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Prévia do material em texto

AUTOR
Professor Jose Valdeci Grigoleto Netto
●	 Mestrando	em	Psicologia	(Universidade	Estadual	de	Maringá,	Maringá	-	PR);	
●	 Graduado	em	Psicologia	(Centro	Universitário	Ingá	-	UNINGÁ,	Maringá	-	PR);
●	 Especialista	em	Educação	Especial	e	Inclusiva	(Faculdade	de	Tecnologia	e		 	
	 Ciências	do	Norte	do	Paraná	-	UNIFATECIE,	Paranavaí	-	PR);
●	 Especialista	em	Saúde	Mental,	Psicopatologia	e	Atenção	Psicossocial	(Centro		
	 Universitário	de	Maringá	-	UNICESUMAR,	Maringá	-	PR);
●	 Membro	do	Grupo	de	Pesquisa	DeVerso	-	Sexualidade,	Saúde	e	Política	
	 (Universidade	Estadual	de	Maringá,	Maringá	-	PR).
●	 Professor	orientador	de	Trabalhos	de	Conclusão	de	Curso	(TCC)	da	Pós-
	 Graduação	Lato	Sensu	(EAD)	do	Centro	Universitário	de	Maringá	-	UNICESUMAR.
Possui	experiência	na	área	da	política	pública	de	Assistência	Social,	estudos	de	
gênero,	diversidade	sexual,	e	educação	especial	e	inclusiva.	Atualmente,	no	mestrado,	pes-
quisa	acerca	da	subjetividade	e	das	práticas	sociais	na	contemporaneidade,	com	ênfase	
nas	relações	de	gênero.
Link	para	acesso	ao	currículo	lattes:	http://lattes.cnpq.br/2661321527310427	
APRESENTAÇÃO DO MATERIAL
Olá,	aluno(a)!	
Seja	bem-vindo(a)	à	disciplina:	Gênero,	Sexualidade	e	Educação.	Neste	momento,	
você	terá	a	oportunidade	de	conhecer	a	interface	entre	estes	três	temas	que,	muitas	vezes,	
quando	trabalhamos	em	conjunto,	despertam	receio	e	desconfiança	por	parte	dos	profissio-
nais	da	educação	e,	também,	da	sociedade.
Para	desenvolvermos	um	trabalho	interessante	e	agradável,	a	disciplina	foi	dividida	
em	quatro	unidades	e,	em	cada	uma	delas,	iremos	trabalhar	alguns	temas	que	se	relacio-
nem	entre	si.	Vamos	conhecer	cada	um	deles	detalhadamente?
Para	iniciar,	na	Unidade	I	iremos	realizar	um	apanhado	histórico	acerca	da	cons-
trução	 histórica	 dos	 temas	 envolvidos	 na	 disciplina	 e,	 a	 partir	 disso,	 correlacionar	 suas	
perspectivas	com	a	educação	sexual.	Para	tanto,	será	destacada	a	contextualização	his-
tórica	sobre	os	estudos	de	gênero	e	educação.	Na	sequência,	iremos	nos	atentar	para	a	
sexualidade	enquanto	uma	construção	histórica,	social,	cultural,	política	e	discursiva.	Dando	
continuidade,	 iremos	conhecer	alguns	paradigmas	subjacentes	às	várias	abordagens	de	
educação	sexual	através	da	história	e	seus	reflexos	nos	cotidianos	das	sociedades,	com	
destaque	para	a	escolarização	brasileira,	a	educação	para	sexualidade	e	para	a	equidade	
de	gênero.	Ao	final	da	unidade,	daremos	atenção	à	importante	prevenção	do	preconceito	e	
discriminação,	no	respeito	à	alteridade	e	às	identidades	culturais.
Concluído	este	momento,	iremos	avançar	para	a	Unidade	II	em	que	iremos	traba-
lhar	a	educação	de	gênero	e	sexualidade	nos	espaços	escolares.	Nesta	perspectiva,	será	
dada	atenção	especial	para	as	abordagens	pedagógicas	da	educação	sexual	no	Brasil.	
Ainda,	compreenderemos	os	conceitos	e	as	interfaces	entre	gênero	e	orientação	sexual.	
Para	finalizar,	iremos	nos	debruçar	no	conhecimento	dos	recursos	didático-metodológicos	
para	um	trabalho	de	Educação	Sexual	na	Educação	Infantil	e	Ensino	Fundamental.	
Seguindo	adiante,	na	Unidade	III	iremos	voltar	nossa	atenção	para	a	questão	da	
sexualidade	 na	 infância	 e	 adolescência.	Desta	maneira,	 realizaremos	 um	diálogo	 sobre	
crianças	e	adolescentes,	gênero	e	sexualidade	na	 interface	entre	 tais	 temas.	Após	 isso,	
estudaremos	a	questão	da	violência	sexual	infantil	e	seus	desdobramentos.	Para	finalizar,	
como	 tema	extremamente	 importante,	dar-se-á	um	destaque	especial	para	a	 integração	
entre	escola	e	família.	
Ao	 fim	da	 disciplina,	 na	Unidade	 IV,	 trabalharemos	 as	 práticas	 pedagógicas	 com	
base	em	uma	educação	sexual	emancipatória.	Para	tanto,	conheceremos	os	processos	de	
educação	sexual	que	existem	nos	espaços	educativos.	A	seguir,	conheceremos	a	construção	
de	educação	sexual	com	base	em	uma	proposta	emancipatória.	Neste	caminho,	para	finalizar	
nossos	estudos,	vamos	conhecer	o	ensino	dos	Direitos	Humanos	no	contexto	escolar.	
A	partir	da	organização,	esperamos	que	os	conteúdos	que	escolhemos	para	serem	
apresentados	nesta	disciplina	sejam	norteadores	para	seus	estudos	e,	inclusive,	sua	futura	
prática	 docente.	Aproveite	 ao	máximo	 a	 disciplina,	 extraia	 o	 possível	 de	 informações	 e	
conhecimento	destas	páginas.
Ótimo estudo! 
SUMÁRIO
UNIDADE	I	...................................................................................................... 6
Construção Histórica e Perspectivas da Educação Sexual
UNIDADE	II	................................................................................................... 27
Educação de Gênero e Sexualidade nos Espaços Educativos
UNIDADE	III	.................................................................................................. 44
Sexualidade na Infância e Adolescência
UNIDADE	IV	.................................................................................................. 59
Práticas Pedagógicas com Base em uma Educação Sexual 
Emancipatória
4
Plano de Estudo:
●	Contextualização	histórica	sobre	os	estudos	de	gênero	e	educação;
●	Sexualidade	como	construção	histórica,	social,	cultural,	política	e	discursiva;
●	Paradigmas	subjacentes	às	várias	abordagens	de	educação	sexual	através	
	 da	história	e	seus	reflexos	nos	cotidianos	das	sociedades,	com	destaque	para	
	 a	escolarização	brasileira,	a	educação	para	sexualidade	e	para	a	equidade	de	gênero;
●	Prevenção	do	preconceito	e	discriminação,	no	respeito	a	alteridade	e	às	
	 identidades	culturais.
Objetivos da Aprendizagem:
●	 Conhecer	a	história	acerca	dos	estudos	
de	gênero	e	suas	interfaces	com	a	educação;
●	 Compreender	os	aspectos	relacionados	à	sexualidade	
enquanto	uma	construção	histórica,	social	e	cultural;
●	 Conhecer	recursos	para	o	trabalho	educativo,	com	o	objetivo	de	prevenir	
situações	de	preconceitos	e	discriminações	no	âmbito	escolar.	
UNIDADE I
Construção Histórica e Perspectivas da 
Educação Sexual
Professor Esp. Jose Valdeci Grigoleto Netto
5UNIDADE I Construção Histórica e Perspectivas da Educação Sexual
INTRODUÇÃO
Olá,	aluno(a)!
Seja	bem-vindo(a)	à	primeira	unidade	da	disciplina	Gênero,	Sexualidade	e	Educa-
ção.	Neste	momento,	iremos	nos	debruçar	em	aspectos	introdutórios	acerca	da	temática.	
Para	isso,	faremos	um	amplo	estudo	acerca	de	conceitos	e	ideias,	culminando	em	impor-
tantes	reflexões	e	análises.
No	Tópico	I	iremos	trilhar	através	da	contextualização	histórica	sobre	os	estudos	de	
gênero	e	educação,	principalmente	no	Brasil,	iniciando	com	a	conceituação	do	que	vem	ser	
a	palavra	gênero	e	de	como	podemos	empregá-la	em	nosso	vocabulário	e	no	dia	a	dia.	Na	
sequência	iremos	estudar	as	construções	históricas	acerca	do	masculino	e	feminino,	com	os	
papéis	sociais	que	são	pré-determinados	em	relação	aos	sexos.	Ainda,	iremos	refletir	acerca	
do	papel	da	escola	na	construção	dos	estudos	de	gênero	e	na	manutenção	destes	papéis.
Avançando,	no	Tópico	 II	 trataremos	mais	especificamente	da	sexualidade	como	
construção	 histórica,	 social,	 cultural,	 política	 e	 discursiva.	 Para	 isso,	 nos	 debruçaremos	
nos	estudos	de	Michel	Foucault	e	outros(as)	autores(as)	 importantes,	compreendendo	a	
importância	e	relevância	dos	discursos,	bem	como	a	noção	de	poder	e	seus	efeitos.	
No	Tópico	III	iremos	discutir	acerca	das	abordagens	de	educação	sexual	através	
da	história	e	seus	reflexos	no	cotidiano	para	a	escolarização	brasileira	frente	à	equidade	
de	gênero.	Para	isso,	iremos	conhecer	um	pouco	do	papel	dos	estudos	feministas	para	a	
compreensão	dos	estudos	de	gênero,	bem	como	a	importância	da	temática	da	sexualidade	
dentro	das	escolas	e,	principalmente,	o	papel	desta	instituição	para	o	fomento	de	discus-
sões	e	diálogos	que	envolvam	a	temática	da	sexualidade,	a	fim	de	proporcionar	equidade	
no	acesso	aos	direitos.	
Por	fim,	no	Tópico	IV	iremos	estudar	aspectos	relacionados	à	prevenção	do	pre-
conceito	 e	 discriminação	 frente	 às	 diferenças,	 contando	 com	 estudos	 que	 embasam	 e	
problematizem	aspectos	relacionadosao	preconceito	no	ambiente	escolar.	
A	 partir	 da	 exposição	 apresentada,	 espero	 que	 os	 temas	aqui	 elencados	 sejam	
pertinentes	e	úteis	para	embasar	seus	estudos	e	sua	futura	prática	docente.	
Bons	estudos!	
6UNIDADE I Construção Histórica e Perspectivas da Educação Sexual
1. CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA SOBRE OS ESTUDOS DE GÊNERO E 
 EDUCAÇÃO
Olá,	aluno(a),	vamos	dar	início	ao	primeiro	tópico	de	nossos	estudos.	Para	tanto,	
é	preciso	que	realizemos	um	resgate	histórico	acerca	dos	estudos	sobre	gênero	e	suas	
interfaces	com	a	educação,	para	que	possamos	compreender	como,	nos	dias	de	hoje,	a	
relação	educação	e	sexualidade	é	compreendida.	Vamos	lá?
Primeiro,	é	importante	destacar	que	definir	e	conceituar	a	palavra	gênero	não	é	uma	
tarefa	fácil	e	simplista.	Pela	sua	amplidão	de	compreensões,	pela	vasta	gama	de	autores	e	
autoras	que	trabalham	com	este	conceito,	gênero	pode	ser	compreendido	de	maneira	plural.
Além	disso,	Connell	e	Pearse	(2015)	destacam	que	o	gênero	é	um	espaço	que	
ocupa	 uma	 posição	 central	 e	 de	 grande	 importância	 na	 vida	 das	 pessoas,	 refletindo,	
inclusive,	em	questões	de	acesso	à	justiça,	à	identidade	e	à	sobrevivência.	Não	obstante,	
como	nós	podemos	perceber	atualmente,	e	as	autoras	também	destacam,	gênero	é	um	
assunto	alvo	de	constantes	preconceitos,	mitos	e	rodeados	por	falsas	ideias.	Portanto,	é	
preciso	que	nós	saibamos	que
[...]	Acima	de	tudo,	o	gênero	é	uma	questão	de	relações	sociais	dentro	das	
quais	indivíduos	e	grupos	atuam.	[...]	o	gênero	deve	ser	entendido	como	uma	
estrutura	social.	Não	é	uma	expressão	da	biologia,	nem	uma	dicotomia	fixa	
na	vida	ou	no	caráter	humano.	É	um	padrão	em	nossos	arranjos	sociais,	e	as	
atividades	do	cotidiano	são	formadas	por	esse	padrão	(CONNELL;	PEARSE,	
2015,	p.	47).	
7UNIDADE I Construção Histórica e Perspectivas da Educação Sexual
A	partir	desta	definição,	podemos	pensar	no	gênero	enquanto	uma	questão	das	
relações,	compreendendo-o	enquanto	algo	que	faz	parte	da	maneira	na	qual	as	sociedades	
lidam	com	os	corpos	das	pessoas	e	com	suas	vidas.	Ainda,	gênero	diz	respeito	à	nossa	
identidade	e	nossa	sexualidade	(CONNELL;	PEARSE,	2015).
Desta	maneira,	podemos	compreender	que	o	gênero	não	está	relacionado	à	biolo-
gia,	aos	aspectos	orgânicos	que	diferem	o	“macho”	da	“fêmea”.	Pensar	em	gênero	é	pensar	
exatamente	em	uma	pluralidade	de	possibilidades,	que	vão	além	de	uma	dicotomia,	isto	é,	
algo	com	apenas	duas	possibilidades,	mas	sim	que	assuma	uma	imensidão	de	expressões	
de	vida	e,	consequentemente,	de	sexualidade.	
Importante	pontuar,	como	afirma	Louro	(2003),	que,	ao	falarmos	da	importância	
dos	aspectos	sociais	na	construção	de	gênero,	não	estamos	negando	a	importância	do	
papel	 dos	 aspectos	 biológicos,	mas	 estamos	 retirando	 certa	 ênfase,	 exageradamente	
focada	em	tais	pontos.	
O	objetivo,	 com	 isso,	é	 trazer	para	o	espaço	social	 os	debates	 relacionados	ao	
gênero	e	às	sexualidades,	visto	que	é	exatamente	no	campo	do	social	que	as	relações	são	
construídas	e,	como	fator	consequente,	as	exclusões	e	discriminações	também	se	produ-
zem.	“As	justificativas	para	as	desigualdades	precisariam	ser	buscadas	não	nas	diferenças	
biológicas	 [...]	mas	 sim	 nos	 arranjos	 sociais,	 na	 história,	 nas	 condições	 de	 acesso	 aos	
recursos	da	sociedade,	nas	formas	de	representação”	(LOURO,	2003,	p.	22).	
Agora	que	já	possuímos	uma	compreensão	do	que	é	o	gênero,	pergunto	à	você,	
aluno(a):	Quantas	vezes	você	já	ouviu	alguma	dessas	expressões:	“isso	é	coisa	de	me-
nino;	isso	é	coisa	de	menina”,	ou	ainda	“azul	é	cor	de	menino	e	rosa	é	cor	de	menina”,	
relacionando	cores,	objetos,	profissões	com	o	sexo	biológico	das	pessoas.	Acredito	que	
inúmeras	vezes,	não	é	mesmo?!	Proponho,	então,	que	você	se	questione	e	reflita:	será	
que	essa	construção	(do	que	é	pertencente	ao	menino	e	à	menina)	é	algo	natural?	Será	
que	“sempre	foi	assim”?	
Revisitando	a	história,	podemos	constatar	que,	ao	longo	dos	tempos,	as	diversas	
sociedades	criaram	ideias	de	como	deveria	ser	utilizado	o	tempo	e	o	espaço,	isto	é,	o	tempo	
de	casa,	o	tempo	do	ócio,	o	tempo	da	rua.	Ainda	houve	a	determinação	e	estabelecimento	
de	lugares	que	eram	permitidos	ou	não	para	determinados	grupos	de	pessoas.	A	escola,	
neste	aspecto,	exerceu	importante	papel	no	que	diz	respeito	ao	acesso,	separação	e	per-
manência	de	diferentes	alunos	neste	ambiente	(LOURO,	2003).	
Curioso	apontar	que,	segundo	a	autora,	havia	antigos	manuais	que	determinavam,	
de	maneira	explícita,	como	deveria	ser	o	trato	que	os	professores	deveriam	ter	com	seus	
8UNIDADE I Construção Histórica e Perspectivas da Educação Sexual
alunos,	ou	seja,	a	maneira	na	qual	eles	iriam	lidar	com	a	forma	de	segurar	o	lápis,	de	se	
posicionar	nas	carteiras,	dentre	outros	aspectos,	o	que	acabava	por	construir	uma	distinção	
entre	meninos	e	meninas.	Para	cada	um	destes	havia	regras	a	serem	seguidas,	distintas	e	
muito	bem	demarcadas	umas	das	outras.	
Havia,	 inclusive,	nas	chamadas	“escolas	femininas”,	a	produção	de	meninas	vol-
tadas	aos	trabalhos	manuais,	à	delicadeza,	ao	treino	de	habilidades	unicamente	de	ordem	
manual,	o	que	resultava	em	jovens	ditas	“prendadas”,	em	que	seus	trabalhos	giravam	em	
torno,	quase	que	exclusivamente,	de	agulhas	e	pincéis.	Vê-se,	então,	que	“As	marcas	da	
escolarização	se	inscreviam,	assim,	nos	corpos	dos	sujeitos”	(LOURO,	2003,	p.	62).
FIGURA 1 - CRIANÇA EM ATIVIDADE ESCOLAR
Aluno(a),	a	partir	dessas	afirmações,	pensem	comigo:	podemos,	então,	 falar	em	
um	“processo	de	fabricação	de	sujeitos”?	Podemos	pensar	que	sim,	visto	que,	como	aponta	
Louro	 (2003),	 essa	 fabricação	 se	 dá	 de	maneira	 sutil,	 quase	 imperceptível	 nos	 dias	 de	
hoje.	Tomemos	como	exemplos:	a	separação,	nas	escolas,	de	filas	de	meninos	e	meninas;	
a	separação	de	meninos	e	meninas	em	atividades	escolares;	a	escolha	de	determinados	
brinquedos	para	meninas	e	outros	para	meninos	(como	já	pontuamos	anteriormente).	Tudo	
isso,	aluno(a),	faz	parte	de	um	processo	que	precisamos	questionar,	problematizar	e,	acima	
de	tudo,	desconfiar.
Os	questionamentos	em	torno	desses	campos,	no	entanto,	precisam	ir	além	
das	 perguntas	 ingênuas	 e	 dicotomizadas.	 Dispostas/os	 a	 implodir	 a	 idéia	
de	um	binarismo	rígido	nas	relações	de	gênero,	teremos	de	ser	capazes	de	
um	olhar	mais	aberto,	de	uma	problematização	mais	ampla	(e	também	mais	
complexa),	uma	problematização	que	terá	de	lidar,	necessariamente,	com	as	
múltiplas	combinações	de	gênero,	sexualidade,	classe,	raça,	etnia	(LOURO,	
2003,	p.	65).	
9UNIDADE I Construção Histórica e Perspectivas da Educação Sexual
Assim,	pensarmos	na	relação	e	na	 importância	da	discussão	de	temas	relacio-
nados	ao	gênero	e	à	 sexualidade	dentro	do	ambiente	escolar,	 é	pensar	no	 respeito	à	
diversidade	humana,	sua	multiplicidade	e	diversidade,	o	que,	 infelizmente,	 tem	gerado	
nos	últimos	tempos	debates	negativos	que	colocam	em	jogo	a	questão	do	efetivo	acesso	
democrático	ao	ensino.	Todavia,	quanto	mais	dialogarmos	acerca	da	importância	do	re-
conhecimento	das	diferenças	de	gênero,	 raça,	orientação	sexual,	 idade,	dentre	outros,	
mais	 iremos	nos	aproximar	de	uma	efetiva	democracia,	realocando	nossos	debates	às	
questões	 relacionadas	 à	 criação	 e	 aperfeiçoamento	 de	 políticas	 públicas	 que	 visem	a	
qualidade	do	ensino	que	é	ofertado,	bem	como	a	permanência	destes	estudantes	nos	
espaços	de	ensino	(OLIVEIRA;	MOCHI,	2020).	
No	tópico	a	seguir	iremos	conhecer	um	pouco	acerca	dos	aspectos	que	envolvem	
a	sexualidade,	especificamente	os	pontos	que	demarcaram	sua	construção	histórica,	a	ma-
neira	na	qual	as	sociedades	a	compreendiam	e	compreendem	no	dia	de	hoje,	perpassando	
pelo	olhar	da	cultura,	da	política	e	do	discurso.	Vamos	lá!	
10UNIDADE I Construção Histórica e Perspectivas da Educação Sexual
2. SEXUALIDADE COMO CONSTRUÇÃO HISTÓRICA, SOCIAL, CULTURAL, 
 POLÍTICA E DISCURSIVA
Louro	(2004)	afirma	que	a	sexualidade,	tendo	sido	tornada	(não	por	acaso)	uma	
“questão”	nos	últimos	doisséculos,	vem	sendo	assunto	de	grande	interesse	de	diversas	
áreas,	por	exemplo:	cientistas,	educadores,	religiosos	e	psiquiatras.	Pautadas	em	diferentes	
visões,	as	compreensões	acerca	da	sexualidade	buscam	descrever,	compreender,	explicar,	
regular,	educar	e	normatizar	suas	práticas	e	expressões.	
Neste	caminho,	para	discutirmos	acerca	do	tema	da	sexualidade	e,	principalmente,	
para	compreendermos	a	construção	histórica	e	cultural	de	seus	desdobramentos,	 faz-se	
pertinente	recorrermos	aos	estudos	do	filósofo	Michel	Foucault	que	se	debruçou	na	cons-
trução	da	História da Sexualidade,	tendo	publicado,	em	vida,	sua	obra	em	três	tomos.	O	
Primeiro	livro,	intitulado	A Vontade de Saber,	foi	originalmente	publicado	em	1976;	o	segun-
do,	O Uso dos Prazeres e	o	terceiro, O Cuidado de Si foram	ambos	publicados	em	1984.	
Em	2018,	sob	a	edição	de	Fréderic	Gross,	anos	após	a	morte	de	Foucault,	foi	publicado	o	
quarto	volume,	intitulado	As Confissões da Carne.	
