quanto à forma da constituição de assistente, dispõe o § 3º do C. P. 
Penal que ela pode fazer-se por meio de declaração prestada no 
processo ou por meio de requerimento. Tratando-se de crime 
particular, a declaração é obrigatória, conforme estabelece o § 3º do 
artigo 9º do Decreto-Lei nº 35007. 
Sobre o momento da constituição de assistente, o § 5º do artigo 4º do 
mesmo Decreto-Lei dispõe que “os assistentes podem intervir em 
qualquer altura do processo, aceitando-o no estado em que se 
encontrar, desde que o requeiram até cinco dias antes da audiência de 
discussão e julgamento”. Obviamente que este preceito não se aplica 
tratando-se de ofendido por crime dependente de acusação particular, 
caso em que a declaração terá de ser feita na denúncia. 
Nos termos do artigo 5º do referido Decreto-Lei, “os assistentes 
deverão ser sempre representados por advogado. Havendo vários 
assistentes, serão todos representados por um só advogado, sem 
prejuízo do disposto no § 1º do artigo 21º do Código de Processo 
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Penal, e, se divergirem quanto à sua escolha, decidirá o juiz”. 
Os poderes processuais do assistente 
Para melhor compreender as formas de que se pode revestir a 
actuação do assistente no processo penal, importa distinguir as 
diversas fases processuais, designadamente a instrução preparatória, a 
instrução contraditória, a acusação, o julgamento e a fase dos 
recursos. 
Assim a intervenção do assistente na instrução preparatória restringe-
se, muito especificamente, a uma função de colaboração com o 
Ministério Público na recolha dos elementos de prova necessários 
para fundamentar a acusação. A sua actividade está, portanto, nesta 
fase do processo, subordinada à actuação daquele, sendo-lhe 
unicamente permitido (tal como ao arguido) apresentar ao Ministério 
Público “…memoriais ou requerimentos de diligências de prova, que 
este tomará em consideração ou deferirá na medida em que entenda 
que podem contribuir para a descoberta da verdade, juntando, porém, 
aos autos, no prazo prescrito para a junção de documentos, todos os 
papéis recebidos dos assistentes que respeitem ao processo”. 
Os §§ 1º e 2º do art. 70º do C. P. Penal dão ao assistente ou ao seu 
advogado, nesta fase, o poder de consultar o processo, o direito de 
tomar conhecimento das declarações do arguido, dos autos de 
diligências de prova a que pudessem assistir e de incidentes ou 
excepções em que devam intervir, bem como o direito de lhes serem 
facultados os autos de instrução preparatória, para o efeito de 
formular acusação. 
Na instrução preparatória já se pode e deve afirmar que a intervenção 
do assistente tem um carácter autónomo, relativamente ao Ministério 
Público. Nos termos do artigo 4º, § 2º, nº 2, do Decreto-Lei nº 35007, 
compete aos assistentes “intervir directamente na instrução 
contraditória, oferecendo provas e requerendo ao juiz as diligências 
convenientes”. Em execução deste princípio geral é concedido ao 
assistente, por intermédio do seu advogado, o direito de assistir aos 
actos de instrução contraditória (v. artigo 330º do C. P. Penal), de 
requerer ao juiz que sejam feitas às testemunhas quaisquer perguntas 
para completar ou esclarecer os depoimentos (v. artigo 332º), ou que 
sejam pedidos aos peritos os esclarecimentos necessários (v. artigo 
333º, § 2º), bem como, no caso de a acusação ter precedido a 
instrução contraditória, o direito de ser notificado para manter ou não 
a acusação (v. artigo 335º); 
No que diz respeito à acusação, compete em especial aos assistentes, 
nos termos do artigo 4º, § 2º, nº 1, do Decreto-Lei nº 35007, “formular 
a acusação independentemente da do Ministério Público e ainda que 
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este se tenha abstido de acusar”. Se bem repararmos nesta redacção 
do preceito, tal como foi posta em vigor em Moçambique pela Portaria 
nº 17076, de 20 de Março de 1959, verificaremos que lhe foi 
acrescentada a frase que sublinhamos (“…ainda que este tenha se 
abstido de acusar”), relativamente à redacção vigente no continente 
português. Este acréscimo evitou de certo modo que, entre nós (e nas 
restantes ex-colónias portuguesas), se pusesse a controversa e 
debatida questão de saber se a faculdade de os assistentes deduzirem 
a acusação quando o Ministério Público se tenha abstido de acusar 
abrangia também os crimes públicos e semipúblicos ou tao somente 
os crimes particulares. A resposta que, por via jurisprudencial, já era 
dada em Portugal no sentido de abranger tanto os crimes particulares 
como os crimes públicos tem de ser no sentido de ver abrangidos pela 
disposição legal as diferentes espécies de crimes; 
Quanto à intervenção do assistente no julgamento, cabe dizer que, 
atribuindo-lhe a lei, como vimos, o direito de formular 
independentemente a acusação, por certo que teria de lhe conceder 
de igual modo os poderes necessários à sua efectivação na fase de 
julgamento. Assim, o artigo 415º do C. P. Penal contém um 
afloramento do princípio do contraditório, ao determinar que “o juiz 
ouvirá sempre o Ministério Público e os representantes da parte 
acusadora sobre o que tenham requerido aqueles48”. Podem-lhe ser 
tomadas declarações em qualquer altura durante a produção da prova 
(v. art. 428º), possuindo em contrapartida o direito de interrogar e 
contra-interrogar as testemunhas (v. art. 435º). 
Finalmente, no que respeita à fase dos recursos, têm os assistentes, 
nos termos do artigo 4º, § 2º, nº 3, do Decreto-Lei nº 35007, 
competência para “recorrer do despacho de pronúncia… e da sentença 
ou despacho que ponha termo ao processo, mesmo que o Ministério 
Público o não tenha feito”. Este princípio sofre, porém, a restrição 
constante do § 4º do mesmo artigo: “quando os assistentes formulem 
acusação por factos diversos dos que constituem objecto da acusação 
do Ministério Público, não poderão recorrer da decisão do juiz se este 
receber a acusação do Ministério Público”. Esta restrição só tem 
cabimento nos processos que não dependam de acusação particular 
(por crimes públicos e semi-públicos), como se depreende do 
estatuído no § único do artigo 3º do mesmo Decreto-Lei. 
 
48 Quando estejam presentes, pois a falta do advogado dos assistentes não 
determina a suspensão ouadiamento da audiência (v. art. 417º, § 3º) e a 
comparência do próprio assistente não é, em princípio, obrigatória (v. art. 420º). 
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As partes civis e a responsabilidade civil pelas multas e 
indemnizações 
As partes na acção civil conexa com a criminal 
Em muitos casos, e de parceria com a lesão ou perigo para bens 
jurídicos fundamentais da comunidade, a infracção criminal acarreta 
uma lesão de direitos civis patrimoniais de certas pessoas – os 
ofendidos, ou seja, os jurídico-civilmente lesados pela infracção. 
Daqui extrai-se a relevância jurídico-civil de um facto criminoso. Dele 
podem resultar, pois, danos indemnizáveis que podem não ter, 
necessariamente, natureza patrimonial. São exemplos disso o caso da 
responsabilidade dos danos morais emergentes do ilícito penal (v. § 2º 
do artigo 30º do C. P. Penal), a causa de pedir de pretensões civis 
distintas (v.g., o adultério, que, sendo crime – v. art. 401º do C. P. 
Penal – fundamenta o pedido de divórcio litigioso), ou qualquer crime 
cometido pelo donatário, que é fundamento para a revogação da 
doação. E pode ser fonte da obrigação de restituir, nos casos em que o 
lesado haja sido privado da propriedade ou da posse de determinada 
coisa). 
O problema da indemnização em processo penal suscita, desde logo, 
várias questões no que toca à sua natureza e bem assim ao 
tratamento que lhe tem sido reservado. Dividem-se as opiniões entre 
os que acentuam o carácter civil da indemnização e os que perfilham o 
seu carácter social, sendo ela parte integrante da sanção penal. 
Por sua vez, a problemática do ressarcimento dos danos emergentes 
do facto criminoso coloca um conjunto de questões, de que se 
destacam: 
- A que consiste em saber se o particular lesado pelo crime poderá 
obter, numa acção penal pendente, um ressarcimento desses danos; 
- Se, para o efeito, terá de deduzir um pedido autónomo, 
desencadeando um processo próprio ou se o juiz tem poderes para, 
independentemente do pedido, condenar o réu no pagamento de uma 
quantia a título de reparação pelos danos sofridos pelo lesado; 
- Se o pedido do lesado terá de efectuar-se obrigatoriamente na acção 
penal que estiver pendente, ou poderá ser deduzido em separado; 
- Se, por último, o encargo da indemnização deve ser suportado por 
quem seja réu no processo criminal, ou por entidades públicas. 
A razão de ser desta última questão reside no facto de certas teorias 
modernas dominantes da Criminologia pugnaram pela ideia da co-
responsabilidade do Estado e da comunidade no que respeita ao 
agravamento da criminalidade. Tome-se como exemplo a cultura 
institucionalizada da violência, disseminada pelas mais diversas formas 
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e meios, de que se destaca a televisão e o cinema. Em reforço ainda 
desta ideia, vem o facto de, não raras vezes, ser a própria vítima que 
se cólica em circunstâncias favoráveis para a perpetração do crime. 
No que respeita às demais questões acima enunciadas, a sua resposta 
será encontrada ao longo do desenvolvimento que segue. 
No tocante à inter-relação entre a acção civil e a acção penal, várias 
soluções têm sido adoptadas ao longo do tempo. Actualmente, a 
possibilidade de o lesado obter, no processo penal, o ressarcimento 
dos danos emergentes de uma infracção criminal só não é admitida 
nos sistemas que consagram uma absoluta independência ou 
separação das acções penal e civil. Nestes últimos, tende-se a purificar 
o processo penal de todas as questões relativas à reparação pecuniária 
do dano causado pelo facto criminoso. 
Mas vejamos quais as posições doutrinárias que se perfilham sobre o 
assunto: 
Sistema da absoluta identidade das acções civis e criminais 
Este sistema aglutinava os dois tipos de processo (civil e penal), 
reflectindo um estádio primitivo no tratamento deste problema. Era o 
chamado sistema da identidade, a que só se faz referência por mero 
interesse histórico. Corresponde a uma fase de evolução em que se 
confundia o direito penal com o direito civil e a uma concepção do 
processo penal onde não está ainda presente o interesse da sociedade 
na punição do culpado, mas apenas o interesse da vítima em obter 
vingança e reparação. 
Sistema da absoluta independência 
Preconiza este sistema a absoluta independência dos dois processos. 
Esta é a orientação acentuadamente individualista e tradicional no 
direito anglo-saxónio. 
Sistema da adesão optativa 
O sistema da adesão tem como elemento essencial a possibilidade ou 
mesmo a obrigatoriedade de juntar a acção civil ao processo penal, 
permitindo ou impondo que a jurisdição penal se pronuncie sobre 
objecto da acção civil. 
Legislações há que combinam o sistema da adesão com o da 
alternatividade ou opção. O fundamento deste sistema está na 
necessidade de se acautelar os perigos que possam advir para a 
satisfação plena dos direitos civis do lesado no sistema de adesão, 
dada a natureza distinta dos sistemas processuais. Segundo este 
sistema, o lesado escolhe livremente ou a jurisdição penal ou a 
jurisdição civil para apreciar o seu pedido civil resultante da infracção. 
Contudo, escolhida uma via não poderá o lesado lançar mão de outra 
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(este é o sistema vigente na Franca, Alemanha, Itália e Espanha). 
Sistema da adesão vinculada 
Outros sistemas, porém, tendo em conta as particulares necessidades 
sociais que só ficam satisfeitas com a efectividade da indemnização 
devida por um crime, determinam o carácter oficioso do arbitramento 
da indemnização e chegam mesmo a considera-las uma autêntica 
parte da sanção penal. Daí a consequente obrigatoriedade de adesão 
da acção civil ao processo penal e de fixação de indemnização em caso 
de condenação. 
É este o caso criado, entre nós pelo artigo 29º do C. P. Penal quando 
dispõe: “o pedido de indemnização por perdas e danos resultantes de 
um facto punível, por quem sejam responsáveis os seus agentes, deve 
fazer-se no processo em que correr a acção penal…” 
Tal sistema tem por fundamento e em primeira linha a ideia defendida 
pela escola positivista italiana, representada por E. FERRI49, do 
interesse social existente na obrigatoriedade de o delinquente reparar 
o prejuízo civil decorrente do crime: o dano ex delicto, essencialmente 
distinto do dano ex contracto e subsistente em qualquer infracção 
penal, deveria ser sempre obrigatoriamente reparado no interesse da 
defesa social. Não constituindo teoreticamente pena, é todavia uma 
sanção reparatória, consequência necessária da infracção a ser 
imposta, não só para a legítima reparação da parte lesada, mas 
também como sanção suficiente para a violação decorrente de lei 
penal. 
Mostra-se, assim, mais adequada à realização daquelas funções a 
obrigatoriedade da dependência processual do pedido civil no 
processo penal. Com isso, cumpre-se a função eminentemente pública 
ligada à indemnização, mas também as exigências compreensíveis de 
economia processual, protecção do lesado e auxílio à função 
repressiva do direito penal (artigo 34º do C. P. Penal). Com efeito, 
dispõe este preceito legal que “o juiz, no caso de condenação, 
arbitrará aos ofendidos uma quantia como reparação por perdas e 
danos, ainda que lhe não tenha sido requerida”. 
Verifica-se, pois, que a lei processual penal (art. 29º) manda cumular 
com a acção penal a indemnização do dano causado pela infracção 
penal. No que respeita à restituição das coisas, aplicam-seas regras 
dos artigos 29º e seguintes do C. P. Penal, não obstante ser um meio 
de indemnização. No caso, porém, de as ditas coisas não poderem ser 
restituídas valem as mesmas regras e, bem assim, no que respeita às 
despesas feitas pelo lesado para obter a indemnização. Estas últimas 
não se confundem com a indemnização pois não resultam do crime. 
 
