Prévia do material em texto
AUTOR Professor Jose Valdeci Grigoleto Netto ● Mestrando em Psicologia (Universidade Estadual de Maringá, Maringá - PR); ● Graduado em Psicologia (Centro Universitário Ingá - UNINGÁ, Maringá - PR); ● Especialista em Educação Especial e Inclusiva (Faculdade de Tecnologia e Ciências do Norte do Paraná - UNIFATECIE, Paranavaí - PR); ● Especialista em Saúde Mental, Psicopatologia e Atenção Psicossocial (Centro Universitário de Maringá - UNICESUMAR, Maringá - PR); ● Membro do Grupo de Pesquisa DeVerso - Sexualidade, Saúde e Política (Universidade Estadual de Maringá, Maringá - PR). ● Professor orientador de Trabalhos de Conclusão de Curso (TCC) da Pós- Graduação Lato Sensu (EAD) do Centro Universitário de Maringá - UNICESUMAR. Possui experiência na área da política pública de Assistência Social, estudos de gênero, diversidade sexual, e educação especial e inclusiva. Atualmente, no mestrado, pes- quisa acerca da subjetividade e das práticas sociais na contemporaneidade, com ênfase nas relações de gênero. Link para acesso ao currículo lattes: http://lattes.cnpq.br/2661321527310427 APRESENTAÇÃO DO MATERIAL Olá, aluno(a)! Seja bem-vindo(a) à disciplina: Gênero, Sexualidade e Educação. Neste momento, você terá a oportunidade de conhecer a interface entre estes três temas que, muitas vezes, quando trabalhamos em conjunto, despertam receio e desconfiança por parte dos profissio- nais da educação e, também, da sociedade. Para desenvolvermos um trabalho interessante e agradável, a disciplina foi dividida em quatro unidades e, em cada uma delas, iremos trabalhar alguns temas que se relacio- nem entre si. Vamos conhecer cada um deles detalhadamente? Para iniciar, na Unidade I iremos realizar um apanhado histórico acerca da cons- trução histórica dos temas envolvidos na disciplina e, a partir disso, correlacionar suas perspectivas com a educação sexual. Para tanto, será destacada a contextualização his- tórica sobre os estudos de gênero e educação. Na sequência, iremos nos atentar para a sexualidade enquanto uma construção histórica, social, cultural, política e discursiva. Dando continuidade, iremos conhecer alguns paradigmas subjacentes às várias abordagens de educação sexual através da história e seus reflexos nos cotidianos das sociedades, com destaque para a escolarização brasileira, a educação para sexualidade e para a equidade de gênero. Ao final da unidade, daremos atenção à importante prevenção do preconceito e discriminação, no respeito à alteridade e às identidades culturais. Concluído este momento, iremos avançar para a Unidade II em que iremos traba- lhar a educação de gênero e sexualidade nos espaços escolares. Nesta perspectiva, será dada atenção especial para as abordagens pedagógicas da educação sexual no Brasil. Ainda, compreenderemos os conceitos e as interfaces entre gênero e orientação sexual. Para finalizar, iremos nos debruçar no conhecimento dos recursos didático-metodológicos para um trabalho de Educação Sexual na Educação Infantil e Ensino Fundamental. Seguindo adiante, na Unidade III iremos voltar nossa atenção para a questão da sexualidade na infância e adolescência. Desta maneira, realizaremos um diálogo sobre crianças e adolescentes, gênero e sexualidade na interface entre tais temas. Após isso, estudaremos a questão da violência sexual infantil e seus desdobramentos. Para finalizar, como tema extremamente importante, dar-se-á um destaque especial para a integração entre escola e família. Ao fim da disciplina, na Unidade IV, trabalharemos as práticas pedagógicas com base em uma educação sexual emancipatória. Para tanto, conheceremos os processos de educação sexual que existem nos espaços educativos. A seguir, conheceremos a construção de educação sexual com base em uma proposta emancipatória. Neste caminho, para finalizar nossos estudos, vamos conhecer o ensino dos Direitos Humanos no contexto escolar. A partir da organização, esperamos que os conteúdos que escolhemos para serem apresentados nesta disciplina sejam norteadores para seus estudos e, inclusive, sua futura prática docente. Aproveite ao máximo a disciplina, extraia o possível de informações e conhecimento destas páginas. Ótimo estudo! SUMÁRIO UNIDADE I ...................................................................................................... 6 Construção Histórica e Perspectivas da Educação Sexual UNIDADE II ................................................................................................... 27 Educação de Gênero e Sexualidade nos Espaços Educativos UNIDADE III .................................................................................................. 44 Sexualidade na Infância e Adolescência UNIDADE IV .................................................................................................. 59 Práticas Pedagógicas com Base em uma Educação Sexual Emancipatória 4 Plano de Estudo: ● Contextualização histórica sobre os estudos de gênero e educação; ● Sexualidade como construção histórica, social, cultural, política e discursiva; ● Paradigmas subjacentes às várias abordagens de educação sexual através da história e seus reflexos nos cotidianos das sociedades, com destaque para a escolarização brasileira, a educação para sexualidade e para a equidade de gênero; ● Prevenção do preconceito e discriminação, no respeito a alteridade e às identidades culturais. Objetivos da Aprendizagem: ● Conhecer a história acerca dos estudos de gênero e suas interfaces com a educação; ● Compreender os aspectos relacionados à sexualidade enquanto uma construção histórica, social e cultural; ● Conhecer recursos para o trabalho educativo, com o objetivo de prevenir situações de preconceitos e discriminações no âmbito escolar. UNIDADE I Construção Histórica e Perspectivas da Educação Sexual Professor Esp. Jose Valdeci Grigoleto Netto 5UNIDADE I Construção Histórica e Perspectivas da Educação Sexual INTRODUÇÃO Olá, aluno(a)! Seja bem-vindo(a) à primeira unidade da disciplina Gênero, Sexualidade e Educa- ção. Neste momento, iremos nos debruçar em aspectos introdutórios acerca da temática. Para isso, faremos um amplo estudo acerca de conceitos e ideias, culminando em impor- tantes reflexões e análises. No Tópico I iremos trilhar através da contextualização histórica sobre os estudos de gênero e educação, principalmente no Brasil, iniciando com a conceituação do que vem ser a palavra gênero e de como podemos empregá-la em nosso vocabulário e no dia a dia. Na sequência iremos estudar as construções históricas acerca do masculino e feminino, com os papéis sociais que são pré-determinados em relação aos sexos. Ainda, iremos refletir acerca do papel da escola na construção dos estudos de gênero e na manutenção destes papéis. Avançando, no Tópico II trataremos mais especificamente da sexualidade como construção histórica, social, cultural, política e discursiva. Para isso, nos debruçaremos nos estudos de Michel Foucault e outros(as) autores(as) importantes, compreendendo a importância e relevância dos discursos, bem como a noção de poder e seus efeitos. No Tópico III iremos discutir acerca das abordagens de educação sexual através da história e seus reflexos no cotidiano para a escolarização brasileira frente à equidade de gênero. Para isso, iremos conhecer um pouco do papel dos estudos feministas para a compreensão dos estudos de gênero, bem como a importância da temática da sexualidade dentro das escolas e, principalmente, o papel desta instituição para o fomento de discus- sões e diálogos que envolvam a temática da sexualidade, a fim de proporcionar equidade no acesso aos direitos. Por fim, no Tópico IV iremos estudar aspectos relacionados à prevenção do pre- conceito e discriminação frente às diferenças, contando com estudos que embasam e problematizem aspectos relacionadosao preconceito no ambiente escolar. A partir da exposição apresentada, espero que os temas aqui elencados sejam pertinentes e úteis para embasar seus estudos e sua futura prática docente. Bons estudos! 6UNIDADE I Construção Histórica e Perspectivas da Educação Sexual 1. CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA SOBRE OS ESTUDOS DE GÊNERO E EDUCAÇÃO Olá, aluno(a), vamos dar início ao primeiro tópico de nossos estudos. Para tanto, é preciso que realizemos um resgate histórico acerca dos estudos sobre gênero e suas interfaces com a educação, para que possamos compreender como, nos dias de hoje, a relação educação e sexualidade é compreendida. Vamos lá? Primeiro, é importante destacar que definir e conceituar a palavra gênero não é uma tarefa fácil e simplista. Pela sua amplidão de compreensões, pela vasta gama de autores e autoras que trabalham com este conceito, gênero pode ser compreendido de maneira plural. Além disso, Connell e Pearse (2015) destacam que o gênero é um espaço que ocupa uma posição central e de grande importância na vida das pessoas, refletindo, inclusive, em questões de acesso à justiça, à identidade e à sobrevivência. Não obstante, como nós podemos perceber atualmente, e as autoras também destacam, gênero é um assunto alvo de constantes preconceitos, mitos e rodeados por falsas ideias. Portanto, é preciso que nós saibamos que [...] Acima de tudo, o gênero é uma questão de relações sociais dentro das quais indivíduos e grupos atuam. [...] o gênero deve ser entendido como uma estrutura social. Não é uma expressão da biologia, nem uma dicotomia fixa na vida ou no caráter humano. É um padrão em nossos arranjos sociais, e as atividades do cotidiano são formadas por esse padrão (CONNELL; PEARSE, 2015, p. 47). 7UNIDADE I Construção Histórica e Perspectivas da Educação Sexual A partir desta definição, podemos pensar no gênero enquanto uma questão das relações, compreendendo-o enquanto algo que faz parte da maneira na qual as sociedades lidam com os corpos das pessoas e com suas vidas. Ainda, gênero diz respeito à nossa identidade e nossa sexualidade (CONNELL; PEARSE, 2015). Desta maneira, podemos compreender que o gênero não está relacionado à biolo- gia, aos aspectos orgânicos que diferem o “macho” da “fêmea”. Pensar em gênero é pensar exatamente em uma pluralidade de possibilidades, que vão além de uma dicotomia, isto é, algo com apenas duas possibilidades, mas sim que assuma uma imensidão de expressões de vida e, consequentemente, de sexualidade. Importante pontuar, como afirma Louro (2003), que, ao falarmos da importância dos aspectos sociais na construção de gênero, não estamos negando a importância do papel dos aspectos biológicos, mas estamos retirando certa ênfase, exageradamente focada em tais pontos. O objetivo, com isso, é trazer para o espaço social os debates relacionados ao gênero e às sexualidades, visto que é exatamente no campo do social que as relações são construídas e, como fator consequente, as exclusões e discriminações também se produ- zem. “As justificativas para as desigualdades precisariam ser buscadas não nas diferenças biológicas [...] mas sim nos arranjos sociais, na história, nas condições de acesso aos recursos da sociedade, nas formas de representação” (LOURO, 2003, p. 22). Agora que já possuímos uma compreensão do que é o gênero, pergunto à você, aluno(a): Quantas vezes você já ouviu alguma dessas expressões: “isso é coisa de me- nino; isso é coisa de menina”, ou ainda “azul é cor de menino e rosa é cor de menina”, relacionando cores, objetos, profissões com o sexo biológico das pessoas. Acredito que inúmeras vezes, não é mesmo?! Proponho, então, que você se questione e reflita: será que essa construção (do que é pertencente ao menino e à menina) é algo natural? Será que “sempre foi assim”? Revisitando a história, podemos constatar que, ao longo dos tempos, as diversas sociedades criaram ideias de como deveria ser utilizado o tempo e o espaço, isto é, o tempo de casa, o tempo do ócio, o tempo da rua. Ainda houve a determinação e estabelecimento de lugares que eram permitidos ou não para determinados grupos de pessoas. A escola, neste aspecto, exerceu importante papel no que diz respeito ao acesso, separação e per- manência de diferentes alunos neste ambiente (LOURO, 2003). Curioso apontar que, segundo a autora, havia antigos manuais que determinavam, de maneira explícita, como deveria ser o trato que os professores deveriam ter com seus 8UNIDADE I Construção Histórica e Perspectivas da Educação Sexual alunos, ou seja, a maneira na qual eles iriam lidar com a forma de segurar o lápis, de se posicionar nas carteiras, dentre outros aspectos, o que acabava por construir uma distinção entre meninos e meninas. Para cada um destes havia regras a serem seguidas, distintas e muito bem demarcadas umas das outras. Havia, inclusive, nas chamadas “escolas femininas”, a produção de meninas vol- tadas aos trabalhos manuais, à delicadeza, ao treino de habilidades unicamente de ordem manual, o que resultava em jovens ditas “prendadas”, em que seus trabalhos giravam em torno, quase que exclusivamente, de agulhas e pincéis. Vê-se, então, que “As marcas da escolarização se inscreviam, assim, nos corpos dos sujeitos” (LOURO, 2003, p. 62). FIGURA 1 - CRIANÇA EM ATIVIDADE ESCOLAR Aluno(a), a partir dessas afirmações, pensem comigo: podemos, então, falar em um “processo de fabricação de sujeitos”? Podemos pensar que sim, visto que, como aponta Louro (2003), essa fabricação se dá de maneira sutil, quase imperceptível nos dias de hoje. Tomemos como exemplos: a separação, nas escolas, de filas de meninos e meninas; a separação de meninos e meninas em atividades escolares; a escolha de determinados brinquedos para meninas e outros para meninos (como já pontuamos anteriormente). Tudo isso, aluno(a), faz parte de um processo que precisamos questionar, problematizar e, acima de tudo, desconfiar. Os questionamentos em torno desses campos, no entanto, precisam ir além das perguntas ingênuas e dicotomizadas. Dispostas/os a implodir a idéia de um binarismo rígido nas relações de gênero, teremos de ser capazes de um olhar mais aberto, de uma problematização mais ampla (e também mais complexa), uma problematização que terá de lidar, necessariamente, com as múltiplas combinações de gênero, sexualidade, classe, raça, etnia (LOURO, 2003, p. 65). 9UNIDADE I Construção Histórica e Perspectivas da Educação Sexual Assim, pensarmos na relação e na importância da discussão de temas relacio- nados ao gênero e à sexualidade dentro do ambiente escolar, é pensar no respeito à diversidade humana, sua multiplicidade e diversidade, o que, infelizmente, tem gerado nos últimos tempos debates negativos que colocam em jogo a questão do efetivo acesso democrático ao ensino. Todavia, quanto mais dialogarmos acerca da importância do re- conhecimento das diferenças de gênero, raça, orientação sexual, idade, dentre outros, mais iremos nos aproximar de uma efetiva democracia, realocando nossos debates às questões relacionadas à criação e aperfeiçoamento de políticas públicas que visem a qualidade do ensino que é ofertado, bem como a permanência destes estudantes nos espaços de ensino (OLIVEIRA; MOCHI, 2020). No tópico a seguir iremos conhecer um pouco acerca dos aspectos que envolvem a sexualidade, especificamente os pontos que demarcaram sua construção histórica, a ma- neira na qual as sociedades a compreendiam e compreendem no dia de hoje, perpassando pelo olhar da cultura, da política e do discurso. Vamos lá! 10UNIDADE I Construção Histórica e Perspectivas da Educação Sexual 2. SEXUALIDADE COMO CONSTRUÇÃO HISTÓRICA, SOCIAL, CULTURAL, POLÍTICA E DISCURSIVA Louro (2004) afirma que a sexualidade, tendo sido tornada (não por acaso) uma “questão” nos últimos doisséculos, vem sendo assunto de grande interesse de diversas áreas, por exemplo: cientistas, educadores, religiosos e psiquiatras. Pautadas em diferentes visões, as compreensões acerca da sexualidade buscam descrever, compreender, explicar, regular, educar e normatizar suas práticas e expressões. Neste caminho, para discutirmos acerca do tema da sexualidade e, principalmente, para compreendermos a construção histórica e cultural de seus desdobramentos, faz-se pertinente recorrermos aos estudos do filósofo Michel Foucault que se debruçou na cons- trução da História da Sexualidade, tendo publicado, em vida, sua obra em três tomos. O Primeiro livro, intitulado A Vontade de Saber, foi originalmente publicado em 1976; o segun- do, O Uso dos Prazeres e o terceiro, O Cuidado de Si foram ambos publicados em 1984. Em 2018, sob a edição de Fréderic Gross, anos após a morte de Foucault, foi publicado o quarto volume, intitulado As Confissões da Carne. Para Foucault (1976/2020), no início do século XVII a sexualidade não era com- preendida enquanto um assunto tabu, ao contrário: não havia segredo, as palavras eram ditas sem delongas, havia certa familiaridade com o dito “ilícito”. A ideia de obsceno não era a mesma que nossa sociedade, hoje, compreende a sexualidade; era a época dos corpos expostos, gestos e atitudes que não portavam vergonha. Era a sexualidade em sua forma crua e livre. 