Prévia do material em texto
ANTROPOLOGIA TEOLÓGICA CURSO DE BACHARELADO EM TEOLOGIA - EAD Disciplina: Antropologia Teológica – Prof. Dr. Pe. Helción Ribeiro Vivo e moro em Curitiba. Tenho três amores: sou professor, padre e escritor. Dou aulas de teologia. Sistemática. Lecionei em Florianópolis, São Paulo e Curitiba. Como padre, trabalhei em Lages (SC), Florianópolis e atualmente em Curitiba (Paróquia Sagrados Corações de Jesus e Maria). Como autor, publiquei vários livros quase todos de Antropologia Teológica. Os principais são: Ensaio de antropologia cristã (Vozes); Condição humana e solidariedade cristã (Vozes); Quem somos? Donde viemos? Para onde vamos (Vozes); A realização de nosso Deus e a do homem (Loyola); Teologia da religiosidade popular latino-americana (Paulus). Também tenho escrito muitos artigos de teologia. No momento estou escrevendo outro livro versando sobre o tema Antropologia Teológica. Como estudo, fiz graduação de filosofia, pedagogia e teologia. Fiz também mestrado e doutorado em missiologia, e pós-doutorado em Antropologia Teológica. Hoje sou professor de cristologia, escatologia e, lógico, Antropologia Teológica, no Studium Theologicum (Curitiba). e-mail: helcionribeiro@hotmail.com ANTROPOLOGIA TEOLÓGICA Guia de Disciplina Caderno de Referência de Conteúdo Prof. Dr. Pe. Hélcion Ribeiro. © Ação Educacional Claretiana, 2010 – Batatais (SP) Trabalho realizado pelo Centro Universitário Claretiano de Batatais (SP) Curso: Bacharelado em Teologia Disciplina: Antropologia Teológia Versão: abr./2010 Reitor: Prof. Dr. Pe. Sérgio Ibanor Piva Vice-Reitor: Prof. Ms. Pe. Ronaldo Mazula Pró-Reitor Administrativo: Pe. Luiz Claudemir Botteon Pró-Reitor de Extensão e Ação Comunitária: Prof. Ms. Pe. Ronaldo Mazula Pró-Reitor Acadêmico: Prof. Ms. Luís Cláudio de Almeida Coordenador Geral de EAD: Prof. Artieres Estevão Romeiro Coordenador do Curso de Bacharelado em Teologia: Prof. Ms. Pe. Vitor Pedro Calixto dos Santos Coordenador de Material Didático Mediacional: J. Alves Preparação Aletéia Patrícia de Figueiredo Aline de Fátima Guedes Camila Maria Nardi Matos Carolina Nascimento Raymundini Dandara Louise Vieira Matavelli Elaine Aparecida de Lima Moraes Elaine Cristina de Sousa Goulart Lidiane Maria Magalini Luciana A. Mani Adami Luis Henrique de Souza Luiz Fernando Trentin Patrícia Alves Veronez Montera Rosemeire Cristina Astolphi Buzelli Simone Rodrigues de Oliveira Revisão Felipe Aleixo Isadora de Castro Penholato Maiara Andréa Alves Rodrigo Ferreira Daverni Vanessa Vergani Machado Projeto gráfico, diagramação e capa Eduardo de Oliveira Azevedo Joice Cristina Micai Lúcia Maria de Sousa Ferrão Luis Antônio Guimarães Toloi Raphael Fantacini de Oliveira Renato de Oliveira Violin Tamires Botta Murakami Wagner Segato dos Santos Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução, a transmissão total ou parcial por qualquer forma e/ou qualquer meio (eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia, gravação e distribuição na web), ou o arquivamento em qualquer sistema de banco de dados sem a permissão por escrito do autor e da Ação Educacional Claretiana. Centro Universitário Claretiano Rua Dom Bosco, 466 - Bairro: Castelo Batatais SP – CEP 14.300-000 cead@claretiano.edu.br Fone: (16) 3660-1777 – Fax: (16) 3660-1780 – 0800 941 0006 www.claretiano.edu.br SUMÁRIO GUIA DE DISCIPLINA 1 APRESENTAÇÃO ................................................................................................VII 2 DADOS GERAIS DA DISCIPLINA ..........................................................................VII 3 CONSIDERAÇÕES ............................................................................................ IX 4 BIBLIOGRAFIA ................................................................................................. IX 5 REFERÊNCIA COMPLEMENTAR ............................................................................. X CADERNO DE REFERÊNCIA DE CONTEÚDO APRESENTAÇÃO ............................................................................................... 1 INTRODUÇÃO À DISCIPLINA AULA PRESENCIAL ............................................................................................ 2 UNIDADE 1 – ANTROPOLOGIA TEOLÓGICA, QUESTÕES INTRODUTÓRIAS 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................. 4 2 DIVERSIDADE DA ANTROPOLOGIA E CONCEPÇÕES DE “HOMEM” ............................ 4 3 HISTÓRIA DA ANTROPOLOGIA TEOLÓGICA .......................................................... 6 4 IDENTIDADE DA ANTROPOLOGIA TEOLÓGICA ...................................................... 6 5 ANTROPOLOGIA TEOLÓGICA OU CRISTÃ? ............................................................ 8 6 CONSIDERAÇÕES ............................................................................................ 8 7 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ......................................................................... 9 8 E-REFERÊNCIAS ............................................................................................... 9 UNIDADE 2 – O SER HUMANO ENTRE CONCEITO, DESCRIÇÕES E COMPARAÇÕES 1 INTRODUÇÃO ................................................................................................... 12 2 DESCRIÇÃO CONCEITUAL DE ”HOMEM” ............................................................... 12 3 “A PESSOA” OU O “SER HUMANO” ....................................................................... 13 4 O SER HUMANO ENTRE COMPARAÇÕES ............................................................... 14 5 ANTROPOCENTRISMO ........................................................................................ 15 6 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ......................................................................... 16 7 E-REFERÊNCIAS ............................................................................................... 16 UNIDADE 3 – IDENTIFICAÇÃO DO SER HUMANO À LUZ DA REVELAÇÃO 1 INTRODUÇÃO ................................................................................................... 18 2 IDENTIFICAÇÃO CRISTOLÓGICA DO SER HUMANO ................................................ 18 3 SOMOS “NOVAS” CRIATURAS EM CRISTO ............................................................. 19 3 SOMOS FILHOS DE DEUS EM CRISTO ................................................................. 22 4 FRATERNIDADE UNIVERSAL EM CRISTO .............................................................. 23 5 ANTROPOLOGIA DO ANTIGO TESTAMENTO ........................................................... 24 6 A PESSOA HUMANA ........................................................................................... 29 7 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ......................................................................... 30 8 E-REFERÊNCIAS ............................................................................................... 31 UNIDADE 4 – DESTINAÇÃO FINAL 1 INTRODUÇÃO ................................................................................................... 34 2 DESTINAÇÃO FINAL, VOCAÇÃO HUMANA ............................................................. 34 3 NOSSA VOCAÇÃO TRANSCENDENTE: FILHOS, IRMÃOS E SENHORES ...................... 37 4 NOSSAS VOCAÇÕES HISTÓRICAS ....................................................................... 39 5 CONSIDERAÇÕES ........................................................................................... 41 6 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ........................................................................ 42 7 E-REFERÊNCIAS ............................................................................................... 42 UNIDADE 5 – COMPREENSÃO DA ORIGEM HUMANA 1 INTRODUÇÃO ................................................................................................... 44 2 CONCEITOS E SIGNIFICADOS DA ORIGEM HUMANA .............................................. 44 2 CRIAÇÃO NA BÍBLIA ..........................................................................................45 4 EXPLICAÇÕES DAS CIÊNCIAS NATURAIS (A EVOLUÇÃO) ........................................ 51 5 LUGAR DE DEUS CRIADOR-SALVADOR NA EVOLUÇÃO ............................................ 52 6 DIGNIDADE DO SER HUMANO ............................................................................ 53 7 CONSIDERAÇÕES ............................................................................................ 56 8 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS COMPLEMENTARES .............................................. 56 9 E-REFERÊNCIAS ............................................................................................... 57 UNIDADE 6 – O SER HUMANO E SUA “AUTONOMIA” 1 INTRODUÇÃO ................................................................................................... 60 2 QUESTÃO DA UNIDADE E DIMENSÕES DA PESSOA HUMANA .................................. 60 3 O SER HUMANO DIANTE DE DEUS ....................................................................... 61 4 O SER HUMANO “CONTRA” DEUS ....................................................................... 68 5 O SER HUMANO EM SUA AUTONOMIA .................................................................. 74 6 CONSIDERAÇÕES ............................................................................................ 79 7 CONSIDERAÇÕES FINAL .................................................................................... 80 8 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ......................................................................... 81 9 E-REFERÊNCIAS ............................................................................................... 81 Versão para impressão econômica G U IA D E D IS C IP L IN A 1 APRESENTAÇÃO É um prazer encontrar você nesta disciplina Antropologia Teológica, que compõe seu curso Bacharelado em Teologia, na modalidade EAD. Seja bem-vindo! Com esta disciplina, queremos ajudá-lo a criar o hábito de pensar o ser humano na sua totalidade, como um ser amado por Deus, feito irmão de todos os outros por meio de Jesus Cristo e com uma destinação certa: viver em Deus. À medida que você compreender-se a si e aos outros (isto é antropologia), com os olhos de Deus (isto é teologia), então será capaz de perceber o valor humano na sua real situação, ou seja: qual o significado de cada vida humana, vista por Deus e pelos cristãos. Isso lhe dará um referencial muito grande para você sentir-se pessoalmente e aos outros, como Deus os quer conhecer e amar. A Antropologia Teológica é realmente algo empolgante, sobretudo, se você não se limitar à leitura do Caderno de referência de conteúdo. Para valer à pena, convido-o a ler as indicações dos outros textos citadas, observar as pessoas (o outro) como Deus as observa, e estabelecer critérios de viver e agir, a partir de Jesus Cristo. Aproveite, pois esta é uma disciplina muito empolgante. Aproveite bem seus estudos. 2 DADOS GERAIS DA DISCIPLINA Ementa Antropologia cristã sobre o ser humano à luz de Cristo. Cotidiano humano: construído na grandeza e na fragilidade, entre alegrias, esperanças, pecado e graça. Identificação da vida humana só é real (para quem crê) quando lida à luz da revelação, a qual percebe a pessoa humana como imagem de Deus, feita nova criatura, em Cristo, por sua elevação à filiação divina. De sua vocação última, decorrem os significados da liberdade, esperança, graça, história, cultura, pecado, mal etc. Compreensão da origem (criação) em Deus na qual fica estabelecida a dignidade e a proeminência humana sobre toda a realidade histórica e que a distingue dos outros seres criados, sejam cósmicos, espirituais ou do sócio-ambiente. A Antropologia Teológica: como um proprium que nenhum outro conhecimento (mesmo nas mais diversas antropologias) pode proporcionar. Objetivo geral Os alunos de Antropologia Teológica do curso de Bacharelado em Teologia, na modalidade EAD do Claretiano, dado o Sistema Gerenciador de Aprendizagem e suas ferramentas, serão capazes de usar critérios teológicos para identificar o ser humano, desde suas origens (criação/evolução) até sua destinação final em Deus, ao aprofundar questões de sua identidade (filho, irmão e senhor) e a historicidade humana (ser de esperança e livre, capaz do bem e do mal e da construção da cultura pelo trabalho). Com esse intuito, os alunos contarão com recursos técnico-pedagógicos facilitadores de aprendizagem, como Material Didático Mediacional, bibliotecas físicas e virtuais, ambiente virtual e acompanhamento do tutor complementado por debates no Fórum e na Lista. GUIA DE DISCIPLINA CRC • • • © Antropologia Teológica Claretiano – BatataisVIII Bacharelado em Teologia Versão para impressão econômica Ao final desta disciplina, de acordo com a proposta orientada pelo tutor, os alunos terão condições de interagir com argumentos contundentes, além de dissertar com comparações e demonstrações sobre o tema estudado nesta disciplina, elaborar um resumo, ou uma síntese, entre outras atividades. Para esse fim, levarão em consideração as ideias debatidas na Sala de Aula Virtual, por meio de suas ferramentas, bem como o que produziram durante o estudo. Objetivos específicos Precisar o significado da antropóloga teológica.• Considerar as verdades da fé sobre o ser humano a partir de novos problemas • e novas categorias teológicas. Identificar o significado teológico do ser humano na criação. • Identificar, à luz da fé cristã, o ser humano como filho, irmão e senhor. • Estabelecer critérios para compreender questões relativas à criação, a evolução • e destinação humana. Analisar teologicamente a identidade humana, desde a história a cultura e o • trabalho. Elaborar razões teológicas sobre a dignidade humana.• Interpretar o significado teológico do “homem novo” em Cristo. • Competências, habilidades e atitudes Ao final deste estudo, os alunos do curso de Bacharelado em Teologia contarão com uma sólida base teórica para fundamentar criticamente sua prática profissional. Além disso, adquirirão não somente habilidades para cumprir seu papel nesta área do saber, mas também para agir com ética e com responsabilidade social, duas atitudes que contribuirão para sua formação integral. Modalidade ( ) Presencial ( X ) A distância Duração e carga horária A carga horária da disciplina Antropologia Teológica é de 60 horas. O conteúdo programático para o estudo das seis unidades que a compõe está desenvolvido no Caderno de referência de conteúdo, anexo a este Guia de disciplina, e os exercícios propostos constam do Caderno de atividades e interatividades (CAI). ATENÇÃO! É importante que você releia no Guia Acadêmico do seu curso as informações referentes à Metodologia e à Forma de Avaliação da disciplina Antropologia Teológica, descritas pelo tutor na ferramenta “cronograma” na Sala de Aula Virtual – SAV. ATENÇÃO! O segredo do sucesso em um curso na modalidade Educação a Distância é PARTICIPAR, ou seja, INTERAGIR, procurando sempre cooperar e colaborar com seus colegas e tutores. GUIA DE DISCIPLINA Bacharelado em Teologia © Antropologia Teológica • • • CRC Batatais – Claretiano IX Versão para impressão econômica 3 CONSIDERAÇÕES GERAIS Neste Guia de disciplina, você teve a possibilidade de encontrar informações práticas e orientações para a sua trajetória acadêmica em relação à disciplina Antropologia Teológica. Para obter maiores informações sobre a metodologia de ensino e sobre o método de avaliação, você poderá consultar o Guia acadêmico. O próximo passo será conhecer o Caderno de referência do conteúdo. Nele, estarão os conteúdos da disciplina em questão, divididos em unidades. Serão conteúdos referenciais, que se oferecem com a intenção de facilitar a compreensão da Teologia. Sugiro que você leia e estude as indicações complementares. Escreva os textos sugeridos remetendo-os no portfólio. Participe dos fóruns e observe-se a si mesmo, aos outros para ir identificando a antropologia subjacente que estáem cada um. Comece a pensar no outro como alguém à imagem de Deus e seu irmão. Aproveite a oportunidade para crescer e ampliar seu conhecimento e sua fé, pois disso depende inclusive sua própria realização pessoal. Por fim, estude, participe e comece a “fazer teologia” também. Felicidades! 4 BIBLIOGRAFIA BÁSICA COMBLIN: Antropologia Cristã. Col. Teologia e Libertação. Petrópolis: Vozes, 1985. FEINER, Johanner; LOEHRER, Magnus. Mysterium Salutis. Compêndio de Dogmática História Salvífica. II/3. A história salvífica antes de Cristo 3. Antropologia Teológica. Petrópolis: Vozes, 1980. GARCIA RUBIO, Alfonso. Unidade na pluralidade. O ser humano à luz da fé e da reflexão cristã. São Paulo: Paulus, 2001. GESCHE, Adolphe. O ser humano. São Paulo: Paulinas, 2003. LADARIA, Luis A. Introdução à antropologia. São Paulo: Loyola, 1998. RIBEIRO, H. Quem somos? Donde viemos? Para onde vamos. Antropologia Teológica. Petrópolis: Vozes, 2007. _______. Ensaio de antropologia cristã. Da imagem à semelhança com Deus. Petrópolis: Vozes, 1995. RUIZ DE LA PEÑA, Juan L. O dom de Deus. Antropologia Teológica. Petrópolis: Vozes, 1995. ______. Imagem de Dios. Antropologia Teológica fundamental. Santander: Sal Terrae, 1988. GUIA DE DISCIPLINA CRC • • • © Antropologia Teológica Claretiano – BatataisX Bacharelado em Teologia Versão para impressão econômica 5 BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR BRAKEMEYER, Gottfried. O ser humano em busca de identidade. Contribuições para uma antropóloga teológica. São Leopoldo: Sinodal. São Paulo: Paulus, 2002. GRELOT, P. Homem, quem és. São Paulo: Edições Paulinas, 1982. RIBEIRO, H. Condição humana e solidariedade cristã. Petrópolis: Vozes, 1998. SEGUNDO, Juan Luis. Que mundo? que homem? que Deus? Aproximações entre ciência, filosofia e teologia. São Paulo: Paulinas, 1995. TENACE, Michelina. Para uma antropologia de comunhão. Da imagem à semelhança. A salvação e a divinização. Bauru: São Paulo: Edusc, 2005. SUSIN, Luiz Carlos. A criação de Deus. São Paulo: Paulinas, Valência/Esp. Siquem, 2003. Versão para impressão econômica C A D E R N O D E R E F E R Ê N C IA D E C O N T E Ú D O Muito bem-vindo ao estudo da Antropologia Teológica. Nossa disciplina está disponível em seu ambiente virtual (SGA-SAV). No Guia da disciplina foi indicado que você encontraria neste Caderno de Referência de Conteúdo o referencial teórico, dividido em seis unidades de nosso estudo. O roteiro proposto oportuniza a você construir seus conhecimentos, primeiramente, sobre o contexto da própria Antropologia Teológica. Em seguida, ao introduzir e aprofundar o conceito de pessoa humana, você se encontrará com ela no cotidiano e à luz da revelação cristã. Um problema fundamental hoje, diante das ciências, que necessita aprofundamento, é a questão das origens (criação ou evolução). A Antropologia Teológica também se preocupa com o sentido de nossa vida e destinação final. Por fim, você estudará ainda três grupos de três questões: diante de Deus (esperança, liberdade e graça), contra Deus (o mal, o pecado e a morte), e na vida (história, cultura e trabalho). Este estudo quer auxiliá-lo a pensar outras questões humanas. Recursos e apoio logístico, além do tutor, estão à sua disposição, a fim de que seu estudo seja mais proveitoso e aprofundado. Espero satisfazer suas expectativas e, no decorrer do estudo, eu lhe apresentarei algumas provocações. Participe e estude. Eu lhe desejo boa caminhada! APRESENTAÇÃO Versão para impressão econômica IN T R O D U Ç Ã O À D IS C IP L IN A AULA PRESENCIAL Objetivos Estabelecer interação com os participantes do curso e • com o tutor, tendo em vista o necessário fortalecimento do vínculo inicial para a construção do processo de aprendizagem na modalidade EAD. Analisar e discutir os temas explicitados na disciplina • Antropologia Teológica. Conteúdo Programa para o desenvolvimento da disciplina.• U N ID A D E 1ANTROPOLOGIA TEOLÓGICA, QUESTÕES INTRODUTÓRIAS Objetivos Identifi car o “proprium” da Antropologia Teológica.• Identifi car as grandes etapas históricas da antropologia.• Relacionar Antropologia Teológica e antropologia • cristológica. Conteúdos Diversidade das antropologias e das concepções de • “homem”. Desenvolvimento da Antropologia Teológica.• Identidade da antropologia.• Signifi cado da Antropologia Teológica ou cristã. • CRC • • • © Antropologia Teológica Claretiano – Batatais4 Bacharelado em Teologia Versão para impressão econômica UNIDADE 1 1 INTRODUÇÃO Antes de iniciar seu estudo sobre a Antropologia Teológica, você está desafiado a responder-me algumas questões: O quea) você entende por “homem”? Seria melhor perguntar: quem é o homem? Homem pessoa e ser humano são sinônimos? Ou assinalam alguma b) diferença. Você conhece alguns tipos de estudo de antropologia? De que tipo ou c) enfoque? Seria igual à antropologia de um biólogo e de um filósofo? A Antropologia cristã é a mesma que a Antropologia Teológica? d) Jesus Cristo foi (é) e) verdadeiro homem, como nós? Estas questões são importantes para você perceber em que campo esta disciplina se move dentro da teologia geral. E, ao mesmo tempo, prepara você para se encontrar com o ser humano real, que é também imagem de Deus. Nesta unidade, você terá oportunidade de reconhecer a história deste tema, delimitá-lo a fim de poder compreender a pessoa humana como ser histórico e como ser único, porque é assim que Deus nos vê, através de seu Filho. Gostaria de ressaltar um segundo ponto: certamente, você já se deu conta de que o ser humano, na verdade, é você, seus pais, seus familiares, seus amigos. São Maria, Pedro, José, Ana e outros mais. Cada um com sua história. Porém, para compreendê-los melhor, é necessário enquadrá-los num referencial teórico – no caso teológico. E é isto que faremos a partir de agora. Gostaria que sua atitude permanente fosse à do salmista extasiado: “Senhor, quem é o homem, para que dele vos lembreis?” (Sl 8). Bom trabalho! 2 DIVERSIDADE DA ANTROPOLOGIA E CONCEPÇÕES DE “HOMEM” RUIZ DE LA PEÑA, Juan L. (1988, p. 9) faz a seguinte descrição do homem: Mamífero terrestre bípede. Animal racional. Mono desnudo. Carnívoro agressivo. Máquina genética programada para a preservação de seus genes. Mecanismo homeostático equipado com um ordenador loquaz. Centro auto-programado de atividade consciente. Microcosmo alquímico. Paixão inútil. Deus vindouro. Modo finito de ser Deus. Imagem de Deus. Há aqui um variado mostruário das respostas à questão que o homem é para si mesmo. Desculpe dizer que sua enumeração poderá alongar-se interminavelmente: tal é a fragmentação de paradigmas do ser humano atualmente constatável. Das aqui aduzidas se dará cumprida razão neste livro; todas interessam à teologia, à margem de seu maior ou menor grau de plausibilidade. Bacharelado em Teologia © Antropologia Teológica • • • CRC Batatais – Claretiano 5 Versão para impressão econômica UNIDADE 1 Para a fé cristã, a pergunta sobre o ser humano é fundamental. As repostas são ainda mais. E quem tem a resposta exata e final? São muitas as pessoas que intentam responder. Foram as religiões e as filosofias que produziram os primeiros conhecimentos para dar uma resposta. Hoje, várias ciências definem o ser humano. Cada uma delas deve ter consciência de que sua definição não é uma resposta global, mas, apenas, o seu ponto de vista, tendo como referencial o campo de seu conhecimento. Assim, para a antropologia cultural, o humano é aquele que produz saberes, objetos e comportamentos socioculturais; a antropologia filosófica propõe uma exposição sistemática do que o homem deve ser em face do que é. A física ou a biologia o considera do ponto de vista biológico, na estrutura somática, nas suas relações com o ambiente, nas suas classificações raciais etc. A física, em geral, divide-se em paleontologia (tratando da origem e evolução da espécie,a partir de fósseis e da morfologia) e somatologia (trata dos aspectos físicos do homem). A arqueologia e a etnologia estudam as duas anteriores, desde a cultura antiga. A antropologia tem relações com o antropomorfismo (que consiste em apresentar-se em forma humana outros seres não-humanos considerados superiores: deuses, anjos, animais etc.) e a antroposofia (que indica a doutrina natural do conhecimento humano e do destino humano). A descrição do ser humano, como você viu, se modifica conforme é usado por uma ou outra ciência. Mas, não só. Na história, ele também varia. Veja, por exemplo, algo até chocante para nós hoje: No apogeu do império grego, não se considerava como seres humanos os a) escravos e, em certo sentido, também as mulheres e crianças. Estes não eram cidadãos. Entre os romanos, eram considerados bárbaros todos os que não eram b) cidadãos do império. Durante o império no Brasil, os negros não eram considerados humanos, só c) por causa da cor da pele. No século 15, Paulo III escreveu um documento importante declarando que d) os índios também tinham alma. O papa exigiu que espanhóis e portugueses os considerassem como seres humanos. Certos cientistas, ainda hoje, não querem tratar um embrião humano apenas e) como um feixe de moléculas. Alguns querem negar a realidade humana de alguns que nascem com grandes f) deformações genéticas ou biológicas. Algo mais complexo é a questão da dignidade humana – questão que abordaremos oportunamente. Veja como são considerados os pobres e os ricos, os das cidades e os do meio rural, os analfabetos e os estudados. A questão do ser humano é importante, pois se trata de uma realidade tão rica quanto complexa. Sua compreensão ora avança, ora retrocede conforme circunstâncias históricas, culturais ou biográficas. E isso produz uma variedade de antropologias diferentes, com visões muito díspares entre si. ATENÇÃO! Para conhecer mais este tema, confira no Documento de Puebla os n. 305-315 (2880/8) que tratam das diferentes visões sobre o homem. CRC • • • © Antropologia Teológica Claretiano – Batatais6 Bacharelado em Teologia Versão para impressão econômica UNIDADE 1 3 HISTÓRIA DA ANTROPOLOGIA TEOLÓGICA A teologia ajudou o cristianismo a compreender o ser humano como pessoa. Porém, é necessário compreender a evolução da Antropologia Teológica. Breve histórico O primeiro teólogo a propor uma reflexão sistemática da antropologia foi Gregório de Nissa, que em 379 d.C. escreveu o livro do De hominis opificio, baseado na história bíblica da criação do homem. Ele aprofundou nesta obra posições bíblicas, platônica, neo-platônica e estóica. Introduziu uma série de termos, como: criação, corpo e alma, liberdade, mal, inteligência, pensamento e sobrenatural, questões de fisiologia, ressurreição, distinção entre homem e mulher, além de outros. Muitos Santos Padres abordaram temas isolados e diversificados que hoje poderiam estar agrupados na Antropologia Teológica. Entre eles: Orígenes, Irineu, Ambrosio, Agostinho. Eles fizeram exegese bíblica da criação, abordaram também o pecado (original), a graça e a origem da alma. Um esboço importante do esquema da Antropologia Teológica só surgiu na Idade Média com Hugo de São Victor. Ele descreve, no De sacramentis christianae fidei, a criação do homem (por que e como) e seu pecado, a graça e a redenção humanas. Esta obra influenciou muito o estudo de Pedro Lombardo (Sentenças). Mais tarde, Santo Tomás de Aquino aprofundou a antropologia na Suma teológica. Após ter tratado da criação da alma, do corpo humano, comenta a criação do homem e da mulher. Em seguida aborda o “estado original”, a felicidade para a qual fomos feitos e os “habitus” bons e maus; inclui antes o pecado dos primeiros pais. A partir daí mistura problemas dogmáticos e morais. São Boaventura, no Breviloquium, estuda a criação do homem (corpo e espírito), em seguida comenta o pecado dos pais e por fim a graça. Depois do Concílio de Trento, os estudos antropológicos enfatizam a criação, o pecado, a graça (justificação e mérito). Daí ao século 19 estudou-se, sob vários aspectos, a unidade de corpo e alma, a natureza e a sobrenatural. No século 19, a antropologia apresentava em Manuais escolares (manualística), o esquema: criação, pecado e graça. Ao lado disso, começavam a surgir novas idéias que abrem um leque teológico maior. No século 20, a Antropologia Teológica tem-se direcionado crescentemente para uma antropologia cristológica e assume novos temas. Passa a ressaltar a história e a destinação humana, mais que as questões das origens. K. Rahner1, além de outros, consegue dar uma nova direção à antropologia: o fundamento cristológico – aprofundado no Concílio Vaticano II. 4 IDENTIDADE DA ANTROPOLOGIA TEOLÓGICA O ser humano é um mistério paradoxal para si mesmo. As diversas antropologias científicas são sempre limitadas aos seus campos de estudo. O próprio cristianismo não tem (1) “Karl Rahner (1904-1984) foi um dos mais importantes e dos mais originais teólogos do século passado. Influenciou decisivamente nos rumos da teologia católica, dialogou em profundidade com o pensamento contemporâneo e atuou no Vaticano II desde o início, de maneira profunda, embora nem sempre bem compreendida. A importância excessiva que se deu, então, às questões eclesiológicas e eclesiais o alijou relativamente da liderança do movimento teológico. Morreu entristecido com esse afastamento sutil. Mas seu pensamento revive hoje de maneira vigorosa, pois está centrado em Deus, na experiência de Deus. Esta sobrevive a todas as modas e tendências, mesmo teológicas e eclesiais” ATENÇÃO! Você pode aprofundar este tema em: LACORTE. Jean. Yver. Dicionário critico de teologia, verbete “antropologia”, p. 149-158; LADARIA, Luiz. F. Introdução à AT. p. 16 a 36 Bacharelado em Teologia © Antropologia Teológica • • • CRC Batatais – Claretiano 7 Versão para impressão econômica UNIDADE 1 uma única antropologia. E mesmo as antropologias teológicas têm enfoques diferentes, apesar de certos temas permanentes. Apesar disso, todas conservam sempre o patrimônio da fé; tais como a gratuita criaturidade humana à imagem de Deus, a dignidade humana e a escatológica. A diferença se dá conforme os teólogos e suas circunstâncias. Todos têm como referência normativa a Bíblia Sagrada e o ensino do Magistério. Na Antropologia Teológica, historicamente, predominaram elementos do helenismo. Hoje, para responder questões histórico-existenciais, propõem-se novos enfoques, que não se atêm exclusivamente aos problemas que a cultura contemporânea propõe. As questões fundamentais do ser humano também estão ligadas à vinculação profunda e indispensável de Deus encarnado na história. A Antropologia Teológica é uma reflexão bíblico-sistemática sobre o ser humano, conjugando fé, história e escatologia, à luz da revelação e das exigências atuais do ser humano. Ela tem um caráter dialógico e ao mesmo tempo transdisciplinar. Por isso, é feita em consonância com outros estudos teológicos, como a liturgia, a teologia dos sacramentos, a escatologia, a cristologia etc. Certos temas só podem ser concebidos transversalmente na teologia e em outras ciências, como os pertinentes à bioética (clonagem, embriologia), à psicologia, à sociologia. A antropologia para ser teologia deve respeitar sua especificidade. Ela é feita: partir da fé, da hermenêutica da féa) . Está baseada no logos (conhecimento, ciência) e na fé – que implica o modo de agir (no ethos). Por isso ela faz um discurso (logos) a partir de Deus (fé). A busca da identidade