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Cirurgia - Volume 4 2Medgrupo - CiClo 2: M.E.D VÍDEO DE INTRODUÇÃO Síndrome Álgica 1 dor abdominal CIRURGIA - VOLUME 4 Diagnóstico Diferencial (Hypothesis) Seção 1: SínDrome Do AbDome AguDo A Origem da Dor Abdominal Causas de Abdome Agudo Avaliação da Dor Abdominal Quadro Clínico: Anamnese + Exame Físico Exames Complementares Abordagem do Abdome Agudo Seção 2: DiAgnóStico DiferenciAl DA Dor AbDominAl Dor no AbDome Superior Pancreatite Aguda Definição Fisiopatologia Etiologia Manifestações Clínicas Laboratório Exames de Imagem Abordagem da Pancreatite Aguda Outras Causas de Dor no Abdome Superior Pancreatite Crônica Definição e Etiologia Quadro Clínico e Diagnóstico Classificação e Tratamento Doença Biliar Síndromes Dispépticas Doenças do Baço Doenças Hepáticas Doenças Cardiopulmonares Dor no AbDome inferior Apendicite Aguda Anatomia/Fisiopatologia Manifestações Clínicas Diagnóstico Tratamento Diverticulite Aguda Definição/Fisiopatologia Manifestações Clínicas Diagnóstico Tratamento Outras Causas de Dor no Abdome Inferior Geniturinária Dor Pélvica Dor AbDominAl DifuSA Isquemia Intestinal 1) Isquemia Colônica (IC) 2) Isquemia Mesentérica Aguda (IMA) e Infarto Enteromesentérico 3) Isquemia Mesentérica Crônica Outras Causas de Dor Abdominal Difusa Metabólicas Porfiria Intermitente Aguda Cetoacidose Insuficiência Suprarrenal Outros Quadros Metabólicos Intoxicação pelo Chumbo (Saturnismo) Dor na Parede Abdominal Ruptura de Aneurisma de Aorta Abdominal Obstrução Intestinal Peritonites Infecciosas Diversas Febre Tifoide (Entérica) Introdução… Epidemiologia, Ciclo Evolutivo e Fisiopatogenia Manifestações Clínicas Diagnóstico Tratamento e Profilaxia Causas Raras de Dor Abdominal Seção 3: cASoS eSpeciAiS De Dor AbDominAl 1) Dor Abdominal Crônica 2) Abdome Agudo em Imunodeprimidos 3) Abdome Agudo na Mulher e na Gestante 4) Abdome Agudo em Idosos 5) Abdome Agudo na Criança 6) Abdome Agudo na UTI 7) Abdome Agudo na Obesidade Mórbida meD r3 Área de treinamento m.e.D QueStõeS De concurSoS comentÁrioS M.E.D - 2019 2019 http://#scrolldown http://#videomiolo=intro_13700 http://#page=3 http://#page=18 http://#page=34 http://#page=128 http://#page=139 http://#page=150 4 Juvêncio Bragança resolveu largar o ramo dos esportes. Depois de tanta de- dicação, ele se desinteressou totalmen- te pelo universo futebolístico cada vez mais ganancioso, em que os jogadores pouco se identificam com seus clubes. A partir deste mês, ele voltará a se dedicar apenas aos negócios da família, voltados para a indústria de tintas e baterias de automóveis, uma antiga paixão na qual se empenhou por mais de 20 anos. Toda a decepção parece ter começado há 3 anos, quando, ao sair do trabalho, um ex-atleta e desafeto aplicou-lhe seis tiros à queima-roupa no abdome e no quadril. Os projéteis nunca puderam ser removi- dos, permanecendo in loco. Desde en- tão, vem relatando “surtos” de fraqueza muscular, dor abdominal, sonolência e agressividade. Sua família notou tam- bém que ele passou a se esquecer dos compromissos e a ter dificuldades com cálculos. Entristecido, passou a consu- mir bebidas alcoólicas mais comumente. A preferida era um uísque que comprava baratinho, de um roupeiro do clube. Esta semana precisou ser internado às pressas por conta das fortes dores abdo- minais. O diagnóstico permaneceu obs- curo até o quinto dia de internação. Neste dia, todos da equipe sentiram um grande frio na espinha quando o técnico do laboratório entrou esbravejando que o paciente estava fazendo episódios de hemólise e que a hematoscopia mostrava alterações características de uma certa condição médica. Agora, associando este dado ao achado de uma linha azulada na gengiva de Juvêncio, nin- guém mais tinha dúvida sobre o caso... Caso 1 http://#scrolldown 5 Qual a principal hipótese diagnóstica e que dados levaram você a pensar nessa condição? Como você justificaria a dor abdominal que o paciente apresentou? Como você confirmaria o diagnóstico e, caso sua hipótese fosse confirmada, que outras manifestações clínicas clássicas poderiam ser esperadas? E qual seria o tratamento mais adequado? http://#scrolldown http://#page=228 http://#page=229 http://#page=230 http://#page=231 6 Qual o achado tomográfico e qual a sua principal hipótese diagnóstica? Que dados fizeram você chegar a esse diagnóstico? Escrevo para que quando você acorde não se sinta perdida, filha (...) Paula, Isabel Allende Caso 2 Um caso similar também foi descri to na sua cidade esta semana. Um jovem de 22 anos foi admitido na emergência com crises convulsivas e estado comatoso. Tabagista ocasional, sua família negava doenças prévias, uso regular de medicação ou drogas injetáveis. Há dois meses, vinha sentindo for tes dores abdominais sempre que fumava, o que o fez largar defini tivamente o cigarro. Nesse tempo, passou a apresentar também uma estranha sensação de fraqueza, não conseguindo mais pegar os mesmos pesos de antes na academia. O jovem já não dormia mais, perambulava durante a noi te e passou a ter ideias suicidas. Na semana anterior à internação, o jovem já tinha apresentado duas crises convulsivas e, curiosamente, o tratamento com Gardenal® parecia ter piorado o quadro. No momento, ele está em ventilação mecânica e a maior dificuldade que os médicos encontram é controlar o seu nível pressórico. Os exames laboratoriais da admissão foram normais, e a TC pode ser vista na Figura: Assim começa o trecho de um dos mais belos e emocionantes textos escri tos por Isabel Allende, escri tora chilena famosa pelo livro e filme homônimo ‘Casa dos Espíri tos’. Na verdade, o livro é dedicado à filha da autora, que se encontrava doente na época. http://#scrolldown http://#page=232 7 Como confirmar o diagnóstico? Como tratar esse paciente? Caso 3 Roma, uma cidade encantadora! Estamos no ano 23 A.C. e o Imperador Augusto está à espera de seu médico Antonius Musa que vem lhe tratando com sessões de banho frio. E pensar que, faz apenas alguns dias, ardia em febre. Agora, esta regredia, restando apenas uma dor abdominal e umas manchas avermelhadas que lhe coloriam a barriga e o pei to. “Antonius chegou!” – gri tava-se pelo palácio. Diante de toda sua robustez e seriedade, ele toma o braço do imperador e conta-lhe as pulsações. “Ah, essa bradicardia que não passa” – deixa escapar o médico. Augusto, no entanto, parece estar em outro mundo, ficando a repetir devaneios e previsões. A verdade é que isso não impor tava ao médico nesse momento, que estava confiante na recuperação de seu ilustre paciente. Duas semanas se passaram e Augusto era outro. Já comandava seu exérci to, discutia com o Senado e caminhava diariamente pelo calçadão que construíra em torno do Coliseu. Numa tarde, enquanto cavalgava, sentiu uma dor súbi ta em mesogástrio, mui to intensa, e desmaiou. Seu médico foi chamado às pressas. Já era tarde, Augusto colocava sangue pelo ânus e Antonius sabia exatamente o que isso queria dizer. A única coisa que ainda lhe deu tempo de fazer foi percutir a topografia hepática e perceber o hiper timpanismo. Qual o provável diagnóstico do imperador Augusto e que achados dessa condição você identifica como característicos? http://#scrolldown http://#page=233 http://#page=234 http://#page=235 8 O que matou Augusto? Esse era um fato esperado? Que sinal identificado pelo médico corrobora a existência desta complicação? Como você faria hoje, mais de 2.000 anos depois, o diagnóstico da doença de Augusto? Que tratamento deveria ser iniciado para ele? Caso 4 Hoje é sexta-feira.. . e os amigos do trabalho foram direto para uma churrascaria. Foi um almoço daqueles! Falaram mal de colegas de outra repar tição, elogiaram a secretária do Sr. Almeida, queixaram-se dos salários, o padrão de sempre! Mas como “tristeza não tem fim, felicidade sim”, chegou a hora de voltarao trabalho. Permanecendo no canto da mesa, Tadeu Tado, que quase não comera durante o almoço, avisou aos colegas que não voltaria para o expediente porque procuraria atendimento médico. Como seus colegas o invejavam naquele momento! “Graças a esse malandrão, vamos ter que sair mais tarde!” reclamou um deles. Tadeu chegou à emergência com dor na fossa ilíaca direi ta e lá foi recebido por três atenciosos alunos do terceiro ano que estagiavam na unidade. Após uma notável anamnese de duas horas e meia, eles conseguiram excluir problemas no crescimento e desenvolvimento do paciente, bem como esquistossomose (ele desconhecia o caramujo!). Então teve início a tor tura física, ou melhor, o exame físico. O primeiro palpava e soltava o abdome à procura de rebote – desistiu na décima segunda tentativa. http://#scrolldown http://#page=236 http://#page=237 http://#page=238 9 O segundo insistiu mais um pouco, palpava a fossa ilíaca esquerda, rodava a coxa para dentro e para fora, fletia, estendia, mas também não teve sucesso. O terceiro resolveu concluir o exame com toque retal e pesquisar a temperatura no reto e na axila. A essa altura, era Tadeu que invejava os colegas que faziam serão na empresa. O preceptor, que estava dormindo e pedira para não ser incomodado, é chamado e indica a realização de USG e tomografia de abdome (Figura). Descreva a lesão na USG e TC e diga qual o diagnóstico em questão. Qual é o tratamento mais apropriado? http://#scrolldown http://#page=239 http://#page=240 10 Você conseguiria ci tar oi to diagnósticos diferenciais? Caso 5 Mas veja como é o destino; na semana seguinte, quem também procuraria a Emergência? Vadinho, inimigo número um de Tadeu no trabalho. Será que foi alguma coisa daquela churrascaria? - questionava naquele momento. A verdade é que Vadinho adiara sua ida ao hospi tal. Ele, da mesma forma que Tadeu, também sentiu dor abdominal baixa naquele dia do almoço, mas resolveu voltar para casa e ficar quieto. Agora era diferente! Eis que lhe apareceu um “tumor” na barriga e sentia uma sensação de calor mui to grande. Resolveu, então, procurar o médico. Sem mui to pestanejar, o doutor lhe solici tou a tomografia (Figura): Qual o achado tomográfico e o diagnóstico desse quadro? Qual deve ser a sua conduta nesse caso? http://#scrolldown http://#page=241 http://#page=242 http://#page=243 11 Coronel Otávio, político de uma pequena cidade do interior resolve comprar uma fazenda com seu car tão corporativo. Como em tempos de fiscalização acirrada é impossível realizar a compra dessa maneira, resolve utilizar meios mais tradicionais. Contratou um capanga e resolveu tomar o imóvel à força. “A vida, às vezes, dificulta o cabra ser honesto” – disse em tom de ensinamento para um de seus aliados. Desfrutando de sua bela propriedade, em sua rede bordada por habilidosas ar tesãs cearenses, começou a sentir uma for te dor abdominal difusa, mais predominante no lado esquerdo, seguida de diarreia com urgência para defecar e disúria. Já experimentara a mesma dor em outras ocasiões, mas nunca procurou um médico. Essa seria, aliás, a primeira vez em 61 anos de existência que seria atendido num hospi tal. Não havia sangue, muco ou pus nas fezes, e, ao exame físico, Otávio estava febril (38 oC) e em regular estado geral. O clínico que o atendeu percebeu o que descreveu como uma massa em quadrante inferior esquerdo, solici tando uma TC de abdome (Figura): Caso 6 De acordo com o quadro acima, ci te a principal hipótese diagnóstica e descreva o achado tomográfico. Que condição deve ser sempre a segunda hipótese nos quadros abdominais inflamatórios? Diante da sua hipótese, como você justificaria a disúria? http://#scrolldown http://#page=244 http://#page=245 http://#page=246 12 Quais as técnicas cirúrgicas utilizadas para cada modalidade? Qual seria a sua conduta para o Coronel Otávio? Quais são as indicações cirúrgicas? (Divida-as em eletivas e emergenciais) Caso 7 Maria das Dores Difusas está no que todos chamamos de ‘melhor idade’. Com 65 anos e aposentada pelo INSS, recebe quase que dois salários mínimos e mora de favor na casa do filho, onde é constantemente afrontada pela nora. Dona Maria sofre de insuficiência cardíaca e tem fibrilação atrial, fazendo uso de diversas medicações. Mas como dinheiro é espécie em extinção na sua conta, teve de recorrer a um empréstimo com taxas de juros irrisórias (não passam de 250% ao ano) na ‘Casa do Idoso Feliz’. Tirando alguns desses contratempos, pode-se dizer que ela conseguiu chegar à ‘melhor idade’.. . No entanto, uma coisa a deixa triste: ultimamente não tem conseguido frequentar os bailes tradicionais por conta de uma dor abdominal que a atormenta. Essa noi te seria o ‘baile da sereia’ e já tinha até comprado os trajes adequados na promoção de uma feira popular de roupas usadas. Porém teve de ser internada às pressas com dor abdominal mui to intensa, na região mesogástrica. Sua respiração está acelerada e o seu coração está com a frequência aumentada. Os médicos acham que Dona Maria está fingindo, porque o exame físico está completamente normal. Nesse instante, eles recei tam analgésicos e estão dando alta hospi talar. http://#scrolldown http://#page=247 http://#page=248 http://#page=249 13 Você também daria alta a essa paciente? Qual o diagnóstico provável? Que dados clínicos chamaram a atenção para esse quadro? Por que ela está ofegante? O que pode estar provocando esse quadro em Maria das Dores? (Cite as principais em ordem de ocorrência) Que exame seria o mais apropriado para o diagnóstico? Que alterações você esperaria encontrar de acordo com cada condição? Descreva o tratamento das principais condições ci tadas. Ri ta Maria é uma estudante de Medicina que, cansada da rotina de aulas e provas intermináveis, resolve tirar férias com duas amigas de faculdade num safári. A viagem era para ser uma verdadeira aventura e nada deveria ser programado. Ri ta até ignorara a recomendação de seu médico de investigar as dores que sentia no hipocôndrio direi to após ingestão de alimentos gordurosos. O local escolhido ficava a 200 km da base de apoio do bairro mais afastado da sede rural do estado menos populoso de Guiné-Bissau. No meio da viagem, enquanto escutava algumas músicas de Elis Regina, começa a sentir for te dor abdominal epigástrica com irradiação para o dorso. Estava também mui to enjoada e vomitando quase sem parar. Um curandeiro e eremita que por ali passava – por sinal o único ser vivo nas proximidades - após avaliar a jovem, disse: “Isso é uma inflamação de víscera retroperi toneal!”. A princípio, todas foram surpreendidas pelo fato de um curandeiro tão distante falar a língua por tuguesa (depois ele confessou adorar carnaval, samba e Pelé). Mas num segundo momento, todas debocharam do nobre ser, desconfiando tratar-se de um completo ignorante. Nesse instante, foram surpreendidos mais uma vez pelo homem, que lhes mostrou a doença na nova edição do Sabiston que acabara de pedir pela Internet. Sobre esse instigante caso, responda: Caso 8 http://#scrolldown http://#page=250 http://#page=251 http://#page=252 http://#page=253 14 O curandeiro estava cer to? Qual é a origem da inflamação? Cite outras condições que poderiam causar o mesmo quadro. Como conduzir esses casos? Defina as principais estratégias disponíveis. Quando estaria indicado o tratamento cirúrgico? http://#scrolldown http://#page=254 http://#page=255 http://#page=256 http://#page=257 15 M.N.O, 38 anos, sexo feminino, obesa, dislipidêmica, com história prévia de colelitíase, chega ao pronto-socorro apresentando for te dor abdominal em epigástrio e vômitos em grande quantidade. Ao exame físico, encontra-se hipocorada +/4+, afebril, eupneica, desidratada. PA 90 x 60 mmHg. FC 130 bpm. Ritmo cardíaco regular, sem sopros. Pulmões limpos. Ausência de peristaltismo; discreta distensão abdominal; abdome doloroso àpalpação superficial e profunda; ausência de massas abdominais palpáveis. Realizou exames laboratoriais que mostraram: Leucócitos 20.000 cels/mm3; Ht 48%; Glicose 120 mg/dl; Ureia 80 mg/dl; Creatinina 1,5 mg/dl; LDH 500 U/L; Cálcio 9,0 mg/dl; Amilase 400U/L. Durante investigação do quadro realiza tomografia de abdome que revela a presença de necrose pancreática estimada em 50% do parênquima. Qual seria a abordagem inicial do quadro? Prescrição http://#scrolldown http://#videomiolo=PRESCRICAO_MEDICA_MEDCIR04_2017 http://#page=258 16 ANAMNESE ID: M.M, 24 anos, sexo feminino, estudante QP: “Dor na barriga” HDA: paciente aparentando maus hábitos higiênicos dá entrada no pronto-socorro queixando-se de dor abdominal difusa iniciada há 4 horas, de intensidade progressiva, mal localizada e sem qualquer padrão de irradiação. Refere a presença de náuseas e vômitos em grande quantidade, iniciadas junto com a dor abdominal. HPP: Nega cardiopatia, pneumopatia, hepatopatia, ou história prévia de dor semelhante. Nega também história sexual promíscua, relatando ser por tadora de ‘virgindade parcial’. HFam. e HFisiol.: Não foi possível a coleta de dados. H. Soc: Nega ser tabagista ou etilista. Usuária de drogas intravenosas há 5 anos, sendo constante o compar tilhamento de seringas. Anamnese dirigida: refere ser por tadora do vírus HIV há 8 meses, sem realizar qualquer acompanhamento clínico. Ultimamente vem apresentando déficit visual e dor à deglutição com qualquer tipo de alimento. EXAME FÍSICO: Ectoscopia: estado geral ruim, bastante emagrecida, anictérica, febril, hipocorada ++/4+, hipo- hidratada +/4+. PA 80 x 60 mmHg, FC 120 bpm, perfusão capilar lentificada, sem edemas. Cavidade oral: presença de candidíase oral, dentes em mau estado de conservação. ACV e AR: NDN Abdome: atípico, doloroso à palpação superficial e profunda, com dor que melhora após a retirada súbita da mão do examinador. Ausência de massas palpáveis. Exame pélvico/retal: não autorizado pela paciente. Durante a investigação do quadro, ainda na emergência, realizou o exame de imagem abaixo: Com relação ao caso, pergunta-se: Considerando o achado radiológico, qual o diagnóstico desta paciente? Com relação ao caso, pergunta-se: http://#scrolldown http://#videomiolo=DESAFIO_DIAGNOSTICO_MEDCIR04_2017 http://#page=259 17 Como podemos associar este diagnóstico às condições clínicas apresentadas pela paciente? Qual a droga de escolha a ser utilizada para o tratamento dessa paciente? http://#scrolldown http://#page=260 http://#page=261 Cirurgia - Volume 4 18Medgrupo - CiClo 2: M.E.D Síndrome do Abdome Agudo outor, a minha barriga está doendo!” Quem nunca ouviu esta queixa em casa, na rua, nos hospitais? Descobrir o que real- mente está por trás desta queixa é um dos grandes desafios médi- cos... Afinal, a dor abdominal pode ser causada por lesão orgânica, distúrbio metabólico ou depender até mesmo de aspectos da personalidade e fatores culturais do paciente. De uma forma geral, podemos dizer que as dores agudas estão mais associadas a estímulos nocivos propriamente ditos do que as crônicas, cujas causas estão mais sujeitas a outras interpretações. Por- tanto, nosso foco, num primeiro momento, será sobre os quadros dolorosos agudos. As dores crônicas serão abordadas no final da apostila, num tópico à parte. A partir de agora, esteja convidado a desvendar esse deslumbrante enigma, que torna a Medicina, mais do que qualquer outra ciência, uma arte para quem a pratica. “D A Origem da Dor Abdominal Uma volta no túnel do tempo para relembrarmos alguns conceitos da Fisiologia! O sistema nervoso é capaz de receber e in- terpretar inúmeras informações do ambiente interno e externo. Essas informações são per- cebidas através de cinco receptores sensoriais: 1) Mecanoceptores – tato, equilíbrio, pressão arterial. 2) Termoceptores – frio, calor. 3) Nociceptores – dor. 4) Receptores eletromagnéticos – luz. 5) Quimioceptores – gustação, olfato, oxigênio arterial, osmolalidade, etc. Para entender o mecanismo da dor, são os nociceptores que nos interessam! Eles nada mais são que terminações nervosas livres, presentes na pele e em outros tecidos mais profundos, que podem ser estimuladas por fatores mecânicos, térmicos ou químicos. Os principais estímulos químicos são a bradici- nina, serotonina, histamina, potássio, ácidos, acetilcolina, enzimas proteolíticas, prostaglan- dinas e substância P. Falando especificamente da dor abdominal, reconhecemos três tipos principais, de acordo com a sua origem: Dor somática (parietal): originada da pele e do peritônio parietal. É transmitida princi- palmente por fibras mielinizadas do tipo Aδ 18 http://#scrolldown Cirurgia - Volume 4 19Medgrupo - CiClo 2: M.E.D que conduzem a “dor rápida”, aguda, bem localizada e percebida nos dermátomos cor- respondentes à área que recebeu o estímulo. Dor visceral: originada do estímulo aos nociceptores viscerais. As fibras são predo- minantemente não mielinizadas do tipo C, que conduzem a “dor lenta”, mal localizada, insidiosa e persistente. É muito comum vir acompanhada de resposta vagal (bradicardia, hipotensão, sudorese, náusea). A dor visceral é percebida no segmento medular em que o nervo espinhal responsável pela inervação do órgão se insere. Assim, entendemos por que a dor originária do trato gastrointestinal é geralmente percebida na linha média: devido à inervação bilateral destas vísceras. Já as do- res mais lateralizadas se relacionam a órgãos de inervação unilateral, como o rim, ureter e ovários. Na FIGURA 1 temos uma ilustração dos segmentos associados à inervação das principais vísceras abdominais. É interessante reparar um detalhe importante da inervação visceral: os plexos nervosos perfa- zem exatamente o mesmo trajeto que os gran- des troncos arteriais, já que seguiram o mesmo “caminho” na origem embriológica dos órgãos. Dessa forma, percebemos que os órgãos re- Figura 1 - Segmentos associados à inervação das principais vísceras abdominais. ferentes ao intestino anterior (estômago, duo- deno) são vascularizados pelo tronco celíaco, inervados pelo plexo celíaco e tendem a gerar dor visceral no epigastro. De forma semelhante, ocorre com as estruturas derivadas do intestino médio (jejuno, íleo e cólon direito e transverso), vascularizados pela a. Mesentérica superior, inervados pelo plexo m. superior, gerando dor em mesogastro) e do intestino posterior (cólon esquerdo, sigmoide e reto), vascularizados pela a. Mesentérica inferior, inervados pelo plexo m. inferior, gerando dor em hipogastro). Veja se você entendeu! Vamos pegar um exemplo clássico, a apendicite aguda. No iní- cio do quadro, temos uma inflamação somen- te no apêndice (visceral), e por isso, temos um estímulo visceral. Ou seja, como o apêndice é derivado do intestino médio, ocorre o estímu- lo no plexo mesentérico superior, gerando ini- cialmente uma dor mais imprecisa em região periumbilical. Com a evolução do quadro, te- mos o acometimento parietal, e agora sim, te- mos uma dor mais específica, localizada em fossa ilíaca direita (FID). Esse é o motivo pela famosa história da dor que migrou da região periumbilical para a FID na apendicite aguda. Veremos isso com mais detalhes na nossa discussão sobre apendicite aguda. http://#scrolldown Cirurgia - Volume 4 20Medgrupo - CiClo 2: M.E.D Figura 2 - Sítios de localização da dor visceral. Saiba maiS: Os nociceptores viscerais estão presentes na superfície das serosas, no mesentério e nas camadas musculares. Caracteristicamente, esses receptores são muito sensíveis à tensão, distensão, inflamação e isquemia, mas não para cortes, lacerações ou queimaduras. Portanto, pacientes que sentem dor após alguns procedimentos, como a colonoscopia, mesmo que tenham sido extraídos fragmentos para biópsia, o principal mecanismo de dor é a distensão do órgão pelo ar instilado. De onde vem a dor da colonoscopia? Dor referida: A dor é percebida longe do estímulo de origem. Um exemplo comum é a dor referida no ombro quando o diafragma é lesado. Isso ocorre porque o estímulo gerado pelo músculo diafragmático é captado nos mesmos segmentos medulares (C3,C4,C5) em que chega o estímulo dos dermátomos da região do ombro (existe até um sinal muito comum na ginecologia, decorrente da irritação por sangramento do diafragma: sinal de La- fond). Veja na FIGURA 3 as principais locali- zações de dor referida. Mas será que isso cai ??? RESIDÊNCIA MÉDICA – 2014 HOSPITAL CENTRAL DA POLÍCIA MILITAR – RJ Leonardo tem 4 anos e foi levado ao pronto atendimento por sua avó, com queixa de dor abdominal, náuseas com vômitos e febre há 24 horas. Ela relata que a dor começou em volta do umbigo e com pouca intensidade, porém, hoje, a criança não consegue andar devido à piora da dor. Ao exame, observamos a criança pros- trada, com fácies de dor, desidratada, pulmões limpos, abdome doloroso à palpação superficial e profunda, principalmente em quadrante infe- rior direito e peristalse abolida. Na radiografia de abdome, observamos fecálito calcificado e distensão de delgado. Diante desse quadro clínico, qual o diagnóstico mais provável? a) Apendicite. b) Púrpura de Henoch-Schönlein. c) Adenite mesentérica. d) Osteomielite pélvica. e) Abscesso do psoas. Como acabamos de ver no quadro clássico de apendicite aguda!!! A dor inicialmente é ines- pecífica em região periumbilical (acometimento visceral) e depois, com a evolução do quadro, ela “migra” para a FID, se tornando localizada e bem característica. Diante de um quadro como esse não podemos ter dúvida. Resposta: letra A. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2010 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO – UERJ Uma recepcionista de 38 anos apresenta dor no hipocôndrio direito (HD), que se irradia para a escápula homolateral. Relata também náuseas e vômitos biliosos. Ao exame físico, está febril (38°C), tem massa palpável no HD e o sinal de Murphy é positivo, o que ocorre quando há: a) Vesícula palpável. b) Duodeno distendido. c) Massa pancreática palpável. d) Comprometimento visceral e parietal do peritônio. No módulo de Síndrome Ictérica relembra- mos o sinal de Murphy que ocorre na colecisti- te aguda quando, diante da palpação do ponto cístico, o paciente interrompe subitamente a inspiração profunda por sentir dor. E por que ele ocorre? Temos inicialmente a inflamação da vesícula que se estende pelo peritônio visceral e, consecutivamente, pelo parietal. Nesse momento, a dor passa a ser localizada, configurando o sinal de Murphy. Resposta: D. http://#scrolldown Cirurgia - Volume 4 21Medgrupo - CiClo 2: M.E.D Figura 3 - Principais localizações de dor referida. Quadros abdominais dolorosos, súbitos, não traumáticos e geralmente de grande in- tensidade, conhecidos pelo termo abdome agudo, respondem por cerca de 10% dos atendimentos nos serviços de Emergência. Existe uma enorme variedade de doenças que podem causar dor abdominal, incluindo desde causas cirúrgicas graves até con- dições clínicas extra-abdominais, como a pneumonia e o infarto agudo do miocárdio. No entanto, até 25% desses quadros podem permanecer sem diagnóstico específico, revelando toda a dificuldade na avaliação desses pacientes... Como ponto de partida, vamos definir as principais causas de dor abdominal agu- da no adulto. Elas podem ser divididas em intra-abdominais e extra-abdominais. Per- ceba que a classificação é meramente didáti- ca, e que algumas doenças extra-abdominais Causas de Abdome Agudo Extra-abdominal Cardíaca: isquemia miocárdica, miocardite, endocardite, insuficiência cardíaca. Pulmonar: pneumonia, pleurodinia (doença de Bornholm), pneumotórax, empiema, TEP. Esofágica: esofagite, ruptura de esôfago, síndrome de Boerhaave, espasmo esofagiano. Geniturinária: torção testicular, nefrolitíase, infecção urinária, distensão vesical. Hematológica: anemia falciforme, anemia hemolítica, púrpura de Henoch-Schönlein, leucemia aguda, hemofilia. Infecciosa: febre tifoide, faringite estreptocócica (crianças), mononucleose infec- ciosa, osteomielite. Metabólica: cetoacidose (diabética, alcoólica), porfiria, uremia, insuficiência suprar- renal aguda, doença tireoidiana, hiperparatireoidismo, hipertrigliceridemia. Intoxicação exógena: chumbo, metanol. Neurogênicos: tabes dorsalis, radiculites (tumores, doença degenerativa), epilepsia- -enxaqueca abdominal, causalgia. Parede abdominal: muscular (espasmo, hematoma, infecção) e herpes zóster. Outros: Animais peçonhentos: picadas de escorpião e da aranha viúva-negra; Fun- cional (síndrome do intestino irritável); Glaucoma; Angioedema hereditário (deficiência do inibidor de esterase C1); Desordens psiquiátricas; Abstinência de narcóticos; Febre familiar do Mediterrâneo; Hipertermia. podem levar a uma afecção intra-abdominal (ex.: anemia falciforme e crise vaso-oclusiva mesentérica). As tabelas abaixo listam essas condições. Lembrando sempre que a causa mais comum é a Apendicite Aguda! Intra-abdominal Inflamação (localizada ou bloqueada): cole- cistite, apendicite, diverticulite, pancreatite. Peritonite: contaminação bacteriana (apen- dicite perfurada, doença inflamatória pélvi- ca) ou irritação química (úlcera perfurada, mittelschmerz). Obstrução intestinal Alterações vasculares: isquemias, ruptu- ras, vasculites. Distensão visceral (cápsula hepática e renal). http://#scrolldown Cirurgia - Volume 4 22Medgrupo - CiClo 2: M.E.D Avaliação da Dor Abdominal Quadro Clínico: Anamnese + Exame Físico Pode parecer lugar comum, mas como em pra- ticamente tudo na Medicina, nada supera uma história clínica e um exame físico bem feitos!!! Um erro frequente na avaliação do abdome agu- do é pensar que todas as condições sejam de extrema urgência e que não devemos “perder” tempo com a coleta de dados. Na verdade, com exceção dos sangramentos intra-abdominais de vulto cursando com instabilidade hemodi- nâmica (ex.: ruptura de aneurisma abdominal), as demais morbidades podem aguardar uma avaliação mais detalhada. Veja abaixo os prin- cipais dados que devem ser obtidos: Anamnese Todo paciente deve ser questionado sobre seis questões básicas: ONDE dói (localização)? IRRADIA para algum lugar (irradiação)? QUANDO começou e POR QUANtO tEMPO durou (cronologia)? COMO é a dor (qualidade da dor)? QUANtO dói (intensidade da dor)? Fatores de MELHORA/PIORA? OUtRAS MANIFEStAÇÕES? 1- Localização Embora nem sempre seja uma boa dica, a forma mais comum de definir hipóteses diag- nósticas (inclusive para as provas!) é pela localização da dor. Um estudo epidemiológico realizado recentemente mostrou que os pa- drões com maior especificidade foram: DOR EPIGÁStRICA - doenças gastroduo- denais. DOR SUBCOStAL DIREItA - doenças he- patobiliares. DOR PÉLVICA - doenças ginecológicas. Você já viu que as fibras sensitivas que inervam o peritônio visceral e o intestino caminham junto com as artérias que vão irrigar essas regiões. Portanto: • Regiões irrigadas pelo tronco celíaco (esô- fago, estômago e duodeno proximal) = dor na região epigástrica. • Regiões irrigadas pela artéria mesentérica superior (duodeno distal, jejuno, íleo, apên- dice e ceco) = dor na região periumbilical. • Regiões irrigadas pela artéria mesentérica inferior (metade do transverso até o reto) = dor na região suprapúbica. Na FIGURA 4, podemos observar uma lista com as principais associações. Figura 4 - principais localizações da dor e respectivas causas. DOR NO QUADRANTE INFERIOR ESQUERDO: Diverticulite de Sigmoide Gravidez Ectópica Rota Cisto Ovariano Torcido Doença Inflamatória Pélvica Mittelschmerz Endometriose Cálculo Ureteral Vesiculite Seminal Abscesso de Psoas Adenite Mesentérica Hérnia Inguinal Estrangulada/ Encarcerada DOR NO QUADRANTE SUPERIOR ESQUERDO: Gastrite Pancreatite Aguda Infarto/Ruptura Esplênica Isquemia Miocárdica Pneumonia de Lobo Inferior Esquerdo DOR NO QUADRANTEINFERIOR DIREITO: Apendicite Enterite Regional Diverticulite de Meckel Hematoma de Parede Abdominal Gravidez Ectópica Rota Cisto Ovariano Torcido Doença Inflamatória Pélvica Mittelschmerz Endometriose Cálculo Ureteral Vesiculite Seminal Abscesso de Psoas Adenite Mesentérica Hérnia Inguinal Estrangulada/ Encarcerada Peritonite Pancreatite Aguda Anemia Falciforme Apendicite (fase precoce) Trombose Mesentérica Gastroenterite Aneurisma Dissecante Obstrução Intestinal Diabetes Mellitus DOR NO QUADRANTE SUPERIOR DIREITO: Colecistite aguda e cólica biliar Hepatite Aguda Abscesso Hepático Hepatomegalia Congestiva Úlcera Duodenal Perfurada Pancreatite Aguda (bilateral) Apendicite Retrocecal Herpes Zóster Isquemia Miocárdica Pneumonia de Lobo Inferior Direito DOR DIFUSA: http://#scrolldown Cirurgia - Volume 4 23Medgrupo - CiClo 2: M.E.D 2- Intensidade • Grande intensidade e duração > 6 horas: aumenta a chance de laparotomia. • Dor que melhora em poucas horas: di- minui a chance de laparotomia. Uma forma de avaliarmos a intensidade da dor é pedirmos para que o paciente numere esta intensidade de dor, em que zero é au- sência de dor e dez seria a dor com maior intensidade possível!!! 3- Início A sequência temporal dos eventos é mais importante do que a localização da dor em si. • Súbita sem sintomas prévios: sugere isquemia, perfuração de vísceras ou ro- tura de aneurisma abdominal. É uma dor que acorda o paciente ou o incapacita durante o trabalho ou o lazer. As vítimas desse tipo de dor sabem referir exata- mente o momento do início do sintoma. Dor abdominal que apareceu nas últimas 48 horas também é pior. • Aumento progressivo da intensidade: colecistite aguda, pancreatite aguda, obs- trução do delgado proximal são doenças que frequentemente levam ao abdome agudo. Muitas dessas dores assumem um padrão sinusoidal cíclico de “piora- -melhora-piora”. É a famosa dor do tipo cólica, mais presente nas obstruções intestinais e nas nefropatias obstrutivas. Esse padrão de dor é frequentemente associado a náuseas e vômitos. • Desconforto vago e depois se localiza e aumenta de intensidade: apendicite aguda, hérnia encarcerada, obstrução distal do delgado e cólon, diverticulite e perfuração visceral bloqueada. 4- Qualidade, gravidade e periodicidade • Constante e aguda: víscera perfurada (apêndice, duodeno). • Dor vaga e de localização profunda que se torna em cólica: obstrução de delgado. • Surda e constante: infarto intestinal. • Intensa, grave com o paciente agitado: obstrução ureteral. • Paciente que prefere ficar quieto: peri- tonite. 5- Irradiação • Para ombro direito e escápula direita: colecistite aguda. • Irradiada para o dorso: pancreatite. • Para a região inguinal ou perineal: litíase renal. 6- Fatores de melhora/piora • Melhora com alimentação úlcera duo- denal. • Piora com alimentação úlcera gástrica, colelitíase, câncer de estômago, isquemia mesentérica crônica. • Piora com a movimentação Irritação peritoneal. 7- Outras manifestações • Vômitos (AtENÇÃO) Podem ser consequentes à dor ou devido à própria doença abdominal. - Dor precedendo vômitos: geralmente pacientes que precisam de cirurgia. Exem- plo: apendicite (Obs.: a dor leva ao vômito por estímulo nervoso). - Vômitos precedendo dor: geralmente doenças clínicas. Exemplo: gastroenterite. - Obstrução proximal do delgado: mui- tos vômitos e pouca distensão abdominal. - Vômitos claros: obstrução antes da am- pola de Vater. - Vômitos biliosos: obstrução após a am- pola de Vater. - Obstrução de cólon: vômitos raros. • Apetite A maioria dos pacientes com dor abdomi- nal perde o apetite. • Funcionamento intestinal - Diarreia aquosa com dor: fala a favor de gastroenterite. - História prévia de diarreias: pensar em doença intestinal inflamatória. - Ausência da eliminação de gases e fe- zes: obstrução intestinal. • Outros - Dor abdominal + icterícia: doenças he- patobiliares. - Dor abdominal + hematúria: doenças urológicas. - Dor abdominal + amenorreia: gravidez ectópica. Enfim, nunca se esqueça de ques- tionar sobre a história menstrual!!! Tanto a http://#scrolldown Cirurgia - Volume 4 24Medgrupo - CiClo 2: M.E.D ovulação como a gravidez não diagnosti- cada podem ser causas de dor abdominal. Saiba maiS: Colluciello e colaboradores (Abdominal pain: An evidence-based approach. Emerg Med Pract 1:2, 1999.) propuseram um questionário rapida- mente aplicável baseado em 13 perguntas para facilitar na abordagem diagnóstica: 1) Quantos anos você tem? (atentar para os pacientes acima de 65 anos). 2) O que veio primeiro: dor ou vômitos? (como vimos anteriormente, a dor preco- ce é pior). 3) Há quanto tempo sente a dor? (checar se súbita, prolongada, progressiva). 4) Já fez alguma cirurgia abdominal? (con- siderar obstrução intestinal; da mesma for- ma exclui condições cirúrgicas previamente tratadas, como por exemplo, apendicite em paciente já submetido à apendicectomia). 5) A dor é do tipo constante ou intermiten- te? (dor constante é pior). 6) Você já teve essa dor antes? (ausência de episódios prévios é pior). 7) Você tem história de diverticulose, pan- creatite, insuficiência renal, litíase biliar ou doença intestinal inflamatória? (suges- tivos de doenças mais graves). 8) Você é portador do vírus HIV? (conside- rar infecção oculta ou pancreatite relacio- nada às drogas). 9) Qual a sua ingesta alcoólica diária? (con- siderar pancreatite, hepatite e cirrose). 10) Você está grávida? (realizar testagem para gravidez e considerar prenhez ectópica). 11) Você está tomando antibiótico ou corti- coides? (podem mascarar infecções; lem- brar que os corticoides também podem se associar às úlceras gastroduodenais e que necessitam de suplementação perioperatória nos casos de uso prolongado). 12) A dor começou central e migrou para o quadrante inferior direito? (grande espe- cificidade para apendicite; a irradiação de dor epigástrica para o dorso fala a favor de pancreatite aguda e para o ombro e escápula direita a favor de colecistite aguda; a litíase renal irradia para região inguinal e testículos). 13) Você tem história de doença vascular ou cardíaca, hipertensão ou fibrilação atrial? (considerar isquemia mesentérica e aneuris- ma de aorta abdominal; além disso, prever maior risco de complicações operatórias). RESIDÊNCIA MÉDICA – 2014 SECRETARIA ESTADUAL DE SAÚDE – RIO DE JANEIRO – RJ Na avaliação de um paciente com dor ab- dominal, com quadro de apendicite aguda, o comportamento típico do vômito é a sua ocorrência: a) Em múltiplos episódios. b) Antes do início da dor. c) Independente da dor. d) Após o início da dor. Questão que vem se tornando clássica de prova! O surgimento dos vômitos, no contexto de uma apendicite aguda, precede ou sucede o início da dor? Não somente na apendicite aguda, mas no abdome agudo cirúrgico, geralmente a dor precede o vômito. Logo, gabarito letra D. Veja como isso sempre é cobrado!!! RESIDÊNCIA MÉDICA – 2009 HOSPITAL DA POLÍCIA MILITAR – HPM – MG Com relação à dor abdominal, marque a alter- nativa INCORRETA: a) Dor que acorda o paciente do seu sono deve ser considerada significante. b) Dor súbita e intensa sugere doença séria, porém doenças sérias podem ocorrer na au- sência de início súbito. c) Episódios repetidos da mesma dor geral- mente sugerem uma causa com tratamento clínico, com raras exceções, como isquemia mesentérica e colecistite. d) Regra geral: vômito quase sempre precede a dor em causas com tratamento cirúrgico. Resposta D. Exame Físico Veremos com detalhes a semiologia do ab- dome mais adiante no MED, durante o mó- dulo prático. Por ora, vamos recordar ape- nas alguns aspectos fundamentais. 1- ECtOSCOPIA • O paciente deve ser examinado em decú- bito dorsal com a cabeceira ligeiramente fletida e exposição de todo o abdome, desde os mamilos até a região pubiana (sempre lembrando de expor a região in- guinal). A temperatura ambiente deve estaragradável. Para descrição dos achados, o abdome pode ser dividido em nove re- giões anatômicas. Para isso utilizaremos quatro linhas (duas verticais e duas hori- zontais) para definir essas nove regiões. As linhas verticais tem como referência as linhas hemiclaviculares. A primeira linha horizontal é traçada no ponto de junção das linhas verticais com o rebordo costal. A segunda linha horizontal é traçada entre as espinhas ilíacas anterossuperiores (siga a divisão na imagem a seguir). • Estado geral e sinais vitais são os princi- pais determinantes da urgência na inves- tigação diagnóstica. Febre baixa: diverticulite, apendicite e co- lecistite. Febre alta: colangite, infecção urinária e infecções ginecológicas. • A atitude do paciente pode sugerir algumas condições: http://#scrolldown Cirurgia - Volume 4 25Medgrupo - CiClo 2: M.E.D - Paciente imóvel no leito, evitando se movi- mentar pensar em peritonite grave. - Paciente agitado pensar em obstrução ureteral. - Paciente com as pernas e coxas fletidas so- bre o tronco (posição genupeitoral ou “prece maometana”) pensar em pancreatite. Obs.: uma divisão mais simples do abdome em quatro quadrantes também pode ser uti- lizada!!! É uma divisão prática, sem enfoque anatômico. Ao traçarmos uma linha vertical e uma horizontal pela cicatriz umbilical, pode- mos dividi-lo em quatro quadrantes: superior direito, superior esquerdo, inferior direito e in- ferior esquerdo. Figura 5 - Ilustração das nove regiões abdominais. HD = Hipocôndrio direito; HE = Hipocôndrio esquerdo; LD = Região lombar (ou flanco) direito; LE = Região Lombar (ou flanco) esquerdo; ID = fossa ilíaca direita; IE = Fossa ilíaca esquerda. 2- EXAME DO ABDOME: O que procurar? • Inspeção - Procurar cicatrizes – indica cirurgia prévia, possibilidade de aderências com obstru- ção intestinal. - Avaliar a presença de hérnias – pode ser a causa da dor abdominal. - Procurar massas – um tumor pode levar à obstrução intestinal e à dor abdominal por compressão de estruturas nervosas. - Avaliar distensão abdominal – pode sig- nificar obstrução intestinal, íleo paralítico, ascite, sangue intraperitoneal. AtENÇÃO: O exame do abdome está parti- cularmente dificultado nos lactentes, idosos, obesos e gestantes. O que significa o sinal dos olhos fechados? Pacientes sem doença intra-abdominal espe- cífica mantêm os olhos caracteristicamente fechados durante a palpação abdominal. Ao contrário, pacientes com condições inflama- tórias significativas mantêm os olhos abertos e bem atentos às regiões que o examinador está palpando. O valor preditivo positivo desse teste foi de 79%. A função desse teste seria indicar o forte componente psicológico da dor em alguns pacientes. • Ausculta (são necessários alguns minutos e deve ser realizada antes da palpação e per- cussão para evitar o estímulo à peristalse). - Abdome silencioso íleo paralítico*. - Ruídos aumentados gastroenterite. - Períodos de silêncio intercalados com hiperatividade peristáltica com timbre me- tálico obstrução de intestino delgado (“peristaltismo de luta”). *Obs.: na prática, nem sempre a ausculta é confiável e condições graves como apen- dicite perfurada ou obstrução intestinal completa podem ocorrer na presença de peristalse normal. • Palpação (cuidadosa, iniciar num pon- to distante da dor) - Dor no ponto de McBurney - sugere apen- dicite. - Dor no quadrante superior direito - sugere colecistite. - Dor no quadrante inferior esquerdo - sugere diverticulite. - Dor por todo o abdome - sugere peritonite difusa. MUITO IMPORTANTE: Os dois parâmetros clínicos mais importantes a serem pesquisados e indicativos de peritonite são: irritação peritoneal e defesa muscular. Como identificar irritação peritoneal? Por meio da descompressão dolorosa. Representa o aumento da dor abdominal causado pela retirada súbita da mão do examinador, após a palpação abdominal pro- funda com os dedos estendidos. É um sinal indicativo de peritonite, porém muitas vezes desnecessário, em virtude do sofrimento do paciente! (principalmente naqueles que já apresentam defesa abdominal). http://#scrolldown Cirurgia - Volume 4 26Medgrupo - CiClo 2: M.E.D Quais seriam as alternativas à pesquisa da descompressão dolorosa? - Presença de defesa abdominal involuntária e localizada. - Percussão suave do local. - Pesquisa da dor em choque. Pede-se ao pa- ciente que fique na ponta dos pés e depois sol- te o corpo sobre os calcanhares. O movimento da parede abdominal pode levar à localização da dor pelo paciente (sinal de Markle). - Manobra de Valsalva. O que é defesa abdominal? O aumento do tônus muscular à palpação ab- dominal pode ser um reflexo de defesa (invo- luntário) ou voluntário. O que mais nos importa é a defesa involuntária, em que o paciente permanece com o tônus aumentado, mesmo em repouso, e pode significar PERITONITE. Para evitar a rigidez por contração voluntá- ria, uma técnica útil seria “distrair o pacien- te” com algum assunto, enquanto realiza o exame. Se o abdome ainda permanecer rígido, pode ser solicitado que mantenha a boca aberta e encolha os joelhos. A pal- pação pode ser facilitada se a resistência muscular acima da região a ser palpada for vencida pela mão não dominante, enquan- to a mão dominante exerce a palpação do local desejado (Manobra de Galambos). Uma última tentativa pode ser realizada pela palpação do abdome com o estetoscópio durante a ausculta. Nesta parte do exame, o paciente não costuma perceber que a fi- nalidade é a mesma da palpação e não faz contração voluntária da parede abdominal. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2002 UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE – UFF Quando em uma palpação abdominal consta- ta-se massa dolorosa e fixa, pode-se afirmar que a mesma é tipicamente representativa de: a) Anomalia congênita. b) Processo inflamatório. c) Carcinoma em expansão. d) Sequela de traumatismo pregresso. e) Invaginação intestinal. Saiba maiS: Devemos sempre avaliar o pulso do pacien- te: o caráter e a frequência do pulso estão entre os melhores indicadores de gravidade de uma doença abdominal aguda. Um pulso regular, cheio e lento não exclui uma infecção peritoneal grave, porém indica que o paciente está reagindo bem a ela. Um pulso mode- radamente elevado, rápido e discretamente saliente é característico de uma infecção abdominal progressiva. Agora o pulso rápido e filiforme, na maioria das vezes acompanha a peritonite avançada. Massa dolorosa e fixa. Se dolorosa, indica algum sinal de inflamação; se fixa, sugere que não se move com a respiração ou qualquer outra manobra. Ou seja, estamos diante de uma massa localizada e inflamada. Portanto, resposta letra B. Vamos aproveitar apenas para rever alguns termos: qual seria a dife- rença de fleimão, abscesso e plastrão? Flei- mão é simplesmente a inflamação de tecido conjuntivo, o processo inflamatório em si. O fleimão pode evoluir para um abscesso, que é o acúmulo localizado de material purulento numa cavidade bem delimitada (membrana piogênica). E “plastrão” seria a massa palpada ao exame físico (plastron do francês = escudo, representando a defesa pelo omento maior). • Percussão* - Hipertimpanismo distensão gasosa do intestino ou estômago. - Timpanismo sobre o fígado gás livre no abdome (sinal de Jobert) ou interposição de alça de cólon entre o fígado e o gradil costal (sinal de Chilaiditi ou sinal de Jobert falso). - Punho percussão dolorosa sobre os ângu- los costovertebrais pode sugerir pielo- nefrite. * Dor à percussão = descompressão dolorosa! O exame bimanual da pelve é importante no abdome agudo? Claro, pois ele permite observar massas uteri- nas, peritonite localizada na pelve... Pode ser complementado também pelo exame especular. O exame retal é importante? Sim, pois uma apendicite pélvica ou um abs- cesso pélvico podem causar dor ao toque re- tal. Além disso, o examinador deve procurar massas e sangue retal.Saiba maiS: Você não costuma fazer exame retal nos pa- cientes com suspeita de apendicite, mas acha que seu exame físico está incompleto? Pois é, tradicionalmente aprendemos que este exame é um componente obrigatório em todos os pa- cientes, não é verdade? No entanto, não é o que nos mostra uma revisão do Departamento de Emergência da UCLA, realizada por Brewster e Herbert (Medical Myth: a digital rectal exami- nation should be performed on all individuals with possible appendicitis. West J Med. 2000 September; 173(3): 207–208). Uma conclusão desse estudo é que o principal valor do exa- me retal é excluir outras causas e condições, como hemorragia gastrointestinal, prostatite e abscesso perirretal. Em relação à apendicite, por exemplo, não haveria nenhum valor diag- nóstico além do simples exame abdominal. Semiologia baseada em evidências http://#scrolldown Cirurgia - Volume 4 27Medgrupo - CiClo 2: M.E.D Figura 6 - Palpação bimanual da pelve. Exames Complementares Laboratório Na abordagem tradicional de um quadro abdomi- nal agudo, os principais exames de “rotina” são: Hemograma completo e bioquímica contendo – glicemia, cetonemia, ureia, creatinina, ALT, AST, fosfatase alcalina, bilirrubina, amilase, lipase, lactato, bicarbonato; eletrólitos (sódio, potássio, cloreto, cálcio, fosfato); gasometria arterial; EAS e β-HCG. Mas como afirmam vários expoentes da Medicina, “toda rotina é burra!”