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Teologiaii
Século 20
Deus e o m undo n u m a e ra cie transição
S t a n l e y J . G r e n z & R o g e r E. O l s o n
a Teologia d o Século 20
Deus e o mundo num a era de transição
A fé cristã é imutável, mas é apresentada para
(É O m um mundo em transição. Por isso a teologia deve
iw mover-se entre três pólos - o evangelho bíblico,
j§j a tradição da igreja e as formas contemporâne-
Ü55551 as de pensamento. Ela usa os três com o objetivo
de articular a confissão imutável de Jesus num
contexto em transformação e, assim, ser relevante
' para as questões das gerações por vir.
Nesta obra, buscamos tratar daquilo que consideramos ser
a principal corrente teológica do século 20. Para isso, exa
minamos os teólogos e movimentos mais proeminentes das
últimas décadas. É claro que eles não surgiram num vácuo.
Nosso desejo não é apenas oferecer uma sinopse dos prin
cipais pensadores e suas idéias, mas contar uma história,
a história da teologia durante uma era de transição.
“De m odo calculado e com astúcia, Grenz e Olson desvendam de
que m odo técnicos de ponta em Teologia pensaram sobre Deus em
nosso século apocalíptico ... É um a espécie de guia para o mundo
dos teólogos. Recomendo que você se fam iliarize com esse manual.
Você vai precisar dele.”
J.I. Packer
Regent College
Stanley Grenz é professor de Teologia no Carey/
Regent College em Vancouver, British Columbia.
Roger Olson é professor de Teologia no Betel
College, em St. Paul, Minnesota.
T eologia/Filosofia/História
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Rua Miguel Teles Junior. 382 - Cambuci
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Deus e o
Teologia do Século 20 © 2003, Editora Cultura Cristã. O riginalm ente publicado em
inglês com o título 20'h Century Theology de Stanley J. Grenz e Roger E. Olson
Copyright Ê-12001 by Stanley J.. Grenz e Roger E. Olson pela InterVarsity Press, P.O.
Box 1400 Dow ners Grove, IL 60515, USA. Todos os direitos são reservados.
I a edição em português - 2003
3.000 exemplares
Tradução
Suzana Klassen
Revisão
M aria da Graça Rego Barros
Cláudio César Gonçalves Q_
Editoração
Q
Cássia Rejane
^ela Design
) V 'iS}ckÇ o autorizada pelo Conselho Editorial:
\ (Jp a u d io M arra (Presidente), A lex B arbosa Vieira,
A ndré Luís Ramos, M auro Fernando M eister,
Otávio Henrique de Souza, Ricardo A greste,
Sebastião Bueno Olinto, Valdeci Santos Silva
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Superintendente: Haveraldo Ferreira Vargas
Editor: Cláudio A ntônio Batista M arra
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Wolfhart Pannenberg:
Estudioso, Mestre e Amigo
S umário
P refácio ........................................................................................................................................ 07
IN T R O D U Ç Ã O : T ranscendência e Imanência e a H istória T eológica
M o d e r n a .....................................................................................................................................09
1. IL U M IN IS M O : A D estruição do E quilíbrio C l á s s ic o ............................ 13
2. A R E C O N S T IT U IÇ Ã O D A T R A N S C E N D Ê N C IA : A Imanência
na T eologia do S éculo 19 ............................................................................................25
I m m a n u e l K a n t .......................................................................................................................... 2 6
G. W. F. H e g el ..................................................................................................................... 34
F ried rich S c h l e ie r m a c h e r ...................................................................................................... 43
A l b r ec h t R itsch l e T eo log ia L iberal C l á s s ic a ........................................................58
3. A R E V O L T A C O N T R A A IM A N Ê N C IA : A T ranscendência na
N e o -ortodoxia ....................................................................................................................... 73
K a r l B arth .................................................................................................................................. 75
E m il B r u n n e r ........................................................................................................................ 91
R u d o l f B ultm an n ................................................................................................................. 101
R e in h o ld N ieb u h r ................................................................................................................. 117
4 . O A P R O F U N D A M E N T O D A IM A N Ê N C IA : R eformulação da
T radição L ib e r a l ........................................................................................................... 135
P au l T illic h ............................................................................................................................. 136
T eo lo g ia d e P ro cesso ......................................................................................................... 155
5. A IM A N Ê N C IA D E N T R O D O S E C U L A R : O M ovimento R adical 173
D ietr ic h B o n h o effer ....................................................................................... ................... 174
T e o lo g ia S ec u l a r ................................................... ..................................................................1 86
6. A T R A N S C E N D Ê N C IA D O F U T U R O : A T eologia da E sperança ... 203
Jürgen M oltmann ........................................................................................................... 205
WOLFHART PANNENBERG .................................................................................................. 2 2 2
7 . A R E N O V A Ç Ã O D A IM A N Ê N C IA N A E X P E R IÊ N C IA D E
O P R E S S Ã O : T eologias da L ib er ta ç ã o .................................................................239
T eologia da L ibertação N e g r a .................................................................................. 240
T eologia da L ibertação L atino-am ericana ......................................................... 251
T eologia F eminista ......................................................................................................... 2 69
8. A T R A N S C E N D Ê N C IA D O E S P ÍR IT O H U M A N O : A N ova
T eo lo g ia C atólica ..................................................................................................... 2 85
K arl R ahner ..................................................................................................................... 2 86
H ans K üng .......................................................................................................................... 306
9. A T R A N S C E N D Ê N C IA D E N T R O D A H IS T Ó R IA : A T eologia
N arrativa .................................................................................................... ............... ....... 3 2 7
10. R E A F IR M A N D O O E Q U I L ÍB R IO : O A m adurecim ento da
T eologia E vangélica .................................................................................................. 3 4 7
C arl F. H . H enry ............................................................................................................350
B ernard R amm .................................................................................................................. 360
C O N C L U S Ã O : C ontribuiçõ es do P assado e P erspectivas para o
futuro na B usca por uma T eologia da T ranscendência e I manência .... 377
N otas ............................................................................................................................................3 8 3
B ib l io g r a f ia .............................................................................................................................4 3 9
Í ndice de A utores e N o m e s .............................................................................................. 4 5 7
Í ndice de A s s u n t o s ..............................................................................................................461
P refácio
<—J V um sentido amplo, a teologia pode ser definida como a reflexão intelectual
sobre o ato, conteúdo e implicações da fé cristã. A teologia descreve a fé dentro
de um contexto histórico e cultural específico e, portanto, é claramente uma disci
plina contextuai. Devido a sua natureza contextual, a teologia é uma tarefa contí
nua. E claro que a fé cristã e o compromisso com Jesus como Senhor e com o
Deus Triúno revelado em Cristo são imutáveis. A confissão dessa fé e compro
misso, porém, é feita para um mundo que está em transição. A teologia serve à
igreja a cada geração e em cada contexto cultural, ao assistir o povo de Deus na
reflexão e aplicação da fé única da igreja no mundo em que os discípulos contem
porâneos vivem e exercem o ministério em nome de Cristo.
Conseqüentemente, a teologia deve mover-se entre três pólos - o evangelho
bíblico, a tradição da igreja e as formas de pensamento do mundo contemporâ
neo. Ela usa os três com o objetivo de articular a confissão imutável de Jesus
num contexto em transformação e, assim, ser relevante para as questões das
gerações por vir.
Os teólogos do século 20, bem como seus antecessores de todas as gerações,
aceitaram o desafio apresentado por sua disciplina. Nesta obra, buscamos tratar
daquilo que consideramos ser a principal corrente teológica do século 20. Para
isso, examinamos os teólogos mais proeminentes bem como os movimentos teoló
gicos das últimas décadas. E importante lembrar, porém, que essas pessoas e
movimentos não surgiram num vácuo e nem de maneira isolada. Assim, procura
mos ir além de um exame objetivo e em direção a uma interpretação. Nosso desejo
não é apenas oferecer uma sinopse dos principais pensadores e suas idéias, mas
contar uma história, a história da teologia durante uma era de transição.
Vemos o século 20 como um tempo de transição da chamada cultura mo
derna, iniciada pelo Iluminismo, para a cultura pós-moderna. Ainda falta muito
para os estudiosos entrarem num acordo sobre o significado do termo pós-modemo
como época cultural, mas quase ninguém vê o presente ou o futuro simplesmente
como uma extensão daquelas forças culturais despertadas pelo Iluminismo. O sé
culo 20 não viu o desabrochar e o frutificar pleno da modernidade, mas sim a sua
erosão e declínio. A modernidade corroeu-se em seus próprios ácidos através de
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movimentos como o existencialismo, a nova física, o feminismo e o desconstru-
cionismo. O século 20 fez crescer a ansiedade acerca do lugar da humanidade no
universo como nenhum outro século antes. Essa ansiedade revela-se nas novas
buscas por transcendência, por uma fonte de significado e esperança que vá além
do mundo auto-suficiente da ciência e filosofia iluministas. Vemos a teologia do
século 20 como a história da luta dessa teologia com a cultura através dessa
transição da modernidade para a pós-modernidade.
Cremos que um tema importante que oferece uma ferramenta interpretativa e
um meio de lançar luz sobre a unidade e diversidade nesse século transitivo é a
tensão criativa apresentada pelas verdades da transcendência e imanência divi
nas. É claro que esta não é a única chave para a interpretação da teologia do
século 20. Mesmo assim, estamos convencidos de que a questão teológica central
da relação entre a transcendência e a imanência contribuiu grandemente para
determinar o rumo que a teologia tomou no último século.
O ímpeto deste livro encontra-se no editor de obras de referência da Editora
InterVarsity, Dan Reid, que vislumbrou uma obra editada com artigos tratando do
significado da teologia do século 20. Sua idéia original transformou-se rapidamen
te numa abordagem interpretativa do assunto, realizada por dois autores. Tendo
em vista que trabalhamos em contextos acadêmicos muito diferentes, nossa preo
cupação, ao longo da elaboração do livro, foi mantê-lo útil tanto para o contexto do
seminário como da área de ciências humanas de um modo geral.
Além de Dan Reid e da equipe da Editora InterVarsity, >agradecemos a várias
outras pessoas. Nossas instituições educacionais ofereceram apoio imensurável.
Stan trabalhou durante sua transição do North American Seminary em Sioux Falis,
South Dakota, para o Carey Theological College e o Regente College em Van
couver, British Columbia. O envolvimento de Roger com este projeto foi possível,
em parte, graças a um período sabático de seis meses concedido a ele pelo Bethel
College, St. Paul, Minnesota. Serviços de secretariado foram prestados por Joy
Huisman, do North American Baptist Seminary; Elaine Dickinson e Beverly
Norgren, do Carey Theological College; e Janine McFarland, do Bethel College.
Colaborações de grande ajuda, como a verificação de referências, foram recebi
das de assistentes como Marsha Moret Sietstra, do NABS; Gerald Deguire, do
CTC; e Tom Douglas, do Bethel. Acima de tudo, cada um de nós deve a gratidão
maior aos nossos familiares, que nos suportaram pacientemente durante os dois
anos de gestação desse nosso “filho” literário.
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I ntrodução:
T ranscendência e Imanência e a H istória T eológica M oderna
V a melhor das hipóteses, a teologia cristã buscou sempre um equilíbrio entre
as verdades bíblicas da transcendência e da imanência divinas. Por um lado, Deus
relaciona-se com o mundo como um Ser Transcendente. Ou seja, Deus é auto-
suficiente e não precisa do mundo. Ele está acima do universo e muito além do
mundo. Conforme declaram enfaticamente as Escrituras hebraicas, Deus habita
no céu. “Deus está nos céus, e tu, na terra”, diz o pregador (Ec 5.2). E o profeta
relata que viu o Senhor “assentado sobre um alto e sublime trono” (Is 6.1).
Por outro lado, Deus também se relaciona com o mundo como um Ser Ima
nente. Isso significa que Deus está presente em sua criação. O ser divino está
ativo no universo, envolvido nos acontecimentos do mundo e da história humana.
Paulo enfatizou essa verdade em seu conhecido discurso aos atenienses durante
o encontro no Areópago. Deus “não está longe de cada um de nós”, diz ele, “Pois
nele vivemos, e nos movemos, e existimos” (At 17.27,28). Um tema relacionado
a este - a presença do Espírito de Deus como sustentador da criação - aparece
repetidamente no Antigo Testamento, especialmente na literatura de sabedoria
(como em Jó 27.3, 33.4, 34.14,15; SI 104.29,30). E o próprio Jesus deu crédito a
seu Pai pelos processos naturais como a chuva e o sol, a alimentação dos pássa
ros e a beleza das flores (Mt 5.45; 6.25-30; 10.29,30).
Pelo fato da Bíblia apresentar Deus como estando tanto além do mundo quan
to presente no mundo, os teólogos de todas as eras são confrontados com o desa
fio de articular o entendimento cristão da natureza de Deus de uma forma que
equilibre, afirme e sustente numa tensão criativa a realidade da transcendência e
da imanência divinas. Uma afirmação equilibrada de ambas as verdades facilita
uma relação adequada entre a teologia, a razão e a cultura. Quando tal equilíbrio
não está presente, problemas teológicos não tardam em surgir. Assim, uma ênfa
se excessiva na transcendênciapode levar a uma teologia que é irrelevante para
o contexto cultural que ela deseja alcançar, enquanto uma ênfase exagerada na
imanência pode produzir uma teologia presa a uma determinada cultura.
Como a teologia do século 20 fluiu da teologia do século 19, ela oferece um
caso interessante para o estudo da tentativa de se equilibrar esses dois aspectos
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do relacionamento entre Deus e sua criação. Na verdade, a concentração nesse
movimento de vai e vem entre a transcendência e a imanência nos oferece um
meio de captar a unidade e a diversidade da corrente central de teologia que fluiu
ao longo de todo o século. Falando mais especificamente, as maiores propostas
teológicas dessa era indicam a instabilidade que surge quando a transcendência e
a imanência não estão em equilíbrio adequado. É como se, ao longo da história da
teologia, essas duas verdades buscassem seu próprio ponto de equilíbrio e a teolo
gia do século 20 mostrasse justamente como uma ênfase distorcida a uma ou
outra pode acabar gerando um movimento oposto de reação que busca corrigir o
desequilíbrio, e acaba indo para o outro extremo. Assim, a tentativa de restabele
cer o meio termo diante de ênfases unilaterais é um ponto de vista privilegiado
para se narrar a história da teologia do século em questão.
A teologia do século 20 não começou com o início do novo século, mas sim
tanto algum tempo antes como algum tempo depois da mudança de calendário do
dia 31 de dezembro de 1900 parajaneiro de 1901. É claro que, literalmente falando,
o século começou à meia noite daquela data. Tecnicamente, portanto, a teologia do
novo século teve início como uma continuação da mentalidade basicamente oti
mista e temporal de épocas mais antigas e que enfatizava a imanência - a obra de
Deus no mundo e nos relacionamentos humanos.
Porém, ao vermos o século 20 do ponto de vista do fluxo dos acontecimentos
históricos, ele não começou até a segunda década de 1900. O ressoar das “armas
de agosto” em 1914 trouxe não apenas o início da Ia Guerra Mundial, mas tam
bém a sentença de morte para o mundo do século 19. O conjunto de valores
intelectuais característico do século 20 foi introduzido por acontecimentos catas
tróficos, pois a Ia Guerra destruiu a visão de mundo otimista dos séculos anterio
res e deu à luz a melancolia intelectual e cultural prevalecentes desde 1914.
Em vários aspectos, as prioridades teológicas do século 20 foram determina
das pelos resultados desses acontecimentos que mudaram o mundo. A teologia do
século teve início com uma tentativa de recomeçar a partir das cinzas da guerra
que devastou não apenas a Europa, mas também a teologia cultural européia.
Assim, não é de se surpreender que a teologia do novo século surgiu, antes de
tudo, como protesto contra temas centrais de sua predecessora do século 19,
incluindo a ênfase à imanência, que era tão importante para a cultura ocidental
desde a Renascença. Desta forma, a história teológica do século 20 começa com
o renascimento da ênfase à transcendência, à medida que Karl Barth e outros
voltaram a perguntar se havia uma palavra de Deus vinda dos céus que podia ser
ouvida depois da guerra. '
Ao contrário do que a teologia dos séculos anteriores poderia indicar, a Ia Guer
ra Mundial não foi uma aberração e nem um obstáculo na marcha da História, mas
sim um presságio do que estava por vir. As décadas após o surgimento da máquina
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de guerra na Europa central têm sido testemunhas de conflitos freqüentes e cada
vez piores. Os confrontos militares do século não tiraram somente vidas humanas,
mas também trouxeram a perda da vida cultural. O desespero tem avançado cons
tantemente sobre o cenário intelectual, permeando a cultura ocidental e deixando
sua marca também na teologia. O papel das guerras nesse século é tão significativo
que toda a teologia do século 20 foi eclipsada pela questão de saber se somos
capazes de lidar com a série de conflitos - militares, políticos e sociológicos - que
vem assolando o nosso mundo. Tal situação, inevitavelmente, acaba com a esperan
ça não apenas de se encontrar a Deus dentro do mundo como também com a
esperança de que a voz de Deus ainda possa chegar até nós vinda lá do alto.
Em meio ao desespero cultural generalizado de nosso mundo pós-moderno, os
teólogos continuam a realizar seu trabalho ao longo das décadas, por vezes
recapturando o senso de imanência característico da era moderna e por vezes a
busca pelo Ser Transcendente. Apesar de seus esforços heróicos, no fim do sécu
lo, a teologia que havia começado cem anos antes como a “ciência feliz” de Karl
Barth, tinha caminhado quase sem controle em direção ao grande vazio do
desconstrucionismo.
Somente o século 21 pode dizer se os acontecimentos do século 20 marcaram
0 fim da teologia. De qualquer forma, torna-se cada vez mais clara a lição teoló
gica dessa era. Um edifício inclinado - aquele que é construído sobre fundações
instáveis, quer seja a ênfase unilateral à transcendência ou à imanência - não
pode ser “consertado” com uma simples reforma, procurando-se incluir o ele
mento que estava faltando. Pelo contrário, o engenheiro da construção teológi
ca deve começar do zero. Isso porque, quando as fundações não são lançadas
corretamente, não há mudanças cosméticas que sejam capazes de criar uma
estrutura durável.
A teologia do século 20 começou em 1914. Sua história, entretanto, nos reme
te de volta a tempos mais antigos, à época que a precedeu e à qual a mentalidade
emergente dessa era respondeu, Como resultado, a teologia desse século é me
lhor compreendida quando contrastada com a perspectiva do século 19. Afinal,
depois de ter sido castigada por décadas de lutas da humanidade e conflitos, foi
contra essa perspectiva que a teologia do século 20 reagiu. A teologia do século
19, por sua vez, tem seu contexto histórico nas mudanças introduzidas pela grande
revolução da história intelectual do Ocidente - o chamado Iluminismo. Nossa histó
ria, portanto, deve começar com a Idade da Razão.
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G a p tíu ío 1
ILUMINISMO: A D estruição do E q u ilíb rio C lássico
nL / modo de pensar dos cristãos sobre Deus, sobre si mesmos e o mundo ao seu
redor, foi alterado de modo permanente e irreversível por uma era da história
intelectual do Ocidente conhecida como Iluminismo, que marcou o cumprimento
da transição entre a era antiga e a moderna. Através de seu desafio às autorida
des e sua ênfase à fé pessoal, a Reforma contribuiu para o movimento de saída do
mundo medieval. Mas aquilo que existia apenas em sua forma embrionária no
século 16, alcançou a plenitude no Iluminismo.
Os pensadores não estavam mais dispostos a aceitar os antigos dogmas, ba
seando-se apenas no fato de que pertenciam ao sistema recebido através da dou
trina da igreja. A luz da razão encontrada dentro de cada indivíduo destronou a
hierarquia eclesiástica e abalou suas fundações de autoridade. Um simples apelo
às formulações da teologia clássica não era mais suficiente para resolver os deba
tes intelectuais. Agora, os indivíduos pensantes queriam ser convencidos de que
era razoável tudo aquilo em que criam. Aqueles que estavam na vanguarda cultu
ral não se interessavam mais em elaborar argumentos sobre doutrinas aparente
mente irracionais - como a Trindade e a expiação dos pecados através de Cristo
- sustentadas pelo uso de textos bíblicos e pelas decisões dos concílios eclesiásti
cos. Pelo fato de esse tempo ter abalado de maneira tão acentuada tanto as
fundações quanto o rumo da teologia cristã, desde o Iluminismo a fé cristã nunca
mais foi e jamais poderá ser a mesma. A importância dessa era é tão monumental
que não há como contornar a Idade da Razão. Os cristãos colocam a teologia em
risco quando ignoram o Iluminismo. Desconsiderar as mudanças que esse pensa
mento introduziu acaba sempre levando a uma privatização da fé, confinando-a
em “guetos” de Cristianismo ecausando a perda de impacto da voz do Cristianis
mo sobre a sociedade moderna.
Uma mudança importante trazida pelo Iluminismo encontra-se no efeito que
ele teve sobre a procura clássica por uma teologia transcendente-imanente. Essa
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época criou o cenário para profundas transformações nas antigas tentativas de se
alcançar o equilíbrio entre as verdades da transcendência e imanência divinas.
A era patrística teve seu auge nas proposições daquele que foi talvez o teólo
go mais influente de todos os tempos - Agostinho, bispo de Hipona. A teologia de
Agostinho serviu de padrão e paradigma para todos os teólogos cristãos desde a
sua época, ao longo da Idade Média e até durante boa parte da Reforma. Apesar
de haver diferenças gritantes entre os teólogos no que diz respeito aos detalhes,
todos compartilhavam de uma visão de mundo semelhante e que, em grande par
te, vinha da herança de Agostinho.
A perspectiva comum dessas eras da história ocidental, que. de outro modo
foram tão diferentes, enfatizava a ordenação da realidade colocando Deus no
ápice, seguido das hostes angélicas. Os seres humanos encontravam-se numa
posição “por um pouco, menor do que Deus” (SI 8.5), acima de todas as coisas no
mundo, tanto animadas quanto inanimadas.
Mas os teólogos acrescentavam que, a partir dessa posição elevada e trans
cendente sobre o mundo, Deus tornou-se intimamente envolvido com a Histó
ria. Ele havia predestinado os eleitos à salvação e havia tomado parte nos as
suntos humanos repetida e esporadicamente e de forma absoluta através de
Jesus Cristo. E Deus continuou a operar na vida do homem, guiando o fluxo da
História, mas principalmente da igreja e através da graça oferecida pelas ativi
dades da igreja.
O equilíbrio agostiniano foi ajustado e adaptado ao longo da Idade Média e
acabou sendo reformulado durante a Reforma e pelos protestantes escolásticos
que vieram depois. Apesar de todas as alterações, mesmo que procurasse não
desprezar a imanência divina, o pêndulo continuava inclinado para a transcendência
de Deus. As grandes catedrais góticas, que marcaram o ponto alto da Idade
Média, são testemunhas silenciosas da natureza da síntese teológica e de que a
busca medieval pelo equilíbrio entre a superioridade divina e a presença de Deus
certamente pendia para a transcendência.
A Época do Iluminismo
Nos séculos 17 e 18, o equilíbrio desenvolvido pelos teólogos da Idade Média e
aprimorado pela Reforma foi alterado de maneira radical e permanente. Uma
nova cosmologia substituiu a antiga ordenação hierárquica da realidade. E, com
essa mudança, inverteu-se o equilíbrio entre a transcendência e a imanência.
Esses dois séculos constituem uma era explosiva da história intelectual do
Ocidente, a qual chamamos normalmente de Iluminismo. O nascimento do
Iluminismo encontra-se no começo do século 17 e talvez, de modo sócio-político,
esteja ligado à Paz de Westfalia (1648) que encerrou a Guerra dos Trinta Anos e,
de modo intelectual, associe-se à obra de Francis Bacon (1561-1626).
Bacon encontra-se no começo da Idade da Razão - marcando a transição da
Renascença para o Iluminismo por ser ele um dos primeiros cientistas moder
nos. Mesmo não tendo colocado a matemática no centro do conhecimento natu
ral, como fizeram aqueles que o seguiram,1 Bacon enfatizou o método da experi
mentação. E empregou a novíssima técnica científica não apenas como forma de
entender o universo mas também como um meio de governar a natureza. Desse
modo, lançou as fundações para a sociedade tecnológica moderna.
Os historiadores indicam os últimos anos do século 18 como o final da era do
Iluminismo. Quando Immanuel Kant publicou sua Crítica da Razão Pura (1781),
a Idade da Razão encerrava-se depois de haver seguido o seu devido curso. A obra
de Kant marcou tanto o ponto alto quanto o questionamento de muitas das pressu
posições iluministas. Acima de tudo, Kant avaliou a primazia dada ao racionalismo
e ao empirismo - a elevação dos poderes da razão humana e a ênfase à experiên
cia dois elementos característicos daquela era, e encontrou sérias deficiências.
0 Ser Humano do Iluminismo
Apesar da imprecisão no que diz respeito às datas exatas de sua gênese e declínio,
os historiadores concordam que o Iluminismo teve importância profunda e dura
doura para o desenvolvimento da cultura ocidental moderna. Desenvolvido a par
tir da Renascença, ele sinalizou a vitória de uma mudança fundamental de pers
pectiva que marcou o rompimento definitivo com a mentalidade medieval2 e abriu
caminho para a era moderna.
Uma transformação central e fundamental de perspectiva refletida no Iluminismo
foi o desenvolvimento paradoxal e, ao que parece, até mesmo contraditório do
entendimento acerca do ser humano. Essa era colocou o ser humano em uma po
sição elevada e valorizou a estima pelas capacidades humanas. O Iluminismo colo
cou os seres humanos, e não Deus, no centro da História. Ao contrário do pensa
mento da Idade Média e da Reforma, que via a importância das pessoas relaciona
da a seu lugar na história do agir de Deus, os pensadores do Iluminismo determina
vam a importância de Deus em termos de seu valor para a história da vida de cada
um.3 Deus foi, portanto, tirado de sua posição exaltada nos céus, para os quais
apontavam as catedrais góticas, e colocado no mundo de assuntos humanos.
A condição elevada de toda a humanidade, acrescentou-se, ainda, uma antro
pologia otimista. Esta atribuiu à humanidade habilidades intelectuais e morais muito
maiores do que aquelas reconhecidas pela teologia tradicional, quer católica ou
protestante. Essa antropologia otimista tornou-se evidente na visão iluminista do
papel da razão humana no processo de conhecimento.
Antes dessa era, a revelação divina costumava ser consultada como árbitro
supremo da verdade; a tarefa da razão humana era procurar compreender a ver
dade oferecida através dessa revelação. A busca pela verdade era governada
pela frase atribuída a Anselmo: “Creio para que assim possa compreender” . Para
manter esse princípio, a função das habilidades racionais humanas era demons
trar a precisão dessas verdades reveladas e reconciliar a experiência com a
compreensão que a fé cristã oferecia do drama cósmico.4
No Iluminismo, entretanto, a razão humana substituiu a revelação imposta
externamente na posição de árbitro da verdade, pois a razão passou a determinar
o que vinha a ser a revelação. A tese de Anselmo foi invertida. A nova mentalida
de poderia ser resumida como “Creio naquilo que posso compreender” . Empre
gar a razão para sistematizar o que era oferecido pela experiência e seguir a
razão aonde quer que ela conduzisse, ao invés de aceitar cegamente as supersti
ções proclamadas pelas autoridades externas: estes tornaram-se os meios
iluministas de se obter conhecimento.5
Essa época também foi igualmente otimista quanto à sua visão das capacida
des morais humanas. O Iluminismo colocou grande ênfase sobre a moralidade e
não sobre o dogma, e declarou que os poderes do raciocínio humano podiam tanto
descobrir a lei moral natural escrita dentro de cada pessoa quanto levar à obediên
cia a essa lei.
Com sua antropologia otimista, o Iluminismo não apenas elevou a humanida
de, mas também retratou o ser humano de maneira bastante diferente daquela
ensinada pela teologia medieval. Nessa e em outras dimensões, a Idade da Razão
desenvolveu-se a partir de avanços da Renascença. Ao invés do ser estático, da
alma contemplativa do ideal medieval, o ser humano passou a ser visto como um
ser independente, transformador do seu meio. Nas palavras de Georgio de Santillana,
o homem era “um ser que estava sempre vagando, envolvido numa aventura sem
fim”, para o qual o tempo não era mais “o eterno circular dos céus, mas sim uma
corrente fluindo”.6
Mas essa elevação da humanidade também teve um alto preço. De modo
paradoxal, ao ser comparada com a teologia tradicional, a mentalidade do
Iluminismo marcava não apenas a elevaçãomas também a destituição do ser
humano. O mundo não era mais visto como um cosmo dentro do qual o ser huma
no gozava de uma posição especial, como acontecia no pensamento da Idade
Média e da Reforma. Ao invés disso, a nova ciência do Iluminismo retratava o
universo como uma grande máquina da qual o ser humano era apenas uma pe
quena parte, uma peça minúscula na gigantesca engrenagem da realidade. Des
tronado de sua posição superior no centro da criação, o ser humano também
perdeu sua condição de criatura especial de Deus, acima de todo o resto dos
seres criados.
A Fundação do Iluminismo
A mudança monumental de perspectiva que se passou durante o Iluminismo não
ocorreu dentro de um vácuo. Pelo contrário, foi resultado do desenvolvimento de
vários fatores sociais, políticos e intelectuais que levaram a essa era traumática
da história humana. Uma série de conflitos militares, que normalmente são agru
pados na chamada Guerra dos Trinta Anos, havia devastado a Europa no começo
do século 17. Por causa de desentendimentos entre confissões cristãs discordes,
essas guerras levaram a um questionamento generalizado sobre a validade das
disputas doutrinárias. Mas, além das brigas religiosas daquele século, abriu-se
caminho para o espírito crítico da época através de duas revoluções relacionadas
entre si - uma na filosofia e outra na ciência.
Em primeiro lugar, o Iluminismo foi o produto de uma revolução filosófica.
Apesar de suas raízes encontrarem-se em tempos mais antigos, na discussão dos
teólogos medievais, essa revolução foi iniciada pelo pensador francês René Des
cartes (1596-1650), que é muitas vezes chamado de pai da filosofia moderna.7 A
intenção de Descartes era desenvolver um método de investigação que levasse
ao descobrimento daquelas verdades que fossem absolutamente certas. Por trás
do método que ele propôs, surgiam os primeiros lampejos da eminência da mate
mática que veio a caracterizar o século 17. A ascensão do modelo matemático
surgiu na Renascença em decorrência da ênfase dada às dimensões quantitativas
(e não qualitativas) da realidade, ênfase esta que foi essencial para os trabalhos
de Kepler e Galileu.
Descartes tipificou o início da Idade da Razão no sentido de que, como a maior
parte dos grandes filósofos desse período, ele procurou introduzir o rigor da demons
tração matemática em todas as áreas do conhecimento.8 Sua elevação do conheci
mento matemático, porém, não era arbitrária. Ele argumentava que, na verdade, a
matemática surge da natureza da própria razão e, portanto, é mais certa do que o
conhecimento resultante da observação empírica, que está sujeita a erros.
O filósofo francês introduziu a “dúvida” como seu primeiro princípio de racio
cínio. Mas, para ele, diferente de certos praticantes do empirismo do século se
guinte, o processo de duvidar não levava à descrença. Pelo contrário, resultava na
certeza, pois, à medida que a mente duvida de tudo, surge a certeza da existência
do sujeito que está duvidando. Daí, o conhecido adágio da filosofia cartesiana:
cogito, ergo sum (“penso; logo, existo”).
O trabalho de Descartes influenciou grandemente o pensamento subseqüen
te.9 Desse ponto em diante, o sujeito pensante - e não a revelação divina - passou
a ser o ponto de partida para a filosofia. Os teólogos sentiram a necessidade ou de
se construir sobre a fundação da filosofia racionalista, aceitando assim a primazia
da razão (como faziam os pensadores do Iluminismo), ou de negar que a razão,
por si só, é capaz de gerar conhecimento sobre as realidades eternas.10 A ênfase
na voz interior da razão, ao invés de na voz de Deus vinda do alto, criou o pano de
fundo para a valorização da imanência, que é característica da teologia moderna
a partir de Descartes.
Além da revolução na filosofia, o Iluminismo também foi o produto de uma
revolução na ciência que marcou um distanciamento radical da visão de mundo da
Idade Média. Para esse novo pensamento, foi de grande importância uma mudan
ça na cosmologia, preconizada pela descoberta de Copérnico de que a Terra não
constituía o centro do universo. Essa mudança na cosmologia significou a rejeição
da estrutura medieval de três níveis que, em termos espaciais, colocava o céu
acima da terra e o inferno abaixo dela.
Porém, talvez mais fundamental ainda para a revolução científica que introdu
ziu o Iluminismo tenha sido a mudança na forma de compreender o mundo físico em
si e a maneira correta de encará-lo. Essa mudança foi marcada por uma substitui
ção da terminologia qualitativa pela quantitativa. Seguindo Aristóteles, as ciências
medievais haviam se concentrado nos “princípios naturais”, que eram compreen
didos em termos da tendência “natural” de todo o objeto de cumprir o seu propó
sito interior. O Iluminismo, entretanto, rejeitou a discussão medieval do “propósito
interior”, considerando-a especulação metafísica.
Na Idade da Razão, a ênfase inicial dada às causas finais (o telos ou propósito
do objeto) foi substituída pela visão matemática e quantitativa do empreendimento
científico, da qual Galileu (1564-1642) foi pioneiro. Os métodos precisos de medi
ção e a aceitação da matemática como o modo mais puro de pensamento eram as
ferramentas para a abordagem adequada do estudo dos processos naturais. Os
observadores descreviam os fenômenos em termos de leis da natureza que gera
vam resultados quantificáveis. A adoção desse método significava que o Iluminismo
só aceitava como reais aqueles aspectos do universo que podiam ser medidos.11
Os pensadores do Iluminismo aplicaram essa nova metodologia introduzida
por pioneiros como Descartes e Galileu a todas as disciplinas do conhecimento.
Não apenas as ciências naturais, mas também a política, a ética, a metafísica e a
teologia sujeitaram-se à rubrica dos cânones científicos. Até mesmo a filosofia foi
afetada. Todas as áreas do conhecimento humano acabaram, de fato, tornando-
se ramos das ciências naturais.
A marca maior dessa revolução da ciência foi alcançada com a obra de Isaac
Newton (1642-1727). O universo por ele descrito era uma grandiosa máquina
cujos movimentos podiam ser conhecidos pois seguiam determinadas leis
observáveis. Em decorrência disso, Newton voltou sua atenção para a explicação
do universo. Ele dispôs-se a mostrar que as propriedades e comportamento de
toda partícula podem ser determinados, pelo menos em princípio, por um grupo
relativamente pequeno de leis fundamentais. O historiador do século 19 Alexander
Pope resumiu esse pensamento e seu impacto em dois versos jocosos:
A Natureza e suas Leis escondiam-se na Noite.
Então, disse Deus: “Haja Newton!” e houve Luz.12
O objetivo do próprio Newton, porém, não era simplesmente científico, mas
também teológico. Ele acreditava que a ciência aguçava o entendimento humano
da grandeza de Deus. Ele sabia que os céus proclamavam a glória de Deus. Sua
tarefa era descobrir como.
Princípios do Iluminismo
Em sua essência, as revoluções na filosofia e na ciência que deram origem ao
Iluminismo concentraram-se na superioridade da razão sobre a “superstição”.
Como resultado, essa época passou a ser adequadamente chamada de Idade da
Razão. Mesmo que a razão certamente estivesse no centro da mentalidade dessa
era, o Iluminismo caracterizou-se por diversos princípios que, juntamente com a
“razão”, formavam um todo unificado. Dentre esses princípios, pode-se destacar:
“autonomia”, “natureza”, “harmonia” e “progresso”.
O primeiro princípio do Iluminismo foi, de fato, a razão. Essa época deu grande
ênfase à capacidade racional do ser humano. De acordo com o entendimento do
Iluminismo, a razão era mais do que um dom humano. Lembrando o antigo estoicismo
grego, o princípio da razão significava que havia uma ordem e estrutura dentro de
toda realidade, que se tornava evidente no funcionamento da mente humana. Os
pensadores do Iluminismo concluíram que, como resultado dessa correspondência
entre a estrutura da realidade e a estrutura da mentehumana, a mente era capaz
de discernir e vir a conhecer a estrutura inerente do mundo exterior.
O princípio da razão, portanto, referia-se à capacidade humana de aprender
com a ordem fundamental de todo o universo. A racionalidade objetiva do univer
so fazia com que as leis da natureza fossem compreensíveis e tornava o mundo
capaz de ser transformado e governado pela atividade humana. A consonância do
mundo racional com o funcionamento da mente humana também fazia com que o
exercício do pensamento crítico fosse tão importante.
O segundo princípio - “natureza” - estava intimamente ligado ao princípio da
razão, enfatizando aquilo que se baseia na “natureza inerente das coisas” ou dela
surge. A mentalidade do Iluminismo postulava que o universo era um reino orde
nado, dentro do qual encontravam-se as leis da natureza. A natureza e a lei natu
ral, portanto, tornaram-se palavras de ordem na busca intelectual.
Os pensadores do Iluminismo afirmavam que a ordem encontrada “dentro da
natureza inerente das coisas” estava presente por causa do trabalho do “Grande
Arquiteto” da natureza. Em decorrência dessa crença, a fim de encontrar as leis
de Deus, a mente iluminista voltava-se para o “livro da natureza”, que estava
aberto para ser lido por todos. A disponibilidade universal dessas “leis naturais”
transformava a natureza na corte de julgamento, no árbitro de todos os desenten
dimentos. Alinhar a vida com as leis da natureza que haviam sido descobertas
pela razão tornou-se, então, o objetivo do empreendimento intelectual humano.
“Razão” e “natureza” abriram caminho para o terceiro princípio do pensa
mento do Iluminismo - “autònomia” . Conforme observamos anteriormente, nessa
época o ser humano autônomo destronou a autoridade externa como árbitro da
verdade e da ação. Um apelo ao ensino da igreja, ã Bíblia ou ao dogma cristão já
não era suficiente para a obediência no âmbito da crença ou da conduta. O indiví
duo passou a testar todas essas declarações externas de autoridade. Immanuel
Kant resumiu bem o princípio da autonomia e seu papel no Iluminismo:
O Iluminismo é a libertação do homem da tutela que ele impôs sobre si mesmo.
A tutela é a incapacidade do homem de usar de seu entendimento sem a orienta
ção de outro. Essa tutela é auto-imposta quando sua causa não está na falta de
razão, mas na falta de determinação e coragem de usá-la sem a orientação de
outro... “Tenha coragem de usar sua própria razão - esse é o lema do Iluminismo”.14
O princípio da autonomia, porém, não permitia a ausência de leis. O Iluminismo
não foi uma era de desordem. A autonomia pressupunha, sim, a presença de um
conjunto de leis naturais que podiam ser conhecidas pela razão humana. Assim,
ao invés de abrir as portas para a completa falta de leis, a autonomia exigia que
cada pessoa descobrisse e seguisse a lei natural universal. O caminho para a
descoberta da lei natural estava no uso do dom pessoal da razão e da consciência
e não na mera confiança em autoridades externas. Deste modo, o emprego pes
soal da razão era o centro da ênfase iluminista à autonomia.
“Harmonia”, o quarto princípio do Iluminismo, baseava-se na idéia de mode
ração e ordem dentro do universo, conforme postulado pela Idade da Razão. Os
pensadores afirmavam que o universo era caracterizado por uma ordem geral que
garantia que, apesar das atividades aparentemente egoístas e independentes de
cada pessoa ou coisa no universo, o todo acabaria prevalecendo.