humana, a partir da Antropologia Teológica cristã, transcende a história: Deus é a prova do homem e ele foi criado para a felicidade plena - que consiste em viver em Deus. Nenhuma outra ciência pode discursar sobre estas dimensões, sob pena de extrapolarem seu objeto de estudo. A Antropologia Teológica torna-se uma palavra (logos)de fé, que a humanidade tem o direito de ouvir e se a teologia não o fizer tal discurso quem o fará? Se a Antropologia Teológica não disser sua palavra de fé, não ficará empobrecido o próprio ser humano? Adolphe Gesché2 aponta três articulações que afirmam o necessário caráter peculiar da antropologia: há em cada ser humano um caráter inviolável que provém só de Deus; 1) nada é inexorável; a fatalidade não é a ultima palavra; a fé considera 2) possível o impossível; a realidade que se vê não é a realidade toda. Há algo que há de vir. Algo 3) no ser humano só se realiza no misterioso horizonte de Deus. O específico (proprium) do discurso teológico sobre o ser humano baseia- se na fé. Quem crê, passa a agir (ethos) em consonância com a fé – que fala sobre Deus, sobre o ser humano, sobre o cosmo todo; mas a disciplina baseia-se, também, na realidade do ser humano: em sua b) historicidade e em seu cotidiano. O ser humano, já dissemos, na verdade só existe enquanto é João, Maria, Pedro, Ana e outros... A fé tem sua razoabilidade e deve ser apresentada de modo “sábio” (lógico e c) racional. É um “logos” (ciência), mas também fundada em. nasceu em 1928 em Bruxelas (Bélgica) e aí faleceu em 2003. Era doutor em Teologia e graduado em Filosofia e Letras. Além do ministério presbiterial, lecionava na Faculdade de Teologia da Universidade Católica de Louvain e foi presidente da Sociedade Teológica de Louvain. Dentre as associações das quais foi membro, estão: a Comissão Religião e Teologia no Fundo Nacional da Pesquisa Científica da Bélgica, a Academia de Ciências Religiosas (Bruxelas), a Associação Européia de Teologia Católica (Tübingen) e a Comissão Teológica Internacional (Roma)” (http://www.paulinas. org.br/loja/DetalheAutor. aspx?idAutor=7162. Acesso: mar. 2008). ATENÇÃO! Você pode completar este tema no livro de Adolphe GESCHÉ: O ser humano. São Paulo: Paulinas, 2007, p. 29-52. CRC • • • © Antropologia Teológica Claretiano – Batatais8 Bacharelado em Teologia Versão para impressão econômica UNIDADE 1 5 ANTROPOLOGIA TEOLÓGICA OU CRISTÃ? A disciplina Antropologia Teológica é um discurso lógico (logos), capaz de dar as razões da fé. Há uma corrente antiga que fundamenta seus estudos nos textos da criação, sobretudo no livro do Gênesis. Surge daí a tradição: Deus o criador é o fundamento do ser humano, criado a sua imagem e semelhança. É uma antropóloga descendente. A expressão Antropologia Teológica foi cunhada por Karl Rahner, em 1957, mesmo que no passado os temas desta disciplina estivessem já presentes em outros estudos. Depois do Vaticano II, com os textos de M. FLICK; Z. ALZEGHY (Fundamentos de uma Antropologia Teológica, 1970) tem-se tentado novas apresentações unitárias e sistemáticas de Antropológico Teológica. Muitos teólogos – católicos e/ou protestantes – preferem chamá-lo de “antropologia cristã” ou até “Antropologia Teológica cristã” por concebê-la a partir de uma estruturação cristocêntrica. O Vaticano II deu este princípio: só Jesus verdadeiramente revela o ser humano ao próprio ser humano. ASPECTOS BÍBLICOS DA Antropologia Teológica Afi rmações antropológicas da Sagrada Escritura Aspectos antropológicos 1. Defi nições fundamentais sobre o homem; Imagem e semelhança de Deus; Condição pecadora, chamada à salvação etc.; 2. A Sagrada Escritura como palavra de Deus ao homem; O homem como ser interpelado e como sócio em diálogo com Deus; 3. A Sagrada Escritura como testemunho da Palavra de Deus em linguagem humana e sobre a base de experiências históricas. Aprofundamento e transformação da idéia que o homem tem de si mesmo através da revelação divina. ASPECTOS SISTEMÁTICOS DA ANTROPOLOGÍA TEOLÓGICA Defi nição teológica de homem Afi rmação antropológica Condição criatural de homem Criatura Defi nição hamartiológica Pecador Defi nição sotereológica Redimido por Cristo Defi nição eclesiológica Membro da Igreja de Cristo Defi nição escatológica Chamado à vida eterna 6 CONSIDERAÇÕES Nesta unidade você se debruçou sobre o problema teórico da disciplina Antropologia Teológica. Por certo, terá compreendido que o estudo sobre o ser humano e Antropologia Teológica são mais complexos que parece à primeira vista. Isso tudo construiu uma história intelectual desde Gregório de Nissa e continua hoje. Para fazer Antropologia Teológica é necessário um fundamento bíblico-sistemático, a partir da fé e da história. Alguns questionam o subtítulo “teológica”, por preferirem uma qualificação mais própria do cristianismo. Você concorda com esta última afirmação? Por quê? ATENÇÃO! Você poderá discutir a adequação de uma ou outra proposta, sobretudo na Unidade 3. E, para aprofundar este tema, confira: LACORTE. Jean. Yver. Dicionário crítico de teologia. São Paulo: Paulinas/Loyola, 2004. Verbete “antropologia”, p. 149-158; LADARIA, Luiz. F. Introdução à Antropologia Teológica. p. 16 a 36 Não há, como foi dito acima, uma seqüência rígida para abordar o tema. Veja quadro de Georg LANGEMEYR in BEINERT, Wolfgang. Diccionário de teologia dogmática. Barcelona: Herder, 1990, p. 58 e 59. Bacharelado em Teologia © Antropologia Teológica • • • CRC Batatais – Claretiano 9 Versão para impressão econômica UNIDADE 1 Lembre-se também de que nossa disciplina pode ser enfocada de diferentes formas. Aqui você vai fazer um caminho onde todos os elementos da antropologia aparecem. A diferença estará na distribuição e ênfase dos temas. 7 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS GESCHÈ, Adolphe. O ser humano. São Paulo: Paulinas, 2003. LADARIA, Luiz. A. Introdução à Antropologia Teológica. São Paulo: Loyola, 1998. LACORTE. Jean. Yves. Dicionário crítico de teologia. Verbete “antropologia”. São Paulo: Paulinas – Loyola, 2004. MYSTERIUM SALUTIS. Compêndio de dogmática histórico-salvífica. A história salvífica antes de Cristo. II/3. FEINER, J.; LOEHRER, M. Antropologia Teológica. Petrópolis: Vozes, 1980. 8 E-REFERÊNCIAS Chamadas numéricas (1) “Karl Rahner - Disponível em: <http://www.paulinas.org.br>. (2) Adolphe Gesché - Disponível em: <http://www.editionsducerf.fr/html/auteur/ photos/auteur349.jpg>. Anotações Objetivos Identifi car os limites do conceito grego de “homem”.• Elaborar uma descrição sobre a pessoa humana.• Situar o ser humano, para além do antropocentrismo.• Conteúdos Descrição conceitual sobre o “homem”.• Pessoa ou ser humano.• Ser humano entre comparações.• Antropocentrismo.• O SER HUMANO ENTRE CONCEITO, DESCRIÇÕES E COMPARAÇÕES U N ID A D E 2 CRC • • • © Antropologia Teológica Claretiano – Batatais12 Bacharelado em Teologia Versão para impressão econômica UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO Você deve ter percebido que, na Unidade 1, muitas vezes usamos, quase como sinônimas as palavras: homem, ser, eu, pessoa humana. E no início daquela unidade, perguntamos se você via diferenças. Voltamos agora à pergunta: há diferenças? Responda outra vez, antes de iniciar esta unidade. Logo de início devemos dizer que vamos preferir, nesta Antropologia Teológica, as expressões: “ser” ou “pessoa humana”. A opção não é só uma questão sexista ou de linguagem politicamente correta. Há outras implicações, como logo poderemos ver. Nesta unidade, particularmente, vamos procurar entender melhor a pessoa humana, a partir de suas relações com os animais, com os outros e com Deus. Mas, devemos, nesses tempos de tanto interesse pelo ecossistema, evitar todo antropocentrismo. É um tema interessante! Aproveite! 2 DESCRIÇÃO CONCEITUAL DE ”HOMEM” Concepção grega de “homem” Na cultura contemporânea, a palavra “homem” é a mais usual. Ela tem origem na tradução do termo grego “anthropos”, que é diferente de “andros” (ser do sexo masculino, contraposto a “gineo” - ser do sexo feminino). Atrás da palavra “homem” vem uma pesada carga cultural do helenismo, que denota o individuo, um “ser autocentrado”, um “microcosmo” onde vale a idéia de natureza concentrada e suas qualidadesde imutabilidade, universalidade, intemporalidade. A idéia do homem é algo ontologicamente relevante. Não o é a sua realização num ser concreto, singular, histórico. A terminologia grega privilegia categorias de essência, substancia e natureza, e não reconhece o valor do ser humano como realidade única e irrepetível, capaz de se relacionar com outros também únicos e irrepetíveis. Também no mundo intelectual grego foi fortificada a reflexão do homem como um ser composto de corpo e alma. A alma é uma presença do divino que transcende o tempo e é imortal, capaz – segundo alguns – de espiritualizar a matéria (o corpo). Tal microcosmo não tem um caráter pessoal, mas, um ser em si, que constrói em si mesmo sua dimensão divina, falta-lhe o valor da alteridade (do outro). Por fim, a concepção grega se concentrou na racionalidade e define o homem como um ser essencialmente racional e reforça a idéia de que tudo fora do sujeito se torna objeto a ser usado e manipulado. Sugiro que agora você, saindo à rua faça um exercício: olhe par cada pessoa que passa por você e a imagine como um ser em si mesmo (fechada e completa em seu mundo), imagine a com uma alma ligada a seu corpo, e seu valor sentido na racionalidade. Depois pense de modo diferente: aquele que vai ali tem pai e mãe, talvez irmãos, esposa, filhos, trabalho, em tal ou qual lugar, ama, sofre e depende dos outros. Na verdade, você estará construindo um conceito de pessoa como relação. ATENÇÃO! Talvez você tenha se espantado com a “violenta” crítica ao conceito grego de homem e imaginado que tal palavra “simples” pudesse conter tantos outras idéias. Bacharelado em Teologia © Antropologia Teológica • • • CRC Batatais – Claretiano 13 Versão para impressão econômica UNIDADE 2 3 “A PESSOA” OU O “SER HUMANO” Você percebeu que um conceito pode determinar seu modo de ser e de se relacionar com as pessoas. Estas são reais. Elas têm um nome, uma historia pessoal. E você – porque crê – sabe que Deus tem uma relação profunda com ela. A estas alturas você sabe que não se deveria perguntar: “o que é o homem?”, nem “quem é o homem?”. No primeiro caso, você transformaria o “homem” num objeto (o quê?); mas, no segundo, você o isola para falar dele em si mesmo. Então, a pessoa ou o ser humano são expressões que você deveria atribuir a todos os humanos. Nós somos seres relacionais. Temos uma subjetividade própria, uma história pessoal, somos filhos a imagem de Deus criador, irmãos de Jesus Cristo etc. Você poderia identificar, agora, outras características das pessoas, lembrando que um Pedro tal ama sua Maria, com quem tem dois filhos, mora naquele bairro, trabalha em tal empresa, estudou isto ou aquilo, freqüenta tal religião e é um filho de Deus, irmão de Jesus Cristo, destinado um dia a ver Deus face a face. O tal Pedro é único e irrepetível, e Deus olha por ele com um carinho particular. Nenhum ser humano é uma ilha, algo isolado. Sempre tem relação com outros. Cada um tem sua história pessoal, que só faz sentido se explicada dentro da história de todos os outros seres humanos. E na história da vida dos humanos é fácil perceber imensas diferenças e semelhanças por idade, sexo, cultura, nacionalidade etc. Toda pessoa é um ser em construção. Santo Irineu dizia que Deus não criou o ser humano perfeito, nem imperfeito, mas perfectível. Isto é, em processo de aperfeiçoamento. A vida humana não é um contínuo crescimento ascendente. Ela é feita de altos e baixos. Mas, na soma final nós todos somos mais perfeitos do que quando nascemos. A vida humana em processo implica grandeza e fragilidade. Faz parte do processo a crise (lembre-se de que crise não é apenas algo negativo; ela é uma estrutura fundamental da vida). De sua raiz surgem as palavras acrisolar (purificar, limpar) e crisol (elemento químico). Ela é um processo de ruptura, divisão e descontinuidade. Significa a decisão num juízo; ou seja, dado uma situação importante é preciso tomar novas decisões. A perfectibilidade ou o processo de aperfeiçoamento humano é cheio de contradições internas que fazem da pessoa, ao mesmo tempo, sujeito e vítima. Paulo VI1 afirmava que “este sujeito” imenso e infinito, por si só não sabe quem ele é; muitas vezes se imagina um super humano, mas ora é frágil como só. É um ser inventivo, mas outras vezes parece um inapto. Às vezes se apresenta com a conduta de uma criança e, em outras, porta-se como um animal violento. Ora é um sonhador, ora um pessimista. Por vezes, procura, estuda, pensa, pesquisa, constrói sua grandeza. Por vezes duvida de si mesmo, considera-se ou torna-se um vilão. Busca o infinito, mas defronta-se com seus limites. O ser humano é um paradoxo e um mistério para si mesmo. A sua grandeza é complexa e, ao mesmo tempo, vulnerável. É capaz de atos de grandeza inimaginável, mas também de baixeza extrema. No ser humano se encontram a nobreza e a vilania, o heroísmo e a traição, a busca de perfeição, de felicidade, e a ilusão, o pessimismo, a capacidade de transcendência e a falta de consciência de si, de sua vida e seu destino. Nele se entremisturam o divino e o diabólico. (1) Papa Paulo VI (1897-1978) teve um papel importante na condução da Igreja durante à luz das diretrizes do Concílio Vaticano II. CRC • • • © Antropologia Teológica Claretiano – Batatais14 Bacharelado em Teologia Versão para impressão econômica UNIDADE 2 Grandes contradições tecem o processo de aperfeiçoamento da pessoa humana. Mas, ela pode ser vista de modo mais simples no seu cotidiano. Hermilo PRETTO construiu uma identidade humana assim: o ser humano é alguém que pensa, que trabalha, que contempla, que está à mesa, que ora, que ama, sabe que deve morrer, alguém a ser educado, que perdoa e pede perdão, que experimenta a alegria. 4 O SER HUMANO ENTRE COMPARAÇÕES Afinal, quem é a pessoa humana? Esta pergunta – indecifrável?! – sempre “atormentou o próprio ser humano. As respostas dadas sempre estão condicionadas pelo tempo, cultura, religião; enfim, ao contexto histórico de quem a responde. Ela se torna difícil, inclusive, por falta de parâmetros de comparação. Jürgen Moltmann2 disse que a pergunta surge na comparação do ser humano com o animal, com os outros homens e com o divino. A pergunta surgida em comparação com os animais nos leva, contudo, a uma antropologia biológica e/ou à das espécies. Veja: o que vai qualificar a “antropológico” será o adjetivo “biológico” - e no caso a vida animal. Do ponto de vista biológico, somos muito parecidos com os primatas (pandas, chimpanzés, bonobos, orangotangos etc.). Com eles temos entre 97 ou 98% de DNA idênticos. Nós nascemos como todos os outros mamíferos. Mas, nas questões socioculturais encontram-se hoje muitos comportamentos bem similares. Em muitos estudos há uma identificação quase completa de comportamentos humanos e animais. Até em comportamentos religiosos, afirmam alguns cientistas. Há dois livros importantes muito usados no estudo comparativo entre o ser humano e animais: O macaco nu, de Desmond MORRIS e O gene egoísta, de Richard DAWKINS. Ao se comparar com outros seres humanos, a pessoa não tem muitos referenciais. E os poucos, na verdade, são mais pré-conceitos para distinguir a superioridade/interioridade de uns e outros. Por exemplo: homem/mulher, branco/negro, brasileiro/estrangeiro, rico/pobre. O filosofo Kant, em 1798, chamou a isso de “antropologia de orientação pragmática”, distinguindo a condição do homem ou a hominidade (hominitas) e a humanidade (humanitas). Para ele isso é mais como uma dissipação ética e messiânica do insatisfeito cumprimento de sua tarefa e esperança. Quem somos em comparação com o divino? Os cristãos crêem que “na plenitude dos tempos” (cf. Gl 11,11), Deus se fez humano, em Jesus filho de Maria – mesmo sem deixar a condição de Deus. Algumas religiões fazem o caminho contrário: seres humanos são transformados em semideuses ou deuses propriamente ditos. Mas tais comparaçõessão insuficientes, pois não há uma comparação propriamente dita. Antes, fala-se da transformação de uns nos outros. Na verdade, a comparação só poderá realçar as diferenças eterno/provisórias, perfeito/perfectível, criador/criatura etc. Algumas experiências do divino só nos asseguram as diferenças entre o que somos e o que não somos. Para a filósofa brasileira Marilena Chauí, os cristãos fizeram do homem Jesus um deus. Pobre ser humano! Na verdade, parece que estamos sós, apesar de tantas vidas ao nosso redor. (2) Jürgen Moltmann tem marcado a história da teologia depois da Segunda Guerra Mundial na Europa e na América do Norte como nenhum outro. Ele é o teólogo mais lido, citado e traduzido nosso tempo. “Jürgen Moltmann nasceu em 1926 em Hamburgo. Com dezesseis (1943) foi convocado pelo exército alemão onde teve, segundo as suas palavras, “uma carreira breve e sem glória”. Após seis meses na guerra, esteve preso no campo de concentração de Northon-Camp, em Inglaterra. Ali se encontravam também alguns professores de teologia que ministravam lições aos seus companheiros; dentre eles, Jürgen Moltmann. Em 1948, regressou à Alemanha onde deu continuidade nos seus estudos na Universidade de Göttingen até 1952. De 1953 a 1958 exerceu actividades pastorais em Bremen”. http://protagonistas. blog.com/2694880/. Acesso em: mar. 2008 Bacharelado em Teologia © Antropologia Teológica • • • CRC Batatais – Claretiano 15 Versão para impressão econômica UNIDADE 2 5 ANTROPOCENTRISMO Aqui surge uma questão que necessita ser ultrapassada: o antropocentrismo. É verdade que o ser humano distingue-se de todos os outros seres vivos. Na história, ele sempre se sentiu, não apenas diferente, mas superior a tudo. Todas as coisas existiam em função dele. Você já ouviu dizer: “o ser humano é o rei da criação”. Na verdade não é bem assim. No conjunto de todas as coisas, nossa espécie é apenas mais uma vida. A influência cultural que trazemos da Grécia, da Europa e do próprio judeu- cristianismo, fez-nos pensar como centro do universo. Hoje, por causa da questão meio ambiental, surgem outros valores e modos de pensar sobre nosso lugar no mundo cósmico. Em uma de suas obras Sigmund Freud3 constatou três humilhações a que foi submetida à humanidade com seu antropocentrismo. A primeira foi infligida por Copérnico ao afirmar que nem o ser humano nem a terra eram o centro do mundo. Mas o sol, ao redor do qual girava a terra. A segunda tem origem no darwinismo. Todos os seres vivos têm uma longa história de evolução. A vida tem surgido há uns 800 milhões de anos, na chamada “sopa de Oparin”4. Na grande caminhada da evolução, nós só aparecemos nos últimos tempos (uns 150.000 anos). Somos da família dos primatas, que pertencem a espécie dos mamíferos e assim retroativamente. Não deixa de ser verdadeira a afirmação de Karl Sagan: somos feitos da poeira do universo. A terceira humilhação foi infringida pelo próprio Freud, ao descrever o quanto dependemos de forças inconscientes e subconscientes que não dominamos. Conseqüentemente, nossa liberdade não depende tanto de nós próprios. Há outros fatores que também determinam nosso modo de viver e de ser pessoa humana. Poder-se-ia acrescentar uma quarta humilhação: a presença dos pobres que chegam a ser 2/3 da humanidade toda. Nosso planeta tem condições e recursos para dar condições dignas de vida para todos. Todavia, questões de economia e política, ciência e tecnologia, criaram uma divisão tão radical: são milhões os que morrem anualmente por fome, doenças primárias e falta de recursos básicos. Os pobres no mundo clamam por justiça e dignidade; afinal eles não são filhos de Deus também? Nesta unidade, você pôde refletir e desenvolver seus estudos a respeito de questões fundamentais: o significado do conceito “homem”;a) o ser humano em sua complexa misteriosidade;b) a necessidade de entendê-lo contextuadamente e no seu processo de c) desenvolvimento; por último, critérios para a superação do antropocentrismo. d) Gostaria que como conclusão, você lesse e meditasse, no Livro de Jó, os capítulos 40-42. Depois, relacionasse-os com o que leu nesta unidade. (3) Sigmund Freud 1856-1939) foi um médico neurologista judeu-austríaco, fundador da Psicanálise. Além de ter sido um grande cientista e escritor tornou- se famoso por ter realizado uma revolução no âmbito humano: a idéia de que somos movidos pelo inconsciente (http://pt.wikipedia. org/wiki/Sigmund_Freud. Acesso: mar. 2008) (4) Aleksandr Ivanovich Oparin (1894-1980) foi um biólogo e bioquímico soviético considerado uma das maiores autoridades sobre a teoria da origem da vida. De acordo com sua teoria, determinadas formas de organização molecular, através de competição e seleção natural, tornaram-se dominantes e caracterizam as moléculas vivas de hoje. CRC • • • © Antropologia Teológica Claretiano – Batatais16 Bacharelado em Teologia Versão para impressão econômica UNIDADE 2 Vale a pena pensar (e rezar) nisso! É a resposta de Deus ao ser humano (Jó) por suas muitas e desafiadores perguntas diante de Deus. No próximo tema, você vai se deter sobre a identidade de todo Pedro, João, Maria, diante de Deus feito humano no seu Cristo. Vamos estudar algumas idéias muito interessantes. 6 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS DAWKINS, R. O gene egoísta. São Paulo: Cia. de Letras, 2007. FERNANDEZ. Então você pensa que humano. Uma breve história de humanidade. São Paulo: Cia. das Letras, 2007. FOLEY, Robert. Os humanos antes da humanidade. Uma perspectiva evolucionista. São Paulo: Unesp, 2003. MORRIS, Desmond. O macaco nu. 13 ed. São Paulo-Rio de Janeiro: Record, 1998. PRETTO, Hemilo. A teologia tem algo a dizer a respeito do ser humano? São Paulo: Paulus: 2003. RIBEIRO H. A condição humana e a solidariedade cristã. Petrópolis: Vozes, 1998. p. 28- 56. _____. Quem somos? De onde viemos? Para onde vamos? Antropologia Teológica. Petrópolis: Vozes, 2007. p 15-28. WAAL, Fram de. Eu primata. Por que somos como somos. São Paulo: Cia. das Letras, 2007. 7 E-REFERÊNCIAS Chamadas numéricas (1) Papa Paulo VI - Disponível em: <http://blog.cancaonova.com/dominusvobiscum /2007/12/27/papa-paulo-vi-nos-fala-sobre-a-existencia-do-demonio/^>. (2) Jürgen Moltmann - Disponível em: <http://www.trinitywallstreet.org/ welcome/?press-photos>. (3) Sigmund Freud - Disponível em: <http://images.google.com.br/images?hl=pt-BR& q=freud&btnG=Pesquisar+imagens.&gbv=2>. (4) Aleksandr Ivanovich Oparin - Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/ Aleksandr_Oparin>. Objetivos Entender e analisar o sentido cristológico dos conceitos • “nova criatura, fi lho e irmão. Relacionar conceitos de antropologia • véterotestamentária. Descrever o ser humano como imagem e semelhança • com Deus. Caracterizar teologicamente a pessoa humana.• Conteúdos Identifi cação cristológica do ser humano.• Somos “novas” criaturas em Cristo.• Nossa fi liação em Cristo.• Fraternidade universal em Cristo.• Antropologia do Antigo Testamento.• Linguagem do Antigo Testamento. • Quem é “adão”?• Imagem e semelhança com Deus.• Pessoa humana.• IDENTIFICAÇÃO DO SER HUMANO À LUZ DA REVELAÇÃO U N ID A D E 3 CRC • • • © Antropologia Teológica Claretiano – Batatais18 Bacharelado em Teologia Versão para impressão econômica UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO Na Unidade 1 você aprendeu que a Antropologia Teológica relaciona-se com várias outras ciências, inclusive teológicas. Por exemplo, com a teologia da criação (teologia da criação é também conhecida como Protologia), com a Escatologia (teologia da consumação do mundo e do ser humano), com a Cristologia (sobretudo ao enfocar Cristo como modelo e salvador do ser humano e da humanidade toda). Na Unidade 2, procuramos identificar os limites do conceito grego de “homem”, elaboramos uma descrição sobre a pessoa humana, situando o ser humano para além do antropocentrismo. Nesta unidade,vamos discutir o sentido cristológico dos conceitos “nova criatura, filho e irmão, relacionando-os com as antropologias vétero e neotestamentárias. Serão objetos de nosso estudo a idéia de “novas criaturas” e a “fraternidade universal” em Cristo. Muitos que escrevem sobre “Antropologia Teológica” sentem-se devedores da tradição manualística, em que esta temática aparecia nos tratados De Deo creante e De Deo elevante. A catequese também sofre (ainda) esta influência. Então, ao se identificar teologicamente o ser humano, temos – entre as primeiras idéias que nos vêm –, temos: fomos criados por Deus (na origem do universo), à sua imagem e semelhança; em Adão e Eva, tornamo-nos pecadores (pecado original) e Deus nos concede graças para nos tirar do pecado e nos salvar (por isso a grande graça salvadora é Jesus, homem-Deus). Assim, a partir da Bíblia – e mais especificamente desde o Antigo Testamento –, a criação teve um enfoque teológico. A antropologia atual torna-se mais cristológica. O ser humano, sem dúvida, é contemplado decididamente a partir de Cristo que o remete ao mistério trinitário. A criação é abordada teologicamente porque: a origem de tudo está em Deus; a) a razão da criação é sua glória; b) tudo converge para Deus. c) 2 IDENTIFICAÇÃO CRISTOLÓGICA DO SER HUMANO A antropologia cristã é bem mais um estudo a partir do ser humano, que jamais pode estar desvinculado da Trindade e, mais precisamente, de Cristo. Pois tudo foi criado por ele, nele e para ele (cf. 1Cor 8,5-6; Cl 1,15-20). A antropologia cristã estuda, por um lado, o ser humano criado e consumado em Cristo; por outro, analisa as questões de autonomia do ser humano, dentro da história da salvação. O mistério do ser humano explica-se em Cristo, em sua totalidade. Isso quer dizer: leva-se em conta o Cristo pascal, contemplado como salvador preexistente, encarnado na humanidade, Senhor da história, Filho de Deus, sentido profundo e último da história e da realização cósmica. Cada vez mais, ao produzirem Antropologia Teológica, os teólogos preferem identificar a pessoa humana a partir de Jesus Cristo. Foi assim que procederam o Concílio Vaticano II, na Gaudium et spes (GS 22), e João Paulo II, na Redemptoris hominis (RH 11): “Só Jesus Cristo explica verdadeiramente quem é o ser humano e sua altíssima vocação”. Bacharelado em Teologia © Antropologia Teológica • • • CRC Batatais – Claretiano 19 Versão para impressão econômica UNIDADE 3 São Paulo1 afirma: Cristo faz nova a sua criatura. Ainda mais: São Paulo aproveitou um hino de sua época e fez uma adaptação belíssima (Ef 1,3-13). Entre outras afirmações, Paulo diz: “Fomos criados em Cristo, por ele e para ele. É o plano de Deus, já desde antes criar tudo quanto existe” (cf. Ef 1,3ss). Sugerimos que você releia agora todo o texto de GS 22. Então você compreenderá por que só Cristo revela quem é realmente o ser humano (independentemente de ser católico, budista, muçulmano ou espírita). Lembre que Deus amou tanto o mundo (a humanidade inteira) que nos deu seu Filho único. Veja que isso não depende de religião ou crença. É um ato de amor de Deus, acima e antes de qualquer outra coisa. Deus não faz distinção de pessoa; faz chover sobre bons e maus e faz o sol brilhar sobre justos e injustos (cf. Mt 5,45). São Paulo ajuda a compreender o significado cristocêntrico tanto da criação quanto do ser humano. “E nós todos que com a face descoberta, refletimos como num espelho a glória do Senhor, somos transfigurados nessa mesma imagem, cada vez mais resplandecente pela ação do Senhor, que é o Espírito” (2Cor 3,18). Em Cristo feito carne e ressuscitado, conhecemos a imagem de quem somos e de quem seremos. O Filho de Deus, que preside a criação, intervém nela para comunicar a nós o reflexo do rosto do Pai. Cada ser humano participa do dinamismo da criação, em pessoa pelo Filho, como imagem do Pai. E tudo isso revela-se em plenitude pela ressurreição de Cristo. A criação nossa em Cristo só se completará de modo definitivo quando ressuscitados. Seremos configurados a Cristo. Por ele seremos apresentados ao Pai, como glória do Pai. A chave da criação, por Cristo e nele, só tem seu sentido na participação da glória do Pai. Levamos a imagem de Cristo impressa em nós – desde antes da criação. Santo Irineu dizia que o Filho preparou (criou) nossa carne (nossa humanidade) de tal modo que pudesse conter sua divindade. Com isso visava levar-nos a sua estatura de Filho de Deus. A antropologia cristã amplia a antropologia (teológica) do Antigo Testamento e revela todo o significado cristológico de pessoa humana. Daí pode-se afirmar que toda pessoa é crística, por origem e destinação. Toda pessoa é feita por ele e por ele elevada a glória do Pai. E daí decorre o dever moral de nos assemelharmos a Deus e a seu Cristo, como “homens novos”, por meio de nossas atitudes e pela graça do Espírito. 