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MÓDULO 3 AS POLÍTICAS DE DROGAS NO BRASIL E AS POLÍTICAS DE SEGURANÇA PÚBLICA M I N I S T É R I O D A J U S T I Ç A E S E G U R A N Ç A P Ú B L I C A MÓDULO 3 AS POLÍTICAS DE DROGAS NO BRASIL E AS POLÍTICAS DE SEGURANÇA PÚBLICA Fernanda Novaes Cruz Frederico Policarpo de Mendonça Filho Marcos Alexandre Veríssimo da Silva Roberto Kant de Lima EXPEDIENTE Todo o conteúdo do COMPASSO – Curso sobre Políticas de Drogas e Sociedade: perspectivas e discussões atuais, da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas e Gestão de Ativos (SENAD), Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) do Governo Federal - 2024, está licenciado sob a Licença Pública Creative Commons Atribuição - Não Comercial- Sem Derivações 4.0 Internacional. BY NC ND GOVERNO FEDERAL PRESIDENTE DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL Luís Inácio Lula da Silva MINISTRO DE ESTADO DA JUSTIÇA E SEGURANÇA PÚBLICA Ricardo Lewandowski SECRETÁRIA NACIONAL DE POLÍTICAS SOBRE DROGAS E GESTÃO DE ATIVOS Marta Rodriguez de Assis Machado DIRETOR DE PESQUISA, AVALIAÇÃO E GESTÃO DE INFORMAÇÕES Mauricio Fiore COORDENADORA-GERAL DE ENSINO E PESQUISA Natália Neris da Silva Santos COORDENADORA DE ARTICULAÇÃO DO OBSERVATÓRIO BRASILEIRO DE INFORMAÇÕES SOBRE DROGAS Geórgia Belisário Mota CONTEUDISTAS Fernanda Novaes Cruz Frederico Policarpo de Mendonça Filho Marcos Alexandre Veríssimo da Silva Mauricio Fiore Roberto Kant de Lima REVISÃO DE CONTEÚDO Jessica Santos Figueiredo Grazielle Teles de Araújo APOIO Brenda Juliana Silva Laudilina Quintanilha Mendes Pedretti de Andrade Luana Rodrigues Meneses de Sá Maria Aparecida Alves Dias UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA COORDENAÇÃO GERAL Luciano Patrício Souza de Castro FINANCEIRO Fernando Machado Wolf SUPERVISÃO TÉCNICA EAD Giovana Schuelter SUPERVISÃO DE PRODUÇÃO DE MATERIAL Francielli Schuelter SUPERVISÃO DE MOODLE Andreia Mara Fiala SECRETARIA ADMINISTRATIVA Elson Rodrigues Natario Junior DESIGN INSTRUCIONAL Supervisão: Milene Silva de Castro Larissa Usanovich de Menezes Sofia Santos Stahelin DESIGN GRÁFICO Supervisão: Sonia Trois Eduardo Celestino Giovana Aparecida dos Santos Luana Pillmann de Barros Vanessa de Oliveira Vieira REVISÃO TEXTUAL Cleusa Iracema Pereira Raimundo PROGRAMAÇÃO Supervisão: Alexandre Dal Fabbro Luan Rodrigo Silva Costa Luiz Eduardo Pizzinato AUDIOVISUAL Supervisão: Rafael Poletto Dutra Andrei Krepsky de Melo Julia Britos Luiz Felipe Moreira Silva Oliveira Robner Domenici Esprocati SUPERVISÃO TUTORIA João Batista de Oliveira Júnior Thaynara Gilli Tonolli TÉCNOLOGIA DA INFORMAÇÃO Alexandre Gava Menezes André Fabiano Dyck MÓDULO 3 AS POLÍTICAS DE DROGAS NO BRASIL E AS POLÍTICAS DE SEGURANÇA PÚBLICA GUIA DE AMBIENTAÇÃO COMO LER O E-BOOK MÓDULOS Este curso está dividido em módulos. O módulo correspondente e o conteúdo principal estão localizados na capa do e-book, logo abaixo do nome do curso. GUIA DE AMBIENTAÇÃO COMO LER O E-BOOK PÁGINAS INTERNAS As páginas internas do e-book estão estruturadas em duas colunas. A coluna mais estreita e externa (à esquerda) é utilizada para enquadrar ícones criados com a finalidade de destacar os recursos e elementos instrucionais, como o “VÍDEO”. VÍDEO Os vídeos contemplam conteúdos complementares para enriquecimento do aprendizado e seus links estão representados pelo recurso QR Code. GUIA DE AMBIENTAÇÃO COMO LER O E-BOOK ÍCONES Ajudam a localizar, focalizar e ressaltar respectivos textos informativos. Cada ícone apresenta uma função: SAIBA MAIS Ao clicar no link, você é direcionado para documentos disponibilizados na internet, como leis e normas técnicas. É preciso estar conectado à internet para acessar o conteúdo. PARA PENSAR Frase ou parágrafo que incentiva o cursista à reflexão, trazendo perguntas retóricas, reflexões ou questões que são respondidas logo depois do recurso. PODCAST Este recurso apresenta de maneira transcrita o trecho do conteúdo que foi narrado e apresentado em formato áudio na versão on-line do curso. CITAÇÃO Transcrições exatas de partes dos conteúdos dos autores utilizados nos materiais didáticos. OUTRA PERSPECTIVA Trecho de conteúdo que traz outras perspectivas em relação às questões enraizadas no senso comum. SÍNTESE DO MÓDULO Trecho de conteúdo que contempla uma síntese dos pontos mais importantes vistos no módulo. DESTAQUE Trechos de conteúdos importantes para contribuir no aprendizado do cursista. VERBETE Recurso utilizado para explicar termos que podem ser desconhecidos ao cursista. E SIGLAS CV – Comando Vermelho DEPEN – Departamento Penitenciário Nacional FBSP – Fórum Brasileiro de Segurança Pública IPEA – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada JECRIM – Juizado Especial Criminal LEP – Lei de Execução Penal MJSP – Ministério da Justiça e Segurança Pública MVI – Mortes Violentas Intencionais PCC – Primeiro Comando da Capital PNPS – Plano Nacional de Segurança Pública e Defesa Social SAP/CE – Secretaria da Administração Penitenciária e Ressocialização do Ceará SAP/SC – Secretaria de Estado da Administração Prisional e Socioeducativa de Santa Catarina SAP/SP – Secretaria da Administração Penitenciária de São Paulo SEAP/BA – Secretaria de Administração Penitenciária e Ressocialização do Estado da Bahia SEAPE/DF – Secretaria de Estado de Administração Penitenciária do Distrito Federal SENAPPEN – Secretaria Nacional de Políticas Penais SISDEPEN – Sistema de Informações do Departamento Penitenciário Nacional SISNAD – Sistema Nacional de Políticas Públicas sobre Drogas SPF – Sistema Penitenciário Federal SUSP – Sistema Único de Segurança Pública TCO – Termo Circunstanciado de Ocorrência UNODC – Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime SUMÁRIO APRESENTAÇÃO 12 UNIDADE 1 | A ATUAL LEI DE DROGAS BRASILEIRA 14 UNIDADE 2 | O FUNCIONAMENTO DO SISTEMA DE SEGURANÇA PÚBLICA E JUSTIÇA CRIMINAL NO BRASIL 18 UNIDADE 3 | OS DESAFIOS DO SISTEMA DE SEGURANÇA PÚBLICA E JUSTIÇA CRIMINAL NO BRASIL 27 3.1 Superposição de esforços e conflitos entre as instituições policiais e judiciais 27 3.2 Altos índices de violência, homicídios e letalidade policial 29 3.3 Superlotação das prisões x sentimento de impunidade 31 3.4 Ascensão dos grupos criminosos organizados 34 UNIDADE 4 | OS IMPACTOS DA LEI DE DROGAS NO BRASIL SOBRE A SEGURANÇA PÚBLICA 38 REFERÊNCIAS 43 Curso COMPASSO Módulo 3 - As políticas de drogas no Brasil e as políticas de segurança pública 10 Frederico Policarpo de Mendonça Filho CONTEUDISTAS DO MÓDULO Marcos Alexandre Veríssimo da Silva Possui graduação em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (IFCS/UFRJ-2003), mestrado em Antropologia pela Universidade Federal Fluminense (PPGA/UFF-2007), doutorado em Antropologia pela mesma universidade (PPGA/UFF-2013), com bolsa-sanduíche na Univer- sity of California, Hastings College of the Law/EUA (CAPES/2011-2012). É professor adjunto de Antropologia no