11UNIDADE I Construção Histórica e Perspectivas da Educação Sexual No entanto, a partir do século XIX, a sexualidade toma outra forma, se encerra en- quanto atributo e prática livre, torna-se indecente. Ela deixa de ser assunto público, visível e adentra o quarto dos pais, isto é, o quarto do casal, local para a procriação. A sexualidade é confiscada para o seio familiar; seu objetivo agora é a reprodução. O prazer não é mais o alvo, o objetivo final (FOUCAULT, 1976/2020). Surge, então, a repressão da sexualidade. É o silenciamento das práticas até então permitidas, é como se surgisse a “[...] constatação de que, em tudo isso, não há nada para dizer, nem para ver, nem para saber” (FOUCAULT, 1976/2020, p. 8). Fazendo um balanço com os dias atuais, Maio (2011, p. 38) ressalta que, ainda hoje, no século XXI, “É inegável que vivemos numa tradição cultural na qual nosso corpo sofreu e ainda sofre uma série de repressões por meio de preconceitos, normas sociais, interditos [...] sofrendo com isso uma rigidez postural”. Foucault (1976/2020) nos mostra como os discursos médicos passaram a exercer um papel central na patologização de determinadas práticas sexuais, denominadas de “perver- sões”, exercendo o papel de poder frente à uma verdade que detinha todo o conhecimento. Os discursos médicos, então, eram tomados como a norma, o correto e o que, por consequência, deveria ser seguido; tudo o que fugia à tal norma deveria ser corrigido, revertido. Na psiquiatrização das perversões, o sexo foi referido a funções biológicas e a um aparelho anátomo-fisiológico que lhe dá “sentido”, isto é, finalidade; também a um instinto que, através do seu próprio desenvolvimento e de acor- do com os objetos a que pode se vincular, torna possível o aparecimento das condutas perversas e sua gênese, inteligivél (FOUCAULT, 1976/2020, p. 167). É o que Louro (2004) aponta, ao elucidar que, a partir do século XIX, homens vito- rianos, que detinham o poder, começaram a fazer “descobertas” (entre aspas para enfatizar certa ironia) a respeito da sexualidade, definindo e classificando as práticas que recaiam nos corpos de homens e mulheres. Tais discursos passaram, como Foucault elucidou, a deter certa ideia de verdade e, por isso, não poderiam ser questionados. Com isso, Busca-se, tenazmente, conhecer, explicar, identificar e também classificar, dividir, regrar e disciplinar a sexualidade. Produzem-se discursos carregados da autoridade da ciência. Discursos que se confrontam ou se combinam com os da igreja, da moral e da lei (LOURO, 2004, p. 79). Hoje, nós presenciamos discursos que colocam a sexualidade enquanto heteronor- mativa, isto é, apenas a expressão/relação afetivo-sexual entre um homem e uma mulher heterossexual podem ser consideradas normais. Essa maneira de viver e experienciar as manifestações da sexualidade em uma compreensão heterocentrada possui como objetivo a construção de uma forma tida como “normal” de família, excluindo todas as outras possibi- lidades de vivência e expressão de relações (LOURO, 2004). Esquece-se, no entanto, que 12UNIDADE I Construção Histórica e Perspectivas da Educação Sexual “[...] a sexualidade se forma com base em um constructo histórico, que vai se integrando às construções física e psíquica de cada pessoa, determinando a sua expressão sexual; portanto, corporal” (MAIO, 2011, p. 39), sendo um fator subjetivo, único e multideterminado. Vê-se ainda que Se, nos dias de hoje, ela [a sexualidade] continua alvo da vigilância e do controle, agora se ampliaram e diversificaram suas formas de regulação, mul- tiplicaram-se as instâncias e as instituições que se autorizam a ditar-lhe as normas, a definir-lhe os padrões de pureza, sanidade ou insanidade, a delimi- tar-lhe os saberes e as práticas pertinentes, adequadas ou infames (LOURO, 2004, p. 27). Desta forma, percebe-se, aluno(a), que falar em sexualidade é, ao mesmo tempo, falar em relações de poder. Foucault (1976/2020) nos apresenta dois conceitos extrema- mente importantes em sua obra, para compreendermos a ideia de biopoder, isto é, o poder sobre a vida. O conceito de biopoder pode ser subdividido em: disciplina e biopolítica. A primeira se refere ao governo dos corpos, dos indivíduos e a segunda está relacionada ao governo da população. Ambos os conceitos estão relacionados, claramente, com a ideia de controle. O poder, na obra de Foucault, ilustra as diferenças entre quem detém o poder de superioridade para falar e ser ouvido e quem é silenciado, excluído, relegado à margem. Logo, nota-se que os interesses políticos possuem forte espaço no controle da sexualidade. Como Louro (2004) assinalou, os estados passaram a se preocupar com o controle populacional e, nesta lógica, com o controle da família e da reprodução. Aluno(a), neste ponto iremos adentrar em um outro conceito de extrema rele- vância na vasta obra de Foucault: o discurso. Para aprofundarmos nossa compreensão acerca da sexualidade, é de extrema relevância compreendermos como os discursos sobre a sexualidade nos atravessam, isto é, como os discursos são produzidos, (re) produzidos, e transformados. Para Foucault (1970/2014), o discurso pode ser compreendido como o ato de falar, transmitir determinadas ideias e possuir a capacidade de articulá-las em qualquer campo de comunicação. No entanto, o discurso exerce um controle quando se limita quem, onde, como e quando falar, isto é, o poder entra em cena, como sendo a capacidade e a pos- sibilidade de exercer a fala. Com isso, vê-se que não são todas as pessoas, em todos os espaços, que podem falar; ao contrário, o silenciamento e a exclusão são fatores presentes quando se estabelece uma ordem do discurso. [...] ninguém entrará na ordem do discurso se não satisfizer a certas exigên- cias ou se não for, de início, qualificado para fazê-lo. Mais precisamente: nem todas as regiões do discurso são igualmente abertas e penetráveis; algumas são altamente proibidas [...], enquanto outras parecem quase abertas a todos os ventos e postas, sem restrição prévia, à disposição de cada sujeito que fala (FOUCAULT, 1970/2014, p. 35). 13UNIDADE I Construção Histórica e Perspectivas da Educação Sexual Ainda para o autor, podemos compreender o discurso através de duas partes: a primeira diz respeito aos processos externos ao sujeito, sendo eles: ● A interdição, que se refere à criação de certos silenciamentos, interditos, em relação ao que pode ou não ser dito; ● A separação/rejeição,que define quem possui o direito privilegiado de falar; ● A oposição entre verdadeiro x falso, que serve como uma forma de organiza- ção dos discursos, com o reconhecimento de certas posições como verdadeiras e legítimas, e outras, ao contrário, tidas como falsas. Na segunda parte, temos os procedimentos internos ao sujeito, sendo eles: ● O comentário, em que quem fala possui a capacidade de repetir e reafirmar determinado discurso, expandindo-o; ● O autor, que detém a capacidade de colocar uma origem e identidade frente ao saber; ● A organização das disciplinas, que serve como uma categorização dos discur- sos, enquadrando-os em uma maneira de “encaixotar”, digamos, assim, o conhe- cimento, a fim de ele que caiba em determinados espaços e círculos sociais. Desta forma, aluno(a), podemos compreender como o discurso possui um papel de extrema importância no que tange o tema da sexualidade. A partir dos pressupostos elen- cados, se realizarmos uma breve e rápida reflexão, poderemos perceber que as instituições que possuem o poder de determinar a norma sempre possuem um interesse velado que serve apenas para uma parcela específica da população. 14UNIDADE I Construção Histórica e Perspectivas da Educação Sexual 3. AS ABORDAGENS DE EDUCAÇÃO SEXUAL ATRAVÉS DA HISTÓRIA E SEUS REFLEXOS NO COTIDIANO PARA A ESCOLARIZAÇÃO BRASILEIRA FRENTE À EQUIDADE DE GÊNERO No Brasil, os estudos e pesquisas sobre gênero tiveram início com o movimento feminista. É a partir da década de 1970 que mulheres, principalmente ligadas às universida- des, ganham visibilidade e espaço para a discussão de questões ligadas à temática. O foco inicial eram as pesquisas sociais, dando-se início à realização de eventos, produção de livros e artigos que traziam a ideia de “estudos sobre mulher” como marca para demarcar esta nova área de estudos (HEILBORN; SORJ, 1999). A defesa do uso do conceito de gênero, acompanhando o debate internacio- nal, passou a adquirir caráter relacional e a abarcar a definição e a estrutu- ração das relações sociais, englobando as dimensões de classe, raça, etnia e geração na procura de apreensão das distintas formas de desigualdade (VIANNA, 2017, p. 53). Uma observação importante e que não podemos deixar de mencionar, refere-se ao trabalho importante de Scott (1995) que, com o artigo intitulado Gênero: uma categoria útil de análise histórica, trouxe importantes reflexões para que possamos compreender gênero enquanto uma categoria de poder. Neste trabalho, a autora traz o pioneirismo do termo gênero e seu surgimento com as feministas americanas. É no seu trabalho, também, que encontramos o gênero de maneira ampla, em que ela o compreende como sendo 15UNIDADE I Construção Histórica e Perspectivas da Educação Sexual [...] utilizado para designar as relações sociais entre os sexos. [...] o termo “gênero” torna-se uma forma de indicar “construções culturais” - a criação inteiramente social de idéias sobre os papéis adequados aos homens e às mulheres. Trata-se de uma forma de se referir às origens exclusivamente sociais das identidades subjetivas de homens e de mulheres. “Gênero” é, se- gundo esta definição, uma categoria social imposta sobre um corpo sexuado (SCOTT, 1995, p. 75). Voltando ao cenário nacional, Heilborn e Sorj (1999) pontuam que é a partir da década de 1980 que há, nos espaços acadêmicos, uma significativa e gradativa alteração do termo “mulher”, passando a ser substituído pelo termo “gênero”, em que Em termos cognitivos esta mudança favoreceu a rejeição do determinismo biológico implícito no uso dos termos sexo ou diferença sexual e enfatizou os aspectos relacionais e culturais da construção social do feminino e masculi- no. Os homens passaram a ser incluídos como uma categoria empírica a ser investigada nesses estudos e uma abordagem que focaliza a estrutura social mais do que os indivíduos e seus papéis sociais foi favorecida (HEILBORN; SORJ, 1999, p. 4). Nesta época, segundo Heilborn e Sorj (1999), a alteração dos termos supracita- dos proporcionou maior visibilidade e aceitação de pesquisas relacionadas ao gênero no âmbito acadêmico, ganhando maior espaço e reconhecimento, além de financiamentos para pesquisas. Aluno(a), é muito importante que você conheça esses fatos pontuados. Essa alteração do termo, como vimos, proporcionou um maior espaço para abarcar outras temáticas de estudo, o que reflete nas pesquisas até os dias de hoje. Desta maneira, podemos compreender como o movimento feminista, no Brasil, possui papel de destaque no que tange às questões de gênero. Agora, vamos conhecer um pouco sobre a inserção deste tema nas escolas. Em relação às discussões do gênero e da sexualidade dentro dos espaços es- colares, Martin (2017) pontua que ainda hoje há uma compreensão equivocada, em que muitos, erroneamente, compreendem sexualidade enquanto ligada às genitálias, isto é, pensamento que remete aos órgãos sexuais e, consequentemente, na relação sexual. Como consequência, ao ignorarmos as discussões acerca da sexualidade, embasados em tais pensamentos, estamos ignorando aspectos extremamente importantes e relevantes, como a cultura, valores e cidadania. Ainda, nas escolas tende a ter um silenciamento desta temática e, por isso, [...] a preocupação com a sexualidade geralmente não é apresentada de for- ma aberta. Indagados/as sobre essa questão, é possível que dirigentes ou professores/as façam afirmações do tipo: “em nossa escola nós não precisa- mos nos preocupar com isso, nós não temos nenhum problema nesta área”, ou então, “nós acreditamos que cabe à família tratar desses assuntos”. [...] É indispensável que reconheçamos que a escola não apenas reproduz ou reflete as concepções de gênero e sexualidade que circulam na sociedade, mas que ela própria as produz (LOURO, 2003, p. 80). 16UNIDADE I Construção Histórica e Perspectivas da Educação Sexual Desta maneira, quando há o silenciamento dessas discussões dentro do espaço escolar, há um interdito, uma perda na possibilidade em realizar construções históricas e debates extremamente importantes, visto que a escola, na maioria das vezes, ignora discu- tir tais questões, deslegitimando as diferenças dos sujeitos que estão inseridos, inclusive, dentro do próprio ambiente escolar. Não raro, destaca-se, há imensa dificuldade e falta de preparo da própria escola para lidar com essas questões (MARTIN, 2017). Por tanto, é preciso compreender que a escola possui um papel ativo na constru- ção dos conhecimentos acerca da sexualidade e, por consequência, na educação sexual. Segundo Louro (2003), o projeto de uma educação sexual, tema de grande preocupação e polêmica, cria discussões que vão desde as instituições que deveriam se responsabilizar por ela e como seria sua execução e manejo. Não obstante, questões como essa surgem por parte da própria escola: [...] como educamos para as questões de gênero? De que maneira a organi- zação dos grupos/turmas de alunos e alunas, bem como a escolha dos livros, dos jogos e outros materiais didáticos, proporcionam às crianças espaços es- colares que integram a diversidade de forma positiva? Como é que os profes- sores e as professoras se situam nestas questões e orientam suas práticas educativas ? (CARDONA; PISCALHO; UVA, 2015, p. 49). Desta forma, é preciso que nosso olhar esteja atento para os impactos sociais do fato de não abordarmos questões relacionadas à sexualidade dentro dos espaços escola- res. Situações de violências, por exemplo, é um fator importante e que merece atenção. Precisamos, ainda, olhar para o currículo docente do ensino superior, a fim de compreen- dermos como os professores(as) vêm sendo preparados(as) para essas discussões, pois, como aponta Maio (2012): A escola pode deixar de ser um espaço de opressão e repressão na questão da sexualidade,para se tornar um ambiente efetivamente seguro, livre e edu- cativo para todas as pessoas. E, hoje, não é mais possível que as questões relativas à sexualidade passem despercebidas ou que sejam tratadas com deboche ou indignação moral (MAIO, 2012, p. 72). Sendo assim, ao trabalharmos questões relacionadas à sexualidade, é possível e emergente o trabalho pautado em uma equidade de gênero. Aluno(a), você sabe o que significa a palavra equidade? Segundo o Dicionário Michaelis (on-line), equidade pode ser compreendida como a “consideração em relação ao direito de cada um, levando em conta o que se considera justo”. O que isso significa? Significa que a equidade está relacionada à justiça, em que são levadas em consideração as necessidades individuais e específicas de determinadas pessoas ou grupos, não da totalidade. 17UNIDADE I Construção Histórica e Perspectivas da Educação Sexual Para ilustrar, trago a imagem a seguir, em que a primeira se refere à IGUALDADE. Veja que os três sujeitos possuem o mesmo recurso para conseguir enxergar o outro lado da cerca, mas um deles não alcança; a figura ao lado, no entanto, representa a EQUIDADE, em que, devido à sua necessidade, o sujeito menor passa a receber recursos suficientes para que consiga enxergar o outro lado da cerca. Interessante, não é?! FIGURA 2 - EQUIDADE Neste caminho, ao pensarmos acerca da equidade e dos estudos relacionados ao gênero e sexualidade, com ênfase na questão do gênero feminino, [...] a educação se revela como política pública para romper com os padrões de gênero, a fim de alcançar a equidade. A educação não é apenas um impor- tante instrumento de prevenção contra a violência doméstica e familiar contra a mulher, mas também um direito humano fundamental a que todos, sem qualquer tipo de distinção, devem ter acesso (KNIPPEL; AESCHLIMANN, 2017, p. 61). Aluno(a), com estes apontamentos, podemos compreender a importância de um olhar para a equidade nas relações, seja no âmbito escolar ou fora dele. Neste cenário, a educação é uma política pública de grande importância para o desenvolvimento de um olhar que seja humano e, acima de tudo, respeite as diferenças. 18UNIDADE I Construção Histórica e Perspectivas da Educação Sexual 4. PREVENÇÃO DO PRECONCEITO E DISCRIMINAÇÃO, NO RESPEITO A ALTERIDADE E ÀS IDENTIDADES CULTURAIS Aluno(a), neste momento iremos estudar sobre a importância do trabalho preventivo frente às situações de preconceito e discriminação, com ênfase para o ambiente escolar, e a importância do respeito às diferenças sociais, raciais, culturais e de gênero. Passador (2017) aponta que gênero, sexualidade e classe são vistos como mar- cadores sociais que excluem, separam e segregam as pessoas, definindo identidades e delimitando fronteiras de acessos a determinados recursos e espaços. Neste caminho, são estabelecidas determinadas características aceitáveis, isto é, tidos como “normalidade”, enquanto outras passam a ser excluídas, em que “O processo de marcar e significar valo- rativa e hierarquicamente as diferenças sociais é o que dá princípio ao que chamamos de discriminação” (PASSADOR, 2017, p. 18). Mas o que isso significa? Nas próprias palavras do autor, isso significa que é por meio deste processo de classificar e hierarquizar as pessoas que nós vamos demarcando e assinalando àquelas consideradas mais importantes, construindo identidades de acordo com os marcadores que são construídos socialmente. Neste sentido, Vamos, portanto, produzindo e classificando não apenas diferenças, mas também desigualdades. E, ao produzirmos desigualdades, legitimamos for- mas de tratamento discriminatório e excludente, o que inclui formas de recri- minação e repressão – e até mesmo de patologização e/ou de criminalização (PASSADOR, 2017, p. 19). 