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FOUCAULT E DELEUZE/GUATTARI
CORPOS, INSTITUIÇÕES E SUBJETIVIDADES
FOUCAULT E
DELEUZE/GUATTARI
CORPOS, INSTITUIÇÕES E
SUBJETIVIDADES
HÉLIO REBELLO CARDOSO JÚNIOR
FLÁVIA CRISTINA SILVEIRA LEMOS
O R G A N I Z A D O R E S
FOUCAULT E DELEUZE/GUATTARI:
CORPOS, INSTITUIÇÕES E SUBJETIVIDADES
Coordenação de produção Ivan Antunes
Produção Rai Lopes – Paginação
Revisão ?
Capa Carlos Clémen
Finalização Lívia
CONSELHO EDITORIAL
Eduardo Peñuela Cañizal
Norval Baitello Junior
Maria Odila Leite da Silva Dias
Celia Maria Marinho de Azevedo
Gustavo Bernardo Krause
Maria de Lourdes Sekeff (in memoriam)
Pedro Roberto Jacobi
Lucrécia D’Aléssio Ferrara
1ª edição: julho de 2011
© Hélio Rebello Cardoso Júnior | Flávia Cristina Silveira Lemos
ANNABLUME editora . comunicação
Rua M.M.D.C., 217 . Butantã
05510-021 . São Paulo . SP . Brasil
Tel. e Fax. (011) 3812-6764 – Televendas 3031-1754
www.annablume.com.br
Infothes Informação e Tesauro
Catalogação elaborada por Wanda Lucia Schmidt – CRB-8-1922
Agradecimentos
Agradecemos à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São
Paulo (FAPESP) pelo fomento às pesquisas realizadas pelos estudiosos
que escrevem os capítulos deste livro! Também somos gratos à FAPESP
pela co-editoria deste livro e pelo apoio financeiro dedicado para tal
publicação!
Um agradecimento especial à Universidade Estadual Paulista Júlio
de Mesquita Filho (UNESP-Assis/SP) por ter oferecido toda sua infra-
estrutura para a realização das pesquisas aqui apresentadas!
Também é relevante agradecer ao Grupo de Pesquisa: Deleuze/
Guattari e Foucault, elos e ressonâncias pelo apoio e colabo-
ração nas discussões dos estudos aqui publicados!
Um agradecimento especial ao professor e pesquisador Hélio Rebello
Cardoso Júnior pela competência e disponibilidade, pelo espírito crítico
e acolhimento ético constante em sua trajetória acadêmica!
Uma teoria é como uma caixa de ferramentas.
É preciso que sirva, é preciso que funcione.
Gilles Deleuze
Sumário
Prefácio
| 11 |
Cap. 1 | Foucault, história do presente e ontologia histórica:
o que estamos nos tornando?
Hélio Rebello Cardoso Júnior
| 15 |
Cap. 2 | A genealogia foucaultiana como ferramenta
para a escrita da história do presente
Lucas de Almeida Pereira
| 27 |
Cap. 3 | Amizade, em Foucault, e vida não fascista, em Deleuze e
Guattari: modos de vida a favor da diferença
Thiago Canonenco Naldinho
| 41 |
Cap. 4 | Um estudo sobre os modos de subjetivação na
Sociedade Disciplinar e de Controle a partir dos
agenciamentos existentes na Contemporaneidade
Mirela Fernanda de Freitas Alves
| 55 |
Cap. 5 | Estudo sobre a sociedade disciplinar no pensamento de
Foucault e a sociedade de controle no pensamento de Deleuze:
sobre o papel da instituição educacional e o controle na infância
Vivian de Jesus Correia e Silva
| 75 |
Cap. 6 | Por que ainda acreditar na escola: uma busca pela
transformação das relações pedagógicas através da
estética da existência e da amizade
Lucilla Panacioni de Araújo
| 95 |
Cap. 7 | Foucault, com Deleuze e Guattari: problematizando as
identidades culturais, o ideal de progresso e de desenvolvimento
nas práticas da Unesco e Unicef no Brasil
Flávia Cristina Silveira Lemos
| 115 |
Cap. 8 | Práticas de conselhos tutelares em
dois municípios do interior paulista
Jeyson Muruyama; Andressa Kelly Bardella Monteiro;
Priscila Rabelo de Souza; Flávia Cristina Silveira Lemos
| 125 |
Prefácio
FLÁVIA CRISTINA SILVEIRA LEMOS
HÉLIO REBELLO CARDOSO JÚNIOR
Os textos reunidos nesta coletânea são frutos de projetos integrados
pela linha de pesquisa “Ideia de história e temas históricos em Deleuze/
Guattari e Foucault”, do Grupo de Pesquisas “Deleuze/Guattari e Foucault:
elos e ressonâncias”, certificado desde 2004 pela UNESP, junto ao
Diretório de Grupos do CNPq, cujo líder, professor de Filosofia da UNESP/
Assis, é o organizador do presente volume, juntamente com a
pesquisadora Flávia Cristina Silveira Lemos. Todos os demais co-autores
foram alunos da UNESP e estiveram sob a orientação do professor Dr.
Hélio Rebello Cardoso Júnior, em projetos de pesquisa financiados pela
FAPESP e pela CAPES.
Hélio Rebello Cardoso Júnior, no capítulo de abertura – Foucault,
história do presente e ontologia histórica: o que estamos nos tornando?
– corajosamente afirma que pretende pensar uma relação entre uma
história do presente e uma ontologia histórica, por meio da intercessão
de Foucault e Deleuze, em que este destaca como Foucault constituía
ontologias históricas: o “ser-saber”, o “ser-poder” e o “ser-si”. Foucault
e Deleuze produziriam uma filosofia da imanência, problematizadora
do presente, por meio de uma ontologia histórica de nós mesmos: o que
estaríamos deixando de ser e nos tornando? Seria no ponto de
confluência entre disciplina e controle que Foucault e Deleuze
possibilitam a construção de uma história do presente como ontologia
histórica de nós mesmos.
12 FOUCAULT E DELEUZE/GUATTARI
Lucas de Almeida Pereira, no capítulo Genealogia foucaultiana como
ferramenta para a escrita da história do presente, busca analisar alguns
conceitos fundamentais, como o de acontecimento, o de descontinuidade
e a crítica à noção de origem, para a compreensão da historicidade
dentro da fase do pensamento de Michel Foucault conhecida como
genealogia, no âmbito de uma história do presente.
Thiago Canonenco Naldinho, em seu capítulo – Amizade, em
Foucault, e vida não fascista, em Deleuze e Guattari: modos de vida a
favor da diferença –, apropria-se do pensamento de Foucault, Deleuze e
Guattari, fazendo deles operadores conceituais para produzir resistências
e máquinas de guerra, frente ao panorama da sociedade contemporânea.
A pergunta apresentada gira em torno de como criar uma ética, estética
e política da vida que rompa com os microfascismos e tentativas sutis
de captura do Capitalismo Mundial Integrado. Como fazer da amizade
estabelecida entre Foucault, Deleuze e Guattari um potente dispositivo
de deslocamento do pensamento e, de modo imanente, um processo de
singularização da existência?
Mirela Fernanda de Freitas Alves, no capítulo Um estudo sobre a
caracterização dos modos de subjetivação nas Sociedades Disciplinar e
Controle a partir dos agenciamentos existentes na Contemporaneidade,
interroga os processos de subjetivação engendrados por meio dos
mecanismos disciplinares e de controle, problematizando suas táticas
específicas e compostas em dispositivos materiais e concretos que
investem os corpos, na sociedade contemporânea. Da modelização
individualizante e fixa em subjetividades homogêneas, na sociedade
disciplinar, opera-se uma transição para uma modulação fluida, em
meio-aberto e veloz, em que se passa a falar de uma marcação da
identidade pela diferença, um novo ser fragmentado, que se reveste de
identidades múltiplas, segundo deseja ou necessita, como um consumidor
de subjetividades deslizantes e mutantes. Proliferam-se singularidades
e não mais sujeitos.
Vivian de Jesus Correia e Silva, em seu capítulo – Estudo sobre a
sociedade disciplinar no pensamento de Foucault e a sociedade de controle
no pensamento de Deleuze: um olhar sobre o papel da instituição
educacional e o controle na infância –, questiona a construção do sujeito
pedagógico, no campo da Educação Infantil, na sociedade
contemporânea. As crianças seriam confinadas cada vez mais cedo,
funcionando em uma rede complexa de disciplina e controle dos corpos,
em um capitalismo mundial integrado.
13Hélio Rebello Cardoso Júnior | Flávia Cristina Silveira Lemos
Lucilla Panacioni de Araújo, no capítulo seguinte – Por que ainda
acreditar na escola: uma busca pela transformação das relações
pedagógicas através da estética da existência e da amizade ˆ cartografa
linhas de forças suscitadas em encontros e experimentações realizadas
em uma prática de estágio em curso de graduação em psicologia, no
estabelecimento escola. A autora se propõe pensar não só entradas da
psicologia na educação, mas múltiplas saídas para “rachar” a
psicologização e medicalizaçãodas práticas instituídas no âmbito escolar
e criar zonas de abertura para produção de outras conexões de
professores e estudantes com a escola.
Flávia Cristina Silveira Lemos, no capítulo Foucault, com Deleuze e
Guattari: problematizando as identidades culturais, o ideal de progresso
e de desenvolvimento nas práticas da Unesco e Unicef no Brasil, interroga
como as agências Unicef e Unesco vêm instrumentalizando o conceito
de identidade cultural, na gestão diferencial das populações, por meio
de uma biopolítica. Lemos coloca em xeque e problematiza o próprio
acontecimento identidade cultural e as tentativas de construção de uma
concepção de direitos humanos sustentada em uma justiça equitativa.
Jeyson Muruyama, Andressa Bardella, Priscila de Souza, em
coautoria com Flávia C. S. Lemos, em capítulo sobre as Práticas de
conselhos tutelares em dois municípios do interior paulista, baseados
na genealogia de Michel Foucault, analisam os efeitos de práticas de
conselheiros tutelares, problematizando como descreviam as crianças,
jovens, seus familiares, os direitos e os deveres prescritos no Estatuto da
Criança e do Adolescente. O Conselho Tutelar participa da produção e
manutenção de uma rede de relações de poder que captura os corpos e
os submete. Atravessado por inúmeras outras instituições e, por outro
lado, atravessando-as também, o Conselho insere-se nos diversos
mecanismos que compõem o que Deleuze chamou de Sociedade de
Controle. Os corpos são submetidos a infindáveis modulações, vindas
das instituições disciplinares, as quais já não possuem delimitações
definidas. Seus muros foram rompidos e seus mecanismos disciplinares
difundiram-se na sociedade, por intermédio da sobreposição de funções
das instituições.
1
Foucault, história do presente e ontologia
histórica: o que estamos nos tornando?
HÉLIO REBELLO CARDOSO JÚNIOR
O OBJETIVO DO presente texto é fazer uma reflexão a respeito de dois
assuntos que afugentam tanto historiadores quanto filósofos, de parte a
parte, cada qual por motivos e idiossincrasias que lhes são próprios.
Aos historiadores, nada mais lhes mete medo do que uma, assim chamada,
história do presente: aliás, como seria possível escrever a narrativa
daquilo que não acabou e, portanto, adquirira a sedimentação requerida
por toda crítica documental – esta que é o fundamento de todo
conhecimento histórico? Os filósofos, por sua vez, arrepiam-se quando
alguém propõe uma suposta ontologia histórica, pois lhes parece uma
contradição nos próprios termos da proposição: afinal, como se pode
conhecer o Ser na história, se aquele é estabilidade e esta é movimento
do tempo?
Se ambos os lados, historiadores e filósofos, já ficam assim
implicados pelas questões que acima formulo e a eles dirijo, imaginem
se ambas as indagações, para embaralhar os partidos tomados, fossem
reunidas em uma única equação. Por isso, para complicar, eu digo:
uma história do presente necessita de uma ontologia histórica. Essa é,
pois, a proposição que temos de tratar. O que é ontologia histórica e
como ela permite uma história do presente? Antes de resolvermos a
questão assim formulada, vejamos que as relações entre historiadores e
filósofos têm sido marcadas, justamente, por uma dificuldade em realizar
uma cooperação mútua.
16 FOUCAULT, HISTÓRIA DO PRESENTE E ONTOLOGIA HISTÓRICA
Entre historiadores e filósofos
As tentativas de estabelecer relações entre filosofia e história têm
originado os mais diversos posicionamentos. Por vários motivos, oscila-
se desde a negativa absoluta quanto à possibilidade de cooperação
entre ambas até exortações vagas que exaltam a sua união.
Com efeito, recorde-se que palavras de um historiador de peso,
como Lucien Febvre, são capazes de desconcertar e afugentar leitores
ou historiadores que também apreciam a filosofia, quando afirma: “Aliás,
permiti-me dizer muitas vezes: os historiadores não têm grandes
necessidades filosóficas” (FEBVRE, 1965, p. 4). Naturalmente, tal censura
serviria apenas àqueles historiadores que acreditam numa suficiência
metodológica adquirida um tanto intuitivamente, de modo que, assim
incentivados, põem-se a perscrutar com ânimo redobrado a atmosfera
repleta dos arquivos.
Ressalve-se, no entanto, que a rigidez desse posicionamento é em
parte verdadeira e em parte falsa. Verdadeira, pois se dá que os filósofos
tendem a esquecer os limites materiais do conhecimento histórico, ou
seja, os acontecimentos encontrados nos documentos, de maneira que
passam a prescrever uma filosofia da história “no sentido hegeliano,
especulação sobre o devir da Humanidade” (MARROU, 1958, p. 11,
17-18). Falsa, porque uma reação cega não pode vislumbrar a
possibilidade de cooperação entre filosofia e história, do ponto de vista
epistemológico.
Porém, este último posicionamento, embora indique certa positividade,
é ainda uma exortação bastante vaga. De fato, o historiador ficará
insatisfeito se a cooperação epistemológica se estabelecer em dois sentidos.
Em primeiro lugar, e espontaneamente, ao historiador devotado ao afã
da investigação parecerá insuficiente, e talvez contraditório, que se
demande da filosofia apenas uma disciplina capaz de examinar os
problemas de ordem lógica suscitados pela pesquisa empírica. Em segundo
lugar, supondo que o mesmo historiador arrisque preocupações filosóficas
mais ambiciosas, desconfia que uma intervenção da filosofia em questões
de ordem cognitiva atinentes à objetividade do conhecimento histórico
poderia novamente abrir o flanco à metafísica que ele julgava ter evitado,
com a rejeição à filosofia da história.
Em ambos os casos, vale notar, o historiador reage com razão, pois
o seu trabalho está sendo literalmente monitorado e superposto pela
filosofia.
17Hélio Rebello Cardoso Júnior
Por seu turno, o filósofo não deseja ver o historiador sufocado dessa
maneira. Refletirá um pouco e constatará que historiadores clássicos,
como Tucídides, Edward Gibbon e Marc Bloch, não estão vinculados a
nenhum dos dois modos de conceber as relações entre filosofia e história,
e, entretanto, realizaram obras históricas reconhecidas. Por outro lado,
o filósofo, compreensivelmente, não pode admitir que essas admiráveis
realizações da historiografia se façam às expensas da filosofia. É para
ele inconcebível que ali, no interior do trabalho do historiador, já não
esteja guardada alguma lição que deva ser trazida à luz, de modo que
a filosofia possa, enfim, cooperar adequadamente com a história.
Sendo assim, o espírito do filósofo povoa-se de sentimentos
desencontrados. A sua tarefa é complexa. Ele precisa indicar a
contribuição da filosofia à história e, simultaneamente, respeitar a
liberdade do historiador, para que este não se sinta constrangido e
continue sendo um bom narrador, isto é, que conte bem uma história,
como Tucídides, Gibbon ou Bloch. Começará, por conseguinte, pelo
mais simples, formulando uma tarefa filosófica nos seguintes termos: a
cooperação entre filosofia e história deve, em princípio, acolher a
autonomia de ambas, em suas relações de convivência.
Creio que uma das soluções possíveis a esse impasse da convivência
pode ser dada através da proposição de uma ontologia histórica, como
assinalado acima. Nós o faremos com a ajuda de dois filósofos
contemporâneos: Foucault e Deleuze. Aquele, devido a seu grande
interesse pela história e por ter produzido conhecimento histórico; este,
porque, justamente, aponta que os livros de histórias do filósofo Foucault
realizam ontologias históricas.
Ontologia histórica: o que é e para que serve
A fim de evidenciar tal trajeto, que constitui a plataforma desse
texto, é importante indicar que um dos aspectos mais desenvolvidos
por Foucault fora uma certa junção entre ontologia e história, inédita
no cenário da filosofia contemporânea, inovadora inclusive com relação
a uma potente ontologia de nosso tempo, a de Heidegger, na medida
em que esta inclui – lembre-se de passagem – o problema da
historicidade. “Foucault”, declara Deleuze, “é seguramente, ao lado de
Heidegger, mas de uma maneira totalmentediversa, aquele que mais
profundamente renovou a imagem do pensamento” (DELEUZE, 1990,
p. 130-131). Deleuze reservou um nome próprio para a novidade legada
18 FOUCAULT, HISTÓRIA DO PRESENTE E ONTOLOGIA HISTÓRICA
por Foucault: trata-se de um campo conceitual delimitado por
determinadas “ontologias históricas”.
Deleuze procurou sistematizar essa junção entre ontologia e história,
elaborada por Foucault, aplicando à obra deste um conceito de definido
por Leibniz: a “dobra”. As conexões desse conceito, no interior do campo
conceitual foucaultiano, não só são uma versão fiel e inovadora do
pensamento de Foucault, como o levam ao coração da teoria das
multiplicidades sistematizada por Deleuze, permitindo em contrapartida
desvendar na obra de Foucault uma importante contribuição à ontologia
contemporânea. Geralmente, tal aspecto é tido como avesso ao
pensamento foucaultiano ou minimizado em sua importância, devido
a uma suposta incompatibilidade entre a positividade dos problemas
históricos e a abstração das questões a respeito do ser.
Como sistematizador das ideias onto-históricas de Foucault, o
conceito de “dobra”, em sua formulação, conexões e aplicação aos
conceitos foucaultianos, fornece-nos um mapa do encontro Foucault/
Deleuze/Guattari. O conceito de dobra propicia entender por que a
obra filosófica de Foucault se enraíza tão profundamente nas questões
práticas que envolvem a história, inclusive a história do tempo presente,
abrigando perguntas vitais que fazemos diretamente para nosso tempo.
Uma “ontologia histórica” engloba, antes de qualquer coisa, certo
modo de conceber a relação entre filosofia e história. Foucault quer
transformar a história em seus métodos, no modo de lidar com a
documentação histórica, já que “é certo que a história faz parte de seu
método. Mas Foucault nunca se tornou historiador. Foucault é um filósofo
que inventa com a história uma relação que difere totalmente da dos
filósofos da história” (DELEUZE, 1990, p. 130). Certamente, ele traz
novos temas, novos objetos, novas técnicas; porém, de forma mais aguda,
ele oferece ao historiador, ao cientista social, ao educador, ao linguista,
uma compreensão filosófica da história que não deturpa o trabalho
destes, não os obriga a tergiversar, amargurar-se ou, o que é pior, curvar-
se a uma ontologia que parece mal acomodada à lide empírica.
Para evitar essas admoestações que impunham um estranhamento
entre o filósofo e aqueles que precisam da história como demanda para
suas pesquisas, segundo Deleuze, Foucault teria inventado três ontologias
históricas, a saber, a do “ser-saber”, do “ser-poder” e do “ser-si” ou
“dobra do ser” (cf. DELEUZE, 1986, p. 117, 119-122).
O ser-saber diz respeito a um “estrato” ou “formação histórica”
subdividido em duas séries, o “enunciável” e o “visível”, que têm
19Hélio Rebello Cardoso Júnior
existência singular de acordo com o momento considerado. Trata-se da
“arqueologia do saber”, para utilizar a denominação consagrada. Da
mesma forma, o ser-poder consiste em relações que obrigam as séries
de enunciados e de visibilidades a um corpo a corpo, apesar de sua
exterioridade relativamente aos estratos. Desse modo, temos a conhecida
“genealogia do poder”. Essas relações sempre se distribuem de acordo
com o momento, isto é, para cada confronto entre um enunciado e uma
visibilidade, há uma determinada relação. Conforme Guattari e Rolnik,
o modo deleuzeano de entender o “ser-si”, na sua formulação
foucaultiana, relaciona-se à noção de “produção de subjetividades”, na
qual se observa, não apenas a sua relação com os estratos, como também
o seu papel nos “processos de singularização” que caracterizam uma
“estética da existência” (cf. GUATTARI; ROLNIK, 1993, p. 25-30).
Essas três ontologias históricas, do ponto de vista filosófico
propriamente, podem ser compreendidas como caracterizando uma
substância que, ao invés de se definir pela unidade, pelo primeiro-motor,
pela transcendência, pelo ato transcendental ou pelo esquecimento do
ser, compusesse um ser cujos principais atributos – saber, poder e si –
são especializações de relações a partir de elementos quaisquer. Esses
elementos podem ser chamados “forças”, em função de seu caráter
eminentemente relacional, uma vez que uma força somente se explicita
na relação com outras forças. Além disso, uma relação entre forças
estabelece sempre uma “singularidade”, em vista de seu caráter
heterogêneo frente a todas as outras relações. Essas relações de forças
se especializam como dobras que se fazem e desfazem umas sobre as
outras, não apelando, portanto, para nada além.
Com base nesse aprendizado, chegara a hora de desbloquear certas
retenções da filosofia contemporânea. Segundo Machado, através da
“temática da dobra em Foucault [...] Deleuze estabelece uma ligação
entre ele e Heidegger e Merleau-Ponty, que ultrapassa a intencionalidade
através da dobra do ser ou ultrapassa a Fenomenologia através de
uma ontologia” (MACHADO, 1990, p. 202). Deleuze alerta que essa
finta dentro do campo filosófico contemporâneo é dupla, pois, além
da fenomenologia, o pensamento de Foucault também inovaria com
relação ao de Heidegger. De um ponto de vista panorâmico, pode-se
dizer que Deleuze destaca a problemática da “dobra do ser” em
Foucault, a fim de demarcar, neste último, seu desvencilhar-se em
relação à “intencionalidade” da fenomenologia e à ideia de dobra,
em Heidegger.
20 FOUCAULT, HISTÓRIA DO PRESENTE E ONTOLOGIA HISTÓRICA
Podemos já retirar uma observação parcial dessas passagens de
história da filosofia, salientando que Deleuze celebrava com Foucault,
concretamente em suas alianças conceituais, a realização de uma filosofia
da imanência. As ontologias são históricas, de fato, porque, em cada
uma delas, a condição que o ser impõe ao condicionado, ou seja, o
saber, o poder e o si, nunca é maior que eles, posto que, nos termos
precisos de Deleuze, “sendo condições, elas não variam historicamente;
mas elas variam com a história” (DELEUZE, 1986, p. 122).
Outra forma de explicar o caráter das ontologias históricas é destacar
que essas condições não se referem à experiência possível, isto é, elas
não são condições apodíticas, no sentido kantiano do termo, mas
condições “problemáticas”, na medida em que procuram dar conta das
condições da experiência real. O problema do condicionamento nas
ontologias históricas foucaultianas é outra maneira de dizer que tais
ontologias se estabelecem em um campo de imanência. Vejamos por
quê.
Essas ontologias fornecem ao historiador perguntas – “problemas”
– muito precisas que remetem diretamente para a massa documental
ou são perguntas que ele faz para seu próprio tempo, porque um
problema somente é verdadeiro se formulado em função de uma cláusula
de condicionamento imanente que não vai além da experiência real:
“[...] o que eu posso saber, ou o que eu posso enunciar e ver em tais
condições? Que posso fazer, que poder pretender e quais resistências
opor? O que eu posso ser, de que dobras me envolver ou como me
produzir como sujeito?” (DELEUZE, 1986, p. 122).
As questões das ontologias históricas, nesse sentido, instauram um
campo problemático formado por três “práticas” que se efetuam como
“dobras”, cada uma com sua caracterização própria: as práticas
discursivas (domínio ontopragmático do ser-saber), as práticas não-
discursivas ou de poder (domínio ontopragmático ser-poder) e as práticas
de subjetivação (domínio ontopragmático ser-si).
O questionário histórico, não somente o dos historiadores, cientistas
sociais, educadores, linguistas, como também de qualquer um, assim,
é caracterizado por uma simplicidade pragmática que, se atende a
uma premência que dá o tom de toda ação, por outro lado, não deixa
de envolver uma sofisticação filosófica do conhecimento histórico. Tudo
se passa como se nos sentíssemos agora livres para fazer perguntas
simples e diretas. Em um campo problemático, a pergunta que eles
fazem para seu tempo ou que fazem para o passado se equivale, visto
21Hélio Rebello Cardoso Júnior
que, em ambos os casos,a pergunta está dirigida para “o que se vê, o
que se fala, o que se combate, o que se vive”.
O questionário histórico desenvolve-se, especialmente, para os dois
diagramas históricos de que fazemos parte: a “sociedade disciplinar” e
a “sociedade de controle”, dos quais trataremos adiante. De fato, quanto
a todos os aspectos que, como vimos, operacionalizam as ontologias
históricas, as quais, por si só, evidenciam a coparticipação de Foucault
e Deleuze/Guattari em um mesmo plano conceitual e temático, a mesma
interseção entre esses pensadores pode ser observada na especificação
dos diagramas das sociedades “disciplinar” e de “controle”.
Sociedade disciplinar e sociedade de controle como campo de
estudos das ontologias históricas: história do presente
Toda sociedade impõe um controle social sobre o corpo. Mas é
exatamente esse controle que varia historicamente. Na sociedade
disciplinar, o corpo é um objeto de análise e é fragmentado, a fim de
que a disciplina possa transformá-lo num “corpo útil”, na expressão de
Foucault (FOUCAULT, 1999b, p. 287) Através de certas técnicas que se
aplicam ao corpo, o ser humano é visado como um objeto que pode ser
modelado. Foucault dá o exemplo dos exercícios militares, onde a
coordenação dos movimentos dos soldados visa a destituí-los de toda
dimensão subjetiva, de modo que cada um deles possa estar ligado por
operações formalizadas. Trata-se de uma organização do espaço – o
espaço disciplinar – mas também do tempo, pois a ideia é que uma
função disciplinar (operações formalizadas) molde os corpos em tempo
contínuo, dentro de cada espaço disciplinar. E, quando o indivíduo sai
de um espaço para o outro, ou seja, quando ele vai ser moldado segundo
outra função, a operação exercida sobre o corpo no espaço anterior
sirva como preparo para a nova função.
Por conseguinte, a sociedade disciplinar se organiza de acordo com
a contiguidade de vários espaços disciplinares, onde funções, embora
diferentes entre si quanto a seu objetivo, se interconectam, no sentido
de que obedecem ao mesmo diagrama ou organização. Dessa forma, o
ideal da sociedade disciplinar é maximizar o exercício da função em
cada espaço, para que as várias funções disciplinares se encadeiem
sem lacunas. A sociedade disciplinar precisa igualmente aumentar os
espaços disciplinares, a fim de que o deslocamento dos indivíduos entre
os vários espaços não interrompa a continuidade da modelação.
22 FOUCAULT, HISTÓRIA DO PRESENTE E ONTOLOGIA HISTÓRICA
Em determinado sentido, pode-se dizer que a disciplina controla os
corpos para produzir indivíduos. Eis a produtividade do poder
disciplinar: produção de individualidade, por meio de modelagem dos
corpos nos espaços disciplinares. Quando a função é educar, a matéria
são os escolares; quando é castigar, a matéria são os prisioneiros – e
assim por diante.
Desse modo, a tecnologia disciplinar parte da ideia de que os
indivíduos têm entre si uma igualdade formal. O exame, enquanto
procedimento da tecnologia disciplinar, que transforma o indivíduo em
objeto de conhecimento. Eis o elo poder-saber, ou seja, de que forma as
relações de poder constituem os regimes discursivos de um determinado
tipo de saber. Os detalhes da vida cotidiana tornam-se temas de pesquisa,
através de documentação minuciosa. Para Foucault, quanto a esse
aspecto, há uma ligação importante entre as ciências humanas e os
procedimentos disciplinares. De fato, um aspecto disciplinar é, ao mesmo
tempo, um lugar de aplicação de tecnologia disciplinar e um laboratório
onde um saber é produzido de modo bruto, isto é, como dados a serem
organizados e formalizados em procedimentos, teorias, sistemas etc.
Sendo assim,
[...] pelo jogo dessa quantificação, dessa circulação dos
adiantamentos e das dívidas, graças ao cálculo permanente das
notas a mais ou a menos, os aparelhos disciplinares hierarquizam,
numa relação mútua, os “bons” e os “maus” indivíduos. Através
dessa microeconomia de uma penalidade perpétua, opera-se uma
diferenciação que não é a dos atos, mas dos próprios indivíduos, de
sua natureza, de suas virtualidades, de seu nível ou valor.
(FOUCAULT, 1999a, p. 151).
A sociedade disciplinar é formada por vários espaços disciplinares,
cada qual tomando o corpo como objeto do qual extrai uma determinada
função disciplinar. Devido à articulação em rede dos espaços
disciplinares, Foucault afirma que existe um “diagrama” da sociedade
disciplinar. Trata-se de um esquema de seu funcionamento que explica,
em cada caso, como o corpo é submetido a uma tecnologia de poder –
o “diagrama de um mecanismo de poder”, porque resume seu “modelo
generalizável de funcionamento”, sendo uma “maneira de definir as
relações de poder com a vida cotidiana dos homens” que se destaca de
“qualquer uso político” para se tornar uma “figura da tecnologia política”
(FOUCAULT, 1999a, p. 181). As aplicações desse diagrama são
23Hélio Rebello Cardoso Júnior
múltiplas: corrigir prisioneiros, cuidar dos doentes, instruir os escolares,
guardar loucos, fiscalizar operários.
A grande lacuna da sociedade disciplinar era a questão dos espaços
interdisciplinares. Procura-se coordenar todas as funções disciplinares,
mas sempre restavam lacunas à disciplinarização. Por quê?
Os saberes e os poderes de todos os tempos procuram domar os
corpos, mas estes lhes escapam, perfazendo uma história da resistência
relativa à vida, já que “o ponto mais intenso das vidas, onde se concentra
sua energia, fica exatamente ali onde elas se chocam com o poder, se
debatem com ele, tentam utilizar suas forças e escapar de sua
armadilhas” (FOUCAULT, 1977, citado por DELEUZE, 1986, p. 101). O
que acontece, portanto, é que, por mais disciplinados que fossem, os
corpos encontravam como ponto de fuga os espaços de intervalo entre
os lugares de disciplinarização. Os espaços disciplinares não eram
eficazes, se não fossem pouco extensos. Em espaço aberto, a disciplina
não alcançava as subjetividades. Esse era o ponto cego da sociedade
disciplinar. Foucault descobrira pontos de resistência difusos, na maioria
das vezes imperceptíveis para uma percepção disciplinar (FOUCAULT,
1985, p. 91-92).
Foucault ilustra fartamente a ideia de que há resistência à
disciplinarização, pois a subjetividade se diferencia das estratégias
identitárias que buscam focá-la. Há, entre outros exemplos, a tarefa
impossível da medicina da sexualidade em classificar o espaço ocupado
pela homossexualidade. Na verdade, o tratamento das perversões de
ordem sexual deflagrou um furor classificatório, com o fito de registrar
as mínimas diferenças entre comportamentos sexuais, expediente este
relativo à “psiquiatrização do prazer perverso” (FOUCAULT, 1985, p.
53-55). O resultado dessa cruzada taxionômica é que os comportamentos
sexuais perversos pareciam ter uma variedade infinita, de sorte que os
critérios para sua classificação nunca eram suficientes. Ora, esse relativo
fracasso por parte da medicina da sexualidade indica que toda disciplina
deflagra uma resistência pela qual novos modos de comportamento
são criados à revelia do dispositivo.
Em vista de relativo fracasso das disciplinas, a partir do século XX,
os dispositivos de captura das subjetividades começam a funcionar de
acordo com uma nova dinâmica. As subjetividades passam a ser
moldadas em espaço aberto. Elas não se reduzem mais à individualidade,
ao centro de um “eu”. Ao contrário, as subjetividades são formadas por
feixes de fluxos que se combinam ou se afastam, em um movimento
24 FOUCAULT, HISTÓRIA DO PRESENTE E ONTOLOGIA HISTÓRICA
acelerado. As formas de moldagem dos sujeitos não mais se confinam
os espaços disciplinares, submetendo os indivíduos a uma vigilância
generalizada - essas novas práticas de compor subjetividades
caracterizam o que Deleuze convencionou chamar de “sociedades de
controle” (DELEUZE, 1990, p. 219-226).
Ao invés dos moldes de subjetividade baseados na identidade do
indivíduo, teremos uma subjetividade em modulação contínua. Não
precisamos mais estar em casa para nos sentirmos filhos ou na escola
para aprendermoscomo alunos. Por um lado, somos filhos e alunos em
qualquer parte, pois ser filho ou aluno é um fluxo que passa por nós.
Por outro, temos uma margem de escolha, porque, como a subjetividade
é apenas o ponto de cruzamento de diversos fluxos, podemos deixar de
ser filhos ou alunos, quando ser um ou outro satura.
Assim, vivemos, quanto à nova sociedade de controle, uma situação
paradoxal. Os lugares que, na época da disciplina, se constituíam
enquanto espaço de fuga e de resistência, são agora o lugar do controle.
Parece que não adianta ser um nômade com relação aos espaços
disciplinares, já que a própria sociedade capitalista criou um dispositivo
nômade que captura a subjetividade em movimento.
Contudo, como se pode fugir dessa “axiomática capitalista”
(DELEUZE; GUATTARI, 1972, p. 373) que coopta a subjetivação?
[...] é que para Deleuze e Guattari o que está em jogo é sempre a
possibilidade de estarmos em conexão com os processos
desterritorializantes que se constituem como possibilidade de
construção de novos territórios existenciais, deslocados das
estratificações normalizadoras e fixistas. São tais estratificações
que produziriam a cada vez os sintomas. (LOPES, 1996, p. 106).