Para	Foucault	(1976/2020),	no	início	do	século	XVII	a	sexualidade	não	era	com-
preendida	enquanto	um	assunto	tabu,	ao	contrário:	não	havia	segredo,	as	palavras	eram	
ditas	sem	delongas,	havia	certa	familiaridade	com	o	dito	“ilícito”.	A	ideia	de	obsceno	não	
era	a	mesma	que	nossa	sociedade,	hoje,	compreende	a	sexualidade;	era	a	época	dos	
corpos	expostos,	gestos	e	atitudes	que	não	portavam	vergonha.	Era	a	sexualidade	em	
sua	forma	crua	e	livre.	
11UNIDADE I Construção Histórica e Perspectivas da Educação Sexual
No	entanto,	a	partir	do	século	XIX,	a	sexualidade	toma	outra	forma,	se	encerra	en-
quanto	atributo	e	prática	livre,	torna-se	indecente.	Ela	deixa	de	ser	assunto	público,	visível	
e	adentra	o	quarto	dos	pais,	isto	é,	o	quarto	do	casal,	local	para	a	procriação.	A	sexualidade	
é	confiscada	para	o	seio	familiar;	seu	objetivo	agora	é	a	reprodução.	O	prazer	não	é	mais	o	
alvo,	o	objetivo	final	(FOUCAULT,	1976/2020).
Surge,	 então,	 a	 repressão	 da	 sexualidade.	É	 o	 silenciamento	 das	 práticas	 até	
então	permitidas,	é	como	se	surgisse	a	“[...]	constatação	de	que,	em	tudo	isso,	não	há	
nada	para	dizer,	nem	para	ver,	nem	para	saber”	(FOUCAULT,	1976/2020,	p.	8).	Fazendo	
um	balanço	com	os	dias	atuais,	Maio	(2011,	p.	38)	ressalta	que,	ainda	hoje,	no	século	
XXI,	“É	inegável	que	vivemos	numa	tradição	cultural	na	qual	nosso	corpo	sofreu	e	ainda	
sofre	uma	série	de	repressões	por	meio	de	preconceitos,	normas	sociais,	interditos	[...]	
sofrendo	com	isso	uma	rigidez	postural”.	
Foucault	(1976/2020)	nos	mostra	como	os	discursos	médicos	passaram	a	exercer	um	
papel	central	na	patologização	de	determinadas	práticas	sexuais,	denominadas	de	“perver-
sões”,	exercendo	o	papel	de	poder	frente	à	uma	verdade	que	detinha	todo	o	conhecimento.	Os	
discursos	médicos,	então,	eram	tomados	como	a	norma,	o	correto	e	o	que,	por	consequência,	
deveria	ser	seguido;	tudo	o	que	fugia	à	tal	norma	deveria	ser	corrigido,	revertido.	
Na	 psiquiatrização	 das	 perversões,	 o	 sexo	 foi	 referido	 a	 funções	 biológicas	
e	a	um	aparelho	anátomo-fisiológico	que	 lhe	dá	 “sentido”,	 isto	é,	finalidade;	
também	a	um	instinto	que,	através	do	seu	próprio	desenvolvimento	e	de	acor-
do	com	os	objetos	a	que	pode	se	vincular,	torna	possível	o	aparecimento	das	
condutas	perversas	e	sua	gênese,	inteligivél	(FOUCAULT,	1976/2020,	p.	167).	
É	o	que	Louro	(2004)	aponta,	ao	elucidar	que,	a	partir	do	século	XIX,	homens	vito-
rianos,	que	detinham	o	poder,	começaram	a	fazer	“descobertas”	(entre	aspas	para	enfatizar	
certa	ironia)	a	respeito	da	sexualidade,	definindo	e	classificando	as	práticas	que	recaiam	
nos	corpos	de	homens	e	mulheres.	Tais	discursos	passaram,	como	Foucault	elucidou,	a	
deter	certa	ideia	de	verdade	e,	por	isso,	não	poderiam	ser	questionados.	Com	isso,	
Busca-se,	 tenazmente,	 conhecer,	 explicar,	 identificar	 e	 também	 classificar,	
dividir,	regrar	e	disciplinar	a	sexualidade.	Produzem-se	discursos	carregados	
da	autoridade	da	ciência.	Discursos	que	se	confrontam	ou	se	combinam	com	
os	da	igreja,	da	moral	e	da	lei	(LOURO,	2004,	p.	79).	
Hoje,	nós	presenciamos	discursos	que	colocam	a	sexualidade	enquanto	heteronor-
mativa,	isto	é,	apenas	a	expressão/relação	afetivo-sexual	entre	um	homem	e	uma	mulher	
heterossexual	podem	ser	consideradas	normais.	Essa	maneira	de	viver	e	experienciar	as	
manifestações	da	sexualidade	em	uma	compreensão	heterocentrada	possui	como	objetivo	
a	construção	de	uma	forma	tida	como	“normal”	de	família,	excluindo	todas	as	outras	possibi-
lidades	de	vivência	e	expressão	de	relações	(LOURO,	2004).	Esquece-se,	no	entanto,	que	
12UNIDADE I Construção Histórica e Perspectivas da Educação Sexual
“[...]	a	sexualidade	se	forma	com	base	em	um	constructo	histórico,	que	vai	se	integrando	
às	construções	física	e	psíquica	de	cada	pessoa,	determinando	a	sua	expressão	sexual;	
portanto,	corporal”	(MAIO,	2011,	p.	39),	sendo	um	fator	subjetivo,	único	e	multideterminado.	
Vê-se	ainda	que
Se,	 nos	 dias	 de	 hoje,	 ela	 [a	 sexualidade]	 continua	 alvo	 da	 vigilância	 e	 do	
controle,	agora	se	ampliaram	e	diversificaram	suas	formas	de	regulação,	mul-
tiplicaram-se	as	instâncias	e	as	instituições	que	se	autorizam	a	ditar-lhe	as	
normas,	a	definir-lhe	os	padrões	de	pureza,	sanidade	ou	insanidade,	a	delimi-
tar-lhe	os	saberes	e	as	práticas	pertinentes,	adequadas	ou	infames	(LOURO,	
2004,	p.	27).	
Desta	forma,	percebe-se,	aluno(a),	que	falar	em	sexualidade	é,	ao	mesmo	tempo,	
falar	em	relações	de	poder.	Foucault	(1976/2020)	nos	apresenta	dois	conceitos	extrema-
mente	importantes	em	sua	obra,	para	compreendermos	a	ideia	de	biopoder,	isto	é,	o	poder	
sobre	a	vida.	O	conceito	de	biopoder	pode	ser	subdividido	em:	disciplina	e	biopolítica.	A	
primeira	se	refere	ao	governo	dos	corpos,	dos	indivíduos	e	a	segunda	está	relacionada	ao	
governo	da	população.	Ambos	os	conceitos	estão	relacionados,	claramente,	com	a	ideia	de	
controle.	O	poder,	na	obra	de	Foucault,	ilustra	as	diferenças	entre	quem	detém	o	poder	de	
superioridade	para	falar	e	ser	ouvido	e	quem	é	silenciado,	excluído,	relegado	à	margem.	
Logo,	 nota-se	 que	 os	 interesses	 políticos	 possuem	 forte	 espaço	 no	 controle	 da	
sexualidade.	Como	Louro	(2004)	assinalou,	os	estados	passaram	a	se	preocupar	com	o	
controle	populacional	e,	nesta	lógica,	com	o	controle	da	família	e	da	reprodução.	
Aluno(a),	neste	ponto	 iremos	adentrar	em	um	outro	conceito	de	extrema	rele-
vância	na	vasta	obra	de	Foucault:	o	discurso.	Para	aprofundarmos	nossa	compreensão	
acerca	da	sexualidade,	é	de	extrema	relevância	compreendermos	como	os	discursos	
sobre	a	sexualidade	nos	atravessam,	 isto	é,	 como	os	discursos	são	produzidos,	 (re)
produzidos,	e	transformados.	
Para	Foucault	(1970/2014),	o	discurso	pode	ser	compreendido	como	o	ato	de	falar,	
transmitir	determinadas	ideias	e	possuir	a	capacidade	de	articulá-las	em	qualquer	campo	
de	comunicação.	No	entanto,	o	discurso	exerce	um	controle	quando	se	limita	quem,	onde,	
como	e	quando	falar,	 isto	é,	o	poder	entra	em	cena,	como	sendo	a	capacidade	e	a	pos-
sibilidade	de	exercer	a	fala.	Com	isso,	vê-se	que	não	são	todas	as	pessoas,	em	todos	os	
espaços,	que	podem	falar;	ao	contrário,	o	silenciamento	e	a	exclusão	são	fatores	presentes	
quando	se	estabelece	uma	ordem	do	discurso.	
[...]	ninguém	entrará	na	ordem	do	discurso	se	não	satisfizer	a	certas	exigên-
cias	ou	se	não	for,	de	início,	qualificado	para	fazê-lo.	Mais	precisamente:	nem	
todas	as	regiões	do	discurso	são	igualmente	abertas	e	penetráveis;	algumas	
são	altamente	proibidas	[...],	enquanto	outras	parecem	quase	abertas	a	todos	
os	ventos	e	postas,	sem	restrição	prévia,	à	disposição	de	cada	sujeito	que	
fala	(FOUCAULT,	1970/2014,	p.	35).	
13UNIDADE I Construção Histórica e Perspectivas da Educação Sexual
Ainda	para	o	autor,	podemos	compreender	o	discurso	através	de	duas	partes:	a	
primeira	diz	respeito	aos	processos	externos	ao	sujeito,	sendo	eles:	
●	 A	interdição,	que	se	refere	à	criação	de	certos	silenciamentos,	interditos,	em	
relação	ao	que	pode	ou	não	ser	dito;
●	 A	separação/rejeição,que	define	quem	possui	o	direito	privilegiado	de	falar;	
●	 A	oposição	entre	verdadeiro x falso,	que	serve	como	uma	forma	de	organiza-
ção	dos	discursos,	com	o	reconhecimento	de	certas	posições	como	verdadeiras	
e	legítimas,	e	outras,	ao	contrário,	tidas	como	falsas.	
Na	segunda	parte,	temos	os	procedimentos	internos	ao	sujeito,	sendo	eles:	
●	 O	comentário,	em	que	quem	fala	possui	a	capacidade	de	repetir	e	reafirmar	
determinado	discurso,	expandindo-o;	
●	 O	 autor,	 que	 detém	 a	 capacidade	 de	 colocar	 uma	 origem	 e	 identidade	
frente	ao	saber;
●	 A organização das disciplinas,	que	serve	como	uma	categorização	dos	discur-
sos,	enquadrando-os	em	uma	maneira	de	“encaixotar”,	digamos,	assim,	o	conhe-
cimento,	a	fim	de	ele	que	caiba	em	determinados	espaços	e	círculos	sociais.	
Desta	forma,	aluno(a),	podemos	compreender	como	o	discurso	possui	um	papel	de	
extrema	importância	no	que	tange	o	tema	da	sexualidade.	A	partir	dos	pressupostos	elen-
cados,	se	realizarmos	uma	breve	e	rápida	reflexão,	poderemos	perceber	que	as	instituições	
que	possuem	o	poder	de	determinar	a	norma	sempre	possuem	um	interesse	velado	que	
serve	apenas	para	uma	parcela	específica	da	população.	
	
14UNIDADE I Construção Histórica e Perspectivas da Educação Sexual
3. AS ABORDAGENS DE EDUCAÇÃO SEXUAL ATRAVÉS DA HISTÓRIA E SEUS 
 REFLEXOS NO COTIDIANO PARA A ESCOLARIZAÇÃO BRASILEIRA FRENTE 
 À EQUIDADE DE GÊNERO
No	Brasil,	os	estudos	e	pesquisas	sobre	gênero	tiveram	início	com	o	movimento	
feminista.	É	a	partir	da	década	de	1970	que	mulheres,	principalmente	ligadas	às	universida-
des,	ganham	visibilidade	e	espaço	para	a	discussão	de	questões	ligadas	à	temática.	O	foco	
inicial	eram	as	pesquisas	sociais,	dando-se	 início	à	 realização	de	eventos,	produção	de	
livros	e	artigos	que	traziam	a	ideia	de	“estudos	sobre	mulher”	como	marca	para	demarcar	
esta	nova	área	de	estudos	(HEILBORN;	SORJ,	1999).	
A	defesa	do	uso	do	conceito	de	gênero,	acompanhando	o	debate	internacio-
nal,	passou	a	adquirir	caráter	relacional	e	a	abarcar	a	definição	e	a	estrutu-
ração	das	relações	sociais,	englobando	as	dimensões	de	classe,	raça,	etnia	
e	geração	na	procura	de	apreensão	das	distintas	 formas	de	desigualdade	
(VIANNA,	2017,	p.	53).
Uma	observação	importante	e	que	não	podemos	deixar	de	mencionar,	refere-se	ao	
trabalho	importante	de	Scott	(1995)	que,	com	o	artigo	intitulado	Gênero: uma categoria útil 
de análise histórica,	trouxe	importantes	reflexões	para	que	possamos	compreender	gênero	
enquanto	uma	categoria	de	poder.	Neste	 trabalho,	a	autora	 traz	o	pioneirismo	do	 termo	
gênero	e	seu	surgimento	com	as	feministas	americanas.	É	no	seu	trabalho,	também,	que	
encontramos	o	gênero	de	maneira	ampla,	em	que	ela	o	compreende	como	sendo
15UNIDADE I Construção Histórica e Perspectivas da Educação Sexual
[...]	utilizado	para	designar	as	relações	sociais	entre	os	sexos.	 [...]	o	 termo	
“gênero”	 torna-se	uma	 forma	de	 indicar	 “construções	culturais”	 -	 a	 criação	
inteiramente	social	de	idéias	sobre	os	papéis	adequados	aos	homens	e	às	
mulheres.	Trata-se	 de	 uma	 forma	 de	 se	 referir	 às	 origens	 exclusivamente	
sociais	das	identidades	subjetivas	de	homens	e	de	mulheres.	“Gênero”	é,	se-
gundo	esta	definição,	uma	categoria	social	imposta	sobre	um	corpo	sexuado	
(SCOTT,	1995,	p.	75).	
Voltando	ao	cenário	nacional,	Heilborn	e	Sorj	 (1999)	pontuam	que	é	a	partir	 da	
década	de	1980	que	há,	nos	espaços	acadêmicos,	uma	significativa	e	gradativa	alteração	
do	termo	“mulher”,	passando	a	ser	substituído	pelo	termo	“gênero”,	em	que	
Em	termos	cognitivos	esta	mudança	 favoreceu	a	rejeição	do	determinismo	
biológico	implícito	no	uso	dos	termos	sexo	ou	diferença	sexual	e	enfatizou	os	
aspectos	relacionais	e	culturais	da	construção	social	do	feminino	e	masculi-
no.	Os	homens	passaram	a	ser	incluídos	como	uma	categoria	empírica	a	ser	
investigada	nesses	estudos	e	uma	abordagem	que	focaliza	a	estrutura	social	
mais	do	que	os	indivíduos	e	seus	papéis	sociais	foi	favorecida	(HEILBORN;	
SORJ,	1999,	p.	4).	
Nesta	época,	segundo	Heilborn	e	Sorj	(1999),	a	alteração	dos	termos	supracita-
dos	proporcionou	maior	visibilidade	e	aceitação	de	pesquisas	relacionadas	ao	gênero	no	
âmbito	acadêmico,	ganhando	maior	espaço	e	reconhecimento,	além	de	financiamentos	
para	pesquisas.	
Aluno(a),	 é	 muito	 importante	 que	 você	 conheça	 esses	 fatos	 pontuados.	 Essa	
alteração	 do	 termo,	 como	 vimos,	 proporcionou	 um	maior	 espaço	 para	 abarcar	 outras	
temáticas	de	estudo,	o	que	 reflete	nas	pesquisas	até	os	dias	de	hoje.	Desta	maneira,	
podemos	compreender	como	o	movimento	feminista,	no	Brasil,	possui	papel	de	destaque	
no	que	tange	às	questões	de	gênero.	Agora,	vamos	conhecer	um	pouco	sobre	a	inserção	
deste	tema	nas	escolas.	
Em	 relação	às	 discussões	do	gênero	 e	 da	 sexualidade	dentro	 dos	espaços	es-
colares,	Martin	(2017)	pontua	que	ainda	hoje	há	uma	compreensão	equivocada,	em	que	
muitos,	 erroneamente,	 compreendem	 sexualidade	 enquanto	 ligada	 às	 genitálias,	 isto	 é,	
pensamento	 que	 remete	 aos	 órgãos	 sexuais	 e,	 consequentemente,	 na	 relação	 sexual.	
Como	consequência,	ao	ignorarmos	as	discussões	acerca	da	sexualidade,	embasados	em	
tais	pensamentos,	estamos	 ignorando	aspectos	extremamente	 importantes	e	relevantes,	
como	a	cultura,	valores	e	cidadania.	
Ainda,	nas	escolas	tende	a	ter	um	silenciamento	desta	temática	e,	por	isso,	
[...]	a	preocupação	com	a	sexualidade	geralmente	não	é	apresentada	de	for-
ma	aberta.	 Indagados/as	sobre	essa	questão,	é	possível	que	dirigentes	ou	
professores/as	façam	afirmações	do	tipo:	“em	nossa	escola	nós	não	precisa-
mos	nos	preocupar	com	isso,	nós	não	temos	nenhum	problema	nesta	área”,	
ou	então,	“nós	acreditamos	que	cabe	à	família	tratar	desses	assuntos”.	[...]	
É	 indispensável	que	 reconheçamos	que	a	escola	não	apenas	 reproduz	ou	
reflete	as	concepções	de	gênero	e	sexualidade	que	circulam	na	sociedade,	
mas	que	ela	própria	as	produz	(LOURO,	2003,	p.	80).	
16UNIDADE I Construção Histórica e Perspectivas da Educação Sexual
Desta	maneira,	quando	há	o	silenciamento	dessas	discussões	dentro	do	espaço	
escolar,	há	um	interdito,	uma	perda	na	possibilidade	em	realizar	construções	históricas	e	
debates	extremamente	importantes,	visto	que	a	escola,	na	maioria	das	vezes,	ignora	discu-
tir	tais	questões,	deslegitimando	as	diferenças	dos	sujeitos	que	estão	inseridos,	inclusive,	
dentro	do	próprio	ambiente	escolar.	Não	raro,	destaca-se,	há	imensa	dificuldade	e	falta	de	
preparo	da	própria	escola	para	lidar	com	essas	questões	(MARTIN,	2017).	
Por	tanto,	é	preciso	compreender	que	a	escola	possui	um	papel	ativo	na	constru-
ção	dos	conhecimentos	acerca	da	sexualidade	e,	por	consequência,	na	educação	sexual.	
Segundo	Louro	(2003),	o	projeto	de	uma	educação	sexual,	tema	de	grande	preocupação	
e	polêmica,	cria	discussões	que	vão	desde	as	instituições	que	deveriam	se	responsabilizar	
por	ela	e	como	seria	sua	execução	e	manejo.	Não	obstante,	questões	como	essa	surgem	
por	parte	da	própria	escola:
[...]	como	educamos	para	as	questões	de	gênero?	De	que	maneira	a	organi-
zação	dos	grupos/turmas	de	alunos	e	alunas,	bem	como	a	escolha	dos	livros,	
dos	jogos	e	outros	materiais	didáticos,	proporcionam	às	crianças	espaços	es-
colares	que	integram	a	diversidade	de	forma	positiva?	Como	é	que	os	profes-
sores	e	as	professoras	se	situam	nestas	questões	e	orientam	suas	práticas	
educativas	?	(CARDONA;	PISCALHO;	UVA,	2015,	p.	49).	
Desta	forma,	é	preciso	que	nosso	olhar	esteja	atento	para	os	impactos	sociais	do	
fato	de	não	abordarmos	questões	relacionadas	à	sexualidade	dentro	dos	espaços	escola-
res.	Situações	de	violências,	por	exemplo,	é	um	fator	 importante	e	que	merece	atenção.	
Precisamos,	ainda,	olhar	para	o	currículo	docente	do	ensino	superior,	a	fim	de	compreen-
dermos	como	os	professores(as)	vêm	sendo	preparados(as)	para	essas	discussões,	pois,	
como	aponta	Maio	(2012):
A	escola	pode	deixar	de	ser	um	espaço	de	opressão	e	repressão	na	questão	
da	sexualidade,para	se	tornar	um	ambiente	efetivamente	seguro,	livre	e	edu-
cativo	para	todas	as	pessoas.	E,	hoje,	não	é	mais	possível	que	as	questões	
relativas	à	sexualidade	passem	despercebidas	ou	que	sejam	tratadas	com	
deboche	ou	indignação	moral	(MAIO,	2012,	p.	72).	
Sendo	assim,	 ao	 trabalharmos	questões	 relacionadas	à	 sexualidade,	 é	 possível	
e	emergente	o	trabalho	pautado	em	uma	equidade	de	gênero.	Aluno(a),	você	sabe	o	que	
significa	a	palavra	equidade?	
Segundo	o	Dicionário	Michaelis	(on-line),	equidade	pode	ser	compreendida	como	
a	“consideração	em	relação	ao	direito	de	cada	um,	levando	em	conta	o	que	se	considera	
justo”.	O	que	isso	significa?	Significa	que	a	equidade	está	relacionada	à	justiça,	em	que	
são	levadas	em	consideração	as	necessidades	individuais	e	específicas	de	determinadas	
pessoas	ou	grupos,	não	da	totalidade.	
17UNIDADE I Construção Histórica e Perspectivas da Educação Sexual
Para	ilustrar,	trago	a	imagem	a	seguir,	em	que	a	primeira	se	refere	à	IGUALDADE.	
Veja	que	os	três	sujeitos	possuem	o	mesmo	recurso	para	conseguir	enxergar	o	outro	lado	
da	cerca,	mas	um	deles	não	alcança;	a	figura	ao	lado,	no	entanto,	representa	a	EQUIDADE,	
em	que,	devido	à	sua	necessidade,	o	sujeito	menor	passa	a	receber	recursos	suficientes	
para	que	consiga	enxergar	o	outro	lado	da	cerca.	Interessante,	não	é?!	
FIGURA 2 - EQUIDADE
Neste	caminho,	ao	pensarmos	acerca	da	equidade	e	dos	estudos	relacionados	ao	
gênero	e	sexualidade,	com	ênfase	na	questão	do	gênero	feminino,	
[...]	a	educação	se	revela	como	política	pública	para	romper	com	os	padrões	
de	gênero,	a	fim	de	alcançar	a	equidade.	A	educação	não	é	apenas	um	impor-
tante	instrumento	de	prevenção	contra	a	violência	doméstica	e	familiar	contra	
a	mulher,	mas	 também	um	direito	 humano	 fundamental	 a	 que	 todos,	 sem	
qualquer	 tipo	 de	 distinção,	 devem	 ter	 acesso	 (KNIPPEL;	AESCHLIMANN,	
2017,	p.	61).				