A harmonia inerente do mundo também significava que a verdade é um único
e harmonioso todo. Conseqüentemente, o pensamento iluminista ressaltava a
“metodologia adequada” . Acreditava-se que a aplicação do método adequado de
descobrimento sobre as disciplinas do conhecimento humano, aparentemente tão
desordenadas e contraditórias, faria com que estas fossem purificadas de seus
elementos irracionais, juntando-as em uma única e verdadeira filosofia.
Nesse caso, o Iluminismo evitava, mais uma vez, o impulso de desordem que
a idéia da aplicação de método adequado de investigação a cada disciplina pode
ria gerar. A harmonia não era simplesmente uma característica do reino natural.
Ela tornou-se também uma espécie de princípio ético para governar a ação huma
na. Os seres humanos deveriam agir de acordo com a harmonia geral da realida
de como um todo.
A antropologia do Iluminismo serviu para facilitar a desejada correspondência
da vida humana com a harmonia do cosmos. Essa antropologia elevou o potencial
inerente do ser humano e colocou de lado a ênfase cristã sobre a natureza cor
rompida. Os estudiosos da ética argumentavam que, se a mente humana - que
começava limpa como uma tábua rasa, conforme John Locke havia demonstra
do - podia ser moldada pela natureza divinamente criada, então o emprego da
razão poderia criar a harmonia entre a vida e a ordem natural universal.15
Por fim, o Iluminismo foi uma era de crença otimista no progresso. Baseados
na obra de Descartes e de outros, os pensadores da Idade da Razão estavam
convencidos de que, pelo fato de o universo ser ordenado e possível de ser conhe
cido, o uso da metodologia apropriada podia levar ao verdadeiro conhecimento.
Assim, filósofos, teólogos e cientistas lançaram-se a construir seus sistemas, na
crença de que estes os aproximavam da verdade. Essa época foi, nas palavras de
Isaiah Berlin, “o último período da história da Europa ocidental em que se pensava
que a onisciência humana era um objetivo alcançável”.16
Mas a obtenção de conhecimento não era simplesmente um fim em si. De
acordo com o pensamento iluminista, o conhecimento das leis da natureza tinha
implicações práticas. Seu descobrimento e aplicação pavimentavam o caminho
para tornar os seres humanos felizes, racionais e livres. Se as leis da natureza
podiam ser conhecidas, era possível implantar na vida social e pessoal as verda
des que elas ensinavam. O método científico podia mudar o mundo. Os pensado
res do Iluminismo acreditavam que tal mudança estava prestes a acontecer.
A crença otimista no progresso também surgiu da leitura que o Iluminismo
fazia da História. Os historiadores da Idade da Razão retratavam a Idade Média
como uma era de superstição e barbarismo, da qual a humanidade estava ressur
gindo. Por causa do progresso que viam ocorrer em seu próprio tempo, os pensa
dores do Iluminismo eram otimistas quanto ao futuro. Apesar do ir e vir das marés
da História, estavam convencidos de que estavam num processo que se dirigia
para o alto e avante. Assim, olhavam para o futuro cheios de esperança “como
quem vislumbra uma terra prometida”.17 Se os seres humanos conseguissem apren
der a viver à luz das leis da natureza, a utopia poderia tomar-se realidade. Como
Isaiah Berlin concluiu corretamente, essa era “foi um dos momentos mais reple
tos de esperança de toda a história da humanidade”.18
A Religião no Iluminismo
A era do Iluminismo desafiou os pontos de vista tradicionais e reformulou o pen
samento em todas as áreas da sociedade ocidental. Porém, nenhuma dimensão
foi mais afetada do que a crença religiosa. A Idade da Razão marcou a emanci
pação da cultura em relação ao domínio da igreja e do Cristianismo.
O movimento em direção à autonomia veio como resultado inevitável da nova
mentalidade da época, dando início a uma outra visão da natureza da religião.
Cada vez mais, os cientistas e teólogos passaram a diferenciar a “religião natural”
- a existência de Deus e as leis morais racionalmente demonstráveis e conheci
das por todas as pessoas - e a “religião revelada” - as doutrinas conforme eram
ensinadas pela Bíblia e pela igreja. Com o passar do tempo, esta segunda forma
de religião começou a ser cada vez mais atacada e a primeira forma, elevada ã
condição de verdadeira religião. No final, a “religião natural” do Iluminismo ou
religião da razão substituiu o enfoque tão característico da Idade Média e da
Reforma sobre o dogma e a doutrina.
O caminho intelectual para a primazia da religiãonatural sobre a religião reve
lada foi aberto pelo empirista britânico John Locke. Ele lançou a tese revolucioná
ria de que, uma vez destituído de sua bagagem dogmática, o Cristianismo era a
manifestação religiosa mais racional. Sobre as bases dessa visão de Locke, os
pensadores do Iluminismo construíram o deísmo - uma alternativa teológica para
a ortodoxia. Os teólogos do deísmo desejavam reduzir a religião a seus elementos
mais básicos, universais e, portanto, racionais.19 ■
Os deístas acrescentavam ainda que, pelo fato de a religião natural ser racio
nal, todas as religiões, inclusive o Cristianismo, deveriam estar em conformidade
com ela.20 Como resultado, os vários dogmas da igreja considerados revelação já
não serviam mais de parâmetro. Ao invés disso, as doutrinas deveriam ser avalia
das através da comparação com a religião da razão. O resultado foi uma religião
que consistia em um número mínimo de dogmas para se crer:21 a existência de
Deus, que podia ser provada através do mundo, a imortalidade da alma, e o casti
go pelo pecado e bênção pela virtude recebidos após a morte.22
Na verdade, os deístas não viam a religião em sua essência como um sistema
de crenças. O mais importante era o seu significado ético. Eles partiam do pres
suposto de que o papel principal da religião era oferecer sanção divina para a
moralidade.23 Ao mesmo tempo, o Iluminismo elevava a capacidade humana de
obter as verdades religiosas, reduzindo - ou até mesmo eliminando - a necessida
de de uma religião revelada. Aquilo que era verdadeiramente importante havia
sido escrito pelo Criador no grande livro da natureza e deixado aberto para que
todos pudessem lê-lo.
Como conseqüência, algumas vozes do Iluminismo criticaram duramente o
Cristianismo, afirmando que, pelo menos em sua forma tradicional, ele era uma
deturpação da religião da razão.24 Os pensadores do Iluminismo também ataca
ram os pilares centrais da apologética cristã daquela época - a crença nas profe
cias cumpridas25 e nos milagres26 - e responsabilizaram as autoridades eclesiás
ticas pela ignorância e superstição do passado.
Outros simplesmente igualaram os dois sistemas de crenças, declarando que
o Cristianismo, em sua forma mais pura, não passava de outra manifestação da
religião conhecida pela razão. Aqueles que buscavam um lugar para dar continui
dade ao Cristianismo criaram para ele um nicho, afirmando que a religião revela
da era um complemento necessário da religião da razão27 ou apresentando o Cris
tianismo como um estágio do contínuo processo histórico cujo clímax seria atingi
do numa futura religião perfeita e universal.
Por mais paradoxal que possa parecer e independente de como o Cristianismo
era visto, a elevação iluminista da religião da razão e sua ênfase sobre a natureza
e a natureza de Deus constituíram uma vitória da nova imanência sobre a
transcendência que caracterizou a Idade Média. O Deus dos deístas era uma
divindade distante e radicalmente transcendente. Ainda assim, a perspectiva do
Iluminismo esforçava-se para ligar Deus à natureza e à razão humana de forma
tão próxima que a transcendência de Deus acabou fundindo-se com a imanência
do divino dentro do universo ordenado da criação e da razão. Ao invés de olhar
além do mundo para encontrar a Deus, o Iluminismo voltou-se para dentro. A
mudança que havia começado na Renascença estava completa. E o triunfo da
imanência iria se estender até o século 20.
G a p iiu fo 2
A RECONSTRUÇÃO DA TRANSCENDÊNCIA:
A Imanência na T eo lo gia do Século 19
/ 7
L ^ o m o fim do século 18, a era do Iluminismo já havia completado seu ciclo,
especialmente na Inglaterra. A essa altura, muitos pensadores haviam abandona
do a religião da razão e optado pelo ceticismo1 ou pelo relativismo religioso.2
Esses pensadores concluíram que, no fim das contas, a razão é uma resposta
inadequada para as questões básicas sobre Deus, moralidade e sentido da vida.
Apesar do Iluminismo ter chegado ao fim, a teologia nunca mais seria a mes
ma. Nenhuma tendência teológica subseqüente poderia permanecer isolada dos
acontecimentos daquela época na história intelectual da Europa ocidental. Da
quele ponto em diante, os teólogos teriam de começar a falar em termos inteligí
veis para a mentalidade que havia se instalado com as mudanças fenomenais que
varreram a Europa durante aquelas décadas.
O encerramento da Idade da Razão pareceu deixar a religião numa situação
complicada. A impressão era de que o século 18 havia apresentado apenas duas
alternativas. Podia-se optar pela ênfase cristã tradicional sobre o pecado e a sal
vação divina, sustentada pela Bíblia e pela Igreja. Ou, então, restava seguir o
racionalismo cético que surgiu como produto final da mente individual esclarecida.
Conforme McGiffert conclui em seu estudo monumental da era pré-kantiana, “no
final do século, a crise religiosa era aguda”. 3
No século 19, entretanto, alguns teólogos recusaram-se a aceitar essas op
ções. É evidente que eles sabiam que não havia como contornar a Idade da Ra
zão. A teologia jamais seria capaz de ressuscitar o antigo sistema de crenças, pois
as autoridades tradicionais da Bíblia e da Igreja haviam sido destronadas para
sempre. Enquanto concordavam que a teologia não podia simplesmente voltar à
ortodoxia dogmática pré-iluminista, também recusavam-se a aceitar o racionalismo
cético pós-iluminista como única alternativa. Para essa nova classe de intelectuais,
a única forma de avançar em meio aos resultados do Iluminismo era incorporar
sua motivação básica na busca por novas formas de compreender a fé cristã. Os
teólogos do século 19 afirmaram com ousadia que a tarefa teológica podia conti
nuar mesmo diante dos desafios do Iluminismo e da rua sem saída na qual ele
culminou. Assim, eles procuraram ir além do Iluminismo, incorporando ao mesmo
tempo os avanços dessa era. De modo mais específico, buscaram estabelecer
uma nova relação entre a transcendência e a imanência em meio aos resultados
da destruição do equilíbrio medieval.
Nessa tarefa de reconstruir a teologia no mundo pós-iluminista, os teólogos
puderam contar com as ferramentas criadas por três gigantes intelectuais. A essa
altura, o legado do pensamento ocidental havia sido transferido para a Alemanha,
onde a Idade da Razão chegou mais tarde, mas cujos círculos teológicos haviam
desenvolvido bases mais sólidas do que na Inglaterra. Conseqüentemente, os três
transformadores da teologia do século 19 foram alemães - Immanuel Kant, G.W.
F. Hegel e Friedrich Schleiermacher.
Esses três pensadores eram parecidos, no sentido de que cada um buscava
criar um espaço para o elemento religioso da vida. Porém, diferiam acentuada-
mente, pois cada um propunha uma dimensão distinta como essência da religião -
a moral (Kant), a intelectual (Hegel) e a intuitiva (Schleiermacher). A influência
de cada um desses três pensadores estendeu-se por todo o cenário intelectual do
século 19; primeiro de modo competitivo e, depois, fundindo-se para formar aquilo
que veio a ser a teologia protestante liberal do século 19 e que encontrou seu
epítome num quarto pensador alemão - Albrecht Ritschl.
Apesar dos esforços dos talentosos pensadores, à medida que o século ca
minhou para seu final, a teologia descobriu que não havia superado o Iluminismo.
A ênfase na imanência, parte tão essencial da perspectiva humana desde a
Renascença, continuava nas fundações da “casa teológica” mesmo depois de
sua reconstrução.
IM M A N U E L KANT: A I m a n ê n c ia d e D e u s n a E x p e r iê n c ia M o r a l
Os grandes pensadores do século 19 procuraram ir além do impasse resultan
te do Iluminismo, ao determinar um lugar especial para a religião na vida humana.
Uma primeira possibilidade foi proposta pelo filósofo alemão do século 18 Immanuel
Kant (1724-1804). Kant sugeriu a esfera prática ou moral da vida como o lugar
apropriado para a religião. Ao construir uma teologia devidamente fundamentada
na razãoprática, ele ofereceu uma nova tentativa de equilíbrio entre a transcen
dência e a imanência.
Do ponto de vista cronológico e intelectual, Kant está mais próximo do Iluminismo
do que Hegel e Schleiermacher. A proximidade intelectual fica evidente através de
sua elevação da dimensão ética da vida ã posição de ponto central da religião, um
ponto de vista muito próximo ao cerne dos valores da Idade da Razão. Porém, seu
método de estabelecer uma religião voltada para o aspecto moral diferia imensa
mente dos métodos do Iluminismo.
Do ponto de vista externo, muito pouco aconteceu na vida de Kant. Ele nas
ceu, estudou, lecionou e morreu no mesmo lugar - a cidade portuária de Königsberg,
a leste da Prússia. Trabalhou como palestrante não-pago na universidade (1755
1770) até ser contratado como professor de lógica e metafísica. Kant não se
casou e não viajou. Sua rotina era tão rígida que, supostamente, as mulheres na
cidade ajustavam seus relógios de acordo com as caminhadas diárias que ele
fazia às três e meia da tarde. Foi só aos cinqüenta e sete anos de idade que Kant
produziu sua principal obra. Entretanto, o livro que ele publicou naquele ano, Crí
tica da Razão Pura (1781), fez estremecer o mundo da filosofia e lançou uma
nova onda intelectual cujos efeitos ainda podem ser sentidos.
A Filosofia de Kant
Immanuel Kant deu início àquilo que, pare ele, foi uma “Revolução Copémica” na
filosofia. Assim como o grande astrônomo colocou o Sol no lugar da Terra como
centro do sistema solar, Kant elevou a mente ao centro do conhecimento humano
(epistemologia). Ele teorizou que a possibilidade de se experimentar a realidade
dependia da mente.
As origens da revolução de Kant encontram-se num grave problem a
epistemológico deixado para trás pelo empirismo, o movimento filosófico que ca
racterizou a Idade da Razão na Grã-Bretanha. A “mente passiva” era o elemen
to central da visão empirista do que vinha a ser o processo de conhecimento. Em
seu Essay Concerning Human Understanding [Ensaio sobre o Entendimento
Humano], John Locke rejeitou a tese essencial da filosofia cartesiana, argumen
tando que a mente era uma tábua rasa, um recipiente vazio e desprovido de
qualquer idéia inata. Como resultado disso, ela é passiva no processo de conheci
mento. Ela simplesmente recebe “impressões” do mundo externo através dos
sentidos e então formula idéias a partir das impressões recolhidas.
A primeira vista, a teoria empírica parece ser uma verdade óbvia, uma ex
plicação simples das experiências comuns e quotidianas. Porém, o produto final
dessa teoria do conhecimento foi o ceticismo de David Hume, que mostrou sua
inadequação como forma de explicar a cognição humana. Ele argumentava que
o método empírico não é capaz de nos dar o conhecimento acerca de certos
aspectos da realidade aos quais normalmente não damos o devido valor, espe
cialmente a causalidade e a substância. Hume declarou que tudo o que conhe
cemos são nossas percepções. Essas percepções incluem a coincidência de
uma seqüência de acontecimentos, a partir da qual induzimos, mas sem de fato
experimentar, um relacionamento de causalidade. De maneira semelhante, expe
rimentamos uma série de impressões (tamanho, cor e assim por diante) mas não
a substância em si. Nossa imaginação atribui essas impressões a objetos. De
acordo com Hume, não temos verdadeiro conhecimento das substâncias como
elas existem no mundo. Na verdade, a identidade de tais objetos externos, assim
como a causalidade, não se encontra “lá fora”, mas é simplesmente o resultado de
uma disposição mental.
O ceticismo epistemológico de Hume teve conseqüências importantes para a
crença religiosa, pois levou a um questionamento do deísmo, a religião edificada
sobre o empirismo. Ele mostrou que os argumentos para a racionalidade da reli
gião natural não são tão garantidos quanto acreditavam os seus proponentes. O
argumento cosmológico, por exemplo, não podia provar a existência de Deus se a
causa não era um fenômeno experimentado. Assim também, a doutrina da imor
talidade da alma não podia sobreviver ao fim do conceito de substância. E a
injustiça e o pecado do presente inviabilizaram a possibilidade de uma futura esfe
ra de justiça eqüitativa, baseada na bondade do Criador.4
Kant sentiu-se desafiado pelo ceticismo radical de Hume. Aliás, ele relatou
que foi Hume quem o despertou do seu “sono dogmático”. A investigação que
Kant fez do problema o levou a uma explicação do caráter limitado do processo
epistemológico humano descoberto por Hume. Mas, ao contrário de seu prede
cessor britânico, Kant acreditava que essa limitação não exigia uma rejeição cé
tica de todos os conceitos metafísicos.
Em sua Crítica da Razão Pura (1781), Kant procurou colocar a metafísica
sobre bases sólidas. Para isso, propôs uma hipótese ousada. A mente tem um
papel “ativo” no processo de conhecimento. Ele argumentou que o processo de
conhecimento do mundo externo não pode ser derivado apenas de experiências
sensoriais. Os sentidos só oferecem os dados brutos que a mente sistematiza
quando acontece o verdadeiro conhecimento. Acrescentou ainda que essa orga
nização das sensações (conhecimento) é possível através de certos conceitos
formais presentes na mente, que agem como um tipo de grade ou filtro oferecen
do parâmetros que viabilizam o conhecimento.5
Dentre os vários conceitos formais, dois são fundamentais: espaço e tempo.
De acordo com Kant, espaço e tempo não são propriedades inerentes às coisas.
Assim como outras estruturas, esses dois elementos são, na verdade, parte da
ordem que a mente impõe sobre o mundo com o qual ela se depara. Ele afirmou
que, apesar de alguns objetos talvez não existirem de fato no tempo e no espaço,
não podemos conhecer o mundo externo de experiências sensoriais de qualquer
outra maneira que não inclua esses dois elementos.
A hipótese de que a mente é ativa no processo epistemológico exige uma
distinção entre os objetos presentes na experiência do conhecedor humano
(phenomena - fenômenos) e os objetos que estão além dessa experiência
(,noumena). De acordo com Kant, um noumenon poderia tanto ser um objeto
que existe independente de qualquer relação com um sujeito conhecedor (o “obje
to em si”) como também poderia ser um objeto que simplesmente não estamos
equipados para detectar. Conforme veremos mais tarde, a categoria dos noumena
abriu para Kant um universo além da causa e efeito, dentro do qual ele podia
atribuir ao ser humano a liberdade de ação como agente moral.
Assim como a teoria de Hume, a teoria do conhecimento de Kant impunha
sérios limites sobre a habilidade dos pensadores de discutir realidades transcen
dentes como Deus, a alma imortal e a liberdade, tomando como ponto de partida
experiências sensoriais. O ponto de vista que Kant desenvolveu em Crítica da
Razão Pura significava que qualquer realidade que está além do espaço e do
tempo não pode ser conhecida através do empreendimento científico, pois a ciên
cia baseia-se nas experiências sensoriais. A razão “pura” ou especulativa (ciên
cia) pode, no máximo, indicar que esses conceitos metafísicos são plausíveis, no
sentido de que nada daquilo que conhecemos no mundo empírico os contradiz.
Ao mostrar os limites do conhecimento empírico, a Crítica da Razão Pura
colocou realidades que transcendem o tempo e o espaço (como é o caso de Deus)
além da esfera científica e da experiência sensorial. Apesar de, à primeira vista,
essa colocação parecer transformar tais realidades em algo incompreensível, a
intenção de Kant não era provar o ceticismo religioso. O que ele, de fato, deseja
va era abordar os postulados metafísicos de modo mais seguro. Conforme expli
cou mais tarde em Crítica do Juízo, ele acreditava que, se a realidade de Deus
fosse demonstrada através de experiências sensoriais, seria difícil visualizar Deus
em termos de elementos morais.6 Na segunda edição de Crítica da Razão Pura,
ele explicou: “Descobri, portanto, que é necessárionegar o conhecimento, a fim
de criar espaço para a fé".1 Para o filósofo alemão, a “fé” pertencia a um outro
domínio da razão humana - razão em seu aspecto “prático” - que ele relacionava
com a dimensão moral da existência humana.
Razão Prática
Ao mostrar a falácia de todas as provas teóricas dos postulados metafísicos, a
primeira Crítica cortou as asas da razão “pura” ou especulativa. Mas ainda res
tava a tarefa de estabelecer esses postulados através de algum outro meio. A
garantia dos conceitos de Deus, imortalidade e liberdade tomou-se possível com
os escritos morais de Kant, especialm ente: Princípios Fundam entais da
Metafísica dos Costumes (1785), Crítica da Razão Prática (1788) e Metafísica
dos Costumes (1797). Seu objetivo com essas obras era investigar os conceitos
necessários para se raciocinar em termos práticos, da mesma forma como havia
explorado os aspectos teóricos do raciocínio em Crítica da Razão Pura.
O argumento de Kant está fundamentado na tese que de o homem não é
apenas um ser de experiências sensoriais, mas é também um ser moral. Ele obser
vou que nossa relação com o mundo não é limitada pelo conhecimento científico.
O mundo é, na verdade, um palco no qual os seres humanos desempenham seus
papéis; é uma esfera de valor moral. Kant estabeleceu a natureza moral da exis
tência ao lançar mão daquilo que ele considerava a experiência moral universal
dos seres humanos, um senso de condicionamento moral, de “dever”. Ele afirmou
que os seres humanos sabem da “pressão” que existe sobre eles para que façam
escolhas que só podem ser descritas em termos de moralidade.
Kant argumentou que, assim como a dimensão teórica, essa dimensão prá
tica ou moral da existência humana é, fundamentalmente, racional. Em decor
rência disso, estava convencido de que certos princípios racionais controlam
todos os julgamentos morais válidos, assim como outros princípios racionais são
o fundamento de todo o conhecimento teórico ou sensorial. Conseqüentemente,
o objetivo da dimensão moral da vida humana era tornar-se o mais racional
possível. Kant referiu-se a esse modo de vida racionalmente moral em termos
de “dever”.
Para Kant, esse modo de vida tem seu auge no princípio supremo de moralidade,
seu famoso imperativo categórico. Esse princípio requer, basicamente, que cada
ser humano procure agir de acordo com qualquer consideração motivadora que
ele ou ela gostaria que se transformasse numa lei universal a ser seguida por
todos. Em suas palavras: “Aja somente segundo um motivo tal que você possa
desejar ver transformado em uma Lei Universal da Natureza”. 8 Conforme essa
definição indica, o imperativo categórico concentra-se menos nas ações específi
cas e mais nas considerações motivadoras por detrás dessas ações.9
Os Postulados Práticos
A natureza moral da existência humana comprovada pela experiência universal
do condicionamento moral foi fundamental para que Kant restabelecesse a
metafísica. Com base nessa dimensão da vida, ele argumentou em favor da cer
teza dos três postulados transcendentais que o raciocínio teórico não havia sido
capaz de determinar. Ele afirmou que esses “postulados práticos” devem ser le
vados em consideração, pois são exigidos pela natureza moral do mundo.
Os dois primeiros postulados, Deus e a imortalidade, surgiram da visão de
Kant acerca do summum bonum. Ele defendia que o mais elevado bem possível
para a humanidade é viver numa esfera em que a virtude e a felicidade estão
juntas. Todos nós sabemos, entretanto, que, nesta vida, a virtude nem sempre é
recompensada. Assim, Kant concluiu que deve haver uma vida futura em que o
viver virtuoso é adequadamente recompensado e Deus deve existir como aquele
que garante que a justiça total irá prevalecer nessa esfera.
O argumento de Kant para o postulado da liberdade tem implicações exten
sas. Ele afirmava que a liberdade humana é necessária para explicar a experiên
cia universal humana de ser um sujeito moral ativo. Na dimensão “fenomenal”, os
homens são seres físicos, sujeitos às leis da natureza e, portanto, aparentemente
não são livres. Mas na dimensão “nomenal”, cada pessoa pode ser livre, pois a
obrigação moral pressupõe a existência da liberdade. Esse argumento serviu para
colocar o ser humano simultaneamente em duas esferas. Cada indivíduo deve ser
compreendido tanto moralmente (como sujeito com liberdade de ação) como cien
tificamente (vivendo sob as leis da causação física).
A Religião Racional
Em  Religião Dentro dos Limites da Razão (1793), Kant procurou levar sua
proposta um passo adiante, movendo-se da moralidade para a religião (isto é,
Cristianismo). Para ele, esse passo era necessário, pois a religião oferece o obje
tivo maior da moralidade, tendo em vista que fala de um “poderoso Criador de leis
morais” cuja vontade “deve ser o motivo maior de todos os homens”.10
Como todo trabalho de Kant, esse livro marcou tanto a continuação do
Iluminismo quanto o rompimento com ele. O autor começou com uma discussão
sobre o “mal radical”, a presença universal dentro de nós de uma tendência para
o mal, que não pode ser extirpada por nossas próprias forças. Do ponto de vista
da Idade da Razão, nessa discussão, o filósofo alemão havia cometido uma trans
gressão imperdoável.11 Ele havia reintroduzido justamente a doutrina - o pecado
original - que tinha sido alvo das críticas mais mordazes do Iluminismo em relação
ao Cristianismo.
Mesmo assim, Kant não havia rompido por completo com o Iluminismo, pois
ainda mantinha o otimismo básico daquela era. Ele acrescentou que, tendo em
vista que o mal radical encontra-se no ser humano, “cujos atos são livres, então
deve ser possível superá-lo”. 12
A fim de sustentar essas duas teses ao mesmo tempo, o filósofo alemão
diferenciou o princípio do mal, que ele via presente em nossa vontade real, do
imperativo categórico, que, conforme ele declarava, coincide com nossa vonta
de essencial. Desse modo, Kant construiu o que G. E. Michaelson Jr. chamou de
“uma fusão instável da ênfase Reformada sobre a queda e da ênfase Iluminista
sobre a liberdade”.13
A cristologia de Kant foi moldada por sua visão da religião como sendo es
sencialmente ética. Ele descreveu o objetivo da criação como a concretização de
uma humanidade moralmente perfeita. Esse objetivo está eternamente presente
na mente divina na forma do Filho Único de Deus, que é o objeto de nossa fé.14
Fiel ao pensamento do Iluminismo, Kant argumentou que essa idéia também está
presente em nossa razão e, por isso, não precisamos de um “exemplo empírico”
para servir de arquétipo do que é “uma pessoa moralmente agradável a Deus”.
Ainda assim, em sua tentativa de levar em consideração a tradição cristã, ele
acrescentou que existe um exemplo histórico desse ideal - Jesus - ou, mais espe
cificamente, a disposição de Jesus de enfrentar o sofrimento “em favor do bem
maior de todo o mundo”.15
A essência ética da religião também moldou a visão de Kant acerca da impor
tância do Cristianismo. Ainda mantendo-se dentro do Iluminismo, ele subordinou
o Cristianismo à religião universal da razão. Para ele, o Cristianismo não passava
de um meio para o estabelecimento do bem comum ético, um estágio dentro da
introdução gradual da “fé religiosa pura”.
As mudanças trazidas pelo Iluminismo também marcaram sua compreensão
do que vinha a ser autoridade religiosa. Ao mesmo tempo em que considerava as
Escrituras como norma única na igreja, Kant declarou que a “religião pura da
razão” - a única autêntica e universalmente válida - é o princípio interpretativo
das Escrituras.16 Ele concluiu que a dimensão moral (ou seja, “a virtude buscando
a santidade”) é o verdadeiro significado por trás das histórias bíblicas.17 E ele
procurou essas verdades eternas da fé presentes de maneira subliminar na histó
ria cristã, a saber:
que não existe salvação para o homem fora da adoção sincera de princípios genui
namente morais em sua disposição; que aquilo que trabalha contraa adoção desses
princípios não é tanto a natureza sensual, que é acusada com tanta freqüência,
quanto uma perversidade própria... que a raça humana trouxe sobre si.18
Por fim, Kant reinterpretou o elemento da graça. Apesar de admitir a impor
tância da narrativa bíblica, o filósofo alemão enfatizou que “a verdadeira religião
não consiste no conhecimento daquilo que Deus fez ou continua fazendo por nos
sa salvação, mas naquilo que nós devemos fazer para sermos dignos dessa salva
ção” .19 E o que podemos fazer é simplesmente viver de maneira moral.20 Kant,
portanto, inverteu a ordem da graça e das obras que era tão central à Reforma.
“O certo não é ir da graça para a virtude”, ele concluiu, “mas progredir a partir da
virtude em direção à graça perdoadora”.21
A Teologia baseada na Moralidade
A abordagem de Kant lançou uma fundação inovadora para a teologia. De fato,
ele inferiu certas doutrinas religiosas centrais: a realidade de Deus, a imortalidade
e a liberdade do ser humano. Porém, ao contrário dos teólogos clássicos, cuja
argumentação partia da revelação em direção aos atributos do ser de Deus,
Kant, semelhante a Descartes, construiu seu sistema baseado exclusivamente
no indivíduo como ser racional. Assim, esse método não partia da revelação
movendo-se em direção ã razão, mas saía da razão e movia-se para a revelação.
Desse modo, Kant deu continuidade à proposta iluminista de se delinear uma fé
puramente racional.
Uma inovação, entretanto, separava Kant da Idade da Razão. Ao contrário de
seus antecessores, não era a razão na forma abstrata que orientava sua proposta.
Ele argumentava que para a religião era fundamental uma certa dimensão parti
cular da existência humana - a experiência do condicionamento moral que, de
acordo com ele, estava ligado ao aspecto prático da razão. Como resultado disso,
Kant afirmou apenas aqueles postulados metafísicos que considerava necessários
para explicar essa dimensão da existência humana (tais como Deus, a imortalida
de e a liberdade). Fazendo uso dessa mesma metodologia, ele deu à natureza
divina apenas os atributos necessários para retratar a Deus como aquele que
garante a moral.22 Portanto, Kant não podia declarar ter qualquer conhecimento
da natureza divina além da dimensão moral. Ele não baseou a moralidade na
teologia, como fazia o pensamento cristão clássico, mas sim a teologia na moralidade.
Quando vista dentro do contexto da história teológica, a obra de Kant mar
cou o golpe de misericórdia sobre o deísmo da Idade da Razão. Ao contrário
dos dogmas instáveis da religião da revelação, o Iluminismo considerava as
doutrinas da religião natural completamente firmes, pois haviam sido edificadas
sobre os sólidos fundamentos da razão, empregando os métodos de investiga
ção empírica (que Kant chamou de “razão pura”). Kant, todavia, mostrou que
os princípios metafísicos centrais do deísmo - a existência de Deus, a imortali
dade da alma e a liberdade humana - não podiam ser determinados através do
raciocínio especulativo. Ele confirmou, dessa forma, aquilo que os céticos já ha
viam inferido. Essa porta para a religião fechava-se para sempre. O filósofo havia
oferecido uma visão extensa e cheia de implicações acerca da natureza finita do
ser humano; uma visão que precisaria ser levada seriamente em consideração
pela teologia subseqüente.
Mas a rua sem saída em que foi dar a religião do Iluminismo não marcou o fim
da teologia. Era possível ancorar a teologia em alguma outra coisa além da facul
dade mental, em alguma outra dimensão da realidade humana. Foi com esse pro
pósito que Kant empregou a ênfase iluminista da moralidade, colocando-a sobre
fundações mais sólidas. Ele argumentou que a religião podia ser estabelecida com
base na razão prática - a dimensão ética da existência e a faculdade mental
correspondente. Para ele, a esfera moral é o âmbito apropriado para a religião.
Nessa dimensão, ela reina suprema, protegida das descobertas da ciência.
Conclusão
Em muitos sentidos, o trabalho de Kant preparou o caminho para discussões sub
seqüentes tanto na filosofia quanto na teologia. Foi uma resposta articulada ao
Iluminismo, ao mesmo tempo em que incorporou os principais avanços da época.
No fim das contas, porém, Kant não foi capaz de superar certas tendências
destrutivas de seu tempo. Ele procurou definir religião como a devoção a um
Legislador transcendente cuja vontade deve ser o objetivo da humanidade.
Ainda assim, a teologia resultante do método de Kant continuou sendo
antropocêntrica e conduz inevitavelmente a uma ênfase da imanência divina que ele
próprio tanto rejeitava. Em última análise, a “voz divina” ouvida universalmente
pela razão humana - seja ela pura (Iluminismo) ou prática (Kant) - é a voz que vem
de dentro do indivíduo. Ela não traz uma palavra do “além”, transcendente. No caso
da proposta de Kant, a transcendência de Deus perde-se facilmente na voz do impe
rativo categórico encontrado nas profundezas da “razão prática” do ser humano.
G. W. F. HEGEL: A I m a n ê n c ia d e D e u s n o R a c io c ín io E s p e c u l a t iv o
Immanuel Kant procurou superar o Iluminismo e estabelecer uma nova rela
ção entre a transcendência e a imanência, mudando o enfoque religioso da esfera
da “razão pura” (a esfera do conhecimento baseado nos sentidos) para a da “ra
zão prática” (a esfera do conhecimento baseado na experiência do indivíduo como
um ser moralmente condicionado). Uma segunda alternativa ao Iluminismo foi
oferecida por G.W .E Hegel. Enquanto Kant encontrou uma pista para a
transcendência na dimensão ética da vida humana, Hegel procurou o mesmo sen
so de transcendência na dimensão intelectual. Ele ligou a verdade absoluta ao
processo da história humana e à capacidade da mente humana de compreender o
significado desse processo. Ele afirmou com ousadia que, à medida que a huma
nidade entende a História, Deus passa a conhecer a si mesmo.
A Carreira de Hegel
A vida de Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831) coincide com um período
turbulento da história da Europa. Por um lado, aquela foi a era de Napoleão e,
por outro, do Romantismo. Nascido em Stuttgart, Hegel cresceu numa parte do
país que, de acordo com as palavras de Cari J. Friedrich, “foi o berço de mais
pensadores e poetas do que qualquer outra região da Alemanha”.1 Não é de se
admirar, portanto, que o pensamento de Hegel mesclasse interesses tanto nas
dimensões políticas quanto estéticas da existência humana.
Ao contrário de Kant, que passou toda a vida em sua cidade natal, no leste da
Prússia, a educação e a carreira profissional de Hegel o levaram a diversas cida
des da Europa central.2 Depois de completar seus estudos na Universidade de
Tübingen (onde sua filosofia teria, mais tarde, forte impacto sobre os estudos
teológicos), trabalhou como tutor, primeiro em Berne, na Suíça (1791-1796), e
depois em Frankfurt (1796-1800). A essa altura de sua vida, Hegel estava preo
cupado principalmente com seus antecessores teológicos e com o legado de Kant.3
Um estágio formativo no desenvolvimento de seu pensamento ocorreu durante
sua carreira como professor na Universidade de Jena (1801-1806), pois foi lá que
explorou mais de perto o conceito de Geist (espírito), tão central à sua filosofia.
No auge de sua carreira, Hegel mudou-se para Heidelberg e depois para Berlim
(1818), onde trabalhou até vir a falecer.
A Filosofia de Hegel
Hegel propôs superar os obstáculos impostos pelo Iluminismo sobre o empreendi
mento teológico, através da construção de uma grande fusão da teologia com a
filosofia. Assim, para que possamos entender a solução que ele ofereceu para
resolver o impasse criado pelo século 18 e sua importância para a teologia do
século 19, devemos olhar para sua proposta inovadora para a filosofia.
A filosofia de Hegel marcou um importante rompimento com a Idade da Ra
zão. Ele concordava com o Iluminismo em que a filosofia está relacionada à obten
ção da verdade, mas redefiniuo foco do trabalho filosófico. Sendo uma época
muito pouco voltada para a História, a Idade da Razão havia remodelado a filoso
fia à imagem da ciência natural, esperando, assim, encontrar a verdade - e Deus
- no universo natural. A natureza era vista como uma realidade estática, um
produto acabado. Como tal, era o objeto do conhecimento humano. E sua máqui
na delicadamente regulada implicava na existência de um Arquiteto.
O filósofo alemão concordava com a ênfase no conhecimento científico e
objetivo defendido pelos empiristas da Idade da Razão. Mas negava que a expe
riência sensorial era a única base para o conhecimento ou que a formação de
idéias a partir das experiências sensoriais era o principal método de se obter o
conhecimento. Também não concordava com a afirmação de seus antecessores
de que a realidade é estática e completa - um objeto externo que podia ser capta
do pela razão. Ao invés disso, Hegel ensinava que a realidade é ativa e está em
constante desenvolvimento. Ela é um processo contínuo, que consiste no desdo
bramento dos princípios da racionalidade. Ele afirmava que a realidade não é
apenas lógica (como acreditavam os pensadores do Iluminismo), mas que a lógi
ca, num certo sentido, também é uma realidade, pois aquilo que é racional existe.4
Foi sobre esse fundamento que Hegel propôs uma visão mais complexa da
realidade e do conhecimento humano, uma visão concentrada na estrutura do
pensamento racional. Para ele, a estrutura do pensamento e a estrutura da reali
dade são, no final das contas, uma coisa só: um processo dinâmico.5
Ao contrário dos pensadores do Iluminismo, o estudioso alemão colocava a
filosofia acima das ciências. Ele encarava a filosofia como um meio não apenas
de descobrir a verdade, mas também de concretizar a verdade absoluta.
De acordo com isso, Hegel criou uma ligação mais próxima entre a filosofia
e a História. Aliás, conforme Henry D. Aiken, sua proposta foi a primeira “tenta
tiva mais minuciosa de se visualizar todos os problemas e conceitos filosóficos,
incluindo o próprio conceito de razão, em termos essencialmente históricos”. 6
Ao buscar a resposta para o problema do destino humano e do significado da
existência,7 ele esperava encontrar Deus não dentro da natureza, como um Ar
quiteto distante, mas na “Idéia”, no significado por trás do processo da história
humana como um todo.
Três conceitos relacionados entre si resumem a tentativa de Hegel de
visualizar a realidade de maneira inédita: o espírito, a verdade como um proces
so e a dialética.
Espírito
A primeira idéia central do pensamento de Hegel é Geist, que normalmente é
traduzido para a nossa língua como “espírito”. Na verdade, não há nenhuma pala
vra em nosso vocabulário que seja um equivalente adequado a esse termo. Ele
combina os conceitos de racionalidade refletida na palavra mente com a dimen
são sobrenatural ligada a espírito.
Para Hegel, o Espírito não é simplesmente uma substância (algo que existe),
mas um sujeito ativo, uma atividade, um processo. Apesar de estar presente nos
seres humanos, ele não deve ser igualado ao espírito humano, pois é o ser inte
rior do mundo, o Absoluto, chega a ser a única Realidade.8 Os acontecimentos
do mundo, por sua vez, são a atividade do Espírito. E através desses aconteci
mentos que o Espírito toma uma forma objetiva e adquire a plena consciência de
si mesmo. Portanto, Hegel via todos os processos da natureza e da História
como formadores de um todo unificado e manifestação desse princípio espiri
tual fundamental.
A Verdade como um Processo
A segunda idéia importante da filosofia de Hegel é sua compreensão da verdade
como um processo. O filósofo alemão não encarava a verdade como se fosse a,
conclusão racional alcançada ao se empregar o raciocínio apropriado (como era d
caso da filosofia, pelo menos a partir de Descartes). Ao invés disso, para ele, a
verdade era o processo em si. Era o todo, o vai e vem, as voltas e caminhos
tomados pelo processo de raciocínio que acabavam levando a uma resolução.
Hegel também notou que o processo de raciocínio não vê seu objeto como
algo externo em relação a si, mas contém esse objeto dentro de si mesmo. Ele
chamou essa atividade racional de apropriação do objeto de “concepção”. À con
cepção maior, ao ajuntamento de todas as concepções em um todo interligado,
Hegel chamou de “Idéia” ou concepção do Absoluto. “Concepção”, portanto,
envolve a confluência de pensamento e realidade,9 o que é possível pois a realida-.
de reflete uma estrutura racional.