Ora, o próprio Foucault entendia que a possibilidade de construção
de “novos territórios existenciais” e, portanto, a fuga dos processos de
controle da “axiomática capitalista” dependiam de um modo histórico
de se compreender a vigência de nossa subjetividade. A subjetividade,
o sujeito, para Foucault, envolve um processo de subjetivação, ou seja,
toda experiência que concretiza uma subjetividade engloba modos
historicamente peculiares de se fazer a experiência do si. A subjetivação
não é um processo totalmente cooptado pelos dispositivos de saber-
poder vigentes. A subjetivação, como modo histórico imanente de
realizar as práticas de si, é formada por linhas de fuga ou pontos de
resistência.
25Hélio Rebello Cardoso Júnior
Em A vontade de saber, Foucault descobrira pontos de resistência à
rede do poder, mas ele precisava responder a partir de onde se formam
essas resistências difusas, na maioria das vezes imperceptíveis
(FOUCAULT, 1985, p. 91-92). Tal indagação tornava-se necessária por
uma constatação: se as subjetividades oferecem resistência, se elas estão
envolvidas por processos de subjetivação que vão além da forma
subjetiva, por consequência, o sujeito dispõe de uma mutabilidade ou
plasticidade que lhe confere uma dimensão temporal ou
transformacional. Tal problematização, quer dizer, a procura de uma
instância positiva de subjetivação, que não apareça meramente como
lugar de “resistência” aos saberes e poderes, coloca-nos justamente num
ponto de questionamento daquilo que deixamos de ser com o que estamos
nos tornando. Em suma, é necessário, tanto para o historiador quanto
para o filósofo, observar essa zona de confluência entre disciplina e
controle.
É esse ponto de questionamento que torna apta uma história do
presente, tendo em vista a ontologia histórica e seu modo de captar a
transformação histórica.
Referências Bibliográficas
DELEUZE, G. Foucault. Paris: Minuit, 1986.
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DELEUZE, G.; GUATTARI, F. O anti-Édipo. Trad. de Georges Lamazière. Rio de
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26 FOUCAULT, HISTÓRIA DO PRESENTE E ONTOLOGIA HISTÓRICA
MACHADO, R. Deleuze e a Filosofia. Rio de Janeiro: Graal, 1990.
MARROU, H.-I. De la Connaissance Historique. Trois. éd. Paris: Seuil, 1958.
2
A genealogia foucaultiana como
ferramenta para a escrita da
história no presente
LUCAS DE ALMEIDA PEREIRA
Este capítulo visa a analisar alguns conceitos fundamentais para a
compreensão da historicidade no pensamento de Michel Foucault, a
partir da genealogia, no âmbito de uma história do presente. Foucault
sempre pensou a história: prova disso é que sua obra possui uma História
da loucura, em seus primórdios, e uma História da sexualidade
(FOUCAULT, 2005d), em seu fim. O pensamento foucaultiano atravessou
o campo da história em vários momentos, no entanto, foi na fase
conhecida como genealogia que o pensamento foucaultiano mais
alcançou os historiadores, angariando críticas e sendo, inclusive, alvo
de debates entre historiadores. Livros, como Vigiar e Punir (FOUCAULT,
1995) e o primeiro volume da História da Sexualidade. A vontade de
saber, foram debatidos por nomes, como Michel de Certeau, Carlo
Ginzburg e Jacques Leonard, sempre envoltos em polêmica pelo modo
ousado como Foucault encarava a história.
Pretendemos examinar o impacto dessa história genealógica de
Foucault como instrumental teórico para uma história do presente,
através da análise de três conceitos: acontecimento, descontinuidade e
crítica à noção de origem. Consideramos tais aspectos fundamentais
para o entendimento da historicidade no percurso de Foucault, pois
permitem fazer uma nova abordagem da história, abrindo ao campo
histórico novas perspectivas de pesquisa, enfim, um novo modo de fazer
história. Propomos, portanto, analisar o que Foucault chama de
genealogia, por intermédio desses três conceitos.
28 A GENEALOGIA FOUCAULTIANA COMO FERRAMENTA ...
Em vários momentos da genealogia, Foucault refere-se a uma
“história tradicional” para diferenciar seu método de análise. Em
Arqueologia do Saber (FOUCAULT, 2005), ele enumera algumas
características dessa “história tradicional”: ela seria marcada pela busca
de continuidade, de sentido, dentro das rupturas, da uniformização do
múltiplo, seguindo o projeto de uma história global (cf. FOUCAULT,
2005, p. 6-13). Nas palavras de Foucault:
O projeto de uma história global é o que procura reconstituir a
forma de conjunto de uma civilização [...] a significação comum a
todos os fenômenos de um período, a lei que explica sua coesão – o
que se chama metaforicamente o “rosto” de uma época.
(FOUCAULT, 2005, p. 10 – 11).
Foucault arrola certas características da “história global”: esta
relacionaria todos os acontecimentos de uma dada área espaço-temporal,
estabelecendo relações homogêneas, de sorte que haveria uma rede de
causalidades que permitiria encontrar um grande núcleo comum central.
Dessa forma, supõe-se que “[...] a história pode ser articulada em grandes
unidades – estágios ou fases – que detêm em si mesmas seu princípio de
coesão” (FOUCAULT, 2005, p. 11).
Posteriormente, mais exatamente em “Nietzsche, a genealogia e a
história”, Foucault opõe a essa “história tradicional/global” a visão de
“história efetiva”, termo diretamente derivado da “wirkliche Historie”
de Nietzsche. Ao contrário da “história tradicional”, que procura totalizar
a história e oferecer a segurança de um sentido, a “história efetiva” vem
questionar as bases, buscar as rupturas, colocar tudo em termos de
movimento, de relações. É dentro dessa perspectiva de “história efetiva”
que Foucault apresenta os conceitos metodológicos que embasam sua
visão de história, na genealogia.
Mas o que seria a genealogia foucaultiana?
Em primeiro lugar, devemos destacar a importância fundamental
de Nietzsche para tal empreitada teórico-metodológica. A simples
menção da palavra “genealogia” já alude ao pensador alemão e a seu
projeto de uma genealogia da moral. O termo “genealogia” foi
introduzido por Nietzsche em uma tentativa de inverter a lógica da
moral, na qual o bem seria moral dos oprimidos/escravos e mal a
moral dos opressores/aristocratas. Foucault retoma alguns aspectos da
29Lucas de Almeida Pereira
genealogia nietzscheana, não mais visando a uma análiseda moral,
mas buscando fundamentar sua teoria do poder. Durante uma passagem
pelo Brasil, em 1973, Foucault apresentou uma série de conferências,
posteriormente compiladas no livro A verdade e as formas jurídicas
(FOUCAULT, 2001). Na primeira conferência, Foucault justifica a marca
de Nietzsche em suas pesquisas, ao enfatizar:
[...] parece-me, encontramos efetivamente um tipo de discurso
em que se faz a análise histórica da própria formação do sujeito, a
análise histórica do nascimento de um certo tipo de saber, sem
nunca admitir a preexistência de um sujeito de conhecimento. O
que me proponho agora é seguir na obra de Nietzsche os
lineamentos que nos podem servir de modelo para as análises em
questão. (FOUCAULT, 2001, p. 12).
Nesse sentido, é necessário sublinhar que Foucault ressalta como se
utiliza de Nietzsche, ao afirmar que seguirá os lineamentos que podem
lhe servir. Esse uso do pensamento nietzscheano é fundamental para a
genealogia de Foucault, pois constitui uma forma de produzir liberdade
ao pensamento. Na primeira conferência de A verdade e as formas
jurídicas (FOUCAULT, 2001, p.7-27), Foucault invoca Nietzsche para
demonstrar que o conhecimento, ao contrário do pensamento kantiano,
por exemplo, não é inerente, mas construído. Mais que isso, o
conhecimento é um campo de batalha. Ora, o conhecimento não é
natural, instintivo, mas inventado, resultado de jogos entre os instintos.
O caráter perspectivo do conhecimento não deriva da natureza
humana, mas sempre do caráter polêmico e estratégico do
conhecimento. Pode-se falar do caráter perspectivo do conhecimento
porque há batalha e porque o conhecimento é o efeito dessa batalha.
(FOUCAULT, 2001, p. 24).
Podemos ressaltar dois aspectos, dentro dessa discussão. O primeiro
é a questão do modo como Foucault conversa com o pensamento de
Nietzsche. Foucault não se interessa em periodizar a obra de Nietzsche
ou em extrair dela um contexto geral. Foucault atém-se apenas ao que
julga fundamental no pensamento desse filósofo, ou seja, utiliza-o de
acordo com seus interesses, como uma “caixa de ferramentas”, conforme
Queiroz (QUEIROZ, 1999, p.60). Nas palavras do próprio Foucault:
30 A GENEALOGIA FOUCAULTIANA COMO FERRAMENTA ...
[...] tomei este texto de Nietzsche em função de meus interesses,
não para mostrar que era essa a concepção nietzscheana do
conhecimento — pois há inúmeros textos bastante contraditórios
entre si a esse respeito — mas apenas para mostrar que existe em
Nietzsche um certo número de elementos que põem à nossa
disposição um modelo para uma análise histórica do que eu chamaria
a política da verdade. (FOUCAULT, 2001, p.22).
O segundo aspecto diz respeito ao ponto central da discussão. Quando
Foucault evoca a questão do conhecimento, ele o faz para discutir o
problema da origem. Foucault contrapõe dois termos empregados por
Nietzsche – Ursprung (origem) e Erfindung (invenção) (FOUCAULT, 2001.
P.14) –, usualmente traduzidos como símiles, mas que possuem significados
distintos. Essa análise de termos nos leva a um texto anterior de Foucault.
Trata-se de Nietzsche, a genealogia e a história.
Publicado em 1971, Nietzsche, a genealogia e a história (FOUCAULT,
2005c) pode ser considerado o texto de apresentação da genealogia,
por inaugurar os delineamentos das futuras pesquisas de Foucault. A
primeira definição da genealogia, dada pelo próprio Foucault, é: “A
genealogia é cinzenta; ela é meticulosa e pacientemente documentária”
(FOUCAULT, 2005c p.260). A genealogia é um método histórico
inovador que se destaca por sua concepção original. O genealogista
não deve procurar profundidade, segredos solenes, mas as
descontinuidades, os erros, os acidentes; deve ater-se à superfície dos
acontecimentos e seus sutis contornos. Cabe-nos agora perguntar,
primeiramente, qual o sentido de origem, na genealogia foucaultiana.
Como afirmamos anteriormente, a genealogia procura os desvios,
não as solenidades. Dessa forma, podemos afirmar que há na genealogia
foucaultiana uma crítica à noção de origem. Ora, ao ater-se à superfície,
ao recusar a profundidade, temos uma recusa ao conceito de origem,
que, para Foucault, possui três funções, também caracterizadas pelo
pensador francês como postulados da noção de origem (cf. FOUCAULT,
2005c p.262 – 263).
A primeira função da pesquisa de origem seria a busca da essência
exata das coisas. Foucault nos alerta para a necessidade de refutar essa
busca de essência incólume, uma vez que não encontramos identidades
preservadas no começo histórico das coisas, mas a “discórdia entre as
coisas, o disparate” (FOUCAULT, 2005C, p. 263.).
A segunda função a ser refutada acerca da pesquisa de origem seria
sua solenidade. Não devemos procurar um ilusório início onde as coisas
31Lucas de Almeida Pereira
se encontravam em estado de perfeição, porque devemos observar que
o começo histórico é baixo.
Por fim, devemos evitar a pesquisa de origem como lugar da verdade.
Aqui, temos uma contribuição de Foucault para o campo da pesquisa
histórica: o questionamento da verdade. Ele adverte que a noção de
verdade, ligada à de origem, nos leva, incessantemente, a um ponto
recuado no passado, intangível. A verdade “estaria nessa articulação
inevitavelmente perdida em que a verdade das coisas se liga uma verdade
do discurso que logo a obscurece e a perde” (FOUCAULT, 2005c, p.
263).
 Vimos, com esses três postulados a respeito da pesquisa de origem,
que, na verdade, não existe uma essência como origem histórica estável,
posto que esta é um campo de forças marcado pela heterogeneidade da
luta. Nesse sentido, a genealogia não representa a busca de uma origem,
de um espírito perfeito, olvidando os fatos, os erros; demora-se, porém,
nas meticulosidades, nos acasos de um começo. Podemos explicitar
melhor essa crítica da origem, ao analisarmos a primeira conferência
de A verdade e as formas jurídicas.
Foucault nos mostra que Nietzsche representa um ponto crucial na
história da filosofia: o momento de ruptura com a metafísica. Podemos
exemplificar essa ruptura na discussão sobre a origem da poesia,
conforme apresentada nessa primeira conferência. Nietzsche afirma que
não há uma Ursprung da poesia, mas que esta foi inventada. Foucault
salienta:
Um dia alguém teve a idéia bastante curiosa de utilizar um certo
número de propriedades rítmicas ou musicais da linguagem para
falar, para impor suas palavras, para estabelecer através de suas
palavras uma certa relação de poder sobre os outros. (FOUCAULT,
2001, p.14).
Foucault aplica esse mesmo raciocínio em torno da religião. Não
há um espírito metafísico que conteria o núcleo da religião, eternamente
presente em todos, como pensava Schopenhauer. Em algum momento,
houve um acontecimento que pode ser identificado como começo da
religião. É possível destacar a forma como tal pensamento trabalha
com rupturas. Ora, se não há uma origem estática e solene, de onde
seria possível reconstituir uma verdade intocada, pode-se afirmar que
tudo é formado por rupturas, por pequenos acidentes. A recusa aos três
postulados de uma pesquisa de origem pode ser apontada, ao levantar-
32 A GENEALOGIA FOUCAULTIANA COMO FERRAMENTA ...
se essa discussão sobre a poesia. Ao aludir à poesia, Foucault não evoca
uma origem perfeita, mas a rebaixa a um jogo de sons e a uma invenção.
Finalmente, ao tratar do conhecimento, Foucault afirma que este
não está presente na natureza humana. Não há germe do conhecimento,
não existe conhecimento inato. Ao contrário, o conhecimento constitui
um campo de batalha entre os instintos; o conhecimento “[...] é uma
centelha entre duas espadas” (FOUCAULT, 2001, p. 16). Ou seja, o
conhecimento não é inerente ou faz parte da natureza humana, mas é
forjado na luta entre instintos, resultado de um jogo (FOUCAULT, 2001,
p.16). Com essa crítica, Foucault pretende mostrar que em todas as
coisas há visibilidade, conforme as palavras de Dreyfus e Rabinow:
“[...] observado da correta distância e com o olhar certo, há uma
profunda visibilidade em cada coisa” (RABINOW; DREYFUS, 1995,
p.119).O olhar do genealogista deve estar sempre voltado para os
acontecimentos das superfícies, essa questão da visibilidade, do olhar
superficial que está diretamente ligado à questão da origem. Enfatiza
Foucault:
Ora, se o genealogista tem o cuidado de escutar a história em vez
de acreditar na metafísica, o que é que ele aprende? Que atrás das
coisas há “algo inteiramente diferente”: não seu segredo essencial
e sem data, mas o segredo que elas são sem essência, ou que sua
essência foi construída peça por peça a partir de figuras que lhe
eram estranhas. (FOUCAULT, 2005c, p. 262).
Quando se afirma que a genealogia se preocupa com a superfície,
tem-se justamente o intuito de evidenciar que os significados das questões
mais profundas, na verdade, devem ser analisados a partir das práticas
superficiais, não buscadas em segredos, em essências misteriosas. Por
isso, Foucault afirma que o genealogista deve impor um olhar histórico-
superficial e não metafísico àquilo que se propõe examinar. É importante
ainda frisar, quanto a este olhar “histórico-superficial”, que Foucault
ressalta a ligação fundamental entre o genealogista e a história: “O
genealogista tem necessidade da história para conjurar a ilusão da
origem” (FOUCAULT, 2005, p. 264).
Se, de acordo com o raciocínio que traçamos acima, não há origem,
apenas invenção (Erfindung), não se pode, por conseguinte, atribuir
continuidade, ou melhor, sentido contínuo à história. Nesse momento,
devemos abordar a questão da descontinuidade, tendo em vista sua
33Lucas de Almeida Pereira
relação direta com o conceito de origem. Foucault propõe uma visão
descontínua dos fatos, declarando: “O sentido histórico [...] reintroduz
no devir tudo que se tinha creditado imortal no homem” (FOUCAULT,
2005c, p. 271). A história torna-se efetiva, à medida que reintroduz o
descontínuo em nosso ser. No entanto, a “história tradicional” tende a
dissolver o acontecimento singular numa continuidade ideal, quer dizer,
sacrifica o acaso, os acidentes, os acontecimentos, objetivando atribuir
uma perfeita continuidade, um sentido contínuo à história.
 Desse modo, essas forças históricas não obedecem à destinação ou
a uma mecânica, mas ao acaso da luta, como já foi exemplificado
anteriormente, com a questão do conhecimento.
Com base nesse raciocínio, observamos que, se a história não possui
uma origem cristalizada, podemos sustentar que ela é descontinua e
não possui sentido, uma vez que a descontinuidade anula qualquer
sentido atribuído à história, de sorte que “[...] o verdadeiro sentido
histórico reconhece que nós vivemos sem referência ou sem coordenadas
originárias, em miríades de acontecimentos perdidos” (FOUCAULT,
2005c, p. 273).
 Na realidade, a descontinuidade é uma das várias reminiscências
do método arqueológico que Foucault desloca para sua nova proposta
metodológica. Prova disso é o artigo Sobre a arqueologia das ciências:
Resposta ao círculo epistemológico (FOUCAULT, 2005B), publicado em
1968, antes mesmo do lançamento de Arqueologia do saber, onde
Foucault procura defender, entre outras teses, a relação entre
descontinuidade e história. Foucault salienta que o conceito de
descontinuidade começou a tornar-se forte ,quando a atenção dos
pesquisadores mudou de foco, das vastas unidades (época, séculos) para
os fenômenos de ruptura (FOUCAULT, 2005b p.84), ou seja, ao invés
das continuidades estáticas, procuram-se as interrupções. Assim, Foucault
destaca como o sentido de descontinuidade na história mudou de
estatuto. Para a “história tradicional”, a descontinuidade constituía um
incômodo a ser suprimido, ou seja, um pequeno evento que contrariasse
uma lógica de continuidade seria olvidado para preservar essa
continuidade. Em suma, na visão da história tradicional/global, a
descontinuidade era “[...] esse estigma da dispersão temporal que o
historiador tinha o encargo de suprimir da história” (FOUCAULT, 2005b,
p. 84).
Foucault alerta-nos que, atualmente, a descontinuidade ocupa uma
posição de elemento fundamental da análise histórica, por possuir três
34 A GENEALOGIA FOUCAULTIANA COMO FERRAMENTA ...
funções: é o recorte que o historiador deve fazer, isolando e distinguindo
os níveis possíveis de uma análise; é resultado da descrição, e não mais
elemento a ser excluído, porque “[...] o que ele (o historiador) tenta
descobrir são os limites de um processo” (FOUCAULT, 2005b, p.84); e,
por fim, é um conceito multiforme: “[...] ela assume uma forma e uma
função diferentes conforme o domínio e o nível nos quais é assinalada”
(FOUCAULT, 2005b p.85). Podemos usar as palavras de Foucault, para
definir a relação entre descontinuidade e história:
Querer fazer da análise histórica o discurso do contínuo e fazer da
consciência humana o tema originário de qualquer saber e de
qualquer prática são as duas faces de um mesmo sistema de
pensamento. Nele o tempo é concebido em termos de totalização,
e a revolução nada mais é do que uma tomada de consciência.
(FOUCAULT, 2005b, p. 86).
Em acréscimo, há um terceiro elo que dá coerência aos dois conceitos
que abordamos até o momento, que é o acontecimento. Conforme vimos,
a partir dos conceitos de descontinuidade e origem, a história para
Foucault não possui uma origem; assim, podemos afirmar que também
não possui um sentido contínuo. Com isso, Foucault criticou um modelo
de história tradicional, onde o sentido histórico serve para construir
explicações totalizantes. Rago sintetiza bem essa proposta, ao sublinhar
que
[...] trata(va)-se então, para o historiador,de compreender o
passado, recuperando sua necessidade interna, recontando
ordenadamente os fatos numa temporalidade seqüencial ou
dialética, que facilitaria para todos a compreensão do presente e a
visualização de futuros possíveis. (RAGO, 1995, p. 68).
Se o projeto histórico de Foucault recusa um sentido contínuo e o
sujeito, qual seria o aspecto fundamental de sua análise? Podemos afirmar
que este seria o conceito de acontecimento. No pensamento genealógico
de Foucault, o acontecimento supõe uma ruptura evidente que faz surgir
a singularidade. O acontecimento é, nas próprias palavras de Foucault,
uma inversão nas relações de força, é a emergência de uma singularidade
no momento e local de sua produção (cf. FOUCAULT, 2005c, p. 273).
O acontecimento deve ser considerado no espaço de sua dispersão, de
forma que somente assim é possível chegar a uma análise histórica
35Lucas de Almeida Pereira
descontínua, formada por relações de força e não por continuidades,
por linearidades. Para compreendermos melhor o acontecimento, é
necessário voltar a Nietzsche, a genealogia e a história, e examinar
dois conceitos: proveniência e emergência.
A proveniência (Herkunft) trata diretamente do corpo. Sobre ele,
encontram-se estigmas de acontecimentos passados, da mesma maneira
que dele nascem desejos, desfalecimentos e erros. A proveniência não
trata de uma evolução, de um destino, de uma ininterrupta continuidade,
mas, justamente ao contrário, da procura dos acidentes, dos desvios,
para “manter o que se passou na dispersão que lhe é própria”
(FOUCAULT, 2005c, p. 265), enfim, é a procura pelo aparecimento
instável do acontecimento e não pelo começo sem arestas. O corpo é,
em decorrência, lugar da dissociação do Eu: “A genealogia [...] deve
mostrar o corpo inteiramente marcado de história e a história arruinando
o corpo” (FOUCAULT, 2005c, p.267). Nessa passagem, o corpo adquire
importância histórica, visto que ele é o lugar de aplicação das tecnologias
políticas. Torna-se necessário tratarmos da questão da profundidade
do corpo, na obra de Foucault.
Podemos exemplificar essa profundidade histórica de como o corpo
aparece como ponto de aplicação de tecnologias políticas, a partir da
leitura de Vigiar e Punir. Nessa obra, Foucault nos apresenta diversas
formas de dominação e de uso do corpo humano, como o suplício,
onde o corpo deve ser castigado publicamente (cf. FOUCAULT, 1995,
p. 10 – 11), a masmorra, onde corpos devem ser acumulados e
esquecidos, e finalmente a prisão, que seguiria oprincípio de que o
indivíduo encarcerado e em condições ideais poderia ser re-educado.
Mais que isso, podemos notar que, na obra de Foucault, o corpo, suas
tecnologias e usos são sempre postos em evidência. No corpus de sua
obra, observam-se temas como loucura, delinqüência e sexualidade,
entre outros, ou seja, independentemente da “fase” (Arqueologia,
Genealogia, Ética) de seu pensamento, Foucault sempre trata do corpo.
De acordo com Dreyfus e Rabinow, “Foucault tenta escrever a história
efetiva do aparecimento, da articulação e da disseminação destas
tecnologias políticas do corpo” (RABINOW; DREYFUS, 1995, p. 126).
Em suma, a proveniência é o instrumento para a recusa da pesquisa
de um “passado vivo” em função da busca da “exterioridade do
acidente” (FOUCAULT, 2005c, p. 266).
A emergência designa o ponto de surgimento, o momento em que
ocorre a inversão de forças, o jogo de poder, conforme Foucault:
36 A GENEALOGIA FOUCAULTIANA COMO FERRAMENTA ...
A emergência é a entrada em cena das forças [...] enquanto a
proveniência designa a qualidade de um instinto, a emergência
designa um lugar de afrontamento [...] ninguém é responsável
por uma emergência, ela se produz num interstício. (FOUCAULT,
2005c, p. 269).
Nessa frase, Foucault sublinha mais um aspecto crucial da
genealogia: não existe sujeito, individual ou coletivo, como motor da
história, quer dizer, os sujeitos não existem previamente e entram em
cena, na verdade: para a genealogia, os sujeitos emergem apenas nos
campos de batalha e apenas ali desempenham as funções que lhes são
designadas.
O mundo não é um jogo que apenas mascara uma realidade mais
verdadeira existente por trás das cenas. Ele é tal qual parece. Esta
é a profundidade da visão genealógica. (RABINOW; DREYFUS,
1995, p. 122).
Ainda sobre a questão do acontecimento, é preciso abordar mais
um aspecto: a acontecimentalização. Esse conceito deve ser
compreendido em dois níveis: em primeiro lugar, uma ruptura com o
evidente. Foucault exemplifica essa ruptura com a questão da loucura,
visto que “não era tão evidente que os loucos fossem reconhecidos como
doentes mentais” (FOUCAULT, 2003, p. 339), ou seja, quebrar o que
era considerado uma evidência. Em segundo lugar, acontecimentalizar
pressupõe uma desmultiplicação causal, isto é, analisar o acontecimento
a partir da multiplicidade de processos que o constituem. Foucault nos
dá um exemplo:
Assim, analisar a prática do encarceramento penal como
“acontecimento” [...] é definir os processos de “penalização” (quer
dizer de inserção progressiva nas formas de punição legal) das
práticas precedentes de internamento. (FOUCAULT, 2003, p. 340).
Dados os três conceitos que consideramos fundamentais para a
compreensão da dimensão histórica intrínseca à genealogia foucaultiana,
cabe-nos interrogar como esses conceitos e a própria genealogia se
incorporam ao pensamento de uma história do presente. Lemos, na obra
de Foucault, uma escrita da história no presente. Para trabalharmos com
a questão da história do presente, é necessário, primeiramente, definir a
noção de ontologia histórica. A palavra “ontologia” remete à área da
37Lucas de Almeida Pereira
filosofia, que estuda o ser enquanto ser que possui uma natureza comum,
compartilhada por todos. Ora, uma ontologia histórica pressupõe uma
tarefa complicada, aparentemente ambígua: pôr o ser, aparentemente
imóvel, na história, que é tempo, mobilidade. Isso nos leva a mais um
posicionamento: um dos grandes temas abordados por Foucault é, na
verdade, a questão do tempo. Foucault se preocupa com o presente, com
um pensamento de ação, em especial, a partir da genealogia.
Analisando sua biografia (algo profundamente antifoucaultiano,
no entanto, muito elucidativo acerca do homem e sua obra) escrita por
Didier Eribon (ERIBON, 1990), pode-se observar o quanto Foucault foi
marcado pelos acontecimentos de sua realidade, de seu presente (a
questão da Argélia, o Maio de 68 etc.), e como ele se preocupou em
achar maneiras de poder atuar sobre seu presente (sua militância política,
o Grupo de Informação das Prisões, mesmo algumas improváveis
parcerias com Jean-Paul Sartre).
O que é possível apreender, de todo esse levantamento biográfico?
Que Foucault escava o passado, para tentar compreender o que nos
tornamos e o que poderemos vir a ser. Como já frisamos anteriormente,
a história é, sob a ótica foucaultiana, descontínua (com todas as suas
implicações, suas recusas à origem e ao sentido), de sorte que Foucault
não busca nessa relação passado/presente/futuro um sentido
escatológico, determinista, de como as grandes estruturas moldaram o
homem moderno, mas intenta observar a composição heterogênea
constituinte de nosso presente, nossa realidade. Enfim, Foucault procura,
na história, problematizar o presente, buscar alternativas para tratar
do presente. É o próprio Foucault quem afirma:
Meu projeto não é o de fazer um trabalho de historiador, mas
descobrir por que e como se estabelecem relações entre os
acontecimentos discursivos. Se faço isso é com o objetivo de saber
o que somos hoje. Quero concentrar meu discurso no que nos
acontece hoje, no que somos, no que é nossa sociedade. Penso que
há, em nossa sociedade e naquilo que somos, uma dimensão
histórica profunda e [...] os acontecimentos que se produziram a
séculos ou há anos são muito importantes [...] Em um certo sentido
não somos nada além daquilo que foi dito há séculos, meses,
semanas. (FOUCAULT, 2006, p. 258).
Assim, embora possamos aceitar a esquiva de Foucault de que ele
não faria um “trabalho de historiador”, podemos admitir que os
38 A GENEALOGIA FOUCAULTIANA COMO FERRAMENTA ...
questionamentos presentes em seu trabalho propõem certo uso da história
e um método para produção de conhecimento histórico. Por isso, uma
história do presente é uma proposta sólida e inovadora. Nesse sentido,
pensamos com a autora brasileira Margareth Rago, que, em um artigo
chamado Libertar a história (RAGO, 2005), aborda a questão da má
leitura de Foucault:
Mal lido, mal escutado, mal compreendido, o filósofo foi soterrado
por interpretações e críticas que invalidam seu aporte, mais ainda,
vários de seus conceitos e problematizações são incorporados à
sua revelia nos estudos históricos, sem que lhe reconheçam os
créditos. (RAGO, 2005, p. 255).
Rago atribui a Foucault um papel que se acrescenta ao de modelo
alternativo para a escrita da história, pois ele seria o libertador de uma
história presa a velhos (pré) conceitos, de acordo com a autora:
A autonomização da História formulada pelo filósofo traduz-se,
então, como um libertar-se de determinadas representações do
passado, de procedimentos que levam a determinados efeitos,
relações de poder, enfim, de construções autoritárias do passado.
(RAGO, 2005, p. 261).
Mais do que isso, Foucault procura trabalhar problemas colocados
no presente, cuja resolução exige uma volta ao passado. Desse modo,
quando Foucault questiona a oposição razão-loucura, a questão da
punição ou da sexualidade, na verdade, está problematizando nossa
atualidade, propondo um diagnóstico que “não se limite a mostrar o
que somos, mas que aponte para aquilo que estamos nos tornando”
(RAGO, 2005, p. 263).
É nesse sentido que vemos a utilidade do método genealógico
foucaultiano como modelo para a escrita de uma história do presente.
A crítica à noção de origem, a introdução da problemática da
descontinuidade e, principalmente, a noção de acontecimento operam
no sentido de buscar na história um diagnóstico para o presente. É
problematizando o passado descontínuo, que provém “de baixo” (cf.
FOUCAULT, 2005c), no qual Foucault identifica práticas que podem
responder a questões como “o que estamos no tornando”.
Pensemos em A vontade de saber. Foucault assevera que a noção da
mecânica do poder, em nossa sociedade, seria de ordem repressiva.
39Lucas de Almeida Pereira
Dessa forma, ele busca uma resposta para perguntas presentes (que
poder pretender? Que resistência opor?), interrogando a história. Ao
tratar da hipótese repressiva, Foucaultdesloca sua análise para um
passado específico:
As dúvidas que gostaria de opor à hipótese repressiva têm por
objeto muito menos mostrar que essa hipótese é falsa do que
recolocá-la numa economia geral dos discursos sobre o sexo no seio
das sociedades modernas a partir do século XVII. (FOUCAULT,
2005d, p. 16).
Vemos, com essa citação, que A vontade de saber está de acordo
com as proposições do método genealógico, já abordadas anteriormente.
Foucault não busca correlações com passados distantes; ao invés disso,
situa sua análise em pontos específicos. A análise da “hipótese repressiva”
nos leva a uma incitação discursiva referente à esfera da sexualidade
(cf. FOUCAULT, 2005d, p.17), um exemplo de acontecimento,
analisando sua emergência e proveniência, suas relações com o corpo.
Com isso, Foucault é coerente com a proposta de uma
“acontecimentalização”, fazendo emergir singularidades, em especial
com relação ao trinômio poder-corpo-saber, com base no rompimento
com um pressuposto até então aceito como evidente, no caso, o de uma
repressão à sexualidade incitada por uma moral burguesa. Além disso,
ao empreender a desmultiplicação causal deste acontecimento, Foucault
encontra relações de inteligibilidade externa, que suscitarão a
abordagem de temas tais quais a educação, a cientificidade etc.
embasando a indissolúvel relação poder-saber.
Observamos a relação entre os três conceitos abordados e a
genealogia foucaultiana, visando a criar um plano conceitual para a
análise da história do presente. É importante assinalar que tais conceitos
não constituem uma metodologia, no sentido mais amplo do termo,
mas são referências para auxiliar análises; poderiam ser chamados de
ferramentas, como pretendia Foucault, as quais nos possibilitam outro
olhar sobre a história, articulando-a com questões filosóficas de nosso
presente, explícitas na breve análise de A vontade de saber.
40 A GENEALOGIA FOUCAULTIANA COMO FERRAMENTA ...
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3
Amizade, em Foucault, e vida não
fascista, em Deleuze e Guattari: modos
de vida a favor da diferença1
THIAGO CANONENCO NALDINHO2
É compreensível que alguns lastimem o vazio atual e
busquem, na ordem das idéias, um pouco de monarquia.
Mas aqueles que, pelo menos uma vez na própria vida,
provaram um tom novo, uma nova maneira de olhar,
um outro modo de fazer, aqueles, creio, nunca sentirão
a necessidade de se lamentar porque o mundo é um
erro, a história está farta de inexistências; é tempo para
que os outros fiquem calados, permitindo assim que não
se ouça mais o som da reprovação por parte deles...
(FOUCAULT, 1980).
Deleuze (1988/1989), em seu Abecedário, afirma que a possibilidade
de haver uma rede de resistência composta por ele, Foucault e Guattari
se situaria como um bom acontecimento frente ao cenário de
empobrecimento de ideias em que vivemos – tratar-se-ia de uma
máquina de guerra contra a bobagem dominante a que somos
submetidos. Referenciando-se em tais palavras, o presente trabalho
intenta mergulhar no plano conceitual desenvolvido e compartilhado
1. O presente trabalho se situa como parte integrante de uma pesquisa mais abrangente,
desenvolvida pelo autor, com o apoio da FAPESP.