Aluno(a),	com	estes	apontamentos,	podemos	compreender	a	 importância	de	um	
olhar	para	a	equidade	nas	relações,	seja	no	âmbito	escolar	ou	fora	dele.	Neste	cenário,	
a	educação	é	uma	política	pública	de	grande	importância	para	o	desenvolvimento	de	um	
olhar	que	seja	humano	e,	acima	de	tudo,	respeite	as	diferenças.	
18UNIDADE I Construção Histórica e Perspectivas da Educação Sexual
4. PREVENÇÃO DO PRECONCEITO E DISCRIMINAÇÃO, NO RESPEITO A 
 ALTERIDADE E ÀS IDENTIDADES CULTURAIS
Aluno(a),	neste	momento	iremos	estudar	sobre	a	importância	do	trabalho	preventivo	
frente	às	situações	de	preconceito	e	discriminação,	com	ênfase	para	o	ambiente	escolar,	e	
a	importância	do	respeito	às	diferenças	sociais,	raciais,	culturais	e	de	gênero.	
Passador	(2017)	aponta	que	gênero,	sexualidade	e	classe	são	vistos	como	mar-
cadores	sociais	que	excluem,	separam	e	segregam	as	pessoas,	definindo	 identidades	e	
delimitando	fronteiras	de	acessos	a	determinados	recursos	e	espaços.	Neste	caminho,	são	
estabelecidas	 determinadas	 características	 aceitáveis,	 isto	 é,	 tidos	 como	 “normalidade”,	
enquanto	outras	passam	a	ser	excluídas,	em	que	“O	processo	de	marcar	e	significar	valo-
rativa	e	hierarquicamente	as	diferenças	sociais	é	o	que	dá	princípio	ao	que	chamamos	de	
discriminação”	(PASSADOR,	2017,	p.	18).	Mas	o	que	isso	significa?
Nas	próprias	palavras	do	autor,	 isso	significa	que	é	por	meio	deste	processo	de	
classificar	e	hierarquizar	as	pessoas	que	nós	vamos	demarcando	e	assinalando	àquelas	
consideradas	mais	importantes,	construindo	identidades	de	acordo	com	os	marcadores	que	
são	construídos	socialmente.	
Neste	sentido,	
Vamos,	 portanto,	 produzindo	 e	 classificando	 não	 apenas	 diferenças,	 mas	
também	desigualdades.	E,	ao	produzirmos	desigualdades,	 legitimamos	for-
mas	de	tratamento	discriminatório	e	excludente,	o	que	inclui	formas	de	recri-
minação	e	repressão	–	e	até	mesmo	de	patologização	e/ou	de	criminalização	
(PASSADOR,	2017,	p.	19).	
19UNIDADE I Construção Histórica e Perspectivas da Educação Sexual
Ainda,	faz-se	necessário	destacar	que,	segundo	Vianna	(2017),	o	próprio	espaço	
escolar	passa	a	reproduzir,	muitas	vezes,	uma	visão	discriminatória	e	excludente,	sendo	
necessário	um	olhar	aguçado	para	as	interações	conflituosas	que	são	mantidas	dentro	da	
instituição	escolar	e	para	os	poderes	que	ali	são	exercidos.	No	Brasil,	foi	apenas	a	partir	da	
década	de	1990	que,	de	maneira	tímida	e	cautelosa,	os	primeiros	aparecimentos	relacio-
nados	ao	gênero	passaram	a	adentrar	o	currículo	escolar,	tendo	respaldo	de	documentos	
nacionais	e	internacionais.
No	entanto,	o	processo	de	discriminação	é	inaceitável,	pois,	como	pontua	Passador	
(2017),	nossa	sociedade	é	composta	por	uma	ampla	gama	de	diferenças,	ou	seja,	somos	
um	povo	marcado	pela	pluralidade	e	diversidade	de	características.	Neste	aspecto,	a	escola	
possui	um	papel	de	extrema	relevância	e	importância,	pois	ela	passa	a	ser	um	espaço	de	
promoção	de	mudança	no	que	tange	à	construção	da	aceitação	das	diferenças	e	promoção	
da	inclusão	dos	múltiplos	modos	de	ser.	Logo,	temos	um	desafio	pela	frente,	visto	que	
O	reconhecimento	da	diversidade	como	fato	humano	vivido	por	todas/os	nós,	
e	a	garantia	do	direito	a	ela	como	fato	histórico,	social,	político,	econômico	e	
cultural	que	nós	mesmas/os	construímos	cotidianamente	com	nossos	valores	
e	práticas,	é	um	desafio	e	um	compromisso	que	precisamos	assumir	quando	
nos	propomos	a	construir	uma	sociedade	mais	igualitária	e	na	qual	os	direitos	
sejam	efetivos	para	todas/os.	Portanto,	um	desafio	e	um	compromisso	que	
devem	ser	assumidos	em	nossas	escolas	(PASSADOR,	2017,	p.	22).	
No	entanto,	infelizmente,	o	que	podemos	ver	ao	longo	do	tempo	é	que	o	conserva-
dorismo	invadiu	os	assuntos	relacionados	à	questão	de	gênero	e	sexualidade	nos	currículos	
escolares,	em	que	se	criou	um	pânico	exagerado	em	relação	aos	assuntos	abordados	no	
âmbito	educacional.	Desta	 forma,	 retrocessos	passaram	a	serem	vistos	cotidianamente,	
em	 que	 o	 silenciamento	 de	 determinados	 temas	 passou	 a	 vigorar	 no	 contexto	 escolar	
(VIANNA,	2017).	Como	consequência,	o	que	se	vê	ainda	são	muitos(as)	“[...]	professoras	
e	professores	dedicados	ao	tema	[...]	sozinhos/as,	sem	parcerias	e	sem	força	política	para	
sustentar	um	trabalho	denegrido	pela	maior	parte	da	escola”	(p.	65).
Não	obstante,	Passador	(2017,	p.	28)	destaca	ainda	que	a	diversidade	cultural	deve	
ser	compreendida	enquanto	um	fenômeno	que	está	presente	em	todas	as	partes	do	mundo	
e	que	“[...]	a	diversidade	de	culturas	que	a	humanidade	produziu	e	produz	é	uma	conse-
quência	 lógica	 dessa	 nossa	 condição	 e	 capacidade	 de	 produzirmos	 diferenças”.	 Sendo	
assim,	“A	diversidade	é,	portanto,	uma	realidade	incontornável,	que	exige	reconhecimento	
e	garantia	de	direitos,	na	direção	da	superação	da	discriminação	e	exclusão	social”	(p.	30).	
Em	 conjunto	 com	 a	 discriminação,	 evidencia-se	 os	 processos	 de	 preconceitos.	
Segundo	Passador	(2017),	o	preconceito	está	enraizado	em	nossa	cultura	e,	consequen-
temente,	em	nós	mesmos,	e	muitas	vezes	 reproduzimos	determinadas	 falas,	 comporta-
20UNIDADE I Construção Histórica e Perspectivas da Educação Sexual
mentos,	gestos	 imbuídos	de	preconceitos,	 sem	nos	darmos	conta;	a	 isto	chamamos	de	
naturalização	dos	preconceitos.	
Neste	caminho,	a	escola	possui	um	papel	chave,	sendo	o	de	“[...]	estabelecer	bases	
inclusivas	que	garantam	não	apenas	a	convivência	entre	os	diversos,	mas	o	reconhecimento	
deles	como	iguais	em	direitos,	sem	que	eles	precisem	para	tanto	se	descaracterizar	como	
diferentes	entre	si”	(PASSADOR,	2017,	p.	40).	
Uma	educação	cidadã	deve	estar	baseada	na	promoção	da	igualdade	de	di-
reitos	e	no	reconhecimento	e	valorização	da	diversidade.	Isso	exige	que	su-
peremos	um	modelo	de	educação	pensado	como	um	processo	de	produção	
de	homogeneidades	padronizadas	e	normalizadas	(PASSADOR,	2017,	p.	41).
Sendo	assim,	a	escola	possui	um	papel	extremamente	empoderador	relacionado	à	
quebra	de	preconceitos	relacionados	à	diversas	categorias,	como	vimos	anteriormente.	No	
que	se	refereao	gênero	e	sexualidade,	a	escola,	por	meio	de	inúmeras	alternativas,	pode	
assumir	uma	posição	de	criadora	de	espaços	para	novos	pontos	de	vista,	novas	formas	de	
pensar	e,	consequentemente,	novas	maneiras	de	agir	sobre	o	mundo.
SAIBA MAIS
Aluno(a),	pensando	na	relação	entre	gênero	e	feminismo,	você	sabia	que	existem	al-
gumas	datas	importantes	que	marcam	a	luta	pelo	fim	da	violência	contra	as	mulheres?	
Essas	datas	são	importantes,	pois	trazem	visibilidade	para	a	causa.	O	dia	25	de	novem-
bro	é	considerado	o	Dia	Internacional	da	Não-Violência	contra	as	mulheres.	Também,	o	
dia	06	de	dezembro	é	tido	como	o	Dia	Nacional	de	Mobilização	dos	Homens	pelo	Fim	
da	Violência	contra	as	Mulheres.	
Fonte:		Mello	(2020).
REFLITA 
“Aqueles	e	aquelas	que	transgridem	as	fronteiras	de	gênero	ou	de	sexualidade,	que	as	
atravessam	ou	que,	de	algum	modo,	embaralham	e	confundem	os	sinais	considerados	
próprios	de	cada	um	desses	territórios	são	marcados	como	sujeitos	diferentes	e	des-
viantes”.	
Aluno(a),	 você	 já	 parou	para	pensar	 nisso?	Como	você	enxerga	o	que	é	 “normal”	 e	
“anormal”	frente	às	outras	pessoas?	
Fonte:	Louro	(2004,	p.132).	
21UNIDADE I Construção Histórica e Perspectivas da Educação Sexual
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Caro(a)	aluno	(a),	
Chegamos	ao	fim	da	nossa	primeira	unidade.	Você	percebeu	quantos	assuntos	e	
conceitos	 importantes	estudamos	até	aqui?	Como	vimos	na	primeira	unidade,	é	preciso	
compreender	o	conceito	de	gênero	para	que	possamos	expandir	nossa	compreensão	das	
diferenças	e,	 consequentemente,	 absorver	 novas	maneiras	de	 compreender	o	papel	 da	
sexualidade	no	currículo	escolar.	
Ainda,	realizamos	uma	importante	contextualização	histórica	sobre	os	estudos	
de	gênero	e	educação,	principalmente	no	Brasil,	estudando	as	construções	históricas	
acerca	do	masculino	e	feminino,	com	os	papéis	sociais	que	são	pré-determinados	em	
relação	aos	sexos.	
Também	estudamos	a	sexualidade	como	sendo	uma	construção	de	ordem	histórica,	
social,	cultural,	política	e	discursiva.	Para	tal	estudo,	nos	ancoramos	nos	estudos	basilares	
de	Michel	Foucault,	compreendendo	a	importância	e	relevância	dos	discursos,	bem	como	
a	noção	de	poder	e	seus	efeitos.	
Na	sequência,	partimos	para	discussões	relacionadas	às	abordagens	da	educação	
sexual	através	da	história	e	seus	reflexos	no	cotidiano	para	a	escolarização	brasileira	frente	
à	equidade	de	gênero.	Para	isso,	conhecemos	o	papel	dos	estudos	feministas,	bem	como	
a	importância	da	temática	da	sexualidade	dentro	das	escolas.
Por	fim,	estudamos	aspectos	cruciais	relacionados	à	prevenção	do	preconceito	e	
da	discriminação	frente	às	diferenças	no	contexto	escolar.
Espero	que	você	tenha	aproveitado	ao	máximo	os	conteúdos	que	foram	discutidos	
aqui.	Nos	encontramos	na	Unidade	II	para	darmos	continuidade	nas	discussões	relaciona-
das	à	sexualidade,	gênero	e	educação.	
Até logo!
22UNIDADE I Construção Histórica e Perspectivas da Educação Sexual
LEITURA COMPLEMENTAR
Artigo:	Formação	em	gênero	e	educação	para	a	sexualidade:	considerações	acer-
ca	do	papel	da	escola
Resumo:	Este	 artigo,	 por	meio	de	uma	pesquisa	bibliográfica,	 propõe	uma	dis-
cussão	acerca	da	 formação	em	gênero	e	da	educação	para	a	sexualidade,	na	 tentativa	
de	compreender	como	a	igreja,	a	família	e	a	escola	têm,	historicamente,	contribuído	para	
a	Educação,	principalmente	de	crianças	e	jovens	em	idade	escolar,	de	acordo	com	seus	
preceitos.	Assim,	defendemos	que	a	família	e	a	igreja	podem	contribuir	na	formação	dos	
indivíduos	–	com	afeto,	carinho,	costumes	–,	porém,	à	escola	cabe	disseminar	conhecimen-
tos	científicos,	de	modo	a	mostrar	as	várias	formas	de	vivenciar	e	construir	as	identidades	
pessoais,	sempre	com	caráter	emancipatório,	para	a	convivência	e	o	reconhecimento	das	
diferenças,	além	do	respeito	entre	os	sujeitos.
Palavras-chave:	Gênero,	educação,	sexualidade,	respeito.
Texto completo disponível em: 
MAIO,	E.	R.;	OLIVEIRA,	M.	de;	PEIXOTO,	R.	Formação	em	gênero	e	educação	
para	a	sexualidade:	considerações	acerca	do	papel	da	escola.	Revista NUPEM,	Campo	
Mourão,	v.	10,	n.	20,	2018.	Disponível	em:	http://revistanupem.unespar.edu.br/index.php/
nupem/article/view/353/332.	Acesso	em:	01	mar.	2021.
23UNIDADE I Construção Histórica e Perspectivas da Educação Sexual
MATERIAL COMPLEMENTAR
LIVRO 
Título:	Educação,	Gênero	e	Feminismos:	 resistências	bordadas	
com	fios	de	luta.
Autora: Eliane	Rose	Maio	(Organizadora)
Editora: Editora	CRV
Sinopse:	O	livro	apresenta	as	lutas	do	movimento	feminista	e	que	
ainda	se	mostram	constantes,	pela	igualdade	e	equidade	de	direi-
tos,	entre	as	mulheres	e	os	homens.	As	discussões	sobre	os	fe-
minismos	fazem	parte	desta	obra	literária,	em	que	se	apresentam,	
em	várias	instâncias,	como	as	mulheres	(e	aqui	pontuamos	todas	
as	mulheres,	de	quaisquer	etnias	e	raça),	buscaram	(e	buscam)	os	
seus	direitos	de	equidade	e	igualdades,	diferenciando-se	daquelas	
que	ainda	são	somente	vistas	como	a	“rainha	do	lar,	da	musa	ido-
latrada	pelos	poetas	e	cantores,	da	mulher	frágil,	etc.”	O	livro	traz	
discussões	e	provocações	em	uma	luta	para	que	possamos	ter	um	
mundo	mais	justo	e	digno	para	todas	as	pessoas.	
FILME/VÍDEO
Título: Hoje	eu	quero	voltar	sozinho
Ano: 2014
Sinopse:	O	filme	mostra	o	preconceito	e	a	discriminação	no	am-
biente	escolar,	tanto	pela	deficiência	visual	(o	personagem	principal	
é	cego)	quanto	pela	sua	orientação	sexual.	O	filme	também	traba-
lha	com	questões	relacionadas	à	adolescência	e	à	descoberta	da	
sexualidade,	os	conflitos	e	a	busca	pela	independência.	
24UNIDADE I Construção Histórica e Perspectivas da Educação Sexual
WEB
No	site	Vivendo	a	Adolescência	(link	a	seguir)	é	possível	encontrar	uma	gama	am-
pla	de	materiais	que	apresentam	e	trabalham	com	a	proposta	de	uma	Educação	Integral	em	
Sexualidade.	Ainda,	o	site	oferece	informações,	esclarece	dúvidas	e	propõem	atividades	no	
que	se	refere	à	educação	sexual.
	 	Link	do	site:	http://www.adolescencia.org.br/site-pt-br/educacao-integral-em-sexualidade
25
Plano de Estudo:
●	Abordagens	pedagógicas	da	educação	sexual	no	Brasil;
●	Compreendendo	os	conceitos	e	as	interfaces	entre	gênero	e	orientação	sexual;
●	Recursos	didático-metodológicos	para	um	trabalho	de	Educação	Sexual	na	Educação		
	 Infantil	e	Ensino	Fundamental.	
Objetivos da Aprendizagem:
●	 Contextualizar	as	abordagens	pedagógicas	que	dialogam	com	
a	educação	sexual	no	Brasil;
●	 Compreender	a	relação	e	a	diferença	entre	os	conceitos	de	gênero	e	
orientação	sexual,	destacando	suas	especificidades;
●	 Estabelecer	a	 importância	e	os	 tipos	de	 recursos	que	podem	ser	empregados	na	
sala	de	aula	para	trabalhar	a	Educação	Sexual.	
UNIDADE II
Educação de Gênero e Sexualidade nos 
Espaços Educativos
Professor Esp. Jose Valdeci Grigoleto Netto
26UNIDADE II Educação de Gênero e Sexualidade nos Espaços Educativos 
INTRODUÇÃO
Olá,	aluno(a)!	Que	bom	reencontrar	você.	
Seja	 bem-vindo(a)	 à	 segunda	 unidade	 da	 disciplina	 Gênero,	 Sexualidade	 e	
Educação.	Agora,	 iremos	 conhecer	 os	 aspectos	 relacionados	à	 prática	 do	ensino	da	
educação	sexual	dentro	dos	espaços	educativos.	Para	isso,	inicialmente	faremos	uma	
leitura	acerca	das	abordagens	educativas	relacionadas	à	educação	sexual,	perpassan-
do	por	alguns	conceitos	importantes	e,	por	fim,	iremos	explorar	os	recursos	que	podem	
ser	adotados	para	esta	prática.
No	 Tópico	 I	 iremos	 conhecer	 as	 abordagens	 pedagógicas	 da	 educação	 sexual	
no	Brasil.	Para	 isso,	 iremos	realizar	algumas	reflexões	acerca	da	 inserção	da	educação	
sexual	nos	espaços	educacionais	e	resgatar	na	história	da	educação	do	Brasil	aspectos	
relacionados	à	temática.	
Avançando,	 no	Tópico	 II	 iremos	 conhecer	 os	 conceitos	 de	 gênero	 e	 orientação	
sexual	e	suas	interfaces,	buscando	diferenciá-los	e,	a	partir	disso,	elencar	suas	especifici-
dades,	a	fim	de	não	reproduzir	equívocos.		
Por	fim,	no	Tópico	III,	iremos	nos	aproximar	de	alguns	recursos	didático-metodoló-
gicos	que	podem	ser	utilizados	para	o	trabalho	de	educaçãosexual	na	educação	Infantil	e,	
também,	no	ensino	fundamental.
A	partir	dos	conteúdos	elencados,	espero	que	os	textos	e	discussões	aqui	propos-
tos	sejam	úteis	e	interessantes	para	embasar	seus	estudos	e	sua	futura	prática	docente.	
Bons estudos! 
27UNIDADE II Educação de Gênero e Sexualidade nos Espaços Educativos 
1. ABORDAGENS PEDAGÓGICAS DA EDUCAÇÃO SEXUAL NO BRASIL
Olá,	aluno(a).	Vamos	dar	início	ao	primeiro	tópico	desta	unidade.	Iniciaremos	apre-
sentando	as	abordagens	pedagógicas	da	educação	sexual	no	Brasil.	Vamos	lá?
De	acordo	com	Pelegrini	e	Maio	(2016),	a	sexualidade,	ao	longo	do	tempo,	tem	sido	
alvo	de	construções	nas	mais	diversas	esferas,	principalmente	no	que	tange	à	constituição	
subjetiva	das	pessoas.	Ainda,	é	notável	que	ela	está	presente	nos	discursos,	sejam	eles	
ditos	ou	escritos,	além	de	estar	presente,	também,	na	ausência	dos	discursos,	em	situações	
em	que	a	sexualidade	é	rodeada	por	silêncios	e	proibições.	
Quando	pensamos	na	inserção	do	tema	da	sexualidade	nos	currículos	escolares,	
é	 importante	 destacarmos	que	 sua	 inserção,	 desde	o	 início,	 foi	 alvo	 de	 polêmicas	 que,	
mesmo	ocasionando	alguns	avanços,	também	originaram	inúmeros	retrocessos	no	cenário	
educacional	brasileiro.	Para	ilustrar,	podemos	citar	as	incansáveis	discussões,	desde	o	ano	
de	2010,	instauradas	nos	espaços	sociais	quando	se	deu	início	à	construção	dos	Planos	
Nacionais,	Estaduais	e	Municipais	de	Educação	(PELEGRINI;	MAIO,	2016).
Não	obstante,	faz-se	oportuno	citar	os	próprios	autores	quando	pontuam	que
Um	exemplo	desses	embates	foi	a	supressão	dos	termos	“gênero	e	orienta-
ção	sexual”	do	 texto	original	do	Plano	Nacional	de	Educação	(2010).	Essa	
disputa	envolveu	diferentes	movimentos	sociais	e	instituições,	ganhou	visibi-
lidade	e	gerou	repercussão,	alcançando	os	Planos	dos	Estados	e	Municípios	
em	uma	reação	em	cadeia.	Muitas	Manifestações	ocorreram	para	que	fos-
sem	retirados	também	desses	planos	as	dimensões	da	diversidade	sexual	e	
de	gênero	(PELEGRINI;	MAIO,	2016,	p.	129).	
28UNIDADE II Educação de Gênero e Sexualidade nos Espaços Educativos 
Bem	como,	Furlaneto	et al.	 (2018)	realizaram	um	estudo	em	que	pesquisaram,	
em	alguns	bancos	de	dados	on-line	de	produções	científicas,	com	o	recorte	de	período	
2010-2016,	 a	 questão	 da	 educação	 sexual	 em	 escolas	 brasileiras,	 com	 o	 objetivo	 de	
conhecer	suas	principais	características,	quais	são	os	temas	abordados	e,	ainda,	quais	
os	profissionais	responsáveis	por	tal	tarefa.	Após	a	obtenção	dos	dados	e	enquanto	re-
sultado,	percebeu-se	que	o	que	foi	realizado	nos	espaços	educativos	não	corresponde	
ao	que	está	inserido	nos	Parâmetros	Curriculares	Nacionais,	em	relação	à	importância	de	
que	o	tema	seja	abordado	de	maneira	transversal,	isto	é,	que	atravesse	e	abarque	todo	
o	currículo	escolar.	