. Assim, alguns desses exames trazem pouco ou nenhum be- nefício diagnóstico. Veja a seguir uma análise crítica de alguns desses testes. O que analisar? • Hemograma completo inflamação abdominal pode causar leucocitose, mas atenção, nem sempre isso é VERDADE; alguns estudos demonstraram correlação fraca entre leucometria e inflamação abdo- minal, mesmo com contagens seriadas! • Eletrólitos encontram-se alterados em menos de 1% dos pacientes, mesmo naqueles com diarreia ou vômitos signi- ficativos. Mais importante nos casos de desidratação, vômitos, diarreia, uso prévio de diuréticos. • Pesquisa de cetoacidose como pode simular qualquer condição, glicemia, anion gap e cetonemia, devem ser pesquisados em todos os pacientes. • Ureia, creatinina o melhor parâmetro é a creatinina, já que a ureia pode estar elevada nos quadros de desidratação e hemorragia gastrointestinal. • Amilase e lipase importante para ava- liação de dor no quadrante superior, princi- palmente no caso de pancreatite. Por que principalmente? Porque sabemos que úl- cera duodenal perfurada e infarto intestinal também podem cursar com amilase eleva- da (ver causas de amilase falso-positivo no tópico “pancreatite aguda”). A lipase é mais específica para pancreatite, mas os méto- dos laboratoriais de dosagem nem sempre são confiáveis. Deve ser valorizada quando duas vezes acima do valor de referência. • Bilirrubina, fosfatase alcalina, transa- minases trazem poucas informações, exceto nos casos suspeitos de doença he- pática. Exemplo: hepatite aguda, obstrução da via biliar. • EAS para avaliar ITU, hematúria, pro- teinúria. • β-HCG para mulheres em idade fértil. • Dosagem de fosfato e lactato séricos podem ser úteis no caso de isquemia mesentérica. Exames de Imagem 1- Radiografia simples Valor bastante limitado, exceto nas suas principais indicações: obstrução intestinal, corpo estranho e suspeita de víscera per- furada. Se a suspeita for de apendicite, por exemplo, a radiografia não irá trazer muitas informações, sendo considerada dispensável por alguns serviços!!! O que é a rotina de abdome agudo? Inclui uma radiografia de tórax em incidência posteroanterior (PA) e duas radiografias de abdome: uma em ortostase (em pé) e outra em decúbito dorsal. Veja alguns exemplos da utilização da Ra- diografia na avaliação do abdome agudo. PNEUMOPERItÔNIO A incidência diafragmática é a melhor técnica para detectar ar intraperitoneal. A radiografia de tórax na posição ortostática consegue de- tectar sob o diafragma até 1 ml de ar livre. Opções: Se o paciente não conseguir ficar de pé, uma radiografia de abdome em decúbito lateral também é eficiente. http://#scrolldown http://#videomiolo=RCIR203036 Cirurgia - Volume 4 28Medgrupo - CiClo 2: M.E.D Significado: Perfuração de víscera oca (pneu- moperitônio pode ser detectado em 75% das úlceras duodenais perfuradas!). Figura 7 - Observe o sinal da seta pneumoperitônio. AEROBILIA Outra coleção aérea que pode ser vista na radiografia simples de abdome é a presença de ar na via biliar – AEROBILIA, decorrente da formação de fístula entre a via biliar e as vísceras ocas (estômago, intestino). FIGURA 8. Pode ser observada ainda após a manipu- lação da via biliar (ex.: CPRE). Figura 8 - Aerobilia. CALCIFICAÇÕES Cerca de 10% dos cálculos de vesículas e 90% dos cálculos renais são radiopacos (contêm cálcio suficiente para serem vistos na radiografia simples). Outra calcificação importante que pode ser vista são os apen- dicolitos – cerca de 10% são visualizados nos pacientes com apendicite. Calcificações pancreáticas da pancreatite crônica e calcifi- cações vasculares (flebolitos) também podem ser encontradas. Veja alguns exemplos nas FIGURAS 9, 10 e 11. DIStENSÃO DE ALÇAS INtEStINAIS A RX de abdome é capaz de mostrar obstru- ção em qualquer parte do intestino, inclusive indicando a porção que está obstruída. Obstrução de delgado múltiplos níveis líqui- dos nas alças dilatadas, de localização central, com válvulas coniventes visíveis, e ausência ou escassez de ar no cólon. É o sinal do “em- pilhamento de moedas”. Obstrução de cólon alças dilatadas na perife- ria do abdome com haustrações visíveis. Caso a válvula ileocecal seja incompetente, poderá ocorrer dilatação do intestino delgado distal. Compare os exemplos (FIGURAS 12 e 13): Figura 9 - Presença de várias calcifica- ções em topografia de vesícula biliar na radiografia simples de abdome. Figura 10 - Cálculo localizado no ure- ter distal direito. Figura 11 - Radiografia simples de abdome mostrando calcificações pancreáticas. Figura 12 - Alças de delgado dilatadas com pregas coniventes na porção cen- tral do abdome. http://#scrolldown Cirurgia - Volume 4 29Medgrupo - CiClo 2: M.E.D O íleo paralítico pode provocar distensão abdominal excessiva com múltiplos níveis líquidos, des- de o estômago até o reto. Nesse caso, não há obstrução mecânica! Só para lembrar: ocorre devido à inflamação intra-abdominal, distúr- bio hidroeletrolítico, sepse... Figura 13 - Observe as haustrações (fi- gura da esquerda) e níveis hidroaéreos (figura da direita). 2- Ultrassonografia Pode ser abdominal ou transvaginal (melhor para pelve). Graças à rapidez (exame à beira do leito) e ao baixo custo, tem se tornado muito útil nos Serviços de Emergência. Nas gestantes e nos casos de peritonite sem foco evidente, é o méto- do de escolha, pois consegue avaliar a presença de apendicite, abscessos e coleções pélvicas. Como o resultado é bastante dependente do exa- minador, um exame mal feito pode, além de não fazer o diagnóstico, conduzir o raciocínio para um caminho totalmente equivocado! Outros fatores que podem prejudicar o exame são obesidade e excesso de gás em torno das vísceras. O que a USG pode ver? - Fígado, vesícula e vias biliares. - Pâncreas e rim. - Apêndice, útero e anexos, gravidez. - Líquido intra-abdominal e outros mate- riais (sangue, pus, secreção intestinal), aneurismas, tromboses venosas, fístu- las arteriovenosas. Figura 14 - USG demonstrando apêndi- ce espessado com líquido periapendicu- lar (apontado pela seta) num caso de apendicite aguda. 3- Tomografia computadorizada de abdome Método de escolha para as condições não obs- tétricas, capaz de fazer o diagnóstico em até 95% dos casos. Tem grande valor na população idosa, em que a sintomatologia habitualmente é escassa. Permite boa visualização da anatomia abdominal, mostrando detalhes impossíveis de serem vistos pela radiografiasimples. O que a TC de abdome pode ver? - Apendicite aguda e complicações, bem como doenças que são diagnósticos di- ferenciais. - Sangue e líquidos na cavidade. - Trombose da veia mesentérica e sangra- mentos da parede intestinal. - Diverticulite e suas complicações. - Avaliação da pancreatite: observar ede- ma, coleções líquidas, hemorragias e necrose pancreática. Avalia também com- plicações como pseudocisto e abscesso. - Sinais de peritonite, perfuração colônica, intussuscepção intestinal. - Esclarece dúvidas levantadas pela USG. Figura 15 - Espessamento da parede ve- sicular e presença de múltiplos cálculos pequenos na colecistite aguda. Figura 16 - TC mostrando apêndice dilata- do, com líquido no seu interior e apendico- lito num caso de apendicite simples. A USG havia deixado dúvida sobre o diagnóstico. http://#scrolldown Cirurgia - Volume 4 30Medgrupo - CiClo 2: M.E.D Figura 17 - TC mostra apêndice espessado com coleção líquida periapendicular (abs- cesso) num caso de apendicite complicada. Figura 18 - TC de abdome mostrando he- matoma intramural do intestino delgado num caso de hemofilia com dor abdominal. Figura 19 - TC de abdome mostrando divertículos (sinal da seta). Figura 20 - TC de abdome mostrando espessamento inflamatório do peritônio parietal (seta amarela) e visceral (seta vermelha) com a presença de liquido pe- ritoneal inflamatório. 4- Outros Métodos A Ressonância Magnética Nuclear (RMN) é um método promissor na avaliação do abdo- me agudo. Uma das grandes utilidades seria a avaliação do pâncreas, vias biliares e fígado, principalmente naqueles com insuficiência renal ou alergia a contraste iodado. Na ressonância, o contraste mais utilizado é o Gadolínio. Uma das grandes desvantagens sempre foi o tempo perdido com o exame. No entanto, com as novas técnicas de RMN, alguns aparelhos são capazes de adquirir imagens em até 25 segundos!!! O custo elevado e a indisponibilidade em grande parte dos serviços são outros pontos negativos do exame. A Cintilografia pode ser utilizada no diagnóstico diferencial entre colecistite aguda e pancreatite, enquanto o Lavado peritoneal costuma ser reservado para os quadros traumá- ticos. Outra técnica de grande valor diagnóstico e terapêutico – a Laparoscopia – fez com que muitos pacientes deixassem de ser submetidos à tradicional exploração da cavidade abdominal pela Laparotomia. Abordagem do Abdome Agudo Como você já deve ter percebido, um número muito vasto de doenças pode cursar com dor abdominal e todas elas devem ser levadas em consideração... A partir de agora, nossa tarefa será estruturar o raciocínio diagnóstico para reconhecer, de uma forma rápida, as principais condições envolvidas de acordo com cada quadro clínico. Basicamente, são quatro passos fundamentais a serem seguidos. PRIMEIRO PASSO: Avaliar se existe algum sinal de instabilidade hemodinâmica. Antes de qualquer coisa, devemos avaliar os sinais vitais e o nível de consciên cia. O que nos importa é descartar os estados de hemor- ragia e hipovolemia. Para isso, em caso de hipotensão, taquicardia ou rebaixamento da consciência devemos obter prontamente aces- so venoso periférico, monitorização cardíaca, suplementação de oxigênio nos casos neces- sários, iniciar reposição volêmica adequada, avaliar necessidade de hemotransfusão e manter as vias aéreas pérvias. De acordo com o quadro, o cirurgião geral, ginecologista, obs- tetra ou radiologista intervencionista devem ser prontamente chamados. Nesse momento, devemos diagnosticar o mais rápido possível as causas que necessitem de tratamento de urgência. A seguir estão descritas as quatro condições com maior potencial de gravidade para as quais devemos estar atentos. Para facilitar, lembre-se do acrônimo “PIOR”, associado ao pior prognóstico destas condições: http://#scrolldown Cirurgia - Volume 4 31Medgrupo - CiClo 2: M.E.D É importante ressaltar que enquanto as rup- turas, isquemia mesentérica e as obstruções totais são indicações indiscutíveis de cirurgia, a pancreatite e a obstrução intestinal parcial (suboclusão) costumam ser manejadas inicial- mente com tratamento clínico. SEGUNDO PASSO: Oferecer alívio sintomático logo que necessário. Grande parte dos pacientes com abdome agudo irá necessitar de analgésicos e an- tieméticos. Apesar de uma prática comum, não existe nenhuma evidência de que retardar o alívio sintomático da dor abdominal aguda facilite o diagnóstico. Pelo contrário, além de o paciente sofrer menos, o controle da dor e dos vômitos pode ajudar na coleta da história e do exame físico. As melhores drogas são os opioides em do- ses tituladas. Anti-inflamatórios não esteroi- dais (AINEs) também podem ser utilizados, principalmente nas doenças ginecológicas e nas cólicas ureteral e biliar. Cuidado espe- cial deve ser tomado nas dores sem causa definida, pelo risco de sangramento gas- trointestinal e perioperatório. Antieméticos como a metoclopramida costumam ser os mais utilizados. No entanto, estas drogas podem não fazer efeito e ainda levar à con- fusão mental. Nesses casos, o ondansetrona seria uma boa opção, apesar do custo mais elevado. Outras drogas de alívio incluiriam os antiácidos nas queimações gástricas e agentes anticolinérgicos e antiespasmódicos (ex.: hioscina) na cólica abdominal. tERCEIRO PASSO: Excluir gravidez e doenças pélvicas nas mulheres. Além do exame físico (incluindo exame gineco- lógico) e da dosagem do β-HCG*, podem ser necessários USG transabdominal e transvagi- nal. A gravidez pode ser causa (ex.: prenhez tubária) ou apenas um dado a ser considerado na avaliação (ver tópico “Abdome agudo na mulher e na gestante”). * A dosagem do β-HCG com níveis acima de 1.000 mUI/ml é utilizada como valor de referência para o diagnóstico de gravidez, apresentando uma sensibili- dade de 95%. Por isso sempre que examinarmos uma mu- lher em idade fértil devemos interrogar sobre a data da última menstruação. P ancreatite aguda I squemia mesentérica O bstrução intestinal R upturas (aneurisma visceral, prenhez ectópica) QUARtO PASSO: Definir se o tratamento é clínico ou cirúrgico. Esta é a verdadeira avaliação do abdome agudo!!! Nesse momento, já sabemos que o/a paciente possui uma condição clínica estável, está com a dor controlada e que não está grávida ou com uma provável doença pélvica. É a hora de coletar uma história detalhada, fazer um exame físico minucioso e checar o resultado dos primeiros exames laboratoriais. Outros exames devem ser solicitados de acordo com o quadro, e os pacientes mantidos em dieta zero até que seja definida a melhor conduta. “Bater o olho e saber!” A avaliação começa a partir de uma busca dirigi- da para um padrão de dor que se configure nos exemplos clássicos. Dez “padrões” clássicos são do tipo “bater o olho e saber” e você não pode deixar passar. Complete-os na tabela abaixo: 1) Dor no abdome superior que irradia para o dorso, com vômitos importantes: Pancreatite aguda 2) Dor contínua > 6 horas no hipocôndrio direito, irradiação escapular, após alimentação gordurosa: Colecistite 3) Dor abdominal súbita, difusa, grande intensidade com defesa e rebote: Ruptura visceral e peritonite 4) Dor subesternal, em queimação que melhora com alimentação ou antiácidos: Úlcera duodenal 5) Dor súbita, mesogástrica + massa pulsátil + hipotensão: Ruptura de aneurisma de aorta abdominal 6) Dor periumbilical que localiza na fossa ilíaca direita: Apendicite 7) Dor abdominal no HCD, febre com cala- frios e icterícia: Colangite infecciosa 8) Dor abdominal difusa desproporcional ao exame físico + acidose metabólica + FA: Isquemia mesentérica aguda 9) Dor periumbilical que localiza na fossa ilíaca esquerda: Diverticulite 10) Dor abdominal difusa + distensão + hiperperistaltismo (I): Obstrução (fase inicial) http://#scrolldown http://#page=222 Cirurgia - Volume 4 32Medgrupo - CiClo 2: M.E.DPara complementar essa avaliação, veja mais alguns padrões dolorosos. Esses se- riam do tipo “você deve desconfiar quando eles aparecerem!”. Dor abdominal difusa + distensão + hiperpe- ristaltismo (II): Porfiria intermitente aguda. Dor abdominal difusa + distensão + hipope- ristaltismo (I): Obstrução intestinal (fase tardia). Dor abdominal difusa + distensão + hipope- ristaltismo (II): Íleo paralítico. Dor abdominal que piora com a contração do abdome: Dor da parede abdominal. Dor abdominal + disúria + punho-percussão positiva: ItU, nefrolitíase. Desidratação + acidose + hiperglicemia + ab- dome agudo: Cetoacidose diabética Dor abdominal + doença aterosclerótica difusa + emagrecimento por “medo de comer”: Isquemia mesentérica crônica. Dor abdominal em queimação/coçando/neuro- pática + distribuição em dermátomos: Herpes zóster. Quando decidir pela cirurgia no abdome agudo? A primeira situação é óbvia: quando o diag- nóstico etiológico é uma doença de tratamento cirúrgico! Exemplo: apendicite aguda. Observação... Esse é apenas um treinamento inicial. Na seção de diagnóstico diferencial você verá mais detalhes de cada uma dessas doenças. Por enquanto, tente gravar o padrão clássico e confira abaixo mais alguns cuidados especiais que você deve tomar: • Idosos e imunossuprimidos (ver em “Casos especiais”): Nesses casos, a regra é “In dubio pro reo”, o que traduzido para a prática médica significa “na dúvida, trate-o como grave!”. Doenças vasculares, diabetes e uso de esteroides podem mascarar ou subestimar o quadro clínico. Deve-se atentar também para causas extra-abdominais (ex.: IAM) e infecções opor- tunistas (paciente HIV positivo). • Iniciar antibioticoterapia nos casos suspeitos de infecção (ex.: peritonite). Deve ser uti- lizado esquema de amplo espectro para cobrir Gram-negativos entéricos e anaeróbios. A cobertura do Enterococcus ainda é controversa... Cobertura antifúngica também deve ser ava- liada nos imunodeprimidos. A utilização de betalactâmicos associados a inibidores da betalac- tamase (ex.: Piperacilina/tazobactam) e cefalosporinas de terceira ou quarta geração evitam a utilização de aminoglicosídeos e seus efeitos nefrotóxicos. Apesar de não serem citadas nos textos de referência para esses casos, as quinolonas também são utilizadas com frequência. Os carbapenêmicos costumam ser reservados para infecções mais graves e resistentes. Mas o diagnóstico etiológico é obrigatório para realizar a cirurgia no abdome agudo? Nãooooooo!!! As três grandes indicações cirúrgicas são: * Quando dizemos peritonite, incluímos todas as causas subjacentes que podem levar à irritação peritoneal (ex.: ruptura visceral e de vaso). Nesse item não se inclui a peri- tonite bacteriana espontânea (PBE), comum em pacientes cirróticos, de evolução insidiosa e de tratamento clínico. É óbvio que, na prova, elas não aparecerão de forma tão evidente e você deverá identificá-las por meio de alguns indicativos, como: • Sinais de peritonite como defesa involuntá- ria e irritação peritoneal. • Presença na cavidade peritoneal de elemen- tos que levam à sua irritação, como sangue, bile, fezes, etc. • Dor abdominal grave ou progressiva. • Dor abdominal e sepse de foco indeterminado. • História e exames “suspeitos” de isquemia intestinal. • Pneumoperitônio ou evidência radiológica de perfuração gastrointestinal. • Sangramento intraperitonial, que pode vir disfarçado de choque circulatório. • Vômitos que persistem mesmo após drena- gem nasogástrica (desconfiar de pancreatite ou obstrução intestinal). Laparoscopia ou Laparotomia? Depende da experiência do cirurgião ou do provável diagnóstico. A Laparoscopia é uma técnica muito valiosa na abordagem dos quadros abdominais agudos, poupando muitos pacientes de serem submetidos a uma cirurgia aberta. O diagnóstico pode chegar a 100%, o tratamento definitivo a 73%, e a mortalidade associada me- nor que 5%. Um estudo mostrou que a técnica também seria segura para as gestantes. A Laparotomia é preferida nos casos de: • Múltiplas laparotomias anteriores cirurgias anteriores levam à formação de inúmeras aderências, que impedem a vi- sualização da cavidade abdominal. ISQUEMIAPERItONItE* OBStRUÇÃO tOtAL http://#scrolldown http://#page=223 http://#page=224 Cirurgia - Volume 4 33Medgrupo - CiClo 2: M.E.D • Instabilidade hemodinâmica a lapa- roscopia é mais lenta e tem a desvanta- gem do pneumoperitônio sobre o retorno venoso. • Grande distensão abdominal a alça fica tão distendida e perto da parede ab- dominal que o trocarter ‘furaria’ facilmente a alça no primeiro contato com a pele. Já vi o caso de um paciente com abdome agudo clássico, mas que não foi operado... Existe algum quadro que pode ser tratado sem cirurgia? Sim, no caso de perfuração de úlcera péptica com dias de evolução, o tratamento mais ade- quado é o de suporte (hidratação, analgesia...). Outros exemplos são os abscessos: intraperito- neal, periapendicular e diverticular. Estes casos devem ser tratados com drenagem percutânea (guiada por TC ou USG) e suporte; a cirurgia fica reservada para um segundo momento. Para pancreatite aguda sem complicação tam- bém não há necessidade cirúrgica. Existe alguma situação em que podemos deixar um paciente com suspeita de abdo- me agudo em observação? Sim! Após toda essa avaliação criteriosa, você já será capaz de optar por duas condutas: • Internação hospitalar: quando a con- dição for diagnosticada e necessitar de tratamento clínico prolongado (ex.: anti- bioticoterapia, múltiplas doenças de base) ou cirúrgico. • Reavaliação no Setor de Emergência: deve ser realizada a cada duas horas nas próximas 12 horas. Se após esse período o paciente começar a localizar a dor e apresentar defesa e irritação peritoneal, está indicada a cirurgia. Se a dor melhorar ou desaparecer e o paciente estiver em bom estado clínico, deve ser dada alta hospitalar com orientações, medicações sintomáticas e retorno programado para as próximas 24 horas. É importante que você perceba que tratamento cirúrgico não é sinônimo necessariamente de “laparotomia”. Nos casos de obstrução com- pleta, por exemplo, uma simples cecostomia pode ser realizada. Vamos lembrar que o ceco assume posição anteriorizada e o acesso a ele pode ser feito por uma sonda de Foley (isso mesmo, aquela do cateterismo vesical!). O procedimento dura poucos minutos. Veja esse fabuloso treinamento de conduta dividido em três questões: RESIDÊNCIA MÉDICA – 2008 UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO – UFRJ Sr. Olavo, 80 anos, com dor abdominal em cólica, distensão e parada de eliminação de gases e fezes há 24 horas. Há 6 horas iniciou vômitos biliosos. Dois episódios semelhantes há 3 e 6 meses, com resolução espontânea após 2 dias de internação. Exame físico: fá- cies de dor e agitação. Tax = 37,8°C; FC = 110 bpm; PA = 150/60 mmHg, FR = 24 irpm; hipocorado ++/4+, desidratado +++/4+, anic- térico. Enchimento capilar lentificado. Abdome muito distendido, hipertimpânico com dor difu- sa à palpação profunda; percebem-se ruídos metálicos ao auscultar o abdome. A conduta imediata adequada é: a) Mensurar condições circulatórias e respira- tórias e equilibrá-las. b) Transporte urgente para o centro cirúrgico. c) Descompressão imediata do trato diges- tivo alto. d) Iniciar ventilação não invasiva. Simples... Qual é a nossa primeira tarefa diante de um quadro abdominal agudo? Avaliar a presença de instabilidade hemodinâmica! Nada é mais importante... De que adianta levar um paciente instável para o centro cirúrgico?? Resposta letra A. É necessária investigação por métodos de imagem. A primeira opção é: a) Tomografia computadorizada com con- traste oral. b) Rotina convencional para abdome agudo. c) Angiorressonância abdominal. d) Enema opaco com bário diluído. Nesse caso, a questão pede para definir o exame de imagem mais adequado. Como sabemos, não existe uma rotina para todos os quadros.Aqui especificamente temos um quadro sugestivo de obstrução intestinal. Obstrução, ruptura de víscera oca e lesão por corpo estra- nho são as principais indicações de radiografia do abdome (incluída na “rotina de abdome agu- do”). A tomografia também estaria correta, porém sem a utilização de contraste oral, contraindica- do nos casos obstrutivos. A angiorressonância tem um custo elevado, pouca disponibilidade e não ofereceria mais informações para o quadro acima. Portanto, resposta letra B. Na avaliação por método de imagem, o forte indício para cirurgia de emergência é: a) Tortuosidade e placas ateromatosas em aorta abdominal. b) Ausência de gás no reto, distensão do colo com níveis hidroaéreos. c) Imagem sugestiva de colelitíase. d) Aumento da cabeça do pâncreas. Essa abordagem é quase que sagrada. Se você inventar muito, ou vai “abrir” barriga de- mais ou de menos... Quais as três indicações que definem trata- mento cirúrgico de EMERGÊNCIA? Peritonite, obstrução total e isquemia! Das opções, apenas a letra B contempla uma dessas hipóteses... http://#scrolldown Cirurgia - Volume 4 34Medgrupo - CiClo 2: M.E.D diAgnóStico diferenciAl dA dor AbdominAl s dores abdominais foram divididas neste módulo de acordo com três síndromes principais: (1) dor no abdome superior; (2) dor no abdome inferior; e (3) dor abdominal difusa. Mas você deve lembrar que se trata apenas de uma divisão didática com o objetivo de facilitar o seu raciocínio diagnóstico. Na prática, sabemos que pode ser bem diferente... Aliás, como já dizia o brilhante médico canadense Dr. Osler: “A Medicina é a ciência da incerteza e a arte da probabilidade”. DOr nO AbDOmE SupErIOr 34 Começaremos este tópico pela pancreatite. Conceitualmente este é um termo genérico que se refere a qualquer doença inflamató- ria do pâncreas. Ela pode ser dividida em aguda ou crônica de acordo com a história clínica e as alterações histopatológicas. Você que, nesse momento, já está se adaptando à proposta do MED, perceberá que o nosso foco será muito maior sobre a pancreatite aguda! Isso porque é justamente esta forma que ocorre em ataques e se apresenta sob a forma de “Abdome Agudo”. Também, por isso, é um dos temas mais frequentes nas provas de Residência... pancreatite Aguda DEFINIÇÃO: Qualquer quadro inflamatório agudo que envolva o pâncreas. FISIOPAtOLOGIA: Fenômeno da colocaliza- ção (aproximação entre vacúolos contendo catepsina B e pró-enzimas). CAUSAS: - Principais: Litíase biliar e álcool. - Outras: Drogas (azatioprina, 6-mercaptopu- rina, sulfonamidas, estrógenos, tetracicli- na, ácido valproico, medicações anti-HIV), CPRE, trauma (grande impacto), obstrução não litiásica*, metabólicas (hipercalcemia, hipertrigliceridemia), genética, idiopática. * Pâncreas divisum (“dividido”) – ausência de fusão entre as porções ventral e dorsal. Ven- tral = Cabeça + processo uncinado -> Ducto de Wirsung; Dorsal = Colo + Corpo + Cauda -> Ducto acessório de Santorini. QUADRO CLÍNICO: Dor epigástrica intensa (irradiando principalmente para o dorso) + Elevação da Amilase**/Lipase. **Atentar para as causas de falso aumento da amilase: insuficiência renal, obstrução intestinal, perfuração visceral, macroamilasemia, neoplasia, queimadura, lesão das glândulas salivares, cetoa- cidose diabética. DIAGNÓStICO: Pelo menos dois dos seguintes: - Sintomas, como dor em epigastro (abdome superior) compatíveis com a doença. - Amilase ou lipase séricas aumentadas três vezes mais do que o limite da normalidade. - Imagem radiológica compatível com o diag- nóstico (de preferência TC ou RNM). ABORDAGEM: (1) Definir causa e gravidade - Diferenciar a forma leve (intersticial) da grave (necrosante). - Escore de Ranson, APACHE II, Baltazar, Imrie, Marcadores clínicos e bioquímicos. - Para a prova tem que saber obrigatoriamente o escore de Ranson!!! (2) Definir o Tratamento - Pancreatite leve = cuidados gerais (repouso, analgesia, hidratação, antieméticos). - Pancreatite necrosante = cuidados gerais + reposição volêmica agressiva + suporte nutricional. (3) Manejar complicações - Primeiras semanas = Coleção líquida fluida = nenhuma conduta. - 3-4 semanas = Necrose pancreática estéril ou infectada = operar se infectada (melhor método diagnóstico -> punção guiada por TC). - 4-6 semanas = Pseudocisto pancreático = drenagem percutânea ou interna (cirúrgica ou endoscópica) em caso de aumento do diâmetro na USG, sintomáticos (geralmente maiores que > 6 cm) ou associados a complicações (hemorragia, ruptura e abscesso). No caso de sintomas mínimos e sem evidência de uso ativo de álcool -> acompanhar clinicamente com USG seriada. http://#scrolldown Cirurgia - Volume 4 35Medgrupo - CiClo 2: M.E.D Definição Como o próprio nome já diz, a pancreatite aguda é um processo inflamatório agudo do pâncreas, caracterizado por início súbito dos sintomas, que costumam resolver espontaneamente após alguns dias. De maneira clássica, de acordo com a extensão do processo inflamatório, a pan- creatite pode ser classificada em leve (também conhecida como edematosa ou intersticial) ou grave (necrosante)! Como dito anteriormente, esta é uma divisão clássica ainda adotada por diversos autores como o próprio Sabiston em sua última edição. No entanto, como veremos adiante, uma revisão nos famosos critérios de ATLANTA prevê a divisão em três classes: leve, moderadamente grave e grave... Mas veja o quadro abaixo, que define alguns conceitos clássicos que ainda são cobrados em prova. Pancreatite aguda leve (intersticial ou edematosa): restrita ao pâncreas – não há acometimento de órgãos vizinhos nem envolvimento à distância. Apresenta evo- lução clínica favorável. Representa 80 a 90% dos casos. Pancreatite aguda grave (necrosante): acomete tecidos peripancreáticos por disse- minação generalizada de enzimas do órgão. Pode evoluir com complicações locais, como necrose infectada, formação de pseudocistos e abscesso. É possível uma evolução compli- cada com envolvimento de órgãos à distância, representada por falência múltipla (choque, insuficiência renal, insuficiência respiratória, etc.). Representa 10 a 20% dos casos. Obs.: Outros termos como pancreatite hemorrágica e necro-hemorrágica costumam ser empregados como sinônimo de inflamação grave do pâncreas. No entanto, o termo é menos específico, já que he- morragia intersticial também pode ser encontrada em outras situações, como no carcinoma do pâncreas, no traumatismo do órgão e na insuficiência cardíaca congestiva grave. Figura 1 Fisiopatologia A fisiopatologia da pancreatite aguda é assunto que continua a intrigar muitos pesquisadores! Afinal de contas, por que o pâncreas inflama?? Ou ainda, por que alguns pacientes inflamam mais que os outros? Muitas dessas perguntas ainda estão sem resposta. Por ora, vamos aproveitar para rever o que já é bem conhecido. Funcionalmente, o pâncreas pode ser dividido em endócrino e exócrino. A porção endócrina é composta pelas ilhotas de Langerhans e é responsável pela produção dos hormônios insulina, glucagon e somatos- tatina. Corresponde a apenas 20% do parên- quima pancreático e não nos interessa muito no momento, pois não participa do processo inflamatório em si. O pâncreas exócrino, responsável pela produ- ção enzimática, é formado por células acinares (onde são produzidas as enzimas pancreá- ticas) e células ductais intercalares, que se continuam em pequenos ductos condutores da secreção do órgão até os ductos pancreático principal (Wirsung) e acessório (Santorini). Estes finalmente eliminam a secreção do pân- creas (rica em pró-enzimas e bicarbonato) no duodeno através das papilas duodenal maior e menor, respectivamente. Normalmente a ativação das pró-enzimas ocorre apenas no lúmen duodenal, graças à ação de uma enzi- ma presente na borda em escova do epitélio do duodeno, conhecida como enteroquinase. O primeiro e principal zimogênio a ser ativa- do é o tripsinogênio,que se transforma em sua forma ativa, a tripsina. Esta, através de um mecanismo de cascata, é capaz de ativar todas as outras pró-enzimas como o quimio- tripsinogênio, pró-elastase e fosfolipase A. Por elevar o pH local, a secreção pancreática, rica em bicarbonato, facilita a ação das enzimas do pâncreas sobre os constituintes da dieta. Assim, por um mecanismo de autoproteção, as enzimas sintetizadas pelas células acina- res não se encontram circulando livremente pela célula. Na verdade, o pâncreas tenta “se precaver” da ativação de enzimas digestivas em seu parênquima de duas formas: 1) “Empacotando” essas enzimas em grânulos no citoplasma da célula acinar sob a forma inativa (os zimogênios ou pró-enzimas). 2) Sintetizando inibidores do tripsinogênio (inibidor da tripsina pancreática secretada – PSTI e inibidor da serinoprotease kazal tipo 1 – SPINK1), que são armazenados conjuntamente com os zimogênios. Um fato que pode ter passado despercebido por muitos: o pâncreas carrega em seu interior enzimas proteolíticas, verdadeiras “bombas- -relógio”, que só poderão “explodir” no lúmen duodenal. Essas enzimas possuem uma capacidade enorme de digerir o órgão, caso sejam der- ramadas em seu parênquima. http://#scrolldown Cirurgia - Volume 4 36Medgrupo - CiClo 2: M.E.D E qual é então a teoria vigente para a pancreatite aguda? Hoje em dia a teoria mais aceita é de que a pan- creatite aguda seja deflagrada pela ativação das enzimas pancreáticas ainda no interior do órgão (autodigestão), sendo este o evento respon- sável por todas as demais alterações. Diversos fatores poderiam levar a esta ativação inadvertida (endotoxinas, exotoxinas, infecções virais, isque- mia, anoxia, trauma, etc.) e a grande dúvida que ainda persiste é como exatamente esses fatores conduziriam à formação de enzimas ativas... Enquanto não se define o exato mecanismo deflagrador, vamos entender o processo intra- celular de ativação destas pró-enzimas. Como acabamos de ver, graças ao seu enorme po- tencial lítico, elas precisam ser protegidas para evitar a autodigestão do órgão. No entanto, condições como o aumento da pressão ductal intrabiliar levam à aproximação de vacúolos ci- toplasmáticos ricos em catepsina B (um gran- de ativador do tripsinogênio) com as pró-enzi- mas, e estas estruturas passam a se localizar lado-a-lado. A esse fenômeno damos o nome de colocalização. O resultado já sabemos: a tripsina formada no interior do pâncreas, assim como acontece no lúmen duodenal, ativaria outras pró-enzimas e o resultado seria uma agressão inflamatória ao pâncreas e a outros órgãos à distância de proporções variáveis. Figura 2 Resumindo, podemos dizer que a pancreatite se apresenta em três fases: 1) Ativação intrapancreática de enzimas di- gestivas, seguida de lesão acinar e pro- dução de fatores pró-inflamatórios (fase neutrófilo-independente). 2) Ativação, quimiotaxia e sequestro de neutrófi- los no pâncreas (fase neutrófilo-dependente). 3) Efeitos da ativação de enzimas proteolíti- cas e citocinas liberadas pela inflamação pancreática em órgãos à distância, poden- do levar à síndrome de resposta sistêmica inflamatória e disfunção de órgãos como o pulmão (síndrome do desconforto respira- tório agudo – SDRA). A ocorrência de SIRS é rara na ausência de necrose pancreática. CONCEItO: Clinicamente, a gravidade de um episódio de pancreatite está relacionada ao nível de mediadores inflamatórios lançados na circulação e à resposta sistêmica gerada! Conforme você já viu, cerca de 90% das pancreatites são consideradas leves. Isso significa que o processo de inflamação sis- têmica na maior parte dos casos é autolimi- tado. Contudo, em alguns pacientes as in- flamações local e sistêmica são tão intensas que acabam gerando quadros gravíssimos. É justamente nos casos graves de pancrea- tite que encontramos os maiores índices de óbito. A mortalidade é dada de forma bimodal: a mortalidade precoce (até duas semanas) é relacionada ao processo infla- matório sistêmico, enquanto a mortalidade tardia é relacionada aos desdobramentos das complicações locais da pancreatite, so- bretudo os processos infecciosos. Saiba maiS: É no estudo da fisiopatologia da pancreatite que parece residir o futuro da abordagem da doença. Um bom exemplo disso é que, através do entendimento da ativação do trip- sinogênio, da colocalização e da atividade da Catepsina B, foram desenvolvidas drogas capazes de inibir grande parte do processo de “autodigestão” (ex.: wortomanina, E64d, CA074me). Essas substâncias, ainda não batizadas com nome farmacológico adequa- do, reduziram sensivelmente a inflamação dos tecidos pancreáticos quando associadas a testes de estresse térmicos e hídricos. É claro que ainda são necessários anos de estudo, mas espera-se que um novo tipo de abordagem seja criado. Partindo dessa premissa, ainda podemos citar um exemplo mais recente: a descober- ta da participação do receptor toll-like do tipo IV na gênese da pancreatite grave. Ca- mundongos que tiveram o gene que codifica esse receptor deletado tiveram episódios muito menos graves de pancreatite. Dessa maneira, espera-se que a possível síntese de um antagonista para esse receptor pos- sa revolucionar o tratamento da pancreatite grave. Fique ligado nas apostilas e no site para maiores novidades no assunto! Futuras terapias Etiologia Você acaba de fechar o diagnóstico de pan- creatite aguda! E começa a pensar nas cau- sas... Por onde começar??? Mesmo sem saber exatamente a causa do evento inflamatório, sempre que pensar em pancreatite aguda você deve se lembrar duas condições que estão classicamente associadas (respondendo por 70-80% dos quadros): LItÍASE BILIAR ÁLCOOL http://#scrolldown http://#page=225 Cirurgia - Volume 4 37Medgrupo - CiClo 2: M.E.D Vamos começar por elas... 1- Litíase biliar Continua sendo a causa mais comum de pancreatite aguda em nosso meio, sendo responsável por 30 a 60% dos casos. Nessa situação, a passagem do cálculo do colédoco (que migrou da vesícula biliar) para o duode- no, através da ampola de Vater, ocasionaria uma hipertensão no sistema ductal pancreá- tico, o que facilitaria, por mecanismos ainda desconhecidos, o fenômeno de colocaliza- ção. Já foi comprovado que essa ativação não depende de refluxo biliar como se imaginou no passado (embora o Sabiston ainda consi- dere como teoria viável). Os cálculos podem ser encontrados nas fezes de até 90% dos pacientes com este tipo de pancreatite e ao contrário do que se possa pensar, a chance de ocorrer pancreatite aguda é indiretamente proporcional ao tamanho do cálculo! Assim, pacientes com pelo menos um cálculo < 5 mm têm um risco quatro vezes maior do que aqueles com cálculos maiores. Exis- tem ainda relatos confirmados de pancreatite associada à lama biliar... Às vezes aparece uma questão tão simples quanto esta sobre pancreatite... RESIDÊNCIA MÉDICA – 2006 ASSOCIAÇÃO MÉDICA DO PARANÁ – AMP Cite a causa mais frequente de pancreatite aguda: a) Colecistolitíase. b) Ascaridíase. c) Parotidite. d) Medicamentosa. e) Alcoolismo. Opção A, sem dúvida. O examinador ainda tentou confundir, colocando colecistolitíase (que é a mesma coisa que colelitíase). Às vezes, a questão simples se repete, e na MESMA instituição!!! RESIDÊNCIA MÉDICA – 2008 ASSOCIAÇÃO MÉDICA DO PARANÁ – AMP Etiologia mais frequente da pancreatite aguda: a) Parotidite. b) Ascaridíase. c) Colagenoses. d) Litíase biliar. e) Álcool. Questão que se repete. Gabarito letra C. 2 - Álcool É o segundo fator mais encontrado na pan- creatite aguda (15-30%) e o principal na pancreatite crônica. Na verdade, muitos episódios de pancreatite aguda alcoólica acontecem sobre um pâncreas já fibrótico e cronicamente inflamado. Veja abaixo os mecanismos relacionados à lesão pelo álcool: 1) Espasmos do esfíncter de Oddi, elevando a pressão intraductal pancreática e todas as suas consequências já vistas. 2)Toxicidade para a célula acinar e precipita- ção de proteínas (enzimas) no lúmen dos ductos do pâncreas. Este “tampão de pro- teínas” se calcificaria posteriormente, obs- truindo o lúmen de vários ductos (achados da pancreatite crônica). Um novo estímulo para secreção (alimentação, por exemplo) aumentaria mais ainda a pressão no interior desses segmentos obstruídos, gerando dor e novos episódios agudos. 3) Aumento da permeabilidade dos ductos pancreáticos, permitindo o extravasamento de enzimas ativadas inapropriadamente para o parênquima. 4) O álcool é capaz de ativar a tripsina in vitro. 5) Hipertrigliceridemia (ver abaixo). 6) Formação de radicais livres. Quais são os principais fatores ligados à pancreatite alcoólica? Primeiro: o tipo de bebida alcoólica não inte- ressa muito. Segundo: apesar de não existir uma quantidade bem delimitada, o consumo varia de 150 a 175 g/dia, numa média de 11 e 18 anos para mulhe- res e homens, respectivamente. O novo Harri- son nos traz o seguinte dado: o paciente deve possuir um consumo crônico de álcool há mais de cinco anos com uma média de cinco a oito “drinks” por dia. O interessante é perceber que a maior parte desses indivíduos nunca desen- volverá pancreatite, o que nos leva a pensar na presença de cofatores para deflagrar a doença. Atualmente os mais “badalados” são: as dietas ricas em gordura e dietas hiperproteicas; varia- ções genéticas nos genes ligados as enzimas de proteção pancreática e de quimiotaxia de neu- trófilos/ monócitos (já foram identificados quatro genes, sendo o MCP-1 – proteína quimiotáxica de monócitos – o mais famoso); e o tabagismo. Terceiro: é mais comum no homem do que na mulher (o que reflete, em parte, o maior con- sumo de álcool no sexo masculino). 3 - Outras Causas de pancreatite Se não há história de doença biliar ou etilismo, devemos pensar em outras condições: - Drogas - PÓS-CPRE - Metabólicas (hipercalcemia e hipertri- gliceridemia) - Obstrução não litiásica - traumática - Genética - Idiopática - Diversas http://#scrolldown Cirurgia - Volume 4 38Medgrupo - CiClo 2: M.E.D DROGAS (2-5%) Terceira causa mais frequente pelo Sabiston. No Cecil, a terceira causa é a pancreatite idio- pática. Provavelmente, o que o Sabiston quis dizer é que seria a terceira causa, excluindo as idiopáticas. Discussões à parte, as drogas mais clássicas seguem abaixo. - Pentamidina e Didanosina (DDI) - Azatioprina, 6-mercaptopurina - Furosemida e tiazídicos - Ácido valproico - Metronidazol, tetraciclina, sulfametoxazol- trimetoprim - Estrogênios - Arabinosídeo C - Aminossalicilatos 1- Essas são drogas comprovadamente associadas. Outras, como a isoniazida, pro- cainamida, alfametildopa e paracetamol são causas prováveis, mas não estabelecidas. 2- A causa mais comum de pancreatite agu- da na AIDS não é a mediada diretamente pelo vírus HIV, mas sim o uso de determi- nadas drogas (pentamidina, DDI, sulfame- toxazol-trimetoprim, inibidores de protease) e infecções oportunistas (citomegalovírus, criptosporídeos e micobacteriose atípica). Para concluir, as últimas edições dos principais livros têm reforçado que drogas anteriormente relacionadas como causas de pancreatite, a exemplo dos corticoides e antagonistas H2, encontram hoje pouco respaldo na literatura que confirme esta associação. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2008 SECRETARIA ESTADUAL DE SAÚDE – SES/ RJ Tempos depois de contaminação inadvertida pelo HIV, manipulando resíduos hospitalares, um gari de 34 anos começou a emagrecer e a ter infecções oportunistas. Já em tratamento para SIDA, certo dia ele adentrou o pronto-so- corro com provável pancreatite aguda. No seu esquema terapêutico, o plantonista identificou um análogo nucleosídeo inibidor da transcrip- tase reversa, que classicamente se associa a essa complicação pancreática, já que ele estava em uso de: a) Efavirenz. b) Saquinavir. c) Didanosina. d) Pentamidina. Bastava você ter esse conhecimento: al- gumas drogas utilizadas no tratamento de pacientes infectados pelo HIV positivo são pancreatotóxicas. Quais as principais? A di- danosina (DDI) e a pentamidina. Resposta C. PÓS-CPRE (5-20%) A CPRE pode complicar com pancreatite aguda e os aumentos transitórios da pressão intraductal pancreática podem ser os respon- sáveis. Você se lembra quando comentamos esta complicação na apostila de Síndrome Ictérica? Embora a CPRE seja um procedimento que apresentou uma popularização e melhora das condições técnicas nas últimas décadas, a in- cidência de pancreatite por CPRE manteve-se inalterada. Atualmente, existem vários estudos em busca dos fatores de risco que deflagrariam o processo. Os principais fatores relacionados até o momento são a papilotomia da papila menor, disfunção primária do esfíncter de Oddi, história prévia de pancreatite pós-CPRE, idade menor que 60 anos, mais do que duas injeções de contraste no ducto de Wirsung e CPRE realizada por endoscopista em “aprendizado” (ex.: alguns de vocês em pouco tempo...). MEtABÓLICAS - HIPERCALCEMIA: Promove ativação intra- pancreática das enzimas digestivas. Falare- mos novamente desta condição na apostila de Síndromes Endócrinas... - HIPERtRIGLICERIDEMIA: Elevações signi- ficativas de triglicerídios estão relacionadas à pancreatite aguda. A lactescência do soro é um sinal que fala a favor dessa condição. Os níveis séricos de amilase costumam ser nor- mais em pacientes com hipertrigliceridemia e pancreatite aguda. Falaremos um pouco mais desta condição na apostila de Síndrome Me- tabólica... As dislipidemias mais associadas à pancreatite aguda são as hiperlipidemias dos tipos I,II e V. A hipertrigliceridemia associa- da ao hipertireoidismo, diabetes e alcoo- lismo normalmente não causa pancreatite! OBStRUÇÃO Incluem-se aqui obstruções não litiásicas, principalmente a disfunção do esfíncter de Oddi, lesões duodenais (úlceras, doença de Crohn, divertículo, tumores periampulares), pós-traumática e o pâncreas divisum. Estes pacientes costumam, no entanto, fazer mais pancreatite crônica que aguda. O que é o PÂNCREAS “divisum” É uma anomalia congênita encontrada em até 11% de autópsias e cujo papel nas pancreati- tes recorrentes vem sendo questionado. Para entendermos melhor, vamos rever alguns conceitos da Embriologia. Durante a vida embrionária, as porções ventral e dorsal do pâncreas se originam de brotamentos sepa- rados. A porção ventral está próxima à árvore biliar e é drenada pelo que será o ducto de Wirsung, enquanto a porção dorsal é drenada pelo pequeno e estreito ducto de Santorini. Normalmente, acontece uma rotação horária da porção ventral por detrás do duodeno, para que ocorra a fusão com a porção dorsal do órgão. Nesse momento ocorre não só a fusão do parênquima do órgão, mas prin- cipalmente de seu sistema ductal. Quando a fusão não ocorre (ver FIGURA 3 abaixo), http://#scrolldown Cirurgia - Volume 4 39Medgrupo - CiClo 2: M.E.D teremos uma grande porção do órgão, que corresponde ao colo, corpo e cauda (porção dorsal da embriologia), drenada pelo peque- no ducto de Santorini, enquanto a cabeça e o processo uncinado do pâncreas (porção ventral da embriologia) serão drenados pelo ducto de Wirsung. Os aumentos periódicos da pressão no ducto de Santorini (ele é es- treito demais para tanto fluxo!) justificariam os episódios de repetição de pancreatite aguda. Antes de dizer o que é, vamos dizer o que não é. Não é uma complicação associada à cistoadenomas e hiperlipidemia; não tem maior incidência de abscessos pancreáticos ou pancreatite recorrente da cabeça (mas do corpo e cauda – quanta maldade do exami- nador...). O problema é a falta de fusão em- brionária entre o pâncreas dorsal e ventral. Resposta letra B. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2010 UNIVERSIDADE FEDERAL DO MARANHÃO – UFMA O ducto de Santorini está presente no Pân- creas Divisum, ele drena a secreções da(o): a) Cabeça e corpo. b) Porção inferior da cabeça, o corpo e cauda. c) Corpoe cauda. d) Somente da cauda. e) Porção superior da cabeça, o corpo e cauda. O ducto de Santorini (pancreático acessório) promove a drenagem do corpo e da cauda do pâncreas no Pâncreas Divisium. Como, em teoria, ele é muito estreito para adequar tamanho do volume secretório, surgiriam, en- tão, os episódios de pancreatite recidivante. Resposta C. Neoplasias também podem ser causa de pancreatite aguda por obstrução e devem ser consideradas sempre que não houver doen- ça evidente do trato biliar. A neoplasia mais relacionada com a pancreatite é a neoplasia intraductal mucinosa. Até 2% dos episódios de pancreatite aguda são causados por car- cinomas pancreáticos e sua ocorrência pode ser o primeiro sintoma de uma neoplasia periampular. tRAUMA O trauma abdominal fechado, tanto em adultos como em crianças, também pode levar à pan- creatite aguda. A inflamação ocorre mesmo nos casos em que haja apenas laceração ou contusão, sem lesão ductal. Vamos aprender com a questão abaixo: RESIDÊNCIA MÉDICA – 2006 UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBU- CO – UFPE A etiologia da pancreatite aguda apresenta relação com as taxas de mortalidade. Dentre os tipos de pancreatite abaixo relacionados, qual a que apresenta a maior mortalidade? a) Pancreatite relacionada à ingesta excessiva de cerveja. b) Pancreatite traumática. c) Pancreatite decorrente da anemia hemolítica. d) Pancreatite pós-parotidite. A resposta correta é a alternativa B. Vimos no começo do capítulo que a maior parte dos Veja abaixo como, apesar de incomum, os examinadores gostam de cobrar esse tópi- co. E por incrível que pareça, com questões bastante difíceis... RESIDÊNCIA MÉDICA – 2008 UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE – UFF Em relação ao pâncreas divisum, é correto afirmar que se trata de: a) Anomalia frequentemente associada ao surgimento de cistoadenomas pancreáticos devido à dificuldade de drenagem da secreção pancreática. b) Variante encontrada em 5 a 7% das pessoas nas quais os ductos do pâncreas ventral e dor- sal não se fundem durante a vida embrionária. c) Anomalia responsável pela maior incidên- cia de abscessos pancreáticos na pancreatite aguda grave. d) Anomalia associada com frequência a epi- sódios recorrentes de pancreatite, principal- mente da cabeça do pâncreas. e) Anomalia associada às hiperlipidemias tipo III, predispondo a maior incidência de pan- creatite. Figura 3 - Pâncreas divisum: Acima, De- senho esquemático ilustrando a ausên- cia de fusão entre as porções ventral e dorsal do pâncreas. Abaixo, CPRE nos demonstrando um longo e afilado ducto de Santorini drenando todo o pâncreas dorsal. http://#scrolldown http://#videomiolo=RCIR203046 Cirurgia - Volume 4 40Medgrupo - CiClo 2: M.E.D episódios de pancreatite aguda apresenta evo- lução satisfatória, ou seja, pancreatite leve! No entanto, isso não é observado na pancreatite traumática, que costuma ser grave. GENÉtICA Consiste em episódios de pancreatite antes dos 20 anos, precipitados comumente por álcool, alimentos gordurosos ou estresse emocional, e com história familiar positiva. Di- versas mutações já foram encontradas, sendo a mais comum no gene do tripsinogênio. Os principais mecanismos associados seriam: (1) tripsina resistente à inibição e (2) inibidores da tripsina defeituosos. Esses casos também estão mais associados à pancreatite crônica do que à aguda. O câncer de pâncreas é outra complicação esperada. Quanto à fibrose cística, apesar de cursar classicamente com insuficiência pancreática, raramente leva à pancreatite. No entanto, isso tem mudado um pouco após a identificação recente de outro fenótipo da doença (em pa- cientes heterozigotos) associado à pancreatite recorrente sem acometimento pulmonar. IDIOPÁtICA Corresponde a cerca de 20% dos casos em que não se chega a uma definição etiológica. Estes pacientes apresentam em sua maioria formas não identificadas de pancreatite biliar, entre elas: lama biliar ou microlitíase e disfun- ção do esfíncter de Oddi. O tratamento para estas condições seria a colecistectomia e a esfincterotomia respectivamente. Mutações subclínicas no gene da fibrose cística também foram associadas. DIVERSAS Outras causas de pancreatite aguda incluem hipotermia, infecções (caxumba, citomega- lovírus, coxsackievírus, Mycoplasma pneumo- niae), infestação por Ascaris lumbricoides e Clonorchis sp., azotemia, vasculite, au- toimune (síndrome de Sjögren), veneno do escorpião Tytius trinitatis (produz toxina que faz hiperestimulação pancreática), de algumas espécies de aranha, répteis (monstro de Gila) e intoxicação por organofosforados. A pancreatite aguda secundária a procedi- mentos cirúrgicos continua sendo encontra- da comumente na prática clínica. Cirurgias abdominais, como antrectomia seguida de gastrojejunostomia (reconstrução a Billroth II), procedimentos realizados próximos ao pâncreas, como biópsia do órgão e explo- ração do ducto biliar comum, e cirurgias à distância, como cirurgias cardíacas que em- pregam by-pass cardiopulmonar, estão entre os principais procedimentos. Nessas últimas, o índice de pancreatite pós-operatória pode chegar até a 7% dos pacientes! Para aqueles que acham que isso é bobeira!!! RESIDÊNCIA MÉDICA – 2015 INSTITUTO NACIONAL DE TRAUMATOLO- GIA E ORTOPEDIA – RJ É uma causa rara de pancreatite aguda: a) Isoniazida. d) Picada de escorpião. b) Colelitíase. e) Uso de álcool. c) Estrógeno. Pensando nas causas de pancreatite, as mais comuns são litíase biliar, álcool, algumas drogas. Figurando como causa rara temos a picada de escorpião. As toxinas do escorpião contem um potente secretagogo pancreático e, presumilvemente, a estimulação pancreáti- ca excessiva que se segue à exposição a essa toxina leva à lesão pancreática. Gabarito D. SAIBA MAIS Recentemente, uma nova forma de pancrea- tite autoimune foi identificada, caracterizada por lesão grave e esclerosante do pâncreas com intenso infiltrado linfoplasmocitário. Ela se chama Pancreatite Autoimune Linfoplas- mocítica. Dados marcantes para uma prova: níveis elevados de IgG circulante + tumoração inexplicada da cabeça do pâncreas + esteno- ses do ducto pancreático. Para fechar as causas de pancreatite agu- da, faça mais essas questões! RESIDÊNCIA MÉDICA – 2014 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO PARÁ – PA Várias situações estão relacionadas com o de- sencadeamento de pancreatite aguda. As cau- sas mais frequentes de pancreatite aguda são: a) Cálculos biliares, anomalias congênitas, áscaris na via biliar e vírus: caxumba. b) Cisto de colédoco, toxinas, hereditário e drogas: AZT. c) Cálculos biliares, ingestão de álcool, hiper- lipemia e iatrogenia na papila. d) Bacteriana: leptospirose, hipercalcemia, câncer de pâncreas e drogas: esteroides. e) Pâncreas diviso, veneno de escorpião, vírus: Coxsackie B e iatrogenia na papila. Questão bem tranquila. Não há dúvidas de que as principais etiologias de pancreatite aguda são a colelitíase e o alcoolismo como dito na letra C. As demais alternativas mostram várias outras causas dessa doença, que ficam em posições mais inferiores na estatística da pancreatite aguda. E só com esse conceito so- bre as duas principais causas já conseguimos ganhar mais alguns pontos durante a prova. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2006 UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ – UFPR Assinale a alternativa que apresenta a causa mais comum de pseudocisto pancreático em crianças. a) Pancreatite por litíase biliar. http://#scrolldown Cirurgia - Volume 4 41Medgrupo - CiClo 2: M.E.D b) Trauma abdominal. c) Pancreatite por medicamentos. d) Congênita. e) Neoplásica. Para acertarmos esta questão, vamos ra- ciocinar: Quando estamos diante de um pseu- docisto, é natural concluirmos que houve um episódio de pancreatite, não é lógico? E quais são as principais causas de pancreatite aguda na infância? Traumatismos abdominais fecha- dos, caxumba e outras viroses, anomalias con- gênitas (pâncreas anular, pâncreas divisum)e microlitíase. Para constar: de acordo com o Nelson, o trauma abdominal decorrente de abuso contra a criança vem se apresentando como causa frequente de pancreatite aguda em crianças pequenas. Portanto, resposta B. manifestações clínicas História É a dor abdominal intensa que geralmente irradia para o dorso, associada a náuseas e vômitos que domina o quadro clínico da pancreatite aguda. Os vômitos geralmente persistem mesmo após o estômago ter sido esvaziado, o que em alguns casos pode levar à síndrome de Mallory-Weiss e hemorragia digestiva alta. Obs.: Quando você passa uma sonda naso- gástrica, mas o paciente continua vomitando, lembre-se de duas condições: pancreatite aguda e obstrução intestinal!!! De modo típico, a dor é localizada no epigas- tro ou apresenta-se como dor em “barra” no abdome superior, irradiando-se para o dorso. Muitos pacientes descrevem a sensação dolo- rosa de uma “facada”. Geralmente é de início súbito e piora lentamente, de forma contínua, até atingir um nível máximo. Alguns relatam uma melhora da dor quando se inclinam para frente ou quando assumem decúbito lateral com os joelhos fletidos (posição genupeito- ral). A atitude em prece maometana (paciente ajoelhado projeta seu tórax para frente, dei- xando a cabeça repousar sobre leito) é bem descrita nos livros de semiologia como posição buscada pelo paciente com pancreatite para alívio de sua dor. A dor é tão característica e constante que, segundo o Sabiston, se a dor alivia ou desaparece de forma espontânea, o diagnóstico deve ser interrogado. Em muitos casos de pancreatite biliar, uma libação alimentar nas últimas 12 a 16 horas é relatada pelo paciente ou por seus familiares. Pacientes que possuem pancreatite crônica relatam libação alcoólica dentro das últimas 12 a 24 horas. Existe pancreatite sem dor abdominal? A princípio, não! No entanto, na pancreatite pós-operatória, como os pacientes já estão re- cebendo analgesia, a dor abdominal pode estar ausente e o diagnóstico ser bastante difícil. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2014 HOSPITAL UNIVERSITÁRIO DA UFSC – SC Assinale a característica clínica predominante em paciente com pancreatite aguda. a) Dor. d) Leucocitose. b) Vômitos. e) Febre. c) Hipotensão. Todas as alternativas contemplam manifes- tações possíveis na pancreatite aguda! Mas veja a pergunta: a manifestação predominante em um quadro de pancreatite é a DOR!!! Não esqueça deste “DETALHE”. Gabarito letra A. Exame Físico Como discutimos na primeira parte, o pa- ciente com pancreatite aguda usualmente se encontra agitado, movimentando-se no leito em busca de uma posição que lhe traga mais alívio para sua dor (ao contrário do paciente com ruptura visceral, que fica quieto no leito). A febre presente no início do quadro se deve à resposta sistêmica inflamatória (SIRS), e não à infecção, que aparece numa fase mais tardia. Outro achado dependente da gravidade do episódio é o rebaixamento do nível de cons- ciência, que pode ser devido ao choque hipo- volêmico (inflamação e perda de volume para o terceiro espaço), mediadores humorais ou mesmo à intoxicação pelo etanol. Icterícia é notada em alguns pacientes. A compressão da porção intrapancreática do colédoco, devido ao edema da cabeça do pâncreas ou à presença de cálculo no colédo- co distal, são condições que podem justificar este achado no exame clínico. Pacientes com doença sistêmica grave podem apresentar ainda colestase não obstrutiva. O processo inflamatório no abdome superior pode levar à atelectasia, com redução do mur- múrio vesicular nas bases pulmonares. Exame clínico compatível com derrame pleural (mais comum à esquerda) é possível em ambos os hemitóraces. Uma diminuição da relação PaO2 / FiO2 pode ser observada nos dias sub- sequentes em pacientes críticos que evoluem para SARA. A alteração cutânea mais impor- tante é o aparecimento de necrose gordurosa subcutânea (“paniculite”), formando uma lesão semelhante ao eritema nodoso. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2009 FACULDADE DE MEDICINA DE RIBEIRÃO PRETO DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO – FMRP – USP Paciente, etilista crônico, apresenta-se com episódios de dor abdominal em andar superior e derrame pleural crônico, em hemitórax es- querdo. O líquido pleural, provavelmente, será: a) Transudato citrino. http://#scrolldown Cirurgia - Volume 4 42Medgrupo - CiClo 2: M.E.D b) Exsudato neutrofílico. c) Transudato rico em desidrogenase lática. d) Exsudato rico em amilase. Resposta D. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2014 HOSPITAL DAS CLÍNICAS DE GOIÁS – GO Na pancreatite aguda, a presença de equimo- se em flanco esquerdo representa o sinal de: a) Cullen. c) Halsted. b) Gray-Turner. d) Fox. Alguns sinais são clássicos na pancreatite. Ao mesmo tempo, devemos lembrar que estes sinais não são patognomônicos! Como sabe- mos, o exame abdominal pode nos mostrar, em raros casos de pancreatite necrosante, equimoses em flancos (sinal de Grey-Turner, FIGURA 4B), equimoses periumbilicais (sinal de Cullen, FIGURA 4A) e equimoses na base do pênis (sinal de Fox). Querem uma regra que evita a confusão entre os sinais de equimose na pancreatite necrosante? Lá vai: Cullen = Central (periumbilical) Outro achado seria a diminuição importante do peristaltismo, decorrente do íleo paralítico que se desenvolve. Hipertimpanismo, devido à distensão abdominal, é comum. A palpação abdominal não costuma apresentar dados positivos, mas pode revelar uma massa infla- matória no andar superior, mais precisamente no hipocôndrio esquerdo. Descompressão dolorosa e defesa voluntária ou involuntária são encontradas em combinações variadas. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2016 HOSPITAL ANGELINA CARON – PR Nos casos de pancreatite aguda, equimose na região periumbilical ou nos flancos são carac- terizados respectivamente como: a) Sinal de Murphy e Rosiving. b) Sinal de Gray-Turner e Cullen. c) Sinal de Ferrarin e Murphy. d) Sinal de Cullen e Gray-Turner. e) Sinal de Cullen e Murphy. Cuidado para não confundir!!! RESIDÊNCIA MÉDICA – 2001 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO – UERJ Paciente com 40 anos de idade, do sexo feminino, refere que há cerca de dez anos vem apresentando intolerância a alimentos gordurosos, com dor em hipocôndrio direito e plenitude pós-prandial. Há 12 horas, após libação alimentar, iniciou quadro de dor epi- gástrica intensa, com irradiação para o dorso, associada a vômitos incoercíveis. Ao exame físico, encontrava-se discretamente ictérica, febril, hipotensa, com discreta depressão do estado mental e distensão abdominal. A hipótese diagnóstica mais provável para esse quadro clínico é: a) Colecistite aguda. b) Pancreatite aguda. c) Fístula colecistoduodenal. d) Pseudocisto pancreático infectado. Fácil se você tiver um mínimo de atenção. O enunciado nos dá a dica da presença de co- lelitíase sintomática: “intolerância a alimentos gordurosos, com dor em hipocôndrio direito...”. De repente um quadro súbito de dor abdominal e vômitos incoercíveis, o que será? Colecistite? Óbvio que não! A paciente está hipotensa, com rebaixamento do nível de consciência, ou seja, um quadro que indica gravidade, o que não é compatível com a maior parte dos casos de colecistite aguda. Além disso, tem a apresen- tação clássica de dor epigástrica que irradia para o dorso... Sendo assim, o diagnóstico que se impõe é o de pancreatite aguda, opção B. Figura 4 - 4A: Sinal de Cullen / 4B: Grey-Turner. Figura 4A Figura 4b Saiba maiS: A retinopatia de Purtscher é uma complicação incomum da pancreatite aguda, caracterizada por perda súbita da visão. Na fundoscopia encontram-se exsudatos algodonosos e he- morragias confinados entre o disco óptico e a mácula. A causa provável é uma oclusão da artéria retiniana posterior por aglomerados de neutrófilos. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2016 HOSPITAL UNIVERSITÁRIO ANTÔNIO PEDRO – RJ A retinopatia de Purtscher se manifesta por perda rápida e grave da visão e podeocorrer em pacientes portadores de: a) Isquemia mesentérica aguda. b) Trombose de veia porta. c) Choque hipovolêmico prolongado. d) Embolia pulmonar. e) Pancreatite aguda grave. A retinopatia de Purtscher é uma complica- ção incomum da pancreatite aguda, caracte- rizada por perda súbita da visão. Na fundos- copia encontram-se exsudatos algodonosos e hemorragias confinados entre o disco óptico e a mácula. A causa provável é uma oclusão da artéria retiniana posterior por aglomerados de neutrófilos ou ainda por mecanismos em- http://#scrolldown Cirurgia - Volume 4 43Medgrupo - CiClo 2: M.E.D bólicos. Outras condições associadas com retinopatia de Purtscher tem sido descritas, como doenças linfoproliferativas, transplante de medula óssea, transplante renal, embolia gordurosa, trauma por air bag, manobra de Valsalva, pós-parto e adenocarcinoma de pân- creas. Resposta: E. Laboratório Achados gerais - Leucocitose com desvio à esquerda, eleva- ção do hematócrito devido à hemoconcen- tração e aumentos de ureia e creatinina são achados laboratoriais possíveis. - Trombocitopenia, alargamento do TAP e PTT, elevação dos produtos de degradação da fibrina e redução do fibrinogênio nos casos de coagulação intravascular disseminada. - Os vômitos repetidos podem levar à alcalose metabólica hipoclorêmica e hipocalêmica. - A glicemia pode estar elevada pela associa- ção com DM ou pela elevação do glucagon e catecolaminas da resposta inflamatória. - Hipoalbuminemia pode ser significativa na pancreatite aguda, principalmente quando as perdas volêmicas são corrigidas somente com solução cristaloide. - A hipocalcemia na maioria dos casos não é grave, sendo consequência da hipoal- buminemia. No entanto, alguns pacientes apresentam redução importante do cálcio ionizado (fração livre) e evoluem com tetania e espasmo carpo-pedal. Neste fenômeno, de fisiopatologia incerta, a reposição de cálcio deve ser imediata. - Hiperbilirrubinemia é comum pelo mesmo motivo da icterícia. - Elevações de três a quatro vezes nos valores da ALT, nas primeiras 24 horas da pancreatite aguda, sugerem etiologia biliar com grande especificidade. A AST pode se elevar em até 15 vezes, sendo um dos critérios de gravida- de de Ranson (ver adiante). Achados específicos 1) AmilAse séricA: Valores séricos de amilase três vezes acima do limite superior da normalidade sugerem fortemente o diagnóstico de pancreatite agu- da, na presença de sinais e sintomas com- patíveis. A amilase se eleva dentro de 2 a 12 horas após o início dos sintomas e, a partir de então, seus níveis declinam com valores normais já sendo observados por volta do 3º ao 6º dia. Devemos suspeitar de complicações do tipo formação de pseudocisto de pâncreas, abscesso ou ascite pancreática em pacientes que permanecem com amilase elevada além de sete dias e apresentam massa palpável no andar superior de abdome. A amilase é um exame de baixa especifici- dade e sem correlação com gravidade de doença!!! Gravem este conceito. Veremos abaixo que existem várias causas de HIPE- RAMILASEMIA, o que torna o seu aumento inespecífico. Além disso, a amilase não guarda qualquer relação com a gravidade do quadro. Ou seja, se um paciente apresenta níveis ele- vados de amilase, mas sem uma clínica típica, isso não necessariamente é pancreatite aguda. Devemos ressaltar ainda que a magnitude da hiperamilasemia não corresponde diretamente à gravidade da pancreatite subjacente. É inte- ressante perceber que formas intermediárias da doença costumam cursar com amilase mais elevada do que as formas mais graves. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2014 SANTA CASA DE MISERICÓRDIA DE LIMEI- RA – SP Com relação à pancreatite aguda, podemos afirmar, exceto: a) A apresentação clínica pode variar de ligeiro desconforto abdominal até choque profundo. b) A maioria dos casos de pancreatite aguda são de origem biliar ou alcoólica. c) O nível sérico de Amilase está elevado em mais de 90% dos casos. d) O nível sérico de Amilase é proporcional à gravidade da pancreatite. Questão clássica que você não pode errar!!! Os níveis de amilase ajudam no diagnóstico da doença mas não apresentam relação com a gravidade do quadro. Logo, gabarito letra D. Confronte agora as duas tabelas a seguir: CAuSAS DE HIpErAmILASEmIA Doença Pancreática: - Pancreatite aguda e crônica e suas complica- ções - Trauma pancreático - Carcinoma pancreático Doenças Abdominais Não Pancreáticas: - Doença do trato biliar: colecistite, coledocoli- tíase - Isquemia mesentérica - Obstrução intestinal - Perfuração de víscera oca - Prenhez ectópica rota - Peritonite - Aneurisma de aorta - Doença Hepática crônica - Pós-operatório Outras Doenças: - Insuficiência renal - Lesão das glândulas salivares (caxumba, cál- culo, irradiação, cirurgia maxilofacial) - Neoplasias: pulmão, esôfago, mama, ovário - Queimaduras - Cetoacidose diabética - Gravidez - Transplante renal http://#scrolldown Cirurgia - Volume 4 44Medgrupo - CiClo 2: M.E.D 1.1) OutrAs relAções dA AmilAse A amilase urinária permanece aumentada por mais tempo e pode ajudar no diagnóstico tar- dio. A elevação do clearance amilase:creatinina seria mais específica para pancreatite, mas não há evidências até o momento que confirmem este dado. Grandes elevações da amilase no fluido pleural ou peritoneal (> 5.000 U/dl) tam- bém são úteis para o diagnóstico. Outra maneira de tornar a dosagem de amilase mais fidedigna seria a dosagem da p-amilase, específica dos tecidos pancreáticos. Na lesão dos outros tecidos que também produzem hiperamilasemia, geralmente ocorre o aumen- to da amilase do tipo salivar. A dosagem da amilase do tipo pancreática pode aumentar a especificidade do diagnóstico para até 93%!!! 2) lipAse séricA Os níveis de lipase possuem maior especifi- cidade no diagnóstico de pancreatite aguda quando comparados aos de amilase. O nível das duas se eleva em paralelo, com os valores de lipase persistindo aumentados por mais tempo. Sendo assim, os níveis aumentados de lipase muitas vezes nos auxiliam no diagnós- tico de pancreatite aguda em pacientes que se apresentam após 72 horas aos Serviços de Emergência. Curiosamente os níveis de amilase tendem a ser mais elevados na litíase biliar e a lipase na doença associada ao álcool. Existem poucas condições clínicas e cirúrgi- cas além da pancreatite aguda que elevam os níveis de lipasemia. São elas: insuficiência renal GRAVE, com clearance de creatinina < 20 ml/min, colecistite aguda, obstrução e perfuração intestinal. A lipase, da mesma forma que a amilase, não apresenta correlação prog- nóstica com um episódio de pancreatite aguda. E quando comparada com a p-amilase? Qual é a melhor? A sensibilidade e especificidade de ambas se equivalem. No entanto, a maior meia vida da lipase acaba configurando a mesma como o teste de escolha a ser adotado. AtENÇÃO!!! Os níveis de amilase e lipase não têm correlação com a gravidade do qua- dro de pancreatite. 3) OutrOs exAmes Níveis circulantes de tripsinogênio, fosfolipase, elastase e quimotripsinogênio costumam estar elevados, mas não oferecem informação adicio- nal ao que já temos quando dispomos de amilase e lipase. O peptídeo ativador do tripsinogênio urinário está elevado e se correlaciona com a gravidade do ataque ao lado de outros marcado- res como IL-1, IL-6, TNF-alfa, PCR (ver adiante). Exames de Imagem 1- radiografia A radiografia de tórax pode mostrar atelecta- sias segmentares nos lobos inferiores, eleva- ção do diafragma, derrame pleural à esquer- da, ou mesmo hipotransparência sugerindo edema pulmonar. A radiografia simples de abdome costuma ser normal e a sua grande função é excluir as demais causas (ex.: perfuração visceral). Nos casos mais graves, notamos eventualmente “alça sentinela” (segmento de alça de delga- do paralisada próximo ao jejuno proximal), sinal de “amputação do cólon” (espasmo no segmento transverso ou na flexura esplênica, com ausênciade gás distal a esse ponto – FIGURA 5) e contornos indistintos de órgãos retroperitoneais (músculo psoas e rins). RESIDÊNCIA MÉDICA – 2008 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO – UERJ Senhora de 65 anos, com história de litíase biliar, deu entrada na Emergência com quadro de pancreatite aguda. O cirurgião de plantão suspeitou de infecção pancreática, pois a ro- tina de abdome agudo evidenciou: a) Gás no retroperitônio. c) Derrame pleural. b) Velamento pélvico. d) Alça sentinela. - Trauma encefálico - Morfina - Macroamilasemia* * A macroamilasemia ocorre em 0,5% dos indi- víduos e ocorre pelo fato de o tamanho elevado da enzima não permitir sua depuração. Níveis elevados de amilase sérica com níveis baixos de amilase urinária ajudam a confirmar a condição. CAuSAS DE pAnCrEAtItE AguDA COm AmILASEmIA nOrmAL (1) A hipertrigliceridemia é causa de pancreatite aguda com amilasemia na faixa da normalidade. Este efeito se deve à presença de um inibidor da amilase, associado com a elevação dos triglice- rídios. As diluições pareadas do soro parecem revelar a hiperamilasemia. (2) Pacientes com pancreatite crônica em es- tágio avançado de fibrose também apresentam pancreatite aguda com níveis normais ou muito pouco elevados de amilasemia. (3) A pancreatite grave com necrose intensa do órgão pode cursar com amilasemia normal. Aqui o órgão praticamente “derrete” sem que haja tempo para amilase entrar na circulação. http://#scrolldown http://#videomiolo=RCIR203050 Cirurgia - Volume 4 45Medgrupo - CiClo 2: M.E.D Qual desses achados mais fala a favor de necrose e infecção? Sem dúvida nenhuma é a opção A. Como o pâncreas é retroperitonial, nos casos de infecção de tecido pancreático necrosado, bactérias formadoras de gás leva- rão à presença de ar no retroperitônio. Obser- ve a imagem abaixo, repare a presença de ar no retroperitônio. Figura 5 - Sinal de amputação do cólon. Repare Ausência de gás no colón distal (seta). Figura 6 2 - ultrassonografia (uSg) Não é um bom método para avaliarmos o parênquima pancreático. No entanto, é o que apresenta maior sensibilidade na ava- liação de litíase/lama biliar e dilatação de vias biliares. Não é um bom exame para os cálculos distais, que são mais facilmente visualizados pela TC. Dentre suas desvan- tagens, temos o fato de ser um método bas- tante dependente do observador e limitado na presença de distensão abdominal. Como a ultrassonografia é o método mais sensível para o diagnóstico de colelitíase, ela deve ser solicitada para todo paciente que se apresente com pancreatite aguda, já que a litíase biliar é a sua causa mais comum. Entendeu? Para todo paciente com pancra- tite aguda devemos solicitar a USG, mas não para dar o diagnóstico ou para avaliar a gravidade do caso, mas sim, para tentar definir a causa da inflamação: existe ou não existe colelitíase? 3 - tomografia Computadorizada de Abdome Exame de eleição na pancreatite aguda para delinear o pâncreas. Avalia com precisão au- mentos difusos ou localizados do órgão, pre- sença ou não de coleções fluidas pancreáticas e peripancreáticas, e borramento da gordura perirrenal e peripancreática. Além dessas vantagens, é o exame não invasivo que me- lhor identifica a presença ou não de necrose do órgão. A tomografia com contraste venoso é o exame padrão ouro para diagnóstico e avaliação da gravidade de uma pancreatite aguda. A extensão da necrose pancreática é melhor avaliada pela tomografia a partir de 48h a 72h do início dos sintomas, podendo as tomografias precoces subestimar o grau de lesão pancreática do paciente. Dessa forma, caso seja realizada uma tomografia precoce, um novo exame deve ser efetuado três a cinco dias após o primeiro. Veja esta questão! RESIDÊNCIA MÉDICA – 2013 UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO – UNIFESP Mulher, 59 anos de idade, tem história de dor epigástrica de forte intensidade há 1 dia, acompanhada de náuseas e vômitos. Tem diagnóstico pregresso de colelitíase. Exame físico: regular estado geral, pulso = 100 bpm, frequência respiratória = 23 mpm, murmúrio vesicular diminuído em bases, ab- dome globoso, equimose em região perium- bilical, ruídos hidroaéreos diminuídos, dor difusa à palpação que impede a palpação profunda, descompressão brusca dolorosa duvidosa no andar superior. Hemograma com 18.000 leucócitos/mm³, sem desvio à esquer- da e amilase de 889 UI. O escore de Ranson foi positivo para três critérios. Quando deve ser realizada a tomografia de abdome? Gabarito liberado pela banca: 48 a 72 ho- ras OU (dois a três dias) OU após 48h OU após 72h após o início dos sintomas. Como vimos acima, a extensão da necrose pan- creática é melhor avaliada pela tomografia a partir de 48h a 72h do início dos sintomas, podendo as tomografias precoces subesti- mar o grau de lesão pancreática do pacien- te. Dessa forma, caso seja realizada uma to- mografia precoce, um novo exame deve ser efetuado três a cinco dias após o primeiro. http://#scrolldown Cirurgia - Volume 4 46Medgrupo - CiClo 2: M.E.D Mas devemos tomografar todos os pacientes na fase inicial da pancreatite? A tomografia feita precocemente tem valor re- duzido nos quadros óbvios de pancreatite agu- da, não sendo indicada de forma rotineira para esses casos. Além disso, a tomografia precoce pode subestimar a gravidade do quadro, uma vez que a agressão ao parênquima é melhor avaliada após 48-72 horas de pancreatite. Ou seja, uma TC precoce só deve ser solicita- da nos casos duvidosos. Nos casos em que o diagnóstico é certo, a TC deve ser realizada nos quadros graves idealmente após 48-72 horas e se a TC tiver sido feita de forma precoce, o ideal é repetir o exame após este intervalo. Figura 7 - TC de abdome demonstrando extensa área de necrose pancreática (setas brancas). 4 - ressonância magnética do Abdome Apresenta sensibilidade e especificidade seme- lhantes à da TC de abdome no diagnóstico da pancreatite. Devido ao custo elevado e à dispo- nibilidade muito menor que a TC, costuma ser adotada como segunda escolha. Uma das van- tagens seria evitar o uso de contraste iodado em pacientes com insuficiência renal ou com história de alergia. Além disso, ela pode identificar ruptura ductal precoce não visualizada à TC. A colangio- grafia por ressonância magnética (FIGURA 8) é um método não invasivo que oferece a possi- bilidade, através de reconstrução tridimensional, de visualização do colédoco, podendo ser utili- zada na suspeita de coledocolitíase. Sintomas, como dor em epigastro (abdome superior), compatíveis com a doença. Amilase ou lipase séricas aumentadas três ve- zes mais que o limite superior da normalidade. Imagem radiológica compatível com o diagnós- tico (de preferência TC ou RNM). figura 8 - mostrando leve ectasia das vias biliares intra e extra-he- páticas, com afilamento gradual na região periampular. Obs.: Atente para as imagens de alguns exa- mes menos usuais. A colangiorressonância, por exemplo, já foi questão de uma prova de segunda fase, que perguntava apenas qual era o exame! 5 - ultrassonografia Endoscópica Método mais adequado para diagnosticar pancreatite de origem biliar, podendo ajudar na decisão de realizar colangiopancreato- grafia endoscópica retrógrada (CPRE) de urgência – ver abaixo. Abordagem da pancreatite aguda Frente a um paciente com dor abdominal em abdome superior, como diagnosticar pancreatite aguda? Pode parecer óbvio para muitos que um qua- dro clínico característico de dor em barra no abdome superior associado a um aumento de amilase/lipase é suficiente para fechar o diagnóstico de pancreatite aguda. Essa linha de pensamento está parcialmente correta... No entanto, para que o diagnóstico de pancreatite aguda fosse realizado de forma mais “exata”, foram definidos critérios diagnósticos em 1992, durante Conferência de Atlanta (mais deta- lhes adiante). E de acordo com os critérios de Atlanta, para dar o diagnóstico de pancreatite aguda,são necessários pelo menos dois dos seguintes achados: A princípio, sempre consideramos o evento do- loroso como pancreatite aguda, a não ser que haja evidência em estudo de imagem que su- gira um processo crônico. Nesse último caso, consideramos o diagnóstico de pancreatite crônica com exacerbação sobreposta. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2010 SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE – SUS – SP Uma paciente de 40 anos foi internada por apresentar dor aguda no epigástrio, associa- da a vômitos e icterícia. Negava febre. Tinha dor à palpação no epigástrio, com peristalse diminuída. T: 37,2°C. Amilase sérica: 1.400 U/L; leucócitos = 12.000/mm3; AST (TGO): 80 U/L; ALT (TGP): 95 U/L; bilirrubinas to- tais: 3,4 mg/dl, bilirrubina direta: 2,7 mg/dl. Ultrassom: colelitíase e pequena quantidade de líquido livre na cavidade peritoneal; vesí- cula biliar normodistendida, com paredes de http://#scrolldown Cirurgia - Volume 4 47Medgrupo - CiClo 2: M.E.D pAnCrEAtItE rECOrrEntE Cerca de 25% dos pacientes que tiveram um quadro de pancreatite aguda apresentam uma recorrência do quadro. Mesmo nesses casos, as principais causas continuam sendo litíase biliar e álcool. Pacientes sem causa definida num primeiro momento devem ser investigados para: - doença biliar oculta (microlitíase e lama biliar) ou disfunção do esfíncter de Oddi - drogas não relatadas - hipertrigliceridemia não aferida - malformações como o pâncreas divisum - fibrose cística - câncer de pâncreas Como dito no início do capítulo, classicamente dividimos a pan- creatite como leve e grave. Vamos ver primeiro dessa maneira, que inclusive é a que consta na última edição do Sabiston e que leva em consideração os critérios originais de Atlanta, mas fique atento pois no final vamos discutir a fundo os novos conceitos preconizados pela revisão mais atual desses critérios. 2 mm de espessura. Após 72 horas de jejum e hidratação, a paciente ficou praticamente assintomática. No sexto dia de internação, alimentava-se normalmente por via oral. Ami- lase e transaminases eram então normais. Diagnóstico inicial: a) Colecistite aguda. d) Colangite aguda. b) Pileflebite. e) Abscesso hepático. c) Pancreatite aguda. A paciente apresenta critérios suficientes para diagnóstico clínico de pancreatite agu- da: dor aguda em epigastro associada a um aumento expressivo da amilase (> 3 vezes). Não se engane com a questão! Lembre que pancreatite também pode ser causa de icte- rícia transitória devido ao edema da cabeça do pâncreas. A resolução do quadro com uma abordagem adequada também é bem suges- tiva do diagnóstico. Abordagem adequada? Como eu devo abordar um paciente com pancreatite? PRIMEIRO PASSO DEFINIR A CAUSA E A GRAVIDADE DA PANCREAtItE A- DEFININDO A CAUSA É óbvio que definir a causa é sempre impor- tante, seja qual for a doença. Para pancreatite, como já vimos, pensaremos sempre em litíase biliar e álcool. Mas quando pensamos nesse item numa primeira abordagem, estamos preo- cupados com três perguntas: - É causada por droga? Se for, a droga tem que ser suspensa! - É de origem biliar? Se for, deve ser pesa- da a necessidade de um procedimento de urgência (CPRE) para extração do cálculo. Apesar de alguma controvérsia, a papi- lotomia endoscópica com extração do cálculo estaria indicada nas primeiras 48 horas em pacientes com pancreatite biliar grave com colangite ou icterícia persistente. - É alcoólica? Em um paciente com história de etilismo, na ausência de outros fatores precipitantes, a pancreatite aguda secun- dária ao álcool deve ser a principal hipótese diagnóstica. Repare ainda que, nessa situa- ção, é grande a possibilidade de estarmos diante da primeira grande exacerbação de uma pancreatite crônica. B- DEFININDO A GRAVIDADE Diante de um paciente com pancreatite aguda, uma grande preocupação é definir como pro- vavelmente será sua evolução; ou seja, tentar diferenciar o quadro inflamatório em: Pancreatite leve Pancreatite grave Para isso, um grupo de pesquisadores estabe- leceu, em 1992, no Simpósio Internacional de Pancreatite Aguda, os critérios de Atlanta. De acordo com esses critérios, são reconhecidos como formas graves de pancreatite aqueles casos em que esteja presente pelo menos um dos fatores abaixo: - Disfunção orgânica: choque (PAS < 90 mmHg), insuficiência pulmonar (PAO2 < 60 mmHg), insuficiência renal (creatinina > 2 mg/dl após hidratação), sangramento gas- trointestinal > 500 ml/24h. - Complicação local (necrose, pseudocisto ou abscesso). - Complicação sistêmica: CIVD (plaquetas < 100.000/mm3, fibrinogênio < 100 mg/dl, produtos de degradação do fibrinogênio > 80µg/ml), cálcio < 7,5 mg/dl. Além desses critérios, outros escores tam- bém podem ser utilizados para avaliar a gravidade da pancreatite aguda. Os dois principais são: - Escore de Ranson ≥ 3. - APACHE II ≥ 8. CRItÉRIOS DE RANSON: Têm como base onze achados laboratoriais e clínicos revistos durante a admissão e depois de 48 horas. Os valores são diferentes para a pancreatite biliar e não biliar. três ou http://#scrolldown Cirurgia - Volume 4 48Medgrupo - CiClo 2: M.E.D pAnCrEAtItE nãO bILIAr Na admissão hospitalar Idade > 55 anos Leucocitose > 16.000/µL Glicose > 200 mg/dl LDH > 350 U/L AST > 250 U/L Dentro de 48 horas da admissão Queda do hematócrito >10 pontos* Aumento do BUN > 5 mg/dl** Cálcio sérico < 8 mg/dl PAO2 < 60 mmHg Deficit de base > 4 mEql/L*** Deficit de fluido estima- do > 6 L (*) Após reposição volêmica com solução cristaloide e na ausência de transfusão. (**) BUN é o termo inglês para “nitrogênio ureico sanguíneo”. Para converter em ureia, basta multi- plicarmos por 2,14. (***) Excesso de base mais negativo do que - 4 mmol/L. *Fique atento para esse detalhe, na pancreatite de origem biliar PAO2 não é avaliada!!! pAnCrEAtItE bILIAr Na admissão hospitalar Idade > 70 anos Leucocitose >18.000/µL Glicose > 220 mg/dl LDH > 400 U/L AST > 250 U/L Dentro de 48 horas da admissão Queda do hematócrito > 10 pontos* Aumento do BUN > 2 mg/dl Cálcio sérico < 8 mg/dl Deficit de base > 5 mmol/L Deficit de fluido estimado > 4 L PAO2: não disponível* Uma boa sugestão de um de nossos alu- nos (veja no site o que quer dizer cada um deles): LEGAL? Leucocitose, enzima (ASt), glicemia, anos (idade), LDH FECHOU? Fluido, excesso de base, cálcio baixo, hematócrito, oxigênioe ureia Idade > 55 anos Leucócitos > 15.000/ml Glicose > 180 mg/dl Ureia > 45 mg/dl PaO2 < 60 mmHg Cálcio < 8 mg/dl Albumina < 3,2 mg/dl LDH > 600 U/L mais pontos já caracterizam um episódio como grave. Quando se utilizam os critérios de Ranson, a distinção entre um episódio grave e leve de pancreatite aguda é feita em 80% dos casos. O grande problema dos critérios de Ranson é que ele pode não prever a gravidade do quadro no momento da admissão. APACHE II (Acute Physiology and Chronic Health Evaluation): Este sistema emprega 12 parâmetros fisiológicos avaliados de rotina, mais idade e estado de saúde prévio. Geral- mente sua aplicação limita-se ao ambiente de Terapia Intensiva e pontuações ≥ 8 estão associadas à pancreatite grave. A grande vantagem desse sistema é o aces- so imediato à estimativa de gravidade da pancreatite (não é necessário esperar 48h). Sua maior desvantagem é sua complexida- de. No entanto, inúmeras calculadoras ele- trônicas estão disponíveis gratuitamente na internet, como o site da Sociedade Francesa de Anestesia e Reanimação (SFAR): http:// www.sfar.org/scores2/apache22.html. Os parâmetros avaliados pelo APACHE II são: (1) Temperatura; (2) Pressão arterial Média; (3) Frequência cardíaca; (4) Frequência res- piratória; (5) Gradiente alvéolo-arterial de O2; (6) pH ou HCO3 arterial; (7) Sódio; (8) Potássio; (9) Creatinina; (10) Hematócrito; (11) Leucócitos; (12) Escala de Glasgow; (13) Idade; e (14) Doenças crônicas (cirrose, ICC classe III, DPOC grave, outras doenças crônicas, imunodepressão). Além de caírem em questões deprovas, princi- palmente o escore de Ranson, é importante que se perceba o grande objetivo desses indica- dores: eles são úteis para auxiliar na definição do tratamento e estabelecer a necessidade de ressuscitação volêmica e monitorização mais cuidadosa, num ambiente de Terapia Intensiva. É importante perceber que essas informações prognósticas podem interferir diretamente na conduta, como, por exemplo, na indicação precoce de CPRE. Outros índices ainda podem aparecer na prova: CRItÉRIOS DE GLASGOW MODIFICA- DOS (Imrie): São indicadores prognósticos observados também nas primeiras 48 horas, com o paciente hospitalizado. Assim como os critérios de Ranson, não são utilizados para acompanhamento além dos primeiros dois dias de internação hospitalar. ÍNDICE DE GRAVIDADE PELA tOMOGRA- FIA COMPUtADORIZADA (CRItÉRIOS DE BALtAZAR MODIFICADOS): Em pacientes candidatos à TC, observa-se inicialmente o grau de inflamação do tecido pancreático e a formação de coleções fluidas agudas e pontua-se de acordo com esses achados. Soma-se ao valor obtido um escore baseado na quantidade de tecido necrótico pancreá- tico presente. Os valores variam de zero a dez, sendo que são considerados graves os pacientes com escore > 6. http://#scrolldown http://#page=226 Cirurgia - Volume 4 49Medgrupo - CiClo 2: M.E.D BISAP (Bedside Index of Severity in Acute Pancreatitis): Como os escores de Ranson e Apache II possuem muitas variáveis e fre- quentemente não são calculados frente aos pacientes com pancreatite, nos últimos anos diversos novos fatores prognósticos vêm sen- do estudados. Foi nesse espírito que o BISAP foi criado: pequeno, acurado e de fácil realiza- ção. Fique atento na importância desse novo escore que foi bem elogiado pelas edições novas do Harrison e do Cecil... BUN > 25 Rebaixamento do nível de consciência (Impaired metal status) SIRS Idade > 60 (Age) Derrame pleural na radiografia (Pleural effusion) Grau de Inflamação Grau A Pâncreas de aparência normal. 0 Grau B Aumento focal ou difuso do pâncreas. 1 Grau C Anormalidades pancreáticas acompanhadas por alterações inflamatórias peripancreáticas leves. 2 Grau D Coleção fluida em uma única localização usualmente nos limites do espaço pararrenal anterior. 3 Grau E Duas ou mais coleções fluidas próximas ao pâncreas ou presença de gás, ou no pâncreas ou em área de inflamação peripancreática. 4 Grau de Necrose Nenhuma 0 Um terço 2 Metade 4 Mais da metade 6 Repare que as iniciais em inglês formam o nome do critério. As variáveis devem ser ava- liadas nas primeiras 24h e, assim como nos critérios de Ranson, uma pontuação maior ou igual a três corresponde a um pior prognóstico. OutrOs mArcAdOres Cada um dos livros de referência cita ainda marcadores prognósticos adicionais aos que já abordamos e isso pode ser utilizado nas provas! A seguir uma lista com os principais marcadores relacionados por estas referên- cias. A ideia é que você passe os olhos por eles e esteja atento para uma questão do tipo “são fatores associados a pior prognós- tico na pancreatite”! * Fique atento em relação à proteína C reativa (PCR). Valores iguais ou superiores a 150 mg/dl já nos indica um quadro grave. No entanto, a PCR não deve ser utilizada como critério de admissão, uma vez que sua dosagem com menos de 48 horas do início dos sintomas apresenta baixa sensibilidade. Ou seja, a PCR deve ser avaliada após 48-72 horas do início dos sintomas. Outros marcadores prognósticos na pancreatite aguda Marcadores clínicos: sangramento diges- tivo, IMC > 30 kg/m2, Idade > 70 anos, pós- -operatória. Marcadores bioquímicos: - Sangue: Proteína C-reativa, fosfolipase A2, elastase polimorfonuclear, tripsina imunor- reativa, proteína associada à pancreatite, Interleucina 6, metemalbuminemia, alfa2- -macroglobulina, alfa1-antitripsina. - Urina: Peptídeo ativador do tripsinogênio, procarboxipeptidase, profosfolipase. Veja algumas questões... Os critérios de Ranson são os mais badala- dos para a prova! As questões geralmente são diretas e tranquilas, desde que você tenha pelo menos os critérios em mente! RESIDÊNCIA MÉDICA – 2014 HOSPITAL MUNICIPAL DE SÃO JOSÉ DOS CAMPOS – SP Não faz parte dos critérios de Ranson para de- terminação da gravidade da pancreatite aguda: a) Idade acima de 55 anos. b) Leucócitos séricos acima de 16.000. c) Glicose acima de 200. d) Bilirrubina total acima de 2,0. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2014 SANTA CASA DE MISERICÓRDIA DE LIMEIRA – SP Fazem parte dos critérios de Ranson na ad- missão para determinação da gravidade da pancreatite aguda, EXCETO: a) TGO acima de 250. b) Leucócitos séricos acima de 16.000. c) Glicose acima de 200. d) DHL (LDH) acima de 500. Viu! Com os critérios gravados as questões ficam até monótonas... Qual faz e qual não faz parte. Nas duas, gabarito letra D! Mas as questões podem ser mais comple- xas. Veja essa discursiva. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2014 INST. DE ASSISTÊNCIA MÉDICA AO SERVIDOR PÚBLICO ESTADUAL – SP Paciente de 65 anos, feminina, chegou ao pron- to-socorro transferida de outra cidade, após http://#scrolldown Cirurgia - Volume 4 50Medgrupo - CiClo 2: M.E.D atendimento inicial. Relata dor epigástrica inten- sa há 20 horas, acompanhada de náuseas e vômitos. Recebeu analgésicos, hidratação vigo- rosa EV, e antiemético. Realizou exames de sangue e tomografia (em anexo) na cidade de origem e foi transferida imediatamente para o Hospital do Servidor para tratamento. EXAME FÍSICO: Fáscies de dor, REG, pulso 120, FR: 26, desidratada +/4+ anictérica, descorada +/4+. Abdome: doloroso à palpação superficial e pro- funda principalmente em andar superior. Des- compressão Brusca negativa. Sem tumores palpáveis. EXAMES LABORATORIAIS (TRAZI- DOS): Leucograma 13.000 Hb: 13,2; Ht: 44. Ureia: 65; Creatinina: 1,4; Glicemia: 105 Cálcio: 8,2; DHL: 220. TGO: 250; Gama Gt: 280; Ami- lase: 1250. QUAL A GRAVIDADE DA DOENÇA? Veja como uma questão pode ser maldosa. Em primeiro lugar, qual o diagnóstico? Pan- creatite aguda. E isso ficou até fácil, agora, qual a gravidade do quadro? E o gabarito li- berado foi PANCREATITE AGUDA GRAVE. A pancreatite aguda é considerada grave se apresentar algum dos seguintes critérios (Atlanta-1996): - Disfunção orgânica (insuf. Renal, pulmonar, choque); - Complicações locais (necrose ou abscesso); - Complicações sistêmicas (CIVD, Cálcio <7,5 mg/dl); - Algum escore que mostre a gravidade. Sobre esses escores, temos como o mais difundido, o de Ranson, que avalia o pacien- te no momento da admissão hospitalar (idade > 55 asnos, Leucocitose > 16.000 U/L, Glico- se > 200 mg/dl, LDH > 350 U/L, AST > 250 U/L) e após 48 horas. Temos também os critérios APACHE II, que são avaliados em unidade fechada, que não é o caso da nossa paciente. Então avaliando isso podemos con- cluir que estamos diante de um quadro de pancreatite aguda leve. Correto? Cuidado, pois estes são os principais escores de ava- liação, mas não são os únicos. Temos tam- bém os Critérios de GLASGOW modificados e o BISAP. Os critérios de Glasgow modifica- dos, também podem ser avaliados durante as primeiras 48 horas, sendo eles: Idade > 55 anos, Leucocitose > 15.000 u/L, LDH > 600 U/L, Glicose > 180 mg/dl, Albumina < 3,2 g/dl, Ca < 8 mg/dl, PaO2 < 60 mmHg e BUM > 45 (ureia > 96,3). Ora, mas avaliando esses critérios também não temos um quadro grave. Fica faltando o BISAP, que está cada vez mais em voga pelo fato de ser simples, acurado e de fácil realização. BUN > 25 (ureia > 53); Rebaixamento no nível de consciência (Impaired metal status); SIRS; Idade > 60 anos (Age); Derrame pleural na ra- diografia (Pleural effusion). E BISAP maior ou igual a três já indica um quadro grave. Agora sim, nossa paciente tem 65 anos, ureiade 65 e SIRS. Logo, por este critério podemos definir o quadro como sendo uma pancreatite grave, que foi o gabarito oficial liberado pelo IAMSPE. Observem esta questão de enunciado “qui- lométrico”: RESIDÊNCIA MÉDICA – 2006 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO – UERJ Marcelo tem 25 anos, trabalha como vigilante, é solteiro e procurou o Serviço de Emergência de um hospital da Baixada Fluminense, com queixa de dor abdominal, náuseas e vômitos há dois dias. Apresentava-se agitado, com distensão abdominal e massa palpável em an- dar superior do abdome. Negava passado de colelitíase, ingesta alcoólica, libação alimentar ou uso de medicamentos. Sem cirurgias ou internações anteriores. Exames laboratoriais evidenciam amilase três vezes o valor normal: 320 U/l, leucocitose de 18.000 cels/ml com 12 bastões. Cálcio sérico de 7,5 mg%. Ultrasso- nografia abdominal com distensão de alças, impedindo a avaliação do pâncreas. Vias bilia- res sem alterações. Tomografia computadori- zada de abdome mostrando pancreatite aguda edematosa. Ficou internado por quatro sema- nas, com prescrição de Imipenem, dieta zero, nutrição parenteral total e, posteriormente, reintrodução de dieta oral. Após normalização dos exames laboratoriais, do quadro clínico, e tolerância à dieta, recebeu alta. Procurou novamente a unidade de emergência após uma semana, com queixa de náuseas, vômitos biliosos, dor abdominal e intolerância à dieta. Nova ultrassonografia não evidenciava litíase biliar ou outras alterações. Foi reinternado com prescrição de Imipenem e Levofloxacin, sem melhora da febre e piora progressiva do quadro geral. Foi, então, transferido para hos- pital terciário, com os seguintes exames: EAS: raras cels epiteliais; 20 a 30 piócitos/campo; 1 a 3 hemácias/campo; alguns cilindros granulo- sos; flora bacteriana aumentada; numerosos filamentos de muco. Hemograma: Hct: 27.4%, Hgb:9.0g/dl, PLT: 240.000, Leu: 10.900 U/L, 22% bastões. Bioquímica: AST:22U/L, AL- T:21U/L, Glic: 166 mg/dl, Amilase: 200U/L, ALP: 74U/LPTN: 7.62 g/dl, Alb: 3.3 g/dl, Bil Total: 1.1 mg/dl, Bil Direta 0.6 mg/dl. Após realização de tomografia computadorizada de abdome, Marcelo foi levado ao Centro Cirúr- gico para tratamento. Durante longo período de internação em Unidade Intensiva, começou a apresentar crises convulsivas. Pergunta-se: http://#scrolldown Cirurgia - Volume 4 51Medgrupo - CiClo 2: M.E.D Caso, na primeira internação, houvesse confir- mação do diagnóstico de pancreatite, baseado nos critérios de Ranson, o resultado sem valor para o prognóstico seria: a) Leucocitose de 18.000 células/ml. b) Glicemia 220 mg/dl. c) Amilase 320 U/L. d) Cálcio 7,5 mg/dl. Agora perceba: faria alguma diferença se você lesse apenas as duas últimas linhas da questão? Como já discutimos, os níveis de amilase não possuem correlação com a gra- vidade de um episódio de pancreatite aguda. Resposta: C. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2005 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO – UERJ A substância que parece apresentar maior sensibilidade e especificidade na correlação com a gravidade de um episódio de pancrea- tite aguda é: a) Desidrogenase lática. b) Proteína-C reativa. c) Interleucina-8. d) Ribonuclease. Agora ficou fácil, não é? Resposta B. Per- ceba que o examinador ainda colocou inter- leucina-8 para confundi-lo. Numa próxima questão pode aparecer IL-6 e você pode ter que marcá-la. FIQuE AtEntO! No ano de 2012 houve uma revisão sobre os critérios de Atlanta. Essa revisão publicada em 2013, teve como objetivo reafirmar alguns conceitos dos critérios de 1992 e propor uma nova classificação. Embora ainda não esteja nos livros-textos, achamos interessante esse algo a mais!!! Diagnóstico: Semelhante aos critérios de 1992, os critérios de diagnóstico se mantiveram. São necessários dois dos seguintes critérios: • Dor abdominal típica (início súbito de uma dor severa, em região epigástrica que se ir- radia para o dorso). • Amilase/Lipase > 3x a normalidade. • Imagem compatível: TC com contraste, RNM. Também foi mantida a divisão em pancreatite aguda edematosa intestinal e pancreatite aguda necrotizante. Além disso, foi reafirmado o fato de que a infecção da necrose é a com- plicação mais temida. Além disso, foi enfatizado que não se deve pedir de maneira rotineira exames de ima- gens, notadamente nas primeiras 48 horas: • Neste período não se avalia com precisão a presença e a extensão das complicações como necrose, subestimando a gravidade do quadro. • A extensão da lesão não está relacionada a gravidade do quadro. • Mesmo que se identifique lesões/compli- cações a conduta não se altera nesse mo- mento. A grande novidade desta revisão está em dividir os quadros de pancreatite aguda em três está- gios diferente de gravidade e que o fator pre- ponderante para essa divisão seria a presença ou não e a durabilidade da falência orgânica. Sendo assim a nova classificação seria: Pancreatite aguda leve: Quando não há falência orgânica e também não se observa complica- ções locais ou sistêmicas. Os casos leves ge- ralmente não necessitam de exames de imagem e a resolução é benigna na maioria dos casos. Pancreatite moderadamente grave: É definida pela presença de falência orgânica transitória (< 48 horas) ou complicações locais ou sistê- micas não associadas a falência orgânica. Nesses casos, podemos necessitar ou não de intervenções. A mortalidade aqui é maior do que nos casos leves e geralmente o paciente necessita de terapia com dieta oral zero. Pancreatite aguda grave: É caracterizada pela presença de falência orgânica (respiratória, renal ou cardiocirculatória). Aqui temos a falência orgânica persistente (> 48 horas) de um órgão único ou a falência múltipla dos órgãos. Nesses casos a mortalidade e o risco de desenvolver necrose infectada é bastante elevado. Outra mudança interessante é que de acordo com a revisão, não devemos mais utilizar o termo abscesso pancreático. Os critérios de Atlanta de 1992, utilizavam este termo para definir coleções localizadas de material puru- lento. No entanto, esse achado é bastante raro e por isso não é mais utilizado. As definições de coleção líquida aguda e pseudocisto foram mantidas, no entanto, ou- tras duas complicações foram descritas: • Coleção necrótica aguda: uma coleção con- tendo quantidades variáveis de líquido e necrose, associada a pancreatite necrotizan- te, mas não apresenta uma parede definida encapsulando a lesão. • Necrose encapsulada: coleção de tecido necrótico pancreático ou peripancreático que se desenvolveu em uma parede de tecido inflamatório e bem definida. Ela ocorre ge- ralmente após quatro semanas e também está relacionada a pancreatite necrotizante. Ou seja, é importante reconhecer que a pancre- atite aguda é uma condição dinâmica e que a gravidade do quadro pode se alterar durante a evolução do quadro. Se o paciente apresenta melhora rápida sem apresentar falência de ór- gãos e não evolui com complicações locais ou sistêmicas, ele apresenta doença aguda leve. Se o paciente desenvolver complicações locais e sistêmicas, mas não apresentar falência orgâ- nica persistente, a doença será definida como moderadamente grave. Agora, se houver falên- cia orgânica persistente, o quadro será de pan- creatite grave e está associado à elevada mor- bidade e mortalidade. http://#scrolldown Cirurgia - Volume 4 52Medgrupo - CiClo 2: M.E.D RESIDÊNCIA MÉDICA – 2015 INSTITUTO DE ASSISTÊNCIA MÉDICA AO SERVIDOR PÚBLICO ESTADUAL – SP Segundo a nova classificação de gravida- de da pancreatite aguda, uma paciente de 62 anos com dor há 30h, apresenta-se com dispneia, pulso de 120bpm e pressão arterial de 100 x 60mmHg. Realizou exa- mes que demonstraram amilasemia de 1.200U/I, creatinina de 1,2 mg/dl, pressão oxigênio de 90 em ar ambiente. Iniciado o tratamento imediatamente. Assinale a al- ternativa CORRETA. a) Pancreatite grave e deve realizar tomo- grafia imediata sem contraste. b) Pancreatite leve e dispensaexame de imagem. c) Pancreatite leve ou moderadamente gra- ve e deve fazer somente tratamento clínico. d) Pancreatite moderadamente grave ou grave e deve fazer tomografia com contras- te imediatamente. e) Pancreatite grave ou moderadamente grave e deve ser feito tratamento clínico. A “nova classificação de gravidade da pancreatite aguda” a que o enunciado se refere é a CLASSIFICAÇÃO OU ESCO- RE DE ATLANTA, que foi a última a ser publicada e revisada. Observe a tabela a seguir. (VER IMAGEM) Como você pode perceber, temos aqui um quadro de PA com 30h de evolução, no qual se observa um sinal clínico de “complicação à distân- cia”: a dispneia, que indica uma muito pro- vável lesão pulmonar em curso. Assim, podemos classificar o atual episódio como sendo no mínimo uma “pancreatite aguda moderadamente grave”! Ainda não trans- correram 48h, e por isso não podemos afir- mar com 100% de certeza que se trata de pancreatite aguda definitivamente “gra- ve”, no entanto, também não podemos DESCARTAR COM 100% DE CERTEZA DE QUE A PA DESTE PACIENTE NÃO VENHA A SER CLASSIFICADA COMO “GRAVE” NAS PRÓXIMAS HORAS. Ago- ra veja que interessante: perceba que não há, pelo menos até este momento, com- provação laboratorial de que exista de fato uma lesão pulmonar!!! Podemos afir- mar isso pelo dado adicional que o enun- ciado fornece: pO2 de 90 mmHg com o pa- ciente respirando em ar ambiente (FIO2 = 21%), o que dá uma relação P/F > 400. Todavia, a despeito da ausência de docu- mentação objetiva da lesão pulmonar, di- ríamos que é muito provável que a mesma venha a se manifestar laboratorialmente nas próximas horas, já que a dispneia do paciente certamente é explicada por uma lesão inflamatória do parênquima pulmonar associada à SIRS (síndrome da resposta inflamatória sistêmica) secundá- ria à PA. Logo, de todas as opções de res- posta, a mais sensata é a letra E. Escore de Atlanta Pancreatite Aguda “Leve” Ausência de falência orgâ- nica e ausência de compli- cações locais (ex.: coleções líquidas, necrose peripan- creática) ou à distância Pancreatite Aguda “Moderada” Falência orgânica transitó- ria (<48h de duração) ou presença de complicações locais e/ou à distância Pancreatite Agu- da “Grave” Falência orgânica persis- tente (> 48h de duração) SEGUNDO PASSO: DEFINIR O tRAtAMENtO SITUAÇÃO 1 – Pancreatite leve Se, após a avaliação, o paciente for clas- sificado como portador de pancreatite aguda leve (o que representa 85-90% dos pacientes): - Apenas repouso, analgesia, antieméticos, dieta zero (inicialmente) e infusão de líquidos e eletrólitos para a correção da desidratação, distúrbios eletrolíticos e acidobásicos gerados pelos vômitos. Em casos de vômitos importan- tes e distensão abdominal, recomenda-se a passagem de cateter nasogástrico. A analgesia deve ser feita com opioides. Tradicionalmente, as referências colocam a meperidina (Dolanti- na®) como melhor opção que a morfina, por não elevar a pressão no nível do esfíncter de Oddi. Entretanto, é bom ressaltar que nenhum estudo conseguiu demonstrar que a morfina seria real- mente prejudicial na colecistite ou na pancreatite. Além disso, a meperidina sabidamente tem efei- tos desfavoráveis como a toxicidade neurológica. Assim, muitos preferem atualmente utilizar outro opioide – ofentanil – em virtude de seu melhor perfil de segurança, sobretudo em nefropatas. - A alimentação oral deve ser iniciada com cau- tela, sendo recomendada em pacientes que não mais necessitem de analgesia regular com opioides, apresentem peristalse e manifestem desejo de se alimentar (queda das citocinas) – o que geralmente ocorre por volta do quarto ao sétimo dia do início do quadro. O ideal é que os níveis de amilase e lipase estejam em queda, mas níveis elevados dos mesmos ou imagem de um pâncreas acometido em tomografia não devem impedir progressão da dieta em um paciente que evolui bem clinicamente, já que esses podem permanecer alterados mesmo semanas após a recuperação do paciente. SITUAÇÃO 2 – Pancreatite grave Se o paciente for admitido como portador de pancreatite aguda grave (o que repre- senta 10-15% dos pacientes), além das medidas anteriores, você deve: http://#scrolldown Cirurgia - Volume 4 53Medgrupo - CiClo 2: M.E.D - Reposição volêmica: Tratamento imediato da hipovolemia e do choque ainda na Emer- gência, com a infusão de GRANDES volumes de soluções cristaloides (Ringer lactato). A per- da volêmica às vezes equivale à de um grande queimado!!! A reanimação volêmica é uma das medidas que realmente afetam a morbimortali- dade dos pacientes com pancreatite. Ela deve ser realizada nas primeiras 24h de forma que a pressão arterial seja estabilizada, os valores de hematócrito voltem ao normal, os níveis de ureia caiam e o débito urinário seja maior que 0,5 ml/kg/hora. - Providenciar vaga na UtI: Monitorização hemodinâmica invasiva, avaliação da diure- se horária e monitoração da função renal e respiratória são medidas essenciais a serem tomadas. O que esperar da monitorização invasiva? Naqueles que já foram ressuscita- dos volemicamente, esperamos os achados típicos da Síndrome de Resposta Sistêmica Inflamatória (SIRS) = ⇑ índice cardíaco + ⇓ resistência vascular sistêmica. - Antibioticoprofilaxia: Um tema muiiiito con- troverso! Vamos entender o “fio da meada”... A necrose infectada é a complicação mais temida da pancreatite aguda, daí a preocupação em prevenir a infecção do tecido necrosado. O pro- blema é quando e como fazer essa prevenção. A princípio a ideia era fazer a profilaxia com antibióticos quando o paciente tivesse pan- creatite necrosante com envolvimento > 30% do parênquima. Dentre os antibióticos com boa penetração no tecido pancreático (cefalospo- rinas de 3ª geração, piperacilina, quinolonas, metronidazol) o Imipenem passou a ser o mais utilizado. Tudo vinha muito bem até que um estudo duplo-cego não confirmou o benefício dessa prevenção... Para piorar, outros trabalhos mos- traram que o uso rotineiro do imipenem como antibiótico profilático aumentou o número de casos de infecção fúngica (Candida albicans) na área de necrose. A partir de então, alguns grupos passaram a não mais defender a an- tibioticoterapia profilática! Essa é a posição mais aceita atualmente, sendo defendida pela maioria das referências como o Sabiston, o ACG (Colégio Americano de Gastroenterolo- gia) e até mesmo a revisão dos critérios de Atlanta, que só preconizam o uso de antibiótico quando diagnosticada a infecção da necrose. Agora, o que ninguém discute é qual antibió- tico usar: devido à sua penetração no parên- quima pancreático e ao espectro de cobertura, a classe de escolha são os carbapenêmicos, sendo o imipenem o mais utilizado. - Suporte nutricional: a nutrição enteral deve ser iniciada sempre que possível, mesmo para pacientes com pancreatite aguda grave, através de cateter nasogástrico ou nasojeju- nal após 72 horas de internação. O suporte enteral está associado a uma menor incidên- cia de sepse quando comparado à Nutrição Parenteral total (NPT); a prevenção da translocação bacteriana pela manutenção da barreira mucosa intestinal parece ser o prin- cipal mecanismo envolvido. A NPT deve ser prescrita para os pacientes que não tolerarem a dieta enteral ou em situações em que o valor calórico total da dieta enteral estiver abaixo das necessidades metabólicas previstas. E quando começar NPT??? Idealmente, após a passa- gem da fase mais aguda da doença, em que são necessários grandes aportes de volume. - Considerar a abordagem das vias bilia- res: A abordagem está indicada nos casos de pancreatite biliar. Contudo, a forma e o tempo em que o procedimento deve ser realizado permanecem controversos na literatura. De forma geral, as pancreatites graves são abordadas por CPRE e papi- lotomia nas primeiras 48 a 72 horas de internação, nos pacientes que apresentem clínica sugestiva de colangite ou com obs- trução mantida da via biliar demonstradapor exame de imagem. A colecistectomia seria realizada posteriormente. Nas pancreatites leves a colecistectomia está indicada, podendo ser realizada precocemente ou tardiamente na mesma internação após a resolução dos sintomas (mais comum). Naqueles com pancreatite grave a cirurgia precoce pode aumentar a morbidade e a duração da internação. Sendo assim, o tratamento conservador é mantido por pelo menos seis semanas até a colecistectomia. Para pacientes em que o risco cirúrgico para colecistectomia é proibitivo, a abordagem de escolha consiste apenas na papilotomia ampla por via endoscópica somente. - Outras medidas: Antagonistas dos recep- tores H2, inibidores da bomba de prótons, descompressão nasogástrica, diálise perito- neal, somatostatina, glucagon, calcitonina, anti-PAF (fator ativador de plaquetas, lexi- pafant)... UFA!!! Nenhuma mostrou altera- ção no curso da pancreatite aguda. Estudos experimentais que aguardam comprovação incluem: aprotinina e gabexate (inibidores da protease), anti-inflamatórios inibidores seleti- vos da COX-2, drenagem do ducto torácico, hipotermia e plasmaférese. Pancreatite Leve Pancreatite Grave Repouso Pancreatite leve + ... Analgesia Reposição volêmica vigorosa Dieta zero (inicial- mente) UTI Infusão de líquidos e eletrólitos ATB profilático??? Cateter nasogástrico (se vômito) Suporte nutricional Abordagem de vias biliares??? http://#scrolldown Cirurgia - Volume 4 54Medgrupo - CiClo 2: M.E.D RESIDÊNCIA MÉDICA – 2016 INSTITUTO DE ASSISTÊNCIA MÉDICA AO SERVIDOR PÚBLICO ESTADUAL – SP Sobre a nutrição na pancreatite aguda, assi- nale a alternativa CORRETA. a) A melhor opção é pela via parenteral exclu- siva, já que o repouso glandular faz parte da terapêutica, independentemente da viabilida- de do trato gastrointestinal. b) Na forma grave: nutrir precocemente impli- ca em impacto na redução da mortalidade. Se o trato gastrointestinal for viável, esta será a via de escolha. c) Na forma leve: quanto mais precocemente for o início da dieta, mais rápida será a recuperação. d) O jejum deverá ser mantido por 5 a 7 dias, independentemente da gravidade da pan- creatite. e) Utilizar uma dieta específica para pacientes com pancreatite aguda modifica a mortalidade e os dias livres de ventilação mecânica. Vamos aproveitar esta ótima questão e trei- nar este tema que vem caindo cada vez mais! A nutrição do paciente é um dos fatores prin- cipais para o tratamento! No entanto, para todos os casos de pancreatite aguda a dieta deve ser zerada por pelo menos 48-72 horas. Então como proceder? Conceito 1: a via de preferência é a oral, então sempre que possível use-a. Nos quadros leves, o paciente apresenta me- lhora do quadro, controle da dor, retorno ao apetite, melhora de náuseas e vômitos com cerca de 48-72 horas até o 5º-7º dia. Como nesses casos o jejum não será prolongado, o paciente deve ser mantido em dieta zero, so- mente com reposição volêmica, e assim que possível a dieta oral é iniciada. Agora, nos quadros mais graves, em que a recuperação será mais demorada, devemos pensar em alguma terapia nutricional! Após estabilização clínica, controle de dor, correção de distúrbios, a nutrição deve ser iniciada seja por via enteral ou NPT, sendo a primeira pre- ferida. Com a melhora clínica, essa nutrição deve ser substituída pela oral. Gabarito B. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2014 HOSPITAL DAS CLÍNICAS DA UFU – MG Roberto, 35 anos, foi internado na unidade de terapia intensiva com diagnóstico de pan- creatite aguda grave. Apresentou piora gra- dativa e no 7° dia de tratamento está ictérico, febril e com leucocitose. A tomografia de abdome evidencia colelitíase e extensa ne- crose pancreática com classificação tomo- gráfica Balthazar D. Qual dos dados abaixo relacionados é indicativo de cirurgia de ur- gência na pancreatite aguda: a) Presença de icterícia. b) Classificação tomográfica de Balthazar D. c) Presença de necrose glandular maior que 30%. d) Presença de infecção da necrose detectada por punção. e) Presença de febre com leucocitose. A pancreatite aguda se apresenta na sua forma grave em 10% a 15% dos casos e está associada com altas taxas de mortalidade. Na fase inicial da evolução se caracteriza pelo aparecimento de disfunções orgânicas e pos- teriormente pela presença de necrose pancreá- tica e suas complicações. O diagnóstico dife- rencial entre a necrose pancreática asséptica e infectada nem sempre é fácil. Se a TC mostrar gás no pâncreas ou tecido peripancreático, isso é indicativo de infecção. Caso o contrário, o diagnóstico é feito pela punção do tecido ne- crótico guiada por TC. O exame bacteriológico possui boa acurácia diagnóstica, com a punção por agulha fina (cerca de 90%). O tratamento da necrose infectada sofreu uma profunda mu- dança no decorrer dos últimos anos. Esta mu- dança foi conduzida, em parte, pelos relatos de casos de tratamento bem-sucedido de necrose infectada utilizando apenas antibióticos. As abordagens atualmente utilizadas começam pela terapia antibiótica e observação contínua. Em casos de pacientes que apresentam evi- dências de síndrome séptica ou cujo estado esteja se deteriorando, pode ser necessário realizar o desbridamento cirúrgico com maior urgência. Para aqueles cujo estado permanece estável com o curso de antibióticos, o tratamen- to definitivo pode ser retardado em algumas semanas para permitir que o material necrótico seja delimitado e sofra amolecimento ou lique- fação, facilitando um pouco o procedimento, beneficiando o paciente. Mas no nosso caso, o paciente apresenta piora clínica! E piora associada a necrose infectada é igual a necrosectomia. E a infec- ção da necrose é melhor definida através da análise do material adquirida com biópsia. Gabarito letra D. tERCEIRO PASSO: ACOMPANHAR O DESENVOLVIMENtO DE COMPLICAÇÕES As principais complicações da pancreatite agu- da podem ser divididas em locais e sistêmicas. As complicações sistêmicas (pulmonar, cardio- vascular, renal, CIVD, etc.) costumam ocorrer num primeiro momento e devem ser imediata- mente tratadas (equivalem ao segundo passo). As complicações locais podem se desenvolver dentro de semanas a meses e devem ser acom- panhadas ao longo da internação. O diagnósti- co destas complicações costuma ser feito pela TC e a abordagem depende basicamente em saber se a lesão é estéril ou está infectada. As principais complicações seguem abaixo: 1) Coleção fluida aguda (30 a 50% dos pa- cientes) O pâncreas inflamado fica “babando” secre- ção para as suas imediações, ou mesmo para http://#scrolldown Cirurgia - Volume 4 55Medgrupo - CiClo 2: M.E.D espaços mais distantes (ex.: pararrenal)! Isso ocorre principalmente na fase inicial das pan- creatites graves. A maior parte é reabsorvida durante a evolução do quadro e, quando não regridem, levam à formação dos pseudocistos ou permeiam áreas de necrose. Embora não seja comum, a coleção fluida aguda também pode ser alvo de infecção, que deve ser sus- peitada na presença de febre, leucocitose e dor abdominal. CONDUTA: Como a maior parte resolve es- pontaneamente, geralmente nenhum trata- mento específico é recomendado. Na suspeita de infecção, a punção percutânea guiada por método de imagem é diagnóstica e terapêuti- ca. Se confirmada, antibioticoterapia venosa deverá ser associada. 2) Necrose pancreática e peripancreática Áreas “mortas” no interior do órgão ou em torno dele (tecidos peripancreáticos) que não captam contraste venoso durante a realização de uma tomografia computadorizada (TC) helicoidal de abdome. O tecido necrótico é considerado hipodenso quando comparado ao tecido pancreático viável, o qual capta contraste (tecido hiperdenso). Existe caracte- risticamente necrose gordurosa e o material assume uma consistência pastosa. A necrose pode ser estéril ou infectada. A in- fecção de tecido necrótico é a complicação mais temida da pancreatite aguda e ocor- re em 20-35% dos pacientes!!! Enquantoa necrose é estéril, tudo bem. Teremos uma evolução complicada, mas nem tanto assim... Com a presença de infecção da área necróti- ca teremos que ficar em alerta, pois o nosso paciente pode piorar seu estado clínico muito rapidamente e evoluir com disfunção orgânica devido à sepse grave. Os principais fatores associados são: extensão da necrose, grau de isquemia e hipoperfusão pancreática e pre- sença de disfunção de múltiplos órgãos. A NE- CROSE INFECTADA pode ocorrer a qualquer momento, mas geralmente é uma complicação das primeiras 3-4 semanas. Ela tem origem na translocação bacteriana do trato alimen- tar. Febre e leucocitose persistentes sugerem esta complicação. O método diagnóstico mais fidedigno é a punção guiada por TC da área necrótica. Esta deve ser realizada ao final da primeira semana de doença em pacientes que não apresentam melhora. CONDUTA: Para a necrose estéril, o tratamen- to tende a ser conservador. Para a necrose infectada, no entanto, o tratamento é a laparo- tomia com realização de necrosectomia asso- ciada à antibioticoterapia sistêmica. Desbrida- mentos de repetição podem ser necessários, sendo que, aqueles submetidos mais tardia- mente à cirurgia requerem menos interven- ções. A mensagem é: nos pacientes estáveis, a intervenção cirúrgica deve ser postergada! Durante a cirurgia, deve ser retirada a maior quantidade possível de material necrótico e o procedimento repetido a cada 2-3 dias até que não mais seja necessário nenhum desbri- damento. Em relação à antibioticoterapia, os carbapenêmicos (classicamente o Imipenem) são os antibióticos de escolha pela sua pene- tração no parênquima pancreático. Terapias alternativas com quinolonas, metronidazol, cefalosporinas de 3a geração e piperacilina também são efetivas. 3) Pseudocisto pancreático (15%) É a coleção fluida aguda, rica em suco pan- creático, que persiste após a 4ª-6ª semana do início da pancreatite aguda. Nesse intervalo, forma-se em volta do líquido uma “parede” não epitelizada com exuberante tecido de gra- nulação e fibrose. O termo “pseudo” se deve ao fato de que o pseudocisto não apresenta revestimento epitelial. Os cistos verdadeiros necessariamente apresentam este revesti- mento epitelial. Ao exame físico, ele pode ser palpado como uma massa no epigastro ou no hipocôndrio esquerdo. Uma dica seria a persistência dos níveis de amilase acima do tempo esperado, sendo a ultrassonografia do abdome superior um bom método para diag- nosticá-lo. O abscesso pancreático (3-4%) nada mais é do que um pseudocisto infectado!!! Assim, ele surge tipicamente cerca de quatro a seis semanas após o início da pancreatite agu- da; configurando uma complicação TARDIA. Febre, leucocitose, íleo adinâmico, massa palpável, níveis flutuantes de amilasemia e rápida deterioração, em um paciente que até então se mostrava em franca recuperação do quadro clínico, são os achados habituais. As principais condições associadas são: pan- creatite grave, pós-operatória, alimentação e laparatomia precoces, uso indiscriminado de antibióticos, punção ou drenagem inadequada de pseudocisto, fístula para cólon. Alguns focos de necrose do pâncreas po- dem se liquefazer ao logo de seis semanas, gerando pseudocistos no interior do parên- quima do órgão. Estes pseudocistos são frequentemente referidos como focos de ne- crose despreendida ou “walled-off pancrea- tic necrosis”(WOPN). Diferente dos pseudo- cistos convencionais, eles possuem grande quantidade de conteúdo heterogêneo (debris necróticos) até seis semanas. CONDUTA: Os pseudocistos são, em sua maioria, extrapancreáticos e localizados na bur- sa omental. Quando intrapancreáticos, a maior parte se encontra no corpo e na cauda (85%). Aqueles com mínimos sintomas e sem evidên- cia de uso ativo de álcool podem ser acompa- nhados clinicamente com USG seriada. Os que mostram aumento progressivo do diâmetro na USG, sintomáticos (geralmente maiores que 6 cm) ou associados a complicações (hemorra- gia, ruptura e abscesso) devem ser abordados, http://#scrolldown Cirurgia - Volume 4 56Medgrupo - CiClo 2: M.E.D bem como aqueles em o diagnóstico diferencial com uma neoplasia cística do pâncreas seja impossível, devem ser abordados. A primeira escolha para abordagem dos mes- mos recai sobre os métodos endoscópicos. Dois métodos principais são empregados: I) Colocação de stents no ducto de Wirsung durante uma CPRE. Como os pseudocis- tos geralmente se comunicam diretamente com o ducto pancreático principal, as téc- nicas buscam obter a sua drenagem, seja por uma via direta (colocação de stent en- tre o pseudocisto e o ducto pancreático) ou por via indireta (coloca-se o stent próximo à origem de fístula, facilitando a drenagem pelo Wirsung). II) Drenagem direta por cistogastrostomia ou cistoduodenostomia através da passagem de stents plásticos pela parede do cisto. Ambas as abordagens estão sendo realiza- das com sucesso e permitem um menor de tempo de hospitalização, bem como uma di- minuição sensível no número de complica- ções intra e pós-operatórias A drenagem cirúrgica é realizada em caso de falha ou indisponibilidade da terapia endoscó- pica e consiste na anastomose entre o cisto e a parede de víscera adjacente (drenagem interna), normalmente o duodeno ou estôma- go, com cistoduodenostomia e cistogastros- tomia, respectivamente. Para os pseudocis- tos sem contato íntimo com uma víscera oca, a anatomose é feita com uma alça exclusa de jejuno (cistojejunostomia em Y de Roux). Os métodos de drenagem interna evitam o risco de formação de fístula pancreático-cutâ- nea. A drenagem externa percutânea também é uma alternativa nos casos de difícil aces- so cirúrgico. Para os casos de pseudocisto formado por necrose desprendida (WOPN) o tratamento é o mesmo, entretanto 6 semanas devem ser aguardadas para evitar o encon- tro de debris necróticos no interior do cisto, uma vez que poderiam ocluir a drenagem. Nos pseudocistos infectados a abordagem de escolha é a punção guiada por método de imagem ou drenagem externa cirúrgica. O pseudocisto, quando se rompe, pode ainda levar a outras complicações (mais comuns na pancreatite crônica): - Para a cavidade peritoneal ascite pan- creática. Provoca o aparecimento clí nico de ascite, sem evidências de síndrome de hipertensão porta ou cirrose. O diagnóstico é feito através da dosagem de amilase e lipa- se do líquido coletado pela paracentese. Os pacientes portadores de ascite pancreática devem ter o ducto de Wirsung estudado por CPRE para demonstrar o grau de lesão e comunicação do ducto pancreático principal coma cavidade. O entendimento da anato- mia ajudará a propor o tratamento definitivo. • Comunicação com ducto pancreático secundário: Trata-se da maioria das fístu- las. O tratamento conservador é geralmente resolutivo e consiste em dieta zero, nutrição parenteral total e administração de somatos- tatina ou octreotide (sendo a administração destes um tema controverso na literatura). A paracentese completa é parte da terapêutica inicial já que ajuda a opor as serosas entre os órgãos e fechar a fístula. • Comunicação com ducto pancreático principal: O fechamento através de medi- das conservadoras apenas é improvável. Associam-se medidas endoscópicas como a colocação de stents por sobre a lesão ductal (“bridging”) e dilatação das esteno- ses proximais para facilitar a drenagem pancreática. • Comunicação com ducto distal desco- nectado do ducto principal: Nessa si- tuação houve completa perda da anatomia ductal pancreática. O pâncreas distal pas- sa a drenar diretamente para a cavidade. Qualquer intervenção que não a cirúrgica estará fadada ao fracasso. Nas fístulas mais distais o tratamento é realizado com pancreatectomia distal e fechamento do ducto pancreático. Nas centrais, uma pan- creatojejunostomia em Y de Roux pode ser tentada no sítio da fístula. - Para a cavidade pleural fístula pancrea- ticopleural. A abordagem é a mesmada ascite pancreática. Em vez de realizar a paracentese completa a drenagem torácica é implementada. - Para o estômago, delgado, via biliar, cólon fístula pancreaticoentérica. Muitas vezes a drenagem para estas vísceras é o próprio tratamento “natural” do pseudocisto! Em alguns casos de sangramento ou sepse, o tratamento cirúrgico pode ser necessário. De forma geral, as fístulas colônica possuem abordagem cirúrgica enquanto as demais são abordadas conservadoramente. - Para um vaso adjacente pseudoaneuris- ma e hemorragia digestiva (sangramento transpapilar). Pode ser tratada cirurgica- mente (ex.: pancreatectomia distal) ou por embolização angiográfica (principalmente nos pacientes instáveis). Para concluir, os pseudocistos ainda podem levar à obstrução gástrica e duodenal, le- vando a vômitos recorrentes. Um caso mais peculiar seria a icterícia por obstrução do colédoco. Lembre-se também da apostila de Hipertensão Porta, e não se esqueça que a trombose de veia esplênica com presença de varizes isoladas de fundo gástrico também pode ser observada. http://#scrolldown Cirurgia - Volume 4 57Medgrupo - CiClo 2: M.E.D O ALUNO PERGUNtA...o Ascite pancreática Recebemos um e-mail com a seguinte dúvida: Gostaria de saber por que a somatos- tatina ou o octreotide são administra- dos na ascite pancreática? Conforme acabamos de ver, a ascite pancreá- tica, nada mais é do que uma fístula do ducto pancreático para a cavidade peritoneal, decor- rente de uma comunicação direta ou indireta, através de um pseudocisto. A somatostatina é um hormônio produzido tanto pelo pâncre- as (células delta) como o hipotálamo e que é capaz de inibir a secreção pancreática rica em enzimas. O octreotide é um análogo sin- tético da somatostatina com a mesma função. Assim, ao reduzir a secreção pancreática, há tempo para o reparo e cicatrização do ducto Observação... Você já deve ter percebido que tanto o abs- cesso pancreático quanto a necrose infectada representam as complicações infecciosas da pancreatite. Mas qual a principal diferença? A diferença é que no primeiro predomina um material de consistência líquida com pouca necrose. No segundo, é justamente o inverso: muita necrose com um material de consistên- cia mais pastosa. Além disso, o abscesso é uma complicação TARDIA (4-6 semanas) e a necrose infectada PRECOCE (2-4 semanas). de Wirsung e, consequentemente, resolução da ascite. Cabe ressaltar ainda que o uso da somatostatina e seus análogos na abordagem a fístula pancreática continua sendo um tema controverso na literatura! CIRURGIA NO tRAtAMENtO DA PANCREAtItE Muito se ouve falar de que a pancreatite seria uma doença do cirurgião. Será??? Não ne- cessariamente! A cirurgia, na verdade, está indicada basicamente para os casos de necro- se infectada. Outra indicação possível seria o abscesso pancreático. Ela é fundamental por- que a consistência da necrose pancreática é pastosa e o material necrosado não consegue ser eliminado adequadamente pelos drenos. Como é realizada uma necrosectomia? A cirurgia é iniciada com uma lapatoromia xifopubiana ou uma incisão bissubcostal. O cirurgião precisará de bastante espaço para a manipulação de todo corpo pancreático. Aliás, o pâncreas não é um órgão retroperitonial? Como acessá-lo em toda sua extensão? Existem duas técnicas principais. Primeiro podemos incisar todo mesocólon, de forma a visualizar o pâncreas de sua cabeça até a cauda. O cuidado aqui deve ser voltado para não seccionar a artéria cólica média durante a dissecção. Outra maneira, mais anatô- mica, seria separar o estômago do cólon transverso, através da secção do ligamento gastrocólico. Essa manobra permite a visu- alização da base da bursa omental. Como você deve se lembrar dos primeiros períodos da faculdade, o pâncreas é o principal órgão componente da parede posterior da bursa, sendo visualizado em sua totalidade quando a mesma é acessada. O grande problema desse tipo de acesso é o seguinte: durante um episódio de pancreatite, a intensa infla- mação local pode “colar” o estômago no có- lon transverso, impedindo seu afastamento sem que algum dos mesmos seja lesado. por Dentro da Cirurgia... nECrOSECtOmIA Com o pâncreas exposto, a necrosectomia é iniciada com uma dissecção romba dos tecidos. Aqui o instrumento de escolha são as próprias mãos do cirurgião, capazes de separar tecido necrótico (amolecido, friá- vel) do tecido viável (consistência firme). O material retirado deve ser mandado para avaliação laboratorial e cultura de germes aeróbios e anaeróbios. Após desbridar completamente o tecido pancreático, a cavidade é lavada extensamente e o pro- cedimento estará terminado. Acesso transmesocólico Acesso pela bursa omental http://#scrolldown Cirurgia - Volume 4 58Medgrupo - CiClo 2: M.E.D Devemos fechar a cavidade? Que drenagem fazer? Essas são perguntas que ainda não possuem uma resposta “certa”. Classicamente, exis- tem três maneiras de encerrar uma necro- sectomia, sendo que nenhuma se mostrou superior às outras. 1) Fechamento da parede com drenagem simples. Aqui o cirurgião é mais atencio- so durante a necrosectomia já que novos sinais de inflamação ou sepse indicariam um novo procedimento. por Dentro da Cirurgia... nECrOSECtOmIA Continação... 2) Fechamento da parede com irrigação contínua da bursa omental. São deixados pelo menos dois drenos na cavidade para que seja constante o fluxo de solução salina. 3) Necrosectomia seguida de manuten- ção da cavidade em peritoneostomia ou confecção de uma bolsa de Bogotá. Nessa situação a cavidade abdominal é deixada em peritoneostomia, de forma que uma nova re-exploração seja feita a cada dois a três dias até a granulação e cicatri- zação adequadas dos tecidos pancreáti- cos. Ao fim, podemos deixar que a ferida cicatrize por segunda intenção ou realizar um reparo por terceira intenção (maiores detalhes na apostila de perioperatório). Qual seria o melhor momento para realizar uma necrosectomia? A taxa de mortalidade cirúrgica de uma necro- sectomia pode chegar a absurdos 75%! Es- tudos recentes demonstram que a realização de uma necrosectomia tardia (evolução > 4 semanas) está relacionada a taxas de morta- lidade significativamente menores. Isso pode ser explicado pelo fato de o tecido necrótico pancreático encontrar-se melhor definido tardiamente, permitindo uma necrosectomia mais eficiente e menos invasiva. A prática da necrosectomia tardia, entretanto, ainda não é consenso na literatura e nos serviços de cirurgia. SAIBA MAIS Abordagem da necrose pancreática infectada pelo método “StEP-UP” Na última década foram descritos diversos procedimentos minimamente invasivos para abordagem da necrose pancreática infectada, sem que, no entanto, nenhum conseguisse atingir os mesmos resultados que a necrosec- tomia pancreática aberta... Em 2010 foi publicado um estudo holandês no New England Journal of Medicine, co- nhecido como PANTER, o qual mostrava que havia benefício quando a abordagem inicial à necrose pancreática infectada era realizada pela aplicação de uma sequência de métodos não invasivos. Esse tipo de método, denominado de STEP-UP, consis- te na aplicação combinada de drenagens endoscópicas e necrosectomias retrope- ritoniais. A necrosectomia aberta poderia ainda ser empregada para os pacientes que persistissem com piora clínica a despeito dos procedimentos. Esse estudo mostrou que a abordagem STEP-UP reduziu o risco de falência orgânica múltipla em quase dois terços e mais de 50% no tocante à instalação de diabetes após a abordagem pancreática, sem que a mortalidade fosse alterada em relação à abordagem aberta. Esse estudo causou tamanho impacto que o mesmo já foi incorporado pelo Cecil em sua nova edi- ção como parte da abordagem de escolha na presença de necrose infectada. A última edição do Sabiston também cita este estudo, mas afirma que ainda faltam estudos para definir qual a melhorabordagem. http://#scrolldown Cirurgia - Volume 4 59Medgrupo - CiClo 2: M.E.D RESIDÊNCIA MÉDICA – 2015 INSTITUTO DE ASSISTÊNCIA MÉDICA AO SERVIDOR PÚBLICO ESTADUAL – SP Sobre a pancreatite aguda, assinale a alternativa que apresenta maior relação com a má evolução. a) Extensão da necrose pancreática. b) Nível de amilasemia na admissão. c) Presença de icterícia. d) Tamanho de coleção peripancreática maior que 10 cm. e) Número de coleções extrapancreáticas. Pensando em um quadro de pancreatite agu- da, todas as complicações devem ser avaliadas, agora, das apresentadas, aquela mais relacio- nada com má evolução seria a extensão da necrose pancreática, devido ao risco de infecção desta necrose. A infecção é a complicação mais temida e pode levar a um quadro séptico e a extensão da necrose, junto ao grau de isquemia, hipoperfusão pancreática e disfunção orgânica são os principais fatores associados. Gabarito A. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2015 FACULDADE DE MEDICINA DE PETRÓPOLIS – RJ Após oito semanas de melhora clínica de um quadro de pancreatite aguda, o paciente refe- re náuseas, pirose e plenitude pós-prandial. Na tomografia computadorizada há lesão hi- podensa, sem realce pelo contraste que se estende do espaço pararrenal anterior e com- prime o fundo gástrico. Qual a hipótese diag- nóstica mais provável? a) Adenocarcinoma pancreático como compli- cação de pancreatite. b) Aneurisma de artéria esplênica com efeito compressivo sobre o estômago. c) Pseudocisto pancreático como complicação de pancreatite causando compressão gástrica. d) Cisto renal com compressão gástrica. Questão tranquila, veja que o enunciado fez questão de frisar, após oito semanas de me- lhora clínica de um episódio de pancreatite aguda. Paciente está apresentando uma com- plicação tardia da pancreatite aguda, muito provavelmente um pseudocisto, que nada mais é do que a coleção fluida que persiste após 4-6 semanas, que ganha uma parede não epiteli- zada (por isso pseudo). Na maioria dos casos, eles são assintomáticos, no entanto, nos qua- dros sintomáticos, ou naqueles que apresentam o crescimento progressivo documentado pela USG, a drenagem está indicada. Gabarito C. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2015 FUNDAÇÃO DE BENEFICÊNCIA HOSPITAL DE CIRURGIA – SE Em que momento há indicação para aborda- gem cirúrgica na pancreatite aguda? a) Pancreatite Aguda moderada. b) Pancreatite Aguda com Necrose. c) Pancreatite Aguda com Necrose infectada e precocemente. d) Pancreatite Aguda com Necrose infectada o mais tardio possível. e) Pancreatite Aguda em pacientes diabéticos. Um dos tópicos mais abordados em relação ao manejo de pacientes com diagnóstico de pancreatite aguda é quando indicar algum tipo de intervenção cirúrgica! E atualmente, reser- vamos a cirurgia apenas para pacientes que evoluem com infecção do tecido necrótico e se apresentam clinicamente instáveis ou nos que não cursam com melhora clínica/labora- torial apesar do tratamento conservador em- pregado. Logo, alternativa D correta. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2010 HOSPITAL DO CÂNCER – INSTITUTO DO CÂNCER DO CEARÁ – HC – ICC Paciente de 43 anos chega à emergência com quadro de vômitos e dor em abdome superior há duas horas. A avaliação laboratorial demonstra: amilase 2.000 U/L (limite superior da normali- dade [LSN]: 150 U/L), TGO 48 (LSN: 40 U/L) e TGP 100U/L (LSN: 40 U/L). Negava ingestão alcoólica. Paciente evoluiu com piora do quadro clínico e foi realizada tomografia que evidenciou necrose pancreática extensa. Diante desse caso clínico, assinale a opção CORRETA. a) A tomografia computadorizada é útil no diagnóstico, no entanto não fornece dados prognósticos. b) A grande elevação de amilase correlaciona- se com a gravidade do quadro. c) Apesar da necrose pancreática extensa, a manipulação cirúrgica do pâncreas somente deverá ser considerada em caso de evidência de infecção da lesão. d) Apesar da negativa do etilismo, o padrão de enzimas hepáticas sugere ingestão alcoólica. e) A tomografia computadorizada deveria ter sido realizada no início do quadro para ava- liação de necrose. A paciente em questão apresenta uma pan- creatite grave. A tomografia é o exame padrão- -ouro para avaliar gravidade nesses pacientes, mas sua realização precoce não teria alterado o curso da doença. A amplitude de elevação da amilase NÃO está relacionada com a gravidade do caso. Você se lembra da apostila de síndrome ictérica que o padrão de enzimas hepáticas pelo acometimento alcoólico possui o predomínio de TGO. Finalmente, o conceito mais importante da questão: a necrosectomia será indicada somen- te nos casos de infecção confirmada ou com alto grau de suspeição! Opção “C” correta. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2010 UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESPÍRITO SANTO – UFES A pancreatite aguda biliar grave, com forma- ção de coleção em corpo e cauda deve ser ex- plorada cirurgicamente na seguinte situação: a) Coleções maiores que 6 cm de diâmetro. b) Infecção comprovada ou suspeita. c) Icterícia persistente. d) Amilasemia superior a 500 após 14 dias de tratamento clínico. e) Sempre, desde que realizada por video- cirurgia. Reforçando o conceito: Infecção pancreática = Necrosectomia. Resposta B. http://#scrolldown Cirurgia - Volume 4 60Medgrupo - CiClo 2: M.E.D QUARtO PASSO: ANtES DA ALtA HOSPItALAR A colecistectomia videolaparoscópica é recomendada antes da alta em pacientes com pancreatite leve, de origem biliar, de- vido à recorrência da pancreatite (até 30% em seis a oito semanas, após o episódio inicial). Casos mais graves e complicados devem aguardar no mínimo seis semanas para permitir a resolução do processo in- flamatório. Já aqueles com risco cirúrgico elevado devem ser submetidos apenas à papilotomia endoscópica. A alta hospitalar é determinada quando a dor é controlada com analgésicos orais e o pacien- te pode voltar a se alimentar normalmente. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2011 UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO – UFRJ Mulher, 53 anos, com colelitíase é internada com pancreatite aguda. O momento adequa- do para a realização da colecistectomia é logo após a: a) Estabilização hemodinâmica, de emergência. b) Normalização dos níveis séricos de amilase e lipase. c) Resolução do quadro de pancreatite, na mesma internação. d) Realização de CPRE. De forma geral, a colecistectomia é reali- zada na mesma internação, após a resolução dos sintomas. Resposta C. E para finalizarmos este importante tema, responda mais essas duas questões! E se ficar com dúvida, faça uma pausa, depois volte e leia novamente. Pois certamente este tema estará presente na sua prova. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2014 FACULDADE DE CIÊNCIAS MÉDICAS DA UNICAMP – SP Mulher, 58a, queixa-se de dor epigástrica intensa de início súbito há 6 horas, irradia- da para o dorso, acompanhada de vários episódios de vômito. Exame físico: regular estado geral, desidratada +++/4+, descora- da +/4+, ictérica +/4+, T = 37,8°C; FR = 29 irpm; FC = 118 bpm; PA = 86 x 38 mmHg; abdome distendido com dor à palpação epi- gástrica. Radiograma simples de abdome: opacificação do seio costofrênico esquerdo, distensão de alças de delgado, sem níveis líquidos. Exames laboratoriais: Hemograma: Htc = 36%; Leucócitos = 18.600 (com 7% de bastonetes); bilirrubina sérica total = 3,5 mg/ dl (direta= 2,4 mg/dl); amilasemia = 820 UI/L; AST = 198 UI/L; glicemia = 213 mg/dl; LDH = 550 UI/L. CITE O DIAGNÓSTICO E AS 2 PRINCIPAIS ETIOLOGIAS. Veja o quadro apresentado. Dor abdomi- nal de forte intensidade que irradia para o dorso, acompanhada de vômitos... Em um quadro como este devemos sempre pensar em PANCREATITE AGUDA. Além disso, veja a amilase elevada. Então, em relação ao diagnóstico não podemos ter dúvidas. E quais são as duas principais etiologias: Biliar (cálculo) e Alcoólica. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2014 (ACESSO DI- RETO DISCURSIVA) INSTITUTO DE ASSISTÊNCIA MÉDICA AO SERVIDOR PÚBLICO ESTADUAL – SP Paciente de 65 anos, feminina, chegou ao pronto-socorro transferida de outracidade, após atendimento inicial. Relata dor epigástrica intensa há 20 horas, acompanhada de náuseas e vômitos. Recebeu analgésicos, hidratação vigorosa EV, e antiemético. Realizou exames de sangue e tomografia (em anexo) na cidade de origem e foi transferida imediatamente para o Hospital do Servidor para tratamento. EXA- ME FÍSICO: Fáscies de dor, REG, pulso 120, FR: 26, desidratada +/4+ anictérica, descorada +/4+. Abdome: doloroso à palpação superficial e profunda principalmente em andar superior. Descompressão Brusca negativa. Sem tumores palpáveis. EXAMES LABORATORIAIS (TRA- ZIDOS): Leucograma 13.000 Hb: 13,2; Ht: 44. Ureia: 65; Creatinina: 1,4; Glicemia: 105 Cálcio: 8,2; DHL: 220. TGO: 250; Gama Gt: 280; Ami- lase: 1250. QUAL O DIAGNÓSTICO MAIS PROVÁVEL? Essa não tem como errar. O diagnóstico é de pancreatite aguda. Dor abdominal + vômitos + amilase de 1250 e com uma imagem tomográ- fica como essa (veja imagem), que demonstra um pâncreas com alterações no parênquima. GABARITO OFICIAL: Pancreatite Aguda. http://#scrolldown Cirurgia - Volume 4 61Medgrupo - CiClo 2: M.E.D pAnCrEAtItE CrÔnICA DEFINIÇÃO: Lesão irreversível do parênqui- ma pancreático caracterizada por inflamação crônica, fibrose e destruição progressiva dos tecidos exócrino e endócrino. EtIOLOGIA: Álcool (principal em adultos - até 80% dos casos) e Fibrose cística (crianças). Outras: hipercalcemia, hiperlipidemia, doen- ça intestinal inflamatória, organosfosforados, autoimune, obstrutiva (pâncreas divisum, tu- mor, pós-traumática), genética (hereditária), idiopática. QUADRO CLÍNICO: História de etilismo + Epi- sódios prévios de pancreatite aguda (podem estar presentes ou não) + Dor Abdominal + Esteatorreia (Síndrome Disabsortiva) + Dia- betes mellitus. Dor Abdominal: localização variada, ge- ralmente no andar superior do abdome, constante ou intermitente, exacerbada pela alimentação, associada a emagrecimento e indigestão, dependência de narcóticos pela intensidade da dor.* * A pancreatite crônica, apesar de algumas ve- zes se apresentar com ataques de dor súbita e intensa como formas de “agudização da doen- ça”, deve ser colocada principalmente no diag- nóstico diferencial da dor abdominal crônica, por ser a sua apresentação mais característica ao lado da insuficiência exócrina e da esteatorreia. DIAGNÓStICO: Amilase/lipase normais ou pouco elevadas. A esteatorreia só aparece quando há perda de > 90% da função exócrina, daí a necessidade de aplicar testes funcionais. O teste mais sen- sível é o de estimulação da secretina. RX/TC de abdome: calcificações pancreáticas (nem sempre presentes). USG é examinador dependente e menos sensível que TC. RM/CPRE mais sensíveis: irregularidades dos ductos pancreáticos (dilatações, estenoses). Principal diagnóstico diferencial: câncer de pâncreas. CLASSIFICAÇÃO: De acordo com o estado do ducto de Wirsung. Dilatado = Grandes ductos: homens, presença de esteatorreia, calcificações frequentes no RX de abdome, CPRE com alterações signi- ficativas. Não dilatado = Pequenos ductos: mulheres, sem esteatorreia, teste da secretina alterado com tripsinogênio sérico e elastase fecal nor- mais, calcificações raras, CPRE normal ou discretamente alterada. tRAtAMENtO: - Abstinência etílica, correção de dislipidemia. - Esteatorreia = Fracionamento das refeições, baixa ingesta de gordura, inibidor de bomba de prótons (pH baixo reduz atividade das enzimas pancreáticas), reposição enzimática (contendo lipase). Pouca resposta na doença de “Grandes Ductos”. - Diabetes = Insulinoterapia. - Alívio da Dor: ENDOSCOPIA: Esfincterotomia (esfíncter de Oddi), extração do cálculo e colocação de stents nas estenoses ductais. CIRURGIA: • Indicações: Dor persistente e Exclusão de câncer de pâncreas. • Pequenos Ductos (< 4-6 mm) = Maioria tem múltiplas áreas de estenose, sem benefícios de drenagem. Se obstrução próxima à ampo- la de Vater, esfincteroplastia transduodenal com divisão do septo que fica entre colédoco e ducto pancreático. • Grandes Ductos = descompressão do ducto de Wirsung por anastomose do ducto com a luz intestinal –> pancreatojejunostomia la- terolateral (cirurgia de Puestow modificada / procedimento de Partington-Rochelle). • REFRATÁRIOS = ressecção pancreática, bloqueio do plexo celíaco, transplante autó- logo de ilhotas pancreáticas. Definição Diferentemente da pancreatite aguda, que é resultante de um insulto único, a pancreati- te crônica é fruto de uma inflamação contí- nua do órgão, resultando em atrofia e fibrose parenquimatosa. O dano funcional é perma- nente, afetando tanto suas funções exócrinas como as endócrinas. Etiologia O mecanismo pelo qual a pancreatite crônica é gerada permanece pouco conhecido. Ape- sar da perda de células parenquimatosas, fi- brose e inflamação sustentada fazerem parte da fisiopatologia de todas as causas (suge- rindo uma via comum) não sabemos ao certo como o processo é deflagrado. Seja qual for o mecanismo, ele deve ser capaz de: - Induzir continuamente as células pancreáti- cas a necrose ou apoptose. - Iniciar e manter o processo inflamatório local. - Estimular as células estreladas pancreáti- cas a induzir fibrose local. Dentre os diversos fatores capazes de pre- cipitar o processo, a ingestão crônica de álcool é, de longe, a causa mais comum, sendo responsável por 70 a 80% de todos os casos de pancreatite crônica. Conforme vimos no capítulo anterior, o álcool apresen- ta diversas maneiras de lesar o parênquima pancreático, principalmente pela indução de obstrução ductal por “plugs” proteicos, ati- Outras Causas de Dor no Abdome Superior http://#scrolldown Cirurgia - Volume 4 62Medgrupo - CiClo 2: M.E.D vação intracelular de enzimas digestivas e lesão membranosa por radicais livres. Toda- via, é interessante perceber que apenas 3 a 7% dos grandes alcoolistas irão desenvolver pancreatite crônica! Vendo por essa perspec- tiva, percebemos que o álcool provavelmente necessita de associações para induzir o in- sulto crônico. As possíveis associações en- contram-se nos polimorfismos e mutações, na dieta rica em gordura e proteínas, no tipo de álcool ingerido e modo de ingestão, na deficiência de antioxidantes e no tabagismo (este parece ser o mais importante, presente em até 90% dos pacientes com pancreatite crônica alcoólica). Cerca de 20% dos casos de pancreatite crônica não apresentam uma causa clara. Os 10% restantes são divididos entre múlti- plas causas. Vamos conhecer os principais exemplos: Genética: Mutações no gene do tripsinogênio (PRSS1) podem provocar ativação intracelu- lar da enzima e pancreatite. São elas as res- ponsáveis pela pancreatite crônica hereditá- ria. As mutações que afetam a gene respon- sável pela secreção do bicarbonato (CFTR) podem predispor a uma secreção pancreá- tica mais espessa e obstrução ductal. Tanto indivíduos heterozigotos quanto homozigotos para o gene possuem maior predisposição à incidência da doença. Lembramos ainda que os indivíduos homozigotos para o gene são portadores de fibrose cística, principal causa de pancreatite crônica em crianças. Muta- ções em outros genes reguladores das enzi- mas pancreáticas podem não ser suficientes para induzirem a doença por si mesma, mas podem potencializar efeitos danosos ao ór- gão (ex.: mutação do gene SPINK1, regula- dor do tripsinogênio). Autoimune: O funcionamento é bem pare- cido com as demais doenças autoimunes, ou seja, o pâncreas passa a ser reconhe- cido com tecido estranho (“não self”) e é vítima de um infiltrado inflamatório. Curio- samente a doença é mais comum em ho- mens com idade superior a 50 anos. Exis- tem dois tipos principais da doença. No tipo um (mais comum) o infiltrado pancreático é basicamente linfoplasmocitário, com plas- mócitos positivos para imunoglobulina G4 (IgG4). No tipo dois o infiltrado é compos- to por neutrófilos, linfócitos e alguns plas- mócitos. A pancreatite autoimune frequen- temente gera sintomas compressivos(ex.: icterícia) pelo edema inflamatório, sendo en- carada como diagnóstico diferencial às neo- plasias pancreáticas. Pancreatite tropical: Comum em áreas den- tro de 30o de proximidade da linha do Equa- dor, sobretudo o Sudoeste de Índia. Existem casos descritos no Brasil. Embora pouco se conheça sobre a fisiopatologia da doença, sabe-se que ela afeta tipicamente adultos jovens (24 anos na media!) e tende a gerar falência precoce da função endócrina do ór- Quadro Clínico A principal manifestação nos pacientes com pancreatite crônica é a dor, que progride jun- to com a doença em sua frequência e intensi- dade. Algumas teorias tentam explicar a cau- sa da dor nesses pacientes. Dois fatores têm se mostrado como centro das explicações: I) Aumento crônico da pressão intraductal – Provocado pela fibrose e calcificações intrapancreáticas, a obstrução ao fluxo gera isquemia, levando à dor pancreáti- ca crônica. II) Alteração da percepção nervosa dos no- ciceptores periféricos e centrais – Assim como outros mecanismos de dor crôni- ca, a estimulação continua da dos noci- gão, causando invariavelmente diabetes. Cerca de 45 a 50% dos pacientes portadores de pancreatite tropical possuem mutações relacionadas ao gene SPINK1. Existem ainda outras causas descritas de pancreatite crônica, como a obstrução crôni- ca, trauma, pâncreas divisum, displasia cís- tica do duodeno, hiperparatireoidismo, entre outras. Para maiores detalhes, você pode ob- servar a tabela abaixo: Causas de pancreatite crônica Alcoólica tropical - Pancreatite calcificante tropical - Diabetes pancreático fibrocalculoso Genética - Pancreatite hereditária (mutação PRSS1) - Mutações do gene CFTR - Mutações do gene SPINK1 Metabólica - Hipercalcemia - Hiperlipidemia - Hipertrigliceridemia - Deficiência da lipoproteína lipase - Deficiência da Apolipoproteína C-II Obstrutiva - Obstrução benigna do ducto pancreático - Estenose traumática - Estenose após episódio de pancreatite aguda - Estenose de esfíncter de Oddi - Doença cística do duodeno - Pâncreas divisum - Doença celíaca - Estenose pancreática maligna Pancreatite autoimune Pós-necrótica Idiopática Fibrose pancreática assintomática - Alcoolismo crônico - Idade avançada - Doença renal crônica - Diabetes mellitus - Radioterapia http://#scrolldown Cirurgia - Volume 4 63Medgrupo - CiClo 2: M.E.D ceptores pode modificar a maneira com que os mesmos geram e conduzem os estímulos, perpetuando a dor. Dessa forma, depois de algum tempo pode-se até retirar todo o tecido pancreático que a dor poderia continuar independente- mente de estímulo. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2012 IRMANDADE DA SANTA CASA DE MISERI- CÓRDIA DE SANTOS – SP Acredita-se que a dor produzida pela pan- creatite crônica deve-se, fundamentalmente, pelos seguintes mecanismos: a) Compreensão gástrica e do duodeno, difi- cultando a passagem dos alimentos. b) Obstrução canalicular com aumento secun- dário da pressão e/ou efeitos direto nos ner- vos simpáticos aferentes viscerais que levam a sensação de dor do pâncreas para o cérebro. c) Compreensão duodenal dificultando o flu- xo biliar e suco pancreático. d) Obstrução do ducto pancreático e do duode- no levando a uma síndrome de má absorção. Fácil, não? A obstrução ductal e os meca- nismos de perpetuação da dor crônica são os principais responsáveis! Resposta B. Ao contrário da pancreatite aguda, náuseas e vômitos não são comuns, mas podem se manifestar nas fases mais tardias da doença ou nos episódios de agudização. As outras manifestações clássicas da doen- ça são referentes às disfunções exócrina e endócrina do órgão: - A esteatorreia ocorre quando há deficit de secreção das enzimas digestivas pancreá- ticas. Essa é uma manifestação típica da doença avançada, uma vez que 90% dos ácinos pancreáticos devem estar disfuncio- nais para haver disabsorção. Devido à pró- pria síndrome disabsortiva esses pacientes podem apresentar deficiência de vitaminas lipossolúveis (ADEK). - Como as ilhotas pancreáticas são relativa- mente resistentes ao processo inflamatório, o diabetes mellitus também é uma mani- festação tardia da doença. A exceção se faz para os casos de pancreatite tropical, em que ocorre uma rápida insuficiência endócrina. Por fim, a própria fibrose do parênquima pan- creático pode gerar sintomas pela retração tecidual. É o caso da obstrução do colédo- co com trajeto intrapancreático, gerando ic- terícia ou colangite. A compressão duodenal também pode ocorrer, promovendo uma sín- drome de estenose pilórica. Perceba que a pancreatite crônica pode se manifestar de forma muito semelhante a um tumor periam- pular: dor, icterícia e obstrução duodenal. Chamamos essa apresentação de pancrea- tite crônica pseudotumoral. A diferenciação nesses casos pode ser impossível. Lembre- se ainda de que a própria pancreatite crônica é fator de risco para o desenvolvimento dos adenocarcinomas pancreáticos. Diagnóstico O teste “padrão-ouro” para diagnóstico de pancreatite crônica é a análise histopato- lógica. Como as alterações histológicas tí- picas não se refletem necessariamente em sintomas e podem nem mesmo originar a doença, não existe um teste capaz de diag- nosticá-la de forma precoce. Diferente dos quadros agudos, marcadores séricos (ami- lase e lipase) não demonstram o grau de le- são orgânica e comumente não estão ele- vados. Achados radiológicos são tardios e não se relacionam diretamente com os sin- tomas. Testes funcionais podem até revelar mais precocemente deficiências do órgão, mas não costumam ser solicitados quando o paciente não apresenta sintomas... Des- sa maneira, não existem critérios mágicos para realizar o diagnóstico! Nesse ponto, te- mos que nos pautar pelos dados referentes à história clínica e os sintomas do paciente associados aos exames que nos permitam analisar a estrutura e função do órgão. testes estruturais: Estamos falando dos exames de imagem! O exame mais frequentemente solicitado é a tomografia de abdome com estudo dinâmico do pâncreas. Os achados de ducto dilatado, atrofia parenquimatosa e calcificações são sugestivos do diagnóstico. A TC é um méto- do excelente para detecção de complicações locais como pseudocistos e complicações vasculares como trombose portal e aneuris- mas arteriais. A RNM é um exame alternati- vo à TC, sendo mais sensível para detecção de anomalias ductais e parenquimatosas e menos sensível para visualização de calcifi- cações pancreáticas. Essas últimas são um achado bem específico de pancreatite crôni- ca e podem ser eventualmente visualizadas em radiografias simples de abdome. O ultrassom endoscópico é o exame de ima- gem que consegue demonstrar as alterações mais precoces no parênquima do órgão. Em teoria é o único teste capaz de fornecer o “pa- drão-ouro” para o diagnóstico, já que possibi- lita a punção do parênquima pancreático du- rante o exame. Estudos recentes, entretanto, não conseguiram demonstrar a eficácia des- sas amostras para o diagnóstico. A CPRE foi considerada por muito tempo o melhor méto- do diagnóstico estrutural da doença. Todavia, o surgimento de métodos de acurácia seme- lhante e menos invasivos relegou a CPRE para os casos em que a intervenção endoscó- pica seja necessária (ex.: fístula pancreática). http://#scrolldown Cirurgia - Volume 4 64Medgrupo - CiClo 2: M.E.D testes funcionais: São testes que buscam aferir a função pan- creática de forma direta ou indireta. Os tes- tes diretos realizam a estimulação do órgão com secretina (ou colecistoquinina) e aferem a resposta pela análise da secreção pan- creática por endoscopia (ou cateter oroduo- denal) – teste da secretina – ou ainda pela análise de imagem – RNM com estimulação pancreática. Enquanto o teste da secretina é o mais sensível para detecção de disfunção, a RNM com estimulação é quase tão acu- rada quanto a CPRE para o diagnóstico da doença, com a vantagem de se tratar de um método menos invasivo. Os testes de aferição indiretada função pan- creática são a dosagem da elastase, quimo- tripsina e tripsinogênio fecais, além da dosa- gem sérica de tripsinogênio e glicose. Esses métodos são discutidos de forma mais apro- fundada na apostila de síndromes diarreicas. O destaque vai para o teste da elastase fe- cal, que é o mais frequentemente emprega- do para o diagnóstico de esteatorreia na pan- creatite crônica. Classificação Nos anos 80 a pancreatite crônica costumava ser classificada em três tipos (Marseille-Ro- ma) baseada em sua etiologia: 1. Calcificante (PCC) 2. Obstrutiva (PCO) 3. Inflamatória (PCI) Atualmente a classificação é mais voltada para a presença ou não de dilatação ductal, já que o achado pode indicar abordagens te- rapêuticas diferentes: Dilatado = Doenças de grandes ductos: mais comum em homens. Maior presença de es- teatorreia e diabetes, calcificações frequen- tes na radiografia de abdome, CPRE com alterações significativas. Não dilatado = Doença de pequenos ductos: mais comum em mulheres, menor presença de disfunções orgânicas, teste da secretina alterado com tripsinogênio sérico e elasta- se fecal normais, calcificações raras, CPRE normal ou discretamente alterada. Nos pacientes com ducto dilatado o diagnós- tico é mais fácil e o tratamento é voltado para a descompressão do ducto pancreático. Na- queles que não apresentam dilatação o diag- nóstico é mais difícil e o tratamento se limita ao manejo clínico na maior parte das vezes. tratamento O tratamento da pancreatite crônica é palia- tivo, sendo incapaz de reverter as alterações sofridas pelo órgão. Os pacientes sempre de- vem ser informados sobre essa realidade. O mais importante a ser pontuado é que, mes- mo com as alterações já instaladas, o manejo clínico é capaz de reduzir de forma significa- va a progressão da doença. Dessa maneira, todo portador de pancreatite crônica deve ser fortemente encorajado a parar de ingerir be- bidas alcoólicas e de fumar. Procura-se ainda a correção das alterações metabólicas asso- ciadas (ex.: hipercalcemia, dislipidemia, etc.). Focaremos o tratamento baseado nos sinto- mas do paciente: Esteatorreia: A presença de síndrome di- sabsortiva é tratada diretamente com a re- posição oral de enzimas pancreáticas asso- ciada à administração de IBP’s para bloqueio da secreção ácida (potencializa a ação das enzimas). Orientações para fracionamento da dieta e redução da gordura alimentar tam- bém são realizadas. Diabetes: O diabetes é inicialmente mane- jado com hipoglicemiantes orais e posterior- mente com insulinoterapia. Pacientes com pancreatite crônica necessitam de menos in- sulina quando comparados a portadores de diabetes do tipo I. Dor: O manejo da dor consiste na analgesia escalonada. Inicialmente empregamos anal- gésicos menos potentes como dipirona e ace- taminofeno seguidos dos AINE’s comuns. O escalonamento seguinte será feito com opioi- des semissintéticos (ex.: tramadol) e posterior- mente com opioides clássicos. Nesse último caso, o encaminhamento para um especialista em terapia da dor deve ser considerado, bem Figura 9 - Tomografia de abdome demons- trando atrofia parenquimatosa, dilatação ductal e múltiplas calcificações no interior do ducto dilatado. Figura 10 - Calcificações pancreáticas vi- sualizadas em uma radiografia simples de abdome. http://#scrolldown Cirurgia - Volume 4 65Medgrupo - CiClo 2: M.E.D como a associação de fármacos alternativos como antidepressivos tricíclicos, ISRS’s, inibi- dores combinados de recaptação da seroto- nina e norepinefrina e inibidores α2δ. O uso de enzimas pancreáticas para controle da dor permanece controverso. Caso a opção seja tentada, o teste terapêutico deve durar seis semanas sendo acompanhado da adminis- tração de IBP’s. Mantendo-se a dor refratária ao tratamento clínico, algumas opções podem ser tentadas de acordo com a anatomia ductal do paciente: I) Dilatação ductal secundária a cálculos ou estenoses: A abordagem inicial desses pacientes é reali- zada com a tentativa endoscópica (CPRE) de retirada dos cálculos e dilatação das esteno- ses. Múltiplos procedimentos podem ser ne- cessários até a descompressão ideal. Stents ductais podem ser colocados nos sítios de es- tenose. Comumente a papilotomia é associa- da ao procedimento para facilitar a drenagem. Nos casos refratários à terapia endoscópi- ca que possuem dilatação ductal importante (> 7 mm), a descompressão cirúrgica torna-se uma opção. A cirurgia mais empregada é a pancreatojejunostomia em Y de Roux (proce- dimento de Partington-Rochelle), que permi- te a limpeza de todo o ducto pancreático e a drenagem pancreática diretamente para uma alça de jejuno exclusa. Uma das vantagens do método é que o parênquima pancreático em si é preservado, evitando a piora das disfun- ções. A cirurgia também é conhecida como procedimento de Puestow modificado (o pro- cedimento original envolvia a esplenectomia). O sucesso da cirurgia, quando bem indicada, chega a 80% dos casos. Os 20% restantes apresentam recidiva da dor nos primeiros três a cinco anos após a intervenção. Devido ao alto grau de dificuldade da cirurgia de Beger, em grande parte pela necessidade de dissecção dos vasos mesentéricos supe- riores, algumas tentativas de simplificação do procedimento foram aventadas. A mais famo- sa delas é o procedimento de Frey, que ao invés de retirar grande parte da cabeça pan- creática, retira apenas uma “casquinha” de sua parede anterior, também permitindo uma melhor drenagem do local. Uma desvantagem clara desse tipo de procedimento é a perda de parênquima pancreático em sua execução. Figura 11 - Cirurgia de Partington-Rochelle. Em pacientes que possuem maior acometi- mento fibrótico da cabeça pancreática, além da incisão simples no parênquima, parte da cabeça pancreática pode ser retirada, sendo a anastomose confeccionada também nesse sítio. A cirurgia é conhecida como procedi- mento de Beger. Figura 12 - Cirurgia de Beger. Figura 13 - Cirurgia de Frey. II) Dilatação ductal secundária a cálculo ou estenose únicos: Além dos procedimentos já descritos, obstru- ções únicas em cabeça ou cauda podem ser resolvidos com pancreatectomia. O proce- dimento se torna melhor indicado quando existe massa inflamatória local e não se pode excluir neoplasia do diagnóstico di- ferencial (pancreatite crônica pseudotumoral). Para doença localizada na cabeça podemos efetuar a gastroduodenopancreatectomia (cirur- gia de Whipple) ou a duodenopancreatectomia com preservação pilórica (cirurgia de Traverso e Longmire). Se encontrarmos doença pontual no restante do parênquima, uma pancreatecto- mia distal é a cirurgia de escolha. Repare que a desvantagem gritante desses procedimentos é grande perda de parênquima pancreático. Figura 14 - Cirurgia de Whipple. Figura 15 - Cirurgia de Traverso e Longmire. http://#scrolldown Cirurgia - Volume 4 66Medgrupo - CiClo 2: M.E.D III) Doença parenquimatosa sem dilatação ductal Nesse tipo de paciente os procedimentos de drenagem possuem um alto índice de falha terapêutica. Contudo, a refratariedade da dor ao tratamento clínico indicará uma aborda- gem cirúrgica. Nessa situação, a única op- ção de tratamento para eliminação da dor é a pancreatectomia total. Essa cirurgia possui complicações óbvias como a síndrome di- sabsortiva e o diabetes mellitus de difícil con- trole. Alguns centros advogam o transplante autólogo de ilhotas pancreáticas para corri- gir ou amenizar o diabetes nesses pacientes, contudo a sua aplicação generalizada neces- sita ainda de maiores estudos. Obstrução biliar: Devido à cronicidade da doença nas obstruções biliares, a terapia ci- rúrgica com confecção de anastomose biliodi- gestiva é a melhor forma de manejo. Nas obs- truções agudas e complicações infecciosas (ex.: colangite) a descompressão da via biliar pode ser realizada primariamente por CPRE para posterior correção cirúrgica definitiva. Obstrução duodenal: O quadro obstrutivo é abordado inicialmentecom estabilização clí- nica e passagem de um cateter nasogástrico. A terapia definitiva é realizada através da de- rivação gástrica por gastrojejunostomia. Vamos treinar? RESIDÊNCIA MÉDICA – 2012 FUNDAÇÃO JOÃO GOULART – HOSPITAIS MUNICIPAIS – RJ Na pancreatite crônica, são indicações do tratamento cirúrgico: a) Dor persistente e diabetes. b) Dor persistente e suspeita de malignidade. c) Diabetes e esteatorreia. d) Suspeita de malignidade e esteatorreia. A principal indicação de cirurgia na pan- creatite crônica é a dor refratária ao tratamen- to clínico. Para os casos de pancreatite crô- nica pseudotumoral em que a diferenciação com neoplasia não é possível, a ressecção cirúrgica também está indicada. Repare que as disfunções pancreáticas são irreversíveis, não sendo possível a correção cirúrgica para as mesmas. Resposta B. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2012 INSTITUTO FERNANDES FIGUEIRA – RJ Um paciente etilista apresenta quadro clíni- co e tomográfico compatível com pancreati- te. A dosagem de amilase sérica foi normal. Assinale a alternativa que contém a provável causa da não elevação da amilase nesse pa- ciente. a) Presença de fibrose pancreática prévia. b) Inibição da produção de amilase. c) Excesso de sequestro de líquidos conten- do amilase para o retroperitônio. d) Acometimento preferencial do pâncreas endócrino. Já vimos que pacientes com pancreatite crônica podem apresentar níveis normais de amilase e lipase, uma vem vez que a própria destruição do parênquima pancreático re- sulta na ausência de células que poderiam liberar amilase e lipase quando danificadas... Como o processo de pancreatite crônica é mais localizado, esperam-se elevações me- nores dessas enzimas mesmo para os qua- dros mais iniciais. Alternativa “A” correta. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2012 HOSPITAL DAS CLÍNICAS DA FACULDA- DE DE MEDICINA DE RP DA USP – SP Homem, 42 anos de idade, procurou atendi- mento médico em unidade básica de saúde, com história de diarreia há três meses, com fezes pastosas em grande volume, com res- tos alimentares e presença de gordura. Perda ponderal de 10 kg no período. Refere ingestão de meia a uma garrafa de aguardente por dia, desde a adolescência. Ao exame físico: bom estado geral, mau estado nutricional, cons- ciente, orientado, hipocorado +/4+. Pressão arterial: 90/60 mmHg, frequência cardíaca: 102 bpm. Abdome escavado, flácido, discretamen- te doloroso à palpação profunda de epigástrio, sem sinais de defesa, sem visceromegalias ou massas palpáveis, ruídos hidroaéreos nor- moativos. O mecanismo fisiopatológico que mais provavelmente explica a diarreia é: a) Aumento da osmolaridade intestinal por má absorção de nutrientes. b) Exsudação da mucosa intestinal do cólon ascendente por neoplasia. c) Aumento da secreção de água e eletrólitos por ação do álcool. d) Inflamação da mucosa intestinal por infec- ção ou infestação. Estamos diante de um quadro clínico clás- sico: paciente alcoolista crônico apresentando dor em abdome superior, emagrecimento e es- teatorreia. A principal hipótese diagnóstica para o caso é a pancreatite crônica! Basta lembrar o principal mecanismo envolvido na diarreia para esses casos: uma síndrome disabsortiva provocada pela falta de enzimas pancreáticas. Como o alimento não é adequadamente dige- rido, parte do conteúdo alimentar acaba exer- cendo um efeito osmótico no lúmen intestinal, gerando a diarreia. Resposta A. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2010 ASSOCIAÇÃO MÉDICA DO RIO GRANDE DO SUL – AMRIGS A principal indicação para o tratamento cirúr- gico da pancreatite crônica é : a) Cisto pancreático. b) Dor persistente. d) Ascite pancreática. c) Icterícia obstrutiva. e) Abscesso pancreático. As principais indicações de tratamento cirúr- gico na pancreatite crônica são dor intratável, persistente e exclusão de câncer de pâncreas. Resposta B. http://#scrolldown Cirurgia - Volume 4 67Medgrupo - CiClo 2: M.E.D RESIDÊNCIA MÉDICA – 2010 FACULDADE DE MEDICINA DE RIBEIRÃO PRETO DA UNIVERSIDADE DE SP – FMRP – USP Homem, 46 anos de idade, com passado de ingesta de meio litro de aguardente por dia, durante 20 anos, refere dor forte no andar su- perior do abdome, sobretudo após as refeições que não está cedendo com a utilização de anal- gésicos habituais. Nos últimos 2 meses refere dois episódios de icterícia, colúria e acolia fecal, sendo que o primeiro regrediu espontaneamen- te. Refere ainda, diarreia nos últimos 3 meses e perda de cerca 12% da massa corporal. No momento, as bilirrubinas totais estão elevadas em 5 vezes o valor normal, à custa da fração direta; a fosfatase alcalina está elevada em 6 vezes o valor de referência e as aminotransfera- ses estão discretamente aumentadas. O exame de imagem está abaixo. Com base na história clínica e no exame de imagem, o diagnóstico e tratamento imediato mais apropriados são: a) A pancreatite aguda com pseudocisto; dre- nagem do pseudocisto para o jejuno. b) Pancreatite aguda com coleção pan- creát ica; drenagem endoscópica da coleção e inserção de endoprótese. c) Tumor cístico/sólido da cabeça do pân- creas; derivação biliar e gástrica ou duo de- nopancreatectomia. d) Pancreatite crônica com pseudocisto; drena- gem do pseudocisto para o duodeno. História de etilismo importante + Dor abdomi- nal + Emagrecimento + Diarreia = Pancreatite crônica. No entanto, além do quadro de base, ele vem apresentando ictérica de padrão co- lestático (aumento de BD, fosfatase alcalina, colúria e acolia fecal), ou seja, ele tem uma obs- trução biliar. E podemos identificar a obstrução a partir dessa colangiorressonânica magnética, quando observamos imagem compatível com pseudocisto pancreático. Sabemos que mes- mo nos pacientes com pancreatite crônica, podem ocorrer episódios de pancreatite aguda. E o paciente deve ter apresentado, em algum momento, um quadro agudo com formação de pseudocisto, o qual está comprimindo a árvore biliar. A melhor conduta, então, é realizar uma drenagem desse pseudocisto, sendo a drena- gem interna para o duodeno a melhor opção devido a proximidade. Resposta D. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2009 FACULDADE DE MEDICINA DE RIBEIRÃO PRETO DA UNIVERSIDADE DE SP – FMRP – USP Homem, 46 anos de idade, etilista (meio litro de aguardente por dia, durante 20 anos), re- fere dor forte no andar superior do abdome, após as refeições, que não está cedendo com a utilização de analgésicos habituais. Nos úl- timos 7 meses, refere dois episódios de icte- rícia e colúria, sendo que o primeiro regrediu espontaneamente. Apresenta, ainda, diarreia nos últimos 3 meses e perda de 5% da massa corporal. No momento, a bilirrubina total está 5 vezes acima do valor normal, a fosfatase alcalina está 6 vezes o valor normal e a ami- notransferase está discretamente aumentada. Com base na história clínica e no exame de imagem obtido, o diagnóstico e o tratamento apropriado são: a) DIAGNÓSTICO PROVÁVEL: Câncer de colédoco distal. TRATAMENTO: Duodenopancreatectomia cefálica. b) DIAGNÓSTICO PROVÁVEL: Coledocoli- tíase. TRATAMENTO: Colecistectomia e derivação biliodigestiva. c) DIAGNÓSTICO PROVÁVEL: Câncer de pâncreas. TRATAMENTO: Derivação biliar e gástrica. d) DIAGNÓSTICO PROVÁVEL: Pancreatite crônica. TRATAMENTO: Derivação biliar e pancreá- tica para o jejuno. Resposta D. Observem como a USP-RP repetiu o tema nos dois últimos anos. DOEnçA bILIAr (ver ap. de Síndrome Ictérica) Inclui as seguintes condições: cólica biliar, colecistite aguda, colangite infecciosa e discinesia biliar. SínDrOmES DISpéptICAS (ver ap. de Síndrome Dispéptica) Inclui condições diversas, como doença ul- cerosa péptica, síndrome de Zollinger-El- lison, gastrite, neoplasias e dispepsia não ulcerosa. DOEnçAS DO bAçO Dores no quadrante superior esquerdo de- vem sempre lembrar a hipótese de doenças esplênicas. As principais morbidades são o abscesso, o infarto e a ruptura esplênica. O abscesso está associado a trauma, neoplasias e bacteremia (ex.: endocardite infecciosa).Infecções (ex.: mononucleose) e traumatis- mo podem cursar com ruptura, enquanto que o infarto esplênico deve ser considerado em pacientes com fibrilação atrial e outras condi- ções tromboembólicas. DOEnçAS HEpÁtICAS O mesmo raciocínio das doenças esplêni- cas, só que do lado direito. Inclui condições http://#scrolldown http://#videomiolo=RCIR203066 Cirurgia - Volume 4 68Medgrupo - CiClo 2: M.E.D que levam à distensão da cápsula hepática, entre elas a hepatite aguda, abscesso he- pático, síndrome HELLP e hepatomegalia congestiva. DOEnçAS CArDIOpuLmOnArES Dentre as causas cardíacas, a isquemia miocárdica é uma causa que deve sempre ser lembrada naqueles com fatores de risco para doença coronariana e dor no abdome superior. A abordagem desses pacientes envolve pelo menos a realização do ECG. Outras causas descritas incluem miocardite, endocardite e insuficiência cardíaca, e dis- secção de aorta. As causas pleuropulmonares causam dor abdominal por irritação diafragmática e po- dem ser confundidas com quadros de cole- cistite. Graças a essas condições, devemos incluir a radiografia de tórax dentro da “rotina de abdome agudo”. Pneumonia do lobo inferior, pleurodinia epidêmica (doença de Bornholm), pneumotórax, empiema e TEP são causas descritas. http://#scrolldown Cirurgia - Volume 4 69Medgrupo - CiClo 2: M.E.D 69 DOr nO AbDOmE InFErIOr Apendicite Aguda IMPORtÂNCIA: Principal causa de abdome agudo em adultos de ambos os sexos, na gestante e na criança. CAUSAS: Obstrução do apêndice por fecalitos ou apen- dicolitos (mais comum), hiperplasia dos folícu- los linfoides, neoplasias, parasitos ou outros corpos estranhos (ex.: sementes). QUADRO CLÍNICO: Dor periumbilical que migra para fossa ilíaca direita + sinais (Dunphy, Blumberg, Rovsing, Lapinsky, Lenander, Aaron, do psoas e do obturador). DIAGNÓStICO: História clínica. Exames de imagem como USG e TC podem ajudar. ABORDAGEM: Probabilidade alta (apresentação clássica) = Cirurgia. Dúvida (mulher, idoso, criança, atípico) = Imagem, TC ou USG (criança e gestante). Apendicite tardia (> 48 horas): Imagem para avaliar a presença de abscesso. tRAtAMENtO CIRÚRGICO: - Apendicectomia aberta ou laparoscópica. A la- paroscopia é a técnica preferida nos casos duvi- dosos, mulheres, idosos, obesos e perfurações. - Apendicite simples (< 48 horas) = apen- dicectomia. Apendicite tardia = exame de imagem! Sem complicação = apendicectomia. Se complicada (abscesso) = ATB + drenagem + colonoscopia (4-6 semanas) +/- apendicec- tomia de intervalo (6-8 semanas). Figura 16A Figura 16b Anatomia O apêndice vermiforme é uma estrutura tubu- lar e alongada (2-20 cm, média de 9 cm em adultos), fixado ao ceco em sua porção poste- romedial, na confluência das tênias colônicas, sendo este um importante ponto de orientação cirúrgica. Apesar da localização mais comum ser retrocecal, o apêndice pode assumir outras posições como pélvica e retroperitoneal (FIGU- RA 16A e B). Note que devido a essa variação da localização da ponta do apêndice podemos ter diferentes apresentações clínicas quando ele estiver inflamado (apendicite aguda). Fisiopatologia A inflamação do apêndice é a causa mais clássica e também a mais comum de abdome agudo em ambos os sexos, na gestante e na criança! Cerca de 7-8% da população ocidental apre- sentará apendicite em algum dia de suas vidas, com maior incidência entre os 10-30 anos (ou 20-40 segundo alguns autores), sen- do ligeiramente mais prevalente em homens dentro dessa faixa etária (3:2). O evento desencadeante começa com a obs- trução do lúmen apendicular, sendo as princi- pais causas: fezes endurecidas, sejam feca- litos ou apendicolitos (causa mais comum), hiperplasia dos folículos linfoides, neoplasias, contraste baritado indissipado, parasitos ou outros corpos estranhos (ex.: sementes) e até mesmo por tumores. É importante ressaltar que, quanto mais grave um quadro de apen- dicite, maior a probabilidade de que o mesmo http://#scrolldown Cirurgia - Volume 4 70Medgrupo - CiClo 2: M.E.D seja causado devido à obstrução por fecalito/ apendicolito. Outros fatores desencadeantes de apendicite ainda vêm sendo estudados, como a ulceração do apêndice (de origem ain- da desconhecida) e infecção direta do mesmo por bactérias (ex.: Yersinia). A obstrução do lúmen apendicular leva ao acúmulo de secreção com supercrescimento bacteriano. Como consequência, ocorre au- mento da pressão intraluminal e distensão do apêndice. Esse quadro deflagra o início da condução de estímulo álgico pelos nocicep- tores viscerais apendiculares, causando dor. Como a inervação do apêndice é a mesma do que todo intestino médio (intestino delgado, cólon ascendente e transverso) devido a sua origem embriológica comum, essa dor inicial é referida em topografia de plexo mesentérico superior, ou seja, uma dor periumbilical vaga em mesogastro. Num segundo momento, a obstrução acaba por levar ao comprometimento do retorno ve- noso e linfático, gerando isquemia do órgão. Agora, a inflamação já atinge o peritônio pa- rietal. Como os receptores de dor acionados nesse momento são de inervação somática, e não visceral, a dor passa a ser melhor qualifi- cada e localizada, sendo referida comumente na fossa ilíaca direita. Agora você começa a entender a história típica da apendicite aguda!!! Uma dor inespecífica que começa na região periumbilical e que progride e se localiza na fossa ilíaca direita. Todos esses achados conduzem a um pro- cesso inflamatório que podem culminar com necrose e perfuração. A perfuração do apêndi- ce ocorre geralmente após 48 horas do início dos sintomas, podendo causar um abscesso localizado (periapendicular) ou, nos casos mais graves, peritonite generalizada com con- sequente formação de múltiplos abscessos intraperitoneais (pelve, sub-hepático, subdia- fragmático e entre alças). RESIDÊNCIA MÉDICA – 2012 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO – UERJ A dor periumbilical, que um homem de 30 anos vinha sentindo desde a madrugada, ag- ora estava bem localizada no ponto de Mc- Burney. Os leucócitos eram de 16.300 célu- las/ul, havia acentuado desvio à esquerda e a equipe pensou em apendicite, o que se con- firmou por tomografia computadorizada. Em adultos, na maioria das vezes, a inflamação aguda do apêndice vermiforme é consequên- FIQUE ATENTO: A história clássica de um episódio de apendicite aguda é de dor que se inicia na região periumbilicar e depois de 12-24 horas se localiza em Fossa Ilíaca Di- reita (FID)! DOR PERIUMBILICAL: relacionada à disten- são do apêndice (peritônio visceral). DOR em FID: relacionada à inflamação (pe- ritônio parietal). cia da obstrução de sua luz por: a) Coprólitos. b) Parasitas intestinais. c) Tecido linfoide hipertrofiado. d) Sementes de frutas deglutidas. A causa mais comum de obstrução apen- dicular em adultos são os fecalitos! Quanto mais grave for um episódio de apendicite, maior é a probabilidade que a mesma tenha sido provocada pelo impacto de um coprólito. Resposta A. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2008 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO – UERJ O quadro clínico da apendicite aguda classi- camente inicia-se com dor abdominal difusa, associada a náuseas e vômitos. Esses sinto- mas são secundários à seguinte alteração do apêndice: a) Torção. c) Distensão. b) Isquemia. d) Perfuração. Cuidado, pois o início da dor abdominal (periumbilical, difusa) é causado simplesmente pela distensão do apêndice (inervação vis- ceral). Resposta C. Mais tarde a isquemia e inflamação do peritônio adjacente levariam à dor na fossa ilíaca direita (inervação somática do peritônio parietal). Para complementar, veja as principais bacté- rias envolvidas na inflamação do apêndice: tipo de Bactéria (% ) Pacientes Anaeróbicos Bacteroides fragilis 80 Bacteroides thetaiotaomi- cron 61 Bilophila wadsworthia 55 Peptostreptococcus ssp. 46 Aeróbicos E. coli 77 Streptococcus viridans 43 Streptococcus do grupo D 27 Pseudomonasaeruginosa 18 Ou seja, a flora bacteriana é semelhante à do cólon e as bactérias mais comuns são Bacte- roides fragilis e E. coli. A flora apendicular per- manece praticamente a mesma durante toda a vida, a exceção da bactéria Porphyromonas gingivalis, vista apenas nos adultos. Achou algo estranho? Esta tabela foi retirada na íntegra da última edição do Sabiston e ela já foi cobrada desta maneira em várias provas. Qual é o problema? A Escherichia coli, na verdade, é uma bactéria anaeróbia facultativa e nesta tabela ela foi colocada como aeróbia pois (como qualquer germe facultativo) pode viver em presença de oxigênio. Entre as ana- eróbias, o Sabiston preferiu colocar somente aquelas ditas estritas. Eu devo colher culturas do líquido perito- neal durante um episódio de apendicite? http://#scrolldown Cirurgia - Volume 4 71Medgrupo - CiClo 2: M.E.D Reflita um pouco sobre o que você acabou de ler... A flora esperada possui uma variação mínima entre os indivíduos e as faixas etárias. Na teoria, você já sabe qual será o resultado da cultura! Não há nenhum benefício na reali- zação desse exame. A exceção ficaria a cargo dos pacientes imunodeprimidos e, de acordo com a última edição do Sabiston, aqueles pacientes que utilizaram recentemente antibi- óticos ou aqueles provenientes de ambientes hospitalares ou de cuidados de saúde, uma vez que nesses casos há uma chance maior de existir uma flora bacteriana atípica, exigindo antibioticoterapia diferenciada. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2016 SECRETARIA MUNICIPAL DA SAÚDE DE SÃO PAULO – SP A apendicite aguda é a causa mais comum de abdômen agudo não traumático. Devido à sua configuração anatômica, a obstrução apendicular evolui rapidamente para uma obstrução em alça fechada. Esta condição favorece o crescimento bacteriano no local. Quais são os principais microrganismos iden- tificados nestas situações? a) Escherichia coli e Bacteroides fragilis. b) Escherichia coli e Clostridium difficile. c) Escherichia coli e Clostridium perfringens. d) Enterococcus faecalis e Clostridium per- fringens. Pra quem pensou que não era importante!!! Gabarito A. E veja como isso se repete nas mais diversas provas. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2015 HOSPITAL UNIVERSITÁRIO ANTÔNIO PE- DRO – RJ As bactérias anaeróbicas que, com maior fre- quência, são isoladas na apendicite perfurada encontram-se na seguinte alternativa: a) Peptostreptococos e Bacteroides fragiles. b) Estreptococos viridans e Escherichia coli. c) Peptoestreptococos e Pseudomonas aeru- ginosa. d) Proteus mirabilis e Estreptococos viridans. e) Bacteroides fragiles e Escherichia coli. manifestações Clínicas A apendicite deve ser lembrada em todo e qualquer quadro abdominal agudo!!! Tem uma máxima em cirurgia que diz: “A apendicite deve ser pelo menos a segunda hipótese nos quadros abdominais inflamatórios!”. Além de ser a causa mais comum, pode ocorrer em qualquer idade (principalmente na segunda e na terceira décadas de vida). Costuma iniciar com dor periumbilical seguida de anorexia e náuseas. A dor caracteristicamente migra para a fossa ilíaca direita, após cerca de 12 horas, localizando-se no ponto de McBurney (situado no limite entre o terço médio e lateral de uma linha imaginária traçada da espinha ilíaca ante- rossuperior direita ao umbigo. Ver FIGURA 16B). Obs.: Apesar de clássica, esse tipo de evolução clínica somente ocorre em 50 a 60% de todas as apendicites. Variações na localização da dor ocorrem na dependência da posição anatômica da ponta do apêndice: quando retrocecal (dor no flanco ou na região lombar), quando pélvi- co junto à bexiga (dor em região suprapúbica ou ao toque retal ou exame ginecológico). A migração da dor pode não ocorrer em alguns pacientes, que apresentam dor localizada no sítio da apendicite desde o início do quadro. FIQUE ATENTO!!! Há uma divergência clara em relação ao qua- dro clínico de apendicite nas principais biblio- grafias cirúrgicas... Segundo o Schwartz, acompanhando o qua- dro álgico, teríamos anorexia, náuseas, vômi- tos e alteração do hábito intestinal (constipa- ção ou diarreia). A anorexia seria tão presente no quadro que, se estivesse ausente, deveria levantar dúvida diagnóstica. Os vômitos esta- riam presentes em até 75% dos casos, mas não seriam uma manifestação proeminente, ocorrendo um ou dois episódios somente. Seriam causados tanto pelo íleo metabólico inflamatório quanto pela distensão dos noci- ceptores viscerais. Ele afirma ainda que, geralmente, a apari- ção dos sintomas obedeceria uma ordem clássica na apendicite: 1º seria a anorexia, seguida pela dor abdominal e por último iniciar-se-iam os vômitos. Essa sequência ocorreria em cerca de 95% dos casos de apendicite. Caso os vômitos ocorram antes da instalação das dores abdominais, tam- bém deveríamos questionar o diagnóstico. Já o Sabiston afirma que a ausência de anore- xia não descarta o diagnóstico de apendicite e que a mesma deve ser suspeitada ainda que os pacientes refiram fome. O consenso aqui é que pacientes com apen- dicite procuram se movimentar o mínimo pos- sível devido à irritação peritoneal. Movem-se devagar e com cautela. Quando deitados, assumem uma atitude característica: perma- necem em decúbito dorsal com as pernas fletidas, principalmente a perna direita. E veja como é difícil fazer prova de resi- dência. Mesmo sendo clássica essa di- vergência, algumas bancas ainda fazem questão de entrar nesse assunto e acabam se enrolando. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2016 FUNDAÇÃO UNIVERSITÁRIA DE CIÊNCIAS DA SAÚDE DE ALAGOAS – AL Na apendicite aguda, o primeiro sintoma é: a) Anorexia. b) Dor epigástrica. c) Dor na fossa ilíaca direita. d) Dor abdominal difusa. e) Vômitos. http://#scrolldown Cirurgia - Volume 4 72Medgrupo - CiClo 2: M.E.D Questão que deveria ter sido anulada pois aborda um tema divergente na literatura!!! O quadro clássico de apendicite aguda é o de dor abdominal que inicia-se em região periumbili- cal, de maneira inespecífica e que se localiza em FID após 12-24 horas. Além disso, pode- mos encontrar dor à descompressão dolorosa em FID. E ainda, outros sinais e sintomas mais inespecíficos podem ser encontrados como náuseas, vômitos, febre moderada e anorexia. E é aí que mora a discussão... Para alguns autores, a anorexia seria imprescindível para o diagnóstico e que, na ausência da anorexia, o diagnóstico deveria ser até colocado em cheque e, além disso, a anorexia seria o pri- meiro sintoma... E foi isso que a banca levou em consideração e liberou como gabarito a letra A. Mas veja o problema, o Sabiston, uma das principais referências cirúrgicas, afirma que a anorexia pode ou não existir e que não tem uma sequência correta para os sintomas... Logo, percebemos que o tema é controverso e a questão deveria ter sido anulada. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2014 INSTITUTO BENJAMIN CONSTANT – RJ Paciente de 18 anos, masculino, apresenta dor em fossa ilíaca direita, vômitos e queda do es- tado geral. Qual o sinal/sintoma fundamental para o diagnóstico de apendicite aguda? a) Anorexia. d) Sinal de Lennander. b) Diarreia. e) Sinal de Rovsing. c) Sinal de Psoas. O gabarito liberado pela banca foi a letra A, ANOREXIA... Mas como vimos existe a diver- gência e, após recurso, a questão foi anulada. A principal complicação é a perfuração do apêndice, que geralmente ocorre distalmente ao ponto de obstrução, na borda antimesen- térica do apêndice. Ela se apresenta em duas formas: perfuração bloqueada (mais comum), com formação de abscesso periapendicu- lar, ou perfuração livre para o peritônio, com peritonite generalizada. No primeiro caso, o paciente pode se encontrar oligossintomático, queixando-se de algum desconforto em fos- sa ilíaca direita. Pode haver massa palpável (plastrão). No segundo caso, a dor abdominal é de grande intensidade e difusa, com presen- ça de abdome em tábua (rigidez generalizada). Nestes casos, a temperatura encontra-se mui- to elevada (39°C a 40°C)e o paciente pode evoluir para sepse. Em alguns casos, a dor pode até melhorar após a ruptura. Ao exame físico, habitualmente, encontra-se temperatura em torno de 38°C (febre baixa), hipersensibilidade à palpação no ponto de McBurney, com defesa abdominal inicial- mente voluntária e depois involuntária. A hi- perestesia cutânea pode ser percebida pela pega delicada entre o indicador e o polegar e costuma estar localizada na área entre a cicatriz umbilical, o púbis e a espinha ilíaca anterossuperior (trígono de Sherren). A pe- ristalse está geralmente diminuída, devido ao íleo paralítico, e os exames pélvico e retal costumam estar inalterados. Além disso, al- guns sinais clássicos podem ser encontrados, como sinal de Dunphy, Blumberg, Rovsing, Lapinsky, Lenander, Aaron, Markle, ten Horn, percussão calcânea, do psoas e do obturador. Já que falamos nesses sinais “clássicos”, vamos relembrar cada um deles: • Sinal de Blumberg: dor de maior intensida- de com a descompressão súbita do abdome, indicativa de peritonite. Segundo o artigo original em que o sinal foi descrito, sua pes- quisa é limitada ao ponto de McBurney. No entanto, devido ao constante uso do termo para descompressão dolorosa em qualquer outro ponto do abdome, a alcunha de sinal de Blumberg costuma ser aceita para des- crição de outros tipos de descompressão dolorosa, embora o termo torne-se impreciso nesses casos... • Sinal de Dunphy: dor na fossa ilíaca direita, que piora com a tosse. • Sinal de Lapinsky: dor à compressão da fossa ilíaca direita enquanto o paciente ou o próprio examinador eleva o membro inferior direito esticado (apêndice retrocecal). • Sinal de Markle: É inespecífico para qual- quer irritação peritoneal. Com o paciente na ponta dos pés, peça para ele chocar os calcanhares contra o chão. O choque sus- citará dor no ponto onde o peritônio parietal está irritado. • Percussão calcânea: A fisiopatologia é se- melhante ao sinal anterior. Com a palma da mão o examinador percute o calcanhar direi- to do paciente deitado, gerando dor na FID. • Sinal de Ten Horn: Dor promovida pela tra- ção do testículo direito. • Sinal de Lenander: temperatura retal maior que a axilar em 1°C (apêndice pélvico). • Sinal de Aaron: Dor epigástrica referida du- rante a compressão do ponto de McBurney. • Sinal do Obturador: dor hipogástrica provo- cada pela flexão da coxa e rotação interna do quadril (apêndice pélvico). Mesmo sendo um sinal classicamente descrito, o Harrison define sua presença como tardia e de pouca ajuda diagnóstica... • Sinal do Iliopsoas: dor provocada pela extensão e abdução da coxa direita, com o paciente deitado sobre o seu lado esquerdo (apêndice retrocecal). • Sinal de Rovsing: dor na fossa ilíaca direita após a compressão da fossa ilíaca esquerda (por deslocamento do ar em direção à fossa direita – peristalse retrógrada). Entendeu??? Vamos ver essa questão! http://#scrolldown Cirurgia - Volume 4 73Medgrupo - CiClo 2: M.E.D RESIDÊNCIA MÉDICA – 2005 UNIVERSIDADE ESTADUAL DO CEARÁ – FUSEC No diagnóstico da apendicite aguda, como é conhecida a manobra de pressionar a fossa ilíaca esquerda causando dor reflexa na fossa ilíaca direita? a) Sinal de Blumberg. b) Sinal de Rovsing. c) Sinal do psoas. d) Sinal do Obturador. e) Sinal de Mc Burney. Qual é o princípio por trás do sinal de Rovsing? A expressão contínua do cólon descenden- te, realizando um movimento de peristalse retrógrada, move o ar em direção ao ceco, dilatando-o. Como ele se encontra com sua base inflamada devido à apendicite, a dor é referida na fossa ilíaca direita. É importante guardar esse sinal para prova? Veja você mesmo: RESIDÊNCIA MÉDICA – 2016 FACULDADE DE MEDICINA DE PETRÓPOLIS – RJ Paciente com dor abdominal, sinal de Rovsing positivo e escore de Alvarado maior que 7 pon- tos possui alta probabilidade de apresentar: a) Colecistite. c) Pancreatite. b) Apendicite. d) Colangite. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2016 HOSPITAL DILSON GODINHO – MG O sinal de Rovsing pode ser usado para o diagnóstico clínico de doenças que cursam com dores abdominais, encontrando-se esse sinal frequentemente em casos de: a) Apendicite aguda. b) Colecistite aguda. c) Pancreatite aguda. d) Pielonefrite. e) Diverticulite aguda. ROVSING: pensar em apendicite aguda!!! Letras B e A. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2010 HOSPITAL PITANGUEIRAS – HP – SP O Sinal de Rovsing positivo é sugestivo de: a) Apendicite aguda. b) Isquemia plantar. c) Lesão do manguito dos rotatores. d) Estado epiléptico. e) Dermatozoonoses. Mais um sinal!!! RESIDÊNCIA MÉDICA – 2015 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO PARÁ – PA Paciente de 18 anos chega ao pronto atendi- mento com quadro clínico de dor em quadran- te inferior direito de localização inicial em re- gião epigástrica e sinal de Dumphy positivo. Solicitado hemograma que demonstrou leuco- citose de 12.000 e tomografia que demonstrou um apêndice de 8 mm. O provável diagnóstico deste paciente é: a) Diverticulite. b) Chilaidite. c) Apendicite aguda. d) Colecistite aguda. e) Isquemia mesentérica. Questão que você não pode errar. Histó- ria clássica de apendicite aguda, e ainda por cima Dumphy (dor aumenta em FID com a tosse) positivo. A principal hipótese é apendi- cite aguda. Gabarito C. Mas a apendicite é sempre assim tão monótona? Não! Quatro grupos merecem atenção toda especial, pois se você esperar esse padrão clássico, vai deixar passar o diagnóstico! Por esse mesmo motivo, o diagnóstico nesses pa- cientes costuma ser mais tardio e associado à maior morbimortalidade. Esses grupos in- cluem: crianças, idosos, gestantes e obesos mórbidos. Nas crianças, o quadro é totalmen- te atípico!!! Pode ter apenas febre, letargia, vô- mitos intensos e diarreia. A perfuração é muito mais comum que nos adultos, pois o omento maior é imaturo e não consegue localizar o processo. Nos idosos, a apresentação é atí- pica e também e tem pior prognóstico. A dor é menos intensa, a temperatura menos elevada e o leucograma pouco alterado. A incidência de perfuração é maior ainda do que na crian- ça. Na gestante, o diagnóstico é mais difícil por dois motivos: deslocamento do apêndice pelo útero gravídico e confusão com sintomas comuns da gravidez (náuseas, vômitos e dor abdominal). Os obesos mórbidos passam pela mesma dificuldade, aliada à dificuldade em se obter imagens confiáveis. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2015 FACULDADE DE MEDICINA DE CAMPOS – RJ Paciente grávida, de 22 de idade, apresenta- -se à emergência com dor abdominal e mal- -estar. Os sintomas começaram cerca de 8 horas antes e não relata diarreia. Neste mo- mento, a dor é principalmente no flanco direi- to, mas teve início na região periumbilical. Apresenta náuseas e vômitos. Até agora teve uma gravidez sem complicação e encontra-se na 24ª semana de gestação. Recebe acom- panhamento obstétrico regular e seu último exame, incluindo eco, há 1 semana atrás es- tava normal. A temperatura axilar é de 37,9°C, a pressão arterial é de 129/90 mmHg e a fre- quência cardíaca de 105 bpm. O exame físico demonstra leve dor abdominal. O abdome está depressível, doloroso no quadrante inferior direito com ruídos intestinais diminuídos, e preservação do ângulo costovertebral. O mo- nitoramento fetal demonstra frequência cardí- aca fetal normal. A contagem de leucócitos é http://#scrolldown Cirurgia - Volume 4 74Medgrupo - CiClo 2: M.E.D de 10.000/µL. A analise da urina demonstra 2 leucócitos por campo de grande aumento, ausência de células epiteliais e 1 hemácia por campo de grande aumento. Qual é o diagnos- tico mais provável? a) Apendicite aguda. b) Sindrome de Fitz-Hugh-Curtis. c) Dor no meio do ciclo menstrual. d) Nefrotíase. e) Pielonefrite. Para respondermos a essa questão deve- mos lembrar que durante a gestação ocorre um deslocamento da posição do apêndice da fossa ilíaca direita para o flanco direito. Dessa forma, a localização da dor também muda! Feita essa observação, vamos ao caso:pa- ciente de 22 anos com dor em início na região periumbilical que se desloca para a topografia do apêndice (no caso o flanco direito, tratando- -se de gestante), acompanhada por náusea e vômitos. O EAS é inocente, a paciente encon- tra-se subfebril e ligeiramente taquicárdica. O monitoramento fetal não evidencia qualquer complicação ligada à gestação. Neste caso, a PRINCIPAL suspeita diagnóstica recai sobre a apendicite aguda, lembrando que a inflama- ção do apêndice é a causa mais clássica e também a mais comum de abdome agudo em ambos os sexos, na gestante e na criança! Resposta: A. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2014 HOSPITAL DA POLÍCIA MILITAR – MG Quanto à apendicite aguda na gravidez, mar- que a alternativa INCORRETA: a) A maioria dos casos ocorrem nos dois primei- ros trimestres e o diagnóstico da doença vai se tornando mais difícil ao longo da gravidez. b) Devido ao risco de complicações materno- -fetais, o esfriamento do processo e o tratamen- to definitivo no pós-parto imediato é conduta muitas vezes adotada. c) A laparoscopia pode ser usada para trata- mento da doença, mas a confecção do pneu- moperitôneo e a punção dos trocateres devem se adaptar ao volume uterino. d) É a urgência cirúrgica não obstétrica mais frequente na mulher grávida e a ocorrência de formas complicadas não são raras. Pessoal, a apendicite é o abdome agudo inflamatório mais comum. E é a principal cau- sa cirúrgica não obstétrica na mulher grávida. E mesmo tendo uma apresentação atípica, as complicações são tão graves quanto na popu- lação geral. Logo, uma vez diagnosticada deve ser tratada. Diferente do que foi dito na letra B, incorreta e gabarito da questão. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2014 SECRETARIA MUNICIPAL DA SAÚDE DE CURITIBA – PR Sobre a apendicite aguda, é CORRETO afirmar: a) Em idosos, a apresentação clássica - dor periumbilical irradiada para quadrante inferior direito - está presente com menor frequência do que quando comparada com jovens. b) Apendicite perfurada é muito menos comum em idosos. c) As taxas de mortalidade por apendicite per- furada em idosos acima de 70 anos é menor que 5%. d) Febre é sintoma comum em idosos com suspeita de apendicite aguda. e) Em idosos, a avaliação criteriosa do cólon não se faz necessária após o tratamento con- servador (drenagem percutânea e antibiotico- terapia) por abscesso apendicular volumosos; já nos jovens, indica-se a apendicectomia de intervalo geralmente após seis semanas. O quadro clássico de apendicite, com dor abdominal inicialmente ao redor do umbigo dirigindo-se, cerca de 12h depois, para fossa ilíaca direita, com febre baixa, anorexia, náu- seas e vômitos NÃO é o mais esperado em idosos (letra A correta). Justamente por isso, as taxas de complicações como a perfuração são mais elevadas nos idosos, alcançando taxas de até 80% nessa faixa etária (letra B e C incorretas). O quadro de apendicite em ido- sos é, muitas vezes, frustro, sem apresentar febre (letra D correta). Ainda vamos discutir sobre o tratamento, por enquanto somente leia a letra E, mas ela está incorreta. Respos- ta certa: Letra A. Saiba maiS: Parece, mas não é! As seguintes condições podem cursar com um quadro idêntico ao da apendicite (dor na fossa ilíaca direita). Ca- racteristicamente, elas não são cirúrgicas e apresentam melhor prognóstico: - apendagite epiploica - linfadenite mesentérica - infarto omental - doença de Crohn - diverticulite do lado direito - urolitíase - afecções ginecológicas - hematoma retal Veja essa discursiva!!! RESIDÊNCIA MÉDICA – 2015 FACULDADE DE CIÊNCIAS MÉDICAS DA UNICAMP – SP Mulher, 23a, há 2 dias, iniciou com dor em região periumbilical que, posteriormente, se localizou em região de fossa ilíaca direita. Refere anorexia, não utiliza método anticon- cepcional, atividade sexual ativa, data do início do último ciclo menstrual há 25 dias. Nega diarreia, febre, comorbidades, queixas uriná- rias, tabagismo e etilismo. Exame físico: Bom estado geral, consciente, hidratada, anictérica e corada. FC = 96 bpm, FR = 18 irpm, T = 37,9°C. Pulmões e coração: sem alterações. Abdome: plano, normotenso; digitopercussão, palpação profunda e descompressão brusca dolorosos em fossa ilíaca direita. Sinais de Giordano e de Murphy ausentes. CITE UM DIAGNÓSTICO SINDRÔMICO E DOIS DIAG- NÓSTICOS ETIOLÓGICOS: http://#scrolldown Cirurgia - Volume 4 75Medgrupo - CiClo 2: M.E.D O quadro da paciente sugere apendicite aguda. Veja a história clássica: dor abdominal em região periumbilical que migra para a fos- sa ilíaca direita com anorexia! Ao exame do abdome, a hipótese torna-se ainda mais pro- vável, visto que existe descompressão brusca dolorosa em fossa ilíaca direita. O diagnóstico sindrômico de uma condição abdominal que exige rápida intervenção é alcunhado como “Abdome Agudo” e, se reconhecermos o fato de poder ser de etiologia inflamatória (pacien- te tendendo à taquicardia, febril), denomina- remos tal quadro de Abdome Agudo Inflama- tório. Dentre os diagnósticos diferenciais de abdome agudo com dor nesta topografia, poderemos citar tanto a já mencionada apen- dicite aguda, quanto a prenhez ectópica rota, a doença inflamatória intestinal e a apendagi- te epiploica. Existe apendicite crônica ou recorrente? Embora seja questionada por muitos autores, esta condição tem sido cada vez mais reco- nhecida, principalmente em crianças. A obs- trução parcial intermitente da luz do apêndice parece justificar o diagnóstico. Os critérios diagnósticos incluem: 1) História de mais de um mês com ataques recorrentes (três ou mais) de dor abdominal no quadrante inferior direito. 2) Sensibilidade à palpação no quadrante inferior direito sem evidências de irritação peritoneal. 3) Achados radiológicos no estudo baritado que variam de preenchimento incompleto até a não visualização do apêndice após 24 horas do uso do contraste, ou o não esvaziamento de contraste do apêndice preenchido após 72 horas. Alguns apresentam apendicolito à TC ou aumento de diâmetro à USG. A grande dificuldade diagnóstica está naqueles pacientes sem qualquer alteração na imagem, e é possível que sejam enquadrados entre os portadores de dor abdominal crônica. O tratamento cirúrgico (apendicectomia) parece aliviar os sintomas da maioria dos pacientes. microscópica e/ou piúria, mas sem bacte- riúria (a inflamação de tecidos periapen- diculares pode afetar o ureter também!). A presença de bacteriúria ou hematúria macroscópica falam a favor de infecção urinária e litíase renal. CONCEItO 03: A radiografia não serve para quase nada! Em alguns casos, pode sugerir outras causas (obstrução intestinal, cálculo ureteral e úlcera perfurada). A presença de apendicolito calcificado na topografia do apêndice é incomum (10 a 15%), mas bastante sugestiva. CONCEItO 04: A ultrassonografia é um exa- me muito bom! Tem sensibilidade e especi- ficidade de 85 e 90% respectivamente. São sinais sugestivos: diâmetro anteroposterior ≥ 7 mm (ou 6 mm por algumas referências); espessamento da parede e estrutura luminal não compressível; e a presença de apendi- colito; ausência de gás no interior do apên- dice; alteração de gordura periapendicular e alteração do fluxo vascular apendicular. Nos casos mais avançados de doença, flui- do periapendicular ou abscesso podem ser encontrados. Pode ser utilizada para excluir afecções ginecológicas e para detectar co- leções anexiais e líquido fora de alça. Como já discutimos, as duas principais limitações do exame são distensão abdominal e o fato de ser bastante dependente do operador. A demonstração de um apêndice normal, facilmente compressível e com diâmetro ≤ 5 mm, exclui o diagnóstico de apendicite. Agora cuidado, pois a não visualização do apêndice não afasta o diagnóstico. CONCEItO 05: A tomografia computado- rizada também apresenta sensibilidade e especificidade elevadas (80 e 90% respec- tivamente). Atualmente, vem sendo eleita como melhor método de imagem para o diagnósticode apendicite. Os achados sugestivos são: diâmetro ≥ 7 mm e espes- samento da parede (lesão em alvo). Outros sinais ocorrem na evolução do quadro infla- matório: borramento da gordura periapen- dicular; edema, fluido peritoneal, abscesso periapendicular, ar extraluminal e ausência de contraste do apêndice. Pela TC de ab- dome, a detecção do apendicolito é muito maior (50%) e com elevado valor preditivo (75%). A utilidade dos contrastes venoso, oral e retal, para aumentar a acurácia do diagnóstico, ainda é controversa. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2010 INSTITUTO FERNANDES FIGUEIRA – IFF – RJ Você participa de uma sessão clínica que debate o valor dos exames complementares na abordagem de pacientes com suspeita diagnóstica de apendicite aguda. Ao ser ques- tionado sobre o exame de imagem mais ade- quado nesta investigação, especialmente em crianças e gestantes, você responde que é: a) Ultrassonografia abdominal. Diagnóstico Como confirmar a apendicite aguda: pela clínica ou por método complementar? Antes de responder, vamos trazer alguns con- ceitos fundamentais: CONCEItO 01: O diagnóstico é essencial- mente clínico. CONCEItO 02: O grande valor do labo- ratório é sugerir perfuração (leucocitose > 20.000 cel/mm3, desvio para esquerda) e excluir doenças do trato geniturinário. Na apendicite, o EAS pode mostrar hematúria http://#scrolldown http://#videomiolo=RCIR203072 Cirurgia - Volume 4 76Medgrupo - CiClo 2: M.E.D b) Ressonância nuclear magnética. c) TC abdominal e pélvica com contraste venoso. d) Rotina radiológica para abdome agudo com avental de chumbo. Por não empregar radiação e ser de rápida realização, a ultrassonografia é o exame ideal para crianças e gestantes. Opção “A” correta. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2010 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO – UERJ Jovem de 23 anos procura o pronto-socorro com queixa de dor em quadrante inferior di- reito. O exame ultrassonográfico demonstra imagem “em alvo” na fossa ilíaca direita. O diagnóstico mais provável deve ser: a) Hidrossalpinge. b) Apendicite aguda. c) Apendagite por torção. d) Rotura de folículo ovariano. Como acabamos de ver, o espessamento por edema da parede apendicular dá o as- pecto de que ela tenha várias camadas como se fosse um alvo. Veja a FIGURA 17. Nesse caso, só pode se tratar de apendicite aguda. Resposta: B. - diâmetro anteroposterior ≥ 7 mm (ou 6 mm por algumas referências); - espessamento da parede e estrutura luminal não compressível; - presença de apendicolito; - ausência de gás no interior do apêndice; - alteração de gordura periapendicular e - alteração do fluxo vascular apendicular. Apesar de a descompressão dolorosa com o transdutor não ser frequentemente descrita, ela também pode sugerir apendicite. Mesmo que você não soubesse disso, ficaria difícil de errar essa questão... Como a não visualização do apêndice poderia sugerir apendicite?!? Resposta D. E a RESSONÂNCIA MAGNÉTICA? O uso da RM é reservado para casos duvi- dosos na gestante (deve ser realizada sem contraste). A RM apresenta ótima resolução e precisão no diagnóstico. Os critérios para o diagnóstico são: diâmetro ântero-posterior > 7 mm, espessamento da parede > 2 mm e a presença de líquido inflamatório periapendi- cular. Os maiores entraves para a realização da RM são custo elevado e a disponibilidade. Apesar de ser uma prática comum, a tC de abdome não deve ser solicitada de rotina! Dentre as desvantagens, podemos citar a perda de tempo desnecessária, risco de alergia ao con- traste, nefropatia, broncoaspiração e radiação ionizante. Este último, um fator muito importante nas crianças (risco de 0,18% de câncer). Um exame negativo também poderia ser atribuído a um quadro precoce sem os sinais característicos. Figura 17 Apêndice Normal Apendicite RESIDÊNCIA MÉDICA – 2009 UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ – UFPR São achados ecográficos que corroboram o diagnóstico de apendicite aguda, EXCETO: a) Apêndice distendido com diâmetro superior a 6 mm. b) Presença de fecalito no interior do apêndice. c) Dor à descompressão brusca pelo transdu- tor do aparelho. d) Incapacidade de visualização do órgão. e) Presença de massa periapendicular. Vamos rever os achados ultrassonográficos mais comuns na apendicite: Fluxograma 1 Figura 18 - Dilata- ção e espessamento da parede do apên- dice, que não preen- che com contraste. Figura 19 - Apêndi- ce de tamanho au- mentado, conten- do apendicolito no seu interior. Para concluirmos, veja no Fluxograma 1 o algoritmo adaptado da última edição do Sabiston para a abordagem dos quadros suspeitos de apendicite aguda. http://#scrolldown Cirurgia - Volume 4 77Medgrupo - CiClo 2: M.E.D - inicialmente devemos saber se apresenta- ção é precoce (< 48 horas) ou tardia. - nos pacientes do sexo masculino, com uma apresentação precoce e típica, nenhum exa- me é necessário para o diagnóstico e para a indicação cirúrgica. - nos casos duvidosos (crianças, idosos, quadro atípico e nas mulheres) indica-se a investigação por imagem. - se for gestante ou criança, o primeiro exame é a USG. E, na gestante, caso a USG seja negativa, indica-se (de acordo com a última edição do Sabiston) RM. - veremos adiante o FLUxOGRAMA 2 para os casos tardios, em que o risco de complicação é maior. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2015 FACULDADE DE CIÊNCIAS MÉDICAS DA UNICAMP – SP Mulher, 23a, há 2 dias, iniciou com dor em região periumbilical que, posteriormente, se localizou em região de fossa ilíaca direita. Refere anorexia, não utiliza método anticon- cepcional, atividade sexual ativa, data do início do último ciclo menstrual há 25 dias. Nega diarreia, febre, comorbidades, queixas urinárias, tabagismo e etilismo. Exame físico: Bom estado geral, consciente, hidratada, anictérica e corada. FC= 96bpm, FR= 18irpm, T=37,9°C. Pulmões e coração: sem altera- ções. Abdome: plano, normotenso; digitoper- cussão, palpação profunda e descompressão brusca dolorosos em fossa ilíaca direita. Si- nais de Giordano e de Murphy ausentes. CITE UM EXAME COMPLEMENTAR QUE DEFINA O DIAGNÓSTICO: A questão nos apresenta uma história clás- sica de apendicite aguda que, a princípio, tem um diagnóstico clínico. No entanto, estamos diante de uma mulher em idade fértil, ainda sem atraso na DUM, mas mesmo assim não podemos excluir uma prenhez ectópica ou outra doença ginecológica. Por isso, nesses casos, devemos solicitar um exame de ima- gem. E para mulher em idade fértil, a escolha é a USG. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2004 FACULDADE DE MEDICINA DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO – FMUSP Menino de 12 anos de idade procura o Pronto Atendimento com queixa de dor epigástrica intensa, há 1 dia. Refere inapetência e náu- sea. Nega febre, diarreia ou qualquer doença prévia. Ao exame físico encontra-se em bom estado geral, consciente, orientado, corado, hidratado, eupneico, afebril. Murmúrios vesi- culares presentes, bilateralmente, sem ruídos adventícios. Abdome plano, com dor em fossa ilíaca direita (FID) e epigástrio, com sinais de Blumberg e Rovsing presentes. A conduta é: a) Indicar imediatamente a realização de la- parotomia com incisão no ponto de McBurney. b) Prescrever analgésicos e antiácidos por via oral com liberação para seguimento ambulatorial. c) Solicitar ultrassonografia abdominal de ur- gência; se o resultado for normal, introduzir analgésicos e bloqueador de receptor H2 para uso domiciliar. d) Solicitar ultrassonografia abdominal de urgência; se o resultado for normal, manter o paciente em observação por 24 horas. e) Solicitar RX de abdome e hemograma, man- ter o paciente em observação por 24 horas. Este menino de 12 anos apresenta um qua- dro clássico de apendicite aguda: início há 24 horas de anorexia, náuseas, dor epigástrica que logo evoluiu para uma dor localizada na fossa ilíaca direita. Ao exame, embora em excelente estado geral, há sinais de peritonite local. O sinal de Blumberg é típico de peritonite e indica a descompressão dolorosa. O sinalde Rovsing, característico da apendicite, é a dor na fossa ilíaca direita após a compressão do abdome esquerdo – o mecanismo seria o des- locamento do gás do cólon esquerdo para o ceco e o apêndice inflamado, provocando dor. Não há necessidade de solicitar mais nenhum exame complementar (nem RX, nem US, nem TC), pois o quadro clínico é típico o suficiente para dispensar tais exames. Pela precocidade do quadro e pela ausência de sinais de supura- ção abdominal (febre, taquicardia, taquipneia, massa palpável), este paciente provavelmente tem uma apendicite aguda não complicada. O tratamento deve ser a cirurgia de urgência, com apendicectomia. Resposta letra A. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2010 FACULDADE DE MEDICINA DE ITAJUBÁ – FMIT – MG Quanto à apendicite aguda podemos afirmar que: a) Complicações como peritonites são mais frequentes em adulto jovem. b) Nos critérios de Alvarado quanto maior a soma mais provavelmente o diagnóstico será positivo. c) Nunca existe um quadro de apendicite aguda sem dor, sem febre e sem leucocitose. d) Raio X de tórax e abdome é o exame que confirma o quadro. e) Ultrassom é o exame mais preciso para apendicite aguda que a tomografia computadorizada. As complicações, principalmente a apendicite perfurada, são mais comuns nos extremos de idade (criança e idosos). Pode ocorrer um quadro atípico, sem febre, leucocitose ou dor. As radiografias são péssimos exames para diagnóstico de apendicite. Já a ultrassonografia, apesar de ser um ótimo exame complementar para esse fim, em nenhum estudo conseguiu se mostrar superior à tomografia de abdome. Você pode perceber que sobrou somente uma opção, mas o que seriam esses critérios de Alvarado? http://#scrolldown Cirurgia - Volume 4 78Medgrupo - CiClo 2: M.E.D A escala de Alvarado foi criada para avaliar a probabilidade de um quadro de abdome infla- matório se tratar de apendicite. É um escore que varia de 0 a 10, sendo que as pontuações de 9 e 10 apontam para uma altíssima probabilidade, enquanto pontuações de 0 a 4 tornam o diagnóstico bastante improvável. Observe os critérios utilizados e os valores conferidos a cada um na tabela a seguir: Escala de Alvarado para diagnóstico de apendicite Manifestações Valor Sintomas Migração da dor 1 Anorexia 1 Náusea e/ou vômitos 1 Sinais Inflamação em quadrante inferior direito 2 Descompressão dolorosa 1 Aumento de temperatura 1 Leucograma Leucocitose 2 Desvio para esquerda 1 total: 10 Dessa maneira, podemos concluir que opção “B” responde adequadamente a questão. Saiba maiS: Exames de imagem Com a difusão e facilidade de acesso aos aparelhos de ultrassonografia e tomógrafos, a dúvida sobre quando solicitar exames de imagem frente a um quadro suspeito de apendicite vem se tornando cada vez mais comum nos serviços de emergência. Como na maioria das vezes o atendimento inicial não é realizado por um cirurgião, a solicitação de tomografias vem se tornando rotina em alguns serviços. Frente a esse tipo de situação, um grupo do Massachusetts General Hospital publicou dois grandes trabalhos sobre o assunto. Eles concluíram que a solicitação de TC para todos os pacientes diminuiu a probabilidade de apendicectomias negativas (laparotomias brancas), o número de perfurações apendiculares e permitiu o diagnóstico de outras causas que simulavam apendicite. O segundo estudo, publicado no New England, concluiu ainda que a abordagem era custo efetiva. No entanto, nenhuma outra entidade conseguiu reproduzir esses números impressionantes... Algumas metanálises advogam que os exames de imagem devem ser solicitados frente aos scores de probabilidade de apendicite, como a escala de Alvarado, na qual pacientes que tivessem uma pontuação entre 5 e 6 seriam beneficiados por uma tomografia. Na prática, continuamos solicitando exames de imagem apenas para os casos duvidosos. tratamento A maioria dos pacientes com apendicite agu- da é tratada por remoção cirúrgica imediata do apêndice (apendicectomia). Um breve pe- ríodo de reposição hidroeletrolítica geralmen- te é suficiente para assegurar a indução se- gura da anestesia geral. Antibióticos pré-ope- ratórios cobrem a flora colônica aeróbica e anaeróbica. Para apendicites não perfuradas, uma dose única pré-operatória de antibióticos reduz as infecções pós-operatórias da ferida e a formação de abscesso intra-abdominal. Os antibióticos orais não reduzem adicional- mente a incidência de complicações nesses pacientes. Para apendicites perfuradas ou gangrenosas, continuamos com antibióticos intravenosos no pós-operatório até que o pa- ciente não apresente mais febre. Esquemas possíveis preconizam o uso de Cefoxitina ou associação de anaerobicida (Clindamicina ou Metronidazol) com aminoglicosídeo ou Cefa- losporina de 3ª geração. No caso de dúvida diagnóstica os antibióticos não devem ser ini- ciados até que a investigação adequada re- vele a causa da dor abdominal. Além desses itens, todos sabemos que o tra- tamento é preferencialmente cirúrgico! Mas a questão não é se devemos operar ou não, mas COMO E QUANDO OPERAR! 1) COMO OPERAR: A técnica pode ser aberta ou por laparoscopia. APENDICECtOMIA LAPAROSCÓPICA O percentual destas cirurgias aumenta cada vez mais. Está associada a maior qualidade de vida, menos dor, menor tempo de hospita- lização, menores taxas de infecção da ferida cirúrgica. No entanto, apresenta custo mais elevado e exige treinamento específico. http://#scrolldown http://#videomiolo=CIR204075 Cirurgia - Volume 4 79Medgrupo - CiClo 2: M.E.D APENDICECtOMIA ABERtA Realizada tradicionalmente por incisão trans- versa no quadrante inferior direito (Davis-Roc- key) ou oblíqua (McArthur-McBurney). Segundo o Sabiston, a escolha depende da preferência do cirurgião, mas, de uma maneira geral, a incisão de McBurney é a mais utilizada. Nos casos duvidosos ou com grande fleimão, po- de-se utilizar a incisão mediana infraumbilical. Qual é a escolha? Apendicectomia aberta ou laparoscópica? É importante ressaltar que nenhuma técnica se mostrou muito superior à outra. Ambas possuem vantagens específicas. Idealmente o cirurgião deve realizar aquela em que possui melhor proficiência e que o paciente esteja de acordo. Agora, em alguns casos existem consenso sobre as vantagens da técnica laparoscópica, são eles: dúvida diagnóstica, mulheres férteis, obesos e perfurações. Abaixo segue uma tabela com as principais vantagens de cada método: * A última edição do Sabiston reafirma que a escolha deve ser individualizada e depende do cirurgião, mas que, para o SABISTON, a técnica laparoscópica é a preferida. X LApArOSCOpIA Diagnóstico de outras condições Melhor controle da dor Menor tempo e internação Menor taxa de infecção de ferida Retorno mais rápido às atividades Menor custo social ApEnDICECtOmIA AbErtA Curva de aprendizagem menor Menor custo operatório Menor incidência de abscessos intra-abdominais RESIDÊNCIA MÉDICA – 2014 SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE – SUS – BAHIA – BA Menino, 10 anos de idade, com dor no epigás- trio que há um dia migrou para a fossa ilíaca direita. Refere náuseas, temperatura axilar = 37,8°C. Nega outros sintomas ou outras do- enças. Ao exame físico geral sem anormali- dades. Exame abdominal: dor e descompres- são brusca dolorosa na fossa ilíaca direita, demais regiões sem anormalidades. Ultrasso- nografia constatou a presença de apêndice cecal espessado, aumentado de tamanho. Foi operado e encontrado apêndice edemaciado e hiperemiado. Realizou-se apendicectomia. Cite as possibilidades de vias de acesso para realizar a apendicectomia neste caso. Como acabamos de ver, não existe uma opção caracteristicamente melhor. Atualmente a que vem sendo mais utilizada é a via lapa- roscópica, mas a escolha fica a critério do ci- rurgião. Veja o gabarito liberado pelo SUS BA. GABARITO OFICIAL: Incisão de McBurney (Dovis/transversa) ou outra localizada na fos- sa ilíaca direita OU outra localizada na fossa ilíacaoblíqua. Acesso videolaparoscópico OU via laparoscópica OU laparoscopia. Figura 20 Figura 21A Figura 21b Quais são as complicações esperadas da apendicectomia? A mortalidade é muito baixa (< 1%) e a cirurgia está sujeita a duas principais complicações: infecção do sítio cirúrgico e obstrução intestinal. A infecção do sítio cirúrgico é a principal com- plicação e está mais associada à cirurgia aber- ta, ocorrendo em 5% das apendicites simples. Na presença de sinais sugestivos (edema, hiperemia, calor), a ferida cirúrgica deve ser explorada e a presença de pus indica a rea- lização de exame de imagem para descartar a presença de coleções intra-abdominais. O http://#scrolldown Cirurgia - Volume 4 80Medgrupo - CiClo 2: M.E.D mesmo se pode dizer para os quadros com leucocitose e febre, apesar da ferida apresen- tar aspectos normais. O tratamento consiste na colocação de um dreno percutâneo, para facilitar a cicatrização ou drenagem guiada por USG nos casos de abscesso pélvico ou retal. A obstrução intestinal é mais comum no pri- meiro ano após a cirurgia e nos casos de apendicite perfurada. Outras complicações mais raras descritas são infertilidade, absces- sos intracavitários, deiscências de planos da parede abdominal com evisceração ou even- tração, hérnias incisionais, hemorragias intra- cavitárias, sepse e condições mais raras, tais como pileflebite e fístulas apendicocutâneas e apendicovesicais. A fístula cutânea costuma regredir com o tratamento anti-infeccioso e as fístulas vesicais por tratamento laparoscópico. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2014 SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE – SUS – RORAIMA – RR A complicação mais frequente, após um apen- dicectomia, é: a) Peritonite pós-operatória. b) Deiscência de sutura. c) lnfecção no tecido celular subcutâneo (abs- cesso de parede). d) Pielonefrite. e) Endocardite. Após uma apendicectomia, a complicação MAIS FREQUENTE é a infecção de ferida operatória! Com a cirurgia videolaparoscópica isso vem diminuindo, mas mesmo assim ainda é a complicação mais comum. Enriquecendo nossa discussão, a obstrução intestinal é a segunda complicação mais fre- quente e é mais comum após a perfuração apendicular. Resposta certa: Letra C. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2011 UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO – UFRJ Mulher, 28 anos, submetida à laparotomia por apendicite aguda com perfuração do apên- dice. A complicação mais frequente no pós- -operatório é: a) Fístula estercoral. b) Abscesso pélvico. c) Obstrução intestinal por bridas. d) Abscesso de parede. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2010 ESCOLA SUPERIOR DE CIÊNCIAS DA SANTA CASA DE MISERICÓRDIA DE VITÓRIA – EMESCAM A complicação mais comum no pós-operatório da Apendicectomia continua sendo: a) Pneumonia. b) Atelectasia. c) Infecção urinária. d) Infecção. e) Flebites. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2010 UNIVERSIDADE FEDERAL DE CAMPINA GRANDE – UFCG A complicação mais frequente, após um apen- dicectomia, é: a) Pileflebite. b) Peritonite pós-operatória. c) Deiscência de sutura. d) Fístula estercoral. e) Infecção no tecido celular subcutâneo (abs- cesso de parede). E as questões se repetem por todo Brasil... A infecção da ferida operatória é a complicação mais comum da apendicite. Sua incidência é maior nos quadros complicados, principalmen- te nas apendicites perfuradas. Resposta D, D e E, respectivamente. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2010 PROCESSO SELETIVO UNIFICADO – MINAS GERAIS Paciente do sexo masculino, 19 anos, 76 kg, previamente hígido, foi submetido à apendi- cectomia no tratamento de apendicite inicial não complicada. Recebe alta hospitalar em boas condições, após ter recebido três doses pós-operatórias de 1 g de cefazolina EV a cada 8h. A partir do 4º dia pós-operatório evo- lui com episódios de febre baixa, sem outros sintomas. No 7º dia pós-operatório retorna para controle ambulatorial, quando se observa abaulamento, hiperemia, edema, hipersensibi- lidade e calor na ferida operatória. Dentre as opções terapêuticas abaixo listadas, assinale aquela que representa a MELHOR CONDUTA no tratamento da complicação pós-operatória acima citada: a) Abertura da ferida operatória e drenagem de provável abscesso de parede abdominal. b) Calor local, antibioticoterapia oral e retorno ambulatorial. c) Internação para antibioticoterapia endove- nosa e, se necessário, reoperação. d) Solicitação de ultrassonografia para diag- nóstico de possível abscesso intraperitoneal. O paciente apresenta febre no 7º dia pós- -operatório e a ferida cirúrgica tem sinais flogísticos. Somos obrigados a pensar em infecção da ferida cirúrgica, a complicação mais comum de uma apendicectomia. Uma vez suspeitada, a conduta deve ser explorar a ferida cirúrgica e drenar o abscesso de parede caso se confirme. A indicação de exame de imagem estaria apropriada para lesões com drenagem purulenta ou se o paciente apresen- tasse febre e leucocitose com a ferida normal. Resposta: A. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2010 FUNDAÇÃO JOÃO GOULART – HOSPITAIS MUNICIPAIS – FJG – RJ Paciente jovem sem comorbidades, subme- tido à apendicectomia videolaparoscópica, evolui no pós-operatório, imediato com dor em fossa ilíaca esquerda, queda do hema- tócrito e massa palpável ao exame físico na http://#scrolldown Cirurgia - Volume 4 81Medgrupo - CiClo 2: M.E.D mesma localização. Tomografia computado- rizada abdominal evidenciou presença de importante hematoma na musculatura retal em topografia do trocarte inserido no pro- cedimento. Conclui-se que foi lesionada a seguinte estrutura vascular no procedimento: a) Artéria apendicular. b) Aorta infrarrenal. c) Vasos ilíacos comuns. d) Vasos epigástricos inferiores. Está aí uma questão “nova” em prova de residência: complicação direta da inserção de um trocarte de laparoscopia! O interessante é perceber que conseguimos responder sem mesmo conhecer a fundo a complicação. Por ser um hematoma de parede, a lesão de vasos mais profundos, como a artéria apendicular, a aorta e os vasos ilíacos, deve ser excluída. Na lesão de vasos da parede, a rotura do plexo epigástrico (aa. epigástricas inferiores e supe- riores) e a própria laceração do reto abdominal podem originar esse quadro. O mais interes- sante dessa questão é a especificação do sítio: fossa ilíaca esquerda, próximo à inserção do trocarte. Essa localização de trocarte é a que mais se aproxima da artéria epigástrica inferior esquerda, tendo inclusive a mesma como pon- to de referência para a realização da incisão. A opção mais correta seria: artéria epigástrica inferior esquerda, mas o gabarito divulgado pelo concurso responde adequadamente à questão. Resposta D. A apendicite pode ser tratada clinicamente? Apesar de ser uma doença de tratamento classicamente cirúrgico, cerca de 85% de to- das apendicites podem ser adequadamente tratadas apenas com antibioticoterapia... É exatamente isso que você acabou de ler: assim como a diverticulite, a apendicite pode ser sa- tisfatoriamente abordada apenas com antibióti- cos. Mas se existe um tratamento não invasivo, por que indicar sempre a cirurgia? Apesar de a antibioticoterapia ser satisfatória, praticamente 1/3 dos pacientes apresentaram algum grau de recorrência da doença, necessitando de inter- venção cirúrgica... Esse índice de recorrência é inaceitável frente a uma cirurgia simples como a apendicectomia, que permanece como padrão- -ouro na abordagem à apendicite. Esses índices de complicações vêm sendo revisados e novos estudos demonstram ta- xas cada vez menores. Alguns grupos até já preconizam a abordagem conservadora para determinado grupo de pacientes. De acordo com a última edição do Sabiston, o tema ainda carece de mais estudo, sendo a abordagem clínica reservada para aqueles casos leves em que o risco cirúrgico for elevado. Apendicite tardia Fique atento pois a nova edição do Sabiston trouxe algumas alterações relacionadas ao tratamento dos casos mais tardios. Vamos iniciar a discussão analisando como era preconizadoo tratamento e vamos pontuar as alterações. Não são grandes mudanças, mas é válido o destaque. Leia atentamente pois nunca se sabe né!!! Vai que uma banca desavisada considere a abordagem mais antiga. Como era: Pacientes com apresentação tar- dia (> 48 horas) necessitam obrigatoriamente de exames de imagem, que podem mostrar três padrões: - Ausência de complicações: tratar como apen- dicite simples. - Presença de fleimão ou pequenos abscessos (< 4 centímetros): antibioticoterapia + colo- noscopia (4-6 semanas) + apendicectomia tardia (6-8 semanas). - Presença de grandes abscessos (> 4 a 6 centímetros) e, especialmente, com febre alta: antibioticoterapia + drenagem percutânea (se abscesso na fossa ilíaca) ou transretal (pelve baixa). Após início de antibioticoterapia ± dre- nagem percutânea, o paciente é reavaliado quanto ao estado geral. No caso de melhora, o paciente pode receber alta com antibiótico oral e deve ser submetido à colonoscopia (adultos) quatro a seis semanas depois (para excluir co- lite e neoplasia, encontrada em 5% dos casos). A intervenção cirúrgica laparoscópica também deve ser marcada (após seis a oito semanas). Veja como ficou: - A primeira dúvida é se existe peritonite difu- sa ou não. Se sim, a conduta é clínica com 2) Quando operar: Cirurgia Precoce x tardia Habitualmente, a cirurgia deve ser o mais precoce possível. No entanto, a presença de complicações muda um pouco essa situação. Apendicite precoce (simples) É representada pelas formas diagnosticadas precocemente (< 48 horas) ou em que os exames de imagem não mostraram com- plicação associada (fleimão ou abscesso periapendicular). O tratamento é a apendi- cectomia e a laparoscopia é a técnica prefe- rida nos casos duvidosos, mulheres, idosos, obesos e perfurações. Perfurações??? Sim! Nesses casos, inicia-se com a laparoscopia e depois, conforme a necessidade, a cirurgia é convertida para uma técnica aberta. Em geral, a laparoscopia tem conseguido resul- tados muito bons na apendicite perfurada. Nos outros casos, a escolha ficaria a critério do cirurgião. RESUMINDO: apendicite precoce (sem com- plicações): 1- Hidratação + correção de distúrbios hidro- eletrolíticos; 2- Antibioticoprofilaxia; 3- Apendicectomia (convencional ou laparos- cópica). http://#scrolldown Cirurgia - Volume 4 82Medgrupo - CiClo 2: M.E.D reanimação volêmica agressiva + correção de distúrbios hidroeletrolítios e ácido-base + antibioticoterapia empírica. Agora, se não há peritonite difusa, devemos realizar exames de imagem. O mais indicado é a TOMOGRA- FIA DE ABDOME. - TC evidenciando a presença de abscesso (nesta última edição do Sabiston não temos a definição do tamanho do abscesso): dre- nagem guiada por TC + antibioticoterapia. Após melhora é indicada uma colonoscopia com 4-6 semanas para afastar qualquer ou- tro possível diagnóstico (colite e neoplasia). Avaliar a necessidade de apendicectomia de intervalo após 6-8 semanas*. - TC evidenciando a presença de fleimão ou pequena quantidade de líquido: ANTIBIO- TICOTERAPIA + colono após 4-6 semanas + apendicectomia de intervalo após 6-8 semanas*. * A tradicional prática da apendicectomia de intervalo vem sendo questionada. Ela é indi- cada devido ao risco de recorrência do quadro agudo. No entanto, estudos recentes mostram que esta recorrência não é tão elevada quanto se imaginava. Muito pelo contrário, ela gira em torno de 8% dos casos e, por isso, alguns autores consideram que a apendicectomia de intervalo deve ser realizada somente naqueles pacientes com sintomas recorrentes e/ou, na- queles casos em que os exames de imagem identificam a presença de apendicolito na topo- grafia do apêndice. No entanto, esta conduta ainda não é consenso, mas é defendida pela última edição do Sabiston. Veja o FLUxOGRAMA 2 que resume a abor- dagem aos casos tardios de apendicite aguda. E se durante a cirurgia for encontrado um apêndice normal, o que fazer? Apesar de não haver um consenso, o apêndi- ce costuma ser retirado mesmo assim. Algu- mas vezes, o apêndice de aparência normal pode conter alterações inflamatórias na ava- liação histopatológica. É importante também que outras causas sejam excluídas, principal- mente o divertículo de Meckel e a doença de Crohn (delgado); linfadenopatia mesentérica e inventário da cavidade. VEJA ESSA SEQUêNCIA DE DISCURSIVAS DA PROVA DA UERJ!!! RESIDÊNCIA MÉDICA – 2016 HOSPITAL UNIVERSITÁRIO PEDRO ERNESTO – RJ Adolescente de 17 anos, sexo masculino, apresenta quadro de dor abdominal, referin- do que a dor iniciou-se na região periumbi- lical, há 24 horas, com migração posterior para a região da fossa ilíaca direita. Refere, ainda, anorexia e um episódio de vômito des- de o início do quadro. O exame físico revela dor à descompressão na fossa ilíaca direita e febre de 38ºC. Diante desse quadro: Indique o diagnóstico mais provável. Não tenha medo do simples e óbvio! Nem sempre a questão é uma pegadinha! A APEN- DICITE AGUDA DEVE SER LEMBRADA EM TODO E QUALQUER QUADRO ABDOMI- NAL AGUDO! Além de ser a causa mais co- mum, pode ocorrer em qualquer idade (mais comum na segunda e terceira décadas)...Ini- cia-se com dor periumbilical, associada ano- rexia e náusea (a ordem do aparecimento dos sintomas varia na literatura)! A dor migra para a fossa ilíaca direita em cerca de 12 horas. Vale ressaltar que a variação de posições do apêndice faz com que a dor possa ser lombar ou hipogástrica. Em geral o paciente procura movimentar-se o mínimo possível, assumindo uma posição fletida quando deitado. Gabarito: APENDICITE AGUDA! Fluxograma 2 http://#scrolldown Cirurgia - Volume 4 83Medgrupo - CiClo 2: M.E.D RESIDÊNCIA MÉDICA – 2016 HOSPITAL UNIVERSITÁRIO PEDRO ERNESTO – RJ Adolescente de 17 anos, sexo masculino, apresenta quadro de dor abdominal, referin- do que a dor iniciou-se na região periumbi- lical, há 24 horas, com migração posterior para a região da fossa ilíaca direita. Refere, ainda, anorexia e um episódio de vômito des- de o início do quadro. O exame físico revela dor à descompressão na fossa ilíaca direita e febre de 38ºC. Diante desse quadro: Cite dois mecanismos fisiopatológicos que podem provocar esse quadro. Sabemos que a fisiopatologia da apendici- te é a obstrução do lúmen apendicular, sendo o apendicolito (fecalito) o mais classicamente incriminado em toda a literatura! Outras pos- síveis causas são a hiperplasia dos folículos linfoides, neoplasias, contraste baritado indis- sipado, parasitas ou outros corpos estranhos. Sabemos que, quanto mais grave o quadro de apendicite, maior é a probabilidade de que o mesmo seja causado por um fecalito. A obstrução do lúmem leva ao acúmulo de secreção, com supercrescimento bacteriano, havendo aumento da pressão intraluminal e distensão do apêndice. Num segundo mo- mento, a obstrução acaba por comprometer o retorno venoso e linfático, gerando isque- mia do órgão, com a inflamação atingindo o peritônio parietal e localizando a dor. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2016 (ACESSO DIRETO DISCURSIVA) HOSPITAL UNIVERSITÁRIO PEDRO ERNESTO – RJ Adolescente de 17 anos, sexo masculino, apresenta quadro de dor abdominal, referin- do que a dor iniciou-se na região periumbili- cal, há 24 horas, com migração posterior para a região da fossa ilíaca direita. Refere, ainda, anorexia e um episódio de vômito desde o início do quadro. O exame físico revela dor à descompressão na fossa ilíaca direita e febre de 38ºC. Diante desse quadro: Aponte dois aspectos ultrassonográficos que confirmem a hipótese diagnóstica. Vamos lá, quais são os sinais ultrassono- gráficos na apendicite aguda? E mesmo que você não soubesse nada sobre USG, daria para você responder, bastava lembrar da fisio- patologia!!! Na apendicite aguda temos o es- pessamento da parede, obstrução do lúmem, dependendo da gravidade do quadro podemos ter também a presença de líquido periapendi- cular, entre outros!!! Veja o que diz o Sabis- ton: diâmetro anteroposterior> 7 mm; espes- samento da parede; presença de apendicolito; ausência de gás no interior do apêndice; alte- ração de gordura periapendicular e alteração do fluxo vascular apendicular. Nos casos mais avançados de doença, fluido periapendicular ou abscesso podem ser encontrados. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2016 HOSPITAL UNIVERSITÁRIO PEDRO ERNESTO – RJ Adolescente de 17 anos, sexo masculino, apresenta quadro de dor abdominal, refer- indo que a dor iniciou-se na região perium- bilical, há 24 horas, com migração posterior para a região da fossa ilíaca direita. Refere, ainda, anorexia e um episódio de vômito des- de o início do quadro. O exame físico revela dor à descompressão na fossa ilíaca direita e febre de 38ºC. Diante desse quadro: Cite dois sinais clínicos, além do descrito na apre- sentação do caso, que podem auxiliar no di- agnóstico e orientar a localização mais preci- sa da patologia. Vamos lembrar os possíveis sinais semi- ológicos da apendicite aguda: sinal de Mc- Burney (apresentado no caso em questão) é a dor à descompressão súbita do ponto de McBurney, que fica no terço lateral da linha imaginária entre a espinha ilíaca ântero-su- perior e a cicatriz umbilical. Sinal do iliopsoas é a dor provocada pela extensão e abdução da coxa direita, com o paciente deitado sobre o seu lado esquerdo. Sinal de Rovising é a dor na fossa ilíaca DIREITA ao palpar a fossa ilíaca ESQUERDA, pelo deslocamento de ar. Sinal do obturador é a dor hipogástrica provo- cada pela flexão da coxa e rotação interna do quadril. Os sinais citados acima constam no gabarito liberado pela banca. Outros sinais também deveriam ter sido aceitos – Sinal de Dunphy: dor na FID que piora com a tosse; Sinal de Lapinsky: dor à compressão da FID enquanto eleva-se o membro inferior direito extendido; Sinal de Lenander: temperatu- ra retal maior que a axilar em 1º grau; Sinal de Aaron: dor epigástrica referida durante a compressão do ponto de McBurney. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2015 SECRETARIA ESTADUAL DE SAÚDE – RIO DE JANEIRO – RJ Homem branco de 28 anos, advogado, inicia dor em região epigástrica que após algumas horas migra para fossa ilíaca direita. Na con- sulta, relatou febre, perda do apetite e apenas um episódio de vômito. Ao exame físico, refe- riu dor no quadrante inferior direito do abdome, quando o médico pressionou o quadrante in- ferior esquerdo. Os exames laboratoriais re- velaram 13.000 leucócitos com 5 bastões e piúria discreta. Diante desse quadro, a hipó- tese diagnóstica, a conduta a ser feita e o nome do sinal clínico revelado pelo paciente, respectivamente, são: a) Apendicite aguda / apendicectomia video- laparoscópica / sinal de Rovsing. b) Apendicite aguda / apendicectomia video- laparoscópica / sinal de Blomberg. c) Diverticulite aguda / tomografia computado- rizada de abdome e pelve / sinal de Murphy. d) Diverticulite aguda / tomografia computa- dorizada de abdome e pelve / sinal de Hinchey. http://#scrolldown Cirurgia - Volume 4 84Medgrupo - CiClo 2: M.E.D O que pensar de um homem na 3ª década de vida (onde a apendicite é mais prevalente), com dor abdominal aguda, com padrão migra- tório para a fossa ilíaca direita, anorexia, febre e leucocitose? Todos sabemos que o diagnós- tico de apendicite aguda é CLÍNICO e não po- demos bobear nessa questão! Para completar o quadro, o autor ainda descreve uma manobra CLÁSSICA e muito cobrada em provas práticas para investigar uma inflamação do apêndice: o sinal de Rovsing. Nele, ordenha-se o gás exis- tente no cólon esquerdo e transverso para dis- tender o cólon direito e ceco para avaliar se o paciente irá referir dor. E referiu! Não restam dúvidas: trata-se de uma apendicite aguda e deve ser realizada uma apendicectomia video- laparoscópica se existir disponibilidade de ma- terial de vídeo no hospital. Gabarito opção A. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2014 UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO – SP Homem, 19 anos de idade, deu entrada no pronto-socorro referindo dor abdominal difusa há 2 dias, com piora progressiva e migração e localização da dor na região da fossa ilíaca direita há 12h. Referia mal-estar geral, fraque- za e febre não aferida, além de inapetência e piora da dor com a deambulação. Ao exame físico inicial apresentava-se em bom estado geral, prostrado, febril, levemente taquicárdi- co. Temperatura de 37,8°C, pressão arterial e frequência cardíaca normais. Abdome com ruídos presentes e pouco diminuídos, flácido, doloroso à palpação do quadrante inferior di- reito, mais intensa na fossa ilíaca direita, com descompressão brusca positiva e sinal de Blumberg positivo, sem massas palpáveis. Qual é a incisão de via de acesso convencio- nal para tratamento cirúrgico do caso? Paciente jovem com quadro clínico de apendicite aguda, sem sinais de abscesso pericecal. É solicitada qual a incisão de via de acesso convencional para o tratamento cirúr- gico. A apendicectomia aberta em geral é re- alizada com mais facilidade por uma incisão transversa do quadrante inferior direito (Da- vis-Rockey) ou uma incisão oblíqua (McAr- thur-McBurney). Nos casos onde há um gran- de fleimão, plastrão, ou incerteza diagnóstica, uma incisão média infraumbilical pode ser uti- lizada. A escolha depende de cada cirurgião e varia de um serviço para o outro, mas de uma maneira geral, a incisão de escolha (inclusive o Sabiston) é a de McBurney. GABARITO OFICIAL: Incisão de McBurney (McBurney). RESIDÊNCIA MÉDICA – 2012 HOSPITAL UNIVERSITÁRIO DE JUNDIAÍ – SP Em relação às fases da apendicite aguda, a conduta CORRETA é: a) Fase III: drenagem da cavidade abdominal e antibioticoterapia. b) Fase I: lavagem da cavidade abdominal e antibioticoprofilaxia. c) Fase IV: drenagem da cavidade abdominal e antibioticoterapia. d) Fase II: drenagem da cavidade abdominal e antibioticoprofilaxia. e) Fase IV: lavagem da cavidade abdominal e antibioticoprofilaxia. O tratamento adequado da apendicite é ba- seado nos achados intraoperatórios. Nas fa- ses iniciais, o tratamento é a apendicectomia simples. Nos casos mais avançados, com co- leção organizada, deve ser tratada com anti- bioticoterapia, associada ou não à drenagem percutânea, e apendicectomia em segundo tempo. Nos casos com peritonite difusa, o tratamento necessariamente é cirúrgico, por via aberta ou laparoscópica, com apendicec- tomia, limpeza da cavidade e antibioticotera- pia venosa. Mas, e essa classificação que a questão cita? Apesar de absurdamente anti- ga e despropositada, alguns cirurgiões insis- tem em citá-la: Fase I: Fase edematosa ou catarral – Apên- dice inflamado, sem sinais de complicação. Fase II: Fase úlcera flegmonosa ou fleg- matosa – Apêndice extremamente edema- ciado pela obstrução do retorno linfático e venoso. Fase III: Fase Gangrenosa – Presença de necrose transmural do apêndice. Fase IV: Fase Perfurativa – Perfuração tamponada ou não do apêndice. O melhor tratamento para as duas primeiras fases seria a realização de uma apendicec- tomia simples com antibioticoprofilaxia ape- nas. Na fase III a apendicetomia deveria ser acompanhada de antibioticoterapia e colo- cação de um dreno em cavidade abdominal pelo risco de infecção intracavitária. Na fase IV, além das medidas instruídas na III, a lava- gem da cavidade é necessária. Perceba que essa classificação é extremamente impreci- sa... A opção que se “encaixa melhor” segun- do os parâmetros do autor é aquela divulga- da como gabarito do concurso: “A”. http://#scrolldown Cirurgia - Volume 4 85Medgrupo - CiClo 2: M.E.D Diverticulite Aguda DIVERtICULOSE OU DOENÇA DIVERtICULAR DO CÓLON: Presença de divertículos no cólon. - Principal local acometido: sigmoide, inserção das artérias retas. - Quadro clínico = Maioria ASSINTOMÁTICA. Pode ser dolorosa quando associada à síndrome do intestino irritável. - Complicações: Sangramento, Perfuração e Obstrução. DIVERtICULItE: Perfuração do divertículo e inflamação pericolônica. - Quadro Clínico = “Apendicite do lado esquerdo”. - Diagnóstico= Clínico ± Imagem (geralmente a TC). Evitar clister opaco e colonoscopia na fase inicial. - Fístulas: Lembrar sempre da vesical!!! Diverticu- lite é a causa mais comum de fístula colovesical e a fístula mais comum na diverticulite aguda é para a bexiga. ABORDAGEM DA DIVERtICULItE (1) NÃO COMPLICADA Tratamento clínico (ambulatorial ou internação) com antibioticoterapia + alteração na dieta ou dieta zero. Colonoscopia após 4-6 semanas. Avaliar indicação de cirurgia eletiva (número de recidivas, gravidade e comorbidades). * Pacientes imunodeprimidos ou na impossibi- lidade de afastar carcinoma de cólon = cirurgia eletiva após resolução da inflamação. Cirurgia eletiva: Procedimento de escolha = res- secção do sigmoide com anastomose primária. (2) COMPLICADA Abscesso = ≥ 4 cm = Drenagem guiada por TC + ATB + Colonoscopia (4-6 semanas) + Cirurgia eletiva (após 6-8 semanas). * Para abscessos menores (pouco material para drenar) tratamento com antibioticoterapia. Fístula = ATB + Colonoscopia (excluir câncer e doença de Crohn) + Cirurgia eletiva com correção da fístula (o orifício vesical costuma cicatrizar espontaneamente). Peritonite/obstrução intestinal refratária = Tratamento cirúrgico DE URGÊNCIA! Procedimento de escolha = Cirurgia de Hartmann (Ressecção Colônica + Colostomia e sutura do coto retal + Anastomose secundária). Fique atento pois, na última edição do Sabiston, naqueles casos em que temos peritonite purulenta (Hinchey III), a lavagem laparoscópica com dre- nagem da cavidade pode ser uma possibilidade. Antes de estudarmos a DIVERTICULITE, vamos aproveitar e fazer uma revisão sobre a doença diverticular!!! Definição/Fisiopatologia Divertículos são herniações da mucosa in- testinal pelos pontos de maior fragilidade da parede colônica, isto é, nos locais em que as artérias retas atravessam a camada muscu- lar (ver FIGURA 22). Como só existem vasos na borda mesentérica, não há formação de divertículos na borda antimesentérica. A diver- ticulose ou doença diverticular é uma doença comum nos países industrializados, principal- mente em indivíduos idosos e sem preferência entre os sexos. Geralmente são múltiplos, predominando no sigmoide, e os pacientes normalmente são assintomáticos. No caso da doença diverticular dos cólons, o nome mais correto seria pseudodivertículo, uma vez que para ser um divertículo verdadeiro deveria ter a herniação de todas as camadas das paredes intestinais e não apenas mucosa e submuco- sa, como temos na diverticulose. Figura 22 Assim, diverticulose ou doença diverticular do cólon é um termo que simplesmente re- flete a presença de divertículos colônicos! RESIDÊNCIA MÉDICA – 2014 HOSPITAL CENTRAL DA POLÍCIA MILITAR – RJ Assinale a resposta CORRETA sobre a doen- ça diverticular do cólon: a) Os divertículos são falsos, mais comum no cólon ascendente e ceco e estão localizados na área de penetração das arteríolas do cólon. b) Os divertículos são verdadeiros, mais co- mum no cólon descendente e sigmoide, e estão localizados na borda anti-mesentérica do cólon. c) Os divertículos são falsos, mais comum no cólon descendente e sigmoide, e estão loca- lizados na borda anti-mesentérica do cólon. d) Os divertículos são verdadeiros, mais comum no cólon descendente e sigmoide, e estão lo- calizados junto à tenia-anti-mesentérica. e) Os divertículos são falsos, mais comum no cólon descendente e sigmoide, e estão localizados na área de penetração das ar- teríolas do cólon. E por que a diverticulose é mais comum nos países industrializados? Vamos entender um conceito importante! Até o século XX, os estudos anatômicos curiosa- mente nunca haviam identificado a presença de divertículos em cadáveres humanos. Ana- lisando este período, a presença de grande quantidade de fibras na dieta era habitual. http://#scrolldown http://#videomiolo=CIR203079A Cirurgia - Volume 4 86Medgrupo - CiClo 2: M.E.D Contudo, após a revolução industrial, a dieta pobre em fibras e rica em carnes e carboidra- tos passou a ser ”regra” para grande parte da população ocidental, coincidindo com o aumento da incidência da doença diverticular e suas complicações. Para confirmar o fato, sociedades menos industrializadas apresen- tam incidência muito menor da doença! A explicação seria: a presença de fibras no cólon exige menor “pressão contrátil” para empurrar as fezes até o reto. Na ausência de