Hegel ligou a verdade da realidade ao processo da História, que ele via como
a consciência que o Espírito adquiria de si mesmo. Aliás, esse “todo” não é sim
plesmente uma característica da realidade; para Hegel ele é a realidade.10 As
diferentes épocas da história humana são estágios, através dos quais o Espírito
passa no processo de auto-descobrimento.11 Assim, a verdade é a História -
vista não como fatos isolados, mas como a grande unidade por trás do contínuo
processo histórico e, ao mesmo tempo, nele revelada. O conhecimento, por sua
vez, encontra-se na domínio filosófico dos padrões produzidos pelo processo his
tórico, na apropriação do significado do todo.
Por causa de sua ênfase no vai e vem da História, Hegel valorizava profunda
mente o passado. Argumentava que devemos compreender nossas origens a fim
de obter o verdadeiro conhecimento. Mas, acima de tudo, estava interessado na
quelas dimensões que conferiam expressão ao espírito humano: sociedade, reli
gião, ética, arte, literatura e música. Ele teorizava que é na história da cultura
humana (expressada através dessas atividades) que o espírito humano encontra
sua própria vida consciente.12 E através do processo histórico que surge o conhe
cimento absoluto. Mas esse conhecimento é o Espírito conhecendo a si mesmo.
Dialética
Dentre os vários aspectos da filosofia de Hegel, o mais conhecido é sua dialética.
Essa dimensão está relacionada à sua tese sobre a dinâmica da natureza da filo
sofia. A seu ver, a filosofia trata da realidade que se apresenta ou vem a se
conhecer através do processo contínuo da vida. Como o mover do Espírito em si,
a filosofia cria os vários estágios de sua própria história ao passar por eles e essa
atividade é a sua verdade. A cada estágio, o estágio anterior é usado como funda
ção, mas também é, ao mesmo tempo, negado. Assim, o estágio anterior é tanto
preservado quanto suspenso. Ao ser compreendida dessa forma, a verdade inclui
aquilo que nega ao passar para o próximo estágio da História.
Hegel, portanto, substituiu a idéia tradicional de existência estática pelo con
ceito dinâmico de processo. Esse processo ativo da verdade contém dentro de si
o “vir a ser” e o “deixar de ser”. E pelo fato de tudo estar fluindo, a busca pela
verdade é o estudo do processo dentro do qual a verdade surge.
Essa afirmação trazia uma implicação importante à visão de Hegel sobre a
lógica. A lógica tradicional baseia-se na lei da não-contradição (X não é “não-X”).
Desse modo, ela pressupõe uma perspectiva estática da realidade.
O filósofo alemão rejeitou essa perspectiva estática, transformando-a numa
visão dinâmica semelhante à do antigo filósofo grego Heráclito. De acordo com
Hegel, a realidade está em movimento e o curso desse desenvolvimento, que
parte do potencial e vai até a realização final, acontece em estágios. Como resul
tado, o pensamento também deve mover-se através de um processo governado
pela lei da dialética. Para Hegel, a dialética não consiste em uma idéia humana,
mas sim na descrição da realidade como ela é de fato. Mais especificamente, ela
é uma descrição da história do Espírito em si ou da razão eterna tornando-se
realidade no pensamento humano. Aqui fica evidente, mais uma vez, a ligação
próxima que Hegel fazia entre o pensamento e a realidade. Ele afirmava que,
saber o que a razão precisa necessariamente pensar, é saber o que precisa neces
sariamente acontecer.13
A dialética deHegel é normalmente descrita em termos lógicos como sendo a
tríade composta de tese-antítese-síntese. Mesmo que Hegel talvez nem tenha
usado esse esquema,14 ainda assim ele nos ajuda a entender sua proposta. Em
primeiro lugar, surge uma tese. Ela imediatamente gera uma antítese. As duas
juntam-se em uma síntese. A síntese constitui uma nova tese e o processo continua.
O contraste entre a tese e a antítese que formava uma parte da dialética de
Hegel não é exclusividade sua. Em sua Crítica da Razão Pura, por exemplo,
Kant concluiu que a razão pura pode levar a mente a ver apenas a validade
possível de afirmações opostas sobre as realidades transcendentais como a exis
tência de Deus, a imortalidade da alma e a liberdade humana. De maneira seme
lhante, os pensadores do Romantismo falavam de uma “coincidência de opostos”
atuando na natureza e na história humana.
Mas enquanto Kant extraiu desse fenômeno os limites da razão “pura”, Hegel
ousou declarar que tanto a tese quanto a antítese podem ser afirmadas quando
são compreendidas à luz de uma proposição mais inclusiva que abranja o signifi
cado de cada uma. Esse é o terceiro aspecto da tríade, a resolução da tese e da
antítese dentro de uma síntese, em que ambas são canceladas, porém mantêm-se
preservadas (aufgehoben) dentro de uma terceira proposição.
Porém, Hegel não limitou a dialética à atividade da mente humana. Ele a viu
também como uma lei de pensamento e metafísica. A dialética relaciona-se ao proces
so da própria realidade, que revela o Absoluto adquirindo consciência de si mesma.
A dialética também pode ser usada para descrever o movimento de tríade do
Absoluto de maneiras variadas e um tanto complicadas. Uma delas concentra-se
no movimento do ser indeterminado (Sein) passando a um não-ser (Nichts) e
vindo a ser (Werden).15 Esse vir a ser, por sua vez, apóia-se no vir a ser de algo
que já existe (Dasein).
Uma tríade relacionada descreve as incorporações da concepção de Abso
luto.16 O primeiro elemento, o “em si” (an sich), vê a concepção em sua mais
simples universalidade. Ele descreve o Absoluto em termos de sua essência
unificada, que forma a unidade constituinte da essência de toda a realidade e,
portanto, é o substrato para a realidade. Sob essa luz, ele é apenas implícito ou
potencial e ainda não encontrou uma expressão externa.17 O segundo aspecto,
“por si” (fuer sich), vê a concepção em sua total dispersão ou diferenciação.
Ele descreve o Absoluto em termos de sua presença na esfera dos detalhes ca
racterísticos do mundo no tempo e no espaço. A resolução desses dois aspectos é
o terceiro elemento, o “em si e por si” (das Anundfuersichseiri), que é caracte
rizado pela unidade consciente das várias diferenças presentes dentro do todo.
Filosofia, Teologia e História
Estes conceitos - espírito, verdade como um processo e dialética - constituem a
fundação da visão de Hegel sobre a relação entre Filosofia, Teologia e História.
Ele afirmava que a História revela o desdobramento gradativo da verdade, pois
ela é o campo no qual o Espírito encontra-se ativo. As atividades do espírito
humano, especialmente aquelas relacionadas às expressões culturais e intelectu
ais, são essenciais para esse agir do Espírito na História. É sobretudo na Filosofia
que o espírito adquire consciência de si mesmo. Assim, nessa disciplina, o mover
do Espírito torna-se mais claramente visível.
A relação que Hegel cria entre Deus e o Espírito é fundamental para a avalia
ção que ele faz do papel e do significado da religião. Quando considerado em ter
mos religiosos, o Espírito Absoluto é Deus, que se revela no processo da História.
Essa conexão implica, é claro, que o entendimento filosófico constitui o cami
nho para o conhecimento de Deus. Assim como, em última análise, a Filosofia é a
história do pensamento e a História se revela num gradativo desdobramento da
verdade, da mesma forma, no final, a religião e a teologia estão relacionadas à
Filosofia, pois só é possível conceber-se a existência de Deus no sentido de seu
desdobramento histórico.
Para Hegel, portanto, a religião é, no final das contas, pensamento18 no sen
tido de que concentra-se no conhecimento de Deus. A religião e a Filosofia
buscam apresentar a mesma verdade, mas de maneiras diferentes. A religião
apropria-se da verdade na forma de imagens e representações, enquanto a Filo
sofia capta a mesma verdade em sua “necessidade racional”. A Teologia tam
bém acaba sendo um conhecimento filosófico, pois ela vai além das imagens
encontradas na religião na busca por um conhecimento de seu significado uni
versal e filosófico.
Cristianismo
Hegel preocupava-se com o vir a ser de Deus que encontrava no processo histó
rico, especialmente nos esforços do espírito humano. Como resultado, a verdade
filosófica central ao seu pensamento era a união entre Deus e a humanidade. Em
termos teológicos, o sistema todo do grande filósofo podia ser interpretado como
a declaração suprema da metáfora da Encarnação.19
A preocupação com a Encarnação formou a base para a avaliação que Hegel
fez do Cristianismo. Ele afirmava que, como religião revelada ou espiritual, o
Cristianismo é a síntese da religião natural (tipificada no antigo Oriente) e da
religião artística (conforme sua manifestação na antiga Grécia).20 Hegel chegou a
uma conclusão tão elevada, porque via no Cristianismo a apresentação religiosa
da grande verdade filosófica da Encarnação. Na ascensão dessa religião históri
ca, centralizada na Encarnação de Cristo, a unidade dos homens com Deus, que
até então era implícita, tornava-se explícita;21 nessa religião acontecia a verdadei
ra concretização histórica da unidade entre o divino e o humano. Em decorrência
disso, o Cristianismo marca o vir a ser do Espírito Absoluto, Deus, adquirindo
consciência de si mesmo através da atividade religiosa do espírito humano.
De acordo com Hegel, há três momentos - de certa forma análogos às três
pessoas ligadas ao conceito cristão de Trindade - da realidade divina em ação no
processo de concretização da unidade entre o divino e o humano:22 o Ser Essen
cial, o Ser Existente e o Ser Consciente. O primeiro momento envolve um Ser
puro, abstrato. O segundo marca o início da existência do Espírito abstrato atra
vés da criação do mundo. Esse “espírito objetivamente existente” (o mundo) ca
racteriza-se por ser “o Filho” (aquele que “sabe que é o Ser Essencial”) e pela
alienação e abandono (mal). O terceiro momento é o Espírito passando para o
estágio de consciência de si mesmo.
Esse processo de tríade, juntamente com a ligação entre Deus e a humanida
de - tão central ao pensamento de Hegel (é na humanidade que Deus adquire
consciência de si mesmo) - , forma o ponto de contato entre a história religiosa e
a verdade filosófica para a qual ela aponta. O primeiro momento é Deus como
Ser Essencial. Na criação do universo, surge o segundo momento à medida que
Deus se move para fora de si mesmo entrando num relacionamento com algo
além dele. Na humanidade, Deus volta a si mesmo, pois na vida religiosa, através
da qual a humanidade vem a conhecer Deus, Deus conhece a si mesmo.23 Esse é
o terceiro momento, reconciliação dentro da realidade.
De acordo com Hegel, o Cristianismo descreve esse processo de maneira
pictórica em termos de criação e redenção. Ele afirmava que a criação, como um
movimento em direção à existência individual, inclui necessariamente a alienação.
Assim, Hegel via na história bíblica da Queda uma expressão do movimento que
partia da inocência para a consciência de si próprio, um movimento que ele consi
derava necessário para o estabelecimento da independência da humanidade, ou
seja, sua existência histórica. No que dizia respeito a um rompimento de relacio
namento, separação e alienação, Hegel concordava com a afirmação da teologia
tradicional de que a Queda era má. Mas, para ele, esse acontecimento havia sido
igualmente positivo como um primeiro passo necessário para a reconciliação(isto
é, tornar explícita a unidade entre Deus e a humanidade).
Para Hegel, a importância da vinda de Cristo estava na afirmação de que, em
Jesus, a idéia da unidade de Deus com a humanidade havia se tornado explícita na
História. Na Encarnação, a verdade filosófica universal da unidade entre o divino
e o humano havia se concretizado em um determinado indivíduo histórico. Tendo
em vista que a História é o desdobramento da realidade, esse acontecimento foi
importante até para o próprio Deus. Em Cristo, Deus passou da idéia abstrata
para a individualidade histórica e, ao fazê-lo, atingiu a realidade plena. Em suas
palavras, “o Espírito puro ou não-existente do pensamento tornou-se realidade”.24
De acordo com Hegel, a expressão mais clara dessa verdade encontra-se na cru
cificação. Esse acontecimento refere-se a Deus adquirindo uma natureza radical
mente finita - sendo a morte sua mais intensa forma - e à morte do Deus abstrato:
A morte do mediador não é morte apenas no aspecto natural, marcando o fim de
uma determinada existência: aquilo que morre não é apenas o revestimento exter
no — que, desprovido do Ser Essencial, é inerentemente morto - , mas também a
abstração do Ser Divino.25
A morte de Cristo, entretanto, não é o fim. Ela prepara o caminho para a
ressurreição, que marca o advento do Espírito Absoluto ou universal e do reino do
Espírito como objetivo da História e como concretização histórica plena de Deus.
Portanto, a Filosofia e o Cristianismo convergem-se, pois ambos concentram-
se na reconciliação. Nas palavras de J. B. Baillie, de acordo com a interpretação
de Hegel, a verdade de ambos é:
que o Espírito Absoluto toma sobre si e faz seu o estupendo lavor da história
humana; que, ao fazê-lo, ele enche as partes constituintes de significado espiritual,
assume a forma humana e, no processo, é simultaneamente eterno e inserido no
tempo, criando um relacionamento de reconciliação entre si próprio e o mundo.26
Os Resultados do Pensamento de Hegel
Quando morreu, em 1831, Hegel era talvez o filósofo cristão mais influente na
Alemanha. Com o passar do século, entretanto, muitos de seus seguidores viram
em sua filosofia uma fonte de crítica radical ao Cristianismo e as sementes da
possibilidade de ir além das tradições cristãs.
David Friedrich Strauss (1808-1874), por exemplo, aplicou idéias de Hegel à
estudos cristológicos do Novo Testamento. Como forma de superar o impasse
entre a abordagem supernaturalista e a racionalista de compreender a vida de
Jesus, ele desenvolveu o conceito de “mito evangélico” (histórias que nos são
apresentadas não como expressão de fatos reais, mas como verdades teológi
cas). Ludwig Feuerbach (1804-1872) virou de ponta-cabeça a teologia de Hegel,
declarando que Deus era a humanidade num estado de auto-alienação. Assim, ele
transpôs a teologia para a antropologia, encarando a discussão sobre Deus como
sendo, na verdade, a discussão sobre os assuntos humanos. Enquanto Karl Marx
(1818-1883) concordava com a concepção de Hegel de que a História é uma
totalidade autônoma, ele rejeitava o espiritualismo de Hegel, que tratava os fatos
empíricos como manifestações de um processo lógico.27 Ao invés disso, Marx
explicava a alienação do homem em termos sócio-políticos e econômicos.
Conclusão
A relação entre Cristianismo e filosofia apresentada por Hegel ofereceu uma
saída para o dilema no qual o Iluminismo havia culminado, o dilema da ortodoxia
tradicional contra o ceticismo radical. O pensador alemão elevou o Cristianismo à
posição de única religião relevante, pois mostra em forma de representação a
verdade filosófica absoluta sobre a unidade entre Deus e a humanidade.
Mas o restabelecimento do Cristianismo realizado por Hegel teve um alto pre
ço. A doutrina cristã só podia ser protegida dos ataques do racionalismo iluminista
ao mover o seu conteúdo para além da História, transformando-o em filosofia. Ape
sar de Hegel negar que essa transformação implicava em destruição do conteúdo
religioso, ele a via como a única justificativa para a existência da religião cristã.
Quando o Cristianismo foi transformado em filosofia, o Deus transcendente
dos profetas, apóstolos e pais da Igreja tornou-se o Weltgeist imanente, o Espírito
Absoluto que vem a ser através da história da humanidade. Enquanto o filósofo
alemão via essa mudança como a salvação da fé cristã, é preciso que pergunte
mos se uma das conseqüências de seu sistema não seria a extinção do Cristianis
mo. Hegel ofereceu uma forma engenhosa de ir além do Iluminismo, mas, no
final, não conseguiu superar sua perspectiva teológica básica. O sistema de Hegel
continuava a ser “o trabalho de um defensor radical da imanência”.28
De certa forma, essa ênfase à imanência é a contribuição mais importante e
duradoura de Hegel para a teologia contemporânea. Mesmo quando seu idealis
mo especulativo se enfraqueceu ou foi radicalmente reinterpretado como uma
forma de materialismo especulativo, sua visão da unidade entre Deus e o mundo
continuou a ser uma forte opção para a teologia. Hegel afirmou que “Sem o
mundo, Deus não é Deus” . Com isso, queria dizer que Deus não é um ser auto-
suficiente por si mesmo; ele precisa do mundo para sua realização própria. A
história do mundo também é a história de Deus.
A visão de Hegel sobre a relação entre Deus e o mundo serve de padrão para
muitas outras variações posteriores da alternativa teológica chamada com fre
qüência de “panenteísmo”. Sob esse rótulo, encontra-se qualquer ponto de vista
que representa Deus e o mundo como sendo realidades inseparáveis, porém dis
tintas. Assim, essa abordagem forma um meio-termo entre o teísmo tradicional,
em que se acredita que Deus é completamente auto-suficiente em relação ao
mundo, e o panteísmo, que associa Deus com o mundo de modo extremamente
íntimo. Todas as expressões panenteístas que vieram depois seguem as idéias de
Hegel no que diz respeito a esse ponto crítico.
Com o início da segunda metade do século 19, o clima intelectual da Alemanha
testemunhou um declínio na popularidade do idealismo especulativo de Hegel e
um reavivamento da ênfase de Kant à razão prática ou ao julgamento moral como
forma de escape da natureza finita do ser humano. Mas, antes de nos voltarmos
para o teólogo que dominou a segunda metade do século, Albrecht Ritschl, é pre
ciso encaixarmos mais uma peça no quebra-cabeça teológico do século 19 - o
pensamento do maior contemporâneo teológico de Hegel: Friedrich Schleiermacher.
FRIEDRICH SCHLEIERMACHER:
A I m a n ê n c ia d e D e u s n o Se n t im e n t o R e l ig io s o
Os teólogos do século 19 procuraram ir além do impasse resultante do
Iluminismo, determinando para isso um lugar especial para a religião na vida hu
mana e, assim, estabelecendo uma nova relação entre a transcendência e a
imanência. Com esse propósito, Kant lançou a ética ou moralidade como ponto
central dessa dimensão religiosa especial. Hegel moveu esse ponto central para a
esfera intelectual ou especulativa. Porém, mais inovadora do que qualquer uma
dessas duas propostas foi a sugestão de Friedrich Daniel Ernst Schleiermacher, o
terceiro grande pensador das primeiras décadas daquele século. Sua alternativa
elevava a vida intuitiva - uma experiência humana especial que ele chamava de
“sentimento” - à posição de fundamento teológico.
A contribuição desse teólogo alemão do século 19 sobre a teologia contempo
rânea é inestimável. Apesar da maior parte dos cristãos nunca ter ouvido falar de
Schleiermacher, suas idéias sobre religião em geral e Cristianismo em particular
têm sido passadas a eles através de seus pastores, líderes denominacionais, auto
res religiosos prediletos e professores de seminários. Sua influência é sutil mas
profunda no Cristianismo ocidental. Ele está para a teologia cristã como Newton
está para a física, Freud para a psicologia e Darwin para a biologia. Isto é, ele
pode não ter sido a autoridade absoluta, mas foi o desbravador e vanguardista,o
pensador que teólogos subseqüentes não podem ignorar.
Os estudiosos do pensamento cristão moderno são quase unânimes em confe
rir a Schleiermacher a posição de pai da teologia moderna. Ele já foi chamado de
“Príncipe da Igreja” e um dos poucos gigantes do pensamento cristão,1 o mais
influente teólogo desde Calvino2 e o fundador do pensamento teológico e religioso
moderno.3 Adquiriu tamanha proeminência não por ter fundado uma determinada
escola de pensamento teológico nem porque todos os teólogos cristãos que vie
ram depois dele são seus discípulos. Nenhuma dessas coisas aconteceu. Na ver
dade, Schleiermacher merece esse lugar de honra porque foi ele quem deu início
a uma nova era na teologia - uma era que já dura quase duzentos anos - domina
da pela chamada teologia cristã liberal e as várias reações a ela.
Keith Clements estava certo quando disse: “Em relação a uma enorme varie
dade de questões, Schleiermacher se adianta em abordagens que reconhecemos
como tipicamente ‘modernas’ ou, como alguns preferem, ‘liberais’”.4 Nenhum
pensador cristão antes dele encarou tão abertamente o problema apresentado ao
Cristianismo tradicional pela revolução científica e filosófica do Iluminismo. E
ninguém lutou com tanta valentia para reconstruir a fé cristã de forma a torná-la
compatível com o espírito de sua era.
O que é importante sobre Schleiermacher não é especificamente a reconstru
ção das doutrinas cristãs, mas o método e a abordagem que ele utilizou para tentar
desemaranhar as crenças cristãs dos conflitos com o pensamento moderno, o que
constituiu tendência para os teólogos liberais dos próximos duzentos anos. Seus
simpatizantes, bem como seus oponentes, o reconhecem como o originador da
teologia liberal, por causa do novo método de obter conhecimento teológico que
ele formulou. Por esse motivo, nosso estudo sobre Schleiermacher irá concen
trar-se mais em sua metodologia teológica do que em suas perspectivas doutriná
rias específicas, apesar de algumas delas serem discutidas a fim de ilustrar como
ele colocava em prática o seu método.
A Vida e a Carreira de Schleiermacher
Seria errado pensar em Schleiermacher apenas como um pioneiro da teologia.
Sua contribuição estende-se além do âmbito teológico. Durante sua vida, ele ficou
conhecido como um dos grandes pregadores da cristandade. Foi também um líder
religioso e cultural da Alemanha durante a primeira metade do século 19.
Schleiermacher ajudou a fundar a Universidade de Berlim e traduziu com grande
competência as obras de Platão para o alemão. Foi um notável patriota durante a
ocupação da Prússia por Napoleão e um expoente da reforma política que se
seguiu. Por causa disso, seu funeral em fevereiro de 1834, foi um acontecimento
público em que dezenas, senão centenas, de milhares de pessoas do povo de
Berlim saíram às ruas para ver a passagem de seu cortejo fúnebre.
É impossível separar a teologia de Schleiermacher de sua biografia. Sua ex
periência de vida teve grande influência na origem da sua reformulação do pensa
mento cristão.
Friedrich Schleiermacher nasceu em Breslau, na Prússia (hoje chamada de
Wroclaw, na Polônia), em 21 de novembro de 1768. Seu pai era pastor da Igreja
Reformada e trabalhava como capelão no exército da Prússia. Quando o jovem
Friedrich tinha dez anos de idade, seu pai experimentou uma profunda renovação
de sua fé cristã através do ministério da seita pietista conhecida como os morávios.
Os morávios (ou “Herrnhuttem”) eram um grupo de cristãos extremamente de
votos vindos da Boêmia [atual República Tcheca (N. do T.)] que se estabeleceu
na parte oriental da Alemanha no século 17, sendo de grande importância para a
renovação evangélica pietista.
A família Schleiermacher permaneceu na Igreja Reformada da Prússia, mas
levava uma vida religiosa e evangélica bastante fervorosa. Aos quatorze anos,
Friedrich foi mandado para um internato pietista e, mais tarde, para um seminário
pietista, onde foi preparado para o ministério. Em algum ponto no começo dos
seus estudos, começou a desenvolver dúvidas sobre certas doutrinas fundamen
tais do protestantismo ortodoxo. Em uma carta ao seu pai, expressou sua incredu
lidade sobre a doutrina da expiação substitutiva - de que Cristo sofreu nas mãos
de Deus ajusta punição pelo pecado dos homens. Seu pai reagiu com severidade,
chegando quase a deserdá-lo. Apesar de mais tarde eles terem feito as pazes,
para desespero de seu pai, Friedrich nunca recuperou completamente sua antiga
aceitação das doutrinas ortodoxas do Cristianismo. Porém, ele nunca perdeu a
ênfase pietista na “afeição cristã” ou sentimento devocional. Numa carta escrita
bem mais tarde para sua irmã, ele afirmou que ainda era um pietista, só que de
uma “ordem mais elevada”.
Esse distanciamento de Schleiermacher em relação à teologia protestante or
todoxa continuou a ocorrer durante os seus estudos na Universidade de Halle. Lá,
ele absorveu profundamente o ceticismo de Kant e leu extensivamente sobre a
filosofia iluminista em geral.
Em 1790, Schleiermacher foi ordenado ministro da Igreja Reformada e, a
partir de então, exerceu seu ministério em igrejas e junto a famílias nobres. Seu
primeiro cargo de maior importância foi de capelão no Hospital Charité em Berlim
de 1796 a 1802. Durante esses anos, um novo movimento - o Romantismo -
percorria os círculos sociais e culturais de Berlim e Schleiermacher não pôde
ficar de fora. O Romantismo era uma reação ao racionalismo frio da filosofia
iluminista. Dava grande ênfase aos sentimentos, imaginação e intuição do ser
humano. Por isso, valorizava a poesia e a música como meios de realização e
expressão do indivíduo. Na época de Schleiermacher, talvez o maior líder desse
movimento tenha sido o grande poeta Johann Wolfgang von Goethe.
Schleiermacher era comunicativo, possuía uma personalidade atraente e uma
natureza gregária. Em Berlim, tornou-se parte de um círculo de amigos em que
todos eram profundamente influenciados pelo Romantismo. Apesar da maioria
não ser de cristãos devotos e até mesmo expressar uma certa reserva em relação
à religião, ele cultivou um relacionamento muito próximo com esse grupo. Aliás,
escreveu sua primeira grande obra Sobre a Religião: Discursos aos Ilustrados
que a Desdenham (1799) em grande parte por causa do desejo de convencer
seus amigos de que a religião não era aquilo que pensavam. No livro, procurou
defender a religião dos conceitos errados mais comuns de que ela não passa de
ortodoxia morta e moralismo autoritário que impede a liberdade individual e alie
na as pessoas de sua verdadeira humanidade.
O jovem pensador tentou persuadir os “ilustrados que desdenham” (os jovens
românticos da Alemanha) de que a verdadeira religião é uma questão de “senti
mento” humano universal (Gefühl) e que pouco tem a ver com dogmas. O livro
mescla “pietismo iluminado” e Romantismo, a fim de demonstrar que a verdadei
ra religião é uma “relação direta com o Deus vivo, distinta da submissão doutriná
ria ou das proposições credais acerca de Deus” .5 Os Discursos de Schleiermacher
representam um dos primeiros estudos verdadeiramente modernos da religião e
deram ao seu autor a reputação de jovem gênio quase que do dia para a noite.
Em 1804, Schleiermacher recebeu o cargo de professor e pregador da Uni
versidade de Halle. Durante o breve período que passou naquela instituição, ele
amadureceu e tornou-se um teólogo experiente, grandemente respeitado por suas
palestras, sermões e escritos. Quando a Prússia foi tomada por Napoleão, em
1806, a Universidade foi fechada e Schleiermacher mudou-se de volta para Berlim,
onde assumiu o prestigioso posto de pastor da grande Igreja da Trindade. Passou
o resto de sua vida em Berlim, onde ajudou a fundar a nova universidade, na qual
tornou-se deão da faculdade de teologia. Em 1809, casou-se com a viúva de um
amigo próximo, finalmente realizando seu profundo desejo de encontrar felicidade
na vida familiar.
Sua vida em Berlim foi muitoativa, incluindo o engajamento em um ativismo
político que lhe rendeu inimizade permanente com os conservadores políticos.
Schleiermacher pregava quase todos os domingos para uma igreja cheia e reali
zou a confirmação de centenas de crianças das famílias mais proeminentes de
Berlim, incluindo o jovem Otto von Bismark, o futuro Primeiro Ministro que unifi
cou a Alemanha em um único Império.
Mais tarde em sua vida, Schleiermacher produziu diversas obras importantes,
incluindo traduções de Platão, livros sobre ética, filosofia e hermenêutica e sobre
a vida de Jesus. Sua obra maior foi a teologia sistemática intitulada A Fé Cristã, que
foi lançada pela primeira vez em 1821-1822 e depois revisada em 1830. A maior
parte dos estudiosos provavelmente concordaria com as palavras de Keith Clements
quando este disse que “não havia surgido nada em tal escala e com apresentação
tão sistemática desde Aí Instituías da Religião Cristã de João Calvino, quase
três séculos antes”.6 Nessa obra extensa, Schleiermacher apresentou um sistema
de doutrina cristã para os tempos modernos.
Para os tradicionalistas, A Fé Cristã representava a capitulação ao espírito
anti-supernaturalista da era do Iluminismo, uma tentativa mal-disfarçada de se
falar da humanidade como se estivesse falando sobre Deus. Para os progressis
tas, a obra representava uma liberação dos dogmas autoritários ultrapassados e
uma verdadeira forma de fé cristã moderna que não entrava em conflito com a
ciência. Sua publicação desencadeou um furor de críticas que a acusavam de
panteísmo e coisas parecidas. Também provocou uma enxurrada de teologias
revisionistas que buscavam seguir os passos de Schleiermacher e remodelar o
Cristianismo a fim de tomá-lo mais atraente para o público secular moderno.
O interesse em A Fé Cristã ainda não se esgotou. Novos estudos sobre essa
obra continuam a ser publicados todos os anos. São raros (ou inexistentes) os
teólogos que se consideram discípulos de Schleiermacher, mas muitos reconhe
cem que quase todas as teologias que merecem ser chamadas de “liberais” se
guem o caminho que ele abriu com essa obra.
Schleiermacher morreu de pneumonia em 12 de fevereiro de 1834. Faleceu
enquanto tomava a Santa Ceia com sua família. Como mencionamos anterior
mente, seu falecimento provocou uma grande comoção em toda a população de
Berlim. H. Steffens, que discursou no funeral, descreveu a cena:
Nunca antes se viu um funeral como este. Não foi algo preparado, mas totalmen
te inconsciente, uma demonstração natural de amor em luto, um sentimento sem
fronteiras que tomou conta de toda a cidade e a reuniu ao redor de seu túmulo;
foram horas de unidade interior como nunca antes havia se visto em uma metró
pole dos tempos modernos.7
A Reação de Schleiermacher ao Iluminismo
A teologia de Schleiermacher surgiu em grande parte como uma reação ao con
texto intelectual e cultural de seu tempo. O Iluminismo não foi uma era confortá
vel para o Cristianismo. O espírito daquela época promovia uma certa indiferença
em relação à religião,8 que, por vezes, transformava-se em completa hostilidade.
O escritor francês Voltaire, por exemplo, atacou a igreja com tanta veemência,
que chegou a ser expulso de Paris e passar algum tempo em exílio. Na Alemanha,
certos filósofos levantaram questões sérias sobre o direito da teologia de ocupar
um lugar nas universidades junto com as disciplinas “legítimas”. A Revolução
Francesa levou a uma deposição da igreja e ao engrandecimento da “Deusa da
Razão” em seu lugar.
Na esfera intelectual, o século 18 havia exaltado a razão humana, conferindo-
lhe poderes quase ilimitados de criticar as crenças tradicionais e substituí-las por
novas verdades. Como vimos anteriormente, Immanuel Kant ofereceu a expres
são máxima do poder da razão ao voltá-la sobre si mesma. De acordo com Kant,
a razão pura limita-se ao universo dos objetos da experiência sensorial, de forma
que tudo aquilo que está além dessas experiências dos sentidos simplesmente não
pode ser conhecido pela razão humana. Ao restringir a razão ao mundo das expe
riências sensoriais, Kant havia criado um problema sério para qualquer pensa
mento religioso - quer fosse a ortodoxia tradicional ou sua alternativa deísta - que
ligasse a crença à razão. A teologia de Schleiermacher foi, em parte, uma tenta
tiva de responder à crítica de Kant à religião, aceitando, ao mesmo tempo, a
limitação que ele impunha sobre a razão.
Durante o Iluminismo, a nova ciência do criticismo histórico havia levantado
questões sobre a origem da Bíblia e de outros textos de autoridade do Cristianis
mo. A crença no domínio da lei natural sobre a natureza descartava a possibilida
de de milagres e intervenções sobrenaturais ao longo da História. E o contato com
religiões de outras partes do mundo levantava questões sobre a singularidade do
Cristianismo. Seria o Cristianismo simplesmente uma forma de religião historica
mente condicionada como todas as outras religiões?
Mas a nova realidade que moldou o contexto cultural da teologia de
Schleiermacher foi o movimento do Romantismo. Os românticos eram, em parte,
produto do Iluminismo. Eles compartilhavam do mesmo medo de autoridades e
sistemas dogmáticos de crenças. Desejavam, entretanto, resgatar o sentimento
de vivacidade dentro da natureza e o poder do sentimento e da imaginação huma
n a - elementos estes que haviam se perdido no racionalismo de seus antecessores.
Foi na ênfase romântica ao sentimento que Schleiermacher encontrou a pista
para reconstruir o Cristianismo de forma que este não entrasse em conflito com o
espírito fundamental da cultura moderna.
O Método Teológico
O poeta iluminista inglês Alexander Pope expressou de maneira sucinta o espírito
da cultura moderna: “Conhece a ti mesmo, não desejes especular sobre Deus, o
objeto correto de estudo da humanidade é o próprio homem”. Mas, e se fosse
possível estudar Deus através do estudo do ser humano? E se só fosse possível
conhecer a si mesmo verdadeiramente ao conhecer a Deus e vice-versa? E se
fosse possível demonstrar que a religião em geral e, mais especificamente, o Cris
tianismo não eram antagônicos à humanidade, mas sim essenciais para que esta
alcançasse sua plenitude?
Foi exatamente isso que fez a proposta engenhosa e controversa de Schleier
macher. Ele procurou basear a teologia na experiência humana - para mostrar
que a religião está enraizada a uma experiência essencial para a verdadeira hu
manidade e é idêntica a ela.9 Também buscou reconstruir a doutrina cristã de
modo que não exaltasse a Deus às custas da humanidade, mas unisse os dois de
maneira intrínseca.
Suas tentativas constituem o terceiro grande empreendimento teológico do
período que se seguiu ao Iluminismo, juntamente com a tentativa de Kant de
basear o conhecimento de Deus na razão prática e o esforço de Hegel de basear
esse conhecimento em um novo racionalismo especulativo que observa o mover
do Espírito Absoluto através da História. A intenção de Schleiermacher era ofe
recer uma abordagem alternativa através da intuição. Ele voltou-se para o senti
mento humano universal e fundamental, o sentimento de subordinação à realidade
como um todo.
Assim como o “voltar-se para o sujeito” de Kant na filosofia, o método teoló
gico de Schleiermacher também pode ser chamado de “Revolução Copérnica”.
Da mesma forma que Copérnico sugeriu que inúmeros problemas de astronomia
podiam ser resolvidos se o Sol, e não a Terra, fosse considerado o centro do
universo, Schleiermacher sugeriu que o impasse entre o racionalismo e a ortodo
xia podia ser resolvido se a experiência humana (mais especificamente o senti
mento de dependência total ) - e não as proposições autoritárias sobre Deus -
fosse vista como a fonte da teologia.
Antes de Schleiermacher, pensava-se em teologia de duas maneiras princi
pais. A ortodoxia via essa disciplina como uma reflexão acerca das verdades
reveladas de modo sobrenatural e assim praticadas numa teologia“vinda do alto”.
A teologia do Iluminismo (deísmo), vendo a tarefa como uma reflexão sobre
pensamentos racionais acerca de Deus, acabou envolvendo-se numa teologia
“vinda de baixo” . De acordo com Schleiermacher (e teólogos liberais que vieram
depois dele), a abordagem da ortodoxia levava a uma teologia autoritária que
reprimia a criatividade humana e confundia os dogmas da igreja sobre Deus
com o próprio Deus. Foi com razão que o Iluminismo rebelou-se contra esse sis
tema. A abordagem deísta, entretanto, levou a uma teologia natural insossa e
estéril, muito pouco diferente de uma filosofia religiosa. Kant a conduzira para
uma rua sem saída.
No lugar dessas duas alternativas, Schleiermacher buscou redirecionar com
pletamente a teologia ao considerá-la a reflexão humana da experiência humana
de Deus. A verdadeira fonte da reflexão teológica deixava de ser o conjunto de
proposições autoritárias e passava a ser a experiência religiosa.
A chave para o sucesso da revolução teológica de Schleiermacher estava em
sua capacidade de estabelecer a religião como elemento fundamental para a na
tureza humana e que não podia ser reduzido a qualquer outra coisa. Nos Discur
sos ele procurou explicar a verdadeira natureza da religião, ao lançar mão tanto
do seu pietismo quanto do novo fenômeno cultural do Romantismo. Tentou mos
trar que a essência da religião encontra-se não nas provas racionais da existência
de Deus, nos dogmas revelados de modo sobrenatural ou nos rituais e formalida
des eclesiásticos, mas num “elemento fundamental, distinto e integrativo da vida e
da cultura humana”10 - o sentimento de dependência total em algo infinito que.se
manifesta nas coisas finitas e através delas.
É importante entender corretamente a forma como Schleiermacher igualou
religião a “sentimento”. O termo original em alemão, Gefühl, não tem a conotação
de uma sensação, como pode sugerir a tradução para a nossa língua, mas sim de
uma profunda percepção e consciência. Portanto, o “sentimento” encontra-se no
plano anterior à reflexão consciente - ou seja, sob o pensamento ou sensação
explícitos e antes deles. Assim, Schleiermacher argumentava que a verdadeira
essência da religião está “na consciência imediata da existência finita de todas as
coisas no infinito e através dele, na consciência de todas as coisas temporais no
eterno e através dele”.11 E ainda, “buscar e encontrar esse fator infinito e eterno
em tudo o que vive e se move, em todo o crescimento e mudança, em todas as
ações e paixões, possuir e conhecer a própria vida na forma de um sentimento
imediato - isso é religião”.12
Schleiermacher acreditava que tal sentimento religioso (que ele muitas vezes
chamava de “devoção”) é fundamental e universal dentro da experiência huma
na. Ele não pode ser reduzido a algum outro aspecto da natureza humana como a
razão ou a consciência.13 Ele argumentava que, apesar do sentimento religioso
ser totalmente distinto desses dois aspectos, é tão essencial quanto os outros para
uma compreensão plena da humanidade. A razão e a consciência dão origem à
ciência e à moralidade; a devoção dá origem à religião.
Em consequência disso, Schleiermacher desejava que a religião abrisse mão
de “apropriar-se de qualquer coisa pertencente ao domínio da ciência e da
moralidade”. 14 Mas, em troca, queria que aqueles desdenhosos instruídos reco
nhecessem a religião como sendo sui generis - algo que por direito é humano -
, não procurando mais submetê-la à ciência ou à ética. Ele afirmava que a religião
tem uma realidade própria: “A devoção apresenta-se como sendo um terceiro
elemento necessário e indispensável como a ciência, é de igual valor e não menos
provida da dignidade e excelência que atribuímos aos outros dois elementos”.15
E claro que a devoção e a religião não podem ser completamente separadas
da ciência e da moralidade. Schleiermacher declarava que tudo na cultura está
baseado, até certo ponto, na devoção, no sentido de que a cultura pressupõe al
gum tipo de unidade transcendente ou totalidade da realidade e a consciência
interior de tal unidade é idêntica à devoção.16
Schleiermacher não apenas desejava distinguir devoção e religião de ciência e
moralidade como também queria distingui-las de dogmas e sistemas de teologia. Ele
considerava estes últimos como sendo estranhos à verdadeira religião e nada
mais do que tentativas humanas de transformar a devoção em discurso.17 Argu
mentava que a religião pode existir sem os dogmas e conceitos, mas a reflexão
sobre o sentimento religioso acaba os criando, pois precisa deles.18
Após estabelecer a autonomia da religião e situá-la como uma experiência
humana universal e irredutível, Schleiermacher voltou-se para a teologia em si.