3 SOMOS “NOVAS” CRIATURAS EM CRISTO Antropologicamente, o amor de Deus pelo ser humano possui três faces: a criação, a conservação e a consumação. Desde a criação levamos o sinal de Cristo; por ele somos feitos filhos do Pai Eterno; e por ele haveremos de ver a Deus. Esta relação do amor trinitário de Deus tem sentido nitidamente cristocêntrico (cf. Lumen gentium – LG 38). O Pai nos predestinou a sermos imagem de seu Filho primogênito, em quem todos somos irmãos (cf. Rm 8,29). (1) São Paulo: o Apóstolo Paulo (Tarso c. 3 – Roma c. 66, ) juntamente com o apóstolo Pedro é considerado uma das colunas da Igreja nascente. Suas cartas continuam sendo estudadas e comentadas como importantes fontes de ensinamento doutrinal. ATENÇÃO! Para fundamentar nossa identidade e origem em Cristo, você pode ler os seguintes textos: Cl 1,15-17; 1,18-20; Rm 8,28-30; Cl 3,10-15; Rm 6,3-11; 2Cl 5,17; Gl 6,15. ATENÇÃO! Sugerimos que você veja as notas da Bíblia de Jerusalém sobre este versículo. ATENÇÃO! Você poderia pesquisar em dicionários de teologia ou de cristologia a diferença entre os conceitos: cristológico, cristão, cristocêntrico e crístico. CRC • • • © Antropologia Teológica Claretiano – Batatais20 Bacharelado em Teologia Versão para impressão econômica UNIDADE 3 Nele, nós todos nos tornamos também cooperadores de Deus(ver GS 34) co- criadores com ele. Estabelecemos uma relação de irmãos com todos os filhos de Deus. Por que somos novos? “Nova” porque se contrapõe à “velha criatura”. A “velha criatura” é o ser humano em seu pecado. O velho Adão é o ser humano em pecado. Mas, em Cristo, está o verdadeiro ser humano, sem pecado. Nele está o ser original e novo. Não o envelhecido pelo pecado. E isso faz uma diferença muito grande. Evidentemente quem é cristão (consciente) sabe que viver em Cristo é viver como “nova” criatura. Isso é um mistério que nos foi revelado exatamente em Jesus de Nazaré. Então, além de Cristo nos revelar quem somos, faz-nos também seres humanos novos. Viver em Cristo é uma dimensão moral. Mas, ser nova criatura, é o princípio antropológico. Hoje em dia, quando os cristãos – católicos e outros – usam a expressão “nova criatura”, eles o fazem quase só em sentido moral (e moralista). Isso é correto, porque quem recebe o batismo quando criança – por meio dos pais e padrinhos – sabe pessoalmente que assumiu explicitamente a condição de cristão. E como tal deve viver esta “nova” condição de vida. A(s) Igreja(s) usa(m) esta linguagem (“novo” e “velho homem”) também em referência aos sacramentos (batismo, penitência, unção dos enfermos), moral (e moralismo) e membresia religiosa. Também se usa ao falar de pecado original. Ao professar que todos os homens e mulheres nascem sob o signo do pecado original, a Igreja Católica não afirma que todos os seres humanos, por natureza, nascem pecadores. Sabe-se que o pecado original só é pecado analogicamente. Ninguém é pessoalmente responsável por ele. Só se o é por solidariedade moral. Por natureza, nós não somos pecadores. Sóo somos por participação. Sem dúvida, pelo ensino da Igreja se sabe que “o pecado das origens” “debilita” o ser humano, em sua liberdade. Contudo, ao menos de Jesus e Maria, a Igreja fala de modo claro que eles foram isentos do pecado. Lembre que Jesus só foi perfeito porque não pecou. Na Carta aos Romanos (5,1ss), Paulo, para realçar a grandeza de Cristo, compara-o ao “velho Adão”, “o homem em pecado”. O “homem velho” é o que está sob o jugo do pecado, do que não pode libertar-se sem a graça de Cristo. Ou seja: o pecador perdeu a liberdade de sair por si só de seu pecado. E aí só Cristo pode libertá-lo. Assim, fica realçada a função redentora de Cristo. Só ele e por ele se reconquista a liberdade sempre comprometida pela concupiscência, mas também sempre amparada pela graça. Deve-se dizer, pois, que só Cristo faz “nova” a criatura; só ele nos liberta de nossos pecados, porque restitui a nossa dignidade. Agora estamos em condições de aprofundar duas questões, antropologicamente pouco estudada. A primeira está muito presente em nosso cotidiano, mas quase só sob o prisma da moral. Aqui é necessário ter presente que não vamos considerar os pecados morais e nem afirmar a historicidade de Adão que, com sua esposa Eva, cometeu o pecado original. Também para Paulo, “Adão” é: em geral o símbolo da humanidade (homem natural); a) às vezes, símbolo da humanidade pecadora; b) também símbolo do ser humano sem Cristo, ou melhor, do que o nega.c) Bacharelado em Teologia © Antropologia Teológica • • • CRC Batatais – Claretiano 21 Versão para impressão econômica UNIDADE 3 A segunda questão: Cristo foi constituído por Deus como o salvador da humanidade já antes da criação. Recorde-se que salvar/salvação tem dois sentido: salvar do pecado (sentido negativo) salvar para a vida eterna (sentido positivo). A salvação do homem “pecador” se fez historicamente necessária, pois quando o Verbo se encarnou encontrou o ser humano ferido pelo pecado e “impotente” diante da liberdade. Cristo restituiu-nos, pela graça, a vida nova. Desse modo, ele fez “novas criaturas” todos os que viviam sob o domínio do pecado. Ele continua salvando do pecado todo homem e toda mulher, que abusam de sua liberdade e se escravizam no reino do pecado. Jesus mostra a possibilidade, com a graça de Deus, de se evitar o pecado. Mais ainda: ele quer nos salvar para a vida com Deus. Salvar aqui quer dizer, sob a força do Espírito, ele quer nos levar à realização plena. Quer nos colocar diante de Deus face-a- face. É ele que, com auxílio do Espírito Santo, nos leva à realização plena. Isso significa: ele nos salva. Todo ser humano foi criado para ser salvo. Ele é livre e pode pecar – e de fato, muitas vezes peca – não por ser obrigado, mas porque faz esta escolha. Então Cristo nos “re-nova” com sua graça. À medida que nos voltamos para ele, ele nos ”re-nova” (faz novos, de novo). Restitui-nos nossa “originalidade”. Mesmo tendo o dom da liberdade e sofrendo impactos da tentação – como Jesus – ninguém está obrigado a cometer pecado(s) e nem a ser pecador. Dizem que Sta. Terezinha do Menino Jesus afirmava que desde os 4 anos de idade, nunca cometeu um pecado. Sem nos ocupar do aspecto moral da nova criatura, podemos concluir: o ser humano é nova criatura porque nascido em Cristo, dele e por ele. Originalmente, ele é o modelo. Ele é a imagem visível do Deus invisível. Santo Irineu ajuda-nos outra vez: o modelo só apareceu recentemente. O primeiro Adão (o ser histórico, natural) apareceu antes do Adão original. O primeiro Adão é a humanidade histórica que o Antigo Testamento conheceu e chamou “imagem de Deus”. “Quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou seu próprio Filho, nascido de mulher” (da humanidade em geral e de Maria, em particular). No homem Jesus, encontramos Deus mesmo. No mistério do Verbo encarnado viu-se um homem tão humano que era Deus. Aquele que existia desde toda eternidade – o Verbo – uniu-se profundamente à humanidade e foi um de seus filhos. Após a morte, Deus o ressuscitou e revelou que aquele seu Filho amado era (é) o homem original, sua imagem visível e pensado desde toda a eternidade para que um dia se manifestasse entre nós, como um de nós. Era o primeiro e o verdadeiro Adão, mesmo que só aparecido depois, como Cristo. Ele o primogênito de toda criatura, era o “novo” (original, o modelo) mesmo que só tenha aparecido recentemente (há 2000 anos). Esse Cristo – que nos revela em si e por sim quem somos verdadeiramente – é o protótipo do ser humano. Porque somos de sua origem e de sua vida, também somos “novas” criaturas (as pensadas por Deus, desde a origem). O que nos envelhece é a idolatria e o pecado; não a idade, nem o tempo. A graça é dom de Deus que pode nos manter sempre novos, como Cristo, mesmo vivendo na história. INFORMAÇÃO: Lembre-se Jesus foi um homem livre. Usou a liberdade dele para dedicar-se totalmente a Deus. Por esta razão não pecou. ATENÇÃO! Lembre-se que o homo sapiens tem uns 150.000 anos. A palavra portuguesa não traduz todo o significado da palavra “novo”, original. O “novo” é o original, o primeiro, o autêntico. Aqui não é a questão de tempo (chronos); mas de perfeição (kairós). CRC • • • © Antropologia Teológica Claretiano – Batatais22 Bacharelado em Teologia Versão para impressão econômica UNIDADE 3 Antropologicamente (antes que no aspecto moral), somos novas criaturas em Cristo, porque feitos nele, por ele e para ele. Com a graça de Deus, podemos nos manter nesta história de salvação como “criatura nova”. Os cristãos têm a consciência desse mistério que só agora foi-nos revelado, e que estava oculto aos próprios anjos. Lembre-se que o mistério da “nova criatura” em Cristo vem desde antes da criação. Foi-nos revelado em Jesus de Nazaré. Lembre-se que a Igreja ensina que Deus salva misteriosamente, de um modo só conhecido dele, também aqueles que fazendo o bem e seguem reta consciência. 3 SOMOS FILHOS DE DEUS EM CRISTO Vamos aprofundar agora o tema de nossa filiação divina. Nossa identificação vai além da criaturidade nova. Por meio de Cristo tornamo-nos filhos de Deus. Esta categoria – Filho de Deus – é fundamental e é afirmada no batismo. Mas, não podemos confundir: por causa de Cristo – desde toda a eternidade e pelo simples fato de nascermos, somos filhos de Deus. Jesus é o Filho Unigênito de Deus. Por meio dele todo homem e toda mulher também o são. O batismo torna consciente em cada pessoa sua filiação divina. A noção de “filho” indica a especial relação nossa com Deus. Foi Cristo quem repartiu – desde toda a eternidade (cf. Ez 1,3ss) esta filiação adotiva, assumida pelo Pai. Desse modo, afirma a GS que “somos as únicas criaturas que Deus quis por si mesmas” (cf. GS). Alguns teólogos seguem um raciocínio diverso: porque nos comportamos dignamente diante de Deus é que vivemos esta filiação divina. Nós afirmamos aqui: a causa da filiação está no tão grande amor de Deus por nós. Ele nos fez filhos no Filho. Isso é antropológico. A outra questão é moral: viver com dignidade o que somos. Você, Cristo, eu e todos os homens e mulheres. Somos filhos de Deus por meio de Cristo. Aliás, dizer que os homens são filhos de Deus (ou dos deuses) é uma atitude também freqüente nas outras religiões. Os cristãos, porém, dão a esta identificação um sentido peculiar. Nos evangelhos, Jesus revela um sentido novo da paternidade de Deus e de nossa filiação. Há uma diferença fundamental entre ele e nós (cf. Mt 5.45; 25,34; Lc 24,49). Mas nem por isso deixamos de ser filhos. Isto é dado exatamente por ele, o Filho. Paulo elabora teologicamente melhor nossa condição de filhos. O fundamento da filiação não é a criação, mas a adoção. O Filho eterno – que se encarnou – é o único filho de Deus, mesmo que se fale dele como unigênito ou primogênito. Nós o somos porque Deus se torna nosso Pai, através do seu Filho. Desde toda a eternidade “fomos criados nele...” Não é uma questãojurídica. Antes o é de amor divino. E por isso, novamente antropológica e pneumatológica. É claro, haverá também uma dimensão moral na filiação. Somos elevados à condição de filhos, porque pelo seu Filho, Deus nos infunde uma vida nova, guiados pelo Espírito de Jesus, chegaremos ao Pai. O texto mais importante desse tema, no entanto, está em Efésios 1,3-14. O texto sagrado faz uma grande e majestosa síntese da filiação divina, fundada na gratuita ATENÇÃO! Não esqueça: nosso tema é a identificação do ser humano à luz da revelação (cristã). Somos criados, em Cristo, por Cristo e para Cristo. Nele somos “novas criaturas”. ATENÇÃO! Se você voltar à Unidade 2, sobretudo ao item 4.1 da disciplina Teologia da Revelação, entenderá esta questão, desde o modo humano da revelação. ATENÇÃO! Aconselhamos que você leia agora: Rm 8,15-23; Gl 4,1-7; Ef 1,5; sobre a vida nova: Gl 1,4-5; Ef. 5,20; 2Ts 2,15-16. Bacharelado em Teologia © Antropologia Teológica • • • CRC Batatais – Claretiano 23 Versão para impressão econômica UNIDADE 3 eleição do Pai, que nos adota por meio de seu Filho, concede-nos como dom o Santo Espírito, como garantia da herança a ser recebida. Vejamos, por outro lado, o que São João afirma sobre a filiação divina: João acentua, não tanto o aspecto moral (fazer-ser filho), mas a realidade a) antropológica (ser filho). A filiação é um dom que vem do alto (Jo 3,7). Não somos chamados a ser filhos. Nós o somos realmente – por meio de Cristo. Mesmo que isso ainda não se tenha manifestado plenamente (cf. 1Jo 3,1-2). Não nos tornamos filhos pelo nascimento, nem pelo agir (vontade da carne ou do homem). É a gratuita bondade de Deus que nos elege (Jo 1,13). Segundo João, somos b) filhos de Deus Pai, não da Trindade, por sermos irmãos de Jesus (Jo 20,16-17) e nascidos do Espírito (Jo 3,8). Deus é considerado Pai de todos os seres humanos sempre e só enquanto o é de Jesus Cristo (cf. 1Tes 1,1; 3,11-13; 2Ts 2,1; 2,16; 2Cor 2,1; Gl 1,2 etc.). Ser filho implica de modo inseparável c) ser herdeiros, “fomos feitos sua herança” (Ef 1,13): “Se nós somos filhos, logo somos também herdeiros, herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo, se é certo que com ele padecemos, para que também com ele seremos glorificados” (Rm 8,17). Esta herança vem ligada a herança/bênção de Abraão (Gl 11,7). E culmina na fortificação da herança dos santos na luz (Cl 3,24; 1Pd 1,4). 4 FRATERNIDADE UNIVERSAL EM CRISTO Da nossa criaturidade em Cristo, pelo fato de ele nos fazer “criaturas novas” e tornar-nos filhos adotivos de seu Pai, surge quase naturalmente a questão da nossa fraternidade em Cristo e com Cristo. Se todos somos criados nele, então, todos os homens e mulheres são irmãos uns dos outros. Se todos têm a filiação comum, então também têm a fraternidade em comum. Todo homem e toda mulher são irmãos entre si, independentemente do tempo, do lugar, da situação socioeconômica. Somos filhos de Deusa) . Nele está a raiz da fraternidade humana universal. Ela é um dom do alto, porque Deus se fez o Pai comum no Verbo eterno. E ele no-la concede, antropologicamente, como um dom e, eticamente, como uma tarefa. Esta fraternidade não está circunscrita à comunidade dos crentes. A filiação divina institui um estatuto universal entre todas as pessoas e se manifesta de modo concreto no amor ao próximo (Mt 5,44ss; 2Pd 1,7). Para os seguidores de Cristo se impõe inclusive como amor aos inimigos. Além da paternidade universal, o b) fundamento da fraternidade humana está em Cristo Jesus. Ele é quem une e unifica todos os homens e mulheres da história. Ao assumir a carne humana, Deus se fez nosso irmão. Jesus mesmo afirma isso inúmeras vezes (cf. Mt 12,50; Mc 3,34; Hbr 2,11; Lc 8,21; Hbr 2,11-17). Toda diferença deve moralmente ser superada nas questões raciais, nacionais, sexuais etc. porque dos povos divididos Jesus Cristo fez um só povo: o povo de Deus. Ao assumir a natureza humana, o Verbo se fez em tudo igual a nós. Isso quer dizer: ele se tornou membro da família humana. A expressão de Gálatas 4,4 “nascido de mulher” implica afirmá-lo como “filho da humanidade”. Portanto, o irmão universal. E Deus o constitui primogênito. Ele é o ATENÇÃO! Sugerimos que você veja as genealogias de Jesus (Mt 1,1-17; Lc 3,23-28). CRC • • • © Antropologia Teológica Claretiano – Batatais24 Bacharelado em Teologia Versão para impressão econômica UNIDADE 3 irmão maior com os direitos e deveres de primogênito (cf. Ex 13,2; 34,19; Lv 27,26; Nm 3,13: Dt 21,17; Ne 10,36). Somos irmãos de Deus; Deus é nosso irmão, porque ele quis pertencer à nossa família, a fim de nos fazer participar também de sua família: a Trindade. Esta irmandade em Cristo não é conseqüência de nossos atos, mas um dom prévio de Deus e que nem por isso nos converte em Deus ou deuses. A fraternidade, intimamente relacionada à filiação, indica a igual dignidade e a solidariedade universal. Ela é um processo. Pois não somos nem perfeitos, tão pouco imperfeitos, mas processualmente em construção, em aperfeiçoamento. A fraternidade universal – fundada em Cristo, nosso irmão e na filiação de Deus – cria entre os irmãos a consciência e a responsabilidade ética de todos por todos. E da experiência judeu-cristã, surge uma indicação especial: os pobres. São milhões e milhões os pobres da terra, irmãos de todos. No Antigo Testamento, Deus se voltava em primeiro lugar para os pobres. Jesus, também, legou-nos este princípio. Nossa fraternidade exige a opção pelos pobres, acima de qualquer discussão (teórica). 5 ANTROPOLOGIA DO ANTIGO TESTAMENTO Você deve ter percebido que na identificação do ser humano (criados em Cristo, “nova criatura”, filhos do Pai de Jesus e irmãos universais em Cristo e por ele), a teologia baseou-se, sobretudo, na Bíblia neotestamentária. Por outro lado, deve ter percebido que também o Novo Testamento não tem uma linguagem conceitual, filosófica. Ela é, sobretudo descritiva. Em terceiro lugar, a antropologia cristã não se esgota nestas grandes idéias. Linguagem do Antigo Testamento E você deve estar se perguntando sobre ensino bíblico a respeito da alma e do corpo. Pois é! O que você quer descobrir deve ser buscado mais na filosofia que na Bíblia – apesar do que a Igreja também freqüentemente tenha se deixado influenciar pelo helenismo. São Paulo até fala sobre o corpo e alma do ser humano. Ele, porém, não usa os conceitos gregos. E, inclusive, chega a falar de corpo, alma e espírito humanos. A tricotomia paulina é uma descrição do ser humano e não uma definição. São Paulo faz uma teologia eminentemente cristológica, sotereológica. É daí que decorre sua antropologia. O mesmo fez a Igreja no Vaticano II (cf. GS 19). Ao falar do ser humano, na verdade, discorre sobre Cristo. Isso quer dizer: não faz antropologia em si. Antes tem, nesse sentido, intenções cristológicas pastorais e, inclusive, morais. Por isso, predominam as dicotomias em Paulo: velha/nova criatura, segundo a carne/segundo o Espírito, homem carnal/homem espiritual, desde o pecado/ desde a justificação etc. No mais, como a Bíblia, ele sempre vê o ser humano à luz de Deus (à luz de Cristo no Novo Testamento). É por isso que utiliza a linguagem da antropologia bíblica. Tal linguagem é sempre descritiva. E com freqüência fala de um aspecto do ser humano para indicar o todo. Assim, palavras como “rim”, “coração”, “corpo”, “alma”, “espírito”, “mão”, “sangue”, “ossos”, “vísceras” etc., sempre têm mais o sentido de indicar o todo pela parte. Por exemplo, no Antigo Testamento, quando Deus manda “cingir os rins” para a batalha, está querendo dizer: “prepara-te, ó homem, para a luta entre Deus e os ídolos”. ATENÇÃO! Sugerimos que você releia o item 6, da Unidade 6 da disciplina Introdução à Teologia, que fala desse tema. É aconselhável que você consulte o meu livro: Condição humana e solidariedade cristã. Bacharelado em Teologia © Antropologia Teológica • • • CRC Batatais– Claretiano 25 Versão para impressão econômica UNIDADE 3 Por outro lado, a linguagem antropológica do Antigo Testamento não tem o mesmo sentido semântico atual. Ela muitas vezes é polissêmica. Tem vários significados para expressar as realidades humanas. É sinonímica. Utiliza diversos termos para expressar a mesma realidade. É simbólica. Muitas vezes um simples órgão representa o homem inteiro. É representativa. Os termos não têm a rigorosa função que hoje nós lhe atribuímos, mas expressam diferentes atividades humanas. Por fim, deve-se também fazer menção às questões de tradução. Nem sempre a palavra traduzida tem o significado real da língua original. Assim a tricotomia paulina (diferente da dicotomia grega) é a ocasião de entender a realidade sob um aspecto ou tal palavra servia para ressaltar um aspecto da totalidade. O ser humano é uma totalidade complexa, pluridimensional, aberta às relações com Deus (principalmente), com os outros e com o mundo. É uma realidade relacional dialógica. Não é uma constituição ontológica (como os gregos). As categorias corpo-alma- espírito (“nephes”, “bazar” e “ruah”) exprimem relações constitutivas da experiência humana. O humano é a) um ser vivente (“nephes”). O tema “nephes” indica a vida no seu sentido mais geral, inclusive aplicada aos animais. No caso do ser humano, a “nephes” é o sentir vital da pessoa na sua individualidade, o eu como subjetividade aberto às relações com tudo que o circunda e transcende. O termo não pode ser entendido de modo unívoco, pois muitas vezes se justapõe ou sobrepõe a outros. “Nephes”, que indica vida concreta, é parte do corpo que une a cabeça ao tronco (pescoço, a garganta). Por ali passa a respiração, sem o que o ser humano morre. Você pode ver o emprego diferenciado do termo bíblico em Sl 69,2; Sl 124,4-5; Nm 21,5; nos seguintes conjuntos “nephes”, pode ser entendido como respiração (Jr 15,9; Jo 11,20; 41,13); como princípio vital, a vida em si (Ex 4,19ª; 1Sm 19,11b; Jo 30,16; Lm 2,12); como impulso vital (Pr 10,3; Dt 12,15,20-21; Sl 35,9; 1Sm 1,10; Ex 15,9); como indivíduo concreto (Jos 11,11; Nm 6,6; Lev 19,28); como pronome pessoal (Gn 12,13; 1Pd 20,32). Este termo hebreu “nephes” foi traduzido em 600 casos para o grego dos LXX como “psyche”, e daí ao latim e outras línguas ocidentais como “alma” ou “anima”. Você pode perceber que não foi nem uma boa tradução nem boa interpretação. Para a Bíblia significa que o homem é um ser vivente; ele é “nephes” e não tem “nephes”. Já para os gregos e latinos, a alma é um componente do homem: o homem tem alma. O humano é um ser terrestre, frágil, mortal (corpo). b) “Basar” indicava esta realidade sob o aspecto de fragilidade e caducidade; a finitude estrutural do ser humano. Indica também, em sentido negativo, a carne, o egoísmo, o pecado, a posição a Deus e ao espírito; em sentido positivo indica o corpo. Veja os conjuntos, que preparamos para você identificar “basar”: como corpo físico (2Rs 5,10; Ez 37,6; Ex 28,42; Jó 6,12; Sl 109,24; Nm 19,7); como sede dos sentimento (Jó 14, 22; 21,6; Sl 16,9; Sl 84,3; Sl 63,2); como pessoa inteira ou sinônimo do homem (Jr 17,5; Gn 6,3); como debilidade física ou moral (Jó 34; 14-15; Is 40,6-7; Pr 5,11; Gn 6,12). CRC • • • © Antropologia Teológica Claretiano – Batatais26 Bacharelado em Teologia Versão para impressão econômica UNIDADE 3 Na versão grega dos LXX, “basar” foi traduzido, de modo indistinto, por “sarx” e “kreas” que significam “carne”, “corpo biológico”. E este sentido passou para o latim e as demais línguas ocidentais. Veja a dificuldade de entender Jo 1,14: O Verbo se fez “carne”. Se você entender como corpo no sentido grego então Jesus não teria alma e não seria verdadeiro homem. É claro que o significado não pode ser algo externo, biológico ou físico; pois Deus se fez humano. O corpo – no sentido bíblico – pode ser carnal ou espiritual, instrumento do Espírito ou do egoísmo. Pode ser corpo espiritual ou corpo de pecado. Ele é sinônimo de pessoa na sua concretude. A relação do ser humano com os outros e com o mundo se faz pelo corpo (“basar”). Neste sentido, é o ser humano que demonstra sua solidariedade (ou egoísmo). É o ser humano que necessita da salvação de Deus e expressa sua condição humana, no ecossistema e cosmo. “Basar” é o único termo hebraico para designar o “corpo” do homem (aparece umas 50 vezes). Também é aplicado ao corpo morto, ao cadáver (2Rs 4,3; Ez 32-5; Sl 79,2). Como imagem de Deus, o ser humano recebeu o “sopro divino”, a” ruah”. c) “Ruah” qualifica a interioridade (“nephes”) e as relações sociais (“basar”) do ser humano. É o principio da vida religiosa e moral (Ez 11,19- 20; Zc 12,10). Significando originalmente ar, vento, hálito vital, força vital, o termo exprime a convicção de que a força que mantém vivo o ser humano vem só de Deus. Sem ele, o homem volta a ser pó e morre (Jó 34,14-15). O fundamento da vida humana com Deus está na “ruah”. Por ela, Deus faz as pessoas virem à vida (criação) e se ele a retira, o homem não o verá (não se salvará). Você pode perceber à plurissemia também desse termo, ao analisar as variações bíblicas: como “vitalidade” ou “potencia vital” (1Sm 30,12b; Gn 7,105; Gn 6,3; Jó 34,14- 15; Sl 104,2a), sede das paixões ou “aflitos do homem” (Gn 26,35; 1Rs 21,5; Is 54,6; Ex 21,22); sede de projetos e decisões (Is 29,24; Ez 11,5; Ex 35,21; Nm 14,24; Sl 77,7), em sentido escatológico (Ez 11,19). “Ruah” foi traduzido na versão dos LXX por “pneuma”. Daí para as demais línguas ocidentais como “espírito” – palavra que indica um conceito particular. Ele por não ter correspondente em nossas línguas se presta a confusões. Além desses três conceitos bíblicos fundamentais que São Paulo usou, na mentalidade bíblica, há inúmeros outros que aludem à realidade humana. Identificá-los, compreendê-los também é importante num estudo aprofundado sobre a antropologia bíblica. Apenas vamos citá-los para que se você quiser ampliar seus conhecimentos tenha uma indicação. O primeiro é o “leb”/”lebad” (centro da atividade sentimental e espiritual; ele foi traduzido como “kardia” – coração). Outros mais são: “dam” (sangues), “neshamah” (respiração), “me’im” (vísceras), “janim” (rosto), “ro’sh” (cabeça). Você percebe que a antropologia bíblica é muito rica. Mas sua linguagem não tem a precisão técnica de certas outras línguas e/ou conceitos, como o grego ao falar da constituição do homem em corpo e alma. Certamente, você já teve ocasião de ver o significado desses termos (corpo, alma, homem), noutros estudos. Quem é “adão”? ATENÇÃO! Sugerimos que você retorne aos conteúdos da disciplina Antropologia Filosófica ou pesquise em algum dicionário de filosofia para encontrar as diferenças fundamentais. Bacharelado em Teologia © Antropologia Teológica • • • CRC Batatais – Claretiano 27 Versão para impressão econômica UNIDADE 3 Provavelmente você fará a si mesmo ao menos duas coisas: Mas a Bíblia não usa a expressão “homem”? – O que se deve entender 1) então? Por que então na Igreja e no cristianismo se usa a palavra “homem” e até as 2) categorias de corpo e alma? Vamos por passos. No primeiro, sugeri que você recorra a algum dicionário bíblico- teológico para aprofundar o tema. Mas, comecemos por aqui uma introdução ao tema. Você deve ter percebido que no texto desta apostila quase todas as vezes a palavra “adão” está escrita em letra minúscula. Nós o temos como um substantivo genérico e coletivo. Não como nome próprio de uma pessoa. Na Bíblia, “adão” é usado 562 vezes. A etimologia não é muito segura. Porém, aceita-se que ou deriva da raiz “adamah” (terra), em referência ao elemento material, do qual havia sido feito. Ou se relaciona com “adam” (vermelho, escuro, moreno) aludindo a cor escura da pele, da gente médio-oriental. Note que algumas vezes é usado para designar nominalmente um ser humano – o primeiro dos viventes (cf. Gn 40,25; 5,1-5; 1Cr 1,1). C. Spicq dizque na Bíblia “adão” significa a natureza adamítica. Ela vincula os seres humano entre si, nas suas qualidades, história e destino. Este seria o sentido do II Henoc 30,13: “Eu lhe dei um nome composto dos quatro pontos cardeais: Leste, Oeste, Norte e Sul: “A” para Anatalé, “D” para Dúsis, “A” para Arhos e “M” para MesemBria” (C. SPICQ. Dio e l’uomo secondo il Nuovo Testamento. Roma: Paoline, 1969, p. 183). Veja também meu livro Da imagem à semelhança..., p. 53ss). Alguns dizem que “adão” foi feito com um punhado de terra tirado dos quatro cantos do mundo) Já a palavra “ish” significa varão, marido, ser humano. O feminino correspondente é “ishãh” e designa a mulher, a fêmea. São usados no plural e no singular 2.160 e 775 vezes respectivamente. Também, os israelitas usaram a palavra “enõsh” (45 vezes) por indicar o homem, para significar “ser débil” ou ”ser social”; outras vezes tem o sentido de os homens (todos ou só alguns), humanidade, de “ser forte”. INFORMAÇÃO COMPLEMENTAR Já se afirmou que a Bíblia não tem a moderna concepção semiótica das palavras. Ela as usa como significados, não como definições ou conceitos. Por outro lado, também não é um livro de teologia, mas narra a história da salvação. Por isso, sua preocupação é com o ser humano real e a humanidade toda no processo salvífico. Ela se ocupa do ser humano a partir da história que Deus faz com ele. Bem pelo contrário. O único interlocutor de Deus é o ser humano. E a Bíblia só o descreve situado na história, marcado pelo seu passado e projetado para o futuro, a partir de uma concepção teológica. A vida dramática do homem sobre a terra é contada e recontada muitas vezes na Bíblia. Ela adquire um caráter mítico, um caráter simbólico e/ou exemplar, que permite narrar fatos com significado universal – sobretudo os 11 primeiros capítulos do Gênesis. O ser humano, em síntese, é um ser vivente – por obra de Deus – capaz de relacionar-se com ele. De receber uma missão na administração da criação toda. De ser marcado, mesmo na diferença do homem e mulher, por uma igualdade fundamental. Além da missão sobre a terra e da parceria com Deus, ele tem um destino divino. Muitas vezes, o ser humano é um homem frágil, ambíguo. Torna-se idólatra, abandonando o único Deus, verdadeiro e fiel na aliança comum. Mesmo assim, ele é um ser de cuidados divinos. Deus tem por ele particular solicitude. Apesar das aparências em contrário e da CRC • • • © Antropologia Teológica Claretiano – Batatais28 Bacharelado em Teologia Versão para impressão econômica UNIDADE 3 insatisfação diante das respostas tradicionais, ele se convence de que Deus lhe prepara um destino ultraterreno feliz. Imagem e semelhança com Deus Lembre-se de que nesta unidade, você deve fazer a identificação do ser humano à luz da revelação. Então é importante retornar a um tema (quase o único, talvez) que você trouxe da catequese: o ser humano foi criado por Deus a sua imagem e semelhança. Esta afirmação você a encontra em Gn 1,26-27. E ela se tornou clássica em nossas igrejas: o ser humano é imagem e semelhança com Deus. INFORMAÇÃO COMPLEMENTAR Na Unidade 2, já antecipamos que Jesus é a imagem visível do Deus invisível, que ele é o modelo original, “novo” e que só apareceu na encarnação do Verbo. Recomendamos que você retorne ao tema do ser humano como imagem e semelhança. De modo geral, a Bíblia usa “quase” como sinônimas estas duas palavras (“selem” e “demut”, em hebraico). Na patrística, vários Santos Padres, entre eles Santo Irineu, deram um sentido diferente: feita à imagem de Deus, o ser humano vai se tornando – pela ação do Espírito Santo – semelhante a ele, até podê-lo ver face a face. Compreender o ser humano como imagem de Deus é uma tradição bíblico- histórica. Enunciaremos aqui esquematicamente algumas idéias, que depois você pode aprofundar num bom comentário de bíblia. “Selem” aparece na Bíblia 17 vezes e “demut” 25 vezes. Significam estátua de um ser divino, de deus ou representação de Deus. Como imagem, o ser humano tem sua autonomia, mas é representante de Deus. Para alguns Santos Padres, “imagem e semelhança” teriam dois sentidos: Sentido funcionala) : é imagem e semelhança porque o Senhor confiou ao ser humano uma missão/bênção. A pessoa humana será o representante de Deus diante da criação toda. É o lugar-tenente de Deus. Assim, o que o caracteriza é o agir humano no lugar de Deus e como Deus age. Sentido relacionalb) : é imagem porque está relacionado a Deus. Daí derivaria a dignidade do ser humano. Só ele pode fazer companhia a Deus. Ele responde e fala com Deus. É seu interlocutor. O “tu” de Deus. Alguns se perguntaram, na história da fé, se a imagem que o ser humano é, está no corpo, na alma, no espírito. As respostas foram as mais diversas. Mas, se você entendeu bem o item anterior, deve ter percebido que a discussão hoje não faz sentido. Como não o fez na Bíblia. O que importa é afirmar e crer: todos, homens e mulheres – independente de qualquer situação – são a) imagens de Deus; por isso, têm confirmado sua dignidade. b) Por outro lado, é preciso compreender: INFORMAÇÃO COMPLEMENTAR Sugerimos uma leitura interessante: O homem bíblico. Leituras do Primeiro Testamento. André WÉNIN, Loyola, 2006. ATENÇÃO! Se você quiser ler mais sobre isto, veja o cap. IV do meu livro: Ensaio de Antropologia cristã: da imagem a semelhança com Deus, p. 159-215. Bacharelado em Teologia © Antropologia Teológica • • • CRC Batatais – Claretiano 29 Versão para impressão econômica UNIDADE 3 o ser humano não é Deus, mas sua imagem; a) porque foi criado assim;b) ele é interlocutor de Deus; c) é naturalmente bom, mas ainda não perfeito (nem imperfeito); deve crescer d) e se aperfeiçoar; a imagem de Deus está em todos e em cada um em particular. e) Por ser imagem de Deus, o ser humano não se esgota dentro do universo cósmico. Ele é chamado a transcender-se. O pecado pode até machucar, mas nunca eliminar a imagem de Deus, que cada um traz em si. No ser humano ferido, machucado e empobrecido, também permanece a imagem de Deus – mesmo que mais próximo do Deus crucificado. A imagem de Deus está no todo do nosso ser. Ela se manifesta aí de modo claro e límpido, nobre e santo; ou ferido e empobrecido, idolátrico e pecador em cada um de nós. É claro que homem e mulher, rico ou pobre, branco ou negro, todos somos imagem de Deus. Por ser imagem de Deus, sempre refletimos – mesmo estando em pecado – a nossa origem. Em outras palavras, somos abertos (a Deus). Somos feitos para a comunhão inter-humana. Somos dotados de liberdade, responsabilidade e comprometidos com o meio ambiente e o cosmo todo. Você poderá perguntar-se como podemos “carregar” em nós – seres humanos concretos, corporais – a realidade espiritual que é Deus. Alguns teólogos afirmam que a plenitude da imagem e semelhança com Deus se evidenciará na consumação do mundo. O Verbo se fez humano para nos levar à plenitude. Para nos divinizar. Divinização significa também: deificação ou santificação. A partir da teologia, pode-se falar da realização plena como ser humano ou da humanização completa em Deus. De qualquer forma – além da contribuição humana –, é uma radical ação do Espírito de Cristo. E isso é motivo de louvar a Deus. 6 A PESSOA HUMANA Todas estas identificações são fundamentalmente reveladas e decorrem da Bíblia Sagrada. É oportuno, porém, acenar a duas questões. a Bíblia revela quem é o ser humano (diante de Deus e dos outros). Mas de 1º modo algum tem-se uma teorização sobre o tema. Não se encontra nela um estudo sistemático, nem uma tratação uniforme e localizada. A identificação da pessoa humana está nos milhares de versículos escritos em tempos, linguagens e perspectivas diferentes. Trata-se de uma questão mais complexa. E decorre da reflexão cristã. Pode ser percebida 2º como uma construção ou elaboração da teologia. Estamos falando do conceito pessoa. O texto bíblico nãosistematiza este tema. O conceito grego de “homem” não satisfaz. A Igreja elaborou o cenceito de “pessoa”. Isto é uma das maiores contribuições dadas pela Igreja à humanidade. Tal compreensão é fruto de muita observação e reflexão, que evolui ao longo dos séculos. mpmpmp O esquema, a seguir, poderá ajudá-lo a desenvolver melhor seus estudos. Ser pessoa significa: ATENÇÃO! Se retornar às afirmações das unidades anteriores, poderá compreender facilmente a resposta. Experimente. O Vaticano II faz uma belíssima reflexão teológica sobre o ser humano como imagem de Deus. Elabore uma síntese do n. 12 da Gaudium et Spes e depois compare com os n. 17,34 e 68, além de confrontar com o n. 5 de Nostra aetate (NA). INFORMAÇÃO COMPLEMENTAR É importante você pesquisar, em dicionários de religião, teologia e filosofia – sem esquecer os temas estudados na disciplina Introdução à antropologia filosófica – o conceito ou a descrição de pessoa (homem, ser humano), no budismo, islamismo, filosofia grega, moderna e contemporânea. Você pode elaborar uma síntese sobre o tema, estudando a palavra pessoa humana nos documentos do Vaticano II. Para isso, consulte o índice analítico. Como são muitas as descrições existentes, você deve ter bem presente ao mesmo tempo o que afirmam a GS 3,10,12-22,26-27 e a DH 1. CRC • • • © Antropologia Teológica Claretiano – Batatais30 Bacharelado em Teologia Versão para impressão econômica UNIDADE 3 é uma relação única, singular e irrepetível (ninguém é “clonável”);a) subsiste em si e para si – é um sujeito que se auto-possui. Mas não se fecha b) sobre si mesma; é aberta ou se transcende para o mundo, para o outro e para Deus (é c) “socium”); é uma relação radicada na liberdade;d) tem um duplo movimento (de dom e de tarefa) no processo de aperfeiçoamento e) rumo a Deus. é um mistério paradoxal que não se esgota em si. f) SÍNTESE Nesta unidade você estudou alguns elementos capazes de construir cristologicamente a identidade cristã do ser humano. Nesta identificação são importantes teologicamente as afirmações do ser humano como nova criatura (nova quer dizer: original, primeira, por se assemelhar a Cristo, o homem novo), filho de Deus em Cristo (desde o início somos adotados por Deus por meio de seu Filho Unigênito), irmãos universais em Cristo e de Cristo. Depois você aprofundou os temas da antropologia veterotestamentária. Aí deve ter percebido que a Bíblia não é sistemática, mas descritiva e simbólica. Pela parte, descreve o todo ou ao valorizar um aspecto não divide a totalidade do ser humano. Ao citar “adão”, você não entende mais uma pessoa determinada, mas o ser humano, a humanidade em geral – que por sua vez é imagem de Deus. E é imagem porque age no lugar de Deus ou é o interlocutor de Deus. Finalmente, você encontrou alguns elementos sistemáticos para entender este conceito tão fundamental de pessoa humana – que supera o conceito grego de “homem”. A esta altura de seu estudo, você já adquiriu muitas idéias importantes de Antropologia Teológica cristã. Todavia, é preciso esclarecer algumas questões candentes, sobretudo no mundo atual, onde as ciências parecem ditar (até dogmaticamente) algumas afirmações – onde a fé não teria espaço. A próxima unidade é atualíssima. Aproveite para entender bem sua reflexão cristã. 