Departamento de Segurança Pública do Programa de Pós-Graduação em Justiça e Segurança e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Direito, na Universidade Federal Fluminense. É pesquisador vinculado ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia – Instituto de Estudos Comparados em Admi- nistração de Conflitos (INCT-InEAC/UFF). Tem experiência na área de Antropologia, atuando principalmente nos seguintes temas: consumo de drogas e sistema de justiça criminal. Possui graduação em Ciências Sociais (bacharelado e licenciatura) pela Universidade Federal Fluminense, mestrado em Antropologia pelo mesmo programa, especialização em Políticas Públicas de Justiça Criminal e Segurança Pública pela Universidade Federal Fluminense e doutorado pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal Fluminense. Pesquisador associado ao Instituto de Estudos Comparados em Administração Institucional de Conflitos(INCT-InEAC), onde coordena o subprojeto Laboratório de Iniciação Acadêmica em Administração de Conflitos (LABIAC). Áreas de in- teresse: conflitos relacionados às “drogas” (lícitas e ilícitas) e seus usos, mercados, produção e repressão; antropologia visual; e estudos de manifestações artísticas e culturais construídas por grupos sociais mais ou menos definidos. Pesquisadora no Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo - NEV/USP. Fez estágio de pós-doutorado no NEV/USP (2019- 2024). Doutora em Sociologia pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP-UERJ). Mestre em Ciências Sociais pelo PPCIS- UERJ. Graduada em Ciências Sociais (UERJ) e Comunicação Social (UFRJ). Pesquisa- dora Associada do Instituto de Pesquisa, Prevenção e Estudos em Sui- cídio (IPPES) e do Núcleo de Pesquisas em Direito e Ciências Sociais (DECISO-IESP-UERJ). Realizou Doutorado Sanduíche pela CAPES no Centro de Estudos Latino-Americanos da Universidade de Oxford e Bolsa de Estágio de Pesquisa no Exterior (BEPE-FAPESP) na Universidade de Bradford. Tem experiência com pesquisas quantitativas e qualitativas, especialmente com ênfase em violência e segurança pública, atuando principalmente nos seguintes temas: qualidade de vida do trabalho policial, suicídio policial, política de drogas e funcionamento das ins- tituições policiais e judiciais. Fernanda Novaes Cruz Curso COMPASSO Módulo 3 - As políticas de drogas no Brasil e as políticas de segurança pública 11 Possui graduação em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1968), mestrado em Antropologia Social pelo Museu Nacional UFRJ (1978), doutorado em Antropologia pela Har- vard University (1986), pós-doutorado na University of Alabama at Bir- mingham (1990). É coordenador do Instituto de Estudos Comparados em Administração de Conflitos, professor emérito da Universidade Federal Fluminense (INCT-InEAC/ UFF), professor permanente do Programa de Pós-Graduação em Direito da Universidade Veiga de Almeida (UVA), professor permanente do Programa de Pós-Graduação em Antropologia e professor colaborador do Mestrado em Justiça e Segurança da Universi- dade Federal Fluminense (UFF). Membro titular da Academia Brasileira de Ciências e comendador da Ordem Nacional do Mérito Científico do Governo do Brasil. Tem experiência na área de Teoria Antropológica, com ênfase em Método Comparativo, Antropologia do Direito e da Po- lítica, Processos de Administração de Conflitos e Produção de Verdades. Roberto Kant de Lima Curso COMPASSO Módulo 3 - As políticas de drogas no Brasil e as políticas de segurança pública 12 APRESENTAÇÃO Olá, cursista! Bem-vindo(a) ao terceiro módulo do COMPASSO - Curso sobre Polí- ticas de Drogas e Sociedade: perspectivas e discussões atuais. Neste módulo, apresentaremos a atual Lei de Drogas brasileira – promulgada em 2006 – e explicaremos as semelhanças e diferenças dessa lei em comparação com as anteriores. Em seguida, apresenta- remos brevemente o funcionamento do sistema de segurança pública e justiça criminal brasileiro. Compreender o funcionamento desse sistema é fundamental para refletir sobre como o controle sobre as drogas vem sendo exercido no país. Apresentaremos, então, os principais desafios identificados na área da segurança pública e da justiça criminal e, finalmente, analisaremos os impactos que a atual Lei de Drogas tem gerado na segurança pública e no sistema de justiça brasileiro. Ao final do módulo, esperamos que você, cursista, tenha compreendido melhor o funcionamento do sistema de segurança pública e de justiça criminal e o papel da atual Lei de Drogas nesse sistema. OBJETIVOS DO MÓDULO z Possibilitar a compreensão em perspectiva histórica e sociológica da Lei n° 11.343/2006. z Apresentar brevemente o sistema de segurança pública e justiça criminal brasileiro e os seus principais desafios. z Analisar os impactos da atual Lei de Drogas no sistema de segurança pública brasileiro. MÓDULO 3 Aponte a câmera do seu dispositivo móvel (smartphone ou tablet) para o QR Code ao lado e assista ao vídeo de apresentação do módulo! VÍDEO https://youtu.be/gdUBtNSkRSA MÓDULO 3 UNIDADE 1 A ATUAL LEI DE DROGAS BRASILEIRA Curso COMPASSO Módulo 3 - As políticas de drogas no Brasil e as políticas de segurança pública 14 UNIDADE 1 A ATUAL LEI DE DROGAS BRASILEIRA Em 2006, 30 anos após a vigência da Lei n° 6.368/1976, foi promulgada a atual Lei de Drogas, a Lei n° 11.343/2006. A lei trata de basicamente quatro aspectos, apresentados a seguir. Institui o Sistema Nacional de Políticas Públicas sobre Drogas (SISNAS). Prescreve medidas para prevenção do uso indevido, atenção e reinserção social de usuários e dependentes de drogas. Estabelece normas para repressão à produção não autorizada e ao tráfico ilícito de drogas. Define os crimes relacionados às drogas ilícitas. Neste módulo, exploraremos especialmente a repressão e os crimes relacionados às drogas. O SISNAD e as medidas de prevenção, atenção e reinserção serão discutidos no próximo módulo. Assim como na Lei nº 6.368/1976, que vimos no módulo anterior, a nova Lei de Drogas continua a diferenciar os usuários dos trafi- cantes. No entanto, a lei atual retira a pena de prisão para quem porta drogas para uso pessoal e, ao mesmo tempo, aumenta o tempo de encarceramento para quem porta drogas com o objetivo de vendê-las ou distribuí-las. A definição sobre quem será considerado usuário e que tipo de medida poderá ser aplicada cabe ao sistema de justiça, conforme este trecho da Lei nº 11.343/2006: Quem adquirir, guardar, tiver em depósito, transportar ou trouxer consigo, para consumo pessoal, drogas sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar será submetido às seguintes penas: I - advertência sobre os efeitos das drogas; Curso COMPASSO Módulo 3 - As políticas de drogas no Brasil e as políticas de segurança pública 15 Marcelo Campos. Foto: © [Carolina de Paula] / UFJF. II - prestação de serviços à comunidade. III - medida educativa de comparecimento a programa ou curso educativo. § 