Lima	e	Almeida	 (2010),	 na	mesma	vertente,	 assinalam	que	a	 inserção	do	 tema	
da	 sexualidade	 nas	 práticas	 pedagógicas	 curriculares	 apresenta	 grandes	 dificuldades	 e	
barreiras,	 em	que	 a	 oferta	 é	 superficial	 e	 rasa,	 não	 sendo	 proporcionado	 aos	 alunos	 e	
alunas	um	espaço	para	aprofundamento	das	questões	necessárias,	visto	que	
[...]	as	políticas	públicas	são	incipientes	no	que	se	refere	ao	preparo	de	profis-
sionais	de	ensino	para	lidar	com	temas,	tais	como	a	sexofobia	ou	heterofobia,	
homofobia,	heteronormatividade	e	outros	preconceitos	que	estão	presentes	
na	sala	de	aula,	incorporados	desde	muitos	séculos	atrás	e	antes	da	própria	
escola	existir	como	instituição	(LIMA;	ALMEIDA,	2010,	p.	726).		
Neste	caminho,	é	extremamente	urgente	que	professores	e	professoras	trabalhem	
com	questões	relacionadas	à	sexualidade	e,	ainda	mais,	ofereçam	um	conteúdo	coeso	e	
trabalhe	com	a	verdade,	no	sentido	de	possibilitar	o	acesso	à	informação	e	que	as	trans-
formem,	em	conhecimentos	que	agreguem	aos	estudantes,	traduzindo-as	em	informações	
imbuídas	de	uma	linguagem	acessível	e	clara.	Ademais,	é	preciso	englobar	as	mais	diversas	
questões	 relacionadas	à	sexualidade,	a	saber:	gravidez,	aborto,	 Infecções	Sexualmente	
Transmissíveis	(IST),	dentre	outros	(LIMA;	ALMEIDA,	2010).	
Louro	(2013)	diz	que	há	 tempos	alguns	movimentos,	 tais	como	o	movimento	 fe-
minista,	o	movimento	negro	e	o	movimento	das	chamadas	minorias	sexuais,	denunciam	a	
ausência	de	suas	histórias	nos	currículos	escolares.	O	que	muitas	vezes	podemos	ver,	é	a	
realização	simbólica	de	datas	“comemorativas”	que,	em	cada	nível	de	ensino,	apresentam	
atividades	e	eventos	específicos.	Com	isso,	as	instituições	escolares	detêm	determinado	
controle	e	poder	em	relação	ao	que	é	dito	e	apresentado,	logo,	os	sujeitos	pertencentes	a	
tais	categorias	passam	a	assumir	o	papel	de	excêntricos	e	excepcional.	
A	discussão	da	educação	em	sexualidade	não	é	algo	novo	e	provoca	muitas	
controvérsias,	pois	é	um	tema	pouco	debatido	e,	quando	discutido	é	percep-
tível	o	desconhecimento	e	a	visão	estereotipada	por	grande	parte	da	popu-
lação	leiga.	No	que	concerne	ao	tema,	docentes,	técnicos	e	teóricos	da	área	
têm	dedicado	anos	de	estudos	para	oferecer	uma	educação	que	promova	a	
justiça	social	a	partir	da	equidade	de	gênero	para	meninas	e	meninos	(FREI-
TAS,	2017,	p.	134).
29UNIDADE II Educação de Gênero e Sexualidade nos Espaços Educativos 
É	inegável	que	a	escola	deve	refletir	a	realidade	social	na	qual	está	inserida,	isto	
é,	ela	possui,	dentre	outros,	o	papel	de	preparar	os	alunos	e	alunas	para	os	processos	
sociais.	Ainda,	 ela	 deve	 refletir	 aspectos	 relacionados	 à	 sexualidade	 e	 ao	 gênero.	 Um	
equívoco	muito	comum	é	a	associação	de	sexualidade	com	relação	sexual.	Essa	confusão	
é	presente	no	imaginário	social,	o	que	acaba	deixando	o	tema	de	lado,	transformando-o	
em	tabu.	Como	consequência,	o	silenciamento	da	sexualidade	tende	a	deixar	os	alunos	e	
alunas	vulneráveis	ao	não	receberem	as	informações	de	maneira	adequada	e	pedagógica	
(MARTINI,	2016).	
É	na	escola	que	os	adolescentes	passam	boa	parte	do	seu	tempo,	e	é	nesse	
espaço	que	se	complementa	a	educação	dada	no	ambiente	familiar.	Na	esco-
la	são	abordados	temas	mais	complexos	que	no	dia-a-dia	não	são	ensinados	
e	aprendidos,	tendo	esta	uma	imensa	responsabilidade	na	formação	afetiva	
e	emocional	de	seus	alunos	(OLIVEIRA;	URBAN,	2016,	p.	2).
A	 sexualidade,	 neste	 caminho,	 pode	 ser	 compreendida	 enquanto	 fazendo	 parte	
de	todas	as	fases	do	desenvolvimento	humano,	estando	relacionada	com	os	campos	das	
emoções	e	dos	afetos,	sendo	de	extrema	 importância	e	ocupando	um	papel	que,	como	
vimos,	vai	além	do	prazer	físico	(MARTINI,	2016).	
Aluno(a),	neste	momento,	você	deve	estar	se	perguntando:	mas	será	que	as	coisas	
sempre	foram	assim,	no	que	diz	respeito	à	sexualidade	nos	espaços	educativos?	Aqui,	ire-
mos	destacar	três	momentos	sociais	que	são	de	grande	importância	para	compreendermos	
alguns	avanços	e	retrocessos	em	relação	à	educação	sexual.
Segundo	Oliveira	e	Urban	(2016),	tal	tema	já	se	configurava	enquanto	uma	preo-
cupação	 nos	 espaços	 escolares,	 no	Brasil,	 desde	 o	 início	 do	 século	XX	 em	que,	 nas	
décadas	de	1920	e	1930,	médicos,	professores	e	professoras	e	intelectuais	da	época	se	
debruçaram	no	tema.	
Em	 1922,	 Fernando	 de	 Azevedo,	 reformador	 educacional,	 foi	 responsável	 por	
responder	a	um	questionário	em	relação	à	educação	sexual.	Tal	questionário	foi	solicitado	
pelo	Instituto	de	Higiene	da	Faculdade	de	Medicina	e	Cirurgia	de	São	Paulo.	A	partir	deste	
feito,	deu-se	origem	a	um	movimento	brasileiro	que	passou	a	se	interessar	pelo	tema	da	
sexualidade	no	âmbito	educacional	(OLIVEIRA;	URBAN,	2016).	
Pouco	mais	de	uma	década	depois,	 em	1933,	no	estado	do	Rio	de	Janeiro,	 foi	
fundado	o	Circuito	Brasileiro	de	Educação	Sexual	(CBES),	sob	responsabilidade	do	médico	
José	de	Oliveira	Pereira	de	Albuquerque.	O	CEBS	visava	a	produção	de	materiais	relacio-
nados	à	educação	sexual,	além	de	realizar	eventos,	reuniões	e	a	produção	de	filmes.	Ainda,	
o	circuito	possuía	como	objetivo	“[...]	prestar	um	serviço	de	instruçãoe	esclarecimento	no	
30UNIDADE II Educação de Gênero e Sexualidade nos Espaços Educativos 
que	 tange	aos	assuntos	de	educação	e	higiene	sexual,	abordando	questões	biológicas,	
psicológicas	e	morais	para	a	população	brasileira”	(OLIVEIRA;	URBAN,	2016,	p.	3).	
Ainda	segundo	os	autores,	na	década	de	1960,	um	pouco	antes	do	 início	da	di-
tadura	militar	brasileira,	a	educação	sexual	passa	a	vigorar	nos	contextos	educacionais,	
sendo	inserida	nos	currículos.	No	entanto,	com	a	ditadura	militar	em	vigor,	a	sexualidade	foi	
retirada	e	suprimida	do	contexto	educacional.
Como	a	ditadura	impôs	um	regime	de	controle	e	moralização	dos	costumes,	
especialmente	 decorrente	 da	 aliança	 entre	 militares	 e	 o	 majoritário	 grupo	
conservador	da	igreja	católica,	a	educação	sexual	foi	definitivamente	banida	
de	qualquer	discussão	pedagógica	por	parte	do	Estado	e	 toda	e	qualquer	
iniciativa	escolar	suprimida	com	rigor	(OLIVEIRA;	URBAN,	2016,	p.	04).
Aluno(a),	com	essas	afirmativas,	de	recortes	sociais,	podemos	perceber	que,	hoje,	
incluir	nos	currículos	escolares	tal	temática	foi	(e	ainda	é)	tarefa	desafiadora.	No	entanto,	
é	necessário	que	continuemos	na	 luta	para	que	o	ensino	da	sexualidade	faça	parte	dos	
espaços	educativos,	pois
a	sexualidade	humana	figura	como	um	dos	temas	mais	inquietantes	e,	quase	
sempre,	mais	recusados	no	universo	prático	do	educador.	Entretanto,	cada	
vez	mais	a	escola	 tem	sido	convocada	a	enfrentar	as	 transformações	das	
práticas	sexuais	contemporâneas,	principalmente	na	adolescência,	uma	vez	
que	seus	efeitos	se	fazem	alardear	no	cotidiano	escolar	(OLIVEIRA;	URBAN,	
2016,	p.	02).
Sendo	 assim,	 como	 aponta	 Louro	 (2013),	 é	 necessário	 que	 os	 profissionais	 da	
educação	se	atentem	à	uma	prática	que	seja	desestabilizadora	e	que	desconstrua	a	ideia	
de	naturalidade	da	sexualidade	e	que,	em	vez	disso,	busque	dar	espaço	ao	caráter	móvel,	
plural	e	o	papel	do	social	na	construção	da	sexualidade.	
31UNIDADE II Educação de Gênero e Sexualidade nos Espaços Educativos 
2. COMPREENDENDO OS CONCEITOS E AS INTERFACES ENTRE GÊNERO E 
 ORIENTAÇÃO SEXUAL
Aluno(o),	 na	primeira	unidade	nós	conhecemos	o	conceito	de	gênero,	 contando	
com	 algumas	 importantes	 referências	 para	 embasar	 nossos	 estudos.	 Neste	 momento,	
iremos	conhecer	outro	conceito	de	extrema	relevância:	orientação	sexual	e,	a	partir	disso,	
iremos	 tecer	algumas	 reflexões	acerca	de	ambos	os	conceitos	e	suas	 interfaces	com	o	
espaço	educacional.	
Em	síntese,	para	Jesus	(2012,	p.	12),	orientação	sexual	pode	ser	compreendida	
enquanto	a	“[...]	atração	afetivossexual	por	alguém	de	algum/ns	gênero/s”.	Isto	posto,	po-
demos	pensar	que	a	
Sexualidade,	portanto,	está	ligada	a	fatores	internos	e	externos	ao	ser	huma-
no,	que	num	processo	de	interação	mútua	cooperam	para	a	sua	constituição.		
Frente	a	esta	 constatação,	 urge	pensar	 a	 sexualidade	 como	um	processo	
dialético,	no	qual	o	ser	humano	influencia	a	construção	de	valores	e	normas	
sexuais	e,	simultaneamente,	é	influenciado	pelas	múltiplas	e	sucessivas	ex-
periências	vividas	e	vivenciadas	em	contato	com	o	meio	social	em	que	se	
insere	(BISPO	DE	JESUS,	2014,	p.	55).
Nesta	perspectiva,	trago	uma	imagem	interessante,	que	pode	nos	auxiliar	na	com-
preensão	do	conceito	de	orientação	sexual.	A	imagem	também	traz	o	conceito	de	identidade	
de	gênero	e	de	sexo	biológico.	Veja:	
32UNIDADE II Educação de Gênero e Sexualidade nos Espaços Educativos 
FIGURA 1 - CONCEITOS IMPORTANTES
Fonte:	https://miro.medium.com/max/2026/1*fdQkEf7yXhQ_OaIyFNLuPA.png
Aluno(a),	 viu	 como	 é	 interessante	 conhecermos	 esses	 aspectos?	 Ainda	 hoje,	
percebemos	uma	grande	confusão	nas	pessoas	quando	se	referem	à	orientação	sexual.	
Como	a	imagem	ilustra,	a	orientação	sexual	refere-se	ao	aspecto	da	atração,	do	desejo;	
já	a	identidade	de	gênero,	ao	lado	do	conceito	de	gênero,	refere-se	à	maneira	na	qual	nos	
enxergamos	e	nos	identificamos.
Conhecer	tais	diferenças	é	um	passo	de	extrema	importância	para	que	os	profes-
sores	e	professoras	possam	conhecer	as	múltiplas	formas	de	ser	e	estar	no	mundo	que	
existem	e,	a	partir	disso,	se	aperfeiçoarem	e	sentirem-se	seguros	para	levar	para	o	espaço	
escolar	as	questões	relacionadas	à	sexualidade.
A	simples	conscientização	tem	o	poder	de	modificar	nosso	posicionamento	e	
ações	diante	do	desafio	das	questões	de	gênero	e	sexualidade	presentes	nas	
salas	de	aula	fazendo	com	que	as	expressões	presenciadas	e	descritas	no	
início	desse	texto	muito	corriqueiras	em	sala	de	aula	deixem	de	existir.	Como	
professoras/res	não	podemos	ficar	impassíveis,	nem	tomar	atitudes	discrimi-
natórias,	porque	este	assunto	reflete	diretamente	na	felicidade	ou	infelicidade	
de	alunas/os	sendo	o	mesmo	importantíssimo	para	que	essa	pessoa	consiga	
atingir	uma	vida	eficaz	e	plena	como	indivíduo	produtivo	da	sociedade	sendo	
isso	o	principal	objetivo	da	escola	(SIQUEIRA;	CALDAS,	2020,	p.	130).
33UNIDADE II Educação de Gênero e Sexualidade nos Espaços Educativos 
É	pertinente	 citar,	 neste	momento,	 a	Base	Nacional	Curricular	Comum	 (BNCC).	
Este	documento,	de	ordem	normativa,	abrange	conhecimentos	contemporâneos	que	dia-
logam	com	as	necessidades	de	alunos	e	alunas	de	todo	o	país,	visando	a	efetivação	de	
direitos.	O	documento	traz	que,	para	o	ensino	de	ciências,	é	ofertado	o	tema	da	sexualidade	
em	conjunto	com	a	reprodução	humana,	isto	é,	ligado	aos	aspectos	biológicos	dos	sujeitos	
(BRASIL,	2018).	Aluno(a),	se	faz	importante,	depois	dos	conteúdos	que	vimos	na	unidade	
anterior,	problematizar:	e	as	outras	esferas?	E	a	transversalidade	da	temática?	Compete	
apenas	 à	 biologia	 lidar	 com	o	 tema	da	 sexualidade?	Precisamos	 desenvolver	 um	olhar	
atento	para	o	tema,	ao	lembrarmos	que	a	sexualidade	se	manifesta	de	maneira	plural	e,	por	
isso,	reflete	em	vários	âmbitos	de	nossas	vidas,	e	não	apenas	no	campo	biológico.
Agora,	aluno(a),	quando	pensamos	nas	interfaces	entre	a	escola	e	as	questões	de	
gênero,	você	pode	observar	que	a	própria	instituição	escolar	tende	a	gravar	e	a	produzir	
alguns	marcadores	de	gênero,	é	o	que	pontua	Bispo	de	Jesus	(2014),	quando	sinaliza	que	
Em	conformidade	com	as	normatizações	sociais	 tradicionalmente	concebi-
das,	acerca	do	comportamento	masculino	e	 feminino,	a	docilidade,	a	obe-
diência	às	regras	e	o	temperamento	menos	agitado,	por	exemplo,	são	expec-
tativas,	 vulgarmente,	 direcionadas	 ao	mundo	 feminino;	 já	 a	 desobediência	
aos	regulamentos,	a	contestação	às	ordens	e	a	agitação	são	atitudes	aguar-
dadas	do	mundo	masculino	(p.	60,	grifo	da	autora).	
É	válido	mencionarmos,	a	partir	disso,	que	essas	questões	não	são	de	ordem	na-
tural.	Ao	contrário,	são	produzidas	e	reproduzidas	diariamente	no	contexto	escolar,	social	
e	 familiar.	 Importante	mencionarmos	e	produzirmos	questões	e	debates	acerca	da	 ideia	
de	 “naturalização”	 dos	 acontecimentos	 sociais.	 Isso,	 inclusive,	 fica	 evidente	 no	 próprio	
contexto	escolar,	quando	
[...]	Diante	de	comportamentos	que	costumam	fugir	às	 regras	de	gênero	e	
sexualidade,	a	tendência	de	docentes,	homens	e	mulheres,	é	recriminar	tais	
condutas,	 sinalizando	 para	 a	 forma	 como	 sujeitos	masculinos	 e	 femininos	
devem	agir	para	serem	reconhecidos	como	tais.
[...]
Dessa	maneira,	muitas	vezes,	docentes	homens	e	mulheres	estimulam	mais	
a	participação	de	meninas	nas	aulas,	face	à	representação	do	mundo	femi-
nino	como	sendo,	naturalmente,	comunicativo,	enquanto	os	meninos	pouco	
são	convocados	a	participarem.	 Isto	 implica	considerar	que,	consciente	ou	
inconscientemente,	a	escola	é	capaz	de	erigir,	junto	aos	sujeitos	participantes	
do	contexto	escolarizado,	conceitos	de	masculinidade	e	feminilidade	a	partir	
de	afirmativas	que	lhes	são	apresentadas	e	que	lhes	esclarecem	o	significa-
do	social	do	que	venha	a	ser	homem	e	do	que	venha	a	ser	mulher	(BISPO	
DE	JESUS,	2014,	p.	61-62).
Desta	forma,	é	de	extrema	importância	que	pensemos	na	escola	enquanto	forma-
dora,	inclusive,	de	caráter	e	da	personalidade	das	pessoas,	mesmo	que	de	maneira	discreta(BISPO	DE	JESUS,	2014).	A	escola	precisa,	urgentemente,	contribuir	para	a	efetivação	de	
espaços	de	expressão	da	sexualidade	que	não	sejam	excludentes	e	discriminatórios,	mas	
sim	que	abarquem	a	diversidade	existente.	
34UNIDADE II Educação de Gênero e Sexualidade nos Espaços Educativos 
3. RECURSOS DIDÁTICO-METODOLÓGICOS PARA UM TRABALHO DE 
 EDUCAÇÃO SEXUAL NA EDUCAÇÃO INFANTIL E ENSINO FUNDAMENTAL
Ainda	hoje,	realizar	a	organização	de	conteúdos	relacionados	à	sexualidade	para	
se	trabalhar	no	contexto	educativo	é	uma	ação	que	tende	a	gerar	desconforto	e	incômodo,	
tanto	nos	próprios	professores	e	professoras	quanto	na	população	em	geral	(SACHI,	2018).	
Isso	porque	a	escola,	inclusive,	é	um	espaço	que	ainda	produz	a	inserção	de	mar-
cadores	de	gênero	em	seus	espaços,	tais	como:	cartazes,	filas,	linguagem,	brincadeiras,	
músicas,	dentre	outros.	Curioso	que,	mesmo	produzindo	questões	relacionadas	ao	gênero,	
a	escola	possui	resistência	para	discutir	sobre	a	temática	(LEITE;	ROMERO,	2017,	p.	145),	
ficando	tal	fato	evidente	quando	notamos	que
Na	Educação	Infantil,	por	exemplo,	notamos	que	os	estereótipos	de	gênero	
se	efetivam	de	diversas	maneiras	como	o	uso	do	diminutivo	para	referir-se	ao	
corpo	feminino	e	o	aumentativo	para	falar	do	masculino	ou	a	separação	de	
filas	de	meninas	e	meninos	para	a	locomoção	das	crianças.	É	o	mesmo	com	
as	cores	dos	materiais,	a	decoração	dos	cadernos,	a	divisão	dos	brinquedos,	
das	brincadeiras.		
Neste	caminho,	é	importante	questionarmos	acerca	do	preparo	e	da	formação	dos	
professores	 e	 professoras	 para	 abordar	 questões	 relacionadas	 à	 sexualidade.	Sabendo	
que	estes	profissionais	são	 formadores	de	opinião	 (SACHI,	2018),	é	possível	perguntar:	
será	que	há	um	adequado	preparo	para	tal	empreitada?	
Pensando	 nisto,	 é	 relevante	 que	 nos	 atentemos	 para	 aspectos	 relacionados	 ao	
processo	de	ensino-aprendizagem,	em	que
35UNIDADE II Educação de Gênero e Sexualidade nos Espaços Educativos 
Não	se	pode	ver	o	mundo	pronto.	Para	isso	é	preciso	pensar	no	processo	ensi-
no-aprendizagem,	pois	é	por	meio	dele	que	educadores(as),	formam	opiniões	
nos(as)	 seus(suas)	 discentes.	 É	 necessário,	 antes	 de	 tudo,	 impelir	 em	 nós	
mesmos(as)	perguntas	e	 respostas	que	certamente	nos	 levarão	a	esquadri-
nhar,	perscrutar,	observar	e	pensar	sobre	como	nos	foi	ensinada	essa	questão	
da	sexualidade. É evidente que, se não aprendemos, também não temos 
subsídios consideráveis para ensinar (SACHI,	2018,	p.	28,	grifo	nosso).	
Portanto,	é	urgente	pensarmos	(e	repensarmos	quantas	vezes	forem	necessárias)	
acerca	da	formação	destes	profissionais.	Percebe-se,	pois,	que	nas	universidades	ainda	é	
tímida	a	inserção	de	tais	temas	nos	currículos.	Nesta	perspectiva,	um	caminho	interessante	
é	que	os	profissionais	busquem	outras	formas	de	agregarem	em	sua	formação	o	tema	da	
sexualidade	(SACHI,	2018).	