49 In Principii di diritto criminale e sociologia criminale. 
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Deste modo, os artigos 29º e seguintes referem-se apenas à 
responsabilidade civil emergente da infracção. Esta solução adoptada 
pelo nosso Código não é de todo pacífica, havendo em seu redor 
fundamentos a favor e contra. 
A favor refere-se que: 
I. A acumulação tem a vantagem da economia processual; 
II. A indemnização serve como adjuvante da pena criminal; 
III. A parte lesada, intervindo no processo penal, pode auxiliar a 
acção do tribunal criminal; 
IV. O juiz civil não está, muitas vezes em tão boas condições para 
avaliar o dano moral como o juiz criminal, perante o qual o 
delito aparece com toda a veemência; 
V. Muitos lesados não têm meios para demandar a indemnização 
no juízo civil; 
VI. O processo criminal é simples, rápido e mais inacessível a tricas 
forenses. 
Em contrário, observa-se: 
a) As duas responsabilidades têm fundamentos diferentes; 
b) Os critérios para apreciação da responsabilidade são também 
diferentes, dado que, na responsabilidade criminal é precisa a 
imputabilidade moral do delinquente, enquanto que na 
responsabilidade civil não tem a mesma importância; 
c) O objecto das sentenças é distinto, pois, na sentença penal, 
pune-se o delinquente na sua pessoa, e na sentença civil, ele é 
condenado a indemnizar com os seus bens; 
d) A acção penal compete ao Ministério Público (acção pública), 
sendo dispensável que o lesado se constitua parte acusadora, 
ao passo que a acção civil tem de ser intentada pelo lesado; 
e) A acção penal só pode ser movida contra o réu, enquanto a 
acção civil tem natureza patrimonial, podendo a obrigação ser 
exigida aos herdeiros e a codevedores solidários sem 
responsabilidade criminal; 
f) A acção penal, com o seu ambiente sentimental, pode postular 
a serena apreciação dos factos; 
g) Se o lesado se contenta com a indemnização, não há 
necessidade de o obrigar a colaborara com o Ministério Público 
na acusação, ou a acusar um crime particular. 
Como quer que seja, o certo é que o Código Processual Penal vigente 
adoptou a doutrina da cumulação (arts. 29º e 34º). 
Na verdade, muitas pessoas lesadas pelo facto ilícito deixariam de 
receber indemnização se esta não fosse fixada em processo penal. 
Com efeito a necessidade de intentar no tribunal civil, a acção de 
indemnização levaria a que muitos não recebessem qualquer 
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indemnização. 
Para além disso, economiza-se tempo, incómodos e despesas, evitam-
se decisões de certo modo contraditórias. De considerar ainda que o 
juízo penal está, em regra, em melhor situação de julgar a questão da 
indemnização, pois tem de conhecer da infracção e das suas 
circunstâncias. 
Posto isto, há que examinar o problema da determinação das partes 
quanto à acção civil que se deverá seguir as disposições pertinentes do 
Código de Processo Civil. Todavia, a influência da orgânica do processo 
penal sobre a estrutura da acção penal conexa é manifesta. A acção 
civil acha-se acomodada e absorvida pela acção penal. 
A conexão da acção civil com o processo penal pode alterar ou exigir 
um complemento à doutrina das partes em processo penal. Não é pois 
exclusivamente em função dos preceitos do processo civil que se 
determina a capacidade e a legitimidade das partes na acção civil em 
processo penal. 
Qual então a influência modificadora do processo penal incidente 
sobre esta particular questão na acção civil? O artigo 29º do C. P. 
Penal declara que os réus são os agentes da infracção. Todavia, poderá 
haver outros responsáveis civilmente, que não sejam os autores da 
infracção penal. Quanto a estes do C. P. Penal não prevê a sua 
intervenção no processo. A acção civil no processo penal só pode ser 
exercida contra aqueles responsáveis civis que forem conjuntamente 
arguidos no processo penal. Estão pois, de fora todos aqueles que com 
ele sejam solidariamente responsáveis, ou aos quais cabe uma 
responsabilidade subsidiária, e ainda os garantes da responsabilidade, 
ou seja, as empresas seguradoras para os quais tenha sido transferida 
a obrigação resultante da responsabilidade civil. 
Diferentemente se passa, porém, no que respeita aos processos 
penais que tenham por objecto infracções previstas pelo Código da 
Estrada. Na verdade, do artigo 67º daquele diploma legal extrai-se que 
poderão intervir na acção civil, mesmo quando exercida em acção 
penal, os civilmente responsáveis pelo facto imputado ao arguido. 
Têm, assim, intervenção como parte em processo penal, e 
relativamente ao objecto da acção civil, pessoas que, como partes não 
têm intervenção no processo penal. 
O C. P. Penal não prevê a intervenção dos credores, do ponto de vista 
activo no processo penal, mesmo daqueles que podem intervir como 
parte acusadora ou assistentes, todos eles legitimados 
independentemente de qualquer posição de credores em razão do 
direito civil à indemnização. Nem o conteúdo do § 1º do artigo 34º do 
C. P. Penal permite tal facto, embora possa parecer indicar o contrário. 
Dispõe, tão-somente, que no processo penal se concederá 
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indemnização mesmo a aqueles que não podem intervir como partes. 
Concede, assim, a lei reparação civil a pessoas diversas dos ofendidos 
pelos crimes. 
As partes civis na acção penal têm uma intervenção limitada, de tal 
modo que devem, normalmente, coincidir com quem possa revestir 
igualmente a posição de parte na acção penal. 
A conexão da responsabilidade civil com a responsabilidade penal tem 
efeitos na estrutura do processo penal, porquanto nesta se integra, 
nos casos indicados pela lei, uma acção cível. A instauração da acção 
civil em processo penal é acessória da acção penal; as partes na acção 
civil são também indirectamente acessórias da sua posição processual 
na acção penal. 
Como regra, o pedido de indemnização por perdas e danos resultante 
de um facto punível deve fazer-se no correspondente processo penal 
(artigo 29º do C. P. Penal). Só pode fazer-se separadamente perante o 
tribunal cível nos casos em que a acção penal não tenha tido 
andamento penal, designadamente: 
- Se, seis meses após a denúncia do facto criminoso, o Ministério 
Público não exercer a acção penal ou a acção penal se extinguir; 
- Se o processo penal instaurado tiver sido arquivado ou o réu 
absolvido e, bem assim, nos casos em que, ou não se instaurou a 
acção penal ou, instaurada, se extinguiu ou terminou sem a verificação 
do facto criminoso; 
- Se, finalmente, o processo esteve sem andamento durante seis 
meses (arts. 30º e 33º do C. P. Penal). 
A lei processual vigente estabelece um aforma de conexão entre o 
direito à acção civil e o direito de acusação particular ou de 
participação do crime em juízo, nos chamados crimes semipúblicos. 
Nestes casos, a acção civil recobra inteira autonomia e pode ser 
livremente intentada na jurisdição civil, mas o uso desta liberdade 
equivale à renúncia à acusação particular em processo penal, e à 
invalidadeda denúncia em juízo, nos casos em que a denúncia 
particular condiciona o exercício da acção penal. Em consequência 
disso, a transação na acção civil tem idêntico efeito (art. 30º § 1º e 2º 
e art. 31º do C. P. Penal). 
Autores na acção civil podem ser todos os que sejam partes legítimas 
segundo as noções do processo civil. Não é necessário que possam 
constituir-se ou se tenham constituído assistentes em processo penal 
(art. 32º e 34º § 10º do C. P. Penal). 
Quanto aos titulares passivos da indemnização civil são, em regra, os 
réus na acção penal. A indemnização 
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deve ser, em princípio, pedida em requerimento ou petição articulada, 
mas a concessão da indemnização não depende da formulação 
expressa do pedido (art. 32º § 2º e art. 34º do C. P. Penal). 
Pelas perdas e danos pode ser responsável civilmente outrem além do 
autor do crime. Prevê ainda a legislação, em alguns casos uma 
responsabilidade civil do terceiro, pelo quantitativo da pena de multa. 
Tal acontece em algumas hipóteses do direito aduaneiro. De 
considerar ainda que a responsabilidade civil de terceiros, que não 
podem intervir no processo é verificada, pode determinar a 
condenação destes sem defesa processual directa. 
De assinalar, por fim, que o critério para a fixação do conteúdo da 
prestação na indemnização por perdas e danos por casos de 
responsabilidade civil conexa com a criminal consta do § 2º do art. 34º 
do C. P. Penal. Este preceito aplica-se, quer nos casos em que a 
indemnização é fixada em processo penal, quer quando é fixada no 
processo civil. 
Resumindo: 
I – As partes na acção civil conexa com a acção penal podem ser o 
lesado (que corresponde ao autor na correspondente acção 
declarativa de condenação em processo civil); os demandados (que 
correspondem aos réus na correspondente acção em processo civil); e 
os terceiros intervenientes (que correspondem às várias figuras de 
terceiros previstas no art. 320º do C.P. Civil e que assumam a posição 
de parte na acção civil conexa com a criminal, do mesmo modo que é 
permitido no processo civil). 
Às partes aplicam-se os princípios próprios do processo civil, 
nomeadamente no que respeita à capacidade judiciária, activa ou 
passiva. Neste particular aspecto, referência especial deve ser dada no 
qie respeita aos menores. Embora a capacidade judiciária penal seja 
plena a partir dos 16 anos, não o é para o pedido civil, ainda que o 
demandado seja arguido. 
Os menores de 18 anos carecem de capacidade judiciária civil (arts. 
122º e 123º do Código Civil e 9º, nº 2, do C. P. Civil) e a sua capacidade 
é suprida por representação. O menor, relativamente ao pedido de 
indemnização civil tem de ser representado pelo pai, mãe, tutor ou 
administrador dos bens. O mesmo se passa em relação aos interditos e 
inabilitados; 
II – A legitimidade activa para a formulação do pedido não depende da 
prévia constituição como parte acusadora (v. arts. 32º do C. P. Penal 
O artigo 34º do C. P. Penal permite a atribuição do direito de 
indemnização, não só aos ofendidos (corpo do artigo), como também 
a outras pessoas (§ 1º), ou seja, a 
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pessoas que podem não ser sequer assistentes no processo penal. 
O Ministério Público tem legitimidade nos termos do § 1º do artigo 
32º do C. P. Penal. Legitimidade têm também todos os titulares, 
segundo a lei civil, do direito a indemnização – v. g., os herdeiros do 
ofendido, seja por direito próprio (como no caso dos filhos da vítima 
de homicídio), seja por via do direito sucessório. 
Tem legitimidade passiva quem for arguido em processo penal. Esta é 
a regra básica. Exceptuam-se, no entanto, as pessoas apenas 
civilmente responsáveis (v. art. 57º, 503º e seguintes e 507º do Código 
Civil). 
Decorre da regra básica acima citada que esta legitimidade passiva 
não deverá ser extensiva analogicamente aos casos de danos causados 
por qualquer infracção. 
III – No que respeita à representação, o lesado tem de ser 
representado, ou pelo Ministério Público, ou por advogado (v. § 1º do 
artigo 32º do C. P. Penal). 
Dos civilmente responsáveis pelas multas e indemnizações 
O civilmente responsável pelas multas e indemnizações constitui um 
sujeito acessório na relação processual penal. 
O C. P. Penal não prevê a intervenção deste sujeito. Todavia, a lei 
substantiva prevê a responsabilização de terceiros pelo pagamento de 
multas e indemnizações alocadas ao arguido – v. artigo 5º da Lei nº 
9/87, de 19 de Setembro. Não se trata, porém de responsabilidade 
meramente civil pelos danos, casos em que estes terceiros devem ser 
demandados como partes no pedido civil, mas de responsabilidade, 
ainda que de natureza civil, pelas multas e indemnizações em que os 
representantes foram penalmente condenados. 
Poderão estes terceiros civilmente responsáveis pelo pagamento de 
multas e indemnizações em que foram penalmente condenados os 
seus representantes ser também condenados sem terem intervenção 
no processo? A resposta é logicamente negativa, pois ninguém pode 
ser condenado sem ter tido a possibilidade de se defender. Todavia, 
nos termos do C. P. Penal vigente não se autoriza a intervenção destes 
terceiros, a não ser nos casos já acima enunciados. 
A volta desta questão, a doutrina divide-se sobre a melhor solução. 
Para uns, a acusação deveria ser também deduzida contra a pessoa 
civilmente responsável pelo pagamento das multas a que o arguido 
fosse penalmente condenado. Outros consideram que a acusação 
apenas deveria ser deduzida contra o responsável penal, servindo a 
sentença de condenação de título executivo também contra pessoa 
apenas civilmente responsável, podendo esta, porém, defender-se na 
execução mediante embargos. Não 
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parece, porém, que esta última posição seja sustentável. Na verdade, 
no processo de execução a legitimidade toma um aspecto formal e 
determina-se pela regra do artigo 55º do C. P. Civil. Veja-se também, a 
propósito, o que dispõe o artigo 57º do mesmo diploma legal. 
Parece-nos, por isso, que os terceiros civilmente responsáveis pelas 
multas e indemnizações a que for condenado o arguido deve também 
intervir no processo como responsáveis civis, assumindo, 
consequentemente, o estatuto de sujeitos processuais. 
Sumário 
O processo penal, como relação da vida comunitária, não se conforma 
a si mesmo, mas exige uma actuação de pessoas e entidades como 
força ou meio de desenvolvimento processual. No tocante aos sujeitos 
processuais, alguns autores avançam o entendimento de que existem 
sujeitos principais e sujeitos secundários, porém, esta classificação é 
de ordem doutrinal, não existindo na lei algum posicionamento em 
torno. 
Os tribunais estão divididos em categorias e para cada cumpre 
obedecer as competências que da lei nascem e a existência destes 
facilita a consolidação dos direitos fundamntais dos cidadãos, 
mormente a protecção primária dos mesmos bem como o direito ao 
recurso em segunda istância. Em relação a cada feito criminal, a cada 
caso penal em concreto, importa, pois, que a lei determine qual, de 
entre os tribunais existentes, deve apreciar e julgar a causa. É nisto 
que se traduz a determinação da competência em processo penal. A 
competência não se presume. Ela advêm da lei. 
Como se pode entender, o Ministério Público também é uma das 
figuras essenciais do processo penal, porém, a legitimidade deste terá 
de advirda natureza pública do crime, ou da participação do ofendido 
se se tratar de crime semipúblico, ou da participação e acusação 
particular se se tratar de crime particular. 
 
Exercícios do tema III. Unidade temática III: 
1. A função do Ministério Público tem o fim de conseguir, a todo 
o custo, a condenação do arguido. 
a) Verdadeiro; 
b) Falso. 
A resposta correcta é: B. 
 
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2. O juiz penal pode exercer a jurisdição no processo em que seu 
cônjuge estiver funcionando como perito. 
a) Falso; 
b) Verdadeiro. 
A resposta correcta é: A. 
 
3. A função do defensor em processo penal é exercer de forma 
mais aguerrida possível a defesa, de modo a obter, a todo o 
custo a absolvição do réu. 
a) Verdadeiro 
b) Falso. 
A resposta correcta é: A. 
 
4. Quem são os considerados participantes processuais: 
a) Os directores provinciais da justiça; 
b) Os funcionários da secretaria do tribunal; 
c) As pessoas e entidades como força ou meio de 
desenvolvimento processual; 
d) Os agentes penitenciários e o réu. 
A resposta correcta é: C. 
 
5. A organização dos tribunais obedece a seguinte ordem: 
a) Tribunais Judiciais de Província, Tribunal Supremo, 
Tribunais Superiores de Recurso, Tribunais Judiciais de 
Distrito 
b) Tribunais Judiciais de Distrito, Tribunais Superiores de 
Recurso, Tribunais Judiciais de Província, Tribunal Supremo; 
c) Tribunais Superiores de Recurso, Tribunal Supremo 
Tribunais Judiciais de Província, Tribunais Judiciais de 
Distrito; 
d) Tribunal Supremo, Tribunais Superiores de Recurso, 
Tribunais Judiciais de Província, Tribunais Judiciais de 
Distrito; 
 
A resposta correcta é: D. 
 
6. Os Tribunais são órgãos de soberania, estes administram a 
justiça: 
a) Em nome do povo; 
b) Em nome do juiz penal; 
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c) Em nome dos familiares do réu; 
d) Nenhuma das opções acima é correcta. 
 
A resposta correcta é: A. 
 
7. Os tribunais não podem ser órgãos independentes em um 
Estado de Direito Democrático como Moçambique: 
 
a) Os tribunais são independentes; 
b) Os tribunais não são independentes; 
c) Os tribunais são independentes apenas na fase de julgamento; 
d) Os tribunais os tribunais não são independentes na fase de 
proferir a sentença, cabendo sempre esperar por sugestão do 
Conselho Superior de Magistratura Judicial. 
A resposta correcta é: A. 
8. O termo nullum crimen, nulla poena sine lege significa: 
a) Não existe lei sem crime; 
b) Não existe pena sem crime; 
c) Não existe lei sem crime e pena; 
d) Não existe crime, e pena sem lei. 
A resposta correcta é: D. 
 
9. A conexão subjectiva significa: 
a) Identidade do agente e uma pluralidade de crimes; 
b) Uma semelhança de sentimentos dos réus; 
c) Pensamentos comuns entre o juiz e o Ministério Público; 
d) A ocorrência de dois tipos legais de crime contra uma só 
pessoa. 
A resposta correcta é: A. 
 
10. A conexão objectiva verifica – se quando: 
a) Os réus tinham o mesmo objectivo; 
b) Determinada infracção foi levada a cabo por diversos agentes; 
c) Os réus actuaram com o mesmo tipo de instrumentos; 
d) A sociedade apoia aquele tipo de práticas criminosas. 
A resposta correcta é: B. 
 
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11. O Ministério Público não tem autonomia na administração da 
justiça porque depende sempre do juiz penal: 
a) Verdadeiro; 
b) Falso. 
A resposta correcta é: B. 
 
12. A direcção da instrução preparatória, a dedução da acusação 
e a sua representação em julgamento e a abstenção de acusar 
são principais funções: 
a) Do Tribunal; 
b) Do Ministério da Justiça; 
c) Dos Serviços Nacionais Penitenciários; 
d) Do Ministério Público. 
A resposta correcta é: D. 
 
13. Falar de réu e arguido é a mesma realidade: 
a) Verdadeiro; 
b) Falso; 
A resposta correcta é: B. 
 
14. No processo penal moçambicano o arguido: 
a) Goza de direitos e deveres; 
b) Não goza de nenhum direito pois será indubitavelmente 
condenado; 
c) Goza de direitos apenas; 
d) Apenas goza de deveres. 
A resposta correcta é: A. 
 
15. Desde que alguém tenha a qualidade de arguido em processo 
penal, deve ser declarado culpado. 
a) Falso; 
b) Verdadeiro. 
A resposta correcta é: A. 
 
 
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TEMA IV – A PROVA E OS MEIOS DE COCÇÃO 
UNIDADE TEMÁTICA IV: DA PROVA E OS MEIOS DE COCÇÃO 
Introdução 
Ao se referir que o direito penal centra o seu estudo nas condutas 
sociais penalmente relevantes e consequentemente aplicar uma 
sanção devida, em processo penal os factos que são o pressuposto da 
aplicação da lei penal constituem o fundamento de facto da sentença, 
e determinam a graduação da responsabilidade. As provas em 
processo penal constituem grandes instrumentos para a realização do 
fim do processo. No nosso ordenamento jurídico encontramos vários 
tipos de provas, bem como ciências que auxiliam o processo penal 
para a sua efectivação. Neste contexto, para garantir a segurança dos 
meios de prova necessários à prossecução do processo e assegurar a 
exequibilidade da decisão final, a lei prevê a aplicação de medidas 
coercitivas que restringem a esfera jurídica individual daqueles a quem 
se dirigem. Através destas medidas, aos órgãos competentes lhes são 
atribuídas competências legais para actuarem nos devidos termos 
para assegurar a realização do Direito. Desde já, deve-se salientar que 
quando um cidadão passa a ter o atributo de arguido, 
consequentemente adquire certos direitos e deveres, não obstante as 
consequências jurídicas que lhe podem surgir de lei pela infracção 
criminal cometida. 
 
