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Enforcando e comendo, de Jam Komski, [s. d.]. 2. Observe a pintura de Jam Komski. Em seguida, leia trechos da entrevista que Andor Stern concedeu à BBC News sobre o tempo que passou como prisioneiro no campo de extermínio de Auschwitz. Em janeiro de 2020, ele tinha 91 anos e era considerado o único brasileiro nato a sobreviver àquela experiência traumática. Jan Komski (1915-2002), artista polonês católico com formação na Academia de Belas-Artes de Cracóvia, lutou na resistência polo- nesa aos nazistas e acabou capturado e preso. Passou por vários campos de concentração até ser libertado, em 1945, em Dachau, na Alemanha, por tropas estadunidenses. R e p ro d u ç ã o /M u s e u E s ta ta l d e A u s ch w it z- B ir k e n a u , O ś w ię c im , P o lô n ia [...] “Daí começou o calvário deles: meus avós, meus tios, minha tia grávida foram levados direto para a câmara de gás”, conta Stern. Sua mãe, Julia, tampouco foi poupada. Uma das primeiras coisas que Stern escutou ao chegar foi “‘Está vendo aquela fumaça lá? Tua família está saindo de lá – seus avós, teus tios, tua mãe’. Mi- nha família estava saindo pela chaminé”, recorda. [...] “Uma mesma bacia de noite é penico e de dia é o prato em que você come. E você come como cachorro. Não tem garfo, faca, colher”, lembra. “Você tem eczema, sarna. A comida te causa uma eterna diarreia, o que, aliás, é uma (das causas) que mais matavam as pessoas. No inverno, abaixo de 22, 24, 26 graus, quando você está ‘vazando’, você até gosta porque é quentinho. E você não tem como tomar banho depois disso. Você aceita a sujeira, a imundície. E você perde a condição de ser humano. Devora qualquer casquinha de batata. Só o que pensa é na fome. Você vira um zumbi.” [...] “A guerra terminou e eu sobrevivi. Estava vivo. Pesava 28 quilos, mas estava vivo. [...] Perguntei a mim mesmo: ‘o que quero da vida? Onde estarei daqui a 5, 10, 20 anos?’”. “Decidi o seguinte: ‘quero um par de sapatos em que não entre água e me aqueça no inverno; uma roupa isenta de qualquer bicho e que me cubra no inverno, um paletó com bolso e um relógio que eu possa olhar e dizer: ‘vou comer esse pão amanhã às 14h e vou resistir, porque não estarei passando fome’. Podendo me movimentar da esquerda para a direita, vou ser o homem mais feliz do mundo’”, conta. [...] “A vida me deu péssimos momentos, mas também momentos maravilhosos, talvez mais do que uma pessoa merece. Saber sentir gratidão já é um grande presente, e sinto gratidão quase diaria- mente”, conta. 79 P5_V5_CIE_HUM_Vainfas_g21Sa_Cap3_066a081_LA.indd 79P5_V5_CIE_HUM_Vainfas_g21Sa_Cap3_066a081_LA.indd 79 8/31/20 10:11 AM8/31/20 10:11 AM “Sobreviver àquilo (Holocausto) te dá uma lição de vida que você fica tão humilde. [...] Imagina a minha cama cheirosa, de lençóis limpos. Chuveiro fumegante no banheiro. Sabonete. Pasta de dente, escova de dente. Uma toalha maravilhosa. Descendo (a escada), uma cozinha cheia de remédio, porque velhinho precisa tomar para viver melhor; comida à vontade, geladeira cheia. Peguei meu carrinho, fui trabalhar pelo caminho que eu quis, ninguém me enfiou uma baioneta. Estacionei, fui recebido com calor humano pelos meus colegas. Gente, eu sou um homem livre.” [...] IDOETA, Paula Adamo; LIMA, Felix. “Está vendo aquela fumaça? É sua família”: o relato do brasileiro que sobreviveu a Auschwitz. BBC News Brasil, 23 jan. 2020. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/ internacional-50790313. Acesso em: 12 maio 2020. Agora, responda às questões. a) À sua maneira, a pintura e o depoimento do sobrevivente documentam o processo de desumanização produzido pelo regime nazista. Como você descreveria cada um desses documentos? O que mais lhe chama a atenção em cada um? b) Como Andor Stern resistiu ao trauma da experiência em Auschwitz? c) Com base no que você estudou, indique duas ações que podem evitar que a experiência do Holocausto se repita. Discutindo um conceito 3. Leia o texto a seguir, que relata um crime de ódio ocorrido no Japão em 2016. Em seguida, responda às questões. […] em 26 de julho de 2016, no Japão, um jovem de 26 anos de idade, Satoshi Uematsu, esfaqueou 19 pessoas até à morte, e feriu outras 26, na pacata cidade de Sagamihara. Uma cidade de pouco menos que 700 mil habitantes. O ataque foi às pessoas com deficiência em uma casa de cuida- dos residenciais. Uematsu havia trabalhado no ambiente anteriormente. Após o perverso abate, Uematsu expressou-se por meio de uma rede social: “Espero a paz mundial Beautiful Japan!!!!!!”. Ele, então, entregou-se à polícia. O jornal inglês The Guardian relatou que Uematsu disse à polí- cia: “É melhor que as pessoas com deficiência desapareçam.” O massacre se deu exatamente no 26o aniversário da lei americana Americans with Disabilities Act, a qual originou grande debate sobre os direitos para essas pessoas no mundo todo, debate esse que culminou na Convenção da ONU de Direitos das Pessoas com Deficiência (2006). O dia foi escolhido, obviamente. Pelo seu trabalho, Uematsu conhecia o movimento das pessoas com deficiência. Conhecia os funcionários, os residentes, seus familiares. Acreditava ser capaz de matar 470 pessoas, em duas instituições, antes de se entregar. Ele disse que faria isso pela felicidade do mundo. A motivação de Uematsu bebe em ódio e capacitismo. A natureza do crime mostra uma ação meticulosamente arquitetada – por exemplo, Uematsu che- gou a amarrar um funcionário para ter mais tempo de execução. [...] Uematsu tinha escrito ao governo japonês em fevereiro de 2016, pouco antes do crime, delineando a sua intenção de matar. Ele foi hospitalizado involuntariamente por duas semanas e libertado sem acusações. Parecia melhor, achavam. Sonhava com um mundo “livre” de pessoas deficientes. [...] DIAS, Adriana Abreu Magalhães. Observando o ódio: entre uma etnogra�a do neonazismo e a biogra�a de David Lane. 2018. Tese (Doutorado em Antropologia Social). Unicamp/Instituto de Filoso�a e Ciências Humanas. Campinas, 2018. p. 280. Disponível em: http://repositorio.unicamp.br/jspui/handle/REPOSIP/332688?mode=full. Acesso em: 12 maio 2020. a) Movido pelo ódio, Uematsu buscava exterminar os deficientes que estavam ao seu alcance. Como afir- ma a antropóloga Adriana Dias, a autora do texto: “A motivação [...] bebe em ódio [...]”. Explique essa frase relacionando a ela os conceitos de crime de ódio e genocídio. 80 P5_V5_CIE_HUM_Vainfas_g21Sa_Cap3_066a081_LA.indd 80P5_V5_CIE_HUM_Vainfas_g21Sa_Cap3_066a081_LA.indd 80 8/31/20 10:11 AM8/31/20 10:11 AM