1º Às mesmas medidas submete-se quem, para seu consumo pessoal, semeia, cultiva ou colhe plantas destinadas à preparação de pequena quantidade de substância ou produto capaz de causar dependência física ou psíquica. § 2º Para determinar se a droga destinava-se a consumo pessoal, o juiz atenderá à natureza e à quantidade da substância apreendida, ao local e às condições em que se desenvolveu a ação, às circunstâncias sociais e pessoais, bem como à conduta e aos antecedentes do agente. Brasil, 2006, art. 28 O sociólogo Marcelo Campos (2019) descreveu os debates em torno da lei durante a sua tramitação no Legislativo. Ele observou que houve uma tentativa de deslocar a figura do usuário de drogas do sistema de justiça criminal para o sistema de saúde. Nesse sentido, o usuário passou a ser representado mais como um “doente”, com base no saber médico, e a pena de prisão deixou de ser prescrita. Por outro lado, aos que praticam as condutas caracterizadoras do crime de tráfico coube a representação de “criminosos organizados”, e, por sua vez, a dimensão mais punitiva e criminalizadora da lei. Assim, ao usuário deveria ser fornecido um tratamento de saúde e, ao traficante, medidas mais duras de prisão, aumentando-se a pena mínima de três para cinco anos de reclusão para aquele que praticar uma das ações previstas no artigo 33 da nova lei, tornando essa prática uma das mais rigorosamente punidas no Código Penal brasileiro. Ao mesmo tempo, uma das controvérsias da lei atual, apontada por diversos pesquisadores, é a não definição de critérios objetivos para classificar as pessoas entre usuários ou traficantes. Como vimos, a lei afirma que tal decisão caberá ao juiz a partir da análise de aspectos relativos: “à natureza e à quantidade da substância apreendida, ao local e àscondições em que se desenvolveu a ação, às circunstâncias sociais e pessoais, bem como à conduta e os antecedentes do agente (Brasil, 2006, art. 28). Curso COMPASSO Módulo 3 - As políticas de drogas no Brasil e as políticas de segurança pública 16 A ausência de critérios mais objetivos é apontada por muitos es- pecialistas como uma fonte de distorções na aplicação da Lei de Drogas Além disso, conforme a professora e pesquisadora de Direito Penal Luciana Boiteux e colaboradores (2009), a Lei n° 11.343/2006 também estabeleceu uma distinção entre o “traficante profissional” e o “traficante ocasional”, diante da previsão do § 4º do art. 33, indi- cando que poderá haver uma redução da pena desde que o agente seja “[...] primário, de bons antecedentes, não se dedique às atividades criminosas nem integre organização criminosa” (Brasil, 2006). Tra- ta-se do que ficou conhecido como “tráfico privilegiado”. Neste módulo, apresentaremos as principais mudanças que a lei teve na prática, ou seja, quais foram os seus impactos no sistema de justiça criminal brasileiro e como ela tem sido aplicada. Isso é importante porque, por mais que o debate inicial tenha sido centrado no trata- mento dado ao “usuário”, foi em relação ao “traficante” que essa lei teve um maior impacto para o país, especialmente para o sistema pe- nitenciário, como veremos no decorrer do módulo. Para compreender esses impactos, na unidade a seguir explicaremos brevemente como é organizado o sistema de justiça e segurança pública brasileiro. Luciana Boiteux. Foto: © [Marcelo Freixo] / Wikipédia. MÓDULO 3 UNIDADE 2 O FUNCIONAMENTO DO SISTEMA DE SEGURANÇA PÚBLICA E JUSTIÇA CRIMINAL NO BRASIL Curso COMPASSO Módulo 3 - As políticas de drogas no Brasil e as políticas de segurança pública 18 UNIDADE 2 O FUNCIONAMENTO DO SISTEMA DE SEGURANÇA PÚBLICA E JUSTIÇA CRIMINAL NO BRASIL Você sabia que o sistema de segurança pública e justiça criminal brasileiro envolve uma série de instituições? Desde 2018, as instituições policiais brasileiras são definidas pela lei que instituiu o Sistema Único de Segurança Pública (SUSP). O SUSP tem como órgão central o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) e é integrado pelas seguintes polícias, além dos demais inte- grantes estratégicos e operacionais do segmento da segurança pública. Força Nacional de Segurança Pública Polícia Federal Polícias Militares Polícias CivisPolícia Rodoviária Federal Corpos de Bombeiros Militares Polícias Penais Guardas Municipais Cada uma dessas instituições possui competências e abrangências distintas. No quadro a seguir, você poderá conhecer um pouco sobre cada uma das principais instituições policiais brasileiras. Instituição Abrangência Competências Número de instituições no país Polícia Federal Federal Prevenir e investigar infrações federais, o que inclui crimes contra a ordem política e social, e violações com repercussão interestadual ou internacional. 1 Polícia Rodoviária Federal Federal Patrulhar as rodovias e estradas federais. 1 Corpo de Bombeiros Militar Estadual Executar atividades de defesa civil. 27 | PRINCIPAIS INSTITUIÇÕES POLICIAIS BRASILEIRAS Curso COMPASSO Módulo 3 - As políticas de drogas no Brasil e as políticas de segurança pública 19 Instituição Abrangência Competências Número de instituições no país Polícia Civil Estadual Investigar crimes. 27 Polícia Militar Estadual Realizar policiamento ostensivo e manter a ordem pública. 27 Polícia Penal Estadual Realizar a segurança e vigilância das penitenciárias estaduais. 27 Polícia Penal Federal Federal Realizar a segurança e vigilância das penitenciárias federais. 1 Guarda Municipal Municipal Proteger bens, serviços e instalações existentes localmente e executar políticas preventivas. 220 Fonte: Adaptado de Ribeiro et al. (2023). As Polícias Militares são aquelas que estão mais presentes em nosso cotidiano, uma vez que são responsáveis pelo policiamento preven- tivo-ostensivo. São elas que usualmente atendem as ocorrências registradas via 190, realizam abordagens policiais e fazem o patrulha- mento das ruas. A Polícia Militar não possui capacidade investigativa e, portanto, quando ocorre um delito, por exemplo um flagrante com drogas, as pessoas envolvidas devem ser encaminhadas para uma delegacia de Polícia Civil. Confira nos próximos infográficos um passo a passo com os procedimentos. Curso COMPASSO Módulo 3 - As políticas de drogas no Brasil e as políticas de segurança pública 20 BOLETIM OU REGISTRO DE OCORRÊNCIA CLASSIFICAÇÃO DOS CASOS E AUDIÊNCIA DE CUSTÓDIA Ao chegarem à Delegacia de Polícia, o andamento da ocorrência passa a ser uma atribuição da Polícia Civil. Em casos envolvendo drogas, cabe ao delegado classificar inicialmente se o caso se trata de porte para uso pessoal ou para tráfico. Em caso de uso, a pessoa não é presa em flagrante, e o caso é encaminhado ao Juizado Especial Criminal (JECRIM). Caso haja o entendimento, por parte do delegado de Polícia, de que a ocorrência em questão se trata de um ilícito penal, ela será registrada em um boletim (ou registro) de ocorrência. Nesses casos, não é instaurado um inquérito policial, e o delegado