Objectivos específicos 
 Saber o conceito de prova e os seus fins; 
 Conhecer os tipos de provas existentes no nosso ordenamento 
jurídico; 
 Conhecer os meios de coacção; 
 Aprender sobre as garantias da liberdade individual dos 
cidadãos. 
Noções gerais sobre a prova. Fim da prova 
Referiu-se a propósito do objecto do processo penal que el se destina 
a aplicar o direito ao caso concreto. E esta actividade de aplicação do 
direito tem por objecto realidades de facto. Na verdade, a lei prevê em 
abstracto uma hipótese e, seguidamente, indica qual o seu tratamento 
jurídico. Assim, a aplicação da norma pressupõe a verificação da 
hipótese de facto prevista. 
Dispõe o artigo 341º do Código Civil que “as provas têm por função a 
demonstração da realidade dos factos”. Demonstrar a verdade dos 
factos é alcançar um juízo de certeza sobre os mesmos factos. 
A decisão judicial – meta que o processo visa a alcançar consta de duas 
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partes: a verificação dos factos que condicionam a aplicação da lei, e a 
própria aplicação da lei. Não basta, assim, o conhecimento da ciência 
jurídica para proferir uma boa sentença, mesmo que erudita. É 
necessário algo mais. A justeza da decisão assenta primordialmente na 
verdade dos factos admitida como pressuposto da aplicação do 
direito. 
Ao fazer referência sobre o juízo de certeza, é necessário considerar 
duas realidades distintas: o juízo lógico e o juízo histórico. O juízo 
lógico respeita à exactidãodum raciocínio, duma operação mental, 
conduz necessariamente a uma certeza absoluta. O juízo histórico 
reporta-se à verificação de um facto e, por essa razão, pode não 
conduzir a um resultado seguro. Não acarreta uma certeza absoluta, 
mas relativa; não mera certeza objectiva, mas uma opinião de certeza 
que não está, todavia, isenta de falhas. Tanto assim é que o juízo 
histórico pode ter por simples resultado a dúvida. 
O juízo lógico é hipotético, dá como verificadas certas premissas (os 
pressupostos do facto) e incide sobre as relações daquelas com a 
conclusão. 
O juízo histórico é um juízo real, tem por objectos aquelas premissas, 
não incide sobre uma relacionação abstracta, mas sobre uma 
realidade concreta. 
 De um modo geral, a distinção entre juízo lógico e histórico 
corresponde à distinção entre o juízo de direito e o juízo de facto. O 
juízo de facto é um juízo histórico. 
 Do que ficou dito, extrai-se que a prova não conduz à certeza 
objectiva, à certeza absoluta. Na verdade, ela não está ao alcance dos 
meios inseguros de que o homem dispõe. A única meta possível é a 
certeza moral, a presunção de verdade, ou seja a verdade relativa. 
 Deste modo, impõe-se, na busca da verdade material a adopção de 
uma postura de humildade, pois que o homem não logra alcançar 
totalmente o fundo das coisas, no reino da verdade. Por isso, o esforço 
na sua busca nunca é desmesurado. Assim, a convicção terá de obter-
se por um caminho de prudência já que o risco de erro está sempre 
presente acompanhando a certeza humana subjacente ao juízo 
histórico. 
Temos, assim que o fim da prova é a demonstração da verdade dos 
factos, alicerce da convicção sobre a sua existência que, por sua vez 
são o pressuposto da aplicação da lei. 
Em processo penal os factos que são o pressuposto da aplicação da lei 
penal constituem o fundamento de facto da sentença, quer 
absolutória, quer condenatória, e determinam a graduação da 
responsabilidade. São, numa palavra, 
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o crime, nos seus elementos constitutivos essenciais, quer positivos, 
quer negativos ou impeditivos; e nas suas circunstâncias, a 
personalidade do agente do crime, na medida em que o facto 
criminoso não é algo de separável, nem mesmo em abstracto, do seu 
autor. 
Espécies de prova 
A prova pode ser de distinta natureza. A prova é pessoal quando 
resulta de um acto da pessoa (o testemunho, a declaração pericial). É 
real quando resulta da observação de coisas (o documento, o 
instrumento do crime). 
Na prova pessoal, o meio de prova é o homem, enquanto na prova 
real, uma coisa. Quando o homem é tomado como objecto de 
observação ou exame, não é meio de prova pessoal, mas real. 
Prova testemunhal e por declarações 
Tanto as testemunhas como os declarantes narram no processo, por 
conhecimento dos sentidos, factos jurídicos relevantes. É comum o 
conhecimento de tais factos ser obtido através da visão ou audição 
mas é igualmente testemunho o que provenha dos demais sentidos, 
desde que se revele apropriado para a prova dos factos. O testemunho 
pode ser directo ou indirecto, consoante se reporta imediatamente 
aos factos probandos, ou aos meios de prova destes factos 
(testemunho de vista, de ouvir dizer, em gíria popular). 
A declaração das testemunhas, por mais objectiva que ela seja, não 
está isenta de induções ou juízos da própria testemunha; os factos 
passam pela consciência da testemunha e são reproduzidos ou 
narrados por ela. O relato é naturalmente a expressão do modo como 
a testemunha os pode compreender, daí resultando as dificuldades 
que acompanham a apreciação da prova testemunhal. 
Em processo penal não há prova pré-constituída. A prova tem de 
buscar-se onde ocasionalmente se encontre. Os delinquentes 
procuram normalmente evitar a existência de qualquer prova, donde a 
impossibilidade de excluir da instrução qualquer meio probatório. Por 
isso, podem ser ouvidas no processo todas as pessoas, até os anormais 
não interditos. No entanto, a apreciação da prova terá de ter em linha 
de conta a maior ou menor credibilidade das várias declarações. 
Em função da capacidade probatória, distinguem-se testemunhas e 
declarantes. O advento do princípio da livre convicção do juiz retirou a 
importância jurídica que lhe atribuía. A divisão em testemunhas e 
declarantes reflecte, de certo modo, aquela antiga classificação. 
Inábeis ou incapazes para depor são os interditos por demência e os 
menores com absoluta incapacidade natural (art. 216º, nºs 1º e 2º, e § 
2º do mesmo artigo do C. P. Penal). 
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Declarantes são, além dos menores de 7 anos, todas as pessoas 
referidas nos nºs 3º a 6º e § 1º e 2º do art. 216º. Os declarantes só são 
ouvidos quando o juiz assim i entender. 
São os seguintes deveres que a lei impõe às testemunhas e 
declarantes: o dever de comparência, o de depor e o de prestar 
juramento ou compromisso de honra. 
a) Dever de comparência 
As testemunhas ou declarantes, devidamente notificados ou avisados 
(art. 83º) ou requisitados (art. 85º), devem comparecer no dia, hora e 
local que lhes forem indicados, sob pena de sanção cominada no art. 
91º. 
As entidades dispensadas do dever de comparência, fruindo do 
privilégio de serem ouvidas nas suas residências ou no lugar por elas 
indicado são as referenciadas nos arts. 219º e 221º do C. P. Penal e no 
art. 624º do C. P. Civil50; 
b) Dever de depor 
As testemunhas e os declarantes têm o dever de prestar depoimento, 
declarando a verdade. Nem as testemunhas bem os declarantes 
podem recusar-se a responder às perguntas que lhes forem feitas (art. 
242º do C. P. Penal). A recusa injustificada constitui crime de 
desobediência qualificada. Tal crime acarreta, de imediato, a captura 
da testemunha ou declarante, sem faculdade de acusação ou mesmo 
liberdade provisória enquanto não tiver respondido em auto de corpo 
de delito. Se a perpetração do delito tiver lugar em audiência de 
julgamento, vigora em tal caso a disposição do artigo 411º do C. P. 
Penal. 
Os artigos 241º e 238º do C. P. Penal impõem às testemunhas e 
declarantes o dever de depor em conformidade com a verdade. A 
recusa é, no entanto, permitida em relação a todo o depoimento, 
tratando-se das pessoas referidas no artigo 216º § 2º, e em relação a 
parte do depoimento, por respeito ao segredo profissional ou segredo 
do Estado, tratando-se das seguintes pessoas: 
- Ministros de qualquer culto, advogados, procuradores, notários, 
médicos ou parteiras, sobre factos que lhes tenham sido confiados ou 
de que tenham conhecimento no exercício da sua profissão (artigo 
217º nº 1); 
 
50 A referência a “juiz da Relação”, “conselheiro de Estado” e “presidente da Camara 
Corporativa” não faz hoje sentido, por não existirem entre nós tais cargos políticos. 
Quanto aos arcebispos e bispos, entendemos não estarem abrangidos pela 
prerrogativa, face ao princípio da laicização do Estado, consagrado no art. 12º da 
Constituição da República. 
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- Funcionários púbicos, sobre factos que possam constituir segredo do 
Estado ou que, segundo a Lei, não puderam ser revelados sem 
autorização superior (artigo 217º nº2). O chefe do Estado poderá usar 
do meio de declarar que não tem conhecimento dos factos (art. 625º 
nº 2, do C. P. Civil). Os Ministros não depõem sobre segredo de Estado, 
o que deve ser invocado, poisque, por maioria de razão, devem ser 
compreendidos na disposição relativa a funcionários; 
- Quaisquer outras pessoas obrigadas a guardarem segredo 
profissional sobre os factos a que este respeita (art. 217º nº 3) ou 
sobre factos puníveis ou desonrosos por elas praticados ou por seus 
descendentes ou ascendentes, irmãos, afins nos mesmos graus, 
marido ou mulher (art. 218º e § único. 
c) Dever de prestar juramento 
O C. P. Penal distingue testemunhas e declarantes em função duma 
abstracta possibilidade de suspeição destes últimos. Daí a razão para a 
não ajuramentação dos declarantes (art. 97º). A este propósito, 
CAVALEIRO DE FERREIRA escreve: 
“Pareceria, em conformidade, que a punição da falsidade das 
declarações ou do testemunho deveria ser também de diferente 
gravidade. No entanto, não é assim. O art. 238º do C. P. Penal pune o 
falso testemunho independentemente da exigência prévia da 
ajuramentação e comina uma maior ou menos penalidade consoante o 
testemunho falso é prestado em corpo de delito ou em audiência de 
discussão e julgamento51.” 
Parece, porém, não ser de perfilhar a possibilidade de o falso 
testemunho ser punido independentemente de ajuramentação prévia. 
Na verdade, o juramento é elemento essencial dos depoimentos. A 
recusa de jurar equivale à recusa de depor (art. 559º, nº 3, do C. P. 
Civil). Quanto às falsas declarações, o art. 242º do C. P. Penal 
estabelece que podem ser prestadas com juramento ou sem ele, 
fórmula que não existe no art. 238º daquele diploma legal. Com efeito, 
a inaplicabilidade do art. 238º aos depoimentos sem juramento tem 
sido sustentada por diversos autores. 
 O juramento reveste, na legislação actual, duas formas: juramento 
religioso e compromisso de honra. O C. P. Penal trata apenas do 
compromisso de honra (arts. 96º e 434º). O juramento religioso vem 
regulado no artigo 559º o C. P. Civil. A lei processual penal exige o 
juramento ou o compromisso de honra em audiência de discussão e 
julgamento (v. o citado artigo 434º). 
Nos depoimentos em corpo de delito, o artigo 231º é omisso quanto a 
sua exigência. Todavia, o § 1º do artigo 96º é positivo nesse sentido. 
 
51 Op. cit., II Volume, pág. 332. 
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Poderá perguntar-se se o conteúdo do § 1º do artigo 96º se refere 
apenas à audiência de discussão e julgamento. A praxis incluiu-se 
decididamente no sentido da obrigatoriedade da ajuramentação de 
testemunhas em todas as fases do processo, considerando como 
norma imperativa genuína, e não apenas como reguladora do 
formalismo do julgamento. 
Quanto aos direitos das testemunhas e declarantes, não são de 
destacar o direito de audiência, o direito à correcção do tribunal e o 
direito à indemnização. 
a) Direito de audiência 
Nos termos do artigo 231º do C. P. Penal, “as testemunhas serão 
perguntadas (…) acerca de todos os elementos e circunstâncias da 
infracção, tempo, lugar e modo como foi cometida, fim com que foi 
praticada, causa que a determinou, dano moral e material por ela 
produzidos e ainda sobre o carácter, antecedentes, conduta e situação 
económica e social do arguido e do ofendido …”. Deste modo se 
enuncia, com bastante amplitude, o tema da inquirição em corpo de 
delito. Com isso, pretende a lei evitar que seja desvirtuado o 
conhecimento da testemunha, mediante a fixação de limites mais 
estreitos ao depoimento do que o efectivo conhecimento da 
testemunha. 
Através dos arts. 236º e 436º salvaguarda-se a natureza pessoal do 
depoimento, ao conferir à testemunha o direito de o redigir ou ditar 
para a acta. 
Em audiência, o objecto do processo encontra-se já definido pelo 
âmbito do despacho de pronúncia. Os factos sobre os quais recai a 
prova são os constantes daquele despacho e todos os demais 
favoráveis à defesa, quer alegados, quer resultantes da discussão da 
causa. 
Não obstante o artigo 435º limitar a incidência da prova testemunhal 
aos factos alegados, essa limitação só vale totalmente em relação ao 
objecto da acusação, pois que podem ser provados factos dirimentes 
ou atenuantes, embora não tenham sido alegados (art. 446º § único); 
b) Direito à correcção do tribunal 
As testemunhas são, como vimos, participantes processuais. Espera-se 
que o tribunal e os advogados tenham, para com elas, uma atitude 
deferente e correcta, de modo a salvaguardar a consideração que a 
todos é devida. 
Ao tribunal compete a protecção da honra e consideração das 
testemunhas, que são direitos de personalidade. Daí a conservação 
dos segredos pessoais, de tal sorte que, nos casos em que revelação se 
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mostre conveniente para a prova do objecto do processo, se justifica a 
decisão da audição da testemunha em audiência secreta. Assim se 
satisfarão os diversos interesses em jogo, e ao mesmo tempo se 
obterá um depoimento mais livre e, porventura, mais sincero; 
c) Direito a indemnização 
As testemunhas (com exclusão dos declarantes) podem pedir uma 
indemnização, quando chamadas a depor em audiência de julgamento 
(art. 157º e § 1º do art. 450º do C. P. Penal) segundo o qual só têm 
direito a indemnização as testemunhas que depõem na fase de 
julgamento). 
O depoimento das testemunhas e as declarações são actos pessoais. 
Não podem ser prestadas por procurados (art. 229º). Também não 
podem ser prestadas perante qualquer pessoa, ou perante autoridade 
diferente da que legalmente deve tomar o depoimento (art. 230º). Por 
outro lado, o depoimento, além de ser pessoal, é um acto isolado 
(arts. 230º e 432º). Inicia-se pela ajuramentação (art. 434º); segue-se a 
identificação da testemunha (art. 231º); em seguida, o art. 233º regula 
o depoimento sobre os factos. 
Prova documental 
Nos termos do artigo 245º do C. P. Penal “serão juntos aos autos todos 
os documentos que possam servir para a instrução do processo, salvo o 
disposto no artigo 194º”. 
Estes documentos, que podem ser obtidos por apreensão (art. 203º e 
208º), requisição (art. 92º e § único do art. 619º) ou por apresentação 
(arts. 234º e 246º), admitem a possibilidade de substituição do original 
por fotocópia com o mesmo valor probatório, desde que tenha sido 
com ele devidamente identificada nesse ou noutro processo (art. 
249º). Se cifrados, observar-se-á o disposto no artigo 248º e, se 
escritos em língua estrangeira ou pouco legíveis, o disposto no artigo 
247º. 
Pelo que respeita ao valor probatório dos factos constantes dos 
documentos, haverá que distinguir os documentos particulares dos 
autênticos ou autenticados. Se os factos constantes dos primeiros 
estão submetidos ao princípio da livre e íntima convicção do julgador, 
os constantes dos segundos constituem uma excepção a tal princípio, 
pois, nos termos do § único do art. 468º, “os factos constantes de 
documentos autênticos ou autenticados consideram-se provados e 
sobre eles não haverá quesitos, salvo o caso de falsidades”. 
A prova legal constituída por tais documentos, em que a verdade 
formal se sobrepõe à material, tem de ser entendida, caso o 
documento seja uma sentença, no sentido de apenas estarem 
subtraídos à apreciação do juiz as comprovações que caibam no 
 ISCED CURSO: Direito; Disciplina: Direito Processual Penal 
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âmbito do caso julgado52. Tal relevará, sobretudo, em matéria de 
decisão sobre questões prejudiciais em processo penal. 
A prova pericial (exames): função processual dos peritos 
O C. P. Penal trata dos peritos a propósitodos exames (art. 175º e 
segts.). Os exames são uma prova real. Os peritos elaboram um 
relatório e conclusões e prestam mesmo, quando necessário, 
declarações. Daí uma certa confusão com as testemunhas, que se 
incluem na prova pessoal. 
Os peritos não são prova real, intervêm na apreciação da prova. As 
coisas, vestígios, documentos ou mesmo pessoas podem ser valorados 
como prova. A apreciação desta prova pode requerer conhecimentos 
fora do alcance directo do julgador. É aí que intervém a perícia, a qual 
se manifesta na formulação de juízos de valor sobre a prova. 
O perito é um auxiliar do juiz, a sua contribuição no processo consiste 
na formulação de um parecer ou opinião sobre o significado ou valor 
dos meios de prova (art. 189º) 
 A perícia não é verdadeiramente um meio de prova, nem pessoal nem 
real. Ela visa auxiliar o julgador ou o instrutor do processo na função 
que lhe cabe de desvendar o dignificado de provas preexistentes ou de 
apreciar o seu valor. A apreciação da prova é função judicial, as 
conclusões a tirar são conteúdo do juízo do julgador. 
O perito, tal como o juiz extrai conclusões de certa matéria de facto, 
aprecia o significado e valor de meios de prova. Aprecia ou qualifica os 
factos à luz de conhecimentos científicos e técnicos. As conclusões dos 
peritos não tomam nunca a natureza de decisões, mas somente de 
pareceres. O C. P. Penal não esclarece devidamente quando é 
obrigatória a intervenção de peritos (v. arts. 179º e 175º e segts.). 
Os exames abrangem, no sentido lato, aquilo que o C. P. Civil se 
designa por avaliação, vistoria e exame, mas também a inspecção 
judicial. Neste último caso, o exame é feito directamente pelo juiz (ou 
pelo Ministério Público na instrução preparatória): v.g., inspecção ao 
local do crime (arts. 176º e 177º do C. P. Penal). 
A lei prevê casos em que a nomeação de peritos é obrigatória. Trata-se 
do que dispõem os artigos 191º e 181º, § 2º, para os exames 
cadavéricos ou autópsias; os arts. 192º, 125º e segts., e 498º para os 
exames de sanidade, de doença ou impossibilidade de trabalho; e para 
os exames de alienação mental (§ 2º do art. 181º). 
Em geral, todos os exames forenses devem ser feitos por peritos e 
bem assim os exames de reconhecimento de letra ou falsificação de 
documentos. Em princípio, a realização de exames por peritos 
 
