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45 4 O reforço teórico Teoria literária e comparativismo As reflexões sobre a natureza e o funcionamento dos textos, sobre as funções que exercem no sistema que integram e sobre as relações que a literatura mantém com outros sistemas semióticos (legado formalista que os estruturalistas do Círculo de Praga se encarregaram de levar adiante) abriram caminho para a reformulação de alguns conceitos básicos da literatura comparada tradicional. Entre as diferentes contribuições, foram utilíssimas as noções de Iuri Tynianov sobre a evolução literária25, de Jan Mukarovsky sobre a função estética e sobre a arte como fato semiológico26 e de M. Bakhtin sobre o dialogismo no discurso literário27. 46 I. Tynianov pertenceu ao Círculo Linguístico de Moscou, constituindo com B. Eikenbaun, V. Chklovski, R. Jakobson, O. Brik, B. Tomachevski e outros do grupo que, por um recurso didático, reunimos sob a mesma etiqueta de "formalistas russos", ainda que alguns tenham orientações teóricas bem diversas. Esses estudiosos, como foi referido, romperam com a análise concebida em termos de causalidade mecânica, de 25 TYNIANOV , Iuri. Da evolução literária. In: —, et al. Teoria da literatura (Formalistas russos). Porto Alegre, Globo, 1971. 26 MUKAROVSKY , Jan. La junzione, la norma e il valore estetico come fatti sociali (Semiologia e sociologia dell'arte). Torino, G. Einaudi, 1971. 27 BAKHTIN, Mikhaïl. Problemas da poética de Dostoiévski. Rio de Janeiro, Forense, 1981. larga difusão no século anterior, que fazia intervir na investigação do literário o biografismo, o psicologismo, a história literária e a sociologia. Amparavam seus estudos sobre a poética na teoria linguística de Ferdinand de Saussure, tentando definir a língua poética por oposição à língua prática, a função expressiva da linguagem por oposição à função comunicativa. Foram eles que estabeleceram a noção geral da linguagem poética como um sistema, isto é, um conjunto de relações entre o todo e suas partes. Ao rejeitarem o estudo da gênese, que se apoiava na sociologia e na biografia, postularam o princípio da imanência da obra: esta é um produto que deve ser estudado em si mesmo e do qual é necessário analisar a construção. Consideravam o texto um sistema fechado, de que cabia efetuar a análise interna. Privilegiando a imanência, os formalistas não evitaram o risco de uma análise estática, que favorecia o conhecimento e a consequente descrição do texto literário mas deixava de examinar as relações que ele estabelecia com elementos extratextuais, limitando o alcance interpretativo dos estudos. Contra o fechamento que os estruturalistas iriam acentuar se insurgem dois representantes do grupo formalista: R. Jakobson e I. Tynianov. Ambos propõem o abandono do "formalismo" escolástico que privilegia a catalogação 47 dos fenômenos em detrimento da análise dos mesmos. No ensaio "Da evolução literária", Tynianov questiona: É possível o estudo chamado "imanente" da obra enquanto sistema, ignorando suas correlações com o sistema literário? [...] Entretanto, mesmo a literatura contemporânea não pode ser estudada isoladamente. A existência de um fato como fato literário depende de sua qualidade diferencial (isto é, de sua correlação seja com a série literária, seja com uma série extraliterária), em outros termos, de sua função (p. 109). Tynianov alerta que "um mesmo elemento tem funções diferentes em