7 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS GARCIA RUBIO, Alfonso. Unidade na pluralidade. São Paulo: Paulus, 2004. GRELOT,P. Homem quem és?. S. Paulo: Paulinas, 1982. KRAUS, H.; KÜRCHLER, M. As origens. Um estudo do gênesis 1-11. São Paulo: Paulinas, 2007. RESMOND, René. As grandes descobertas do cristianismo. Especialmente p. 43-63. São Paulo: Loyola, 2005. REY, Bernard. Nova criação em Cristo, no pensamento de São Paulo. São Paulo: Academia Cristã, 2005. RIBEIRO, Helcion. Quem somos? Donde viemos? Para onde vamos. Antropologia Teológica. Petrópolis: Vozes, 2007. Bacharelado em Teologia © Antropologia Teológica • • • CRC Batatais – Claretiano 31 Versão para impressão econômica UNIDADE 3 RUIZ DE LA PEÑA, Juan Luiz. Teologia da criação. São Paulo: Loyola, 1989. SUZIN, Luis Carlos. A criação em Deus. São Paulo: Paulinas – Valencia (Esp.): Siquem, 2003. 8 E-REFERÊNCIA Chamada numérica (1) São Paulo: o Apóstolo - Disponível em: <http://www.parceria.nl/images/ assets/12532381>. Anotações Objetivos Identifi car o• sentido na vida humana a partir de sua destinação fi nal. Justifi car teologicamente o sentido da vocação humana • da fi liação divina, da fraternidade humana e do senhorio em relação ao ecossistema. Produzir razões teológicas que caracterizem o signifi cado • das vocações humanas históricas. Conteúdo Destinação fi nal, vocação humana.• DESTINAÇÃO FINAL U N ID A D E 4 CRC • • • © Antropologia Teológica Claretiano – Batatais34 Bacharelado em Teologia Versão para impressão econômica UNIDADE 4 1 INTRODUÇÃO Na Unidade 3 você teve oportunidade de aprofundar alguns temas importantes, tais como a identificação cristológica do ser humano, a fraternidade universal em Cristo, bem como a antropologia veterotestamentária. Além disso, discutimos sobre a imagem e semelhança de Deus e a pessoa humana. Esta unidade que agora iniciamos pode parecer um pouco estranha. A lógica é começar com as coisas do início e terminar com as do fim. Porém, nesta unidade pretendemos desafiar a você a compreender a origem do ser humano pelo seu destino final. Por isso, você estudará primeiro a razão de nossa existência – a plenitude em Deus. E daí poderá ficar mais claro por que Deus nos criou. Somos chamados à glória de Deus, por isso é que existimos. Em outras palavras: nossa vida tem um sentido. Não existimos por acaso. É nosso destino final, todavia, que explica por que nossa vida tem sentido. Daí que dividimos esta unidade em três grandes temas: a destinação final, a origem (ou criação) nossa e a dignidade humana. Seu estudo descortinará nossa vocação fundamental (diante de Deus) e as diversas vocações complementares (o que somos durante a vida: filhos, irmãos e senhores no universo; homens e mulheres; casados e solteiros; profissionais etc.). Você há de convir que este tema é bem interessante e útil. Bom proveito, então! 2 DESTINAÇÃO FINAL, VOCAÇÃO HUMANA Ao iniciar esta unidade, gostaria que você escrevesse um texto, em seu caderno, respondendo as seguintes questões: por que• você e os seres humanos existem? para que• você e eles todos existem? Alguns crêem que o ser humano desaparece totalmente na morte. Hindus e espíritas falam de um ciclo evolutivo que culminaria na perfeição humana. Budistas crêem que, na morte, o ser humano se reintegrará à matéria. Uma resposta, sem sentido, seria: estamos aqui para morrer e desaparecer. Esta primeira parte – que é muito importante – questiona o porquê e o para quê de nossa vida. É um tema importante. Ele ajuda a determinar nosso modo de viver e de nos realizarmos como seres humanos. A partir daí podemos entender o significado de nossas múltiplas vocações históricas e, inclusive, nossa origem. Nem você, nem ninguém pediu para nascer. O fato é que “estamos aí” (“dasein”, diz Heidegger). Aí jogados ou aí postos com um sentido? Os antigos gregos afirmavam que os seres humanos foram criados para servirem os deuses. Pode parecer, mas, não só filósofos, também gente bem perto de você não sabe das razões de sua existência. Chamados a viver em Deus: nossa destinação última Na unidade anterior, você aprendeu que nossa origem está em Cristo. Ele nos fez (faz) criaturas novas. Nele somos filhos de Deus e irmãos uns dos outros. Por ele, ATENÇÃO! Você deve lembrar que nosso enfoque é antropológico. Mas, mantém boa ligação com a escatologia. Bacharelado em Teologia © Antropologia Teológica • • • CRC Batatais – Claretiano 35 Versão para impressão econômica UNIDADE 4 somos imagem e semelhança de Deus. Enfim, ele como arquétipo, constitui-nos pessoas, isto é, seres relacionais.Mas, e daí: por que e para que tudo isso? A começar da Bíblia e da teologia, esta resposta está ligada ao nosso presente e ao nosso futuro: nós existimos como a glória de Deus. E só nele chegaremos à plenitude de nossa realização. A idéia de que estamos aqui para cuidar e cultivar o mundo por meio do trabalho, da política, da cultura etc., é tão somente parte de uma verdade utilitarista e funcional. Ao realizar estas atividades, não colocamos nelas o sentido ou significado último de nossa vida. Isso seria muito horizontal (terrenal). Nossa vida tem também um significado transcendente. Existimos para a glória de Deus. Deus nos chamou à vida histórica para participarmos de sua vida plena (cf. Jo 10.10). Como disse Santo Agostinho: somos cidadãos de duas pátrias. A primeira é provisória, incompleta. Só na segunda seremos definitivamente completos e felizes. “Fizeste-nos para ti, Senhor”, diz Agostinho. Existimos para viver em Deus. Este é o sentido de nossa vida. Os Santos Padres não se cansaram de afirmar que Deus se fez humano, para que os humanos fossem divinizados. Estamos, pois, a caminho de perfeição – somos seres de aperfeiçoamento. Em Deus chegaremos à plenitude da vida. Sugerimos que você reflita agora sobre esta afirmação: Em Deus, cada homem e cada mulher verá o rosto definitivo de Deus e entenderá por que somos imagem e semelhança dele. Lá se manifestará totalmente nosso ser como “criaturas novas”, “originais”. Lá entenderemos Jesus Cristo como ser humano perfeito e nosso modelo. Lá todas as aspirações humanas terão o sentido definitivo. A função do Espírito Santo é conduzir-nos a Deus. E ele a realiza porque trabalha e aperfeiçoa o nosso coração. Sem dúvida, nossa colaboração é imprescindível. Deus nos fez sem nós, mas não nos salva sem nossa livre colaboração. Ao afirmar que “só Jesus Cristo revela definitivamente quem é o ser humano”, estamos pensando na realidade total e definitiva dele, que vive no Pai. Então a afirmação de que ele se fez um de nós para nos “divinizar” ou “deificar” ganha uma força maior. Origines, comentando Gn 1,27, onde só aparece a palavra “imagem” (e não a “semelhante” – isto está em Gn 1,26) –, diz: “O fato de que tenha dito ‘o fez à imagem de Deus’ e calado sobre a semelhança, indica que o ser humano, desde a criação, recebeu a dignidade da imagem, enquanto a perfeição da semelhança ser-lhe-ia reservada para o fim, no sentido de que ele deveria conquistá-la, ao imitar a Deus, através de sua operosidade. Assim, era-lhe concedida no início a possibilidade da perfeição por meio da dignidade da imagem: ele pôde, por meio das obras atingir no termino da vida a perfeita semelhança” (De principiis III, 1). Ser perfeito em semelhança não é ser igual. Ser semelhante é poder ver e conviver com Deus face a face, de modo irreversível. É manter-se em comunhão eterna com ele e participar da vida com ele. Desse modo, atingiremos nossa perfeição, isto é, tornar-nos plenamente humanos. Divinizados, humanizados, mas não deuses. Ser perfeito em semelhança com Deus não é perder a humanidade. Antes é elevá-la à estatura de Deus, como ressuscitados – como Cristo. A semelhança não é em natureza, mas em virtude, como diz São João Crisóstomo (De fide orth. II, 12). E a virtude aqui é o amor. “Quem permanecer no amor é semelhante a Deus” (1Jo 4,8). ATENÇÃO! Divinizar ou deificar significa realizar-se plenamente como ser humano, sendo semelhante a Deus (sem deixar de ser humano). CRC • • • © Antropologia Teológica Claretiano – Batatais36 Bacharelado em Teologia Versão para impressão econômica UNIDADE 4 Respeitadas as diferenças (Deus e homem), podemos perguntar: Por que existe quem poderia não existir? Formaremos uma unidade derradeira de amor, semelhante à que existe entre a Segunda Pessoa da Trindade (Cristo) e a própria Trindade. Lembre-se: “Deus nos escolheu antes da criação do mundo, para sermos santos e perfeitos, diante dele no amor” (Ef 1,4). Para que Deus fez isto? O Concílio Vaticano II afirma que somos “as únicas criaturas que Deus quis por si mesmas” (GS 24). Ele nos escolheu e nos chamou para participarmos gratuitamente de sua vida, “para o louvor e a glória de sua graça” (Ef 1,4). Para participarmos de sua vida (LG 2). Todo ser humano e os seres humanos todos foram (são) criados por livre iniciativa e amorosa bondade de Deus. Deus não necessitava de ninguém. Mas chamou- nos à vida para participarmos de seu amor e de sua glória. É fundamental ressaltar esta afirmação doutrinária da Igreja: Deus nos criou livre e gratuitamente. Por amor. Aqui está uma idéia importante. Talvez até mais importante que você tenha pensado: A criação do ser humano adquire valor por causa da destinação, da vocação que Deus lhe confere. Existimos para participar da vida de Deus. Esta é a nossa vocação fundamental. Nosso destino. Existimos para viver a glória de Deus (DS 3025) e a beatitude nossa, acrescenta o Vaticano II no Decreto sobre a atividade missionária da Igreja (AG 2). Deste modo, ser salvo e participar da glória de Deus coincidem. A glória de Deus consiste em nos salvar, em nos fazer participar de sua vida. Nossa dignidade, autonomia e liberdade histórica já são causas da glorificação de Deus. E fora dele, elas não fazem sentido. Então, a glória do homem vai coincidir com a de Deus. Isso não significa que Deus precise de nós para ser glorificado. Não fomos criados para dar glória, mas, porque criados, damos glória a Deus. Só assim Deus é glorificado. Ao mesmo tempo e exatamente por isso é que Deus se gloria em nós. A soberana vontade de Deus em nos chamar à vida leva-o a nos salvar, a nos fazer participar de sua. Guimarães Rosa, em Grandes Sertões e Veredas, afirma: “É melhor existir que não existir”. Se assim é, e sabendo que foi Deus quem nos chamou a existência, e existimos para viver de modo semelhante a ele, então só nos resta concluir: existimos para ele. E existir para ele é nossa vocação última, nossa destinação. Fora da vida de Deus, nada faria sentido para o ser humano. Ele não necessitava nos criar. PARA VOCÊ REFLETIR: Embora você esteja estudando antropologia cristã, mesmo assim não pode perder de vista que este “para quê” pertence a toda a humanidade. Deus é Deus de todos. A encarnação do Verbo evidencia que todos os povos foram constituídos um só (cf. Is 60,4-7; 1Cor 11,25; Jo 3,5-6; Ap 21,24 e Lc 9,2; 13b). PARA VOCÊ REFLETIR: Santo Irineu já afirmava: “A glória de Deus é a pessoa humana vivente; e a vida do ser humano é a visão de Deus” (Ad. H. IV, 20,2). Santo Tomás lembra: “ Deus não procura para si sua glória, mas para nós” (S. Th. II, q. 132 a.1). Bacharelado em Teologia © Antropologia Teológica • • • CRC Batatais – Claretiano 37 Versão para impressão econômica UNIDADE 4 INFORMAÇÃO COMPLEMENTAR: O físico Marcelo Gleiser 1 comentou que, cientificamente, nós somos seres improváveis. Isto é, cientificamente, existimos por um acaso, sem explicações. Porém à luz da fé, sabemos que Deus quis que existíssemos para participar de sua glória. Ao mesmo tempo, ao existirmos somos sua glória de Deus – exatamente e apesar da improbabi Deus quer, livre e gratuitamente, que nós existamos. a) Existimos para ser sua glória e participarmos dela.b) Nosso destino último é também nossa vocação última: chamados para a c) glória de Deus. Tudo quanto existe também é chamado a participar da vida de Deus (cf. Rm 8,5). Agora convidamos você a confrontar tudo o que você estudou com o texto que você escreveu no seu caderno, no início desta unidade. Que tal o resultado? 3 NOSSA VOCAÇÃO TRANSCENDENTE: FILHOS, IRMÃOS E SENHORES No item anterior, você conheceu o significado de nossa vocação ou destinação última. Porém, nós não vivemos sozinhos na espera do além. Aqui, no aquém, temos vários chamados a responder. Se nossa primeira vocação é transcendental, escatológica e definitiva, lembramos que a segunda é a vocação histórica, terrena.Esta está subordinada àquela. Filhos de Deus Na Unidade 3, refletimos sobre a identificação da pessoa humana e sua origem em Cristo. Todo ser humano é filho de Deus, irmão universal em Cristo e “poeira do universo”. Somos filhos de Deus e feitos da matéria cósmica. No cosmo, temos um papel importante: perscrutar e dirigir a criação. Nossa vocação terrestre fundamental consiste em sermos filhos, irmãos e senhores. Também na Unidade 3, estudamos o tema Somos filhos de Deus, como identificação antropológica descendente. Isto é: Deus é quem vem nos fazer filhos adotivos por seu Filho. E constitutivamente somos assim. Agora, devemos fazer o caminho inverso partindo da antropologia. Este caminho, entretanto, não está desligado da ética e da moral e nele deve ser priorizada a questão antropológica. De fato, se somos filhos reconhecemos a Deus como Pai. A vocação de filho indica antes de tudo que não somos seres sem referência. Deus olha por nós. É nosso Pai. Contudo, criou-nos para nossa autonomia histórica. Afasta-se de verdade aquele que se crê independente de Deus e auto-suficiente de modo absoluto. Cremos que a ação paterna de Deus nos acompanha sempre. Não nos abandona. Ao mesmo tempo, sabemos que os filhos também caminham com suas pernas. A relação (1) Marcelo Gleiser (1959-) é um físico, astrônomo, professor, escritor, roteirista e colunista da Folha de S. Paulo. É membro convidado da Academia Brasileira de Filosofia. Escreveu dois livros e publicou uma coletânea de artigos. É conhecido no Brasil e no exterior por seu lecionamentos e pesquisas científicas. ATENÇÃO! Você poderia escrever umas linhas no seu caderno sobre sua vocação nesta vida. Seria bem interessante para fazer um confronto ao final deste item. Pare, pois, e redija seu texto. PARA VOCÊ REFLETIR: Pai é pai, e filho é filho. Se na história filhos podem-se tornar pais, na relação com Deus isso não acontece. Permanecer como filhos poderia, então, ser humilhante para nós? Deus sempre nos manterá à sua sombra? Seremos eternos dependentes? É claro que os critérios de análise não são estes. INFORMAÇÃO: Alguns povos crêem que Deus criou os seres humanos e, depois, os abandonou. Deus teria se recolhido nos distantes céus. Contudo, nós, cristãos, sabemos que Deus sempre nos acompanha. CRC • • • © Antropologia Teológica Claretiano – Batatais38 Bacharelado em Teologia Versão para impressão econômica UNIDADE 4 filial que mantemos com Deus é a de filho para o Pai. Nós o temos em conta. Sabemos que ele é o nosso garante. Mantemo-nos em feliz comunhão com ele. Tornamo-nos responsáveis pelo mundo dele colocado em nossas mãos. Somos filhos enquanto o consideramos e nos responsabilizamos, de modo maduro, pela sua obra criada e assistida permanentemente. A paternidade não é uma escravidão. E a filiação é a oportunidade de integralidade de vida, de maturação, de personificação e de gratidão por existirmos e sermos co-criadores com ele. Todavia as presunções de muitos os têm levado a uma auto-suficiência que pretenderia repetir o “gesto etiológico” de Adão e Eva: quer ser Deus (cf. Gn 3,1-24). Somos irmãos Sermos irmãos também é nossa vocação: chamados a ser irmãos. Somos irmãos – como disseram os sofistas – por que baseados na natureza comum. Os sofistas ainda acrescentaram: porque fazemos parte da comunidade dos seres humanos. Somos irmãos e irmãs porque: somos companheiros no grande processo que começou nos últimos 150.000 a) anos de história, surgido na África e daí se espalhando pelo planeta todo; somos constituídos da mesma natureza humana de “homo sapiens”;b) vivemos as mesmas inquietações e partilhamos as mesmas conquistas; c) estamos todos caminhando para Deus, como seus filhos.d) Somos irmãos e irmãs embora diferenciados por questões culturais e econômicas, políticas, raciais etc. Estas diferenças, entretanto, não pertencem à estrutura antropológica do nosso ser. Antes, a diferenciação pode até ser uma riqueza diversificada. Somos irmãos porque em Jesus Cristo reconhecemos a fraternidade universal. Porque só em Deus resolvemos nossas inquietações profundas. E só por meio de princípios éticos, morais, podemos estabelecer a convivência fraterna de todos, sem discriminações. Somos senhores, dentro da obra criada Somos irmãos da mesma obra criada. Somos senhores e parte dela. Isso por si só já é um fator altamente delimitador de qualquer presunção sobre o criado (antropocentrismo). Somos senhores enquanto analisarmos tudo quanto existe e reconhecermos que tudo vem de Deus. Podemos dar sentido às coisas, criar e organizar o espaço cósmico, representar o grande Senhor. Somos senhores enquanto responsáveis maiores pelo equilíbrio do ecossistema, pela superação de acidentes naturais, pela preservação das bio-espécies. Somos senhores à medida que, nós – “imago Dei” (imagem de Deus) – fazemos do espaço a “imago hominis” (imagem do homem). Ao imprimir, a “imago hominis” no universo, nós imprimimos o Espírito Santo de Deus, para que nos processos de transformações da natureza, do ecossistema e do cosmo, criemos a solidariedade universal com todas as formas de vida existentes. Filho do próprio universo, o ser humano é uma das espécies de vida mais recentes no planeta. Todavia, por sua capacidade de raciocínio, articulação da cultura e relações, a pessoa humana é capaz de influir no seu meio ambiente, no ecossistema todo PARA VOCÊ REFLETIR: Todo outro ser humano é meu irmão, minha irmã. Não basta ser um “tu” ou o “outro”. INFORMAÇÃO: Os romanos e os gregos afirmavam a fraternidade humana, só entre os iguais e superiores. Os semitas e cristãos afirmam que a fraternidade é universal e deve ser buscada na igual dignidade, de origem e destino, assegurados por Deus. PARA VOCÊ REFLETIR: No sentido ético e moral, temos a tarefa e o compromisso de construir responsavelmente um mundo fraterno para todos. INFORMAÇÃO: Entre os irmãos não deve haver lugar para excluídos e marginalizados. Somos irmãos mesmo que haja, entre os seres humanos, gestos anti-fraternais que empurram tantos irmãos à fome, à miséria e à exclusão. Bacharelado em Teologia © Antropologia Teológica • • • CRC Batatais – Claretiano 39 Versão para impressão econômica UNIDADE 4 e, quem sabe, no próprio cosmo. Na pessoa humana, a evolução concentrou inúmeros benesses cósmicos, capazes de fazer de si um agente privilegiado no assenhoramento do universo, sem deixar a condição de filho desse mesmo universo. À luz da fé e do re-conhecimento do lugar de Deus, o cristão (e assim deveria ser toda pessoa humana) sabe que seu senhorio sobre o universo decorre do fato de Deus ser o Senhor dos senhores e do cosmo todo. A pessoa humana não é um autônomo em si, mas um colaborador de Deus – sua imagem – diante da obra da criação: por isso, senhor. 4 NOSSAS VOCAÇÕES HISTÓRICAS Vivemos localizados no espaço e no tempo. É aí que vivemos nossa vocação, que, por sua vez, adquire contornos históricos. Somos homens ou mulheres Na vocação humana há outro aspecto fundamental. Deus nos chama à vida terrena sempre como seres sexuados. Somos homens ou mulheres. Nossa identidade está marcada profundamente pela sexualidade. A diferença não é acidental. É constitutiva. Só se é pessoa humana de modo masculino ou feminino. A masculinidade e a feminilidade criam nas pessoas um modo de se auto- conceberem e se posicionarem diante de si, do mundo, dos outros e de Deus. Assumir- se como homem ou como mulher significa desenvolver em si e fazer maturar a própria masculinidade ou feminilidade. O importante é a integração madura de si para manter a capacidade da reciprocidade e alteridade nas relações do gênero. As categorias masculino e feminino produzem uma rede de relações de troca, reciprocidade, diferenciação, nupcialidade, paternidade/maternidade etc. Isso torna os homens e as mulheres capazes de criar uma dimensão de ternura, respeito e amizadesuficientes para nos fazer compreender melhor a nós mesmos e a Deus. Vocação ao matrimônio e/ou ao estado célibe A categoria homem/mulher leva-nos à vocação do matrimônio e/ou do estado célibe. “O destino da humanidade passa pela família”, dizia João Paulo II. É certo que nas últimas décadas, cada vez mais se vê a diversidade ou modelos de família. Para além dos modelos de constituição familiar, o elemento permanente é a conjugalidade. Mesmo que na concepção de Jesus o matrimônio seja uma realidade terrenal (cf. Mt 19ss), ele não estará desligado da vocação última ou de destinação de cada pessoa. Na antropologia do matrimônio – desde o Antigo Testamento – afirma-se que o casal deixa pai e mãe e se constitui uma só carne. Esta imagem é conservada no Novo Testamento, a ponto de comparar o matrimônio à relação entre Cristo e a Igreja. Do matrimônio deduz-se uma antropologia de comunhão. Entrementes, este tema é mais desenvolvido nos estudos teológicos de moral e nos do direito canônico. Para a Igreja Católica, ao lado desta antropologia do matrimônio, também se estabelece uma antropologia do celibato – vivido por leigos, clérigos e/ou religiosos. Esta vocação antropologicamente celibatária é também uma missão e um serviço à comunidade humana, exatamente pela possibilidade de se estar mais livre a serviço das ATENÇÃO! Mesmo que este senhorio capacite-o a grandes feitos, ele pode levar à destruição do próprio universo. O ser humano pode produzir nele a degradação imediata e a longo prazo. Hoje somos testemunhas do aquecimento global, por exemplo. INFORMAÇÃO: Na cultura ocidental dos últimos 50 anos vem sendo colocado insistentemente a questão do homossexualismo. É um fato novo, seja em sua dimensão cultural, seja moral e/ ou psicológica. Diante da questão, as pessoas tomam novas posições. Esta não é tanto uma questão de Antropologia Teológica ou cristológica. Por isso, passaremos ao largo deste tema, mesmo consciente da necessidade de refletir sobre o tema. ATENÇÃO! Há uma literatura muito rica sobre este tema. Ela começou discutindo o lugar do feminismo na sociedade. Transformou-se em movimento feminino e/ou feminista. Atualmente se equilibra nas chamadas “questões do gênero”. Há inclusive uma teologia do gênero. Entretanto, muitos acreditam que se hoje está claro o espaço da mulher, não se pode afirmar com certeza o do homem. INFORMAÇÃO: Para o cristianismo católico, a vocação ao matrimônio tem como primeiro objetivo a realização dos cônjuges. Depois vem a questão da paternidade ou da fecundidade responsável. INFORMAÇÃO: Por principio, a Igreja Católica Latina consagra como sacerdotes os que têm a vocação primeira ao celibato. Esta tradição é histórica e disciplinar e não se opõe ao matrimonio em si. Todavia, o celibato é uma opção ou estado de vida de muitas pessoas. CRC • • • © Antropologia Teológica Claretiano – Batatais40 Bacharelado em Teologia Versão para impressão econômica UNIDADE 4 causas humanas. Ser célibe é viver uma vocação também dada por Deus a homens e mulheres – que nem por isso vão se dedicar a vida como religiosos consagrados. Vocação religiosa Ainda relacionadas à vocação última do ser humano, devem ser consideradas duas espécies de vocação. São também vocações penúltimas os chamados de Deus a viver como crente numa comunidade de fé (numa igreja ou religião) e numa profissão. Ser religioso (viver a religião): todo ser humano é naturalmente aberto a Deus. Qualquer pessoa é atraída por Deus. Só nele encontra sua razão de ser. As religiões, por um lado, não deixam de ser fatores culturais e geográficos. Mas, não só! Todavia, é geralmente através de uma comunidade de fé, que a pessoa humana manifesta sua religiosidade. Pode ser que em algum contexto sociocultural a comunidade de fé seja maior ou menor que a comunidade política. Ou pode ser ainda que, numa comunidade política, se manifestem diversas comunidades de fé. Os cristãos – mesmo sabendo que são muitos os homens e mulheres que não crêem na revelação cristã - crêem que Deus é Deus único, universal e de todos. Todos os seres humanos sentem-se atraídos pelo “sagrado”, pelo transcendente. Isso manifesta-se de forma bem elementar nas questões de origem da vida, de sofrimento e especialmente, da morte. Daí em diante, as questões tornam-se complexas e, por isso, aflora uma tendência humana natural, dos que crêem de modo similar se agruparem. Crer é uma categoria profundamente antropológica. E os cristãos sabem que sua fé é resposta a uma manifestação que vem de fora do universo humano. Deus mesmo veio “de muitos modos, no passado” e “nos últimos tempos revelou-se por seu filho Jesus Cristo”, encarnado entre nós. Os cristãos põem sua razão religiosa nas respostas à provocação que veio do alto e que se densificou “na plenitude dos tempos” (Gl 4,4), com a encarnação de Deus. Reconhecem os cristãos que Deus se fez um de nós, para mostrar-nos a todos nossa filiação divina, nossa origem comum e nossa destinação salvífica também comum. Vocação ao trabalho Também a vida profissional de todas as pessoas está relacionada, penultimamente, à destinação salvífica do plano de Deus. Cada um torna-se co-criador com Deus, além de dignificar-se pelo trabalho. A vocação ao trabalho e/ou a uma profissão é inerente à pessoa humana. Pelo trabalho ou profissão, todos são chamados à realização no mundo, à responsabilidade sobre o universo criado, à administração dos bens comuns da humanidade. Por ser carente (não auto-suficiente), o ser humano é chamado a produzir sua cultura, liberto das escravidões do mundo físico. Assume com suas mãos, com sua inteligência e vontade, a transformação da natureza “bruta”, para fazer do mundo a casa sua e a dos irmãos. Assume, de forma libertadora e redentora, a modificação do espaço para satisfazer suas necessidades e contribuir para o bem comum. Pelo trabalho, ele espiritualiza o mundo. As distintas profissões que se multiplicam são dons de Deus, respostas à realização pessoal e ao bem comum. Deus chama todos os seres humanos a colaborarem, com o empenho pessoal, na construção de um mundo crescentemente fraterno. Tal mundo, pela diversidade vocacional do trabalho e do serviço, é uma antecipação gozosa da participação em Deus. PARA VOCÊ REFLETIR: A densificação cristã na Igreja é uma resposta humana católica exatamente porque ela quer ser interlocutora com todos os seres humanos e com cada um em particular. Ser católico implica antropologicamente ser universal, universalista e ser capaz de envolver-se com toda e qualquer situação humana. Bacharelado em Teologia © Antropologia Teológica • • • CRC Batatais – Claretiano 41 Versão para impressão econômica UNIDADE 4 Desse modo, a vocação ao trabalho e à profissão torna-se fonte de humanização e realização do ser humano e espiritualização da matéria. Além de capacitá-lo a ser senhor de si e colaborador solidário com os irmãos e irmãs. Tanto mais se realiza a pessoa pela vocação profissional e pelo trabalho quanto mais vence os desafios naturais, micro e macroscópicos. A vocação à profissão e ao trabalho são fontes de maior justiça, mais ampla fraternidade e melhor organização humana. Por isso, ela é uma vocação a serviço do ser humano. A vocação à profissão e ao trabalho nos assemelham a Deus que, com seu Filho, continua trabalhando e providenciando a vida do mundo até sua consumação definitiva. 