19UNIDADE I Construção Histórica e Perspectivas da Educação Sexual Ainda, faz-se necessário destacar que, segundo Vianna (2017), o próprio espaço escolar passa a reproduzir, muitas vezes, uma visão discriminatória e excludente, sendo necessário um olhar aguçado para as interações conflituosas que são mantidas dentro da instituição escolar e para os poderes que ali são exercidos. No Brasil, foi apenas a partir da década de 1990 que, de maneira tímida e cautelosa, os primeiros aparecimentos relacio- nados ao gênero passaram a adentrar o currículo escolar, tendo respaldo de documentos nacionais e internacionais. No entanto, o processo de discriminação é inaceitável, pois, como pontua Passador (2017), nossa sociedade é composta por uma ampla gama de diferenças, ou seja, somos um povo marcado pela pluralidade e diversidade de características. Neste aspecto, a escola possui um papel de extrema relevância e importância, pois ela passa a ser um espaço de promoção de mudança no que tange à construção da aceitação das diferenças e promoção da inclusão dos múltiplos modos de ser. Logo, temos um desafio pela frente, visto que O reconhecimento da diversidade como fato humano vivido por todas/os nós, e a garantia do direito a ela como fato histórico, social, político, econômico e cultural que nós mesmas/os construímos cotidianamente com nossos valores e práticas, é um desafio e um compromisso que precisamos assumir quando nos propomos a construir uma sociedade mais igualitária e na qual os direitos sejam efetivos para todas/os. Portanto, um desafio e um compromisso que devem ser assumidos em nossas escolas (PASSADOR, 2017, p. 22). No entanto, infelizmente, o que podemos ver ao longo do tempo é que o conserva- dorismo invadiu os assuntos relacionados à questão de gênero e sexualidade nos currículos escolares, em que se criou um pânico exagerado em relação aos assuntos abordados no âmbito educacional. Desta forma, retrocessos passaram a serem vistos cotidianamente, em que o silenciamento de determinados temas passou a vigorar no contexto escolar (VIANNA, 2017). Como consequência, o que se vê ainda são muitos(as) “[...] professoras e professores dedicados ao tema [...] sozinhos/as, sem parcerias e sem força política para sustentar um trabalho denegrido pela maior parte da escola” (p. 65). Não obstante, Passador (2017, p. 28) destaca ainda que a diversidade cultural deve ser compreendida enquanto um fenômeno que está presente em todas as partes do mundo e que “[...] a diversidade de culturas que a humanidade produziu e produz é uma conse- quência lógica dessa nossa condição e capacidade de produzirmos diferenças”. Sendo assim, “A diversidade é, portanto, uma realidade incontornável, que exige reconhecimento e garantia de direitos, na direção da superação da discriminação e exclusão social” (p. 30). Em conjunto com a discriminação, evidencia-se os processos de preconceitos. Segundo Passador (2017), o preconceito está enraizado em nossa cultura e, consequen- temente, em nós mesmos, e muitas vezes reproduzimos determinadas falas, comporta- 20UNIDADE I Construção Histórica e Perspectivas da Educação Sexual mentos, gestos imbuídos de preconceitos, sem nos darmos conta; a isto chamamos de naturalização dos preconceitos. Neste caminho, a escola possui um papel chave, sendo o de “[...] estabelecer bases inclusivas que garantam não apenas a convivência entre os diversos, mas o reconhecimento deles como iguais em direitos, sem que eles precisem para tanto se descaracterizar como diferentes entre si” (PASSADOR, 2017, p. 40). Uma educação cidadã deve estar baseada na promoção da igualdade de di- reitos e no reconhecimento e valorização da diversidade. Isso exige que su- peremos um modelo de educação pensado como um processo de produção de homogeneidades padronizadas e normalizadas (PASSADOR, 2017, p. 41). Sendo assim, a escola possui um papel extremamente empoderador relacionado à quebra de preconceitos relacionados à diversas categorias, como vimos anteriormente. No que se refereao gênero e sexualidade, a escola, por meio de inúmeras alternativas, pode assumir uma posição de criadora de espaços para novos pontos de vista, novas formas de pensar e, consequentemente, novas maneiras de agir sobre o mundo. SAIBA MAIS Aluno(a), pensando na relação entre gênero e feminismo, você sabia que existem al- gumas datas importantes que marcam a luta pelo fim da violência contra as mulheres? Essas datas são importantes, pois trazem visibilidade para a causa. O dia 25 de novem- bro é considerado o Dia Internacional da Não-Violência contra as mulheres. Também, o dia 06 de dezembro é tido como o Dia Nacional de Mobilização dos Homens pelo Fim da Violência contra as Mulheres. Fonte: Mello (2020). REFLITA “Aqueles e aquelas que transgridem as fronteiras de gênero ou de sexualidade, que as atravessam ou que, de algum modo, embaralham e confundem os sinais considerados próprios de cada um desses territórios são marcados como sujeitos diferentes e des- viantes”. Aluno(a), você já parou para pensar nisso? Como você enxerga o que é “normal” e “anormal” frente às outras pessoas? Fonte: Louro (2004, p.132). 21UNIDADE I Construção Histórica e Perspectivas da Educação Sexual CONSIDERAÇÕES FINAIS Caro(a) aluno (a), Chegamos ao fim da nossa primeira unidade. Você percebeu quantos assuntos e conceitos importantes estudamos até aqui? Como vimos na primeira unidade, é preciso compreender o conceito de gênero para que possamos expandir nossa compreensão das diferenças e, consequentemente, absorver novas maneiras de compreender o papel da sexualidade no currículo escolar. Ainda, realizamos uma importante contextualização histórica sobre os estudos de gênero e educação, principalmente no Brasil, estudando as construções históricas acerca do masculino e feminino, com os papéis sociais que são pré-determinados em relação aos sexos. Também estudamos a sexualidade como sendo uma construção de ordem histórica, social, cultural, política e discursiva. Para tal estudo, nos ancoramos nos estudos basilares de Michel Foucault, compreendendo a importância e relevância dos discursos, bem como a noção de poder e seus efeitos. Na sequência, partimos para discussões relacionadas às abordagens da educação sexual através da história e seus reflexos no cotidiano para a escolarização brasileira frente à equidade de gênero. Para isso, conhecemos o papel dos estudos feministas, bem como a importância da temática da sexualidade dentro das escolas. Por fim, estudamos aspectos cruciais relacionados à prevenção do preconceito e da discriminação frente às diferenças no contexto escolar. Espero que você tenha aproveitado ao máximo os conteúdos que foram discutidos aqui. Nos encontramos na Unidade II para darmos continuidade nas discussões relaciona- das à sexualidade, gênero e educação. Até logo! 22UNIDADE I Construção Histórica e Perspectivas da Educação Sexual LEITURA COMPLEMENTAR Artigo: Formação em gênero e educação para a sexualidade: considerações acer- ca do papel da escola Resumo: Este artigo, por meio de uma pesquisa bibliográfica, propõe uma dis- cussão acerca da formação em gênero e da educação para a sexualidade, na tentativa de compreender como a igreja, a família e a escola têm, historicamente, contribuído para a Educação, principalmente de crianças e jovens em idade escolar, de acordo com seus preceitos. Assim, defendemos que a família e a igreja podem contribuir na formação dos indivíduos – com afeto, carinho, costumes –, porém, à escola cabe disseminar conhecimen- tos científicos, de modo a mostrar as várias formas de vivenciar e construir as identidades pessoais, sempre com caráter emancipatório, para a convivência e o reconhecimento das diferenças, além do respeito entre os sujeitos. Palavras-chave: Gênero, educação, sexualidade, respeito. Texto completo disponível em: MAIO, E. R.; OLIVEIRA, M. de; PEIXOTO, R. Formação em gênero e educação para a sexualidade: considerações acerca do papel da escola. Revista NUPEM, Campo Mourão, v. 10, n. 20, 2018. Disponível em: http://revistanupem.unespar.edu.br/index.php/ nupem/article/view/353/332. Acesso em: 01 mar. 2021. 23UNIDADE I Construção Histórica e Perspectivas da Educação Sexual MATERIAL COMPLEMENTAR LIVRO Título: Educação, Gênero e Feminismos: resistências bordadas com fios de luta. Autora: Eliane Rose Maio (Organizadora) Editora: Editora CRV Sinopse: O livro apresenta as lutas do movimento feminista e que ainda se mostram constantes, pela igualdade e equidade de direi- tos, entre as mulheres e os homens. As discussões sobre os fe- minismos fazem parte desta obra literária, em que se apresentam, em várias instâncias, como as mulheres (e aqui pontuamos todas as mulheres, de quaisquer etnias e raça), buscaram (e buscam) os seus direitos de equidade e igualdades, diferenciando-se daquelas que ainda são somente vistas como a “rainha do lar, da musa ido- latrada pelos poetas e cantores, da mulher frágil, etc.” O livro traz discussões e provocações em uma luta para que possamos ter um mundo mais justo e digno para todas as pessoas. FILME/VÍDEO Título: Hoje eu quero voltar sozinho Ano: 2014 Sinopse: O filme mostra o preconceito e a discriminação no am- biente escolar, tanto pela deficiência visual (o personagem principal é cego) quanto pela sua orientação sexual. O filme também traba- lha com questões relacionadas à adolescência e à descoberta da sexualidade, os conflitos e a busca pela independência. 24UNIDADE I Construção Histórica e Perspectivas da Educação Sexual WEB No site Vivendo a Adolescência (link a seguir) é possível encontrar uma gama am- pla de materiais que apresentam e trabalham com a proposta de uma Educação Integral em Sexualidade. Ainda, o site oferece informações, esclarece dúvidas e propõem atividades no que se refere à educação sexual. Link do site: http://www.adolescencia.org.br/site-pt-br/educacao-integral-em-sexualidade 25 Plano de Estudo: ● Abordagens pedagógicas da educação sexual no Brasil; ● Compreendendo os conceitos e as interfaces entre gênero e orientação sexual; ● Recursos didático-metodológicos para um trabalho de Educação Sexual na Educação Infantil e Ensino Fundamental. Objetivos da Aprendizagem: ● Contextualizar as abordagens pedagógicas que dialogam com a educação sexual no Brasil; ● Compreender a relação e a diferença entre os conceitos de gênero e orientação sexual, destacando suas especificidades; ● Estabelecer a importância e os tipos de recursos que podem ser empregados na sala de aula para trabalhar a Educação Sexual. UNIDADE II Educação de Gênero e Sexualidade nos Espaços Educativos Professor Esp. Jose Valdeci Grigoleto Netto 26UNIDADE II Educação de Gênero e Sexualidade nos Espaços Educativos INTRODUÇÃO Olá, aluno(a)! Que bom reencontrar você. Seja bem-vindo(a) à segunda unidade da disciplina Gênero, Sexualidade e Educação. Agora, iremos conhecer os aspectos relacionados à prática do ensino da educação sexual dentro dos espaços educativos. Para isso, inicialmente faremos uma leitura acerca das abordagens educativas relacionadas à educação sexual, perpassan- do por alguns conceitos importantes e, por fim, iremos explorar os recursos que podem ser adotados para esta prática. No Tópico I iremos conhecer as abordagens pedagógicas da educação sexual no Brasil. Para isso, iremos realizar algumas reflexões acerca da inserção da educação sexual nos espaços educacionais e resgatar na história da educação do Brasil aspectos relacionados à temática. Avançando, no Tópico II iremos conhecer os conceitos de gênero e orientação sexual e suas interfaces, buscando diferenciá-los e, a partir disso, elencar suas especifici- dades, a fim de não reproduzir equívocos. Por fim, no Tópico III, iremos nos aproximar de alguns recursos didático-metodoló- gicos que podem ser utilizados para o trabalho de educaçãosexual na educação Infantil e, também, no ensino fundamental. A partir dos conteúdos elencados, espero que os textos e discussões aqui propos- tos sejam úteis e interessantes para embasar seus estudos e sua futura prática docente. Bons estudos! 27UNIDADE II Educação de Gênero e Sexualidade nos Espaços Educativos 1. ABORDAGENS PEDAGÓGICAS DA EDUCAÇÃO SEXUAL NO BRASIL Olá, aluno(a). Vamos dar início ao primeiro tópico desta unidade. Iniciaremos apre- sentando as abordagens pedagógicas da educação sexual no Brasil. Vamos lá? De acordo com Pelegrini e Maio (2016), a sexualidade, ao longo do tempo, tem sido alvo de construções nas mais diversas esferas, principalmente no que tange à constituição subjetiva das pessoas. Ainda, é notável que ela está presente nos discursos, sejam eles ditos ou escritos, além de estar presente, também, na ausência dos discursos, em situações em que a sexualidade é rodeada por silêncios e proibições. Quando pensamos na inserção do tema da sexualidade nos currículos escolares, é importante destacarmos que sua inserção, desde o início, foi alvo de polêmicas que, mesmo ocasionando alguns avanços, também originaram inúmeros retrocessos no cenário educacional brasileiro. Para ilustrar, podemos citar as incansáveis discussões, desde o ano de 2010, instauradas nos espaços sociais quando se deu início à construção dos Planos Nacionais, Estaduais e Municipais de Educação (PELEGRINI; MAIO, 2016). Não obstante, faz-se oportuno citar os próprios autores quando pontuam que Um exemplo desses embates foi a supressão dos termos “gênero e orienta- ção sexual” do texto original do Plano Nacional de Educação (2010). Essa disputa envolveu diferentes movimentos sociais e instituições, ganhou visibi- lidade e gerou repercussão, alcançando os Planos dos Estados e Municípios em uma reação em cadeia. Muitas Manifestações ocorreram para que fos- sem retirados também desses planos as dimensões da diversidade sexual e de gênero (PELEGRINI; MAIO, 2016, p. 129). 28UNIDADE II Educação de Gênero e Sexualidade nos Espaços Educativos Bem como, Furlaneto et al. (2018) realizaram um estudo em que pesquisaram, em alguns bancos de dados on-line de produções científicas, com o recorte de período 2010-2016, a questão da educação sexual em escolas brasileiras, com o objetivo de conhecer suas principais características, quais são os temas abordados e, ainda, quais os profissionais responsáveis por tal tarefa. Após a obtenção dos dados e enquanto re- sultado, percebeu-se que o que foi realizado nos espaços educativos não corresponde ao que está inserido nos Parâmetros Curriculares Nacionais, em relação à importância de que o tema seja abordado de maneira transversal, isto é, que atravesse e abarque todo o currículo escolar. Lima e Almeida (2010), na mesma vertente, assinalam que a inserção do tema da sexualidade nas práticas pedagógicas curriculares apresenta grandes dificuldades e barreiras, em que a oferta é superficial e rasa, não sendo proporcionado aos alunos e alunas um espaço para aprofundamento das questões necessárias, visto que [...] as políticas públicas são incipientes no que se refere ao preparo de profis- sionais de ensino para lidar com temas, tais como a sexofobia ou heterofobia, homofobia, heteronormatividade e outros preconceitos que estão presentes na sala de aula, incorporados desde muitos séculos atrás e antes da própria escola existir como instituição (LIMA; ALMEIDA, 2010, p. 726). Neste caminho, é extremamente urgente que professores e professoras trabalhem com questões relacionadas à sexualidade e, ainda mais, ofereçam um conteúdo coeso e trabalhe com a verdade, no sentido de possibilitar o acesso à informação e que as trans- formem, em conhecimentos que agreguem aos estudantes, traduzindo-as em informações imbuídas de uma linguagem acessível e clara. Ademais, é preciso englobar as mais diversas questões relacionadas à sexualidade, a saber: gravidez, aborto, Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST), dentre outros (LIMA; ALMEIDA, 2010). Louro (2013) diz que há tempos alguns movimentos, tais como o movimento fe- minista, o movimento negro e o movimento das chamadas minorias sexuais, denunciam a ausência de suas histórias nos currículos escolares. O que muitas vezes podemos ver, é a realização simbólica de datas “comemorativas” que, em cada nível de ensino, apresentam atividades e eventos específicos. Com isso, as instituições escolares detêm determinado controle e poder em relação ao que é dito e apresentado, logo, os sujeitos pertencentes a tais categorias passam a assumir o papel de excêntricos e excepcional. A discussão da educação em sexualidade não é algo novo e provoca muitas controvérsias, pois é um tema pouco debatido e, quando discutido é percep- tível o desconhecimento e a visão estereotipada por grande parte da popu- lação leiga. No que concerne ao tema, docentes, técnicos e teóricos da área têm dedicado anos de estudos para oferecer uma educação que promova a justiça social a partir da equidade de gênero para meninas e meninos (FREI- TAS, 2017, p. 134). 29UNIDADE II Educação de Gênero e Sexualidade nos Espaços Educativos É inegável que a escola deve refletir a realidade social na qual está inserida, isto é, ela possui, dentre outros, o papel de preparar os alunos e alunas para os processos sociais. Ainda, ela deve refletir aspectos relacionados à sexualidade e ao gênero. Um equívoco muito comum é a associação de sexualidade com relação sexual. Essa confusão é presente no imaginário social, o que acaba deixando o tema de lado, transformando-o em tabu. Como consequência, o silenciamento da sexualidade tende a deixar os alunos e alunas vulneráveis ao não receberem as informações de maneira adequada e pedagógica (MARTINI, 2016). É na escola que os adolescentes passam boa parte do seu tempo, e é nesse espaço que se complementa a educação dada no ambiente familiar. Na esco- la são abordados temas mais complexos que no dia-a-dia não são ensinados e aprendidos, tendo esta uma imensa responsabilidade na formação afetiva e emocional de seus alunos (OLIVEIRA; URBAN, 2016, p. 2). A sexualidade, neste caminho, pode ser compreendida enquanto fazendo parte de todas as fases do desenvolvimento humano, estando relacionada com os campos das emoções e dos afetos, sendo de extrema importância e ocupando um papel que, como vimos, vai além do prazer físico (MARTINI, 2016). Aluno(a), neste momento, você deve estar se perguntando: mas será que as coisas sempre foram assim, no que diz respeito à sexualidade nos espaços educativos? Aqui, ire- mos destacar três momentos sociais que são de grande importância para compreendermos alguns avanços e retrocessos em relação à educação sexual. Segundo Oliveira e Urban (2016), tal tema já se configurava enquanto uma preo- cupação nos espaços escolares, no Brasil, desde o início do século XX em que, nas décadas de 1920 e 1930, médicos, professores e professoras e intelectuais da época se debruçaram no tema. Em 1922, Fernando de Azevedo, reformador educacional, foi responsável por responder a um questionário em relação à educação sexual. Tal questionário foi solicitado pelo Instituto de Higiene da Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo. A partir deste feito, deu-se origem a um movimento brasileiro que passou a se interessar pelo tema da sexualidade no âmbito educacional (OLIVEIRA; URBAN, 2016). Pouco mais de uma década depois, em 1933, no estado do Rio de Janeiro, foi fundado o Circuito Brasileiro de Educação Sexual (CBES), sob responsabilidade do médico José de Oliveira Pereira de Albuquerque. O CEBS visava a produção de materiais relacio- nados à educação sexual, além de realizar eventos, reuniões e a produção de filmes. Ainda, o circuito possuía como objetivo “[...] prestar um serviço de instruçãoe esclarecimento no 30UNIDADE II Educação de Gênero e Sexualidade nos Espaços Educativos que tange aos assuntos de educação e higiene sexual, abordando questões biológicas, psicológicas e morais para a população brasileira” (OLIVEIRA; URBAN, 2016, p. 3). Ainda segundo os autores, na década de 1960, um pouco antes do início da di- tadura militar brasileira, a educação sexual passa a vigorar nos contextos educacionais, sendo inserida nos currículos. No entanto, com a ditadura militar em vigor, a sexualidade foi retirada e suprimida do contexto educacional. Como a ditadura impôs um regime de controle e moralização dos costumes, especialmente decorrente da aliança entre militares e o majoritário grupo conservador da igreja católica, a educação sexual foi definitivamente banida de qualquer discussão pedagógica por parte do Estado e toda e qualquer iniciativa escolar suprimida com rigor (OLIVEIRA; URBAN, 2016, p. 04). Aluno(a), com essas afirmativas, de recortes sociais, podemos perceber que, hoje, incluir nos currículos escolares tal temática foi (e ainda é) tarefa desafiadora. No entanto, é necessário que continuemos na luta para que o ensino da sexualidade faça parte dos espaços educativos, pois a sexualidade humana figura como um dos temas mais inquietantes e, quase sempre, mais recusados no universo prático do educador. Entretanto, cada vez mais a escola tem sido convocada a enfrentar as transformações das práticas sexuais contemporâneas, principalmente na adolescência, uma vez que seus efeitos se fazem alardear no cotidiano escolar (OLIVEIRA; URBAN, 2016, p. 02). Sendo assim, como aponta Louro (2013), é necessário que os profissionais da educação se atentem à uma prática que seja desestabilizadora e que desconstrua a ideia de naturalidade da sexualidade e que, em vez disso, busque dar espaço ao caráter móvel, plural e o papel do social na construção da sexualidade. 