Hoje,	 existe	uma	vasta	 literatura	que	pode	servir	 como	base	para	os	estudos	e	
para	a	inserção	do	tema	da	sexualidade	dentro	dos	espaços	educativos.	Entretanto,	o	que	
se	percebe	é	que	a	sociedade	ainda	possui	forte	resistência	para	aceitar	que	se	discuta	
a	sexualidade	no	campo	da	educação,	em	que	muitas	vezes	pais	e	mães	e,	inclusive,	os	
próprios	profissionais,	por	não	possuírem	conhecimentos	e	informações	adequadas	e	sufi-
cientes,	não	aceitam	que	as	crianças	recebam	estes	conteúdos	(SACHI,	2018).	No	entanto,	
não	podemos	aceitar	 isso	e	precisamos	problematizar	e	colocar	esse	silenciamento	em	
pauta,	 pois	 “cabe	à	 sociedade	desmistificar	 esse	paradigma,	mas	cabe,	 principalmente,	
ao(à)	educador(a)	a	incumbência	de	desnudar	esse	arquétipo	que	foi	imposto	na	sociedade	
por	meio	de	uma	educação	tradicionalista,	engessada	e	arcaica”	(SACHI,	2018,	p.	29).	
Outro	ponto	que	merece	destaque	neste	momento,	por	estar	 relacionado	com	o	
processo	ensino-aprendizagem,	é	o	brincar.	Aluno(a),	você	sabia	que	diversas	pesquisas	
apontam	que	o	brincar	na	escola,	em	especial	na	Educação	Infantil,	possui	um	papel	de	
extrema	importância?	
É	o	que	apontam	Leite	e	Romero	(2017,	p.	146),	sinalizando	que	o	brincar	tende	a	
ser	“[...]	responsável	por	contribuir	com	o	desenvolvimento	físico,	psíquico,	cognitivo,	motor,	
afetivo,	entre	outras	competências	dos	alunos”.	Neste	caminho,	proponho	uma	reflexão:	
quantas	 vezes	ouvimos	 falar,	 ou	até	mesmo	 já	 reproduzimos	 tal	 discurso,	 que	meninos	
brincam	de	carrinho	e	meninas	brincam	de	bonecas?
Se	consideramos	apenas	o	dualismo	limitado,	reforçado	nos	ambientes	esco-
lares,	a	brincadeira	de	boneca,	acaba	por	ser	entendida	exclusivamente	como	
“coisa	de	menina”.	Esta	concepção	está	fortemente	ligada	à	representação	
de	mulher	como	quem	deve	cuidar	do	 lar	e	o	homem	com	quem	o	provê.	
Entretanto,	eis	nesta	ideia	além	de	um	hiato	explícito	de	gênero	(mulher	dó-
cil,	homem	viril),	uma	contradição	com	a	própria	“realidade”	contemporânea,	
visto	que	as	mulheres	exercem	outros	papéis,	como	estudante,	trabalhadora,	
motorista,	entre	outros	(LEITE;	ROMERO,	2017,	p.	147).	
36UNIDADE II Educação de Gênero e Sexualidade nos Espaços Educativos 
Nos	espaços	escolares,	infelizmente,	esse	discurso,	muitas	vezes,	se	faz	presente.	
Está	em	ação	o	que	chamamos	de	binarismo,	isto	é,	a	ideia	de	que	só	existem	duas	formas	
de	brincadeiras:	de	meninos	e	de	meninas.	A	existência	deste	pensamento,	faz	com	que	
limitemos	o	brincar	e	coloquemos	em	ação	questões	de	gênero	que	tendem	a	reproduzir	
um	pensamento	de	que	exista	“brincadeiras	de	meninos	e	brincadeiras	de	meninas”.	
E	a	 escola	 nisto	 tudo?	O	que	a	 escola	 produz	e	 fala	 sobre	 sexualidade?	Sachi	
(2018)	aponta	que,	não	raro,	os	discursos	dos	responsáveis	familiares	estão	carregados	
de	falas	em	que	se	encontra	a	afirmação	de	que	a	escola	não	é	o	espaço	para	se	aprender	
sobre	sexualidade.	No	entanto,	a	autora	sinaliza	que	não	é	apenas	na	escola	que	esse	
conteúdo	chega	até	as	crianças,	a	diferença	é	que	neste	espaço	o	conteúdo	é	transmitido	
de	maneira	pedagógica	e,	logo,	responsável.	
Ao	levarmos	em	conta	que	a	criança,	a	partir	do	seu	nascimento,	já	entra	em	
contato	com	o	mundo	por	meio	de	diversas	situações,	a	escola	certamente	
não	será	seu	primeiro	ambiente	de	aprendizagem.	Devemos	levar	em	conta	
que	as	relações	que	essa	mesma	criança	desenvolve	com	o	meio	em	que	
está	 inserida	fazem	com	que	ela	aprenda,	de	modo	pedagógico	ou	não.	O	
contato	com	outros	seres	humanos,	os	meios	de	comunicação	e	a	mídia	são	
fontes	 ricas	de	 informação	e	de	aprendizado.	Entretanto,	salientamos	que,	
nos	dias	atuais,	as	crianças	entram	em	contato	com	essas	mídias	cada	vez	
mais	cedo	e	sem	a	orientação	de	adultos	(SACHI,	2018,	p.	31).	
A	partir	disso,	aluno(a),	podemos	perceber,	conforme	pontua	Sachi	(2018),	o	quão	
importante	 é	 que	 haja	 pessoas	 comprometidas	 e	 capacitadas	 para	 orientar	 as	 crianças	
acerca	dessa	temática.	Também,	é	preciso	que	compreendamos	que	vivemos	em	uma	so-
ciedade	atravessada	e	marcada	pelas	diferenças	e	pela	multiplicidade	de	modos	de	viver,	
ou	seja,	precisamos	desconstruir	a	ideia	de	que	ser	diferente	é	ser	anormal	e/ou	errado.	
Não	obstante,	ainda	nas	palavras	da	autora,
Levar	em	consideração	que	cada	sujeito	faz	parte	de	um	todo,	e	por	conta	
disso	ele	se	constitui	de	raça,	classe,	religião,	etc.,	permite	que	façamos	com	
que	ele	se	incomode	com	a	realidade	exposta	e	busque	respostas	até	então	
não	encontradas	de	 forma	satisfatória,	bem	como	 faz	com	que	 facilitemos	
essa	 desconstrução,	 possibilitando	 de	 forma	mais	 esclarecedora	 um	novo	
aprendizado	composto	de	questionamentos	e	possíveis	 respostas	 (SACHI,	
2018,	p.	32).	
Um	exemplo	de	prática	para	se	trabalhar	nas	salas	de	aula	é	a	utilização	de	livros	
infantis	que	 trazem	consigo	questões	que	possam	nortear	discussões	e,	consequente-
mente,	o	trabalho	educativo.	Neste	caminho,	Leite	e	Romero	(2017)	apresentam	o	livro	
O menino que ganhou uma boneca, da	autoria	de	Majô	Baptistoni,	enquanto	instrumento	
para	trabalhar,	dentro	dos	espaços	educativos,questões	relacionadas	à	sexualidade.	As	
autoras	sugerem	que	a	obra	seja	lida	em	conjunto	com	as	crianças,	a	fim	de	que	todas	
possam	participar	das	discussões	oriundas;	os	professores	e	professoras,	neste	momen-
37UNIDADE II Educação de Gênero e Sexualidade nos Espaços Educativos 
to,	possuem	grande	importância,	pois	serão	responsáveis	pela	mediação	das	discussões	
e	problematizações.		
Claro	que	esta	atividade	não	precisa	se	limitar	com	o	livro	proposto,	mas	sim	que	
os(as)	docentes	possam	explorar	novos	materiais	e	recursos	para	o	trabalho	dentro	da	
sala	de	aula,	contando	com	o	objetivo	de	desconstruir	ideias	preestabelecidas	e	social-
mente	construídas.	
Outro	recurso	importante	e	útil	é	a	utilização	de	filmes	que	abordam,	de	maneira	
responsável,	a	questão	da	sexualidade.	A	partir	da	exibição	dos	filmes,	é	possível	que	os	
professores	elaborem	questões	disparadoras,	a	fim	de	produzir	discussões	e	debates	rela-
cionados	à	temática.	Ainda,	é	possível	utilizar	pinturas,	charges	e	vídeos	(RIBEIRO,	2013).	
A	metodologia	utilizada	pelo	professor	pode	ser	a	mais	variada	possível	obser-
vando	e	avaliando	qual	melhor	didática	sobre	sexualidade	lidar	em	cada	sala	
de	aula.	Diálogo,	seminário,	pesquisas,	debates,	mesas	redondas,	palestras	e	
formas	lúdico-culturais	que	estimulem	os	alunos	no	entendimento	de	dificulda-
des	sexuais	presentes	na	adolescência	(LIMA;	ALMEIDA,	2010,	p.	729).
Ademais,	é	importante	sabermos,	como	pontua	Ribeiro	(2013,	p.	61),	que
Nesse	 redemoinho	 de	 possibilidades,	 [é	 necessário]	 criar	 estratégias	 para	
ouvir	as	crianças,	escutá-las,	desde	a	mais	tenra,	saber	que	trazem	consigo	
construções	de	gênero	desiguais,	sexistas,	pois	foram	anos	e	anos	de	ades-
tramento	em	que,	não	só	a	sexualidade	vem	sendo	vigiada	e	normatizada,	
mas	a	identidade	de	gênero	é	construída	diferentemente	para	homens	e	mu-
lheres,	meninos	e	meninas.	
Também,	é	 importante	que	cada	professor(a)	busque	desenvolver	seus	próprios	
recursos,	de	maneira	criativa	e	que	reflita	a	necessidade	de	seus	alunos	e	alunas,	a	fim	
de	que	a	experiência	de	obter	conhecimentos	acerca	da	sexualidade	seja	uma	tarefa	que	
proporcione	a	efetiva	participação	e	interesse	dos	discentes.		
38UNIDADE II Educação de Gênero e Sexualidade nos Espaços Educativos 
SAIBA MAIS
Aluno(a),	é	muito	importante	que	você	conheça	as	diferentes	nomenclaturas	relaciona-
das	à	sexualidade,	a	fim	de	evitar	a	repetição	e	produção	de	informações	incorretas.	Um	
exemplo:	Orientação	Sexual	é	o	termo	correto	para	expressar	a	maneira	na	qual	uma	
pessoa	se	sente	atraída	física	e/ou	emocionalmente	por	outra.	O	termo	Opção	Sexual	
está	incorreto,	pois	ninguém	escolhe	sua	orientação	sexual,	visto	que	ela	faz	parte	do	
desenvolvimento	individual	de	cada	pessoa.	
Para	aprofundar	a	leitura	nessa	temática,	acesse	o	material	a	seguir:	
JÚNIOR,	I.	B.	de	O.;	MAIO,	E.	R.	Opção	ou	orientação	sexual:	onde	reside	a	homosse-
xualidade?	Anais	do	III	Simpósio	Internacional	de	Educação	Sexual	“Corpos,	Identidade	
de	Gênero	e	Heteronormatividade	no	espaço	escolar”,	Maringá,	2013.		
Disponível	em:	http://www.sies.uem.br/anais/pdf/diversidade_sexual/3-02.pdf.	
REFLITA 
“Trabalhar	com	a	sexualidade	no	ambiente	escolar	ainda	sinaliza	um	 longo	caminho.	
Talvez	com	mais	clareza,	desejos,	discernimentos,	mas	ainda	é	preciso	muito	para	que	
a	educação	sexual	escolar	se	faça	presente	enquanto	um	projeto	pedagógico	coerente	
e	adequado”.	
Fonte:	Maio	(2011,	p.	205).	
39UNIDADE II Educação de Gênero e Sexualidade nos Espaços Educativos 
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Caro(a)	aluno(a),	
Chegamos	ao	fim	da	segunda	unidade	de	estudos.	Até	aqui,	 já	avançamos	nos	
estudos	relacionados	ao	gênero,	sexualidade	e	educação.	Como	vimos	na	nesta	unidade,	
as	abordagens	pedagógicas	da	educação	sexual	no	Brasil	passaram	por	grandes	transfor-
mações	através	do	último	século,	refletindo,	inclusive,	na	maneira	que	a	educação	sexual	
é	trabalhada	atualmente	no	contexto	escolar.	
Também	compreendendo	os	conceitos	e	as	 interfaces	entre	gênero	e	orientação	
sexual,	refletindo	acerca	de	como	tais	conceitos,	de	vasta	importância,	são	abordados	e,	
além	disso,	vividos	no	contexto	escolar,	seja	por	alunos	e	alunas	ou	pelo	corpo	docente.	
Por	 fim,	 no	 último	 tópico,	 encerramos	 com	 a	 apresentação	 de	 alguns	 recur-
sos	didático-metodológicos	para	a	execução	de	um	 trabalho	de	Educação	Sexual	na	
Educação	Infantil	e	Ensino	Fundamental,	que	contemple	e	dê	conta	das	necessidades	
contemporâneas.	
Com	os	conteúdos	apresentados,	espero	que	você	tenha	aproveitado	ao	máximo	
cada	informação	exposta.	Nos	encontramos	na	Unidade	III	para	darmos	continuidade	nas	
discussões	relacionadas	à	temática	da	sexualidade.
Até logo!
40UNIDADE II Educação de Gênero e Sexualidade nos Espaços Educativos 
LEITURA COMPLEMENTAR
Artigo:	Gênero	e	sexualidade:	pedagogias	contemporâneas
Resumo:	Gênero	e	sexualidade	são	construídos	através	de	inúmeras	aprendiza-
gens	e	práticas,	empreendidas	por	um	conjunto	inesgotável	de	instâncias	sociais	e	culturais,	
de	modo	explícito	ou	dissimulado,	num	processo	sempre	inacabado.	Na	contemporaneida-
de,	essas	instâncias	multiplicaram-se	e	seus	ditames	são,	muitas	vezes,	distintos.	Nesse	
embate	cultural,	torna-se	necessário	observar	os	modos	como	se	constrói	e	se	reconstrói	a	
posição	da	normalidade	e	a	posição	da	diferença,	e	os	significados	que	lhes	são	atribuídos.
Palavras-chave:	gênero;	sexualidade;	pedagogias	culturais;	norma;	diferença.
Texto completo disponível em: https://www.scielo.br/pdf/pp/v19n2/a03v19n2.pdf	
41UNIDADE II Educação de Gênero e Sexualidade nos Espaços Educativos 
MATERIAL COMPLEMENTAR
LIVRO
Título:	Problemas	de	gênero:	feminismo	e	subversão	de	identidade
Autora:	Judith	Butler
Editora:	Civilização	Brasileira
Sinopse:	Nesta	obra,	Judith	Butler	tece	algumas	reflexões	acerca	
do	feminismo	e	traz	algumas	críticas	à	noção	de	identidade,	concei-
to	fortemente	presente	no	movimento	feminista.	No	livro,	a	autora	
apresenta	a	noção	plural	de	identidade,	afirmando	que	é	preciso	
pensar	a	identidade	enquanto	vasta,	múltipla	e	não	singular.	Ainda,	
a	autora	problematiza	a	oposição	binária	entre	sexo	e	gênero.	
FILME
Título: Transamérica
Ano:	2005
Sinopse:	Bree,	uma	mulher	 transgênero,	pouco	tempo	antes	de	
fazer	a	cirurgia	de	readequação	sexual,	descobre	ter	um	filho,	de	
quando	ainda	possuía	uma	identidade	masculina.	De	volta	a	Los	
Angeles,	Bree	e	o	filho	passam	a	se	conhecer	e	buscam	entender	
as	particularidades	e	o	mundo	um	do	outro,	com	suas	diferenças.	
42
Plano de Estudo:
●	Diálogos	sobre	crianças	e	adolescentes,	gênero	e	sexualidade;
●	Violência:	exploração	e	abuso	sexual;
●	Integração	entre	escola	e	família.	
Objetivos da Aprendizagem:
●	Conhecer	a	evolução	da	contabilidade	e	seus	fundamentos	históricos;
●	Conceituar	a	contabilidade,	seu	objetivo	e	suas	áreas	de	aplicação;
●	Identificar	os	aspectos	legais	da	contabilidade;
●	Compreender	as	características	da	informação	e	quem	as	utiliza
UNIDADE III
Sexualidade na Infância e Adolescência
Professor Esp. Jose Valdeci Grigoleto Netto
43UNIDADE III Sexualidade na Infância e Adolescência
INTRODUÇÃO
Olá,	aluno(a)!
Seja	 bem-vindo(a)	 à	 terceira	 unidade	 da	 disciplina	Gênero,	Sexualidade	 e	Edu-
cação.	Neste	momento,	 iremos	 conhecer	 alguns	pontos	muito	 importantes	 relacionados	
à	intersecção	entre	infância,	adolescência,	gênero	e	sexualidade,	além	de	estudarmos	os	
tipos	de	violências	sexuais	comumente	praticadas	contra	essas	pessoas	e,	por	fim,	iremos	
conhecer	a	importância	da	interação	entre	escola	e	a	família.
Assim,	 no	 Tópico	 I	 iremos	 conhecer	 alguns	 diálogos	 possíveis	 que	 podem	 ser	
realizados	com	crianças	e	adolescentes	relacionados	ao	tema	do	gênero	e	da	sexualidade,	
conhecendo	o	papel	da	escola	neste	quesito.
Avançando,	no	Tópico	II	vamos	conhecer	alguns	conceitos	importantes	que	dizem	
respeito	à	violência	sexual,	elencando	os	dois	 tipos	de	violências	existentes	e,	 também,	
apresentando	algumasleis	que	asseguram	a	garantia	de	direitos	para	estes	sujeitos,	a	fim	
de	protegê-los	e,	muito	importante,	impedir	que	as	vítimas	sejam	revitimizadas.	
Chegando	ao	Tópico	III,	para	finalizar	a	unidade,	iremos	estudar	acerca	da	interação	
entre	a	escola	e	a	família	para	que	possamos	compreender	a	importância	de	um	trabalho	
que	leve	em	consideração	o	papel	da	família	na	educação	de	crianças	e	adolescentes	e	a	
importância	da	efetiva	participação	de	pais	e	responsáveis	no	processo	de	escolarização.	
Desta	maneira,	a	partir	dos	estudos	selecionados,	espero	que	os	textos	e	discus-
sões	aqui	contidos	sejam	úteis	para	seus	estudos	e	sua	futura	prática	docente.	
Bons estudos! 
44UNIDADE III Sexualidade na Infância e Adolescência
1. DIÁLOGOS SOBRE CRIANÇAS E ADOLESCENTES, GÊNERO E 
 SEXUALIDADE
Aluno(a),	vamos	iniciar	o	primeiro	tópico	desta	unidade	refletindo	acerca	dos	diá-
logos	possíveis	entre	crianças	e	adolescentes	e	a	questão	do	gênero	e	da	sexualidade.	
Como	vimos	na	unidade	anterior,	discutir	educação	sexual	não	é	discutir	relação	sexual,	
mas	sim	a	imensa	gama	de	elementos	que	compõem	a	sexualidade	humana.	Vamos	lá?
Carvalho	et al.	(2012)	pontuam	que	a	sexualidade	infanto-juvenil	foi	silenciada	por	
“verdades	científicas”,	que	a	colocaram	enquanto	pertencente	unicamente	aos	sujeitos	que	
já	possuem	os	órgãos	genitais	plenamente	desenvolvidos	para	a	prática	sexual.	Infelizmen-
te,	essa	ideia,	tão	aceita	socialmente	nos	dias	de	hoje,	impede	que	crianças	e	adolescentes	
tenham	contato	com	a	dimensão	sexual	de	suas	vidas.	
Assim,	o	que	podemos	constatar	é	que,	nos	últimos	séculos,	a	sexualidade	passou	
a	ser	vista	
Como	mal	a	ser	expurgado	da	vida	das	crianças,	a	sexualidade	passa	a	ser	
perseguida	e	proibida	por	moralistas	e	confessores	em	nome	da	preservação	
da	inocência	infantil,	atributo	que	institui	a	infância	na	modernidade.	Nessa	
lógica,	a	 criança	só	é	 inocente	porque	está	afastada	do	sexo,	experiência	
possível	e	permitida	apenas	para	a	vida	adulta.Por	meio	das	penitências	re-
ligiosas,	dos	tratados	de	boas	maneiras	e	da	literatura	infantil,	a	moral	bur-
guesa	ensina	as	crianças	a	sentirem	culpa	por	seus	desejos,	ideias	e	práticas	
sexuais,	traduzindo-se	em	valor	inabalável,	que	constitui	os	sujeitos,	crianças	
e	 adultos,	 e	 demarca	 suas	 relações	 com	o	 próprio	 corpo	 e	 com	o	mundo	
(CARVALHO	et	al.,	2012,	p.	71).	
45UNIDADE III Sexualidade na Infância e Adolescência
Destaca-se	 que	 falar	 em	sexualidade	na	 infância	 refere-se	 ao	 conhecimento	 do	
próprio	corpo	e,	também,	às	experiências	de	afeto.	A	escola,	neste	cenário,	através	de	seus	
elementos	curriculares,	também	traz	representações	acerca	do	corpo	do	outro.	Segundo	
Miranda	 (2014,	 p.	 189),	 “A	 representação	 do	 corpo	 do	 outro	 constitui	 positivamente	 ou	
negativamente,	de	forma	visceral,	a	identidade	social	do	sujeito.	E	a	escola	[...]	é	lugar	de	
representação	das	diferenças	de	gênero,	sexualidade,	etnia/raça	e	classe”.	Desta	forma,	
A	sexualidade	refere-se	a	um	dos	âmbitos	que	compõe	a	subjetividade	e	que	
se	conecta	não	apenas	ao	prazer,	mas	a	outros	elementos,	como	a	afetivida-
de,	a	autonomia,	a	liberdade	(e	que	não	se	restringe	aos	fins	reprodutivos).	
Ora,	se	partirmos	desta	ótica,	a	sexualidade	passa	a	ser	considerada	como	
uma	instância	da	vida	humana	que	é	construída	culturalmente,	respondendo	
aos	anseios	sociais	que	são	desenhados	de	acordo	com	as	expectativas	en-
dereçadas	aos	indivíduos	(CARVALHO	et al.,	2012,	p.	72).	
Aluno(a),	agora	podemos	pensar	que,	ao	refletirmos	acerca	da	infância	e	adoles-
cência	e	suas	interfaces	com	gênero	e	sexualidade,	é	válido	pensarmos	no	papel	da	escola	
na	construção	da	identidade	destes	alunos.	
Como	vimos,	a	escola	é	um	local	importante	de	construção	de	representações	que	
darão	sentido	aos	alunos	acerca	de	seus	corpos	e	dos	corpos	dos	outros.	Logo,	através	
de	seus	inúmeros	instrumentos,	a	instituição	escolar	é	central	na	formação	de	sujeitos	que	
convivam	com	as	diferenças.	Podemos,	então,	compreender	identidade	como	sendo
[...]	um	processo	de	construção	que	não	realizamos	de	forma	totalmente	au-
tônoma,	sozinhos.	Identidade	sempre	é	relacional,	depende	do	diferente,	do	
Outro,	da	diferença	para	que	saibamos	quem	não	somos.	É	importante	de-
marcar	também	que	as	identidades	adquirem	sentido	através	da	linguagem	
(MIRANDA,	2014,	p.	193).