5 CONSIDERAÇÕES Nesta unidade, você refletiu sobre o significado de nossa destinação humana. Somos chamados a viver em Deus, para vê-lo face a face. Esta vocação tem dois sentidos: sermos a glória de Deus e glorificarmos a Deus. Deus, que nos chamou à vida, não precisa de nós e nem de nossa glorificação a ele. Mas, nosso viver já é sua glória. Por outro lado, glorificá-lo significa, para nós, termos vida nele e fazer desta glorificação o sentido de nosso viver. De outro modo, a nossa destinação finalé preparada pelas vocações terrenas e históricas. Assim, se a vocação última é a salvação em Cristo, nossa destinação penúltima se densifica pelo chamado a sermos filhos, irmãos e “senhores” (cuidadores) da criação. Somos filhos. Temos uma referência. Não somos uns perdidos no cosmo. Somos irmãos. Temos uma natureza comum. Nós nos irmanamos em Jesus, o Filho Unigênito do Pai. Somos “senhores” porque os únicos capazes de cultivar e cuidar da obra da criação. Nossa destinação final comporta uma distinção histórica básica: masculinidade e a feminilidade. Esta categoria constrói nossa identidade, segundo a vontade de Deus, para sermos capazes de, pela diferença, apresentarmos melhor as facetas de Deus e a nossa riqueza humana. Da questão do gênero, surgem as vocações ao matrimônio e a vida célibe como forma de realização histórica na família e na construção da sociedade. Para melhor compreender e alcançar a realização final como assemelhados a Deus, somos feitos abertos e atraídos ao transcendente, pela manifestação do sagrado, expresso nas religiões. Enquanto cristãos, cremos na revelação de Deus que se fez um de nós para indicar o caminho para Deus. Por fim, nesta unidade, você estudou que tanto a vocação profissional quanto o trabalho fazem parte da construção do mundo fraterno para todos. Conhecemos o significado de nossa destinação final. Convém agora voltarmo- nos a nossa origem. Temos um começo, uma origem, comum. Refletir sobre nosso futuro, primeiramente, torna mais fácil descobrir o porquê de nossa origem, do chamado à vida. Esta questão antropológica é importante, sobretudo, hoje quando surgem tantos dogmatismos que até põem em risco a dignidade humana. A reflexão sobre estas questões leva você à unidade seguinte: “A compreensão da origem humana”. É um tema apaixonante também. ATENÇÃO! Você pode aprofundar este tema, além de outra literatura teológica, lendo e refletindo os belíssimos textos de GS, do n. 33 a 39. CRC • • • © Antropologia Teológica Claretiano – Batatais42 Bacharelado em Teologia Versão para impressão econômica UNIDADE 4 6 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS GAUDIUM ET SPES, especialmente n.11-52. BOFF, Leonardo. O destino do homem e do mundo. Petrópolis: Vozes, 1973. GESCHÉ, Adolphe. Destinação. São Paulo: Paulinas, 2004. LACOSTE, Jean Yves. Dicionário crítico de teologia. Especialmente verbetes: vida eterna, salvação homem-mulher, matrimônio, trabalho. São Paulo: Paulina e Loyola, 2004. LUMEN GENTIUM, 39-42. TENACE, Michelina. Por uma antropologia de comunhão: da imagem à semelhança. A salvação como divinização. Bauru: Edusc, 2005. RIBEIRO, Helcion A condição humana e a solidariedade cristã. Especialmente cap. II, 1 e 5; cap. III. 4 e cap. V, 3. Petrópolis: Vozes, 1998. _______ Ensaio de antropologia cristã. Da imagem à semelhança com Deus. Especialmente cap. IV. Petrópolis. 7 E-REFERÊNCIAS Chamada numérica (1) Marcelo Gleiser - Disponível em :<http://pt.wikipedia.org/wiki/Marcelo_Gleiser>. Objetivos Comparar os critérios científi cos e bíblicos sobre a questão • da origem do ser humano. Estabelecer critérios sobre o signifi cado da criação do ser • humana, segundo a Bíblia. Argumentar sobre o signifi cado plausível da evolução • natural, para os cristãos. Identifi car a ação criadora de Deus, na história.• Propor razões teológicas sobre a dignidade do ser • humano. Conteúdos Conceitos e signifi cados da origem humana.• O sentido teológico da criação.• A criação na Bíblia.• A questão da exegese.• A criação no Gênesis.• A criação em outros textos bíblicos.• Compreensão da origem humana na História da Igreja.• Explicação das ciências naturais (a evolução).• Lugar de Deus criador-salvador na evolução.• Dignidade humana.• ignidade humana natural.• Dignidade humana vista pelo cristianismo.• COMPREENSÃO DA ORIGEM HUMANA U N ID A D E 5 CRC • • • © Antropologia Teológica Claretiano – Batatais44 Bacharelado em Teologia Versão para impressão econômica UNIDADE 5 1 INTRODUÇÃO Na última unidade você teve oportunidade de refletir sobre temas como a destinação final e a vocação humana. Na Unidade 5 vamos tratar de um assunto interessante que é os significados da origem humana e o sentido teológico da criação. Nos últimos 150 anos, a história das origens do ser humano (e do cosmo em geral) tem sido ideologizada numa desnecessária, mas real polêmica entre fé e ciência. Importa ter bem claro, desde o início algumas palavras: criacionismo, design inteligente, evolucionismo etc. Alguns teólogos (protestantes, inclusive) falam de “teologia da natureza”. A fé católica não necessariamente se envolve na questão, pois ela propõe - sobre este assunto - uma “teologia da criação”, uma quarta palavra bem importante. Você deve recordar que, na unidade 2, afirmamos a origem do ser humano em Cristo. Isto pareceria escapar da polemica, como proposta alternativa. Todavia não é fugindo que se resolve a questão. Antes, pelo contrário. Deve-se enfrentá-la. 2 CONCEITOS E SIGNIFICADOS DA ORIGEM HUMANA Seria bom que você compreendesse logo o que dizer: criacionismo, desing inteligente, evolucionismo e teologia da criação (da natureza). No Quadro a seguir apresentamos uma síntese dos vários conceitos. Criacionismo Em síntese, o criacionismo afirma a historicidade da criação tal qual narra a Bíblia judeu-cristã. É uma afirmação que pretende ser uma teoria científica. É adotada, sobretudo, por cristãos fundamentalistas, especialmente dos Estados Unidos (aliás, deve-se falar em criacionismos), Design inteligente Argumenta-se que algumas formas de vida são complexas demais para terem evoluído ao acaso. Só uma inteligência maior (pode ser ou não de Deus) deve ter feito isso. Tal teoria é aceita em certas comunidades científicas e crentes, que não se contentam em afirmar a pura e natural evolução. Evolucionismo Na verdade existem muitas teorias da evolução. A mais famosa é a de Darwin (1859). Em síntese, tudo quanto existe é resultado de um longo processo de desenvolvimento (e crescimento) do cosmo, da vida e do ser humano. Uma “realidade” procede da outra, numa cadeia enovelada. Ou seja, a vida se diversificou, ao largo do tempo, em várias direções. Mas, tudo tem uma origem comum. É a teoria que predomina nos meios científicos (fala-se de “Zeitgeist” darwinismo, isto é, uma mentalidade evolucionista de tudo versus uma criação pronta e acabada de tudo quanto existe). Teologia da criação (da natureza) E a posição de muitos cristãos (sobretudo católicos, a partir de 1950 e como era no início do cristianismo). Ela não quer explicar como os fatos da origem ocorreram. Mas pretende afirmar a ativa atuação de Deus como fonte de tudo quanto existe. Os “famosos” textos bíblicos da criação não são uma reportagem “cientifica” do como tudo começou. A teologia e a fé cristã na criação aceitam a evolução. Mas vê nos evolucionismos muitos limites e “vazios” de explicações. Conceito de origem Dois outros conceitos devem ficar claros aqui também: criação e origem. A ciência trabalha com o conceito de origem. Como e quando isto ou aquilo começou. A teoria mais comum da origem do universo e, conseqüentemente, do ser humano, é a do Bacharelado em Teologia © Antropologia Teológica • • • CRC Batatais – Claretiano 45 Versão para impressão econômica UNIDADE 5 Big Bang. Mas também existem outras que são muitos aceitas na comunidade científica, como por exemplo, a teoria das cordas. Conceito de criação Já o conceito de criação refere-se ao ato de um criador e ao resultado, o ser criado. E o conceito faz referência a um ser criador superior ao ser criado. É muito comum – em toda a história humana – atribuir-se a Deus(es) a ação criadora. No caso cristão, dizemos, Deus é o autor de tudo quanto existe. Só ele existe antes do tempo. Ele é eterno e incriado. Foi da sua vontade que tudo começasse a existir. A intenção é sua e ela pertence ao seumistério insondável. “Criacionismos” e “evolucionismos”. Estes dois conceitos indicam também uma diversidade – até oposição – de interpretações. Não são conceitos unívocos, nem bíblica nem cientificamente. São dois modelos válidos, enquanto mantiverem uma interação crítico-construtivo até de complementariedade. Sobre este assunto temos a considerar quatro pontos importantes: Na verdade, diante das ciências e da fé católica, é consensual a perspectiva a) evolucionista. Mas há muitas divergências e lacunas entre as teorias. De modo similar, entre os cristãos que aceitam o criacionismo, também há muitas diferenças. A partir da encíclica Humani Generis, de Pio XII (1950), a Igreja Católica passou a aceitar progressivamente o evolucionismo – sem se fixar numa teoria especial. E, ao mesmo tempo, mantém uma teologia da criação (inclusive do ser humano). A criação, na Bíblia, é contada em muitos textos. Porém, na pregação e na b) catequese foi priorizada uma narração não tanto literalmente bíblica, mas como síntese bíblica. Esta “sincretização” passou à Igreja e se estabeleceu “acriticamente” sem se preocupar com os desafios da ciência, da modernidade, até 1950. Entretanto, por causa da atual exegese bíblica, tem-se encontrado o sentido (não a literalidade) do texto. O que oportuniza uma reflexão livre e independente da Igreja frente às ciências, mas não sem relação com elas. Na Bíblia, a reflexão sobre a criação é uma idéia secundária. Ela só aparece c) à medida que o povo judeu conseguiu conciliar a idéia de Deus Salvador e criador. O Deus que fazia alianças e salvava seu povo era o mesmo que criara o universo e os seres humanos. Além disso, muitas vezes deu-se maior importância à teologia da salvação que d) à da criação. Muitos teólogos, hoje, tentam um equilíbrio. Outros enfatizam – como alguns Santos Padres – o fim último para explicar a criação. Fomos criados para a glória de Deus, como já vimos na unidade anterior. Hoje também podemos afirmar: o Deus da salvação não só é o mesmo da criação, mas também o mesmo e único Deus da evolução. A criação (também da pessoa humana) é um ato de criação contínua onde Deus se faz presente. 2 CRIAÇÃO NA BÍBLIA Questão da exegese Convém agora você recordar alguns princípios de exegese bíblica para entender melhor o significado da criação: ATENÇÃO! Os dois conceitos não se opõem necessariamente nem são conseqüência um do outro. São duas considerações diferentes que levam a resultados diferentes. O que não quer dizer opostos (salvo quando ideologizados). Antes, são diversos por suas abordagens. De modo objetivo: falar da origem do ser humano (da humanidade) é usar a ciência. Ao falar da criação do ser humano (da humanidade) se está no campo da fé. ATENÇÃO! Há estudos recentes sobre o evolucionismo e a criação. Vários deles enfatizam a distância entre ambos. Outros tentam estabelecer uma concordância. Porém, a posição mais correta é a que cria pontes entre ciência e fé, sem perder a peculiaridade de cada uma. CRC • • • © Antropologia Teológica Claretiano – Batatais46 Bacharelado em Teologia Versão para impressão econômica UNIDADE 5 Todo texto bíblico tem um contexto sociocultural, literário e religioso.a) Todo o texto bíblico é uma narração humana inspirada para falar das “coisas” b) de Deus. Ele quer falar do agir salvífico de Deus, mais do que falar do homem a ser salvo. É, pois, um texto teológico antes que antropológico. O texto sagrado pode sofrer influência cultural de outros povos. Seu c) significado é sempre próprio da fé judeu-cristã. A linguagem bíblica da criação não utiliza uma linguagem histórica (científica d) ou jornalística). A sua é uma linguagem meta-histórica. Utiliza-se inclusive do mito para expressar a verdade salvífica. A criação na Bíblia supõe relações assimétricas: Deus e o ser humano (Deus e) cria, o ser humano é criado. O ser humano não é causa de si mesmo), eternidade e contingência (enquanto o criado tem início e fim, o criador é eterno e autônomo). Falar da criação para a Bíblia significa: dispor de sentido (a criação é um chamado para a glória de Deus) e a possibilidade de superação do não sentido (a criação é destinada à salvação. Não o é a morte). Criação no Gênesis Sobre este tópico sugerimos que você leia e compare os textos: Com lápis e papel à mão, leia agora Gn 2,4b-25. E responda: qual o primeiro a) ser criado? O que havia antes dele? O que Deus disse antes de criá-lo? O que fez para criar o ser humano? O que Deus fez depois? Após ter sido criado, o que fez o ser humano? Leia agora Gn 1,1-2,4ª. E responda: quais os primeiros seres criados? O b) que havia antes da criação do ser humano? O que Deus fez para criar o ser humano? Ou Deus apenas falou? Agora, compare os dois textos. c) Se você puder, leia agora o poema d) Enuma Elish, do povo mesopotâmico. Faça comparação. Acentue o diferente. E marque o que é específico da fé judaica. O fundamental da fé bíblica da criação pode ser resumido assim: Deus é o criador e o ser humano, a criatura. Por que feito à sua imagem, é o 1. interlocutor de Deus e tem uma dignidade especial. O ser humano foi criado bom. Todavia, porque dotado de liberdade, pode 2. pecar e ofender o criador. É um ser total, integrado. Entrementes, porque criado para se aperfeiçoar, 3. sua realização plena só se dará na consumação do universo. Criação em outros textos bíblicos Antigo Testamento No Antigo Testamento, você pode encontrar ainda outros textos sobre a criação, mesmo que não sejam tão conhecidos. Veja por exemplo: Nos Salmos:a) Sl 136: suscita sentimentos de ação de graças;• Sl 148: leva-nos ao louvor e a adoração;• INFORMAÇÃO: Você deve recordar que Gn 2,4bss é o texto mais antigo. Foi escrito séculos X e VIII a.C., pertence à fonte sacerdotal e entende Deus num contexto de aliança. É um poema para ser usado na liturgia (cf. As origens, de Henrich KRAUSSI, sobretudo p. 141. Bacharelado em Teologia © Antropologia Teológica • • • CRC Batatais – Claretiano 47 Versão para impressão econômica UNIDADE 5 Sl 33: infunde confiança;• Sl 8 e 104: produzem surpresa e extasiamento. • Na literatura sapiencial b) Pr 3,19-21 e 8,22-23: Javé fundou a terra com sabedoria.• Pr 8,30ss: a dimensão lúdica da criação. • Jó 28, Eclo 3: Deus realiza sua obra do princípio ao fim. • Eclo 1,1-6; 3,21-24: a incompreensibilidade do criador e sua obra. • 16,26-30; 42,15-43,26: a confiança na bondade e sabedoria do criador. 43,27-33: suas obras são maiores do que as que vemos. Sb 1,14;9,1.2.9: Deus criou tudo.• 19: Deus providente acompanha sua obra. 2Mac 7,28: a fé da mãe macabéia na criação etc.• Novo Testamento No Novo Testamento, você já encontra inúmeros textos que recolhem a doutrina do Antigo Testamento. Veja por exemplo: Hbr 11,3; At 4,24-30; 1Pd 4,19; Ap 21,1-8.23; 2Pd 3. Col 1,15-20 – acentua o papel de Cristo como princípio, centro e fim da a) criação; Hbr 1,1-11: Cristo é o autor do mundo, além de fazê-lo sustentá-lo e purificá-b) lo; Jo 1,1-17: o Pai, pelo Verbo criador e encarnado, produz e dirige toda a c) criação à plena participação em Cristo; 1Cor 8,5-6: Cristo, mediador da criação do Pai;d) Ef 1,3-14: a criação toda tem uma origem e um fim cristológicos.e) SÍNTESE A transição do Antigo Testamento ao Novo Testamento tem algumas características, aqui colocadas em forma de síntese sobre a criação da pessoa humana e da humanidade: Não há nenhum conteúdo novo e especial que se acrescente à teologia do 1. Antigo Testamento. O elemento novo é o hermenêutica: 2. a) o ser humano tem origem é visto à luz de Cristo. O Deus criador é o Pai de Jesus;b) Jesus é o ser humano por antonomásia (o verdadeiro Adão);c) Pela ressurreição, Cristo se torna o primogênito e Senhor de toda a d) criação Apesar do pecado, Deus continua amando e salvando por Cristo – todos e) os seus filhos adotivos. CRC • • • © Antropologia TeológicaClaretiano – Batatais48 Bacharelado em Teologia Versão para impressão econômica UNIDADE 5 Compreensão da origem humana na História da Igreja Para compreender melhor a realidade atual, torna-se útil o recurso à história da compreensão das origens humanas, tanto do ponto de vista religioso quanto cultural (aqui incluído o científico). ig Na questão da origem da pessoa humana, a Bíblia afirma de modo geral que o ser humano foi criado livremente por Deus à sua imagem. Este é o princípio fundante da Antropologia Teológica e cristã. Há uma intervenção divina na origem da vida e de cada vida humana. Contudo, estas são afirmações genéricas não suficientes para determinar o grau de intervenção, quer na origem, quer na continuidade da vida. Apesar de as afirmações bíblicas terem um caráter de história de algo que se desenvolve (espírito dinâmico), a mentalidade metafísica, introduzida entre os cristãos para interpretar a Bíblia, fez aparecer uma perspectiva fixista. Antiguidade patrística Da antigüidade patrística, a Igreja herdou e professou a fé no Deus criador sem ter necessidade de estabelecer uma doutrina própria. O importante era reconhecer e professar a fé na presença dinâmica de Deus que cria, sustenta. Ele é o Senhor e leva a termo a criação. É bem verdade que houve necessidade de algumas explicações para evitar: o a) panteísmo: era necessário distinguir o criador e a criatura; a b) compreensão do criado como emanação de Deus: era necessário afirmar “a criação desde o nada” (“ex nihilo”); os c) dualismos gnósticos e maniqueus: era importante enfatizar a origem boa da criação e necessidade de salvação do criado; ad) interpretação de emanação ou graça eterna: afirma-se a criação - não no tempo, mas com o tempo. A criação tem um início, que se inicia com o próprio tempo. Século III A partir do século 3o, por causa das discussões sobre a salvação e por influência do platonismo, começa-se a discutir a unidade do composto humano (corpo-alma) e o livre arbítrio. A alma é o próprio da pessoa humana. Cada alma é criada diretamente por Deus e é infundida no corpo. Evitava-se, assim, idéias como preexistente da alma. Também se começa a separar criação e salvação. E o significado salvífico da atuação de Cristo reduz-se à redenção, ao resgate do pecado. Agostinho Marcantes, ainda na compreensão criatural do ser humano, foram as idéias de Agostinho1 (contra Pelágio). Elas podem ser resumidas assim: que pode fazer o homem pecador (enfatizado desde Tertuliano) para sua a) salvação diante de Deus? há um confronto entre liberdade humana (esforço e conquista) e a força b) salvífica de Deus (a graça). Nasce a teologia da graça, sem o que o ser humano jamais poderá salvar-se; a idéia de liberdade, na Bíblia (só em Deus, a pessoa humana é livre), c) contrapõe-se à idéia grega (“eleutheria”: livre é o homem que pode dispor de si, independentemente dos outros). PARA VOCÊ REFLETIR: “Será tarefa do teólogo pensar nas origens da vida em conformidade com seu saber e na fidelidade à sua fé, elaborando deste modo aquelas categorias que podem utilizar- se também na explicação da maneira como o homem, ‘por Cristo’, é movido para a perfeição escatológica e sobrenatural” (ALZEGHI; FLYCK). INFORMAÇÃO: Na defesa das verdades bíblicas, progressivamente foram sendo introduzidos critérios metafísicos para a compreensão de Deus, da criação, do universo e do próprio ser humano. INFORMAÇÃO: Progressivamente, implanta-se no cristianismo uma perspectiva amartocêntrica, que, com Santo Anselmo (1100) chega-se a pensar na encarnação do Verbo como necessidade salvífica, única e absoluta via para a reconciliação de Deus para o homem. (1) Agostinho de Hipona (354- 430) foi filósofo, teólogo e doutor da Igreja. Bacharelado em Teologia © Antropologia Teológica • • • CRC Batatais – Claretiano 49 Versão para impressão econômica UNIDADE 5 INFORMAÇÃO COMPLEMENTAR: O debate de Agostinho com os pelagianos determinou até mesmo o significado da criação. À luz da fé cristã, a autonomia fundamenta-se na teonomia. Enquanto no helenismo cristão enfatiza-se a vontade humana, no Ocidente, o pensamento agostiniano – sob influência de São Paulo, na Carta aos Romanos – introduz uma série de questões que priorizam o psicológico, como a concupiscência, a relação liberdade/graça, o pecado e o pecado original, necessidade absoluta de Cristo para a libertação do pecado. E deixa de lado o primado de Cristo sobre a criação. Santo Tomás Santo Tomás introduz novas questões – a partir do aristotelismo. Insistiu no primado do existir (esse) sobre a essência (essentia), ou o primado do indivíduo concreto. A questão da essência só vem depois da existência. É a forma que articula a matéria em substância concreta, individualizada. Deus é o horizonte do ser e por meio de seu Filho – doado por amor – estabelece uma relação entre o infinito e o finito. Mantém a transcendência de Deus e afirma a possibilidade de a pessoa existir nele e por ele. A ausência da idéia de conservação (enfatizada por Santo Tomás) estabelece uma perspectiva criacional relegada aos gestos iniciais das origens. Transforma-se em mera protologia, enquanto a pessoa humana fica abandonada, desterrada no vale de lágrimas. Renascimento O renascimento estabelece uma nova compreensão da vida, que começa a ser pensada antropocentricamente. O estudo da natureza separa-se da teologia. Torna- se autônomo. O acesso a Deus é só um ato de fé na Causa Primeira. Ele está à parte ou num passado remoto ou num futuro longínquo. Criador e criatura se dissociam e se independentizam. A nova perspectiva produz uma ruptura aparente com as antigas linguagens para expressar a fé na criação. Quer manter uma identidade crítica sobre a afirmação da fé (fundamentalista) da Bíblia. Todavia, quer reconhecer, à luz da fé, novas possibilidades (que não são definitivas também) apresentadas pelo conhecimento da natureza. Reforma Por outro lado, do interno do cristianismo surge, ligada à questão da criação um novo enfoque, filho da Reforma. Lutero estabelece a formula: “Homem justo e, ao mesmo tempo, pecador”. Segundo Lutero, só Deus transforma o homem, que desde a origem é pecador. Só Deus o justifica. Assim como o ser humano procede do nada e é nada tudo o que a criatura pode ser, a pessoa humana só pode existir em Cristo. Só ele a justifica e a mantém. Na verdade, Lutero confronta-se bem mais com idéias contemporâneas de um novo panteísmo emanacionista (de Giordano Bruno, por exemplo). Para ressaltar Cristo, a pessoa humana torna-se quase desprezível e sem valor. Por seu pecado, ela é responsável pela sua situação. Só Deus pode libertá-la. Contra Reforma A antropologia da Contra-reforma reafirma sua fé na criação. Ao mesmo tempo defende-se do gnosticismo, maniqueísmo e panteísmo vigentes. Esta tendência é enfatizada no Vaticano I, ao antepor a fé à razão. Reafirma o valor da revelação. Ensina que na criação toda, especialmente no ser humano, Deus revela sua bondade e perfeição, sua liberdade e independência do criado, seu cuidado para com tudo o que existe a partir do nada. PARA VOCÊ REFLETIR: Santo Tomás ensina que nenhum ser possui seu ser, seu existir, em si. Só de Deus vem toda e qualquer possibilidade da existência do ser. Deus é criador porque dá consistência a cada ser. Ele é quem mantém. Por isso a alma humana só pode ser produzida por Ele. Não pode ser transmitida pelo sêmen humano. Deus é livre para criar. Por causa de sua bondade chama à existência o que não pode ser produzida por nenhuma outra substância ou ser criado. Desse modo, a pessoa humana só pode existir em relação ao seu criador. Ele se mantém como ser vivente, porque a ação de Deus inclui uma atenção constante sempre referida a Deus. INFORMAÇÃO: A partir do século 17, a questão da criação parece pertencer ao domínio da filosofia e das ciências. CRC • • • © Antropologia TeológicaClaretiano – Batatais50 Bacharelado em Teologia Versão para impressão econômica UNIDADE 5 A partir de 1909 A distância entre a fé e a cultura só aumentou nos tempos seguintes. A partir de 1909, a Pontifícia Comissão Bíblica começa a buscar novas saídas. Sugere que os textos de Gênesis 1 e 2 são simbólicos. Eles não têm necessariamente o sentido literal. Os autores sagrados não se propõem a um rigor científico ao escrever os “fatos” da fé. Seus textos são escritos sobre o prisma da fé. A partir daí, começa-se progressivamente a abandonar, na Igreja Católica, a interpretação literal segundo a qual os relatos bíblicos teriam o valor histórico. De modo idêntico, também se rejeita o concordismo (busca de orientações bíblicas adaptadas às novas teorias científicas). Começa a evidenciar-se que o fixismo (baseado na concepção helenística das essências) não é um patrimônio da fé, senão uma possível explicação que a própria fé utilizou. Divino afflante (1943) e Humani generis (1950) Sobretudo a partir dos entornos das encíclicas Divino afflante (1943) e Humani Generis (1950), abre-se à Igreja a possibilidade de compreensão da “história das origens” mediante esquemas culturais dos novos tempo. Contudo, isso não condiciona a revelação a conhecimentos científicos e/ou similares. Permanecem abertas, a partir da fé, muitas questões que as ciências (ainda) não respondem. Nem é da competência científica responder algumas delas. Os textos bíblicos da criação – afirma-se hoje – têm um “caráter etiológico sapiencial”. Isto é, trata-se de um gênero misto que reúne diversos aspectos dos gêneros literários míticos, sapienciais e históricos. Predominou na Igreja um distanciamento do caráter histórico-salvífico a) revelado na Bíblia. Ele cedeu lugar a concepções fixistas de cunho filosófico e dogmático. Nas últimas décadas, por causa dos estudos exegéticos, há uma progressiva b) abertura da Igreja a idéias atuais do evolucionismo, sem se fixar em uma ou outra teoria. A mudança de atitude da hierarquia da Igreja deve-se a alguns fatores c) importantes: O trabalho intenso preparado por teólogos e biblistas;1) a possibilidade de compreensão do evolucionismo no contexto da 2) revelação e da fé; a compreensão da inenerrância da Bíblia, no gênero literário de Gn 3) 1-11; a percepção de que a ciência não é incompatível com a fé e que a fé, por 4) outro lado, independe da ciência; a doutrina revelada pode ser concebida numa perspectiva evolucionista;5) por fim, ao aceitar a explicação científica atual não significa assumi-la 6) dogmaticamente. O que a ciência apresenta hoje como convincente, amanhã poderá deixar de ser. A fé não depende do aval científico. Você poderá aprofundar esta discussão teológica a partir de inúmeras obras atuais. Citemos algumas de fácil acesso e, em português: Hans KÜNG. O principio de todas as coisas; Jürgen MOLTMANN. Ciência e sabedoria; Denis EDWARD. O sopro de vida; Helcion RIBEIRO: Quem somos? Donde viemos? Para onde vamos?? INFORMAÇÕES: a) A etiologia sapiencial explica a condição humana atual pela reflexão que se reporta às suas causas. No caso das narrativas bíblicas da criação, os sábios de Israel, no exílio e diante da cosmogênese e antropogênese mesopotâmias, expressam o fruto de sua fé refletida e não conhecimentos históricos – pois estes são simbolizados. b) Nos séculos19 e 20, foram adotadas medidas disciplinares contra alguns teólogos favoráveis ao evolucionismo. Tais medidas não se opunham ao evolucionismo como tal, mas a algumas idéias consideradas, por muitos teólogos, como perigosas a fé. INFORMAÇÃO: Você pode estar tranqüilo – diante de sua fé – com os conhecimentos sobre o evolucionismo adquiridos em estudos anteriores. Todavia, também, não precisa dogmatizá- los. Procure entendê-los à luz da fé e da revelação. ATENÇÃO! Confira na Bibliografia no final da unidade os dados completos das obras acima citadas. Bacharelado em Teologia © Antropologia Teológica • • • CRC Batatais – Claretiano 51 Versão para impressão econômica UNIDADE 5 4 EXPLICAÇÕES DAS CIÊNCIAS NATURAIS (A EVOLUÇÃO) Deus é o salvador e criador em Cristo A reflexão teológica e cristã sobre a pessoa humana remonta às causas da sua origem: Deus é o salvador e criador em Cristo, por ele e para ele. Esta afirmação bíblica é a intuição sapiencial. Tudo o mais é instrumento noético. Quer dizer: os redatores da Bíblia não se preocuparam em esclarecer como se processou a criação. As especificações sobre o modo como se originaram as coisas não são senão narrações dramáticas, holísticas, simbólicas da verdade. E elas não se preocupam sequer em harmonizar os diversos dados. Certamente você não crê que a serpente fale, apesar de isto estar escrito ma Bíblia. Pode-se afirmar – hoje e a partir da fé – que o ser humano é filho da evolução? Por que não? Nada há que impeça você de entender todo o processo da hominização à luz da ciência, sem rejeitar a fé. É claro que você jamais afirmará que somos descendentes só de macaco, pois o macaco descende dos primatas e, retrospectivamente, este provém de outros seres, cuja origem está na primeira forma de vida – provavelmente nascida nas águas. Isto que você sabe cientificamente, o homem bíblico não sabia e nem podia imaginar. A Bíblia foi escrita entre 3.800 e 200 anos atrás. As teorias da evolução têm uns 150 anos. A Bíblia só poderia usar a “etiologia sapiencial”. E você deve usá-la, mesmo que utilize a atual sabedoria racional ou científica. Processo de hominização O processo de hominização é longo. Não é nem retilíneo nem uniforme. Não vamos buscar, pois a origem da vida, que remonta há uns 3,5 milhões de anos depois da formação da terra (ou seja, há uns 4,5 ou 5 milhões de anos), que é filha do sistema solar, nascido há cerca de 9 bilhões. Este sistema, por sua vez, origina-se na galáxia da Via Láctea – nascida há cerca de 13,200 bilhões de anos, fruto da explosão inicial (Big Bang) por volta de 14,3 bilhões de anos. Dos primeiros mamíferos pertencentes ao período triássico (251 milhões de anos atrás), originaram-se os primatas (há 65 milhões de anos). Daí surgem, há 2,3–1,6 milhões de anos, os primeiros hominídeos. Deles até os primeiros homens passaram-se mais de 1 milhão de anos. Os hominídeos deram origem aos antropóides (entre outros: chimpanzés, gorilas, gibões e os humanos). Nossos últimos ancestrais e parentes vivos são os chimpanzés – que surgiram entre 6 e 8 milhões de anos. São eles que têm uma carga genética (DNA) igual a nossa em torno de 98%. Enquanto o “homo habilis” terá surgido há cerca de 2,5 milhões de anos, o “homo sapiens” (homem moderno) surgiu há menos de 200.000 anos. Saído da África em direção a Europa, aí eles conviveram com o enigmático “neanderthalense”, até uns 25 milhões de anos. Anatomicamente o homem moderno está pronto desde uns 195 mil anos. Geneticamente, a chamada “Eva mitocondrial” também tem uns 250 mil anos. Entretanto, o que mais caracteriza como humana nossa vida são a aquisição: do cérebro e da versatilidade da inteligência; a) da consciência; b) da linguagem; c) ATENÇÃO: Sugerimos que você releia o conceito de “etiologia sapiencial” apresentado no item anterior (INFORMAÇÃO). INFORMAÇÃO: Os neandertalenses eram seres tão semelhantes a nós que poderiam até ser confundidos com um de nós. Eles tiveram muitos costumes iguais aos nossos: fabricação de flechas, pedras para cortar, pintura, sepultamento de morte. Tiveram uma inteligência corresponde a uma pessoa de uns 12 anos. Provavelmente falavam. Teriam desaparecido ou por uma doença ou por extermínio provocado pelo homo sapiens. CRC • • • © Antropologia Teológica Claretiano – Batatais52 Bacharelado em Teologia Versão para impressão econômica UNIDADE 5 da capacidade para a arte simbólica e previsão. d) Estes sinais estão claramente expressos nas evidências arqueológicas, indicadas pela transformação radical háuns 40.000 anos, desde a evolução do Paleolítico superior na Europa. Desde então as manifestações do propriamente humano se agigantam, passando pela domesticação do fogo, da agricultura e dos animais domésticos. A cidade mais antiga, Jericó tem uns 8.000 anos. Depois foram feitas as pirâmides do Egito. Dominaram-se áreas pantanosas. Descobriram “o novo Mundo”. E, hoje, constroem estas coisas admiráveis de nosso mundo. Até onde vai a evolução? Poder-se-ia perguntar: a evolução parou aqui? Ou continua? Quem pode responder? 