encaminha para o JECRIM um documento chamado Termo Circunstanciado de Ocorrência (TCO), que contém um resumo do ocorrido. O boletim de ocorrência registra os fatos ocorridos a partir da narrativa dos envolvidos, com foco, no caso do flagrante, no depoimento dos agentes que efetuaram a prisão (usualmente, os policiais militares). Curso COMPASSO Módulo 3 - As políticas de drogas no Brasil e as políticas de segurança pública 21 No JECRIM, o caso será julgado por meio de audiências de conciliação. Esses casos, como prevê a lei, não serão punidos com pena de prisão, mas com as medidas previstas, já descritas na Unidade 1 deste módulo. Nos casos em que o delegado considerar que o flagrante se trata de crime de tráfico de drogas, todo o procedimento burocrático realizado na delegacia deve ser encaminhado para um(a) juiz(a) de direito, que definirá, em até 24 horas, a legalidade da prisão. A partir de 2015, essa apresentação da prisão para o Poder Judiciário passou a ocorrer por meio das audiências de custódia. As audiências consistem em uma rápida apresentação dos presos em flagrante a um(a) magistrado(a), que analisa a legalidade e a necessidade da prisão, e verifica eventuais irregularidades no decorrer da prisão, como, por exemplo, se houve abuso no uso da força utilizada pelos agentes policiais. As audiências de custódia não são o julgamento do caso, apenas uma primeira decisão sobre a situação da pessoa presa em flagrante, que pode ser colocada em liberdade, usualmente com a aplicação de medidas cautelares, tais como: restrição de horário para estar fora de casa, restrição de sair do município, comparecimento periódico ao tribunal, entre outras. INQUÉRITO POLICIAL Em paralelo a isso, com o registro de ocorrência, os policiais civis darão início ao processo de investigação, com a elaboração do inquérito policial. Curso COMPASSO Módulo 3 - As políticas de drogas no Brasil e as políticas de segurança pública 22 No inquérito policial, a partir de uma investigação, os policiais civis analisam os fatos que comprovem, ou não, o que foi relatado no boletim de ocorrência. O inquérito policial deve reunir elementos mínimos que demonstrem que uma conduta criminal foi cometida por uma determinada pessoa. APRECIAÇÃO DO CASO PELO MINISTÉRIO PÚBLICO E PODER JUDICIÁRIO Uma vez concluído o inquérito policial, o caso passa a ser apreciado pelas instituições que atuam no âmbito do sistema de justiça criminal (Ministério Público e Poder Judiciário). • Ministério Público: fiscaliza e faz cumprir as leis que defendem o patrimônio nacional e os interesses da sociedade e dos cidadãos. • Poder Judiciário: é o poder que o Estado detém para aplicar o direitoa um determinado caso, com o objetivo de solucionar conflitos de interesses e com isso resguardar a ordem jurídica e a autoridade da lei. • Defensoria Pública: presta serviço jurídico gratuito para as pessoas que não têm condições de pagar um advogado particular. Inicialmente, compete ao Ministério Público analisar o inquérito policial e decidir se oferecerá a denúncia para o Tribunal de Justiça ou se realizará o arquivamento do inquérito. Essa decisão dependerá da avaliação do promotor de Justiça a respeito de elementos suficientes, no documento do inquérito, para indicar a materialidade e a autoria do crime. Em caso positivo, o promotor encaminha a denúncia para o Judiciário. Curso COMPASSO Módulo 3 - As políticas de drogas no Brasil e as políticas de segurança pública 23 Se a denúncia for aceita pelo Judiciário, abre-se um processo judicial e o indivíduo investigado passa a ser réu. Nesse momento, o réu é notificado para apresentar sua defesa. A defesa do réu caberá a um advogado particular ou a um defensor público. No Brasil, todo indivíduo acusado de um ilícito possui o direito de ser defendido independentemente do crime cometido e da sua condição econômica; portanto, nos casos em que o réu não possui condições financeiras de contratar um advogado, ele será atendido por defensores públicos. A partir desse momento, o caso será analisado por um juiz de direito, que considerará a denúncia e a defesa do réu para decidir sobre a condenação ou a absolvição. Em casos de condenação, compete ao sistema penitenciário efetivar as sentenças ou decisões criminais e proporcionar condições para que a pena seja uma forma de reintegração social do condenado. O Poder Judiciário também fiscaliza o cumprimento de pena por meio da figura do juiz de execução de pena; mas a administração das pri- sões possui um órgão estatal próprio em cada unidade da Federação. Veja alguns exemplos: z Distrito Federal – Secretaria de Estado de Administração Penitenciária (SEAPE/DF) z São Paulo – Secretaria da Administração Penitenciária (SAP/SP) z Santa Catarina – Secretaria de Estado da Administração Prisional e Socioeducativa (SAP/SC) z Ceará – Secretaria da Administração Penitenciária e Resso- cialização (SAP/CE) z Bahia – A Secretaria de Administração Penitenciária e Ressocialização do Estado (SEAP/BA) Na esfera federal, desde janeiro de 2023, temos a Secretaria Nacional de Políticas Penais (SENAPPEN), que substituiu o antigo Departamento Penitenciário Nacional (DEPEN), que, além das prerrogativas dispostas na Lei de Execução Penal (LEP), é a responsável pela custódia das pessoas presas nas cinco penitenciárias federais que existem hoje no Brasil, geridas pelo Sistema Penitenciário Federal (SPF). Curso COMPASSO Módulo 3 - As políticas de drogas no Brasil e as políticas de segurança pública 24 A partir de 2019, por meio de uma mudança na Constituição Federal, a categoria profissional responsável pela segurança dos estabeleci- mentos penais e pela custódia das pessoas presas foi equiparada às outras polícias brasileiras. Com isso, os agentes penitenciários se tornaram policiais penais federais, estaduais ou distritais. A descrição que realizamos anteriormente é uma apresentação sucinta e resumida do funcionamento do sistema de segurança pública e justiça criminal brasileiro; a compreensão de cada uma dessas etapas demandaria um aprofundamento maior nesse assunto, o que tem sido realizado por diversas pesquisas na área das ciências sociais e do direito. Por exemplo, o sociólogo Michel Misse (1999) sintetiza esses procedimentos e sanções a partir do processo de “criminação-incriminação”. Michel Misse. Foto: Sociedade Brasileira de Sociologia. Catanduvas (PR) Campo Grande (MS) Porto Velho (RO) Mossoró (RN) Brasília (DF) Penitenciárias federais do Brasil geridas pelo Sistema Penitenciário Federal (SPF) Curso COMPASSO Módulo 3 - As políticas de drogas no Brasil e as políticas de segurança pública 25 Grosso modo, o processo pode ser reduzido a três etapas: a policial, que interpreta ou reinterpreta e registra um evento como crime (ou contravenção) e indicia seus possíveis autores; a etapa judicial inicial, que mantém o registro do evento como crime (ou o anula ou arquiva) e acusa formalmente os indiciados (ou os