52 Cfr. FIGUEIREDO DIAS, (n. 63), pág. 210. 
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depende da sua necessidade para a instrução ou para a apreciação da 
prova. Todavia, há exames que só devem ser efectuados quando 
absolutamente indispensáveis, designadamente os que possam 
ofender o pudor das pessoas (§ único do art. 178º). 
Como auxiliares que são da justiça, os peritos devem ter os 
conhecimentos técnicos necessários para a realização proveitosa do 
exame e, bem assim, a honestidade e a imparcialidade que são o 
suporte válido duma criteriosa apreciação. 
Tal como os juízes, os peritos não podem funcionar quando se 
verifiquem causas de impedimento ou suspeição (arts. 206º, com 
referência aos nºs 1º a 4º do art. 104º, e 113º, com referência ao art. 
112º). 
Os peritos não podem recusar a colaboração que lhes é pedida. Têm, 
no entanto, a faculdade de escusar-se, quer por não possuírem os 
conhecimentos indispensáveis para fazer o exame, quer por falta de 
material apropriado (183º). 
Os peritos não são escolhidos pelo juiz (na instrução preparatória, pelo 
Ministério Público) e são, normalmente, em número de dois. só em 
caso de extrema urgência, simplicidade do exame, ou pequena 
gravidade da infracção, é admissível um so perito (art. 179º). Os 
peritos devem ter sempre as habilitações necessárias (art. 180º). 
Nem sempre, porém os peritos são da escolha do juiz. Casos há em 
que os exames são feitos por organismos apropriados e oficiais (art. 
181º). Trata-se de casos em que os exames são feitos pelos serviços de 
Medicina Legal, ou quando são feitos em laboratórios oficiais 
especializados. 
Tal factos, no entanto, não veda a possibilidade de o juiz ordenar que 
os exames sejam feitos em laboratórios ou estabelecimentos 
científicos apropriados (art. 182º), quando os exames exijam 
conhecimentos extremamente especializados. 
Tal como as testemunhas, os peritos também estão sujeitos a deveres: 
o dever de comparência (art. 185º), o dever de formular o parecer 
com as conclusões devidamente fundamentadas (art. 189º) e o dever 
de prestar juramento ou compromisso de honra (art. 97º). 
Assiste-lhes, porém, o direito de informação para a adequada 
execução das suas obrigações de peritos. Porém, por isso, solicitar 
diligências ou esclarecimentos para a conveniente realização do 
exame (art. 187º). 
O exame por peritos desdobra-se em duas partes, sendo a primeira a 
observação dos objectos sujeitos a exame e a segunda as conclusões 
inferidas daquela observação, fundamentadas em regras científicas ou 
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técnicas adequadas. 
Processualmente, realizam-se na presença do juiz (ou do Ministério 
Público, na instrução preparatória) e assistência do Ministério Público. 
Podem assistir também os ofendidos, assistentes e arguidos (§§ 2º e 
3º do art. 179º). De salientar, no entanto, que a lei consagra um 
regime particular no que respeita aos exames que podem ser 
ofensivos do pudor das pessoas. Nestes casos, só devem estar 
presentes o juiz (ou o Ministério Público na instrução preparatória), 
podendo o examinando fazer-se acompanhar de uma ou duas pessoas 
da sua confiança (art. 178º § único). 
Nos exames efectuados nos organismos oficiais (serviços de Medicina 
Legal, estabelecimentos hospitalares, laboratórios e institutos 
científicos), prescinde-se da presença do juiz e é proibida a presença 
do arguido, ofendidos ou assistentes). 
Provas reais 
Noção e âmbito das provas reais 
Provas reais são coisas cuja apreciação permite tirar ilações sobre 
factos juridicamente relevantes. As coisas, como prova, são objeto de 
observação e também de conhecimento do seu conteúdo. É o caso da 
prova por documento. 
A prova documental tem idêntico valor probatório em processo penal 
e em processo civil. Os documentos autênticos ou autenticados fazem 
prova plena, salvo alegacão de falsidade (v. arts. 362º e seguintes e 
369º e seguintes do Código Civil). A prova por documentos autênticos 
ou autenticados é, mesmo em processo penal, uma prova legal, 
subtraída à livre apreciação da prova, em contaste com o princípio da 
verdade material. Quanto aos documentos particulares, readquire 
plenamente a sua eficácia o princípio gera da sua sujeição à apreciação 
judicial. 
As restantes coisas que constituem provas reais são objectos de 
observação, não são susceptíveis de conhecimento do seu conteúdo. 
As coisas são observáveis pelos sentidos: vista, audição, tacto, cheiro e 
gosto. É mais comum, no entanto, a percepção das coisas através da 
observação visual. 
As coisas não são provas em si mesmas, mas só na medida em que se 
relacionam com os factos probandos. Todavia, a própria assistência da 
coisa pode demonstrar um requisito essencial da infracção: por 
exemplo, o cadáver (que é prova directa do evento mortal) nos crimes 
de homicídio. 
Normalmente, a prova resulta de uma qualidade de coisa como, por 
exemplo, a arma que tenha feito fogo recentemente ou a moeda 
falsificada. Do mesmo modo, a 
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posição do objecto pode revelar-sede interesse: a arma no local do 
crime ou o objecto material do crime na posse do arguido. 
A prova real pode ser directa ou indirecta, quando se reporta a factos 
juridicamente relevantes como objecto do processo, ou a factos 
indiciantes. Pode ser mediata ou imediatamente observada, 
consoante as próprias coisas estão presentes no processo ou na 
audiência, ou substituídos por decalques, plantas, fotografias, cópias, 
etc. (art. 175º). 
As coisas, enquanto prova, abrangem também as pessoas e os 
cadáveres. A pessoa, como prova real, não age, suporta a observação 
ou o exame. Daí que a lei imponha certos cuidados na sua realização, 
com vista a salvaguardar-se o respeito e a dignidade devidas à pessoa 
humana. 
 
Importância das provas reais 
- A criminalística 
A falibilidade das provas pessoais não carece de ser realçada, donde a 
importância cada vez mais frequente da utilização das provas reais. 
Toda a evolução da instrução criminal se caracteriza pelo 
aproveitamento racional das provas reais. 
Os vestígios, consoante a espécie dos crimes, são da mais variada 
natureza: manchas, pegadas, impressões digitais, poeiras, objectos 
abandonados, vestígios de actividade (danos em coisas, como no 
arrombamento), vestígios de instrumentos do crime. 
Os vestígios materiais são prova indirecta, mas objectiva. Permitem, 
por isso, fiscalizar os resultados inseguros da prova pessoal e 
reconstituir mais seguramente a infracção ou algum elemento dela. 
A criminalística moderna, apoiando-se nos avanços da ciência e da 
técnica, logrou aperfeiçoar significativamente os resultados da 
investigação, mediante a utilização de provas materiais. Por isso, ela 
constitui hoje uma disciplina especializada e um auxiliar precioso dos 
órgãos encarregados da investigação criminal. 
Prova pessoal ou subjectiva 
Declarações do arguido – a confissão 
O arguido presta declarações no processo. Elas têm grande 
importância na busca da verdade material. Pois que, mesmo 
inverídicas, podem fornecer um ponto útil de partida para outras 
averiguações. As declarações do arguido são a expressão livre da sua 
personalidade, não se resumem a 
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simples narrações de factos. Não há, assim, verdadeira declaração sem 
liberdade. 
O arguido, enquanto declarante, não perde a sua qualidade de sujeito 
processual e, nesse sentido, a liberdade da sua declaração tem um 
efeito mais amplo que a das testemunhas. A declaração do arguido 
tem de ser feita livremente. Não pode ser obtida por coacção, nem 
automática (arts. 245º, nº 3, e 425º do C. P. Penal). As perguntas não 
podem ser sugestivas, cavilosas nem capciosas, nem acompanhadas 
de dolosas presunções, falsas promessas ou ameaças (art. 437º do C. 
P. Penal). 
Como parte no processo e, tendo em conta o respeito pelos direitos 
ou interesses da defesa, o arguido tem a faculdade prestar ou recusar 
as declarações ou de as prestar verídicas ou inverídicas. Tal não 
acontece como os demais declarantes a quem se impõe a obrigação 
jurídica de declarar a verdade (artigos 255º e 425º, § 2º, do C. P. 
Penal). 
Vem em reforço desta ideia a proibição por lei do uso de processos ou 
métodos irregulares de obter declarações comprometedoras do 
arguido, posto que esses métodos afectam a personalidade do mesmo 
e diminuem a liberdade da declaração. 
Deste modo, todas as cautelas legais se reconduzem ao princípio geral 
da garantia da liberdade da declaração. São, assim, irregulares todos 
os actos que se destinam a obter a confissão pela violência física ou 
moral, ou pela fraude. 
Em consequência, são inadmissíveis não apenas as torturas físicas, 
como também as simples ameaças de violência física ou prisão. São, 
pois, proibidas por lei, a tortura, a narcoanálise, a hipnose e outras 
formas de sugestão como meio de se obter declarações do arguido. 
A confissão em processo penal não tem o valor duma prova legal. Pelo 
facto de tais declarações serem comprometedoras, não determinam 
legalmente uma conclusão sobre a sua veracidade. Devem ser, 
portanto, sujeitas ao princípio da livre apreciação da prova. 
A lei impõe uma averiguação concreta do conteúdo da confissão e o 
seu confronto com os demais elementos de prova com vista a 
aquilatar-se da veracidade da confissão (arts. 174º e 256º do C. P. 
Penal). Na verdade, a confissão que não é pormenorizada, que deixa 
inexplicados motivos plausíveis do crime, é uma confissão suspeita. 
Os meios de coacção 
Os meios de coacção com finalidade processual 
Sabemos já que o processo penal se dirige a um fim-obter a declaração 
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do direito do caso, através de uma decisão judicial definitiva. 
Para garantir a segurança dos meios de prova necessários à 
prossecução do processo e assegurar exequibilidade da decisão final, a 
lei prevê a aplicação de medidas coercitivas que restringem a esfera 
jurídica individual daqueles a quem se dirigem. 
Tais medidas coercitivas, ou meios de coacção, traduzem-se, pois, 
numa garantia do fim do processo, têm natureza eminentemente 
processual. Por isso, não devem confundir-se com outras medidas, de 
natureza substantiva, que surgem como reacção a ofensas de carácter 
disciplinar ou penal, à ordem jurídica (exemplos: as medidas previstas 
nos artigos 91º e 93º do C.P. Penal e as medidas de segurança 
provisórias a que aludem os artigos 50º e 51º do Decreto-Lei nº 
35007). 
Poder de disposição pessoal e Poder de disposição real 
O interesse público inerente ao processo penal e a necessidade de 
assegurar a realização do fim por este prosseguido, determinam que o 
arguido e as provas sejam a todo o momento colocados à disposição 
do tribunal. 
Ao juiz cabe, por isso, um poder geral de disposição sobre o arguido e 
sobre as provas. Este poder cabe também, em certa medida; ao 
Ministério Público na instrução preparatória, embora condicionando à 
validação judicial. 
O poder de disposição, cujo exercício cabe tanto ao juiz como ao 
Ministério Publico, pode, portanto, ser pessoal (quando incide sobre 
pessoas-designadamente, o arguido, as testemunhas e declarantes) ou 
real (quando incide sobre coisas-ou seja, sobre as provas reais). 
O poder de disposição pessoal traduz-se, assim, na captura do arguido 
e na condução coerciva das testemunhas e declarantes ao tribunal, e 
afecta o direito de liberdade. Por sua vez, o poder de disposição real 
compreende a faculdade de apreender coisas ou objectos necessários 
à instrução do processo e restringe o direito de propriedade. 
Para manter à sua disposição, tanto o arguido como as provas, o 
tribunal terá, por vezes, de os procurar e descobrir. O poder de 
disposição implica, consequentemente, a faculdade de busca, 
apreensão e captura. Ora, a busca é precisamente o primeiro dos 
meios de coacção processuais que iremos, em seguida, abordar. 
As buscas 
Buscas em lugares cujo acesso não é livre – buscas domiciliárias 
A regra geral aplicável às buscas consta do art. 203º do C. P. Penal, que 
dispõe: “Quando haja indícios de que alguma pessoa tem em seu 
poder ou que se encontram em algum lugar, cujo acesso não seja livre, 
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papeis ou outros objectos cuja apreensão for necessária para instrução 
do processo, ou quando o arguido ou outra pessoa que deva se presa 
se tenha refugiado em lugares daquela natureza, o juiz, em despacho 
fundamentado, oficiosamente, a requerimento do Ministério Publico, 
da parte acusadora oudo arguido admitido a intervir no processo, 
indicará as razões da suspeita e mandará proceder à busca e 
apreensão ou prisão… ”. 
Quando se trata de buscas domiciliárias, às exigências contidas neste 
preceito legal acrescem as indicadas nos arts. 204º, 289º, 300º e 302º 
do mesmo Código. 
A busca destina-se, portanto, ou à apreensão de provas reais ou à 
captura de pessoas que devem ser presas. Há, assim, buscas com o fim 
de apreensão e buscas com o fim de captura. A disciplina jurídica 
relativa às buscas deriva da circunstância de a própria busca afectar 
certos direitos individuais, distintos dos direitos individuais afectados 
pela captura ou pela apreensão. 
Com efeito, se a busca se realiza em lugares cujo acesso é livre (no 
sentido de não serem especialmente tutelados pela ordem jurídica), 
não há limitações à sua efectivação: nem quanto à entidade que as 
ordena, nem quanto aos fundamentos da suspeita de ocultação das 
pessoas ou dos objectos procurados. Porém, se os lugares em que se 
pretende efectuar a busca não são de acesso livre, terá de tomar-se 
em conta a especial tutela jurídica de tais lugares. 
Tratando-se de lugares cujo acesso não é juridicamente livre, há que 
ter em atenção a especial tutela legal de que beneficiam. Um dos 
lugares é, seguramente, o domicílio (considerando-se como tal a casa 
habitada e suas dependências fechadas – v. corpo do art. 204º do C. P. 
Penal), cuja inviolabilidade constitui uma garantia constitucionalmente 
consagrada (art. 68º nº 3) e tutelada pelo direito penal53. 
Buscas para apreensão e buscas para captura 
As buscas para apreensão (às quais se equiparam, nos termos do art. 
212º, as buscas para inspecção ao local ou a simples entrada para 
quaisquer diligências), em casas habitadas ou suas dependências 
fechadas, são inteiramente proibidas durante a noite, salvo 
consentimento da pessoa em cuja posse se encontrar o edifício. As 
buscas só podem ter lugar de dia, isto é, entre o nascer e o pôr-do-sol 
(v. art. 204º do C. P. Penal); podem continuar de noite, apenas se 
tiverem sido iniciadas de dia. O juiz deverá, porém, ordenar as 
cautelas necessárias para evitar a frustração da diligência, mandando 
guardar exteriormente o edifício para evitar a saída de qualquer 
pessoa ou objecto durante a noite (v. § 1º do mesmo preceito). 
 