5 LUGAR DE DEUS CRIADOR-SALVADOR NA EVOLUÇÃO Você deve ter percebido o quanto esta unidade é importante. Deve ter percebido, também, como a Antropologia Teológica/cristológica abre novos horizontes para a questão evolução. Todavia, e com razão, você deve estar se perguntando sobre a atuação de Deus criador neste processo de evolução. Para entender isso, não esqueça o que se repete muitas vezes, nesta disciplina: o ser humano (e a humanidade, por extensão) não foi criado nem perfeito, nem imperfeito. Mas, a criação é um processo de aperfeiçoamento (é perfectível). Criação: ato contínuo de Deus O Catecismo da Igreja Católica – que tem uma interessante abordagem teológica sobre Deus criador entre os números 279 e 314 – afirma: A criação tem a sua bondade e a sua perfeição próprias, mas ela não saiu completamente acabada das mãos do Criador. Ela é criada ‘em estado de caminhada’ para uma perfeição última a ser atingida para o qual Deus destinou (n. 302). Cremos que a criação é um ato contínuo de Deus até o fim dos tempo. Isso quer dizer: Deus acompanha como pai zeloso a sua obra.a) Ao mesmo tempo, ele faz sua obra desdobrar-se criativamente.b) A criação é uma ação aberta, em que o encantamento está na surpresa. As c) improbabilidades não se tornam possíveis. Das improbabilidades surgem novidades insuspeitas e inauditas. Diante dos d) cientistas que afirmam a não-direcionalidade e nem a seqüência consentânea, os cristãos constatam a surpresa ou o mistério. Algum cientista afirmou serem três os grandes mistérios da evolução: o surgimento do universo, da vida e do ser humano. Sabe-se que neste caso um subsegue ao outro. Todavia, se em alguns casos a evolução criou a necessidade, na grande maioria dos casos, ela explodiu em probabilidades tanto de surgimento quanto de desaparecimento. Daí você poderá perguntar: onde está(va) o Deus criador? Primeiramente, o que temos a observar é que, consciente ou inconscientemente, muitos pensam que Deus está(va) fazendo PARA VOCÊ REFLETIR: Existe uma pretensão de alterar e/ou comandar o destino histórico da espécie humana e do planeta. Os inventos tecnológicos (dentre eles a nanotecnologia), o domínio genético (com as possibilidades de clonagem), as conquistas espaciais (inclusive com a possibilidade de encontros com novos seres inteligentes), a violência e produção de epidemias, a fome, o usufruto frenético do planeta etc., são fatores que podem alterar não só nossa forma de viver, mas a nós próprios. Experimentos incríveis são feitos por aí... Bacharelado em Teologia © Antropologia Teológica • • • CRC Batatais – Claretiano 53 Versão para impressão econômica UNIDADE 5 física e materialmente cada coisa, inclusive nas inovações. Na verdade, nossa primeira afirmação é: Deus cria de modo contínuo e aberto, para levar à salvação (realização plena) tudo e todos por meio de seu Cristo. Depois, a ação criadora de Deus é concebida de modo processual e perfectível, até mesmo sem uma aparente lógica, ou melhor parecendo um acaso dentro de um caos. Deus, que transcende a criação, é ativo nela. Ele, desde sempre, capacitou a natureza para o novo, sem necessitar sua interferência física. A própria natureza em evolução está dotada de forças múltiplas que podem ou não gerar o novo. Isso depende ou independe de sua anterioridade ou lógica. Deus conduz com sabedoria a criação. Porém, “confere-lhe uma liberdade” para o possível e para o i-necessário. Desse modo, afirmar a improbabilidade ou o acaso é atestar tão-somente o desconhecimento da criação aberta, da ação e do propósito de Deus – que ultrapassam o tempo e a matéria. A criação de Deus ultrapassa a história e o cosmo. Os cristãos professam que Deus é o criador de coisas visíveis e invisíveis. Por outro lado, o que parece – sobretudo, no caso humano – uma misteriosa solidão, na verdade é um diálogo possível entre o transcendente e o histórico, entre o eterno e sua criação. Da mesma forma, é misterioso o significado do sofrimento de milhares de seres na criação. Para que uns nasçam, supõe-se a morte e até o extermínio de outras espécies. Algumas simplesmente desaparecem sem sucedâneos. As causas do desaparecimento são múltiplas e, em geral, sem significado. Aliás, o significado só será dado em Deus, na consumação da criação. Só então tudo será revelado e tornado claro, pois Cristo entregará ao Pai sua obra completa. Só aí se compreenderá a “lógica de Deus” em sua história salvífica começada no início da criação – quer se diga com o Big Bang, Teoria das cordas ou outras que as ciências haverão de contar ainda. Da revelação e da fé surge uma teologia da criação e do Deus criador, que só deveria ser concluída ao se recorrer a alguns textos bíblicos, capazes de sugerir sua leitura, contemplação e louvor. Da teologia da criação decorrem algumas questões muito importantes como a da teologia do ambiente, o problema do mal e a constituição da pessoa – que serão abordadas oportunamente na próxima unidade. 6 DIGNIDADE DO SER HUMANO Dignidade humana natural Eis aí o ser humano: é feito da poeira das estrelas e fruto da evolução do cosmo, capaz de cultivar a natureza (ou destruí-la) e amar-se a si mesmo (ou odiar-se a si). Todavia, quem é ele? Quem é esta síntese, este microcosmo? Quem é este ser solitário na imensidade do universo, mesmo rodeado de milhares de vidas? Por que ele existe? Sua missão é apenas nascer viver e desaparecer pela morte? É um ser existente sem sentido? Fruto do acaso improvável? Qual o significado de cada indivíduo no conjunto da espécie? É indiferente ao ecossistema existir esta pessoa e não aquela? IMPORTANTE: O questionamento de Deus a Jó 10,1-41,3) pode nos ensinar aqui muitas coisas. ATENÇÃO! Veja, por exemplo, 2Mac 7,22-28; Dn 3,57-88.56; Sl 8 e Mt 11,27. CRC • • • © Antropologia Teológica Claretiano – Batatais54 Bacharelado em Teologia Versão para impressão econômica UNIDADE 5 Sem um sentido indicado pelo próprio ser humano, nada de tudo quanto existe teria sentido. É a pessoa humana que dá sentido a todas as coisas. É ela, entre os seres existentes, a única capaz de transcender-se a si mesmo; e, a partir do conjunto da vida, explicar o que existe. A história da humanidade não começa mais num eventual e concreto “homo sapiens” histórico. Ela perde-se na história do sistema solar, que se perde nas origens do cosmo. E as respostas não satisfazem significativamente. Salvo quando enquadrada em certos parâmetros (ciência, por exemplo) e cuja resposta é válida só dentro desses e com esses parâmetros. Os cristãos reconhecem a validade da história da vida em evolução. Aceitam o modo de contar das ciências naturais. Entretanto, pela revelação e pela fé, só conseguem aceitar esse modo complementado pela perspectiva da transcendência. A horizontalidade da vida exige a transcendência para ser significativa. Todo o processo relativo à hominização (o tornar-se humano) só se explica quando se busca o sentido em Deus criador. E aí a teologia (da criação) tem sua contribuição particular, a partir do que se afirmou acima (cf. Unidade 2). A evolução a partir das ciências naturais é uma explicação válida (dentro dos seus critérios), mas insuficiente por ter em conta apenas os fatos reais ou, no caso da evolução, em geral deduzidos. Antes, porém de voltar à dimensão teológica, convém ressaltar a dignidade humana, tendo como ponto de partida o próprioconjunto da história natural. O ser humano (visto aos olhos da evolução, mas não de Deus) foi um improvável que se concretizou. Foi, após milhões de anos, no processo evolutivo, que ele apareceu. Só com sua racionalidade e compreensão é que as “coisas” passaram a ter significado e sentido. É a pessoa humana quem confere o sentido a tudo quanto existe. É ela quem explica o existente. Para isso, se serve, inclusive, até das ciências. Não conhecemos nenhum outro ser ou forma de vida, no horizonte das coisas que existem, capaz de produzir explicações e cultura. Somos os únicos. O fato real – que é descrito pelo ser humano (cientista ou não) – precisa também ter um sentido. É certo que algumas pessoas negam a possibilidade de sentido, de finalidade de tudo quanto existe. Afirmar o acaso, a necessidade ou probabilidade, significa penas ignorar razões maiores sobre os fatos dados ou existentes. PARA APROFUNDAR: Não só a metafísica se pergunta: “o que eu posso saber?”, ou a ética: “o que devo fazer?”, ou a religião “o que devo esperar?” O próprio ser humano pode criar significado e sentido para além do fato real, medido, comprovado ou experimentado. Assim é correto o próprio ser humano perceber-se diferente de todos os outros seres (não se afirma que ele é superior ou inferior). Na natureza se descobrem razões e atribuem-se significados. E o ser humano faz disso uma auto-compreensão e estabelece distinções. Daí, o perceber-se distinto, peculiar e único, por sua linguagem, cultura, religiosidade e operosidade. Ele é capaz de explorar os fatos e a realidade, modificá-los, aceitá-los ou refutá-los. A peculiaridade humana não é só questão da espécie. Também o é do indivíduo. E a identidade, tanto da espécie, quanto do indivíduo, já aponta, desde a natureza, à dignidade humana em vista da consciência de si, da consciência moral, da liberdade, da sociabilidade, das razões e finalidade da própria vida. PARA VOCÊ REFLETIR: É sabido, porém, que a explicação humana não é arrancada do próprio ser humano. Dito de outra forma: toda explicação (humanista, científica) que tenha um universo apenas horizontal – e não transcendente – é incapaz de responder muitas questões profundamente existenciais. Isso porque – inclusive cientificamente – é difícil definir a vida. INFORMAÇÃO: A própria evolução necessita de explicações mais profundas, sob pena de nos vermos reduzidos tudo e todos a meros objetos. As ciências naturais, enquanto explicações parciais do logos universal (volte a este tema na Unidade 2, item 3) necessitam de referências complexivas que a teologia pode e deve apresentar. Bacharelado em Teologia © Antropologia Teológica • • • CRC Batatais – Claretiano 55 Versão para impressão econômica UNIDADE 5 A dignidade é inerente à espécie e ao indivíduo. Ela cresce porque os seres humanos, uns frente aos outros, são capazes de reconhecerem sua igualdade e sua diferença, suas relações e suas peculiaridades. O co-envolvimento de uns com os outros estabelece, entre os humanos, o diálogo, a partilha e a comunhão, muito além do compromisso natural de amamentação e sexo. Da hominização à humanização se percorre também o caminho natural da dignificação humana. Na raiz da dignidade natural da pessoa humana estão fatores como: humanização dos hominóides, individualização, irrepetibilidade, autonomia, subjetividade. A humanização vem da capacidade de decidir e de agir por si mesmo, o que quer dizer: autonomia e independência e a qualidade de imagem que se transmite de si para o outro – seu similar. Por outro lado, a sociedade produz leis e as faz respeitar no sentido de preservar os direitos básicos, contra as exclusões mútuas e a eliminação dos mais fracos. É o processo de busca e reconhecimento que produz a dignidade comum. A convivência humana digna de todos tem como ponto de partida o reconhecimento da dignidade social de todos. A dignidade torna-se uma questão de estima subjetiva, que cresce pelo decoro, decência, honra e bem-estar. Sem dúvida, mesmo quando ainda não se manifestam todas as potencialidade da subjetividade – ou que elas tenham sido perdidas –, a dignidade não pode ser declinada como indignidade humana. O fato de ela não estar já caracterizada – ou de ter sido perdido em sua consciência – não cria uma não-humanidade. A questão de dignidade nasce em primeiro lugar da própria existência. Por isso analogicamente deve-se (isto é questão moral) ter em conta a dignidade dos animais. A dignidade humana sob o ponto de vista moral é uma questão de auto e hetero-construção. Ela implica em deveres, direitos e valores. Dignidade humana, vista pelo cristianismo A dignidade humana tem, porém, segundo os cristãos dois outros fundamentos. O primeiro está na realidade da filiação divina. Todo ser humano procede de Deus e foi elevado à categoria de filho por meio do Filho unigênito. Igualmente o aspecto teológico está ligado à questão da criação, seja manifesta na evolução da espécie humana, seja na origem do indivíduo como pessoa. A filiação faz, não manda faça-se. A filiação e a criaturidade remetem, na questão teológica da dignidade, à realidade de a pessoa humana ser também imagem de Deus. A pessoa encontra, em si, a presença de Deus e o representa como co-criador. Ao olhar o ser humano, a fé convida todos a perceberem em todos a transparência do divino. Não por último, a concepção teológica da dignidade humana aponta ao parentesco e à relação humano/divino. Somos parentes de Deus. Somos os seus mais próximos interlocutores. Somos pessoas da espécie humana na família dos hominóides, que procedem retroativamente na escala da evolução às amebas e à poeira do cosmo – porém, nossa origem também está em Deus, de quem procedemos e para quem iremos. O segundo fundamento da dignidade humana é encontrado na cristologia. O Verbo se fez carne, entre nós, conosco e para nós (cf. Jo 1.1-14). Em tudo fez-se igual a nós ao assumir nossa carne. Aliás, como diz Santo Irineu, ele preparou nossa carne de modo tal que, sem alterá-la, pudesse ser sua também. Assumindo a natureza humana, foram cristificados todos os homens e mulheres de todos os temos e lugares. Independentemente de crerem ou não em Deus. Aquele que é a origem fez-se, no tempo, originado para mostrar-nos realmente quem somos. CRC • • • © Antropologia Teológica Claretiano – Batatais56 Bacharelado em Teologia Versão para impressão econômica UNIDADE 5 Nossa dignidade está, pois, no fato de Deus ter experimentado nossas dores e alegrias, angústias e esperança (cf. GS 1). A Bíblia afirma negativamente a mesma realidade: “Ele se fez pecado por nós”. Nascido na carne virginal da humanidade (cf. Gl 4,4); viveu fazendo o bem (At 10,38). Morto, foi ressuscitado pelo Pai e constituído à sua direita, como Senhor e Juiz. A volta à sua glória – que tinha antes de sua kenosis – não obnubila nem despreza a fraternidade aqui vivida. Ele deu-nos a dignidade de filhos de seu Pai. Confirmou nossa irmandade consigo. Espera-nos para – como seu corpo – entregar- nos ao Pai. E nos fará viver diante dele face a face. À luz de Cristo, todo ser humano encontra sua real dignidade. A dignidade humana é antropológica, por natureza, antes de ser questão moral. Todavia, nem sempre os comportamentos humanos confirmam esta realidade. Por isso, ela que é um dom é também uma tarefa. E em muitas partes do mundo está comprometida. Aí, o ser humano continua sendo humilhado e é impedido de viver tal dignidade. E quando a dignidade humana é/ou está ferida, toda a criação é atingida também. Mas, não só. Pois, o próprio Deus criador também é atingido. Construir a dignidade é uma tarefa a que todos são chamados. 7 CONSIDERAÇÕES Nesta unidade, você leu e aprofundou elementos da teologia da criação. Inicialmente indicamos alguns conceitos importantes (criacionismo, design inteligente, evolucionismo e teologia da criação) e suas co-relações. Depois situamos os significados:da criação na Bíblia e na história; a) da evolução, como lugar de compreensão atual do ser humano. b) A partir destes elementos, pode-se inferir o sentido da dignidade humana, como elemento diferencial sobre o todo da criação e o papel de Deus agindo continuamente e de modo aberto no universo visível (e invisível). Espero que você possa concluir esta unidade não só como estudo (racional) teológico, mas possa extasiar-se pelas maravilhas que Deus fez, a fim de que sentir e extasiar-se de sua glória. Em nossa próxima e última unidade, você estudará temas bem mais próximos de sua vida cotidiana. Mas que podem ser entendidos desde a Antropologia Teológica. Coragem e ânimo! 8 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS COMPLEMENTARES EDWARDS, Denis. O sopro do Espírito. Uma teologia do Espírito Criador. S. Paulo: Loyola, 2007. ________ Ensaio de antropologia cristã. Da imagem à semelhança com Deus. Petrópolis: Vozes, 1995, p. 29 a 157, especialmente. Bacharelado em Teologia © Antropologia Teológica • • • CRC Batatais – Claretiano 57 Versão para impressão econômica UNIDADE 5 KRAUS, H; KUCHLER, M. As origens, um estudo de Gênesis, 1-11. São Paulo: Paulinas, 2007. KÜNG, Hans. O principio de todas as coisas. Ciências naturais e religião. Petrópolis: Vozes, 2007. MOLTMANN, Jürgen. Ciência e sabedoria. Um diálogo entre ciência natural e teologia. S. Paulo: Loyola, 2007. RIBEIRO, Helcion. Quem somos? Donde viemos? Para onde vamos? Petrópolis: Vozes, 2007. RUIZ de la Peña. Juan L. Teologia da criação. São Paulo: Loyola, 1989. SCIENTIFIC AMERICAN. História 7. O homem em busca das origens. São Paulo: Diretto. Edição especial. _________. Como nos tornamos humanos. A evolução da inteligência. S. Paulo: editora Diretto. Edição especial. SUSIN, Luis Carlos. Teologia da criação. São Paulo: Paulinas; Valência (Esp): Siquem, 2003. 9 E-REFERÊNCIA Chamada numérica (1) Agostinho de Hipona - Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Imagem:Tiffany_ Window_of_St_Augustine_-Lightner_Museum.jpg>. Anotações Objetivos Avaliar as razões teológicas sobre a unidade e • pluridimensionalidade da pessoa humana. Identifi car as razões teológicas da pessoa humana como • ser constitutivo de esperança, de liberdade e agraciamento de Deus. Produzir argumentos sobre o mal, o pecado e a morte.• Justifi car a “autonomia” da pessoa humana situada na • história. Conteúdos A questão da unidade e as dimensões da pessoa • humana. O ser humano “diante” de Deus.• O ser humano como ser de esperança.• O ser humano como ser agraciado e a teologia da graça.• O ser humano como ser livre e a questão da liberdade.• O ser humano “contra” Deus.• O ser humano e o mal.• O ser humano e o pecado. • O ser humano e a morte.• O ser humano em sua autonomia.• O ser humano, o que faz história. • O ser humano, que produz cultura.• O ser humano, o que trabalha.• O SER HUMANO E SUA “AUTONOMIA” U N ID A D E 6 CRC • • • © Antropologia Teológica Claretiano – Batatais60 Bacharelado em Teologia Versão para impressão econômica UNIDADE 6 1 INTRODUÇÃO Como você pôde ver, na Unidade 5 tratamos da compreensão da origem humana. Vimos particularmente o sentido teológico da criação, a compreensão da origem humana na história da Igreja, bem como a explicação das ciências naturais, terminando com uma discussão sobre a dignidade humana vista do ponto de vista natural e cristã respectivamente. Nesta unidade, que encerra nossos estudos, você vai refletir e aprofundar alguns temas de antropologia, que são marcantes na vida concreta da pessoa humana. Dividimos a unidade em três blocos de três questões cada um, além da introdução. No primeiro bloco, você encontrará questões que estão diretamente relacionadas a Deus: a esperança, a graça e a liberdade. No segundo, as questões são “contra” Deus: a morte, o pecado (inclusive o pecado original) e o mal. No último bloco, você deverá aprofundar o significado antropológico do ser humano em sua autonomia (história, a cultura e o trabalho). Sei que os temas são bem interessantes para seu estudo e sua vida. Espero que você pense o mesmo e, ao final, perceba que realmente valeu a pena. Mãos à obra, pois! 2 QUESTÃO DA UNIDADE E DIMENSÕES DA PESSOA HUMANA A antropologia, praticamente apresentada até aqui, fez uma teologização do ser humano na sua relação transcendente com Deus: ele é criatura filial, imagem de Deus e destinado a ele. Esta é uma antropologia descendente. Agora você deve se voltar teologicamente mais para a pessoa na história. É uma antropologia mais horizontal, à luz de Deus. É claro todas as questões anteriores vão servir de base para sua nova teologização. A pessoa humana é um ser de relações situadas. Ela é: é sempre concreta e real. Quer dizer: a pessoa é João, Maria, Pedro, Ana e a) outros; existe sempre e tão-somente na relação com outros, com Deus e com o b) mundo. A pessoa humana é filha do cosmo, parente de Deus e irmã dos outros (esposo, filho, parente, vizinhos...), que são individualidades com ela e como ela. Como individualidade ela se confirma diante dos outros. O outro é quem confirma seu sentido. Ao situar-me na vida, percebo minhas dimensões humanas, conforme as circunstâncias. Corpo e alma A teologia cristã e a Igreja foram herdeiras – até a exaustão – de uma concepção dualista sobre o ser humano: a questão “corpo e alma”. O a) pitagorismo a introduziu na cultura helênica. Ressaltou o dualismo ético e ontológico: o corpo é perecível e extremamente limitado pela matéria. Só a alma é forte e significativa, real e imortal. INFORMAÇÃO: Antes de introduzir os três blocos, você deverá ter bem presentes os conceitos já estudados: (“nephes”, “ruah”, “basar”) e afirmações anteriores: - o ser humano é perfectível (não nasceu perfeito nem imperfeito); - é portador de uma dignidade especial; - existe como relação com Deus, consigo, com os outros e com o universo; - é filho da terra e imagem de Deus; - mesmo quando se usa a expressão “homem” quer se entender a pessoa ou o ser humano a partir da Bíblia, das filosofias atuais e da concepção da Igreja. O conceito e a ideologia grega sobre o homem não são suficientes para o cristão. PARA VOCÊ REFLETIR: O outro – humano e/ou divino – faz-me ser mais eu mesmo. No outro, vejo a face de Deus historicizada e localizada. No outro, eu me situo no tempo e no mundo (contexto sociocultural e religioso). No outro, vejo a face de Deus historicizada e localizada. Por causa do outro, sou chamado a presencializar, para mim mesmo, quem sou eu! Ao mesmo tempo, o outro me obriga a localizar-me no tempo e no espaço. Ao situar- me na vida, percebo minhas dimensões humanas, conforme as circunstâncias. Bacharelado em Teologia © Antropologia Teológica • • • CRC Batatais – Claretiano 61 Versão para impressão econômica UNIDADE 6 O gnosticismo (século 2º–4º d.C.), desqualificou o corpo e sua existência histórica. Valorizou a alma por ser capaz de transcendência. O cristianismo primitivo, ao se inculturar fora do pensamento semita, aceitou b) o dualismo helênico–neoplatônico. Porém, valorizou o corpo, a carne, por dois motivos: a encarnação do Verbo e o mistério da ressurreição, mesmo que a ressurreição da carne, do corpo, ocorra só no final dos tempos. Na escolástica (séculos 10º–19), Santo Tomás (1227–1279) superou o c) dualismo anterior e usou a antropologia aristotélica (Aristóteles 348-322 a.C.). Acentuou a unidade do homem: corpo e alma são dois aspectos de um só homem indivisível. Só através do corpo é que a alma pode existir e se expressar. Após a morte, a alma aguarda – numa feliz contemplação de Deus – a ressurreição do corpo para restabelecer sua unidade originária. Pela dificuldade de compreender a questão da ressurreição, o modelo dualista parecia melhor. Todavia, as novas compreensões facilitam estabelecer novos paradigmas sobre as dimensões do ser humano. Todavia, omodelo dualista vem sendo superado, já há uns 40 anos. E a Antropologia Teológica e a escatologia atuais o consideram, no mínimo, insuficiente. A nova concepção explora mais o conceito de pessoa, como ser de relações. Compreender, pois, a pessoa é percebê-la na totalidade de sua existência. Toda pessoa cresce. Cresce sempre rumo à perfeição definitiva (destinação final). Este processo é uma construção, um enovelamento ou uma rede tecida na vida. Cada experiência produz conseqüências históricas. Só em Deus, passada a morte, é que se terá conhecimento total de quem se é, de quem se foi e se há de ser. Diferentes dimensões humanas Para formular uma compreensão atual da pessoa humana, agora voltam a ser importantes as idéias bíblicas (“nephes”, “ruah” e “basar”), somadas às novas descobertas científicas e filosóficas. Assim, o ser humano é compreendido de forma multidimensional ou global. Ele possui dimensões psíquica, física (corpórea), emocional, pessoal, social, histórica, cósmica etc. Por essas dimensões múltiplas é que situamos a pessoa no mundo (presente e futuro). É a partir das diferentes dimensões humanas que você poderá aprofundar as questões dos 3 blocos propostas no início desta unidade. Comecemos com o primeiro bloco, que contém elementos transcendentes, mas se tornam muito reais na vida de cada um. 3 O SER HUMANO DIANTE DE DEUS Neste tópico, você deverá compreender três dimensões humanas que são – positivamente – constitutivas da pessoa humana. Elas têm uma grande ligação entre si. A ordem proposta não é fixa. Poderia ser estudada primeira a dimensão da graça, depois a da esperança etc. Não é isso o mais importante. A partir da antropologia, não se pode compreender o ser humana na sua concretude sem estes três aspectos: como um ser de esperança, agraciado por Deus e INFORMAÇÃO: Pitágoras viveu entre 580.500 a.C. INFORMAÇÃO: As atuais concepções antropológicas são mais globais. Por exemplo, o Vaticano II, na Gaudium et spes superou o modelo dualista; em 1994, a Conferência dos Bispos da Alemanha afirmou: “A alma não é uma parte do homem ao lado do corpo, mas o centro da pessoa. É a pessoa humana inteira que entra na vida junto com Deus. Mas também o corpo não é simplesmente uma parte do homem. Ele é pessoa na sua relação completa com o mundo...” PARA VOCÊ REFLETIR: Você pode perceber inúmeras conseqüências dessas idéias, ainda presentes na Igreja e na sociedade. Este modelo de interpretação se impôs de maneira hegemônica. CRC • • • © Antropologia Teológica Claretiano – Batatais62 Bacharelado em Teologia Versão para impressão econômica UNIDADE 6 livre. Estas três questões estão profundamente relacionadas a Deus, por isso a ênfase: “diante de Deus”. O ser humano como ser de esperança Na unidade anterior afirmamos: mais importante que a origem, importa o fim (destinação) a que fomos chamados. A bondade divina revelou-nos isso. E mais: porque conhecemos, esperamos este fim. Faz parte de nossa estrutura humana o desejo da plenitude nossa em Deus. Esta esperança marca o nosso modo de viver. ejejejejej Por natureza, o ser humano é um ser de esperança. É um ser aberto que se transcende a si mesmo. Ninguém vive fechado sobre si. Thomas Merton dizia: “Ninguém é uma ilha”. Ninguém é humano sozinho. Todos somos seres relacionais. Este fato remete- nos à conseqüente idéia de somos seres de esperança. Ninguém vive sem ela. É verdade que são muitos os níveis da esperança que se vive. Quanto maior a consciência de si e de percepção do outro eu, maior será a esperança antropológica que se vive. Este constitutivo humano está presente desde a vida intra-uterina até a morte. qu Nascer, crescer, casar-se, formar-se, aposentar-se etc. são situações que não existiriam sem este desejo de ver as esperanças se realizarem. A esperança é sempre um olhar para frente, ao mesmo tempo é dadora de sentido ao viver presente. Esta abertura para... é na realidade um constitutivo humano que não indica simplesmente uma insatisfação como presente ou uma revolta contra a vida. É, antes e sobretudo, o desejo de ser mais, de crescer, de ser feliz. Somos limitados por natureza. Mas, nossa constituição humana quer e almeja o mais sempre, o infinito. Até diante da morte, que parece ser o fim histórico de tudo, o coração humano põe a esperança de vencê-la e ultrapassá-la. O próprio da esperança Santo Tomás diz que é próprio da esperança “tender para um bem, para um bem de difícil acesso, para um bem futuro, enfim para um bem possível”. Esta espera afeta nosso modo de ser e do nosso processo de aperfeiçoamento. A não-posse do esperado é um estímulo ao empenho de vida, tanto na ordem histórico-natural quanto escatológica. Abertos ao futuro O ato de esperar faz de nós seres abertos ao futuro histórico e escatológico. No futuro histórico, certamente, por melhores que sejam nossas esperanças, não conseguiremos tudo. É certo que Deus é nossa garantia do futuro escatológico. A fé e a história revelam que os que esperam são capazes de crescer. O desespero, dizia Kierkegaard1, é um segredo da experiência pagã. Aquele que se fecha no presente mediato ou imediato parece perder a esperança. Todavia, na verdade, é um ser des- esperante. Por isso, espera ter razões para não colaborar no aperfeiçoamento de si, dos outros e do cosmo. E muito menos buscar sua realização histórica e a definitiva em Deus. Esperança como direito humano Parece a muitas pessoas e povos “emancipados”, “adultos”, que a esperança está restrita ao conservar o bem-estar conquistado. Todavia, há no mundo contemporâneo, milhares de pobres e excluídos – os irmãos comuns – que olham à mesa dos “ricos INFORMAÇÃO: Aliás, poderia ser bem interessante se você antes de começar este importante estudo, escrevesse em seu caderno alguma coisa sobre cada um dos temas, para comparar seu conhecimento e o possível “novo” a ser adquirido agora. - Por que Deus dá graças ao ser humano? - Por que somos livres? - Por que somos seres de esperança? Mãos à obra. Escreva! PARA VOCÊ REFLETIR: Talvez seus avós possam dizer que, “no tempo deles”, vivia-se pensando na vida eterna, quase desprezando a vida presente. Não é assim nossa esperança hoje. Esperamos, é certo, uma garantida promessa de nosso futuro feliz. Porém, vamos vivendo de esperança em esperança. Damos passos e esperamos. Cremos esperando. De passo em passo vamos construindo nossa vida presente. Buscamos sempre algo melhor e superior. Lutamos com esta certeza. Queremos ser felizes, por isso nossos atos são movidos pela esperança de conseguir tal felicidade. Isso é um constitutivo antropológico da pessoa humana. Somos seres da esperança que esperam e, por isso, agem. ATENÇÃO: Certamente você já ouviu falar das reações de um feto cujos pais tentaram abortá-lo! Essas reações estão ligadas à imperiosa necessidade de sobreviver. Elas são regidas pela esperança de poder viver. ATENÇÃO: Ser esperançoso não é um modo de ser só do indivíduo. As comunidades e as nações, os grupos científicos e religiosos também se constituem de esperança. (1) Søren Aabye Kierkegaard (1813 −1855): teólogo e filósofo dinamarquês conhecido por ser o “pai do existencialismo”. Bacharelado em