libera, quando anulados ou arquivados os inquéritos policiais que os acusava); e a etapa judicial final, o julgamento, que estabelece a criminação efetiva (para a qual haverá possibilidade de recurso e revisão) e estabelece uma sentença para o sujeito acusado da ação, o réu (sentença que também pode absolvê-lo da acusação e anular a incriminação). Misse, 1999, p. 136 Para finalizar a unidade, assista ao vídeo sobre o inquérito policial e o processo judicial. Aponte a câmera do seu dispositivo móvel (smartphone ou tablet) para o QR Code ao lado e assista ao vídeo sobre inquérito policial e processo judicial. VÍDEO https://youtu.be/qphPLAbYDCk MÓDULO 3 UNIDADE 3 OS DESAFIOS DO SISTEMA DE SEGURANÇA PÚBLICA E JUSTIÇA CRIMINAL NO BRASIL Curso COMPASSO Módulo 3 - As políticas de drogas no Brasil e as políticas de segurança pública 27 UNIDADE 3 OS DESAFIOS DO SISTEMA DE SEGURANÇA PÚBLICA E JUSTIÇA CRIMINAL NO BRASIL Como vimos na unidade anterior, o funcionamento do sistema de segurança pública e justiça criminal brasileiro envolve uma série de instituições, com distintas abrangências e competências. Esse quadro, somado a uma série de questões históricas, sociais e culturais do país, culmina em uma série de desafios a serem enfrentados nesta área. Nesta unidade apresentaremos alguns deles. 3.1 Superposição de esforços e conflitos entre as instituições policiais e judiciais Na unidade anterior, vimos de maneira sintética que o sistema de segurança pública e justiça criminal brasileiro envolve uma série de atores e instituições, com distintas atribuições e abrangências. Parte considerável da estrutura das polícias é regida pelo artigo 144 da Constituição, que advém do Código Penal de 1940. Essa estru- tura não teve alterações significativas desde então, mesmo após a Constituição de 1988, promulgada após a redemocratização do país. Um dos problemas do sistema de segurança pública e justiça criminal do Brasil apontado por especialistas é a superposição de esforços ou, até mesmo, um conflito de competência entre as instituições policiais e judiciais. Um exemplo é a divisão entre o trabalho preventivo-os- tensivo da Polícia Militar e o trabalho investigativo da Polícia Civil. Esse modelo é criticado por autores como Luiz Eduardo Soares (2019). Para ele, ao impedir que a maior força policial e a que está mais próxima das ruas seja capaz de investigar, acabamos dificultando a investigação de crimes e fazendo com que a maior parte das prisões ocorra em fla- grante. Esse modo de controle faz com que alguns crimes ingressem mais no fluxo do sistema de justiça do que outros. Portanto, torna-se mais difícil resolver crimes que demandam maiores esforços investigativos, o que contribui para alimentar a sensação de impunidade na sociedade. A existência de culturas organizacionais distintas também é outra fonte de conflitos entre as polícias. Enquanto a Polícia Civil segue uma estrutura mais semelhante à das instituições civis, as Polícias Militares têm um vínculo institucional com as Forças Armadas no que se refere à estrutura das carreiras, dos regulamentos, dos regimentos disciplinares e dos manuais de treinamento. Luiz Eduardo Soares. Foto: Brasil de Fato. Curso COMPASSO Módulo 3 - As políticas de drogas no Brasil e as políticas de segurança pública 28 Para Kant de Lima (2013), um dos grandes desafios das polícias brasileiras é a convivência entre saberes tradicionais e éticas cor- porativas com a carência de protocolos explícitos que regulem o uso da força. Esse quadro pode conduzir a uma falta de transparência e universalização dos controlesutilizados pelos policiais em suas rotinas de trabalho. Ainda sobre questões estruturais, as Polícias Civis e as Polícias Mi- litares são organizadas e possuem competência estadual, o que gera disparidades orçamentárias e formativas, além de disparidade no controle e na avaliação das atividades das duas polícias. A cooperação entre ambas, portanto, se coloca como um grande desafio. A Lei nº 13.675/2018, que instituiu o Sistema Único de Segurança Pública (SUSP), mencionada na primeira unidade deste módulo, tem como um de seus principais objetivos, a partir de uma arquite- tura uniforme, a aproximação e o funcionamento harmônico dessas instituições (Brasil, 2018). Com o SUSP, a competência de promoção e garantia da segurança pública continua a ser dos estados, mas a União cria as diretrizes para todo o país. Além de instituir o SUSP, a lei instituiu o Plano Nacional de Segurança Pública e Defesa Social (PNSP), que traz metas como a redução dos índices de mortes vio- lentas e da violência contra a mulher e a atenção aos profissionais de segurança pública. Kant de Lima. Foto: Academia Brasileira de Ciências. SAIBA MAIS O Plano Nacional de Segurança Pública e Defesa Social 2021- 2030 está disponível em: https://www.gov.br/mj/pt-br/acesso- a-informacao/acoes-e-programas/susp/PNSP%202021-2030. Os desafios que ocorrem entre as instituições policiais também são observados na relação entre essas e as do sistema de justiça. Cruz e Jesus (2022) apontaram que, entre tais instituições, ocorre um uma percepção de incompreensão mútua. De um lado, existe a desconfiança dos atores do Judiciário na habilidade das instituições policiais de conduzirem seus trabalhos dentro dos parâmetros pre- vistos pela lei. Por outro, policiais argumentam que o Judiciário seria distante e insensível às complexidades do trabalho policial, seja a atuação ostensiva das Polícias Militares, seja o trabalho investigativo das Polícias Civis. https://www.gov.br/mj/pt-br/acesso-a-informacao/acoes-e-programas/susp/PNSP%202021-2030 https://www.gov.br/mj/pt-br/acesso-a-informacao/acoes-e-programas/susp/PNSP%202021-2030 Curso COMPASSO Módulo 3 - As políticas de drogas no Brasil e as políticas de segurança pública 29 3.2 Altos índices de violência, homicídios e letalidade policial A segurança pública está entre as principais preocupações dos cida- dãos brasileiros. PODCAST TRANSCRITO O medo de ser vítima de um crime orienta várias das nossas atitudes, como os espaços, os horários e as formas de nossa circulação pelas cidades. É fato que parte importante dessas percepções é moldada pela cobertura dos veículos midiáticos, que, muitas vezes, tende a atribuir atenção especial a esse tema. Ao mesmo tempo, as estatísticas e, sobretudo, as experiências de vitimização de um indivíduo ou de terceiros colaboram na manutenção do medo de ser vítima de violência. O Brasil, como muitos outros países da América Latina, possui altos índices de violência. De acordo com o “Estudo Global Sobre Homicí- dios” do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC, 2023), a América Latina concentra a maior taxa de homicídios do mundo, e o Brasil, uma das maiores da região (21,3 homicídios por 100.000 habitantes). Curso COMPASSO Módulo 3 - As políticas de drogas no Brasil e as políticas de segurança pública 30 Fonte: Adaptado de UNODC (2023). As altas taxas