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Desenvolvimento como crescimento equilibrado 
 
José de Arimatéia Dias Valadão 
 
 O início do período pós-guerra foi relevante para as questões relacionadas ao 
desenvolvimento. Primeiro é preciso dizer que se o pensamento comunista não prevaleceu ao 
longo de toda a Guerra Fria, por outro lado, fez o mundo capitalista se movimentar para proteger 
sua expansão. Um desses movimentos foi o movimento de Breton Woods, em que os países 
industrializados definiram um conjunto de regras comerciais e econômicas para os países 
periféricos visando protege-los do movimento comunista liderado, dentre outros, pela União 
Soviética. Todas esse movimento teve grande influência no contexto brasileiro, pois desde o 
New Deal, diante da estreita relação entre Getúlio Vargas e Franklin Roosevelt, o Brasil já 
participava ativamente do pensamento econômico mundial. 
 Um ponto básico aqui foi a necessidade de regulação econômica visando a 
reestruturação do mundo. Nesse sentido, diante da insuficiência da visão liberal para promover 
o desenvolvimento, os Estados industrializados assumem um projeto de modernização, 
elaborando diretrizes gerais, tanto para seus governos como para os governos dos países 
periféricos. Os estados passam assumir o funcionamento de importantes setores antes 
regulamentados pelas relações de mercado, como jornada de trabalho, investimentos, preços, 
estoques, reservas, previdência, dentre outros. Esse período passou a existir um movimento 
único liderado pelos países industrializados de “administração do desenvolvimento”1. 
 Essa participação ativa do Estado, por meio dos países industrializados, cria-se um 
projeto de desenvolvimento para todo o mundo. Além disso, a definição e prática do 
desenvolvimento se torna uma prerrogativa desses mesmos países, criando um arcabouço de 
conhecimentos oriundos da Ciência positiva e empirista, a serem aplicados e ensinados aos 
países do Sul2. Muitos teóricos, contudo, desses mesmos países, diante de suas atividades 
profissionais e de pesquisa3, começaram a compreender que as dinâmicas dos países periféricos 
eram muito peculiares e não relacionavam-se diretamente às formas e contextos dos países 
industrializados. Em decorrência disso, não adiantavam, na visão desses autores, praticar um 
desenvolvimento aos moldes da história desses países, tendo em vista que as particularidades 
 
1 Ver ANDRADE, J. A.; CORDEIRO NETO, J. R.; VALADÃO, J. A. D. Associações sociotécnicas e práticas de gestão 
em desenvolvimento: analisando rastros por entre o traçado do P1MC. Cad. EBAPE.BR, v. 11, n. 2, Rio de Janeiro, 
Jun. 2013. 
2 Ver MENESES, M. P. Epistemologias do Sul. Revista Crítica de Ciências Sociais, n. 80, Março, 2008, pp. 5-10. 
3 Muitos deles consultores de agências de desenvolvimento internacional. 
regionais influenciavam muito nas dinâmicas desenvolvimentistas. São casos de teóricos como 
Nurkse, Myrdal e Kuznets. 
 
Questões centrais que são tratadas na maioria dos teóricos que discutem essa temática4 
1. Crítica à teoria neoclássica, que foi considerada incapaz de interpretar a dinâmica dos países 
subdesenvolvidos; 
2. A pequeneza do mercado interno, considerada um empecilho para a expansão da produtividade das 
indústrias residentes e para a instalação de novas indústrias atrofiada pela demanda local; 
3. A incapacidade dos países subdesenvolvidos acompanharem a demanda do comércio exterior devido à 
escassa produção decorrente da baixa capacidade tecnológica; 
4. O excesso da população agrária nos países subdesenvolvidos causa o aumento do desemprego, pois com 
o desperdício de mão-de-obra cria-se uma situação de “desemprego disfarçado”. 
 