31UNIDADE II Educação de Gênero e Sexualidade nos Espaços Educativos 2. COMPREENDENDO OS CONCEITOS E AS INTERFACES ENTRE GÊNERO E ORIENTAÇÃO SEXUAL Aluno(o), na primeira unidade nós conhecemos o conceito de gênero, contando com algumas importantes referências para embasar nossos estudos. Neste momento, iremos conhecer outro conceito de extrema relevância: orientação sexual e, a partir disso, iremos tecer algumas reflexões acerca de ambos os conceitos e suas interfaces com o espaço educacional. Em síntese, para Jesus (2012, p. 12), orientação sexual pode ser compreendida enquanto a “[...] atração afetivossexual por alguém de algum/ns gênero/s”. Isto posto, po- demos pensar que a Sexualidade, portanto, está ligada a fatores internos e externos ao ser huma- no, que num processo de interação mútua cooperam para a sua constituição. Frente a esta constatação, urge pensar a sexualidade como um processo dialético, no qual o ser humano influencia a construção de valores e normas sexuais e, simultaneamente, é influenciado pelas múltiplas e sucessivas ex- periências vividas e vivenciadas em contato com o meio social em que se insere (BISPO DE JESUS, 2014, p. 55). Nesta perspectiva, trago uma imagem interessante, que pode nos auxiliar na com- preensão do conceito de orientação sexual. A imagem também traz o conceito de identidade de gênero e de sexo biológico. Veja: 32UNIDADE II Educação de Gênero e Sexualidade nos Espaços Educativos FIGURA 1 - CONCEITOS IMPORTANTES Fonte: https://miro.medium.com/max/2026/1*fdQkEf7yXhQ_OaIyFNLuPA.png Aluno(a), viu como é interessante conhecermos esses aspectos? Ainda hoje, percebemos uma grande confusão nas pessoas quando se referem à orientação sexual. Como a imagem ilustra, a orientação sexual refere-se ao aspecto da atração, do desejo; já a identidade de gênero, ao lado do conceito de gênero, refere-se à maneira na qual nos enxergamos e nos identificamos. Conhecer tais diferenças é um passo de extrema importância para que os profes- sores e professoras possam conhecer as múltiplas formas de ser e estar no mundo que existem e, a partir disso, se aperfeiçoarem e sentirem-se seguros para levar para o espaço escolar as questões relacionadas à sexualidade. A simples conscientização tem o poder de modificar nosso posicionamento e ações diante do desafio das questões de gênero e sexualidade presentes nas salas de aula fazendo com que as expressões presenciadas e descritas no início desse texto muito corriqueiras em sala de aula deixem de existir. Como professoras/res não podemos ficar impassíveis, nem tomar atitudes discrimi- natórias, porque este assunto reflete diretamente na felicidade ou infelicidade de alunas/os sendo o mesmo importantíssimo para que essa pessoa consiga atingir uma vida eficaz e plena como indivíduo produtivo da sociedade sendo isso o principal objetivo da escola (SIQUEIRA; CALDAS, 2020, p. 130). 33UNIDADE II Educação de Gênero e Sexualidade nos Espaços Educativos É pertinente citar, neste momento, a Base Nacional Curricular Comum (BNCC). Este documento, de ordem normativa, abrange conhecimentos contemporâneos que dia- logam com as necessidades de alunos e alunas de todo o país, visando a efetivação de direitos. O documento traz que, para o ensino de ciências, é ofertado o tema da sexualidade em conjunto com a reprodução humana, isto é, ligado aos aspectos biológicos dos sujeitos (BRASIL, 2018). Aluno(a), se faz importante, depois dos conteúdos que vimos na unidade anterior, problematizar: e as outras esferas? E a transversalidade da temática? Compete apenas à biologia lidar com o tema da sexualidade? Precisamos desenvolver um olhar atento para o tema, ao lembrarmos que a sexualidade se manifesta de maneira plural e, por isso, reflete em vários âmbitos de nossas vidas, e não apenas no campo biológico. Agora, aluno(a), quando pensamos nas interfaces entre a escola e as questões de gênero, você pode observar que a própria instituição escolar tende a gravar e a produzir alguns marcadores de gênero, é o que pontua Bispo de Jesus (2014), quando sinaliza que Em conformidade com as normatizações sociais tradicionalmente concebi- das, acerca do comportamento masculino e feminino, a docilidade, a obe- diência às regras e o temperamento menos agitado, por exemplo, são expec- tativas, vulgarmente, direcionadas ao mundo feminino; já a desobediência aos regulamentos, a contestação às ordens e a agitação são atitudes aguar- dadas do mundo masculino (p. 60, grifo da autora). É válido mencionarmos, a partir disso, que essas questões não são de ordem na- tural. Ao contrário, são produzidas e reproduzidas diariamente no contexto escolar, social e familiar. Importante mencionarmos e produzirmos questões e debates acerca da ideia de “naturalização” dos acontecimentos sociais. Isso, inclusive, fica evidente no próprio contexto escolar, quando [...] Diante de comportamentos que costumam fugir às regras de gênero e sexualidade, a tendência de docentes, homens e mulheres, é recriminar tais condutas, sinalizando para a forma como sujeitos masculinos e femininos devem agir para serem reconhecidos como tais. [...] Dessa maneira, muitas vezes, docentes homens e mulheres estimulam mais a participação de meninas nas aulas, face à representação do mundo femi- nino como sendo, naturalmente, comunicativo, enquanto os meninos pouco são convocados a participarem. Isto implica considerar que, consciente ou inconscientemente, a escola é capaz de erigir, junto aos sujeitos participantes do contexto escolarizado, conceitos de masculinidade e feminilidade a partir de afirmativas que lhes são apresentadas e que lhes esclarecem o significa- do social do que venha a ser homem e do que venha a ser mulher (BISPO DE JESUS, 2014, p. 61-62). Desta forma, é de extrema importância que pensemos na escola enquanto forma- dora, inclusive, de caráter e da personalidade das pessoas, mesmo que de maneira discreta(BISPO DE JESUS, 2014). A escola precisa, urgentemente, contribuir para a efetivação de espaços de expressão da sexualidade que não sejam excludentes e discriminatórios, mas sim que abarquem a diversidade existente. 34UNIDADE II Educação de Gênero e Sexualidade nos Espaços Educativos 3. RECURSOS DIDÁTICO-METODOLÓGICOS PARA UM TRABALHO DE EDUCAÇÃO SEXUAL NA EDUCAÇÃO INFANTIL E ENSINO FUNDAMENTAL Ainda hoje, realizar a organização de conteúdos relacionados à sexualidade para se trabalhar no contexto educativo é uma ação que tende a gerar desconforto e incômodo, tanto nos próprios professores e professoras quanto na população em geral (SACHI, 2018). Isso porque a escola, inclusive, é um espaço que ainda produz a inserção de mar- cadores de gênero em seus espaços, tais como: cartazes, filas, linguagem, brincadeiras, músicas, dentre outros. Curioso que, mesmo produzindo questões relacionadas ao gênero, a escola possui resistência para discutir sobre a temática (LEITE; ROMERO, 2017, p. 145), ficando tal fato evidente quando notamos que Na Educação Infantil, por exemplo, notamos que os estereótipos de gênero se efetivam de diversas maneiras como o uso do diminutivo para referir-se ao corpo feminino e o aumentativo para falar do masculino ou a separação de filas de meninas e meninos para a locomoção das crianças. É o mesmo com as cores dos materiais, a decoração dos cadernos, a divisão dos brinquedos, das brincadeiras. Neste caminho, é importante questionarmos acerca do preparo e da formação dos professores e professoras para abordar questões relacionadas à sexualidade. Sabendo que estes profissionais são formadores de opinião (SACHI, 2018), é possível perguntar: será que há um adequado preparo para tal empreitada? Pensando nisto, é relevante que nos atentemos para aspectos relacionados ao processo de ensino-aprendizagem, em que 35UNIDADE II Educação de Gênero e Sexualidade nos Espaços Educativos Não se pode ver o mundo pronto. Para isso é preciso pensar no processo ensi- no-aprendizagem, pois é por meio dele que educadores(as), formam opiniões nos(as) seus(suas) discentes. É necessário, antes de tudo, impelir em nós mesmos(as) perguntas e respostas que certamente nos levarão a esquadri- nhar, perscrutar, observar e pensar sobre como nos foi ensinada essa questão da sexualidade. É evidente que, se não aprendemos, também não temos subsídios consideráveis para ensinar (SACHI, 2018, p. 28, grifo nosso). Portanto, é urgente pensarmos (e repensarmos quantas vezes forem necessárias) acerca da formação destes profissionais. Percebe-se, pois, que nas universidades ainda é tímida a inserção de tais temas nos currículos. Nesta perspectiva, um caminho interessante é que os profissionais busquem outras formas de agregarem em sua formação o tema da sexualidade (SACHI, 2018). Hoje, existe uma vasta literatura que pode servir como base para os estudos e para a inserção do tema da sexualidade dentro dos espaços educativos. Entretanto, o que se percebe é que a sociedade ainda possui forte resistência para aceitar que se discuta a sexualidade no campo da educação, em que muitas vezes pais e mães e, inclusive, os próprios profissionais, por não possuírem conhecimentos e informações adequadas e sufi- cientes, não aceitam que as crianças recebam estes conteúdos (SACHI, 2018). No entanto, não podemos aceitar isso e precisamos problematizar e colocar esse silenciamento em pauta, pois “cabe à sociedade desmistificar esse paradigma, mas cabe, principalmente, ao(à) educador(a) a incumbência de desnudar esse arquétipo que foi imposto na sociedade por meio de uma educação tradicionalista, engessada e arcaica” (SACHI, 2018, p. 29). Outro ponto que merece destaque neste momento, por estar relacionado com o processo ensino-aprendizagem, é o brincar. Aluno(a), você sabia que diversas pesquisas apontam que o brincar na escola, em especial na Educação Infantil, possui um papel de extrema importância? É o que apontam Leite e Romero (2017, p. 146), sinalizando que o brincar tende a ser “[...] responsável por contribuir com o desenvolvimento físico, psíquico, cognitivo, motor, afetivo, entre outras competências dos alunos”. Neste caminho, proponho uma reflexão: quantas vezes ouvimos falar, ou até mesmo já reproduzimos tal discurso, que meninos brincam de carrinho e meninas brincam de bonecas? Se consideramos apenas o dualismo limitado, reforçado nos ambientes esco- lares, a brincadeira de boneca, acaba por ser entendida exclusivamente como “coisa de menina”. Esta concepção está fortemente ligada à representação de mulher como quem deve cuidar do lar e o homem com quem o provê. Entretanto, eis nesta ideia além de um hiato explícito de gênero (mulher dó- cil, homem viril), uma contradição com a própria “realidade” contemporânea, visto que as mulheres exercem outros papéis, como estudante, trabalhadora, motorista, entre outros (LEITE; ROMERO, 2017, p. 147). 36UNIDADE II Educação de Gênero e Sexualidade nos Espaços Educativos Nos espaços escolares, infelizmente, esse discurso, muitas vezes, se faz presente. Está em ação o que chamamos de binarismo, isto é, a ideia de que só existem duas formas de brincadeiras: de meninos e de meninas. A existência deste pensamento, faz com que limitemos o brincar e coloquemos em ação questões de gênero que tendem a reproduzir um pensamento de que exista “brincadeiras de meninos e brincadeiras de meninas”. E a escola nisto tudo? O que a escola produz e fala sobre sexualidade? Sachi (2018) aponta que, não raro, os discursos dos responsáveis familiares estão carregados de falas em que se encontra a afirmação de que a escola não é o espaço para se aprender sobre sexualidade. No entanto, a autora sinaliza que não é apenas na escola que esse conteúdo chega até as crianças, a diferença é que neste espaço o conteúdo é transmitido de maneira pedagógica e, logo, responsável. Ao levarmos em conta que a criança, a partir do seu nascimento, já entra em contato com o mundo por meio de diversas situações, a escola certamente não será seu primeiro ambiente de aprendizagem. Devemos levar em conta que as relações que essa mesma criança desenvolve com o meio em que está inserida fazem com que ela aprenda, de modo pedagógico ou não. O contato com outros seres humanos, os meios de comunicação e a mídia são fontes ricas de informação e de aprendizado. Entretanto, salientamos que, nos dias atuais, as crianças entram em contato com essas mídias cada vez mais cedo e sem a orientação de adultos (SACHI, 2018, p. 31). A partir disso, aluno(a), podemos perceber, conforme pontua Sachi (2018), o quão importante é que haja pessoas comprometidas e capacitadas para orientar as crianças acerca dessa temática. Também, é preciso que compreendamos que vivemos em uma so- ciedade atravessada e marcada pelas diferenças e pela multiplicidade de modos de viver, ou seja, precisamos desconstruir a ideia de que ser diferente é ser anormal e/ou errado. Não obstante, ainda nas palavras da autora, Levar em consideração que cada sujeito faz parte de um todo, e por conta disso ele se constitui de raça, classe, religião, etc., permite que façamos com que ele se incomode com a realidade exposta e busque respostas até então não encontradas de forma satisfatória, bem como faz com que facilitemos essa desconstrução, possibilitando de forma mais esclarecedora um novo aprendizado composto de questionamentos e possíveis respostas (SACHI, 2018, p. 32). Um exemplo de prática para se trabalhar nas salas de aula é a utilização de livros infantis que trazem consigo questões que possam nortear discussões e, consequente- mente, o trabalho educativo. Neste caminho, Leite e Romero (2017) apresentam o livro O menino que ganhou uma boneca, da autoria de Majô Baptistoni, enquanto instrumento para trabalhar, dentro dos espaços educativos,questões relacionadas à sexualidade. As autoras sugerem que a obra seja lida em conjunto com as crianças, a fim de que todas possam participar das discussões oriundas; os professores e professoras, neste momen- 37UNIDADE II Educação de Gênero e Sexualidade nos Espaços Educativos to, possuem grande importância, pois serão responsáveis pela mediação das discussões e problematizações. Claro que esta atividade não precisa se limitar com o livro proposto, mas sim que os(as) docentes possam explorar novos materiais e recursos para o trabalho dentro da sala de aula, contando com o objetivo de desconstruir ideias preestabelecidas e social- mente construídas. Outro recurso importante e útil é a utilização de filmes que abordam, de maneira responsável, a questão da sexualidade. A partir da exibição dos filmes, é possível que os professores elaborem questões disparadoras, a fim de produzir discussões e debates rela- cionados à temática. Ainda, é possível utilizar pinturas, charges e vídeos (RIBEIRO, 2013). A metodologia utilizada pelo professor pode ser a mais variada possível obser- vando e avaliando qual melhor didática sobre sexualidade lidar em cada sala de aula. Diálogo, seminário, pesquisas, debates, mesas redondas, palestras e formas lúdico-culturais que estimulem os alunos no entendimento de dificulda- des sexuais presentes na adolescência (LIMA; ALMEIDA, 2010, p. 729). Ademais, é importante sabermos, como pontua Ribeiro (2013, p. 61), que Nesse redemoinho de possibilidades, [é necessário] criar estratégias para ouvir as crianças, escutá-las, desde a mais tenra, saber que trazem consigo construções de gênero desiguais, sexistas, pois foram anos e anos de ades- tramento em que, não só a sexualidade vem sendo vigiada e normatizada, mas a identidade de gênero é construída diferentemente para homens e mu- lheres, meninos e meninas. Também, é importante que cada professor(a) busque desenvolver seus próprios recursos, de maneira criativa e que reflita a necessidade de seus alunos e alunas, a fim de que a experiência de obter conhecimentos acerca da sexualidade seja uma tarefa que proporcione a efetiva participação e interesse dos discentes. 