de homicídio da região podem ser explicadas por uma série de fatores, entre eles, a grande desigualdade que assola os países latino-americanos. Para alguns autores, as origens de tal desigualdade estariam associadas ao processo de colonização da região, marcado por forte exploração e populações escravizadas. Há muitos outros fatores apontados por especialistas que se rela- cionam aos altos índices de violência em países latino-americanos, inclusive a insuficiência dos serviços públicos destinados aos mais pobres, resquício dos problemas econômicos herdados de governo ditatoriais (Leeds, 1998). O tráfico de drogas ilícitas, notadamente a cocaína, produzida na América Latina e distribuída para todo o pla- neta, contribuiu significativamente para o fortalecimento de grupos criminosos organizados, tema que será apresentado na próxima seção. Vítimas de homicídio a cada 100.000 pessoas Taxas de homicídio por país ou território em 2021 ou no último ano disponível desde 2016 20 - 52.1 10 - 25 3 – 10 1 – 3 < 1 Sem dado Curso COMPASSO Módulo 3 - As políticas de drogas no Brasil e as políticas de segurança pública 31 É preciso destacar as desigualdades sociais e raciais entre as vítimas de violência letal no Brasil. Recorrentes estudos realizados no país demonstram como negros (pretos e pardos) são as principais vítimas de mortes intencionais, inclusive aquelas perpetradas por policiais. O viés racial na atuação das forças policiais é apontado por diversos outros estudos, como um publicado recentemente pelo Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (NEV-USP), que concluiu que adolescentes pretos chegam a ser duas vezes mais abordados pela polícia do que os adolescentes brancos ou pardos (Núcleo de Estudos da Violência, 2023). 3.3 Superlotação das prisões x sentimento de impunidade Outro fenômeno importante no âmbito da segurança pública e da justiça criminal é o crescente número de pessoas encarceradas no Brasil. Não se trata de um fenômeno isolado, haja vista que, na maior parte dos países ocidentais, ainda que em dimensões distintas, são observados processos de aumento do encarceramento e o recru- descimento das penas. Para o teórico David Garland (2008), esse au- mento foi um reflexo do crescimento da criminalidade e do sentimento de insegurança da população das últimas décadas. O uso da pena de prisão – e o consequente isolamento de pessoas condenadas – passou a ser uma resposta cada vez mais comum para esses problemas. Os Estados Unidos se tornaram um símbolo nesse processo conhecido por alguns autores como “encarceramento em massa”. No Brasil, ainda que em dimensões menores do que nos Estados Unidos, também houve crescimento expressivo do encarceramento nas últimas décadas. Em 1993, de cada 100.000 habitantes, 79 estavam privados de liberdade. Em 2023, 30 anos depois, o número de encar- cerados alcançou 319 para cada 100.000 habitantes (SISDEPEN, 2023). Fonte: Fórum Brasileiro de Segurança Pública (2023). David Garland. Foto: The British Academy. Verbete Encarceramento em massa: refere-se à atual experiência estadunidense de encarceramento, que é definida por taxas de encarceramento comparativas e historicamente extremas e pela concentração desproporcional de homens negros, jovens e pobres entre aqueles que permanecem encarcerados. Fonte: Wildeman (2012). Mortes associadas à polícia em 2022 no Brasil 6.429 mortes por intervenção policial 13,5% das Mortes Violentas Intencionais (MVI) 161 policiais civis e militares assassinados, em serviço ou de folga Curso COMPASSO Módulo 3 - As políticas de drogas no Brasil e as políticas de segurança pública 32 | POPULAÇÃO PRISIONAL NO BRASIL EM 2023 POPULAÇÃO PRISIONAL 30/JUNHO 2023 TOTAL Presos em celas físicas Estadual 644.305 649.592 Federal 489 Presos em carceragens de Polícia Civil, Polícia Militar, Corpo de Bombeiros Militar e Polícia Federal 4.798 Pessoas em prisão domiciliar Com monitoramento eletrônico 92.894 190.080 Sem monitoramento eletrônico 97.186 Fonte: Adaptado de SISDEPEN (2023). Apesar da criação de diversas unidades prisionais nos últimos anos, as vagas existentes não são suficientes para atender a toda essa po- pulação prisional. Somente em 2023, o déficit de vagas foi de 166.7 mil vagas (SISDEPEN, 2023). Em consequência disso, a maioria das prisões brasileiras está superlotada e em condições inadequadas. Ao mesmo tempo que o país encarcera um número cada vez maior de pessoas, existe na sociedade brasileira um forte sentimento de impunidade, sustentado por percepçõesamplamente compartilhadas, tais como: “a polícia prende, a Justiça solta”, “no Brasil o crime compensa”, entre outras. Curso COMPASSO Módulo 3 - As políticas de drogas no Brasil e as políticas de segurança pública 33 Para pensar O que os estudos realizados no país têm demonstrado é que as taxas de impunidade são mais elevadas para os crimes violentos, que são os que demandam maiores esforços de investigação. Nesse sentido, os crimes que são registrados em flagrante possuem maiores chances de seguirem o fluxo processual até a condenação. É possível identificar esse padrão quando se observam os tipos penais que mais encarceram no Brasil, que são os crimes contra o patrimônio ou os associados à Lei de Drogas, especialmente o tráfico. | PRINCIPAIS INCIDÊNCIAS IDENTIFICADAS ENTRE A POPULAÇÃO PRESA EM 2023 Total de incidências registradas 682.265 Contra o patrimônio 272.437 Lei de Drogas 193.001 Contra a pessoa 110.258 Contra a dignidade sexual 41.314 Contra a fé pública 4.412 Lei Código de Trânsito Brasileiro 3.156 Contra o meio ambiente 326 Genocídio 24 Estatuto do Desarmamento 31.392 Contra a paz pública 12.038 Lei Estatuto da Criança e do Adolescente 11.081 % do total de incidências 39,93% % do total de incidências 28,29% % do total de incidências 16,16% % do total de incidências 6,06% % do total de incidências 0,65% % do total de incidências 0,46% % do total de incidências 0,05% % do total de incidências 0,00% % do total de incidências 4,60% % do total de incidências 1,76% % do total de incidências 1,62% Fonte: Adaptado de SISDEPEN (2023). Curso COMPASSO Módulo 3 - As políticas de drogas no Brasil e as políticas de segurança pública 34 3.4 Ascensão dos grupos criminosos organizados A partir das décadas de 1970 e 1980 novos desafios começam a surgir no campo da segurança pública, com o crescimento de facções cri- minosas que se articulam principalmente em torno do narcotráfico. A explicação para o surgimento e as dinâmicas de funcionamento dessas facções é complexa e já há uma ampla literatura sobre esse tema que você pode consultar, como Zaluar (1994), Fraga (2010), Feltran (2018), Misse (2023), entre outros. Um ponto em comum de todas as pesquisas é a observação de que a origem dessas facções, pelo menos das duas mais conhecidas, foi o sistema prisional. O Comando Vermelho (CV), no Rio de Janeiro, e o Primeiro Comando da Capital (PCC), em São Paulo, se constituíram a partir dos