Neste	viés,	crianças	e	adolescentes	que	não	se	identificam	com	o	modelo	hege-
mônico	da	heterossexualidade	e	que	não	possuem	suas	diferenças	reconhecidas	e	valida-
das	no	campo	escolar	são	sujeitos	que	estão	tendo	suas	diferenças	ignoradas	e,	com	isso,	
sofre-se	o	que	conhecemos	como	heterossexualização	compulsória	(MIRANDA,	2014).	
A	escola,	na	grande	maioria	das	vezes,	não	abarca	as	diferenças,	trabalhando	em	
seu	currículo	exclusivamente	com	as	expressões	da	heterossexualidade	enquanto	norma.	
Seja	 com	 o	 binarismo/separação	 de	 atividades	 para	 meninos	 e	 outras	 atividades	 para	
meninas,	filas	separadas	para	o	sexo	masculino	e	o	sexo	feminino,	dentre	outros	tantos	
exemplos	possíveis.	
Com	isto,	ao	falarmos	da	heterossexualização	compulsória,	estamos	nos	referindo	
a	um	processo	que:
[...]	implica	no	direcionamento	da	conduta,	das	expressões	corporais,	da	in-
dumentária,	do	modo	de	falar	e	de	andar	para	uma	perspectiva	heteronor-
mativa,	regressando	ao	lugar	“normal”	de	comportamento.	O	masculino	e	o	
feminino	devem	corresponder	às	designações	do	sexo	de	cada	um	para	a	
“boa	convivência”	em	sociedade.	A	perspectiva	heteronormativa	termina	por	
instituir	a	diferença	sexual	que	propõe	uma	organização	social	onde	é	possí-
vel	identificar	os	sujeitos	em	relação	ao	sexo/gênero/sexualidade	(MIRANDA,	
2014,	p.194).
46UNIDADE III Sexualidade na Infância e Adolescência
Ao	 contrário	 disso,	 a	 escola	 precisa	 ser	 um	 espaço	 que	 enxergue	 crianças	 e	
adolescentes	enquanto	sujeitos	ativos	no	mundo,	isto	é,	enquanto	pessoas	que	possuam	
sexualidade	e,	com	isso,	precisam	compreender	as	transformações	que	os	acompanham	
durante	seu	desenvolvimento.	
A	escola	pode	 ser	 um	espaço	protetivo	para	os	adolescentes,	mesmo	em	
contextos	sociais	de	maior	vulnerabilidade.	Assim,	o	contexto	escolar	pode	
ser	 um	 local	 potente	 para	 pensar	 em	 intervenções	 que	 busquem	 diminuir	
as	desigualdades	em	saúde,	pois,	além	de	ser	um	espaço	de	convivência,	
acaba	por	ser	parte	constituinte	de	subjetividade.	A	escola	pode	possibilitar	
aos	jovens	construir	conceitos	sobre	o	mundo,	formalizando	conhecimentos	e	
critérios	para	o	processo	decisório	das	inúmeras	questões	referentes	ao	seu	
cotidiano	(EW	et al.,	2017,	p.	51).
Por	isso,	proporcionar	diálogos	e	espaços	para	englobar	gênero	e	sexualidade	com	
crianças	e	adolescentes	é,	antes	de	tudo,	respeitar	o	direito	destes	sujeitos	a	debaterem	
sobre	este	tema,	a	sanarem	suas	dúvidas,	curiosidades	e,	com	isso,	obterem	conhecimento	
de	maneira	pedagógica.	Ainda,	quando	trabalhamos	a	questão	da	sexualidade,	estamos	
atuando,	inclusive,	na	prevenção	de	violências.	
Neste	 viés,	 Gagliotto	 e	 Vagliati	 (2014)	 destacam	 que	 a	 escola	 possui	 papel	 de	
protagonista	no	rompimento	do	pacto	de	silêncio	em	torno	das	violências	sexuais	e,	com	
isso,	pode	auxiliar	pais	e	alunos	a	compreenderem	e	lidarem	de	maneira	adequada	com	o	
tema	da	sexualidade.	Ainda,	conforme	Correa	(2013),	a	violência	possui	diversas	variantes	
que	se	alteram	com	o	tempo	e,	com	isso,	se	faz	necessário	que	olhemos	para	o	conceito	de	
violência	enquanto	algo	que	vá	além	da	ideia	de	machucar	e	agredir.
Seguindo	esta	ideia,	no	próximo	tópico	iremos	compreender	um	pouco	mais	acerca	
do	tema	da	violência	sexual	praticada	contra	crianças	e	adolescentes.	Vamos	lá?
47UNIDADE III Sexualidade na Infância e Adolescência
2. VIOLÊNCIA: EXPLORAÇÃO E ABUSO SEXUAL
Aluno(a),	neste	tópico	iremos	conhecer	um	pouco	acerca	da	violência	sexual	prati-
cada	contra	crianças	e	adolescentes.	Ao	discutirmos	sexualidade,	se	faz	de	extrema	impor-
tância	conhecermos	acerca	deste	tipo	deviolência.	Neste	sentido,	iremos	compreender	os	
dois	tipos	que	compõem	a	violência	sexual:	o	abuso	e	a	exploração.	
Segundo	Cunha	(2020),	os	números	relacionados	à	violência	sexual	contra	crian-
ças	e	adolescentes	atingiram	uma	marca	exponencial	e,	por	isso,	alarmante	no	período	que	
compreende	os	anos	de	2011	a	2019.	Através	de	dados	obtidos	pela	Ouvidoria	Nacional	
dos	Direitos	Humanos	(Disque	100),	 foram	registradas	mais	de	200	mil	denúncias	neste	
período.	Ainda,	se	faz	relevante	pensarmos	que	nem	todos	os	casos	são	notificados,	o	que	
acaba	por	elucidar	que	os	números	podem	ser	muito	maiores.
A	Organização	Mundial	de	Saúde	estima	que	apenas	01	em	cada	20	casos	
de	abuso	chega	ao	conhecimento	dos	órgãos	de	proteção	à	infância.	Logo,	
das	640.000	(seiscentas	e	quarenta	mil)	crianças	e	adolescentes	violentados	
sexualmente	em	2018	no	Brasil,	apenas	32.000	(trinta	e	dois	mil)	casos	foram	
apurados.	 Isso	significa	que	os	outros	608.000	(seiscentos	e	oito	mil)	abu-
sadores	permanecem	livres	de	qualquer	punição	e,	o	que	é	pior,	livres	para	
continuarem	destruindo	a	infância	de	milhões	de	crianças	e	adolescentes	ao	
longo	de	muitos	e	muitos	anos	(MPCE,	2020,	p.	8).
Logo,	podemos	perceber	que	precisamos	ficar	atentos	com	este	tema.	Como	po-
demos	constatar,	os	números	são	alarmantes.	A	violência	sexual	contra	crianças	e	adoles-
centes	deve	ser	sempre	denunciada.	No	entanto,	para	que	isso	ocorra	de	maneira	efetiva,	é	
48UNIDADE III Sexualidade na Infância e Adolescência
preciso	que	o	assunto	seja	discutido,	que	pautas	sejam	levantadas,	que	campanhas	sejam	
realizadas	e,	ainda,	que	toda	a	sociedade	se	mobilize.	Ainda	em	relação	aos	números,	se	
faz	necessário	destacar	que
A	violência	 sexual	 infantil	 ocorre	 com	 frequência	bem	maior	 do	que	pode-
mos	imaginar.	Em	média,	a	cada	hora,	quatro	crianças	e	adolescentes	são	
abusados	no	Brasil.	Essa	prática	não	é	 recente,	muito	menos	vinculada	a	
uma	faixa	etária,	condição	social,	 localização	geográfica	ou	sexo	da	vítima	
(MPCE,	2020,	p.	3).
Neste	 caminho,	 é	 importante	 que	 conheçamos	 alguns	 conceitos	 relacionados	 à	
violência	sexual.	Para	começar,	trago	a	definição	de	Brasil	(2020),	que	pontua	o	fenômeno	
do	abuso	sexual	como	todo	ato	de	natureza	erótica,	permeado	pela	presença	ou	não	de	
contato	 físico	 e	 força,	 em	 que	 haja	 um	 adulto	 e	 uma	 criança	 e/ou	 adolescente,	 ou	 um	
adolescente	mais	velho	e	uma	criança.	Neste	caminho,	existem	dois	tipos	de	abuso	sexual:	
o	de	ordem	intrafamiliar,	isto	é,	em	que	o	agressor	faz	parte	da	família	da	vítima,	ligado	
por	laços	de	consanguinidade	(pais,	irmãos,	avós,	tios,	dentre	outros),	legalidade	(guarda,	
tutela	ou	adoção)	ou	afinidade	(padrasto,	madrasta,	cunhados	etc.)	e	o	abuso	de	ordem	
extrafamiliar,	praticado	por	pessoas	conhecidas	ou	desconhecidas	da	vítima.	
Já	a	exploração	sexual	está	 relacionada	com	o	ato	de	usar	a	 criança	enquanto	
meio	para	a	obtenção	de	lucro	ou	algum	outro	tipo	de	vantagem	por	parte	do	adulto.	A	vio-
lência,	neste	caso,	é	de	duas	ordens:	a	primeira	que	refere	à	violação	de	seu	próprio	corpo	
enquanto	meio	para	obtenção	de	vantagens	(na	maioria	das	vezes	de	ordem	financeira)	e	
sendo	abusada	por	outro	indivíduo	(MPCE,	2020).
Se	 faz	 extremamente	 importante	 destacar	 que	 crianças	 e	 adolescentes	 que	 so-
frem	abuso	sexual	nunca	devem	ser	encarados	como	culpados.	Ao	contrário,	crianças	e	
adolescentes	são	vítimas,	pois,	enquanto	sujeitos	peculiares	em	fase	de	desenvolvimento,	
acabam	por	estarem	em	posição	de	inferioridade	frente	ao	poder	do	adulto,	em	que	este	
leva	vantagens	sobre	a	vítima	(BRASIL,	2020).	
A	exploração	sexual	de	crianças	e	adolescentes	é	considerada	crime	hedion-
do,	sem	prejuízo	da	responsabilização	criminal	de	todas	as	pessoas	envol-
vidas	nos	abusos	cometidos.	A	exploração	pode	ocorrer	de	quatro	 formas:	
prostituição,	pornografia,	redes	de	tráfico	de	pessoas	e	turismo	com	motiva-
ção	sexual	(MPCE,	2020,	p.	6).	
É	preciso	destacar	que	crianças	e	adolescentes	possuem	direitos	legalmente	as-
segurados,	estando	amparadas	por	 legislações	específicas.	A	constituição	de	1988,	por	
exemplo,	em	especial	o	Art.	227,	já	demarca	isso,	assinalando	que	
É	dever	da	família,	da	sociedade	e	do	Estado	assegurar	à	criança,	ao	ado-
lescente	e	ao	 jovem,	com	absoluta	prioridade,	o	direito	à	vida,	à	saúde,	à	
alimentação,	à	educação,	ao	lazer,	à	profissionalização,	à	cultura,	à	dignida-
de,	ao	respeito,	à	liberdade	e	à	convivência	familiar	e	comunitária,	além	de	
colocá-los	a	salvo	de	toda	forma	de	negligência,	discriminação,	exploração,	
violência,	crueldade	e	opressão	(BRASIL,	1988,	s.p.).				
49UNIDADE III Sexualidade na Infância e Adolescência
Avançando,	 em	 1990,	 com	 o	 Estatuto	 da	 Criança	 e	 do	 Adolescente	 -	 Lei	 nº	
8.069/1990,	 crianças	 e	 os	 adolescentes	 passaram	 a	 ter	 um	 documento	 norteador	 que	
assegura	seus	direitos	e,	com	isso,	o	documento	foi	um	marco	na	efetivação	de	crianças	
e	adolescentes	enquanto	sujeitos	de	direitos	(BRASIL,	1990).	Entre	os	pontos	importantes	
que	a	lei	traz,	se	faz	pertinente	destacar	o	artigo	5º,	que	elucida	que:	
Nenhuma	criança	ou	adolescente	será	objeto	de	qualquer	forma	de	negligên-
cia,	discriminação,	exploração, violência, crueldade	e	opressão,	punido	na	
forma	da	lei	qualquer	atentado,	por	ação	ou	omissão,	aos	seus	direitos	fun-
damentais	(BRASIL,	1990,	s.p.,	grifo	nosso).
Neste	sentido,	a	fim	de	um	correto	manejo	dos	casos	de	violência	e	visando	a	não	
revitimização	destes	sujeitos,	ou	seja,	com	o	objetivo	de	evitar	que	crianças	e	adolescentes	
tenham	que	reviver	e	narrar	os	eventos	repetidas	vezes,	recentemente	houve	um	marco	
para	a	garantia	e	manutenção	dos	direitos	destes	sujeitos,	com	a	promulgação	da	Lei	nº	
13.431/2017,	que	estabelece	o	sistema	de	garantia	de	direitos	da	criança	e	do	adolescente	
vítima	ou	testemunha	de	violência.	Esta	legislação	visa	assegurar	o	correto	atendimento	às	
crianças	e	adolescentes,	ao	conceituar	e	diferenciar	a	escuta	especializada	e	o	depoimento	
especial.	A	 lei,	 ainda,	 traz	 várias	especificidades	de	como	este	público	 será	acolhido	e,	
também,	apresenta	alguns	conceitos	importantes.
Nesta	 lei,	a	escuta especializada	passa	a	ser	configurada	enquanto	“[...]	o	pro-
cedimento	de	entrevista	sobre	situação	de	violência	com	criança	ou	adolescente	perante	
órgão	da	rede	de	proteção,	limitado	o	relato	estritamente	ao	necessário	para	o	cumprimento	
de	sua	finalidade”	 (BRASIL,	2017,	s.p.),	ou	seja,	oferecer	acolhimento	às	vítimas	e	ofe-
recendo-lhe	respeito,	a	fim	de	evitar	a	repetição	do	relato	da	violência.	Já	o	depoimento 
especial	 é	 conceituado	 como	 “[...]	 o	 procedimento	 de	 oitiva	 de	 criança	 ou	 adolescente	
vítima	ou	testemunha	de	violência	perante	autoridade	policial	ou	judiciária”	(BRASIL,	2017,	
s.p.)	que	objetiva	a	produção	de	provas	para	a	utilização	nos	processos	judiciais.	
FIGURA 1 - VIOLÊNCIA SEXUAL INFANTIL
50UNIDADE III Sexualidade na Infância e Adolescência
É	muito	importante	que	todas	as	pessoas	envolvidas	no	atendimento	a	crianças	e	
adolescentes,	seja	em	qualquer	política	que	estejam	inserida	(educação,	saúde,	assistência	
social	etc.),	conheçam	estas	legislações.	A	violência,	infelizmente,	é	um	fenômeno	presente	
em	 nossa	 realidade	 e,	 como	 vimos,	 independe	 de	 condição	 econômica,	 faixa	 etária	 ou	
localização	geográfica,	se	faz	presente	em	todos	os	espaços	e	contextos.	
Neste	caminho,	Alencar	et al.	(2009)	elucidam	alguns	mitos	comumente	presentes	
quando	se	fala	acerca	da	violência	sexual	contra	crianças	e	adolescentes.	O	primeiro	mito	
refere-se	à	ideia	de	que	tais	casos	ocorrem	apenas	em	famílias	pobres.	Outro	mito	é	que	
apenas	meninas	sofrem	violência	sexual;	ao	contrário,	meninos	também	são	vítimas,	mes-
mo	que	os	dados	apresentem	uma	predominância	de	meninas	serem	violentadas.	
Seguindo,	um	outro	mito	que,	infelizmente,	ainda	cerca	o	pensamento	de	muitas	
pessoas	é	a	noção	de	que	os	homossexuais	são	potenciais	violentadores	por	conta	de	suaorientação	sexual.	Neste	caso,	percebe-se	que	os	setores	conservadores	da	sociedade,	to-
mando	carona	em	uma	situação	trágica	e	cruel,	como	é	o	caso	da	violência	sexual,	buscam	
manchar	a	imagem	de	uma	parcela	da	sociedade	que	já	sofre	inúmeras	situações	de	pre-
conceito	e	discriminação,	estando	pautados,	é	claro,	em	noções	moralistas	e	homofóbicas.	
Desta	maneira,	podemos	perceber	como	é	importante	que	estejamos	sempre	pau-
tados	em	ideias	corretas	e	que	fujam	do	senso	comum,	isto	é,	de	informações	erroneamente	
compartilhadas	e	que,	muitas	vezes,	nós	reproduzimos	sem	termos	certeza	dos	fatos.	Por	
isso,	é	 importante	que	seja	discutido,	desde	o	contexto	escolar,	maneiras	de	prevenir	a	
violência	sexual	contra	crianças	e	adolescentes.	Essa	discussão	não	pode	ser	deixada	de	
lado,	pois,	como	vimos,	a	violência	está	presente,	infelizmente,	em	todos	os	espaços	de	
nossas	sociedades.
51UNIDADE III Sexualidade na Infância e Adolescência
3. INTEGRAÇÃO ENTRE ESCOLA E FAMÍLIA
Aluno(a),	você	já	pensou	na	importância	da	família	assumir	um	papel	ativo	na	es-
colarização	de	crianças	e	adolescentes?	Assim,	se	faz	necessário	que	haja	uma	interação,	
isto	é,	uma	comunicação	presente	entre	a	 família	e	a	 instituição	escolar,	a	fim	de	que	o	
processo	possa	ser	o	mais	positivo	e	funcional	possível.	Porém,	o	que	se	percebe	é	que
No	campo	da	educação	brasileira,	temos	observado	a	dificuldade	encontrada	
pelos(as)	gestores(as)	de	escolas	[em]	estabelecerem	parceria	entre	o	espa-
ço	escolar	e	a	família	dos(as)	alunos(as).	Frequentemente,	podemos	obser-
var	que	a	maioria	dos(as)	educadores(as)	reclamam	da	pouca	ou	nenhuma	
demonstração	de	interesse	da	família	em	participar	do	cotidiano	escolar	do(a)	
filhos(as)	(CREPALDI,	2017,	p.	1173).
Neste	caminho,	Crepaldi	(2017)	sinaliza	também	que	a	participação	dos	pais/res-
ponsáveis	na	vida	da	criança	é	um	fator	de	extrema	importância	para	garantir	um	efetivo	
desenvolvimento	e,	ao	se	relacionar	com	o	espaço	escolar,	quando	há	a	participação	destes	
adultos	no	processo	de	escolarização	das	crianças,	a	“[...]	criança	fica	mais	confiante,	uma	
vez	que	percebe	que	todos	se	interessam	por	ela,	e	também	porque	passam	a	conhecer	
quais	são	as	dificuldades	e	quais	os	conhecimentos	que	ela	tem”	(p.	11737).
A	 família	 representa	o	alicerce	para	que	o	 indivíduo	construa	uma	boa	es-
trutura	social,	pois	é	dentro	do	espaço	familiar	que	a	criança	determina	os	
primeiros	relacionamentos,	que	depois	abrangerá	a	escola	e	por	fim	a	socie-
dade.	Por	isso,	a	participação	da	família	na	vida	da	criança	é	de	suma	impor-
tância,	é	ela	que	servirá	de	modelo	de	relacionamentos	para	que,	mais	tarde,	
ela	se	relacione	com	outras	pessoas	(CREPALDI,	2017,	p.	11737).
52UNIDADE III Sexualidade na Infância e Adolescência
Ademais,	de	acordo	com	Lima	et al.	(2010),	a	família	é	a	primeira	instância	na	qual	
a	criança	recebe	informações	acerca	do	que	seja	a	sexualidade.	No	entanto,	por	diversos	
motivos,	como	receio	e	vergonha,	muitas	famílias	não	abordam	esta	temática	com	as	crian-
ças,	o	que	acaba	relegando	à	sexualidade	um	local	de	tabu	e	interdito.	
No	 entanto,	 mesmo	 que	 pareça	 difícil	 e	 até	 mesmo	 impossível,	 é	 necessário	
abordar	 esse	 tema	 com	crianças	 e	 adolescentes.	 Falar	 acerca	 deste	 assunto	 é	 auxiliar	
no	pleno	desenvolvimento	sadio	destes	sujeitos	que,	por	mais	que	muitas	vezes	os	pais	
e/ou	responsáveis	pensem	que	as	crianças	não	estão	preparadas	para	lidarem	com	este	
assunto,	necessitam	que	a	sexualidade	seja	abordada	(LIMA	et al.,	2010).	
Ao	chegar	a	esse	momento,	é	necessário	que	a	família	dê	respostas	claras	
e	precisas	de	acordo	com	a	idade	e,	se	por	acaso	não	puderem	responder	
no	momento	para	esclarecer	as	dúvidas,	não	se	deve	repassar	qualquer	res-
posta.	É	muito	importante	a	atitude	ao	responder	às	perguntas,	saber	o	tom	
de	voz	a	ser	utilizado,	a	segurança	nas	informações,	o	fato	de	estar	ou	não	à	
vontade,	tudo	isto	é	captado	pela	criança	também	sob	a	forma	de	informação	
(LIMA	et al.,	2010,	p.	85).
Neste	caminho,	a	escola	possui	um	papel	que	vai	de	encontro	com	o	desenvolvi-
mento	pelas	instituições	familiares.	Ao	abordar	o	tema	da	sexualidade,	
É	necessário	que	a	escola	como	instituição	educacional	esteja	bem	prepara-
da	para	lidar	com	esse	assunto,	sendo	assim	posicionando-se	de	forma	clara	
e	consciente	sobre	as	referências	e	limites	com	os	quais	deve	trabalhar	as	
expressões	da	sexualidade	da	criança	(LIMA	et al.,	2010,	p.	86).
Vê-se,	então,	que	a	família,	a	escola	e	também	a	sociedade	podem	propor,	juntas,	
uma	educação	sexual	infantil	que	seja	pautada	em	conceitos	e	ideias	éticas	e,	principalmen-
te,	na	noção	de	diversidade	entre	as	pessoas,	respeitando	as	diferenças	e	particularidades	
dos	sujeitos	(LIMA	et al.,	2010).	