Num sentido mais amplo e geral, a teologia é simplesmente a reflexão humana
sobre a religião, ou seja, sobre a devoção. Ele não acreditava, porém, na existên
cia de uma espécie de religião genérica, pois a devoção sempre se expressa em
alguma forma concreta de vida religiosa e através de alguma comunidade religio
sa. O que Schleiermacher argumentava em seus Discursos se parece um pouco
com a visão de Aristóteles sobre forma e matéria: a devoção é a essência da
religião (forma), mas sempre se manifesta em uma determinada tradição religiosa
(matéria). Em todo caso, ele se opunha por completo à busca do Iluminismo por
uma “religião natural” separada de qualquer comunidade religiosa, teologia e forma
de adoração concretas (“Religião Positiva”).*9 Assim, a reflexão sobre a religião é
sempre a reflexão sobre algum tipo específico de vida religiosa.
Em sua grande obra de teologia sistemática, A Fé Cristã, Schleiermacher
definiu teologia como a tentativa de colocar em forma de discurso as afeições
religiosas cristãs.20 Em sua essência, o Cristianismo é uma modificação da devo
ção humâna universal, a consciência de ser completamente dependente, de estar
numa relação com Deus. A experiência cristã de consciência de Deus e consciên
cia de si próprio formada e cumprida em Jesus Cristo e através dele é a essência
do Cristianismo: “a essência distinta do Cristianismo consiste no fato de que nele
todas as emoções religiosas estão relacionadas à redenção criada por Jesus de
Nazaré”.21 Ao invés de ser uma proposta de sistematização de algum conjunto de
proposições reveladas de modo sobrenatural, a teologia cristã procura oferecer
um relato coerente da experiência religiosa dos cristãos. Tendo em vista que essa
experiência é fundamentalmente uma experiência de Deus mediado em Jesus
Cristo e através dele, todas as doutrinas devem estar centradas em torno dele e
relacionadas a ele e à sua obra redentora.22
A inovação de Schleiermacher no método teológico encontra-se no “voltar-
se para o sujeito que crê”. O assunto e o critério da teologia não são um corpo de
informações divinamente reveladas, mas sim a experiência do crente. Para ele,
isso significava que a teologia deve reexaminar continuamente as fórmulas dou
trinárias do Cristianismo, a fim de determinar sua adequação à tarefa de expres
sar a consciência cristã de Deus. Nenhuma doutrina é sacrossanta. Tudo está
sujeito à revisão. A tarefa crítica da teologia é manter a pregação da igreja e as
formulações doutrinárias em rígida concordância com a melhor análise contem
porânea possível da consciência cristã de Deus, a fim de determinar o que deve
ser retido, o que deve ser descartado por completo e o que precisa ser revisa
do.23 Na obra A Fé Cristã, Schleiermacher realizou essa tarefa crítica de modo
incisivo e tenaz.
Schleiermacher não se contentou em derrubar o que considerava formula
ções inadequadas da fé cristã. Além da tarefa crítica da teologia, há também a
tarefa construtiva. Conseqüentemente, ele também procurou substituir as formu
lações inadequadas por aquilo que, para ele, parecia ser uma expressão melhor e
mais contemporânea da devoção cristã.
Uma de suas contribuições para a teologia contemporânea é sua ênfase no
carátercultural e histórico das doutrinas. Schleiermacher acreditava que a expe
riência religiosa é primária; a teologia, por sua vez, é secundária e deve ser cons
tantemente reformada em relação aos aspectos que mudam dentro das comuni
dades cristãs. Para ele, “Toda forma doutrinária está presa a um determinado
tempo e não se pode afirmar sua validade permanente. É tarefa da teologia em
cada era presente usar a reflexão crítica para expressar de maneira nova as
implicações da consciência religiosa viva” .24
Ao mesmo tempo que o método teológico de Schleiermacher incorporou os
avanços do Iluminismo, também procurou ir além dele. Coerente com a Idade da
Razão, seu pensamento centrava-se na experiência humana, colocava de lado a
autoridade e buscava construir o conhecimento “vindo de baixo”. Ele seguiu os
passos de Kant, ao limitar o conhecimento de Deus àquilo que pode ser experi
mentado e ao evitar especulações sobre “Deus em si” ou sobre a natureza mais
profunda do universo. Mas, enquanto o Iluminismo desejava restringir a religião
exclusivamente aos limites da razão, Schleiermacher a restringia exclusivamente
aos limites da devoção. Seu método teológico fazia uso do movimento romântico
em sua ênfase no sentimento e no conhecimento intuitivo, evitando, ao mesmo
tempo, o subjetivismo e irracionalidade do Romantismo. Acima de tudo,
Schleiermacher rompeu com o Iluminismo de maneira decisiva ao insistir na singu
laridade da religião como um elemento irredutível da experiência humana e da sin
gularidade de Jesus Cristo como a mais elevada expressão da consciência de Deus.
Inovações Doutrinárias
Apesar das reconstruções específicas das doutrinas cristãs realizadas por
Schleiermacher não serem tão importantes para a teologia contemporânea quanto
é o seu método, muitas delas ilustram o efeito que seu ponto de partida poderia ter
nas crenças do Cristianismo. Suas reformulações também influenciaram muitos
dos desenvolvimentos posteriores da teologia liberal.
A Bíblia desempenhava um papel importante, porém não central na teologia
de Schleiermacher. A doutrina cristã não deve ser extraída primeira e exclusiva
mente da Bíblia. Pelo contrário, ele escreveu que todas as doutrinas “devem ser
tiradas da consciência própria da religião cristã, ou seja, da experiência interior do
povo cristão”.25 A Bíblia é especial no sentido de que constitui um registro das
experiências religiosas das comunidades cristãs primitivas. A autoridade das Es
crituras, porém, não é absoluta. Na verdade, elas servem como modelo para todas
as tentativas dos cristãos de interpretar o significado de Jesus Cristo dentro de
circunstâncias históricas específicas.26
Fica claro que Schleiermacher não considerava a Bíblia infalível ou escrita sob
inspiração sobrenatural. Nela, ele encontrou passagens e até mesmo livros inteiros
que aparentemente contradiziam a verdadeira devoção cristã.27 Para ele, todo o
Antigo Testamento parecia carecer da dignidade normativa encontrada no Novo
Testamento.28 Além disso, ele não acreditava que a Bíblia podia ou devia ser con
siderada absolutamente singular. A influência que o Espírito Santo havia exercido
em sua elaboração devia ser vista apenas como um grau e não um tipo diferente de
influência, tendo em vista outras situações em que o Espírito também havia atuado.
Para ele, a Bíblia tem uma autoridade relativa sobre a teologia cristã na medi
da e nas passagens em que mostra um modelo puro da consciência cristã de
Deus. Porém, é essa consciência do povo cristão - e não a Bíblia em si - que deve
servir de critério absoluto da verdade para a teologia.
Deus
A reconstrução de Schleiermacher da doutrina acerca de Deus é uma de suas
contribuições mais controversas. Ela foi determinada pela consciência cristã de
Deus que o povo devoto possui, seu sentimento de dependência total de Deus. De
acordo com Schleiermacher, os atributos de Deus não devem ser vistos como
uma descrição literal de Deus. “Descrever” significa limitar e dividir, diminuindo,
assim, o caráter infinito de Deus e deixando implícito que Deus depende do mun
do. No lugar dessa visão tradicional, ele ofereceu aquilo que se tomou uma for
mulação clássica: “Todos os atributos que damos a Deus devem ser compreendi
dos não como uma descrição de algo especial em Deus, mas apenas como algo
especial na maneira como o sentimento de dependência absoluta está relacionado
a Ele”.29 Em outras palavras, falar de Deus é sempre falar da experiência huma
na com Deus. Tal afirmação não descreve Deus em si, mas um certo modo de se
experimentar a Deus.
Sua visão do que é falar sobre Deus deixa ainda mais claro por que, para
Schleiermacher, o teste ou critério para determinar os atributos apropriados de
Deus é o sentimento de total dependência.30 Ao tratar das implicações dessa
experiência, ele concluiu que Deus é a realidade que determina todo o resto, é a
causa absoluta de tudo - tanto o que é bom quanto o que é mau; é o que realiza as
ações mas não está sujeito a elas.
A compreensão reformulada de Deus oferecida por Schleiermacher apresen
ta sérios problemas para o pensamento cristão tradicional. Um exemplo é a infle
xibilidade do teólogo alemão em sua posição ao atribuir o mal à causalidade de
Deus. O fato de Deus ser autor do pecado e do mal é necessário para a depen
dência de suas criaturas. Se elas estivessem sujeitas a qualquer outro poder que
não o de Deus, então sua onipotência seria limitada. Schleiermacher sugeriu que
o pecado é ordenado por Deus como aquilo que torna necessária a redenção.31
Além disso, Schleiermacher rejeitava completamente a realidade dos mila
gres. Acreditar em milagres é negar que tudo o que acontece é ordenado e
causado por Deus. O sentimento de dependência absoluta requer que toda a
natureza, em suas partes e em seu todo, seja governada, ordenada e causada
por Deus. Os milagres como atos especiais que anulam a ordem natural seriam
uma contradição.32
Schleiermacher também negava a eficácia da oração intercessora. Pedir a
Deus para mudar o curso dos acontecimentos implica que esse curso é, de algu
ma forma, independente de Deus e que Deus é, de alguma forma, dependente da
pessoa que está orando. É claro que, apesar das orações não mudarem nada, o
fato de as pessoas orarem e de suas preces aparentemente serem respondidas é
“apenas parte do plano original divino. Portanto, não faz nenhum sentido a idéia de
que se a oração não tivesse sido feita talvez outra coisa teria acontecido”.33
A esta altura, já deve estar claro que Schleiermacher considerava toda a idéia
de sobrenatural como algo perigoso. Para ele, essa noção era conflitante com
uma consciência cristã correta de Deus. O sobrenatural significa um posi
cionamento de Deus além do mundo e sobre ele e também que Deus e a criação
relacionam-se um com o outro através de uma certa independência. A devoção
cristã, por outro lado, vê Deus como o poder absoluto infinito, do qual depende tudo
aquilo que é finito. Esse poder, por sua vez, não depende de nada nem de ninguém.
Ao eliminar o sobrenatural, Schleiermacher encontrou uma solução convenien
te para um problema premente do Cristianismo na era da ciência:
No todo, portanto, quanto aos milagres, o interesse geral da ciência - mais espe
cificamente da ciência natural - e o interesse da religião parecem convergir no
mesmo ponto: de que devemos abandonar a idéia da existência de algo absoluta
mente sobrenatural, pois, em ocasião alguma, esse elemento pode tornar-se co
nhecido para nós e em lugar nenhum é exigido que o reconheçamos.34
Assim, dentro desse princípio, não há como a ciência e o Cristianismo entra
rem em conflito. A ciência trata apenas das diversas causas, enquanto a religião
trata de uma causa maior.
Por fim, Schleiermacher considerava problemática a doutrina da Trindade.
Ele dedicou a ela apenas uma breve conclusão no final de seu livro A Fé Cristã,
declarando friamente que “não é uma afirmação que diz respeito à consciênciareligiosa” .35 Ele não negou explicitamente a doutrina, mas considerou sua formu
lação histórica tão frágil e cheia de contradições, que a considerou praticamente
inútil para a teologia cristã.
A forma como Schleiermacher delineou o ser de Deus e sua transcendência
criou um foco de muita controvérsia. Alguns o acusaram erroneamente de
panteísmo, uma crítica que não encontra fundamentos em sua obra A Fé Cristã.
Apesar de não ser panteísmo puro, há um consenso geral de que sua doutrina
possui características panenteístas sendo, portanto, o protótipo para grande par
te do pensamento liberal que se seguiu. Schleiermacher recusava-se a separar
Deus do mundo ou o mundo de Deus. Deus é pessoal, mas não no sentido
antropomórfico. Deus não deve ser visto como um grande ser com característi
cas humanas que governa o mundo de algum lugar distante. Mais importante
ainda, Deus não deve ser tratado como um objeto de qualquer espécie, pois, ao
fazê-lo, estamos limitando-o e tornando-o finito. Para Schleiermacher, Deus é o
poder imanente em tudo, o absoluto, que tudo determina, que vai além do pessoal,
poder imanente que está em tudo mas além de todas as distinções que o caráter
de criatura impõe sobre a existência.
Cristologia
E quanto a Jesus Cristo? Schleiermacher rejeitava a doutrina tradicional da
Encarnação, substituindo-a por uma cristologia baseada na experiência da cons
ciência de Deus. Ele criticava a doutrina clássica das duas naturezas de Jesus
(humana e divina) como sendo ilógica. Duas “naturezas” não podem coincidir
em um único indivíduo.36 No lugar dessa doutrina, Schleiermacher introduziu o
conceito de dois aspectos de Jesus: Urbildlichkeit e Vorbildlichkeit — seu cará
ter ideal e sua capacidade de reproduzir esse caráter em outros.37 Jesus Cristo é
completamente igual ao resto da humanidade, exceto pelo fato de que, “desde o
início, ele possuía uma absoluta e poderosa consciência de Deus”. 38 Sua cons
ciência de Deus não era produto apenas da humanidade; era resultante da ativi
dade de Deus em sua vida. Era, porém, uma consciência completamente huma
na de Deus. A partir do seu nascimento, ele viveu no conhecimento pleno de sua
dependência de Deus. Na descrição de Schleiermacher, “o Redentor é, portanto,
como todos os homens em virtude e identidade com a natureza humana, mas
distinto deles pelo poder constante de Sua consciência de Deus, que era a autên
tica existência de Deus dentro Dele”.39
De acordo com Schleiermacher, essa consciência ideal de Deus que Jesus
possuía é suficiente para expressar o que o cristão chama de sua “divindade” . É
seu Urbildlichkeit - o fato de ele ser o ideal da consciência humana de Deus,
sua completa e perfeita devoção. A obra redentora de Jesus é seu Vorbildlichkeit
- “O Redentor traz o crente para dentro do poder de Sua consciência de Deus e
essa é sua atividade redentora”.40
Schleiermacher não deixou dúvidas acerca de sua atitude em relação à lin
guagem tradicional sobre Jesus como Deus, ao defender a prática que ele consi
derava freqüente no Novo Testamento de conferir a Jesus apenas atributos que o
retratassem como uma forma elevada de humanidade.41
Avaliação
Mesmo durante sua vida, as reformulações teológicas de Schleiermacher criaram
controvérsia. Alguns de seus contemporâneos o acusaram de panteísmo e até
mesmo de ateísmo! Um de seus críticos criou um jogo de palavras maldoso com
o seu nome, que em alemão significa “fazedor de véus” :
Der nackten Wahrheit Schleier machen,
Ist kluger Theologen Amt,
Und Schleiermacher sind bei so bewandten Sachen
Die meister der Dogmatik insgesamt.
(Fazer véus para a verdade nua
é trabalho para teólogos perspicazes;
todos os mestres dogmáticos são ‘Schleiermachers’) 42
Durante o século 20, a controvérsia concentrou-se principalmente no método
teológico de Schleiermacher. Um de seus grandes opositores foi Karl Barth, que
o acusou de tentar falar de Deus, falando com grandiloqüência sobre a humanida
de. Em outras palavras, Barth acusou seu antecessor de praticar uma teologia
radicalmente antropocêntrica e de começar um processo que levou alguns teólo
gos da metade do século 20 a declarar que Deus estava morto.43
Muitas das críticas de Barth são pertinentes. E possível alguém determinar
que algo puramente humano é a fonte e o referencial da verdade teológica? De
que forma se pode, então, impedir que a antropologia controle o conteúdo da
mensagem? Como permitir que a Palavra de Deus fale a uma cultura de maneira
profética? Ao recusar-se a reconhecer que Deus talvez quisesse falar ou fazer
alguma coisa que não podia ser prevista pela experiência humana, Schleiermacher
inaugurou uma tendência dentro do pensamento cristão moderno que acabou le
vando à perda da transcendência.
Os pontos fracos do método teológico de Schleiermacher têm sérias conseqüên
cias sobre a sua doutrina acerca de Deus. O “sentimento de absoluta dependên
cia” torna-se facilmente uma categoria inflexível, dentro da qual o conceito cristão
de Deus é forçado a se encaixar. Aquilo que não está em conformidade deve ser
descartado - mesmo que seja crucial para o testemunho das Escrituras e para a
história do pensamento cristão. Apesar da acusação de panteísmo ser infundada,
a doutrina de Schleiermacher padece de uma ênfase excessiva na imanência.
Quando o mal e o sofrimento são considerados parte da atividade de Deus tanto
quanto a redenção, essa atividade torna-se praticamente idêntica à natureza.
Além disso, não fica claro se Deus existe sobre o mundo e além dele.44 A
doutrina de Deus defendida por Schleiermacher pode ser melhor descrita como
panenteísta, no sentido de que relaciona Deus e o mundo, tomando-os inseparáveis.
Como em todo sistema panenteísta, a visão de Schleiermacher do relacionamen
to entre Deus e o mundo cria vários problemas sérios para a doutrina da graça.
Como pode a redenção que Deus oferece ao mundo ser feita através da graça,
se essa redenção não é absolutamente livre? A ênfase de Schleiermacher sobre
a imanência de Deus cria uma tensão direta com sua ênfase no caráter absoluto
de Deus, sendo seu resultado final a inevitável perda de um relacionamento pes
soal. Um relacionamento verdadeiro com Deus torna-se impossível, pois envol
veria uma reciprocidade de ações e reações. Contrário a isso, o Deus de
Schleiermacher parece estranhamente frio e distante: “Se, por exemplo, fosse
possível comunicar à natureza divina qualquer coisa humana, como a capacidade
para o sofrimento, não restaria dentro dessa comunicação espaço para qualquer
coisa divina” .45
Talvez, para o cristão contemporâneo, esse seja o tendão de Aquiles da
doutrina de Schleiermacher acerca de Deus. Os horrores do século 20 levaram
a uma valorização inédita da linguagem bíblica sobre a identificação de Deus
com o sofrimento em seu próprio “pathos” . De que serve ao cristão de hoje um
Deus que não tem compaixão e não é interiormente afetado pelo sofrimento
humano?
Schleiermacher lutou com valentia para encontrar dentro de seu sistema al
gum espaço para a singularidade de Jesus Cristo. No fim das contas, não conse
guiu fazer nada além de afirmar a existência desse espaço. Seu relato da “divin
dade” de Jesus o manteve num nível humano, diferente do resto da humanidade
talvez apenas em grau, porém não em espécie. Em seu protótipo, conhecido nos
dias de hoje como “cristologia funcional”, a divindade de Jesus não faz parte da
essência de seu ser, mas é uma atividade de Deus dentro dele - apenas uma
atitude em relação a Deus e aos outros seres humanos. A grande falha nisso, é
claro, encontra-se no fato de que as cristologias funcionais não conseguem expli
car o caráter supremo e absoluto de Jesus como expressão do próprio Deus. Se,
do ponto de vista ontológico (no que diz respeito à sua natureza), Jesus não passa
de um ser humano, por que, então, não pode haver outro igual a ele ou ainda maior
do que ele? Se existe algo de específico na consciência cristã, é justamente a
consciênciade que Jesus é Senhor, um conceito muito mal expressado numa
cristologia meramente funcional.
Conclusão
A grandeza de Schleiermacher como teólogo é inegável. Bem ou mal, sua influên
cia permeia toda a teologia contemporânea. Ela evidencia-se de forma especial
nas escolas teológicas chamadas de “liberais” que começaram a dominar o pen
samento protestante a partir do final do século 19. Voltamo-nos, agora, para o
maior proponente dessa teologia.
AIBRECHT RITSCHL E A TEOLOGIA LIBERAL CLÁSSICA:
A I m a n ê n c ia d e D e u s n a Cu l t u r a É t ic a
É notória a dificuldade em se definir a teologia liberal. No uso popular e nos
meios de comunicação de massa, o termo com freqüência refere-se às teologias
que negam crenças tradicionais como a inspiração da Bíblia ou a concepção vir
ginal. Seu sentido popular e genérico é, no mínimo, impreciso e relativo à posição
teológica do interlocutor, que pode considerar “liberal” qualquer um que se posicione
à sua “esquerda” .
Do ponto de vista histórico, porém, o “liberalismo” refere-se a um movimento
específico do protestantismo que dominou a teologia acadêmica entre o final do
século 19« o começo do século 20. Ele surgiu primeiramente na Alemanha entre
alunos e seguidores de Schleiermacher e Hegel, e encontrou sua forma de maior
influência na escola de Albrecht Ritschl.
Os termos “Ritschliano” e “protestante liberal clássico” são quase sinônimos. É
claro que o liberalismo clássico também foi um fenômeno à parte. É impossível
apresentar uma lista completa de características que descrevam apropriadamente
cada teólogo liberal daquela era. Por isso, a melhor maneira de definir a teologia
liberal clássica é estudá-la historicamente - através de seus pensadores mais repre
sentativos. Há três pensadores que se destacam como os mais representativos da
essência da teologia liberal do final do século 19 e início do século 20: Albrecht
Ritschl, Adolf Hamack e Walter Rauschenbusch. Sem negligenciar os outros, con
centraremos nossa atenção sobre Ritschl. Hamack e Rauschenbusch, com toda a
sua criatividade individual, são melhor compreendidos como seus discípulos, sendo
dois pensadores que deram novos rumos aos seus preceitos liberais.
A Teologia Liberal Clássica
Antes de discutir os três pensadores específicos, pode ser de grande ajuda ofere
cermos uma breve descrição de algumas características comuns do movimento
chamado de teologia liberal clássica. Que características esses teólogos compar
tilhavam e o que os englobaram em um movimento coeso?
Assim como Schleiermacher, os liberais estavam decididos a reconstruir a fé
cristã à luz do conhecimento moderno. Acreditavam que certos desenvolvimentos
culturais desde o Iluminismo simplesmente não podiam ser ignorados pela teologia
cristã, mas precisavam ser assimilados de modo positivo. A teologia cristã preci
sava adaptar-se à nova mentalidade científica e filosófica sem se perder. Assim,
a teologia liberal caracterizou-se, nas palavras de Claude Welch “pelo reconheci
mento máximo das afirmações do pensamento moderno”.1
Uma segunda característica da teologia liberal era sua ênfase na liberdade
que o pensador cristão possuía, como indivíduo, de criticar e reconstmir crenças
tradicionais. Isso implicava uma rejeição da autoridade da tradição ou da hierar
quia da igreja e do controle exercido por elas sobre a teologia. É claro que nem
todos os teólogos liberais eram rebeldes. Aliás, a maioria deles possuía uma pro
funda compreensão da natureza comunal da verdade cristã. Ainda assim, esta
vam resolvidos a exercer o direito de romper com as crenças tradicionais quando
isso parecia correto e necessário.
Em terceiro lugar, a teologia liberal concentrava-se na dimensão prática ou
ética do Cristianismo. Ritschl e seus seguidores tinham a tendência de evitar aqui
lo que consideravam especulação vazia e tentavam moralizar a doutrina centrando
todo o discurso teológico em torno do conceito do reino de Deus.
Em quarto lugar, a maioria dos teólogos liberais procurava basear a teologia
em alguma outra fundação que não fosse a autoridade absoluta da Bíblia. Acre
ditavam que o dogma tradicional da inspiração sobrenatural das Escrituras havia
sido irremediavelmente enfraquecido pela pesquisa histórico-crítica. Não apenas
as tradições da igreja, mas também grande parte da própria Bíblia são como a
"‘palha do milho”, que esconde dentro de si os “grãos” preciosos da verdade imu
tável. Os liberais não desprezavam a Bíblia e nem a consideravam completamen
te sem valor. Na verdade, procuravam dentro dela o “evangelho” - o cerne e
referencial eterno da verdade que não podia ser corroído pelos ácidos do conhe
cimento científico e filosófico moderno. Para eles, a tarefa da teologia era identi
ficar o grão, a “essência do Cristianismo”, e separar claramente toda a palha de
idéias culturais e expressões que o envolviam. Para muitos teólogos liberais, essa
palha incluía os milagres, os seres sobrenaturais como anjos e demônios e os
acontecimentos apocalípticos.
O elemento final, que era talvez o fundamento inconsciente de todas as outras
características, era o movimento contínuo da teologia liberal em direção à imanência
divina às custas da transcendência. Esse movimento iniciado pelo Iluminismo con
tinuou durante a época dos grandes pensadores alemães do início do século 19. É
claro que Ritschl e outros teólogos liberais não buscavam intencionalmente a dis
solução da transcendência de Deus em favor da imanência - essa ênfase à
imanência faz mais parte do legado de Ritschl do que dos seus objetivos. Mas sua
ênfase no reino de Deus como uma sociedade histórica e ética de amor tendia, de
fato, a elevar a ligação e não o rompimento entre Deus e a humanidade, manten
do, assim, a visão do Iluminismo. Antes do Iluminismo, os teólogos enfatizavam a
disjunção entre aquilo que era radicalmente sagrado - o Deus transcendente - e
os seres humanos finitos e pecadores, e viam a Encarnação como o acontecimen
to dramático em que Deus havia criado uma ponte sobre esse abismo. Ao contrá
rio deles, começando no Iluminismo e encontrando seu ápice no liberalismo, os
teólogos passaram a construir seus pensamentos sobre a ligação entre o divino e
o humano manifesta, por exemplo, nás capacidades racionais, intuitivas ou mo
rais. Em decorrência disso, Jesus era visto como um ser humano exemplar e não
como o Cristo interventor.
O conjunto de valores do movimento liberal foi captado por um de seus
principais estudiosos, que afirma que todos aqueles que aderiram a esse movi
mento “teriam concordado com a necessidade de se dar força e atualidade
renovada ao Cristianismo protestante, adaptando-o às necessidades do homem
moderno, mesmo que fosse preciso descartar muito daquilo que antes havia sido
aceito sem questionamento” .2
A Vida e a Carreira de Albrecht Ritschl
Albrecht Ritschl foi uma figura-chave para a teologia liberal do final do século 19.
Apesar de não poder ser comparado a Schleiermacher em termos de originalida
de, criatividade ou influência duradoura, ele exerceu uma influência tão grande
entre 1875 e 1925 que o ritschlianismo tornou-se praticamente sinônimo do pro
testantismo liberal. Assim, enquanto Schleiermacher fundou uma época da teolo
gia, mas não uma escola, Ritschl fundou uma escola, mas não uma época.
Albrecht Ritschl nasceu em 1822 na família de um bispo da igreja protestante
prussiana. Quando criança, interessava-se pela música e logo cedo em sua juven
tude mostrou grande capacidade intelectual. O jovem Ritschl começou seus estu
dos teológicos em Bonn e continuou-os em Tübingen e Halle, acabando por voltar
para Bonn, a fim de concluir seu preparo acadêmico. Durante sua formação uni
versitária, foi influenciado por Schleiermacher, Kant e F. C. Baur, um estudioso
hegeliano do Novo Testamento.
Ritschl recebeu seu primeiro cargo de professor em Bonn em 1846. Em 1864,
mudou-se para Gõttingen, onde permaneceu até falecer, em 1889. Durante seusvinte e cinco anos ensinando em Gõttingen, ele desenvolveu a reputação de prin
cipal teólogo da Alemanha. Toda uma geração de pastores e professores protes
tantes foi profundamente influenciada por suas palestras e escritos.
Apesar de ter publicado muitos artigos e livros, a obra mais importante de Ritschl
foi um tratado de três volumes intitulado A Doutrina Cristã da Justificação e Re
conciliação, lançado em etapas entre 1870 e 1874. Seu tradutor para o inglês, o teó
logo escocês H. R. Mackintosh, comentou sobre ela: “Depois que Schleiermacher
publicou sua obra Christliche Glaube [A Fé Cristã], em 1821, nenhum tratado
dogmático deixou marcas tão profundas no pensamento na Alemanha e por todo o
mundo como este” .3
O Método Teológico de Ritschl
Assim como no caso de Schleiermacher, muita da importância de Ritschl para a
teologia moderna encontra-se em sua abordagem da teologia e não nas suas pro
postas doutrinárias específicas. No final do século 19, o Cristianismo parecia es
tar perdendo cada vez mais terreno para as ciências seculares. A teologia cristã
tradicional estava sitiada por forças como o materialismo e o positivismo.
Ritschl acreditava que o conflito entre a teologia e a ciência surgia por não se
distinguir adequadamente entre o que era conhecimento “científico” e “religioso” .
Ele afirmava que o conhecimento científico busca a objetividade teórica pura, é a
desinteressada cognição das coisas em si. Esse conhecimento procura compre
ender a natureza interna da realidade de um ponto de vista neutro. O conhecimen
to religioso, por outro lado, consiste no julgamento de valores relativos à realida
de. Ele interpreta a realidade em termos do valor que as coisas têm para a reali
zação plena do conhecedor. O conhecimento religioso está ligado ao valor das
coisas para atingir o bem maior do indivíduo. Uma outra forma de descrever essa
distinção é dizer que, para Ritschl, o conhecimento científico só pode ser sobre a
forma como as coisas são, enquanto o conhecimento religioso é sempre também
sobre a forma como as coisas deveriam ser. Esses julgamentos não podem e nem
devem ser desinteressados ou neutros.4
De acordo com Ritschl, os conflitos entre as disciplinas científicas acadêmi
cas seculares e a religião surgem apenas quando não se observa essa distinção
entre o conhecimento teórico e o conhecimento religioso. Para ele, “toda cognição
do tipo religioso é um julgamento direto de valores”. Em decorrência disso, pode
mos conhecer a natureza de Deus e sua essência divina somente quando “deter
minamos o seu valor para nossa salvação”.5
Ao contrário do ponto de vista de Ritschl, a teologia cristã tradicional normal
mente incorporava algumas discussões sobre os elementos da metafísica. E o
caso, por exemplo, dos teólogos que empregavam a prova da existência de Deus
para estabelecer bases racionais para a fé cristã e, com freqüência, tentavam
descrever a natureza do próprio Deus.
Ritschl rejeitava veementemente qualquer dependência da teologia em rela
ção à metafísica. Para ele, essa abordagem era uma fusão ilegítima de conheci
mento científico e religioso.6 Argumentava que as provas filosóficas da existência
de Deus pertencem à esfera do conhecimento científico, pois tratam Deus como
um objeto de interesse teórico, enquanto o verdadeiro conhecimento religioso acer
ca de Deus jamais pode tratá-lo como um objeto, como uma simples parte dos
elementos do mundo. A teologia só está interessada em Deus à medida que ele
afeta moralmente a vida das pessoas, ajudando-as a alcançar o bem maior.
Mas o que é o bem maior da humanidade? Para Ritschl, o Cristianismo é a
comunidade formada pelas pessoas que, coletivamente, julgam que o bem maior
da humanidade encontra-se no reino de Deus revelado em Jesus Cristo. Não é
possível e nem desejável que haja provas teóricas desse julgamento, mas sua
afirmação também não é produto de um “passo de fé” subjetivo. Na verdade,
essa asserção encontra-se enraizada na experiência coletiva dos cristãos ao lon
go dos séculos. E sua verdade é sustentada pela investigação histórica do singular
chamado e atuação de Jesus de Nazaré, em quem os seres humanos vêem reali
zado com perfeição o seu mais alto ideal.
De acordo com Ritschl, a teologia é a investigação da experiência coletiva
moral e religiosa do reino de Deus na igreja. Ela é edificada e centrada na avalia
ção que a comunidade cristã faz do reino de Deus revelado em Jesus Cristo como
o bem maior da humanidade. A teologia busca construir um sistema de julgamen
to baseado exclusivamente no impacto de Deus sobre a vida dos cristãos e no
valor desse impacto para o bem maior. Com essa finalidade, usa a pesquisa histó
rica da consciência que Jesus possuía de si mesmo e o impacto que sua pregação
original a respeito do reino de Deus teve sobre os primeiros cristãos. Ritschl afirma
va que tal pesquisa histórica evitaria que os julgamentos teológicos se tornassem
apenas divagações subjetivas e daria a eles seu próprio caráter científico.
Em resumo, para Ritschl, a teologia procura determinar a verdadeira essência
do Cristianismo como algo distinto de suas formas e expressões externas. Além
disso, busca também representar todas as doutrinas dentro de um relacionamento
sistemático em que a essência é a força controladora.7
Qual é a fonte e a norma da teologia? De acordo com Ritschl, não é a Bíblia
como um todo, mas o “conjunto de idéias apostólicas” determinado através de
uma sólida pesquisa histórica.8 Ritschl estava certo de que tal pesquisa poderia
demonstrar que o reino de Deus é a essência do Cristianismo - o grão dentro da
palha - e o centro do conjunto de idéias apostólicas.
O método teológico de Ritschl tem uma afinidade impressionante com a filo
sofia de Kant. O contato de Ritschl com Kant deu-se através de Hermann Lotze,
um filósofo em Gõttingen que procurou aprimorar o ceticismo de Kant e, ao mes
mo tempo, manter sua epistemologia básica. Apesar de haver muita controvérsia
acerca da influência de Kant e Lotze sobre Ritschl, uma coisa pode-se dizer com
certeza: Ritschl seguiu Kant ao procurar eliminar a metafísica de dentro da teolo
gia e aproximar ao máximo a religião da ética. Ele rejeitou todas as especulações
sobre a natureza de Deus em si, isoladas de seu impacto sobre os seres humanos
(apesar de, nesse caso, ter apelado mais para Lutero do que para Kant). Porém,
Ritschl diferiu de Kant ao declarar que Deus é conhecido de fato através de
seus feitos. Além disso, ele não aceitava a separação que Kant fazia entre as
esferas do “fenomenal” e o “nomenal”. Reagindo a Kant, Ritschl apoiou-se forte
mente em Lotze quanto à idéia de que algo (nesse caso, Deus) está presente e
manifesta-se em seus feitos (nesse caso, na revelação e salvação).9
Deus e o Reino de Deus
A doutrina acerca de Deus apresentada por Ritschl foi profundamente afetada
por sua metodologia teológica. A primeira e mais forte evidência disso é que ele
tinha muito pouco a dizer sobre Deus em si. Ele afirmava que a teologia cristã só
está interessada no impacto que Deus tem sobre as pessoas e no julgamento
apropriado desse impacto.
Ritschl também não falou muito sobre a Trindade, por exemplo, pois a via
como uma doutrina sobre o ser interior de Deus, estando acima e além da relação
de Deus com o mundo, sendo, portanto, uma doutrina impossível de se articular
em termos de julgamento de valores. Assim, ele também não via nenhum papel
positivo para os atributos metafísicos tradicionais de Deus como a onipotência, a
onisciência e a onipresença. Apesar de não negá-los explicitamente, parecia dis
pensar os atributos, considerando-os parte da esfera do conhecimento teórico e
não religioso. Para Ritschl, a principal afirmação teológica do Cristianismo é “Deus
é amor”.10 A essa declaração, ele acrescentava que a fé cristã requer que Deus
seja pessoal e transcendente ou “além do mundo”.11
Ritschl estava muito mais interessado no reino de Deus do que no próprioDeus. Jesus havia proclamado o reino de Deus, que, de acordo com Ritschl, é a
unidade dos seres humanos organizados de acordo com o amor.12 A fé cristã
apropria-se desse reino revelado em Jesus como sendo o bem maior da humani
dade. A fé, portanto, conhece o Deus proclamado por Jesus como sendo amor.
Fora isso, ela não tem nenhum interesse no “ser de Deus”.
Para Ritschl, o reino de Deus não é apenas o bem maior e o mais alto ideal da
humanidade, é também o bem maior e o mais alto ideal de Deus.13 Talvez esse
seja o aspecto que mais chame a atenção na doutrina de Ritschl acerca de Deus.
Para ele, a finalidade própria de Deus, sua razão de ser, por assim dizer, é mesma
que a nossa - o reino de Deus.
Apesar de reconhecer a transcendência de Deus, essa identificação do ser
de Deus com o desenvolvimento de seu reino no mundo leva a teologia de Ritschl
para a direção da imanência. Certamente, teólogos liberais que vieram depois
dele chegaram a essa conclusão e, no geral, a ênfase da doutrina do liberalismo
acerca de Deus estava na imanência dentro da História e não na transcendência
sobre ela.
Pecado e Salvação
Para Ritschl, o reino de Deus também é o significado interior das doutrinas do
pecado e da salvação. Tendo em vista que o reino de Deus é considerado pelos
cristãos como o bem maior, a teologia deve entender como pecado aquilo que se
opõe a esse reino.14 A visão de que o pecado é, antes de mais nada, um ato
intencionalmente errado torna esse conceito trivial. O pecado também não é uma
disposição inerente para o mal, já que essa visão remove o elemento da respon
sabilidade. No lugar da doutrina tradicional do pecado, Ritschl propôs a existên
cia de um “reino de pecado”, “uma teia de ações e reações pecaminosas que
surge a partir da inclinação egoísta de todo homem e aumenta ainda mais essa
tendência” .15 O pecado é, antes de mais nada, egoísmo. Seu caráter essencial
está na contradição do ideal humano de unidade centrado em tomo do amor, que
é o reino de Deus. Porém, esse pecado não é herdado. Ele é universal, mas não
existe outra explicação para sua universalidade além do fato de que todos os
indivíduos pecam.
Ao longo dos escritos teológicos de Ritschl, o reino de Deus parece ter dois
enfoques - um religioso e outro ético. O enfoque religioso é a justificação, o mo
mento da salvação em que Deus declara que o pecador foi perdoado. O enfoque
ético encontra-se na asserção de que Deus chama os homens e mulheres recon
ciliados a cumprir o ideal do amor para com o seu próximo. Para Ritschl, a “salva
ção” deve incluir esses dois enfoques.
É em suas doutrinas sobre o pecado e a salvação que fica mais evidente o
aspecto “terreno” da teologia de Ritschl. Ele acreditava que a salvação não é, em
primeiro lugar, uma questão de se atingir um estado abençoado no pós-vida -
apesar de jamais haver negado esse estado. A salvação é, antes de mais nada, o
pleno frutificar do reino de Deus na terra. Em conseqüência disso, o Cristianismo
não é uma religião de outro mundo, mas sim a religião de um mundo em transfor
mação através da atuação ética inspirada pelo amor.
Cristologia
Talvez o aspecto mais controverso da teologia de Ritschl seja a sua cristologia.
Mais uma vez, o reino de Deus é o centro controlador de sua doutrina, sendo que
Ritschl o utilizou como substituto dos aspectos da doutrina tradicional que ele
considerava especulativos e metafísicos.
A cristologia clássica, de acordo com o Credo de Calcedônia (451 d.C.), afirma
que Jesus Cristo foi a única pessoa a ter duas naturezas distintas - a humana e a
divina. Sua natureza divina consiste em sua “divindade”. Ritschl rejeitava firmemen
te essa formulação tradicional sobre a divindade de Jesus, afirmando que ela era
científica e não religiosa.16 Ele argumentava que essa formulação não é um julga
mento sobre o valor de Jesus, mas uma asserção desinteressada acerca de algo que
Jesus supostamente já possuía antes de qualquer impacto que ele teve sobre as
pessoas e independente disso. De acordo com ele, a verdadeira avaliação de Jesus
está interessada em sua conduta histórica, em suas convicções religiosas e em seus
motivos éticos e não em suas supostas qualidades inatas ou em seus poderes, “pois é
através das primeiras características mencionadas e não destas últimas é que ele
exerce uma influência sobre nós”.17 Assim, Ritschl argumentava que a afirmação da
divindade de Jesus é um julgamento que os cristãos fazem tomando por base o valor
de sua vida ao efetuar a salvação. Pelo fato de ter se transformado no portador único
do reino de Deus, ele é visto pelos cristãos como tendo o mesmo valor que Deus.