2. Bacharel e Licenciado em Psicologia – UNESP/Assis. Integrante do grupo de pesquisa Deleuze/
Guattari e Foucault, elos e ressonâncias (certificado junto ao CNPq e reconhecido pela
FAPESP). E-mail: thiago@kanonenko.com.br.
42 AMIZADE, EM FOUCAULT, E VIDA NÃO FASCISTA ...
por tais autores (CARDOSO JÚNIOR, 2005), para encontrar suas
considerações acerca das resistências possíveis de serem empreendidas,
no panorama contemporâneo.
De acordo com os pensadores em questão, vivemos em sociedades
nas quais as subjetividades são assujeitadas a uma normalização imposta
por uma forma hegemônica de poder – o Estado Moderno3, segundo
Foucault, ou o Capitalismo Mundial Integrado4 (CMI), para Deleuze e
Guattari (FOUCAULT, 1995a; GUATTARI; ROLNIK, 2005).
Independentemente do nome ou da definição quanto a sua localização
ou estruturação, a questão mais relevante e urgente sobre tal modalidade
de poder gira ao redor do objetivo que este almeja, isto é, reduzir
permanentemente o risco potencial presente no desenvolvimento dos
processos de subjetivação ou singularização com o intuito de facilitar
sua administração sobre os indivíduos. Nesse quadro de dominação, a
subjetivação se tornaria possível praticamente apenas através de
processos de sujeição5 aos saberes dominantes e à matriz de
individualização, desenvolvidos e impostos pelo Estado Moderno ou
CMI.
Entretanto, Foucault, Deleuze e Guattari sinalizam haver
possibilidades de mudança quanto à atual situação, as quais se
processariam por meio de uma estratégia que permitiria não apenas
resistir, mas, de certa maneira, escapar à constrangedora condição – a
simultânea individualização e totalização exercida pelo modo de poder
1. O Estado Moderno é, conforme Foucault, a forma política de poder, surgida no século XVI, que
absorveu muito da nova tecnologia de poder que, ao contrário daquela presente na soberania,
manifesta um enorme interesse pela vida, por isso chamada de biopoder. Contudo, deve-se
ressaltar que o biopoder não é idêntico ao Estado, pois extrapola os seus limites, agindo em
diversas outras instâncias não vinculadas ao aparelho de Estado, como a família, as
organizações não governamentais, “empreendimentos privados, sociedades para o bem-
estar, de benfeitores e, de um modo geral, de filantropos” (FOUCAULT, 1995a, p. 236-239;
1999, p. 35-37, 285-315).
2. Segundo Guattari, o Capitalismo Mundial Integrado impõe duas formas de opressão. A primeira,
através de mecanismos no plano econômico e social; já a segunda, “de igual ou maior
intensidade que a primeira, consiste em o CMI instalar-se na própria produção de subjetividade:
uma imensa máquina produtiva de uma subjetividade industrializada e nivelada em escala
mundial tornou-se dado de base na formação da força coletiva de trabalho e da força de controle
social coletivo (GUATTARI; ROLNIK, 2005, p. 48, grifo dosautores).
3. De acordo com Foucault, subjetivação é o processo pelo qual se obtém a constituição de um
sujeito ou, mais especificamente, de uma subjetividade. Tal processo pode ocorrer, dependendo
do local e momento histórico onde está situada a moral em que estamos imersos, ora de
forma mais autônoma, com mais influência de práticas de liberação ou formas de subjetivação
– morais mais orientadas para a ética –, ora de maneira mais jurídica, a partir de práticas de
sujeição impostas por uma forma de poder – morais mais orientadas para o código (FOUCAULT,
1984, p. 29-30; 1995a, p. 235; 2004a, p. 262; 2004d, 291).
43Thiago Canonenco Naldinho
dominante – à qual nos encontramos submetidos. Tratar-se-ia da recusa
à imposição dessa individualidade normalizada, acompanhada pela
reabilitação, na atualidade, da estética da existência.
Estética da existência
Se Foucault trabalhou em seus dois primeiros grandes eixos de
pesquisa, respectivamente, o saber e o poder, foi apenas durante o período
mais recente, em que passou a abordar especificamente o si ou os
processos de subjetivação. Essa mudança de foco do autor decorreu dos
resultados obtidos por este, durante a elaboração do primeiro volume –
A vontade de saber – de sua História da Sexualidade, quando se viu
impelido a estender o período que servia de substrato às suas pesquisas
até a Antiguidade greco-romana. Foi necessário ir tão longe, pois
Foucault descobriu que, para conseguir cumprir o objetivo inicial dessa
história – estudar, a partir do século XVIII, o surgimento da experiência6
da sexualidade – deveria necessariamente compreender por que o desejo
estava no centro, tanto da teoria clássica da sexualidade, quanto daquelas
dela divergentes, além de esclarecer se e como o desejo foi,
aparentemente, herdado, durante os séculos XIX e XX, de uma longa
tradição cristã– era preciso, enfim, empreender uma genealogia do
desejo e do sujeito desejante.
Foucault descobre que havia na Antiguidade, diferentemente do que
ocorre no período que abrange desde o século XVIII até, em termos, os
dias atuais, uma experiência relativa ao sexo e a seus prazeres, distinta
daquilo que conhecemos por sexualidade. Denominada como
aphrodisia, tal experiência, presente entre os antigos greco-romanos, é
definida por Foucault como a unidade constituída pelos atos, prazeres
e desejos relacionados à atividade sexual, com o destaque para o fato
de que, ao contrário do que ocorre na experiência da sexualidade, em
que a ênfase se destina ao desejo, o foco de atenção nos aphrodisia
situava-se nos atos do indivíduo imerso na experiência em questão. Isso
se deve ao tipo de modalidade moral privilegiada em tal período, uma
vez que, conforme Foucault (1984, p. 26-31) explica, podemos considerar
a moral antiga como orientada para as práticas de si, ou seja, para a
ética, apesar de, assim como em qualquer outra moral, haver também
6. Foucault entende por experiência a correlação, numa cultura, entre campos de saber, tipos de
normatividade e formas de subjetividade (FOUCAULT, 1984, p. 10).
44 AMIZADE, EM FOUCAULT, E VIDA NÃO FASCISTA ...
naquela a presença do código. Tratava-se, por isso, mais de uma questão
de atitude frente aos acontecimentos da vida, às ações morais em geral
– não restringível à dinâmica dos aphrodisia7 – do que da submissão a
condutas e regras morais impostas. Ao contrário de seguir um restritivo
código moral, o indivíduo buscava exercer sua liberdade na prática de
uma ética que lhe permitisse elaborar da maneira mais bela possível
sua própria vida como uma obra de arte, que fosse portadora de certos
valores estéticos e que respondesse a certos critérios de estilo, quer
dizer, procurava exercer uma ética que fosse uma estética da existência.
Essa elaboração de si manifestava-se por intermédio de um conjunto de
práticas de si (ascese), refletidas e voluntárias, exercidas pelo indivíduo
que quisesse alcançar um modo de vida almejado, isto é, por meio de
um intenso e permanente trabalho de si sobre si, que tinha por finalidade
modificar o sujeito em seu próprio ser.
Retornando à atualidade, o mais interessante quanto a essa
temática está na similaridade que Foucault (1995, p. 255) identifica
entre as questões morais atuais e as da Antiguidade. Segundo o autor,
hoje em dia, “a maior parte das pessoas não acredita mais que a ética
esteja fundada na religião, nem deseja um sistema legal para intervir
em nossa vida moral, pessoal e privada” (FOUCAULT, 1995, p. 255),
ou seja, a ideia de uma moral centrada na submissão a um código está
desaparecendo. “E a esta ausência de moral corresponde, deve
corresponder uma busca que é aquela de uma estética da existência”
(FOUCAULT, 2004d, p. 290). Desse modo, haveria na atualidade a
possibilidade histórica da reabilitação da estilística da existência, sem,
todavia, compreendê-la como uma tentativa de resolver nossos problemas
com uma solução produzida em outra época. Em adição a isso, é possível
encontrar, em Deleuze e Guattari, pontos de vista semelhantes quanto a
tais ideias foucaultianas. Podemos afirmar, baseados em fortes indícios,
que há nestes autores, especialmente no que se refere à noção de corpo
sem órgãos, uma concepção de trabalho de si sobre si, processado por
meio de um conjunto de práticas, que tem por finalidade a modificação
criativa do próprio si8 (DELEUZE, 1998, p. 19; DELEUZE; GUATTARI,
1996). Dessa maneira, acreditamos que haja, tanto em Foucault quanto
7. O regime dos aphrodisia não constituía a única problematização moral da Antiguidade, além de
ser uma temática menos importante do que os exercícios físicos e a alimentação (FOUCAULT,
1984, p. 49, 104; 1995, p. 253-254, 258-259).
8. Trabalhamos em detalhes a questão da presença da estética da existência e da prática de si
na obra de Deleuze/Guattari, em outra publicação decorrente de nossa pesquisa.
45Thiago Canonenco Naldinho
em Deleuze e Guattari, a ideia da possibilidade do surgimento de
inúmeras resistências eficazes contra o empobrecimento do tecido
relacional – empreendido pela forma de poder hegemônico em atuação
em nossas sociedades, o qual tem por objetivo facilitar a produção e
gerência da subjetividade –, o que situaria, dessa maneira, a estética
da existência como algo extremamente perigoso para o Estado Moderno
ou CMI, na medida em que, por meio desta, poder-se-ia desenvolver
modos de vida inéditos e à revelia do modelo dominante.
Amizade e vida não fascista9
Contudo, mesmo que agíssemos conforme tal estratégia, não
estaríamos plenamente seguros, uma vez que a modalidade hegemônica
de poder possui diversos mecanismos que atravessam o campo social,
com o objetivo de localizar e trazer à visibilidade qualquer indício de
processos de irrupção da diferença. Nessa perspectiva, após uma
minuciosa análise quanto ao teor revolucionário de uma singularidade
capturada, decide se esta deverá ser combatida ou integrada ao seu
amplo axioma de individualidade, o que acaba muitas vezes por nos
fazer crer que agimos de forma revolucionária, quando, na realidade,
nosso potencial criativo está a serviço da norma do poder subjetivante.
Ainda quanto aos riscos frente ao poder dominante, situa-se, em paralelo
à captura neutralizante empreendida por este, a possibilidade de os
processos de singularização não se articularem às lutas do nível de
forças reais – forças sociais, econômicas, materiais etc. – e acabarem
por girar ao redor de si mesmos até sua autodestruição, acarretando,
muitas vezes, a manifestação desses processos no campo social sob a
forma daquilo que Deleuze e Guattari denominam como microfascismos.
Não há receita alguma que garanta o desenvolvimento de um
processo autêntico de autonomia, de desejo, pouco importa como o
chamemos. Se é verdade que o desejo pode se reorientar para a
construção de outros territórios, de outras maneiras de sentir as
coisas, é igualmente verdade que ele pode, ao contrário, se orientar
em cada um de nós numa direção microfascista. (GUATTARI;
ROLNIK, 2005, p. 284).
9. As descrições pormenorizadas, tanto daamizade quanto da vida não fascista, foram expostas
por nós em outras publicações.
46 AMIZADE, EM FOUCAULT, E VIDA NÃO FASCISTA ...
Contra tais perigos, encontramos na amizade e vida não fascista –
modos de vida propostos ou, simplesmente, implicados, respectivamente,
nas filosofias de Foucault e Deleuze/Guattari – uma ferramenta
extremamente eficaz (FOUCAULT, 1993; ORTEGA, 1999, p. 151-172).
Consiste numa atitude que comportaria um exigente princípio ou
dispositivo analítico-crítico que verificaria constantemente nossas
condutas, com a finalidade de descobrir indícios de focos de
microfascismos ou, como Foucault os denomina, estados de dominação.
Entretanto, vale ressaltar a importância de tal princípio ser apenas
crítico e não regulador, o que vai de encontro à necessidade de, se
tratando de relações de poder, agirmos de maneira prudente – uma vez
que o que separa tais relações dos estados de dominação é uma linha
extremamente emaranhada e nebulosa – e empírica, pois podemos
acabar, mesmo possuindo interesses pré-conscientes revolucionários,
investindo inconscientemente no bloqueio de processos desejantes.
Contudo, essa atitude específica não se limita a uma constante
vigilância sobre nossas condutas, já que, simultaneamente, podemos
encontrar naquela um fator de constante invenção, diferenciação; de
reflexão, trabalho e afirmação de si enquanto força criativa. Essa
atitude seria algo como um certo modo de sensibilidade; uma certa
maneira de pensar, sentir e agir; uma postura ativa e aberta frente à
atualidade: aquilo que Guattari chama de revolução molecular ou
função de autonomia, e Foucault de atitude de modernidade – uma
atitude ético-analítico-política. Exercê-la requer um permanente
trabalho crítico atuante sobre nossos próprios limites, que se
processaria através de uma ontologia crítica de nós mesmos, aliada a
uma intensa experimentação. Tal empreitada se apresenta muito
próxima daquilo que Foucault (1984, p. 13) define por filosofia: “uma
‘ascese’, um exercício de si, no pensamento”, uma atividade de
autotransformação.
[...] o que é filosofar hoje em dia – quero dizer, a atividade filosófica
– senão o trabalho crítico do pensamento sobre o próprio
pensamento? Se não consistir em tentar saber de que maneira e
até onde seria possível pensar diferentemente em vez de legitimar
o que já se sabe? (FOUCAULT, 1984, p. 13).
Nessa ascese, o material a ser trabalhado, por meio de uma intensa
atitude experimental, seria o pensamento.
47Thiago Canonenco Naldinho
A filosofia é o deslocamento e a transformação das molduras de
pensamento, a modificação dos valores estabelecidos, e todo o
trabalho que se faz para pensar diferentemente, para fazer
diversamente, para tornar-se outro do que se é. (FOUCAULT, 1980).
Assim, toma destaque a presença, tanto na amizade quanto na vida
não fascista, de uma constante preocupação em não só evitar interromper
os processos de singularização, como também criar vias de passagem
entre os níveis do campo social para que aqueles possam interligar-se
com outros processos e, assim, multiplicarem-se em suas diferenças
criativas. Tal cuidado marca outra característica desses modos de vida,
isto é, a desindividualização, a qual, para ser abordada, requer que
antes esclareçamos a relação da subjetividade com a individualidade.
De acordo com Foucault, Deleuze e Guattari, não há um sujeito
dado, universal. Não há uma subjetividade do tipo recipiente, onde se
interiorizam fatores exteriores, mas sim “uma subjetividade de natureza
industrial, maquínica, ou seja, essencialmente fabricada, modelada,
recebida, consumida” (GUATTARI; ROLNIK, 2005, p. 33). Para Guattari,
a subjetividade, assim como a linguagem, em vez de estar confinada a
uma pessoa, encontra-se em circulação pelo campo social, de onde
pode ser “assumida e vivida por indivíduos em suas existências
particulares” (GUATTARI; ROLNIK, 2005, p. 42, grifo dos autores). Sua
produção é realizada essencialmente no campo social e executada não
por entidades individuais ou sociais predeterminadas, mas por
agenciamentos coletivos de enunciação – compostos por fatores
extraindividuais (sistemas sociais, econômicos, científicos, religiosos,
ecológicos etc.) e infrapessoais (sistemas de sensibilidade, percepção,
produção de pensamento etc.).
Seria conveniente dissociar radicalmente os conceitos de indivíduo
e de subjetividade. Para mim, os indivíduos são o resultado de uma
produção de massa. O indivíduo é serializado, registrado, modelado.
[…] A subjetividade não é passível de totalização ou de
centralização no indivíduo. Uma coisa é a individuação do corpo.
Outra é a multiplicidade dos agenciamentos da subjetivação: a
subjetividade é essencialmente fabricada e modelada no registro
do social. (GUATTARI; ROLNIK, 2005, p. 40, grifo dos autores).
Dessa maneira, o indivíduo não seria uma condição necessária para
a subjetividade, porém, apenas um terminal ou consumidor desta; o
48 AMIZADE, EM FOUCAULT, E VIDA NÃO FASCISTA ...
resultado de uma produção de massa pela matriz moderna de
individualização ou grande máquina de subjetivação capitalística.
Estaríamos, por conseguinte, fadados a ser marionetes teleguiadas
agindo conforme os ardilosos interesses do poder subjetivante moderno
ou CMI? Não necessariamente, pois, para Foucault e Deleuze/Guattari,
sempre há vacúolos de possível, de escolha, de autorreferência, de regras
facultativas, mesmo nas sociedades mais opressivas e restritas
moralmente. Contra essa imposição de um modo de semiotização10
pela forma de poder hegemônica, tais autores nos propõem a
desindividualização do sujeito, através de um processo de
esquizofrenização11. O indivíduo, por meio de uma relação criativa
com a subjetividade, poderia se apropriar de componentes desta para
produzir, por processos de singularização, novos registros referenciais,
novas sensibilidades, novos modos de viver, sentir e pensar distintos da
individualidade – uma reabilitação da estilística da existência, uma
encarnação da vida.
É o conjunto das possibilidades de práticas específicas de modo de
vida, com seu potencial criador, que constitui o que chamo de
revolução molecular, condição para qualquer revolução social. E
isso não tem nada de utópico, nem de idealista. (GUATTARI;
ROLNIK, 2005, p. 214).
Essa característica da amizade e da vida não fascista vai de encontro
ao objetivo político, ético, social e filosófico de nossos dias, isto é, a
recusa daquilo que somos, daquela individualidade padronizada que
nos é imposta há séculos. Tais modos de vida não negam com isso a
importância daquilo que realmente torna os indivíduos seres individuais,
mas sim se opõem à imposição, exercida pelo Estado Moderno ou CMI,
de uma subjetividade normalizada.
10. Para Guattari, modo de semiotização seria um conjunto de características e modos de
sensibilidade e percepção que dá sentido às práticas de determinado grupo, povo ou modo
de vida (GUATTARI; ROLNIK, 2005, p. 24, 25, 31).
11. Com isso, Deleuze e Guattari não pretendem dizer que os esquizofrênicos são os revolucionários
inatos. Na realidade, o esquizo, como entidade clínica, figura hospitalizada e separada da
realidade, seria o resultado da interrupção ou da continuação no vazio do processo
esquizofrênico, o qual é considerado como potencial revolucionário. A esquizofrenia como
processo seria a oposição ao processo de neurotização, de edipianização (DELEUZE;
GUATTARI, 1966, p. 357, 380, 381).
49Thiago Canonenco Naldinho
Desejo, prazer e sexualidade
Torna-se evidente que, tanto na amizade quanto na vida não fascista,
há uma ampla preocupação com o surgimento e expansão dessa potência
criativa capaz de romper com a dominação do poder hegemônico, porém
diferindo quanto a sua definição. Para Deleuze e Guattari, tal potencial
revolucionário se encontraria no desejo – desejo como processo, produção
desejante como produção de qualquer produção. Ao desejo nada faltaria,
porque este se encontraria sempre próximo às condições de sua existência
objetiva. Dessa maneira, estaríamos constantementeimersos em
processos de singularização movidos pelo desejo, os quais, contudo,
seriam ininterruptamente perseguidos por processos de individuação a
favor da subjetividade capitalística.
[...] eu proporia denominar desejo a todas as formas de vontade
de viver, de vontade de criar, de vontade de amar, de vontade de
inventar uma outra sociedade, outra percepção do mundo, outros
sistemas de valores. (GUATTARI; ROLNIK, 2005, p. 260-261, grifo
dos autores).
Quanto a Foucault, encontraríamos tal potência no prazer,
considerado como a “força do encontro que constitui o corpo de relações”
(CARDOSO JÚNIOR, 2005a, p. 16) entre nosso núcleo de subjetividades
e as coisas que nos circundam.
Essa discordância quanto à definição da força transformacional do
campo subjetivo e social possui também distintas leituras entre os mesmos
autores. Foucault, apesar de não suportar o termo desejo, por não
conseguir deixar de remetê-lo à falta ou à repressão, sublinha que talvez
aquilo que denomina como prazer seja o mesmo que Deleuze (1994)
chama de desejo. Entretanto, para Deleuze, essa distinção não se
restringiria a uma simples troca de palavras.
Não posso dar ao prazer qualquer valor positivo, porque o prazer
parece-me interromper o processo imanente do desejo; o prazer
parece-me estar do lado dos estratos e da organização; […] Parece-
me que o prazer é o único meio para uma pessoa ou sujeito
“reencontrar-se” num processo que o transborda. É uma
reterritorialização. Do meu ponto de vista, é da mesma maneira
que o desejo é relacionado à lei da falta e à norma do prazer.
(DELEUZE, 1994).
50 AMIZADE, EM FOUCAULT, E VIDA NÃO FASCISTA ...
Todavia, independentemente de não encontrarmos uma unanimidade
quanto a um termo que represente a potência em questão, permanece
em evidência o caráter de mutação dessa força que perpassa os processos
de subjetivação.
Como sabemos, tanto em Foucault quanto em Deleuze e Guattari,
podemos encontrar a discussão sobre a ampla manifestação de vetores
de singularização dentro de minorias, no campo da sexualidade. Com
efeito, Foucault ressalta, em seus últimos estudos, o enorme potencial
criativo encontrado entre os homossexuais, devido não a alguma espécie
de essência gay, mas à posição de enviesado de que estes dispõem, no
tecido relacional – consequência de um conjunto de considerações
práticas processadas em nossas sociedades, as quais acabaram
favorecendo a experimentação e o desenvolvimento de novas formas de
prazer e relacionamento, dentro dessa minoria.
Entretanto, apesar de ser reconhecida como um fecundo campo de
invenção de inéditas relações e modos de sensibilidade e percepção,
não devemos considerar a sexualidade como a única saída ofensiva
contra a dominação exercida pelo poder subjetivante moderno, pois,
para Foucault, Deleuze e Guattari, o fator transformacional não estaria
circunscrito apenas ao campo normativo da sexualidade.
A idéia de que o prazer físico provém sempre do prazer sexual e a
idéia de que o prazer sexual é a base de todos os prazeres possíveis,
penso, é verdadeiramente algo de falso. O que essas práticas de S/
M nos mostram é que nós podemos produzir prazer a partir dos
objetos mais estranhos, utilizando certas partes estanhas do corpo,
nas situações mais inabituais, etc. (FOUCAULT, 1984b, grifo nosso).
Se Gilles Deleuze e eu tomamos o partido de praticamente não
falar em sexualidade, e sim em desejo, é que consideramos que os
problemas da vida, da criação, nunca são redutíveis a funções
fisiológicas, a funções de reprodução, a alguma dimensão particular
do corpo. Eles sempre envolvem tanto elementos que estão além
do indivíduo no campo social, no campo político, quanto elementos
que estão aquém do indivíduo. (GUATTARI; ROLNIK, 2005, p.
338, grifo nosso).
Portanto, encontraríamos de forma explícita, tanto na amizade
quanto na vida não fascista, a presença de uma dessexualização,
respectivamente, do prazer e do desejo, ou seja, o rompimento
com a arraigada ideia que estabelece uma ligação fundamental
entre sexualidade e aquilo que, segundo os autores em questão,
51Thiago Canonenco Naldinho
serve de estopim e combustível à luta contra a subjetividade
capitalística.
Algumas considerações finais
No lugar das atuais sociedades modeladas pela forma hegemônica
de poder – que bloqueia, captura e confina as singularidades no
esquadrinhamento da norma de subjetividade, com a finalidade de
preservar e expandir cada vez mais os limites de sua dominação e
produção econômica – Foucault, Deleuze e Guattari nos possibilitam
pensar a invenção e o desenvolvimento de uma nova forma de sociedade,
que permita o constante surgimento do novo sem, com isso, acarretar
prejuízos a sua sustentabilidade. Para tanto, segundo eles, há a
necessidade de se criar os meios para que se desenvolva uma nova
sensibilidade, uma nova lógica, que não possua um programa, mas
que privilegie a análise da atualidade12 – daquilo que estamos nos
tornando –, a qual possibilite a articulação e proliferação rizomática
de múltiplas formas de irrupção de singularidades. Neste ponto, é
evidente a importância encontrada na amizade e na vida não fascista
para a concretização dessa tarefa revolucionária, visto que tais modos
de vida seriam agentes de possibilidades de manifestação do novo –
uma vez que a atitude que os permeia está voltada não somente para a
localização e a eliminação dos focos de bloqueio do prazer e do desejo,
mas também para um trabalho de assimilação e propagação de vetores
de singularidade, aliada a uma intensa atitude de experimentação
ensaística.
Assim, por meio desses modos de existência – amizade e vida não
fascista –, poderíamos encarnar a potência transformacional da vida
em proveito da diferença, cujo processo depende menos da consciência
de que estamos submetidos a uma dominação exercida pelo CMI ou
Estado Moderno, do que do tipo de relação que mantemos com o mundo.
Não basta termos um discurso favorável à necessidade da consideração
da diferença, na constituição da subjetividade e da sociedade, pois
também é preciso que essa singularidade seja encarnada, vivida,
praticada.
12. Segundo Deleuze/Guattari (1997, p. 145), há uma distinção profunda entre as noções de
presente e atual, para Foucault. O presente seria aquilo que somos, que já deixamos de ser.
Em contraposição, o atual é o que nos tornamos, o que estamos nos tornando.
52 AMIZADE, EM FOUCAULT, E VIDA NÃO FASCISTA ...
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4
Um estudo sobre os modos de
subjetivação na sociedade disciplinar e
de controle a partir dos agenciamentos
existentes na contemporaneidade
MIRELA FERNANDA DE FREITAS ALVES
A estruturação da Sociedade Disciplinar esteve ligada a uma série
de processos históricos, no interior dos quais ela se desenvolveu. Estamos
nos referindo aqui a um período que compreendeu o Século das Luzes,
a Revolução Francesa e a tomada da burguesia, sendo vivenciado com
um medo que assombrou a segunda metade do século XVIII: a sociedade
se configurava pelos espaços escuros, pelos anteparos de escuridão que
impediam a visibilidade das coisas, das pessoas e das verdades.
Era preciso dissolver esses fragmentos da noite que se opunham à
luz, fazer com que não houvesse mais escuridão nas cidades, demolir
essas câmaras escuras onde se fomentavam e se encobriam o despotismo
político, os caprichos da monarquia, as crenças religiosas, os complôs
dos tiranos e dos padres, as ilusões da ignorância e as epidemias.
As instituições (castelos, hospitais, cemitérios, prisões, conventos)
suscitavam tal desconfiança, que acabava por implicar em sua
supervalorização, o que somente contribuiu para a ideia de que, para a
implantação de uma nova ordem política e moral, estas deveriam ser
eliminadas, ao menos sob a forma que existiam. O Século das Luzes
quis ver desaparecer também, no homem, seus lugares escuros
(FOUCAULT, 2000).
Referimo-nos a um período em que houve uma grande explosão
demográfica, um aumento da população flutuante, em que os grupos
se expandiam e potencializavam revoltas que importava controlar ou
manipular, na visão do Estado nascente. Concomitantemente, houve o
56 UM ESTUDO SOBRE OS MODOS DE SUBJETIVAÇÃO ...
desenvolvimento do aparelho de produção no capitalismo industrial,
cada vez mais extenso e complexo, por um lado, e custoso, por outro,
cuja rentabilidade era preciso fazer crescer.
O desenvolvimento dos modos disciplinares veio em resposta à
necessidade de controlar essas instâncias. As disciplinas marcaram o
aparecimento de técnicas de poder rudimentares que se instalavam no
alicerce produtivo dos aparelhos, no crescimento dessa potência e na
utilização do que ela produzia. Entrava em cena a substituição do antigo
princípio “retirada – violência” que permeava a economia do poder,
pelo ideário “suavidade – produção – lucro”.
No referencial da Revolução Francesa, a opinião constituía a
instância de julgamento. O objetivo não era fazer com que as pessoas
fossem punidas pelo mal que cometessem aos outros, mas que elas
sequer chegassem a praticá-lo, diante de tal estado de visibilidade no
qual se encontrariam, permeadas pela opinião social e pelo olhar dos
outros, somados ao seu discurso. Nesse reino da opinião, o exercício do
poder exercia-se pela consciência de que as coisas seriam sabidas e de
que as pessoas seriam vistas por um tipo de olhar imediato, coletivo e
inominado, intolerante à escuridão.
As disciplinas apareceram enquanto técnicas que visavam a
assegurar as multiplicidades humanas e definir em relação a elas uma
tática de poder que pretendia tornar o exercício do poder o menos
custoso possível, fazer com que os efeitos desse poder social atingissem
o seu máximo de intensidade e que fossem estendidos ao máximo
alcance, sem fracasso, sem lacunas, e, finalmente, ligar esse crescimento
econômico do poder ao rendimento dos aparelhos no interior dos quais
se exerciam. Em suma, tratava-se de promover ao mesmo tempo a
docilidade e a utilidade de todos os elementos do sistema (FOUCAULT,
2003).
 Nesse ínterim, Bentham nos traz, com o Panóptico, um modelo de
arquitetura capaz de traduzir esse novo ideal iluminista.
O princípio é: na periferia, uma construção em anel; no centro,
uma torre; esta possui grandes janelas que se abrem para a parte
interior do anel. A construção periférica é dividida em celas, cada
uma ocupando toda a largura da construção. Estas celas têm duas
janelas: uma abrindo-se para o interior [...] que permite que a luz
atravesse toda a cela de um lado a outro. Basta então colocar um
vigia na torre central e em cada cela trancafiar um louco, um doente,
um condenado, um operário ou um estudante. Devido ao efeito de
57Mirela Fernanda de Freitas Alves
contraluz, pode-se perceber da torre [...] as pequenas silhuetas
prisioneiras nas celas da periferia. Inverte-se o princípio da
masmorra; a luz e o olhar de um vigia captam melhor que o escuro
que, no fundo, protegia. (FOUCAULT, 2003, p. 165-166).
O efeito mais importante dessa arquitetura era o de induzir no
encarcerado um estado consciente e permanente de visibilidade, que
deveria assegurar o funcionamento automáticodo poder. Uma vigilância
permanente em seus efeitos, mesmo que descontínua em sua atuação.
O indivíduo era visto, mas não via. O panoptismo era a representação
do processo técnico da coerção.
Toda essa atuação das instituições disciplinares era apenas o aspecto
mais visível dentre os diversos processos mais profundos que se
articulavam. Um paradoxo em que os mecanismos disciplinares se
ramificavam, ou seja, ao mesmo tempo em que os estabelecimentos de
disciplina se multiplicavam, seus mecanismos tinham certa tendência
a se desinstitucionalizar, a sair das fortalezas fechadas onde funcionavam
e ir circular em estado “livre”; as disciplinas maciças e compactas se
decompunham em processos flexíveis de controle, que se podia transferir
e adaptar (FOUCAULT, 2003).
A disciplina não podia se identificar com uma instituição nem com
um aparelho: ela era um tipo de poder, um modo de exercê-lo que
comportava todo um conjunto de instrumentos, de técnicas, de
procedimentos, de níveis de aplicação, de alvos; ela era uma anatomia
do poder, uma tecnologia.
Foucault alude a uma sociedade cujos elementos principais eram,
de um lado, os indivíduos privados, e, do outro, o Estado. Este, por sua
vez, exercia uma influência crescente sobre a sociedade, em todos os
detalhes e relações da vida social, aumentando e aperfeiçoando suas
garantias, utilizando e dirigindo para essa finalidade a construção e a
distribuição de edifícios destinados a vigiar, simultaneamente, uma
grande multidão de homens.
O tempo da disciplina criou um novo saber sobre o homem, e atuava
em cada indivíduo, em nível físico mesmo, corporal, apertando-o e
aperfeiçoando-o para seus fins produtivos. Os corpos acabavam sendo
compostos e formados por esses saberes, que simplesmente o
reproduziam. Esse reproduzir do poder estava diretamente ligado ao
saber que deveria ser instituído acerca de todos os corpos. Permitindo-
se conhecer, era-se mais facilmente capturado e, consequentemente,
58 UM ESTUDO SOBRE OS MODOS DE SUBJETIVAÇÃO ...
submetido a dispositivos específicos de poder. O homem disciplinar
não deveria ter espaço para pensar, criar.
Em cada corpo que capturava, a disciplina era dual: de um lado,
queria e privilegiava a produtividade, potencializando-a; por outro lado,
destituía-o de uma atuação política na forma de resistência, buscava
uma rendição, uma submissão cheia de proibição e de limitação.
A disciplinarização ocorria pela produção de um novo modo de
vida, que não significava ser bom ou ruim, mas diferente. Os indivíduos
eram objetivados e, ao mesmo tempo, subjetivados. Essa tecnologia de
disciplina, enquanto dispositivo, produzia saber sobre os indivíduos e
normatizava seus comportamentos. Os indivíduos estavam submetidos
a uma vigilância extremada, na qual a subjetividade de cada um era
formada por um imenso registro e controle dos movimentos.
As disciplinas não só colocaram em ordem as instituições, como
fizeram delas aparelhos tais que quaisquer mecanismos de objetivação
podiam valer neles como instrumentos de sujeição, e qualquer
crescimento de poder deu neles lugar a conhecimentos possíveis.
A Sociedade Disciplinar tinha como tarefa diminuir o que era visto
como uma “desutilidade” dos fenômenos de massa, diminuir aquilo que,
em uma multiplicidade, fazia com que ela fosse menos manejável que
uma unidade, reduzir o aparecimento daquilo que se opunha à utilização
de cada um de seus elementos e de sua soma, diminuir tudo o que nela
pudesse anular as vantagens do número. Por isso, a disciplina fixava,
imobilizava, regulamentava os movimentos e resolvia as confusões, as
aglomerações e as repartições. Ela deveria dominar as forças que se
formavam a partir da própria constituição de uma multiplicidade
organizada; deveria neutralizar os efeitos de contrapoder que dela nasciam
e que formavam resistência ao poder que queria dominá-la.
Para tanto, a Sociedade Disciplinar empregava processos de
separação e de verticalidade, introduzia, entre os diversos elementos de
mesmo plano, barreiras tão estanques quanto fosse possível, definia
redes hierárquicas precisas, opunha-se à força intrínseca e adversa da
multiplicidade e não o processo da pirâmide contínua e individualizante.