38UNIDADE II Educação de Gênero e Sexualidade nos Espaços Educativos SAIBA MAIS Aluno(a), é muito importante que você conheça as diferentes nomenclaturas relaciona- das à sexualidade, a fim de evitar a repetição e produção de informações incorretas. Um exemplo: Orientação Sexual é o termo correto para expressar a maneira na qual uma pessoa se sente atraída física e/ou emocionalmente por outra. O termo Opção Sexual está incorreto, pois ninguém escolhe sua orientação sexual, visto que ela faz parte do desenvolvimento individual de cada pessoa. Para aprofundar a leitura nessa temática, acesse o material a seguir: JÚNIOR, I. B. de O.; MAIO, E. R. Opção ou orientação sexual: onde reside a homosse- xualidade? Anais do III Simpósio Internacional de Educação Sexual “Corpos, Identidade de Gênero e Heteronormatividade no espaço escolar”, Maringá, 2013. Disponível em: http://www.sies.uem.br/anais/pdf/diversidade_sexual/3-02.pdf. REFLITA “Trabalhar com a sexualidade no ambiente escolar ainda sinaliza um longo caminho. Talvez com mais clareza, desejos, discernimentos, mas ainda é preciso muito para que a educação sexual escolar se faça presente enquanto um projeto pedagógico coerente e adequado”. Fonte: Maio (2011, p. 205). 39UNIDADE II Educação de Gênero e Sexualidade nos Espaços Educativos CONSIDERAÇÕES FINAIS Caro(a) aluno(a), Chegamos ao fim da segunda unidade de estudos. Até aqui, já avançamos nos estudos relacionados ao gênero, sexualidade e educação. Como vimos na nesta unidade, as abordagens pedagógicas da educação sexual no Brasil passaram por grandes transfor- mações através do último século, refletindo, inclusive, na maneira que a educação sexual é trabalhada atualmente no contexto escolar. Também compreendendo os conceitos e as interfaces entre gênero e orientação sexual, refletindo acerca de como tais conceitos, de vasta importância, são abordados e, além disso, vividos no contexto escolar, seja por alunos e alunas ou pelo corpo docente. Por fim, no último tópico, encerramos com a apresentação de alguns recur- sos didático-metodológicos para a execução de um trabalho de Educação Sexual na Educação Infantil e Ensino Fundamental, que contemple e dê conta das necessidades contemporâneas. Com os conteúdos apresentados, espero que você tenha aproveitado ao máximo cada informação exposta. Nos encontramos na Unidade III para darmos continuidade nas discussões relacionadas à temática da sexualidade. Até logo! 40UNIDADE II Educação de Gênero e Sexualidade nos Espaços Educativos LEITURA COMPLEMENTAR Artigo: Gênero e sexualidade: pedagogias contemporâneas Resumo: Gênero e sexualidade são construídos através de inúmeras aprendiza- gens e práticas, empreendidas por um conjunto inesgotável de instâncias sociais e culturais, de modo explícito ou dissimulado, num processo sempre inacabado. Na contemporaneida- de, essas instâncias multiplicaram-se e seus ditames são, muitas vezes, distintos. Nesse embate cultural, torna-se necessário observar os modos como se constrói e se reconstrói a posição da normalidade e a posição da diferença, e os significados que lhes são atribuídos. Palavras-chave: gênero; sexualidade; pedagogias culturais; norma; diferença. Texto completo disponível em: https://www.scielo.br/pdf/pp/v19n2/a03v19n2.pdf 41UNIDADE II Educação de Gênero e Sexualidade nos Espaços Educativos MATERIAL COMPLEMENTAR LIVRO Título: Problemas de gênero: feminismo e subversão de identidade Autora: Judith Butler Editora: Civilização Brasileira Sinopse: Nesta obra, Judith Butler tece algumas reflexões acerca do feminismo e traz algumas críticas à noção de identidade, concei- to fortemente presente no movimento feminista. No livro, a autora apresenta a noção plural de identidade, afirmando que é preciso pensar a identidade enquanto vasta, múltipla e não singular. Ainda, a autora problematiza a oposição binária entre sexo e gênero. FILME Título: Transamérica Ano: 2005 Sinopse: Bree, uma mulher transgênero, pouco tempo antes de fazer a cirurgia de readequação sexual, descobre ter um filho, de quando ainda possuía uma identidade masculina. De volta a Los Angeles, Bree e o filho passam a se conhecer e buscam entender as particularidades e o mundo um do outro, com suas diferenças. 42 Plano de Estudo: ● Diálogos sobre crianças e adolescentes, gênero e sexualidade; ● Violência: exploração e abuso sexual; ● Integração entre escola e família. Objetivos da Aprendizagem: ● Conhecer a evolução da contabilidade e seus fundamentos históricos; ● Conceituar a contabilidade, seu objetivo e suas áreas de aplicação; ● Identificar os aspectos legais da contabilidade; ● Compreender as características da informação e quem as utiliza UNIDADE III Sexualidade na Infância e Adolescência Professor Esp. Jose Valdeci Grigoleto Netto 43UNIDADE III Sexualidade na Infância e Adolescência INTRODUÇÃO Olá, aluno(a)! Seja bem-vindo(a) à terceira unidade da disciplina Gênero, Sexualidade e Edu- cação. Neste momento, iremos conhecer alguns pontos muito importantes relacionados à intersecção entre infância, adolescência, gênero e sexualidade, além de estudarmos os tipos de violências sexuais comumente praticadas contra essas pessoas e, por fim, iremos conhecer a importância da interação entre escola e a família. Assim, no Tópico I iremos conhecer alguns diálogos possíveis que podem ser realizados com crianças e adolescentes relacionados ao tema do gênero e da sexualidade, conhecendo o papel da escola neste quesito. Avançando, no Tópico II vamos conhecer alguns conceitos importantes que dizem respeito à violência sexual, elencando os dois tipos de violências existentes e, também, apresentando algumasleis que asseguram a garantia de direitos para estes sujeitos, a fim de protegê-los e, muito importante, impedir que as vítimas sejam revitimizadas. Chegando ao Tópico III, para finalizar a unidade, iremos estudar acerca da interação entre a escola e a família para que possamos compreender a importância de um trabalho que leve em consideração o papel da família na educação de crianças e adolescentes e a importância da efetiva participação de pais e responsáveis no processo de escolarização. Desta maneira, a partir dos estudos selecionados, espero que os textos e discus- sões aqui contidos sejam úteis para seus estudos e sua futura prática docente. Bons estudos! 44UNIDADE III Sexualidade na Infância e Adolescência 1. DIÁLOGOS SOBRE CRIANÇAS E ADOLESCENTES, GÊNERO E SEXUALIDADE Aluno(a), vamos iniciar o primeiro tópico desta unidade refletindo acerca dos diá- logos possíveis entre crianças e adolescentes e a questão do gênero e da sexualidade. Como vimos na unidade anterior, discutir educação sexual não é discutir relação sexual, mas sim a imensa gama de elementos que compõem a sexualidade humana. Vamos lá? Carvalho et al. (2012) pontuam que a sexualidade infanto-juvenil foi silenciada por “verdades científicas”, que a colocaram enquanto pertencente unicamente aos sujeitos que já possuem os órgãos genitais plenamente desenvolvidos para a prática sexual. Infelizmen- te, essa ideia, tão aceita socialmente nos dias de hoje, impede que crianças e adolescentes tenham contato com a dimensão sexual de suas vidas. Assim, o que podemos constatar é que, nos últimos séculos, a sexualidade passou a ser vista Como mal a ser expurgado da vida das crianças, a sexualidade passa a ser perseguida e proibida por moralistas e confessores em nome da preservação da inocência infantil, atributo que institui a infância na modernidade. Nessa lógica, a criança só é inocente porque está afastada do sexo, experiência possível e permitida apenas para a vida adulta.Por meio das penitências re- ligiosas, dos tratados de boas maneiras e da literatura infantil, a moral bur- guesa ensina as crianças a sentirem culpa por seus desejos, ideias e práticas sexuais, traduzindo-se em valor inabalável, que constitui os sujeitos, crianças e adultos, e demarca suas relações com o próprio corpo e com o mundo (CARVALHO et al., 2012, p. 71). 45UNIDADE III Sexualidade na Infância e Adolescência Destaca-se que falar em sexualidade na infância refere-se ao conhecimento do próprio corpo e, também, às experiências de afeto. A escola, neste cenário, através de seus elementos curriculares, também traz representações acerca do corpo do outro. Segundo Miranda (2014, p. 189), “A representação do corpo do outro constitui positivamente ou negativamente, de forma visceral, a identidade social do sujeito. E a escola [...] é lugar de representação das diferenças de gênero, sexualidade, etnia/raça e classe”. Desta forma, A sexualidade refere-se a um dos âmbitos que compõe a subjetividade e que se conecta não apenas ao prazer, mas a outros elementos, como a afetivida- de, a autonomia, a liberdade (e que não se restringe aos fins reprodutivos). Ora, se partirmos desta ótica, a sexualidade passa a ser considerada como uma instância da vida humana que é construída culturalmente, respondendo aos anseios sociais que são desenhados de acordo com as expectativas en- dereçadas aos indivíduos (CARVALHO et al., 2012, p. 72). Aluno(a), agora podemos pensar que, ao refletirmos acerca da infância e adoles- cência e suas interfaces com gênero e sexualidade, é válido pensarmos no papel da escola na construção da identidade destes alunos. Como vimos, a escola é um local importante de construção de representações que darão sentido aos alunos acerca de seus corpos e dos corpos dos outros. Logo, através de seus inúmeros instrumentos, a instituição escolar é central na formação de sujeitos que convivam com as diferenças. Podemos, então, compreender identidade como sendo [...] um processo de construção que não realizamos de forma totalmente au- tônoma, sozinhos. Identidade sempre é relacional, depende do diferente, do Outro, da diferença para que saibamos quem não somos. É importante de- marcar também que as identidades adquirem sentido através da linguagem (MIRANDA, 2014, p. 193). Neste viés, crianças e adolescentes que não se identificam com o modelo hege- mônico da heterossexualidade e que não possuem suas diferenças reconhecidas e valida- das no campo escolar são sujeitos que estão tendo suas diferenças ignoradas e, com isso, sofre-se o que conhecemos como heterossexualização compulsória (MIRANDA, 2014). A escola, na grande maioria das vezes, não abarca as diferenças, trabalhando em seu currículo exclusivamente com as expressões da heterossexualidade enquanto norma. Seja com o binarismo/separação de atividades para meninos e outras atividades para meninas, filas separadas para o sexo masculino e o sexo feminino, dentre outros tantos exemplos possíveis. Com isto, ao falarmos da heterossexualização compulsória, estamos nos referindo a um processo que: [...] implica no direcionamento da conduta, das expressões corporais, da in- dumentária, do modo de falar e de andar para uma perspectiva heteronor- mativa, regressando ao lugar “normal” de comportamento. O masculino e o feminino devem corresponder às designações do sexo de cada um para a “boa convivência” em sociedade. A perspectiva heteronormativa termina por instituir a diferença sexual que propõe uma organização social onde é possí- vel identificar os sujeitos em relação ao sexo/gênero/sexualidade (MIRANDA, 2014, p.194). 46UNIDADE III Sexualidade na Infância e Adolescência Ao contrário disso, a escola precisa ser um espaço que enxergue crianças e adolescentes enquanto sujeitos ativos no mundo, isto é, enquanto pessoas que possuam sexualidade e, com isso, precisam compreender as transformações que os acompanham durante seu desenvolvimento. A escola pode ser um espaço protetivo para os adolescentes, mesmo em contextos sociais de maior vulnerabilidade. Assim, o contexto escolar pode ser um local potente para pensar em intervenções que busquem diminuir as desigualdades em saúde, pois, além de ser um espaço de convivência, acaba por ser parte constituinte de subjetividade. A escola pode possibilitar aos jovens construir conceitos sobre o mundo, formalizando conhecimentos e critérios para o processo decisório das inúmeras questões referentes ao seu cotidiano (EW et al., 2017, p. 51). Por isso, proporcionar diálogos e espaços para englobar gênero e sexualidade com crianças e adolescentes é, antes de tudo, respeitar o direito destes sujeitos a debaterem sobre este tema, a sanarem suas dúvidas, curiosidades e, com isso, obterem conhecimento de maneira pedagógica. Ainda, quando trabalhamos a questão da sexualidade, estamos atuando, inclusive, na prevenção de violências. Neste viés, Gagliotto e Vagliati (2014) destacam que a escola possui papel de protagonista no rompimento do pacto de silêncio em torno das violências sexuais e, com isso, pode auxiliar pais e alunos a compreenderem e lidarem de maneira adequada com o tema da sexualidade. Ainda, conforme Correa (2013), a violência possui diversas variantes que se alteram com o tempo e, com isso, se faz necessário que olhemos para o conceito de violência enquanto algo que vá além da ideia de machucar e agredir. Seguindo esta ideia, no próximo tópico iremos compreender um pouco mais acerca do tema da violência sexual praticada contra crianças e adolescentes. Vamos lá? 47UNIDADE III Sexualidade na Infância e Adolescência 2. VIOLÊNCIA: EXPLORAÇÃO E ABUSO SEXUAL Aluno(a), neste tópico iremos conhecer um pouco acerca da violência sexual prati- cada contra crianças e adolescentes. Ao discutirmos sexualidade, se faz de extrema impor- tância conhecermos acerca deste tipo deviolência. Neste sentido, iremos compreender os dois tipos que compõem a violência sexual: o abuso e a exploração. Segundo Cunha (2020), os números relacionados à violência sexual contra crian- ças e adolescentes atingiram uma marca exponencial e, por isso, alarmante no período que compreende os anos de 2011 a 2019. Através de dados obtidos pela Ouvidoria Nacional dos Direitos Humanos (Disque 100), foram registradas mais de 200 mil denúncias neste período. Ainda, se faz relevante pensarmos que nem todos os casos são notificados, o que acaba por elucidar que os números podem ser muito maiores. A Organização Mundial de Saúde estima que apenas 01 em cada 20 casos de abuso chega ao conhecimento dos órgãos de proteção à infância. Logo, das 640.000 (seiscentas e quarenta mil) crianças e adolescentes violentados sexualmente em 2018 no Brasil, apenas 32.000 (trinta e dois mil) casos foram apurados. Isso significa que os outros 608.000 (seiscentos e oito mil) abu- sadores permanecem livres de qualquer punição e, o que é pior, livres para continuarem destruindo a infância de milhões de crianças e adolescentes ao longo de muitos e muitos anos (MPCE, 2020, p. 8). Logo, podemos perceber que precisamos ficar atentos com este tema. Como po- demos constatar, os números são alarmantes. A violência sexual contra crianças e adoles- centes deve ser sempre denunciada. No entanto, para que isso ocorra de maneira efetiva, é 48UNIDADE III Sexualidade na Infância e Adolescência preciso que o assunto seja discutido, que pautas sejam levantadas, que campanhas sejam realizadas e, ainda, que toda a sociedade se mobilize. Ainda em relação aos números, se faz necessário destacar que A violência sexual infantil ocorre com frequência bem maior do que pode- mos imaginar. Em média, a cada hora, quatro crianças e adolescentes são abusados no Brasil. Essa prática não é recente, muito menos vinculada a uma faixa etária, condição social, localização geográfica ou sexo da vítima (MPCE, 2020, p. 3). Neste caminho, é importante que conheçamos alguns conceitos relacionados à violência sexual. Para começar, trago a definição de Brasil (2020), que pontua o fenômeno do abuso sexual como todo ato de natureza erótica, permeado pela presença ou não de contato físico e força, em que haja um adulto e uma criança e/ou adolescente, ou um adolescente mais velho e uma criança. Neste caminho, existem dois tipos de abuso sexual: o de ordem intrafamiliar, isto é, em que o agressor faz parte da família da vítima, ligado por laços de consanguinidade (pais, irmãos, avós, tios, dentre outros), legalidade (guarda, tutela ou adoção) ou afinidade (padrasto, madrasta, cunhados etc.) e o abuso de ordem extrafamiliar, praticado por pessoas conhecidas ou desconhecidas da vítima. Já a exploração sexual está relacionada com o ato de usar a criança enquanto meio para a obtenção de lucro ou algum outro tipo de vantagem por parte do adulto. A vio- lência, neste caso, é de duas ordens: a primeira que refere à violação de seu próprio corpo enquanto meio para obtenção de vantagens (na maioria das vezes de ordem financeira) e sendo abusada por outro indivíduo (MPCE, 2020). Se faz extremamente importante destacar que crianças e adolescentes que so- frem abuso sexual nunca devem ser encarados como culpados. Ao contrário, crianças e adolescentes são vítimas, pois, enquanto sujeitos peculiares em fase de desenvolvimento, acabam por estarem em posição de inferioridade frente ao poder do adulto, em que este leva vantagens sobre a vítima (BRASIL, 2020). A exploração sexual de crianças e adolescentes é considerada crime hedion- do, sem prejuízo da responsabilização criminal de todas as pessoas envol- vidas nos abusos cometidos. A exploração pode ocorrer de quatro formas: prostituição, pornografia, redes de tráfico de pessoas e turismo com motiva- ção sexual (MPCE, 2020, p. 6). É preciso destacar que crianças e adolescentes possuem direitos legalmente as- segurados, estando amparadas por legislações específicas. A constituição de 1988, por exemplo, em especial o Art. 227, já demarca isso, assinalando que É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao ado- lescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignida- de, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão (BRASIL, 1988, s.p.). 