Ritschl ressentia-se com a acusação de que havia reduzido Jesus Cristo a “um
simples homem”. Ele gastou muitas páginas prevendo essas críticas e defendendo-
se delas. Ritschl interpretava a divindade de Jesus como a “vocação” singular dada
a ele por Deus, seu Pai, para que fosse a incorporação perfeita do reino de Deus
entre os homens - uma vocação que Jesus cumpriu com perfeição. Por ter tomado
essa tarefa e cumprido essa vocação exclusiva com perfeição, sua pessoa tomou-se
a influência histórica que possibilita a realização do bem maior de Deus e da huma
nidade. Assim, os cristãos confessam que Jesus é “Deus”, pois esse é o julgamento
de seu valor baseado no impacto de sua vida para Deus e para a humanidade.18
Ritschl recusava-se a discutir a origem da singularidade do caráter do “Reina
do Profético” de Jesus. Ele afirmava que esse tipo de investigação só acabaria
levando a especulações metafísicas e afastando a questão para longe da esfera
do julgamento de valores. Porém, ele não se conteve e discutiu o conceito da
preexistência de Cristo. Foi nessa discussão, mais obviamente do que em qual
quer outro ponto, que ele caiu em contradição ao permitir que um elemento
metafísico influenciasse seu pensamento. Ao que parece, ele simplesmente não
pôde se contentar com a conclusão de que aquilo que Jesus realizou foi resultado
de seu próprio esforço e iniciativa. Seu feito, pelo contrário, tinha uma fonte eter
na encontrada na mente e na vontade de Deus:
... como Fundador e Senhor do Reino de Deus, Cristo é objeto do conhecimento
eterno e da vontade de Deus tanto quanto o é a unificação moral da humanidade,
que se fez possível através Dele e da qual Ele é protótipo; ou ainda, que, não
apenas no tempo, mas também na eternidade do conhecimento e na vontade
Divina, Cristo precedeu Sua comunidade.19
Em outras palavras, para Ritschl, Cristo já existia apenas no sentido de que
suas obras são eternamente conhecidas por Deus e fazem parte da vontade do
Pai. Essa afirmação da preexistência ideal de Cristo parece transgredir descara
damente os limites estabelecidos pelo próprio Ritschl para a teologia. Ela introduz
um elemento da metafísica ou da ontologia que não pode ser apoiado apenas pela
pesquisa histórica do valor de Cristo para a humanidade. Essa afirmação vai além
da esfera do julgamento de valores e afirma a realidade de um âmbito transcen
dente e da origem de Cristo, uma esfera que Ritschl considerou especulativa em
sua crítica à doutrina clássica da natureza divina de Cristo.
A salvação da humanidade através de Cristo é elemento central da teologia
de Ritschl. Mas de que maneira isso ocorre? Aqui, Ritschl introduz o conceito da
“obediência vocacional” de Jesus ao Pai: Jesus demonstrou com perfeição o modo
de vida apropriado para o reino de Deus. Sua vida sem pecado e morte voluntária
não apenas revelaram o reino de Deus na História, mas também o liberaram na
forma de poder para transformar o mundo.
Ao que parece, o interesse principal de Ritschl estava na vida histórica de
Cristo como exemplo moral que teve um impacto sobre a História. Apesar de
rejeitar explicitamente qualquer doutrina de expiação que transformasse Jesus no
portador da punição divina pelos pecados do mundo, Ritschl não negou o significa
do especial da morte de Cristo.20 A morte de Jesusfoi simplesmente uma parte de
sua vocação de total lealdade à causa do reino de Deus.
Ritschl não tinha muito a dizer sobre a ressurreição e ascensão de Jesus. Para
fins práticos, Ritschl representava a continuidade da influência de Jesus sobre o
mundo como a poderosa imagem moral que continuamente renova as energias da
comunidade do reino de Deus.21
Avaliação
A reputação de Ritschl como teólogo moderno de importância duradoura foi ques
tionada durante a metade do século 20, em grande parte por causa das críticas
devastadoras de pensadores neo-ortodoxos como Karl Barth e Emmil Brunner.
Nos dias de hoje, discute-se a validade dessas críticas e nos anos 60 e 70 falou-se
numa “Renascença Ritschliana”.22 Os críticos mais recentes concordam que a
contribuição de Ritschl encontra-se em seus esforços para tirar a fé cristã de
conflitos desnecessários com a ciência e a filosofia do pós-iluminismo e em sua
“moralização do dogma”. Numa era em que a teologia cristã era cada vez mais
acusada de ser irrelevante ao progresso ético devido à sua concentração em um
outro mundo, Ritschl usou de sua capacidade espiritual e intelectual para mostrar
o poder moralizador da verdade cristã central da redenção da humanidade no
reino de Deus. Como resultado de sua influência, toda uma geração de pastores e
professores cristãos desenvolveu o “evangelho social”.
Qualquer avaliação crítica da teologia de Ritschl deve levantar a seguinte
questão: É possível fazer uma distinção absoluta entre os julgamentos teóricos ou
científicos e os julgamentos de valores religiosos? Muito da sua teologia baseia-se
em tal distinção; ainda assim, os críticos têm mostrado repetidamente que ele
mesmo não conseguiu colocar em prática essa distinção de modo consistente.
Ritschl não estava sozinho ao procurar libertar a teologia cristã do controle
sufocante do sistema filosófico de pensamento e das teologias naturais suposta
mente objetivas. O problema central de seu método teológico está na maneira
rigorosa como ele procurou eliminar todas as discussões sobre Deus em si, bem
como em seu fracasso em evitar completamente essas discussões. James
Richmond criticou Ritschl corretamente por limitar de maneira severa o escopo
da investigação teológica: “Os teólogos estão certos em ter medo de gerar um
conflito entre a religião e a ciência, conflito no qual a religião não tem nada a
ganhar e tudo a perder, mas devem evitar que esse medo produza uma espécie de
paralisia intelectual”.23
Essa limitação que Ritschl impôs sobre a teologia, confinando-a à esfera dos
julgamentos morais, é problemática em vários sentidos. Ela não pode, por exem
plo, admitir um entendimento pleno da transcendência divina. Se a teologia não
pode discutir a realidade interior do ser de Deus, ficará subentendido que Deus só
existe em relação ao seres humanos. Deus irá se dissolver no impacto que tem
sobre a humanidade até que nada além desse impacto seja considerado importan
te. Até certo ponto, esse perigo já aparece naquilo que os críticos viram como
uma identificação muito próxima que Ritschl fazia entre Deus e o reino de Deus.24
Além do problema da transcendência, a limitação da teologia de Ritschl ao
julgamento de valores cria sérios problemas para o caráter público da teologia.
Apesar de suas intenções, a teologia de Ritschl parece abrir-se para acusações
de subjetivismo. Conforme a observação de Richmond: “em certos pontos, a teo
logia de Ritschl parece confinar a religião a uma área restrita própria e deixar
para a ciência e filosofia “não-religiosas” (ou seja, profanas) o universo mais
amplo do ‘conhecimento humano’”.25 Apesar de não haver dúvidas de que Ritschl
ficaria horrorizado com o hábito comum dos cristãos modernos de separar a “fé”
dos “fatos” , também não há dúvidas de que, em parte, ele é responsável pelo de
senvolvimento dessa falácia.
Possivelmente, nenhuma outra dimensão do pensamento de Ritschl suscitou
tantas críticas quanto sua cristologia. Por que ele descartou de maneira aparente
mente tão arrogante a doutrina cristã antiga da natureza humana e divina de
Jesus Cristo? Parte do motivo está naquilo que já foi visto como uma rejeição
inválida e inconsistente da ontologia, sua falta de disposição para discutir sobre a
substância ou o ser daquilo que está por trás das aparências e impactos.
Uma outra causa vai além disso. Richmond define o problema dizendo: “Ritschl
e seus contemporâneos do século 19 não entendiam a natureza divina de Cristo em
termos de substância e nem de consubstancialidade com Deus, simplesmente
porque esses termos haviam se tornado incompreensíveis, para não dizer sem sen
tido, na Alemanha pós-iluminista”.26 Em outras palavras, assim como os outros
pensadores liberais, Ritschl estava inclinado a aceitar o consenso da sociedade
moderna, educada e pós-iluminista como norma para a teologia. Isso levou Barth e
outros críticos da teologia liberal no século 20 a chamar o pensamento de Ritschl -
de modo rude, porém um tanto merecido - de “protestantismo de cultura”.
Além das razões para Ritschl rejeitar a cristologia clássica serem, no mínimo,
dúbias, a visão de Jesus que ele procurou colocar no lugar dela pode, certamente,
ser considerada reducionista. Apesar de garantir o contrário, ele reduziu Jesus ao
ideal religioso e ético da humanidade.27 Não importa quão firmemente ele afir
masse o lugar especial de Jesus na obra divina da salvação, Ritschl eliminou tudo
o que separava Cristo do resto da humanidade.28 Como resultado, não restam
mais bases para se crer que Jesus é a revelação insuperável de Deus.
A única resposta que Ritschl oferecia para essa objeção é que qualquer um
igual a Cristo que pudesse surgir na História seria dependente dele e, portanto,
subordinado a ele.29 Nossa reação mais natural é perguntar: “Por quê?” O relato
que Ritschl faz da pessoa de Cristo, assim como a maior parte dos liberais, fica
aquém da cristologia altamente encarnacional da igreja que existe desde o próprio
Novo Testamento. De forma alguma o Cristo que ele apresenta é “Deus conosco”.
Mesmo um crítico simpatizante como James Richmond não pôde evitar de rotular
a cristologia de Ritschl como sendo “empobrecedoramente restritiva” .30
Adolf Harnack
Conforme observamos anteriormente, a teologia de Ritschl deu origem a toda uma
escola de teólogos liberais, cuja influência permeou as principais igrejas protestantes
da Europa e da América entre o final do século 19 e o início do século 20. Dois
membros da escola Ritschliana destacam-se pelas formas criativas como desen
volveram idéias a partir de seus fundamentos: o estudioso alemão Adolf Harnack
e o professor americano de origem alemã Walter Rauschenbusch.
Adolf Harnack foi, talvez, o mais brilhante e popular defensor da teologia liberal
protestante na virada do século. Ele foi professor de história da igreja na Universi
dade de Berlim de 1888 até aposentar-se, em 1921. Suas palestras atraíam cente
nas de alunos e seus escritos (aproximadamente mil e seiscentos títulos) eram
grandemente aclamados no mundo acadêmico. Harnack era amigo íntimo do Im
perador Wilhelm da Alemanha, que deixou a seu encargo várias instituições cultu
rais importantes, incluindo a Biblioteca Real de Berlim. Em 1914, ele recebeu do
Imperador o título de cavaleiro. Harnack, que escreveu o discurso imperial para o
povo alemão anunciando o início da Ia Guerra Mundial,31 apoiava fortemente a
política de guerra do Imperador. Este foi um dos fatores que fez com que seu mais
notável aluno, o teólogo suíço Karl Barth, se voltasse contra ele. Depois da guerra,
Harnack recebeu do novo governo uma oferta para assumir o cargo de embaixador
nos Estados Unidos - uma honra que ele respeitosamente recusou. Ele morreu em
1930. Hoje, um importante prédio do governo em Berlim, o “Adolf von Harnack
Haus”, serve de memorial para essa imponente figura da teologia moderna.
A influência mais ampla de Harnack deu-se através da publicação de uma
série de palestrasfeitas por ele na Universidade de Berlim entre 1899 e 1900, que
foram transcritas por um aluno e oferecidas como presente ao professor. Em 1901,
essas palestras foram publicadas na América sob o título What is Christianity?
[O Que é Cristianismo?]. A obra passou por diversas edições e foi extensivamente
lida e citada por pregadores e autores durante os trinta e cinco anos seguintes.
Nessas dezesseis palestras, Harnack procurou identificar o cerne (“os grãos”)
do Cristianismo autêntico, que ele chama de “Evangelho”, e separá-lo da palha
- as formas culturais através das quais ele é comunicado no Novo Testamento
e nas tradições históricas da cristandade.32 Ele propôs a tese de que Jesus pro
clamou a mensagem sobre Deus, o Pai, e não sobre si mesmo: “O Evangelho,
conforme foi proclamado por Jesus, tem a ver somente com o Pai e não com o
Filho”.33 De acordo com Harnack, esse evangelho é simples e sublime, consis
tindo em três verdades relacionadas entre si: o reino de Deus e sua vinda; Deus,
o Pai, e o valor infinito da alma humana; e a retidão mais elevada e o manda
mento do amor.34
Harnack encontrou muito pouco do evangelho no Antigo Testamento. Até
mesmo no Novo Testamento, ele se apresenta incrustado com histórias fantásti
cas de milagres, anjos, demônios e catástrofes apocalípticas. Ele argumentava
que, ao longo da história, a igreja havia sido coberta com a palha de conceitos
filosóficos estranhos a ela, como a identificação grega do Logos com Cristo.35 Para
Hamack, apesar disso tudo, o evangelho sobreviveu onde quer que a mensagem
pura e simples de Jesus sobre o Reino de Deus tenha sido aceita como o ideal mais
alto e glorioso conhecido para a humanidade. Esse ideal é “a perspectiva da união
entre os homens, união essa que se mantém não por ordenanças legais, mas pela
regra do amor, e onde o homem conquista seu inimigo através da mansidão”.36
Walter Rauschenbusch
Harnack recusava-se a aplicar o ideal do reino de Deus a questões políticas espe
cíficas; ele chegou a criticar duramente aqueles que desejavam usar esse ideal
para alimentar movimentos revolucionários de Reforma. Walter Rauschenbusch,
pelo contrário, gastou a maior parte de sua energia criativa como teólogo fazendo
justamente isso.
Rauschenbusch era filho de um pastor luterano alemão que se tornou batista
logo depois de emigrar para os Estados Unidos. Walter passou por uma experiên
cia profunda de conversão ainda aos nove anos de idade. Tendo sentido o chama
do de Deus para o ministério, ele freqüentou o Rochester Seminary em Nova
York, onde seu pai havia se tornado professor no departamento de língua alemã.
O primeiro cargo do jovem pastor foi em Hell’s Kitchen, uma parte extrema
mente pobre da cidade de Nova York. Lá, ele envolveu-se com o crescente mo
vimento socialista e ajudou a fundar um jornal socialista religioso.
Em 1891, Rauschenbusch passou vários meses estudando o Novo Testamen
to na Alemanha, onde recebeu influência da ênfase Ritschliana sobre o reino ético
de Deus como coração e alma do evangelho. Quando voltou para os Estados
Unidos, envolveu-se por completo no recém-criado movimento do “evangelho
social”, tornando-se seu expoente de maior competência teológica e principal
proclamador.37 Em 1897, começou a lecionar história da igreja no Rochester
Seminary e através de suas palestras e escritos promoveu a transformação políti
ca e econômica da América até vir a falecer, em 1918.
Os livros de Rauschenbusch, que em grande parte foram escritos para o con
sumo popular, não são pesados tomos teológicos, mas sim aplicações práticas dos
objetivos éticos e ideais do reino de Deus para a vida social concreta. Sua obra de
maior influência e que o tornou conhecido foi Christianity and Social Crisis
[Cristianismo e a Crise Social], publicada em 1907.
Esse livro apresentava em linguagem severa o enorme abismo entre a riqueza
e a pobreza na América e afirmava qué ser um cristão em meio a essa crise social
significava trabalhar para a salvação de estruturas econômicas que perpetuavam
a pobreza. A tarefa essencial do cristão, ele escreveu, não é tanto abolir a bebe
deira e o adultério, mas “transformar a sociedade humana no reino de Deus atra
vés da regeneração do relacionamento entre os homens e a sua reconciliação de
acordo com a vontade de Deus”.38 Ele dedicou atenção especial ao capitalismo de
laissez-faire [não-intervencionismo (N. do T.)], afirmando que este era parte do
Reino do Mal na vida americana e chamou os cristãos americanos a liderarem um
novo reavivamento, no qual não apenas almas individuais, mas entidades corporativas
inteiras e estruturas sociais seriam levadas ao arrependimento e à salvação.
Em 1912, Rauschenbusch publicou seu segundo maior livro, Christianizing the
Social Oráer [A Cristianização da Ordem Social], Nessa obra, ofereceu suges
tões específicas para o reavivamento que vislumbrava. Pediu, ainda, a socialização
das principais indústrias, apoio por parte dos sindicatos e a abolição de uma econo
mia centralizada na cobiça, na competição e no lucro como principal motivação.
Para ele, todas essas mudanças significavam uma cristianização gradual da ordem
social - uma aproximação progressiva do reino de Deus na sociedade humana.
Rauschenbusch publicou a obra que acabaria por tornar-se a teologia siste
mática do movimento do evangelho social, A Theology fo r the Social Gospel
[Uma Teologia para o Evangelho Social], em 1917. Nela, procurava redefinir
cada uma das principais doutrinas cristãs em termos de realidade social e históri
ca do Reino do Amor, que, para ele, equivalia à “humanidade organizada de acor
do com a vontade de Deus”.39 Ao mesmo tempo que Rauschenbusch não negou
explicitamente as doutrinas clássicas da fé cristã, ele as reinterpretou à luz do
tema central unificador que era o reino de Deus. O significado principal de Jesus,
por exemplo, encontrava-se no novo conceito de Deus que ele ofereceu à hu
manidade. Ao invés de retratar a Deus como um monarca, Jesus “democratizou
a concepção de Deus” ao tomá-lo pela mão e chamá-lo de “Pai”.40 Assim, Raus
chenbusch definiu a salvação como “a socialização voluntária da alma”.41
O movimento do evangelho social americano representou a expressão mais
prática e concreta da teologia liberal clássica. A maior parte dos métodos teológi
cos e temas fundamentais desse movimento tem suas origens em Ritschl, mas
esses eram combinados com um fervor evangélico pela reforma social que não
existia na teologia liberal européia.
Apesar do liberalismo continuar a ser uma força que merece reconhecimento,
a Ia Guerra Mundial destruiu uma grande parte da teologia liberal clássica e, com
ela, o evangelho social. Uma nova forma de teologia protestante, a neo-ortodoxia,
iria dominar as próximas décadas. O novo movimento criticava duramente a teo
logia liberal de pensadores como Ritschl, Hamack e Rauschenbusch. Um dos
expoentes dentre os novos pensadores, H. Richard Niebuhr, elaborou a frase que
hoje em dia é considerada a condenação clássica do liberalismo: “Um Deus sem
ira trouxe homens sem pecado a um reino sem julgamento através das ministrações
de um Cristo sem cruz”.42
Por detrás de todas as outras insatisfações com a teologia liberal, havia o
medo da neo-ortodoxia de que a ênfase liberal no reino de Deus dentro da Histó
ria acabaria por dissolver Deus no mundo. O esforço humano passaria, então, a
substituir a soberania divina e uma apoteose pouco sutil da humanidade tomaria o
lugar da adoração ao santo Deus. A reação neo-ortodoxa contra esse impulso de
imanência do liberalismo mais antigo marca o começo da teologia do século 20. É
para ela que voltamos, agora, nossa atenção.
A REVOLTA CONTRA A IMANÊNCIA:
A Transcendência na N eo -o rto d o xia
/ s armas de agosto de 1914 soaram a sentença de morte do conjunto de
valores intelectuais do século 19. A Ia Guerra Mundial marcou o fim do progres-
sismo do século otimista e preparou o palco para a corrente de característicaspessimistas dos anos que se seguiram. Assim também, o fim da teologia do otimis
mo que havia permeado o século 19 foi declarado através da publicação de um
comentário sobre o livro de Romanos escrito por um pastor residente numa pe
quena cidade desconhecida na Suíça, Karl Barth.
A reação que Barth desencadeou contra o liberalismo prevalecente veio a
dominar o cenário teológico até bem depois da metade do século 20. Apesar de
cada um dos pensadores que vieram na seqüência desse trabalho pioneiro ter
seguido o seu próprio rumo, o teólogo suíço foi o pai de um novo movimento na
teologia. Essa nova direção é conhecida, em termos gerais, como “neo-ortodoxia”.
O movimento neo-ortodoxo caracterizou-se pela tentativa dos teólogos de
redescobrir o significado para o mundo moderno de certas doutrinas que haviam
sido centrais para a antiga ortodoxia cristã. Conseqüentemente, seus proponen
tes apresentavam um relacionamento complexo com o liberalismo que havia
precedido o seu novo pensamento. Por um lado, os teólogos neo-ortodoxos se
guiam o liberalismo mais antigo, vendo o Iluminismo com naturalidade e, assim
como seus antecessores, aceitando o criticismo bíblico. Por outro lado, os pen
sadores mais jovens rejeitavam aquilo que consideravam ser a cultura cristã do
liberalismo, que surgiu da ênfase na teologia natural. Estavam seriamente preo
cupados com o fato de o liberalismo protestante ter se esforçado tanto para
tornar a fé cristã aceitável à mentalidade moderna a ponto de perder o evange
lho. A Palavra de Deus - a voz do Ser Transcendente - não proclamava mais
as boas-novas de reconciliação com a humanidade perdida em pecado. A neo-
ortodoxia buscava reafirmar esses temas esquecidos em um mundo que, mais
uma vez, precisava ouvir Deus falar do além.
Em sua busca por reafirmar temas como o pecado humano, a graça divina e
uma decisão pessoal, a neo-ortodoxia do século 20 procurou inspiração numa voz
antiga e ignorada no século 19 que havia falado contra o pensamento dominante de
sua época. Era a voz do “dinamarquês melancólico” Soren Kierkegaard.
Soren Kierkegaard nasceu em Copenhague, em 1813, filho de um próspero
homem de negócios luterano, e morreu em 1855. Ele teve uma infância infeliz:
sofreu de deformações na coluna e era fisicamente frágil. Apesar de ter sido
educado para o ministério eclesiástico, ao completar seus estudos, em 1840, seu
verdadeiro interesse era pela filosofia e literatura. A infelicidade do jovem
Kierkegaard foi ainda mais intensificada por causa de seu difícil relacionamento
amoroso com Regina Olsen. Apesar do casal ter noivado em 1841, Kierkegaard
decidiu que era preciso desfazer esse compromisso. Mas ele passou a maior par
te do resto de sua vida preso a esse amor perdido.
Kierkegaard era um escritor prolífico. Sua carreira literária deu-se em três
estágios. No primeiro, ele tratou principalmente de seu relacionamento com Regi
na Olsen. O segundo estágio veio depois de sua experiência de conversão, em
1848, e concentrou-se na dificuldade de ser cristão. O terceiro estágio foi de
sencadeado por um discurso fúnebre em 1854, no qual um bispo da igreja do
Estado dinamarquês elogiava um colega falecido que havia, na verdade, vivido
uma existência mundana. Kierkegaard lançou um terrível ataque sobre a igreja
do Estado, expondo as disparidades entre o Cristianismo primitivo e a versão
contemporânea dinamarquesa.
Por trás das críticas de Kierkegaard estava sua controvérsia fundamental
com a filosofia hegeliana aceita pelos intelectuais de sua terra natal. Os filósofos
dinamarqueses rejeitavam a visão predominante de que a razão era capaz de
responder às perguntas básicas religiosas da vida. E, ao contrário do coletivismo
que surgiu da ligação feita por Hegel entre o progresso espiritual humano e o
desenvolvimento próprio do Espírito Absoluto, Kierkegaard enfatizou o indivíduo.
Ao invés da sabedoria convencional de sua época, Kierkegaard ofereceu uma
nova visão da natureza da verdade, pelo menos de acordo com a forma como ele
foi interpretado no século 20. A verdade não é impessoal e não pode ser obtida
através do pensamento desapaixonado.1 Pelo contrário, a verdade é subjetivida
de; surge quando o sujeito pessoal deseja plenamente fazer parte dessa verdade.
Conseqüentemente, o ponto de partida na busca pela verdade não está na con
templação imparcial daquilo que é universal. A verdade começa, sim, com um
indivíduo concreto em uma situação de vida concreta.2 Daí a conhecida definição
de verdade de Kierkegaard: “A verdade é uma incerteza objetiva presa a um pro
cesso de apropriação da mais apaixonada origem interior”.3
Em Migalhas Filosóficas, Kierkegaard delineou sua famosa distinção en
tre Cristianismo e religião socrática. Esta última, a “Religiosidade A”, é a reli
gião da imanência, pois pressupõe que a verdade está presente dentro do indi
víduo. Para que a verdade apareça é preciso apenas que alguém faça as vezes
de uma parteira, ajudando o sujeito sabedor a dar à luz essa verdade. Mas na
religião de Jesus - “Religiosidade B” ou religião do outro - o indivíduo não
possui a verdade, ou pior, vive no engano. Assim, ele precisa de um mestre
que leve a verdade até ele e, inclusive, ofereça as condições necessárias para
que ele a receba. Tal mestre é o Salvador e Redentor e sua vinda é a “plenitu
de do tempo”.4
E claro que, para Kierkegaard, esse mestre é Jesus Cristo. Mas a confissão
cristã de Jesus como Cristo envolve um paradoxo duplo. Ela afirma que Deus
tornou-se humano, que o Eterno tornou-se temporal. E ela declara que nossa
felicidade eterna está fundamentada num acontecimento histórico, sendo que a
historicidade desse acontecimento é apenas provável e não completamente cer
ta. Por ser um paradoxo, a verdade do Cristianismo é captada apenas através da
fé e não pela razão. Ser um cristão, portanto, envolve um desejo de ir pela fé a
lugares para onde a razão não pode nos levar. Kierkegaard concluiu que sua
essência está na profunda preocupação, temor e tremor santo e não numa segu
rança complacente.
Os temas enunciados pelo filósofo dinamarquês do século 19 - como a
transcendência do Deus que, no momento do encontro divino, profere ao indiví
duo a verdade divina infalível - tornaram-se os fundamentos sobre os quais os
teólogos da neo-ortodoxia do século 20 construíram seus pensamentos e as teses
que expandiram em suas deliberações teológicas.
KARL BARTH: A T r a n s c e n d ê n c i a c o m o L i b e r d a d e d e D e u s
No futuro, quando historiadores da teologia olharem para o século 20, não há
dúvidas de que irão escolher Karl Barth como seu mais influente pensador cris
tão. Amplamente reconhecido em vida como pai da igreja moderna, ele é, muitas
vezes, classificado junto com Agostinho, Tomás de Aquino, Lutero, Calvino e
Schleiermacher por causa de sua enorme contribuição original à teologia. Pratica
mente todos os teólogos do século 20 sentiram o forte desejo de reagir a ele de
algum modo. Décadas depois de sua morte, novos artigos e livros examinando sua
teologia continuam a surgir na Europa e nos Estados Unidos. Conferências de
estudiosos acontecem regularmente para discutir a importância de Barth e uma
série de reuniões especiais de teólogos aconteceu em 1986 para comemorar o
centenário de seu nascimento.
Apesar de não haver uma “escola” formal de teologia barthiana, diversos
teólogos europeus e americanos identificam-se conscientemente com as propos
tas básicas de Barth e buscam, à sua maneira, dar continuidade a elas. Sua rele
vância não foi de forma alguma exagerada na conclusão de um de seus alunos
mais notáveis, Eberhard Jiingel, que escreveu em 1982:
Karl Barth é o mais importante teólogo protestante desde Schleiermacher, o qual
ele procurou superar, mas de quem, ainda assim, é devedor em muitos aspectos.
A influência pessoal e literária de Barth mudou profundamente o formato da
teologia cristã, ultrapassando barreiras confessionais e alterando demodo signi
ficativo o rumo da igreja protestante. Deixou, ainda, sua marca inconfundível na
vida política e cultural do século 20.5
A Vida e a Carreira de Barth
Karl Barth nasceu em 1886 na Basiléia, Suíça. Seu pai era professor em uma
universidade para pregadores (semelhante a um seminário) e identificava-se com
um grupo relativamente conservador dentro da Igreja Reformada da Suíça. Quando
Barth tinha dois anos de idade, seu pai aceitou um cargo bem mais prestigioso
como assistente de um professor da Universidade de Berna. A vida familiar de
Barth era rígida, mas, de um modo geral, feliz e, mais tarde, ele comentou sobre
seu grande respeito pelo pai e um profundo apego à mãe.6
Em 1902, na véspera de sua profissão de fé, Barth decidiu tomar-se um teó
logo. Como ele próprio mais tarde escreveu, não era porque tivesse em mente a
pregação e o cuidado pastoral, mas sim porque tinha a esperança de alcançar
uma compreensão maior do credo que substituísse as idéias vagas que possuía na
época.7 Ele estudou teologia em universidades em Berna, Berlim, Tübingen e
Marburg, chegando finalmente a um posicionamento teológico dentro da linha
ritschiliana de pensamento liberal. Em Berlim, ele recebeu a influência de Harnack
e, em Marburg, tornou-se discípulo do grande teólogo ritschliano Wilhelm
Herrmann. Para desespero de seus mestres, depois ele acabou repudiando radi
calmente essa teologia.
Barth nunca completou um doutorado, apesar de mais tarde em sua vida ele
ter sido contemplado com inúmeros títulos honorários de diversas grandes univer
sidades. Em 1908, ele foi ordenado ministro da Igreja Reformada e assumiu um
cargo de pastor assistente em Genebra. Ali, ele pregava de tempos em tempos no
mesmo grande salão em que, três séculos e meio antes, Calvino havia falado.
Como a maioria dos pastores assistentes, ele não se sentia realizado em seu tra
balho e, em 1911, mudou-se para uma pequena congregação em Safenwil, uma
vila na fronteira entre a Suíça e a Alemanha. Foi em Safenwil que fez história na
teologia, pois ali, Barth criou uma revolução teológica.
Muitos fatores levaram ao rompimento radical de Barth com a teologia liberal.
Entretanto, há dois que se destacam. Em primeiro lugar, Barth percebeu que a
teologia liberal de nada servia para ajudá-lo em sua tarefa semanal de pregar o
evangelho ao povo de Safenwil. Em decorrência disso, ele dedicou-se a um estu
do cuidadoso e detalhado das Escrituras e, através dele, descobriu “O Estranho
Mundo Novo Dentro da Bíblia”, título que usou para um de seus primeiros artigos.
O que encontrou nas Escrituras não foi a religião humana e nem mesmo os mais
refinados e elevados pensamentos de pessoas devotas, mas sim a Palavra de
Deus: “Não são os pensamentos humanos corretos acerca de Deus que formam
o conteúdo da Bíblia, mas os pensamentos divinos corretos a respeito do ho
mem”.8 Foi na Palavra transcendente das Escrituras (e não na teologia filosófica
da escola liberal neoprotestante, na qual ele havia sido treinado) que Barth encon
trou uma mensagem relevante para os membros de sua congregação.
O segundo fator que afastou Barth da teologia liberal foi um acontecimento
específico. Em agosto de 1914, ele leu a publicação de uma declaração realiza
da por noventa e três intelectuais alemães que apoiavam a política de guerra do
imperador Wilhelm. Entre eles estavam quase todos os seus professores de
teologia, os quais, até então, ele havia honrado profundamente. O apoio que
ofereceram ao imperialismo alemão levou Barth a crer que, se podiam ceder tão
facilmente à ideologia de guerra, tinha de haver algo de terrivelmente errado na
teologia deles. Desiludido pela conduta de seus mestres, Barth concluiu que não
podia mais “aceitar suas éticas e dogmas, sua exegese bíblica, sua interpretação
da História”.9 Para ele, toda a teologia liberal do século 19 não tinha futuro e,
assim, ele passou a dedicar seu considerável (e até então oculto) talento teoló
gico a destruí-la.
Durante a guerra, Barth começou a trabalhar num comentário sobre a epísto
la de Paulo aos Romanos. Ao ser publicado em 1919, ele provocou um furor
inesperado por causa de suas duras críticas à teologia liberal protestante. De
acordo com um teólogo da época, a obra Der Romerbrief [Epístola aos Roma
nos] caiu como uma bomba no quintal onde brincavam os teólogos. No comentá
rio, Barth afirmava a validade tanto do método histórico-crítico de estudo das
Escrituras quanto da doutrina da inspiração verbal, e declarava que se fosse
forçado a escolher entre um dos dois, ficaria com a segunda opção.10 Barth criti
cou a teologia liberal por transformar o evangelho em uma mensagem religiosa
que fala aos homens de sua própria divindade ao invés de reconhecê-lo como
Palavra de Deus, uma mensagem que os seres humanos são incapazes de prever
ou antecipar, pois vem de um Deus completamente distinto deles.11 No fundo,
Barth estava pedindo uma revolução no método teológico, uma teologia “do alto”
para substituir a antiga teologia “de baixo” centralizada no ser humano. Ao longo
do comentário, ele enfatizava o caráter distinto de Deus, do evangelho, da eterni
dade e da salvação. Argumentava que essas grandes verdades não podem ser
construídas a partir da experiência universal humana ou da razão, mas devem ser
recebidas pela revelação de Deus numa atitude de obediência.
Por causa de sua ênfase no confronto entre Deus e a humanidade, Der
Romerbrief foi chamado de “teologia dialética” e “teologia de crise”. O termo
“dialética” posicionava Barth na esfera do método filosófico de Kierkegaard e
não de Hegel. Para Kierkegaard, por causa da pecaminosidade humana e do
caráter distinto de Deus, a verdade de Deus e o pensamento humano não poderão
jamais ser nivelados através da síntese racional. Pelo contrário, as verdades para
doxais da revelação de Deus devem ser aceitas pela mente humana finita através
da fé. No prefácio da segunda edição de Der Romerbrief {1922), Barth admitiu
ser devedor de Kierkegaard:
... se tenho um sistema, está limitado ao reconhecimento daquilo que Kierkegaard
chamou de “distinção qualitativa infinita” entre o tempo e a eternidade e à minha
observação de que esta possui significado positivo e negativo: “Deus está nos
céus e vós na terra”. A relação entre tal Deus e tal homem é, para mim, o tema da
Bíblia e a essência da filosofia.12
Poucos meses depois de sua publicação, Der Romerbrief tornou-se alvo de
acalorados debates. Alguns estudiosos bíblicos e teólogos liberais o despreza
ram como se fosse apenas o palavreado de um entusiasta religioso, enquanto
outros o exaltaram como sendo a recuperação do verdadeiro espírito da Refor
ma. Alguns dos próprios mestres de Barth, incluindo Harnack e Herrmann, fi
caram confusos com aquela abordagem nada histórica e nem crítica da Bíblia.
Apesar do furor, entretanto, muitos pastores, professores e teólogos considera
ram a obra um corretivo há muito necessário para a teologia cristã que entrava
no século 20. A influência de Der Romerbrief foi tão grande, que muitos estu
diosos usam sua publicação, em 1919, para determinar o fim do século 19 e o
começo do século 20 na teologia.
Em 1921, Barth recebeu uma oferta para o cargo de professor de Teologia
Reformada na Universidade de Gõttingen, na Alemanha; convite que veio, em
grande parte, por causa do sucesso de Der Romerbrief. Pouco depois de sua
chegada, entrou em sério conflito com os discípulos de Ritschl, o grande pensador
liberal que havia ensinado naquela instituição no final do século 19 e ainda era
reverenciado lá. Barth continuou a escrever artigos e livros que colocavam a
Palavra de Deus em confronto com a razão humana e acusavam o neoprotes-
tantismo liberal de sucumbir à cultura do racionalismo íluminista. Ele argumentava
que o maior perigo para o evangelho não era o de ser rejeitado, mas de ser aceito
pacificamente e tomar-se inócuo ao transformar-se em apenas mais um patrimônio
da cultura e da razão humana.A seu ver, havia um século que a teologia liberal
alemã vinha corroendo o evangelho ao tomá-lo respeitável. Naturalmente, tal po
lêmica não tomou Barth nada popular entre a elite teológica dominante.
Em 1925, Barth foi convidado para ser professor na Universidade de Münster,
onde ficou apenas cinco anos, mudando-se para Bonn em 1930. Durante esse
período, começou a surgir uma mudança decisiva na ênfase de seus escritos.
Mesmo sem deixar de lado sua rejeição à teologia liberal, ele começou a enfatizar
mais o “Sim” de Deus para a humanidade através de Cristo do que o caráter
negativo que havia permeado seu trabalho durante mais de uma década.
Barth descartou sua primeira tentativa de apresentar uma teologia sistemá
tica (Prolegômenos aos Dogmas Cristãos, 1928). Ele a considerou corrompi
da demais pela filosofia existencialista quando, na verdade, o que desejava pro
duzir era uma teologia totalmente bíblica, absolutamente teológica e completa
mente livre da dependência de qualquer sistema de pensamento humano. Além
disso, queria enfatizar a objetividade da revelação de Deus mais do que a subje
tividade da fé humana.
Em 1931, Barth escreveu aquilo que muitos estudiosos consideram sua mais
importante afirmação de um método teológico maduro: Fides quarens intellectum
(a fé buscando o entendimento), um estudo sobre o teólogo escolástico medieval
Anselmo de Canterbury. Ao contrário de muitas interpretações de Anselmo, Barth
argumentou que o grande líder da igreja não era um racionalista, mas sim um
estudioso devoto que procurou colocar a razão a serviço da fé. O argumento
ontológico de Anselmo em favor da existência de Deus não era uma tentativa de
provar Deus independente da fé, mas sim de entender com a mente aquilo em que
já se acreditava pela fé.
Barth argumentou que, para Anselmo, toda a teologia deve ser feita num
contexto de oração e obediência. Isso significa que a teologia cristã não pode ser
uma ciência objetiva e desapaixonada, mas deve ser a compreensão da revelação
objetiva de Deus em Jesus Cristo, possível somente através da graça e da fé.
Para se encontrar respostas teológicas é preciso ter “um coração puro, olhos que
foram abertos, obediência como de uma criança, uma vida no Espírito e rico sus
tento recebido das Escrituras Sagradas”.13 Em outras palavras, Barth afirmou
que o pré-requisito para a teologia correta é uma vida de fé e sua marca é o
desejo de jamais contradizer explicitamente a Bíblia “que é a base textual do
objeto revelado da fé”.14
Até a elaboração do tratado sobre Anselmo, a teologia de Barth enfatizava o
caráter negativo do encontro entre Deus e a humanidade. A começar por esse
livro, sua teologia começou a enfatizar o aspecto positivo do conhecer a Deus na
revelação de Deus em Jesus Cristo. O elemento negativo permaneceu no sentido
de que Barth sempre se opôs a qualquer fomia de teologia natural - a tentativa de
conhecer a Deus através da natureza, cultura e filosofia. Porém, sua ênfase havia
mudado em direção à possibilidade de um verdadeiro conhecimento de Deus em
Jesus Cristo através da fé.
Logo depois de concluir seu livro sobre Anselmo, Barth começou a trabalhar
numa teologia sistemática, A Dogmática da Igreja, que ficou inacabada com
treze volumes quando ele faleceu em 1968. O aspecto mais notável dessa obra
(além, é claro, de seu tamanho) é a falta dos tradicionais prolegômenos ou intro
dução filosófica. Barth omitiu propositadamente essa seção, pois estava conven
cido de que a verdadeira teologia deve ser a explicação da Palavra de Deus e
nada mais. Qualquer tentativa de fundamentar a verdade da Palavra de Deus no
raciocínio humano leva à sujeição dessa teologia aos modos humanos e históricos
de pensamento e, assim, gera uma “teologia antropocêntrica”, o grande mal con
tra o qual Barth havia lutado tanto.
Os pressupostos de todo o esforço de Barth em A Dogmática da Igreja
baseiam-se no fato de que, em Jesus Cristo, Deus estabelece uma analogia entre
si e a humanidade. Barth contrastou essa “analogia da fé” com o conceito mais
antigo de “analogia do ser”. O conhecimento de Deus não é uma capacidade
inata da natureza ou da experiência humana, mas é possível apenas porque Deus
graciosamente o concede em Jesus Cristo, que é tanto Deus quanto homem. Ou
a pessoa “vê” Jesus Cristo como o Caminho, a Verdade e a Vida ou ela não o vê
de forma alguma. Não há como provar essa verdade. Aliás, toda tentativa de
provar a pessoa de Cristo beira a idolatria pois coloca Deus e sua revelação sob a
análise da razão humana.