As disciplinas deveriam fazer crescer a utilidade singular de cada
elemento da multiplicidade, por meios que fossem mais rápidos e menos
onerosos, ou seja, utilizando a própria multiplicidade como instrumento
desse crescimento (FOUCAULT, 2003).
Para tanto, buscava extrair dos corpos o máximo de tempo e forças,
usando os métodos de conjunto que eram os horários, os treinamentos,
59Mirela Fernanda de Freitas Alves
os exercícios, a vigilância ao mesmo tempo global e minuciosa. Era
necessário, além disso, que os efeitos de utilidade próprios às
multiplicidades aumentassem os efeitos utilizáveis do múltiplo, através
das táticas de distribuição, de ajustamento mútuo dos corpos, dos gestos
e dos ritmos de diferenciação das capacidades, de coordenação recíproca
em relação a aparelhos ou a tarefas.
Era preciso fazer funcionar as relações de poder – não acima, mas
na própria trama das multiplicidades. Para tanto, atendiam a essas
necessidades instrumentos de poder anônimos e coextensivos às
multiplicidades, como a vigilância hierárquica, os registros contínuos,
os julgamentos e as classificações incessantes (FOUCAULT, 2003).
Assim, as disciplinas tinham que substituir um poder, que se
manifestava pelo brilho dos que o exerciam, por um poder que objetivava
insidiosamente aqueles aos quais era aplicado; formar um saber a
respeito desses.
Surgiu, por conseguinte, no lugar da sociedade de espetáculos, a
sociedade de vigilância; sob a superfície das imagens, investiam-se os
corpos em profundidade; atrás da grande abstração da troca se
processava o treinamento minucioso e concreto das forças úteis, os
circuitos da comunicação eram os suportes de uma acumulação e
centralização do saber; o jogo dos sinais definia os pontos de apoio do
poder; a totalidade do indivíduo não era amputada, reprimida, alterada
pela ordem social, mas o indivíduo era cuidadosamente fabricado,
segundo uma tática das forças e dos corpos.
Segundo Foucault (2003), nesse momento, a ordem deveria
prescrever a cada um o seu lugar, a cada um o seu corpo, a cada um a
sua doença, a cada um o seu bem, por meio de um poder que pretendia
ser onipotente, onipresente, que tudo sabia. Se cada sociedade se articula
sob um determinado sistema de saberes-poderes, consequentemente, o
poder não devia ser visto como uma totalidade produtora de
subjetividades, porque estava sempre relacionado às produções sociais,
em mutabilidade permanente, sendo construído e reconstruído o tempo
todo, com base em novas relações que se produziam e que estabeleciam
novos saberes.
Foucault enfatiza que onde há poder, há imanentemente uma
resistência sendo criada, sendo esta última condição primordial para a
existência do primeiro, a partir da suas multiplicidades de atuação.
Destaca ainda que as resistências constituintes de nossos corpos os
percorrem, caracterizando-se como pontos móveis e inventivos,
60 UM ESTUDO SOBRE OS MODOS DE SUBJETIVAÇÃO ...
causadores de singularizações. Este parece ter sido o “erro” da Sociedade
Disciplinar: ter-se esquecido da resistência imanente.
O Panóptico de Bentham foi, em certo aspecto, a ilusão do poder,
haja vista que deu à opinião uma autoridade considerável. Acreditou-se
que as pessoas iriam tornar-se virtuosas, apenas pelo fato de serem
olhadas. A opinião foi, para eles, uma reatualização espontânea do
contrato. No entanto, ela não é justa por natureza, tem componentes
materiais, econômicos e políticos, não se constitui em uma vigilância
democrática.
De maneira geral, os pensadores parecem ter-se esquecido das
dificuldades que encontrariam para fazer seu sistema funcionar,
ignorando que haveria sempre formas de se escapar às malhas da rede
e que as resistências desempenhariam o seu papel.
Todavia, de que forma os indivíduos reagiam? Apesar de se tratar
de um controle contínuo, exaustivo,houve revolta contra o olhar das
disciplinas. Do Panóptico, aquele que tudo via e controlava
ininterruptamente. Foi possível acompanhar os movimentos desviantes
dos indivíduos, que demonstravam sua insatisfação pelas greves fabris,
pelas faltas exacerbadas ao trabalho, pela recusa em habitar as cidades
operárias que foram construídas.
A Sociedade Disciplinar foi, aos poucos, perdendo seu poder de
atuação frente a uma nova demanda de sociedade. Houve uma abertura
dos espaços e uma série de modificações a respeito das quais o próprio
Foucault, embora não tenha analisado sua continuidade, reconheceu
uma nova sociedade em um futuro próximo, sendo o escritor Burroughs
quem propôs o termo controle, para falar do que estava por vir.
De acordo com Pelbart (2003), a sociedade disciplinar não conseguia
penetrar inteiramente nas consciências e nos corpos dos indivíduos, a
fim de organizá-los na totalidade das suas atividades. Tratava-se de
uma relação poder-indivíduo ainda estática que, além disso, era
compensada pela resistência deste último. Na sociedade de controle,
por outro lado, o conjunto da vida social é englobado pelo poder e
desenvolvido em sua virtualidade.
 A sociedade passa a ser integralmente tomada por um poder que a
invade, até os centros vitais de sua estrutura social; que alcança as
consciências e os corpos da população, atravessando as relações sociais
e as integralizando. É a tomada da economia, da cultura e também do
bios social por um poder que assim engloba todos os elementos da
vida, mas é um domínio que produz algo muito paradoxal, pois, ao
61Mirela Fernanda de Freitas Alves
invés de unificar tudo, cria um meio de pluralidade e de singularização
não dominável.
Dando continuidade ao pensamento de Pelbart, vivemos hoje no
tempo do Império, onde estamos subordinados a uma nova estrutura de
comando, pós-moderna, descentralizada e desterritorializada, que
correspondente à fase atual do capitalismo globalizado. Um período
que não enxerga limite ou fronteira, que abrange a totalidade do espaço
do mundo, que se apresenta como fim dos tempos e busca em
profundidade a vida das populações, seus corpos, mentes, inteligência,
desejos, afetividade. Um tempo que compreende a totalidade do espaço,
do tempo e da subjetividade, que segue uma lógica de poder mais
“democrática”, horizontal, fluida, esparramada, em rede, entrelaçada
ao tecido social e à sua heterogeneidade, articulando singularidades
étnicas, religiosas e minoritárias.
O poder se transfigurou. No lugar dos dispositivos disciplinares que
constituíam a nossa subjetividade, encontramos novas modalidades de
controle. As antigas instituições que fechavam e esquadrinhavam os
indivíduos – família, escola, hospital, manicômio, prisão, fábrica –,
tão características do período moderno e da sociedade disciplinar,
funcionam agora por mecanismos de monitoramento mais difusos,
flexíveis, móveis, ondulantes, “imanentes”, com atuação direta sobre
os corpos e as mentes, prescindindo das mediações institucionais antes
necessárias, que, de qualquer forma, entraram progressivamente em
colapso.
Em seu livro Conversações (1992), Gilles Deleuze afirma que as
instituições acima citadas deixaram de ser espaços analógicos
convergentes a um mesmo proprietário, o Estado ou a potência privada,
já que se tornaram “figuras cifradas, deformáveis e transformáveis, de
uma mesma empresa que só tem gerentes”. As artes entraram para os
circuitos fechados de um banco, os mercados passaram a ser conquistados
por tomadas de controle, determinação de cotações e não mais por
disciplina, redução de custos; os produtos foram sendo transformados e
não mais se trabalha com a especialização dos mesmos.
O poder continua agindo sobre os indivíduos, atuando sobre a
subjetividade de cada um, no entanto, ele adquiriu outras formas de se
relacionar com o espaço, que agora é liso e flutuante. Articula-se por
meio dos sistemas de informação, de comunicação, das atividades de
enquadramento e é, por sua vez, interiorizado e reativado pelos próprios
sujeitos.
62 UM ESTUDO SOBRE OS MODOS DE SUBJETIVAÇÃO ...
Contudo, como Foucault já nos colocava, o poder não pode ser
visto apenas como algo repressivo, intransponível, negativo, como se
ele nos amputasse a capacidade de reação, mas ele possui uma potência
positiva enquanto força que gera produção (ORTEGA, 1999). Ele é
incumbido da produção e reprodução da vida, formando a dimensão
biopolítica da sociedade de controle.
Nessa sociedade, o corpo e a vida, juntamente com seus mecanismos,
são integrados no domínio dos cálculos explícitos do poder, que
administra e domina a vida social desde dentro, seguindo-a,
interpenetrando-a, assimilando-a e a reformulando. A vida torna-se
objeto de poder, uma vez que passa a ser uma função integrante e vital
que cada indivíduo abraça e reativa, por sua própria conta e vontade
(PELBART, 2003).
Tratamos agora de um poder organizativo, que removeu os últimos
obstáculos para a subsunção real e total da sociedade ao capital. Foram
conjuntamente carregados com isso os Estados-nação, a separação
público/privado, a sociedade civil, instituições com função de mediação
e, como nunca, o bios social foi. Por outro lado, essa lógica pôs a nu as
sinergias de vida, os poderes virtuais da multidão, o poder ontológico
da atividade de seus corpos e mentes, a força coletiva de seu desejo e,
por conseguinte, a possibilidade real de ela reapropriar-se dessa sua
potência.
O controle vigente agora pertence ao marketing, funciona em curto
prazo, é contínuo e ilimitado, em detrimento da disciplina, que era de
longa duração, infinita e descontínua. De confinados a espaços
disciplinares, passamos a endividados nos espaços abertos. O controle
sobre as subjetividades e as identidades atenuou-se, estamos subordinados
a uma vigilância generalizada, aberta, que vai além do confinamento
das instituições. O poder foi transformado, revestido.
A sociedade aparece como uma imensa solução fluida na qual se
difundem, se diluem, se mesclam e se confundem substâncias
psicoquímicas de cores diferentes. Crenças, tradições, ilusões, fés, ódios,
desejos que provêm de vários estratos do inconsciente antropológico,
fluxos midiáticos oriundos de fontes diversas do ciberespaço, fluxos
subculturais provenientes de diferentes níveis de imaginário planetário.
E longe de reduzir ou uniformizar o comportamento cultural, a integração
planetária produziu uma multiplicação de refrações, esfumaçamentos,
meios-tons que dependem dos diversos graus de contaminação.
(PELBART, 2003, p. 90).
63Mirela Fernanda de Freitas Alves
A opinião e a vontade, anteriormente utilizadas, cedem lugar aos
fluxos psicoquímicos, ou seja, aos hábitos, medos, às ilusões, fanatismos
que permeiam a mente social. A esfera pública, antes fundada no
confronto de opiniões, tem suas bases voltadas para a determinação
fragmentária, imprevisível, cada vez menos referida a esquemas políticos
definidos.
A vida neste Império, de acordo com Pelbart (2003), associa-se às
coletividades, à cooperação social e subjetiva, no contexto de produção
material e imaterial contemporânea, o intelecto geral. Tornou-se a
expressão de inteligência, afeto, cooperação, desejo. Ao se diferenciar
da concepção biológica do termo, adquiriu uma amplitude inesperada
e passou a ser redefinida como poder de afetar e ser afetado.
O trabalho, o capital e a terra abriram espaço agora à inteligência,
que está longe de ser um recurso escasso ou calculável. As identidades
que um dia foram fixas, locais, agora dão lugar a outras flexíveis,
móveis, cuja velocidade é ditada pelo mercado e com sua alta
velocidade. Pelas redes flexíveis, moduláveis e flutuantes, o poder foi
desfigurado, ampliou seu alcance, penetração. Surgem, assim, formas
ultrarrápidas de controle ao ar livre.
Fica mais fácil visualizar algumas mudanças, se as colocarmos
como ocorreram na prática: os hospitais, antes meios de confinamento,
foram setorizados, criaram-se os hospitais-dia, surgiram atendimentos
a domicílio, que permitiram novas liberdades,mas, por outro lado,
também passaram a agir como mecanismos de controle que disputavam
com os mais duros confinamentos.
Ao assinarmos qualquer documento, como um cheque, imprime-se
nesse momento a nossa identidade. A assinatura, produzida pelo
indivíduo e objeto de identidade pessoal historicamente conhecido, vem
sofrendo os efeitos dessa contemporaneidade líquida. O CPF, antes
conhecido apenas como o número de registro do indivíduo em uma
massa, garantia-nos o estatuto de existente regulamentado. Na sociedade
de controle, nossa assinatura é posta em xeque, torna-se objeto de
verificação, de confirmação para movimentos financeiros. Em
substituição à assinatura, o controle cria o código e a senha, instaurados
pelo sistema (COSTA, 2004).
A sociedade de controle é marcada pela interpenetração dos espaços,
por sua suposta ausência de limites definidos (a rede) e pela instauração
de um tempo contínuo, no qual os indivíduos nunca conseguem terminar
coisa nenhuma, pois estão sempre enredados numa espécie de formação
64 UM ESTUDO SOBRE OS MODOS DE SUBJETIVAÇÃO ...
permanente, de dívida impagável, prisioneiros em campo aberto (cf.
PELBART, 2003).
Deleuze (1992) ressalta que Félix Guattari imaginou uma cidade
onde as pessoas pudessem abandonar seus lares, bairros, por meio de
um cartão de identificação eletrônico e individual, que derrubaria as
barreiras – o que já existe. No entanto, se esse cartão falhasse, o indivíduo
deixaria de ser quem outrora fora, perderia sua identidade, não poderia
ser aceito como dono de sua casa, os acessos lhe seriam negados: esse
é o conceito de modulação universal de que nos fala Deleuze, em que o
indivíduo passa a ser divisível, ora podendo, ora não podendo (cf.
COSTA, 2004).
Na verdade, a modulação a sobre um conjunto ou grupo de códigos,
o indivíduo podendo ou não ter acesso a um serviço liberado pelo
sistema. Também do ponto de vista da geografia, o código vem
substituindo gradativamente a identidade. As noções de identidade e
corpo físico sempre estiveram associadas uma à outra. Com o advento
do espaço urbano partilhado administrativo, há a emergência de um
duplo do corpo: o sistema numérico que nos identifica. Assim, o telefone,
o cartão de crédito, o número da previdência etc. possibilitam, cada
vez mais, expandir ou restringir nossa mobilidade no espaço físico
(BOULLIER, 2000, apud COSTA, 2004).
Atualmente, um habitante está inscrito em uma rede variável, em
que a prova de domicílio não é mais o título de propriedade ou o
pagamento de aluguel, mas a fatura de água, de eletricidade ou gás, de
telefone etc. É a inscrição nessas redes, o estatuto de consumidor de
fluxos técnicos que serve como prova jurídica de nosso pertencimento
espacial. Somos humanamente definidos como membros de múltiplas
redes (ibid).
As redes sociotécnicas, nas quais estamos inseridos, são muitas:
água, transportes, comércio, telecomunicação, telefonia, comunicação,
TV, jornal, computação, web, portáteis. Na era digital, em casa ou no
trabalho, pelo fato de essas redes estarem interconectadas, podemos
acessar múltiplos serviços, sem a necessidade de nos deslocarmos. Por
outro lado, em trânsito, temos acesso à cidade digital via cartões
multisserviços, terminais eletrônicos, aparelhos portáteis. Uma nova
lógica, portanto, está em curso, no que diz respeito aos deslocamentos
e acessos.
Tudo isso nos é possível, porque o dinheiro se tornou eletrônico, em
substituição ao seu oneroso antecessor de papel. O dinheiro eletrônico,
65Mirela Fernanda de Freitas Alves
além de reduzir os custos, acaba gerando mais controle sobre os
indivíduos e a circulação do capital: o papel moeda é anônimo, o
dinheiro eletrônico, não (ibid.).
Tornamo-nos marcas, amostras de moedas, dados. Com relação ao
dinheiro, “as trocas são flutuantes, modulações que fazem intervir como
cifra uma percentagem diferente de amostras de moeda” (DELEUZE,
1992). Na sociedade da informação, o governo, a produção e a
circulação das informações são uma única coisa.
Somado às transfigurações já colocadas, o antigo meio de registro
disciplinar também se aperfeiçoou, de sorte que estamos circundados
por um novo tipo de olhar vigilante – as câmeras. Estas estão presentes
em todos os locais, acompanhando nossa movimentação, nossas atitudes,
registrando tudo, permanentes em sua atuação. O intuito é estabelecer
essa modulação contínua, no presente, onde os indivíduos não sendo
mais que pontos localizáveis numa série de redes que se entrecruzam.
Assim, resta aos usuários controlar todo o tempo as informações
pessoalmente identificáveis que eles estão fornecendo ao sistema,
continuamente (cf. COSTA, 2004).
 Há uma mudança na natureza do próprio poder, que não é mais
hierárquico, e sim disperso em uma rede planetária. Isso pode significar
que a antiga dicotomia opacidade-transparência não seja mais
pertinente. Nessa sociedade, as instâncias de poder estão dissolvidas
por entre os indivíduos, o poder não tem mais uma “cara”.
Hoje, o importante parece ser essa atividade de modulação constante
dos mais diversos fluxos sociais, seja de controle do fluxo financeiro
internacional, seja de reativação constante do consumo (marketing)
para regular os fluxos do desejo ou, não esqueçamos, da expansão
ilimitada dos fluxos de comunicação. Por outro lado, da mesma forma
que o terrorismo é uma do terror imposto pelo Estado, a ação não
localizada dos hackers, produzindo disfunções e rupturas nas redes,
parece ser o efeito que corresponde adequadamente aos novos modos
de atuação do poder. Nenhuma forma de poder parece ser tão sofisticada
quanto aquela que regula os elementos imateriais de uma sociedade:
informação, conhecimento, comunicação (cf. COSTA, 2004).
O Estado está se tornando uma verdadeira matriz onipresente,
modulando os indivíduos continuamente, segundo variáveis cada vez
mais complexas. Na sociedade de controle, estaríamos passando das
estratégias de interceptação de mensagens ao rastreamento de padrões
de comportamento.
66 UM ESTUDO SOBRE OS MODOS DE SUBJETIVAÇÃO ...
Diante de todo esse cenário, de todas essas transformações, o homem
passou a ser sujeitado de outras formas. Na Sociedade Disciplinar, fomos
passivos de uma série de confinamentos, tornando possíveis determinados
modos de subjetivação. Hoje, enquanto combinação da Disciplina –
Controle, entre uma sociedade que se acaba e outra que surge, não
fugimos a essa realidade; o contexto mudou, mas estamos condicionados
a outras vigilâncias. Como nos constituímos, enquanto sujeitos que
saem de um espaço fechado para um aberto, na medida em que os
poderes e os saberes se transformam ao nosso redor?
Os modos de subjetivação, dispositivos historicamente constituídos
que podem se desfazer, transformar-se, à medida que novas práticas de
subjetivação se formam, e a subjetividade, que, por sua vez, é o único
lugar onde um sujeito, uma identidade, podem medrar, se desenvolver,
estão imersos em uma nova concepção de indivíduo. Nossa vida passou
a associar-se às coletividades, à cooperação social e subjetiva, no contexto
de produção material e imaterial contemporânea, o intelecto geral.
Tornou-se a expressão de inteligência, afeto, cooperação, desejo. Ao se
diferenciar da concepção biológica do termo, adquiriu uma amplitude
inesperada e passa a ser redefinida como poder de afetação.
O sujeito agora se desfaz em uma série de processos que
multiplicam as subjetividades que são mais ou menos montáveis e
desmontáveis. Um “neonarcisismo” surge, onde a perigosa
contemplação de si mesmo – a que praticava Narciso no espelho
das águas – é substituída por uma série de exposições cujo controle
parece fugir ao sujeito. O que vale é uma potência de variação que
o sujeito sente como alheia e que somente pode ser acessada através
de um “aparelho” – um novo dispositivo? – que a relação da
subjetividade com a consciência que se tem dela. (CARDOSO
JÚNIOR, 2005, p.22-23).
O sujeito atual não se fixa em uma identidade, mas se permite
atravessar, ser, de várias formas segundo lhe convém. Deve ser capaz
dese sentir seduzido pela incessante possibilidade e constante renovação
promovida pelo mercado consumidor, de contentar-se com a sorte de
vestir e despir identidades, de passar a vida na caça infindável de cada
vez mais intensas sensações e cada vez mais inebriante experiência
(BAUMAN, 1998).
Dando continuidade a essa, Nietzsche (s.d.) possibilita uma
caracterização de um tipo psíquico característico do modo de
67Mirela Fernanda de Freitas Alves
subjetivação contemporâneo: “Uma nação que perdeu a piedade para
com o passado e que o seu gosto cosmopolita condena a uma mudança
permanente e a uma procura incessante do novo, e sempre do novo”.
Tratamos, assim, de uma marcação da identidade pela diferença, um
novo ser fragmentado, que se reveste de identidades múltiplas, conforme
deseja ou necessita.
O indivíduo torna-se tão receoso e hesitante, que perde a confiança
em si; dobra-se sobre si mesmo, sobre a sua interioridade, que nesse
caso significa dobrar-se sobre um amontoado de coisas aprendidas que
não têm qualquer ação sobre o exterior e sobre um saber que não se
transforma em vida. Ao observarmos de uma certa distância,
apercebemo-nos de que a extração dos instintos pela história transforma
os homens em sombras e abstrações. As pessoas não ousam mais serem
elas próprias, todos trazem máscaras, disfarçam-se de homens cultos,
de poetas, de políticos. E quando atacamos uma máscara dessas,
acreditando que ela se leva a sério e não se trata de um simples fantoche
– todas dão mostras de grande seriedade – fica-se nas mãos com trapos
e enganos, falsetes, ouropéis de cores variadas (NIETZSCHE, s.d.).
Hoje, assistimos a uma proliferação de singularidades, e não mais
sujeitos. A identidade, a responsabilidade, a participação política, a
pretensão de um governo da totalidade são exemplos de obsessões que
impedem algo mais elementar, uma espécie de criatividade caosmótica
e recombinações singulares, eventos libertários que uma célula
independente pode examinar por si e propor como exemplo, como
contágio, fazendo rizoma sem precisar dominar. Seria uma maneira de
pensar alternativas no interior desse caldo, onde se dissolveram os corpos
compactos, como classes, ideologias, todas essas figuras simplificadas
que já não agregam qualquer constelação de acontecimentos, de ações,
de projetos (PELBART, 2003).
Devemos atualmente, ser o mais enxuto possível, leves, termos
navegabilidade, a fim de poder atentar para os projetos mais pertinentes,
com término previsto, para o qual se mobilizam as pessoas certas e, ao
cabo do qual, estão todos novamente disponíveis para outros convites,
outras propostas, enfim, outras conexões. Podemos pensar na figura do
empreendedor, que já não é aquele que tudo acumula – capital,
propriedades, família – pelo contrário, é atualmente aquele que pode
deslocar-se mais, de cidade, de país, de universo, de meio, de língua,
de área, de setor. O mundo conexionista é inteiramente rizomático,
não finalista, não identitário, favorece os hibridismos, a migração, as
68 UM ESTUDO SOBRE OS MODOS DE SUBJETIVAÇÃO ...
múltiplas interfaces, metamorfoses etc. Seu objetivo ainda é o lucro,
mas o modo pelo qual ele agora tende a realizá-lo é prioritariamente
através da rede (id.).
De acordo com Pelbart (2003), estamos submersos em um mundo
que trabalha em rede, que conta com equipes auto-organizadas, com
uma nova função de manager, onde não é propriamente o diretor que
manda, calculista e frio administrador, mas sim o líder visionário e
intuitivo, capaz de catalisar uma equipe, animá-la, inspirar confiança,
comunicar-se com todos, com uma intuição criativa, enfim, um
humanista. É o homem da rede, da complexidade, do mundo reticulado,
da mobilidade, que atravessa fronteiras, sejam elas geográficas, culturais,
profissionais ou hierárquicas, capaz de estabelecer contatos pessoais
com atores muito diferentes dele.
Ironicamente, no mundo atual, o problema do neomanagement é
precisamente o do controle: como é possível controlar o incontrolável –
a criatividade, a autonomia, a iniciativa alheias – senão fazendo com
que as equipes auto-organizadas se controlem a si mesmas? Surgem,
em decorrência, as noções de implicação, mobilização, prazer no
trabalho (nada que lembre controle ou manipulação). Ao mesmo tempo,
a importância da satisfação do cliente transfere parte do controle para
fora, porque é ele que deve exercer o controle. Passamos a um
autocontrole, para uma externalização dos custos de controle antes
assumidos pela empresa, em direção aos próprios assalariados e aos
clientes. Os trabalhadores se tornam mais responsáveis pelo processo
produtivo como um todo e, portanto, menos alienados.
Concomitantemente, a proposta é ter certa liberação generalizada;
à medida que uma mobilidade é estimulada, é valorizado aquele que
pode trabalhar com as diferenças, em seus vários níveis, aquele que
está aberto e flexível para trabalhar em projetos distintos, adaptar-se a
circunstâncias diversas, e cada projeto traduz uma oportunidade para
enriquecer as competências próprias e aumentar sua empregabilidade.
Com isso, o neomanagement traz consigo uma margem de liberdade,
reivindicando mesmo uma autonomia, uma espontaneidade, uma
mobilidade, uma pluricompetência, uma conviviabilidade, uma abertura
à novidade, à criatividade, à sensibilidade, à escuta do vivido e ao
acolhimento de experiências múltiplas, contatos interpessoais etc.
(PELBART, 2003).
Temas como esse, relacionado ao mundo do trabalho, eram
associados a uma crítica radical ao capitalismo, mas agora são
69Mirela Fernanda de Freitas Alves
valorizados por si mesmos e postos a trabalhar em favor daquilo que
outrora criticavam. O taylorismo, no seu aspecto rudimentar e robótico,
não permitiria pôr diretamente a serviço da busca de lucro as
propriedades mais humanas dos indivíduos, ou seja, seus afetos, o sentido
moral, sua honra, sua capacidade de invenção. Por outro lado, os novos
dispositivos, que pedem um engajamento mais completo e que se sobre
uma ergonomia mais sofisticada, integrando os aportes da psicologia
pós-behaviorista e das ciências cognitivas, precisamente porque são
mais humanos, penetram também mais profundamente na interioridade
das pessoas, das quais esperam que elas se entreguem ao seu trabalho
e tornem possível uma intrumentalização dos homens no que eles têm
de propriamente mais humano.
O capital, para aumentar seu poder de captura, englobou os aspectos
mais humanos dos indivíduos – potencial, criatividade, interioridade,
afetos – tudo isso que dizia respeito, antes, ao ciclo reprodutivo. Passa
a articular na produção tudo o que, antes, pertencia à esfera privada,
da vida íntima, ou até mesmo do que há de artístico no homem, daquilo
que caracteriza mais o artista que o operário.
O capitalismo em rede nos pede mais do que trabalho, demanda
atividades que visam a gerar projetos, que dependem dos encontros, em
que a atividade por excelência, que não existe a priori, consiste em
inserir-se nas redes e explorá-las, a fim de engendrar um projeto. Um
projeto deve ser visto como um dispositivo transitório, e a vida é
concebida como uma sucessão de projetos, tanto mais válidos quanto
mais diferentes uns dos outros, e o que importa é ter uma um projeto,
algo em vista ou em preparação, com outras pessoas, mesmo sabendo
que esse projeto é transitório e que a associação com essas pessoas é
temporária – isso em nada deve diminuir o entusiasmo.
“Justamente porque o projeto é uma forma transitória que ele é
ajustado a um mundo em rede: a sucessão dos projetos ao multiplicar
as conexões e ao fazer proliferar os laços tem por efeito estender as
redes” (PELBART, 2003). No mundo conexionista, as pessoas sentem a
necessidade, o desejo de se conectar, de entrar em relação, de fazer
ligações, de não ficar isolados, o que exige confiança, comunicação,
flexibilidade, atividade, autonomia, riscos, estar atento como um radar,
e poder “pilhar”, com habilidade e talento, sabendo antecipar, pressentir,
farejar as ligações que merecem ser feitas. Uma coisaé o capital
econômico, outra é o capital de relações, e outra ainda é o capital de
informação; e esses dois últimos, num mundo em rede, são correlatos.
70 UM ESTUDO SOBRE OS MODOS DE SUBJETIVAÇÃO ...
O homem contemporâneo enxerga o mundo enquanto possibilidades
de novas conexões, e deve saber onde estar, por em valor sua presença,
saber escutar, trocar, ecoar, ter toda uma estratégia de monitoramento
de si, apresentar a faceta que mais possa conectar; por isso, ele é ainda
afetivo, amigável, é uma pessoa de verdade, não realiza nada
mecanicamente e põe o que tem ou sabe a serviço de certo bem comum,
impulsionando um meio, facilitando, dando alento, insuflando,
impulsionando com vida, dando sentido e autonomia. Tornamo-nos
conectores, uma ponte, e quanto mais conseguirmos por nós mesmos
realizar um papel ativo na expansão e na animação de redes, tanto
mais seremos valorizados (cf. PELBART, 2003).
O sujeito, hoje, já não sofre com a perda da identidade: pelo
contrário, ele até intensifica essa perda, a fim de contabilizar mais
rapidamente perdas e ganhos nas exibições do “aparelho de
intermediação”. Cria-se uma espécie de narcisismo da diferença, onde
o cuidado de si, como denominava Foucault, ou a potência de
diferenciação do corpo se vê capturada por um mecanismo que parece
ter atingido o coração dos processos e práticas de subjetivação. De
repente, estranhas potências passam a atravessar a relação do si consigo
mesmo (CARDOSO JÚNIOR, 2005).
O mercado tem se inspirado nas artes para formar seus chefes de
projeto, os managers. “A malhagem informal é o modo de organização
preferido dos artistas, cientistas e músicos que evoluem em domínios
onde o saber é altamente especializado, criativo e personalizado”
(PELBART, 2003). Devem, assim como os artistas, lidar com a
desordem, ter capacidade de atravessar distâncias, geográficas,
institucionais, sociais. Nessa perspectiva, contrariamente ao velho
burguês, o conexionista é legitimamente errático, e o que importa é
seu capital de experiências, os diversos mundos que ele atravessa, a
sua adaptabilidade.
Tendo em vista que o que importa é intangível, impalpável,
informal, é na natureza interpessoal da conexão que recai o peso
todo. Tornam-se importantes a mobilidade, o nomadismo, a leveza, o
deslocamento, em detrimento da propriedade, da segurança e do
enraizamento.
Nesse ínterim, a problemática do laço, da relação, do encontro, da
ruptura, da perda, do isolamento, da separação, como prelúdio de novos
laços, a tensão entre a exigência de autonomia e o desejo de segurança
estão no coração da vida pessoal, amistosa e, sobretudo, familiar. O
71Mirela Fernanda de Freitas Alves
laço como problemático, frágil, a fazer ou refazer, e o mundo vivido
como conexão, desconexão, inclusão, exclusão. Tudo aponta para uma
nova moral cotidiana, como podemos perceber.
O capital criou uma nova maneira de garantir o seu lucro, por
intermédio da idealização da realização pessoal, da livre associação
etc. Foram deixados de lado, nesse contexto, os efeitos sociais
importantíssimos que acompanharam essa reconfiguração, notadamente
a precarização do trabalho, a supressão de direitos trabalhistas diversos,
o novo desemprego, a nova seletividade em função das novas normas
valorizadas pelo conexionismo, excluindo vastos contingentes cuja
subjetividade não se coaduna com os novos parâmetros pessoais. Uma
exploração que se intensifica em face de uma pulverização da
resistência, a uma individualização dos contratos e da remuneração, à
dessindicalização, à desintegração da comunidade de trabalho, à
desconstrução da própria de classe social, à tematização crescente, em
substituição ao tema das classes, dos excluídos como agregados
(PELBART, 2003).
Mobilizou-se em ações diretas destinadas a aliviar o sofrimento dos
infelizes, passando a privilegiar estratégias de ação, conforme outras
exigências. As pessoas têm o direito de se associar de maneira mais
fluida numa ação conjunta, sem necessidade de realizar uma filiação
partidária. Haveria como que uma “homologia morfológica” entre os
novos movimentos de protesto e as formas do capitalismo que se
instalaram ao longo dos últimos vinte anos. Em compensação, a ruína
de vários tabus – morais, familiares, sexuais – expandiu
paradoxalmente o mercado de bens ou serviços em direção antes
exteriores ao mercado, como a sexualidade, por exemplo.
O capitalismo se aproveitou muito da aspiração das pessoas à
mobilidade, à pluralização das atividades, ao aumento de possibilidades
de ser e de se fazer, e se apresenta como um reservatório de quase sem
limites, para conceber novos produtos e serviços a serem colocados no
mercado. Poderíamos mostrar que quase todas as invenções que
alimentaram o desenvolvimento do capitalismo foram associadas à
proposição de novas maneiras de se liberar, e isso desde os inúmeros
artigos eletrodomésticos, da informática, até o turismo, a sexualidade e
o entretenimento. O capitalismo mercantilizou o desejo, sobretudo o desejo
de liberação, e assim o recuperou e o enquadrou (cf. PELBART, 2003).
Até mesmo o desejo de autenticidade foi transformado em
mercadoria. A crítica à massificação, o desejo de singularidade, de
72 UM ESTUDO SOBRE OS MODOS DE SUBJETIVAÇÃO ...
diferenciação, foi endogeneizado, mercantilizado, e seguiu-se a produção
de produtos autênticos, “diferentes”, o que representou uma ocasião
para os empresários superarem uma saturação do mercado, adentrando
domínios antes alheios a ele. Sob pretexto de humanização, tomaram
a cargo a produção de bens “autênticos”. Transformação do não-
capitalizável em capitalizável, seres, valores, bens, tesouros (PELBART,
2003).
O capitalismo transforma o não-capital, não só paisagens, ritmos,
mas também maneiras de ser, de fazer, de ter prazer, atitudes, e nisso
consiste sua inventividade nos últimos anos, na intuição de antecipar
os desejos do público, com a importância crescente dos investimentos
culturais e tecnológicos. Mercantilização da diferença, da originalidade
– que, evidentemente, logo se perde –, de um novo sentido, que também
se esvai, gerando novas formas de inquietude e talvez novos limites.