53 Art. 487º do Código Penal 
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As causas sujeitas a fiscalização especial da polícia estão submetidas 
ao regime de buscas em lugares de livre acesso (v. § 2º da mesma 
disposição legal). Essas casas são as indicadas nos nºs 2º e 3º do art. 
21º do Decreto-Lei nº 35042, de 20 de Outubro de 194554. 
Além das casas de habitação, também outros edifícios podem 
beneficiar de especial tutela jurídica, em homenagem aos fins a que se 
destinam: é o que sucede com as repartições públicas. Nas buscas 
para apreensão efectuadas em repartições ou estabelecimentos 
públicos de qualquer natureza “… guardar-se-á a forma que estiver 
estabelecida nas respectivas leis e regulamentos…” (v. art. 209º do C. 
P. Penal); na sua falta, o Código determina que se não use de coacção, 
devendo antes solicitar-se autorização de entrada à autoridade 
competente para a conceder a fim de facultar a execução da busca 
devidamente ordenada. 
As buscas domiciliárias para captura estão sujeitas a um regime mais 
severo que as buscas domiciliárias para apreensão. Há que distinguir 
as buscas para captura em casa da pessoa que é objecto do mandado 
de captura (arguido), das buscas em casa alheia, e as buscas durante o 
dia ou durante a noite. 
Se a busca tiver de ser efectuada em casa da própria pessoa a capturar 
(arguido), ou em qualquer lugar que lhe pertença ou esteja na sua 
posse, a entrada é sempre permitida durante o dia, quando a captura 
é motivada por crime punível com pena maior (v. art. 300º do C. P. 
Penal). 
Pelo contrário, efectuando-se a busca em casa alheia, seja ou não 
habitada, ou suas dependências fechadas – qualquer que seja o crime, 
ou em casa do arguido, tratando-se de crime punível com pena 
correccional – a entrada, mesmo de dia, só será permitida com 
autorização dos respectivos moradores ou donos, ou quando o 
mandado de captura expressamente o ordenar (v. § 1º do mesmo 
preceito). 
Na falta de autorização dos moradores ou donos da casa e de ordem 
especial contida do mandado de captura, os executores do mandado 
deverão proceder nos temos do § 2º do citado preceito, submetendo 
ao juiz a questão da eventual conveniência de conceder a autorização 
especial de busca em novo mandado de captura. 
Se a busca se realizar de noite, o regime é o mesmo, quer se trate da 
casa do arguido, quer de casa alheia: só será permitida com o 
 
54 Hotéis, hospedarias, restaurantes, cafés, tabernas, casas de diversões, casas de 
pernoita ou com quartos de aluguer, casas de prostituição e outros lugares 
semelhantes; gares, meios de transporte, locais públicos onde se efectuem 
operações comerciais, de bolsa ou bancárias, recintos de reunião ou de espectáculo 
ou quaisquer outros locais que possam servir de campo de acção ou de encontro de 
malfeitores. 
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consentimento dos moradores (v. art. 301º). Diferentemente 
sucederá, como vimos, nas casas e lugares sujeitos por lei a 
fiscalização especial da polícia, relativamente aos quais a entrada é 
livre, por não estarem abrangidos na tutela da inviolabilidade de 
domicílio. 
Quando a entrada em qualquer casa ou suas dependências fechadas 
for legalmente permitida, a autoridade ou agente da autoridade 
deverá mostrar, antes do início da diligência, a ordem ou mandado de 
captura, sempre que lhe seja pedida. Se a entrada for recusada sem 
fundamento legal, poderá usar da força para a efectivar, passando, 
nesse caso, certidão da ocorrência (v. § único do art. 301º). 
Buscas em pessoas (revista) 
Os objectos a apreender podem encontrar-se escondidos ou ocultos 
em pessoas. Para efectuar a apreensão é indispensável passar revista à 
pessoa visada. A revista só é legítima se houver fundada suspeita da 
ocultação, reconhecida pela entidade competente. A legitimidade da 
revista é conferida pelos arts. 203º e 178º do C. P. Penal. 
O art. 203º do C. P. Penal permite a apreensão de objectos, em poder 
de qualquer pessoa, que constituam provas reais da sua infracção. O 
art. 178º do mesmo diploma legal determina a obrigação de facultar 
quaisquer coisas que devam ser examinadas, podendo essa obrigação 
ser coactivamente imposta – quer se trate do arguido, quer de 
terceiros. 
Competência para ordenar as buscas – sua execução 
As buscas para apreensão, quer em pessoas, quer em lugares cujo 
acesso não seja livre, serão sempre ordenadas pelo juiz55. As buscas 
para captura podem ser mandadas efectuar por quem tem autoridade 
para ordenar a prisão preventiva fora de flagrante delito. 
Contrariamente aos exames, que, nos termos do § 2º do art. 179º do 
C. P. Penal, devem ser presididos pelo juiz ou pelo Ministério Público – 
na instrução preparatória, as buscas, embora por aquele ordenadas, 
podem ser executadas sem a sua presença. 
O Ministério Público deve, no entanto, assistir à realização da busca e 
apreensão judiciais (v. art. 203º, § 2º), e a ela podem assistir a parte 
acusadora (se a houver) e a pessoa que esteja na posse do lugar em 
que a diligência se realiza. O arguido deverá sempre assistir, se estiver 
 
55 Pelo juiz da instrução criminal, se ocorrer durante a instruçãopreparatória – v. art. 
1º, nº 2, alínea c), da Lei nº 2/93, de 24 de Junho, ou pelo juiz da causa, se ocorrer 
noutras fases do processo. Antes daquela Lei, já o Decreto-Lei nº 35007, no seu art. 
12º, § 3º (na redacção posta em vigor em Moçambique pela Portaria nº 17076, de 20 
de Março de 1959), atribuía ao juiz, mesmo na fase da instrução preparatória (aqui, 
a requerimento do Ministério Público), a competência para ordenar as buscas 
domiciliárias. 
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preso na sede do tribunal, ou se o juiz o julgar conveniente, podendo 
fazer-se acompanhar do defensor. 
Às buscas devem também, sempre que possível, assistir duas 
testemunhas (v. art. 203º, § 3º), como garantia e eventual prova da 
sua regularidade. 
A prisão do arguido 
Fins da prisão preventiva 
A prisão preventiva é a privação da liberdade anterior à condenação 
penal transitada em jugado. A privação da liberdade, como inibição de 
um direito fundamental dos cidadãos, só tem plena justificação como 
pena. 
Não se tratando de uma pena, a prisão preventiva é um meio de 
coacção destinado a alcançar fins de natureza processual – é um mal 
necessário, dentro de certos limites, mas é sempre um mal. Daí as 
precauções e restrições de que se cerca e a tutela penal contra o seu 
abuso. 
O fim da prisão preventiva é, essencialmente, de natureza processual: 
garantia de execução da decisão final do processo e garantia de uma 
eficiente elaboração do próprio processo. A ideia geral da prisão 
preventiva desdobra-se em três principais objectivos que são: a 
garantia de execução da pena; meio de assegurar a instrução do 
processo; e medida de segurança contra a perpetração de novas 
infracções. 
Esta concepção transitou do direito francês para o Código de Processo 
Penal em vigor entre nós, como veremos adiante, designadamente a 
propósito dos requisitos da prisão preventiva fora de flagrante delito, 
fixados no art. 291º do citado diploma legal. 
Prisão preventiva sem culpa formada – em flagrante delito e fora de 
flagrante delito 
Nos termos do art. 64º, nº 1, da Constituição, “a prisão preventiva só é 
admitida nos casos previstos na lei, que fixa os respectivos prazos”. 
Os casos em que a lei (ordinária) admite a prisão preventiva são os 
referidos no art. 286º do C. P. Penal. Este preceito estabelece: “a 
prisão só pode ser autorizada: 
1º - Em flagrante delito, nos termos do artigo 287º; 
2º - Por crime doloso a que caiba pena de prisão superior a um ano, 
nos termos do nº 1 do artigo 291º 
3º - Pelo não cumprimento de obrigações a que ficar subordinada a 
liberdade provisória, nos termos do nº 2 e § 4º do artigo 291º”. 
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Vejamos, então, em primeiro lugar, a prisão em flagrante delito. O art. 
288º define flagrante delito como “… todo o facto punível que se está 
cometendo ou que se acabou de cometer. Reputa-se também flagrante 
delito o caso em que o infractor é, logo após a infracção, perseguido 
por qualquer pessoa, ou foi encontrado a seguir a prática da infracção 
com objectos ou sinais que mostrem claramente que a cometeu ou 
nela participou”. 
Da análise desta disposição resulta que a Lei distingue entre flagrante 
delito (em sentido estrito), quase flagrante delito e presunção legal de 
flagrante delito: no primeiro caso; o infractor é surpreendido durante 
a execução do crime; no segundo caso, é surpreendido no local do 
crime, no momento em que acabou de o cometer evidenciando a 
surpresa, a existência e a autoria da infracção; no último caso, que 
corresponde ao segundo período do texto legal, o infractor é 
perseguido logo após a prática do crime ou encontrado com objectos 
ou sinais que mostrem ter acabado de o praticar. 
Em flagrante delito, a prisão preventiva é sempre autorizada, desde 
que ao crime corresponda pena de prisão56. Em tal caso, “… todas as 
autoridades ou agentes de autoridade devem, e qualquer pessoa do 
povo pode, prender os infractores”, conforme determina o art. 287º 
do C. P. Penal. Se ao facto punível não corresponder pena de prisão 
(mas, por hipótese, simples pena de multa), o infractor só poderá ser 
detido por qualquer autoridade ou agente da autoridade (e já não por 
pessoa do povo); quando não for conhecido o seu nome e residência e 
não possa ser imediatamente determinado, ou quando se trate de 
arguidos em liberdade provisória ou condenados em liberdade 
condicional. 
Fora do flagrante delito, a prisão preventiva só é autorizada nos casos 
referidos no art. 291º do C. P. Penal, ou seja: 
1º - Quando se verifiquem cumulativamente os seguintes requisitos: 
a) Perpetração de crime doloso punível com pena de prisão 
superior a um ano; 
b) Forte suspeita da prática do crime pelo arguido; 
c) Inadmissibilidade da liberdade provisória ou insuficiência desta 
para a realização dos seus fins. (Recorde-se que parte deste 
requisito foi declarado inconstitucional pelo acórdão do 
Conselho Constitucional que temos vindo a citar). 
Requisitos materiais e formais da prisão 
Os presos em flagrante delito devem ser entregues no mais curto 
espaço de tempo possível (art. 290º), que nunca poderá exceder 48 
 
56 Qualquer que seja a sua espécie ou duração. É indiferente que lhe caiba prisão 
maior (nºs 1º a 5º do art. 55º do C. P. Penal) ou prisão correcional (nº 1º do art. 56º 
do mesmo Código). 
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horas (art. 311º do C. P. Penal), ao juiz de instrução competente ou ao 
do lugar da prisão (art. 311º) ou, caso se trate de crimes da 
competência, exclusiva ou delegada, da Polícia, a qualquer juiz a quem 
for apresentada a pessoa, a qualquer juiz a quem for apresentada a 
pessoa sujeita à medida (§ 3º do art. 311º), para serem interrogados e 
ser proferida decisão judicial de validação ou manutenção da prisão. 
Neste interrogatório o juiz conhecerá das causas da detenção, 
comunicá-la-ás ao detido, interrogá-lo-á e dar-lhe-á oportunidade de 
se defender, contrariando os fundamentos da aplicação de tal medida 
e informando-o dos termos em que pode recorrer dessa decisão. 
Trata-se de um interrogatório que constitui como que um processo 
especial de apreciação da legalidade da prisão efectuada, 
confirmando-a ou não, e nesta medida é um importante meio de 
defesa do arguido, mas que também constitui um meio de prova por 
ele fornecido, pois visa a recolha imediata de elementos úteis para a 
instrução e julgamento. 
A incomunicabilidade absoluta dos presos antes deste primeiro 
interrogatório (§ 1º do art. 311º) e a sua incomunicabilidade relativa 
durante a instrução preparatória (§ 2º do artigo 311º) não são hoje 
extensivas ao seu defensor, sob pena de inconstitucionalidade 
material. Tal implica, necessariamente, a consulta e comunicação do 
arguido com o seu defensor mesmo antes do primeiro interrogatório. 
Sobre o juiz impende a obrigação de mandar informar imediatamente 
o detido das razões da sua detenção (nº 1 do art. 291º - A do C. P. 
Penal), devendo a decisão judiciária que ordene ou mantenha a 
medida de privação de liberdade “ser logo comunicada a parente ou a 
pessoa da confiança do detido, por este indicados (nº 2 do art. 291º - 
A do C. P. Penal) ”. 
A liberdade provisória 
O instituto da liberdade provisória, quer na sua modalidade de 
liberdade provisória com termo de identidade e residência, quer na de 
liberdade provisória mediante caução, sendo uma medida de coacção 
processualou de controlo judiciário, tem sido perspectivado, quer 
como um mero sucedâneo da prisão preventiva, isto é, como medida 
substitutiva tão-só utilizável nos casos em que seja admissível uma 
prisão preventiva, quer como um status inerente ao estatuto do 
arguido, a que se poderia lançar mão mesmo fora dos casos em que 
tal prisão preventiva fosse admitida. 
Pelo que respeita à obrigação de permanecer à disposição do tribunal 
(art. 269º), embora tal medida seja condicionante da liberdade do 
arguido, e, dessa forma, é privativa de liberdade. 
A caução e o termo de identidade e residência 
Já nos referimos que, caso a prisão preventiva do arguido se não deva 
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manter este deverá ficar em liberdade provisória, sujeito a alguma ou 
algumas das obrigações dos arts. 269º e 270º do C. P. Penal. Se ao 
crime corresponder uma pena de prisão superior a um ano, tais 
obrigações poderão acrescer à prestação de caução (art. 271º). 
 E a prisão preventiva não se deverá manter, para além dos casos em 
que legalmente tal é imposto, sempre que as suas finalidades possam 
ser alcançadas pelas medidas de liberdade provisória. 
Os arguidos, após o despacho de pronúncia ou de designação de dia 
para julgamento, devem, sempre, permanecer à disposição do 
tribunal, podendo ser-lhes impostas quaisquer das obrigações dos 
artigos 269º e 270º do C. P. Penal. 
Nos termos do artigo 285º - A “se o arguido em liberdade provisória, 
com ou sem caução, se recusar a declarar a sua identidade e 
residência, ou deixar de comparecer em juízo quando a lei o exija ou 
quando seja devidamente notificado por ordem do magistrado 
competente, será punido com prisão até dois anos; na mesma pena 
incorrerá aquele que, sem justa causa, se recusar a prestar caução”. 
A caução designa-se por carcerária quando visa “… assegurar 
eficazmente a comparência dos arguidos a todos os termos do 
processo em que ela seja necessária e o cumprimento das obrigações 
impostas pela lei ou pelo juiz…” (art. 274º). Dado o facto de tal caução 
dever ser quebrada se se revelar a insuficiência da liberdade provisória 
no caso de o arguido cometer novos crimes (art. 282º, § 1º), a caução 
carcerária tem ainda uma finalidade de prevenção especial, 
prevenindo a perpetração de novas infracções. 
Designar-se-á económica a caução que vise garantir tão-só o 
pagamento das multas, do imposto da justiça e das indemnizações em 
que o arguido possa vir a ser condenado (§ 1º do art. 274º). Neste 
caso a caução reveste a natureza de uma providência cautelar na 
acção civil de indemnização de perdas e danos resultantes do crime. 
Dada a diversidade de fins desta caução económica, a mesma será 
independentemente e autónoma da carcerária, só podendo o juiz 
arbitra-la quando os pagamentos a garantir o aconselhem e quando 
reconheça ao arguido suficiente solvabilidade económica. Caso 
contrário, precludir-se-ia a liberdade provisória pelo simples facto do 
arguido ter uma situação económica que lhe não permite prestar 
caução. Por esta mesma razão, a lei impõe ao juiz, oficiosamente ou a 
requerimento do arguido ou do Ministério Público, a substituição 
obrigatória da caução carcerária pela obrigação do arguido se 
apresentar ao tribunal ou a outras autoridades, no caso de estar 
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impossibilitado de prestar caução ou tiver grandes dificuldades ou 
inconvenientes em presta-la (art. 272º)57. 
Dado o facto de a caução económica ser independente e autónoma, 
até pelo seu fim, da carcerária, a quebra desta, por falta de 
cumprimento das obrigações do arguido em liberdade provisória, não 
determina a quebra daquela que subsistirá até à decisão final (§§ 2º e 
3º do art. 274º C. P. Penal). 
O artigo 274º C. P. Penal refere-nos que quem tem competência para 
fixar a caução e qual o critério para a fixação do quantitativo da 
caução carcerária. Assim, o juiz é a única entidade competente para 
arbitrar a caução, ouvido o Ministério Público, e deverá atender à 
gravidade da infracção, ao dano causado e às circunstâncias do 
arguido. Daí que este montante, se deve ser suficiente para garantir o 
cumprimento das obrigações impostas ao arguido, também deve ser 
de molde a não precludir o direito deste se obter a liberdade 
provisória. 
 A caução subsiste até ao trânsito em julgado do despacho de 
arquivamento ou da sentença absolutória ou quando começar a 
execução da sentença condenatória. Se a condenação for em pena 
suspensa, a doutrina e jurisprudência dominantes entendem que a 
caução subsistirá até ao momento do seu trânsito em julgado. 
Se o processo terminar por um despacho a ordenar que os outros 
autos fiquem a aguardar a produção de melhor prova, também a 
jurisprudência e doutrina dominantes têm entendido que a caução 
(pelo menos a carcerária) subsistirá até ao se trânsito em julgado. Na 
verdade, tal despacho torna a caução desnecessária, devendo ser 
dispensada nos termos do § 2º do artigo 282º do C. P. Penal, pois o 
artigo 345º manda soltar os arguidos aquando da prolação do 
despacho de aguardar a produção de melhor prova. 
Se a caução vier a ser considerada insuficiente deverá ser ordenado o 
seu reforço (§ 3º do artigo 282º). Se o arguido faltar 
injustificadamente a qualquer acto para que tenha sido devidamente 
notificado ou se faltar ao cumprimento das obrigações que lhe foram 
impostas a caução carcerária ser-lhe-á quebrada e ordenada a sua 
prisão preventiva58. Isto para além do arguido ficar incurso na pena do 
artigo 285º. 
 