Durante o começo dos anos 30, Barth envolveu-se profundamente com o
movimento eclesiástico antinazista na Alemanha. Em 1934, ele ajudou a redigir a
Declaração de Barmen, que afirmava que Jesus Cristo é o único Senhor para o
cristão e, assim, fazia uma crítica implícita à elevação de Hitler à posição de
messias pelos cristãos alemães. Barth encarava a aceitação da ideologia nazista
pelos cristãos alemães como uma forma de Cristianismo de cultura - o resultado
esperado da teologia natural - e apoiava fortemente os dissidentes dentro da
igreja do Estado que se opunham aos nazistas. Devido à sua recusa em saudar
Hitler no início de suas palestras ou de assinar um juramento de lealdade a Hitler,
em 1935 o governo alemão emitiu a demissão sumária de Barth de seu cargo em
Bonn. Ele foi convidado a trabalhar como professor na Universidade da Basiléia
e voltou à sua cidade natal, onde viveu e lecionou o resto da vida.
Ao longo dos vinte e sete anos de ensino na Basiléia, Barth trabalhou em sua
obra A Dogmática da Igreja e em outros livros e artigos, pregou regularmente no
presídio da cidade e adquiriu a reputação de ser um estudioso de Mozart. Estu
dantes de todo o mundo iam ouvir suas palestras e participar de seus seminários.
Havia tantos alunos da Inglaterra e Estados Unidos, que Barth começou a ofere-
cer cursos semanais em inglês. Em 1962, aos 75 anos de idade, ele se aposentou
do ensino de tempo integral e imediatamente embarcou em sua primeira viagem
fora da Europa. Passou sete semanas viajando pelos Estados Unidos dando pa
lestras, passeando e conhecendo pessoas. A revista Time o homenageou com
uma reportagem de capa e a Universidade de Chicago lhe concedeu o título de
doutor honoris causa.
Os últimos anos de sua vida foram extremamente difíceis, pois sua saúde
começou a enfraquecer e ele se viu alvo de duras críticas tanto da ala da
esquerda quanto da direita. Ele desesperou-se com a ascensão da teologia se
cular e da teologia da morte de Deus, bem como com outros movimentos me
nos radicais. Mas também se sentiu fortemente encorajado pelas mudanças na
Igreja Católica Romana durante o 2o Concílio do Vaticano (1962-1965), para o
qual ele foi convidado como observador. Karl Barth faleceu em casa, na Basi
léia, em algum momento da noite de 9 de dezembro de 1968. Morria um gigante
da teologia.
Método Teológico
Como vimos anteriormente, o método teológico de Barth tinha um pólo negativo e
outro positivo. No aspecto negativo ele rejeitava qualquer forma de teologia natu
ral e não se cansava de analisar e anunciar como, de modo sutil e inevitável, ela
acabava levando a uma sujeição do evangelho à cultura:
Com muito respeito e toda a humildade, a teologia natural cristã recria a revela
ção dentro dos moldes de sua própria concepção. Mas, mesmo sendo o seu
comportamento tão respeitoso e sério, mesmo que finja submeter-se consciente
e continuamente, a teologia natural já conquistou por completo a revelação, trans
formando-a em não-revelação. Isso certamente se mostrará naquilo que essa
teologia faz com a revelação que por ela foi absorvida e dominada.15
Barth procurou mostrar como essa sujeição da revelação havia ocorrido na
teologia católica romana clássica, na teologia protestante liberal clássica e até
mesmo na abertura dos cristãos alemães ao nazismo. A partir da história da teo
logia e de seu próprio discernimento acerca da soberania de Deus na mensagemdo evangelho, Barth conclui que:
A lógica da questão determina que, ao abrirmos uma pequena brecha que seja
para a teologia natural, segue-se necessariamente uma negação da revelação de
Deus em Jesus Cristo. Uma teologia natural que não luta para ser absoluta não é
uma teologia natural. E dar lugar a ela é o mesmo que abrir - ainda que não
intencionalmente - o caminho que leva à sua soberania exclusiva.16
Barth resumiu seu próprio posicionamento ao declarar: “A possibilidade de se
conhecer a Palavra de Deus está na Palavra de Deus e em mais nenhum outro
lugar”.17 Essa declaração expressa o lado positivo e o negativo de seu método
teológico. Apesar da falta de disposição da humanidade para com Deus e da
impossibilidade de se conhecer a Deus através da razão, natureza e cultura, em
sua liberdade e graça soberanas, Deus se revelou na história humana e tornou
possível o milagre de conhecê-lo. De acordo com Barth, o acontecimento singular
da História no qual Deus se revelou é o advento de Jesus Cristo. E, em Cristo,
Deus revela a si mesmo e não somente algumas informações ou um modo de
vida. Para Barth, isso significa que “o Deus eterno deve ser conhecido através de
Jesus Cristo e não de qualquer outra forma”.18
Mas como saber que isso é verdade? Barth responde: “A prova da fé consiste
na proclamação da fé. A prova do conhecimento da Palavra [de Deus] consiste
em sua confissão” .19 Em outras palavras, a fé em Jesus Cristo como verdade
revelada de Deus declara sua própria autenticidade. Para o cristão, esse é o fato
fundamental que não precisa do apoio de mais nada, mas que sustenta tudo o que
há. A fé é uma dádiva de Deus.
A Palavra de Deus e a Bíblia
Para Barth, a única fonte de teologia cristã é a Palavra de Deus. Essa Palavra,
entretanto, consiste em três formas ou modos. A primeira forma é Jesus Cristo e
toda a história dos atos de Deus que levaram até a vida de Jesus e estão relacio
nados a ela, bem como à sua morte e ressurreição. Essa é a própria revelação, o
evangelho em si. A segunda forma consiste nas Escrituras, a testemunha privile
giada de toda a revelação divina. Por fim, a proclamação do evangelho através da
igreja constitui a terceira forma. As duas últimas formas são Palavra de Deus
apenas num sentido instrumental, pois tornam-se Palavra de Deus quando Deus
as utiliza para revelar a Jesus Cristo.
Em decorrência disso, a Bíblia não é a Palavra de Deus numa forma estática.
A Palavra de Deus tem sempre um caráter de acontecimento', de certo modo, é
o próprio Deus relatando seu agir. A Bíblia torna-se Palavra de Deus em um
acontecimento: “A Bíblia é a Palavra de Deus à medida que Deus faz com que
ela seja sua Palavra, à medida que Ele fala através dela” .20
A visão de Barth sobre as Escrituras foi motivo de muita crítica e controvér
sia. Os liberais o acusavam de elevar a Bíblia a uma posição especial que quase a
igualava à doutrina tradicional da inspiração verbal, removendo-a, desta forma, de
uma perspectiva histórico-crítica. Os conservadores, por outro lado, atacavam a
forma como Barth subordinava as Escrituras a uma revelação indeterminada e
como negava explicitamente a sua infalibilidade, sendo que alguns chegaram a
rotular sua teologia de “novo modernismo”.
Na verdade, ambas as críticas chegaram perto, mas não atingiram o cerne da
questão. Por um lado, Barth, de fato, negava a posição dada às Escrituras pela
ortodoxia clássica. Ele fazia distinção entre a Bíblia e a Palavra de Deus, afirman
do que “aquilo que temos na Bíblia é, de qualquer maneira, uma série de tentativas
humanas de se repetir e reproduzir essa Palavra de Deus em palavras e pensa
mentos humanos e em situações humanas específicas”.21 Por outro lado, ele ad
vertia seriamente contra o perigo de se concluir que a inspiração divina das Escri
turas - sua posição especial como testemunha privilegiada de Jesus Cristo - é
meramente um julgamento humano. Barth afirmava que sua inspiração não é uma
questão de quanto valor damos a elas ou como nos sentimos em relação a elas.
Certamente, não é nossa fé que faz da Bíblia a Palavra de Deus. Mas não há
maneira melhor de salvaguardar a objetividade da verdade de que ela é a Palavra
de Deus do que insistindo que ela exige e ao mesmo tempo fundamenta nossa fé,
de que é ela que dá substância e vida à nossa fé. Pois, ao fazê-lo, afirmamos que
ela é a verdade do Deus vivo, além do qual não há nenhum outro, de cujo poder
não nos é permitido duvidar mesmo diante da força da subjetividade humana, para
a qual precisamos estar atentos, reconhecendo-a como tal. Se isso é verdade,
devemos, então, compreender a inspiração da Bíblia como uma decisão divina
que é tomada continuamente na vida da igreja e de seus membros”.22
O fato de a Bíblia ser a Palavra de Deus, portanto, não depende de forma
alguma da experiência individual ou das conclusões de estudiosos baseadas em
evidências externas õu internas. Para Barth, a Bíblia é a Palavra de Deus, pois
sempre de novo, independente de qualquer decisão ou iniciativa humana, Deus a
usa para realizar o milagre da fé em Jesus Cristo. A atitude apropriada da igreja
em relação às Escrituras deve ser de obediência e submissão, pois a única autori
dade acima delas é o próprio Jesus Cristo. A Bíblia é mediadora da autoridade de
Jesus Cristo sobre a igreja. Além disso, a Bíblia tem autoridade sobre a igreja pois
“é um registro - aliás, historicamente é o mais antigo registro contínuo - da ori
gem e, portanto, das bases e da natureza da Igreja... Assim, as Sagradas Escritu
ras têm sempre uma autoridade única e singular sobre a Igreja” .23
Fica claro que Barth tinha a mais alta consideração pela Bíblia, colocando-a
sobre todas as autoridades humanas e, ao mesmo tempo, subordinando-a a Jesus
Cristo. Ao longo de sua obra A Dogmática da Igreja, ele tratou a Bíblia como se
fosse verbalmente inspirada e doutrinariamente infalível. Ele nunca apelou para
outra autoridade além das Escrituras ou superior a elas. Pelo contrário, ele afir
mou com ousadia que, sob Jesus Cristo e em completo acordo com ele, é essen
cial para a fé cristã considerar que:
No fim, o que conta é saber se determinado dogma encontra-se nas Escrituras.
Caso contrário, certamente será supérfluo, pois teremos de afirmar em relação a
ele que se trata de algo que leva a igreja a se distrair com outros assuntos e não
faz justiça à tarefa científica conferida a esse dogma pela natureza problemática
de sua proclamação.24
Teologia Cristocêntrica e Trinitariana
A estrutura da teologia de Barth é completamente cristocêntrica. O começo, o
meio e o fim de toda doutrina é a figura de Jesus Cristo - sua vida, morte, ressur
reição, exaltação e união eterna com Deus, o Pai. A cada encruzilhada doutriná
ria, Barth levantava a seguinte questão: Qual a visão correta disto à luz do agir de
Deus em Jesus Cristo? Essa estrutura cristocêntrica oferece a coerência e unida
de que fazem da extensa teologia de Barth um sistema.
Para o teólogo suíço, Jesus Cristo é a única e singular revelação de Deus
sobre si mesmo, a Palavra de Deus em pessoa. A partir dessa declaração básica
de fé, Barth deduziu a divindade de Jesus Cristo: “a revelação é a interpretação
desse Deus acerca de si mesmo. Se estamos tratando de sua revelação, estamos
tratando do próprio Deus e não... de uma entidade distinta dele” .25 Um dos axio
mas básicos de Barth é que por trás da realidade deve haver a possibilidade
correspondente.26 Assim, se Jesus Cristo é quem a fé indica que ele é - a inigualável
revelação do próprio Deus então, de algum modo, ele deve ser idêntico a Deus
e não simplesmente um agente ou representante de Deus. Por trás da realidade
da revelação e dentro dela, portanto, está a sua possibilidade - o Deus Triúno.
Barth via na doutrina da Trindade a única resposta possível para a pergunta: Quem
é esse Deus que se revela? Ele afirmava: “Assim, é o próprio Deus, o mesmo
Deus sem prejuízo de sua unidade, que, de acordo com acompreensão bíblica de
revelação, é, ao mesmo tempo, o Deus que se revela, a revelação em si e também
o seu impacto sobre os homens”.27 Contradizendo diretamente a abordagem de
Schleiermacher, Barth colocou a doutrina da Trindade como ponto de partida para
a teologia. Ele argumentava que:
A doutrina da Trindade é o que, basicamente, define o caráter cristão da doutrina
de Deus e, portanto, distingue como sendo cristão o conceito de revelação, dife
rente de outras doutrinas possíveis sobre Deus e sobre o conceito de revelação.28
De acordo com Barth, portanto, a revelação de Deus é o próprio Deus. Deus
é quem ele se revela ser. Em decorrência disso, Jesus Cristo, como única e
inigualável revelação de Deus, é idêntico a Deus e, portanto, verdadeiramente
humano e verdadeiramente divino: “Jesus Cristo não é um semideus. Ele não é
um anjo. Também não é um homem ideal” .29 “A realidade de Jesus Cristo está no
fato de o próprio Deus encontrar-se presente encarnado. O próprio Deus é Sujei
to, sendo e agindo de modo humano”.30
Barth deixou claro que, ao falar sobre Jesus Cristo, ele estava falando sobre a
encarnação da “Segunda forma do Ser” (Seinsweise) de Deus. Ele preferia o
termo “forma” ao invés de “pessoa” pois, aos ouvidos modernos, a palavra pes
soa inevitavelmente implica “personalidade” e Deus tem apenas uma personali
dade.31 Se Jesus Cristo fosse uma outra personalidade, diferente do Pai, ele não
poderia ser a revelação do Pai. De acordo com Barth, Pai, Filho e Espírito Santo
são formas divinas de ser que existem eternamente dentro da unidade absoluta de
Deus. Ainda, a distinção entre essas formas estabelece a precondição para a
revelação de Deus em Jesus Cristo e sua presença espiritual dentro da vida da
igreja. Deste modo, quando Barth dizia que “Deus é Jesus Cristo e Jesus Cristo é
Deus”,32 ele queria que essa afirmação fosse compreendida dentro do contexto
da Trindade. Jesus Cristo é a segunda forma do ser de Deus, a reafirmação da
própria personalidade do Pai.
Deus como “Aquele que ama em liberdade”
Apesar da doutrina da Trindade ser o centro e o coração de sua doutrina sobre
Deus, Barth dedicou a maior parte de um volume inteiro aos atributos ou perfei-
ções do ser de Deus (A Dogmática da Igreja 2/1). Ele definiu o Ser de Deus
como “Aquele que Ama em Liberdade” e dividiu as perfeições divinas em duas
categorias, as perfeições do amor divino e as perfeições da liberdade divina. Essa
marca substituía a tradicional dualidade divina de imanência e transcendência.
Barth afirmava que a liberdade e o amor de Deus devem ser igualmente
enfatizados e equilibrados a fim de se fazer justiça ao Deus de Jesus Cristo. O
amor de Deus é sua livre escolha de criar a comunhão entre os seres humanos e
ele próprio através de Jesus Cristo.33 Deus deseja ser nosso e quer que sejamos
dele.34 Isto se revela sobretudo na graça de Deus ao identificar-se com a huma
nidade pecaminosa na cruz de Jesus Cristo: “O Caminho do Filho de Deus para
dentro do País Distante”.35 As perfeições que expressam esse grande amor de
Deus são santidade, misericórdia, retidão, paciência e sabedoria.36
Sem de modo algum qualificar o ser de Deus como amor, Barth prosseguiu
enfatizando a liberdade desse amor. Enquanto o amor de Deus pelo mundo é real
e eterno, ele não é necessário. Deus continuaria sendo amor mesmo que ele não
optasse por amar o mundo.37 Barth estava claramente pensando na teologia libe
ral, especialmente naquela influenciada por Hegel, quando advertiu: “Se não tiver
mos cuidado nesse ponto, acabaremos inevitavelmente roubando de Deus a sua
divindade”.38 Deus já possuía amor perfeito e comunhão em si mesmo - em sua
existência triúna - antes de seu amor pelo mundo e comunhão com ele e indepen
dente desse amor.39 Barth argumentava que é só assim que se pode evitar o
panteísmo e o amor de Deus pode ser verdadeiramente gracioso. Se Deus preci
sasse do mundo como objeto do seu amor, então esse amor não seria resultado de
graça pura e o mundo tornar-se-ia necessário para o ser de Deus. Deus seria
privado de sua divindade.
Indo contra toda a corrente de pensamento liberal sobre Deus desde
Schleiermacher e Hegel, Barth afirmava a transcendência absoluta de Deus sobre
o mundo, considerando-a em termos relacionados à liberdade de Deus: “O caráter
elevado, a majestade soberana, a santidade, a glória - até mesmo aquilo que chama
mos de transcendência de Deus - , o que é tudo isso senão a determinação própria,
a liberdade, o viver e o amar do ser divino?” 40 Na verdade, Deus só é Deus porque
é absoluto em relação ao mundo: “Deus confronta tudo aquilo que está em suprema
e completa independência, ou seja, Ele não seria diferente e nem menos do que é
mesmo se todas essas coisas não existissem ou existissem de alguma outra for
ma.”41 As perfeições da liberdade de Deus são unidade e onipresença, constância e
onipotência, eternidade e glória- sendo que Barth reinterpretou todas elas de modo
criativo.42 Apesar de sua ênfase na liberdade de Deus, Barth não interpretou o
amor de Deus como sendo um mero capricho, algo que não acrescenta nada à vida
divina e pelo qual Deus pouco se interessa. Pelo contrário, a plenitude de vida de
Deus dentro si mesmo “inclina-se” para essa unidade com as suas criaturas.43 Além
do mais, Deus não é prisioneiro de sua liberdade, mas escolhe livremente projetar-
se para fora de si mesmo e entrar em verdadeira comunhão com o mundo num
gesto que alcança sua mais profunda unidade em Jesus Cristo. De fato, esse dese
jo e decisão de buscar a união com as criaturas através de Jesus Cristo foi, para
Barth, o substrato e a base para a própria criação do mundo. A única razão de
Deus ter criado o mundo foi para que pudesse entrar numa comunhão de aliança
com esse mundo através da encarnação, morte e ressurreição de Jesus”.44
Assim, Barth não reconheceu nenhum Deus escondido atrás do Deus de amor
revelado em Jesus. Memo que Deus pudesse ter reservado sua vida e amor para
ele somente e retido isso do mundo, “Ele não deseja ser Deus sem nós... e nos
criou, antes, para compartilhar conosco e consequentemente com nosso ser, vida
e ação, Seu próprio ser, vida e ação incomparáveis” .45
A Doutrina da Eleição
De acordo com Barth, a cruz de Jesus Cristo é o acontecimento supremo da entra
da de Deus na história da humanidade - o Filho de Deus vai para o “país distante”
para tomar sobre si a ira e a rejeição divinas que a humanidade tanto merecia.
Assim, Jesus Cristo é o homem eleito e rejeitado (maldito), sendo que todos os
seres humanos estão incluídos nele e são por ele representados: “A rejeição que os
homens trouxeram sobre si mesmos, a ira de Deus sob a qual estão todos os ho
mens, a morte que todos os homens deveriam sofrer, Deus, em seu amor pela
humanidade, transfere tudo eternamente sobre Aquele através do qual Ele os ama
e os elege, Aquele escolhido por Ele para ir adiante deles e tomar seu lugar.”46
Como sua teologia de um modo geral, a doutrina da eleição apresentada
por Barth é “cristomonística”. Para ele, Jesus Cristo é o único objeto da elei
ção e da maldição de Deus. Nenhum decreto terrível de predestinação dupla
divide a humanidade em salva e maldita. Pelo contrário, todos estão incluídos
em Jesus Cristo, que é tanto o Deus que elege como o ser humano eleito por
ele, e os benefícios de sua obra salvadora estendem-se sobre todos eles. E
somente ele quem sofre a rejeição de Deus e, obviamente, isso é Deus rejei
tando a si mesmo: “na eleição de Jesus Cristo, que é a vontade eterna de Deus,
Deus oferece ao homem... eleição, salvação e vida; e a Si mesmo designa...
rejeição, perdição e morte.”47 Assim, para Barth, a predestinação significa
que, desde a eternidade, Deus decidiu absolver a humanidade a um alto preço
para si mesmo.48
Mas, a quem se estende essa absolvição de Deus? Barth deixou absoluta
mente claro que Jesus Cristo é a única pessoa verdadeiramente rejeitada e que,
nele, todos os seres humanos sãoeleitos.49 As pessoas podem tentar viver uma
existência perversa de rejeição a Deus, mas “seus desejos e intentos foram anu
lados por Deus antes do começo do mundo... o que está reservado à humanidade
é a vida eterna em comunhão com Deus”.50
E possível que essa afirmação corresponda à doutrina de apokatastasis ou
universalismo? Ao escrever sobre essa pergunta, Barth recusou-se a dar uma
resposta direta: “Não é isso que ensino, mas também não é isso que não ensi
no!”51 De qualquer modo, podemos imaginar qual deve ser a resposta. Conforme
o estudioso católico Hans Urs von Balthasar indicou, “fica claro na apresentação
que Barth faz de sua doutrina da eleição que a salvação universal não é apenas
possível como inevitável. A única realidade permanente é a graça e qualquer
julgamento condenatório tem de ser meramente provisório”.52
Avaliação
A carreira de Barth começou de maneira controversa. Portanto, não é de se
surpreender que a controvérsia tenha cercado seu próprio método teológico. Os
herdeiros da teologia liberal que ele rejeitou com tanta veemência muitas vezes
desprezaram sua abordagem como sendo fideísta, como se exigisse que os pensa
dores modernos sacrificassem a razão e voltassem à tutela da autoridade religio
sa.53 Porém, esses críticos não tiveram muito sucesso em responder à acusação
de Barth de que a abordagem da teologia adotada por eles leva à sujeição do
Cristianismo à cultura.
Alguns teólogos protestantes conservadores repetiram a acusação de que a
teologia de Barth é fideísta. No seu modo de ver, ele coloca em risco o testemu
nho cristão e o evangelismo ao dificultar qualquer possibilidade de apologética.54
Outros conservadores, entretanto, apoiaram o método teológico básico de Barth
como sendo a melhor resposta à exaltação iluminista da razão autônoma e ao
desafio que essa exaltação apresenta para o Cristianismo ortodoxo.55
A força do método teológico de Barth está em sua total dependência da
revelação. Por causa disso, sua teologia é verdadeiramente “teológica”, livre da
dependência de sistemas filosóficos ou modismos culturais e intelectuais. Conse
qüentemente, a teologia de Barth é capaz de posicionar-se de maneira profética
em relação ao mundo, um ponto forte claramente demonstrado em suas primeiras
denúncias do nazismo como forma de idolatria originária da teologia natural. A
natureza teológica de sua abordagem também permite que sua teologia seja de
proclamação, isto é, uma teologia para a pregação. Por estarem construídos total
mente sobre a revelação, os grandes temas do evangelho permanecem livres do
perigo de serem reduzidos a meras representações de verdades filosóficas.
No geral, portanto, o método teológico de Barth preserva a autonomia da
teologia sobre as outras disciplinas. A teologia continua sendo a ciência irredutível
da Palavra de Deus.
A maior força da teologia também é a fonte da maior fraqueza do método
teológico de Barth, uma fraqueza que surge do extremo ao qual ele leva a autono
mia teológica. Sua recusa a todo tipo de justificação racional da verdade da reve
lação conduz a uma teologia que vai além da autonomia e acaba no isolamento. Se
não há pontes inteligíveis ligando a teologia com a experiência humana comum ou
com as outras disciplinas, de que maneira a fé cristã pode ser algo mais do que
esoterismo para aqueles que estão do lado de fora? Uma coisa é Barth rejeitar a
forma como a teologia liberal reduzia a fé cristã àquilo que podia ser antecipado
dentro dos horizontes da experiência humana; mas outra coisa bem diferente é
eliminar qualquer ligação entre crença e experiência.
Wentzel van Huyssteen resumiu esse problema:
É justificada a maneira como Barth rejeita a redução do objeto teológico à cons
ciência religiosa da humanidade... Mas o suposto dado axiomático de Deus e sua
revelação não deixa nenhum escape... pois a qualidade absoluta dada, deste modo,
à revelação não oferece nenhuma alternativa para o subjetivismo dentro da teolo
gia. Uma teologia absolutista de revelação, que adota um método altamente
esotérico, torna extremamente difícil convencer outros de que os princípios bá
sicos da teologia - Deus, a revelação, as Escrituras Sagradas, a inspiração, etc. -
não são produtos de um capricho subjetivo, quer pessoal ou dirigido pela influên
cia de uma tradição.56
Um segundo ponto controverso do método teológico de Barth é seu suposto
cristomonismo. Alguns dos críticos de Barth usaram esse termo para descrever
a concentração exagerada sobre a figura de Jesus Cristo, presente ao longo de
toda a sua teologia. Barth não apenas fez de Jesus Cristo o centro e o coração de
sua teologia, tomando-a “cristocêntrica”, como também restringiu o conhecimen
to de Deus àquilo que é revelado em Cristo. Hans Urs von Balthasar descreveu o
pensamento de Barth como uma ampulheta intelectual “em que Deus e o homem
encontram-se no centro através de Jesus Cristo. Não há nenhum outro ponto de
encontro na parte superior ou inferior da ampulheta”.57 O problema dessa posição
é que ela conduz a uma negação de qualquer revelação geral, daquela forma de
revelação que parece constituir o cerne de toda a argumentação de Paulo no
primeiro capítulo de Romanos.
A acusação de cristomonismo surge também do uso que Barth faz da pessoa
de Jesus Cristo como fundamento e princípio organizador de toda a sua teologia.
Toda doutrina torna-se uma forma de cristologia. Uma ilustração clara está na
doutrina de Barth sobre a eleição. Jesus Cristo é tanto o sujeito quanto o objeto da
predestinação. Mas onde, exatamente, encaixa-se Deus, o Pai, e os seres huma
nos dentro dessa estrutura?
Talvez cristomonismo seja um termo forte demais para descrever de maneira
justa a teologia de Barth. Ele, certamente, não nega a distinção entre o Filho, o Pai
e o Espírito Santo. E, com certeza, ele não obscurece a distinção entre Cristo e o
mundo. Além disso, o termo é polêmico demais para fazer justiça à grande con
tribuição oferecida por Barth ao trazer Cristo de volta para o centro do pensa
mento cristão, onde é seu devido lugar. Ainda assim, a concentração extrema
do teólogo suíço na cristologia dá à sua teologia uma impressão de unilateralidade
e de negligência do papel do Pai, do Espírito Santo e dos seres humanos na
história da salvação.
A doutrina de Barth sobre as Escrituras é alvo de muitas críticas, tanto por
parte dos teólogos liberais quanto dos conservadores. Os liberais o acusam de
ignorar os resultados do criticismo superior e de tratar a Bíblia como se fosse
verbalmente inspirada. Os conservadores, por sua vez, acusam Barth de fazer
uma distinção radical demais entre a “Palavra de Deus” e a Bíblia e de negar a
infalibilidade doutrinária da Bíblia.58 Os dois lados costumam ignorar a diferença
entre a teoria de Barth acerca das Escrituras e o uso que ele fazia dessa teoria.
Os liberais concentram-se no seu uso das Escrituras e ignoram suas fortes afir
mações sobre a natureza humana da Bíblia. Os conservadores concentram-se em
sua teoria e ignoram a forma com que Barth tratou as Escrituras - como autorida
de absoluta na teologia.
A aparente incoerência de Barth entre a teoria e a prática, na verdade, não é
digna de críticas. Teria sido possível para Barth elaborar sua magnífica exposição
moderna das crenças clássicas do Cristianismo se ele tivesse permanecido com
pletamente coerente à sua teoria das Escrituras? Em termos simples, sua afirma
ção sobre a tensão que existe entre a Palavra de Deus e as proposições doutriná-
rias da Bíblia dificilmente serve para uma exposição proposicional tão sistemati
zada dos ensinamentos bíblicos.
Uma das maiores contribuições de Barth para a teologia do século 20 foi o
fato de ter recuperado a doutrina da Trindade da obscuridade em que ela se
encontrava. Teólogos liberais de Schleiermacher em diante haviam tratado essa
doutrina como se fosse uma relíquia da suposta influência helenística sobre o
Cristianismo primitivo e haviam falhado em reconhecersua relevância. Sob a
influência de Barth, a teologia voltou a considerar seriamente a doutrina da Trin
dade, mesmo que ainda não tenha chegado ao um consenso sobre ela.
Porém, a forma como ele tratou a questão da Trindade ainda não encontrou
um acordo universal. Alguns críticos argumentam que a abordagem de Barth é
implicitamente modal: reduz Deus a uma única subjetividade ao identificar a es
sência de Deus com a sua “pessoa” e ao empregar o termo formas de Ser para
as distinções dentro da Trindade.59 Essa crítica é parcialmente válida no que diz
respeito ao primeiro volume de A Dogmática da Igreja, no qual Barth derivou o
caráter triúno de Deus do conceito da divina revelação de Si mesmo e identificou
enfaticamente o ser de Deus com sua essência ou natureza singular.60 Porém, até
mesmo nesse caso, ele rejeitou o modalismo, ao afirmar “a realidade suprema das
três formas de ser de Deus, que estão acima de tudo e por trás de tudo, sendo que
não existe nada maior do que elas”.61 Em volumes posteriores de sua obra, Barth
deixou absolutamente clara a sua rejeição ao modalismo e declarou a distinção
eterna e irredutível entre Pai, Filho e Espírito Santo, ao afirmar uma ordem de
obediência dentro do ser eterno de Deus (ainda que rejeitando qualquer tipo de
subordinacionismo) .62
Conclusão
Em termos de fluxo da história teológica do século 20, uma das grandes forças da
teologia de Barth está na sua recuperação da transcendência de Deus. Somente
se o amor de Deus pelo mundo for absolutamente livre é que ele pode existir pela
graça. A graça presente na relação de Deus com o mundo é o centro do evange
lho cristão.
Em seu zelo de proteger a liberdade e a transcendência de Deus, entretan
to, Barth pode ter sacrificado muito do aspecto humano do relacionamento
entre Deus e o mundo. Isso fica mais claramente ilustrado na sua doutrina da
salvação. Nela, o triunfante “Sim!” de Deus em Jesus Cristo anula todo o
“Não!” dos seres humanos. Como G. C. Berkouwer, um dos críticos mais sim
patizantes de Barth, corretamente concluiu, “na teologia de Barth, o triunfo da
graça relativiza a seriedade da decisão do ser humano, assim como o kerugma
[sic] é ameaçado de tornar-se uma simples anunciação sem nenhuma exor
tação vital” .63
Podemos ser tentados a dizer que, enquanto Schleiermacher errou ao procu
rar falar de Deus, falando da humanidade em alta voz, Barth errou ao falar da
humanidade, falando de Deus em alta voz. Talvez o erro de Barth seja menos
grave, mas teria sido melhor se nenhum deles tivesse ocorrido.
EMIL BRUNNER:
T r a n s c e n d ê n c ia n o E n c o n t r o e n t r e o D iv in o e o H u m a n o
Não é incomum nos meios acadêmicos acontecer de um gigante ser superado
por personalidades colossais. A estatura de Brunner e sua influência sobre a
teologia do século 20 seriam indiscutíveis, não fosse pela presença de Barth e
Bultmann, que acabaram por superá-lo. Juntos, esses três formaram um triunvirato
de teólogos dialéticos que revolucionaram a disciplina ao reafirmar os temas clás
sicos da Reforma protestante no contexto do século 20. Apesar de sua aliança
inicial, eles, mais tarde, entraram em divergências radicais entre si, especialmente
nos anos que sucederam a Segunda Guerra Mundial, que marcaram o ápice de
sua influência sobre o mundo de língua inglesa.
Apesar de Barth ter se tornado mais famoso e controverso do que Brunner,
foi este quem expôs pela primeira vez a teologia da transcendência de Deus na
Inglaterra e nos Estados Unidos. Brunner estudou na Inglaterra logo depois da Ia
Guerra e, em seguida, nos Estados Unidos. Também conferiu palestras nos dois
países durante as décadas de 30,40 e 50; e alguns de seus livros foram traduzidos
e vastamente lidos antes dos de Barth. Ele escreveu trabalhos teológicos tanto
para os meios acadêmicos como para o público em geral e participou ativamente
de grupos interdenominacionais. Todas essas atividades fizeram dele um dos pri
meiros líderes da teologia dialética entre os teólogos de língua inglesa.
A extensão e o peso dos trabalhos teológicos de Barth, porém, acabaram
relegando a reputação de Brunner a uma posição secundária, para seu grande
desespero. Mesmo assim, a influência de Brunner ainda pode ser sentida pelo uso
de sua Dogmática (teologia sistemática) nos seminários americanos e britânicos.
Apesar de não admitirem, muitos teólogos preferem Brunner a Barth, pela clare
za de seus escritos e amplitude de sua visão acerca da verdade cristã.
A Vida e a Carreira de Brunner
Emil Brunner nasceu dois dias após o Natal de 1889, em Zurique, na Suíça.
Cresceu e foi educado dentro da tradição reformada de Zwingli e Calvino e
recebeu o doutorado em teologia pela Universidade de Zurique em 1913. Pas
sou a maior parte de sua vida lecionando teologia na mesma universidade, onde
ocupou uma cátedra de 1924 até sua aposentadoria em 1955. Lecionou tam
bém na Universidade de Princeton, durante um ano (1938-1939), e na Univer
sidade Cristã de Tóquio, de 1953 a 1955. Ele pregava com freqüência na gran
de catedral de Zurique, onde Ulrich Zwingli havia dado seus poderosos ser
mões durante a Reforma, e tanto suas aulas quanto sua casa estavam sempre
de portas abertas para alunos estrangeiros, muitos deles americanos. Um gran
de número de teólogos dos Estados Unidos foi a Zurique e, através deles, sua
influência sobre a teologia americana continuou até os anos 60 e 70. Brunner
morreu em sua cidade natal, Zurique, em abril de 1966, no fim de uma longa
enfermidade que havia afetado seriamente sua capacidade de trabalhar após
sua aposentadoria.
Brunner foi um autor muito profícuo, tendo escrito diversos tratados e arti
gos sobre teologia, ética social e vida cristã. Estes incluem The Mediator [O
Mediador], um longo tratado sobre a pessoa e a obra de Cristo; Man in Revolt
[Homem em Revolta], uma antropologia cristã; The Divine Imperative [O Im
perativo Divino], uma ética cristã sistemática e Revelation and Reason [Reve
lação e Razão], um estudo do método teológico. Mais para o fim de sua carreira,
ele compilou o trabalho de toda a sua vida em Dogmatics [A Dogmática], uma
obra de três volumes. Esses volumes contêm o seu pensamento maduro sobre
os mais importantes credos, bem como muitas das controvérsias da teologia do
século 20. Um aspecto notável é seu constante esforço no sentido de distinguir
sua própria teologia daquela do homem sob cuja sombra ele lutava por reconhe
cimento - Karl Barth.
Preocupações Teológicas
Quase todo teólogo é influenciado pela preocupação com o rumo incorreto que
ele vê a teologia tomar. Fica claro que a principal preocupação de Brunner era ir
contra o movimento da teologia do século 19 e começo do século 20 em direção a
uma espécie de imanência que, nas palavras de Paul Jewett, “considera Deus e o
homem metafísica, epistemológica e eticamente contínuos, de forma que o ho
mem possa chegar ao verdadeiro conhecimento de Deus dentro da estrutura de
suas próprias capacidades inatas”.1 Uma teologia de imanência como essa foi
epitomada nos vários ramos do pensamento hegeliano e ficou implícita em toda a
metodologia teológica do liberalismo protestante clássico na virada do século.
Apesar de ser apenas mencionado ocasionalmente, Schleiermacher parece
ter sido alvo de grande parte do desprezo de Brunner como o paradigma dos
teólogos cristãos que transformam o conhecimento sobre de Deus numa capaci
dade natural da humanidade. A teologia de Brunner é um ataque contínuo a todas
as tentativas de se captar o ser de Deus com a razão natural e de modo indepen
dente da revelação ou transformar qualquer filosofia humana em uma estrutura
necessária para a compreensão da Palavra de Deus. Ele repetiu Tertuliano, Pascal
e Kierkegaard ao afirmar: “Se Deus é aquilo.... que o Teísmo afirma que Ele é,
então Ele não é o Deus da revelação bíblica, o Senhor soberano e Criador, Santo
e Misericordioso. Mas, se Ele é o Deus da revelação, então Ele não é o Deus do
Teísmofilosófico.”2
Além de sua luta contra a teologia da imanência, Brunner encarou mais dois
oponentes: a “ortodoxia” e Karl Barth. Como acontece com freqüência entre os
pensadores, Brunner viu em seus aliados mais próximos os seus maiores inimigos.
Em muitos sentidos, sua teologia é paralela àquela dos teólogos protestantes orto
doxos. Ainda assim, ele os condenava por identificarem as palavras das Escritu
ras com a Palavra de Deus. Conforme mostraremos mais adiante, Brunner nunca
foi tão veemente e nem tão injusto quanto nas suas críticas em relação à doutrina
das Escrituras da ortodoxia. Ele não possuía nenhuma hostilidade pessoal contra
Barth, que vivia a poucos quilômetros de sua casa e cuja teologia acabou por
eclipsar a sua. Porém, Barth nunca foi tão veemente e nem tão injusto quanto em
seu ataque à doutrina de Brunner acerca da revelação no livreto Nein! (Não!).3
Depois de suas desavenças na metade dos anos 30, Brunner e Barth trata
ram-se com frieza até os anos 60, quando estudantes americanos organizaram um
encontro entre os dois. Ao longo de A Dogmática, Brunner enfatizou de modo
um tanto exagerado o quanto discordava de Barth. Até seus últimos dias, ele
permaneceu extremamente crítico em relação à doutrina de Barth acerca da elei
ção, que, para ele, acabaria inevitavelmente no universalismo, tornando desneces
sária uma decisão pessoal a favor ou contra Jesus Cristo.4
Personalismo Bíblico
A teologia de Brunner não deve ser definida em termos daquilo a que ele se opu
nha. De um modo geral, suas preocupações com o rumo que os teólogos estavam
tomando foi o que o direcionou na ênfase que escolheu dar ao seu trabalho. Po
rém, sua contribuição à teologia contemporânea tem seu lado positivo e original.
Essa começa quando ele identifica a revelação como um “Encontro Eu-Tu” que
acontece entre o indivíduo e Deus. Ao apresentar aquilo que ele acreditava ser a
definição bíblica da verdade da revelação, Brunner tomou emprestadas diversas
idéias de dois pensadores existencialistas do século 20: Ferdinand Ebner e Martin
Buber. Ele referia-se a Ebner, que morreu em 1931, como um “gênio excêntrico”
e admitia sua dívida para com a importância do pensador que fez época.5 Mas foi
o teólogo e filósofo judeu Martin Buber que influenciou Brunner mais diretamente
em sua “descoberta” do conceito bíblico de verdade como um encontro entre o
divino e o humano. Buber desenvolveu essa visão de modo mais completo em seu
livro Eu e Vós,6 e Brunner explicou o seu significado para a doutrina cristã da
revelação em A Verdade como um Encontro J
A fim de compreender a natureza da revelação de modo consoante com o
pensamento de Buber, Brunner argumentava que é preciso, antes de mais nada,
fazer-se uma distinção entre a “verdade-objeto” e a “verdade-Vós”. A primeira é
o conhecimento adequado dos objetos do mundo, enquanto a segunda refere-se
ao mundo das pessoas. Existe uma diferença fundamental entre as pessoas e os
objetos; o não reconhecimento dessa diferença e de suas conseqüências para
todas as áreas da vida é a base dos grandes erros da filosofia.