Existir é diferir, a diferença é o alfa e o ômega do universo; por ela
tudo começa... Por toda parte uma exuberante riqueza de variações
e de modulações inauditas jorra (das) espécies vivas, sistemas
estelares... e acaba por destruí-los e renová-los inteiramente... Se
tudo vem da identidade e se tudo visa e vai à identidade, qual é a
fonte desse rio de variedades que nos encanta? (PELBART, 2003,
p. 113).
Sob essa perspectiva, tudo é novidade, a própria invenção significa
um acontecimento jubiloso, uma combinação singular, encontro,
hibridação, novo agenciamento das relações entre as forças, rearranjo.
A invenção é uma pequena diferença introduzida no mundo, que pode
traduzir uma grande alegria. A alegria da invenção tem que ver com as
novas formas de cooperação que ela enseja (cf. PELBART, 2003).
Na contemporaneidade, a demarcação de uma identidade pela
diferença tornou-se uma característica imanente. As pessoas são
valorizadas a partir de sua capacidade de diferenciação, de
fragmentariedade do seu ser, do sujeito. O oposto disso, a fixidez, está
no nível do inaceitável, retrógrado ou, como nomeou Bauman (1998)
da “sujeira” social. Isso não é sinônimo, no entanto, de felicidade
psíquica. Temos que ser dessa forma, a fim de estarmos mais adequados
ao estilo de vida pós-moderno. O Narciso atual se perderia frente a
tantas imagens, não tanto pela beleza de cada uma, mas principalmente
pelo sentimento de vazio coexistente com tantas máscaras e capas, que
nada mais fazem do que nos proteger, a nossa tal identidade, de sofrer
73Mirela Fernanda de Freitas Alves
ainda mais nessa sociedade fluida, líquida, que não consegue se entregar
verdadeiramente a nada.
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74 UM ESTUDO SOBRE OS MODOS DE SUBJETIVAÇÃO ...
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SP, 2002.
5
Estudo sobre a sociedade disciplinar no
pensamento de Foucault e a sociedade
de controle no pensamento de
Deleuze-Guattari: um olhar sobre o
papel da instituição educacional e o
controle na infância
VIVIAN DE JESUS CORREIA E SILVA
Parece que de repente
Sabes que te falta uma mão
Os dois olhos
A língua
Ou a esperança
É possível, Pedro
João ou Tiago
Que perdesses algo
Tão necessário
Sem que percebesses?
Pablo Neruda
Será que, diante da conjuntura social atual, os indivíduos estão
mesmo perdendo algo importante sem perceber? Será que, analisando
a rotina das crianças, poderemos entender uma parte desse complexo
processo de expropriação?
De acordo com Foucault, as sociedades disciplinares surgem no
século XVIII, atingem seu apogeu no século XX e entram em processo
de decadência a partir desse período, dando lugar ao surgimento de
uma nova forma de organização social. Essa nova sociedade foi definida
por Deleuze como sociedade de controle.
76 ESTUDO SOBRE A SOCIEDADE DISCIPLINAR NO PENSAMENTO ...
Passamos, por conseguinte, de disciplinas expressas pelas regras e
pelo confinamento presente nas instituições a um tipo de controle
manifesto além dos muros da instituição. E, para manter o
funcionamento de uma nova organização social, há que se constituir
uma nova forma de subjetividade para sustentá-la.
“Os saberes e os poderes de todos os tempos procuram dominar os
processos de subjetivação, atuando como dispositivos de normalização
dos comportamentos” – salienta Foucault (CARDOSO, 2005, p. 6). Essa
homogeneização das ações feita através da sujeição dos comportamentos
às normas estabelecidas como verdades funciona como agente
transformador da maioria dos seres humanos, estes ficam subordinados
a essas normas, mesmo que elas sejam contraditórias e definidas por
uma minoria. Os processos ou modos de subjetivação consistem em
ferramentas para a fabricação de sujeitos e a história do cuidado e das
técnicas de si seria uma das maneiras de fazer a história da subjetividade
(FOUCAULT, 1997, p. 111).
Entretanto, para que essa relação de poder sobre as subjetividades
seja exequível, Foucault destaca três modos de se sujeitar as pessoas. O
primeiro se caracteriza pela investigação que tenta atingir o estatuto
de ciência, colocando o ser humano na posição de objeto de estudo. O
segundo consiste em atingir o ser humano com práticas divisoras,
fragmentando-o em seu interior e em relação aos outros e o terceiro
por definir o ser humano em relação à sexualidade (DREYFUS;
RABINOW, 1995, p. 231-232). Nesse sentido, nosso interesse neste
capítulo incide no primeiro modo de subjetivação descrito anteriormente.
Desejando, pois, estudar o processo de subjetivação infantil dentro
da sociedade atual, é imprescindível que olhemos para as práticas
pedagógicas adotadas pelas instituições educacionais. Ora, o amplo
alcance e a difusão da Educação Infantil demonstram sua importância
na vida contemporânea. No âmbito da instituição educativa, Larrosa
argumenta que o sujeito pedagógico é uma produção de abordagens
pedagógicas. Mesmo que se afirmem pretensamente neutras, tais
abordagens não o são porque colaboram na construção de discursos
que nomeiam o sujeito e se utilizam de práticas institucionalizadas que
o capturam (LARROSA, in SILVA, 2000, p. 52).
Diante disso, buscaremos caracterizar alguns modos de subjetivação
do sujeito infantil nas instituições educacionais. Chamaremos
especificamente de institucionalização precoce (IP) os momentos da
história das instituições educacionais que envolvem o confinamento de
77Vivian de Jesus Correia e Silva
crianças menores de seis anos. Sobre esse modo de subjetivação do
sujeito pousará o foco do capítulo na parte referente à caracterização
da sociedade disciplinar de Foucault. Entretanto, convém ressaltar a
posição ambígua da IP, pois foi desenvolvida para atender à sociedade
disciplinar, mas continua seu funcionamento e sua expansão após o
século XX.
Com a minuciosa observação feita sobre a sociedade disciplinar,
Veiga-Neto aponta que ela substituiu a política de soberania vigente até
o século XVIII porque esta última não realizou o propósito pretendido
de realizar o poder hegemônico. Diversas situações escapavam do olhar
do soberano, por mais atento que ele estivesse. Dessa forma, o poder
disciplinar tomou o lugar da soberania justamente por imprimir marcas
profundas o bastante para “fazer com que a vigilância seja permanente
em seus efeitos, mesmo que seja descontínua em sua ação” (VEIGA-
NETO, 2005, p. 79).
Contudo, a sociedade disciplinar precisava de um modo de aplicação
de seus preceitos que atingisse um elevado número de pessoas. Para
Veiga-Neto, foi através da instituição educacional que se construiu a
sociedade disciplinar, tendo em vista que a escolarização possibilitou a
ação exitosa da disciplina, mostrando-se capaz de funcionar
“engendrando subjetividades” (VEIGA-NETO, 2005, p. 84). E, partindo
da constatação de que, em geral, as pessoas vivem a maior parte de sua
infância e juventude dentro de escolas, temos noção da pertinência do
processo educacional no engendramento da sociedade disciplinar (VEIGA-
NETO, 2005, p. 85). A instituição educacional detém sob seu comando
o planejamento de uma rotina diária e com vários anos de duração, o
que certamente lhe assegura “os efeitos desse processo de subjetivação”,
classificados como “notáveis” (VEIGA-NETO, 2005, p. 85).
Encontramos em Deleuze dados sobre a transição que aconteceu
posteriormente, da então consolidada sociedade disciplinar para a sociedade
de controle. O autor explicita o surgimento de modos ainda mais
abrangentes de contenção e direcionamento do sujeito contemporâneo. Ele
constata que, antes, o confinamento disciplinar era fixo e rígido, “como os
buracos de uma toupeira”, porém, na sociedade de controle, a disciplina é
substituída por outro tipo de estratégia, modulada e flexível, “como os
anéis de um uma serpente” (DELEUZE, 1992, p. 226). Nesse contexto, para
Deleuze, vivemosum momento histórico no qual existem, simultaneamente,
características da sociedade disciplinar em decadência e da sociedade de
controle em expansão (DELEUZE, 1992, p. 220).
78 ESTUDO SOBRE A SOCIEDADE DISCIPLINAR NO PENSAMENTO ...
Diante da concepção deleuzeana, a sociedade de controle surgiu
como uma transformação da sociedade disciplinar. No tangente ao poder,
o controle pode ser visto também como a “estratégia vencedora” dentre
tantas outras estratégias já utilizadas ao longo da História. Afinal, ao
invés de disciplinar os indivíduos dentro de instituições de sequestro,
com muros altos e também altos investimentos para inculcar-lhes
artificialidades legitimadas como úteis, o controle exercita seu poder
de uma forma muito mais interessante. Pode-se intuir que não se trata
apenas de uma transformação da sociedade disciplinar, mas sim uma
evolução das estratégias de sujeição que demonstram maior
complexidade, flexibilidade e alcance. Lançamos a hipótese de que a
IP acompanha e reflete a transição da disciplina para o controle,
adaptando-se a essa demanda social mesclada e complexa.
Quando consideramos a disciplina como sólida, constatamos o
controle como gasoso. A disciplina, por sua solidez, precisa de anos
para se concretizar enquanto obra. Dedicação exaustiva (dos
cuidadores); martelos, picaretas, lixas (técnicas de cuidado); artistas
especializados (professores); matéria-prima em abundância e em
situação de uso imediato (alunos aptos); locais apropriados (escolas);
ciência legitimadora (pedagogia). A disciplina “cai bem” para qualquer
um que deseje se servir dela.
Já o controle precisa de menos recursos, de pouco tempo. Funciona
com incrível capacidade em ambientes abertos, não vigiados por elementos
externos. Possui algumas particularidades provenientes de seu estado
“gasoso”. O controle atua passando despercebido, espalha-se e penetra
em todas as frestas, não necessitando que seus sujeitos estejam em
condições de legitimá-lo; basta respirar o mesmo ar que os outros. Precisa
apenas de um ambiente que permita a passagem de seus vapores porque
“o controle é de curto prazo e de rotação rápida, mas também contínuo
e ilimitado”, fazendo contraponto com a disciplina, que “era de longa
duração, infinita e descontínua” (DELEUZE, 1992, p. 224).
Podemos deduzir que uma das mudanças de paradigma da
subjetividade do controle é a continuidade da sensação de vigilância.
Antes o indivíduo vivia a disciplina apenas dentro da clausura. Agora o
vínculo parece mais consistente, pois o aprisionamento pode estar dentro
dele mesmo, independente do espaço físico que ele vier a ocupar. Faz-se
importante, nesse caso, o nascimento de um novo homem, cuja
subjetividade da era disciplinar se modifica/adapta sob a égide do
controle.
79Vivian de Jesus Correia e Silva
Desse modo, caberia questionarmos a IP como uma dentre as
estratégias flexíveis de poder atuantes na modelagem de um tipo pré-
determinado de subjetividade, provavelmente visando à normalização
das ações e a padronização dos interesses. Para Foucault, esses
mecanismos estratégicos operam sobre o campo de possibilidade onde
se inscreve o comportamento dos sujeitos ativos; incitam, induzem,
desviam, facilitam ou tornam difícil, ampliam ou limitam, tornam mais
ou menos provável, chegando até a coagir ou impedir, caracterizando-
se sempre pela ação de um sobre outros sujeitos ativos, “uma ação
sobre ações” (DREYFUS; RABINOW, 1995, p. 243).
A ação constante sobre a criança que é atendida na rotina da IP
caracteriza a posição de sujeito pedagógico descrita por Larrosa
(LARROSA, in SILVA, 2000, p. 54). O processo de subjetivação infantil
passa a ser lentamente moldado, desde muito cedo, pelo sistema de
funcionamento da IP.
De acordo com Deleuze, a subjetividade se constrói de forma
empírica, sendo as circunstâncias do que é dado na prática fundamental
para a diferenciação do sujeito, ou seja, “circunstâncias [...] são,
exatamente, as variáveis que definem nossas paixões, nossos interesses”
(DELEUZE, 2001, p.116).
Sendo assim, quando as circunstâncias são planejadas e pré-
determinadas para alcançarem um objetivo, estamos presenciando o
nascimento de uma estratégia. Nesse caso, pode-se identificar, em termos
de estratégias de subjetivação, os mecanismos utilizados nas relações de
poder (DREYFUS; RABINOW, 1995, p. 248). Notamos que a relação do
adulto empregado da instituição educacional com a criança confiada
aos seus cuidados é uma relação de poder. Larrosa ressalta a validade de
se perguntar pelos mecanismos estratégicos específicos que constituem o
que é dado como subjetivo, isto é, como a experiência de si foi e é
produzida, remetendo à ideia foucaultiana do sujeito contemporâneo ser
uma produção social (LARROSA, in SILVA, 2000, p. 55).
A subjetividade interage com o social, segundo Deleuze. Sendo a
subjetividade composta por fluxos de desejo, os adultos envolvidos no
processo de subjetivação infantil seriam “meios, abridores ou fechadores
de portas, guardas de limiares, conectores ou desconectores de zonas”
(DOMINGUES, 2002, p. 5). Para Deleuze e Guattari (D&G), “o desejo
faz constantemente a ligação de fluxos contínuos e de objectos parciais”
(DELEUZE & GUATTARI, 1966, p. 11). Dentro desta idéia podemos
intuir que, se há possibilidade de conexão do desejo com o seu entorno
80 ESTUDO SOBRE A SOCIEDADE DISCIPLINAR NO PENSAMENTO ...
formando a subjetividade, também é possível restringir sua fluência a
determinados tipos de conexões visando manter um certo padrão
subjetivo. Este padrão, em Guattari, corresponderia à demanda da
ordem social capitalista porque a espécie humana traz em si cargas de
desejo de que o capitalismo pretende se apoderar. (GUATTARI, 1987, p.
206).
Entendemos que o domínio dessas cargas de desejo pode contribuir
para a manutenção do capitalismo. E o quanto antes esse desejo for
direcionado, melhor integrado o sujeito poderá estar ao papel social
que dele se espera. Podemos supor que, em contrapartida, quanto mais
cedo esse desejo for estimulado a se expandir, mais ampla e diversificada
será a subjetividade do adulto resultado desse processo de conexão
criativa com seu entorno. Depende das circunstâncias.
Sendo a subjetividade construída de forma empírica, ela segue
acompanhando as mudanças históricas e as tais circunstâncias
cotidianas. Deleuze observa que não há subjetividade teórica porque a
proposição fundamental do empirismo é a construção do sujeito prático,
nascido para interagir e moldado subjetivamente pelas experiências
que lhe foram proporcionadas (DELEUZE, 2001, p. 118).
Dessa maneira, se a subjetividade é construção prática e modifica
seu formato segundo as circunstâncias na qual fora entalhada, pode-se
inferir que ela deve vincular-se à vivência institucional estreitamente,
ao cotidiano da organização, que, por sua vez, funciona conforme um
objetivo capitalista.
De acordo com o conceito de que as circunstâncias definem o sujeito
em sua subjetividade, torna-se possível refletir sobre o alcance da IP,
sobre a importância do processo educacional na construção da
subjetividade contemporânea e das relações dela provenientes. Dessa
maneira, verificam-se, por exemplo, alguns critérios de funcionamento
das relações: “Se é verdade que a associação é necessária para tornar
possível toda relação em geral, cada relação em particular de modo
algum é explicada pela associação. O que dá à relação sua razão
suficiente é a circunstância” (DELEUZE, 2001, p. 116). Supondo, assim,
que a subjetividade e as relações são desenvolvidas através das
circunstâncias práticas, é possível vislumbrar a grande importância da
rotina na modelagem dos sujeitos, das subjetividades, do direcionamento
dos desejos, da disponibilidade afetiva etc. O papel das circunstâncias.
A vida escolar e as práticas pedagógicas contribuem para a
consagração de um certo tipo de rotina que pode resultar no
81Vivian de Jesus Correia e Silva
desenvolvimento de seres humanos estereotipados subjetivamente. Pode-
se imaginar a influência do controle gasoso quandoo sujeito é obrigado
a respirar esses ares continuamente, em fases de construção da
identidade, ou seja, vivenciar a maior parte de sua infância e juventude
dentro de circunstâncias controladas, como ocorre no processo de
escolarização.
No caso da Educação Infantil, a IP corresponde a um conjunto de
tecnologias políticas que investem na regulação das populações através
dos processos de controle e normalização, objetivando controlar e
produzir “infância” (PAIVA; CARRIJO, 2005, p. 306). Essa criança
produzida pela infância atual provém de formas de controle e avaliação
contínuos. Adicionados ao controle constante encontra-se a ação da
formação permanente sobre a escola, o regime de abandono às pesquisas
e a introdução do caráter empresarial em todos os níveis de escolaridade
(DELEUZE, 1992, p. 225). Isso demonstra que, “assim como a empresa
substitui a fábrica, a formação permanente tende a substituir a escola,
e o controle contínuo substitui o exame. Este é o meio mais garantido
de entregar a escola à empresa”. Observa-se que existe harmonia entre
os métodos escolares e os objetivos empresariais, produzindo
ressonâncias o fato de que a estruturação da escola está ligada à
produção de uma infância engajada nos ditames do capitalismo, com
suas inovações que o caracterizam agora como empresarial e volátil,
voltado para a sociedade de controle.
Outra característica a se destacar no surgimento das sociedades de
controle é sua plasticidade. Tal processo de flexibilização se expressa
em “nunca se termina nada, a empresa, a formação, o serviço sendo os
estados metaestáveis e coexistentes de uma mesma modulação, como
que de um deformador universal” (DELEUZE, 1992, p. 221). Nota-se
que a IP, através do controle das circunstâncias às quais estão entregues
os sujeitos menores de seis anos, poderia modelar/orientar a
subjetividade dessas crianças, com a meta de integrá-las ao novo tipo
de controle social. Fazendo-as respirar precocemente os vapores da
sociedade em ascensão, torna-se provável o surgimento de um tipo
padrão de novos homens, com suas subjetividades construídas
empiricamente pelas circunstâncias disponíveis, do “... homem do
controle... ondulatório, funcionando em órbita, num feixe contínuo”
(DELEUZE, 1992, p. 222).
Relacionar as características desse novo homem com os novos
formatos do capitalismo e da escolarização é possível. Através da
82 ESTUDO SOBRE A SOCIEDADE DISCIPLINAR NO PENSAMENTO ...
formação continuada, o sujeito estará sempre vagando ao redor de
uma órbita, como um satélite que gira continuamente ao redor de um
planeta próximo cujo magnetismo é mais forte. Esse feixe contínuo de
conexão do indivíduo à fonte do controle pode demonstrar como pré-
determinada estará a sua trajetória. Sua movimentação dá-se de um
modo que é desnecessário conter ou vigiar, é suficiente deixar que se
cumpra o caminho estabelecido, numa órbita de movimentos
padronizados que poderão configurar um novo tipo de dominação, a
subjetiva.
Estaríamos testemunhando o fim do confinamento no interior –
indivíduos trancados em ambientes vigiados e disciplinados – para o
princípio de um confinamento do interior – no qual, independentemente
do lugar que o ser se encontre, seu eu subjetivo estará devidamente
capturado desde a infância? Mesmo gozando de livre movimentação
exterior, a nova estratégia vencedora do poder parece consistir-se em
controle contínuo através de um feixe de conexão cujas bases seriam
lançadas nos primeiros anos de vida pela atuação da IP. Supondo isto
ser verdadeiro, o controle possui alcance maior que a disciplina e a IP
pretende proporcionar um encaixe sem sobras do sujeito infantil dentro
da sociedade. Ao longo do tempo, de acordo com a evolução da
disciplina para o controle, pode-se antever o surgimento das
possibilidades de dominação mais radicais. “Pode ser que meios antigos,
tomados de empréstimo às antigas sociedades de soberania, retornem
à cena, mas devidamente adaptados. O que conta é que estamos no
início de alguma coisa” (DELEUZE, 1992, p. 225). Seria o início da era
de escravidão subjetiva?
Podemos destacar que se a sociedade disciplinar regularizava a
rotina das pessoas, a sociedade de controle regularizaria, pois, as pessoas
para a rotina, desde os seus primeiros anos de vida. Enquanto a disciplina
restringia o dia-a-dia dos indivíduos, enclausurando, disciplinando e
mediando suas relações, a sociedade de controle cria um novo tipo de
modelagem que ocorre antes das exigências do cotidiano. Pode ser
estarrecedor verificar que os sujeitos são entalhados desde cedo para a
rotina, para se tornarem portadores de uma subjetividade suscetível ao
gás-controle, capaz este de penetrar em todos os lugares, arregimentando
seus súditos para as funções cujos produtos culminarão em metas
capitalistas.
Da disciplina para o controle, a sociedade precisava ser preparada
para receber a mudança de paradigma, sem provocar choques
83Vivian de Jesus Correia e Silva
motivadores de reações, capazes de abalar a implantação dos novos
objetivos de controle social. Sendo assim, estaria a IP visando à
padronização dos interesses e a normalização das ações das crianças
para a ascensão e estabelecimento da sociedade de controle? O papel
da escola continua fundamental para a organização da sociedade.
Veiga-Neto mostra a profundidade do processo de escolarização,
ao destacar que “[...] a escola é, depois da família (mas, muitas vezes,
antes dessa), a instituição de seqüestro pela qual, todos passam (ou
deveriam passar...) o maior tempo de suas vidas, no período da infância
e da juventude” (VEIGA-NETO, 2005, p. 85).
O projeto educacional da Modernidade baseou-se no afastamento
entre o homem e a natureza, alegando que o processo civilizador se
daria ao seguir novas pautas de conduta. Essas novas pautas de conduta
funcionavam segundo a imagem idealizada de um homem extremamente
diferenciado dos animais, tendo em vista que, ao negar seu lado
selvagem, caótico, afetivo, o indivíduo estaria se aproximando
lentamente de um estado de nobreza e superioridade racional.
Do mesmo modo, o indivíduo cuja rotina funcionasse distanciada
das regras de conduta definidas pela elite social como verdadeiras deveria
ser classificado como desviante e, ou seria excluído dos benefícios da
integração social, ou seria capturado pelas instituições filantrópicas ou
educacionais para aprender o jeito certo de se viver, de se apreender o
mundo, de se relacionar com os outros seres. A noção moderna de
infância foi apropriada pelas instituições sociais e esteve associada à
produção de novos modos de educação com foco na institucionalização
das crianças da mais tenra idade. “A educação significa [...] a produção
de uma racionalidade de um certo tipo – a Moderna – e a Educação
Infantil não escapa a este projeto” (BUJES, 2002, p. 61). Assim, o ser
submetido ao processo civilizador obrigatório desde a infância
corresponderia mais eficazmente à ideia moderna de homem que, se
bem educado, seria capaz de controlar-se, de mostrar-se indiferente e
até oposto às urgências desejantes. Como já foi discutido, o período de
escolarização transcorre com maior intensidade e vigilância justamente
nos anos de formação das bases da personalidade, nos anos de infância
e juventude.
Tais diretrizes escolares consistem na constante afirmação: “O sujeito
da educação aprende a ser livre pelo acatamento de limites e das leis
sociais” (BUJES, 2002, p. 52). Sendo assim, se o grupo social privilegiado
que estabelece as leis sociais não deseja o fim do capitalismo – tendo
84 ESTUDO SOBRE A SOCIEDADE DISCIPLINAR NO PENSAMENTO ...
em vista que tal sistema de organização os favorece amplamente dentro
da sociedade – faz sentido pensar que essas referências utilizam-se da
Pedagogia como justificativa científica para que suas abordagens
cheguem às crianças com o poder de verdades absolutas. Com o tempo,
essas referências podem passar a se construir como irrefutáveis devido
ao momento de base em que aparecem na vida dos indivíduos, no caso
do presente estudo, aosmenores de seis anos em situação escolar.
Para um adulto reagir à intrincada rede de poder pré-estabelecida
já é difícil, imagina-se o quão complicado essa tarefa pode ser para
uma criança que cresce dentro dessa lógica, modelada por relações de
poder profundamente arraigadas. Nessa perspectiva, como um adulto
que passou pelo processo de IP, durante a infância, pode reunir condições
subjetivas para contestar práticas pedagógicas, se elas possuem o caráter
de inquestionabilidade das estratégias vencedoras e se são amplamente
divulgadas como desejáveis?
Guattari questiona como evitar que as crianças se prendam às
semióticas dominantes ao ponto de perderem muito cedo toda e qualquer
verdadeira liberdade de expressão (GUATTARI, p. 50, 1987). Ele entende
que o processo de escolarização é responsável por limitar a criatividade
infantil, assim como acredita que está nas mãos dos funcionários das
instituições de ensino mudar essas relações de poder para não deixar
que a criança seja tão intensamente modelada pelos discursos
cristalizados. “Hoje, no seio das creches e das escolas, alguns
trabalhadores estão em posição de lutar contra esses sistemas de
integração e de alienação” (GUATTARI, 1987, p. 54). Isso indica que o
papel dos educadores das creches que constituem a IP vai muito além
de cumprir o Referencial Curricular Nacional, mostrando a abrangência
de suas ações.
O governo das crianças, exercido desde os primeiros meses, começou
com a Revolução Industrial, século XVIII, consolidando novos arranjos
familiares e novas exigências às mulheres trabalhadoras, que foram
afastadas progressiva e drasticamente do contato com seus filhos (BUJES,
2002, p. 61).
Para Bujes, fenômenos associados à infância são manipulados com
o objetivo de governar as ações das crianças, sendo o surgimento das
instituições de Educação Infantil vinculado a uma aliança entre diferentes
instâncias de instituições sociais (Revista Educação e Filosofia, p. 306).
A educação infantil, tratada por IP no presente capítulo, faz parte de
um conjunto de tecnologias políticas caracterizadas por investir na
85Vivian de Jesus Correia e Silva
regulação das populações, através de processos de controle e de
normalização. Isso traz à luz outro fato inquietante, cuja intencionalidade
cabe apontar, que é o arbitrário direcionamento de pesquisas sobre
infância: em sua maioria, estão limitadas às descrições nas teorias de
Psicologia do Desenvolvimento, excluindo-se o aspecto de construção
social e de foco dos discursos constitutivos e das tecnologias de poder
neles contidas (BUJES, 2002, p. 26).
Deve-se também discutir possibilidades de usar a escola de modos
diferentes, indo além da propagação da ideologia dominante, usando
essa mega-estrutura educacional - já feita com a intenção de aprisionar
- como uma ferramenta, um meio de articulação do novo, para libertar.
“A luta pela polivocidade da expressão semiótica da criança nos parece
ser um objetivo essencial dessa micropolítica ao nível da creche” e, em
vista disso, entende-se que é possível contribuir na preservação das
manifestações desejantes que povoam o início da vida dos seres humanos.
Este pode ser um passo decisivo para que os mesmos não se tornem
adultos cujos fluxos desejantes se movimentem somente conectados aos
objetivos do capitalismo (GUATTARI, p. 54, 1987).
A antiga concepção dominante de ordem social implicava uma
definição de desejo (das formações coletivas de desejo) como um fluxo
a ser disciplinado, de modo que se pudesse instituir uma lei para
estabelecer seu controle (GUATTARI; ROLNIK, 2000, p. 217). Uma vez
estabelecida tal lei, o desejo estaria disciplinado. Porém, com a mudança
da sociedade disciplinar para a sociedade de controle, domar o desejo
somente após sua manifestação se mostrou insuficiente para o novo
formato do capitalismo. O ensino obrigatório a partir dos seis anos
pedia um complemento prévio. Seria necessário controlar inclusive o
nascimento dos fluxos desejantes, limitando sua aparição ao mínimo
imprescindível para iniciar a constituição da subjetividade verticalmente
determinada.
Entendemos que o desejo aprisionado pelo enclausuramento da
disciplina pode um dia se libertar e agir. Já o desejo conectado
precocemente a um feixe contínuo de dominação dificilmente sairá
provocando grandes reações, tendo em vista que não terá forças
suficientes para desvincular-se e ousar por trajetórias muito
diversificadas, depois de passar anos ligado a uma órbita previsível,
justamente os anos primordiais, os de base para o desenvolvimento da
subjetividade na qual se estruturaria sua identidade futura, remetendo
novamente ao processo de escolarização.
86 ESTUDO SOBRE A SOCIEDADE DISCIPLINAR NO PENSAMENTO ...
O estudo dos objetivos e meios de ação da IP pode significar uma
forma de análise ao que foi feito com os indivíduos na sociedade
disciplinar e uma projeção sobre o que poderá se realizar na sociedade
de controle. Este estudo pode constituir uma possibilidade de reação à
ascensão da sociedade de controle e seus planos para a subjetivação
contemporânea. Guattari diz que é necessário afrontar tanto os meios
materiais coercitivos quanto microscópicos meios de disciplinarização
dos pensamentos e dos afetos, de militarização das relações humanas
(GUATTARI, 1987, p. 138). A afronta pode ser considerada como um
aspecto de reação para transformar/inovar e poderia ser feita ao se
desvendar os meios e fins da sociedade de controle, com seu capitalismo
empresarial, volátil e flutuante. “Não cabe temer ou esperar, mas buscar
novas armas”, enfatiza Deleuze (2000, p. 220).
Para Deleuze e Guattari, “o desejo faz constantemente a ligação de
fluxos contínuos e de objectos parciais” (DELEUZE; GUATTARI, 1966,
p. 11). Dentro dessa ideia podemos entender que, se há possibilidade
de restringir a fluência dos fluxos desejantes a determinados tipos de
conexões, como, por exemplo, através do controle das circunstâncias
provocadas pela IP, com suas diretrizes produtoras de um tipo pré-
determinado de infância, também é possível a conexão do desejo com o
seu entorno, formando uma subjetividade mais ampliada. O resultado
do procedimento da escolarização precoce seria a manutenção de um
certo padrão subjetivo, o que retoma as estratégias de modelagem da
subjetividade já problematizadas.
Entretanto, na ausência ou modificação desse processo educacional
na vida do sujeito, seus fluxos desejantes teriam grandes possibilidades
de escapar ao padrão. Esse padrão, para Guattari, corresponderia à
demanda da ordem social capitalista porque “o capitalismo pretende
se apoderar das cargas de desejo que a espécie humana traz em si”
(GUATTARI, 1987, p. 206). O domínio dessas cargas de desejo
aparentemente pode contribuir para a manutenção do capitalismo.
Portanto, o quanto antes o desejo for direcionado, melhor integrado o
sujeito poderá estar ao papel social que dele se espera.
Podemos supor que, em contrapartida, quanto mais linhas de fluência
o desejo puder seguir, mais ampla e diversificada será a subjetividade e
identidade do adulto resultado desse processo de conexão criativa com
seu entorno, integrando uma contracorrente social. Ressaltamos que a
modelagem dos fluxos proporcionada pela IP age em oposição ao fluxo
criativo da criança, pois aprisiona os sujeitos em uma existência de
87Vivian de Jesus Correia e Silva
subordinação subjetiva, de maneira estereotipada, duradoura, controlada
precocemente por relações de poder.
De acordo com os argumentos apresentados, é preciso/necessário
formatar as subjetividades através da IP para o estabelecimento da
sociedade de controle. Porém, indagamos: será que o processo de
modelagem subjetiva é tão preciso/exato?
Existem vários pontos de vista sobre a infância, cada qual fomentando
estratégias e ações incisivas na rotina das crianças. Por exemplo, se
[...] a proposição de leis e a institucionalização cada vez mais precoce
das experiências de Educação Infantil também vão servir para
questionar aquilo que é visto como ameaças que estas sofrem a
partirde outros lugares sociais [...] (BUJES, 2002, p. 26).
Pode-se entender que essas ameaças, colocadas como perigos em
potencial para as crianças, fazem com que elas sejam tratadas pela
educação como objetos de proteção. Isso denota outro ponto de vista
em relação às mesmas, justamente porque “[...] esta criança que passa
a ter características e sensibilidades próprias é vista também como [...]
desafio, risco [...]” (BUJES, 2002, p. 48). Ou seja, a criança é um ser
paradoxal: é dita frágil, mas ao mesmo tempo ameaça a ordem social
com a diversidade subjetiva da qual nasce portadora. Assim, o objetivo
da Educação, com suas ações e seu cientificismo pedagógico vinculados
ao capitalismo, segue im-preciso diante da ameaça de inovação subjetiva
simbolizada pela criança, com sua marcante expressividade de desejos,
demonstrando a velocidade das reações de fuga dos fluxos desejantes
ao mais minucioso controle. Tal fato é demonstrado pela constante
intensificação da atenção dada aos menores de seis anos, não apenas
para preservar-lhes a vida, mas para coordenar-lhes a rotina. Apesar
de limitada e dificultada para as crianças menores de seis anos, a
posterior singularização da subjetividade ou desenvolvimento da
autonomia desejante ainda ocorre, justificando a constante articulação
de diretrizes da Educação Infantil com as metas do capitalismo
empresarial.
É certo que a formatação e padronização subjetivas são importantes
para a sociedade de controle, contudo é preciso afirmar que não
conseguem a precisão cirúrgica para acabar com a criatividade;
conseguem embotá-la, adiá-la, limitá-la, mas ela ainda pode escapar e
se expressar. Nota-se que o modo pelo qual os indivíduos vivem essa
88 ESTUDO SOBRE A SOCIEDADE DISCIPLINAR NO PENSAMENTO ...
subjetividade oscila entre dois polos: uma relação de alienação e opressão
na qual o indivíduo simplesmente se submete à subjetividade
padronizada tal como a recebe e uma relação de expressão e de criação,
na qual ele se reapropria dos componentes da subjetividade, produzindo
seu processo de singularização (GUATTARI; ROLNIK, 2000, p. 33).
Por conseguinte, o processo de formatação/modelagem que prepara o
sujeito para viver sob controle é muito preciso, mas não a ponto de impedir
escapes e singularizações; ele restringe, tenta finalizar o movimento
desejante, mas não consegue. Isso acontece porque os mecanismos de
controle não acompanham a velocidade dos fluxos de desejo, que são
sempre linhas de fuga mais rápidas que o mais instantâneo dos controles.