A	integração	da	escola	com	a	família	e	de	toda	a	comunidade,	por	meio	de	
diálogos,	é	 fundamental,	uma	vez	que	a	escola	é	compreendida	como	um	
elemento	de	mediação	entre	o(a)	aluno(a)	e	a	família.	Alguns(as)	professo-
res(as)	 conhecem	mais	 sobre	 o(a)	 aluno(a)	 que	a	 própria	 família	 que,	 em	
muitos	 casos,	 surpreende-se	 ao	 ser	 chamada	na	 escola	 para	 ouvir	 certos	
comentários	em	relação	ao(à)	filho(a)	(CREPALDI,	2017,	p.	11737).
Por	fim,	com	estes	pressupostos	básicos,	como	destaca	Correa	(2013),	pode-se	
afirmar	que	a	escola	possui	grande	capacidade	de	deixar	de	assumir	uma	posição	caracte-
rizada	pela	opressão	e	repressão,	tornando-se	um	local	que	seja	seguro	e	livre	para	todas	
as	pessoas	sentirem-se	incluídas	e	pertencentes.	
53UNIDADE III Sexualidade na Infância e Adolescência
SAIBA MAIS
Aluno(a),	você	sabia	que	o	dia	18	de	março	é	considerado	o	Dia	Nacional	de	Combate	
ao	Abuso	e	à	Exploração	Sexual	Infantil?	Essa	data	foi	instituída	a	partir	da	aprovação	
da	Lei	Federal	n°	9.970/00.
A	data,	no	entanto,	não	foi	escolhida	de	maneira	aleatória.	No	dia	18	de	maio	de	1973,	
Araceli,	uma	menina	de	apenas	8	anos	de	idade,	foi	brutalmente	abusada	e	assassina-
da.	A	intenção,	com	esta	data,	é	mobilizar	e	convocar	toda	a	sociedade	para	participar	
dessa	luta	e	proteger	todas	as	crianças	e	adolescentes.	A	data,	ainda,	busca	reafirmar	
a	importância	de	se	denunciar	e	responsabilizar	os	autores	de	violência	sexual	contra	
a	 população	 infanto-juvenil.	 No	 caso	 de	Araceli,	 os	 criminosos,	 infelizmente,	 ficaram	
impunes.	
Fonte:	CDHPF	(2017).
REFLITA 
“A	discriminação	homofóbica	e	de	gênero	causou,	e	ainda	causa,	taxas	altíssimas	de	
evasão	escolar,	que,	em	última	análise,	significam	que	centenas	de	pessoas	desistem	
de	sonhos	e	projetos	pessoais,	porque	as	 instituições	ainda	são	 ineptas	para	discutir	
e	garantir	a	convivência	com	a	diversidade.	Não	raro,	o	bullying	contra	homossexuais,	
dentro	da	família,	da	escola	e	da	sociedade,	tem	levado	pessoas	a	desistirem	da	vida,	
numa	consequência	extrema	da	falta	de	políticas	educativas,	de	esclarecimento	da	so-
ciedade	em	geral,	e	da	contenção	da	violência	contra	o/a	“diferente”.	
Fonte:	Maio	e	Correa	(2013,	p.	17).	
54UNIDADE III Sexualidade na Infância e Adolescência
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Caro(a)	aluno(a),	
Chegamos	ao	fim	da	terceira	unidade	da	disciplina	Gênero,	Sexualidade	e	Educa-
ção.	Agora,	a	partir	dos	estudos	que	realizamos	neste	material,	você	já	aprofundou	seus	
conhecimentos	 relacionados	 à	 essa	 temática.	 No	 momento,	 você	 já	 conheceu	 alguns	
pontos	muito	importantes	relacionados	à	intersecção	entre	infância,	adolescência,	gênero	
e	sexualidade,	além	de	ter	entrado	em	contato	com	os	tipos	de	violências	sexuais	que	são	
praticadas	 contra	 crianças	 e	 adolescentes.	Ainda,	 você	 teve	 a	 oportunidade	 de	 estudar	
sobre	a	importância	da	interação	entre	escola	e	a	família.
Recapitulando,	no	Tópico	I	contamos	com	alguns	diálogos	possíveis	que	podem	ser	
realizados	com	crianças	e	adolescentes	relacionados	ao	tema	do	gênero	e	da	sexualidade,	
conhecendo	o	papel	da	escola	neste	quesito.
Já	 no	 Tópico	 II,	 foi	 possível	 conhecer	 alguns	 conceitos	 importantes	 quedizem	
respeito	à	violência	sexual,	em	que	foram	apresentados	os	dois	tipos	de	violências	sexuais	
que	são	existentes.	Neste	momento,	apresentamos	algumas	leis	que	asseguram	a	garantia	
de	direitos	para	esses	sujeitos,	como	o	Estatuto	da	Criança	e	do	Adolescente,	por	exemplo.
Ao	fim	da	unidade,	Tópico	III,	estudamos	acerca	da	interação	entre	a	escola	e	a	
família	e	a	 importância	da	realização	de	um	trabalho	que	 leve	em	consideração	o	papel	
da	 família	 na	educação	de	 crianças	e	adolescentes	e	 também	a	 importância	 da	efetiva	
participação	de	pais	e	responsáveis	no	processo	de	escolarização.	
Nos	encontramos	na	próxima	e	última	unidade	desta	disciplina	para	darmos	conti-
nuidade	nas	discussões	relacionadas	à	sexualidade,	gênero	e	educação.	
Até logo!
55UNIDADE III Sexualidade na Infância e Adolescência
LEITURA COMPLEMENTAR 
Artigo:	Violência	sexual	contra	crianças	e	adolescentes:	identificação,	consequên-
cias	e	indicações	de	manejo
Resumo:	A	Violência	Sexual	(VS)	contra	crianças	e	adolescentes	é	um	problema	
de	saúde	pública	que	costuma	produzir	consequências	na	vida	das	vítimas.	Embora	a	VS	
afete	milhões	de	crianças	e	adolescentes	no	Brasil	e	no	mundo,	ela	ainda	é	subnotificada.	
Neste	cenário,	os	profissionais	que	possuem	contato	com	essa	população	têm	papel	fun-
damental	na	identificação	e	na	escuta	das	revelações	de	VS.	No	entanto,	nem	sempre	os	
profissionais	possuem	informações	suficientes	para	agir	diante	destes	casos.	Desta	forma,	
este	artigo	tem	o	intuito	de	descrever	o(s)	conceito(s)	de	VS,	suas	consequências	e	indica-
ções	de	manejo.	Ressalta-se	a	importância	dos	profissionais	terem	uma	escuta	empática	
em	situações	de	revelação	da	VS,	bem	como	a	necessidade	de	notificação	dos	casos	de	
suspeita	de	VS	aos	serviços	competentes.
Palavras-chave:	 Violência	 sexual;	 Criança;	Adolescente;	 Revelação;	Defesa	 da	
criança	e	do	adolescente.
Texto completo disponível em: 
HOHENDORFF,	 J.	V.;	PATIAS,	N.	D.	Violência	 sexual	 contra	 crianças	e	adoles-
centes:	 identificação,	 consequências	 e	 indicações	 de	manejo.	Revista Barbarói,	 Santa	
Cruz	do	Sul,	n.	49,	p.	239-257,	2017.	Disponível		em:	https://online.unisc.br/seer/index.php/
barbaroi/article/view/9474/6913.	
56UNIDADE III Sexualidade na Infância e Adolescência
MATERIAL COMPLEMENTAR
LIVRO
Título:	Pipo	e	Fifi	-	Ensinando	Proteção	contra	violência	sexual
Autora:	Caroline	Arcari
Editora: Caqui
Sinopse:	O	livro	ensina,	para	crianças,	conceitos	básicos	relacio-
nados	ao	corpo,	emoções	e	sentimentos.	Ainda,	é	uma	ferramenta	
de	grande	importância	para	ensinar	às	crianças	a	diferença	entre	
carinho	e	abuso.	O	livro	apresenta	atividades	para	que	as	crianças	
aprendam	 a	 refletir	 e	 a	 conhecer	 conceitos	 importantes	 sobre	
abuso	sexual.	
FILME/VÍDEO
Título:	O	quarto	de	Jack
Ano: 2015
Sinopse:	O	filme	retrata	o	drama	da	adolescente	Joy	e	seu	filho	
Jack	enquanto	vivem	isolados	em	um	quarto,	após	o	sequestro	e	
estupro	de	Joy.	O	velho	Nick,	o	violentador,	os	mantêm	em	cati-
veiro.	Ao	longo	do	filme,	Joy	faz	o	possível	para	tornar	suportável	
a	 vida	 no	 local,	mas	 busca	 a	 todo	 tempo	 uma	maneira	 de	 sair	
do	cativeiro.	Ela	elabora	um	plano	em	que,	com	a	ajuda	do	filho,	
poderá	enganar	Nick	e	retornar	à	realidade.
57
Plano de Estudo:
●	Processo	de	educação	sexual	existente	nos	espaços	educativos;
●	Construção	de	educação	sexual	com	base	em	uma	proposta	emancipatória;
●	O	ensino	dos	Direitos	Humanos	no	contexto	escolar.	
Objetivos da Aprendizagem:
●	Contextualizar	os	processos	de	educação	sexual	atualmente	presentes
	nos	espaços	escolares;
●	Compreender	a	relevância	da	educação	sexual	enquanto	uma	
proposta	emancipatória;
●	Estabelecer	a	importância	dos	Direitos	Humanos	e	suas
interfaces	com	o	contexto	escolar.
UNIDADE IV
Práticas Pedagógicas com Base em 
uma Educação Sexual Emancipatória
Professor Esp. Jose Valdeci Grigoleto Netto
58UNIDADE IV Práticas Pedagógicas com Base em uma Educação Sexual Emancipatória
INTRODUÇÃO
Olá,	aluno(a).	Seja	bem-vindo(a)	à	última	unidade	da	disciplina	Gênero,	Sexuali-
dade	e	Educação.	Agora,	após	todo	o	conteúdo	que	trabalhamos	no	decorrer	das	aulas	
anteriores,	iremos	conhecer	um	pouco	mais	acerca	dos	processos	de	educação	sexual	
atualmente	 presentes	 nos	 espaços	 educativos.	 Neste	 caminho,	 iremos	 conhecer,	 na	
sequência,	a	proposta	de	uma	educação	sexual	emancipatória	e,	por	fim,	iremos	debater	
acerca	da	importância	e	urgência	de	discutirmos	os	direitos	humanos	e	suas	interfaces	
com	a	educação.	
Assim,	no	Tópico	 I	 iremos	conhecer	as	principais	práticas	adotadas	no	contexto	
educacional	para	o	trabalho	com	a	educação	sexual,	em	especial	o	enfoque	que	se	é	dado	
para	a	questão	da	biologia	e	aos	aspectos	reprodutivos.	
Na	 sequência,	 no	 Tópico	 II	 vamos	 conhecer	 a	 educação	 emancipadora	 e	 sua	
importância	 para	 a	 formação	 de	 alunos	 e	 alunas	 que	 consigam	 desenvolver	 um	 senso	
crítico	 frente	 às	 informações.	Ainda	 neste	 tópico	 iremos	 nos	 debruçar,	 rapidamente,	 na	
compreensão	do	educador	Paulo	Freire	acerca	do	que	venha	ser	uma	educação	voltada	
para	a	emancipação.	
Para	 finalizar,	 no	Tópico	 III	 iremos	estudar	o	 conceito	de	direitos	humanos,	 seu	
surgimento	e	trajetória	e	conhecer	suas	interfaces	e	aplicações	nos	espaços	escolares,	a	
fim	de	garantir	a	efetivação	dos	direitos	básicos	dos	seres	humanos.	
Desta	maneira,	a	partir	dos	estudos	selecionados,	espero	que	os	temas	e	reflexões	
aqui	contidos	sejam	úteis	para	seus	estudos.	
Bons estudos! 
59UNIDADE IV Práticas Pedagógicas com Base em uma Educação Sexual Emancipatória
1. PROCESSO DE EDUCAÇÃO SEXUAL EXISTENTE NOS ESPAÇOS 
 EDUCATIVOS
Aluno(a),	vamos	iniciar	a	discussão	do	nosso	primeiro	tópico	em	que	iremos	traba-
lhar	a	questão	dos	processos	de	educação	sexual	que	se	fazem	inseridos,	atualmente,	nos	
contextos	educacionais.	Vamos	lá?
Santos	(2016)	sinaliza	que	desde	1997	o	Ministério	da	Educação	(MEC)	propõe,	
através	dos	Parâmetros	Curriculares	Nacionais	(PCN),	os	temas	que	devem	atravessar	de	
maneira	transversal,	isto	é,	serem	abordados	por	diferentes	áreas.	A	questão	da	orientação	
sexual	e	os	aspectos	relacionados	à	sexualidade	caracteriza-se	enquanto	um	destes	temas.
No	 entanto,	 de	 acordo	 com	Gagliotto	 e	 Lembeck	 (2011),	 ainda	 existe,	 nos	 dias	
de	hoje,	um	foco	totalmente	biológico	nas	escolas	quando	vamos	nos	referir	à	educação	
sexual.	A	transmissão	dos	conteúdos	e	informações	se	dá	de	maneira	técnica,	sem	o	envol-
vimento	efetivo	dos	alunos	e	alunas.	Na	maioria	das	vezes,	o	tema	é	deixado	apenas	para	
ser	apresentado	nas	disciplinas	de	ciências	e/ou	biologia.	Sendo	assim,
Se	a	escola	não	trata	da	questão	sexual	ou	se	esta	trabalha	apenas	a	ques-
tão	biológica	da	sexualidade,	ela	está	transmitindo	aos	alunos	que	o	assunto	
é	mesmo	um	tabu,	do	qual	não	se	pode	falar.	A	omissão	da	escola	e	da	famí-
lia	faz	com	que	as	crianças	e	os	adolescentes	busquem	informações	sobre	
o	 assunto	 em	 fontes	 bem	menos	 seguras,	 como	 em	 revistas,	 internet,	 na	
rua	com	“amigos”,	tão	despreparados	quanto	eles	(GAGLIOTTO;	LEMBECK,	
2011,	p.	4).
60UNIDADE IV Práticas Pedagógicas com Base em uma Educação Sexual Emancipatória
Ainda	 de	 acordo	 com	 as	 autoras	 anteriormente	 pontuadas,	mesmo	 com	 todo	 o	
silenciamento,	 a	 educação	 sexual	 tem	 se	 apresentado	 enquanto	 um	 tema	 de	 extrema	
necessidade	de	ser	abordado	nos	espaços	educativos,	visto	a	relevância	e	importância	de	
se	trabalhar	os	campos	do	amor,	do	afeto	e	das	relações	sociais	e	sexuais	dos	sujeitos.	
A	 educação	 sexual	 proporciona,	 neste	 sentido,	 o	 desenvolvimento	 de	 uma	 sexualidade	
responsável	e,	ao	mesmo	tempo,	prazerosa,	em	que	os	indivíduos	possam	vivenciar	essas	
experiências	que	fazem	parte	do	desenvolvimento	humano.
No	cotidiano	da	sala	de	aula	surgem	frequentemente	questões	relacionadas	
sobre	sexualidade,	nesse	sentido,	cabe	à	escola	ofertar	um	espaço	em	que	
possam	ser	esclarecidas	suas	dúvidas	edesmistificar	os	tabus	que	envolvem	
o	 tema	da	sexualidade.	 [...]	A	escola	deve	 informar	e	discutir	os	diferentes	
tabus	e	preconceitos,	desconstruindo	as	crenças	e	atitudes	existentes	na	so-
ciedade,	buscando	 levar	o	aprimoramento	das	concepções	de	sexualidade	
(SANTOS,	2016,	p.	29).
Em	um	estudo	realizado	por	Vieira	e	Matsukura	(2017),	as	autoras	identificaram	a	
existência	de	dois	tipos	de	modelos	que	professores	e	professoras	utilizam	para	a	aborda-
gem	da	sexualidade:	o	modelo	biológico-centrado	e	preventivo	e	o	modelo	biopsicossocial.	
Dos	professores	que	foram	entrevistados,	de	um	total	de	dez,	seis	relataram	utilizar	o	pri-
meiro	modelo	e	apenas	quatro	utilizam	o	segundo.	O	primeiro	modelo	foca	seu	trabalho	em	
medidas	preventivas	de	gravidez	na	adolescência	e	DST/AIDS.	Já	o	modelo	biopsicosso-
cial	se	preocupa,	também,	com	outros	aspectos,	de	maneira	mais	abrangente,	abarcando	
as	questões	afetivas	e	socioculturais.	Com	a	pesquisa,	as	autoras	concluíram	que	muitos	
avanços	se	fazem	necessários,	como	o	desenvolvimento	da	autonomia	dos	sujeitos,	por	
exemplo.	A	sexualidade,	neste	sentido,	precisa	ser	compreendida	enquanto	algo	que	vai	
além	do	campo	biológico,	que	proporcione	um	espaço	emancipatório	para	os	sujeitos.	
Educação	sexual	é	muito	mais	do	que	meramente	falar	do	sistema	reprodutor	
e	de	doenças	sexualmente	transmissíveis.	Uma	verdadeira	educação	sexual	
precisa	abranger	a	sexualidade	humana	como	um	todo,	superando	o	senso	
comum	e	possibilitando	o	esclarecimento	das	dúvidas	de	forma	compreensi-
va	e	amigável;	minimizando	assim	a	repressão	que	faz	do	sexo	um	ato	sujo	
e	pecaminoso;	abrindo	caminho	para	uma	transformação	social,	sendo	que,	
para	alcançarmos	uma	educação	sexual	verdadeiramente	emancipatória,	é	
preciso	superar	toda	a	cultura	velha	e	decadente	que	ainda	vem	sendo	arras-
tada	e	trabalhar	sob	um	conceito	novo	e	que	tenha	capacidade	de	superar	
todos	os	preconceitos	que	assombram	a	sexualidade	do	ser	humano	(GA-
GLIOTTO;	LEMBECK,	2011,	p.	4).
É	preciso,	então,	que	a	atuação	docente	não	se	 limite	aos	aspectos	biológicos.	
Como	destaca	Furlani	(2003),	é	preciso	que	seja	ampliada	a	visão	de	sexualidade	atrelada	
à	reprodução.	Essa	ideia	ligada	ao	aparelho	ou	sistema	reprodutor,	inclusive,	está	presente	
nos	livros	didáticos	das	escolas.	
61UNIDADE IV Práticas Pedagógicas com Base em uma Educação Sexual Emancipatória
Realizar	orientação	sexual	na	escola	era	proibido	oficialmente.	Atualmente	o	
momento	é	outro.	A	escola	não	pode	mais	fugir	ao	seu	papel	de	educadora	e	
ignorar	a	questão	sexual	do	aluno	e	tampouco	acreditar	que,	dando	apenas	
informações	biológicas,	como	palestras	uma	vez	ao	ano,	já	está	fazendo	edu-
cação	sexual	(GAGLIOTTO;	LEMBECK,	2011,	p.	3).
Neste	momento,	podemos	pensar	acerca	da	formação	de	professores	e	professoras	
para	o	efetivo	trabalho	e	discussão	desta	temática.	Como	pontuam	Finco,	Souza	e	Oliveira	
(2017),	é	notório	que	nas	instituições	de	ensino	superior	o	tema	do	gênero	não	atravessa	os	
currículos	de	formação	docente.	Logo,	torna-se	tarefa	complicada	que	esses	profissionais	
consigam	trabalhar	a	questão	da	diversidade	junto	com	seus	alunos	e	alunas.	
O	processo	de	orientação	sexual	deve	estar	inserido	na	escola,	e	realizada	
por	docentes,	esses	profissionais	devem	ser	dinâmicos,	multiculturais	e	refle-
xivos.	É	necessária	sua	constante	busca	pelo	saber,	para	o	desenvolvimento	
de	suas	práticas	pedagógicas	e	a	aquisição	de	novos	conceitos,	não	é	permi-
tido	ao	professor	emitir	opiniões	pessoais	(SANTOS,	2016,	p.	33).
Assim,	se	o	trabalho	relacionado	ao	gênero	e	à	diversidade	já	se	constituiu	enquanto	
tarefa	sensível	e	delicada,	podemos	concluir	que	mais	delicado	ainda	se	torna	o	ensino	da	
sexualidade,	em	sua	totalidade.	Para	tanto,	como	veremos	no	tópico	a	seguir,	é	preciso	que	
seja	desenvolvida,	nas	salas	de	aulas,	uma	proposta	de	educação	sexual	emancipatória.		
62UNIDADE IV Práticas Pedagógicas com Base em uma Educação Sexual Emancipatória
2. CONSTRUÇÃO DE EDUCAÇÃO SEXUAL COM BASE EM UMA PROPOSTA 
 EMANCIPATÓRIA
Para	iniciar,	vamos	aprender	o	que	significa	a	palavra	emancipatória?	Segundo	o	
Dicionário	Online	de	Português,	emancipatório	é	tudo	aquilo	que	possui	a	capacidade	de	
se	tornar	livre	e	independente.	Emancipar	é	tornar	suficiente,	autônomo.	Logo,	você	pode	
estar	se	perguntando:	mas	o	que	a	educação	tem	a	ver	com	isso?	Adiante	vamos	responder	
a	essa	questão.	
De	acordo	com	Gagliotto	e	Lembeck	 (2011),	a	educação	sexual	 tem	se	apre-
sentado	 enquanto	 um	 tema	 de	 extrema	 necessidade	 de	 ser	 abordado	 nos	 espaços	
educativos,	 visto	 a	 relevância	 e	 importância	 de	 se	 trabalhar	 os	 campos	do	amor,	 do	
afeto	e	das	 relações	 sociais	 e	 sexuais	dos	 sujeitos.	A	educação	sexual	 proporciona,	
neste	sentido,	o	desenvolvimento	de	uma	sexualidade	responsável	e,	ao	mesmo	tempo	
prazerosa,	em	que	os	indivíduos	possam	vivenciar	essas	experiências	que	fazem	parte	
do	desenvolvimento	humano.
Neste	caminho,	os	autores	nos	propõem	a	pensar	algumas	questões	interessantes	
quanto	ao	papel	da	escola	na	educação	sexual	pontuando,	ainda,	que
63UNIDADE IV Práticas Pedagógicas com Base em uma Educação Sexual Emancipatória
A	escola	é	um	espaço	que	preenche	lacunas,	erradica	preconceitos,	tem	o	
poder	de	aprofundar	informações	e	por	que	não	afirmar	que	esta	pode,	sim,	
propiciar	uma	visão	ampla	e	diversa	das	opiniões	sobre	os	temas	da	sexua-
lidade.	Mas,	qual	é	o	papel	que	a	escola	deve	deter	a	respeito	do	tema	se-
xualidade?	Cabe	à	escola	e	ao	professor	orientar	seus	alunos	a	respeito	da	
sexualidade?	Os	professores	têm	condições	de	trabalhar	o	assunto	com	os	
alunos?	(GAGLIOTTO;	LEMBECK,	2011,	p.	2).