49UNIDADE III Sexualidade na Infância e Adolescência Avançando, em 1990, com o Estatuto da Criança e do Adolescente - Lei nº 8.069/1990, crianças e os adolescentes passaram a ter um documento norteador que assegura seus direitos e, com isso, o documento foi um marco na efetivação de crianças e adolescentes enquanto sujeitos de direitos (BRASIL, 1990). Entre os pontos importantes que a lei traz, se faz pertinente destacar o artigo 5º, que elucida que: Nenhuma criança ou adolescente será objeto de qualquer forma de negligên- cia, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão, punido na forma da lei qualquer atentado, por ação ou omissão, aos seus direitos fun- damentais (BRASIL, 1990, s.p., grifo nosso). Neste sentido, a fim de um correto manejo dos casos de violência e visando a não revitimização destes sujeitos, ou seja, com o objetivo de evitar que crianças e adolescentes tenham que reviver e narrar os eventos repetidas vezes, recentemente houve um marco para a garantia e manutenção dos direitos destes sujeitos, com a promulgação da Lei nº 13.431/2017, que estabelece o sistema de garantia de direitos da criança e do adolescente vítima ou testemunha de violência. Esta legislação visa assegurar o correto atendimento às crianças e adolescentes, ao conceituar e diferenciar a escuta especializada e o depoimento especial. A lei, ainda, traz várias especificidades de como este público será acolhido e, também, apresenta alguns conceitos importantes. Nesta lei, a escuta especializada passa a ser configurada enquanto “[...] o pro- cedimento de entrevista sobre situação de violência com criança ou adolescente perante órgão da rede de proteção, limitado o relato estritamente ao necessário para o cumprimento de sua finalidade” (BRASIL, 2017, s.p.), ou seja, oferecer acolhimento às vítimas e ofe- recendo-lhe respeito, a fim de evitar a repetição do relato da violência. Já o depoimento especial é conceituado como “[...] o procedimento de oitiva de criança ou adolescente vítima ou testemunha de violência perante autoridade policial ou judiciária” (BRASIL, 2017, s.p.) que objetiva a produção de provas para a utilização nos processos judiciais. FIGURA 1 - VIOLÊNCIA SEXUAL INFANTIL 50UNIDADE III Sexualidade na Infância e Adolescência É muito importante que todas as pessoas envolvidas no atendimento a crianças e adolescentes, seja em qualquer política que estejam inserida (educação, saúde, assistência social etc.), conheçam estas legislações. A violência, infelizmente, é um fenômeno presente em nossa realidade e, como vimos, independe de condição econômica, faixa etária ou localização geográfica, se faz presente em todos os espaços e contextos. Neste caminho, Alencar et al. (2009) elucidam alguns mitos comumente presentes quando se fala acerca da violência sexual contra crianças e adolescentes. O primeiro mito refere-se à ideia de que tais casos ocorrem apenas em famílias pobres. Outro mito é que apenas meninas sofrem violência sexual; ao contrário, meninos também são vítimas, mes- mo que os dados apresentem uma predominância de meninas serem violentadas. Seguindo, um outro mito que, infelizmente, ainda cerca o pensamento de muitas pessoas é a noção de que os homossexuais são potenciais violentadores por conta de suaorientação sexual. Neste caso, percebe-se que os setores conservadores da sociedade, to- mando carona em uma situação trágica e cruel, como é o caso da violência sexual, buscam manchar a imagem de uma parcela da sociedade que já sofre inúmeras situações de pre- conceito e discriminação, estando pautados, é claro, em noções moralistas e homofóbicas. Desta maneira, podemos perceber como é importante que estejamos sempre pau- tados em ideias corretas e que fujam do senso comum, isto é, de informações erroneamente compartilhadas e que, muitas vezes, nós reproduzimos sem termos certeza dos fatos. Por isso, é importante que seja discutido, desde o contexto escolar, maneiras de prevenir a violência sexual contra crianças e adolescentes. Essa discussão não pode ser deixada de lado, pois, como vimos, a violência está presente, infelizmente, em todos os espaços de nossas sociedades. 51UNIDADE III Sexualidade na Infância e Adolescência 3. INTEGRAÇÃO ENTRE ESCOLA E FAMÍLIA Aluno(a), você já pensou na importância da família assumir um papel ativo na es- colarização de crianças e adolescentes? Assim, se faz necessário que haja uma interação, isto é, uma comunicação presente entre a família e a instituição escolar, a fim de que o processo possa ser o mais positivo e funcional possível. Porém, o que se percebe é que No campo da educação brasileira, temos observado a dificuldade encontrada pelos(as) gestores(as) de escolas [em] estabelecerem parceria entre o espa- ço escolar e a família dos(as) alunos(as). Frequentemente, podemos obser- var que a maioria dos(as) educadores(as) reclamam da pouca ou nenhuma demonstração de interesse da família em participar do cotidiano escolar do(a) filhos(as) (CREPALDI, 2017, p. 1173). Neste caminho, Crepaldi (2017) sinaliza também que a participação dos pais/res- ponsáveis na vida da criança é um fator de extrema importância para garantir um efetivo desenvolvimento e, ao se relacionar com o espaço escolar, quando há a participação destes adultos no processo de escolarização das crianças, a “[...] criança fica mais confiante, uma vez que percebe que todos se interessam por ela, e também porque passam a conhecer quais são as dificuldades e quais os conhecimentos que ela tem” (p. 11737). A família representa o alicerce para que o indivíduo construa uma boa es- trutura social, pois é dentro do espaço familiar que a criança determina os primeiros relacionamentos, que depois abrangerá a escola e por fim a socie- dade. Por isso, a participação da família na vida da criança é de suma impor- tância, é ela que servirá de modelo de relacionamentos para que, mais tarde, ela se relacione com outras pessoas (CREPALDI, 2017, p. 11737). 52UNIDADE III Sexualidade na Infância e Adolescência Ademais, de acordo com Lima et al. (2010), a família é a primeira instância na qual a criança recebe informações acerca do que seja a sexualidade. No entanto, por diversos motivos, como receio e vergonha, muitas famílias não abordam esta temática com as crian- ças, o que acaba relegando à sexualidade um local de tabu e interdito. No entanto, mesmo que pareça difícil e até mesmo impossível, é necessário abordar esse tema com crianças e adolescentes. Falar acerca deste assunto é auxiliar no pleno desenvolvimento sadio destes sujeitos que, por mais que muitas vezes os pais e/ou responsáveis pensem que as crianças não estão preparadas para lidarem com este assunto, necessitam que a sexualidade seja abordada (LIMA et al., 2010). Ao chegar a esse momento, é necessário que a família dê respostas claras e precisas de acordo com a idade e, se por acaso não puderem responder no momento para esclarecer as dúvidas, não se deve repassar qualquer res- posta. É muito importante a atitude ao responder às perguntas, saber o tom de voz a ser utilizado, a segurança nas informações, o fato de estar ou não à vontade, tudo isto é captado pela criança também sob a forma de informação (LIMA et al., 2010, p. 85). Neste caminho, a escola possui um papel que vai de encontro com o desenvolvi- mento pelas instituições familiares. Ao abordar o tema da sexualidade, É necessário que a escola como instituição educacional esteja bem prepara- da para lidar com esse assunto, sendo assim posicionando-se de forma clara e consciente sobre as referências e limites com os quais deve trabalhar as expressões da sexualidade da criança (LIMA et al., 2010, p. 86). Vê-se, então, que a família, a escola e também a sociedade podem propor, juntas, uma educação sexual infantil que seja pautada em conceitos e ideias éticas e, principalmen- te, na noção de diversidade entre as pessoas, respeitando as diferenças e particularidades dos sujeitos (LIMA et al., 2010). A integração da escola com a família e de toda a comunidade, por meio de diálogos, é fundamental, uma vez que a escola é compreendida como um elemento de mediação entre o(a) aluno(a) e a família. Alguns(as) professo- res(as) conhecem mais sobre o(a) aluno(a) que a própria família que, em muitos casos, surpreende-se ao ser chamada na escola para ouvir certos comentários em relação ao(à) filho(a) (CREPALDI, 2017, p. 11737). Por fim, com estes pressupostos básicos, como destaca Correa (2013), pode-se afirmar que a escola possui grande capacidade de deixar de assumir uma posição caracte- rizada pela opressão e repressão, tornando-se um local que seja seguro e livre para todas as pessoas sentirem-se incluídas e pertencentes. 53UNIDADE III Sexualidade na Infância e Adolescência SAIBA MAIS Aluno(a), você sabia que o dia 18 de março é considerado o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual Infantil? Essa data foi instituída a partir da aprovação da Lei Federal n° 9.970/00. A data, no entanto, não foi escolhida de maneira aleatória. No dia 18 de maio de 1973, Araceli, uma menina de apenas 8 anos de idade, foi brutalmente abusada e assassina- da. A intenção, com esta data, é mobilizar e convocar toda a sociedade para participar dessa luta e proteger todas as crianças e adolescentes. A data, ainda, busca reafirmar a importância de se denunciar e responsabilizar os autores de violência sexual contra a população infanto-juvenil. No caso de Araceli, os criminosos, infelizmente, ficaram impunes. Fonte: CDHPF (2017). REFLITA “A discriminação homofóbica e de gênero causou, e ainda causa, taxas altíssimas de evasão escolar, que, em última análise, significam que centenas de pessoas desistem de sonhos e projetos pessoais, porque as instituições ainda são ineptas para discutir e garantir a convivência com a diversidade. Não raro, o bullying contra homossexuais, dentro da família, da escola e da sociedade, tem levado pessoas a desistirem da vida, numa consequência extrema da falta de políticas educativas, de esclarecimento da so- ciedade em geral, e da contenção da violência contra o/a “diferente”. Fonte: Maio e Correa (2013, p. 17). 54UNIDADE III Sexualidade na Infância e Adolescência CONSIDERAÇÕES FINAIS Caro(a) aluno(a), Chegamos ao fim da terceira unidade da disciplina Gênero, Sexualidade e Educa- ção. Agora, a partir dos estudos que realizamos neste material, você já aprofundou seus conhecimentos relacionados à essa temática. No momento, você já conheceu alguns pontos muito importantes relacionados à intersecção entre infância, adolescência, gênero e sexualidade, além de ter entrado em contato com os tipos de violências sexuais que são praticadas contra crianças e adolescentes. Ainda, você teve a oportunidade de estudar sobre a importância da interação entre escola e a família. Recapitulando, no Tópico I contamos com alguns diálogos possíveis que podem ser realizados com crianças e adolescentes relacionados ao tema do gênero e da sexualidade, conhecendo o papel da escola neste quesito. Já no Tópico II, foi possível conhecer alguns conceitos importantes quedizem respeito à violência sexual, em que foram apresentados os dois tipos de violências sexuais que são existentes. Neste momento, apresentamos algumas leis que asseguram a garantia de direitos para esses sujeitos, como o Estatuto da Criança e do Adolescente, por exemplo. Ao fim da unidade, Tópico III, estudamos acerca da interação entre a escola e a família e a importância da realização de um trabalho que leve em consideração o papel da família na educação de crianças e adolescentes e também a importância da efetiva participação de pais e responsáveis no processo de escolarização. Nos encontramos na próxima e última unidade desta disciplina para darmos conti- nuidade nas discussões relacionadas à sexualidade, gênero e educação. Até logo! 55UNIDADE III Sexualidade na Infância e Adolescência LEITURA COMPLEMENTAR Artigo: Violência sexual contra crianças e adolescentes: identificação, consequên- cias e indicações de manejo Resumo: A Violência Sexual (VS) contra crianças e adolescentes é um problema de saúde pública que costuma produzir consequências na vida das vítimas. Embora a VS afete milhões de crianças e adolescentes no Brasil e no mundo, ela ainda é subnotificada. Neste cenário, os profissionais que possuem contato com essa população têm papel fun- damental na identificação e na escuta das revelações de VS. No entanto, nem sempre os profissionais possuem informações suficientes para agir diante destes casos. Desta forma, este artigo tem o intuito de descrever o(s) conceito(s) de VS, suas consequências e indica- ções de manejo. Ressalta-se a importância dos profissionais terem uma escuta empática em situações de revelação da VS, bem como a necessidade de notificação dos casos de suspeita de VS aos serviços competentes. Palavras-chave: Violência sexual; Criança; Adolescente; Revelação; Defesa da criança e do adolescente. Texto completo disponível em: HOHENDORFF, J. V.; PATIAS, N. D. Violência sexual contra crianças e adoles- centes: identificação, consequências e indicações de manejo. Revista Barbarói, Santa Cruz do Sul, n. 49, p. 239-257, 2017. Disponível em: https://online.unisc.br/seer/index.php/ barbaroi/article/view/9474/6913. 56UNIDADE III Sexualidade na Infância e Adolescência MATERIAL COMPLEMENTAR LIVRO Título: Pipo e Fifi - Ensinando Proteção contra violência sexual Autora: Caroline Arcari Editora: Caqui Sinopse: O livro ensina, para crianças, conceitos básicos relacio- nados ao corpo, emoções e sentimentos. Ainda, é uma ferramenta de grande importância para ensinar às crianças a diferença entre carinho e abuso. O livro apresenta atividades para que as crianças aprendam a refletir e a conhecer conceitos importantes sobre abuso sexual. FILME/VÍDEO Título: O quarto de Jack Ano: 2015 Sinopse: O filme retrata o drama da adolescente Joy e seu filho Jack enquanto vivem isolados em um quarto, após o sequestro e estupro de Joy. O velho Nick, o violentador, os mantêm em cati- veiro. Ao longo do filme, Joy faz o possível para tornar suportável a vida no local, mas busca a todo tempo uma maneira de sair do cativeiro. Ela elabora um plano em que, com a ajuda do filho, poderá enganar Nick e retornar à realidade. 57 Plano de Estudo: ● Processo de educação sexual existente nos espaços educativos; ● Construção de educação sexual com base em uma proposta emancipatória; ● O ensino dos Direitos Humanos no contexto escolar. Objetivos da Aprendizagem: ● Contextualizar os processos de educação sexual atualmente presentes nos espaços escolares; ● Compreender a relevância da educação sexual enquanto uma proposta emancipatória; ● Estabelecer a importância dos Direitos Humanos e suas interfaces com o contexto escolar. UNIDADE IV Práticas Pedagógicas com Base em uma Educação Sexual Emancipatória Professor Esp. Jose Valdeci Grigoleto Netto 58UNIDADE IV Práticas Pedagógicas com Base em uma Educação Sexual Emancipatória INTRODUÇÃO Olá, aluno(a). Seja bem-vindo(a) à última unidade da disciplina Gênero, Sexuali- dade e Educação. Agora, após todo o conteúdo que trabalhamos no decorrer das aulas anteriores, iremos conhecer um pouco mais acerca dos processos de educação sexual atualmente presentes nos espaços educativos. Neste caminho, iremos conhecer, na sequência, a proposta de uma educação sexual emancipatória e, por fim, iremos debater acerca da importância e urgência de discutirmos os direitos humanos e suas interfaces com a educação. Assim, no Tópico I iremos conhecer as principais práticas adotadas no contexto educacional para o trabalho com a educação sexual, em especial o enfoque que se é dado para a questão da biologia e aos aspectos reprodutivos. Na sequência, no Tópico II vamos conhecer a educação emancipadora e sua importância para a formação de alunos e alunas que consigam desenvolver um senso crítico frente às informações. Ainda neste tópico iremos nos debruçar, rapidamente, na compreensão do educador Paulo Freire acerca do que venha ser uma educação voltada para a emancipação. Para finalizar, no Tópico III iremos estudar o conceito de direitos humanos, seu surgimento e trajetória e conhecer suas interfaces e aplicações nos espaços escolares, a fim de garantir a efetivação dos direitos básicos dos seres humanos. Desta maneira, a partir dos estudos selecionados, espero que os temas e reflexões aqui contidos sejam úteis para seus estudos. Bons estudos! 59UNIDADE IV Práticas Pedagógicas com Base em uma Educação Sexual Emancipatória 1. PROCESSO DE EDUCAÇÃO SEXUAL EXISTENTE NOS ESPAÇOS EDUCATIVOS Aluno(a), vamos iniciar a discussão do nosso primeiro tópico em que iremos traba- lhar a questão dos processos de educação sexual que se fazem inseridos, atualmente, nos contextos educacionais. Vamos lá? Santos (2016) sinaliza que desde 1997 o Ministério da Educação (MEC) propõe, através dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), os temas que devem atravessar de maneira transversal, isto é, serem abordados por diferentes áreas. A questão da orientação sexual e os aspectos relacionados à sexualidade caracteriza-se enquanto um destes temas. No entanto, de acordo com Gagliotto e Lembeck (2011), ainda existe, nos dias de hoje, um foco totalmente biológico nas escolas quando vamos nos referir à educação sexual. A transmissão dos conteúdos e informações se dá de maneira técnica, sem o envol- vimento efetivo dos alunos e alunas. Na maioria das vezes, o tema é deixado apenas para ser apresentado nas disciplinas de ciências e/ou biologia. Sendo assim, Se a escola não trata da questão sexual ou se esta trabalha apenas a ques- tão biológica da sexualidade, ela está transmitindo aos alunos que o assunto é mesmo um tabu, do qual não se pode falar. A omissão da escola e da famí- lia faz com que as crianças e os adolescentes busquem informações sobre o assunto em fontes bem menos seguras, como em revistas, internet, na rua com “amigos”, tão despreparados quanto eles (GAGLIOTTO; LEMBECK, 2011, p. 4). 