Orlandi ressalta que, apesar disso, existem os mais imprevisíveis jogos
entre o liberar e o controlar, sendo possível até encontrar dispositivos de
controle mobilizados em lutas destinadas à liberação de forças (ORLANDI,
2005, p. 235). Assim, a IP, com sua proposta de escolarização que interpreta,
nomeia e coordena a rotina das crianças com o objetivo de protegê-las e
inseri-las na sociedade, pode realmente cumprir seu papel com sucesso,
mas cabe-nos questionar esse tipo de cidadão formado diariamente pelas
estratégias educacionais. Esse questionamento possibilita a articulação de
novas formas de reações ao domínio social capitalista, observando a estreita
ligação entre os processos educacionais, os subjetivos e os de reestruturações
sociais ao longo da história.
Assim sendo, apesar de não ser infalível, não se deve desconsiderar
que o alcance do poder é extremo porque atua prioritariamente através
da educação de massa, elaborada com suas estratégias pedagógicas,
distribuída em larga escala e obrigatória durante os anos de crescimento
do indivíduo, como já colocado. Isso se traduz através de Guattari, que
atribui às abordagens da Educação Infantil a meta de “extirpar da
criança, o mais cedo possível, sua capacidade específica de expressão e
em adaptá-la, o mais cedo possível, aos valores, significações e
comportamentos dominantes” (GUATTARI, 1987, p. 53).
Considerações Finais
De acordo com os argumentos apresentados, podemos perceber que
a transição da sociedade disciplinar para a sociedade de controle está
repleta de caracteres merecedores de estudo, pois afeta diretamente a
formação subjetiva dos indivíduos, principalmente as crianças menores
de seis anos, atendidas pela IP.
89Vivian de Jesus Correia e Silva
Inicialmente, analisamos a sociedade disciplinar com suas
estratégias específicas de enclausuramento e disciplinarização, visando
a extrair com sucesso as forças individuais para a produção. Percebemos
que, para a concretização de seus objetivos, a sociedade disciplinar
contou com uma interessante aliada, a Pedagogia. Através do processo
de justificação científico-pedagógica intercedendo para a intensificação
da educação obrigatória, as estratégias escolares trabalharam em favor
das indústrias, preparando as crianças para tal mercado de trabalho.
Na atualidade, percebe-se novamente a escola agindo como
formadora de alianças com os paradigmas sociais, ao invés de cumprir
com as metas oficiais de promoção do desenvolvimento de seres
humanos. Fato marcante foi evidenciado por Bujes, sobre o RCN –
Referencial Curricular Nacional –, quando propõe uma linguagem
associada à liberdade e à autonomia, mas que é utilizada para regular
argumentos que dizem respeito aos meios e aos fins legítimos pelos
quais se subjuga a infância (BUJES, 2002, p. 179).
Com a decadência da sociedade disciplinar, a escola ganha um
novo formato de atuação na vida infantil para atender às demandas da
sociedade de controle. Agora a escolarização aparece cada vez mais
cedo na existência dos indivíduos, devido à meta de subjetivação das
crianças, facilitada pela consolidação da mulher-mãe e do homem-pai
no mercado de trabalho com jornadas incompatíveis às necessidades
de cuidado e vínculo com as crianças, fato este que precarizou a
convivência familiar. A Educação Infantil é divulgada como uma
necessidade ao desenvolvimento dos menores de seis anos e como –
especificamente no caso da IP – a resposta a um direito universal das
próprias crianças: “[...] ela é um direito [...] de todas as crianças, e
não apenas dos filhos das trabalhadoras” (CAMPOS, 1999 in BUJES,
2002, p. 59). Entretanto, as expressões da IP recuperam novamente a
tática de preparar as crianças para o novo mercado, reconhecendo-lhes
apenas esse direito de integração social ao capitalismo empresarial,
em detrimento de todas as outras necessidades infantis.
No alcance ou não de seus projetos, de seu desenvolvimento, de sua
expressão criativa, percebe-se que no mundo contemporâneo existe uma
intensificação no domínio e modelagem das subjetividades e posterior
conexão a um processo identitário artificial e complexo. Essa identidade
difere daquela aprendida anteriormente na convivência familiar, tendo
em vista que “[...] a criança deixou de ser misturada aos adultos e de
aprender a vida diretamente, através do contato com eles [...] a criança
90 ESTUDO SOBRE A SOCIEDADE DISCIPLINAR NO PENSAMENTO ...
foi separada dos adultos e mantida à distância [...]” (ARIÈS, 1981, in
BUJES, 2002, p. 58). Podemos perguntar o porquê da transição da
convivência familiar para a formação escolar. Uma das respostas pode
consistir em usurpar dos adultos a possibilidade de enxergar na
convivência com as crianças outras possibilidades de existência além
daquela que lhes foi inculcada artificialmente. Observando que uma
das maiores justificativas para a intervenção na infância é o fato de se
atribuir a esse período o caráter de fragilidade e desorganização, atua-
se nele com a autoridade de que esse suposto desajustamento infantil
deve ser administrado o mais precocemente possível.
O que aparece na intensidade da relação entre o capitalismo e a
escola são relações de saber e de poder, que subjetivam as crianças
através do controle de suas rotinas e da limitação drástica do tempo de
convivência das mesmas com os adultos que estão fora da IP, como
aqueles que não estão engajados nas diretrizes do processo educacional.
O achatamento da expressão desejante, feito pelo direcionamento
constante dos fluxos,aparece como estratégia para subjetivação e criação
da nova infância, cujo objetivo parece ser a produção de adultos
plenamente adaptados ao funcionamento da sociedade de controle e
desligados de outras possibilidades, desconectados de muitas de suas
necessidades. Segundo Orlandi, precisamos considerar o tipo de
combinação de forças que caracterizam a potência máxima atingida
pelos processos de saber, poder e subjetivação (ORLANDI, 2005, p. 222).
O tipo de combinação de forças em questão remete à fluidez incontrolável
dos fluxos financeiros do capitalismo empresarial, lutando
constantemente com os fluxos desejantes com suas resistências e linhas
de fuga (ORLANDI, 2005, p. 233). Devido à sua flexibilidade, esses
fluxos do capitalismo provocam constantes embates com os fluxos
desejantes. Nesse sentido, é importante perguntarmos: será que as linhas
de fuga dos fluxos desejantes infantis esbarram na potência máxima do
capitalismo empresarial e escapam ou será que muitos deles já
encontraram seu limite de reação dentro do processo de subjetivação
precoce?
Sobre os escapes e singularizações, pode-se entender que,
simultaneamente ao processo de massificação em larga escala da IP,
coexistem micro processos de reação ao controle, inclusive através da
tática educacional que se mostrou sua principal ferramenta. Guattari e
Rolnik observam que pessoas foram capazes de experimentar, com
seriedade, outros métodos educacionais desmontando a mecânica
91Vivian de Jesus Correia e Silva
imposta com a implantação de um tipo diferente de abordagem, capaz
de preservar a riqueza de sensibilidade e de expressão própria da criança
(GUATTARI; ROLNIK, 2000, p. 54). Isso mostra que é possível modificar
os rumos da Educação Infantil.
Podemos evitar tanto a manutenção de uma sociedade de sujeitos
disciplinados quanto a construção de uma sociedade com indivíduos
controlados. “O indivíduo disciplinado é aquele que não só tem a sua
liberdade mais limitada, como ainda e principalmente, é aquele que
passa a dar respostas mais homogêneas, mais padronizadas e mais
automáticas” (VEIGA-NETO, 1996, in BUJES, 2002, p. 145). Já o
indivíduo controlado seria aquele cuja liberdade de movimentação é
proporcional à órbita na qual está conectado, ou seja, é o alvo da
observação e da avaliação permanentes, expresso em “[...] apontar
para a onipresença da observação como instrumento de uma avaliação
permanente que é aplicada sobre as crianças” (BUJES, 2002, p. 130-
131). Nesse caso, o indivíduo passa a direcionar-se, a ser sujeito da
própria vigilância para o alcance das metas de uma avaliação que não
acaba, é um gerente trabalhando em prol de objetivos cuja origem ele
pode ignorar, constituindo um modo de se inibir e restringir ações
criativas.
Outro ponto a destacar é a constante intensificação do domínio da
infância na sociedade de controle, como alerta Varela, ao afirmar que,
[...] como por ironia, esta criança foi vigiada e controlada muito
mais do que nas velhas pedagogias, porque não apenas se requeriam
dela as respostas corretas, mas também agora era necessário que o
verdadeiro mecanismo do desenvolvimento mesmo fosse
controlado. (VARELA, 1995, in BUJES, 2002, p. 70).
Isso culmina no raciocínio de que um reflexo dessa intensificação é
claro ao se constatar que, na sociedade disciplinar, o alcance das
estratégias de poder era menos amplo que o atual. Consideramos que a
IP colabora para que a sociedade de controle concretize sua hegemonia,
todavia também pode ocorrer, através daquela, a articulação de outros
modos de organização social.
Assim, Pedro, João ou Tiago, do poema de Pablo Neruda, podem
ser informados desde cedo de que estão tentando roubar-lhes algo valioso,
íntimo, intransferível, único, entretanto deformável e amputável, de
acordo com as circunstâncias. Somente quando os adultos aceitarem o
papel de aliados das crianças em suas necessidades mais puras e
92 ESTUDO SOBRE A SOCIEDADE DISCIPLINAR NO PENSAMENTO ...
verdadeiras, ao invés de combatê-las ferozmente, demonstrarão uma
leitura de mundo mais ampla e saberão informá-las das formas de
dominação da contemporaneidade. Com essa aceitação da criança,
constatação da realidade, os adultos poderão construir novos papéis.
Terão a chance de funcionar como facilitadores da infância, articulando
as crianças para construírem-se como seres atuantes; assim, desde a
mais tenra idade, poderão reagir às tentativas de expropriação. Mas,
tudo isso, antes que não tenham mais condições de reconhecer a captura
de sua singularidade.
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VERMELHO como o Céu. Direção: Cristiano Bortone, Itália, 2006.
6
Por que ainda acreditar na escola:
uma busca pela transformação das
relações pedagógicas através da
estética da existência e da amizade
O novo não está no que é dito, mas no acontecimento de
sua volta. (FOUCAULT, 2005, p. 26).
Gostaríamos, em primeiro lugar, de explicitar aos leitores como
surgiu o estudo que, em parte, será apresentado a seguir. Este trabalho
teve início em 2006, numa primeira fase de investigações acerca da
escola contemporânea. Com o auxílio do professor Hélio Rebello Cardoso
Júnior, realizamos as primeiras leituras para delinear quais seriam as
questões a serem discutidas dentro de um assunto tão amplo e complexo.
Esse diálogo possibilitou, por conseguinte, um encontro que nos parece
de suma importância, entre os saberes da Psicologia, da História e da
Filosofia, o que ampliou nossos horizontes de discussão sobre a escola
enquanto instituição e lugar de relações entre colegas, profissionais,
professores e alunos. Além disso, tal encontro se concretizou, sobretudo
na escolha de nosso referencial teórico, a saber, a obra de Michel
Foucault, onde tais linhas de saberes se cruzam e se complementam na
releitura de nossa contemporaneidade.Em confluência aos estudos teóricos, uma proposta desenvolvida
como parte das atividades de estágio curricular do curso de Psicologia
nos permitiu elaborar um trabalho de campo numa escola de Ensino
Fundamental, em Assis/SP. Tal empreitada foi desenvolvida em
companhia de meu parceiro de curso Thiago Canonenco Naldinho, que,
LUCILLA PANACIONI DE ARAÚJO
96 POR QUE AINDA ACREDITAR NA ESCOLA: UMA BUSCA PELA ...
assim como o professor Hélio, também contribui para este livro.
Portanto, é importante esclarecer que é devido a essas parcerias na
orientação e nos trabalhos práticos que foi possível aprofundar-me nos
temas aqui desenvolvidos, e é nesse sentido que o texto falará, referindo-
se a essa coletividade que o forma e não apenas a mim, que dou palavras
à pesquisa.
Seguindo adiante em nosso trajeto, o trabalho propunha acompanhar
semanalmente, durante o ano letivo de 2006, as atividades cotidianas
dessa escola. Após os primeiros meses de observação e diálogo, durante
as aulas, as reuniões de professores e os intervalos, ficou claro para nós
o modo como a representação do “saber psicológico” se configura no
imaginário coletivo: como uma ferramenta de coerção e de
disciplinamento, aspecto que Foucault pontuara em sua obra e que
confirmamos na prática. A que se deve, porém, essa construção coletiva?
Vejamos.
As disciplinas, que surgem e se disseminam entre os séculos XVII e
XVIII (cf. FOUCAULT, 2004, p.118), representam um poder que age
sobre os corpos individualmente e se encontra instalado e desenvolvido
principalmente nas instituições, onde tem como função esquadrinhar e
aumentar a força dos corpos através de um controle detalhado, exercícios
e treinamentos constantes; a intenção é mantê-los como máquinas,
sempre produzindo através do exercício de uma coerção sem folga.
Porém, nos séculos seguintes a esse período, contingências históricas e
sociais vão agregando às disciplinas outro tipo de poder, que trabalhará
junto à primeira, atuando em outro nível e utilizando instrumentos
diferentes da primeira, de modo a aumentar o campo de atuação do
corpo individual para a população. A articulação entre o poder
disciplinar e o poder regulamentador por meio da norma é o que Foucault
chama de biopoder.
Este bio-poder, sem a menor dúvida, foi elemento indispensável ao
desenvolvimento do capitalismo, que só pôde ser garantido à custa
da inserção controlada dos corpos no aparelho de produção e por
meio de um ajustamento dos fenômenos de população aos processos
econômicos. [...] se o desenvolvimento de grandes aparelhos de
Estado, como instituições de poder, garantiu a manutenção das
relações de produção, de poder, os rudimentos de anátomo e bio-
política, inventados no século XVIII como técnicas de poder
presentes em todos os níveis do corpo social e utilizadas por
instituições bem diversas [...], agiram no nível dos processos
97Lucilla Panacioni de Araújo
econômicos, do seu desenrolar, das forças que estão em ação em
tais processos e os sustentam; operaram, também, como fatores de
segregação e de hierarquização social, agindo sobre as forças
respectivas tanto de uns como de outros, garantindo relações de
dominação e efeitos de hegemonia; o ajustamento da acumulação
dos homens à do capital, a articulação do crescimento dos grupos
humanos à expansão das forças produtivas e a repartição
diferencial do lucro, foram, em parte, tornados possíveis pelo
exercício do bio-poder com suas formas e procedimentos múltiplos.
O investimento sobre o corpo vivo, sua valorização e a gestão
distributiva de suas forças foram indispensáveis naquele momento.
(FOUCAULT, 2005, p. 133).
É em decorrência desse cenário que a estatística torna-se tão
importante para gerir as populações, encontrando nelas as suas
regularidades e seus desvios, manipulando a massa através dos saberes
científicos que se desenvolveram largamente no período, dentre os quais
se destaca a medicina e a psicologia no estudo daquilo que subtrai as
forças do corpo, diminui a produtividade e gera custos de tratamento:
as endemias, acidentes, anomalias, distúrbios, enfermidades de toda
espécie, a velhice.
Assim sendo, os saberes passam a dialogar entre si, sendo que agora
as instituições intercambiam suas práticas aumentando em muito seu
poder de ação.
Pode-se observar esse diálogo na escola brasileira contemporânea
ao perceber que, mesmo ela tendo mantido os recursos disciplinares –
cuja utilidade e eficácia atravessam os séculos – foi preciso criar novos
meios de manipular as subjetividades, valendo-se das novas tecnologias
à disposição, como as parcerias feitas entre essas instituições e a rede
de saúde, o que tem ampliado significativamente a demanda por
diagnósticos médicos e psicológicos, no mesmo ritmo em que se expande
a gama de distúrbios e transtornos possíveis de se encontrar na infância.
Vemos, portanto, como o discurso psicológico ampliou sua atuação na
sociedade como um mecanismo regulador, e levou os indivíduos a
reconhecerem-na como um aparato coercitivo e reafirmador das
hierarquias de conhecimento do eu.
Não pretendemos, contudo, nos opor integralmente a tais práticas,
mas chamar a atenção para o uso que é feito dos diagnósticos que
atualmente são requeridos pelos pais e, muitas vezes, pela própria escola.
A intenção, ao contrário, é de criar espaço para se repensar a necessidade
98 POR QUE AINDA ACREDITAR NA ESCOLA: UMA BUSCA PELA ...
da psicologização e da medicalização da educação e questionar com
que intenção tais diagnósticos são solicitados. Em 2006, pesquisas
mostraram que 10 em cada 35 alunos das classes de Ensino Fundamental
de escolas públicas são encaminhados para algum tipo de terapia,
quando apenas duas ou três dentre essas dez apresentam de fato algum
tipo de transtorno (cf. BARROS; HARTT, 2006, p. 36-43). Tais fatos
sinalizam, portanto, que a detenção de discursos especializados, com
ênfase nos “psi”, é fator importante no desenvolvimento histórico de
uma nova tecnologia do poder individualizante (cf. FOUCAULT, 2004,
p.161).
Sabe-se que a educação, embora seja, de direito, o instrumento
graças ao qual todo indivíduo, em uma sociedade como a nossa,
pode ter acesso a qualquer tipo de discurso, segue, em sua
distribuição, no que permite e no que impede, as linhas que estão
marcadas pela distância, pelas oposições e lutas sociais. Todo sistema
de educação é uma maneira política de manter ou de modificar a
apropriação dos discursos, com os saberes e os poderes que eles
trazem consigo. (FOUCAULT, 2005, p. 43, 44).
Portanto, entre essa representação imaginária da Psicologia da qual
tentávamos escapar e o papel que efetivamente pretendíamos ocupar
ali enquanto supostos detentores desse discurso, procuramos espaço
para ampliar as visões daquilo que é possível entre a Educação e a
Psicologia: sugerimos aos professores um espaço para discussão das
práticas e das relações, tanto da Pedagogia quanto da Psicologia e,
principalmente, da prática e da relação de ser professor; tendo como
perspectiva, nesse contexto, uma Psicologia histórico-crítica, voltada
para a análise social dos processos de subjetivação do sujeito e das
linhas que atravessam esse processo.
Nosso ambiente de discussão, entretanto, nos revelou muitas outras
dimensões de nossa contemporaneidade, para além das fronteiras a
que imagináramos nos aventurar. Foi necessário, para tanto, expandir
as perspectivas que nos guiavam até então. A realidade que se nos
apresentou indicou para a insuficiência das tecnologias disponíveis,
como aquelas da própria Pedagogia ou das ciências que a auxiliam, o
que se traduz na tão aclamada crise na Educação.
Os educadores de Ensino Fundamental com os quais tivemos contato
apontaram justamente a mídia como uma das razões para justificar a
crise do ensino escolarizado, e se diziam incapazes de “competir” com
99Lucilla Panacioni de Araújo
essa nova realidade para atrair a atenção das crianças, devido ao fluxo
acelerado com que as informações chegam até elas através da TV, internet
etc. Além disso, é comum reclamarem a perda de autoridadeem sala
de aula, outro motivo que, de seus pontos de vista, acarreta tal crise.
Os principais aspectos problemáticos colhidos a partir dessa
experiência fazem coro ao que especialistas já vêm discutindo1. A perda
da autoridade, por parte dos professores, e a perda de interesse, por
parte dos alunos, apontam para um duplo constrangimento: de um
lado, educadores que consideram seu valor profissional diminuído em
função da velocidade e da dinâmica dos meios de informação atuais;
queixam-se da perda de autoridade e da validade de suas técnicas,
visto que não são mais autorizadas a aplicar castigos físicos ou morais2
aos alunos. Reclamam do desamparo e despreparo para lidar com a
multiplicidade; ora acusam a família do aluno por apresentar
configurações estruturais diversas daquela ainda considerada tradicional;
ora denunciam o abandono da responsabilidade dos pais, que estariam
delegando à escola a incumbência de educar seus filhos; ora transferem
o encargo desses problemas para uma série de dificuldades psíquicas
que impediriam os alunos de aprender.
Por outro lado, as crianças se baseiam em um novo sentido atribuído
à palavra liberdade3, que traduz muitas vezes apenas o “eu quero”
individualizado, e se comportam o tempo todo como consumidores
dispostos a absorver tão somente o que lhes parecer interessante – e
elas não costumam considerar interessante permanecer sentadas, quietas,
a ouvir conceitos que a seu ver não possuem utilidade prática em sua
realidade.
Tais queixas dos professores, sobre uma instituição que não consegue
concorrer com os meios de comunicação com os quais as crianças
convivem diariamente, nem com a subjetividade “sem limites”, “sem
moral”, “sem estrutura familiar” de seus alunos, traduzem a inocuidade
1. Entre outras referências, ver: AQUINO, 2000, 2003; FRANÇA, 1996, 1999.
2. Devemos ressaltar que é notável o modo como os castigos físicos e humilhações morais são
ainda presentes nas memórias escolares das educadoras, de quando eram alunas, e como
elas afirmam a eficácia de tais métodos para o próprio disciplinamento, apesar de associarem
também a lembrança de forte sentimento de constrangimento.
3. Devemos lembrar que uma das novas táticas do poder “é a maximização da liberdade
individual. Não importa que se diga que essa maximização só se dá como uma realidade
construída discursivamente, pois se ela existe no discurso, ela está no mundo. O que importa,
então, é que esses discursos produzem resultados, de modo que cada um pense que é livre
para fazer suas escolhas” (VEIGA-NETO, 2000, p. 199).
100 POR QUE AINDA ACREDITAR NA ESCOLA: UMA BUSCA PELA ...
contemporânea ao modo de ensinar e aprender através da dominação/
submissão. Relegados a essa nova condição, é notável o sentimento de
desvalorização e de desmotivação dos mestres.
Todavia, nesse caso, é claro que diagnósticos e medicamentos não
poderiam curar essas “patologias sociais” das quais tantos educadores
se queixam. Não deveríamos buscar ou acreditar numa sociedade
“curada” de seus males, nem sequer imaginar alunos ideais para os
quais seria gratificante ensinar. A atitude possível de ser tomada foi,
mais uma vez, nos questionarmos sobre esse social e os poderes que o
atravessam: o que vem mudando desde que Foucault falou sobre o
biopoder?
Essa sociedade regida pelo trabalho conjunto dos mecanismos
disciplinares com os de regulamentação, o que Foucault chamou
biopoder, quando estudada por outros teóricos, como Gilles Deleuze, é
intitulada apenas de sociedade disciplinar. Historicamente, Deleuze
(1992) indica o apogeu dessas sociedades disciplinares no início do
século XX, e Costa (2004) data seu declínio nos anos da segunda metade
do mesmo século. Assim diz Deleuze sobre elas: “[...] as disciplinas,
por sua vez, também conheceriam uma crise, em favor de novas forças
que se instalavam lentamente e que se precipitariam depois da Segunda
Guerra Mundial: sociedades disciplinares é o que já não éramos mais,
o que deixávamos de ser”. E continua, logo adiante: “São as sociedades
de controle que estão substituindo as sociedades disciplinares. ‘Controle’
é o nome que Burroughs propõe para designar o novo monstro, e que
Foucault reconhece como nosso futuro próximo” (DELEUZE, 1992, grifo
nosso).
Podemos depreender, portanto, que vivemos em um momento de
transição entre a sociedade disciplinar, como a definiu Foucault, e a
sociedade de controle, da qual Deleuze falou brevemente, deixando que
outros teóricos continuem essas investigações. E, se as instituições tiveram
um papel determinante nas sociedades disciplinares, neste momento de
transição, as vemos tomar outro rumo: em seus estudos, Deleuze diz que
“todos sabem que essas instituições [como a escola, a indústria, o hospital,
o exército, a prisão] estão condenadas, num prazo mais ou menos longo.
Trata-se apenas de gerir sua agonia e ocupar as pessoas, até a instalação
das novas forças que se anunciam” (DELEUZE, 1992).
Em outras palavras, em um momento de transição que caminha
para a extinção das instituições, é de se esperar que estas estejam em
crise, vistas as mudanças que ocorrem nos modos de subjetivação dos
101Lucilla Panacioni de Araújo
indivíduos. Se, sob o domínio das disciplinas, a grande preocupação
estava em fazer dos indivíduos corpos dóceis, principalmente através
de espaços fechados como estes, logo adiante o biopoder foi essencial
para a gestão das populações em espaço aberto. Porém, cada vez mais
rapidamente as populações mudam, e, para acompanhar essa mudança,
é preciso que novas tecnologias de poder surjam na mesma velocidade.
Para isso, o poder também perde características como a verticalidade
e a hierarquia: ele se encontra cada vez mais dissolvido numa rede
universal e horizontal, e se torna tão mais presente em cada atitude
cotidiana quanto mais distante de ser localizado.
[...] numa sociedade inteiramente axiomatizada, as instâncias de
poder estão dissolvidas por entre os indivíduos, o poder não tem
mais uma cara. Sua ação agora não se restringe apenas à contenção
das massas, à construção de muros dividindo cidades, à retenção
financeira para conter o consumo. Essas são estratégias que
pertencem ao passado. Hoje, o importante parece ser essa atividade
de modulação constante dos mais diversos fluxos sociais, seja de
controle do fluxo financeiro internacional, seja de reativação
constante do consumo (marketing) para regular os fluxos do desejo
ou, não esqueçamos, da expansão ilimitada dos fluxos de
comunicação. [...] Nenhuma forma de poder parece ser tão
sofisticada quanto aquela que regula os elementos imateriais de
uma sociedade: informação, conhecimento, comunicação. O Estado,
que era como um grande parasita nas sociedades disciplinares,
extraindo mais-valia dos fluxos que os indivíduos faziam circular,
hoje está se tornando uma verdadeira matriz onipresente,
modulando-os continuamente segundo variáveis cada vez mais
complexas. (COSTA, 2004).
Nossa realidade já dispõe de uma série ilimitada de meios de
comunicações, em que podemos buscar informações, conhecimentos,
compartilhar dados, fazer compras. Através de tantas possibilidades,
os indivíduos se percebem cada vez mais diversos e singulares entre os
outros, afinal, quase tudo é personalizado de acordo com os desejos do
cliente e suas posses financeiras. Em troca dessa suposta liberdade de
escolha que nos é oferecida, damos aval às tecnologias de vigilância
para apurarem seus métodos, aumentando o controle sobre indivíduos
e populações.
Ao acessarmos sites, por exemplo, de compras quer de produtos,
quer de passagens, de ingressos, ou ainda quando utilizamos cartões de
102 POR QUE AINDA ACREDITAR NA ESCOLA: UMA BUSCA PELA ...
crédito ou débito, fornecemos registros sobre nossas preferências e
interesses, através dos quais é possível, na rede, desenhar os movimentos
de cada indivíduo no espaço informacional. Tais métodos usados para
traçar o perfil das populações são muito mais eficazes, atualmente, do
que confiná-las ou saber sobre seu deslocamento físico; “[...] as massas
[...]tornam-se amostras, dados, mercados, que precisam ser rastreados,
cartografados e analisados para que padrões de comportamentos
repetitivos possam ser percebidos” (COSTA, 2004, grifos do autor).
Todas essas transformações da sociedade, engendradas em grande
parte pelos avanços tecnológicos recentes, evidenciam, como disse
Deleuze, “uma mutação do capitalismo”. Ao contrário de como
funcionava anteriormente, hoje ele já não é “um capitalismo dirigido
para a produção, mas para o produto, isto é, para a venda ou para o
mercado. Por isso ele é essencialmente dispersivo” (DELEUZE, 1992).
Tais alterações vão ao encontro do deslocamento da lógica econômica,
após a Segunda Guerra Mundial, quando a oferta de mercadorias se
diversificou e se intensificou, na intenção de acelerar o ciclo de produção-
consumo-lucro e, consequentemente, aumentar a acumulação. Devido
a esse processo, foi necessário também criar e intensificar demandas de
consumo, o que torna tão importante o aprimoramento de tecnologias
como o marketing para analisar e conhecer os comportamentos,
necessidades e desejos dos sujeitos. A esse indivíduo que deve suprir tais
demandas Veiga-Neto chama de sujeito-cliente (cf. VEIGA-NETO, 2000,
p. 199).
Entretanto, não podemos deixar de lado o fato de que, enquanto tais
instituições agonizam a espera de seu fim, elas tanto se modificam de
acordo com as transformações que se operam na rede social, quanto são,
também, responsáveis por tais transformações. Veiga-Neto lembra que
[...] é preciso entender que tais instituições são, ao mesmo tempo,
também produtoras dessas novidades na nossa história recente. É
por isso, então, que todas elas estão intimamente conectadas com
a construção da Modernidade e com a manutenção de suas práticas
e dos valores que a justificam e a sustentam. (VEIGA-NETO, 2000,
p.188, 189).
Se antes, nas disciplinas, os indivíduos não cessavam de recomeçar,
de uma instituição à outra – da família para a escola, da escola para a
fábrica, eventualmente para a prisão ou para o hospital – na sociedade
de controle os processos não terminam, eles se interconectam de forma
103Lucilla Panacioni de Araújo
que se tornam infinitos: a formação acadêmica é continuada –, parece-
nos essencial se especializar cada vez mais, mercado para o qual não
existe fim, visto o número de especializações, aprimoramentos e cursos
disponíveis. O exame, nas escolas, nas empresas, é substituído por
avaliações constantes, que abarcam todos os aspectos de desempenho,
seja acadêmico, seja profissional. O salário se tornou instável e definido
através de jogos, competições infinitas em um mercado de exigências
flutuantes que “gere as competências” de cada indivíduo. Ao invés de
moldá-los, os indivíduos passam por uma modulação constante, numa
rede sem limites espaciais definidos, como “prisioneiros em campo
aberto” (COSTA, 2004).
Além disso, Deleuze (1992) já nos alertara que a escola tende a
atuar como uma empresa, através da avaliação contínua e da modulação
de recompensas, levando os alunos a uma eterna competição que se
inicia em sala de aula. Desse modo, os contornos dessa sociedade
contemporânea vêm produzindo e sendo produzidos também pela escola,
na medida em que esta modifica suas funções e objetivos a fim de servir
a uma economia neoliberal que tem como modelo a empresa, a
competição de mercado e a subordinação do social ao econômico. O
modelo de subjetivação do indivíduo escolarizado perde seu caráter
essencialmente disciplinar para dar lugar a uma lógica de
psicologização da indisciplina e a uma formação voltada para a
preparação do aluno para o mercado de trabalho. “Ao sucumbir a um
modelo que assegura uma profissionalização, a educação despolitiza-
se, tornando-se mercadoria por meio da qual cada indivíduo visa
intensificar valores e interesses privados. Isso significa que ela se torna
algo descartável” (FRANÇA, 1996, p. 143).
Podemos dizer que esse novo modo de subjetivação se ativa através
da oferta de múltiplas identidades, mutantes e fragmentadas, construídas
a partir de produtos e ideias que preenchem o cenário cotidiano do
indivíduo, independentemente de seu status socioeconômico, sua faixa
etária ou localização geográfica, pois estão presentes tanto nas
instituições quanto na mídia nos hábitos e modas compartilhados por
grupos, e por todo o tipo de apelo consumista aos quais estamos sujeitos,
transformando, assim, a forma como os indivíduos se relacionam entre
si e com esses espaços.
Com efeito, todas essas facetas que caracterizam a sociedade de
controle podem ser analisadas através de um processo importante que
vem ganhando cada vez mais evidência em nossa contemporaneidade,
104 POR QUE AINDA ACREDITAR NA ESCOLA: UMA BUSCA PELA ...
que encontramos na obra de Foucault, intitulado empobrecimento do
tecido relacional, devido às limitações de possibilidades relacionais
impostas pela nossa cultura e suas instituições (cf. FOUCAULT, 2004,
p.120). Podemos observar como esse empobrecimento vem se
intensificando proporcionalmente aos avanços dessa nova configuração
social, impulsionado principalmente pelas tecnologias e pela lógica de
mercado. Acrescido a esse fato, percebemos hoje que o conceito de
liberdade vem perdendo seu sentido coletivo e desvinculando o trabalho
sobre si mesmo como um pressuposto imanente a sua conquista.
Ora, se nos remetermos aos estudos de Foucault sobre a Grécia
Antiga, vamos nos lembrar de que os gregos problematizavam a questão
da liberdade como um problema ético. Esse êthos designava para eles
“[...] maneira de ser e de se conduzir [...] [que] se traduz pelos seus
hábitos, por seu porte, por sua maneira de caminhar, pela calma com
que responde a todos os acontecimentos, etc. Esta é para eles a forma
concreta da liberdade” (FOUCAULT, 2004, p. 270, grifo nosso).
Vemos, portanto, que a liberdade estava diretamente ligada a um
trabalho sobre si e a um cuidado com os outros, que implica
primeiramente o cuidado consigo mesmo: “A liberdade é [...] em si
mesmo política” e “o cuidado de si é ético em si mesmo; porém implica
relações complexas com os outros, uma vez que esse êthos da liberdade
é também uma maneira de cuidar dos outros” (FOUCAULT, 2004, p.
270, grifo nosso). Posteriormente, na transição da Grécia Antiga para o
período helenístico e romano, ocorreu uma intensificação do cuidado
de si, que adquiriu um alcance bastante geral, constituindo-se como
prática social (cf. FOUCAULT, 1985, p. 50).
Desse modo, durante o domínio da moral cristã, inicia-se um
lentíssimo movimento que deslocaria a preocupação com o cuidado de
si – a epimeleia heautou – para a preocupação com o cuidado dos
outros – a epimeleia tonallon – o que representa a função do pastor
para com seu rebanho (cf. FOUCAULT, 1995, p.276), figura adotada
pelo cristianismo como símbolo do papel clerical sobre os fiéis. Essa
mudança fez a relação consigo tender a se interiorizar e se individualizar,
intermediada por uma ética de renúncia a si, e o trabalho sobre si
passou a se caracterizar a partir do exercício constante de decifração
da alma e de uma hermenêutica dos desejos, forte influência
desenvolvida principalmente com o cristianismo e que se mantém
presente na subjetivação dos indivíduos apesar da perda de espaço das
instituições religiosas na cultura contemporânea.