É	importante	destacarmos	que	as	relações	de	poder	presentes	nos	espaços	edu-
cativos	 desempenham	 um	 papel	 determinante	 no	 processo	 de	 ensino	 e	 aprendizagem.	
As	ideologias	dominantes,	compostas	pela	burguesia,	interferem	diretamente	nos	espaços	
educacionais,	em	que	há	uma	busca	pela	manutenção	de	interesses	que	vão	de	encontro	
com	 suas	 ideologias.	 Neste	 caminho,	 os	 professores,	 muitas	 vezes	 desmotivados	 por	
inúmeros	motivos,	como	a	questão	da	desvalorização	de	suas	funções,	acabam	apenas	
reproduzindo	os	conteúdos,	desanimados	com	a	prática	docente.	Assim,	os	professores,	
muitas	vezes,	ao	reproduzirem	os	conteúdos,	não	proporcionam	espaços	para	o	desenvol-
vimento	crítico	dos	sujeitos,	ao	transmitirem	conteúdos	acabados,	prontos	(GAGLIOTTO;	
LEMBECK,	2011).	
Para	educar	sexualmente,	numa	perspectiva	emancipatória,	o	professor	pre-
cisa	estar	pré-disposto	a	rever	velhos	conceitos	e	preconceitos,	a	questionar	
antigos	tabus,	compreendendo	a	sexualidade	sempre	articulada	à	dinâmica	
de	sua	construção	e	procurando	perceber	o	quanto	ela	está	atrelada	às	rela-
ções	de	poder,	identificando	as	armadilhas	que	se	espalham	pela	sociedade	
(GAGLIOTTO;	LEMBECK,	2011,	p.	16).
De	 acordo	 com	Gagliotto	 e	 Lembeck	 (2011),	 a	 educação	 sexual	 emancipatória	
possui,	em	seu	bojo,	o	foco	na	construção	de	um	trabalho	pedagógico	que	busca	promover	
a	autonomia	dos	sujeitos,	bem	como	o	desenvolvimento	de	um	senso	crítico	que	problema-
tize	comportamentos	estereotipados.	Logo,	com	a	desconstrução	destes	comportamentos,	
é	possível	pensarmos	na	possibilidade	de	construirmos	novos	padrões	que	culminem	em	
uma	sexualidade	plena,	livre	de	padrões.	
O	corpo	é	outro	aspecto	a	ser	considerado	numa	proposta	de	desenvolver	
uma	 educação	 sexual	 emancipatória;	 este	 precisa	 ser	 visto	 como	 o	 lugar	
onde	se	manifestam	todas	as	nossas	necessidades,	sentimentos,	os	nossos	
valores.	Enfim,	tudo	o	que	socialmente	e	culturalmente	fomos	aprendendo	ao	
longo	de	nossa	vida	precisa	ser	valorizado,	respeitado,	bem	cuidado.	A	orien-
tação	sexual,	além	de	assegurar	o	conhecimento	das	informações	biológicas	
deste	corpo,	deve	possibilitar,	sobretudo,	a	conversa	sobre	sexo	num	sentido	
mais	amplo,	abrigando	as	emoções	e	o	amadurecimento	que	sua	vivência	
traz	(GAGLIOTTO;LEMBECK,	2011,	p.	16).
64UNIDADE IV Práticas Pedagógicas com Base em uma Educação Sexual Emancipatória
FIGURA 1 - EMANCIPAÇÃO E LIBERDADE
Ainda,	um	ponto	interessante	para	ser	considerado	quando	falamos	acerca	de	uma	
proposta	emancipatória	na	educação,	é	 realizarmos	um	resgate	ao	 trabalho	e	às	contri-
buições	do	educador	Paulo	Freire	(1921-1997),	autor	respeitado	no	mundo	todo	com	suas	
contribuições	à	educação.	
Para	Oliveira	e	Santos	(2018),	Paulo	Freire	apresentava	uma	proposta	de	escola	
que	 ia	ao	contrário	do	modelo	 tradicional.	Para	ele,	a	escola	deveria	ser	um	espaço	de	
liberdade,	 pautada	 no	 desenvolvimento	 crítico	 dos	 sujeitos	 e,	 ainda,	 proporcionar	 aos	
educandos	 a	 possibilidade	 de	 serem	protagonistas	 em	 seu	 processo	 de	 aprendizagem,	
possuindo	autonomia	em	suas	escolhas.
A	escola	na	visão	de	Paulo	Freire,	então,	envolve	a	participação	e	a	criativida-
de	dos	educandos,	na	vida	cotidiana	escolar,	como	sujeitos	de	conhecimento.	
O	educando	é	visto	como	sujeito	do	seu	processo	pedagógico	e,	por	conse-
guinte,	construtor	de	conhecimento	(OLIVEIRA;	SANTOS,	2018,	p.	129).
Neste	sentido,	percebe-se	o	papel	emancipatório	dos	alunos,	que	não	estão	 in-
seridos	no	ambiente	educacional	apenas	como	receptores	de	conteúdos	e	 informações.	
Também	é	importante	pensarmos	acerca	do	papel	do	diálogo	neste	processo,	pois
Uma	relação	de	diálogo,	na	perspectiva	freireana,	é	aquela	em	que	os	sujei-
tos	do	ato	de	conhecer	se	encontram	mediatizados	pelo	objeto	do	conheci-
mento,	por	isso,	o	diálogo	tem	um	caráter	existencial	e	histórico,	relacionado	
ao	progresso	dos	sujeitos	no	contexto	histórico.	Nesta	dimensão	dialógica	os	
processos	de	aprendizagem	se	concretizam	pela	via	da	interação	social	e	da	
cooperação,	ou	seja,	na	aprendizagem	é	preciso	estar	junto,	sendo	uma	ação	
coletiva	e	colaborativa	(OLIVEIRA;	SANTOS,	2018,	p.	130).
65UNIDADE IV Práticas Pedagógicas com Base em uma Educação Sexual Emancipatória
Vê-se,	então,	que	a	comunicação	entre	os	pares,	isto	é,	o	diálogo,	o	relacionamento	
interpessoal,	caracteriza-se	enquanto	pilar	fundamental	em	um	processo	de	educação	que	
dialoga	com	o	caráter	emancipatório.	Para	uma	educação	que	rompa	com	as	barreiras	do	
comum,	da	repetição	dos	saberes,	é	necessário	propor	espaços	para	autonomia	dos	alunos,	
em	uma	relação	não	hierarquizada	de	saberes.	Desta	forma,	alunos	e	alunas	assumem	um	
papel	de	ativos	no	processo.	
66UNIDADE IV Práticas Pedagógicas com Base em uma Educação Sexual Emancipatória
3. O ENSINO DOS DIREITOS HUMANOS NO CONTEXTO ESCOLAR
Aluno(a),	tenho	certeza	de	que	você	já	ouviu	falar	sobre	direitos	humanos.	Mui-
tas	 vezes,	 no	 entanto,	 as	 pessoas	 possuem	 informações	 equivocadas	 acerca	 do	 real	
significado	dessas	duas	palavras	e	reproduzem	equívocos.	Não	raro,	alguns	discursos	
reproduzem	a	fala	de	que	“direitos	humanos	são	para	humanos	direitos”	ou,	ainda,	“direi-
tos	humanos	defendem	apenas	os	bandidos”.	Ambas	as	frases	soam	comuns	para	você?	
Você	já	ouviu	alguma	delas?
Pois	é.	Por	 isso,	precisamos	aprender	o	real	significado	destas	palavras	e,	para	
tanto,	a	escola	se	faz	um	local	de	extrema	importância	para	que	possamos	proporcionar	
o	correto	conhecimento	aos	alunos	e	alunas,	desenvolvendo	um	senso	crítico	e	comparti-
lhando	informações	corretas.
[...]	a	Declaração	Universal	dos	Direitos	Humanos,	aprovada	pela	ONU	em	10	
de	dezembro	de	1948.	É	formada	por	um	conjunto	de	trinta	artigos	nos	quais	
estão	indicados	os	Direitos	Fundamentais	e	suas	exigências.	Esta	Declara-
ção	é	considerada	universal	porque	se	dirige	a	toda	a	humanidade,	devendo	
ser	respeitada	e	aplicada	por	 todos	os	países	e	por	 todas	as	pessoas,	em	
benefício	de	todos	os	seres	humanos,	sem	qualquer	exceção	(LOVATO;	DU-
TRA,	2015,	p.	3).
Importante	sinalizar	que	a	preocupação	com	os	direitos	humanos	se	 iniciou,	se-
gundo	Schütz	e	Fuchs	(2017),	após	o	período	da	Segunda	Guerra	Mundial	(1939-1945),	
em	que	o	terrível	genocídio	executado	pelo	regime	nazista	matou	milhões	de	pessoas.	Até	
hoje,	os	direitos	humanos	são	pautas	de	importantes	discussões	em	todo	o	mundo,	pois	
67UNIDADE IV Práticas Pedagógicas com Base em uma Educação Sexual Emancipatória
envolve	direitos	básicos	presentes	em	nosso	cotidiano,	como	o	direito	de	acesso	à	saúde,	
educação,	a	diversidade,	o	acesso	ao	trabalho,	dentre	outros.
Desta	forma,	aqui	faremos	um	recorte	e	daremos	destaque	à	questão	dos	direitos	
humanos	no	espaço	educacional.	Quando	pensamos	sobre	o	direito	à	diversidade,	esta-
mos	nos	referindo	às	diferentes	maneiras	de	ser	e	existir	no	mundo.	Logo,	no	espaço	da	
sexualidade,	 isto	se	 refere	às	 formas	não	hegemônicas	de	expressão	sexual,	 isto	é,	as	
sexualidades	que	fujam	à	heterossexualidade.	Portanto,	nos	espaços	educacionais	se	faz	
importante	a	existência	de	abordagens	múltiplas	que	proporcionem	espaço	para	expres-
sões	diversas,	que	não	se	limitem	à	norma	social	imposta.	
Por	 isso,	a	educação	é,	antes	de	qualquer	coisa,	um	compromisso	com	o	
outro,	com	a	pessoa,	com	o	ser	humano,	 logo,	ninguém	dela	escapa.	Não	
obstante,	sendo	ela	um	compromisso	com	o	Outro,	ela	não	só	pode	como	
precisa	desempenhar	um	papel	fundamental	na	construção	e	no	desenvolvi-
mento	de	uma	consciência	cidadã,	alicerçada	na	preocupação	e	na	defesa	
dos	DH	(SCHÜTZ;	FUCHS,	2017,	p.	44).	
Defender	os	direitos	humanos	nos	espaços	educativos	é,	neste	caminho,	proporcio-
nar	momentos	de	discussão	que	acolham	as	diferenças.	Também	é	permitir	que	crianças	e	
adolescentes	tenham	pleno	acesso	ao	seu	direito	de	se	desenvolver	de	maneira	inteira,	ou	
seja,	abarcando	os	aspectos	relacionados	à	sexualidade.	O	espaço	escolar,	nesta	lógica,	
ocupa	um	papel	de	destaque,	pois	proporciona	recursos	pedagógicos	para	o	fomento	do	
desenvolvimento	do	pensamento	crítico.	Logo,
Garantir	o	direito	à	educação	é	importantíssimo	para	o	Brasil,	pois,	ao	lon-
go	dos	anos,	percebe-se	que	os	países	que	galgaram	até	o	topo	da	escala	
mundial	fundearam-se	no	avanço	e	aprimoramento	do	perfil	educacional	dos	
seus	cidadãos.	Através	da	educação,	um	cidadão	 torna-se	um	profissional	
qualificado,	apto	para	exercer	a	sua	função	perante	a	sociedade	(LOVATO;	
DUTRA,	2015,	p.	15).
Aluno(a),	agora	você	pode	estar	se	questionando	e	refletindo	acerca	da	real	neces-
sidade	de	trabalharmos	os	direitos	humanos	no	espaço	escolar.	Ora,	a	escola	é	um	lugar	
importante	para	realizar,	por	exemplo,	o	resgate	histórico	acerca	dos	avanços	e	retrocessos	
relacionados	aos	direitos	humanos.	Se	olharmos	para	as	guerras	podemos	ter	um	panora-
ma	interessante	acerca	destes	fatos.	Nesta	lógica,
Comprova-se	a	necessidade	de	se	educar	em	e	para	os	DH,	uma	vez	que	
tal	movimento	deve	possuir	como	objetivo	a	discussão	dos	conhecimentos	
historicamente	construídos	pela	humanidade	sobre	os	DH,	além	de	reafirmar	
valores	e	práticas	que	possam	consolidar	a	cultura	dos	direitos	e	o	exercí-
cio	 do	 respeito,	 bem	 como	promover	 a	 valorização	 das	 diversidades	 –	 de	
cunho	étnico-racial,	religioso,	cultural,	gênero,	orientação	sexual,	entre	outros	
(SCHÜTZ;	FUCHS,	2017,	p.	45).	
Ademais,	 precisamos	 reafirmar	 a	 importância	 que	 discussões	 relacionadas	 aos	
direitos	humanos	não	fiquem	 limitadas	apenas	aos	espaços	educativos.	Como	 já	vimos	
68UNIDADE IV Práticas Pedagógicas com Base em uma Educação Sexual Emancipatória
anteriormente,	é	importante	que	haja	uma	interação	entre	escola	e	família,	por	exemplo,	
a	fim	de	que	seja	realizada	e	dada	continuidade	à	uma	linha	de	raciocínio	que	promova	
similaridades.	
Por	isso,	consideramos	que	uma	Educação	que	se	diz	preocupada	com	os	
DH,	deve	ser	promovida	 tanto	nas	escolas	como	 também	 fora	delas,	 com	
estrita	preservação	da	verdade	e	da	memória,	através	da	formação	proble-
matizadora	em	DH	de	educadores	e	educandos,	 baseando-se,	 fundamen-
talmente,	 na	 diversidade	 de	 formas,	 seja	 em	 publicações,	 teatros,	 vídeos,	
danças,	seminários,	 internet,	palestras,	pesquisas	etc.,	dando-se	sempre	a	
ênfaseà	cultura	institucional	e	ao	fomento	de	práticas	em	consonância	com	
os	princípios	éticos	(SCHÜTZ;	FUCHS,	2017,	p.	47).	
Na	lógica	dos	direitos	humanos,	a	escola	não	assume	o	lugar	de	apenas	transmitir	
conteúdos	técnicos	e	teóricos.	Ao	contrário,	ela	possui	o	papel	de	proporcionar	vivências,	
trocas	de	experiências,	pois	o	ser	humano	é	um	ser	social,	ou	seja,	que	vive	em	relações.	
Desta	maneira,	é	preciso	que	seja	proporcionado	um	espaço	para	que	os	sujeitos	possam	
viver	com	dignidade	(ZLUHAN;	RAITZ,	2014).	
Por	 fim,	podemos	pensar	em	uma	proposta	de	direitos	humanos	na	escola	que	
acolha	as	diferenças	e	 respeite	a	multiplicidade	das	pessoas.	Ainda,	educar	em	direitos	
humanos	é	garantir	o	efetivo	acesso	aos	direitos	básicos.	Na	escola,	tais	direitos	se	fazem	
presentes	e	precisam	ser	assegurados.	
SAIBA MAIS
Aluno(a),	você	sabia	que	os	direitos	humanos	não	possuem	ligação	política	no	sentido	
partidário?	Ao	contrário,	ela	visa	assegurar	direitos	a	todas	as	pessoas,	independente	
de	seus	posicionamentos.	Interessante,	não	é?!
Fonte:	o	autor.
69UNIDADE IV Práticas Pedagógicas com Base em uma Educação Sexual Emancipatória
REFLITA 
“Artigo	2:
1.	Todo	ser	humano	tem	capacidade	para	gozar	os	direitos	e	as	 liberdades	estabele-
cidos	nesta	Declaração,	 sem	distinção	de	qualquer	espécie,	 seja	de	 raça,	 cor,	 sexo,	
língua,	religião,	opinião	política	ou	de	outra	natureza,	origem	nacional	ou	social,	riqueza,	
nascimento,	ou	qualquer	outra	condição”.	
Aluno(a),	você	acha	que	em	nosso	atual	cenário	todos	os	direitos	citados	são	respeita-
dos	na	vida	de	uma	pessoa?
Fonte:		Organização	das	Nações	Unidas	(1948).
70UNIDADE IV Práticas Pedagógicas com Base em uma Educação Sexual Emancipatória
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Caro(a)	aluno(a),	
Chegamos	ao	fim	da	última	unidade	da	disciplina	Gênero,	Sexualidade	e	Educa-
ção.	Como	vimos	nesta	unidade,	no	tópico	I	conhecemos	as	principais	práticas	adotadas	no	
contexto	educacional	para	o	trabalho	com	a	educação	sexual,	destacando	o	enfoque	que	
se	é	dado	para	a	questão	da	biologia	e,	por	conta	disso,	aos	aspectos	reprodutivos.	
Também,	no	Tópico	II	pudemos	conhecer	a	educação	emancipadora	e	sua	impor-
tância	para	a	 formação	de	alunos	e	alunas	para	o	desenvolvimento	de	um	senso	crítico	
frente	às	informações.	Neste	tópico	também	nos	debruçamos	na	compreensão	do	educador	
Paulo	Freire	acerca	do	que	vem	ser	uma	educação	voltada	para	a	emancipação.	
Por	fim,	no	Tópico	III	estudamos	o	conceito	de	direitos	humanos	e	seu	surgimento,	
conhecendo	suas	interfaces	e	aplicações	nos	espaços	escolares,	com	o	objetivo	de	garantir	
a	efetivação	dos	direitos	básicos	dos	seres	humanos.	
Com	os	conteúdos	que	foram	aqui	elencados,	espero	que	você	tenha	aproveitado	
ao	máximo	cada	informação	e	conhecimento	trazido.	Destaco,	para	finalizar,	a	importância	
de	continuarmos	sempre	nos	estudos	e	na	capacitação	relacionada	aos	temas	que	trabalha-
mos	no	decorrer	das	unidades.	A	escola,	como	vimos,	é	um	campo	que	envolve	as	relações	
sociais	e,	por	isso,	sempre	se	altera,	necessita	de	atualizações	e	de	novos	arranjos.	
Espero	encontrar	você	em	outra	oportunidade.
Um abraço! 
71UNIDADE IV Práticas Pedagógicas com Base em uma Educação Sexual Emancipatória
LEITURA COMPLEMENTAR
Artigo: Educação Sexual em escolas brasileiras: Revisão Sistemática de Literatura.
Resumo:	 No	 presente	 estudo,	 realizou-se	 uma	 revisão	 sistemática	 da	 literatura	
sobre	educação	sexual	em	escolas	brasileiras,	a	fim	de	identificar	suas	principais	carac-
terísticas,	temas	abordados	e	profissionais	responsáveis	pelas	ações.	A	pesquisa	resultou	
em	24	artigos	empíricos	publicados	entre	2010-2016,	obtidos	nas	bases	Educ@,	Science	
Direct,	MEDLINE,	LILACS	e	SciELO.	Constatou-se	que	as	ações	revisadas	não	atendem	ao	
preconizado	nos	Parâmetros	Curriculares	Nacionais	quanto	à	transversalização	do	tema.	
Destaca-se	a	necessidade	de	avançar	no	seu	debate	e	 investir	em	capacitação	docente	
com	vistas	a	transformar	padrões	sexuais	discriminatórios	e	promover	uma	cultura	de	pre-
venção	em	saúde	no	ambiente	escolar.
Palavras-chave:		Revisão	de	Literatura;	Educação	Sexual;	Escola;	Sexualidade.	
Acesse:	 	FURLANETTO,	M.	F.;	LAUERMANN,	F.;	COSTA,	C.	B.	da.;	MARIN,	A.	
H.	Educação	sexual	em	escolas	brasileiras:	revisão	sistemática	de	literatura.	Cadernos	de	
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pdf.		Acesso	em:	10	mar.	2021.
72UNIDADE IV Práticas Pedagógicas com Base em uma Educação Sexual Emancipatória
MATERIAL COMPLEMENTAR
LIVRO
Título:	Corpo,	gênero	e	sexualidade:	um	debate	contemporâneo	
na	educação.
Autor:	Guacira	Lopes	Louro,	Jane	Felipe,	Silvana	Vilodre	Goellner	
(Organizadores)
Editora: Editora	Vozes
Sinopse:	O	livro	apresenta	os	modelos	postos	em	ação	nos	diver-
sos	espaços	pedagógicos	para	a	constituição	do	que	se	compreen-
de	enquanto	um	corpo	“educado”.	Neste	caminho,	os	estudos	que	
compõem	este	livro	nos	falam	das	posições	sociais	que	os	sujeitos	
acabam	por	ocupar	em	nossa	sociedade	e,	além	disso,	permitem	
examinar	as	relações	de	poder	que	sustentam	essas	posições.
FILME/VÍDEO
Título:	Malala
Ano:	2015
Sinopse:	O	filme	apresenta	a	jovem	Malala	Yousafzai,	ativista	fe-
minista	que	luta	pelos	direitos	das	garotas,	especialmente	o	direito	
de	acesso	à	educação.	O	filme	conta	como	Malala	sobreviveu	ao	
ataque	de	um	atirador	 talibã	pertencente	à	violenta	oposição	da	
organização	à	educação	das	garotas	no	Paquistão.	Malala	sobre-
viveu	após	um	 tiro	na	 cabeça.	 	Ela	é	ganhadora	de	um	Prêmio	
Nobel	da	Paz.	
73UNIDADE IV Práticas Pedagógicas com Base em uma Educação Sexual Emancipatória
WEB 
Documentário:	Direitos	Humanos	para	Humanos.	
O	 documentário	 Direitos	 Humanos	 para	 Humanos	 é	 de	 iniciativa	 do	 cineasta	
Gabriel	Filipe.	O	filme	tem	a	finalidade	de	romper	com	o	véu	de	desinformação	que	en-
volve	o	tema	direitos	humanos	na	sociedade	brasileira.	A	obra	conta	com	a	participação	
de	 autoridades,	 professores	 e	 pesquisadores	 engajados	 na	 luta	 dos	 direitos	 humanos	
(descrição	que	consta	no	link).	
Link	do	site:	https://www.youtube.com/watch?v=lfHpq8qkk5Y
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