57 Esta dispensa de caução não se confunde com o termo de identidade, pois este 
substitui a prisão preventiva nos casos em que ela e a caução se não exigem, 
enquanto aquela substitui a caução nos casos em que é normalmente indispensável. 
Cfr. EDUARDO CORREIA, pág. 146. 
58 Já dissemos que a caução económica, dada a sua diversa finalidade, subsistirá até 
à decisão final. 
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AS GARANTIAS DA LIBERDADE INDIVIDUAL 
Já referimos que o interesse da comunidade numa eficaz luta contra o 
crime impunha certos sacrifícios ao direito à liberdade individual. Tais 
sacrifícios são, porém, excepcionais e só admitidos nos casos, pelo 
tempo e nas condições que a lei designar (princípio da legalidade da 
privação da liberdade – nº 3 do art. 56º da Constituição da República). 
Donde se impunha dotar os cidadãos de meios idóneos de reagir 
contra quaisquer violações ilegais da sua liberdade. 
O direito de resistência 
Desde logo a Constituição previne as detenções ilegais ao consagrar, 
no seu artigo 80º, o direito de resistência dos cidadãos “o cidadão tem 
o direito de não acatar ordens ilegais ou que ofendam os seus direitos, 
liberdades e garantias” e de repelir pela força qualquer agressão, 
quando não seja possível recorrer à autoridade pública. O direito de 
resistência tem, assim, a mesma natureza do direito de legítima 
defesa, configurando-se a detenção ilegal como uma agressão ilegal 
possibilitando uma resistência legítima. 
Também o facto da privação ilegal da privação ilegal da liberdade ser 
punida criminal e disciplinarmente e fazer incorrer o Estado (nº 1 do 
art. 58º da Constituição da República) e (ou) o responsável na 
obrigação de indemnizar o lesado, constitui um importante factor 
dissuador de detenções ilegais. 
O habeas corpus propriamente dito e a providência 
inominada do artigo 312º do C. P. Penal 
O Código de ProcessoPenal prevê duas ordens de providências como 
meio de tutela da liberdade individual, face aos abusos do poder: uma 
é a providência inominada do art. 312º, que se destina a garantir a 
apresentação imediata do detido ao poder judicial; a outra é a 
providência extraordinária do habeas corpus (propriamente dita), que 
vem regulada nos arts. 315º e segts. 
Como veremos adiante, embora o fim último de uma e outra seja 
basicamente o mesmo – fazer cessar um estado de detenção ilegal -, 
são diferentes as situações a que se aplicam e o órgão judicial que 
delas deve tomar conhecimento. 
A providência do art. 312º do C. P. Penal 
1 - É ao juiz da instrução criminal ou ao juiz de direito do tribunal 
judicial de província (se se tratar de tribunal organizado em secções 
especializadas, será o juiz de direito da secção criminal em que a 
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petição for distribuída) onde o detido se encontra59 que compete 
ordenar a sua apresentação em juízo, quando se verifiquem 
cumulativamente as duas seguintes condições: 
a) Estar o direito à ordem de autoridade cuja competência 
territorial não exceda a área da província; 
b) Ter sido a detenção motivada por facto cujo julgamento é da 
competência dos tribunais judiciais de província (corpo do art. 
312º do C. P. Penal). 
No que diz respeito à primeira condição, há que indagar quais são as 
autoridades – de entre aquelas a quem a lei atribui legitimidade para 
ordenar a prisão preventiva – cuja competência territorial não excede 
a área da província. 
Se atentarmos ao disposto no Acórdão 4/CC/2013, de 17 de 
Setembro), concluiremos que essas autoridades são apenas as 
autoridades judiciais. 
Relativamente à segunda condição, basta ter presente que o 
conhecimento dos motivos da detenção é da competência dos 
tribunais judiciais de província quando por lei não for deferido a outra 
jurisdição, como sucede no caso dos crimes cometidos por pessoas 
sujeitas a foro especial. 
2 - A providência do art. 312º, § Único, pode ser requerida: 
a) Pelo próprio detido; ou 
b) Pelo seu cônjuge; ou 
c) Por qualquer ascendente ou descendente capaz. 
O requerimento terá de ser subscrito por advogado (v. § único do 
mesmo preceito). Onde não houver advogado, poderá subscrevê-lo 
um técnico ou assistente jurídico nos termos previstos no Estatuto da 
Ordem dos Advogados de Moçambique. 
O requerimento deverá conter: 
1- O Nome da entidade a quem se dirige; 
2- A identificação do requerente e do detido, se este não for o 
requerente; 
3- Os fundamentos do requerimento, que deve ser algum dos 
especificados nas alíneas do art. 312º do C. P. Penal; 
4- O pedido de apresentação imediata do detido em juízo, para se 
seguir os termos do C. P. Penal (designadamente os dos arts. 
253º e seguintes); e 
 
59 O preceito legal refere-se a juiz da comarca. Como sabemos, a área de jurisdição 
dos antigos tribunais de comarca corresponde hoje, nos termos da Lei Orgânica dos 
Tribunais Judiciais (Lei nº 24/2007, de 20 de Agosto), à área de jurisdição dos 
Tribunais Judiciais de Província. 
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5- As assinaturas do requerente e dos advogados. 
3 - O requerente terá de invocar um dos seguintes fundamentos: 
a) Estar excedido o prazo para a entrega ao Poder Judicial 
Nos termos do art. 311º do C. P. Penal, “os presos sem culpa formada 
serão apresentados ao juiz da causa ou do lugar da prisão60, dentro do 
prazo de 48 horas após a detenção. Quando a captura não tenha sido 
ordenada pelo juiz, pode o agente do Ministério Público, reconhecendo 
absolutamente necessária maior dilação, autorizar que a apresentação 
se faça no prazo de 5 (cinco) dias…”. 
É no sentido de assegurar o cumprimento desta disposição legal (que 
regulamenta a garantia constante no art. 64º, nº 2, da CRM61) que o 
presente fundamento pode ser invocado. Se a autoridade à ordem de 
quem está o detido não o apresentar em juízo naqueles prazos, 
admite-se a possibilidade de requerer a intervenção do juiz na 
instrução criminal ou do juiz de direito para que ordenem a 
apresentação; 
b) Manter-se a detenção fora dos locais para este efeito 
autorizados por lei ou pelo Governo 
A Reforma Prisional, aprovada pelo Decreto nº 26643, de 28 de Maio 
de 1936, ainda em vigor, indica quais são os tipos de estabelecimentos 
prisionais existentes. Se o detido for conservado em local não 
destinado por lei ou pelo Governo para tal fim, tem o direito de 
requerer a sua imediata apresentação em juízo. 
Não é necessário, neste caso, estar excedido o prazo de entrega ao 
Poder Judicial: basta a detenção fora do local apropriado, para o 
requerimento proceder; 
c) Ter sido efectuado o internamento em estabelecimento de 
detenção por ordem de autoridade incompetente 
 Já se dissemos que as autoridades competentes para ordenar a 
prisão preventiva fora de flagrante delito nos termos do Acórdão 
4/CC/2013, de 17 de Setembro), são apenas as autoridades judiciais. 
Embora em flagrante delito qualquer pessoa do povo possa prender, 
desde que o crime seja punido com pena de prisão (cfr. 287º do C. P. 
Penal), é necessário distinguir entre a faculdade de prender e a 
faculdade de ordenar o internamento de detenção. Se o crime por que 
 
60 Hoje, como se sabe, esta apresentação deve ser feita ao juiz da instrução criminal 
(v. art. 1º, nº 1, com referência ao art. 2º, alínea a), da Lei nº 2/93, de 24 de Junho) e, 
só onde não o houver, é que será feita ao juiz da causa ou do lugar da prisão. 
61 “O cidadão sob prisão preventiva deve ser apresentado no prazo fixado na Lei à 
decisão de autoridade judicial, que é a única competente para decidir sobre a 
validação e a manutenção da prisão”. 
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o detido foi preso em flagrante delito é dos que permitem a prisão 
sem culpa formada, deve o mesmo ser apresentado a qualquer 
autoridade que pode ordenar o internamento, para ser dada a ordem 
em forma legal; 
d) Ser a detenção motivada por facto pelo qual a lei não a permite 
A providência do art. 312º pode ainda ser requerida se, reunidas as 
condições anteriormente indicadas (ponto 1), a prisão tiver sido 
ordenada fora dos casos previstos no art. 286º do C. P. Penal, ou por 
facto não previsto na lei como constituindo infracção criminal. 
4 – Apresentado o requerimento ao juiz da instrução criminal ou ao 
juiz de direito, segue-se a tramitação prevista no art. 313º e no corpo 
do art. 314º do C. P. Penal. 
5 – Se o requerimento tiver de ser indeferido, tem o juiz de apreciar se 
a reclamação era ou não manifestamente destituída de fundamento. 
No caso de entender que havia manifesta falta de fundamente, deve 
condenar, solidariamente, o reclamante e o advogado na 
indemnização de 500,00MT a 5000,00MT para o Cofre dos Tribunais 
(v. § 4º do art. 314º do C. P. Penal). 
Há manifesta falta de fundamento quando não são verdadeiros os 
factos invocados no requerimento. Assim, por exemplo, quando o 
detido está preso a menos tempo do que aquele que afirma; ou em 
local diferente do que indicou; ou quando o seu internamento foi 
ordenado por entidade diversa da especificada na petição; ou, ainda, 
quando foi outro o facto determinativo da detenção. 
Dada a sua natureza extraordinária, a providência do habeas corpus só 
é concedida quando se trata de prisão efectiva, actual e ilegal, por 
algumdos motivos referidos no § único do art. 315 do C. P. Penal. 
Providência de Habeas corpus. 
Verificando-se os referidos pressupostos, o “habeas corpus” pode ser 
requerido com fundamento na ilegalidade da prisão. 
Os motivos de tal ilegalidade podem ser diversos, só podendo a 
providência ser concedida com base em ilegalidade da prisão, 
resultante de qualquer um dos seguintes: 
a) Ter sido efectuada ou ordenada por quem para tanto não 
tenha competência legal; 
b) Ser motivada por facto pelo qual a lei não autoriza a prisão; 
c) Manter-se além dos prazos legais para a formação da culpa e 
para a duração da prisão preventiva; 
d) Prolongar-se além do tempo fixado por decisão judicial para a 
duração da pena ou medida de segurança ou da sua 
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prorrogação (§ único do art. 315º do C. P. Penal). 
Pelo que respeita à alínea a), já referimos quem pode efectuar ou 
ordenar a prisão. 
Quanto à alínea b), haverá que indagar não só das hipóteses da 
admissibilidade ou inadmissibilidade da detenção, como ainda de 
formular um juízo de suspeição sobre se os pressupostos fácticos 
admitem ou não a detenção. Isto é, haverá que indagar não só se os 
motivos invocados permitem legalmente a detenção, como ainda se, 
permitindo-a legalmente, o circunstancialismo concreto é de molde a 
não dever a detenção ser ordenada ou mantida. 
Na alínea a) refere-se a caducidade da prisão pelo decurso dos prazos 
constantes do artigo 308º do C. P. Penal e §§ 1º e 2º do artigo 273º do 
C. P. Penal. 
O motivo referido na alínea d), respeita tão-só à duração ilegal da 
prisão consequência de decisão judicial condenatória, ao seu 
prolongamento par além do tempo fixado em tal decisão, não já à 
eventual ilegalidade do regime concreto da sua execução dentro da 
sua duração legal. 
A petição de “habeas corpus” pode ser formulada quer pelo detido, 
quer por qualquer cidadão no gozo dos seus direitos políticos, nos 
termos do artigo 316º do C. P. Penal e deverá constar de 
requerimento dirigido ao Presidente do Supremo Tribunal de Justiça 
(artigo 316º do C. P. Penal). Se se tratar de indivíduos sujeitos a foro 
militar a competência para decretar a providência pertence ao 
Supremo Tribunal Militar (artigo 325º do C. P. Penal). 
O presidente da Relação ou o juiz a quem for entregue a petição fará 
logo remeter o duplicado à entidade responsável pela prisão, aquele 
responderá dentro do mais breve prazo possível (artigo 317º do C. P. 
Penal). “Se na resposta se informar que o preso foi libertado, o juiz 
porá termo à reclamação, ficando abertos ao requerente os meios 
normais para reparação da ofensa que tiver sofrido” (§ 1º do artigo 
317º do C. P. Penal). “Se a reposta for dada no sentido da manutenção 
da prisão, o juiz remetê-la-á imediatamente com o requerimento ao 
Presidente do Supremo Tribunal de Justiça” (§ 2º do artigo 317º do C. 
P. Penal). “Se não for dada a resposta no prazo de 48 horas, remeter-
se-á simplesmente o requerimento com essa informação” (§ 3º do 
artigo 317º do C. P. Penal). 
O requerimento e a resposta deverão ser apresentados na primeira 
sessão ordinária da secção criminal do Supremo Tribunal de Justiça, 
salvo se pela urgência do assunto o Presidente convocar uma sessão 
extraordinária convocação obrigatória sempre que tal seja necessário 
para se não ultrapassar o prazo de 8 dias desde a apresentação do 
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requerimento (artigo 318º do C. P. Penal). 
A deliberação, que deverá ser tomada por maioria, em audiência 
contraditória, no prazo máximo de oito dias desde a apresentação da 
petição, pode ser no sentido: 
a) Do indeferimento do pedido por falta de fundamento bastante; 
b) Da colocação imediata do detido à ordem do Supremo Tribunal 
na cadeia por este indicado, nomeando um magistrado judicial 
para proceder a inquérito sobre a legitimidade da prisão; 
c) Da apresentação do preso, no mais breve prazo no tribunal 
competente para o julgar; 
d) De declarar ilegal a prisão e ordenar a imediata libertação do 
recluso (artigo 319º do C. P. Penal). 
A decisão a que respeita a alínea a) corresponde ao reconhecimento 
da legalidade da prisão. Quanto à decisão a que se refere a alínea b), o 
inquérito a ordenar seguirá os trâmites descritos no artigo 320º do C. 
P. penal. 
A decisão da alínea c) corresponde a declaração da incompetência do 
supremo tribunal que só pode ter lugar por ser de competência dos 
tribunais de comarca conhecer dos motivos da detenção ou por ter 
sido esta ordenada por autoridade cuja competência territorial não 
exceda a área da comarca. 
Por último, a decisão da alínea d) de declaração de ilegalidade de 
prisão, não tem de ser sempre acompanhada de ordem de imediata 
libertação do detido. 
Na verdade, se a ilegalidade resulta, tão-só, da incompetência da 
autoridade que a ordenou ou efectuou e o Supremo Tribunal verificar 
que a detenção é de manter, em vez de soltura do preso, ordenará as 
providências convenientes para a legalização da detenção (artigo 321º 
do C. P. Penal). 
Para se evitarem manobras dilatórias ou de mera chicana processual, 
incompatíveis com o respeito devido ao Supremo, o artigo 324º do C. 
P. Penal determina que, em caso de petição manifestamente 
infundada, o Supremo condenará solidariamente o requerente e o seu 
defensor na indemnização, sem prejuízo da responsabilidade penal, 
prevista no § 1º, e disciplinar, prevista no parágrafo 2º. 
Para garantir eficazmente a deliberação do Supremo Tribunal de 
Justiça, o artigo 323º do C. P. Penal manda punir com as penas do 
artigo 291º do Código Penal: 
a) A recusa da entrega do preso na cadeia que o Supremo 
Tribunal indicar par ficar detido à sua ordem; 
b) A recusa de libertação do preso, ordenada pelo Supremo 
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 138 
 138 
 
Tribunal de Justiça ou da sua apresentação ao juiz que o 
mesmo Tribunal julgar competente; 
c) A nova detenção pelo mesmo facto e em idênticas condições, 
de qualquer indivíduo mandado libertar pelo Supremo Tribunal 
de Justiça nos termos da alínea d) do artigo 319º, se a 
autoridade que efectuar a prisão tiver conhecimento da 
decisão tomada. 
TRAMITAÇÃO DO PROCESSO PENAL 
Instrução: preparatória e contraditória 
Na cadeia de actos teleologicamente concatenados com vista à 
obtenção da justiça que constitui o processo penal é possível 
descortinar vários grupos em função de uma determinada finalidade 
ou ideia dominante e de uma certa ordem cronológica. Tais grupos 
constituem o que tradicionalmente se designa por fases do processo. 
Como veremos, não só os actos que integram as diferentes fases não 
são idênticos em todas as formas de processo, como existem certas 
formas de processo em que não têm lugar todas as fases em que o 
mesmo, normalmente se desdobra. 
O Código de Processo Penal regula no seu Livro II (”Do Processo”) as 
diferentes fases processuais tratando: 
- No título II - Da instrução; 
- No título III – Da acusação e defesa; 
- No título IV – Do julgamento. 
A instrução, a acusação e a defesa e o julgamento, constituem, assim, 
e por esta ordem lógica e cronológica, as fases em que normalmente 
se desdobra o processo penal. O que não quer dizer que as mesmas 
tenham sempre lugar, pois, não só há formas de processo em que não 
têm lugar as duas primeiras fases, como naqueloutras em que 
normalmente todas têm lugar só se passará à fase seguinte se o 
processo não findar na fase que cronologicamente a antecede.Como formas de se proceder à averiguação criminal pré-acusatória, 
temos a considerar inquérito preliminar (da competência do 
Ministério Público e das autoridades policiais) e a instrução 
preparatória e contraditória (da competência dos juízes de instrução 
criminal). 
Na fase processual de acusação e defesa podem-se distinguir as 
seguintes subfases: 
a) A acusação propriamente dita; 
b) A defesa do arguido em resposta à acusação; e 
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 139 
 
c) A pronúncia judicial. 
Note-se, porém, que a defesa do arguido não se restringe a uma única 
fase, escalonando-se ao longo de todo o processo. 
Por último, também na fase de julgamento se podem distinguir três 
subfase: 
a) A instrução em julgamento, com a produção de prova em 
audiência; 
b) A discussão da prova produzida; e 
c) O julgamento propriamente dito, com a decisão final do 
tribunal. 
 