105Lucilla Panacioni de Araújo
Todavia, como resultado dos processos históricos de que resultam
profundas alterações culturais e, por isso mesmo, relacionais, hoje,
com a constituição subjetiva dos indivíduos sendo balizada por um
crescente apelo consumista devido à globalização econômica e por uma
exacerbação do individualismo, a liberdade é transfigurada para algo
que se alcança a partir da total independência em relação aos outros
indivíduos e, assim, passa a ser um fenômeno da vontade pessoal. Como
Foucault, o espaço público despolitiza-se e passa a ser local de expressão
da vontade de cada um, desvinculada da relação com os outros. Além
disso, as tecnologias de marketing, nas sociedades de controle, veiculam
um ideal de liberdadeque pode ser perseguido e alcançado através da
aquisição de produtos e serviços: terrenos em condomínios fechados,
automóveis, contas bancárias, marcas de roupas e calçados etc.
Desse modo, não parece mais ser necessário aos sujeitos-clientes
desenvolverem um trabalho constante de cuidado consigo, refletido no
cuidado com os outros, se é possível comprar a liberdade e manter
relações fugazes com desconhecidos, por meio de uma pesquisa via
web de interesses e atividades em comum. Ao mesmo tempo, quando
sujeitado ao ensino escolarizado, que apresenta conteúdos pré-
determinados a eventuais escolhas, esse sujeito-cliente não se mostra
mais disponível a esse papel, e os educadores, por seu turno, pouco
sabem lidar com esse sujeito para além dos métodos disciplinares,
percebendo que não haverá milagre da parte de seus colegas médicos e
psicólogos.
Até quando, porém, é possível sustentar uma sociedade despolitizada
e privatizada? Ao abandonarmos gradualmente uma ética baseada na
religião e recusarmos a de um sistema legal que interfira em nossa
moral, perdemos as bases éticas que sustentam nossas atitudes, e
sofremos com a carência de princípios sólidos – devido à insuficiência
e vulnerabilidade das modas e tendências – que nos sirvam de base
para a elaboração de uma nova ética. Foucault nos lembra da
semelhança entre a busca atual para compor outros princípios éticos
que não estejam fundados na religião, nem no Estado, nem na
interpretação do homem, e a ética desenvolvida na Grécia Antiga, que,
em detrimento de todos esses aspectos contemporâneos, se preocupavam
com a constituição ética de sua própria existência (cf. FOUCAULT, 1995,
p. 255).
Não é viável, contudo, pensar na elaboração de uma nova ética
baseando-se na solidão, na passividade e na interioridade, pois só é
106 POR QUE AINDA ACREDITAR NA ESCOLA: UMA BUSCA PELA ...
possível exercermos nossa existência a partir da relação que mantemos
com o outro. Ao nos apropriarmos de tais fatos que apontam para essa
sensação generalizada de ausência de princípios éticos, é preciso que
os indivíduos respondam a essa crise ativamente e se disponham a ações
coletivas para uma discussão crítica sobre as práticas sociais vigentes.
E era esse, afinal, o interesse de nossa ação junto ao grupo de educadores.
Até aqui, em nosso trajeto em torno de toda essa problemática dos
tempos atuais, buscamos elementos que nos ajudassem, em nosso grupo
de discussão, a desconstruir coletivamente os conceitos elaborados como
causadores de uma crise da sociedade, da família, da moral, dos “bons
costumes” e, consequentemente, da educação, tal como eram vistos
pelos educadores, e ampliarmos nosso foco para as contingências sociais
e políticas que vão desenhando os rumos da sociedade.
Discutimos as insuficiências das velhas formas de dominação
hegemônica pelos métodos disciplinares e do papel da escola na
formação das subjetividades, e, por conseguinte, da sociedade,
procurando esclarecer o papel determinante do educador nessa
engrenagem social. Para tratarmos desse tema, aprofundamo-nos nas
questões éticas: tanto em relação ao que se encontra já instituído, quanto
sobre outros modos de se construir relações éticas.
Dentre as muitas possibilidades que teríamos para abordar a ética
dos sujeitos e das relações, através dos estudos foucaultianos, somos
atraídos a repensar, antes de tudo, a relação que os sujeitos constroem
consigo próprios. Constituir a própria existência como matéria do
trabalho ético representa, dentro da obra de Foucault, uma possibilidade
concreta de fugir dos poderes que moldam nossa subjetividade e criar,
através de um exercício de pensamento e experimentação constantes,
uma arte de viver. Essa arte de reinventar a existência se desenvolve na
medida em que se exercita o cuidado consigo através do cuidado com
o outro, por meio de uma implicação política.
A ética das relações, tal como foi pensada por Foucault, não se
restringe às formas relacionais conhecidas e legitimadas: a amizade
foucaultiana é carregada de potência de transformação e inquietude,
que deve nos levar a problematizar o tempo toda a existência, a
sociedade, os valores.
Minha opinião é que nem tudo é ruim, mas tudo é perigoso, o que
não significa exatamente o mesmo que ruim. Se tudo é perigoso,
então temos sempre algo a fazer. Portanto, minha posição não
107Lucilla Panacioni de Araújo
conduz à apatia, mas ao hiperativismo pessimista. (FOUCAULT,
1995, p. 256, grifo nosso).
Em vista dessa ouca de amizade foucaultiana, faz-se necessário
não apenas analisar o discurso da crise e procurar suas razões na
modernidade, mas, para além disso, procurar mudar o foco e entender
quais outros tipos de leitura podem ser explorados para se problematizar
o tempo presente. Ao retomarmos a caminhada ao lado de Foucault,
somos instigados a traçar linhas de resistência aos novos modos de
dominação em vigência, buscando criar e transformar modos de existir.
Apesar de incitados a acreditar em outras possibilidades, procuramos
sempre manter o foco na perspectiva dos professores, levando em conta
sua experiência da realidade. Concordávamos que, considerando todo
o cenário atual discutido entre todos nós, parece-nos pouco provável
existir brechas na instituição escolar para um trabalho ético que tivesse
como condição a reativação da coletividade. Pois, ainda que à primeira
vista a escola nos pareça um espaço óbvio de convívio público, ir ao
encontro de seu cotidiano transforma tal convicção.
Afinal, se todas essas transformações sociais tiveram como o
abandono dos espaços públicos e a exacerbação da individualidade
depreendeque tais espaços deixaram de ser um ambiente agradável e
seguro para se habitar. Em função do aumento da sensação de liberdade
e ao novo sentido atribuído à expressão, as relações entre professores/
alunos, alunos/alunos e indivíduos/instituição se transformam em
embate de forças que procuram dominar umas às outras: são vinte,
trinta assentos de carteiras escolares ocupados por vontades individuais
que querem fazer-se ouvir e impor.
Aqui chegamos ao nosso ponto crucial. Apresentadas e discutidas
essas análises sociais e históricas, indagamos: como pensar, na prática,
uma relação entre professores e alunos pautada na amizade que Foucault
nos apresenta, visto ser um movimento que requer uma problematização,
uma inquietude constantes? Qual será, pois, a razão de acreditarmos
que seja possível uma transformação ética a partir da relação entre
professor e aluno?
Observamos que, apesar desse aparente pessimismo e dessa falta
de alternativas, reconhecemos na escola um campo fértil para pensarmos
novas configurações do sujeito e da sociedade. Isso se deve às três
características essenciais imanentes a essa instituição, nas quais vamos
amparar nossa argumentação: a escola básica continua sendo
108 POR QUE AINDA ACREDITAR NA ESCOLA: UMA BUSCA PELA ...
considerada necessária e obrigatória pela sociedade e pela Constituição4;
continua dependendo de relações entre os sujeitos; e continua
pressupondo o exercício do pensamento para a produção do
conhecimento. Vejamos a razão da importância desses pontos.
Para a maioria das crianças, a escola é o primeiro ambiente
pedagógico para além dos limites da família, e, por pior que possa
parecer hoje, o primeiro contato estabelecido com o coletivo. Nesse
lugar de aprender e ensinar, somos impelidos a construir relações éticas
com o outro, tendo que levar em conta não mais apenas nossa
interioridade, mas também os atravessamentos do mundo em sua
multiplicidade. A questão é: apesar da obrigatoriedade de ensino
escolarizado a todas as crianças, o modo como as instituições e a
subjetividade vêm se modificando na atualidade vem dificultando o
desenvolvimento do objetivo primeiro da educação, que, como sabemos,
é o conhecimento.
A velocidade com que se produzem discursos e relações leva
educadores e alunos a confundirem informação e conhecimento. Daí a
queixa desse primeiro personagem pela incapacidade de “competir”
com a mídia de hoje. Antes de tudo, épreciso que se redesenhem e se
ressignifiquem o papel da educação: é aceitável que o professor ofereça
a seus alunos, como ponto de partida, dados de informação, desde que
a construção do conhecimento seja o ponto de chegada. O que não se
pode admitir é a transformação do professor em uma personagem
midiática ou animador de .
Com efeito, a relação que deve ser construída entre a transmissão
do conhecimento e professor/aluno, se estabelecida a partir da amizade
foucaultiana, pode direcionar a outros rumos essa crise contemporânea.
Pois, se a proposta dessa relação pressupõe desenvolvê-la a partir do
menor quantum possível de dominação sobre o outro, o exercício
constante dessa atitude implicará necessariamente a construção de uma
relação que leve em consideração o prazer do outro.
E quando nos referimos a prazer, remetemos às pistas deixadas por
Foucault sobre a definição de amizade – visto que se trata de “uma
relação ainda sem forma” (FOUCAULT, 1981) que temos que inventar
cotidianamente – não remetemos ao seu caráter sexual; entendemos
4. Aquino (2000, p.106) cita o artigo 205 da Constituição de 1988, no qual se estabelece que “[...]
educação é um direito de todos e um dever do Estado e da família”.
109Lucilla Panacioni de Araújo
que, apesar de Foucault partir do prazer sexual para falar de amizade,
sua proposta de conseguir levar em consideração o prazer do outro e
integrá-lo ao nosso prazer vai muito além do prazer sexual; a questão
estaria em levar em conta o coletivo, e não apenas o individual, para se
ter prazer. E, ao pensarmos coletivamente na constituição dos sujeitos,
numa ética a ser elaborada, estaremos dando novos contornos aos modos
já estabelecidos de se relacionar, de forma que se ampliariam os espaços
para as multiplicidades em suas mais diversas formas de existência.
Na prática, os conceitos de autoridade, autonomia e liberdade,
fundamentais para o trabalho de aquisição de conhecimento, se
determinariam coletiva e politicamente. Não é necessário destituir o
professor de seu lugar de autoridade; deve-se, antes, ressignificar esse
lugar.
Em nosso cotidiano, autoridade e autonomia parecem-nos
experiências humanas antagônicas. A figura de autoridade quase
sempre é percebida como aquela que nos submete a seus desígnios,
e a autonomia é a emancipação de toda e qualquer espécie de
sujeição a essa autoridade. Ou seja, estamos denotando as duas
em apenas um plano: querer o poder de um sobre o outro – ser
livre é ser independente dos outros enquanto ter autoridade é, ao
contrário, prevalecer sobre eles. (FRANÇA, 1999, p. 157).
Nesse sentido, é possível ao professor construir esse lugar de
autoridade com seus alunos, desde que tal papel não implique a sujeitá-
los, mas sim implicá-los na construção desse papel, dando-lhes
autonomia de ações e abertura para pensarem além daquilo que está
instituído como sendo autonomia e autoridade. Esse processo se daria,
para Foucault, através da elaboração de um novo direito relacional,
“que permitisse que todos os tipos possíveis de relações pudessem existir
e não fossem impedidas, bloqueadas e anuladas por instituições
empobrecedoras do ponto de vista das relações” (FOUCAULT, 2004c,
p.121).
Une-se, dessa forma, o desenvolvimento de um modo relacional
baseado na amizade foucaultiana, que se elabora através do trabalho
sobre si, do êthos, com vistas ao desenvolvimento da autonomia do
sujeito que esteja além da captura das tecnologias de dominação dos
poderes vigentes, mediante o exercício do pensamento.
Acreditar numa transformação das relações pedagógicas é também
acreditar no homem como sujeito pensante, capaz de romper as redes
110 POR QUE AINDA ACREDITAR NA ESCOLA: UMA BUSCA PELA ...
de sujeição por meio do esclarecimento e de um trabalho crítico
constantes. Apesar de sabermos que se trata de uma instituição, com
todos seus engessamentos disciplinares, e mesmo sabendo que ela
caminha para os objetivos da economia, é preciso se ter coragem para
acreditarmos nos homens que compõem as instituições, é preciso
acreditar em sua capacidade de pensamento, de criação e de
transformação. Se a escola é a morada do conhecimento e se esse
conhecimento se constrói através de uma relação, não podemos tratar
a inteligência humana como “um depósito de informações, mas um
centro processador delas” (AQUINO, 2000, p. 115).
Se professores e alunos, e alunos entre si, se implicam na atividade
de pensar o presente, o ensino não mais representará um repasse de
informações aparentemente desnecessárias e desinteressantes, mas dirá
respeito à constituição ética dos sujeitos pedagógicos, dirá da construção
do mundo que habitam.
Buscar o esclarecimento de maneira prudente pode ser uma forma
de trabalho sobre si, de cuidado consigo e também com o outro, de
modo que esse pensar sobre si mesmo e sobre o mundo só pode se dar
na companhia de outros. O educador, nesse processo, readquire o valor
ético de sua profissão, vista a importância que ele assume no percurso
de busca do conhecimento de seus alunos. Acerca do assunto, Foucault
argumenta:
Trata-se precisamente de ver que as relações de poder não são
alguma coisa má em si mesmas, das quais seria necessário se
libertar. [...] O problema não é, portanto, tentar dissolvê-las na
utopia de uma comunicação perfeitamente transparente, mas se
imporem regras de direito, técnicas de gestão e também a moral, o
êthos, a prática de si, que permitirão, nesses jogos de poder, jogar
com o mínimo possível de dominação.
[...] Tomemos também alguma coisa que foi objeto de críticas
freqüentemente justificadas: a instituição pedagógica. Não vejo
onde está o mal na prática de alguém que, em um dado jogo de
verdade, sabendo mais do que um outro, lhe diz o que é preciso
fazer, ensina-lhe, transmite-lhe um saber, comunica-lhe técnicas;
o problema é de preferência saber como será possível evitar nessas
práticas – nas quais o poder não pode deixar de ser exercido e não
é ruim em si mesmo – os efeitos de dominação que farão com que
um garoto seja submetido à autoridade arbitrária e inútil de um
professor primário; um estudante, à tutela de um professor
autoritário, etc. Acredito que é preciso colocar esse problema em
111Lucilla Panacioni de Araújo
termos de regras de direito, de técnicas racionais de governo, e de
êthos, de prática de si e de liberdade. (FOUCAULT, 2004, p. 284,
285).
Dessa maneira, acreditamos ter trazido para a realidade de alguns
professores dessa escola conceitos que parecem muitas vezes distantes
demais da atuação profissional. Porém, a partir da demanda dos
educadores, fizemos juntos uma leitura que nos ofereceu elementos para
analisar a contemporaneidade e construir ferramentas para a prática
de outra relação com os poderes, com os saberes, com o ensino e com
os alunos, permitindo a ampliação do campo de escolhas sobre a forma
de ser professor.
No início, não sabíamos, nem os estagiários nem os professores,
quais rumos essa experiência iria tomar, assim como não é possível
saber como esse percurso atravessou cada um dos que acompanharam
a caminhada e de que modo as nossas práticas foram afetadas. Tínhamos
em mente que, em qualquer trabalho coletivo, só é possível saber da
importância da discussão coletiva, e não tínhamos esperanças de grandes
revoluções, pois não se tratava de uma pregação de verdades. Além do
mais, para que se efetivem tais exercícios críticos sobre a
contemporaneidade, é necessário, antes de tudo, ter coragem para
escapar das fronteiras que separam a segurança da vida privada e a
realidade da vida pública, e nunca sabemos quantos de nós teremos
essa coragem.
Não supúnhamos, afinal, que apresentamos o verdadeiro saber
através de teorias da Filosofia ou da Psicologia; apenas apostamos na
proficuidade da união dos discursos, para a criação de algo novo, ou a
transformação do instituído. E o resultado colhido desse trabalho em
conjunto representou, para nós, a efetivação de uma atuação
micropolítica possível, na direção de criar linhas de resistências através
do exercício coletivo do pensamento.112 POR QUE AINDA ACREDITAR NA ESCOLA: UMA BUSCA PELA ...
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7
Foucault, com Deleuze e Guattari:
problematizando as identidades culturais,
o ideal de progresso e de
desenvolvimento nas práticas da
Unesco e Unicef no Brasil
FLÁVIA CRISTINA SILVEIRA LEMOS1
Este texto2 visa criticar como as Nações Unidas utilizam o conceito
de identidade cultural, instrumentalizando-o para a gestão dos países
considerados bárbaros e não civilizados aos quais a ONU (Organização
das Nações Unidas) e seus “desinteressados” assessores peritos pretendem
“pacificar” e “desenvolver”.
A gestão da cultura como via de governo dos países e populações,
por meio de mecanismos de indução ao desenvolvimento econômico e
social, tem sido defendida pelo UNICEF (Fundo das Nações Unidas para
a Infância) e por outras agências da ONU, como a UNESCO (Organização
das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) em suas
práticas dirigidas às crianças e aos jovens, inclusive no Brasil, atualmente
(LEMOS, 2007).
A produção de estratégias de gerência da população pela via da
tática de instrumentalização da cultura tem sido afirmada pelos
assessores do UNICEF e da UNESCO como dispositivo de produção da
paz mundial. A cultura, para esses assessores é vista como uma unidade
fechada e modeladora de identidades substantivadas através da
1. Psicóloga/UNESP-Assis/SP; Mestre em Psicologia e Sociedade/UNESP-Assis/SP; Doutora
em História e Sociedade/UNESP-Assis/SP. Professora Adjunta de Psicologia Social da UFPA-
Belém.
2. Este capítulo é resultado de problematizações realizadas em Tese de Doutoramento em
História e Sociedade, financiada pela FAPESP, na UNESP-SP, sob orientação do prof. Dr.
Hélio Rebello Cardoso Júnior.
116 FOUCAULT, COM DELEUZE E GUATTARI: PROBLEMATIZANDO ...
promoção da “equidade” e da defesa de políticas para a diversidade em
projetos de “proteção das crianças e jovens”, no Brasil (LEMOS, 2007).
A associação indissolúvel da igualdade com a diferença é uma
estratégia utilizada pelo UNICEF para justificar políticas compensatórias
de correção das diversas formas de desigualdades para promover o que
define como desenvolvimento de um país.
Tratar todas as crianças e adolescentes de forma igual, sem
considerar suas diferenças ou suas desigualdades, pode estar
reforçando ou mesmo gerando ainda mais iniqüidades, mais
discriminação negativa, mais problemas do que soluções. (UNICEF,
2003, p. 10).
Há a necessidade, ao lado do direito à igualdade, de se afirmar o
direito à diferença, o respeito à diversidade. [...] Qual a importância
e os impactos positivos de se construir novos arranjos para as
políticas para a infância, considerando a diversidade, a diferença,
o outro? (UNICEF, 2003, p. 13).
Guattari e Rolnik (1996) dirão que a identidade cultural supõe uma
reificação da subjetividade, uma referência pretensamente universal, e
acaba conduzindo ao etnocentrismo. Em Tese de Doutoramento em
História, Lemos (2007) problematizou a visão de cultura como uma
unidade de diferenças, afirmando que essa proposição potencializaria
processos de intolerância e construção de guetos.
Desse modo, as práticas dessas agências multilaterais em nome da
síntese diversidade-igualdade como proposta de cultivo da tolerância
estão ancoradas no uno-múltiplo e não na multiplicidade.
Conforme Lalande (2006), o termo “equidade”, que ganhou destaque
nos relatórios da UNICEF e da UNESCO, tem sido utilizado para atenuar
as crises sociais, políticas, econômicas e culturais. Foi criado por
Aristóteles e remete a uma justiça corretiva e compensatória, aplicada
aos casos particulares.
Para Aristóteles, o bem é atingido quando conquistamos a ciência
universal e encontramos a unidade racional da alma que transcende
a diferença entre dos povos, das cidades, das línguas e dos
indivíduos. Mas para que o homem se torne racional (ou, como ele
diz, para que o homem atualize a capacidade de raciocinar
adormecida nele enquanto possibilidade lógica) é preciso ser antes
um homem virtuoso.[...] O homem de juízo é um homem
117Flávia Cristina Silveira Lemos
classificador. Classifica a multiplicidade para reduzir suas diferenças
acidentais à diferença específica e à identidade de gênero, isto é,
para reduzi-las à unidade da razão universal. [...] Platão, Aristóteles
e o Ocidente inteiro humanizam a natureza e divinizam o homem,
louvam o homem separado da natureza que habita as alturas
superiores da representação. (FUGANTI, 1990, p. 38-50).
Uma ética utilitarista é renovada, ao final do século XX, em nome
da defesa de virtudes humanistas, buscando a felicidade através da
promoção da qualidade de vida, medida em índices de desenvolvimento
humano, sendo que a concepção de justiça particularista aristotélica
seria uma das séries de sua composição atualizada.
Ewald (1993) ressalta que a justiça corretiva de promoção da
“equidade” objetiva traçar equivalências entre supostas substâncias
desiguais, em uma negociação pretensamente produtora de “harmonia”
social e estabilidade político-econômica. A gerência de identidades se
daria pela construção e redefinição de normas de referência.
A norma convida cada indivíduo a reconhecer-se diferente dos
outros, encerra-o no seu caso, na sua individualidade, na sua
irredutível particularidade. Precisamente, o normativo afirma tanto
mais a igualdade de cada um perante todos quanto infinitiza as
diferenças. (EWALD, 1993, p. 109).
Analisando a fabricação de identidade na sociedade disciplinar,
Foucault (1999) destaca que as normas são parâmetros para a igualdade
e também para a diferença, fornecendo uma medida de comparação.
Desse modo, os estilos de vida já estão demarcados pela cultura difundida
por grupos sociais vistos também como totalidades homogêneas, fixados
em identidades que deslizam e são consumidas no mercado das
identidades.
Albuquerque Júnior (1998) salienta que os costumes começam a
ser geridos e catalogados pelo Estado ao final do século XVI e início do
XVII, através de agenciamentos administrativos. Emerge uma polícia
dos costumes que interroga, denuncia, delata, registra em arquivos,
constrói dossiês dos “maus costumes”.
Ainda no século XVI, Montaigne já se interrogava sobre o poder do
costume, se os fundamentos da moral, as regras da razão e os
princípios do comportamento humano eram regidos pelos costumes.
No momento em que está emergindo a natureza humana, o
118 FOUCAULT, COM DELEUZE E GUATTARI: PROBLEMATIZANDO ...
pensamento de Montaigne já se interroga se esta está submersa
pelos costumes ou se a existência destes põe em dúvida a existência
daquela. (ALBUQUERQUE JÚNIOR, 1998, p. 75).
A noção de natureza humana é produzida em uma dimensão
biológica darwinista, em que um sujeito racional é biologizado em
uma mente/estrutura que se desenvolve. A visão de natureza humana
também é concebida como uma mente/natureza cultural, cunhada pelo
nascimento da Sociologia e pelo movimento romântico, que defende a
singularidade da mente humana através da internalização das relações
sociais (HALL, 2005).
No século XVIII, os costumes vão ser organizados em identidades
nacionais; portanto, dirão de uma suposta alma da Nação. Com Voltaire,
os costumes seriam constituídos como objeto da história; e evoluiriam
em uma noção de progresso cultural e espiritual humano referenciado
a uma natureza humana e uma essência, de acordo com Albuquerque
Júnior (1998). No século XIX, os costumes serão considerados fatos de
uma civilização. Assim,
[...] o conceito de civilização expressava, na verdade, a consciência
que o Ocidente tinha de si mesmo. Ou seja, através deste conceito
a sociedade ocidental moderna julgou-se superior às sociedades
anteriores e as outras sociedades contemporâneas, consideradas
‘primitivas’ e ‘incivilizadas’. A história dos costumes deixa de ser a
procura do entendimento do ‘espírito dos tempos e das nações’,
para ser a descrição daquilo que constitui o caráter especial dos
ocidentais, aquilo que os orgulha, que faz a sua superioridade.
(ALBUQUERQUE JÚNIOR, 1998, p. 76).
Os costumes, vistos em uma perspectiva evolucionista e de
desenvolvimento linear e contínuo da história rumo a um progresso,
seriam transmitidos de geração a geração, sendo classificados como
raízes da identidade de um povo, nação, comunidade e grupo. A visão
teleológica aparece como efeito dessas práticas de gestão do Estado
Moderno.
Os costumes seriam a expressão da natureza humana; através de
sua análise poder-se-ia chegar ao conhecimento desta natureza,
desta essência humana, descobrindo, para além das diferenças
dos costumes, suas continuidades, suas permanências. Os costumes
dariam identidade a um povo, a uma classe social, a um grupo: é
119Flávia Cristina Silveira Lemos
no seu estudo que se deveria buscar a definição do um e do outro.
Para além dos costumes relativos a espaços, tempos e povos
diferentes se deveria buscar os costumes generalizáveis,
universalizáveis, como aqueles que dispõem sobre a verdade, a
moralidade, a justiça e o bem. (ALBUQUERQUE JÚNIOR, 1998, p.
78).
As práticas do UNICEF e da UNESCO se nesses discursos de
atualização de uma natureza humana universal que evoluiriam rumo
ao progresso econômico e social a partir de uma identidade cultural
referida a um grupo social, devendo sempre se enquadrar em uma
referência à comunidade global. Nessa lógica, os Estados atuais,
sobretudo os países considerados “em desenvolvimento”, sofrem uma
chantagem contínua do UNICEF e da UNESCO, por meio de suas agências,
para que abandonem um modelo identitário nacionalista em nome de
uma identidade multicultural internacionalizada, pautada em uma ética
universal.
O pluralismo não é apenas um fim em si mesmo. O reconhecimento
das diferenças é, acima de tudo, uma condição para o diálogo, e,
portanto, para a construção de uma união mais ampla de pessoas
diferentes. A despeito das dificuldades, temos uma obrigação
inevitável: conciliar o novo pluralismo com a cidadania comum. O
objetivo deve ser não apenas uma sociedade multicultural, mas
um Estado constituído de forma multicultural, um Estado que
reconheça o pluralismo sem renunciar à sua integridade. (UNESCO,
1997, p. 97).
O desenvolvimento divorciado de seu contexto humano e cultural
não é mais do que um crescimento sem alma. O desenvolvimento
econômico, em sua plena realização, constitui parte da cultura de
um povo. (UNESCO, 1997, p. 21).
A emergência da cultura cívica global parece suscitar novos
elementos normativos. Em particular, a Comissão chama a atenção
para o princípio da legitimidade democrática. A escolha do método
de governo já não é vista como uma preocupação puramente
nacional, impermeável à consideração internacional. Como têm
mostrado vários casos de eleições sob monitoramento internacional,
a comunidade mundial admite cada vez mais que a participação
democrática represente uma grande preocupação internacional.
(UNESCO, 1997, p. 49).
120 FOUCAULT, COM DELEUZE E GUATTARI: PROBLEMATIZANDO ...
Os assessores do UNICEF e da UNESCO, com fins de gestão das
populações, vão disparar práticas de poder-saber, sustentadas por
discursos de economistas, como Ignacy Sachs e Amartya Sen, para
estabelecerem uma fusão de economia, desenvolvimento, cultura,
progresso e identidade como um projeto modernizador (LEMOS,
2007).
A busca do desenvolvimento puramente econômico ignora o
desenvolvimento da identidade pessoal, que se encontra no cerne
de todo projeto educacional viável. (UNESCO, 1997, p. 216).
Investir na valorização da diversidade como justiça social é conferir
uma face humana ao desenvolvimento que, sem igualdade de
oportunidades, não consegue sair dos patamares atuais também
no campo econômico. [...] Não investir no desenvolvimento do
potencial dos talentos de todas as pessoas, nas suas capacidades e
habilidades coloca os países em risco nessa atual fase de
interdependência global. (UNICEF, 2003, p. 33).
Nosso propósito é mostrar a todos como a cultura forja todo nosso
pensamento, nossa imaginação e nosso comportamento. Ela é, ao
mesmo tempo, o veículo da transmissão do comportamentosocial.
(UNESCO, 1997, p. 16).
Sachs (2004) sublinha que, para Amartya Sen, a ética e a economia
estavam unificadas desde Aristóteles, com fins utilitários de promoção
da felicidade, através de ações afirmativas de identidades desiguais,
equiparadas por políticas “equitativas” de gerenciamento planejado por
especialistas com pretensões de ampliação de habilidades e capacidades
daqueles que são classificados como excluídos (LEMOS, 2007).
Uma ética universal revela a unidade subjacente à diversidade de
culturas, pois define os padrões mínimos que toda comunidade
deveria observar. Um exemplo do imperativo ético universal é o
impulso que leva, sempre que possível, à busca do alívio do
sofrimento humano, suprimindo suas causas. [...] A democracia e
a proteção de minorias são princípios importantes da ética universal,
e são também condição necessária para a eficiência das instituições,
a estabilidade social e a paz. (UNESCO, 1997, p. 23).
Nessa perspectiva, os peritos do UNICEF e da UNESCO se
apropriaram do conceito de identidade, remetendo-o ao conceito de
121Flávia Cristina Silveira Lemos
humanidade, tanto no campo biológico, como no plano cultural. Nessa
concepção, todos “humanos” seriam membros de uma mesma família
considerada igual por essas agências e, simultaneamente, diferente.
Somos iguais, porque somos diferentes. Porque somos membros
de uma mesma família, com uma diversidade que é nossa
característica e nossa riqueza. Somos iguais e diferentes. [...] A
afirmação de que somos iguais é a base sobre a qual podemos
também afirmar que somos todos diferentes, com expressões plurais
e interdependentes em nossas formas biológica e culturalmente
diversas. (UNICEF, 2003, p. 17).
A identidade pressupõe o estabelecimento de limites % e limites
sempre geram tensões. Mas é assim mesmo. Embora partilhemos
da mesma natureza humana, nunca seremos membros de uma
única tribo universal. É precisamente a esplêndida e às vezes
estonteante diversidade da raça humana que está na raiz da
humanidade que nos une a todos. Hoje, com o fim dos regimes
imperialistas e totalitários, podemos reconhecer nossa natureza
comum e começar a difícil negociação que ela nos exige. (UNESCO,
1997, p. 95).
A defesa de particularismos culturais traduziu-se em disputa de
identidades nacionais, sexuais, étnicas, regionais, religiosas. A noção
de político foi reduzida à gerência de identidades culturais. A democracia
foi reduzida a um povo étnico preso aos consensos comunitários de
grupos sectaristas ou a uma comunidade maior denominada humanidade
(RANCIÉRE, 1996).
O’Brien (1995) enfatiza que as análises de Foucault são operadores
para realizar a escrita da história da cultura, problematizando as
tentativas de naturalizar a cultura e de torná-la um universal. Foucault
ria das histórias lineares e evolutivas, dava gargalhada da história
contínua demarcadora de progressos que caminhava para um apogeu
no futuro, a partir de uma origem primeira fundadora, baseada em
essências. Desse modo, Foucault colocou em xeque as identidades, tanto
as individuais quanto as coletivas.
Lemos (2007b) sublinha como Foucault rompeu com o conceito de
singularidade aglutinador dos estudos culturais, interrogando a cultura
como essência e como uma totalidade/entidade metafísica; afinal, em
Foucault e Deleuze há defesa de uma política da diferença como
promoção de identidades alternativas.
122 FOUCAULT, COM DELEUZE E GUATTARI: PROBLEMATIZANDO ...
Em Lyotard (1996), há igualmente uma crítica das sociedades
capitalistas que se apropriaram da cultura, afirmando as diferenças
moduladas por categorias identitárias.
Em uma micropolítica, Guattari (1996) destaca que há um processo
de produção de subjetividades homogêneas modeladas por equivalente
cultural imanente ao capital; e Rolnik (1997, p. 19) analisa esse processo
como “toxicomania de identidades”, afirmando que
[...] a mesma globalização que intensifica as misturas e pulveriza
as identidades, implica também na produção de kits de perfis-
padrão de acordo com cada órbita do mercado, para serem
consumidos pelas subjetividades, independentemente de contexto
geográfico, nacional, cultural, etc. Identidades locais fixas
desaparecem para dar lugar a identidades globalizadas flexíveis
que mudam ao sabor dos movimentos do mercado e com igual
velocidade.
A cultura parece ganhar um papel redentor da humanidade, sendo
acrescida de um retorno a uma comunidade idealizada. Wieviorka
(2006) declara que, desde a década de sessenta, no século XX, os
particularismos culturais se expandiram através de um fechamento
identitário, apontando para um retorno ao comunitarismo e da
substantivação das diferenças. De acordo com Pierucci (1990), até os
conservadores da direita reivindicam o direito às diferenças sob a
bandeira da defesa das desigualdades de fato reclamadas em
desigualdades de direito.
A busca da afirmação das diferenças desliza entre as concepções
biológicas e culturais racistas atualizadas pelas lutas por reconhecimento
de identidades como mecanismo de governo. Ora, a constatação de
que as identidades culturais são produzidas em torno da gravitação de
normas negociadas aponta para a fabricação de novos párias
continuamente, dado que os supostos inimigos sociais são inventados e
reiventados, conforme Negri (2003).
A lógica compensatória e afirmativa de identidades culturais opera
uma política da guerra civil, em nome da pureza de grupos específicos
e da defesa contra o perigo encarnado naqueles que seriam impuros,
na visão etnocêntrica das sociedades contemporâneas (DOUGLAS, 1990;
BAUMAN, 2005).
Em uma proposta de regulação normalizadora, a UNICEF e a
UNESCO sustentam uma lógica de redução de conflitos, através da
123Flávia Cristina Silveira Lemos
gerência da cultura, como modo de estabelecer um consenso político e
de controlar os corpos, em nome da “democracia” global e de uma
cínica pacificação da sociedade mundializada.
De fato, o consenso é a estratégia de um Estado policial,
administrado pelos peritos da norma regulando um “povo” étnico, em
que as partes não entram em litígio, pois elas estão unidas ao mesmo
tempo por uma comunidade maior % a humanidade sob o manto do
governo biopolítico do UNICEF e da UNESCO.