Conseqüentemente, desenvolvendo o pensamento de Ebner e Buber, Brunner
afirmava que qualquer teologia que trate o conhecimento de Deus de maneira
análoga ao conhecimento de objetos (como, por exemplo, planetas distantes ou
partículas subatômicas) é fundamentalmente equivocada. A própria essência do
Cristianismo está na ocorrência do encontro entre Deus e a humanidade. O co
nhecimento de Deus é pessoal - no sentido de que transcende o plano dos objetos
e o dualismo sujeito/objeto existente no conhecimento desses objetos - exigindo
uma decisão pessoal, uma resposta e um compromisso:
A verdade como um encontro não é uma verdade sobre algo, nem mesmo a
verdade sobre algo mental, sobre idéias. Pelo contrário, é aquela verdade que
despedaça o conceito impessoal de mente e verdade, é a verdade que só pode ser
expressada corretamente na forma de Eu-Tu. Todos os termos impessoais usa
dos para descrever o divino, o transcendente e o absoluto são uma tentativa
inadequada inventada pelo pensamento solitário do self de se falar sobre Ele.8
De acordo com Brunner, pelo fato de Deus ser pessoal, a verdade e o conhe
cimento sobre ele devem estar de acordo com o “Tu” . Conseqüentemente, a
verdade cristã deve ser a verdade vista como um encontro, uma verdade que
acontece durante a crise gerada pelo encontro entre Deus e a pessoa humana, em
que Deus fala e a pessoa responde. Somente essa verdade pode fazer justiça à
liberdade e responsabilidade das pessoas; somente essa verdade preserva o cen
tro do evangelho, a saber, o relacionamento pessoal com Deus: “Essa verdade
chega até o homem sob a forma de uma convocação pessoal; ela não é fruto da
reflexão; portanto, desde o início, ela o torna diretamente responsável.”9 A partir
de seu conceito de revelação como um encontro Eu-Tu, toda a abordagem teoló
gica de Brunner passou a ser chamada de “personalismo bíblico” . De fato, eljb
deu grande importância a essa reflexão e sua tentativa de centralizar todo o resto
em torno dela, é sua maior contribuição para a teologia.
Brunner acreditava que grande parte dos problemas da teologia moderna ori
ginou-se de um tipo de pensamento que colocava o sujeito e o objeto do conheci
mento um contra o outro, e depois subordinava um ao outro. Esse modelo de
conhecimento foi tirado da esfera dos objetos impessoais. Como resultado disso,
as ciências naturais tornaram-se a medida da verdade e a razão autônoma trans
formou-se no único método apropriado de conhecer a realidade. Mas isso natu
ralmente leva a uma distorção da fé, fazendo dela um tipo de conhecimento
objetivo quer sobre as doutrinas, quer sobre as verdades eternas. Ele argumen
tava que, tanto num caso como no outro, o caráter pessoal da fé e da revelação
é violado.
Revelação como um Encontro
De acordo com Brunner, palavras e proposições sobre Deus não podem ser
consideradas revelação, pois, inevitavelmente, transformam Deus em um objeto
e acabam caindo na esfera do “conhecimento do objeto” . Ele afirmava: “Ne
nhum discurso, nenhuma palavra é adequada para o mistério de Deus como
Pessoa.”10 A revelação autêntica, portanto, é sempre um acontecimento pes
soal, um relacionamento de encontro que supera qualquer barreira sujeito-obje-
to e comunica verdadeiramente o ser de Deus à pessoa humana: “A revelação
nunca é apenas a mera comunicação de conhecimento, mas sim uma comunhão
vivificante e renovadora.” 11
O tipo de revelação que Brunner enfatizava acontece em dois momentos:
historicamente, na encarnação de Deus em Jesus Cristo e, no tempo presente, no
testimonium spiritus internum, o testemunho interior do Espírito Santo sobre
Jesus Cristo que toma Cristo um contemporâneo do crente:12
Somente nessa Palavra do Espírito Santo é que a revelação divina de Jesus Cristo
torna-se a palavra verdadeira e real de Deus para o homem, dentro da qual o
termo parabólico da revelação histórica Deus dixit [Deus falou] torna-se Deus
dicit [Deus fala] e deve ser compreendido literalmente.13
O ponto mais importante da doutrina de Brunner acerca da revelação é que,
nela, Deus não comunica algo sobre si mesmo, ele comunica o seu próprio ser.14
Uma crítica óbvia e repetida com freqüência sobre essa visão é de que ninguém
pode receber uma comunicação de uma pessoa sem saber algo sobre a pessoa. E
possível a revelação ser completamente não-proposicional?15 Brunner concorda
va que o conhecimento proposicional de Deus surge natural e necessariamente
do encontro entre o divino e o humano, que é a própria revelação. Porém, ele
afirmava que tal conhecimento proposicional deve ser diferenciado da revela
ção em si. Ele declarava que “a palavra falada é uma revelação indireta, quando
serve de testemunha para a verdadeira revelação: Jesus Cristo, a manifestação
pessoal de Deus, Emanuel”.16 E “a Palavra que foi formulada no discurso huma
no agora é apenas revelação num sentido indireto;é revelação sob a forma de
testemunho Dele”.17
O que Brunner estava tentando evitar era a heresia do “Teologismo” - colo
car a doutrina ou teologia no lugar da fé pessoal.18 Assim, ele afirmava que a fé
pessoal que surge do encontro Eu-Tu com Deus através de Jesus Cristo dá ori
gem a uma reflexão e a palavras sobre Deus. Mas estas não devem jamais ser
confundidas com a revelação em si; do contrário, a crença nessas palavras pode
acabar por substituir a verdadeira fé. Mesmo o testemunho dos apóstolos, indis
pensável à fé, não é objeto da fé em si. A doutrina, que é a reflexão racional sobre
o testemunho e os ensinamentos dos apóstolos está ainda mais distante da essên
cia da fé. A doutrina está na esfera da “verdade-objeto” e não da “verdade-Vós”.
Conseqüentemente, ela não pode ser o objeto da fé e a crença nela não pode
substituir a verdadeira fé. Brunner afirmava, porém, que esses instrumentos se
cundários de revelação têm papel indispensável no exercício da fé.19
Diante disso, onde se situa a Bíblia? Brunner oferecia um posicionamento
duplo em relação às Escrituras. Por um lado, elas são testemunho absolutamente
indispensável de Jesus Cristo. Portanto, são tanto fonte de fé quanto de teologia.
Mas, por outro lado, as Escrituras não são verbalmente inspiradas por Deus e
nem proposição infalível da Palavra à humanidade.
Brunner recusava-se terminantemente a identificar a revelação com as pala
vras das Escrituras. As Escrituras são um veículo singular e instrumento de reve
lação no sentido de que contêm o primeiro testemunho da revelação de Deus em
Jesus Cristo.20 Porém, isso significava para ele que nem tudo nas Escrituras têm
igual valor ou mesmo caráter verdadeiro:
As Escrituras - primeiro testemunho dos Apóstolos acerca de Cristo - são o
“berço onde está deitado Cristo” (Lutero). São a “palavra” inspirada pelo Espírito
de Deus. Entretanto, são ao mesmo tempo, uma mensagem humana; seu “cará
ter humano” significa que possuem a influência da fragilidade e imperfeição de
tudo o que é humano.21
A doutrina da inspiração foi alvo específico dos ataques de Brunner. Ele se
queixava dela por causa de seus supostos “resultados desastrosos”, incluindo a
aridez intelectual e confusão entre revelação e “doutrinas reveladas” .22 Todavia,
tinha em alta consideração a autoridade das Escrituras como testemunho indis
pensável da revelação original - Jesus Cristo - e como instrumento de revelação
- o encontro Eu-Tu com Deus em que o crente se torna contemporâneo de Jesus
Cristo. Brunner afirmava que, em decorrência dessa função das Escrituras, a
Bíblia é a base e a norma para a doutrina cristã: “A doutrina cristã é legítima,
verdadeiramente baseada na revelação, e a fé que se apóia nessa doutrina é a fé
do verdadeiro conhecimento, somente quando essa doutrina e essa fé estão em
concordância com os ensinamentos da Bíblia.”23
Depois de fazer uma avaliação tão positiva da autoridade da Bíblia, ao que
parece, Brunner preocupou-se com o fato de que talvez tivesse chegado perto
demais de uma doutrina ortodoxa tradicional das Escrituras, arriscando com isso,
colocá-las em pé de igualdade com a revelação. Assim, ele voltou-se para Jesus
Cristo como a única e verdadeira norma e autoridade para a fé cristã, relegando a
um segundo plano tanto o testemunho apostólico quanto a Bíblia que o contém,
sendo, portanto, autoridades relativas abertas à críticas e correções:
A palavra das Escrituras não é a Suprema Corte, tendo em vista que o próprio
Jesus Cristo é essa autoridade absoluta; porém, mesmo quando examinamos a
doutrina das Escrituras, nos mantemos dentro dessas Escrituras não como uma
forma de autoridade em si, mas como a fonte de toda a verdade que possui a
autoridade absoluta.24
Brunner desejava evitar qualquer traço de imanência em sua doutrina da
revelação. Por outro lado, queria eliminar a imanência da revelação no conheci
mento natural e na experiência humana e, ao mesmo tempo, preservar a
transcendência dessa revelação, igualando-a à singular Palavra de Deus em
Cristo, ao testemunho apostólico sobre Cristo e ao encontro Eu-Tu entre o indiví
duo e Deus. Isso o levou a uma completa e inequívoca rejeição de todo o “co
nhecimento natural de Deus” . Por outro lado, ele também desejava eliminar
qualquer imanência da revelação nas proposições humanas - mesmo naquelas
consideradas divinamente “inspiradas” . Colocar a revelação no mesmo nível das
palavras humanas seria uma negação da transcendência, que é oposta a todas as
coisas finitas, condicionais e temporais, bem como a tudo o que pertence à esfera
da “verdade-objeto”.
Ao mesmo tempo, Brunner não era capaz de descartar qualquer fonte e norma
objetiva para a doutrina cristã. Pelo contrário, ele situava essa fonte e norma nas
Escrituras. Ainda assim, Brunner negava que a Bíblia é uma norma absoluta. Na
melhor das hipóteses, ela é apenas uma aproximação dessa norma.
Isso levanta uma questão sugerida com menos clareza anteriormente: De que
modo um conhecimento - como a teologia afirma ser - pode ter uma natureza
completamente não proposicional? E podem as Escrituras funcionar como o tipo
de norma que Brunner desejava que fossem (pelo menos durante algum tempo),
sem a existência da inspiração verbal? Paul King Jewett, que estudou com Brunner
em Zurique, argumentou que a doutrina de Brunner acerca da revelação e das
Escrituras é fundamentalmente incoerente.25 Ao invés de conseguir manter a
autoridade das Escrituras separada da doutrina da inspiração verbal, Brunner sim
plesmente ia de um lado para o outro, variando entre uma forma de “teopneustia”
(inspiração divina) e um abandono total da autoridade escriturística.26 Em vez de
transcender a antítese ortodoxo-liberal quanto às Escrituras, de acordo com Jewett,
Brunner simplesmente ficou entre os dois, “ora fazendo asserções que envolvem
a identificação da Palavra de Deus com as palavras dos homens, ora relativizando
a função das Escrituras como um veículo da revelação, chegando ao ponto de
perder por completo o seu caráter normativo”.27 Jewett criticou a distinção abso
luta que Brunner fazia entre a “verdade-objeto” e a “verdade-Vós” como sendo
impossível de se manter. Se a revelação divina deve servir de norma para a dou
trina cristã, conforme Brunner pretendia, então ela não pode ser completamente
destituída de conteúdo proposicional. De outro modo, não há ligação entre reve
lação e confissão, entre encontro pessoal e doutrina.
O próprio Brunner, por vezes, parecia reconhecer essa dificuldade. Ele admi
tia a confissão dos discípulos de que Jesus é o Filho de Deus como sendo o
testemunho do Espírito de Deus em forma de palavras humanas.28 Ou seja, até
mesmo para Brunner, a confissão “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” é a
Palavra de Deus sendo falada por seres humanos; ela é testemunho divinamente
inspirado.29 Uma vez que Brunner admitiu esse caso único de identidade entre o
discurso humano e a Palavra de Deus, perdeu-se definitivamente a “separação
dimensional” entre a verdade proposicional e a revelação divina.30 Brunner es
corregou nesse ponto, pois até mesmo ele reconheceu que, sem a presença de um
certo elemento proposicional, a revelação divina não pode servir de “fonte e nor
ma” da doutrina cristã. A revelação fica sendo apenas uma experiência subjetiva.
Apesar de ter consciência da questão, Brunner continuou a insistir na nature
za não-proposicional da revelação e na ausência de identificação entre a Palavra
de Deus e as palavras humanas dentro da Bíblia. Assim, Jewett certamente esta
va certo quando concluiu que “num gesto de vontade consciente, Brunner suspen
de o processo de rompimento com a tradição, quando está à beira de abandonar
completamente a autoridade da Bíblia”.31 É só quando cai em evidente contradi
ção em sua própria doutrina da revelação que ele oferece algum tipo de norma
objetiva ou critério para a verdade doutrinária.
Brunner deveria ter mantido sua valiosa distinção entreverdade-objeto e ver-
dade-Vós e, ao mesmo tempo, ter fornecido maior possibilidade de compreensão
da interdependência mútua dessas duas verdades, fazendo, desse modo, maior
justiça à sua própria abordagem dialética da teologia. A teologia não pode ser
guiada e controlada por uma revelação divina que não tem nenhum aspecto de
verdade-objeto, mesmo que esse elemento proposicional seja visto como secun
dário dentro da experiência do encontro Eu-Tu.32
Controvérsia com Barth ^
Como mencionamos anteriormente, Brunner buscava distinguir sua própria con
tribuição à teologia da contribuição de Barth, ao enfatizar duas importantes dife-
renças: o lugar da “revelação geral” e a doutrina de Deus, especialmente acerca
da eleição e da predestinação.
No meio da década de 30, uma altercação entre os dois gigantes neo-ortodo
xos ficou famosa quando eles discutiram a questão da revelação geral e a teologia
natural. Brunner publicou um ensaio com o título “Natureza e Graça”, no qual
argumentava que Barth estava errado ao negar qualquer tipo de revelação verda
deira de Deus através da natureza pois:
... a Palavra de Deus não poderia alcançar o homem que perdeu completamente
sua consciência de Deus. Um homem sem consciência não pode ser tocado pelo
chamado “Arrependei-vos e crede no Evangelho”. Aquilo que o homem natural
conhece sobre Deus, sobre a lei e sobre sua própria dependência de Deus pode
ser muito confuso e distorcido. Mas, ainda assim, é um ponto de contato neces
sário e indispensável para a graça divina.33
Contrário a Barth, Brunner apresentou uma perspectiva da revelação geral que
para ele era plenamente coerente com o Novo Testamento e com os reformadores
protestantes, especialmente Calvino e Lutero. Ele rejeitou qualquer idéia de “co
nhecimento natural de Deus” no sentido de provar a existência de Deus, mas, ao
mesmo tempo, afirmou que a imagem de Deus na humanidade - a capacidade que
o ser humano tem de receber a Palavra de Deus - permanecia apesar da queda.34
Ele acreditava que o reconhecimento de tal consciência mínima de Deus é indis
pensável para a missão da igreja e da teologia, pois é o que as leva a uma articula
ção inteligível da fé. Apesar dos pensamentos e questões humanas não poderem
determinar o conteúdo do evangelho que a igreja proclama, eles devem ser levados
em conta para determinar de que forma será feita essa proclamação.35
Barth respondeu a esse ensaio de Brunner com um alto e retumbante “Nein!”\
“É necessário que eu responda com um ‘Não!’ a Brunner e a todos os seus
simpatizantes e discípulos que compartilham de suas opiniões”.36 Talvez o tom do
ensaio de Barth tenha sido tão áspero porque, naquela época, ele lecionava na
Alemanha e lutava contra a tentação nazista que, a seu ver, assolava muitos “cris
tãos alemães” por causa de sua abertura à teologia natural. Barth acusou Brunner
de ajudar uma “teologia compromitente” que estava levando à subversão da igre
ja alemã pela ideologia nazista.37 Além disso, também acusou Brunner de negar
implicitamente a salvação pela graça e somente através da fé e de estar voltando
à teologia católica ou (pior ainda!) à teologia neoprotestante (liberal) da salvação,
ao defender a cooperação entre a graça e o esforço humano.38 Fazendo uso de
uma analogia, Barth perguntou:
Se um homem tivesse acabado de ser salvo de afogamento por um bom nadador,
não seria um tanto inapropriado se ele então declarasse que ele era um homem e
não um pedaço de chumbo e falasse de sua “capacidade de ser salvo”? A menos
que ele pudesse dizer que havia ajudado aquele que o tinha salvo dando algumas
braçadas! Será isso o que Brunner tem em mente?” 39
Barth rejeitava o traço mínimo de “teologia natural” na proposta de Brunner-
que, na verdade, não era nada mais do que um reconhecimento da existência de
um ponto de contato do evangelho em toda pessoa - como sendo uma negação do
evangelho da graça e um comprometimento com o pensamento natural do homem
moderno. Ele afirmava que o evangelho não precisa de qualquer ponto de contato,
a não ser aquele criado de modo miraculoso pelo Espírito Santo.40 E acrescentava
que a questão do “como” deve ser feita a proclamação teológica e eclesiástica
deve ser rejeitada desde o princípio, pois “somente a teologia e a igreja do anticristo
podem ser beneficiadas com essa pergunta. A igreja evangélica e a teologia evan
gélica adoeceriam e morreriam disso”.41
Brunner foi ofendido de maneira profunda e pessoal por esse duro ataque de
Barth. Ao longo de sua carreira, referiu-se a ele continuamente, procurando es
clarecer sua própria posição e criticar a de Barth. Em 1949, ele escreveu no
primeiro volume de sua Dogmática:
Ao defender sua principal preocupação - com a qual concordamos completa
mente e sem hesitação Barth fez uma “grande faxina”, durante a qual jogou
fora um bocado de coisas que não têm nenhuma relação com a teologia natural,
mas que são parte integrante da verdade da Bíblia; por causa da maneira unilate
ral com que tem defendido sua causa, ele criou um impedimento desnecessário à
promulgação de suas idéias.42
Apesar dos dois gigantes da dialética terem se reconciliado pouco antes de
falecerem, o rompimento de sua amizade (que em grande parte foi culpa de Barth)
será lembrado como um dos conflitos mais tristes e irônicos da teologia contem
porânea. Um dos resultados dessa diferença foi a tentativa de Brunner de encon
trar e expor toda e qualquer heresia verdadeira ou possível que pudesse ser de
tectada na teologia de Barth.
O primeiro alvo direto da crítica de Brunner foi a doutrina de Barth acerca da
eleição, a qual considerava altamente especulativa e que acabaria inevitavelmen
te levando ao universalismo. Talvez Brunner estivesse tentando devolver um pou
co do veneno de Barth quando escreveu que a doutrina dele “é completamente
contrária não apenas às tradições eclesiásticas como também - e essa é a maior
objeção - aos ensinamentos do Novo Testamento”.43
Brunner desenvolveu sua própria doutrina da eleição divina em consciente
oposição tanto a Barth quanto à doutrina clássica de predestinação dupla de Calvino.
Ele afirmava que o problema em ambos os casos era que, ao especularem acerca
das origens da graciosa eleição de Deus, eles foram além de qualquer coisa afir
mada ou implícita na revelação divina.44 Brunner rejeitava qualquer “teoria
logicamente satisfatória” da eleição45, favorecendo aquilo que ele considerava
ser uma visão completamente dialética e, portanto, bíblica:
Crer em Jesus Cristo e ser um dos eleitos é a mesma coisa, assim como não
crer em Jesus Cristo e não ser um dos eleitos é a mesma coisa. Não há outra
seleção além dessa, não há nenhum outro número além daquele constituído pelo
crer ou não crer.46
A r.n n trih n irS n rlp R flin tlP f tl'1r1'! ct Tpnlnnio rn n tc tn n n râ n o i
Não há dúvidas de que Brunner merece maior reconhecimento de sua enoriíi^
contribuição para a teologia do século 20 do que recebe.47 Infelizmefrta, a j
originalidade radical é muitas vezes considerada a condição e sse n o iS y ^ ^ to O
verdadeiro grande teólogo. Brunner não procurou ser nem radicai Vi <ò&0nal
no sentido usual das palavras. Ao invés disso, ele estaváQj t 'ido c^n oferecer
uma releitura contemporânea da teologia reformaâX ctfáàsit^eraTàvitaria os erros
tanto do conservadorismo quanto do liberalismo «to mjòs.
Com freqüência, os conservadpi^apréM §m j}ôm Brunner a evitar igualar
de modo simplista a revelação divinâ-fesO-al^ras e proposições da Bíblia e a
apegar-se a uma con nreensãáSteis ^grsonalizada dessa revelação. Os liberais
aprendem com ele a eVna^m M w er identificação simplista da revelação divina
com os melhdí%, ' -ma s 'fcl&vados pensamentos do ser humano acerca de Deus
e a permaneí5è1 roetacw à transcendência da Palavra de Deus que, no encontro
divino, rompe as barreiras da razão humana de forma impre-
sooerana.
RUDOLF BULTMANN: A TRANSCENDÊNCIA DO K erygm a
Ao contrário de outros grandesarticuladores da neo-ortodoxia, Rudolf
Bultmann não era, em primeiro lugar, um teólogo sistemático, mas sim um estu
dioso do Novo Testamento. Sua principal preocupação era tornar a fé cristã e
bíblica compreensível à mentalidade moderna. Ele procurou alcançar esse obje
tivo empregando uma interpretação existencialista do Novo Testamento, que vê
a mensagem do antigo documento como a Palavra de Deus dirigida ao indivíduo
e pedindo uma resposta de fé individual. Mesmo assim, ele se recusava a reco
nhecer qualquer disparidade profunda entre a exegese e a teologia sistemática,
afirmando que, na verdade, a tarefa de ambas é explicar a existência humana em
relação a Deus através do ouvir a Palavra de Deus, que se dirige ao indivíduo por
meio do Novo Testamento.' Por causa de sua contribuição a essa questão mais
ampla do método teológico, Bultmann tem sido uma voz insuperável no meio da
teologia sistemática bem como dos estudos do Novo Testamento.
Apesar de certas diferenças entre eles, Bultmann considerava-se um aliado
de Karl Barth no desafio neo-ortodoxo ao liberalismo. Juntamente com Barth, ele
acreditava que a teologia do século 19 havia feito do ser humano - ao invés de
Deus - o seu centro.2 Assim como Barth, ele declarava que podemos conhecer a
Deus apenas em resposta à revelação divina, que chega até nós através da Palavra
de Deus, o kerygma, dirigida a cada ser humano. Ao mesmo tempo, ele foi além de
Barth. Seguindo as idéias do filósofo existencialista Martin Heidegger, Bultmann
interpretou essa mensagem exclusivamente em termos de condição humana, que
ele via caracterizada pela ansiedade e até mesmo pelo desespero.3
A Carreira de Bultmann e seu Cenário
Rudolf Bultmann era herdeiro de uma grande tradição eclesiástica.4 Filho mais
velho de um pastor luterano na província de Oldenburg, no norte da Alemanha,
seus avós paternos foram missionários na África e seu avô materno tinha sido
pastor na pietista região sul da Alemanha. Bultmann foi educado nas melhores
universidades da Alemanha - Tübingen, Berlim e Marburg. Sua carreira de pro
fessor o levou a Breslau e Giessen, antes de voltar a Marburg em 1921, onde
trabalhou até aposentar-se, em 1951.
Ao contrário de muitos dos seus colegas, Bultmann não foi forçado a deixar
seu cargo de professor durante o regime ditatorial de Hitler. Como o próprio
Bultmann sugeriu, talvez isso tenha acontecido, em parte, por ele nunca ter direta
ou ativamente participado de qualquer assunto relacionado à política,5 apesar de
falar contra certos aspectos do programa nazista.6
Assim como Barth, Bultmann começou sua carreira acadêmica numa impor
tante conjuntura da história da teologia moderna. O consenso liberal do século 19
estava se desintegrando e a teologia que viria a dominar a primeira metade do
século 20 apenas começava a tomar forma. Durante esse período de transição,
diversas questões fundamentais desafiavam os estudiosos tanto do Novo Testa
mento quanto da teologia. A importância de Bultmann está em sua resposta a
esses problemas. Apesar de sua abordagem teológica básica ter se formado an
tes dele vir a conhecer Martin Heidegger, foi na filosofia existencialista que ele
procurou com afinco um caminho para tratar das difíceis questões de sua época.
A Fé e o Jesus Histórico
Um primeiro problema que se apresentava diante dos estudiosos do Novo Tes
tamento no final do século 19 era a questão do Jesus histórico. O método histó-
rico-crítico, que durante o século 19 havia dominado os estudos bíblicos em
geral e especialmente a pesquisa do Novo Testamento, eliminava completa
mente qualquer consenso mais antigo sobre a vida de Jesus. Essa pesquisa
revelou as diferentes ênfases e representações de Jesus presentes entre os
autores dos documentos do Novo Testamento. Como resultado, os estudiosos
não podiam mais simplesmente igualar a história de Jesus aos retratos apresen
tados nos Evangelhos. Essa mudança de ponto de vista criou uma dificuldade
para a teologia: qual é normativo, o Cristo proclamado nos textos do Novo Testa
mento ou o verdadeiro Jesus histórico por trás desses textos?
Tomando por base o legado de Schleiermacher, o liberalismo havia optado
pela segunda alternativa, determinando que o Jesus histórico era a figura normativa
para a teologia, especialmente a personalidade de Jesus que, para eles, podia ser
reconstruída a partir de seus ensinamentos, conduta, desenvolvimento interior e
das impressões de seus contemporâneos.7 Dentro dessa visão, os estudiosos lan
çaram o que passou a ser chamado de “busca pelo Jesus histórico”, uma tentativa
de investigar o que havia por trás dos Evangelhos para determinar exatamente o
que Jesus havia dito e feito.
Com a chegada do final do século, porém, alguns estudiosos começaram a ques
tionar essa proposta. Em sua obra monumental, A Busca do Jesus Histórico (1906),
Albert Schweitzer conclui que a busca havia sido um grande fracasso. A pessoa de
Jesus que os estudiosos haviam reconstruído a partir dos textos não passava de um
reflexo da imagem que eles próprios possuíam desse Jesus. Ao contrário dos retra
tos liberais, Schweitzer afirmava que o verdadeiro Jesus da História era um prega
dor apocalíptico que proclamava que o fim do mundo estava próximo. Como tal, ele
não tinha ligação com a humanidade moderna e, portanto, sua mensagem não
servia para os nossos dias.
Martin Káhler tomou um rumo um pouco diferente do de Schweitzer. Em O
Chamado Jesus Histórico e o Cristo Histórico e Bíblico (1896), ele argumen
tava que a chave para o significado do Novo Testamento não surge através da
História que ele retrata e do método histórico de estudo, mas sim da mensagem
proclamada pela igreja. Ele afirmava que “esse verdadeiro Cristo é o Cristo que
é pregado”.8
Bultmann entrou nessa discussão tomando o lado de Káhler e, em certo sen
tido, radicalizando a posição dele. Nesse contexto, ele é conhecido por aplicar de
maneira extremamente minuciosa a técnica da “crítica à forma” no estudo dos
Evangelhos. Como estudioso do Novo Testamento, Bultmann chegou, em grande
parte, a conclusões negativas sobre o que podia se saber sobre o Jesus histórico.
Ele afirmava que o conteúdo dos Evangelhos apresentava um Jesus que já havia
sido encoberto pelas formas de pensamento do contexto helenista em que os
livros tinham sido escritos. Na verdade, o Novo Testamento não se preocupa, de
fato, com o Jesus da História. Ele se concentra no Cristo da fé.
Para Bultmann, porém, essa falta de conhecimento sobre o Jesus histórico
não era um detrimento para a fé cristã. Ele argumentava que, ao invés do Jesus
histórico, é o kerygma ou a mensagem da igreja primitiva que é essencial à fé.
Essa conclusão surgiu a partir de duas considerações. De acordo com Bultmann,
até mesmo o Novo Testamento, na posição de documento de proclamação da
igreja primitiva, concentra-se no Cristo do kerygma e não nos fatos relativos ao
Jesus histórico. Além disso, essa conclusão é coerente com a visão de Bultmann
sobre a natureza da fé, visão esta construída sobre os elementos existencialistas.
A fé não surge a partir dos resultados da pesquisa histórica. A questão principal
da fé não é a capacidade de se adquirir conhecimento sobre o Jesus histórico, mas
sim um confronto pessoal com Cristo no presente. Como resultado disso, o Jesus
histórico tem pouca relevância para a fé. A fé não é o conhecimento de fatos
históricos, mas a resposta pessoal ao Cristo com o qual nos deparamos na mensa
gem do evangelho, a proclamação do agir de Deus em Jesus.
Desse modo, Bultmann afirmava que estava aplicando ao universo do conhe
cimento e do pensamento o tema da justificação pela fé de acordo com Lutero.
Ele dizia que sua proposta “destrói todo anseio por segurança”, quer seja baseada
nas boas obras ou no “conhecimento objetificante”. Não temos a nosso dispor
qualquer coisa sobre a qual possamos construir nossa fé; estamos, por assim
dizer, “dentro de um vácuo”.9 Nessa situação, a fé só podeser uma dádiva da
graça de Deus, vinda até nós no kerygma.
Porém, isso não significa que as ocorrências do passado não têm nenhuma
conseqüência para a fé.10 Bultmann não defendia que o Cristianismo podia existir
sem o acontecimento passado da cruz, por exemplo.11 O que ele se recusava a
afirmar era que a fé pode ser ancorada na pesquisa histórica, pois nenhuma ativi
dade desse tipo pode provar que Deus agiu em um acontecimento passado. Na
verdade, a História forma um círculo contínuo de causa e efeito. Portanto, o agir
de Deus nos acontecimentos históricos não pode ser determinado através da pes
quisa histórica, mas se revela apenas aos olhos da fé.
Mantendo-se firme no seu ceticismo radical quanto aos possíveis resultados
da pesquisa histórica, Bultmann afirmava que o Jesus histórico em si não deve
ser visto como o centro da revelação de Deus. Nesse ponto, ele permaneceu
um representante fiel da com preensão neo-ortodoxa de revelação como
kerygma. Argumentava que a revelação de Deus está no encontro presente
entre o indivíduo e a pregação acerca de Cristo. A única coisa importante sobre
os acontecimentos passados é o fato de que, em Jesus, Deus agiu de modo
redentor. Para Bultmann, quaisquer detalhes sobre o agir de Deus que fossem
descobertos através de uma pesquisa sobre a vida de Jesus eram irrelevantes
para a fé. Por esse motivo, ele situou a própria pregação de Jesus dentro do
contexto do judaísmo e não do Cristianismo primitivo,12 fazendo a conhecida
asserção: “A mensagem de Jesus é um pressuposto para a teologia do Novo
Testamento e não uma parte dessa teologia em si.”13
Escatologia
Um outro assunto tratado por Bultmann foi o da escatologia. O século 19 foi uma
época de otim ism o. Apesar de reconhecerem a presença dos elem entos
apocalípticos entre os documentos do Novo Testamento (como, por exemplo, a
expectativa de um final catastrófico para o mundo), os teólogos do movimento
liberal consideravam essas declarações apêndices pouco importantes da verda
deira mensagem de Jesus. Para desvendar o significado religioso de Jesus, os
pensadores liberais voltavam-se para as verdades eternas que ele ensinava e para
a sua personalidade impressionante. Afirmavam, ainda, que a importância do Novo
Testamento está concentrada nos novos modos de compreensão religiosos que
ele oferece.
Com a chegada do fim do século, esse aspecto do método liberal também
passou a ser questionado. Os estudiosos redescobriram a centralidade do elemen
to apocalíptico no Novo Testamento. Duas figuras importantes para essa
redescoberta foram Johannes Weiss e Albert Schweitzer, que argumentaram de
modo convincente que os temas apocalípticos não eram meramente elementos
periféricos da proclamação de Jesus; na verdade, o enfoque de sua mensagem
era completamente apocalíptico ou escatológico. De acordo com Schweitzer, po
rém, essa descoberta serviu para tirar toda a credibilidade do Novo Testamento,
no sentido de que seu conteúdo central - a crença na iminência do fim do mundo
- havia se mostrado falso.
Bultmann desenvolveu o seu material, partindo das descobertas de Weiss e
Schweitzer. Ele concordava que Jesus e a comunidade cristã primitiva aguar
davam a vinda próxima do reino de Deus, uma esperança que não se reali
zou.14 Mas, ao invés de usar esse fato para chegar a uma conclusão negativa
sobre a relevância da mensagem do Novo Testamento, Bultmann trabalhou por
trás do sentido temporal da mensagem que havia sido transmitida, a fim de
obter aquilo que ele considerava ser o seu verdadeiro valor existencial. Porém,
sua reinterpretação da temporalidade do Novo Testamento não foi arbitrária.
Pelo contrário, Bultmann afirmava que tanto Paulo quanto João apontavam
para essa direção, pois eles mesmos haviam falado da vida eterna recebida
pela fé como uma realidade presente e existencial e não uma previsão tempo
ral do futuro.15
Mitologia
A carreira de Bultmann desenvolveu-se durante uma época em que os estudiosos
bíblicos e teólogos debatiam-se com um terceiro problema, a mitologia. Em decor-
rência das pesquisas histórico-críticas dos documentos do Novo Testamento, es
tudiosos haviam detectado a presença de influências mitológicas nesses escritos.
Era possível observar esse elemento especialmente nos temas cristológicos usa
dos pela igreja primitiva. Vários teóricos, incluindo Bultmann, afirmavam que o
Novo Testamento refletia o uso de mitos e religiões de mistérios - especialmente
o mito da vinda de um deus redentor - para descrever a obra de Jesus Cristo.
A teologia liberal havia reagido a essa descoberta, defendendo a eliminação
da mitologia, para que fosse possível, então, visualizar as verdades eternas pre
sentes em meio aos mitos. Bultmann rejeitou esse procedimento. Ele afirmava
que era impossível remover os mitos sem perder o kerygma, a verdadeira mensa
gem do Novo Testamento. Argumentava que a teologia liberal havia perdido essa
mensagem ao reduzir o kerygma a princípios de religião e ética, transformando,
assim, o Cristianismo numa religião não-histórica. Bultmann defendia, portanto,
não a remoção, mas a interpretação do mito, a fim de visualizar o verdadeiro
sentido dos textos apresentados nessa forma literária. A esse processo ele cha
mava desmitologização. Ele não desejava livrar os textos de seus elementos
míticos, mas sim compreender esses elementos corretamente, isto é, de acordo
com o seu significado existencial fundamental.16
Bultmann dizia que tal reinterpretação era necessária por causa do grande
abismo que separava a visão de mundo em que os textos antigos haviam sido
escritos e a mentalidade moderna.17 Ele definia o mito como uma forma de pen
samento que representa a realidade transcendente em termos deste mundo. Mas
essa definição podia levar prontamente à conclusão de que qualquer discussão
sobre Deus pertence à esfera dos mitos, um ponto de vista que Bultmann refutava
com firmeza. Para evitar essa possibilidade, ele ofereceu uma outra compreensão
de mito, usando o termo para referir-se a qualquer expressão que possa
comprovadamente ser excluída pelo enfoque na ciência natural característica da
mentalidade moderna.18
De acordo com Bultmann, uma desmitologização adequada compreende a
terminologia mitológica. O mito é problemático não apenas porque torna a mensa
gem cristã inaceitável para a mente moderna, mas porque também distorce a
própria mensagem, impedindo um encontro verdadeiro com o kerygma. Bultmann
argumentava que o processo de desmitologização é justificado, pois facilita a tare
fa do evangelho de falar às pessoas nos dias de hoje. A preocupação maior de
Bultmann era de que cada ouvinte do evangelho fosse confrontado existencial-
mente com a realidade do Deus transcendente. A proposta de desmitologização é
vital, pois facilita esse encontro.
Bultmann acrescentava ainda que a desmitologização tem precedência bíbli
ca. Já no próprio Novo Testamento nota-se o desenvolvimento desse processo,
especialmente nos escritos de Paulo e João.19
Hermenêutica
O problema da mitologia tratado por Bultmann estava relacionado a uma ques
tão teológica correspondente, a hermenêutica. O estudo histórico-crítico havia
levado à consciência da presença de um grande abismo entre o mundo intelec
tual dos escritores bíblicos e o mundo moderno. Bultmann também tratou des
sa questão.
A teologia liberal buscava construir uma ponte entre os textos antigos e a
mente moderna através da descoberta de verdades “perenes” encontradas nos
documentos, sendo as mais importantes dessas verdades os princípios éticos ensi
nados por Jesus. Mais uma vez, nesse ponto, Bultmann rejeitou a abordagem
liberal. Ele considerou ingênua essa visão, no sentido de que ela supunha haver
dentro do texto princípios eternos e universais que estavam lá, esperando para
serem descobertos por meio da hermenêutica. Bultmann, pelo contrário, argu
mentava que a relação entre o leitor e o texto era muito mais complexa. Ele
afirmava que as perguntasque trazemos conosco ao nos posicionarmos diante do
texto é que determinam as respostas que receberemos dele e é nossa relação
com o assunto que determina nossas questões.20
Bultmann dizia que o abismo entre o texto antigo e o mundo moderno podia
ser transposto somente ao empregarmos um pré-entendimento adequado em
nossa busca exegética. Para ele, o que liga o texto antigo ao leitor moderno é a
questão da existência humana.21 Apesar de sua cosmologia mitológica - ex
pressada através da visão mítica de mundo - , os autores bíblicos estavam le
vantando questões sobre a existência pessoal, as mesmas questões presentes
no coração humano em qualquer época. Bultmann conclui que, por esse motivo,
o existencialismo oferece o pré-entendimento apropriado para a leitura dos do
cumentos bíblicos, pois ele contém “a perspectiva e os conceitos adequados
para a compreensão da existência humana”.22 Ao trazer a questão crucial da
existência humana para dentro dos textos, podemos ouvir a Palavra de Deus
dirigindo-se a nós através do kerygma bíblico, confrontando-nos, assim, com o
Ser Transcendente.
A Transcendência de Deus
A última questão para a qual Bultmann procurou uma resposta está na doutrina de
Deus. Conforme vimos no capítulo anterior, a teologia do século 19 dava grande
ênfase à imanência de Deus. Nos primeiros anos de seu trabalho, Karl Barth
lançou uma campanha contra essa ênfase, tomando por base o conceito de
Kierkegaard de “distinção qualitativa infinita” (Deus é qualitativamente diferente
da criação, de modo que a razão filosófica não é capaz de oferecer o conheci
mento de Deus). Desse modo, Barth reintroduziu o conceito de transcendência de
Deus. Bultmann juntou-se a Barth nesse projeto. Na verdade, Bultmann procurou
usar uma aplicação radical e minuciosa da idéia de transcendência de Deus em
todo o espectro do pensamento religioso.
Num certo sentido, porém, o conceito de transcendência proposto por Bultmann
diferia daquele apresentado pelos documentos bíblicos.23 De acordo com sua re
construção, os povos antigos apegavam-se ã visão espacial de um universo de
três “andares”, sendo que Deus estava no céu, localizado acima da terra, e o
inferno encontrava-se abaixo da terra. Bultmann argumentava que essa cosmologia
é simplesmente incompatível com nossa visão moderna e científica de mundo. A
transcendência de Deus, portanto, não pode mais ser compreendida em termos
espaciais. No lugar dessa visão, Bultmann propôs um modelo não-espacial. Mas
este, por sua vez, baseava-se numa outra dimensão da perspectiva bíblica. Ele
argumentava que, contrária à concepção grega de transcendência divina como
algo atemporal - como uma mente oposta à matéria e mundo sensorial - , a
transcendência bíblica refere-se à autoridade absoluta de Deus.24 Como resulta
do, Bultmann apresentou uma visão existencial. Transcendência significa que Deus
está diante de nós no momento existencial da decisão, dirigindo-se a nós com sua
Palavra e confrontando-nos com o desafio de responder pela fé, criando desse
modo a verdadeira existência.