 Para Ragnar Nurkse5, um dos teóricos que adotam essa perspectiva de análise e 
conferencista em diferentes regiões do mundo como Cairo, Rio de Janeiro, Istambul e 
Singapura, o problema dos países pobres é a existência de um círculo vicioso da pobreza. Para 
ele, a questão central do desenvolvimento perpassa pela questão da produtividade. Contudo, 
deficiências de capital não permitem que investimentos sejam feitos nas bases produtivas, 
incorrendo em problemas circulares, comparados à uma pessoa pobre. Como ele coloca, “[...] 
um homem pobre não tem o bastante para comer; sendo subalimentado, sua saúde é fraca; 
sendo fisicamente fraco, sua capacidade de trabalho é baixa, o que significa que ele é pobre, 
o que, por sua vez, quer dizer que não tem o bastante para comer; e assim por diante. Tal 
situação, transposta para o plano mais largo de um país, pode ser resumida nesta proposição 
simplória: um país é pobre porque é pobre”6. Desse modo, alguns elementos são centrais para 
o subdesenvolvimento, na visão de Nurkse. Dentre eles, valem ser citados: falta de formação 
de capital, descontinuidades técnicas, excesso de população no campo, efeito demonstração, 
pequenez do mercado interno e baixa produtividade. 
 A falta de formação de capital é uma questão central para os países periféricos, na visão 
de Nurkse. Para ele, assim como uma pessoa pobre não dispõe de meios econômicos suficientes 
para garantir sua existência, os países pobres não conseguem manter uma base de capital 
suficiente para dinamizar investimentos. A falta de investimentos compromete melhorias nos 
sistemas produtivos, não conseguindo implementar condições técnicas duradouras e eficientes 
para assegurar melhorias na produção. Os riscos inerentes às atividades empreendedoras não 
permitem que os empresários invistam nas bases de transformação dos produtos em longo 
 
4 Texto de GUMIEIRO, R. G. Diálogo das teses do Subdesenvolvimento de Rostow, Nurkse e Myrdal com a Teoria 
do Desenvolvimento de Celso Furtado. Tese, 144 p. São Carlos: UFSCar, 2011. p. 30. 
5 NURKSE, Ragnar. Problemas de formación de capital en los países insuficientemente desarrolados. México: 
Fondo de Cultura Económica, 1953. pp. 13-30. 
6 Ibidem, p. 13. 
prazo, restringindo as tecnologias de produção desses países em obsoletas e arcaicas se 
comparadas aos modos de produção dos países industrializados. 
 Além disso, a própria mão de obra disponível nesses países não tem qualificação técnica 
para atuar em sistemas mais avançados. Isso incorre em um outro problema: a indústria local 
não consegue absorver toda a mão de obra disponível nas áreas agrícolas, gerando o 
desemprego disfarçado, ou seja, atividades agrícolas sendo remuneradas abaixo dos níveis de 
consumo do trabalhador que desenvolve essas atividades. Por outro lado, esse mesmo 
trabalhador é influenciado pelos padrões de consumo dos países industrializados, gerando o 
efeito demonstração ou o excessivo consumo, se comparado aos padrões produtivos locais. 
Consequentemente, isso produz um mercado interno deficiente e que não permite alavancar a 
produtividade. 
 Nurke entende que para sair desse círculo vicioso, é preciso uma agência estatal 
reguladora que possa buscar investimentos estrangeiros e dinamizar a capacidade interna de 
investimentos. Além disso, “o prognóstico elaborado por Nurkse para superar o 
subdesenvolvimento, é a industrialização por meio do crescimento equilibrado. A 
industrialização traz dinamicidade para a economia e o crescimento equilibrado aumenta a 
produtividade em todos os setores da economia, possibilitando a produção criar a sua própria 
demanda”7. Ou seja, o desenvolvimento na perspectiva do crescimento equilibrado é transpor 
as bases agrárias e de baixa capacidade de agregação de valor e tecnologia por meio de uma 
migração para uma base industrial que dinamize toda a cadeia produtiva, fazendo que se quebre 
o círculo vicioso que mantém os países e localidades estagnados. 
 
7 GUMIEIRO, R. G. Diálogo das teses do Subdesenvolvimento de Rostow, Nurkse e Myrdal com a Teoria do 
Desenvolvimento de Celso Furtado.34º Encontro Anual da Anpocs, disponível em 
https://www.anpocs.com/index.php/papers-34-encontro/st-8/st34-2/1697-rgumiero-dialogo/file acesso em 18 
de abril de 2018. p. 3. 
https://www.anpocs.com/index.php/papers-34-encontro/st-8/st34-2/1697-rgumiero-dialogo/file