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8
Práticas de conselhos tutelares em dois
municípios do interior paulista
O presente texto é resultado da reorganização do relatório final de
pesquisa de iniciação científica, financiada pela Fundação de Amparo
à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), no Curso de Graduação
em Psicologia/UNESP. Nesse estudo, o objetivo era analisar as práticas
de conselheiros tutelares, da gestão 2001-2004, em dois municípios do
interior paulista, com o suporte das contribuições metodológicas de
Michel Foucault.
Entre os objetivos específicos, foram investigadas as práticas
discursivas sobre a infância, a juventude e a família, produzidas pelo
Conselho Tutelar. Também foram analisadas as práticas discursivas a
respeito dos direitos e deveres das crianças e dos jovens, segundo esses
trabalhadores sociais.
Foram utilizadas as ferramentas metodológicas e teóricas da história-
genealógica de Michel Foucault, em que saber e relações de poder estão
em jogo e em relações recíprocas.
A genealogia é cinza; ela é meticulosa e pacientemente
documentária. Ela trabalha com pergaminhos embaralhados,
riscados, várias vezes re-escritos. (FOUCAULT, 1989, p. 15, grifos
nossos).
O método histórico-genealógico de Foucault permite interrogar os
objetos naturais e propõe uma análise das práticas datadas em seus
JEYSON MURUYAMA
ANDRESSA KELLY BARDELLA MONTEIRO
PRISCILA RABELO DE SOUZA
FLÁVIA CRISTINA SILVEIRA LEMOS
126 PRÁTICAS DE CONSELHOS TUTELARES EM DOIS MUNICÍPIOS ...
efeitos produtores de objetivação e subjetivação. Dessa forma, os objetos
são o que são em relação às práticas que os objetivaram de tal maneira
(VEYNE, 1998, p. 248-250). A genealogia é uma analítica que focaliza
as relações de saber, poder sobre os corpos, na sociedade moderna,
explicitando o campo político em que o corpo está diretamente
mergulhado (DREYFUS; RABINOW, 1995).
A partir do século XVIII, na Europa, há uma intensificação de
investimentos sobre os corpos com o poder disciplinar, em que estes
passam a ser objetivados por meio de mecanismos que os sujeitam,
tornando-os dóceis e produtivos. As disciplinas “adestram” os sujeitos
para ligar suas forças e multiplicá-las, tirando, assim, dividendos de
poder, na medida em que aumentam seus efeitos, através de instrumentos
simples: a “sanção normalizadora”, o “olhar hierárquico” e o “exame”.
É o surgimento do que Foucault chamou de Sociedade Disciplinar.
Por meio desses instrumentos, os mecanismos disciplinares puderam
capturar e produzir indivíduos. Vigiando as minúcias da vida,
trabalhando com os ínfimos detalhes do comportamento humano, saberes
foram construídos, saberes estes que constituem, produzem a própria
alma daquele sobre o qual falam. Todavia, tais saberes não são neutros,
eles produzem efeitos diretos sobre os quais se referem; efeitos de poder
e verdade, efeitos políticos. E é neste sentido que a genealogia visa às
relações de saber, poder e corpo, como afirmado acima.
As relações de saber e de poder estão intrinsecamente ligadas e
influenciadas pelas condições políticas das sociedades as quais se referem
(MACHADO, 1988, p. 137-200), criando campos de possibilidade da
formação do sujeito do conhecimento e suas relações com a verdade.
Assim, ao pensar as práticas discursivas, não-discursivas e de
subjetivação dos conselheiros tutelares, perguntamos em que saberes
eles se pautavam e qual relação de poder os sustentava, enquanto
conselheiros.
Será que, como afirma Caponi (2000), ao mesmo tempo em que a
assistência social e o saber médico, preocupados com o bem-estar da
população, constituem também estratégias efetivas de poder, estariam
os conselheiros trabalhando nessa mesma lógica? Ao analisar tais
relações, partimos da hipótese de que
[...] as relações, as estratégias e as tecnologias de poder que nos
constituem, nos atravessam e nos fazem, são acompanhadas,
permitem e produzem formações de saberes e de verdades [...]
127Jeyson Muruyama | Andressa Monteiro | Priscila Souza | Flávia Lemos
Inversamente, a análise do saber, das formações discursivas e dos
enunciados deve ser feita em função das estratégias de poder, que,
numa dada sociedade, investem os corpos e as vontades [...]
(EWALD, 1993, p. 11).
Afirma Cardoso Júnior (2004) que o saber é algo datado, portanto,
sua organização, sua forma de produção são características de um
determinado período. O saber é também um “regime discursivo”. Os
discursos organizam os saberes, ditam regras e normas metodológicas
e conceituais, apontam para o objeto do conhecimento dizendo o que é
possível conhecer em cada época, caracterizando-se, assim, uma
“episteme”; são igualmente mecanismos de poder, pois se referem a
uma forma de controle sobre os corpos.
Os saberes formam-se através de um sistema de registros,
comunicação e acumulação, que são eles próprios uma forma de poder.
Inversamente, todo poder se exerce extraindo, apropriando-se e
distribuindo saberes (FOUCAULT, 1997, p. 19), de sorte que “[...] o
discurso não é simplesmente aquilo que traduz as lutas ou os sistemas
de dominação, mas aquilo por que, pelo que se luta, o poder do qual
nos queremos apoderar” (FOUCAULT, 2001, p. 10).
Os saberes não são transmitidos continuamente de uma época à
outra e um saber não leva a outro; nesse sentido, não haveria, por
exemplo, o “embrião” da psiquiatria nos gregos antigos. Cada época
objetivou de maneira diferente aquilo que, na Época Moderna, se
denominou loucura. Foi preciso que novos rearranjos fossem constituídos,
que outra “episteme” surgisse e que as “práticas discursivas” organizassem
os saberes de uma nova forma para que a psiquiatria emergisse
(CARDOSO JÚNIOR, 2004).
As relações de poder são abordadas em seu caráter produtivo,
positivo, e não em uma forma repressiva subordinada ao Estado. Elas
produzem almas e corpos, assim como o espaço e o tempo, realidades.
O corpo é investido pelas relações de poder, de maneira que também é
o corpo “[...] correlativo do exercício do poder sobre ele [...] Toda
produção de corpo é produção de poder para esse corpo [...]” (EWALD,
1993, p. 49).
Há a possibilidade de desvios e reversões, através das resistências,
os contrapoderes. As resistências não são localizáveis, não se pode falar
de um lugar da grande resistência, elas estão pulverizadas nessa teia de
relações. São os contrapoderes o outro termo nas relações de poder,
128 PRÁTICAS DE CONSELHOS TUTELARES EM DOIS MUNICÍPIOS ...
são pontos de resistência móveis, irregulares, transitórios (FOUCAULT,
1988, p. 91-92).
São batalhas perpétuas, em que surge a necessidade de o poder
disciplinar gerir e submeter esses corpos. Não seria, por conseguinte, o
Conselho Tutelar uma forma de gestão desses mecanismos? Porém, o
poder não é algo que se possua, ele é da ordem da relação. Em oposição
a um poder que reprime, pensamos em um poder que liga como uma
teia de forças, para dela “[...] tirar efeitos de dominação, e benefícios e
dividendos de poder [...]” (ibidem, p. 13).
Foucault (2003), ao analisar documentos que remontam à época
clássica, na França, mostra em um artigo os efeitos de poder sobre a
vida das pessoas, e as relações saber-poder e poder-saber que estão
implicadas nisso. Discursos que atravessaram os corpos e que tiveram
efeitos sobre estes, muitas vezes subjugando-os, selando seus destinos.
Vidas que, como afirma Lemos (2002), “[...] dificilmente seriam objeto
de heroificação, de se constituírem em monumentos memoráveis [...]”
(p. 24), mas sobre as quais é dada visibilidade, a partir do momento
emque se confrontaram com o poder.
No entanto, não há um poder central, como já se afirmou, emanando
do Estado, e sim relações de poder capilares vindas de vários pontos,
por meio de mecanismos como as petições e as cartas régias, ou as
“lettres-de-cachet”. Intervenções de micropoderes políticos começam a
atravessar o cotidiano de pessoas comuns e são capturadas pelas
instâncias macropolíticas. Petições vindas de baixo, vindas da própria
população exigiam a intervenção do rei em assuntos privados. As ordens
do rei,
[...] na maior parte do tempo, eram solicitadas contra alguém por
seus familiares, seu pai e sua mãe, um de seus parentes, sua família,
seus filhos ou filhas, seus vizinhos [...], esposos injuriados ou
espancados, fortuna dilapidada, conflitos de interesse, jovens
indóceis, vigarices ou bebedeiras [...] (FOUCAULT, 2003, p. 214).
Os documentos examinados por Foucault, os quais têm suas origens
no Cristianismo Ocidental, com o mecanismo da confissão, tornam-se,
ao final do século XVIII, agenciamento administrativo, funcionando
como mecanismos de captura do discurso. “A tomada do poder sobre o
dia-a-dia da vida, o cristianismo a organizara, em sua grande maioria,
em torno da confissão [...]” (ibidem, p. 212). No cristianismo, o “sujeito”
é obrigado a tudo dizer sobre si através desse mecanismo de coerção,
129Jeyson Muruyama | Andressa Monteiro | Priscila Souza | Flávia Lemos
para logo em seguida sua fala sumir, e só restar o arrependimento e as
obras de penitência.
Mas, desde o momento em que esses registros se tornam
agenciamentos administrativos, constituindo arquivos e dossiês, suas
funções serão outras, eles engendrarão outras formas de relação entre
o poder, o discurso e o cotidiano. A partir disso, Foucault mostra como
tais relatos apontam para uma nova economia do poder, aquele poder
capilar descrito anteriormente.
Foi com esse olhar sobre o discurso que abordamos os arquivos dos
Conselhos Tutelares. O registro de um fragmento da vida das pessoas
pode se tornar um documento que constitui o arquivo de um Conselho
Tutelar, formado por outros tantos documentos. Com as denúncias que
chegam aos Conselhos, podem ser produzidos relatórios que constróem
saberes com efeitos de verdade e exercitam poderes, os quais objetivam
a infância e a família, e dão suporte às práticas dos Conselheiros até
mesmo em outros aparelhos que os atravessam. Nosso trabalho se propôs
questionar tais práticas.
A genealogia obstina-se em dissipar a aparente unidade dos objetos,
da história. Ela “[...] pretende fazer aparecer todas as descontinuidades
que nos atravessam [...]” (FOUCAULT, 1989, p. 35). Os fatos humanos
são arbitrários, pois o que é poderia ser diferente, nesse sentido, a
genealogia – opondo-se à pesquisa de origem, a qual procura a essência
– mostra a singularidade dos acontecimentos, ela vai até o ponto em
que eles emergem, para encontrar os elementos heterogêneos de que
são formados e que dão a ilusória aparência de unidade. Assim, é feita
uma pesquisa de proveniência, em que são procuradas as rupturas,
desconstruindo nossas identidades e mostrando que elas foram
construídas historicamente peça por peça.
A proveniência está também relacionada ao corpo, pois é este uma
superfície de inscrição dos acontecimentos. Que os pais adotem este ou
aquele preceito religioso ou moral é o corpo de seus filhos que será
marcado com isso. A genealogia é a análise de emergência: ela explicita
um lugar de afrontamento entre os diferentes elementos de que são
constituídos os acontecimentos, ela mostra o jogo de submissões que
estão envolvidos nos fins aparentemente últimos. Foucault (1989) afirma
que interpretar é impor uma outra direção a um sistema de regras, é
dobrá-lo a uma nova vontade, e a genealogia deve ser a história da
emergência de interpretações diferentes.
130 PRÁTICAS DE CONSELHOS TUTELARES EM DOIS MUNICÍPIOS ...
Dessa forma, a genealogia passa pela política do verdadeiro. Ressalta
Ewald (1995): “O problema da verdade é menos o da sua descoberta
que o da sua invenção [...]” (p. 15). Os discursos não são, eles próprios,
verdadeiros ou falsos, mas o que está em questão é o regime de produção
da verdade, aquele que, numa dada época, em uma dada sociedade,
exclui, desqualifica, invalida saberes em detrimento de outros discursos.
Os dispositivos de poder produzem o próprio objeto do qual falam, e
cuja verdade pretendem descobrir, sujeitando-o. Cabe à genealogia, não
produzir uma verdade mais verdadeira, porém, questionar os regimes
de produção de verdades para saber se são possíveis novos regimes.
Por isso, ao pesquisarmos os arquivos dos Conselhos Tutelares,
procuramos questionar: quais regimes de verdade davam sustentação
às práticas dos conselheiros, que saberes eram apagados para que outros
entrassem em cena? Para quais era conferida visibilidade e por que não
a outras coisas?
A formação do saber dos conselheiros se dá através de vários
mecanismos, como o inquérito, utilizando entrevistas, visitas
domiciliares, conversas com vizinhos e observações dos comportamentos
dos membros das famílias, em casa ou em locais públicos; as escolas
também são fontes de informações. Todo saber que um conselheiro
produz perfaz um conjunto com uma rede de “informantes”. A partir do
momento em que o Conselho Tutelar é acionado, uma série de processos
é encadeada, legitimando as ações dos conselheiros.
Estes não agem sozinhos: é preciso que outras instituições ou que os
vizinhos daqueles sobre os quais recaem as denúncias os ajudem na
construção de seus saberes para legitimar suas intervenções. Muitas
vezes, um discurso psicologizante ou até mesmo moralizante atravessa
a fala do conselheiro. Pautado no ECA, o discurso jurídico dá igualmente
o suporte legal para as intervenções do Conselho.
Como são formados os saberes dos conselheiros? Por quais “regimes
discursivos” organizam seus saberes e quais discursos os atravessam e
os compõem? Como se dão as relações de poder, nas práticas dos
conselheiros, e como tais relações produzem saber?
Análise das práticas dos Conselheiros Tutelares
Neste item, serão examinados os relatos obtidos de uma amostra
aleatória simples dos arquivos produzidos pelos Conselheiros Tutelares,
em dois municípios do interior paulista.
131Jeyson Muruyama | Andressa Monteiro | Priscila Souza | Flávia Lemos
Afirma Donzelot (1986) que os saberes psiquiátricos e psicanalíticos
ajudam a desenvolver o processo de tutela das famílias pelos
trabalhadores sociais, normalizando as condutas das pessoas, suas
relações, a família e a criança. Pode-se observar esse aspecto na fala de
uma conselheira, ao relatar que a mãe de uma dada criança parecia
não ser normal, destacando: “[ela] não consegue organizar a casa
porque sofre de alguma deficiência, pois é lenta mentalmente” (Doc.
1). Assim, fora encaminhada para tratamento no Departamento de Saúde
Mental do município, visto que “não tem conseguido cuidar dos filhos,
pois vem apresentando comportamento estranho” (Doc. 1).
O ECA preconiza, como medida aplicável aos pais ou responsáveis,
o “encaminhamento a tratamento psicológico ou psiquiátrico” (ECA,
cap. V, art. 129, item 3). É o saber psicológico com todo o seu aparato
que lhe dá suporte, como, por exemplo, uma Unidade Básica de Saúde,
sendo o local onde esse saber é aplicado e se ancora em diversas práticas,
interferindo e até guiando as práticas dos conselheiros. O ECA é um
dispositivo jurídico responsável pela integridade da vida de crianças e
jovens, com o objetivo de preservá-los enquanto cidadãos, podendo
intervir na família e outras instituições que ameacem esses “indivíduos”.
Ao mesmo tempo em que protege, entretanto, o ECA dá margem para
práticas de controle da população.
Rago (1985) salienta que, no século XIX, surge um novo modelo de
feminilidade atribuído à mãe, chamado de “esposa-dona-de-casa-mãe-
de-família”, cabendo a ela a responsabilidade pela organização da casa
e higiene. Também no século XIX, aliada ao médico, a mãe burguesa
adquire um novo poder, o de controlar sua família,deixando esta mais
higienizada e organizada (DONZELOT, 1986).
Juntamente com o discurso médico e higienista, entram mecanismos
de controle que atuam como processos de subjetivação, moldando os
comportamentos segundo os ideais de higiene. Esse significado dado à
mulher transcorre até a atualidade. Observa-se esse modelo se reproduzir,
na fala de outro conselheiro:
[...] quanto à desorganização da casa, este Conselho compreende
a dificuldade que a genitora (sic) enfrenta para se organizar,
percebendo que a mesma sofre de algumas deficiências, [...] é um
problema que se torna difícil de solucionar, visto que a família não
tem como acomodar seus pertences, pois faltam móveis,
ocasionando a má organização da casa. (Doc. 2).
132 PRÁTICAS DE CONSELHOS TUTELARES EM DOIS MUNICÍPIOS ...
É interessante notar que, mesmo o conselheiro reconhecendo as
dificuldades materiais pelas quais a família passa, ele responsabiliza a
mãe pela desorganização. Em outros arquivos analisados, há uma
excessiva cobrança na prática dos conselheiros tutelares com respeito
às mães, que são culpadas pelo não cuidado e zelo da casa. Essa
culpabilização desencadeia todo um processo de regulamentação e
moralização dos hábitos daquela família: “[...] apesar dela estar bem,
precisa aprender a ser mais higiênica” (Doc. 03), de acordo com um
conselheiro, ao visitar a casa da mãe de uma criança atendida.
Paralelamente com saberes acerca dos ideais de higiene, mecanismos
de controle são acionados, modulando subjetividades e atuando como
práticas de subjetivação.
Outro relato em que é dada visibilidade às condições de higiene da
casa foi encontrado em um arquivo, no qual uma das causas de
notificação fora o cuidado com a higiene. O Conselho Tutelar procedeu
solicitando uma vistoria técnica da vigilância sanitária, a qual relata
que o quintal estava sujo, os cães soltos no corredor, fezes eram jogadas
em um pequeno espaço de terra onde as crianças brincavam, e a cozinha
se encontrava desorganizada e suja (Doc. 04). Não havia, na pasta,
outros registros além deste, de sorte que não se pode saber a respeito do
desfecho do caso.
Em outro arquivo, é interessante notar como é descrito um
encaminhamento:
[...] a mãe se comprometeu diante desta conselheira a cuidar de
seus filhos, a trabalhar e deixá-los na creche, visando proteção
integral das crianças. Compreendeu também que este Conselho
Tutelar passará a acompanhá-la através de visitas para orientá-la
e ajudá-la no que for possível. (Doc. 03).
Neste caso, é atribuído à mãe, como enfatiza Rago (1985), o papel
de cuidadora da família.
Há também um processo de tutela sobre uma mulher, a qual é
pressionada a se submeter a um tratamento para alcoolistas de uma
Unidade Básica de Saúde, caso não quisesse perder a guarda dos filhos.
O ECA dá sustentação à questão de auxílio aos pais alcoolistas e usuários
de drogas, para encaminhamento a medidas de tratamento, “inclusão
em programa oficial ou comunitário de auxílio, orientação e tratamento
a alcoólatras e toxicômanos.” (ECA, cap. V, art. 129, item 2). É o discurso
133Jeyson Muruyama | Andressa Monteiro | Priscila Souza | Flávia Lemos
médico-jurídico, embasado no ECA, sustentando as práticas dos
conselheiros.
O saber dos conselheiros é igualmente construído através de uma
rede de “informantes”, composta por familiares, vizinhança ou
qualquer pessoa da comunidade. Há um caso em que o conselheiro
conversou com a sogra de uma mulher sobre a qual recaía a suspeita
de ter espancado a filha. Informou a sogra que os pais da nora sempre
a haviam espancado com vara, e que esta, por conseguinte, também
batia com vara na filha. (Doc.05). Em outro caso, o conselheiro foi
até a casa e não encontrou a mãe; conversou com a vizinha, a qual
relatou os problemas conjugais dessa mulher, ligados ao fato de ela
beber (Doc. 06).
São nos pequenos procedimentos dos conselheiros que percebemos
as relações de poder como uma multiplicidade de correlação de força.
É o conselheiro enquanto trabalhador social, produzindo um verdadeiro
“inquérito” social; é a sogra ou a vizinha, negando ou dando a
informação ao conselheiro, que produz efeitos de poder nas famílias
sobre as quais recaem as denúncias.
Segundo Lemos (2003, p. 50), “as práticas dos conselheiros tutelares
parecem se inscrever num modo policialesco de gerir a vida das
famílias pobres, de controlar, de ameaçar e punir as pequenas ‘infâmias’
destes corpos”. Como explicita uma conselheira: “Ficou muito claro
ao casal que a posição do Conselho Tutelar é acompanhar de perto e
com firmeza a vida familiar do casal, pois a educação e os cuidados
com os filhos serão supervisionados e acompanhados por este Conselho
Tutelar” (Doc. 7).
Além disso, os comportamentos públicos da população atendida
são vigiados e policiados pelos conselheiros. É o que vimos em um
bilhete anexado em um arquivo, no qual um conselheiro declara: “Viu
[na tarde daquele dia], D. e J. B. aos beijos pela rua” (Doc. 8). Ao
observar de perto, o conselheiro tanto vigia, quanto faz uma descrição
minuciosa dos comportamentos, ao produzir enunciados baseados em
tecnologias de vigilância dos corpos.
Esse exemplo de prática nos remete ao mecanismo de poder
disciplinar que Foucault denominou como exame, o qual permite
objetivar os corpos, tornando-os dóceis e visíveis, nos diagramas de
poder-saber. Ainda é produzida toda uma documentação com arquivos
de detalhes, é um “poder de escrita” que capta os corpos e os fixa,
tornando cada indivíduo um “caso” capaz de ser controlado.
134 PRÁTICAS DE CONSELHOS TUTELARES EM DOIS MUNICÍPIOS ...
O Conselho não age a partir da família, mas através dela,
controlando a população pobre. Portanto, o termo “polícia”, atribuído
ao Conselho Tutelar, é caracterizado pela tutela e vigilância sobre as
famílias como forma de controle social.
O processo de vigilância das famílias de camadas populares parece
ter-se potencializado com a rede que os Conselhos Tutelares formaram,
interligando-se a outros estabelecimentos, como as Secretarias
Municipais, projetos sociais, escolas, “[...] uma rede que captura e
controla a vida das camadas populares em seus mínimos detalhes”
(LEMOS, 2003). Foram inúmeros os casos em que a escola encaminhava
a criança ao Conselho Tutelar com queixas referentes a problemas de
comportamento e indisciplina, ou as crianças eram redirecionadas pelo
Conselho para outros estabelecimentos.
Essa rede microfísica de poder faz com que haja uma superposição
das instituições, de forma que um espaço disciplinar remete a outro,
por meio de uma transposição de funções, isto é, as instituições perdem
suas delimitações e são atravessadas por todas as outras com as quais
mantêm intensa relação, caracterizando a Sociedade de Controle,
distinguindo-se pela modulação constante dos corpos, em que todos os
moldes tendem a estar no mesmo lugar e uma instituição é atravessada
por muitas outras.
Muitas vezes, os projetos sociais assumem o papel de tutela das
crianças e jovens com fins punitivos e de “reeducação” frente a
comportamentos não esperados pelos conselheiros.
Sobre os projetos sociais, em vários relatórios encontraram-se
registros de crianças e jovens que foram a eles encaminhados pelo
Conselho Tutelar, para ocupar-lhes o tempo ocioso e dar possibilidade
de mudança de comportamentos avaliados como indesejados pelo
Conselho, família e sociedade, como argumenta um conselheiro: “[...]
a menina é muito rebelde, e necessita de acompanhamento”, sendo
encaminhada para um projeto social (Doc. 9).
Da mesma maneira como as instituições de assistência, na França,
que emergem após a Revolução Francesa, as quais procuram “[...]
manipular aqueles sujeitos que fogem à categoria médico-jurídica de
“normalidade” e moldar sua vontade para fins precisos e socialmente
eficazes [...]” (FOUCAULT, apud CAPONI, 2000, p. 43), através de
mecanismos coercitivos, porém socialmente aceitos, esse conselheiro
parece guiar sua prática no mesmo sentido.
135Jeyson Muruyama | Andressa Monteiro | Priscila Souza | Flávia Lemos
Algumas vezes,o Conselho Tutelar assume a função que tinham as
“Lettres-de-cachet” francesas, que duraram um século e que, segundo
Foucault (1996, p. 97), asseguravam o policiamento do grupo ou grupos
– paroquiais, familiares, religiosos – por eles mesmos, como observamos
acima. É o que analisamos em um relato em que a mãe acionou o
Conselho Tutelar, para “ajudar a conter a filha, esta não obedece ninguém
e sai a hora que quer” (Doc. 10). Como a mãe não consegue conter um
membro de sua família, ela pede para o Conselho Tutelar intervir. É o
que Ewald (1993) chama de “servidão voluntária”, em que o sujeito
toma para si as coerções do poder dos quais é investido e faz “[...] de
tudo aquilo que uma vontade quiser o princípio da sua própria servidão
[...]”, p. 53.
Nos arquivos pesquisados, o atendimento realizado pelos
conselheiros tutelares tenta garantir a justiça social, porém, realiza
julgamentos individuais. Eles culpabilizam as famílias por determinadas
situações de risco às quais estavam submetidas as crianças e os jovens.
Nesse sentido, tais práticas possuem uma abrangência em escala micro
e macroimanente, dirigidas à família, abrangendo a sociedade, as
relações políticas, além de limitadores econômicos, sociais e culturais.
A posição do conselheiro já é um local estratégico de relações de
poder; para ocupá-la, o ECA prevê alguns pré-requisitos: “Art.133 para
a candidatura a membro do Conselho Tutelar, serão exigidos os seguintes
requisitos: I reconhecida idoneidade moral; II idade superior a 21 anos;
III residir no município.” Assim, não é qualquer pessoa que poderá
intervir nas famílias.
Por intermédio da produção de seus saberes, os conselheiros, por
aquilo que sabem sobre a população, dão encaminhamentos que afetarão
vidas, relações de poder que mudarão os caminhos seguidos até então
por aquelas pessoas. Discursos produzidos dos mais diversos campos
entrelaçam-se para a finalidade das práticas dos conselheiros. Suas
falas, seus relatos mostram as variadas combinações que são operadas
em seus discursos.
Mostrando-nos suas emergências, os discursos dos conselheiros, em
suas formas finais, aparentam uma ilusória unidade, mas, ao desmontá-
los, tendo em vista certos enunciados neles imbricados, pudemos elucidar
como, apesar de heterogêneos, os variados discursos que formam seus
saberes são costurados tal qual uma colcha de retalhos, que, somente de
modo forçado, podem se acomodar uns aos outros. Em decorrência,
procedemos à nossa análise, explicitando a proveniência de cada um destes.
136 PRÁTICAS DE CONSELHOS TUTELARES EM DOIS MUNICÍPIOS ...
Contudo, as famílias não são objetos passivos, à espera de
intervenção, pois há o que Foucault chama de resistências,
contrapoderes. Num registro encontrado, a Secretaria da Educação,
devido ao não comparecimento de uma criança ao atendimento oferecido
pela APAE (Associação de Pais e Amigos do Excepcional), convoca a
mãe a comparecer ao Conselho Tutelar. Ela se justifica, alegando má
qualidade do atendimento oferecido. O procedimento do conselheiro
foi promover visitas à casa e intermediar a relação da mãe com a APAE
(Doc. 11).
Em nenhum momento do relato, há um questionamento da
qualidade dos serviços oferecidos pela instituição em questão, recaindo
sobre a mãe a deficiência do tratamento, não lhe conferindo autonomia
para ela escolher qual seria a melhor forma de criar sua filha. Porém,
a mãe se coloca numa posição de questionamento, não acatando a
decisão do Conselho sobre qual o melhor modo de cuidar de sua filha.
Num outro relatório, há registros de um caso em que a mãe não
permite o controle total de sua vida. O Conselho Tutelar tenta inúmeras
vezes fazer com que ela passe por um tratamento para alcoolistas,
entretanto, ela resiste e, embora o Conselho intervenha por alguns meses
nessa família, a mãe não se submete ao tratamento (Doc. 12).
Propusemo-nos, no início do trabalho, dentre outras coisas,
analisar os focos de resistência que indicassem outros caminhos a serem
criados, porém, nossos olhares sobre os relatórios pesquisados não
puderam dar visibilidade a tais acontecimentos, por pouco aparecerem
nos enunciados da amostra selecionada. Foucault (1988) afirma que as
resistências, muitas vezes, são imperceptíveis, justamente por serem
difusas.
Por isso, seria necessário, para conseguirmos dar visibilidade a tais
resistências, mecanismos mais refinados, como entrevistas com a
população atendida ou com os próprios conselheiros. Há limitações,
quando se utiliza apenas a metodologia de análise de documentos, em
uma pesquisa – além de que o documento é monumento.
O Conselho Tutelar e suas práticas: ressonâncias
O ECA surge como efeito de lutas pela democratização do país, de
sorte que sua conformação final abarca “[...] mecanismos da democracia
representativa, da democracia direta e do corporativismo [...]”
(BOTELHO, 1993, p. 148). Portanto, interesses heterogêneos de diferentes
137Jeyson Muruyama | Andressa Monteiro | Priscila Souza | Flávia Lemos
segmentos da sociedade brasileira se confrontaram, para sua confecção.
Muitos atores desses segmentos vinham empreendendo uma luta contra
a tutela exercida pelo Estado, imposta a partir de 1964, e não aceitavam
a suspensão de certos direitos civis, políticos e sociais.
Assim, como afirma Coimbra (1994, p. 01-08), a maioria dos
brasileiros não exerce efetivamente a cidadania, pois não usufruem os
seus direitos civis, políticos, de moradia, salários dignos, saúde,
educação, alimentação e segurança. Em vários arquivos, encontramos
registros das famílias passando pelo Conselho Tutelar para conseguirem
auxílio em questões do acesso à saúde, alimentação e educação, direitos
garantidos pelo ECA a todas a crianças e jovens: “A criança e o adolescente
têm direito à proteção, à vida e à saúde, mediante a efetivação de
políticas sociais públicas que permitam o nascimento e o
desenvolvimento sadio e harmonioso, em condições dignas de existência”
(ECA, cap. I, art. 7º). E, ainda, “a criança e o adolescente têm direito à
educação, visando ao pleno desenvolvimento de sua pessoa, preparo
para o exercício da cidadania e qualificação para o trabalho [...]”
(ECA, cap. IV art. 53).
As políticas assistenciais e sociais das iniciativas privadas,
associações e ONGs, juntamente com as governamentais, perpetuam as
práticas de gestão da população, submetendo-a a normalizações. A
proteção, aliada à prevenção preconizada no ECA, tende a associar-se
ao controle.
O ECA, ao prever que o Conselho deverá “promover a execução
de suas decisões, podendo para tanto: a) requisitar serviços públicos na
área de saúde, educação, serviço social, previdência, trabalho e
segurança [...]” (art. 136, cap. II), parece ter potencializado a vigilância
e o controle, através das ações dos Conselhos, ao tecer verdadeiras
redes entre os serviços públicos, as quais capturam os corpos e os fazem
entrar num circuito de controle.
Considerações finais
Os saberes dos conselheiros tutelares revelam uma heterogeneidade
de proveniências. Vindos dos mais diversos locais, da Psicologia, do
campo do Direito, das escolas, dos “informantes”, esses saberes
acomodam-se uns aos outros para as ações dos conselheiros. Suas ações,
pautadas nesses conhecimentos, interferem na vida das pessoas e as
marcam. As relações de poder exercidas nas práticas dos conselheiros
138 PRÁTICAS DE CONSELHOS TUTELARES EM DOIS MUNICÍPIOS ...
geram efeitos de mecanismos de controle como processos de
subjetivação, os quais tentam modular comportamentos conforme ideais
pré-estabelecidos, como ideais de higiene, família, ou o papel da mulher.
O Conselho Tutelar participa da produção e manutenção de uma
rede de relações de poder que captura os corpos e os submete. Atravessado
por inúmeras outras instituições e, por outro lado, atravessando-as
também, o Conselho insere-se nos diversos mecanismos que compõem o
que Deleuze chamou de Sociedade de Controle. Os corpos são submetidos
a infindáveis modulações vindas das instituições disciplinares, que já
não possuem delimitações definidas. Seusmuros foram rompidos e seus
mecanismos disciplinares difundiram-se na sociedade, por meio da
sobreposição de funções das instituições. A escola, que não tem apenas a
função de educar, mas também de profissionalizar; a família, que é
atravessada pelo discurso da escola, através da televisão; o Conselho
Tutelar, com as “multifunções” – pedagógicas, jurídicas, moralizantes.
Muitas vezes, vimos a própria população pedir a intervenção do
Conselho, para conter um de seus membros. É um pedido que incita
formas de controle do grupo pelo próprio grupo, caracterizando a rede
de poder que atravessa a comunidade.
Percebemos a importância do ECA, na ação dos conselheiros. Esse
Estatuto é um agenciamento de forças que compilam um ideal de infância
e juventude, além de ser igualmente uma mobilização de segmentos da
sociedade para sua implantação e a utilização de órgãos e aparelhos
para sua aplicação e desenvolvimento; assim, são os Conselhos Tutelares
órgãos que funcionam como agentes fiscalizadores pelo cumprimento
de propostas do ECA.
Também nos arquivos, percebemos o uso ainda do termo “menor”,
em inúmeras falas dos conselheiros. O ECA, para evitar a depreciação
que o termo veicula, o substituiu por “criança” e “adolescente”, no intuito
de fazer com que as crianças e adolescentes sejam considerados “sujeitos
de direito” e não mais tratados como sujeitos passivos.
A genealogia é um saber perspectivo, local, regional e que tem
consciência disso; nesse sentido, ela afirma a posição política que
assume. Entendemos, pois, que a relevância deste trabalho perpassa
não apenas pelas interrogações que dispara, mas porque pode compor
outras ressonâncias nas práticas instituídas pelos conselheiros. Dessa
maneira, propusemos aos conselheiros, ao final da pesquisa, que
voltássemos e utilizássemos nosso trabalho como material para
discussões, o que foi aceito e acordado.
139Jeyson Muruyama | Andressa Monteiro | Priscila Souza | Flávia Lemos
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