presídios, tanto como uma maneira de gerir de maneira mais eficaz a convi- vência entre os encarcerados quanto como uma forma de reivindicar melhores condições nas prisões. Ao mesmo tempo, essa percepção de impunidade tem sido bastante danosa para nossa sociedade. Ela tem como reflexo o descrédito na legitimidade e na eficácia das instituições em lidarem com o crime, o que pode gerar não apenas falta de cooperação com as instituições policiais e judiciais mas também o incremento de mecanismos pri- vados de segurança ou de gestão de conflitos. SAIBA MAIS A percepção de impunidade penal na população e a sua relação com o funcionamento do fluxo do sistema de segurança pública e justiça criminal tem sido objeto de pesquisa na área da segurança pública. Na matéria intitulada “A justiça da impunidade”, publicada pela Revista FAPESP, você poderá conhecer de forma sintética alguns dos resultados de pesquisa sobre esse tema, disponível em: https://revistapesquisa.fapesp.br/a-justica-da-impunidade/. https://revistapesquisa.fapesp.br/a-justica-da-impunidade/ Curso COMPASSO Módulo 3 - As políticas de drogas no Brasil e as políticas de segurança pública 35 Foto: © [Gláucio Dettmar] | Ag. CNJ/ Senado Notícias. Os encarcerados, oriundos predominantemente dos estratos mais pobres, encontram, nos presídios, uma condição de vida extremamente precária. Entretanto, o crescente recrutamento, desde os anos 1970, de jovens pobres pelo lucrativo mercado do narcotráfico está relacio- nado às poucas oportunidades para um contingente pobre, com baixa escolaridade e socialmente discriminado. O sociólogo Michel Misse denominou esse processo social de “acumulação social da violência”. Aponte a câmera do seu dispositivo móvel (smartphone ou tablet) para o QR Code ao lado e assista ao vídeo sobre a acumulação social da violência. VÍDEO É como se alguns fatores sociais se alimentassem reciprocamente em uma causação circular acumulativa, gerando, de um lado, acumulação de desvantagens para um segmento da população e, de outro, estratégias aquisitivas partilhadas tanto por agentes criminais quanto por agentes encarregados de reprimi-los, de um modo que ganhou diferentes graus de legitimação em importantes camadas da sociedade mais abrangente. Misse, 2010, p. 18 https://youtu.be/HDuJbz0gj44 Curso COMPASSO Módulo 3 - As políticas de drogas no Brasil e as políticas de segurança pública 36 Os grupos criminosos organizados exploram a venda de merca- dorias ilegais, tais como jogos de azar, armas, drogas e proteção. Para comercializar essas mercadorias ilegalmente, é necessária uma complexa rede de divisão de tarefas, conhecimento das estruturas de poder, amplo emprego de mão de obra e acordos ilegais com agentes públicos, entre outros. Além disso, conforme apontam Jacqueline Muniz e Camila Dias (2022), por vezes a regulação desse mercado envolve a construção violenta de monopólios, como uma tentativa de eliminar disputas e concorrências. Essa violência recai principalmente nos moradores das áreas que estão diariamente sujeitos ao exercício desses poderes e suas consequentes disputas, inclusive com as forças policiais. Em um país no qual os grupos criminosos se proliferam e diver- sificam sua atuação, adotando novas práticas, comercializando novas mercadorias ilegais e complexificando suas redes de poder, encontrar formas de desestruturá-los é uma tarefa urgente para as políticas de segurança pública e justiça criminal. Jaqueline Muniz. Foto: © [Analice Paron] | Agência O Globo. Camila Dias. Foto: NEV/USP. Aponte a câmera do seu dispositivo móvel (smartphone ou tablet) para o QR Code ao lado e assista ao vídeo de animação a respeito desses grupos! VÍDEO SAIBA MAIS Para saber mais sobre as facções criminosas, confira a edição especial do Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2022, que apresenta um mapeamento das facções ligadas ao narcotráfico com uma lista de 53 delas espalhadas por todo o país. Confira o mapa na página 11, disponível em: https://forumseguranca.org.br/wp-content/ uploads/2022/07/anuario-2022-ed-especial.pdf. https://youtu.be/JslvoSq74h4 https://forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2022/07/anuario-2022-ed-especial.pdf https://forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2022/07/anuario-2022-ed-especial.pdf MÓDULO 3 UNIDADE 4 OS IMPACTOS DA LEI DE DROGAS NO BRASIL SOBRE A SEGURANÇA PÚBLICA Curso COMPASSO Módulo 3 - As políticas de drogas no Brasil e as políticas de segurança pública 38 UNIDADE 4 OS IMPACTOS DA LEI DE DROGAS NO BRASIL SOBRE A SEGURANÇA PÚBLICA Quando analisamos os impactos da Lei de Drogas sobre a segurança pública brasileira, percebemos a reprodução de diversos desafios apontados na unidade anterior. Uma pesquisa realizada em 2023 pelo IPEA e pela SENAD demons- trou que, nos tribunais estaduais, 84% dos processos por tráfico de drogas não tiveram origem em investigações anteriores ao fla- grante, diferente do que ocorre nos tribunais federais, onde cerca de 44% dos inquéritos mencionam atividades investigativas pretéritas. Esses resultados reforçam o ponto que debatemos nas unidades an- teriores, que é a preponderância da prisão em flagrante nos crimes associados ao tráfico de drogas. A mesma pesquisa também demonstrou que as Polícias Militares foram as forças que realizaram o maior número de flagrantes. Embora prisões em flagrante também possam ser realizadas pela Polícia Civilpor meio de processos investigativos, para os autores, esse resultado aponta como o modelo de policiamento ostensivo realizado pela Polícia Militar é o que predomina no enfrentamento ao tráfico de drogas. | CONDIÇÃO PROFISSIONAL DOS AGENTES RESPONSÁVEIS PELA ABORDAGEM OU PELO FLAGRANTE DOS RÉUS – TJS Registro Número de processos individuais (%) Policial militar 26.885 76,8 Policial civil 6.673 19,1 Agente penitenciário 1.202 3,4 Policial rodoviário federal 657 1,9 Guarda municipal 556 1,6 Verbete Prisão em flagrante: prisão realizada quando o ilícito penal está sendo praticado ou logo depois. Por ser a única hipótese de prisão realizada sem mandado judicial, toda a documentação é produzida na delegacia de polícia (IDDD, 2013). Curso COMPASSO Módulo 3 - As políticas de drogas no Brasil e as políticas de segurança pública 39 Registro Número de processos individuais (%) Policial federal 325 0,9 Outros 137 0,4 Militar (outras forças) 36 0,1 Segurança privado 29 0,1 Agente socioeducativo 13 0,0 Fonte: Adaptado de IPEA (2023). Outras pesquisas também têm demonstrado não apenas a centralidade do trabalho dos policiais militares nos flagrantes de drogas, mas ainda a preponderância da narrativa policial nesses processos. Um desses traba- lhos foi realizado pela socióloga Maria Gorete Marques de Jesus (2018), que analisou os indícios considerados pelos policiais para categorizar um caso como tráfico. Ela apontou que, diferente de outros crimes, como roubos ou furtos, no caso do tráfico de drogas não