Conceito de instrução preparatória 
A instrução preparatória62 é uma actividade de averiguação da 
competência do juiz de Instrução, não dominada pelas preocupações 
de celeridade e simplificação que caracterizam o inquérito preliminar, 
antes procurando, por forma minuciosa e profunda, “reunir os 
elementos de indiciação necessários para fundamentar a acusação” 
(artigo 12º do Decreto-Lei nº 35007). 
Instrução preparatória, pois, porque preparatória da acusação. 
Todavia, e uma vez que nos termos do artigo 10º do Decreto-lei nº 
35007, “a instrução do processo penal tem por fim verificar a 
existência das infracções, determinar os seus agentes e averiguar a sua 
responsabilidade”, poder-se-ia pensar que só a instrução preparatória 
visaria directamente fundamentar a acusação não sendo já essa a 
finalidade imediata da instrução contraditória ou da instrução 
considerada na sua globalidade. 
A instrução contraditória visa habilitar o Ministério Público e deduzir 
uma acusação, e uma acusação definitiva. 
A contraditoriedade instrutória é, pois, também “prejudicial da 
acusação, pois apenas discute os fundamentos desta”. Todavia, se a 
instrução contraditória se destina também à realização de diligências 
favoráveis à defesa (artigo 327º do C. P. Penal), donde se infere que a 
mesma visa tanto encontrar os fundamentos da acusação como da 
abstenção de acusação, o mesmo sucede em relação à instrução 
preparatória. Na verdade, nesta devem-se efectuar “não só as 
diligências conducentes a provar a culpabilidade dos arguidos, mas 
também aquelas que possam concorrer para demonstrar a sua 
 
62 O corpo de delito, na terminologia do Código, que compreende “o conjunto de 
diligências destinadas à instrução do processo, com excepção da instrução 
contraditória” (art. 170º). 
A expressão instrução preparatória foi introduzida pelo Decreto-Lei nº 35007 (arts. 
11º e 12º). 
 ISCED CURSO: Direito; Disciplina: Direito Processual Penal 
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 140 
 
inocência e irresponsabilidade” (§ 1º do artigo 12º do Decreto – Lei nº 
35007). 
A sua finalidade é pois, como sucede em relação às fases ulteriores do 
processo, a descoberta da verdade material, pelo que prejudicada fica, 
por unilateral, e como tal violadora dos princípios da verdade material 
e da presunção de inocência do arguido, a sua configuração como 
exclusivamente fundamentadora da acusação. Como refere 
CAVALEIRO FERREIRA “o princípio inquisitório em matéria de provas 
não pode nem deve funcionar exclusivamente em benefício de uma 
visão unilateral da acusação, mas tão-somente em benefício da 
verdade material e de uma justiça objectiva”. Na verdade, se interessa 
punir os culpados não interessa menos punir só os culpados. 
“Na instrução devem, tanto quanto possível, investigar-se os motivos e 
circunstâncias da infracção, os antecedentes e estado psíquico dos 
seus agentes no que interesse à causa, e os elementos de facto que 
importa conhecer para fixar a indemnização por perdas e danos” (§ 
único do artigo 10º do Decreto _ Lei nº 35007). 
Tal constitui o tema da prova que abrange, por conseguinte, todos os 
factos (constitutivos, impeditivos, modificativos ou extintivos) que se 
afiguram relevantes para a decisão final, para a descoberta da 
verdade. 
Competência para dirigir a instrução preparatória 
A necessidade de uma fase preparatória da subsequente acusação e 
pronúncia resulta, entre outros motivos, da necessidade de disciplinar 
criteriosamente o modo de recolha das provas por forma a que a 
sujeição das pessoas a um julgamento criminal – com o vexame que 
tal sempre implica para o acusado – só se verifique quando, por meios 
probatórios obtidos por forma idónea e por entidades independentes 
e pautadas por critérios de objectividade e justiça, “seja de considerar 
como altamente provável do que a absolvição”. 
Nos termos estabelecidos na alínea c) do artigo 4º da Lei Orgânica do 
Ministério Público conjugado com o artigo 14º do Decreto-Lei nº 
35007, corpo, a direcção da instrução preparatória cabe ao Ministério 
Público nos tribunais em que esteja representado, a quem será 
prestado pelas autoridades e agentes policiais todo o auxílio que para 
esse fim necessitar. Assim, no § único do mesmo artigo, para o 
coadjuvar directamente na instrução preparatória de qualquer 
processo, pode o agente do Ministério Público requisitar qualquer 
funcionário da respectiva secretaria judicial. Nos artigos 15º e 
seguintes do C. P. Penal pode-se observar que existem certos casos em 
que o Ministério Público pode delegar poderes para a direcção da 
instrução preparatória a outros órgãos, dependendo dos tipos legais 
de crimes estabelecidos. 
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 141 
 141 
 
Início e termo da instrução preparatória 
Sob pena de eternização dos processos crimes, donde resultaria um 
grande dano para a presunção de inocência dos arguidos, a instrução 
preparatória deve efectivar-se nos prazos que a lei marca. 
Tais prazos, que são prazos máximos e improrrogáveis (§ 1º do artigo 
337º do C. P. Penal)63, são naturalmente mais restritivos havendo 
arguidos presos e mais dilatados nas formas de processo mais solenes. 
Assim, haverá que distinguir consoante haja ou não arguidos presos. 
Havendo-o a instrução preparatória terá, logicamente, de ultimar-se 
em prazo consentâneo com a duração da prisão preventiva indicado 
no § 1º do artigo 308º do C. P. Penal (artigo 337º do C. P. Penal), ou 
seja, quarenta dias por crimes punidos com pena de prisão superior a 
dois anos e noventa dias se se tratar de crimes cuja investigação caiba 
exclusivamente à Polícia Judiciária ou que legalmente lhe seja diferida. 
“Não havendo arguidos presos, o prazo da instrução preparatória será 
de três meses em processo de querela e de dois meses nas demais 
formas de processo, contados a partir do momento em que a 
instrução preparatória seja dirigida contra pessoa determinada” (art. 
337º do C. P. Penal). 
Conceito de instrução contraditória 
A instrução contraditória é uma instrução complementar da instrução 
ou averiguação criminal já realizada, esclarecendo-a e completando-a 
em vista da descoberta da verdade material. O facto de se seguir a 
uma acusação (de índole provisória ou definitiva) demonstra que 
também esta segunda fase visa discutir os fundamentos da mesma, 
corroborando-os ou invalidando-os. 
É a própria lei (art. 327º do C. P. Penal) que assinala à instrução 
contraditória a dupla finalidade de: 
a) Esclarecer e completar a prova indiciária já recolhida através da 
instrução preparatória ou do inquérito preliminar;e 
b) De providenciar ao arguido, antes da formação da definitiva 
culpa, um meio complementar de defesa pela efectivação das 
diligências por ele requeridas tendentes a preparar ou 
corroborar a sua defesa e a ilidir ou enfraquecer a prova 
fundamentadora da acusação. 
A instrução contraditória tem lugar depois de encerrada a instrução 
preparatória ou o inquérito preliminar, e logo após a dedução da 
acusação ou do requerimento de instrução contraditória, e é 
 
63 Exceptua-se, sendo susceptível de prorrogação, o prazo referido no nº 2 do § 1º do 
artigo 308 do C. P. Penal. 
 ISCED CURSO: Direito; Disciplina: Direito Processual Penal 
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obrigatoriamente aberta, ainda que não requerida, nos processos de 
querela. 
Procedê-la-á, como já referimos, uma acusação. Tal acusação é 
denominada de provisória por se lhe seguir a instrução contraditória 
no decurso da qual pode ser alterada, infirmada ou confirmada (§ 
único do artigo 349º do C. P. Penal). 
Há, todavia, que distinguir na acusação provisoria: 
a) Aquela que é provisória pela sua natureza e intenção do 
acusador (a prevista no nº 1 do § único do art. 327º) e que 
substancialmente se traduz num pedido do Ministério Público 
para se completar a instrução preparatória pela probabilidade 
de assim se obterem os elementos indiciários para 
fundamentar uma acusação definitiva e que se não puderam 
obter no decurso da instrução preparatória pela 
improrrogabilidade dos seus prazos; 
b) Daqueloutra de natureza e índole definitivas e que, todavia, se 
converte em provisória por força da abertura da instrução 
contraditória, imposta por lei (processo de querela), 
determinada pelo juiz julgador para efeitos de pronúncia ou 
não pronúncia (nº 3 do § do artigo 327º do C. P. Penal), ou 
requerida pelo arguido como meio de defesa. 
Se a primeira visa a abertura da instrução contraditória, a segunda, 
que é verdadeiramente uma acusação definitiva, visa, como tal, a 
introdução do feito em juízo, o que todavia, não tem lugar por razões 
estranhas à intenção do acusador. 
Sendo assim a instrução contraditória, que se segue sempre a uma 
acusação, tanto pode preceder como seguir-se a uma acusação 
definitiva (pela sua natureza e índole). 
Precedê-la-á quando a sua finalidade for a de complementar os 
resultados insuficientes obtidos na instrução preparatória. 
Seguir-se-á a ela se na instrução preparatória ou no inquérito já se 
obtiveram os elementos probatórios suficientes para o Ministério 
Público deduzir uma acusação fundada. 
Competência para dirigir a instrução contraditória 
Na posição de FERNANDO HENRIQUES UACHE (2014:111) nos termos 
do artigo 330º do C. P. Penal conjugado com o art. 37º do Decreto-Lei 
nº 35007, a instrução contraditória é sempre dirigida pelo juiz. 
Todavia, com a entrada em vigor da lei 2/93 de 24 de julho, que cria a 
figura do juiz da instrução criminal, ficou-se em dúvida sobre o juiz que 
presidiria a instrução contraditória, se seria o da causa ou da instrução 
criminal. Tendo em conta o que se pode alcançar da leitura da lei nº 
 ISCED CURSO: Direito; Disciplina: Direito Processual Penal 
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 143 
 
2/93 de 24 de Junho, o juiz da instrução criminal não tem 
competência, para praticar actos na instrução contraditória, uma vez 
que os seus poderes circunscrevem-se apenas na instrução 
preparatória; porém, para este autor parece que não seria orientação 
acertada, se se conferisse ao juiz da instrução criminal competência de 
presidir a instrução contraditória, atento a natureza acusatória do 
nosso Direito Processual Penal, não nos parece correcto que o juiz da 
causa, dirija a instrução contraditória, profira o despacho de pronúncia 
e vem realizar o julgamento do réu, com base em factos acusatórios 
imputados ao réu por ele. 
No processo do tipo acusatório, a figura do acusador, não deve, de 
nenhum modo coincidir com a do julgador, o que leva a defender que 
seria a opção correcta, se o legislador tivesse estendido o leque das 
competências do juiz da instrução criminal a presidência da instrução 
contraditória e consequente pronúncia. 
A instrução contraditória tem sempre lugar obrigatoriamente em 
processo de querela em regra geral nos termos do art. 327º do C. P. 
Penal, mas pode ter lugar ainda: 
a) A requerimento do Ministério Público nos processos 
correccionais quando decorrido o prazo da instrução 
preparatória sem que haja prova bastante para formular 
acusação, seja de presumir que se complete a prova indiciária 
contra o arguido com uma investigação mais completa ou um 
mais amplo esclarecimento, (art. 327º nº 1 do paragrafo único 
do Código de Processo Penal). 
b) A requerimento do arguido, em todas as formas de processo, 
com excepção dos processos sumários e de transgressões, 
conforme prevê o nº 2 do artigo supra. 
c) Por decisão do juiz em todas formas de processo para a 
realização de diligências complementares de prova que julgue 
convenientes para receber ou rejeitar a acusação conforme o 
nº 3 do artigo supra referenciado (art. 327º do C. P. Penal). 
A instrução contraditória a requerimento do Ministério público: Tem 
lugar subsequentemente à acusação provisória do Ministério Público, 
e questiona-se se a acusação provisória pode ter lugar em processo 
correccional precedido de inquérito preliminar. O nº 1 do parágrafo 
único do art. 327º do C. P. Penal refere a possibilidade de a mesma ter 
lugar tão-só após o decurso do prazo da instrução preparatória. 
Entretanto, segundo SOUSA (1995:226) a interpretação deste artigo é 
errónea, pois o Ministério Público não está sujeito a qualquer prazo 
para conclusão do inquérito e para a dedução do requerimento para 
julgamento, por isso nunca se verá o Ministério Público na 
contingência de ter de acusar provisoriamente por não ter mobilizado 
os elementos probatórios suficientes para a dedução de uma acusação 
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 144 
 144 
 
definitiva. 
Acresce que se por razões de complexidade ou melindre da 
investigação o inquérito se revelar um meio tecnicamente inadequado 
para a levar a cabo é sempre possível requerer-se a instrução 
preparatória que como vimos pode ter lugar facultativamente em 
processo correccional. 
O que significa que será precisamente a instrução preparatória e não 
directamente a contraditória que o Ministério Público deverá requerer 
após o inquérito se através deste não conseguir prova bastante para 
fundamentar a acusação. 
O juiz só pode denegar a instrução contraditória quando ela seja 
inadmissível. Quando o juiz seja incompetente, ou quando este 
verifique não ter havido crime, estar extinta a acção penal ou houver 
elementos de facto que comprovem a irresponsabilidade do arguido 
nos termos do artigo 329º do C. P. Penal. 
Instrução contraditória a requerimento do arguido: Do arguido 
sucede uma acusação de índole definitiva, e por tal motivo será 
fundamentalmente um meio de defesa por ele utlizado. Essa 
finalidade de defesa que a mesma visa, preclude sempre ao juiz a 
denegação da instrução contraditória, tal como resulta do artigo 328º 
do C. P. Pena, segunda parte. 
A instrução contraditória a requerimento do arguido pode ter lugar em 
todas formas de processo. Com excepção do sumário e de 
transgressão, pode ainda ter lugar após o inquérito preliminar art. 
327º, § único nº 2 do C. P. Penal. 
Instrução contraditória por decisão do juiz: A instrução contraditória 
ocorrerá quando os fundamentos que foram considerados bastantes 
pelo Ministério Público paradeduzir uma acusação de índole 
definitiva, são todavia considerados insuficientes pelo juiz julgador, 
aquando da pronúncia. Daí que a instrução contraditória em tal caso 
se destine a encontrar os fundamentos complementares, não para 
uma acusação definitiva mas sim para a pronúncia ou não pronúncia. 
À semelhança do que vimos suceder com a instrução contraditória 
requerida pelo arguido, a decidida pelo juiz também pode ter lugar 
logo após o inquérito preliminar. Após este ou após a instrução 
preparatória, o juiz julgador ao apreciar a acusação se entender por 
conveniente proceder a diligências complementares de prova 
declarará que há lugar a instrução contraditória e remeterá os autos 
ao juiz de instrução criminal, que necessariamente a terá de declarar 
aberta. 
Os assistentes podem intervir directamente na instrução contraditória 
deduzindo acusação definitiva, sem 
 ISCED CURSO: Direito; Disciplina: Direito Processual Penal 
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 145 
 
que o Ministério Público o faça, o que não pode suceder é a situação 
do assistente acusar provisoriamente, pois o assistente tem elementos 
para deduzir uma acusação fundada, isto é de natureza e índole 
definitiva e acusará, ou não e terá de abster-se de acusar. 
Esta solução bem se compreende, pois não faz qualquer sentido que 
com base numa acusação meramente provisória do assistente não 
consentânea com o juízo de probabilidade proferido pelo Ministério 
Público, se desencadeie um complemento de uma instrução 
preparatória judicial, com os inerentes prejuízos para a economia 
processual, e por vontade do assistente se poder desencadear a 
abertura de um novo prazo para a prisão preventiva do arguido. 
A solução adoptada tem consagração legal no artigo 364º do C. P. 
Penal, que nos crimes particulares exclui sempre a acusação provisoria 
do assistente, e excluindo-a exclui a subsequente acusação do 
Ministério Público. E o mesmo artigo nos crimes públicos e semi -
públicos exclui a acusação provisória isolada do assistente, isto é 
nesses crimes o assistente só poderá acusar provisoriamente se o 
Ministério Público primeiramente o tiver feito. Pelo que será a 
acusação provisória do Ministério Público, e não a do assistente que 
desencadeará a abertura da instrução contraditória. 
O que nos referimos anteriormente refere-se a acusação provisória 
pela sua natureza e índole ou pela intenção do assistente não 
abarcando, consequentemente a sua acusação de natureza e índole 
definitiva que se converte em provisória por força da lei (processo de 
querela), ou por vontade do arguido ou do juiz isso se lhe seguir 
instrução contraditória, só neste sentido e dado que o assistente pode 
acusar isoladamente se poderá dizer que ele acusará provisoriamente. 
Início e termo da instrução contraditória 
A acusação definitiva pressupõe que durante a instrução preparatória 
tenham sido recolhidos elementos bastantes da infracção e dos seus 
autores, que sejam suficientes para sustentar a acusação. 
Porém, pode suceder que decorridos os prazos da instrução 
preparatória os elementos recolhidos não se revelem suficientes para 
sustentar a acusação, mas possa presumir-se poder-se completar 
continuando a instrução como contraditória, de modo que nessa 
hipótese o Ministério Público deduza a acusação provisória e requeira 
ao juiz abertura da instrução contraditória nos termos do artigo 26º, 
1ª parte do Decreto-Lei nº 3500764, atitude que também se impõe 
pelo facto de os prazos da instrução preparatória serem 
 
64 Se não houver provas bastantes dos elementos da infracção ou de quem foram os 
seus agentes, o Ministério Público acusará provisoriamente e requererá a instrução 
contraditória, se for de presumir que possa completar-se a prova indiciária, ou 
abster-se-á de acusar, comunicando o facto ao Procurador-geral da República nos 
termos do artigo 23º do presente diploma (Decreto-Lei nº 35007). 
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improrrogáveis, se entretanto se mostrarem decorridos (v. § 1º do 
artigo 337º do C. P. Penal). 
Aliás, decorridos os prazos da instrução preparatória, esta deve ser 
considerada por finda por força do artigo 326º nº 2 do C. P. Penal.65 
A abordagem que iremos fazer sobre a instrução contraditória a que 
se siga a acusação provisória ou a acusação definitiva, será de acordo 
com regime geral e, como tal, em princípio aplicável a qualquer forma 
de processo em que a lei permite que ela possa ter lugar. 
 Assim, haverá que ter em conta que alguns aspectos, em matéria de 
instrução contraditória, poderá haver regime específico ou especial a 
uma determinada forma de processo, e a ser o caso deverá, como é 
evidente, prevalecer o regime especial respeitante a certa forma de 
processo, como é, a título de exemplo, o facto de o Código de 
Processo Penal no seu artigo 363º consagrar o prazo de 5 (cinco) dias 
para, encerrada a instrução contraditória, o Ministério Público e a 
parte acusadora meterem ou não a acusação, prazo que sendo 
específico do processo de querela, prevalece sobre o prazo de 2 (dois) 
dias indicado no artigo 335º do mesmo Código para o mesmo efeito, 
este de carácter geral porque não específico de determinada forma de 
processo.66 
- A instrução contraditória está sujeita a prazos pela lei, que variam 
conforme a forma de processo e existência ou não de arguidos presos. 
Assim, o corpo do artigo 334º do C. P. Penal estabelece os prazos de 
realização das diligências da instrução contraditória, tendo como 
pressuposto a existência de arguidos presos e consoante à cada pena a 
que corresponda processo de querela e polícia correcional e o § 1º do 
mesmo artigo prescreve os prazos tendo como pressuposto que não 
havendo arguidos presos levando em conta a forma de processo a que 
corresponde a infracção. 
Concretizando, nos termos do artigo 334º, corpo, havendo arguidos 
presos os prazos da instrução contraditória, serão de: 
 Três meses, se da infracção couber a pena a que corresponda 
processo de querela; e 
 Dois meses, se ao crime for aplicável pena que corresponda 
processo de polícia correcional67. 
 