60UNIDADE IV Práticas Pedagógicas com Base em uma Educação Sexual Emancipatória Ainda de acordo com as autoras anteriormente pontuadas, mesmo com todo o silenciamento, a educação sexual tem se apresentado enquanto um tema de extrema necessidade de ser abordado nos espaços educativos, visto a relevância e importância de se trabalhar os campos do amor, do afeto e das relações sociais e sexuais dos sujeitos. A educação sexual proporciona, neste sentido, o desenvolvimento de uma sexualidade responsável e, ao mesmo tempo, prazerosa, em que os indivíduos possam vivenciar essas experiências que fazem parte do desenvolvimento humano. No cotidiano da sala de aula surgem frequentemente questões relacionadas sobre sexualidade, nesse sentido, cabe à escola ofertar um espaço em que possam ser esclarecidas suas dúvidas edesmistificar os tabus que envolvem o tema da sexualidade. [...] A escola deve informar e discutir os diferentes tabus e preconceitos, desconstruindo as crenças e atitudes existentes na so- ciedade, buscando levar o aprimoramento das concepções de sexualidade (SANTOS, 2016, p. 29). Em um estudo realizado por Vieira e Matsukura (2017), as autoras identificaram a existência de dois tipos de modelos que professores e professoras utilizam para a aborda- gem da sexualidade: o modelo biológico-centrado e preventivo e o modelo biopsicossocial. Dos professores que foram entrevistados, de um total de dez, seis relataram utilizar o pri- meiro modelo e apenas quatro utilizam o segundo. O primeiro modelo foca seu trabalho em medidas preventivas de gravidez na adolescência e DST/AIDS. Já o modelo biopsicosso- cial se preocupa, também, com outros aspectos, de maneira mais abrangente, abarcando as questões afetivas e socioculturais. Com a pesquisa, as autoras concluíram que muitos avanços se fazem necessários, como o desenvolvimento da autonomia dos sujeitos, por exemplo. A sexualidade, neste sentido, precisa ser compreendida enquanto algo que vai além do campo biológico, que proporcione um espaço emancipatório para os sujeitos. Educação sexual é muito mais do que meramente falar do sistema reprodutor e de doenças sexualmente transmissíveis. Uma verdadeira educação sexual precisa abranger a sexualidade humana como um todo, superando o senso comum e possibilitando o esclarecimento das dúvidas de forma compreensi- va e amigável; minimizando assim a repressão que faz do sexo um ato sujo e pecaminoso; abrindo caminho para uma transformação social, sendo que, para alcançarmos uma educação sexual verdadeiramente emancipatória, é preciso superar toda a cultura velha e decadente que ainda vem sendo arras- tada e trabalhar sob um conceito novo e que tenha capacidade de superar todos os preconceitos que assombram a sexualidade do ser humano (GA- GLIOTTO; LEMBECK, 2011, p. 4). É preciso, então, que a atuação docente não se limite aos aspectos biológicos. Como destaca Furlani (2003), é preciso que seja ampliada a visão de sexualidade atrelada à reprodução. Essa ideia ligada ao aparelho ou sistema reprodutor, inclusive, está presente nos livros didáticos das escolas. 61UNIDADE IV Práticas Pedagógicas com Base em uma Educação Sexual Emancipatória Realizar orientação sexual na escola era proibido oficialmente. Atualmente o momento é outro. A escola não pode mais fugir ao seu papel de educadora e ignorar a questão sexual do aluno e tampouco acreditar que, dando apenas informações biológicas, como palestras uma vez ao ano, já está fazendo edu- cação sexual (GAGLIOTTO; LEMBECK, 2011, p. 3). Neste momento, podemos pensar acerca da formação de professores e professoras para o efetivo trabalho e discussão desta temática. Como pontuam Finco, Souza e Oliveira (2017), é notório que nas instituições de ensino superior o tema do gênero não atravessa os currículos de formação docente. Logo, torna-se tarefa complicada que esses profissionais consigam trabalhar a questão da diversidade junto com seus alunos e alunas. O processo de orientação sexual deve estar inserido na escola, e realizada por docentes, esses profissionais devem ser dinâmicos, multiculturais e refle- xivos. É necessária sua constante busca pelo saber, para o desenvolvimento de suas práticas pedagógicas e a aquisição de novos conceitos, não é permi- tido ao professor emitir opiniões pessoais (SANTOS, 2016, p. 33). Assim, se o trabalho relacionado ao gênero e à diversidade já se constituiu enquanto tarefa sensível e delicada, podemos concluir que mais delicado ainda se torna o ensino da sexualidade, em sua totalidade. Para tanto, como veremos no tópico a seguir, é preciso que seja desenvolvida, nas salas de aulas, uma proposta de educação sexual emancipatória. 62UNIDADE IV Práticas Pedagógicas com Base em uma Educação Sexual Emancipatória 2. CONSTRUÇÃO DE EDUCAÇÃO SEXUAL COM BASE EM UMA PROPOSTA EMANCIPATÓRIA Para iniciar, vamos aprender o que significa a palavra emancipatória? Segundo o Dicionário Online de Português, emancipatório é tudo aquilo que possui a capacidade de se tornar livre e independente. Emancipar é tornar suficiente, autônomo. Logo, você pode estar se perguntando: mas o que a educação tem a ver com isso? Adiante vamos responder a essa questão. De acordo com Gagliotto e Lembeck (2011), a educação sexual tem se apre- sentado enquanto um tema de extrema necessidade de ser abordado nos espaços educativos, visto a relevância e importância de se trabalhar os campos do amor, do afeto e das relações sociais e sexuais dos sujeitos. A educação sexual proporciona, neste sentido, o desenvolvimento de uma sexualidade responsável e, ao mesmo tempo prazerosa, em que os indivíduos possam vivenciar essas experiências que fazem parte do desenvolvimento humano. Neste caminho, os autores nos propõem a pensar algumas questões interessantes quanto ao papel da escola na educação sexual pontuando, ainda, que 63UNIDADE IV Práticas Pedagógicas com Base em uma Educação Sexual Emancipatória A escola é um espaço que preenche lacunas, erradica preconceitos, tem o poder de aprofundar informações e por que não afirmar que esta pode, sim, propiciar uma visão ampla e diversa das opiniões sobre os temas da sexua- lidade. Mas, qual é o papel que a escola deve deter a respeito do tema se- xualidade? Cabe à escola e ao professor orientar seus alunos a respeito da sexualidade? Os professores têm condições de trabalhar o assunto com os alunos? (GAGLIOTTO; LEMBECK, 2011, p. 2). É importante destacarmos que as relações de poder presentes nos espaços edu- cativos desempenham um papel determinante no processo de ensino e aprendizagem. As ideologias dominantes, compostas pela burguesia, interferem diretamente nos espaços educacionais, em que há uma busca pela manutenção de interesses que vão de encontro com suas ideologias. Neste caminho, os professores, muitas vezes desmotivados por inúmeros motivos, como a questão da desvalorização de suas funções, acabam apenas reproduzindo os conteúdos, desanimados com a prática docente. Assim, os professores, muitas vezes, ao reproduzirem os conteúdos, não proporcionam espaços para o desenvol- vimento crítico dos sujeitos, ao transmitirem conteúdos acabados, prontos (GAGLIOTTO; LEMBECK, 2011). Para educar sexualmente, numa perspectiva emancipatória, o professor pre- cisa estar pré-disposto a rever velhos conceitos e preconceitos, a questionar antigos tabus, compreendendo a sexualidade sempre articulada à dinâmica de sua construção e procurando perceber o quanto ela está atrelada às rela- ções de poder, identificando as armadilhas que se espalham pela sociedade (GAGLIOTTO; LEMBECK, 2011, p. 16). De acordo com Gagliotto e Lembeck (2011), a educação sexual emancipatória possui, em seu bojo, o foco na construção de um trabalho pedagógico que busca promover a autonomia dos sujeitos, bem como o desenvolvimento de um senso crítico que problema- tize comportamentos estereotipados. Logo, com a desconstrução destes comportamentos, é possível pensarmos na possibilidade de construirmos novos padrões que culminem em uma sexualidade plena, livre de padrões. O corpo é outro aspecto a ser considerado numa proposta de desenvolver uma educação sexual emancipatória; este precisa ser visto como o lugar onde se manifestam todas as nossas necessidades, sentimentos, os nossos valores. Enfim, tudo o que socialmente e culturalmente fomos aprendendo ao longo de nossa vida precisa ser valorizado, respeitado, bem cuidado. A orien- tação sexual, além de assegurar o conhecimento das informações biológicas deste corpo, deve possibilitar, sobretudo, a conversa sobre sexo num sentido mais amplo, abrigando as emoções e o amadurecimento que sua vivência traz (GAGLIOTTO;LEMBECK, 2011, p. 16). 64UNIDADE IV Práticas Pedagógicas com Base em uma Educação Sexual Emancipatória FIGURA 1 - EMANCIPAÇÃO E LIBERDADE Ainda, um ponto interessante para ser considerado quando falamos acerca de uma proposta emancipatória na educação, é realizarmos um resgate ao trabalho e às contri- buições do educador Paulo Freire (1921-1997), autor respeitado no mundo todo com suas contribuições à educação. Para Oliveira e Santos (2018), Paulo Freire apresentava uma proposta de escola que ia ao contrário do modelo tradicional. Para ele, a escola deveria ser um espaço de liberdade, pautada no desenvolvimento crítico dos sujeitos e, ainda, proporcionar aos educandos a possibilidade de serem protagonistas em seu processo de aprendizagem, possuindo autonomia em suas escolhas. A escola na visão de Paulo Freire, então, envolve a participação e a criativida- de dos educandos, na vida cotidiana escolar, como sujeitos de conhecimento. O educando é visto como sujeito do seu processo pedagógico e, por conse- guinte, construtor de conhecimento (OLIVEIRA; SANTOS, 2018, p. 129). Neste sentido, percebe-se o papel emancipatório dos alunos, que não estão in- seridos no ambiente educacional apenas como receptores de conteúdos e informações. Também é importante pensarmos acerca do papel do diálogo neste processo, pois Uma relação de diálogo, na perspectiva freireana, é aquela em que os sujei- tos do ato de conhecer se encontram mediatizados pelo objeto do conheci- mento, por isso, o diálogo tem um caráter existencial e histórico, relacionado ao progresso dos sujeitos no contexto histórico. Nesta dimensão dialógica os processos de aprendizagem se concretizam pela via da interação social e da cooperação, ou seja, na aprendizagem é preciso estar junto, sendo uma ação coletiva e colaborativa (OLIVEIRA; SANTOS, 2018, p. 130). 65UNIDADE IV Práticas Pedagógicas com Base em uma Educação Sexual Emancipatória Vê-se, então, que a comunicação entre os pares, isto é, o diálogo, o relacionamento interpessoal, caracteriza-se enquanto pilar fundamental em um processo de educação que dialoga com o caráter emancipatório. Para uma educação que rompa com as barreiras do comum, da repetição dos saberes, é necessário propor espaços para autonomia dos alunos, em uma relação não hierarquizada de saberes. Desta forma, alunos e alunas assumem um papel de ativos no processo. 66UNIDADE IV Práticas Pedagógicas com Base em uma Educação Sexual Emancipatória 3. O ENSINO DOS DIREITOS HUMANOS NO CONTEXTO ESCOLAR Aluno(a), tenho certeza de que você já ouviu falar sobre direitos humanos. Mui- tas vezes, no entanto, as pessoas possuem informações equivocadas acerca do real significado dessas duas palavras e reproduzem equívocos. Não raro, alguns discursos reproduzem a fala de que “direitos humanos são para humanos direitos” ou, ainda, “direi- tos humanos defendem apenas os bandidos”. Ambas as frases soam comuns para você? Você já ouviu alguma delas? Pois é. Por isso, precisamos aprender o real significado destas palavras e, para tanto, a escola se faz um local de extrema importância para que possamos proporcionar o correto conhecimento aos alunos e alunas, desenvolvendo um senso crítico e comparti- lhando informações corretas. [...] a Declaração Universal dos Direitos Humanos, aprovada pela ONU em 10 de dezembro de 1948. É formada por um conjunto de trinta artigos nos quais estão indicados os Direitos Fundamentais e suas exigências. Esta Declara- ção é considerada universal porque se dirige a toda a humanidade, devendo ser respeitada e aplicada por todos os países e por todas as pessoas, em benefício de todos os seres humanos, sem qualquer exceção (LOVATO; DU- TRA, 2015, p. 3). Importante sinalizar que a preocupação com os direitos humanos se iniciou, se- gundo Schütz e Fuchs (2017), após o período da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), em que o terrível genocídio executado pelo regime nazista matou milhões de pessoas. Até hoje, os direitos humanos são pautas de importantes discussões em todo o mundo, pois 67UNIDADE IV Práticas Pedagógicas com Base em uma Educação Sexual Emancipatória envolve direitos básicos presentes em nosso cotidiano, como o direito de acesso à saúde, educação, a diversidade, o acesso ao trabalho, dentre outros. Desta forma, aqui faremos um recorte e daremos destaque à questão dos direitos humanos no espaço educacional. Quando pensamos sobre o direito à diversidade, esta- mos nos referindo às diferentes maneiras de ser e existir no mundo. Logo, no espaço da sexualidade, isto se refere às formas não hegemônicas de expressão sexual, isto é, as sexualidades que fujam à heterossexualidade. Portanto, nos espaços educacionais se faz importante a existência de abordagens múltiplas que proporcionem espaço para expres- sões diversas, que não se limitem à norma social imposta. Por isso, a educação é, antes de qualquer coisa, um compromisso com o outro, com a pessoa, com o ser humano, logo, ninguém dela escapa. Não obstante, sendo ela um compromisso com o Outro, ela não só pode como precisa desempenhar um papel fundamental na construção e no desenvolvi- mento de uma consciência cidadã, alicerçada na preocupação e na defesa dos DH (SCHÜTZ; FUCHS, 2017, p. 44). Defender os direitos humanos nos espaços educativos é, neste caminho, proporcio- nar momentos de discussão que acolham as diferenças. Também é permitir que crianças e adolescentes tenham pleno acesso ao seu direito de se desenvolver de maneira inteira, ou seja, abarcando os aspectos relacionados à sexualidade. O espaço escolar, nesta lógica, ocupa um papel de destaque, pois proporciona recursos pedagógicos para o fomento do desenvolvimento do pensamento crítico. Logo, Garantir o direito à educação é importantíssimo para o Brasil, pois, ao lon- go dos anos, percebe-se que os países que galgaram até o topo da escala mundial fundearam-se no avanço e aprimoramento do perfil educacional dos seus cidadãos. Através da educação, um cidadão torna-se um profissional qualificado, apto para exercer a sua função perante a sociedade (LOVATO; DUTRA, 2015, p. 15). Aluno(a), agora você pode estar se questionando e refletindo acerca da real neces- sidade de trabalharmos os direitos humanos no espaço escolar. Ora, a escola é um lugar importante para realizar, por exemplo, o resgate histórico acerca dos avanços e retrocessos relacionados aos direitos humanos. Se olharmos para as guerras podemos ter um panora- ma interessante acerca destes fatos. Nesta lógica, Comprova-se a necessidade de se educar em e para os DH, uma vez que tal movimento deve possuir como objetivo a discussão dos conhecimentos historicamente construídos pela humanidade sobre os DH, além de reafirmar valores e práticas que possam consolidar a cultura dos direitos e o exercí- cio do respeito, bem como promover a valorização das diversidades – de cunho étnico-racial, religioso, cultural, gênero, orientação sexual, entre outros (SCHÜTZ; FUCHS, 2017, p. 45). Ademais, precisamos reafirmar a importância que discussões relacionadas aos direitos humanos não fiquem limitadas apenas aos espaços educativos. Como já vimos 68UNIDADE IV Práticas Pedagógicas com Base em uma Educação Sexual Emancipatória anteriormente, é importante que haja uma interação entre escola e família, por exemplo, a fim de que seja realizada e dada continuidade à uma linha de raciocínio que promova similaridades. Por isso, consideramos que uma Educação que se diz preocupada com os DH, deve ser promovida tanto nas escolas como também fora delas, com estrita preservação da verdade e da memória, através da formação proble- matizadora em DH de educadores e educandos, baseando-se, fundamen- talmente, na diversidade de formas, seja em publicações, teatros, vídeos, danças, seminários, internet, palestras, pesquisas etc., dando-se sempre a ênfaseà cultura institucional e ao fomento de práticas em consonância com os princípios éticos (SCHÜTZ; FUCHS, 2017, p. 47). Na lógica dos direitos humanos, a escola não assume o lugar de apenas transmitir conteúdos técnicos e teóricos. Ao contrário, ela possui o papel de proporcionar vivências, trocas de experiências, pois o ser humano é um ser social, ou seja, que vive em relações. Desta maneira, é preciso que seja proporcionado um espaço para que os sujeitos possam viver com dignidade (ZLUHAN; RAITZ, 2014). Por fim, podemos pensar em uma proposta de direitos humanos na escola que acolha as diferenças e respeite a multiplicidade das pessoas. Ainda, educar em direitos humanos é garantir o efetivo acesso aos direitos básicos. Na escola, tais direitos se fazem presentes e precisam ser assegurados. SAIBA MAIS Aluno(a), você sabia que os direitos humanos não possuem ligação política no sentido partidário? Ao contrário, ela visa assegurar direitos a todas as pessoas, independente de seus posicionamentos. Interessante, não é?! Fonte: o autor. 69UNIDADE IV Práticas Pedagógicas com Base em uma Educação Sexual Emancipatória REFLITA “Artigo 2: 1. Todo ser humano tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabele- cidos nesta Declaração, sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição”. Aluno(a), você acha que em nosso atual cenário todos os direitos citados são respeita- dos na vida de uma pessoa? Fonte: Organização das Nações Unidas (1948). 