Teologia © Antropologia Teológica • • • CRC Batatais – Claretiano 63 Versão para impressão econômica UNIDADE 6 epulões” como “Lázaros” (cf. Lc 16,19-31) e esperam a justiça e a libertação. Para estes, a esperança é algo não só mais desejado, mas de direito humano. No grito da esperança e de libertação dos pobres, pode-se medir mais significativamente o quanto é profundamente antropológica a questão da esperança como realidade constitutiva da pessoa humana. Esperança fechada em si mesma A ciência, a economia e a política vivem de esperanças também. Porém é uma esperança encerrada em si, controlada e auto-suficiente. O ateísmo, o nada existencial e a angústia são, previamente, círculos fechadossobre si mesmos, incapazes de dar sustentabilidade ao significado de ser-se humano. Pois o ser humano não se encerra em si – nem sequer no processo natural da vida. Se todo ser humano evolui é porque lhe é possível (em esperança e na vida) continuar, crescer, aperfeiçoar-se. A revelação afirma que não existimos somente para a vida natural. Nós a transcenderemos. Por isso é esperança escatológica. E esta não é nem indefinida muito menos cíclica. De esperança em esperança O compromisso com a vida move a pessoa de esperança em esperança e a transforma em um ser de decisões, de projetos. Todo ato humano mesmo movido pela penúria ou necessidade, inquietação ou busca pelo desejo ou pela vontade, é uma certeza de que algo melhor há de vir (inclusive o próprio suicídio). De fato, se é ser de esperança, todos os desafios incitam o ser humano ao compromisso solidário (às vezes para o mal) de desenvolvimento. As situações pessoais (nascer, casar, trabalhar, curar-se do sofrimento etc.) e as sociais (a política, o desenvolvimento, combate às pandemias, construções de moradias, pesquisa científica, voluntariado etc.) são sempre movidas por esse modo de ser da pessoa humana. Dom gratuito A história é construída de modo marcante e radical pela esperança humana. Isso implica uma abertura permanente a uma plenitude que não se pode conquistar. A plenitude da esperança é um dom gratuito que transcende o próprio humano. Ao mesmo tempo é um dom escatológico da eternidade no amor de Deus – como os cristãos crêem e esperam para todos. A esperança manifesta-se como solidariedade, libertação e justiça. Ela é também uma virtude teologal que, ao invés de alienar, exige o compromisso radical, na história, de todos os homens e mulheres. Ela implica liberdade. Quer dizer: a esperança exige antropologicamente a liberdade (item 3 desta unidade). Irmãos do Verbo A esperança escatológica está fundada na certeza de que já somos criaturas e Filhos de Deus, irmãos do Verbo, herdeiros da eternidade; mas ainda-não recebemos a plenitude do que seremos. A estrutura ôntica da esperança humana indica que a realidade é maior do que vemos e percebemos. A realidade é processual, onde nada já está decidido, previamente destinado (como a “moira” grega ou o “maktub” árabe). Na patência da realidade está embutida a latência da própria realidade. E está aí a da esperança que um dia se evidenciará como nova realidade humana em Deus. Ser de esperança É em Deus que a vida realiza a esperança última. É nele que ela se concretiza. Mas afirmar isso não é confirmar que em Deus tudo se acaba, tudo morre. A realidade INFORMAÇÃO: Bento XVI, no ano de 2007, lançou sua segunda encíclica sobre a esperança: Spes salvi, fundamentado em Rm 8,24. CRC • • • © Antropologia Teológica Claretiano – Batatais64 Bacharelado em Teologia Versão para impressão econômica UNIDADE 6 escatológica em Deus é dinâmica e eterna. Deus, que é amor, é eterno. E quem vive em Deus vive a eternidade. Não necessita mais da esperança; vive na realidade dinâmica do amor. E isso é vida eterna em Deus. A estrutura ôntico-histórica do ser humano, como ser de esperança, – transforma-se em estrutura eterna de amor (cf. 1Cor 13,1-15). EM RESUMO A pessoa humana é um ser de esperança que – inclusive – espera. A esperança, por um lado, é uma virtude; por outro, é modo de ser da pessoa humana. O ser humano como ser agraciado e a teologia da graça Você lembra: Somos seres em processo. Nós nos aperfeiçoamos tanto como indivíduo a) quanto como espécie. A evolução é um processo aberto (que muitos dizem ser casual e até cheio b) de improbabilidades). A criação é um ato contínuo de Deus, também aberto e multidirecional. c) Se você relacionar essas lembranças, poderá perceber: A processualidade do aperfeiçoamento que envolve o ser humano não nasce a) dele mesmo. O improvável que se tornou real – nós o sabemos pela fé – é obra de Deus. Ele o chama à vida, o mantém e o leva à plenitude. Essa ação de Deus é graça. A graça é algo que vem de fora do ser humano, de Deus. Deus – enquanto Criador, Pai e Providência – acompanha-nos imediatamente com suas graças. Somos livres para recebê-las ou recusá-las. Se Deus nos faz seres em processo, também nos faz capazes de receber seu b) acompanhamento (graça) para nos levar à destinação/salvação plena (graça última). Na verdade, tudo é graça, dom de Deus. Na teologia – sobretudo desde Santo Agostinho passando por vários sínodos e teólogos como Santo Tomas de Aquino, Lutero, Bayo, Jansênio, Quesnel e outros, além do Concílio de Trento, – foram feitas grandes discussões sobre a graça como algo necessário ao ser “humano pecador”. O ser humano – independente da fé (que é uma graça) – está marcado pela c) graça, desde a criação/origem pessoal até a visão/salvação de Deus. Para aperfeiçoar-se e, inclusive, superar o mal, ele é agraciado por Deus. Só se é humano por se ser agraciado por Deus. Isto é: só se vive por graça de Deus. Este modo de Deus agir conosco não fere nossa liberdade nem quer ser um “remédio” à sua obra criada. Ao estabelecer a presença da pessoa humana no seu plano de salvação, Deus a chamou, elegeu-a para ser santa e perfeita a seus olhos (cf. Ef 1,3), por Cristo, em Cristo e para ele, por ação do Espírito Santo. Faz parte do ser humano receber e viver (mesmo de forma não consciente) da graça de Deus. Deus vive em nós e nós vivemos nele e dele. PARA VOCÊ REFLETIR: Entre graça e liberdade (o dom de Deus e a aceitação humana) parece haver uma tensão. Se Deus nos agracia, estaria privando-nos da liberdade? Seríamos obrigados a aceitar a graça, inclusive a de viver? Não seria a graça uma violência contra o ser humano? Pode a graça ser causa de nossa libertação? INFORMAÇÃO: Este tema, em muitos cursos de teologia, aparece como uma disciplina autônoma. Aqui, você verá apenas alguns conceitos imediatamente pertinentes à questão antropológica. Bacharelado em Teologia © Antropologia Teológica • • • CRC Batatais – Claretiano 65 Versão para impressão econômica UNIDADE 6 - Nos tradicionais Tratados da Graça parte-se (quase sempre) do pressuposto de que a graça é algo complementar, dado por Deus por causa do pecado. Isso seria a forma de Deus corrigir o ser humano – pecador desde o início. A graça seria um remédio ou um auxílio para vencer o pecado. - Nesta Antropologia Teológica, nós partimos de outro pressuposto. Deus nos agracia, concede-nos sua graça, porque somente podemos viver nele e para ele – mesmo com nossa autonomia ou independência até mesmo quando nos voltamos contra ele. Quando se fala em criação contínua, está-se falando também da graça do viver, que anterior e independente (ou acima) do pecado. Ninguém vive (mesmo que esteja em pecado) sem a graça de Deus. Aqui temos como pressuposto que a graça é o dom permanente de Deus para que o ser humano viva. Ela se torna graça especial nesta ou aquela circunstância. Seria inimaginável um ser humano viver sem a constante graça de Deus. Ela é a permanente forma de Deus estar conosco. Por ser dom de Deus,d) ela não depende da pessoa humana, que – isto sim – pode rejeitá-la. Pela graça, todo homem e mulher são envolvidos amorosamente por Deus. A partir desta experiência é possível viver sempre diante de Deus – apesar dos males. LEMBRETE: Viver sempre diante de Deus foi o que Jesus viveu – “passou pelo mundo fazendo o bem (At 10,32). Assim viveu Maria, “a cheia de graça” (cf. Lc 1,28). Deus os acompanhou e eles – por força da própria graça – responderam à graça de Deus. “Tudo contribui para o bem daqueles que amam a Deus” (1Jo 5,19). A e) graça cria em nós, não só o gosto, mas também o otimismo e a alegria de viver, de crer e esperar a realização plena. Ela nos abre a uma relação de comum-união (comunhão) entre Deus e nós, e entre nós mesmos. Isso confirma o ser de relações que somos enquanto pessoas. Ela é o garante da vitória final de Deussobre todo o mal. É também a garantia divina em nós para vencermos os males que nos assolam ou que provocamos. Por não sermos perfeitos (carecemos ainda da perfeição), a presença de Deus, em nós, vai-nos agraciando para a perfeição. Ele nos auxilia com novas graças a fim de não abusarmos da liberdade pelo pecado. Ele nos dá graças para vivermos em santidade, para evitarmos o pecado e o mal. Contudo, ele não se permite impedir-nos pecar e praticar o mal. Por sermos seres agraciados por Deus, somos co-criadores com ele. Não f) somos meros participantes ou espectadores do mundo em que nos situamos. Nossa missão é colaborar na obra criacional toda. Para isso, recebemos a graça de Deus. O que somos adquire existência por esta gratuita expressão do amor de Deus. A atuação no mundo, a colaboração na construção do mundo melhor, a recepção da conquista humana e o empenho por legar uma herança maior: tudo isso vem impulsionado por esta amorosa e gratuita relação de Deus em nós e conosco. Diante dos revezes das pessoas, sociedades, países e do meio ambiente, g) Deus oferece, de muitos modos, sua bênção (graça) para a re-novação de INFORMAÇÃO: Esta perspectiva tem uma longa história e está muito difundida. Ela caracterizou boa parte das discussões teológicas de Idade Média. CRC • • • © Antropologia Teológica Claretiano – Batatais66 Bacharelado em Teologia Versão para impressão econômica UNIDADE 6 tudo. Os próprios cristãos tornam-se portadores e mediadores privilegiados da graça de Deus em prol do bem comum – mesmo quando Deus se utiliza de outros crentes e religiosos para este fim. Ser agraciado por Deus é algo co-natural ao ser humano, independente h) de sua vontade e de sua ação. Fomos escolhidos por ele desde antes da criação do mundo para ser santos e perfeitos, como diz São Paulo. Somos chamados, por ele, para completar em nós, graciosamente, todo o processo de humanização a ser realizado. Sem prejuízo da liberdade, a pessoa humana pode acolher estes favores divinos, exatamente para seu amadurecimento e plenificação. A graça não é oferecida só ao indivíduo. Também o é à coletividade humana, i) quer no conjunto, quer nos grupos derivados. Nesse último sentido, ela se apresenta também como iluminação da atividade humana, nos laboratórios de pesquisa, na organização social, no processo da educação e da cidadania, no trabalho e no lazer, na vida em fim. Há, porém, um aspecto especial da graça: é dada aos homens e às mulheres j) uma consciência libertária para produzir a libertação dos pobres, dos oprimidos e dos marginalizados. Essa situação de pobreza – normalmente produto intencionado por grupos humanos – exige a atenção de todos (especialmente dos cristãos) para a graça da fraternidade à mesa comum dos filhos e filhas de Deus. Se a pessoa humana foi criada para viver da graça, então a ação libertária de Deus e dos seres humanos (graça), em prol dos mais necessitados (questão antropológica), torna-se um dever empenhativo (questão moral) de todos. O ser humano é permanentemente agraciado por Deus: por isso ele vive. Ele vive da graça constante da Providência Divina não porque é pecador, mas porque Deus o ama desde toda a eternidade. Viver a vida de agraciado é, constitutivamente, o modo do viver humano. O ser humano pode até dizer que rejeita a graça e agir contrariamente a Deus – mas isso não impede a Deus de agraciá-lo até mesmo nestes casos. Do contrário a pessoa humana não viveria. Viver a graça é viver na alegria, na solidariedade e na comunhão com todos; na construção de um mundo melhor. É ser imagem do ser humano, como filho e irmão de Deus. O ser humano como ser livre e a questão da liberdade Certamente as suas experiências de liberdade já o convenceram de que você a) não é livre para fazer o que quer. Ninguém consegue isto. Às vezes, alguns acham que ser livre é poder o que se deve. Mas, se deve seria obrigação! Isso não contrariaria a fazer liberdade? Responda: Ela está certa?! Numa roda de amigos falava-se sobre fidelidade b) conjugal. Bem que poderiam ser outro tema. Uma esposa de meia idade diz: “Sempre confiei no meu marido. Ele viaja muito. Tem toda a liberdade. Ele pode fazer tudo o que quiser. Por isso, sei que ele jamais me trairá”. Só o ser humano pode ser livre, pois é o único chamado a sê-lo.c) - Você pode entender melhor por que a pessoa humana é chamada a ser livre quando a compara com os animais. Na liberdade, há componentes de consciência, relação, vontade, possibilidade de decisão, memória, responsabilidade, adesão e até renúncia. INFORMAÇÃO! Você pode comparar as idéias teológicas sobre a liberdade com as filosóficas, expostas na disciplina Antropologia Filosófica, Unidade 4, item 2. Ao estudar procure ver as diferenças e as aproximações. PARA VOCÊ REFLETIR: Como você diferencia as duas concepções de liberdade acima (“a” e “b”)? INFORMAÇÃO: A concepção de liberdade, em sentido antropológico, é diferente da do sentido moral. Na base deste (moral) está aquele (antropológico). Também é diferente a concepção grega da atual concepção personalista de liberdade. ATENÇÃO: As concepções filosóficas – porque são filhas da própria razão – não são conceitos exaustivos para a teologia. Isso porque naquelas o ser humano se basta a si; nesta, o ser humano é um ser de relações com Deus e com os irmãos. Bacharelado em Teologia © Antropologia Teológica • • • CRC Batatais – Claretiano 67 Versão para impressão econômica UNIDADE 6 A consciência de liberdade tem uma história. Para os gregos em geral, era d) condição de ser cidadão e não escravo. Para Sócrates era a capacidade de fazer o melhor. Para Aristóteles, a capacidade de escolher. Para Santo Agostinho, a capacidade de decidir. Para Kant, a capacidade de agir autonomamente. Convém diferenciar: a) liberdade de Deus; b) liberdade do ser humano. Deus e) é libertador, o ser humano é libertado. Deus é quem liberta e capacita as pessoas a entrarem em comunhão 1. com ele e com os outros. Para São Paulo, a liberdade é um bem salvífico universal, gratuito, que liberta o ser humano de todos os poderes, inclusive o da morte (cf. Rm 8,2-9.21). É também um dom escatológico. O ser humano é livre porque recebeu a liberdade Deus – o único capaz de 2. libertá-lo de todos os condicionamentos; b) o ser humano é livre quando opta por Deus e se integra em obediência à ordem criada por Deus; c) ser livre é ter a capacidade de se auto-determinar, dentro do plano de Deus; d) o fundamento das liberdade está na comunhão com Deus; e) ela é uma atitude diante do pecado e da lei. Ser livre é um modo humano de existir. É a liberdade de Deus que torna o f) ser humano livre. Isso implica uma vocação, um chamado de Deus. Por outro lado, é uma conquista que, pela graça de Deus, faz-se ao longo da vida. José COMBLIN (1998, 238) afirma: “Ninguém ‘é’ livre. A liberdade está no agir para se libertar. Esta é a nossa vocação humana: tornar-se alguém, uma pessoa, fazer-se uma personalidade mediante uma luta, um trabalho, uma atividade que consiste em libertar- se. A libertação tem uma finalidade: tornar-se livre, dar-se a si próprio uma personalidade realmente mais livre. A liberdade é seu fim próprio, e ela se constrói no decorrer da vida, no meio das oportunidades, dentro das vicissitudes de uma existência humana terrestre”. O ser humano não tem um destino cego (“moira”, como diziam os gregos) g) nem sua vida está selada (“maktub”, como dizem os árabes). Não tem uma meta histórica e escatológica irrecusável de antemão. Vocação para a liberdade é um chamado e uma graça de Deus. Ela se torna h) uma experiência fundante e fundamental para o ser humano. Ela deve fazer o ser humano superar a si, seus desejos e medos, temores e egoísmos, traumas e subserviências, “posses” e sua história. Livre é aquele que pode pôr-se a serviço dos outros. Pôr-se a serviço dos i) outros é não ser escravo; antes, o contrário.É claro que não é livre aquele que é obrigado a estar a serviço dos outros, pois aí ele pode estar des- humanizado até. Só no serviço voluntário de amor é que se conquista a liberdade. Aí o exemplo j) de Jesus Cristo – que passou pelo mundo fazendo o bem (At 10,38) – é impar. Ele tornou-se livre exatamente porque se esvaziou totalmente de si (cf. Fl 2,6), para servir a Deus e a seus irmãos, especialmente aos marginalizados e aos pobres. Ele foi um homem livre. k) No processo de libertação surge uma aparente contradição: Cristo nos libertou para a liberdade, diz São Paulo. Só ele nos fez livres para a liberdade. - Ser livre é um processo a ser construído. Nada está previamente determinado. O nosso futuro está aberto. Quanto mais nos libertamos, mais livres nos tornamos. INFORMAÇÃO Na Bíblia há outras concepções. Consulte um dicionário teológico o verbete “liberdade”. INFORMAÇÃO: O livro Vocação para a liberdade de José COMBLIN é muito interessante, sobretudo na reflexão que ele faz sobre os processos libertários. PARA VOCÊ REFLETIR: Nem sempre homens públicos (presidentes, governantes e outros mais) são homens livres. Nem pública nem privadamente. Procure, por outro lado, analisar sob o prisma de liberdade a vida de alguns homens e mulheres livres como: Gandhi, Mandela, Tereza de Calcutá, Helder Câmara, Luther King. CRC • • • © Antropologia Teológica Claretiano – Batatais68 Bacharelado em Teologia Versão para impressão econômica UNIDADE 6 - Porém, a libertação nossa é um colocar-nos sob o senhorio de Cristo. Eis aqui a questão! Ao nos colocarmos sob o senhorio dele, não nos tornamos escravos dele? – Sim! Mas, só nos colocando a serviço dele é que conquistamos nossa liberdade. Só nele, nos tornamos verdadeiramente livres. - Então, podemos dizer: somos escravos de Cristo (afirmação negativa), por isso somos livres (afirmação positiva). A liberdade é um dom de Deus. - Ou em outras palavras: somos criados, em Cristo, como imagens e filhos de Deus para realizar-nos em plenitude nele, vendo-o face a face – em função disso é que somos livres. Somos livres à medida que vivemos este processo. Fora dele, que futuro l) se pode ter? Não é, por acaso, em Deus que conquistamos nossa plenitude (apesar de sermos livres para recusá-la?). Se só aí estará nossa humanização completa, então, só sob o seu senhorio é que atingiremos a razão de nosso viver. Ele é o Senhor que, na força do espírito, liberta-nos para a liberdade. Desse modo, concluímos: m) Ser livre, na verdade, é colocar-se sob a vontade de Deus, em vista da 1) realização de seu plano salvífico. Seremos livres à medida que realizamos aquilo que Deus quis para nós. A libertação última é poder viver em Deus. Só aí seremos plenamente 1) humanos. E então não mais precisaremos da própria liberdade, nem mais da esperança. Viveremos na eterna graça como salvos, isto é: plenificados e realizados. Para situar o ser humano afirmamos que sua vida tem várias dimensões sem dicotomias. Deus o fez como um ser de esperança, para que ele tomasse em suas mãos o próprio crescimento. Também o fez capaz de receber suas graças, a fim de que crescesse. E, finalmente, o fez livre, para que crescesse e assumisse seu destino final, construído num processo de libertação. Este processo de aperfeiçoamento envolve tanto a espécie humana quanto cada um pessoalmente. 4 O SER HUMANO “CONTRA” DEUS Já vimos anteriormente que Deus nos criou como imagem sua, em Cristo. Somos seus filhos e irmãos de Cristo Jesus. No uso abusivo da liberdade, o ser humano e a humanidade se alienaram de si próprios e de Deus. Perderam a capacidade de dialogar com ele. Perverteram a própria vida. E se desviaram da história da salvação, pondo-se contra Deus. Da alienação dialogal com Deus degenera-se também o diálogo com os irmãos. O mal, o pecado (o pecado original) e a morte (espiritual e eterna) excluem a pessoa da comunhão universal com Deus e da comunhão próxima com os irmãos. Esta infeliz condição humana cria um aparente fracasso nos desígnios amorosos e gratuitos de Deus, que só pode ser “remediado”, sanado por Cristo. Deus nos criou para nos salvar; isto é, para realizar-nos plenamente nele. Porém, necessita, também, no processo de aperfeiçoamento, redimir-nos (salvar-nos) de nossos pecados. INFORMAÇÃO: Só o ser humano é um ser livre, porque Deus o liberta para a liberdade. E a liberdade consiste em fazer a vontade de Deus. INFORMAÇÃO: Neste item 4, você vai aprofundar algumas questões que não são marginais na Antropologia Teológica. Não se pode ignorar seu peso sem falsificar a realidade humana. Embora não sejam o centro da fé, têm forte incidência sobre ela. Bacharelado em Teologia © Antropologia Teológica • • • CRC Batatais – Claretiano 69 Versão para impressão econômica UNIDADE 6 O ser humano e o mal O mistério do mal Experimentamos cotidianamente o mal. E o experimentamos no sofrimento, na angústia, na morte – em nossas atitudes e na consciência moral. Diante dele somos vítimas e/ou vitimadores. De modo ativo, podemos ser causadores. De modo passivo, podemos ser vítimas. O mal tem uma misteriosidade de muitas faces, a ponto de não se conseguir nem conhecê-lo nem erradicá-lo definitivamente. Antes mesmo de uma coisa ser boa ou má (questão moral), o mal está aí e atinge profundamente a vida humana, o próprio ser humano. Por esta sua negatividade, torna-se uma questão antropológica também. As discussões sobre o tema privilegiam as abordagens sobre o mal físico, moral e metafísico. O tema foi particularmente estudado na teodicéia. A grande discussão pode ser sintetizada no dilema de Epicuro: Ou Deus quer tirar o mal do mundo, mas não pode; ou pode, porém não quer; ou pode e quer. Se quer e não pode, é impotente; se pode e não quer, não nos ama; se não pode e não quer, não é Deus e além disso é impotente; se pode e não quer – e isto é o mais seguro –, então de onde vem o mal real e por que ele não o elimina? Você pode perceber que, posto dessa maneira, o problema do mal é uma questão de Deus, de seu querer e poder ou do seu não querer e não poder. Todavia, se a questão fosse do querer e do poder de Deus, dever-se-ia perguntar: por que ele ainda não resolveu a questão? Entretanto, a discussão não se resolve assim. O fato é que o mal e as coisas más estão aí. E eles tomam nomes e rostos diversos, segundo o tempo, as circunstâncias e as culturas. Origem do mal Em nenhum lugar da história humana, você encontra as razões da origem do mal. Donde ele vem? Ou por que ele existe? Se você lembra, temos afirmado sempre a questão da perfectibilidade (aperfeiçoamento) do cosmo e do ser humano. Dizer aperfeiçoamento implica aceitar um crescimento ou uma parada ou até uma frustração de crescimento. E isso pode ser identificado como limitação ou finitude da criação. Deus não disse querer fazer um mundo perfeito. Num primeiro sentido, o mal que conhecemos se apresenta como inevitável no mundo e na humanidade. Nada e ninguém existem pronto e acabado, sem necessidade de evoluir (deixar de ser algo, alguém, para transformar-se em maior ou em novo). Na finitude e na limitação estão contidos as imperfeições, falhas, desajustes, carências etc. Elas se manifestam em preocupações, dor e sofrimento. No processo de libertação aparece o mal porque a liberdade é uma construção e uma conquista, cujo resultado também pode aparecer como fracasso ou derrota. Todavia, se a finitude revela crescimento e limitação, poder-se-ia perguntar: por que não abreviá-los ou buscar logo a perfeição? Por duas razões simples: a) a história não dá saltos; b) como tal, a finitude não é má. PARA VOCÊ REFLETIR: Mesmo que se revolte contra o mal, a pessoa humana o sente por toda a parte. Muito se discutiu (e se discute) sobre ele. É fácil encontrar tais discussões em dicionários de teologia, nos livros de teologia moral etc. Atualmente um teólogo que discute muito este assuntoé Andrés Torres QUEIRUGA, em suas diversas obras. CRC • • • © Antropologia Teológica Claretiano – Batatais70 Bacharelado em Teologia Versão para impressão econômica UNIDADE 6 O ser humano e o pecado Experiência do pecado Outra questão referente à origem do mal é a atitude humana. O mal também provém do coração humano. A liberdade cria a “infeliz” possibilidade de fazer o mal. E o ser humano também é produtor de males. Basta pensar na fome, no desemprego, na escravidão e em toda sorte de opressões e injustiças, violações da dignidade e dos direitos humanos etc. Tais atitudes tanto são individuais quanto sociais. Isto não depende da finitude, mas da vontade do ser humano. Neste aspecto, o mal toma forma de pecado. Ele vitimiza tanto o ser humano quanto o próprio Deus. No primeiro caso, o ser humano sofre conseqüências pessoalmente ou como vítima ou como vitimador (a causa). No segundo caso, Deus é ofendido na ofensa aos seus filhos. O pecado é inerente à pessoa humana O pecado/mal está tão misteriosamente arraigado na espécie humana, que ele surge em quaisquer indivíduos, grupos, povos e culturas. Daí que os pecados pessoais não estão isolados uns dos outros. Eles procedem de contextos socioculturais – o que não isenta a ninguém de responsabilidades individuais. Querendo ou não, todos estamos implicados nestas situações de pecado – mesmo que ninguém individualmente seja obrigado a pecar (cf. Sl 50). Solidariedade no bem e no mal Não se pode afirmar que o ser humano é pecador por natureza. É verdade: há uma solidariedade no pecado e “parece” que este mal é inseparável do ser humano desde a origem. Em contrapartida, há também uma solidariedade para o bem, cuja origem é Cristo. Mas, não se pode (não se deve) criar uma tensão dualista entre pecado e graça (bem ou mal), tampouco aceitar a inevitabilidade (“moira”) do pecado. Centralidade do pecado Na história da Igreja existiram – e continuam existindo – certas correntes que enfatizam a centralidade do pecado (amartiocentrismo). Daí decorreriam as razões da encarnação do Verbo. No início do século 12, Santo Anselmo afirmou com todas as letras: o motivo da necessidade da encarnação do Verbo era o perdão de nosso pecados. Outros teólogos tentaram amenizar esta afirmação falando do amor de Deus, que nos perdoou pela encarnação de seu Filho. Todavia, o amartiocentrismo se impôs no cristianismo, sobretudo a partir da Idade Média. Hoje mantém-se em muitos programas de televisão, sejam católicos sejam evangélicos (pentencostais). Quanto menos se conhece e se ama a Deus, mais se apela ao pecado e ao demônio. Ênfase amartiocêntrica A ênfase amartiocêntrica é perversa no cristianismo porque tanto esconde o amor de Deus e do próximo, quanto esconde o amor a Deus e ao próximo – que estão no centro da revelação e da própria encarnação. Sem dúvida, o Verbo encarnado encontrou o ser humano e a humanidade em estado de pecado. Por ser nosso Salvador desde antes da criação, torna-se também nosso Redentor. “Ele se fez pecado, para a nossa salvação” (cf. 2Cor 5,21; Gl 3,13; Rm 8,32). Por outro lado, convém ressaltar que Jesus é “em tudo igual a nós” (Hbr 4,15). INFORMAÇÃO: Foi Tertuliano o primeiro a teologizar sobre a centralidade do pecado, nas grandes discussões cristológicas. Queria assim justificar o papel redentor de Cristo. Entretanto, razões da encarnação por causa do pecado (amartiocentrismo) ficaram “sacramentados no famoso livro Cur Deus homo?, de Santo Anselmo. Bacharelado em Teologia © Antropologia Teológica • • • CRC Batatais – Claretiano 71 Versão para impressão econômica UNIDADE 6 O texto paulino, porém, acrescenta a expressão: “menos no pecado” (cf. também Jo 14,30). Deve-se prestar atenção ao significado do texto. Paulo não quer e nem poderia dizer: “Nós somos pecadores e Cristo não o foi”. Antes Paulo – e esta é a exegese do texto, enfatizada na cristologia – ensina que Jesus não pecou porque em tudo fez a vontade do Pai – colocando-o em primeiro lugar. Por isso não pecou. Aqueles que negam a “possibilidade” de Jesus pecar estariam negando na verdade sua humanidade, igual à nossa. A constatação da “impecabilidade de Jesus” só se pode fazer após sua morte. “Aquele que passou pela vida fazendo o bem” (At 10,38) não pecou. A afirmação que alguns fizeram no passado de que Jesus não podia pecar porque era Deus anulariam sua igual condição à nossa natureza. Ele não seria, então, verdadeiro homem. Uma pessoa tem a liberdade, a possibilidade de pecar, sem ser obrigado a pecar. Sem dúvida, não pecar só é possível quando se coloca a vida na vontade de Deus, como Jesus o fez. Assim, Jesus é em tudo igual a nós e não pecou porque nós, como ele, também não somos obrigados a pecar. Vencedor do pecado Ainda outro aspecto: do fato de Jesus não ter pecado é que decorre nossa redenção (perdão de nossos pecados). Aquele – igual a nós – venceu o pecado e o destruiu. Assim é, inclusive, realçada a própria vida humana de Jesus que se torna salvação e exemplo para nós: nosso irmão maior não pecou. O pecado original Ensinamento da Igreja A Igreja, em relação ao pecado original, fez afirmações dogmatizadas para indicar sua propagação desde as origens da humanidade. Convém lembrar: O pecado original não é um pecado pessoal, meu. Mas ele atinge a todos. a) No ensino da Igreja, afirma-se que todos se tornam mais im-potentes na vontade e no discernimento humanos. E todos ficam privados da graça divina – sem ela o ser humano traz a morte dentro de si. A doutrina do pecado original foi elaborada em paradigmas diferentes dos b) atuais. A partir de interpretações bíblicas de Santo Agostinho sobre a Carta aos Romanos, cresceu um ensino não baseado na histórica evolução da humanidade, mas nos princípios da criação perfeita de Deus. Deus fez o homem perfeito e, logo, “Adão e Eva” pecaram por desobediência (cf. Gn 3), por perversão em relação ao outro (Caim x Abel – cf. Gn 4), nas relações familiares (causa do dilúvio – Gn 6), nas relações sociais (torre de Babel – Gn 11). Também aqui deve ser aplicado o princípio etiológico sapiencial já citado. A experiência do pecado original – na Bíblia – não é um relato histórico; antes, é um relato etiológico. Nos últimos 50 anos, tem-se discutido muito sobre o significado do pecado c) original. Inclusive, tenta recuperar-se aspectos esquecidos no decorrer dos tempos. O pecado original, cujo texto básico é Rm 5,12-21, não é objeto primeiro da fé. O fundamento da fé cristã é a esperança, não a desgraça, nem a maldade. CRC • • • © Antropologia Teológica Claretiano – Batatais72 Bacharelado em Teologia Versão para impressão econômica UNIDADE 6 Outro aspecto importante, nesta questão é a redenção realizada em d) Cristo. “Deus inclui todos os homens na desobediência para dar a todos a misericórdia” (Rm 11,23). Só a restituição do amor torna a humanidade capaz de ser livre outra vez. Muitos teólogos relacionam este pecado com o pecado estrutural, cuja origem está nos primórdios da humanidade, está presente hoje e continua ferir o ser humano em um amor desordenado e egoísta. Também o Vaticano II assinalou dessa forma as questões contrárias ao reino de