65 Cfr, CUNA, Ribeiro José, Lições de Direito Processual penal, Escolar Editora, 
Maputo, 2014, pp., 492 e seguintes 
66 Ibidem, pp., 493. 
67 O art. 334º, corpo, faz menção ao processo correcional, e a propósito, há 
necessidade de se fazer uma interpretação correctiva em termos de considerar 
processo polícia correcional. 
 
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Não havendo arguidos presos ao abrigo do § 1º do artigo 334º, os 
prazos da instrução contraditória serão de: 
 Seis meses em processo de querela; e 
 Quatro meses em processo de polícia correcional. 
Contrariamente ao que sucede com os prazos da instrução 
preparatória que são improrrogáveis por força do § 1º do art. 337º do 
C. P. Penal, com a consequente impossibilidade legal de prorrogação 
dos prazos da prisão preventiva sem culpa formada durante a 
instrução, havendo arguidos presos a lei permite o alargamento, pelo 
juiz, dos prazos da instrução contraditória, mediante acréscimo “…do 
tempo indispensável, não excedente a trinta dias, para decidir 
incidentes ou excepções processuais deduzidos pela defesa e para 
proceder a diligências de defesa que não pudessem ter sido realizadas 
antes…”, outrossim permitindo-se a prorrogação da prisão preventiva 
por igual prazo, portanto, tempo não excedente a trinta (30) dias, 
mediante despachofundamentado (2ª parte, do corpo do artigo 334º 
do C. P. Penal). 
Encerramento da instrução contraditória 
Terminada a realização de todas as diligências requeridas e as que se 
mostram revelantes para o esclarecimento da verdade, e o juiz 
declarar encerrada a instrução contraditória e, nos termos do art. 363º 
do C. P. Penal, ordenará a remessa dos autos ao Ministério Público. 
O Ministério Público se tiver deduzido a acusação provisória, no prazo 
de 5 dias, deverá, com base nos elementos de prova que tiver sido 
produzido na instrução contraditória manter ou modificar a sua 
acusação. 
Quer dizer, se entender ter havido alteração substancial dos factos 
poderá reformular a sua acusação, fazendo, se for necessário uma 
nova qualificação jurídica dos factos imputados ao arguido. 
Igualmente, quando a parte acusadora tiver dado querela provisória, 
ser-lhe-á notificado para no prazo de dois (2) dias confirmar ou 
modificar a sua acusação. A notificação ao assistente é feita após a 
dedução de acusação definitiva pelo MP.68 
Atitude do arguido, do Ministério Público, do assistente e 
do juiz finda a instrução contraditória 
Atitude do arguido, do Ministério Público e do assistente 
A instrução contraditória pode ser precedida de acusação, a ser o 
caso, finda aquela ou decorrido o prazo legal dentro do qual as 
 
68 Ibidem, p. 115. 
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 148 
 
diligências pertinentes devem ser realizadas ou requeridas pelo 
arguido e/ou pelo Ministério Público, conforme determina o art. 335º 
“corpo” do C. P. Penal que seja notificado o arguido para, no prazo de 
dois dias dizer o que se lhe oferecer, que a fazê-lo, em princípio, 
alegará factos procurando demonstrar não haver sido alcançado o fim 
que se traduz em completar a prova indiciária necessária para 
sustentar a acusação, ou então irá se pronunciar procurando 
demonstrar ter resultado das diligências da instrução contraditória o 
de ilidir ou enfraquecer da prova indiciária, ou haver sido corroborada 
a sua defesa. 
Na verdade, não pode ser de outro modo porque ao defensor cabe 
colaborar na descoberta da verdade, mas não toda verdade, se não 
aquela que seja favorável, deve o defensor ressaltar nos autos toda a 
verdade que seja favorável ao arguido. 
O mesmo artigo 335º do C. P. Penal prescreve no sentido de, após a 
notificação do arguido, para efeito do acima mencionado, ser 
continuado o processo com vista ao Ministério Público e notificado o 
assistente, claro que havendo-o, para, em igual prazo, isto é, dois dias, 
manter ou não acusação. 
Com efeito, no caso particular do Ministério Público, devendo este 
procurar somente a verdade, quer demostre a culpabilidade do 
arguido, quer aponte para a inocência ou irresponsabilidade do 
arguido e, por conseguinte, das diligências realizadas durante a 
instrução contraditória, resultar a compleição ou enfraquecimento da 
prova indiciária, senão de todo ficar ilidida, o Ministério Público 
deverá manter a acusação ou deixar de o fazer, consoante os casos. 
Atitude do juiz 
Despacho de pronúncia e não pronúncia 
Após o pronunciamento do arguido finda a instrução contraditória 
alegando o que entender por pertinente, bem assim do assistente e do 
Ministério Público, ambos mantendo ou não a acusação, segue-se 
apreciação pelo juiz das provas produzidas na instrução contraditória 
que assume uma de duas atitudes: proferir despacho de pronúncia ou 
proferir despacho de não pronúncia. 
Se proferir despacho de pronúncia o juiz estará a receber a acusação, 
por entender não haver elementos para formular o juízo de 
probabilidade sobre os factos.69 
Acusação e defesa 
 
 
69 Op. Cit., pp. 504. 
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Na fase processual de acusação e defesa podem-se distinguir três sub-
fases, correspondentes a três momentos distintos que a integram: 
a) A acusação propriamente dita; 
b) A contestação do arguido, a que se subsume a sua defesa70; e 
c) A pronúncia, na qual o juiz toma posição em face da acusação. 
Esta fase, tal como a fase de averiguação e investigação criminal, não 
existe com verdadeira autonomia da fase de julgamento no processo 
sumário e no de transgressão. 
Nas restantes formas de processo a acusação é autonomizada e será 
deduzida se houverem “indícios suficientes da existência de um facto 
punível, de quem foram os seus agentes e da sua responsabilidade” 
(art. 349º C. P. Penal). É ao Ministério Público, como órgão oficial 
titular da acção penal. 
A acusação – que denomina querela no processo do mesmo nome, e 
que se denominava queixa em processo correccional, nome pelo qual 
também era conhecida esta forma processual – é proferida apos a 
instrução preparatória ou após a instrução contraditória. Sendo 
sempre definitiva a acusação a posterior à contraditória, a 
subsequente à preparatória só o será se não se lhe seguir a instrução 
preparatória. 
Nos termos do artigo 350º do C. P. Penal, estabelece-se que havendo 
arguidos presos, a acusação será deduzida no prazo de cinco dias em 
processo de querela e de três dias nas demais formas de processo. 
Para este efeito, o processo será concluso ao Ministério Público pelo 
menos seis ou quatro dias, respectivamente, antes de terminarem os 
prazos a que se refere o § 1º do artigo 308º. O assistente será 
notificado, na data da conclusão do processo ao Ministério Público, 
para formular a sua acusação até dois dias após o termo do prazo em 
que este pode fazê-lo. 
Acusação, defesa, despacho de pronúncia e não pronúncia 
A acusação e defesa constituem a segunda fase do processo penal, 
podendo se seguir a fase seguinte, a de julgamento, quando haja lugar 
a pronúncia do arguido. 
Acusação definitiva regime geral 
 
Finda a instrução preparatória71, durante a qual devem ser feitas todas 
as diligências com a recolha de elementos de indiciação necessários 
para fundamentar a acusação, sem prejuízo de se realizar, igualmente, 
 
70 A defesa do arguido não restringe a tal peça processual nem sequer se encerra 
uma determinada fase, pois a mesma tem lugar ao longo de todo o processo. 
71 Seja pelo decurso dos respectivos prazos nos termos e por força do art. 326º nº 2, 
seja por se entender não haver mais diligências pertinentes a realizar. 
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as que possam concorrer para demonstrar a inocência ou 
irresponsabilidade dos arguidos, se do juízo que for feito face aos 
elementos obtidos concluir-se pela existência da infracção e sua 
imputação aos arguidos, havendo assim elementos de indiciação 
bastantes para sustentar a acusação, o Ministério Público formula a 
acusação definitiva ao abrigo da 1ª parte, do art. 341º corpo do C. P. 
Penal e 1ª parte, do art. 24º Decreto-Lei nº 35007. 
Havendo assistente no processo, também é notificado para deduzir a 
sua acusação, para que é-lhe facultado exame do processo. 
Assim, a acusação definitiva está condicionada ao facto de durante a 
instrução terem sido recolhidos elementos bastantes da infracção, dos 
seus agentes e sua responsabilidade (1ª parte, do corpo do 349º). 
Com efeito, ao deduzir acusação o Ministério Público este a formular 
juízo de probabilidade sobre o objecto de processo e formalmente 
manifesta a “…pretensão de que o arguido seja submetido a 
julgamento pela prática de determinado crime epor ele condenado 
com a pena prevista na lei…”72, agindo ao fazê-lo de acordo com 
critérios de legalidade, objectividade e isenção. 
Deduzida acusação pelo Ministério Público, enquanto titular da acção 
penal, o julgamento caberá ao tribunal, portanto, a um órgão 
diferente, assegurando-se, assim a imparcialidade do julgador, 
mediante atribuição órgão distintos das funções de investigação e 
acusação, por um lado, e da função de julgamento dessa acusação, por 
outro lado, como aliás o diz Germano Marques da Silva referindo-se ao 
processo acusatório, que acrescenta pretender-se “…deste modo 
assegurar a objectividade do julgamento dos factos que são objecto da 
acusação”.73 
Defesa do arguido 
Deduzida acusação, esta deve, nos termos do corpo do art. 352º do C. 
P. Penal, ser notificada aos arguidos presos e aos seus advogados no 
prazo de 24 horas, e não havendo arguidos presos no prazo de 5 dias. 
Notificados da acusação, os arguidos poderão apresentar a sua defesa 
no prazo de 5 dias, para o que o processo deve ser facultado para os 
exames pelos seus advogados a partir da data da notificação em 
atenção ao previsto no § 1º do art. 352ºdo C. P. Penal a defesa pode 
traduzir-se como que em três formas nomeadamente: 
 Mediante requerimento da instrução contraditória, que já foi 
acima referido como meio de defesa do arguido e, como tal, 
 
72 SILVA, Germano Marques da, Curso de Processo III, 3ª Edição, Revista e Actualizada 
Editorial Verbo, 2009, p. 118. 
73 Op. cit. pp. 506 
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permitir a este, o exercício pleno do seu direito de defesa antes 
da audiência de discussão e julgamento; 
 Mediante arguição de nulidades, sanáveis ou insanáveis nos 
termos estabelecidos pelo art. 98º; e 
 Através como tal, que traduzir-se à num oferecimento de 
documentos a alegação de que pretender por conveniente ao 
bem da defesa. 
Quando o arguido se defenda requerendo instrução contraditória ou 
oferecendo documentos e alegando o que entender por conveniente a 
bem da defesa, está fundamentalmente a se defender relativamente 
ao objecto da acusação, aos factos que nesta foram narrados de forma 
discriminada e precisa como o exige a lei. 
Pelo acima exposto, conclui-se que apresentada a defesa segue-se o 
despacho de pronúncia, sendo prejuízo de se seguir a instrução a 
contraditória, como aliás expendeu o Tribunal Supremo no seu 
Acórdão, datado de 26.03.1999 e proferido no processo nº 151/98-C, 
referindo numa das passagens o seguinte74.75 
 
Sumário 
Conseguimos na presente unidade temática expor em torno dos meios 
de coacção, onde abordamos em torno das provas, mormente as suas 
classificações, onde se pode referir pelo facto de se puder levar as 
provas ao processo, o juiz tem uma função importantíssima na crítica 
das mesmas de modo a se apurar a verdade material. Os meios de 
coacção utilizados em processo pemal têm natureza eminentemente 
processual. Por isso, não devem confundir-se com outras medidas, de 
natureza substantiva, que surgem como reacção a ofensas de carácter 
disciplinar ou penal, isto é, traduzem-se, pois, numa garantia do fim do 
processo, conforme referimos. 
A liberdade é um direito individual constitucionalmente consagrado, 
porém, em certos casos pode se ver limitado em virtude de se 
 
74 “Por força destas disposições de lei, sempre que proferida numa acusação em que 
processo penal, deve o juiz mandar notifica-la aos arguidos e seus advogados nos 
prazos ali indicados. A partir da data da notificação, o processo deverá ser facultado 
para exame aos advogados dos arguidos que, no prazo de 5 dias poderão agir 
conforme acharem mais conveniente a bem da defesa. 
Só após decurso deste prazo, o juiz proferirá o despacho de recebimento ou rejeição 
da acusação, ou ordenará a instrução contraditória como no caso couber ”, (tribunal 
supremo, acórdão da segunda secção criminal do tribunal proferido no processo nº 
151/98-c- principio do contraditório, e acórdão do tribunal supremo-jurisdição 
criminal-1990-2003, volume I, Maputo, 2008, PP. 460-461.) 
75 Ibidem, pp. 508-509. 
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procurar salvaguardar os interesses da sociedade. Nestes casos, só se 
pode proceder desta forma quando a lei expressamente consagrar, 
pois se a lei nada dispõe em torno de um comportamento violador da 
lei, o cidadão tem o direito de se opor, chamando desde logo a 
resistência legítima. 
Exercícios do tema IV. Unidade temática IV: 
1. A função das provas é: 
a) A demonstração da realidade dos factos; 
b) Presumir a inocência do arguido; 
c) Detectar mentiras na confissão; 
d) Proteger o réu de qualquer ameaça a sua esfera jurídica. 
A resposta correcta é: A. 
2. A prova conduz-nos à certeza objectiva: 
a) Verdadeiro; 
b) Falso. 
A resposta correcta é: B. 
3. Em processo penal existem provas pré-constituídas: 
a) Falso; 
b) Verdadeiro; 
A resposta correcta é: A. 
 
4. Assane testemunhou o momento em que Valquíria disparou 
dois tiros certeiros ao ombro direito de Ermelinda. Chamado 
ao tribunal para falar do que viu, aquele recusou-se: 
a) Assane violou o princípio do contraditório; 
b) Assane violou o princípio da oficialidade; 
c) Assane violou o dever de comparência; 
d) Assane violou o dever de prestar juramento. 
A resposta correcta é: C. 
5. O juiz não deve em nenhum momento perguntar algo sobre a 
prova pericial, os critérios utilizados para se apurar o 
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resultado trazido, visto que é leigo: 
a) Verdadeiro; 
b) Falso. 
 Resposta correcta é: B. 
6. Os exames feitos pelos peritos constituem uma prova real: 
a) Verdadeiro; 
b) Falso. 
A resposta correcta é: A. 
7. A contribuição do perito no processo consiste na formulação 
de um parecer ou opinião sobre o significado ou valor dos 
meios de prova. 
a) Falso; 
b) Verdadeiro. 
 
A resposta correcta é: B. 
8. As conclusões dos peritos não tomam nunca a natureza de 
decisões, mas somente de pareceres. 
a) Falso; 
b) Verdadeiro. 
A resposta correcta é: B. 
9. Em geral, todos os exames forenses devem ser feitos por 
peritos e bem assim os exames de reconhecimento de letra 
ou falsificação de documentos. 
a) É verdadeiro; 
b) É falso porque o juiz não deve deixar que estas figuras 
interfiram no seu trabalho. 
A resposta correcta é: A. 
10. Os peritos, por estarem dotados de conhecimentos técnicos 
não estão sujeitos ao dever de comparência ao tribunal: 
a) Verdadeiro; 
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b) Falso; 
A resposta correcta é: B. 
11. As buscas têm dupla função: 
a) O fim de apreensão e o de captura; 
b) O fim de captura e tortura. 
A resposta correcta é: A. 
Tema V – OS RECURSOS EM PROCESSO PENAL 
UNIDADE TEMÁTICA 4. DOS RECURSOS EM PROCESSO PENAL 
 Introdução 
O princípio da recorribilidade ou do duplo grau de jurisdição encontra-
se previsto no artigo 70º da Constituição da República de 
Moçambique, que por outras palavras designa-se por recurso. Este é, 
para todos os efeitos um direito de todos os cidadãos. Neste contexto, 
quando lançamos mão ao recurso em processo penal verifica-se a 
existência de dois tribunais, mormente o Tribunal “a quo” e o Tribunal 
“ad

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