70UNIDADE IV Práticas Pedagógicas com Base em uma Educação Sexual Emancipatória CONSIDERAÇÕES FINAIS Caro(a) aluno(a), Chegamos ao fim da última unidade da disciplina Gênero, Sexualidade e Educa- ção. Como vimos nesta unidade, no tópico I conhecemos as principais práticas adotadas no contexto educacional para o trabalho com a educação sexual, destacando o enfoque que se é dado para a questão da biologia e, por conta disso, aos aspectos reprodutivos. Também, no Tópico II pudemos conhecer a educação emancipadora e sua impor- tância para a formação de alunos e alunas para o desenvolvimento de um senso crítico frente às informações. Neste tópico também nos debruçamos na compreensão do educador Paulo Freire acerca do que vem ser uma educação voltada para a emancipação. Por fim, no Tópico III estudamos o conceito de direitos humanos e seu surgimento, conhecendo suas interfaces e aplicações nos espaços escolares, com o objetivo de garantir a efetivação dos direitos básicos dos seres humanos. Com os conteúdos que foram aqui elencados, espero que você tenha aproveitado ao máximo cada informação e conhecimento trazido. Destaco, para finalizar, a importância de continuarmos sempre nos estudos e na capacitação relacionada aos temas que trabalha- mos no decorrer das unidades. A escola, como vimos, é um campo que envolve as relações sociais e, por isso, sempre se altera, necessita de atualizações e de novos arranjos. Espero encontrar você em outra oportunidade. Um abraço! 71UNIDADE IV Práticas Pedagógicas com Base em uma Educação Sexual Emancipatória LEITURA COMPLEMENTAR Artigo: Educação Sexual em escolas brasileiras: Revisão Sistemática de Literatura. Resumo: No presente estudo, realizou-se uma revisão sistemática da literatura sobre educação sexual em escolas brasileiras, a fim de identificar suas principais carac- terísticas, temas abordados e profissionais responsáveis pelas ações. A pesquisa resultou em 24 artigos empíricos publicados entre 2010-2016, obtidos nas bases Educ@, Science Direct, MEDLINE, LILACS e SciELO. Constatou-se que as ações revisadas não atendem ao preconizado nos Parâmetros Curriculares Nacionais quanto à transversalização do tema. Destaca-se a necessidade de avançar no seu debate e investir em capacitação docente com vistas a transformar padrões sexuais discriminatórios e promover uma cultura de pre- venção em saúde no ambiente escolar. Palavras-chave: Revisão de Literatura; Educação Sexual; Escola; Sexualidade. Acesse: FURLANETTO, M. F.; LAUERMANN, F.; COSTA, C. B. da.; MARIN, A. H. Educação sexual em escolas brasileiras: revisão sistemática de literatura. Cadernos de Pesquisa, v. 48, n. 168, p.550-571, 2018. Disponível em: https://www.scielo.br/pdf/cp/v48n168/1980-5314-cp-48-168-550. pdf. Acesso em: 10 mar. 2021. 72UNIDADE IV Práticas Pedagógicas com Base em uma Educação Sexual Emancipatória MATERIAL COMPLEMENTAR LIVRO Título: Corpo, gênero e sexualidade: um debate contemporâneo na educação. Autor: Guacira Lopes Louro, Jane Felipe, Silvana Vilodre Goellner (Organizadores) Editora: Editora Vozes Sinopse: O livro apresenta os modelos postos em ação nos diver- sos espaços pedagógicos para a constituição do que se compreen- de enquanto um corpo “educado”. Neste caminho, os estudos que compõem este livro nos falam das posições sociais que os sujeitos acabam por ocupar em nossa sociedade e, além disso, permitem examinar as relações de poder que sustentam essas posições. FILME/VÍDEO Título: Malala Ano: 2015 Sinopse: O filme apresenta a jovem Malala Yousafzai, ativista fe- minista que luta pelos direitos das garotas, especialmente o direito de acesso à educação. O filme conta como Malala sobreviveu ao ataque de um atirador talibã pertencente à violenta oposição da organização à educação das garotas no Paquistão. Malala sobre- viveu após um tiro na cabeça. Ela é ganhadora de um Prêmio Nobel da Paz. 73UNIDADE IV Práticas Pedagógicas com Base em uma Educação Sexual Emancipatória WEB Documentário: Direitos Humanos para Humanos. O documentário Direitos Humanos para Humanos é de iniciativa do cineasta Gabriel Filipe. O filme tem a finalidade de romper com o véu de desinformação que en- volve o tema direitos humanos na sociedade brasileira. A obra conta com a participação de autoridades, professores e pesquisadores engajados na luta dos direitos humanos (descrição que consta no link). Link do site: https://www.youtube.com/watch?v=lfHpq8qkk5Y 74 REFERÊNCIAS ALENCAR, V.; RIBEIRO, P.; GORENSTEIN, F.; SANCHEZ, M. Violência sexual contra crianças e adolescentes e seus mitos. In: LAVARELLO, F. (Coord.) A defesa de crianças e adolescentes vítimas de violências sexuais: reflexões sobre a responsabilização a partir de dez situações acompanhadas por centros de defesa dos direitos da criança e do ado- lescente no Brasil. São Paulo: ANCED, 2009. ARCARI, C. Pipo e Fifi - Ensinando Proteção contra violência sexual. Petrópolis: Caqui, 2018. BISPO DE JESUS, R. M. Revisando concepções: as interfaces entre gênero, sexualidade e a escola. Revista Temas em Educação, p. 48-66, 2014. Disponível em: https://periodi- cos.ufpb.br/ojs2/index.php/rteo/article/view/20218. Acesso em: 25 mar. 2021. BRASIL. Abuso sexual contra crianças e adolescentes - abordagem de casos concretos em uma perspectiva multiprofissional e interinstitucional. Brasília: Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos - Secretaria Nacional dos Direitos da Criança e do Ado- lescente, 2020. BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, 1988. BRASIL. Lei Federal n. 8069, de 13 de julho de 1990. Estatuto da Criança e do Adoles- cente. Brasília, 1990. BRASIL. Lei nº 13.431, de 4 de abril de 2017. Estabelece o sistema de garantia de direitos da criança e do adolescente vítima ou testemunha de violência e altera a Lei no 8.069, de 13 de julho de 1990 (Estatuto da Criança e do Adolescente). Brasília, 2017. BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, 2018. BUTLER, J. Problemas de gênero: feminismo e subversão de identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2015. CARDONA, M. J.; NOGUEIRA, C.; UVA, M. Género e currículo no 1º ciclo do ensino bá- sico. In: CARDONA, M. J. (Coord.); NOGUEIRA,C.; VIEIRA, C.; PISCALHO, I.; UVA, M.; TAVARES, T. S. Guia de educação: género e cidadania - 1º ciclo. Lisboa: Comissão para a cidadania e igualdade de género, 2015. 75 CARVALHO, C. de. S.; SILVA, E. R. da; JOBIM E SOUZA, S.; SALGADO, R. G. Direitos sexuais de crianças e adolescentes: avanços e entraves. Psicologia Clínica, Rio de Janei- ro, v. 24, n. 1, p. 69-88, 2012. Disponível em: https://www.scielo.br/pdf/pc/v24n1/06.pdf. Acesso em: 29 mar. 2021. COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS DE PASSO FUNDO – CDHPF. 18 de maio: o caso Araceli. 2017. Disponível em: https://cdhpf.org.br/noticias/18-de-maio-o-caso-araceli/. Acesso em: 14 mar. 2021. CONNELL, R.; PEARSE, R. Gênero: uma perspectiva global. São Paulo: nVersos, 2015. CORREA, C. M. de. A. Educação, lei e sexualidade: a importância da discussão sobre os padrões normativos do comportamento sexual e de gênero na escola. In: MAIO, E.; CORREA, C. M. de. A. (Orgs.) Gênero, direitos e diversidade sexual: trajetórias escolares. Maringá: Eduem, 2013. CREPALDI, E. M. F. A importância da família na escola para a construção do desenvol- vimento do aluno. In: XIII Congresso Nacional de Educação - Formação de Professores: contextos, sentidos e práticas. Curitiba: PUC, 2017. Anais eletrônicos do XIII Congresso Nacional de Educação - Formação de Professores: contextos, sentidos e práticas, Curi- tiba: PUC, 2017. p. 11732-11744. Disponível em: https://educere.bruc.com.br/arquivo/ pdf2017/25972_13983.pdf. Acesso em: 29 mar. 2021. CUNHA, M. Prefácio. In: BRASIL. Abuso sexual contra crianças e adolescentes - aborda- gem de casos concretos em uma perspectiva multiprofissional e interinstitucional. Brasília: Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos - Secretaria Nacional dos Direi- tos da Criança e do Adolescente, 2020. EMANCIPATÓRIO. In: DICIO, Dicionário Online de Português. Porto: 7Graus, 2021. Dis- ponível em: https://www.dicio.com.br/emancipatorio. Acesso em: 10/03/2021. EQUIDADE. In: MICHAELIS, moderno dicionário da língua portuguesa. São Paulo: melho- ramentos. Disponível em: https://michaelis.uol.com.br/. Acesso em: 01 mar. 2021. EW, R. de A. S.; CONZ, J.; FARIAS, A. D. G. de O.; SOMBRIO, P. B. M.; ROCHA, K. B. Diálogos sobre sexualidade na escola: uma intervenção possível. Revista Psicologia em Pesquisa, v. 11, n. 2, p. 51-60, 2017. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/pdf/psipesq/ v11n2/07.pdf. Acesso em: 29 mar. 2021. FINCO, D.; SOUZA, A. dos S.; OLIVEIRA, N. R. C. Desafios para discussão sobre gênero e diversidade na Escola. In: FINCO, D.; SOUZA, A. dos S.; OLIVEIRA, N. R. C. de (Orgs.) Educação e resistência escolar: gênero e diversidade na formação docente. São Paulo: Alameda, 2017. 76 FOUCAULT, M. A ordem do discurso: aula inaugural no Collège de France, pronunciada em 2 de dezembro de 1970. São Paulo: Edições Loyola, 2014. (Originalmente publicado em 1970). FOUCAULT, M. História da Sexualidade 1: a vontade de saber. Rio de Janeiro/São Paulo: Paz e Terra, 2020. (Originalmente publicado em 1976). FREITAS, M. J. D. de. Orientação Sexual na escola: desmistificando a educação em sexualidade no espaço escolar. In: FINCO, D.; SOUZA, A. dos S.; OLIVEIRA, N. R. C. de (Orgs.) Educação e resistência escolar: gênero e diversidade na formação docente. São Paulo: Alameda, 2017. FURLANETO, M. F.; LAUERMANN, F.; COSTA, C. B. da; MARIN, A. H. Educação sexual em escolas brasileiras: revisão sistemática de literatura. Revista Cadernos de Pesquisa, v. 48, n. 168, p. 550-571, 2018. FURLANI, J. Educação sexual: possibilidades didáticas. In: LOURO, G. L.; FELIPE, J.; GOELLNER, S. V. (Orgs.) Corpo, gênero e sexualidade: um debate contemporâneo na educação. Petrópolis: Vozes, 2003. GAGLIOTTO, G. M.; LEMBECK, T. Sexualidade e adolescência: a educação sexual numa perspectiva emancipatória. Educere et Educare – Revista de Educação, Cascavel, v. 6, n. 11, 2011. Disponível em: http://e-revista.unioeste.br/index.php/educereeteducare/article/ view/4802. Acesso em: 31 mar. 2021. GAGLIOTTO, G. M.; VAGLIATI, A. C. A identificação da violência sexual em crianças e adolescentes no espaço escolar: limites e possibilidades de enfrentamento na voz dos professores. Anais do X ANPED SUL, Florianópolis, outubro de 2014. Disponível em: http://xanpedsul.faed.udesc.br/arq_pdf/1300-0.pdf. Acesso em: 29 mar. 2021. HEILBORN, M. L.; SORJ, B. Estudos de gênero no Brasil. In: MICELI, S. (org.) O que ler na ciência social brasileira (1970-1995). São Paulo: Editora Sumaré, 1999. HOHENDORFF, J. V.; PATIAS, N. D. Violência sexual contra crianças e adolescentes: identificação, consequências e indicações de manejo. Revista Barbarói, Santa Cruz do Sul, n. 49, p. 239-257, 2017. Disponível em: https://online.unisc.br/seer/index.php/barba- roi/article/view/9474/6913. Acesso em: 28 mar. 2021. JESUS, J. G. de Orientações sobre identidade de gênero: conceitos e termos. Brasília: [s.n.], 2012. 77UNIDADE IV Práticas Pedagógicas com Base em uma Educação Sexual Emancipatória JÚNIOR, I. B. de O.; MAIO, E. R. Opção ou orientação sexual: onde reside a homossexu- alidade? Anais do III Simpósio Internacional de Educação Sexual “Corpos, Identidade de Gênero e Heteronormatividade no espaço escolar”, Maringá, 2013. Disponível em: http:// www.sies.uem.br/anais/pdf/diversidade_sexual/3-02.pdf. Acesso em: 25 mar. 2021. KNIPPEL, E. L.; AESCHLIMANN, M. C. de A. N. Educação e equidade de gêneros. Revis- ta da Escola Superior de Magistratura do Estado do Ceará, v. 15, n. 2, 2017. Disponível em: http://revistathemis.tjce.jus.br/index.php/THEMIS/article/view/569/538. Acesso em: 01 mar. 2021. LEITE, L. da L.; ROMERO, R. L. Brincadeiras de meninas e de meninos: discutindo gêne- ro a partir do livro O menino que ganhou uma boneca. In: MAIO, E. R. (Org.) Educação, gênero e feminismos: resistências bordadas com fios de luta. Curitiba: CRV, 2017. LIMA, A. A. de.; OLIVEIRA, D. C. de.; SOUZA, E. dos. S.; PEREIRA, J. A.; SANT’ANA, V. L. L. Educação sexual infantil: A interação entre a família e escola como fator determi- nante para uma educação eficaz. Revista Pedagogia em Ação, v. 2, n. 1, p. 83-88, 2010. Disponível em: http://periodicos.pucminas.br/index.php/pedagogiacao/article/view/4484. Acesso em: 29 mar. 2021. LIMA, E.; ALMEIDA, G. B. de. Educação Sexual e Práticas Pedagógicas. In: Anais Eletrô- nicos do IV Colóquio de História “Abordagens Interdisciplinares Sobre História da Sexu- alidade”. MARQUES, L. C. L.; CABRAL, N. D. A (Orgs.). Recife, 16 a 19 de outubro de 2010. p. 723-733. Disponível em: http://www.unicap.br/coloquiodehistoria/wp-content/uplo- ads/2013/11/4Col-p.723.pdf. Acesso em: 24 mar. 2021. LOURO, G. L. Currículo, gênero e sexualidade: o “normal”, o “diferente” e o “excêntrico”. In: LOURO, G. L.; FELIPE, J.; GOELLNER, S. V. (Orgs.). Corpo, gênero e sexualidade: um debate contemporâneo na educação. Petrópolis: Vozes, 2013. LOURO, G. L. Gênero, sexualidade e educação: uma perspectiva pós-estruturalista. Pe- trópolis: Vozes, 2003. LOURO, G. L. Um corpo estranho: ensaios sobre sexualidade e teoria queer. Belo Hori- zonte: Autêntica, 2004. LOURO, G. L.; FELIPE, J.; GOELLNER, S. V. (Orgs.) Corpo, gênero e sexualidade: um debate contemporâneo na educação. Petrópolis: Vozes, 2013. LOVATO, A. C.; DUTRA, M. C. Direitos fundamentais e direitos humanos - singularidades e diferenças. In: XII Seminário Internacional de demandas sociais e políticas públicas na sociedade contemporânea, Santa Cruz do Sul, 2015, p. 1-20. Disponível em: https://onli- ne.unisc.br/acadnet/anais/index.php/sidspp/article/view/13217. Acesso em: 01 abr. 2021. 78 MAIO, E. R. (Org.) Educação, gênero e feminismos: resistências bordadas com fios de luta. Curitiba: CRV, 2017. MAIO, E. R. Gênero, sexualidade e educação: questões pertinentes à pedagogia. In: MARTIN, S. A. F.; GUIBI, G. Y. (Orgs.). Educação em Saúde: formação para atenção às vulnerabilidades de crianças, adolescentes e jovens em espaços educacionais. Presiden- te Prudente: PrefeituraMunicipal, 2012. MAIO, E. R. O nome da coisa. Maringá: Unicorpore, 2011. MAIO, E. R.; OLIVEIRA, M. de; PEIXOTO, R. Formação em gênero e educação para a sexualidade: considerações acerca do papel da escola. Revista NUPEM, Campo Mourão, v. 10, n. 20, 2018. Disponível em: http://revistanupem.unespar.edu.br/index.php/nupem/ article/view/353/332. Acesso em: 01 mar. 2021. MAIO, E.; CORREA, C. M. de A. Apresentação. In: MAIO, E.; CORREA, C. M. de. A. (Orgs.) Gênero, direitos e diversidade sexual: trajetórias escolares. Maringá: Eduem, 2013. MARTIN, S. A. de F. Gênero e sexualidade na educação: questão de direito. In: MAIO, E. R. (Org.). Educação, gênero e feminismos: resistências bordadas com fios de luta. Curiti- ba: CRV, 2017. MARTINI, C. J. A abordagem do tema educação sexual em sala de aula: juntos ou sepa- rados? Revista Educação em Foco, n. 8, p. 1-12, 2016. MELLO, K. Dia internacional de luta contra a violência à mulher - 25 de novembro. 2020. Disponível em: https://www.ufrgs.br/telessauders/noticias/dia-internacional-de-luta-contra- -violencia-mulher-25-de-novembro/. Acesso em: 15 abr. 2021. MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO CEARÁ - MPCE. Violência Sexual Contra Crian- ças e Adolescentes – O Silêncio que Destrói Infâncias. Ceará: Ministério Público, 2020. MIRANDA, A. C. de. S. de. Gênero/sexualidade/diversidade sexual no âmbito da educa- ção infantil. Cronos: Revista do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, Na- tal, v. 15, n. 2, p.185-200, 2014. Disponível em: https://periodicos.ufrn.br/cronos/article/ view/8229. Acesso em: 29 mar. 2021. OLIVEIRA, I. A. de; SANTOS, T. R. L. dos. Educação e emancipação: Paulo Freire e a escola pública na América Latina. Revista Educação e Emancipação, São Luís, v. 11, n. 3, 2018. Disponível em: http://www.periodicoseletronicos.ufma.br/index.php/reducacaoeman- cipacao/article/view/9729. Acesso em: 01 abr. 2021. 79 OLIVEIRA, L. G. de; URBAN, A. C. Gênero e sexualidade na escola: uma abordagem sobre a complexidade na prática pedagógica para professores do ensino médio. In: HAS- PER, R.; BARROS, G. C.; MULLER, C. C. (Orgs.) Os desafios da escola pública parana- ense na perspectiva do professor PDE. Secretaria de Estado da Educação. Superinten- dência da Educação. Programa de Desenvolvimento Educacional. Curitiba: SEED-PR, 2016. OLIVEIRA, M. de; MOCHI, L. C. C. Gênero e sexualidade na escola: a educação enquan- to possibilitadora do essencial direito à democracia! In: OLIVEIRA, M. de; MOCHI, L. C. C. (Orgs.) Gênero e diversidade sexual: trilhando caminhos para uma educação mais justa. Curitiba: Bagai, 2020. ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Declaração Universal dos Direitos Humanos. 1948. Disponível em: https://www.unicef.org/brazil/declaracao-universal-dos-direitos-hu- manos. Acesso em: 14 mar. 2021. PASSADOR, L. H. Diversidade na escola: diferenças, culturas e desigualdades. In: FIN- CO, D.; SOUZA, A. dos S.; OLIVEIRA, N. R. C. de (Orgs.). Educação e resistência esco- lar: gênero e diversidade na formação docente. São Paulo: Alameda, 2017. PELEGRINI, D. K. C.; MAIO, E. R. A diversidade sexual e de gênero nas políticas públicas educacionais. In: MAIO, E. R.; OLIVEIRA, M. de; PEIXOTO, R. (Orgs.) Educação, saúde, gênero e sexualidade: diálogos possíveis. Curitiba: CRV, 2016. RIBEIRO, C. M. Gênero e sexualidade no cotidiano de processos educativos: “apesar de tanta sombra, apesar de tanto medo”. In: MAIO, E. R.; CORREA, C. M. A. (Orgs.). Gêne- ro, direitos e diversidade sexual: trajetórias escolares. Maringá: Eduem, 2013. SACHI, B. de J. do P. Possibilidades didáticas para o ensino da educação sexual em sala de aula. In: MAIO, E. (Org.) Gênero e sexualidade: interfaces educativas. Curitiba: Appris Editorial, 2018. SANTOS, R. S. N. dos. Educação para a sexualidade: uma abordagem necessária. 2016. 39f. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Pedagogia) - Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, 2016. Disponível em: https://repositorio.ufpb.br/jspui/bitstre- am/123456789/2535/1/RSNS24082017.pdf. Acesso em: 31 mar. 2021. SCHÜTZ, J. A.; FUCHS, C. Educação escolar e direitos humanos: necessidades de uma aproximação. Revista Perspectiva Sociológica, n. 20, 2017, p. 39-52. Disponível em: ht- tps://www.cp2.g12.br/ojs/index.php/PS/article/view/1473. Acesso em: 01 abr. 2021. SCOTT, J. Gênero: uma categoria útil de análise histórica. Educação e realidade, Rio Grande do Sul, v. 20, n. 2, 1995. Disponível em: https://seer.ufrgs.br/index.php/educacao- erealidade/article/view/71721. Acesso em: 01 mar. 2021.