fibras, ocorre o inverso e a pressão colônica elevada seria então a causa da herniação da mucosa. O cólon sigmoide é a porção com lúmen de menor diâmetro e a pressão no seu interior pode chegar até 90 mmHg. Por isso, é lá que se formam mais divertículos do que nas outras áreas. Inclusive, metade dos pacientes apresentam divertículos confinados apenas ao sigmoide. Uma característica marcante desta condição é a hipertrofia da camada muscular que pode inclusive preceder o aparecimento dos divertículos. Para completar: o segundo local mais comum seria o cólon descendente (40%) e a extensão dos divertículos por todo o cólon só ocorre em 5-10% dos casos. Quais são as alterações esperadas na do- ença diverticular? A maioria é assintomática e os divertículos, na verdade, são descobertos ao acaso num exame de imagem (FIGURAS 23 e 24). Existe uma for- ma de diverticulose “dolorosa” ou “hipertônica”, associada à síndrome do intestino irritável, em que os pacientes podem se manifestar com sintomas gastrointestinais. No mais, a doença diverticular apenas se manifesta clinicamente quando complica por sangramento, perfuração ou obstrução. Vamos aproveitar para lembrar que a doença diverticular é a principal causa de hemorragia digestiva baixa acima dos 50 anos e, por isso, é citada também no módulo de Hemorragia Digestiva. Figura 24 - Divertículos vi- sualizados pela colonoscopia. Figura 23 - Enema baritado mostrando diversos divertícu- los colônicos. Existe divertículo no delgado? Sim! Principalmente no duodeno e jejuno. Para a prova, devemos lembrar um especial, que é o DIVERtÍCULO DE MECkEL (FIGURA 25). Este divertículo, oriundo do fechamento incompleto do saco vitelino ou onfalomesen- térico, é a mais frequente das anomalias congênitas do aparelho digestivo (2% da população geral). Ele se origina na borda antimesentérica do íleo, a aproximadamente 45 a 60 centímetros da valva ileocecal. Estes divertículos são assintomáticos a menos que haja algum tipo de complicação, o que ocorre em 4% dos pacientes ao longo da vida, sendo mais da metade representada por pacientes com menos de dez anos. O grande problema no divertículo de Meckel é que ele pode conter uma mucosa gástrica ectópica, produtora de ácido! Agora imagina este ácido sendo des- pejado em um tecido sem proteção... Por isso ele pode levar a quadros de sangramento e perfuração, além de obstrução! As complicações mais frequentes no divertí- culo de Meckel são: sangramento, obstrução intestinal e diverticulite. Figura 25 O sangramento é a principal complicação, ocorrendo em 25-50% dos pacientes que complicam, sobretudo em crianças com menos de dois anos de idade*. Ele ocorre porque, sendo a mucosa do saco vitelino pluripotente, o divertículo possui constituição heterotópica, contendo células de vários tecidos, principal- mente gástrico (50%) e pancreático (5%). É a secreção péptica desta mucosa a responsável pelo sangramento em 25 a 50% dos casos. Uma complicação importante, mas em me- nor frequência (10 a 20%) é a diverticulite. Obstrução intestinal por intussuscepção ou volvo ileal ao redor do divertículo também pode ser encontrada. * O Schwartz traz que o sangramento é raro em pacientes com mais de 30 anos, quando a obstrução intestinal passa a ser a manifes- tação mais comum. FIQUE ATENTO!!! Você já ouviu falar na famosa “regra dos dois” para o divertículo de Meckel? Incidência de 2%, pode apresentar dois tipos de mucosa ectópica (gástrica e pancreáti- ca), está localizado a dois pés (45-60 cm) da válvula ileocecal, apresentaaproximada- mente duas polegadas de comprimento... http://#scrolldown http://#videomiolo=CIR203079B Cirurgia - Volume 4 87Medgrupo - CiClo 2: M.E.D E a Diverticulite? Imagine se perguntássemos a um engenhei- ro ou a um publicitário: o que é diverticulite? É óbvio que ele responderia: a inflamação do divertículo. No entanto, conceitualmente não é bem assim... A melhor definição para diverticulite seria a inflamação pericolônica (fora do cólon ou do divertículo) causada pela perfuração de um ou mais divertícu- los. O termo mais correto, portanto, seria peridiverticulite!! manifestações Clínicas A partir de agora, não confunda mais do- ença diverticular/diverticulose (herniação da mucosa) com diverticulite (perfuração do divertículo). A diverticulite é complicação mais frequente da doença diverticular, acometendo 10 a 25% desses pacientes. A causa provável da infla- mação diverticular do cólon é mecânica. Da mesma forma que na apendicite aguda, os fecalitos impactados na origem do divertículo comprometem o suprimento sanguíneo da frágil parede (composta apenas de mucosa e serosa). Surgem com isso ulcerações, que ficam expostas às substâncias irritativas e bactérias do conteúdo luminal... A infecção e o processo inflamatório podem ocasionar: (1) microperfurações e abscessos mesentéricos e pericólicos; (2) microperfurações para espaços livres, gerando fístulas para órgãos adjacentes; (3) drenagem para a cavidade peritoneal cau- sando peritonite generalizada; (4) inflamação repetida seguida de espessamento da parede, estreitamento da luz intestinal e obstrução. “A DIVERtICULItE É A APENDICItE DO LADO ESQUERDO!” Figura 26 O quadro clássico é uma dor no quadrante inferior esquerdo (sigmoide), que pode irra- diar para região suprapúbica, flanco e colu- na. Alteração do hábito intestinal, urgência urinária e febre com calafrios também são comuns. A dor e a hipersensibilidade local do lado esquerdo são tão características que levaram à seguinte expressão: RESIDÊNCIA MÉDICA – 2014 HOSPITAL UNIVERSITÁRIO DA ULBRA – RS Mulher com 67 anos foi internada com quadro de abdome agudo. Apresentava febre, dor no quadrante inferior esquerdo do abdome, descompressão dolorosa à palpação do baixo- -ventre. Qual o diagnóstico mais provável? a) Ruptura de folículo ovariano. b) Apendicite aguda. c) Doença inflamatória pélvica. d) Diverticulite aguda. Vamos dar uma olhada no quadro apre- sentado. Questão com enunciado curto, mas que nos dá algumas pistas para o diagnóstico. Primeira coisa é a idade da paciente, 67 anos (pouco comum um quadro de apendicite nesta idade). Além disso, a clínica é toda à esquerda, como se fosse uma “apendicite à esquerda” e, nesses casos não podemos ter dúvida, nossa principal hipótese vai ser realmente diverticu- lite aguda, gabarito letra D. Entretanto, elas podem ocorrer também no quadrante inferior direito (1,5%), simulando apendicite aguda, principalmente nos asiáti- cos, em que representam a principal forma de apresentação. Duas características ajudam a di- ferenciar a diverticulite de outras causas de abdome agudo: a dor já está presente há alguns dias antes do atendimento médico ou o pacien- te já teve essa dor antes (você não encontra um paciente com apendi- cite que vive tendo a mesma dor ou que já está há alguns dias com ela, não é verdade?). Ao exame físico, pode ser palpada massa no mesmo quadrante (fleimão ou abscesso) e, se pélvica, o toque retal e vaginal podem demons- trar uma massa dolorosa. Distensão abdominal pode estar presente nos quadros obstrutivos secundários ao processo inflamatório. O labo- ratório é inespecífico, mas costuma mostrar leucocitose com desvio para esquerda. Sabendo-se que a apresentação clínica da diverticulite segue uma determinada evolução, Hinchey propôs a seguinte classificação para a doença: - Estágio I: abscesso pericólico ou mesentérico - Estágio II: abscesso pélvico - Estágio III: peritonite purulenta generalizada - Estágio IV: peritonite fecal generalizada Não passe o olho displicentemente pela clas- sificação de Hinchey... Tem que decorar!!! Ela tem sido alvo cada vez mais frequente nas provas de residência! Algumas questões te cobram a classificação diretamente, no en- tanto, como veremos daqui a pouco, as ques- http://#scrolldown http://#videomiolo=CIR203080 Cirurgia - Volume 4 88Medgrupo - CiClo 2: M.E.D tões mais atuais exigem o conhecimento da classificação para a escolha do tratamento. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2016 HOSPITAL UNIVERSITÁRIO ANTÔNIO PEDRO – RJ De acordo com a classificação de Hinchey de diverticulite a presença de abscesso pélvico emparedado corresponde ao estágio: a) I. d) IIIb. b) II. e) IV. c) IIIa. Fácil assim? SIM!!! Veja as outras. Hinchey tem que saber. Hinchey II. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2016 HOSPITAL MILITAR DE ÁREA DE SÃO PAULO – SP Paciente de 56 anos, portador de doença di- verticular dos cólons, evoluindo com quadro clínico compatível com diverticulite aguda de sigmoide, apresentando na tomografia de ab- dome e pelve abscesso pélvico. Esse quadro clínico corresponde à classificação de Hinchey: a) III. d) IV. b) I. e) IIB. c) II. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2015 HOSPITAL MUNICIPAL DR. MÁRIO GATTI – SP Paciente de 55 anos, foi levado ao serviço de emergências com dor abdominal intensa e difusa, taquicárdico e hipotenso. Foi reali- zado laparotomia exploradora e identificado diverticulite complicada, com peritonite puru- lenta generalizada. Segundo a classificação de Hinchey para diverticulite complicada, as- sinale a alternativa abaixo com a classificação CORRETA para o achado desse paciente. a) Estádio I. c) Estádio III. b) Estádio II. d) Estádio IV. Diagnóstico Pode ser feito com relativa segurança a partir da história e do exame físico e o tratamento estabelecido apenas com esses dados. Quando o diagnóstico é duvidoso são neces- sários um dos quatro métodos de imagem: TC, RMN, USG e enema contrastado (clister opaco). A TC é considerado o teste de escolha pela maioria dos cirurgiões! O uso de triplo contraste é capaz de aumentar ainda mais a acurácia diagnóstica. Com a TC identificamos espessamento da parede colônica (> 4 mm), abscessos peridiverticulares (foto abaixo), fístu- las e coleções líquidas intra-abdominais. Além de diagnóstica, ela pode ser terapêutica, ao guiar a drenagem percutânea dos abscessos. Dentre estes exames, devemos fazer uma ressalva para o enema contrastado! Pelo ris- co de extravasamento de contraste pelo sítio de perfuração, este método deve ser evitado. Se for utilizado, deve ser dada preferência a contrastes hidrossolúveis e não o baritado (maior risco de peritonite). Outro método as- sociado a complicações seria a colonoscopia. Os livros de cirurgia colocam que, nos casos em que o tratamento depende da exclusão de um câncer com perfuração secundária, a sigmoidoscopia limitada e sem insuflação de ar poderia ser usada. Figura 27 - TC de pelve mostrando diverticulite com abscesso. A ultrassonografia, apesar de um exame exa- minador dependente, pode atingir uma alta acurácia diagnóstica. Nela, podem ser visu- alizados um espessamento hipoecogênico da parede do cólon, estreitamento do lúmen, região de hiperecogenicidade envolvendo o segmento acometido, abscessos e aparência de alvo quando o cólon transverso é acome- tido. Mesmo sendo um exame barato e não invasivo, não é um exame frequentemente solicitado para diagnóstico de diverticulite... RESIDÊNCIA MÉDICA – 2016 UNIVERSIDADE ESTADUAL DO PIAUÍ – PI Para um paciente com suspeita de diverticulite aguda, o exame mais indicado para avaliação é: a) US abdominal total. b) Retossigmoidoscopia flexível. c) Videocolonoscopia. d) Enema Opaco. e) TC abdominal. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2016 HOSPITAL SÃO JULIÃO – MS Qual o melhor exame complementar a ser solicitado em um paciente com suspeita de diverticulite? a) Colonoscopia. b) Tomografia de abdome. c) Enema opaco. d)Ultrassonografia de abdome total. Não tem como errar! Como acabamos de ver, o melhor exame na suspeita de diverticu- lite aguda é a TOMOGRAFIA. Gabaritos E e B respectivamente. CONCEItO: O principal diagnóstico diferencial da diverticulite é o câncer de retossigmoide. http://#scrolldown http://#videomiolo=RCIR203081 Cirurgia - Volume 4 89Medgrupo - CiClo 2: M.E.D Após quatro a seis semanas da resolução de um quadro de diverticulite, complicada ou não, todo paciente deverá ser submetido a investigação de câncer de cólon através de sigmoidoscopia ou colonoscopia (método de escolha). A impossibilidade de investigação é critério de ressecção do seguimento afetado. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2014 SANTA CASA DE MISERICÓRDIA DE SÃO PAULO – SP Homem de 62 anos é admitido no PS com queixa de dor abdominal em mesogastro há três dias, em cólica e que depois se tornou contínua em FIE. Refere febre (38°C) e ina- petência nesse período. Ao exame clínico apresenta discreta distensão abdominal com dor à palpação de flanco e FIE com descom- pressão brusca positiva localizada em FIE. Hemodinamicamente normal. Apresenta 12.100 leucócitos/mm³ sem desvio, PCR: 6,0; Creatinina 1,0 mg/dl e gasometria normal. Para esse doente nesse momento, deve-se evitar a realização de: a) Retossigmoidoscopia. b) Tomografia de abdome e pelve. c) Ultrassonografia abdominal e pélvica. d) Radiografia simples de abdome. e) Enema opaco com bário. Idoso + Dor abdominal em FIE + Febre + Leucocitose = Diverticulite, confere? Só que existe um outro diagnóstico muito importante que também deve ser excluído nessa investi- gação: o câncer colorretal. E é exatamente nesse ponto que a maioria dos candidatos “escorregou”. Em paciente com mais de 50 anos, é fundamental excluir o diagnóstico de câncer de colorretal. E é aí que entra a retos- sigmoidoscopia. Esse exame pode sim ser utilizado para descartar o câncer, DESDE QUE NÃO SEJA INSUFLADO GÁS NA LUZ INTES- TINAL E SEJA FEITO COM CUIDADO REDO- BRADO. Tal manobra pode aumentar a pres- são dentro das alças e piorar as microperfu- rações colônicas. Muitos candidatos queixa- ram-se dessa questão alegando que tanto a retossigmoidoscopia quanto o enema eram contraindicados, mas entendam: não insuflar ar durante o exame NÃO O CONTRAINDICA! É apenas um detalhe técnico. Agora, colonos- copia não deve ser feita no quadro agudo. E o enema? Não é que ele seja contraindicado, mas deve ser evitado; o risco de extravasa- mento do contraste e aumento da perfuração limitam este método! Lembrando que, se mes- mo assim alguém fizer o enema, o contraste deve ser hidrossolúvel. Resposta letra E. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2010 UNIVERSIDADE FEDERAL DO AMAZONAS – UFAM O diagnóstico diferencial mais importante da doença diverticular dos cólons complicada deve ser feito com: a) Retocolite ulcerativa. b) Doença de Crohn. c) Adenocarcinoma de sigmoide. d) Colite isquêmica. e) Estenose actínica. Questão realmente importante. As lesões neoplásicas do cólon podem simular qualquer apresentação da diverticulite. Assim, sempre é necessária sua exclusão através de colonos- copia. Opção “C” correta. tratamento 1- DIVERtICULItE NÃO COMPLICADA Neste caso, a perfuração do divertículo foi bloqueada, não dando tempo para formar outras complicações. Pode se comportar de duas formas: Sintomas mínimos e poucos sinais de in- flamação: dieta líquida sem resíduos e um esquema antibiótico oral, com espectro para bastonetes Gram-negativos e germes anae- róbios, é recomendado por sete a dez dias (ex.: Ciprofloxacin + Metronidazol ).Como a maior parte dos esquemas antibióticos não cobrem enterococos, na persistência ou piora do caso estaria indicada associação com am- picilina. A utilização de morfina como opção analgésica não é recomendada, pois esta droga leva a um aumento na pressão intra- colônica. Nesses casos, a meperidina pode ser utilizada devido ao seu efeito relaxante da musculatura lisa do cólon. Sinais de inflamação exuberantes (febre, leucocitose com desvio, descompressão do- lorosa): internação hospitalar, dieta zero, hidratação venosa e antibioticoterapia parenteral (Cefalosporina de 3ª geração + Metronidazol). RESIDÊNCIA MÉDICA – 2015 HOSPITAL UNIVERSITÁRIO DE JUNDIAÍ – SP Mulher, 60 anos, obesa, com queixa de dor em quadrante inferior esquerdo do abdome, há 06 dias, procura o pronto -socorro. Refere febre ‘’baixa’’ associada. Exame físico: abdo- me globoso com massa palpável e doloroso no mesmo quadrante que referiu a queixa, exame proctológico sem alterações. Realizou tomografia computadorizada que mostrou processo inflamatório envolvendo o sigmoide associado a divertículos e presença de uma tem peritonite generalizada, abscesso, fístula ou obstrução? SIM NÃO Vamos dividir o quadro em dois tipos: DIVERtICULItE http://#scrolldown http://#page=227 Cirurgia - Volume 4 90Medgrupo - CiClo 2: M.E.D pequena coleção pericólica. Nesse momento, a melhor conduta é: a) Drenagem via laparoscópica da coleção pe- ricólica e antibioticoterapia sistêmica. b) Laparotomia exploradora para ressecção do sigmoide e antibioticoterapia sistêmica. c) Tratamento conservador com uso de anti- bioticoterapia sistêmica. d) Laparotomia exploradora para drenagem do abscesso e antibioticoterapia sistêmica. e) Drenagem percutânea da coleção e anti- bioticoterapia sistêmica. Quadro clássico de diverticulite aguda: te- mos uma “apendicite aguda” à esquerda e um TC evidenciando o processo inflamatório pe- ridiverticular e discreta coleção pericólica. Veja que a paciente está com seis dias de evolução, sem repercussão hemodinâmica. Além disso, estamos diante de uma diverticulite Hinchey I. Nesses casos, devemos adotar uma condu- ta conservadora com antibioticoterapia. Ga- barito letra C. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2014 INSTITUTO FERNANDES FIGUEIRA – RJ Paciente de 60 anos com quadro de dor abdominal em flanco esquerdo com aproxi- madamente 48 horas de evolução, refratária ao uso de sintomáticos. Realizou TC abdo- minal e pélvica com laudo do radiologista de diverticulite aguda complicada (Hinchey I). O melhor tratamento indicado para esse paciente será: a) Antibioticoterapia venosa e analgésicos. b) Laparotomia exploradora com colostomia tipo Hartmann. c) Laparotomia exploradora com anastomose primária sem colostomia. d) Laparotomia explorado com anastomose primária e ileostomia de proteção. Nosso paciente apresenta diverticulite não complicada. Logo, a princípio, ele não neces- sita de tratamento cirúrgico. Resposta letra A. Qual é a evolução esperada? Em pacientes que não complicam, notamos uma melhora das manifestações em 48 a 72 horas. Estes podem receber alta e completar o esquema antibiótico com fármacos orais em casa por mais sete a dez dias. Após 4-6 semanas do término de tratamento, torna-se necessária uma avaliação do intestino grosso para excluir neoplasia. Esta se faz através de clister opaco e/ou colonoscopia (preferível). Nos pacientes que não melhoram nesse perío- do de 72h a formação de um abscesso pélvico deve ser suspeitada. Após o primeiro episódio de diverticulite não complicada, a grande maioria dos pacientes pode ser acompanhada clinicamente. Não há necessidade de cirurgia eletiva após a re- solução do processo, devendo ser prescrita uma dieta rica em fibras. A exceção fica para os imunodeprimidos que respondem mal ao tratamento clínico e a sigmoidectomia eletiva deve ser realizada após o primeiro ataque. De- vemos lembrar, no entanto, que a mortalidade também é maior nestes pacientes. Embora muitos cirurgiões recomendassem o tratamento cirúrgico para pacientes mais jovens, em que a história natural da doen- ça é menos conhecida, trabalhos recentes mostraram que estes pacientes devem ser tratados da mesma maneira que pacientes acima de 50 anos, ou seja, sem cirurgia após o primeiro episódio. A conduta começa a mudar depois do segun- do episódio. A ideia é de que quanto maior o número derecidivas, maior também o núme- ro de manifestações mais graves da doença (abscessos, fístulas e perfurações). Mas aqui entra uma polêmica: existem trabalhos que mostram diferentes momentos ideais para in- dicar o tratamento cirúrgico. A cirurgia indicada é a ressecção eletiva do segmento intestinal mais acometido (geralmente o sigmoide), após 6-8 (ou mais) semanas de resolução da inflamação aguda. É necessária a remoção de toda área colônica que esteja espessada (ge- ralmente, todo o sigmoide), seguida de anas- tomose entre o cólon descendente e o reto. A principal causa de diverticulite recorrente é a remoção incompleta do cólon acometido, que se encontra caracteristicamente espessado. A taxa de recorrência nesses casos pode chegar a 12%. Nos casos em que houver divertículos por todo o cólon (5 a 10% dos casos), não é necessária a remoção de toda a sua exten- são, mas apenas da parte afetada. A fístula que tenha se formado com a pele durante a drenagem é facilmente corrigida na cirurgia. Resumindo: É a partir do segundo episódio de diverticulite que o tratamento cirúrgico eletivo começa a ser considerado. Se o momento ideal é depois do 2º, 3º ou 4º episódios, não há uma resposta definitiva. Classicamente e pela maioria das questões, considera-se após o 3º episódio. Agora, fique atento para a sua prova pois a nova edição do Sabiston con- templa um fato cada vez mais considerado: o importante sempre é o paciente, ou seja, a conduta sempre deve ser individualizada e, por isso, a ideia mais atual é que, após o primeiro episódio, a ressecção eletiva com anastomose primária já pode ser considerada. Para a decisão devemos pensar na idade do paciente, no número de recidivas, na gravida- de e na presença de comorbidades. Naqueles pacientes imunodeprimidos ou quan- do não conseguimos afastar a possibilidade de um câncer colorretal, a cirurgia é sempre indicada após a primeira manifestação. Mas como sabemos que nem todas as bancas se atualizam, preferimos manter no material como era e o que a nova edição nos traz... Nunca se sabe como este assunto pode ser cobrado!!! http://#scrolldown Cirurgia - Volume 4 91Medgrupo - CiClo 2: M.E.D RESIDÊNCIA MÉDICA – 2010 FACULDADE DE MEDICINA DE PETRÓPOLIS – FOG O tipo de paciente que se beneficia com cirur- gia eletiva para doença diverticular depois do primeiro episódio de diverticulite é: a) Pacientes jovens com menos de 25 anos. b) Mulheres em idade fértil. c) Pacientes imunodeprimidos. d) Homens com idade superior a 60 anos. A indicação clássica de cirurgia eletiva após o primeiro episódio de diverticulite recai sobre os pacientes imunodeprimidos, já que um novo episódio poderia trazer um índice de mortalidade e complicações inaceitáveis. Opção “C” correta. 2- DIVERtICULItE COMPLICADA Abscessos pericólicos e intramesentéricos localizados: com exceção dos pequenos abs- cessos (< 4 cm), deve ser realizada drenagem percutânea guiada pela TC ou USG + anti- bioticoterapia. Após cerca de 6-8 semanas da drenagem, o procedimento cirúrgico definitivo é realizado através da excisão eletiva do seg- mento afetado. Agora atenção, não devemos esquecer nunca de realizar uma colonoscopia antes da cirurgia para afastarmos a possibili- dade de neoplasia. Uma laparotomia ou uma laparoscopia de urgência pode ser necessária caso não seja possível drenar o abscesso por via percutânea ou se o paciente apresentar deterioração clínica evidente. RESUMINDO: para abscessos ≥ 4 cm = drenagem guiada por TC + ATB + colonosco- pia (4-6 semanas) + cirurgia (6-8 semanas). *Fique atento pois o tempo necessário para a realização da cirurgia eletiva varia muito de autor para autor. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2016 SELEÇÃO UNIFICADA PARA RESIDÊNCIA MÉDICA DO ESTADO DO CEARÁ – CE Paciente com 47 anos, masculino, foi diagnos- ticado clinicamente com diverticulite aguda em uma emergência, há 10 dias, e iniciou trata- mento com restrição alimentar e antibióticos orais, ambulatorialmente. Há uma semana, teve piora do quadro, apresentando 2 picos fe- bris de 38,7°C e intensificação da dor em fossa ilíaca esquerda, sendo hospitalizado e iniciada antibioticoterapia parenteral. Na admissão, fez tomografia computadorizada (TC) do abdome que evidenciou abscesso perimesocólico com 5 cm, na topografia do sigmoide, sem líquido livre na cavidade ou evidências de pneumo- peritônio. Hoje, é mantido em internação hos- pitalar, com 1 pico febril diário, dificuldade de realimentação oral e dor profunda em FIE sem sinais de aumento da dor à descompressão brusca. Na TC de controle, há persistência de abscesso com diâmetro de 4 cm. Com base nas informações acima, qual das alternativas abaixo representa a conduta mais indicada no caso? a) Indicar drenagem laparoscópica do abscesso. b) Indicar drenagem percutânea guiada por TC. c) Manter a conduta atual e repetir a TC com 14 dias. d) Manter a conduta clínica e trocar o esquema antibiótico. Abscesso pericólico grande ≥ 4 cm = dre- nagem + ATB. Gabarito B. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2014 INSTITUTO DE ASSISTÊNCIA MÉDICA AO SERVIDOR PÚBLICO ESTADUAL – SP Paciente, com 60 anos, sente dor na fossa ilíaca esquerda há 48 horas, apresenta febre e tem irritação localizada. A TC mostrou tratar- -se de diverticulite classificada como Hinchey II. Acerca do caso clínico exposto, é correto afirmar que a conduta é antibioticoterapia e: a) Retossigmoidectomia à Hartmann. b) Acompanhamento ambulatorial. c) Transversostomia. d) Drenagem percutânea. e) Laparotomia exploradora. Paciente com diverticulite classificada como Hinchey II, ou seja, o abscesso intracavitário que ultrapassou os limites do cólon atingido, sendo melhor manejado com drenagem percu- tânea do mesmo GUIADA POR TC OU USG! Gabarito correto: letra D. Fístulas: as mais comuns são as formadas para a bexiga, vagina e intestino delgado (para a pele geralmente se dá após drenagens percutâneas). Para a prova, a mais importante delas, já ressaltamos: fístula sigmoide-vesical (também a mais comum). Esta relação é mais frequente até mesmo do que a doença de Crohn e o câncer (colorretal ou bexiga). Como o útero previne a ligação direta entre as duas estruturas, estas fístulas são mais comuns no homem que na mulher. Mulheres com este tipo de fístula geralmente são histerectomizadas. A fístula leva à pneumatúria (ar na urina, ob- servada no final da micção), fecalúria e ITU de repetição. O teste mais confiável para a detecção destas fístulas é a TC. Figura 28 - Fístula sigmoide-vesical. O primeiro passo para o tratamento de qual- quer uma das fístulas é o controle do quadro infeccioso através da antibioticoterapia. Em seguida, uma colonoscopia deve ser realizada para excluir a doença de Crohn e, principal- http://#scrolldown Cirurgia - Volume 4 92Medgrupo - CiClo 2: M.E.D mente, câncer colorretal. Este último requer uma cirurgia maior com a retirada “em bloco” dos demais órgãos. Apenas depois destas etapas a cirurgia será realizada (ressecção do cólon espessado) com a simultânea correção da fístula. O orifício da bexiga é geralmente tão pequeno que não precisa ser fechado e ci- catriza espontaneamente em sete dias. Basta deixar um cateter Foley por esse período. Se houver inflamação importante nas cavidades abdominal e pélvica, a ponto de alterar a vi- sualização e anatomia de estruturas como o ureter, alguns stents pré-operatórios podem ser colocados no próprio ureter para facilitar a sua localização. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2016 COMISSÃO ESTADUAL DE RESIDÊNCIA MÉDICA DO AMAZONAS – AM A diverticulite colônica da fase aguda pode complicar com fístulas entre o cólon e os ór- gãos adjacentes. A mais frequente complica- ção desta natureza é manifestada pelas: a) Fístulas colovaginais. b) Fístulas coloentéricas. c) Fístulas colocutâneas. d) Fístulas colovesicais. Lembrando que elas são mais comuns no sexo masculino! As mulheres tem no útero um protetor para ocorrência dessas fístulas.Gabarito D. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2014 SECRETARIA MUNICIPAL DA SAÚDE – SP Um senhor de 51 anos refere dor pélvica há 7 dias, acompanhada de vômitos, anorexia e febre. A dor piora com a alimentação. Há 2 dias, refere pneumatúria. Nega emagrecimen- to. Previamente hígido, não tinha alteração do hábito intestinal. Nunca fumou. IMC: 35 kg/ m². Está em regular estado geral. Temperatu- ra axilar: 37,8°C. O abdome é globoso, com “massa’’ dolorosa em fossa ilíaca esquerda. Principal hipótese diagnóstica: a) Câncer de próstata fistulizado. b) Diverticulite aguda, com fístula para bexiga. c) Neoplasia de sigmoide, fistulizada para bexiga. d) Pionefrose. e) Neoplasia de bexiga perfurada. Paciente de 51 anos com sintomas de pneu- matúria, febre e “massa” dolorosa em fossa ilíaca esquerda. Como raciocínio diagnóstico, podemos associar um quadro de diverticulite aguda que complicou com uma fístula para a bexiga. A fístula colovesical é o tipo mais co- mum de fístula resultante de diverticulite aguda. A prevalência de doença diverticular aumenta com a idade e atinge um terço da população acima dos 45 anos e está estimada entre 50 a 60% para indivíduos maiores de 80 anos. Obstrução: a forma mais comum é a obstru- ção do delgado – por aderência ao fleimão ou abscesso – e o tratamento consiste na drena- gem nasogástrica e antibioticoterapia. Apenas nas obstruções totais refratárias e naquelas em que não há resposta clínica é que são feitas as cirurgias emergenciais. Uma forma rara de obstrução é a estenose do sigmoide por hipertrofia muscular da parede colônica. Nesses casos, a principal importância vem da dificuldade em se excluir a malignidade como causa da obstrução (o colonoscópio não passa pela estenose!). A sigmoidectomia é então realizada. Figura 29 - TC de um paciente com his- tória de diverticulite evidenciando a presença de ar dentro da bexiga: fís- tula sigmoide-vesical. Peritonite generalizada Pode ser de dois tipos: - Peritonite fecal (ruptura direta do divertículo para o peritônio): não ocorre o “bloqueio peritoneal esperado”. - Peritonite purulenta (ruptura de um absces- so pericólico). Nos casos de peritonite (Hinchey III ou IV) geralmente estamos diante de uma emergên- cia cirúrgica e uma laparotomia está indicada com o intuito de remover a contaminação e ressecar o segmento colônico acometido (sig- moidectomia a Hartmann). Ou seja: medidas de reanimação volêmica + antibioticoterapia + laparotomia. As cirurgias colorretais de urgência estão relacionadas a uma considerá- vel taxa de morbidade e mortalida- de. Por isso, alguns autores defen- dem que, em pacientes mais graves com peritonite purulenta (Hinchey III), uma opção seria a LAVAGEM LAPAROSCÓPICA. Entenda: atra- vés de uma laparoscopia realiza-se a lavagem da cavidade com soro aquecido + colocação de drenos + antibioticoterapia. Caso o paciente não evolua de forma favorável, a ci- rurgia é mandatória. A última edição do Sabiston defende esta conduta como uma possibilida- de no tratamento desses pacientes. Quais são as cirurgias empregadas no tra- tamento da diverticulite? Eletivas: O procedimento de escolha é a res- secção do sigmoide com anastomose primária http://#scrolldown Cirurgia - Volume 4 93Medgrupo - CiClo 2: M.E.D (em um único tempo cirúrgico) terminotermi- nal (geralmente entre o cólon descendente e o reto) por sutura manual ou com auxílio do grampeador cirúrgico. acabamos de ver, mas sim uma cirurgia em dois tempos. A principal cirurgia realizada é a de Hart- mann. Nesta técnica, constam quatro passos: 1- Ressecção do cólon sigmoide afetado. 2- Construção de colostomia com o cólon des- cendente não inflamado. 3- Sutura do coto retal. Após a resolução da doença, o que requer pelo menos dez semanas, prosseguimos com o quarto e último passo: 4- Reconstrução do trânsito intestinal com a anastomose entre o cólon descendente e o reto. (Esta anastomose é dita secundária). Outras opções no manejo emergencial das diverticulites: Confecção de uma fístula mucosa: Tam- bém realizada em dois tempos de cirurgia, analogamente ao procedimento de Hart- mann. A diferença está no manejo do coto retal. Ao invés do mesmo ser fechado, ele é ancorado a parede abdominal, de forma si- milar a uma colostomia. A confecção dessa fístula mucosa, apesar de mais trabalhosa, torna mais fácil a reconstrução do trânsito no segundo tempo de cirurgia. Confecção de um estoma protetor se- guido de tamponamento da perfuração com omento e drenagem da cavidade: Em paciente com diverticulite perfurada e estado geral muito debilitado a sigmoidec- tomia por si só pode trazer um elevado grau de morbimortalidade. Uma opção é lavagem da cavidade seguida da confecção de um estoma protetor (ex.: ileostomia, colostomia em cólon transverso, etc.) tamponamento da perfuração colônica com omento e co- locação de dreno intracavitário. Saiba maiS: É uma complicação rara da doença diverti- cular. Geralmente surge no sigmoide em sua borda antimesentérica (ao contrário dos outros divertículos) e pode chegar a ter 40 cm de diâmetro, mantendo uma média de 13 cm no geral. Como é repleto de ar, possui uma fácil visualização na radiografia simples de abdo- me. Os sintomas mais comumente associa- dos são dor, distensão abdominal, náuseas, vômitos e diarreia. Sua ruptura pode gerar um abdome inflamatório bem mais grave que uma simples diverticulite. O diagnóstico definitivo pode ser obtido através de uma tomografia computadorizada ou mesmo pela realização de um clister opaco. O tratamento de escolha é ressecção do divertículo junto com o seg- mento de cólon adjacente. Divertículo colônico gigante Figura 30 - Divertículo co- lônico gigante demonstra- do por um clister opaco. Figura 31 - Cirurgia de Hartmann. Emergenciais: Aqui também faremos a res- secção do segmento acometido como nas ci- rurgias eletivas. A diferença é que, em vigência de franco processo inflamatório, é pouco pro- vável que ocorra uma cicatrização adequada entre as estruturas preservadas. Assim, não se pode fazer uma anastomose primária como http://#scrolldown Cirurgia - Volume 4 94Medgrupo - CiClo 2: M.E.D Sigmoidectomia com reconstrução pri- mária do trânsito e confecção de estoma protetor: Em pacientes com diverticulite Hinchey III que possuem boa condição clí- nica, uma cirurgia mais completa pode ser efetuada com reconstrução do trânsito rea- lizada no primeiro tempo. O procedimento, no entanto, também deve incluir um estoma proximal (ileostomia, colostomia em cólon transverso). Nas diverticulites Hinchey IV nunca se deve realizar qualquer tipo de anastomose primária. Hemicolectomia direita: Embora seja raro, as diverticulites de cólon direito também po- dem precisar de tratamento cirúrgico emer- gencial. Nessas situações o procedimento de escolha costuma ser a hemicolectomia direi- ta, seguida ou não de anastomose primária dependendo do estado clínico do paciente e do grau de inflamação intracavitário. Antes de treinar um pouco, veja a tabela abai- xo!!! Ela resume o tratamento na diverticulite. Laparoscopia: tem sido cada vez mais utili- zada, devido ao menor tempo de internação hospitalar. Uma técnica alternativa seria a laparoscopia associada à exploração manual pelo cirurgião (figura acima), o que facilitaria a divisão de aderências e a remoção de fístulas. Classificação Conduta Hinchey I (abscesso < 4 cm) Sintomas mínimos: Dieta sem resíduos + ATB oral. Sintomas exuberantes: Dieta zero + ATB IV + HV. Hinchey I (abscesso ≥ 4 cm) ou Hinchey II Drenagem guiada por TC + ATB IV +colonoscopia após 4-6 semanas + cirurgia eletiva. Hinchey III* e IV Cirurgia de urgência (geralmente Hartmann). Fístulas ATB + colonoscopia após 4-6 semanas + cirurgia eletiva (correção da fístula + ressecção segmento acometido). *Lembrar da possibilidade da lavagem laparoscópica para aqueles pacientes mais graves. As questões sobre conduta na diverticulite aguda são as quemais caem em provas. Vamos fazer uma bateria delas! RESIDÊNCIA MÉDICA – 2015 INSTITUTO FERNANDES FIGUEIRA – RJ Paciente de 48 anos com quadro de dor abdo- minal em flanco esquerdo e febre procurou a emergência e foi submetido a TC abdominal e pélvica com laudo do radiologista de diverticu- lite aguda complicada (Hinchey II). O melhor tratamento indicado para esse paciente será: a) Antibioticoterapia venosa e drenagem per- cutânea guiada. b) Laparotomia exploradora com colostomia tipo Hartmann. c) Laparotomia exploradora com anastomose primária sem colostomia. d) Laparatomia exploradora com anastomose primária e ileostomia de proteção. Abscessos pélvicos devem ser tratados pela combinação de antibioticoterapia sistê- mica + drenagem! A via preferencial de dre- nagem é a percutânea, guiada por TC ou USG. Resposta certa: A. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2015 UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO – RJ Analise a seguinte situação: Na sua UPA está um paciente com diagnóstico de abscesso na fossa ilíaca esquerda, por provável perfura- ção de divertículo. Os sinais clínicos e exa- mes complementares de abdome agudo es- tão presentes. Após hidratação e analgesia você vai encaminhá-lo para o seu hospital de referência para o tratamento cirúrgico. Su- pondo que você queira iniciar um esquema de antibióticos com atividade aeróbica e ana- eróbica de amplo espectro, as combinações que você prescreveria seriam: a) Ciprofloxacina e Metronidazol. b) Gentamicina e Tobramicina. c) Clindamicina e Cloranfenicol. d) Gentamicina e Cefotaxima. e) Amicacina e Levofloxacina. Pensando na diverticulite aguda com sin- tomas mínimos, como é o caso apresentado, a conduta deverá ser dieta líquida sem resí- duos e antibioticoterapia com espectro para bastonetes Gram-negativos e germes ana- eróbicos. Um bom exemplo é a associação de ciprofloxacino com metronidazol. Como a maior parte dos esquemas não cobrem en- terococos, na persistência ou piora do qua- dro estaria indicada a associação com am- picilina. Nos quadros mais exuberantes, a antibioticoterapia poderia ser feita com uma cefalosporina de 3ª geração + metronidazol. Gabarito A. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2014 HOSPITAL MUNICIPAL DR. MÁRIO GATTI – SP Paciente de 68 anos do sexo masculino com história de dor abdominal em quadrante inferior http://#scrolldown Cirurgia - Volume 4 95Medgrupo - CiClo 2: M.E.D esquerdo há 3 dias. Há 2 dias passou a apre- sentar febre de 38,5° e hoje iniciou dor abdo- minal difusa, acompanhada de náusea, vômitos e inapetência. Ao exame encontra-se em regu- lar estado geral, descorado+, desidratado+, com frequência cardíaca de 115 bpm e pressão arterial de 130 x 75 mmHg. Ao exame do ab- dome, dor abdominal difusa com sinais de irri- tação peritoneal. O diagnóstico mais provável e a conduta terapêutica são, respectivamente: a) Apendicite aguda; apendicectomia. b) Diverticulite; cirurgia de Hartmann. c) Colecistite aguda; colecistectomia. d) Diverticulite; antibioticoterapia. Estágio I: abscesso pericólico ou mesentérico Estágio II: abscesso pélvico Estágio III: peritonite purulenta generalizada Estágio IV: peritonite fecal generalizada Podemos perceber, portanto, que o nosso pa- ciente encontra-se classificado como Hinchey III ou IV, já que apresenta peritonite! Em todos os casos de diverticulite aguda acompanha- dos de peritonite, está indicada laparotomia exploradora imediata (associada a antibióticos – letra D incompleta) para realização de sig- moidectomia, confecção de colostomia e fe- chamento do coto retal (a famigerada Cirurgia de Hartmann). Em cerca de dez semanas, o cólon é reanastomosado ao reto para recons- trução do trânsito. Perceba que prescrevere- mos antibiótico, mas definitivamente não é uma conduta a ser feita isoladamente em ca- sos de peritonite acompanhando a diverticulite aguda. Resposta certa: Letra B. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2014 UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO – RJ A cirurgia indicada em paciente com quadro séptico devido à perfuração de divertículo em sigmoide é: a) Sigmoidectomia com colostomia. b) Rafia da perfuração e colostomia. c) Colossigmoidectomia e anastomose color- retal. d) Colectomia total e anastomose ileorretal. Nos casos graves, incluindo as classes III e IV de Hinchey, englobando também natural- mente quadros de sepse, o tratamento é ci- rúrgico. Devido ao elevado risco de deiscência nas anastomoses neste momento, prefere-se a ressecção com a realização de uma colos- tomia. Gabarito letra A. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2010 UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO – USP Homem de 60 anos de idade procura o pron- to-socorro por apresentar dor abdominal con- tínua, de início insidioso, no quadrante inferior esquerdo há três dias. Queixa-se também de distensão abdominal moderada e dificuldade para evacuar no último dia. Nega emagreci- mento e vômitos. Refere febre não medida. Nega antecedentes cirúrgicos. Exame clínico: regular estado geral, consciente, orientado, corado, anictérico, desidratado 2+/4+, frequ- ência cardíaca: 120bpm, pressão arterial; 140 X 90 mmHg, temperatura axilar; 37,8ºC, fre- quência respiratória: 20ipm. Semiologia car- díaca e pulmonar normais. Abdome; distendi- do, dor à palpação em fossa ilíaca esquerda e rigidez involuntária com descompressão brusca dolorosa positiva apenas neste local, ruídos hidroaéreos aumentados. A hepatime- tria é de 12 cm e o baço não é percutível. Foram realizados os seguintes exames com- plementares : Hb:14 g/dl, Ht; 42% , plaquetas; 180.000/mm³, leucócitos: 14,000/mm³ (88% de neutrófilos, 12% linfócitos). Radiografia simples de abdome: vide figura. Cite o ou os diagnósticos sindrômicos e suas principais causas. Questão ótima da USP! Percebam que não é necessário fazer uma questão difícil para fazer uma questão boa! Para aqueles que dominam bem os temas básicos, como diverticulite, essa era uma questão “ganha” na prova. Vamos ao caso. Mais uma vez encontramos um paciente idoso com abdome agudo inflama- tório (lembre-se de descompressão dolorosa) com dor localizada em fossa ilíaca esquerda. Com esses dados, a diverticulite deve ser sua principal hipótese diagnóstica. No entanto, o quadro não se resume somente a esses achados. Encontramos ainda disten- são abdominal, parada da eliminação de fezes, desidratação e uma radiografia de abdome que demonstra uma dilatação da alças de delgado (sinal do empilhamento de moedas) e dilatação colônica “emoldurando” as alças de delgado. Esse tema será visto melhor em futuras apostilas do MED, mas trata-se de um quadro de obstrução intestinal clássica. É possível encontrarmos obstrução intes- tinal na diverticulite? Claro que é! Seja por íleo adinâmico, ade- rência de alças ao fleimão ou ao abscesso, a obstrução é uma complicação frequentemen- te encontrada na diverticulite e seu achado deve corroborar ainda mais a hipótese diag- nóstica principal. Gabarito MED: Síndrome de obstrução intes- tinal, diverticulite. http://#scrolldown Cirurgia - Volume 4 96Medgrupo - CiClo 2: M.E.D Cite o ou os exames complementares que confirmam o ou os diagnósticos e auxiliam no planejamento do tratamento. Aqui é para acertar e correr para o abra- ço! Você já sabe que o melhor exame para o diagnóstico, classificação e planejamento da abordagem terapêutica na diverticulite é a tomografia computadorizada de abdome. Gabarito MED: Tomografia computadorizada de abdome. Outras Causas de Dor no Abdome Inferior geniturinária Pode ser originária de torção testicular, com dor escrotal que irradia para o abdome, asso- ciada ou não a náuseas, vômitos e febre. O paciente apresenta hipersensibilidade do saco escrotal, aumento do volume e uma posição discretamente elevada por conta do encurta- mento do cordão com a torção. A distensão ve- sical (“bexigoma”), característica dos quadros de hiperplasia prostática benigna, pode levar à dor abdominal intensa no abdome inferior, as- sociada à palpação do globo vesical. A melhora brusca ocorre após ocateterismo vesical. A nefrolitíase consiste em um importantíssimo diagnóstico diferencial dos quadros abdomi- nais agudos. A dor é tipicamente em cólica e pode ter intensidade variável com crises que duram geralmente de 20 a 60 minutos. O lo- cal da obstrução determina a localização da dor. Ureter proximal = dor nos flancos. Ureter distal = dor testicular, irradiada para base do pênis ou grandes lábios. O principal desafio é para aqueles que apresentam dor abdominal na ausência de dor característica nos flancos. As infecções urinárias são outra grande cau- sa de abdome agudo. Da mesma forma que a nefrolitíase, pode cursar com dor abdominal inespecífica sem o achado característico da punhopercussão positiva (sinal de Giordano), principalmente quando predominam os sinto- mas baixos (ex.: disúria). O exame de urina realizado na emergência, quando mostra piúria, teste do nitrito positivo e presença de bactérias, pode ajudar na diferenciação. Ou- tras condições inflamatórias, como a apendi- cite aguda, também podem cursar com piúria, mas sem bacteriúria. Dor pélvica Engloba uma série de condições (doença in- flamatória pélvica, doenças anexiais, degene- ração leiomiomatosa, infecção puerperal, etc.) que fazem importante diagnóstico diferencial com outras causas de dor abdominal nas mu- lheres. Esta condição foi tratada brevemente no tópico “Abdome Agudo na Mulher e nas Gestantes”, e será abordada também no mó- dulo de Ginecologia-Obstetrícia. http://#scrolldown Cirurgia - Volume 4 97Medgrupo - CiClo 2: M.E.D DOr nO AbDOmE DIFuSA Isquemia Intestinal IRRIGAÇÃO INtEStINAL = três artérias = Tronco Celíaco + A. Mesentérica Superior + A. Mesentérica Inferior. FORMAS CLÍNICAS (1) Isquemia Colônica (mais comum) - Acomete vasos mais distais, próximos à pa- rede do cólon. - Quadro clínico: Idoso + dor abdominal difusa + febre + diarreia sanguinolenta. - Diagnóstico -> Sinal sugestivo: “Thumbprint” ou das impressões digitais. - Tratamento: Maioria é clínico. As principais indicações cirúrgicas são: Aguda: Peritonite, sangramento maciço ou colite fulminante universal. Subaguda: Pacientes sintomáticos ou com colo- patia perdedora de proteínas mesmo após duas a três semanas de tratamento; cicatrização apa- rente, mas com episódios recorrentes de sepse. Crônica: Estenose ou colite crônica sintomá- ticas. (2) Isquemia Mesentérica Aguda Principal vaso acometido = artéria mesen- térica superior. Causas: (1) Embolia (mais comum, distal) / (2) trombose arterial (proximal) / (3) vasoconstric- ção / (4) trombose venosa (jovens). Quadro Clínico: Fator de risco (FA, cardio- patia, drogas, etc.) + Dor abdominal intensa e desproporcional ao exame físico + Manifesta- ções sistêmicas (febre, leucocitose, acidose). Diagnóstico: Suspeita clínica + Arteriografia. tratamento: • Embolia: Embolectomia / Ressecção de alças necrosadas / infusão intra-arterial de papaverina/ Anticoagulação. Trombose: Trombectomia / Revasculari- zação / Ressecção de alças necrosadas / infusão intra-arterial de papaverina. • Vasoconstrição: Retirada de substâncias precipitantes / infusão intra-arterial de pa- paverina. • Trombose venosa: Ressecção do segmento infartado + trombectomia + heparinização. (3) Isquemia Mesentérica Crônica Causa: Obstrução de vaso mesentérico por aterosclerose. Quadro clínico = angina mesentérica (dor que piora com a alimentação) + emagreci- mento (“medo de comer”) + outros sinais de aterosclerose (sopro carotídeo, femoral...). Diagnóstico: História Clínica + Arteriografia com obstrução > 50% de duas artérias. tratamento: Revascularização cirúrgica / Angioplastia. Quando falamos em isquemia intestinal, não estamos nos referindo a uma doença em si, mas a um conjunto de alterações agudas ou crônicas que acometem tanto o intesti- no delgado quanto o cólon. Se pensarmos bem, a isquemia intestinal não difere muito da isquemia miocárdica. Inclusive, a grande apresentação clínica também é a “angina”, que no caso recebe o nome de dor abdominal. uma revisão da Anatomia... Antes de começar o estudo da isquemia intesti- nal, é fundamental que você reveja os aspectos principais da vascularização abdominal! Mas tente não enxergar este assunto com os mes- mos olhos do primeiro ano da faculdade, nas aulas de anatomia... Veja agora como parte integrante e fundamental do entendimento da doença vascular intestinal. Perceba, por exem- plo, que a fascinante anatomia vascular deste sistema proporciona uma rede cuidadosamente desenhada de colaterais capazes de prevenir uma grande parte dos infartos intestinais. não Existe uma “Artéria Intestinal”! Pois é! Não existe uma artéria única, mas três artérias (veja abaixo) que formam o complexo de irrigação intra-abdominal. 1- tRONCO CELÍACO = A. hepática comum (fígado e vias biliares, estômago, porção proximal do duodeno); a. lienal ou esplênica (baço, pâncreas, estômago); a. gástrica esquerda (estômago; porção inferior do esôfago). 2- ARtÉRIA MESENtÉRICA SUPERIOR = Parte do pâncreas e porção distal do duodeno (a. pancreatodudoenal inferior); íleo, jejuno, ceco e apêndice (aa intestinais e a. ileocólica); cólon as- cendente (a. cólica direita) e cólon transverso (a. cólica média). 3- ARtÉRIA MESENtÉRICA INFERIOR = Porção distal do cólon transverso e o cólon descendente (a. cólica esquerda), sigmoide (a. sigmoidea) e as porções proximais do reto (a. retal superior)*. * A porção inferior do reto é irrigada por um ramo da artéria pudenda interna que, por sua vez, nasce da artéria ilíaca interna. 97 http://#scrolldown Cirurgia - Volume 4 98Medgrupo - CiClo 2: M.E.D Observem como não podemos subestimar esse tópico... RESIDÊNCIA MÉDICA – 2012 SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE – SUS – PER- NAMBUCO – PE No que tange à circulação mesentérica, assi- nale a afirmativa CORRETA. a) O íleo tem mais arcadas vasculares do que o jejuno. b) A artéria de Drummond, também chamada de arco de Riolan, comunica o tronco celíaco com a mesentérica inferior. c) Devido a sua extensa rede colateral, é rara a ocorrência de infarto intestinal, quando há obs- trução aguda da artéria mesentérica superior. d) O sistema venoso portal é rico em válvulas. e) A oclusão venosa mesentérica ocorre mais devido à embolia do que a trombose. Analisando as opções: A – O jejuno apresenta poucas arcadas ca- librosas com vasos retos, enquanto o íleo apresenta muitas arcadas mais finas, com múltiplas anastomoses. Correta. B – As artérias marginais de Drummond e o arco de Riolan formam uma rede de colaterais entre a a. mesentérica superior e a. mesenté- rica inferior. Incorreta. C – A rede de colaterais pode minimizar a consequência isquêmica, mas não impede a ocorrência de infarto intestinal na vigência de oclusão da a. mesentérica superior. Incorreta. D – O sistema porta não tem válvulas. Incor- reta. E – Os casos de oclusão de veia mesentérica são por trombose. Incorreta. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2010 UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JA- NEIRO – UFRJ Em paciente com obstrução aguda de artéria mesentérica superior por êmbolo cardíaco, deve-se esperar isquemia em: a) Jejuno, íleo e cólon até metade do ascen- dente. b) Todo o intestino delgado. c) Jejuno, íleo e cólon até metade do trans- verso. d) Todo o intestino delgado e parte do cólon. Qual é mesmo o território irrigado pela mesentérica superior? Fácil de saber quando lembramos de seus ramos: - Pancreáticas duodenais inferiores: Cabeça do pâncreas e duodeno; - Jejunais: Jejuno; - Ileais: Íleo; - Ileocólica: Íleo terminal, Ceco e Apêndice; - Cólica direita: Cólon ascendente; - Cólica média: Cólon transverso. Resposta: C. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2011 UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JA- NEIRO – UFRJ Em ressecção de adenocarcinoma do ângulo esplênico do cólon, os troncos vasculares a serem ligados são: a) Cólica média e cólica esquerda. b) Mesentérica inferior e cólica esquerda. c) Mesentéricas superior e inferior. d) Cólica média e mesentérica inferior. E um ano após cai o mesmoconceito na UFRJ... Será que cairá esse ano novamente? Em relação à questão, sabemos que o ângulo esplênico é uma área de transição de vascula- rização situada entre as artérias cólica média e cólica esquerda. Opção “A” correta. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2010 SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE – SUS – BA A artéria mesentérica inferior é ramo direto da artéria: a) Hepática. d) Celíaca. b) Renal esquerda. e) Aorta. c) Mesentérica superior. Questão ganha do SUS Bahia... Os princi- pais troncos abdominais (celíaco, mesentérica superior e inferior) são ramos diretos da aorta. Alternativa E correta. Figura 32 http://#scrolldown Cirurgia - Volume 4 99Medgrupo - CiClo 2: M.E.D Figura 33 RESIDÊNCIA MÉDICA – 2009 SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE – SUS – SÃO PAULO São ramos diretos da artéria celíaca as artérias: a) Gástrica direita, hepática própria e gastro- duodenal. b) Gástrica direita, hepática comum e esplênica. c) Gástrica esquerda, hepática comum e es- plênica. d) Gástrica esquerda, hepática própria e es- plênica. e) Gastroepiploica direita, hepática comum e esplênica. Questão de anatomia retirada do primeiro período da faculdade! Quais são os três ramos principais do tronco celíaco? Artérias gástrica esquerda, hepática comum e esplênica. Res- posta C. Existe uma Extensa rede de Colaterais Os ramos das artérias mesentérica superior e inferior formam verdadeiros arcos (arcadas vasculares) antes de penetrarem na parede intestinal (FIGURA 33). Graças a esses arcos, os vasos são capazes de se comunicar, for- mando uma extensa rede de colaterais! Dessa forma, na presença de um processo oclusivo crônico, essas intercomunicações permitirão um fluxo suficiente para evitar a isquemia. As Artérias retas As arcadas vasculares penetram na parede intestinal através das artérias retas. Embora haja uma enorme rede de colaterais entre as arcadas vasculares, o mesmo não ocorre com as artérias retas (terminais), favorecendo o infarto segmentar no caso de uma oclusão seletiva (ex.: vasculites). Sobre a Isquemia Intestinal... Naturalmente, o intestino possui um importante mecanismo de “reserva fisiológica”. Podemos dizer que ele é um órgão condicionado a so- breviver em ambientes hostis, pois é capaz de resistir a uma redução de 75% do fluxo durante 12 horas, sem qualquer alteração microscó- pica!!! Isso ocorre porque apenas um quinto dos capilares mesentéricos está funcionando em condições normais, existindo uma grande “reserva” para os casos de isquemia. Assim, se houver isquemia, os vasos colaterais se “abrem” na tentativa de manter o fluxo sanguí- neo adequado (mecanismo de autorregulação). O problema é que com o passar do tempo de isquemia esse mecanismo é perdido! Aqueles vasos que se encontravam abertos começam a se fechar. Isso ocorre como um mecanismo de defesa, porque num estado de hipovolemia, o organismo precisa deslocar sangue para áreas primordiais, como o sistema nervoso central. Além da hipóxia, a maior parte do dano se dá pela lesão por reperfusão, quando o flu- xo local é restabelecido e mediadores tóxicos são liberados. As áreas mais propensas à isquemia são as regiões do cólon pobres em circulação colateral, representadas pela fle- xura esplênica (área de Griffiths) e a junção retossigmoide (área de Sudeck). A. CELÍACA ⇔ A. MESENtÉRICA SUPERIOR ⇔ A. MESENtÉRICA INFERIOR Arcadas pancreatoduodenais Arco de Bühler (variação anatômica) Arco de Barkow (variação anatômica) Artéria marginal de Drumond (paralela à parede intestinal) Artéria anastomótica central Arco de Riolan (base do mesentério)* Obs.: *Quando ocorre oclusão de alguma das artérias mesentéricas, o arco de Riolan, que corre pelo mesocólon esquerdo, pode se dilatar absurdamente, re- cebendo a denominação de artéria de meandro. Esta artéria chama a atenção na arteriografia (normalmente ela não é identificada!), sugerindo o diagnóstico. Na figura ao lado, temos um exemplo de oclusão da a. mesentérica superior com visualização direta da artéria de meandro. Regiões “Divisoras de Águas” Figura 34 http://#scrolldown Cirurgia - Volume 4 100Medgrupo - CiClo 2: M.E.D RESIDÊNCIA MÉDICA – 2015 HOSPITAL UNIVERSITÁRIO DA UFSC – SC Com relação ao suprimento arterial do cólon, assinale a alternativa CORRETA, que corres- ponde ao ponto de Griffth. a) Linha pectínea. b) Ângulo esplênico do cólon. c) Ângulo hepático do cólon. d) Transição sigmoidorretal. e) Junção ileocecocólica. As áreas mais propensas à isquemia são as regiões do cólon pobres em circulação co- lateral, representadas pela flexura esplênica (área de Griffiths) e a junção retossigmoide (área de Sudeck). Gabarito letra B. Como é que a isquemia intestinal pode se apresentar? É incrível como os livros-texto tratam deste tema de uma forma totalmente desconexa... Há um capítulo dentro de intestino delgado, outro dentro de cólon e mais um em cirurgia vascular! Apresentaremos agora a forma mais moderna e didática de compreender a isquemia intestinal, baseada nas diretrizes da Associação Americana de Gastroenterologia. O primeiro dado que devemos ter em mente é que a isquemia intestinal é um espectro de apresentações clínicas. E o que isso quer dizer? Que não existe uma só doença, mas algumas síndromes isquêmicas de apresen- tação e tratamento totalmente diferenciados. Essas síndromes dependem de cinco fatores principais: (1) início do processo (agudo ou crônico); (2) extensão e segmento acometido (delgado ou grosso, mucosa ou transmural); (3) grau de obstrução (completa ou parcial); (4) duração (transitória/persistente); e (5) origem do processo (arterial ou venoso, trombose ou embolia). As três síndromes principais de isquemia in- testinal são: 1) Isquemia colônica (70 a 75%) 2) Isquemia mesentérica aguda (20 a 25%) 3) Isquemia mesentérica crônica (5%) Vamos começar a falar de cada uma delas... 1) Isquemia Colônica (IC) Definição/Fisiopatologia É o tipo mais comum de isquemia intestinal! Al- guns livros também chamam esta condição de colite isquêmica, mas, como você vai ver, esta é apenas uma das apresentações. O grande problema dos estudos sobre IC é que a maioria dos pacientes apresenta uma forma leve e não procura assistência médica. Além disso, muitos acabam erroneamente diagnosticados como portadores de doença intestinal inflamatória ou colite infecciosa, pelos achados similares. Na isquemia colônica, temos um acometimen- to de vasos pequenos e distais (ao contrário da isquemia mesentérica) sendo, por isso, uma doença mais localizada, que caminha progressivamente das camadas mais internas (mucosa colônica) até atingir toda a extensão da parede intestinal. A isquemia colônica apresenta três espectros: isquemia transitória, isquemia crônica e gan- grena. Se a isquemia for limitada à camada mais vulnerável do intestino, a mucosa, a doença pode ser transitória e a recuperação completa. Já uma isquemia mais significativa envolvendo a muscular pode resultar em ul- cerações que, ao cicatrizarem, podem levar a uma estenose crônica por fibrose. A isquemia que afeta a integridade da parede intestinal pode resultar em gangrena com perfuração e peritonite fecal. Qual é o grupo principal de pacientes aco- metidos? Os idosos são os mais acometidos (> 90% dos casos não iatrogênicos). Acredita-se que alterações, como estreitamento de pequenos vasos, maior tortuosidade das artérias cóli- cas e displasia muscular sejam responsáveis por essa associação. Outros fatores de risco bem explicitados são: doença aterosclerótica, diabetes mellitus, vasculites e estados hipo- tensivos. O que pode levar à isquemia colônica? Embora inúmeras causas estejam descritas (ver abaixo), na maioria dos casos ela não é identificada (isquemia localizada não oclusiva) e atribuída à doença de pequenos vasos. Alergia Amiloidose Insuficiência cardíaca, arritmias e choque Trombofilias Embolia (arterial, colesterol, mixoma atrial) Infecções: bacterianas (E. coli O157:H7),virais (HBV, CMV) e parasitárias (Angiostron- gylus costaricensis). Hérnia estrangulada e vôlvulo Colonoscopia, enema baritado ou com glicerina Cirurgia: aórtica, colectomia com ligação da artéria mesentérica inferior, cirurgias gineco- lógicas, aortografia lombar. Drogas: cocaína, danazol, digital, contracep- tivos orais, AINEs, imunossupressores, pe- nicilina, vasopressina, enema com glicerina, sais de ouro, sumatriptano, antipsicóticos. Diversas: trauma, corridas de longa distân- cia, pancreatite, feocromocitoma, anemia falciforme, vasculites, prenhez ectópica rota, hemotransfusões. http://#scrolldown Cirurgia - Volume 4 101Medgrupo - CiClo 2: M.E.D Dentre todas essas causas devemos voltar a nossa atenção principalmente para a doença aterosclerótica, causas de hipotensão transi- tória e cirurgias de aorta. Cirurgias de aorta? Como assim? Durante muitos reparos aórticos, principalmen- te na correção de aneurismas abdominais, a artéria mesentérica inferior é simplesmente ligada e não é reimplantada, já que a circula- ção colateral seria suficiente para oxigenação do cólon e esquerdo e do reto. No entanto, durante e após essas cirurgias também pode ocorrer hipotensão importante, causando le- são isquêmica nessa área já vulnerável. manifestações Clínicas Os sinais e sintomas da isquemia colônica in- cluem dor abdominal, hematoquezia e febre. Estes sintomas variam consideravelmente, dependendo da gravidade da isquemia e do tamanho e espessura do cólon afetado. Como vimos, a isquemia limitada a um pe- queno segmento da mucosa pode causar dor abdominal leve, hematoquezia em pequena quantidade, e uma isquemia mais significativa pode se manifestar com dor abdominal mais grave, hipersensibilidade sobre o segmento afetado, translocação bacteriana, febre, leu- cocitose e acidose. E mesmo não sendo tão comum, naqueles casos em que há o aco- metimento de toda a espessura da parede colônica além dos achados já mencionados, o paciente pode apresentar peritonite devido à perfuração colônica. Veja abaixo as formas clínicas de apresen- tação e a frequência com que aparecem na estatística de um hospital terciário: Quando suspeitar de isquemia colônica? Em qualquer paciente com dor abdominal leve a moderada, principalmente no quadran- te inferior esquerdo, febre e diarreia sangui- nolenta (hematoquezia), quando alguns dos fatores predisponentes estiverem presentes. O grande objetivo é a detecção precoce, pois os casos mais floridos com sinais de defesa, leucocitose e acidose metabólica são também os casos avançados de gangrena e peritonite. tipo Frequência Colopatia reversível 30 a 40% Colite transitória 15 a 20% Colite ulcerativa 20 a 25% crônica Estenose 10 a 15% Gangrena 15 a 20% Colite universal < 5% fulminante Os locais mais acometidos são a junção re- tossigmoide e a flexura esplênica. O Schwartz aponta a flexura esplênica como mais comum dentre todos os sítios, entretanto qualquer parte do cólon pode ser submetida a esse tipo de isquemia. Diagnóstico O diagnóstico deve ser suspeitado sempre que houver um quadro de dor abdominal leve a moderada + febre + diarreia sanguinolenta. A radiografia costuma ser o primeiro exame solicitado, podendo conter informações sugesti- vas como um íleo paralítico, distensão colônica segmentar ou um achado mais específico que é o “sinal das impressões digitais” (thumbprint). Esse sinal é causado por edema da parede intestinal ou hemorragia submucosa. A endoscopia baixa é o melhor exame, mostrando o aspecto sugestivo de mucosa hemorrágica. Como o sigmoide é o local mais acometido, a retossigmoidoscopia flexível é a mais utilizada e a colonoscopia raramente é necessária (ver FIGURA 35). A presença de tecido sadio entremeado pode levar ao falso diagnóstico de doença inflamatória intestinal e a biópsia costuma ser inespecífica. A principal dificuldade deste exame é definir a extensão do acometimento (mucosa ou transmural), o que pode ser feito pela tomografia compu- tadorizada com contraste venoso. O enema baritado não deve ser utilizado pelo risco de ruptura e peritonite pelo contraste. Peraí, se existe risco de ruptura pelo ene- ma, por que não existiria na retossigmoi- doscopia? Esse risco também existe... Alguns autores chegam a desencorajar seu uso em pacientes com alta suspeita diagnóstica que apresentam sintomas abdominais mais evidentes. Figura 35 - Ene- ma mostrando o sinal das impres- sões dig ita is (“thumbprint”) e o equivalente na colonoscopia. E arteriografia, é o padrão-ouro? Não se engane! Apesar de sua origem vascu- lar, a isquemia colônica possui pouca corre- http://#scrolldown Cirurgia - Volume 4 102Medgrupo - CiClo 2: M.E.D lação clínica com a arteriografia! Lembre-se de que ela é uma doença de vasos menos calibrosos. A isquemia por oclusão de grandes troncos é rara. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2015 UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE – SE Paciente de 80 anos refere dor abdominal di- fusa de forte intensidade, com distensão ab- dominal e sangramento vivo pelo reto. Pro- curou serviço de urgência onde realizou Rx simples de abdome que evidenciou, no cólon descendente, imagem caracterizada como “impressões digitais do polegar”. Qual o pro- vável diagnóstico: a) Colite isquêmica. b) Doença diverticular do cólon descendente. c) Colite ulcerativa. d) Doença de Crohn. Essa não tem como errar, a presença do sinal das impressões digitais ou “thumbprint” em um paciente idoso, com sinais de colite (dor abdominal, hematoquezia), não tem como pensarmos em outro diagnóstico a não ser o de colite isquêmica. Gabarito A. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2012 HOSPITAL UNIVERSITÁRIO DA UFSC – SC Assinale a alternativa que responde CORRE- TAMENTE à pergunta abaixo. A colite isquê- mica, que comumente acomete os pacientes idosos, muitas vezes diabéticos, apresenta-se mais frequentemente em qual destes locais? a) No colo ascendente. b) No ceco. c) Na flexura hepática. d) No reto. e) Na flexura esplênica. A colite isquêmica acomete preferencial- mente pontos de vascularização limítrofe, suscetíveis a danos isquêmicos quando na presença de situações predisponentes: a fle- xura esplênica, a qual é irrigada por estreitos ramos da artéria mesentérica superior; e a junção retosigmoidea, cuja vascularização advém de ramos terminais finos da artéria mesentérica inferior. Resposta E. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2009 UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ – UFPR Assinale a alternativa que melhor descreve a colite isquêmica. a) Geralmente é assintomática. b) Envolve mais frequentemente o cólon direito. c) Evolui para a gangrena e perfuração se não houver ressecção. d) É melhor avaliada pela colonoscopia. e) Geralmente apresenta sangramento abun- dante, que necessita transfusão de sangue. Não se esqueça da endoscopia... Resposta D. tratamento A maior parte resolve espontaneamente. Os pacientes devem receber medidas de suporte (dieta zero, hidratação venosa e antibiotico- terapia) e agentes potencialmente ofensivos devem ser retirados (ex.: digital). Os padrões hemodinâmicos devem ser cuidadosamente monitorados. Cerca de 80% dos pacientes se beneficiam com essa abordagem. O trata- mento cirúrgico é raramente necessário e está indicado nas situações abaixo. O método de escolha é a colectomia parcial ou total, com ou sem criação de ostomias. Indicações de tratamento cirúrgico na isquemia colônica Aguda: Peritonite, sangramento maciço ou colite fulminante universal (com ou sem me- gacólon tóxico). Subaguda: Pacientes sintomáticos ou com colopatia perdedora de proteínas mesmo após duas a três semanas de tratamento; cicatriza- ção aparente, mas com episódios recorrentes de sepse. Crônica: Estenose ou colite crônica sintomá- ticas. Existem dois tipos principais de sequelas: a estenose (10 a 15%) e a isquemia segmentar crônica (15 a 20%). Após a resolução de um quadro agudo, devemos sempre solicitar uma colonoscopia para descartar doença intestinal inflamatória e neoplasia colônica.RESIDÊNCIA MÉDICA – 2016 SECRETARIA MUNICIPAL DE SAÚDE DE SÃO JOSÉ DOS PINHAIS – PR Paciente de 81 anos, portador de diabetes mellitus, e com diagnóstico recente de adeno- carcinoma de próstata localizado. Apresenta quadro de dor abdominal de forte intensidade, urgência e diarreia sanguinolenta em mode- rada quantidade. Ao exame mostra dor loca- lizada em quadrante inferior esquerdo, febre, taquicardia e distensão. Assinale a alternativa CORRETA: a) O paciente deve ser encaminhado para laparotomia exploratória. b) Colonoscopia é contraindicada devido aos riscos de perfuração e impossibilidade de rea- lizar preparo. c) Colite isquêmica acometendo cólon esquerdo com tratamento suportivo e antibioticoterapia. d) No manejo da colite isquêmica considerar o uso de anti-inflamatórios não esteroidais e vasopressina. COnCEItO Como o que existe na isquemia colônica é uma doença predominante de artérias dis- tais, diferente da apresentação que veremos a seguir (isquemia mesentérica) – não há indicação de revascularização! http://#scrolldown Cirurgia - Volume 4 103Medgrupo - CiClo 2: M.E.D e) Tomografia com edema segmentar e linha pericolônica inflamatória são especifícos de colite isquêmica. Paciente idoso, com dor em FIE + sinais inflamatórios, que somados nos indicam até um quadro séptico (febre, taquicardia), no que devemos pensar? Uma boa opção seria a diverticulite aguda, mas veja que o quadro não para por aí. Além disso, ele também apresenta hemorragia digestiva baixa e, geralmente, aquele divertículo que inflama não sangra!!! Com isso, já afastamos um pouco a possibilidade de diverticulite aguda. E agora? Repare que o paciente apresenta HDB + um quadro inflamatório + urgência em evacuar, e isso nos faz pensar em colite isquêmica, que é a principal causa de isque- mia intestinal, em que o comprometimento se dá inicialmente na mucosa. A colite is- quêmica é o tipo mais comum de isquemia intestinal e, nesse caso, temos uma doença mais localizada, que caminha progressi- vamente das camadas mais internas, até atingir toda a extensão da parede intestinal! A população alvo é a idosa, representando 90% dos casos. Os fatores de risco são: doença aterosclerótica, diabetes mellitus, vasculites, estados hipotensivos e cirurgias da aorta! Os AINEs são descritos como possíveis causadores, mas na maioria dos casos não identificamos a causa! Devemos suspeitar de colite isquêmica em pacientes com dor leve a moderada, principalmente no quadrante inferior esquerdo, com febre e diarreia sanguinolenta, quando alguns dos fatores predisponentes estiverem presentes. O grande objetivo é a detecção precoce, pois os casos mais floridos, com defesa abdo- minal, leucocitose e acidose metabólica já são avançados, com gangrena e peritonite. O diagnóstico é dado pela colonoscopia! Na maioria dos casos o tratamento envolve medidas de suporte como dieta zero, hidra- tação venosa e antibioticoterapia, sendo o tratamento cirúrgico raramente indicado, reservado para aqueles casos complicados com perfuração ou peritonite! Gabarito: C. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2010 UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO – UFRJ Mulher, 70 anos, submetida a correção cirúr- gica de aneurisma de aorta abdominal evolui, nas primeiras 12h do pós-operatório, com san- gramento retal vivo e distensão e tem amilase e lipase normais. Relata episódios prévios de dor em fosse ilíaca esquerda recorrente. O diagnóstico provável é: a) Doença diverticular com hemorragia. b) Angiodisplasia de cólon. c) Fístula aortoduodenal. d) Isquemia mesentérica. Mais clássico impossível: idosa submetida à correção de aneurisma aórtico e evolui com distensão abdominal e sangramento. Colite isquêmica! Ué, não tem essa opção! Podemos admitir isquemia mesentérica como termo ge- ral, mas entenda que o termo mais adequado seria isquemia colônica. Resposta D. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2010 ASSOCIAÇÃO MÉDICA DO PARANÁ – AMP Com respeito à Colite Isquêmica, assinale a INCORRETA. a) É a causa mais comum de isquemia me- sentérica. b) Pode estar associada a prática de corridas de longa distância. c) Dor abdominal, hipotensão severa, disten- são abdominal e sangramento intestinal ocor- rem na maior parte dos pacientes. d) Em jovens sugere estados de hipercoagu- labilidade ou uso de cocaína. e) A colite isquêmica aguda do lado esquerdo é mais comum que a colite aguda do lado di- reito, tendo em geral melhor evolução. Quando a gente acha que já viu tudo, a AMP resolve cobrar a associação de colite isquêmica com corridas de longa distância... Impressionante! No entanto, essa é uma ques- tão fácil de acertar. Você já viu que na maior parte dos casos a colite isquêmica é transitória e autolimitada. Gabarito C. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2010 ASSOCIAÇÃO MÉDICA DO PARANÁ – AMP A isquemia colônica é a forma mais comum de isquemia intestinal, porém é diagnosticada erroneamente com muita frequência ou mes- mo não reconhecida. Qual dos fatores abaixo é o menos relacionado a isquemia colônica? a) A maioria das crises é transitória. b) Abuso de cocaína. c) Atletas corredores de longa distância. d) Uso abusivo de aspirina. e) Patógenos como os citomegalovírus e E. coli. A AMP realmente queria saber até onde iria a memória para associações esdrúxulas dos candidatos. Dentre os fatores citados, o abuso de aspirina não é classicamente relacionado à colite isquêmica. Resposta D. http://#scrolldown Cirurgia - Volume 4 104Medgrupo - CiClo 2: M.E.D 2) Isquemia mesentérica Aguda (ImA)* e Infarto Enteromesentérico * Obs.: Aqui utilizamos IMA como abreviatura de Is- quemia Mesentérica Aguda. Cuidado porque em al- guns textos em inglês a sigla pode servir para artéria mesentérica inferior também. É a síndrome obstrutiva aguda dos vasos me- sentéricos, principalmente a artéria mesenté- rica superior! Ou seja, agora temos uma condição diferente da isquemia colônica que vimos acima, pois se trata de uma doença de vaso de maior ca- libre e que acomete principalmente o intestino delgado. O grande problema da IMA é a sua mortalidade INACEITAVELMENTE elevada, praticamente a mesma de 70 anos atrás (59 a 93%). A única forma de reduzir esta taxa é identificar a isquemia antes do infarto mesen- térico, já que a trombólise sem canulização do vaso é ineficaz e o tratamento é a ressecção das alças necrosadas! Como saber se a isquemia mesentérica aguda é de delgado ou do cólon? Falam a favor de IMA de delgado: população mais heterogênea (a colônica é tipicamente de idosos), dor mais intensa, pior estado geral, presença de fator precipitante, ausência de sangramento retal. Como, então, identificar esses pacientes? São aqueles com dor abdominal de grande intensidade, persistindo por mais de duas ho- ras e que não se encaixam em outros padrões específicos (ex.: colecistite). Geralmente são pacientes acima de 50 anos, com cardiopatias, arritmias, infartos recentes ou hipotensão. Os jovens devem ser suspeitados quando apre- sentam estado de hipercoagulabilidade ou uso de certas drogas (ex.: cocaína). Qual é a artéria mais acometida? Definição / manifestações Clínicas Ileocólica Placa ateromatosa nos primeiros 2,5cm do óstio Ramos jejunais Vasa reta Pancreatoduodenal inferior Cólica Média Cólica Direita Êmbolo geralmente alojado na região de cólica média e ramos jejunais Figura 36 Mesentérica superior! Tanto pelo seu calibre aumentado quanto pela obliquidade com que se sai da aorta. A obstrução pode ser causada principalmente por embolia e trombose. Os êmbolos provocam oclusões mais distais e geralmente se localizam de três a dez centí- metros da origem da artéria (perto da origem da artéria cólica média e dos ramos jejunais). Os trombos geram obstruções mais proximais, a cerca de 1-2 cm da origem da a. mesentérica superior. Veja a FIGURA 36. Diagnóstico Quais são os exames mais utilizados na investigação? - 75% dos pacientes apresentam leucometria > 15.000 cels/mm3na admissão e 50% acido- se metabólica. Outros marcadores seriam a elevação do lactato, amilase, CK (isoenzima BB) e fosfato. - RX: muito pouco sensível (30%). Geralmente normal antes do infarto mesentérico. Altera- ções tardias incluem íleo paralítico, sinal da “impressão digital” do intestino delgado e do cólon direito, pneumatose e gás na topografia dos vasos mesentérico e porta. Como sempre, a grande utilidade é excluir outras causas. A presença de íleo adinâmico em abdome com pouco ar nas alças é o achado mais comum nos casos de isquemia aguda. - USG com fluxometria pelo Doppler: técnica li- mitada e pouco confiável para as isquemias agu- das, pois só vê porções proximais e a presença de obstruções e fluxo variável pode ser vista também em indivíduos normais. Além disso, não faz diagnóstico de isquemia não oclusiva. Seu maior benefício consiste em seu emprego como método de rastreio, uma vez que um exame ne- gativo praticamente exclui embolia ou trombose. - tC: atualmente é o método inicial para inves- tigar isquemia tanto arterial quanto venosa. Os achados incluem: dilatação colônica, espes- samento da parede, falhas de enchimento da vasculatura arterial, oclusão, trombo venoso, ingurgitamento de veias mesentéricas, gás intra- mural e no sistema portomesentérico e infarto de outras vísceras. A sensibilidade do exame pode ser aumentada com a realização da angiotomo- grafia. Uma alternativa é a angiorressonância, com a possibilidade, inclusive, de avaliar alguns dados dinâmicos de hipofluxo e metabolismo. - A laparoscopia pode ser utilizada, mas o shunt sanguíneo para a serosa, que ocorre na fase inicial da isquemia, pode levar à fal- sa impressão de alças sem sofrimento. Além disso, o aumento da pressão intra-abdominal desencadeado pelo procedimento pode redu- zir o fluxo pela artéria mesentérica. - A angiografia mesentérica seletiva (ge- ralmente com infusão de papaverina) é o pa- drão-ouro e deve ser realizada nos casos de suspeita levantada pelas outras técnicas de imagem. Na impossibilidade de fazer o exame (ex.: material indisponível, estado do pacien- te), a cirurgia não deve ser adiada. http://#scrolldown http://#videomiolo=RCIR203094 Cirurgia - Volume 4 105Medgrupo - CiClo 2: M.E.D RESIDÊNCIA MÉDICA – 2010 SECRETARIA ESTADUAL DE SAÚDE – SES – RJ Um paciente com quadro de oclusão intesti- nal realizou tomografia computadorizada, que evidenciou pneumatose intestinal, levando a equipe a suspeitar de: a) Invaginação intestinal. b) Obstrução mecânica. c) Isquemia intestinal. d) Hérnia interna. Pneumatose intestinal deve ser sempre con- siderado um forte sinal de isquemia intestinal. Resposta C. Agora vamos identificar as principais causas de IMA e falar um pouco de cada uma delas! São quatro grupos principais, cada um com suas características. São eles: embolia; trombose arterial; vasoconstricção por baixo fluxo; trombose venosa. A - Embolia de artéria mesentérica (50%) É a principal causa de IMA! Quando suspeitar? Em pacientes com alguma cardiopatia embo- ligênica (IAM recente, FA, valvulopatia, etc.) Os êmbolos podem vir do átrio esquerdo, ventrículo esquerdo ou de válvulas cardíacas. Podem envolver várias artérias ao mesmo tempo? Mais de 20% das isquemias mesentéricas embólicas são múltiplas! Para piorar, a vaso- constricção arteriolar costuma se associar aos quadros embólicos. Qual é o quadro clínico? Dor SÚBITA, em cólica e intensa na região periumbilical, DESPROPORCIONAL AO EXAME FÍSICO! Como diagnosticar? Figura 37 - A: Angiografia mostrando oclusão da artéria mesentérica superior no nível da artéria cólica direita. Vasoconstricção pode ser observada logo após o êmbolo. b: Vasos patentes e vasodilatação 24 horas após embolectomia e papaverina intravenosa. Pela angiografia, que revela a oclusão da artéria mesentérica superior e a ausência de colaterais (e evidenciando a natureza aguda do processo). A oclusão promove uma diminui- ção abrupta do lúmen da artéria mesentérica superior conhecida como “sinal do menisco”. Como tratar? Antes de mais nada, o paciente deve ser adequadamente heparinizado para evitar propagação da isquemia. No caso de aci- dose metabólica extrema não corrigida com reposição volêmica, está indicado o uso de bicarbonato de sódio. O paciente deve ser monitorizado com, no mínimo, um acesso venoso central, uma punção arterial perifé- rica e quantificação do débito urinário (ca- teterização urinária com Foley). Devem ser efetuados ainda uma reanimação volêmica adequada, otimização do débito cardíaco, monitorização dos parâmetros ventilatórios e antibióticos venosos para cobertura da translocação bacteriana (ex.: Ceftriaxona, Ciprofloxacino + Metronidazol, etc.). Drogas vasoconstrictoras como a digoxina devem ser suspensas, já que podem piorar a isque- mia local... O tratamento definitivo é cirúrgico: laparotomia + embolectomia. Durante o procedimento, o pulso da artéria mesentérica superior é pal- pado e o delgado cuidadosamente avaliado para ressecção de possíveis segmentos in- fartados. A USG intraoperatória pode ser útil na identificação de segmentos isquêmicos e uma segunda cirurgia (“second-look”) dentro de 24 a 48 horas pode ser necessária para reavaliar persistência da isquemia. Em casos selecionados, a trombólise in situ através da cateterização da artéria mesentérica superior pode ser tentada. O vasoespasmo que ocorre após a cirurgia pode ser reduzido com a utili- zação da papaverina. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2016 INSTITUTO NACIONAL DE TRAUMATOLOGIA E ORTOPEDIA – RJ Um homem de 85 anos com histórico de fibrilação atrial que não teve o anticoagu- lante devido para sua significante queda, se queixa de dores abdominais severas. No exame, o abdome está distendido, mas no seu exame não há correlação com os sin- tomas. Ele é hemodinamicamente instável e possui 20 de leucócitos. Qual o próximo passo para atuação? a) Úlcera perfurada. b) Peritonite fecal por perfuração do apêndice vermiforme. c) Cisto mesentérico torcido. d) Diverticulite aguda. e) Isquemia mesentérica aguda. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2016 UNIVERSIDADE ESTADUAL DO PARA - SANTARÉM – PA Um paciente de 70 anos, cardiopata, procura o Pronto Socorro com queixa de dor abdomi- http://#scrolldown Cirurgia - Volume 4 106Medgrupo - CiClo 2: M.E.D nal difusa, de início abrupto, há cerca de três horas. A dor é contínua com períodos de piora e é impossível obter uma localização precisa, embora pareça doer em epigástrio e região pe- riumbilical. O exame físico revela uma pessoa ansiosa e inquieta. O pulso é taquicárdico, e a pressão arterial é normal. Queixa-se de muita dor abdominal. O abdome é moderadamente distendido, mas flácido. Os ruídos hidroaéreos estão presentes e até um pouco aumentados. O diagnóstico mais provável é: a) Isquemia Mesentérica. b) Pancreatite Aguda. c) Pielonefrite Aguda. d) Úlcera Perfurada. e) Apendicite Aguda (fase inicial). A grande dica: DOR ABDOMINAL DES- PROPORCIONAL AO EXAME FÍSICO + fonte emboligênica = infarto enteromesentérico. Gabaritos E e A respectivamente. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2015 UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO – RJ Homem, 78 anos, hipertenso com doença arterial coronariana, apresenta dor abdomi- nal de início agudo, difusa e constante, as- sociada a náuseas, vômitos e diarreia com fezes sanguinolentas. Exame físico: pálido, taquicárdico, normotenso, com abdome dis- tendido, doloroso difusamente e com pe- ristalse diminuída. Em poucas horas evolui com sinais de irritação peritoneal e hipoten- são arterial. O diagnóstico mais provável é: a) Apendicite aguda perfurada. b) Isquemia mesentérica aguda com necrose. c) Pancreatite necro-hemorrágica. d) Abcesso diverticular. Os sinais e sintomas descritos permitem o pronto diagnóstico de uma síndrome de abdome agudo (dor abdominal intensa e constante, que em questão de horas evolui com piora clínica e repercussões sistêmicas progressivas). Devemos entender que“ab- dome agudo” é uma situação que geralmen- te necessita de atenção cirúrgica imediata. Pois bem, de todas as possíveis causas de abdome agudo, qual seria a mais provável para o nosso paciente? Temos aqui um ho- mem idoso, sabidamente vasculopata gra- ve (se ele tem aterosclerose coronariana podemos esperar que existe aterosclero- se em múltiplos outros territórios arteriais), que apresenta um quadro de INTENSA dor abdominal SÚBITA, de distribuição DIFU- SA, que em pouco tempo evoluiu com fran- cos sinais e sintomas de IRRITAÇÃO PERI- TONEAL e comprometimento SISTÊMICO. Numa apendicite aguda perfurada espera- ríamos febre e dor em fossa ilíaca direita em boa parte da evolução do quadro, assim como numa diverticulite aguda complicada (abscesso) esperaríamos febre também e dor em fossa ilíaca esquerda. Na pancrea- tite necro-hemorrágica a dor é tipicamente epigástrica e “em barra”, irradiando para o dorso, além do que não seria esperada a ocorrência de diarreia sanguinolenta. Já a isquemia enteromesentérica aguda com- plicada com infarto intestinal (necrose) é a explicação mais plausível para o quadro, veja: (1) o paciente possui fatores de risco (idade avançada e doença vascular disse- minada); (2) a dor teve início súbito e já em máxima intensidade – sugestivo de “catás- trofe vascular” intra-abdominal; (3) a dor é difusa, e não localizada; (4) existe “silêncio abdominal” (ausência de peristalse devi- do à isquemia da parede intestinal); (5) há diarreia sanguinolenta, revelando a exis- tência de sofrimento isquêmico da mucosa; (6) em questão de horas ocorreu um infar- to do intestino, agravando o quadro clínico (surgimento de peritonite difusa e síndrome de choque circulatório). Resposta certa: B. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2007 UNIVERSIDADE ESTADUAL DO RIO DE JANEIRO – UERJ Um paciente de 76 anos apresenta quadro de dor abdominal súbita, de forte intensidade, iniciada há três horas. No exame físico nota-se pulso radial irregular, a pressão arterial é de 85 x 60 mmHg e, no exame do abdome, há dor à palpação, sobretudo em região mesogástrica, com distensão abdominal leve e discreta de- fesa difusa. Neste caso, o exame de imagem mais preciso para o diagnóstico é: a) Cintigrafia. b) Arteriografia. c) Colonoscopia virtual. d) Tomografia computadorizada. Em qualquer história de dor súbita, temos que lembrar, primeiramente, de duas hipó- teses: trauma e acidente vascular. Nesta questão não há história de trauma; portanto, o quadro deve ser vascular. Vamos analisar a história clínica: dor de forte intensidade sem grandes sinais de sofrimento intra-abdominal (distensão abdominal leve e discreta defesa difusa) – neste momento você se lembra de isquemia intestinal aguda, que apresenta queixas álgicas desproporcionais aos achados do exame físico; teria mais algum dado na questão para ajudar a confirmar a hipótese de isquemia intestinal? Sim, a presença de pulso radial irregular. Provavelmente este paciente é portador de fibrilação atrial e “lançou” um trombo para os vasos mesentéricos. Pronto, não temos mais dúvida, trata-se de um caso de infarto intestinal, que possui como melhor exame de imagem a arteriografia. b - trombose de artéria mesentérica (15 a 25%) É geralmente uma isquemia mesentérica crô- nica que “agudiza” e a aterosclerose avançada é a principal causa! http://#scrolldown Cirurgia - Volume 4 107Medgrupo - CiClo 2: M.E.D Que outras causas podem estar associadas? Trauma abdominal, sepse, dissecção de aorta, displasia fibromuscular e vasculites sistêmi- cas. Diferente da trombose venosa, não há associação com as coagulopatias hereditárias. Qual é o quadro clínico? Da mesma forma que a isquemia de origem embólica, temos, tipicamente, dor abdominal de grande intensidade, desproporcional ao exame físico. Inicialmente, a peristalse pode estar normal ou aumentada, e não deve afas- tar o diagnóstico (a primeira reação à hipóxia é o hiperperistaltismo!). Mas com a progressão da isquemia e o surgimento de outras mani- festações sistêmicas (febre, leucocitose, aci- dose metabólica) ocorre paralisia e distensão abdominal. Cerca de 1/3 desses pacientes costumam apresentar história de dor abdo- minal devido à isquemia mesentérica crônica, bem como história de outras complicações re- lacionadas à aterosclerose disseminada (ex.: angina pectoris, claudicação intermitente, etc.) Quais exames laboratoriais podem nos ajudar no diagnóstico? - Leucocitose importante (até 25.000) com desvio para esquerda. - Hemoconcentração (perda de plasma pelo intestino isquêmico). - Acidose metabólica. - Elevação da amilase sérica (50% dos ca- sos), mas não em níveis tão altos quanto os esperados para uma pancreatite. A lipase sérica também pode se elevar. - Elevação de AST, ALT, LDH, CK e fosfatase alcalina (isoenzima intestinal) principalmen- te quando há necrose intestinal. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2009 UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA – UFSC Considere um paciente do sexo masculino, 80 anos, com quadro de dor abdominal difu- sa, intensa, há 1 dia. Evoluiu com hipotensão severa. A principal hipótese diagnóstica feita pelo médico assistente foi de isquemia mesen- térica. Qual (quais) do(s) seguinte(s) achados nos exames complementares pode(m) mais fortemente sugerir esse diagnóstico? a) Pneumoperitôneo ao Rx tórax. b) Acidose metabólica e hiperlactatemia. c) Trombocitose com TAP e KPTT normais. d) Líquido livre intraperitoneal a ultrassono- grafia de abdome. e) Hiperglicemia e amilase com discreta ele- vação. Dos exames apresentados, apenas a acido- se metabólica com hiperlactatemia associada a uma dor abdominal difusa sugeririam isque- mia enteromesentérica. O pneumoperitônio, quando associado à dor abdominal difusa, pode sugerir outras causas mais comuns, como a perfuração de úlcera péptica. As de- mais opções são simplesmente absurdas... Resposta B. A regra principal é: desconfiar sempre. Por- tanto, qualquer abdome agudo que evolua com acidose metabólica significa isquemia mesentérica até que se prove o contrário!!! Como estão os exames de imagem? A arteriografia mesentérica é o método mais importante para o diagnóstico precoce de pacientes com suspeita de IMA, quando se observa geralmente oclusão gradual de uma (ou duas) das três artérias principais e presença de colaterais. A oclusão costuma ser mais proximal do que nas embolias. Como tratar? Além das medidas gerais (aspiração naso- gástrica, reposição hidroeletrolítica, antibio- ticoterapia de largo espectro, heparinização e monitorização), o tratamento é eminente- mente cirúrgico. Sem cirurgia, o índice de mortalidade de um infarto intestinal extenso é de 100%! Aliás, mesmo com o tratamento cirúrgico, a mortalidade ainda se mantém acima de 50%. O grande objetivo, nesse momento, é resse- car áreas que estejam necrosadas. A infusão de papaverina intra-arterial também é asso- ciada para redução do vasoespasmo. Uma segunda cirurgia (“second-look”) pode ser ne- cessária para revisão de segmentos inviáveis. Naqueles em melhores condições clínicas, a revascularização (“by-pass”) deve ser ten- tada. Aqui a veia safena deve ser a primeira escolha para realização da revascularização, devido ao grande risco de contaminação de próteses na presença de necrose intestinal. O “by-pass” pode ser realizado diretamente tan- to a partir da aorta quanto das artérias ilíacas. A vantagem do primeiro seria a manutenção de um fluxo mais natural com menor chance de “kinking” (dobradura). No entanto, este método possui uma confecção tecnicamente mais difícil. Na realidade não há uma grande diferença entre as técnicas, já que taxas de patência a longo prazo são similares. Como avaliar se uma alça está isquêmica? As alças isquêmicas devem ser colocadas em uma compressa esterilizada com soro morno e deixadas por cerca de dez minutos. Neste segmento intestinal deve ser observada sua coloração (alças de cor púrpura indicam prognóstico ruim),peristalse, pulsação arterial e sangramento nas superfícies de corte (se positivo o sangramento, bom sinal). A USG perioperatória também pode ser útil. http://#scrolldown Cirurgia - Volume 4 108Medgrupo - CiClo 2: M.E.D E depois da cirurgia... Como em outras doenças ateroscleróticas, está indicado o uso crônico de antiagregantes plaque- tários, para reduzir a recorrência de isquemias. C - Vasoconstricção (20 a 30%) É conhecida também como isquemia mesen- térica não oclusiva, pois a obstrução do fluxo arterial é causada pela vasoconstrição funcio- nal das pequenas artérias do mesentério. O que causa? Choque, IAM, ICC, insuficiência aórtica, diá- lise, cirurgia cardíaca, sepse, hipóxia grave e drogas (digital, diuréticos, cocaína). Qual é a sintomatologia? A dor abdominal não costuma ser intensa, e geralmente não é o sintoma inicial. Ou seja, você tem que desconfiar quando encontrar um paciente nessa situação de risco (ex.: idoso em uso de digital) que se apresente com sintomas diversos, entre eles a hemorragia digestiva baixa. O quadro clínico, apesar de mais in- sidioso, é de pior prognóstico em função da doença de base. Como diagnosticar? Pela angiografia, a partir de quatro critérios: es- treitamento na origem dos vasos mesentéricos; irregularidades nos ramos intestinais; espas- mos das arcadas arteriais; falha no enchimento de vasos intramurais e preservação da vascu- larização do tronco das artérias mesentéricas. Figura 38 - A e B: Imagens de um paciente com isquemia não oclusiva antes e após 48 horas da infusão de papaverina. Qual é o tratamento? O primeiro passo é suspender os digitálicos, diuréticos e vasopressores. A seguir, iniciar infusão intra-arterial de papaverina (30 a 60 mg/h) por cateter angiográfico colocado diretamente na artéria mesentérica superior. Alguns autores sugerem o uso concomitante de heparina para evitar trombose. O uso de antiplaquetários costuma ser indicado no tra- tamento de manutenção. Quando operar? A exploração cirúrgica está indicada nos casos de: (1) sinais de irritação peritoneal; (2) sinais angiográficos de infarto intestinal (ausência de contraste em determinado segmento); (3) dúvida diagnóstica. A papaverina também está indicada após o procedimento. D - trombose de veia mesentérica (5%) É a principal causa de isquemia de delgado em pacientes jovens. A trombose venosa leva à congestão vascular, edema da parede do segmento acometido e saída de líquidos para o lúmen intestinal, levando à hipotensão sistê- mica e ao aumento da viscosidade sanguínea. Com isso, o aporte de sangue para aquele segmento é reduzido. Quais são as causas? Estados de hipercoagulabilidade, hipertensão porta, infecção abdominal, trauma, pancreati- te, esplenectomia e neoplasias intra-abdomi- nais. As coagulopatias hereditárias são a cau- sa mais comum e se devem principalmente à deficiência de fator V de Leiden. As adquiridas incluem a hemoglobinúria paroxística noturna, as síndromes mieloproliferativas, pós-opera- tório e uso de contraceptivos. Como é a apresentação clínica? Os sintomas tendem a ser mais insidiosos, com desconforto abdominal progressivo ao longo de semanas (geralmente de 5 a 14 dias)! Pode vir acompanhado de diarreia sanguino- lenta e distensão abdominal, mas o exame físico costuma ser pouco alterado. Quando os sintomas surgem subitamente, devemos suspeitar de infarto intestinal. Como fazer o diagnóstico? A angiotomografia faz 90% dos diagnósticos e é o teste não invasivo de escolha. Nesses casos, a angiografia pode não ser necessá- ria. Seus achados incluem o espessamento e realce da parede intestinal, ingurgitamento da Veia Mesentérica Superior (VMS); trombo no interior da veia; vasos colaterais dilatados. A angiografia seletiva da artéria mesenté- rica superior pode revelar: oclusão parcial ou completa da VMS; falha na visualização da VMS ou da veia porta; enchimento ausente ou lentificado das veias mesentéricas; espasmo arterial; refluxo de contraste para a artéria. O diagnóstico pré-operatório é muitas vezes difícil e geralmente sai na laparotomia, cuja apresentação característica é a presença de um líquido peritoneal serossanguinolento, intestino edemaciado e de coloração escu- recida, mesentério espessado, pulso arterial preservado e localização do trombo venoso. http://#scrolldown Cirurgia - Volume 4 109Medgrupo - CiClo 2: M.E.D Qual é o tratamento? Ressecção do segmento infartado + trombecto- mia + heparinização (peroperatório e pós-ope- ratório, seguida por anticoagulação oral por pelo menos seis meses). A heparina pode ser realizada mesmo naqueles com sangramento digestivo, se o sangramento for de pequena quantidade. Trombólise venosa com estrepto- quinase e uroquinase mostraram sucesso em um pequeno número de pacientes e aguarda novos resultados para ser aplicada clinicamente. 3) Isquemia mesentérica Crônica Definição / etiologia A isquemia mesentérica crônica é a doença obs- trutiva crônica das artérias que irrigam os intesti- nos, resultante da aterosclerose. Com a obstru- ção, o fluxo sanguíneo pelos vasos mesentéricos se mostra insuficiente durante os períodos de maior demanda metabólica (ex.: digestão). Ou seja, estamos falando de uma verdadeira angina, só que neste caso a “angina mesentérica”! Como os fatores de risco para doença aterosclerótica são os mesmos, é comum encontrarmos asso- ciação com doença coronariana isquêmica e insuficiência arterial periférica crônica. manifestações Clínicas O paciente que possui isquemia mesentérica crônica é descrito classicamente como uma caquética senhora de meia-idade com histó- ria forte de tabagismo, queixando-se de dor abdominal e emagrecimento. Perceba que trata-se de uma mulher. A isquemia mesen- térica crônica é uma das poucas doenças cardiovasculares mais comuns em mulheres (predomínio de 3:1). E a caquexia? A isquemia mesentérica provoca dor abdomi- nal em cólicas, que caracteristicamente surge 15 a 30 minutos após as refeições, e dura por uma a duas horas. Os pacientes costumam estar francamente emagrecidos por terem “medo” de se alimentar (sitofobia). Deve-se ainda procurar no exame físico evi- dência de aterosclerose em outros locais (como sopro carotídeo, femoral, etc.). Os sin- tomas são progressivos e tendem a evoluir para trombose e isquemia mesentérica aguda. Note que, frente a um paciente idoso com dor abdominal e emagrecimento, você acabaria fa- zendo inúmeras hipóteses diagnósticas, menos a própria isquemia mesentérica... E você está certo! Diante desse quadro, é natural buscar por doenças mais comuns, como a própria neoplasia de estômago ou de cólon. No entanto, saiba que a origem dos sintomas pode também ser vascular! RESIDÊNCIA MÉDICA – 2006 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO – UERJ Depois da dor abdominal, o sintoma observado com maior frequência em pacientes portadores de insuficiência arterial mesentérica crônica é: a) Diarreia. c) Constipação. b) Vômitos. d) Perda de peso. Excluindo a dor abdominal, a perda de peso é o sintoma mais comum, encontrada em cer- ca de 80% dos pacientes, sendo atribuída ao desenvolvimento de aversão à alimentação, gerada pelo medo da dor pós-prandial. Res- posta letra D. RESIDÊNCIA MÉDICA – 2005 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO – UERJ No ambulatório, uma paciente de 63 anos quei- xa-se de dor abdominal epigástrica, em cólica, que se inicia 10 a 15 minutos após as alimenta- ções, aumenta gradativamente de intensidade, atinge um “platô” e dura cerca de quatro horas. No passado, submeteu-se a laparotomia devido à apendicite aguda e prenhez tubária há, res- pectivamente, 40 e 38 anos. Diz que está per- dendo peso e que tem receio de se alimentar. Refere ainda flatulência e eventual diarreia. O exame do abdome é inexpressivo. A principal hipótese diagnóstica é: a) Colecistopatia calculosa. b) Neoplasia maligna do cólon. c) Isquemia mesentérica crônica. d) Semioclusão do