Prévia do material em texto
Educação de 0 a 3 anos 31 coaduna com o de respeitar os pontos de vista e os desejos de pais e mães em relação a seus filhos? O que fazemos quando um aspecto central de sua cultu- ra consiste em distinguir muito claramente entre os papéis e as responsabili- dades para homens e para mulheres e o comportamento considerado adequa- do para meninos e para meninas? Acreditamos não ser possível adotar uma posição neutra, porque em nos- so ponto de vista isso simplesmente perpetua a discriminação. Uma política antidiscriminatória ativa deve envolver compensações pelas imagens que cer- cam constantemente as crianças no mundo fora da creche (Siraj-Blatchford, 1992). Entretanto, devemos também reconhecer que o que propomos repre- senta, sim, uma afirmação de nossos próprios valores, que podem estar em conflito com os valores de outras pessoas. Não se duvida que o racismo e o sexismo, com o atrofiamento de oportunidades que acarretam, têm suas raízes nas experiências mais precoces das crianças, e que esta é a melhor época para dirigir-se a elas (Derman-Sparks e ABC Task Force, 1989). Ao mesmo tempo, a creche deve reconhecer seu papel educacional e estabelecer um diálogo com os pais, e não simplesmente passar por cima dos pontos de vista deles. Nossas próprias ideias, como profissionais, evoluíram ao longo de muitos anos, auxi- liadas por workshops, discussões e leituras. Não é razoável esperar que as pessoas mudem completamente sua forma de ver as coisas somente porque seus filhos estão em uma creche. RESUMO Os educadores da primeira infância, em todos os níveis, precisam enten- der o contexto de transformação das políticas que está trazendo novas oportu- nidades e novos desafios para o seu trabalho. Entre as ideias e os valores nos quais se baseiam as abordagens da prática descritas neste livro estão os seguintes: promover o brincar criativo e de alta qualidade; integrar o cuidado e a educação; assegurar atenção individualizada e responsiva; envolver mães e pais e combater todas as formas de discriminação. Colocamos no topo da lista o compartilhamento, pelo Estado e pelas famílias, da responsabilidade de utilizar os melhores conhecimentos de que dispomos para educar e cuidar de nossas crianças menores. Esta página foi deixada em branco intencionalmente. c a p í t u l o 2 Organizando o espaço para viver, aprender e brincar Aparentemente, os pequenos detalhes não deveriam ser ignorados, pois é apenas por meio deles que grandes projetos são possíveis. São Jerônimo ambiente físico exerce uma grande influência sobre a maneira como as pessoas que trabalham em creches percebem o seu trabalho, e também sobre a qualidade das experiências que elas são capazes de oferecer às crianças. Prédios espaçosos e mais bem planejados tornariam a vida mais fácil para todos. No passado, o planejamento de prédios destinados a creches envolveu muito mais criatividade e o uso do pensamento em alguns outros países, como a Alemanha e a Itália, do que no Reino Unido (Abbott e Nutbrown, 2001; Burgard, 2000). Neste país, infelizmente, as creches têm de se contentar e fazer o possível com prédios que eram usados por outros serviços ou casas de estilo vitoriano que foram reformadas inadequadamente. Existem leis detalhadas, exigidas e fiscalizadas por órgãos de inspeção, que regulam os aspectos físicos dos prédios de creches, mas elas se referem apenas às questões de segurança e saúde, e não às estéticas. Até mesmo as exigências de espaço são mínimas. Em creches de empresas ligadas a lojas ou centros de lazer, o espaço destinado às crianças é determinado por razões comerciais, sendo muitas vezes pequenas demais ou desprovidas de acesso ao espaço externo. No entanto, já observamos alguns exemplos de trabalho muito criativo, com crianças menores de 3 anos, tendo lugar em prédios muito inadequados. Quaisquer que sejam as limitações de um prédio, sempre há algo que pode ser feito para torná-lo mais confortável e atra- tivo para os adultos e as crianças que nele passam longas horas do dia. O 34 Elinor Goldschmied e Sonia Jackson Neste capítulo, dedicamo-nos primeiramente a discorrer sobre a organi- zação e a aparência gerais da creche; a parte seguinte discute como o uso do espaço relaciona-se com os papéis do adulto na creche e a última parte discu- te em mais detalhes o equipamento e os materiais necessários para as brinca- deiras de grupos com crianças de diferentes idades. CRIANDO UM AMBIENTE SATISFATÓRIO Diferentemente de uma escola maternal, a creche é um lugar para viver, além de trabalhar e brincar. O ambiente físico deve levar em consideração essa função dupla, e combinar conforto e uma atmosfera caseira com a pra- ticidade de uma sala de aula de uma escola maternal bem-administrada. Sua aparência como um todo deve ser interessante e prazerosa tanto para as crian- ças quanto