existe uma pessoa vítima e, portanto, as principais testemunhas são os próprios policiais que participaram da prisão. Para a autora: Maria Gorete Marques de Jesus. Foto: Foto: NEV / USP. A definição do flagrante vai depender da descrição e da classificação realizada pelos policiais. Os fatos serão concebidos como um flagrante tendo como base aquilo que será narrado pelos policiais. São eles que vão dizer se a droga pertencia ou não à pessoa suspeita, se a viram vendendo, se houve ‘confissão informal’, se viram a pessoa descartando a droga, entre outras narrativas consideradas relevantes para o caso ser recepcionado como um flagrante de drogas. Jesus, 2018, p. 81 Curso COMPASSO Módulo 3 - As políticas de drogas no Brasil e as políticas de segurança pública 40 A partir de entrevistas, a autora destacou elementos que os policiais consideram relevantes para classificar os casos como uso ou tráfico. Veja alguns a seguir. Tipos de drogas apreendidas Presença/ausência de dinheiro Antecedentes criminais Local do flagrante Quantidade da droga apreendida A forma como a droga está dividida | ELEMENTOS UTILIZADOS PELOS POLICIAIS PARA CLASSIFICAÇÃO DE UM CASO COMO TRÁFICO Fonte: Adaptado de Jesus (2018). A pesquisa da autora demonstra ainda como os fatos apontados pela Polícia Militar no momento do flagrante e reproduzidos pela Polícia Civil na elaboração do inquérito policial costumam ser as únicas ou as principais provas utilizadas tanto na fase investigativa quanto na fase judicial dos processos de tráfico de drogas. Outro tema recorrentemente associado à Lei de Drogas é o seu papel no aumento do encarceramento no país. Apesar de a mudança na lei, em 2006, ter como foco a retirada da pena de prisão para os usuários, ela também redundou no aumento das prisões por trá- fico de drogas. Conforme aponta Rodrigues (2012) com dados da época advindos do Ministério da Justiça, em junho de 2007, no pri- meiro ano de aplicação da lei, havia 63.269 pessoas cumprindo pena por crimes relacionados ao tráfico de drogas. Quatro anos depois, em junho de 2011, esse número saltou para 117.143. Outro levantamento realizado pelo G1, em 2017, apontou uma trajetória de crescimento das prisões por tráfico de drogas. Aponte a câmera do seu dispositivo móvel (smartphone ou tablet) para o QR Code ao lado e assista ao vídeo de animação sobre a relação da polícia e a classificação de casos como tráfico. VÍDEO https://youtu.be/lEmUen3qnFk Curso COMPASSO Módulo 3 - As políticas de drogas no Brasil e as políticas de segurança pública 41 Fonte: Adaptado de Portal G1 (2017). Presos por tráfico de drogas 2005 2006 45.133 62.494 100.648 138.366 182.779* 2007 2010 2013 2017 Entrada em vigor da Lei de Drogas out.2006 representam 32,6% dos presos no país 31.520 representam 8,7% dos presos no país *Sem dados de AL, BA, PE, PI e RJ Apesar do aumento das prisões por tráfico de drogas, o que as pesquisas realizadas em distintos contextos brasileiros têm demonstrado é que as prisões em flagrante têm atingido mais os pequenos traficantes. PODCAST TRANSCRITO Esses pequenos traficantes portavam quantidade relativamente pequena de drogas e não estavam armados (Boiteux et al., 2009; Jesus et al., 2011). Ou seja, a maior parte das penas de prisão por tráfico de drogas não atinge diretamente o funcionamento desse mercado, nem a disponibilidade de drogas ilegais, haja vista a substituição imediata dessas pessoas na cadeia de distribuição. Além disso, essas pesquisas apontam que determinadas características podem aumentar a chance de os indivíduos serem categorizados como traficantes, entre elas, se o local onde foi realizado o flagrante é considerado uma área de venda de drogas, a cor da pele do suspeito e o nível de escolaridade, entre outras. Esse resultado sugere a reprodução de uma seletividade específica nos processos por tráfico de drogas, composto principalmente por jovens, pobres, negros e moradores de áreas periféricas (Jesus, 2018). Curso COMPASSO Módulo 3 - As políticas de drogas no Brasil e as políticas de segurança pública 42 Outro reflexo da lei apontado por pesquisadores está relacionado à atuação dos policiais no decorrer de um flagrante, especialmente em casos de uso de drogas. Se, por um lado, os operadores do Judi- ciário recuaram sua atuação em relação ao “uso e posse” de drogas; por outro, os de segurança pública, em seu trabalho cotidiano de abordagens na rua, tornaram-se os principais atores na administração dessas infrações. Nesse sentido, se intensificaram as negociações informais dos encaminhamentos ou não de usuários e usuárias para as delegacias (Grillo; Policarpo; Verissimo, 2011). Em síntese, podemos concluir que o tráfico de drogas, não obstante responda por parte considerável do crescente encarceramento, con- tinua sendo um dos principais problemas de segurança pública no Brasil, inclusive pelo fato de reproduzir, ou mesmo agravar, condições estruturalmente desiguais de nossa sociedade. Veja a seguir os principais pontos abordados neste módulo. Aponte a câmera do seu dispositivo móvel (smartphone ou tablet) para o QR Code ao lado e assista ao vídeo sobre as consequências da Lei de Drogas na prática. VÍDEO SÍNTESE DO MÓDULO Ao longo deste módulo, pudemos perceber como o funcionamento do sistema de segurança pública e justiça criminal do país está diretamente relacionado à aplicação da lei nos crimes relacionados às drogas. Vimos, ainda, como as disputas em torno do mercado ilegal de drogas no país têm gerado ou agravado uma série de desafios. Em relação à atual Lei de Drogas, verificamos como a distinção absoluta entre a conduta de “uso e posse” e a do “tráfico” de drogas – a primeira sem pena de prisão, e a segunda com penas entre as mais graves previstas no Código Penal – aprofundou um viés desigual na aplicação da lei. Houve redução no número de pessoas “enquadradas” como “usuários”, mas, ao mesmo tempo, houve aumento do percentual do crime de “tráfico” em relação ao total da população carcerária, com grande impacto na política penitenciária brasileira. Entre os fatores que explicam a desigualdade na aplicação da Lei de Drogas, deve- se considerar o importante viés racial do sistema de segurança pública e justiça criminal brasileiro, já apontado por diversos estudos. Você finalizou o Módulo 3! No próximo módulo apresentaremosa estrutura governamental responsável pela coordenação das políticas sobre drogas no Brasil. https://youtu.be/9lTzZ7RxmcM 43 REFERÊNCIAS BOITEUX, L. WIECKO, E.; VARGAS, B.; BATISTA, V. O.; PRADO, G. M. Tráfico de drogas e Constituição. Brasília: Ministério da Justiça, 2009. (Série Pensando o Direito n. 1). BRASIL. [Constituição (1988)]. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Presidência da República, 2021. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm. Acesso em: 2 ago. 2023. BRASIL. Emenda Constitucional n° 104, de 4 de dezembro de 2019. 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