Deus (cf. LG 16; NA 2; GS 8, 13,37). Todavia, a histórica “invencibilidade” do pecado/mal – seja das origens, seja na própria história – precisa ser compreendido à luz da relação profunda da pessoa humana com Cristo. Como afirma o Catecismo da Igreja Católica, n. 386: Fora desta relação, o mal do pecado não é desmascarado na sua verdadeira identidade de recusa e oposição face a Deus, embora continue a pesar sobre a vida do homem e sobre a história. A realidade do pecado das origens não é um fato objetivo, datado ou e) testemunhado documentalmente. Mas sua memória perdida não pode ser ignorada, mesmo que se lhe dêem nomes diversos (a natural agressividade dos machos, a ambição pecaminosa, pecado estrutural etc.). Só em Cristo é que ele pode ser compreendidoe explicado. Seu significado transcende fatos históricos, apesar das conseqüências históricas. E suas explicações podem ser ancoradas na encarnação, morte e ressurreição de Jesus. E por conseqüência, na nossa ressurreição. Do prisma da fé, o mal humano recebe o nome de pecado (e de pecado f) original), por causa da redenção salvífica de Cristo. Influências negativas do mal/pecado atuam sobre situações pessoais, comunitárias e estruturas sociais. Estes frutos do pecado humano são identificados no evangelho de São João como “pecado do mundo” (Jo 1.29). A vitória de Cristo sobre o pecado, o mal e a morte, é também nossa herança g) escatológica. Deus é o vencedor final. E o ser humano é salvo nele, por ele e para ele. A justiça de Deus é maior que tudo. Paulo afirma de outro modo: “onde abundou o pecado, superabundou a graça” (Rm 5,20). No sentido antropológico, o mal/pecado é uma relação perversa com Deus, h) que divide o ser humano por querer ocupar o lugar dele, confiar só em si, usar a liberdade contra Deus, buscar ídolos e prestar-lhes cultos. O pecado se agrava, aqui, porque na verdade, des-potencia-liza o ser humano que se faz escravo de si mesmo, além de prejudicar os irmãos. Aqui volta a questão candente na relação com as Igrejas da Reforma sobre a i) justificação e a graça. Esta tensão histórica tem sido superada nos diálogos ecumênicos bilaterais da Igreja de Roma e Luterana, ao se compreender que só Jesus torna justo o ser humano, mas também – agraciado por Deus mesmo – a pessoa age ao responder positivamente a Deus. Significado da morte Ainda, na questão do ser humana “contra” Deus, deve-se uma palavra sobre a morte. Na Bíblia, mais que a caducidade da vida, ela tem uma conotação de “morte espiritual” e “morte eterna” - por causa do pecado. Fora de Deus, o ser humano morre e só Deus pode restituir-lhe a vida. A própria morte natural, freqüentemente na Bíblia, também é o preço do pecado. INFORMAÇÃO: Antes de começar este tema, sugerimos que você refletisse sobre os significado “cultural” e religiosidade popular sobre a morte. Convém recordar que outros grupos (religiosos ou não) podem ter idéias bem diferentes das cristãs, como reencarnação, desintegração do ser, volta à energia cósmica etc). PARA VOCÊ REFLETIR: Leia nos texto de exegese o significado da morte em Rm 5,12-21). Bacharelado em Teologia © Antropologia Teológica • • • CRC Batatais – Claretiano 73 Versão para impressão econômica UNIDADE 6 A morte cria uma radical separação entre os que morrem e os vivos. Diz-se muitas vezes que ela é a única realidade certa. Mas, inexoravelmente escandalosa, faz terminar a vida sem razões. Ela é produtora de angústia, solidão e tristeza. Passagem para a vida Para os cristãos, porém, ela torna-se uma passagem para a vida. Ou melhor, o lado contrário da morte é a ressurreição para a vida eterna – onde a vida não mais depende de tempo e espaço. Os cristãos crêem que a vida continua, apesar da morte. Somos cidadãos de duas pátrias: a histórica e a escatológica. A morte é a passagem certa e requerida para entrar na vida eterna. Tem aspecto de trágico e de saudoso para os que ficam. Mas para os que partem, ela é a possibilidade de atingir à plenificação na glória de Deus. Pode-se dizer: só por ela, antropologicamente, se atinge a mais radical e irreversível humanização. Ela conduz à vida em Deus. A ressurreição de Jesus é a garantia da vitória sobre a morte: “aquele que estava morto... Deus o ressuscitou” (cf. At 2,23)... “e disto somos testemunhas” (At 2,32). “Deus, que ressuscitou Jesus da morte, ressuscitará também a nós, pelo seu poder (1Cor 6,14). “Cristo ressuscitou como primícias dos que morrem (1Cor 15,20). Se em Cristo, a morte não é a última palavra, se Deus vivo é o Deus dos vivos e não dos mortos, então nossa esperança se convalida na ressurreição. Por um lado, é o acabamento do ser humano como pessoal espiritual (a conquista plena de sua livre realidade espiritual), e, por outro, a interrupção de sua vida biológica (o mais radical desapossamento de si, como diz Rahner, e ser todo possuído pelo Salvador). Só pela morte, nós nos tornaremos totalmente de Deus, em Deus e para Deus. Ressurreição da carne A morte, porém, deixa entre os vivos um saldo: o corpo biológico. É exatamente isto: enquanto a pessoa é chamada à imortalidade, parte de si – o corpo biológico – morre e se decompõe, até desaparecer. Segundo a fé cristã, a transformação sofrida na morte é como a semente que morre para adquirir uma vida maior. A vida nova se transforme em vida do espírito. Vida pneumatificada, no dizer de São Paulo. Novamente aqui a antropologia deve relacionar-se com a escatologia e relembrar a ressurreição da “carne” (do corpo) ou dos mortos. Aqui os conceitos não podem trair a fé. Você deve lembrar que muito da antropologia cristã foi afirmado sobre conceitos gregos do homem como uma unidade dual, de corpo e alma. Então seguia o seguinte pensar: na morte, separam-se as duas realidades. A alma, na eternidade, aguardaria a ressurreição de seu corpo (biológico), no fim dos tempos, para readquirir sua completude. Todavia a Sagrada Escritura e a teologia contemporânea não convalidam mais esta posição. O ser humano, na morte, é transformado. Torna-se pleno, pneumatificado. A ressurreição é um fato escatológico. Fora do tempo. Para a pessoa ressuscitada o fim dos tempos já chegou. Sua vida agora é em Deus, onde não existe tempo. Não há um “tempo” de espera na felicidade com Deus. Caso contrário não seria uma visão beatífica e feliz de Deus. O ser humano ressuscitado é identificado pelo “ruah”, por isto pode-se falar em pneumatizado. É a pessoa em sua dimensão espiritual. É algo mais que apenas a “alma” grega. INFORMAÇÃO: A palavra pneuma, você lembra, significa: sopro, espírito. Você se lembra da idéia de “ruah”? ATENÇÃO! Releia 1Cor 15, especialmente 35-53. CRC • • • © Antropologia Teológica Claretiano – Batatais74 Bacharelado em Teologia Versão para impressão econômica UNIDADE 6 Mas, e o corpo? O cadáver de uma pessoa (não a pessoa) é sepultado, posto na terra ou cremado, onde se transforma materialmente. Desde os povos primitivos se cultiva o respeito pelos cadáveres e os sepultam. Os cristãos também o fazem, porque crêem que, enquanto vivo, naquele ser habitava o Espírito de Deus, Deus mesmo. No processo de aperfeiçoamento humano, a corporeidade é uma dimensão fundamental, jamais desprezível. Porém, a partir da morte perde o valor – não o respeito – porque a pessoa humana passa a ter uma dimensão maior. Daí a morte não tem mais poder sobre ela. E, para os cristãos, ela evidencia uma feliz e inaudita libertação – a que nenhum outro ser humano é dado o direito de antecipar. Desse modo, como São Francisco de Assis, pode-se até bendizer a “irmã morte”, pois ela assinala o início da vida em Deus. O alienante diálogo humano com Deus des-constrói a comunhão por causa do mal, do pecado e da morte. Hoje, por um lado, enfatiza-se o mal como finitude cósmica e humana. Por outro, sabe-se que ele está presente, por toda parte, em múltiplas faces. Desde o ponto de vista da fé, é identificado como pecado. Ela tem dimensões tanto antropológicas quanto morais (estas a serem estudadas na teologia moral). O pecado, com sua misteriosidade, está em toda parte da vida humana. Ele atinge a todos. A memória cristã o localiza desde as nossas origens. Nele nos movemos. Mas, por outro lado, ele não é tudo nem o critério humano e cristão para a explicação do mistério da vida. A graça de Cristo nos “resgata” dele e nos salva para a vida eterna. A graça é maior que ele. Os cristãos olham para além do mal, do pecado e da morte. Na ressurreição de Cristo aguardam a própria ressurreição, ao se tornarem pessoas espirituais que atingem sua perfeição plena: ver e viver em Deus, o que é motivo de imensa gratidão. Então, a morte – que deixa angústia e saudade – torna-se fonte de libertação,segundo a fé cristã. No item a seguir, você estudará questões pertinentes ao significado cotidiano da vida: O ser humano em sua autonomia (a histórias, a cultura e o trabalho). Sem dúvida, na antropologia cristã há muitos outros temas interessantes. Escolhemos estes porque são “ferramentas” para você continuar sua própria reflexão ou seu fazer teologia depois do nosso estudo. Termine, com alegria, os temas deste tópico 4 e prepare-se para os cativantes itens que seguem. 5 O SER HUMANO EM SUA AUTONOMIA Vamos enfocar este tema de modo holístico, para permitir que você treine seus “vôos teológicos pessoais”. Ou seja, depois desse estudo, você terá “chave teológica” para abordar outras questões do ponto de vista da Antropologia Teológica. Você fará um estudo, agora, que aborda teologicamente a dimensão antropológica da história, da cultura e do trabalho. PARA VOCÊ REFLETIR: As idéias teológicas sobre a morte, certamente, vão de encontro às lágrimas, tristeza e cultura da morte. O cristão maduro deve perceber que se a tristeza da morte cria a saudade, a certeza da ressurreição nos leva ao coração de Deus. Você poderia procurar no Missal, especialmente nos prefácios para os fiéis defuntos, a concepção da Igreja sobre a morte. ATENÇÃO! Seria interessante, outra vez, você comparar as diferenças e as aproximações com a Antropologia Filosófica. Bacharelado em Teologia © Antropologia Teológica • • • CRC Batatais – Claretiano 75 Versão para impressão econômica UNIDADE 6 O ser humano, o que faz a história Nossa perspectiva, sem dúvida, é a da Antropologia Teológica. Não é uma simples leitura da vida. História é o contexto significativo e operativo, em que se impõe a salvação revelada por Deus e crida pelos seres humanos. Historicidade é o modo humano de agir no presente, aberto para o futuro, condicionado pelo passado, dentro da tensão e dos condicionamentos, do sentido e da liberdade. Dentro da história da salvação, nós sabemos de nossa origem coletiva e pessoal, sabemos do nosso presente e de nosso futuro no plano de Deus. Daí é um passo para afirmar: o sentido radical, último, da história está no fim, na glória de Deus. A vida é construída de etapas, que mudam de acordo com as circunstâncias. A história é, então, o campo onde a pessoa humana atua na passagem do tempo para a eternidade. Deus, que tudo criou, mantém sua obra e a leva à plenitude. Atua na história agraciando e salvando o ser humano e o cosmo. Assim agindo, Deus não tira a autonomia da história cósmica e humana, pois, só na história o ser humano: pode ser livre; a) encontra o sentido da própria vida; b) entra em comunhão com Deus e com os irmãos; c) encontra Deus encarnado; d) estabelece comunhão concreta com a comunidade humana (e com sua e) Igreja); pode aperfeiçoar-se.f) A história é, então, o tempo salvífico, onde a humanidade e a pessoa se humanizam, vivem a liberdade e tornam-se co-criadoras com Deus. Por outro lado, há uma história desde a hominização até a humanização do homo sapiens. Esta história tem milhares de anos, quando se pensa na coletividade humana (o que você já estudou na Unidade 5). Contudo, a historicidade dos indivíduos é também comunitária. Tem um significado pessoal e social. Cada pessoa sintetiza em si o cosmo e a humanidade, sem se fechar em si mesma, pois são suas relações que o confirmam exatamente como pessoa. Como histórico, o ser humano pode localizar-se em tempos e espaços diversos. Todavia, esteja onde estiver, ele é alguém que ama e é amado, que sofre e participa de sofrimentos. Está vinculado a grupos sociais diversos. E aí que Deus o alcança e confirma sua filiação divina e sua destinação eterna. É aí que Deus o agracia para que ele possa crescer e evoluir. É na história, por sua vez, que ele se manifesta como ser livre – por aceitar ou rejeitar a Deus. ATENÇÃO! Usamos, aqui, as palavras “historia” e “historicidade” para indicar, não a ciência histórica ou a historiografia. Nosso interesse deve voltar-se para a vida real do ser humano, situada espácio- temporalmente e seu sentido. Lembre-se de que como pessoa humana, você é um ser em construção e um construtor de sentidos. INFORMAÇÃO: Convém, aqui, recordar algumas idéias já dadas: processualidade, perfectibilidade, destinação, esperança, liberdade e outras. INFORMAÇÃO: O cristão transforma sua vida em um tempo de peregrinação, marcado por três idéias determinantes: a) o tempo está assinalado pelas ações de Deus (por exemplo: Sl 104;27; Ecl 3,1-8); b) é um tempo de salvação (cf. Dt 26,5-10; Js 24,2- 13); c) adquire uma dimensão escatológica. PARA VOCÊ REFLETIR: A história de cada um tem um horizonte remoto, mas também próximo. Aí se incluem pais/ avós, irmãos/filhos, e parentes, co-habitantes da localidade/ cidade. Nesta história se incluem as situações socioeconômicas e culturais, as religiosas e educacionais, as laboriais e políticas etc. A historicidade de cada pessoa está marcada pelo presente, condicionada pelo passado e aberta para o futuro. CRC • • • © Antropologia Teológica Claretiano – Batatais76 Bacharelado em Teologia Versão para impressão econômica UNIDADE 6 O seu dia-a-dia é um processo de libertação em pequenas e grandes atitudes. Ao concretizar sua história, ele se torna (ou não) construtor de um mundo fraterno, comprometido com Deus e com a autonomia das realidades terrestres. O ser humano é um peregrino e um construtor do mundo. Seu empenho histórico está em colaborar no crescimento cósmico e humano, de modo autônomo, sem esquecer que sua contribuição é sempre algo que soma ao plano de salvação. Tanto a história pessoal quanto a da humanidade toda, deve ser lida à luz da história da salvação, onde Cristo é o centro. O ser humano, o que produz cultura A historicidade humana concretiza-se na cultura. Deus chama o ser humano a participar de sua obra criacional. E a pessoa “cultiva” o mundo à sua imagem. O mundo é o jardim do ser humano, onde ele emprega suas forças para cultivá-lo. Cultivo e cultura têm a mesma raiz semântica. E é exatamente nelas que Deus mostra – pela ação humana – a riqueza de seus dons. Assim, a(s) cultura(s) – obra humana – é (são) também obra e dons de Deus. O modo de viver e agir, de pensar e trabalhar, é que identifica a cultura humana por toda a parte, a ponto de dever falar-se de culturas locais. Ela é fruto da humanização e espiritualização da natureza, no processo da evolução. É uma das características básicas do despertar da consciência na natureza biológica. Ela foi–se construindo no domínio da fabricação de pedras polidas, de instrumentos de caça, culto aos mortos, pinturas rupestres, domesticação de animais, controle da fala, drenagem dos pântanos, construção de aquedutos e pirâmides etc. Isso manifesta a vitória do humano sobre a animalidade. A salvação de Deus permeia a cultura e a ação humana não deixa de pertencer à história de sai salvação. Todo o comportamento humano está enquadrado nas culturas. A partir da crescente expansão do cérebro, da elaboração do pensamento abstrato, do incentivo à memória e à criatividade, o ser humano atingiu os maiores patamares da evolução das espécies. Ele produziu culturas que hoje exprimem a essência dos povos. O inesperado passo evolutivo criou para a espécie humana, a possibilidade de interpretar (dar) o sentido do cosmo e de si mesmo de modo crescente até chegarmos à tecnologia de ponta na bioética, na nanotecnologia etc. A tecnologia – filha do processo cultural – distancia-se da cultura. Na primeira, expande-se o processo inteligente para fora do ser humano. No segundo busca-se a interiorização pelos valores. As grandes culturas fundam-se em valores fundamentais, onde vale o ser humano – primeiro dador de sentido ao cosmo. As culturas estão grávidas dos bens e dons divinos, como prenúncio da vida “nos novos céus e nova terra” (Ap 21,1). É nas culturas que nascem as religiões, desde as primitivasaté as reveladas. Os inúmeros vínculos das pessoas entre si e com o cosmo, com as ciências e tecnologias, constituem-se em culturas que, de novo, incentivam a interdependência, abrem novos desafios. A cultura é a humanização do universo real e organizado pela coletividade humana. O ser humano torna-se um ser cultural a partir de sua integração comunitária, onde recebe e oferece sua contribuição ao bem comum. Assim, a cultura (que não se confunde com intelectualização nem com estudo) é algo pessoal e universal. Tanto num nível quanto no outro, torna-se instrumento de libertação e crescimento humanos. PARA VOCÊ REFLETIR: A cultura não está isenta de ambigüidades. A inautenticidade dela está nos sinais de morte quando se torna uma fonte de dominação e exploração. Podem estar em risco pessoas, grupos e até comunidades, quando os valores culturais de uma ou várias comunidades são desviados do bem comum. Isso pode ser resultado de opressões econômicas, políticas, religiosas etc. O caráter escravizante de uma cultura aparece quando está em risco a própria dignidade humana – de uma ou de várias pessoas. Bacharelado em Teologia © Antropologia Teológica • • • CRC Batatais – Claretiano 77 Versão para impressão econômica UNIDADE 6 No sentido positivo, a cultura expressa-se em formas concretas no modo de organizar a sociedade e a família, de construir a ciência e o trabalho, de oportunizar a tranqüilidade, o lazer e o lúdico, de gerir conflitos e satisfazer anseios. No fundo, a cultura, que humaniza a pessoa e as comunidades, leva-as aos encontros dos bens e dons de Deus, colocados na história e orientados para a perfeição definitiva do ser humano. Pela cultura, o ser humano humaniza-se e constrói, com a graça de Deus, seu processo de aperfeiçoamento – que culmina em Deus. Normalmente percebe-se a cultura apenas em sua dimensão humana. Você poderia fazer um exercício teológico e perceber a presença ativa de Deus nas culturas. Para facilitar e iniciar este exercício, comece imaginando os elementos que trazem sinais de vida e de morte ao seu contexto familiar e de lazer. O ser humano, o que trabalha Como você se posiciona diante do trabalho? É um castigo? Uma benção? Nada a ver? Qual os conceitos sobre o trabalho, que as pessoas a seu redor têm sobre ele? Que tal você escrever um texto teológico antes de iniciar seu estudo? O trabalho e o trabalhador. O trabalho é filho da cultura, da necessidade e do prazer (realização pessoal). Ele é a forma mais básica, mais radical, nos tempos presentes, de identificação social de uma pessoa. Pelo trabalho, o ser humano apresenta-se socialmente em tudo quanto ele é. No trabalho transparece sua identidade, como ser de relações, como criador de sentido, com ser de esperança e livre, como portador das graças de Deus – das quais a ênfase fundamental está em ser chamado à vida como imagem e filho de Deus, destinado à glória divina. A existência humana realiza-se mediante o trabalho – que depende da cultura e, ao mesmo tempo, é sua base. Ele é a raiz da satisfação básica das necessidades humanas e, ao mesmo tempo, a fonte da integração psicossocial. O trabalho – manual ou intelectual – torna-se a fonte mediadora na construção de uma sociedade fraterna, de justiça e de dignificação. E o é porque é capaz de investir espiritualmente na natureza e na sociedade. Ao mesmo tempo, ele é o instrumento de espiritualização da natureza e da sociedade, onde o ser humano evidencia seu ser semelhante a Deus. O próprio espírito se desenvolve por meio deste investimento, porquanto descobre cada vez mais ampla e conscientemente sua capacidade de conhecer, querer, planejar e realizar. Também a matéria se desenvolve pelo investimento do espírito não só porque sua utilidade em relação ao homem se torna mais qualificada. Mas também por que ela mesma se espiritualiza, cada vez mais por este investimento, se humaniza, desenvolve racionalmente suas potencialidades, é inserida ao domínio humano e com isto mais se assemelha ao espírito (Jakob DAVID. A força criadora do homem: teologia do trabalho e da técnica, in Mysterium Salutis II/3. 3. Antropologia Teológica. Petrópolis: Vozes, 1980, p. 213.) A sociedade torna-se mais justa e fraterna pelo trabalho, cujo resultado se transforma em bem comum como auto-sustentação, subsidiariedade e aperfeiçoamento coletivo. O espírito laborial mesmo desenvolve-se porque exige a interação, obriga à união e à colaboração, incentiva a sociabilidade e produz um patrimônio comum. CRC • • • © Antropologia Teológica Claretiano – Batatais78 Bacharelado em Teologia Versão para impressão econômica UNIDADE 6 Trabalhar para si, para os outros e com os outros, é desenvolver-se, é aperfeiçoar- se a si mesmo e a coletividade humana. Por ele, se conquista a autonomia e a independência da natureza. Ao mesmo tempo, se dá historicidade ao plano divino. Ele comporta um sentido escatológico, pois como diz o apocalipse 14,13: “suas obras o seguem”. O trabalho santifica tanto ao que trabalha como a quem recebe seus frutos. Ele nos faz participar da obra do Filho, que trabalha também como Pai (cf. Jo 8,17). Por fim, é preciso lembrar que o trabalho, em muitas situações, é ocasião de pecado, de escravidão e de morte. A exploração do trabalhador, o subemprego, os baixos salários, o desenvolvimento predatório da natureza e seus desperdícios são a “dia-bolização” dele. Tanto o dano à natureza quanto a exploração humana são ações anti-humanas, que destroem e negam o significado último do trabalho. A coisificação do trabalhador e as injustiças a que ele é submetido indicam o grau de des-humanização do dador de trabalho, que por sua vez é fruidor do trabalho dos outros. O trabalho exige solidariedade e compromisso na construção da sociedade humana, no presente e no futuro. É graças à espiritualização da matéria e à humanização pelo trabalho que a pessoa humana se torna mais semelhante a Deus e poderá participar de sua glória, em Cristo Jesus – aquele que trabalhou com mãos humanas. A questão ambiental. A Antropologia Teológica tem uma palavra a dizer sobre a responsabilidade humana diante do mundo e da questão ambiental. Ela é uma criação e um dom de Deus. Não só em São Francisco de Assis, mas no livro de Daniel 3,36ss, encontramos um belíssimo louvor das criaturas todas ao Senhor, que denota o compromisso humano com a criação/natureza. O cosmo todo, em sua longa história e evolução, é um presente que as gerações têm em suas mãos. Moralmente, devem entregá-lo melhor e mais espiritualizado às gerações vindouras. O cuidado pelo meio ambiente e pela terra toda exige o empenho antropológico e ético. A criação é uma obra de Deus que também aguarda sua redenção (cf. Rm 8,20- 21) e sua renovação (cf. 1Pd 3,13; Ap 21,1). Nela o ser humano, além de filho e irmão, não pode exercer seu senhorio senão como servo da criação – que inclui os animais, as águas e os ares. Em 1991, vários organismos internacionais projetaram 9 princípios para a sustentabilidade do planeta, que merecem a consideração e apreço da antropologia ecológica: construir uma sociedade sustentável;1. respeitar e cuidar das comunidades dos seres vivos;2. melhorar a qualidade de vida humana; 3. conservar a vitalidade e a diversidade do planeta terra; 4. permanecer nos limites da capacidade de suporte do planeta terra; 5. modificar atitudes e práticas pessoais; 6. permitir que as comunidades cuidem de seu próprio meio-ambiente; 7. PARA VOCÊ REFLETIR: Procure ler GS 33 a 39. E faça sua síntese pessoal. Bacharelado em Teologia © Antropologia Teológica • • • CRC Batatais – Claretiano 79 Versão para impressão econômica UNIDADE 6 gerar uma estrutura nacional para integrar desenvolvimento e conservação; 8. constituir uma aliança global (L. BOFF. 9. Saber cuidar. Ética do humano – compaixão pela terra. Petrópolis: Vozes, 1988, p. 134). O ser humano só tem uma casa: seu planeta. Ele próprioé um ser cósmico; é “poeira do universo”. É o responsável histórico por sua casa, tendo o compromisso de entregá-la mais aperfeiçoada às gerações vindouras. O dever de empenho pela vida do planeta encontra-se dentro si mesmo. E deve ter em conta também a ternura e o cuidado, compaixão e responsabilidade pelo ecossistema. Neste último item, você se debruçou sobre três questões: a história, a cultura e o trabalho. Nossa intenção é situar o ser humano a partir destes elementos globalizantes, onde ele pode colocar toda a sua capacidade e co- responsabilidade na história em que vive. Nela, ele descobre e produz pela(s) cultura(s) o modo de viver e agir para humanizar-se crescentemente. Pelo trabalho – filho da cultura e da necessidade – é capaz de aprofundar seu ser humano, de espiritualizar a matéria ao modificá-la em prol da coletividade e colaborar, escatologicamente, pelo progresso da criação rumo à perfeição final. Um tema particular chama a atenção nestes tempos: o respeito e o cuidado pelo meio-ambiente – donde, inclusive, somos filhos. 6 CONSIDERAÇÕES Esta última e longa unidade teve em conta algumas situações humanas diante de Deus e abordou questões fundamentais do ser humano: a) como ser de esperança, agraciado por Deus e livre; b) problemas do mal, do pecado e da morte; c) questões da história, cultura e trabalho. Deus, em seu plano da salvação, pensou, desde a eternidade, no ser humano, como ser de esperança; isto é, voltado para realizar-se plenamente em Deus. Para poder sê-lo, a pessoa constitutivamente é um ser agraciado desde o seu nascimento até sua morte. Todavia, sem autonomia, o ser humano não pode ser livre e responsável. Cristo o liberta para que ele seja livre. Situações há que afastam o ser humano de Deus e o atingem profundamente. Por todos os lados, ele se vê frente ao mal e aos males – frutos da contingência e finitude da criação, mas também da vontade e auto-suficiência humanas. Sem ser naturalmente pecador, o ser humano vive num contexto de pecado desde as origens e o encontra dentro de si e das estruturas sociais. Im-potente, só lhe resta Deus para salvá-lo destes pecados e reafirmar o processo de aperfeiçoamento (salvação para). A morte que por um lado é o sem-sentido, por outro é a possibilidade mais radical de nos colocar nos braços de Deus. Ela é o passo decisivo que separa a caminhada histórica do ser humano e sua definitividade em Deus. O processo de aperfeiçoamento humano só acontece na história da salvação – que é ação de Deus. Mas, a pessoa humana o vive no seu modo de agir e decidir, de esperar e realizar suas obras. Ao historicizar sua vida, o ser humano cria a cultura como imagem de si mesmo, composta de bens e dons divinos. CRC • • • © Antropologia Teológica Claretiano – Batatais80 Bacharelado em Teologia Versão para impressão econômica UNIDADE 6 A cultura humana revela o apreço humano por si, pelo cosmo e pelo próprio Deus. O trabalho, como mais básico filho da cultura, assemelha mais ainda o ser humano a Deus. Não é ele a imagem de Deus? Pelo trabalho, o ser humano se humaniza, constrói a fraternidade e espiritualiza a matéria. Um empenho particular do trabalho humano está no cuidado com o meio ambiente. Esta nossa única casa é um bem precioso que legaremos aos nossos filhos. Nossa responsabilidade é cuidar dela. 7 CONSIDERAÇÕES FINAL Chegamos ao fim de nossa caminhada instrucional. Por um lado, o dever está cumprido. Foi um prazer ter trabalhado com você. Por outro lado, fica uma ponta de insatisfação por não poder enfocar muitos outros temas – não só relevantes, mas também existenciais desde a Antropologia Teológica ou Cristológica. Espero que, com certos critérios aqui estabelecidos, você possa ter a oportunidade de continuar estudando e fazer um caminho teológico próprio, inclusive de antropologia. Por isso, não esqueça os grandes pressupostos antropológicos sugeridos como essenciais a um conhecedor desta disciplina. Eles podem ser resumidos em 13 teses: A Antropologia Teológica ou cristológica é a reflexão cristã bíblico-sistemática 1. sobre o ser humano, que leva em conta a revelação (normativamente dada na Bíblia Sagrada), contribuições filosóficas, experiências de vida e a perspectiva escatológica da destinação final. Ela tem uma palavra particular, à luz da fé, diante de todos os outros “logos”. O Concílio Vaticano II, sobretudo pela GS, renovou os estudos da Antropologia 2. Teológica, imprimindo neles uma direção cristológica. Só Jesus Cristo revela verdadeiramente o ser humano ao próprio ser 3. humano. Todo ser humano é criado em Cristo e, nele, feito irmão e filho de Deus.4. Todo ser humano é imagem e semelhança de Deus, a exemplo do Verbo 5. encarnado. Por Cristo e por ele, fomos feitos “criaturas novas”.6. Temos uma vocação transcendente: realizar-nos em Deus como sua glória.7. Desde dentro da história da salvação, somos chamados a realizar a 8. fraternidade comum. Fomos criados livre, gratuita e pessoalmente por Deus – mesmo tendo 9. consciência do grande processo da evolução contada pelas ciências naturais. A dignidade ímpar do ser humano provém da própria natureza humana, mas 10. principalmente de Deus. O ser humano vive porque Deus o agracia constitutivamente com a vida e em 11. todas as fases de sua vida. Ele é um ser de esperança e livre, porque Deus o fez para a liberdade, 12. inclusive de pôr-se “contra” Deus, pelo pecado – o que o marca desde o início. Bacharelado em Teologia © Antropologia Teológica • • • CRC Batatais – Claretiano 81 Versão para impressão econômica UNIDADE 6 No mundo, o ser humano tem uma realidade e uma autonomia próprias.13. Por fim, espero que esta reflexão de antropologia cristológica tenha entusiasmado e ajudado você a prestar mais atenção (teológica) sobre o ser humano – esta criatura tão especial e única que pode dizer e crer com certeza: “Deus, tu me amas desde toda e a eternidade e sempre me amarás”. 8 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANDRADE, Bárbara. Pecado original... ou graça do perdão? São Paulo: Paulus, 2007. BINGEMER, M. Clara; FELLER, Vitor Galdino. Deus-Amor: a graça que habita em nós. São Paulo: Paulinas; Valencia (Esp): Siquém, 2003. BUR, Jacques. O pecado original. O que a Igreja disse de fato. São Paulo: Loyola, 1991. COMBLIN, José. Vocação para a liberdade. São Paulo: Paulus, 1998. FRANÇA MIRANDA, Mario de. A salvação de Jesus Cristo. A doutrina da graça. São Paulo: Loyola, 2004. GESCHÉ, Adolphe. O mal. São Paulo: Paulinas, 2003. MOSER, Antonio. O pecado, do descrédito ao aprofundamento. Petrópolis: Vozes, várias edições. PRETTO, Hermilo. A teologia tem algo a dizer a respeito do ser humano? São Paulo: Paulus, 2003. QUEIRUGA, Andrés Torres. Recuperar a salvação. Por uma interpretação libertadora da experiência cristã. São Paulo: Paulus, 1999. THEVENOT, Xavier. O pecado. O que é? Como se faz? São Paulo: Loyola, 2003. 9 E-REFERÊNCIA Chamada numérica (1) Søren Aabye Kierkegaard - Disponível em<http://pt.wikipedia.org/wiki S%C3%B8ren_Kierkegaard>. Anotações