para os adultos. Como a oferta de cuidado para as crianças teve baixa prioridade em ter- mos de orçamento no passado, muitas vezes as creches e os centros familiares tiveram de se contentar e fazer o possível com equipamentos e mobília que foram sendo acumulados, tendo como preocupação principal o baixo custo. O resultado foi que muitas salas têm móveis de formatos inadequados, e almo- fadas e cortinas de cores e texturas que não formam um padrão harmônico – que a maioria de nós não toleraria ver em nossas próprias casas. Bancos, lojas e restaurantes pagam quantias enormes a decoradores para criar um ambiente visual atraente para os clientes durante suas breves visitas. Apesar disso, muitas vezes nos contentamos com o fato de as crianças passa- rem seus anos mais formativos cercadas de feiúra e desordem. É notável que isso não seja geralmente verdade em países como a Itália, que dão muito mais importância à educação visual e artística do que o Reino Unido. Tomemos os quadros como exemplo. Infelizmente, muitas vezes encontra- mos creches decoradas com recortes grosseiros de personagens de desenhos da Disney, que nada acrescentam à aparência da sala e nos quais as crianças man- têm pouco interesse depois da primeira vez em que os reconhecem. Reprodu- ções de pinturas de boa qualidade são raras em creches britânicas, apesar de em outros países isso ser considerado um aspecto da apresentação das crian- ças à sua herança cultural. É claro que uma boa parte da área das paredes de uma creche será utili- zada para expor os trabalhos das crianças, ou para avisos e informações aos pais e funcionárias, porém, normalmente, há espaço disponível em entradas, corredores ou na sala dos funcionários. Vale a pena ainda lembrar dos lugares onde a área das paredes é geralmente desperdiçada, como em cozinhas, ba- nheiros e vestiários. Algumas galerias de arte oferecem esquemas de empréstimo, e por vezes possuem porões cheios de pinturas e aquarelas de narrativas vitorianas que Educação de 0 a 3 anos 35 um dia foram menosprezadas, mas que agora encontramos reproduzidas em qualquer loja de cartões. Essas pinturas podem ser muito atraentes para as crianças e oferecer muitas oportunidades para conversa. As crianças tendem a ter gostos ecléticos e a ficar curiosas com arte não representacional, como, por exemplo, pinturas de artistas do século XX como Picasso, Miró e Chagall. As educadoras podem ter ainda quadros favoritos que estariam dispostos a emprestar temporariamente. Pinturas e tapeçarias chinesas, persas, africanas e indianas também são muito interessantes para as crianças. Fotos de instru- mentos, músicos e dançarinos agem como estímulo a esses tipos de atividade (Pound e Harrison, 2003). Criar um ambiente visual satisfatório não é uma tarefa que se faz uma só vez para sempre, mas algo que precisa acontecer de forma contínua. Da mes- ma forma que, em nossos lares, fazemos constantemente pequenos ajustes e melhorias, mudando quadros de um aposento para outro, mudando uma lu- minária ou uma planta, uma creche parecerá convidativa e bem-cuidada so- mente se o mesmo tipo de processo acontecer. Se uma creche estiver sendo criada e mobiliadaa partir do zero, o me- lhor é escolher cores claras e não muito brilhantes para os itens básicos, para que as funcionárias possam exercer sua criatividade em murais, tapeçarias, móbiles, forros de almofada, fotos e outros objetos facilmente removíveis e substituíveis. Os carpetes criam um efeito de mais espaço, absorvem ruídos e são agradáveis para sentar. Embora pareça caro, o carpete resistente e à prova de manchas é um excelente investimento, juntamente com uma máquina de lavar apropriada; bem-cuidado, continuará em bom estado durante anos. Conhecemos muitas creches que fazem o possível com sobras de padrões sortidos e extravagantes ou tapetes atoalhados que amarrotam. Pode ser difícil convencer os adminis- tradores da creche das justificativas para gastar dinheiro em um carpete novo, e conseguir verbas para tal propósito pode parecer um tanto fútil se compara- do com um grande equipamento de brincar ou uma viagem à costa, por exem- plo; porém, a longo prazo, tal mudança oferecerá uma contribuição maior para a moral das educadoras e o conforto das crianças. A área de entrada O espaço com que as pessoas se deparam ao entrar em uma creche neces- sita ser pensado com cuidado, caso queiramos que seja genuinamente convi- dativo. Adentrar em uma área iluminada e acarpetada, provida de cadeiras confortáveis para esperar ou conversar, além de plantas, fotos e quadros bem colocados nas paredes, proporciona uma sensação muito diferente daquela de um corredor escuro com um banco estreito, avisos de proibições e equipa- mentos amontoados. Deve ser dada atenção especial ao impacto visual dessa Capítulo 2 | Organizando o espaço para viver, aprender e brincar