Essa compreensão de Deus, entretanto, significa que não podemos, de forma
alguma, falar de Deus de modo objetivo, mas apenas em termos daquilo que ele
faz em nós.25 Deus é desconhecido quando visto à parte da resposta individual de
fé à revelação divina em sua Palavra. Essa revelação não é a comunicação de
verdades acerca de Deus, não é um conjunto de conhecimentos, mas sim um
acontecimento que chama o indivíduo a responder. Assim, ele argumentava que
não podemos falar sobre Deus - não podemos falar em termos distantes, impes
soais e objetivos - , podemos apenas falar de Deus. Para Bultmann, qualquer
discussão teórica sobre Deus é impossível, pois falar de Deus exige que esteja
mos face a face com ele. Do mesmo modo, Cristo é a Palavra de Deus, não um
conjunto de idéias, mas Deus dirigindo-se ao indivíduo.
Bultmann propôs, ainda, uma relação de reciprocidade entre as afirmações
acerca de Deus e as concernentes ao indivíduo. Ao fazer essa asserção, ele não
reduziu a teologia à mera posição de antropologia como afirmam alguns de seus
críticos.26 Pelo contrário, ele tornou ambas inseparáveis. As declarações teológi
cas só são possíveis quando são, ao mesmo tempo, afirmações antropológicas.
Existencialismo e Teologia
Conforme indicamos anteriormente, a abordagem teológica de Bultmann concen
tra-se na apropriação da filosofia existencialista para a realização da tarefa teoló
gica. Devemos, portanto, olhar mais de perto essa proposta teológica existencialista.
Todo uso de uma filosofia específica a serviço da teologia levanta a questão
da escolha de um fundamento filosófico realizada pelo teólogo. No caso de
Bultmann, essa questão surge em termos do existencialismo: o que levou Bultmann
a julgar a filosofia existencialista aproveitável para a teologia?
O estudioso alemão Schubert Ogden, um discípulo de Bultmann, ofereceu
uma explicação simpatizante com os objetivos da neo-ortodoxia. Ele sugeriu que a
motivação principal estava na preocupação de Bultmann em preservar a
transcendência absoluta de Deus: o existencialismo “mais do que qualquer outra
conceitualização conhecida por ele, permite que ele expresse de maneira adequa
da a relação fundamental entre Deus e homem, que é aquilo que ele está mais
preocupado em transmitir”.27 Outros atribuem a escolha do existencialismo ao
problema hermenêutico que Bultmann desejava resolver, a saber, a impossibilida
de de se posicionar diante de um texto sem questionamentos e sem permitir a
influência de certos conceitos previamente adquiridos. Bultmann via a questão da
existência humana como o único princípio hermenêutico adequado.28
Não devemos, porém, reduzir a motivação de Bultmann a um único problema
que ele tenha buscado resolver. Pelo contrário, ele parece ter encontrado no
existencialismo um instrumento versátil para tratar de uma ampla gama de ques
tões pelas quais ele se interessou: o problema da transcendência divina, o proble
ma hermenêutico e os problemas da mitologia, da escatologia e do aspecto histó
rico de Jesus. Mas o seu ponto de partida encontra-se claramente na questão
levantada pela neo-ortodoxia como um todo sobre como Deus dirige-se à humani
dade nos dias de hoje. A resposta de Bultmann empregou o conceito de existência
humana que ele encontrou tanto no próprio Novo Testamento quanto na filosofia
existencialista. Deus dirige-se ao indivíduo, a partir de sua transcendência, como
o Outro Ser, e a Palavra divina pede uma resposta radical que implica em mudan
ça de vida. Assim, a teologia, que por definição é o discurso sobre Deus, não pode
deixar de falar, ao mesmo tempo, da existência humana.
Heidegger e o Novo Testamento
Para Bultmann, os elementos da filosofia existencialista de Martin Heidegger fo
ram muito úteis no esclarecimento daquilo que ele considerava como o significado
fundamental da mensagem bíblica. Heidegger deu a ele uma alternativa em rela
ção às ontologias tradicionais, que ofereciam apenas o que ele chamava de visão
“objetificada” da humanidade, ou seja, que vê o homem em termos universais,
focalizando o lugar que ele ocupa dentro da natureza - e não uma visão em
termos de historicidade, em termos de conceitos que focalizam cada ser humano
como um indivíduo que determina sua própria personalidade através de uma deci
são pessoal.29 Mesmo assim, Bultmann não achava que estava impondo as inter-
pretações de Heidegger sobre o Novo Testamento.30 Pelo contrário, ele via o
existencialismo como um meio de oferecer um “pré-entendimento” necessário a
fim de que a verdadeira mensagem do Novo Testamento pudesse ser compreen
dida. Ele também não escolheu o existencialismo porque esta era a filosofia pre
dominante da época. Na verdade, estava convencido de que o direcionamento
encontrado no existencialismo está dentro das estruturas da fé como ela é apre
sentada no Novo Testamento. Assim, Bultmann não via o existencialismo exer
cendouma influência externa sobre a teologia, mas sim refletindo o próprio cerne
da mensagem do Novo Testamento.31 Ele incorporou essa filosofia como uma
ferramenta de ajuda para o cumprimento da tarefa teológica, pois oferecia tanto o
modo básico de levantar a questão respondida pela mensagem do evangelho quanto
o sistema de conceitos elementares dentro do qual essa resposta deve ser apre
sentada, a saber, a esfera da existência humana.32
Os Elementos do Existencialismo
Os escritos de Heidegger forneceram vários conceitos a Bultmann, os quais ele
empregou com grande sucesso no desenvolvimento de sua proposta teológica. O
primeiro elemento existencialista de grande ajuda foi o próprio conceito de “exis
tência” . Para Heidegger, a existência nunca está concentrada no geral ou no
universal, mas sempre no individual e pessoal, na pessoa como possuidora de
capacidade de decisão. Portanto, ele não via a existência humana de modo cien
tífico, mas sim existencialista, tratando da existência pessoal e das escolhas pes
soais. Como resultado disso, a existência é um acontecimento que ocorre a cada
momento - e não um desenvolvimento linear. Ela é determinada pela decisão que
um indivíduo toma num determinado momento. Dentro dessa visão, Heidegger
fez uma distinção entre o ser do homem e o ser de todos os objetos no mundo. Ao
primeiro ele chamou de “existência”, enquanto ao segundo deu o nome de “exis
tente”.33 Por causa da influência de Heidegger, a dicotomia entre “existência” e
“mundo” é central à teologia de Bultmann.
Bultmann também desenvolveu a visão de Heidegger acerca da historicidade.
Ele afirmava que cada indivíduo é um ser histórico. Isso significa que devemos
ver cada pessoa em relação à História e não em relação à estrutura eterna da
natureza. Mas, além disso, cada um é histórico no sentido de que está inserido em
sua história individual. Dentro da linha de Heidegger, Bultmann argumentava que
o importante sobre cada indivíduo é a capacidade dessa pessoa responder aos
acontecimentos que ocorrem ao longo do curso de sua vida, que são, na verdade,
acontecimentos históricos. E essa resposta, e não uma essência fixa, que determi
na o que o indivíduo é.34 Assim, a vida deve ser vista como algo que surge não do
passado, mas sim do futuro e que é moldada pelas decisões pessoais.35
Existência Autêntica
Relacionada aos conceitos de existência e historicidade, encontramos a importan
te dialética entre a existência autêntica e não-autêntica. De acordo com Heidegger,
há dois modos de ser. As pessoas desenvolvem uma existência autêntica sem
pre que aceitam o desafio de serem lançadas no mundo. Por outro lado, elas
desenvolvem uma existência não-autêntica sempre que não conseguem mais
estabelecer distinção entre o próprio ser e o mundo.
Bultmann usou esse esquema para compreender a distinção entre os termos
bíblicos pecado (que para Bultmann significa, basicamente, “incredulidade”) e/é.
Ele afirmava que a existência não-autêntica consiste em uma busca por segurança
e satisfação no “mundo”, que se encontra na esfera tangível das próprias realiza
ções ou no passado. Isto é pecado - ver-se em termos do eu próprio, separado de
Deus. A existência autêntica, pelo contrário, é a recusa em basear a vida no “mun
do”, firmando-se em realidades intangíveis, juntamente com a renúncia à segurança
centrada no próprio eu e uma abertura para o futuro. E viver no mundo, mas, ao
mesmo tempo, é viver além do mundo, vendo o mundo “como se não estivesse
lá”, nas próprias palavras de Bultmann. Isto é fé - compromisso pessoal com
Deus. E através da fé surge uma nova compreensão de si mesmo, pois a fé é uma
resposta a Deus e é em Deus que os indivíduos encontram o seu verdadeiro ser.
História
Outro importante elemento existencialista utilizado por Bultmann é o conceito de
“História”. Nesse caso, ele seguiu Heidegger e rompeu com a perspectiva do
século 19. A História não é simplesmente a ciência de fatos referentes ao passa
do exercida de modo impessoal e distante. Pelo contrário, o conhecimento históri
co relevante é sempre um conhecimento existencial; ele conduz a um encontro
pessoal e acontece através do envolvimento com a História.
Um aspecto fundamental de seu pensamento é a diferença entre Historie e
Geschichte, que Bultmann parece ter aceito de Martin Kâhler.36 O próprio
Bultmann empregou os adjetivos correspondentes a esses termos para referir-se
a dois diferentes métodos de se abordar a História, compreendida como o campo
das ações humanas e os tipos de acontecimentos que delas resultam.37 A obser
vação impessoal e neutra gera uma série de informações fatuais que caracteri
zam o passado como uma cadeia de causa e efeito (historisch). Quando os acon
tecimentos são abordados tendo em mente a questão da existência humana, po
rém, eles deixam de ser ocorrências passadas e passam a ser acontecimentos pre
sentes (geschichtlich) capazes de desvendar a própria existência pessoal. Assim,
História significativa - os acontecimentos que continuam a ter influência ou signifi
cado - é mais importante do que um simples conjunto de fatos. Para ser relevante,
portanto, a História precisa ser um acontecimento significativo ou interpretado.
Bultmann afirmava que tal significado não pode ser encontrado através da
observação feita a partir de um ponto externo ao fluxo da História. Pelo contrário,
o único ponto de partida é a própria história individual. Como resultado, a questão
principal que se deve ter em mente ao realizar os estudos históricos só pode ser a
questão da existência humana. E, no final, o que realmente importa é a história
pessoal e individual, ou seja, a existência pessoal autêntica.
Essa perspectiva da História relaciona-se ainda à visão de Bultmann sobre
temporalidade, que ele desenvolveu a partir de uma tríade de “cuidado” de
Heidegger. De acordo com Bultmann, a divisão comum do tempo em passado,
presente e futuro é problemática, pois dela resulta um “presente” que nada mais é
do que um ponto matemático sem qualquer dimensão, que simplesmente separa o
passado do futuro. A visão existencialista de Heidegger sobre o tempo, por outro
lado, concentrava-se no presente como sendo o ponto de decisão. Ao contrário de
ser uma referência a algo que aconteceu de uma vez por todas, o “passado” é
importante por causa de sua relação com a esfera do que não é autêntico. Esse
aspecto surge quando o passado representa uma falta de decisão ou falta de
possibilidade. Por ser um ponto fixo, o passado não oferece nenhuma possibilida
de. A inaltenticidade relacionada ao passado insere-se na existência pessoal atra
vés da aceitação da culpa.
Do mesmo modo, o “futuro” é mais do que um “ainda não” . Ele é o universo
das possibilidades que exigem decisão. Na existência presente, o indivíduo é con
frontado com o futuro, a esfera das possibilidades. Em decorrência disso, cada
pessoa é chamada a viver a partir desse futuro. O “presente”, por sua vez, não é
simplesmente o “agora” ; é a situação de decisão responsável, a saber, a decisão
de unir o passado e o futuro de modo a criar uma existência autêntica.
A Fé e o Evangelho
Nessa encruzilhada decisiva, Bultmann separou-se de seu mentor existencialista,
pois foi nesse ponto que ele introduziu o kerygma cristão como elemento essen
cial. Ao contrário de Heidegger, que tinha esperanças da verdadeira existência
estar ao alcance do indivíduo por seu próprio esforço, Bultmann afirmava que a
existência autêntica era produto exclusivo de uma resposta de fé à graça de Deus
oferecida na proclamação cristã, sendo essa resposta, em si, um milagre de Deus.38
Essa afirmação, porém, nos leva de volta à visão de Bultmann sobre kerygma
cristão e sua relação com a fé. Em concordância com Paulo, ele afirmava que o
kerygma é a pregação da cruz e da ressurreição como o evento salvífico, um
evento que forma uma unidade inseparável.39 Mas, com isso, ele não estava se
referindo apenas aos “fatos” objetivos daquilo que haviaacontecido com Jesus de
Nazaré. Conforme observamos anteriormente, para Bultmann, a História não pode
ser igualada aos fatos não interpretados do passado. Desde cedo em sua carreira,
ele rejeitou todas as teorias que procuram provar que a morte e ressurreição de
Jesus têm o poder de expiação e salvação.40 O que importa é o sentido da cruz e
da ressurreição, o significado contínuo que possuem como Palavra de Deus dirigida
aos indivíduos de nossos dias. Ao respondermos ao kerygma, a cruz e a ressur
reição tornam-se nossa experiência pessoal.
Desse ponto de vista, a cruz (que Bultmann aceitava como um fato da vida de
Jesus) é o julgamento libertador de Deus sobre a humanidade.41 A ressurreição
(sobre a qual Bultmann se recusava a falar em termos de um acontecimento na
história passada)42 não se refere a um homem que voltou dos mortos neste mun
do e nem à passagem de Jesus para uma vida além.43 Ao invés disso, a ressurrei
ção é a exaltação do Crucificado à posição de Senhor. Bultmann dizia que, por
isso, “a fé na ressurreição é, na verdade, a mesma coisa que a fé na eficácia
salvadora da cruz”.44
Bultmann afirmava que a proclamação dessa mensagem cristã faz surgir a
fé. Por “fé” ele queria dizer o desejo de compreender a si mesmo como tendo
sido crucificado e ressurreto com Cristo. O kerygma, portanto, é o lugar em que
Jesus Cristo é encontrado e torna-se para o ouvinte o “acontecim ento
escatológico” . Através do kerygma, o Senhor Vivo põe um fim no (antigo) mun
do do crente. Conforme observamos anteriormente, para Bultmann, o encontro
não depende de um conhecimento pessoal sobre a vida de Jesus na terra. Assim,
a fé cristã é liberta de qualquer dependência das inconstâncias dos estudos his-
tórico-críticos.
Crítica
Durante décadas, a proposta de Bultmann prestou um serviço imensurável a
muitos pensadores cristãos, oferecendo-lhes um meio de integrar o antigo evan
gelho à mentalidade moderna. No cerne dessa perspectiva, encontra-se uma
valiosa ênfase na necessidade da mensagem cristã falar às questões enfrenta
das pelas pessoas de nossa época. Essa ênfase é importante, pois os cristãos,
muitas vezes, acabam respondendo àquilo que as pessoas no mundo não estão
perguntando. Também é de grande ajuda a sua afirmação de que a verdade não
é simplesmente objetiva, mas que, para ser plenamente recebida, a verdade deve
“tocar a alma” daquele que está ouvindo.45 E, por fim, Bultmann apresentou uma
tentativa louvável de restabelecer a transcendência de Deus, oferecendo uma
polêmica necessária contra a ênfase excessiva na imanência de Deus encontra
da no liberalismo.
Apesar dessas e outras contribuições, a proposta de Bultmann continua a ser
muito controversa.46 Os conservadores concluíram que o estudioso alemão havia
descartado a autoridade bíblica e não ficaram à vontade com a sua aplicação do
mito sobre a Bíblia. Os confessionalistas observaram que, em muitos pontos dou-
trinários, suas interpretações diferem da visão tradicional. Um comentário de Young
ressalta essa questão:
De acordo com Bultmann, a história de Israel não é a história da revelação para
os cristãos; Jesus não é o Cristo dentro da história do mundo, mas torna-se tal
dentro da proclamação e do ouvir da Palavra; o caráter extra nos de Deus man
tém-se apenas num sentido específico; a ressurreição de Cristo não é um acon
tecimento histórico que ocorre logo depois da crucificação, mas a dimensão do
significado da cruz; e assim por diante.47
Outros críticos concentraram-se em sua compreensão de mito, que alguns
estudiosos mais tarde tacharam de restrita.
Independente da questão das formulações doutrinárias corretas e críticas re
lacionadas a vários aspectos de sua posição, o principal problema teológico está
no centro da proposta de Bultmann. Esse problema torna-se evidente em três
principais pontos fracos. O primeiro está relacionado à exegese, o segundo à vida
de fé e o terceiro à natureza de Deus.
Exegese Unilateral
Em primeiro lugar, o uso do esquema existencialista de Bultmann nos estudos do
Novo Testamento resultou numa tendência à simplificação extrema da exegese
que, por sua vez, levou a uma teologia unilateral. Sua afirmação de que o
kerygma do Novo Testamento é essencialmente uma mensagem existencial, ao
mesmo tempo que reflete uma preocupação vital com os documentos, acaba
limitando aquilo que esses documentos apresentam. Muitos textos simplesmente
não tratam de questões existenciais como insiste a formulação de Bultmann, mas
sim de outros temas. Como resultado disso, a teologia não pode ser reduzida à
soterologia, como sua proposta parece exigir. Bultmann chegou a admitir esse
problema, mas passou então a empregar o enfoque existencialista que encontrou
em Paulo e João como uma espécie de “cânon dentro do cânon”.
O esquema de existência humana também resultou numa separação muito
radical entre os acontecimentos históricos do passado e as experiências contem
porâneas de fé. Bultmann foi longe demais em sua tentativa de livrar a fé da
dependência das descobertas da pesquisa histórica. Mesmo mantendo a impor
tância da cruz de Jesus para a fé, ele ainda assim tomou o conteúdo da vida de
Jesus irrelevante, ao considerar a fé exclusivamente como resposta à mensagem
que Deus havia proferido em Cristo. Mas, como Jürgen Moltmann apontou corre
tamente, esse ponto de vista “deixa de observar que a historicidade concreta é
revelada, possibilitada e limitada através da história que de fato ocorreu e vice-
versa”.48 Nossa fé não produz a história de Jesus como forma de expressão, mas
sim deve sua existência a essa história.
A Fé Privatizada
Em segundo lugar, a abordagem teológica de Bultmann, com sua visão restrita
demais da mensagem do evangelho, resulta prontamente numa fé igualmente res
trita e privatizada. Para ele, a fé é uma decisão pessoal sobre o viver autêntico,
compreendida de modo extremamente individualizado. Essa afirmação resume
uma dimensão do kerygma do Novo Testamento e um aspecto da fé. Mas a
mensagem bíblica é mais do que isso. Ela não diz respeito apenas à esfera privada
de decisão individual, mas dirige-se à vida como um todo.
A ênfase existencialista de Bultmann corre o risco de excluir as dimensões
comunitárias e sociais da fé cristã.49 Ele deu pouca ênfase à abrangência da fé
sobre a vida do crente ou sobre a vida corporativa dos crentes em comunidade.
Também não encontramos em sua proposta os fundamentos para um envolvimento
com a sociedade em geral. Pelo contrário, sua visão existencialista incentiva uma
ênfase interior que pode facilmente levar à falta de consideração para com as
implicações políticas e sociais do evangelho.
Em termos teológicos, a proposta de Bultmann ressaltou a necessidade de
justificação pessoal (a decisão do indivíduo de ser transformado em alguém au
têntico), mas não conduzia a uma santificação, à dinâmica do viver cristão em si
e do crescimento espiritual como discípulos do Senhor dentro de um relaciona
mento comunitário uns com os outros e com o mundo. Do ponto de vista de
avanços teológicos subseqüentes, podemos concluir apenas que a teologia de
Bultmann oferece uma soterologia útil, ainda que parcial, mas fica devendo uma
eclesiologia satisfatória.
Um Deus Limitado
Finalmente, sob influência da perspectiva existencialista, Bultmann usou de modo
radical o tema da distinção qualitativa infinita, o que levou a uma visão limitada de
Deus. Sua restrição do discurso teológico à dimensão da existência humana aca
bou eliminando as asserções tanto sobre a realidade eterna de Deus quanto sobre
o agir de Deus no mundo.
A intenção do estudioso alemão é louvável. Diante da teologia imanente do
liberalismo, ele assumiu a posição correta de elevar Deus à posição de Ser Trans
cendente, o Outro Ser, que está sobre todos os indivíduos humanos e além de
todos eles. Mas Bultmann equivocou-se quando afirmou que esse Deus só pode
ser conhecido à medida que ele age dentro do indivíduo, ou seja, à medidaque ele
cria a existência autêntica, de modo que a teologia torna-se a reflexão sobre a
experiência do encontro que leva à existência autêntica. Seria errado dizermos
que, com isso, Bultmann reduziu a teologia a uma forma de antropologia, uma
acusação que ele mesmo rejeitou,50 mas sua abordagem significa que não se pode
afirmar nada sobre Deus sem que ao mesmo tempo se fale do ser humano.
A declaração de Bultmann de que só podemos falar de Deus à medida que
falamos de nós mesmos coloca a natureza eterna de Deus fora dos limites da
articulação teológica humana. Assim, torna-se impossível conhecer a Deus em
sua divina realidade eterna. Bultmann afirmava que essa situação está de acordo
com os propósitos da fé: “O mistério pelo qual a fé se interessa não é o que Deus
vem a ser em Si mesmo, mas sim como ele age em relação aos homens.”51
Apesar de indicar uma verdade importante, esse limite sobre o que a teologia
pode afirmar é simplesmente restrito demais quando comparado ao Novo Testa
mento e à história da teologia. Para o questionamento teológico clássico é essen
cial o desejo de se fazer afirmações sobre a realidade eterna de um Deus que não
é limitado pelo indivíduo que crê, mas está muito além dele.
Não apenas as declarações sobre a realidade divina têm sua abrangência
reduzida, como também a proposta de Bultmann limita as afirmações sobre o agir
de Deus no mundo. Ao mesmo tempo que classificava a maior parte das afirma
ções sobre o agir de Deus como sendo mitológicas, Bultmann insistia que Deus
agiu em Cristo “de uma vez por todas em favor do mundo”.52 E, insistentemente,
tentou mostrar como as afirmações sobre a ação divina devem ser compreendi
das em termos de existência humana. Mas, como disse John Macquarrie, nem
todas as asserções bíblicas sobre os atos poderosos de Deus, sua graça, revela
ção ou a singularidade de Jesus podem ser encaixadas no critério existencialista
hermenêutico. Portanto, nem todas as declarações concernentes à transcendência
podem ser traduzidas como asserções acerca do “próprio eu”, como a proposta
de Bultmann parece exigir.53
O seu rígido enfoque existencialista também limitava indevidamente as afir
mações cristológicas. O próprio Bultmann foi forçado a restringir as asserções
sobre o agir de Deus à simples declaração de que “um determinado acontecimen
to histórico, isto é, Jesus Cristo, deve ser considerado o ato escatológico definiti
vo”.54 Essa declaração, porém, juntamente com as negações anteriores a respeito
da importância do Jesus histórico como Logos eterno,55 em última análise, é ina
dequada diante das muitas facetas da compreensão da importância de Jesus e da
importância do agir do Deus transcendente em Jesus afirmado pelo Novo Testa
mento e pela igreja.
Conclusão
Bultmann foi motivado pela preocupação em permitir que o evangelho falasse à
mente moderna sem ser impedido pelos mitos do mundo antigo. Ele acreditava
que, por terem deixado de lado todos os conceitos mitológicos, as pessoas não
eram mais capazes de falar em termos de atos sobrenaturais dentro da lógica de
causa e efeito. Ao limitar as declarações acerca do agir de Deus na História
somente à esfera da fé, seu desejo era possibilitar que o evangelho pudesse ir de
encontro ao indivíduo de nossos dias. Para isso, era preciso que ele seguisse o
exemplo de Kant e criasse uma barreira impenetrável entre o mundo natural au
tônomo e o universo transcendente da fé. Avanços subseqüentes nas ciências e
na filosofia demonstraram como esse foi um procedimento infeliz e desnecessá
rio.56 O próprio “mundo natural autônomo”, visto como uma cadeia fechada de
causas e efeitos já é considerado um mito. E são cada vez mais evidentes os
perigos de uma teologia que confina Deus ao universo das crenças pessoais.
Em resumo, Bultmann fez uma nobre tentativa de reafirmar a transcendência
de Deus diante da ênfase à imanência encontrada na teologia liberal do século
19. Mas a sua proposta radical de desmitologização dentro dos modelos
existencialistas, motivada pelo desejo de proclamar a antiga mensagem para a
m ente m oderna, o levou a uma descrição lim itada justam ente daquela
transcendência que ele queria tanto preservar. Tendo em vista que no sistema de
Bultmann não se pode falar de Deus a não ser em relação ao ser humano, e que
Deus não age no mundo a não ser na esfera privada da fé pessoal, as dimensões
mais amplas da transcendência de Deus face a face com sua criação acabam
sendo eliminadas do campo de atuação do teólogo. Apesar de seus esforços
proveitosos de oferecer bases existenciais para a reconstrução da teologia no
mundo moderno, Bultmann simplesmente não conseguiu escapar dos problemas
apresentados pelo Iluminismo e que não foram solucionados pela teologia do sé
culo 19, à qual ele reagiu tão fortemente. Ele não foi capaz de reafirmar a
transcendência de Deus em seu sentido pleno e bíblico.
REINHOLD NIEBUHR: A T r a n s c e n d ê n c i a R e v e l a d a a t r a v é s d o M i t o
Reinhold Niebuhr nunca se viu como um teólogo.1 Nas palavras de sua espo
sa, ele foi, acima de tudo, um pregador e um pastor;2 foi também um estudioso da
ética social e um apologista e percorreu todo o circuito das universidades e facul
dades do país.3 Devido à interrupção de seus estudos para atender a necessida
des familiares após a morte de seu pai e por causa de seu “enfado para com a
epistemologia”,4 Niebuhr nunca chegou a receber as credenciais teológicas aca
dêmicas tradicionais. O título mais elevado que obteve foi de Mestre em Ciências
Humanas, em Yale. Ainda assim, em termos de impacto, ele é considerado o
teólogo norte-americano mais influente da primeira metade do século 20. Sua
influência estendeu-se além da comunidade cristã, pois suas atividades e escritos
tiveram impacto sobre todo o país. Conforme observou D. R. Davies:
Uma de suas grandes realizações foi ter feito da teologia uma ciência de necessida
de e importância secular. Ele é um dos poucos teólogos a quem os pensadores
humanistas dão a mesma atenção que reservam para seus publicistas. Essa é
uma conquista rara, da qual poucos teólogos podem se orgulhar.5
Sua presença foi sentida especialmente nos meios sociais e políticos. Mais de
uma década depois da morte de Niebuhr, Paul Jersild concluiu: “É difícil encontrar
um teólogo do século 20 que tenha exercido mais influência sobre a vida política
do país do que Reinhold Niebuhr” .6
Não se pode dizer que Niebuhr foi um pensador teológico inovador. Sua
missão não era apresentar uma teologia nova e criativa, mas sim aplicar a fé
cristã como ele a entendia na dimensão social da vida. Porém, seus esforços
nessa área o levaram a ser uma voz dominante e formativa na comunidade reli
giosa dos Estados Unidos durante as décadas centrais do século 20. Essa influ
ência conferiu a Niebuhr um lugar de grande importância na história teológica
desse século.
Os estudiosos, muitas vezes, classificam Niebuhr como um teólogo neo-ortodo-
xo.7 Ele, porém, rejeitava essa classificação por ser equivalente ao rótulo conferido
a Barth, a quem ele criticou em várias ocasiões.8 De qualquer modo, sua importân
cia para a história da teologia está em sua ligação com o movimento de protesto
contra o liberalismo; movimento este que, devido à sua volta às doutrinas cristãs
clássicas, é geralmente chamado de “neo-ortodoxia”. Por ser o porta-voz ameri
cano mais influente na crescente rejeição - iniciada por Barth - da teologia do
século 19, Niebuhr tornou-se um propagador de certas ênfases centrais da neo-
ortodoxia em meio à teologia nos Estados Unidos.
A Carreira e o Desenvolvimento Intelectual de Niebuhr
Assim como Walter Rauschenbusch, com o qual tinha certa afinidade (apesar da
rejeição explícita de Niebuhr ao movimento do evangelho social), Niebuhr foi
criado no contexto de um ambiente repleto de cristianismo pietista. Seu pai era
pastor no Sínodo Evangélico (que hoje é parte da Igreja Unida de Cristo), cujas
raízes encontram-sena união das tradições Luteranas e Reformadas na Prússia.
Após terminar o ensino médio em Lincoln, Illinois, Reinhold freqüentou o Elmhurst
College e o Eden Seminary antes de ir para Yale, em 1913, onde completou o
Bacharelado em Teologia e o Mestrado em Ciências Humanas, em 1915.
A carreira de Niebuhr teve início em Detroit. Mais uma vez, é impressio
nante a semelhança de sua história com a de Rauschenbusch. Depois de se
formar em Yale, ele tornou-se pastor de uma congregação constituída, em sua
maioria, por operários da montadora Ford. Lá, ele teve contato direto com a luta
daqueles que estavam sendo explorados pelos grandes industriais do país, uma
experiência que influenciou profundamente tanto seu enfoque social quanto sua
teologia. Assim como o pastorado de Rauschenbusch no bairro pobre de “Hell’s
Kitchen”, em Nova York, o levou na direção do socialismo, o jovem pastor Niebuhr
tornou-se defensor de uma proposta semelhante de mudanças sociais.
Porém, numa encruzilhada importante, o caminho de Niebuhr tomou um rumo
diferente daquele seguido pelo pastor batista alemão. As experiências de
Rauschenbusch o conduziram para a esquerda da teologia - no sentido do “evan
gelho social”, um movimento que empregava certos elementos centrais do libera
lismo teológico. A metamorfose de Niebuhr (assim como a de Karl Barth), por
outro lado, acabou conduzindo a um movimento de direita - a redescoberta da
ortodoxia. A conturbada situação social que ele presenciou durante seus anos de
pastorado o forçaram, em suas próprias palavras “a repensar o credo liberal e
extremamente moralista que eu havia aceito como sinônimo de fé cristã” .9 Além
disso, as deficiências do liberalismo iam além da esfera social e o afetavam no
nível pessoal: “Em minhas tarefas na congregação, descobri que o idealismo sim
ples no qual a fé clássica havia se evaporado era irrelevante tanto para as crises
da vida pessoal como para as complexas questões sociais presentes em uma
cidade industrial.”10 Em resumo, em Detroit, ele começou a perceber que a teolo
gia liberal aprendida no seminário não estava à altura dos desafios de todas as
dimensões do ministério pastoral do século 20.
Suas atividades como pastor em Detroit projetaram Niebuhr à proeminência
nacional. Em decorrência disso, em 1928, ele foi chamado para lecionar no Union
Theological Seminary, em Nova York, que, naquela época, era o seminário protes
tante de maior prestígio nos Estados Unidos. Lá, ele trabalhou até aposentar-se,
em 1960. Um ponto alto da vida de Niebuhr foi quando ele recebeu um convite
para dar as famosas palestras de Gifford, em Edimburgo, no ano de 1939. Essas
palestras foram incorporadas em sua obra mais conhecida The Nature and Destiny
o f Man [A Natureza e Destino do Homem],
Talvez por causa da revolução intelectual pela qual ele passou durante seu
pastorado, Niebuhr nunca teve medo de mudar e desenvolver o seu pensamento.
Para ele, a abertura e o envolvimento nas transformações eram dimensões natu
rais da vida - o que fica evidente na pequena oração popular que Niebuhr compôs
em 1934 e que teria sido jogada fora se um amigo não tivesse pedido uma cópia:
“Deus, concedei-nos a graça de aceitar com serenidade as coisas que não pode
mos mudar, a coragem de mudar aquilo que deve ser mudado e a sabedoria para
distinguir entre uma coisa e outra”.11
Um estudioso de Niebuhr, Ronald H. Stone, divide sua vida em quatro fases: a
liberal, a socialista, a pragmática e, finalmente, a pragmática-liberal.12 Essas fa
ses, porém, estão entretecidas de modo a formar um todo. Em todas elas, Niebuhr
lutou contra a sua herança liberal em termos de relação entre o ideal e o real, que
ele via na religião da Bíblia.13 De que modo as realidades da vida no presente,
marcadas pelo mal e pelo pecado, se encaixam com o ideal para a humanidade?
Para Niebuhr, a resposta apresentada pelo liberalismo teológico e social de sua
época era ingênua, desorientada e inútil. No lugar dela, ele procurou trazer o
evangelho bíblico para a situação histórica específica na qual ele se encontrava
e, assim, descobrir como aplicar esse evangelho à civilização ocidental como
um todo.14
Cristianismo Prático
Ao longo de seus escritos, há três temas predominantes relacionados entre si e
que fazem parte da tarefa básica e central de Niebuhr. Em primeiro lugar, ele
estava profundamente interessado nas implicações práticas da fé cristã. Seu ob
jetivo fundamental era apresentar o que podia ser compreendido através da tradi
ção cristã dentro da situação moderna e praticar em sua própria vida as convic
ções resultantes de sua fé. Seu alvo era sempre “determinar a relevância da fé
cristã para os problemas contemporâneos” .15 Por causa disso, ele se recusava a
ficar limitado às discussões teológicas abstratas e tornou-se um ativista, procu
rando aplicar o que pudesse ser apreendido a partir da teologia a diferentes
áreas como a política, questões internacionais, direitos humanos e sistemas eco
nômicos. Em cada uma delas, entretanto, ele buscava sempre agir como prega
dor profético, indo de encontro à vida social contemporânea com a crítica ofe
recida pela fé cristã.
Ao fazê-lo, ele atuou como uma espécie de apologista, pois procurava mostrar
a importância e o valor da fé cristã numa sociedade que havia, de um modo geral,
rejeitado o evangelho. Em suas próprias palavras, ele estava interessado em “de
fender e justificar a fé cristã numa sociedade secular” .16 Mas a sua apologética
empregava uma abordagem completamente diferente do apelo clássico à
racionalidade do Cristianismo. Niebuhr procurava mostrar que a fé cristã oferece
o sentido de vida, mas afirmava que “não existe um sentido maior de vida que seja
capaz de compelir a razão”.17 Na realidade, as duas proposições centrais do Cris
tianismo, de que Deus é pessoal e de que Deus age dentro da História para supe
rar a alienação entre a humanidade e Deus “são absurdas se vistas de modo
estritamente ontológico”.18 Enquanto a teologia liberal predominante em sua época
havia procurado reduzir a absurdidade da fé, ao limitar a mensagem bíblica a
um conjunto de “princípios eternos” de ética ou ontologia, Niebuhr defendia
uma apologética que deixasse claro o caráter ontologicamente ambíguo dos
conceitos de personalidade e história” .19 Em meio a tais ambigüidades, deve
mos deixar espaço para aquilo que não é racional,20 para que a mensagem do
relacionamento de Deus com a criação, comprovada pelos símbolos da Bíblia,
possa ser proclamada.
Por trás dessa força motivadora, havia uma convicção que D. R. Davies
descreve corretamente como “o princípio da relevância de um evangelho absoluto
A contribuição mais importante de Niebuhr para a releitura da teologia cristã de
nossa geração é sua exposição da doutrina do homem. Ao contrário de teólogos
sistemáticos como Tomás de Aquino ou Barth, que revestem o conjunto de ver
dades cristãs com o método da Summa, Niebuhr elabora uma doutrina de bases
profundas que alinha todo o seu pensamento.26
Apesar desse comentário ser um exagero,27 ele ressalta a centralidade da
antropologia no pensamento de Niebuhr.
Niebuhr era atraído pela doutrina da humanidade, pois descobriu uma profun
didade na visão cristã clássica que não havia encontrado no liberalismo. Na ver
dade, a seu ver, os problemas centrais de sua época eram decorrentes da rejeição
dos temas antropológicos bíblicos pela tradição liberal predominante, que os havia
substituído por falsas doutrinas de perfeição humana e idéias de progresso.28 Ele
afirmava que, no liberalismo, “ aquilo que a ortodoxia cristã chamava de ‘pecado’
havia sido transformado em imperfeição da ignorância, que uma pedagogia ade
quada poderia prontamente retificar”.29 Niebuhr argumentava que, contrariamen
te ao otimismo, à ênfase na razão e à fé na educação, aos quais o liberalismo
ingenuamente se apegava, a Bíblia apresenta uma visão realista. Em decorrência
disso, sua própria antropologia refletiaaquela do cristianismo clássico, no sentido
de que ele buscava enfatizar os dois lados da atual situação do homem. Ele afir
mava a condição elevada do ser humano, criado à imagem de Deus, bem como o
tema bíblico da pecaminosidade universal.
A Contradição Humana
No centro da antropologia de Niebuhr, encontra-se a sua visão da contradição que
caracteriza a condição humana. Baseado no livro de Gênesis e no apóstolo Paulo,
Niebuhr argumentava que a humanidade acarreta tanto um potencial quanto um
problema, duas realidades que não podem ser separadas. Na obra A Natureza e
Destino do Homem ele resume a antropologia bíblica em três teses.30 Primeiro, o
ser humano é uma existência criada e finita tanto em corpo quanto em espírito.
Assim, todas as antropologias dualistas - pontos de vista que dividem o ser huma
no em corpo e alma - devem ser rejeitadas. Em segundo lugar, os seres humanos
devem ser vistos, antes de mais nada, do ponto de vista de Deus (ou seja, como
imagem de Deus), e não em termos de suas faculdades racionais ou em relação à
natureza. Assim, cada ser humano é um indivíduo capaz de se posicionar fora de
si mesmo e do mundo e que não é capaz de encontrar significado em si mesmo ou
no mundo. Em terceiro lugar, os seres humanos são pecadores. E, por causa do
pecado, eles devem ser amados, mas não considerados dignos de confiança.
Assim, Niebuhr não estava interessado no ser humano como tal - e nem no
ideal ou no abstrato. Conseqüentemente, ele rejeitava filosofias que falassem da
humanidade em termos ontológicos. Ao invés disso, semelhante a outros teólogos
neo-ortodoxos, ele estava interessado no ser humano como um ser histórico.31
Assim, seus escritos concentravam-se nos seres humanos em termos de seu rela
cionamento com Deus e uns com os outros em sociedade.32
0 Pecado Humano
Das três dimensões de antropologia bíblica, para Niebuhr, era o conceito de peca
do que estava mais em falta na mentalidade moderna. Por isso, ele tratou repeti
damente dessa questão. Entretanto, essa dimensão da visão bíblica da realidade
humana estava intrinsecamente ligada às outras duas. Ao contrário das antropo-
logias dualistas, para ele, o pecado estava enraizado no coração do ser humano,
no mal uso da capacidade que constitui a singularidade humana - a transcendência
de si mesmo.33 De acordo com Niebuhr, esse é o ponto central da história da
Queda.34 Através do mal uso da capacidade de nos transcendermos, nos recusa
mos a reconhecer nossa condição de criaturas. Traídos por nossa capacidade de
examinar o todo, nos imaginamos como sendo esse todo. Assim, dentro do melhor
estilo reformado, e em contraste com aquilo que ele via como a tendência do
liberalismo, Niebuhr considerava o pecado um ato da pessoa como um todo, de
modo que nenhuma parte do ser humano pode ser exonerada da cumplicidade
dessa rebelião contra Deus.35 Ele argumentava que, como resultado da natureza
absoluta de nossa rebelião na condição de criaturas, o problema humano não está
em como os seres finitos podem conhecer a Deus, mas em como um povo peca
dor pode ser reconciliado com Deus.
A ortodoxia desenvolveu a doutrina do pecado original como forma de expli
car a universalidade dessa rebelião humana. Nas suas palestras de Gifford, Niebuhr
apresentou a verdade profunda que encontrou dentro da doutrina clássica37 (ape
sar de, em sua aposentadoria, ele ter admitido o erro inicial de tentar reavivar o
vocabulário dessa doutrina;38 conseqüentemente, ele mudou de linguagem e pas
sou a falar da contradição humana em termos de “buscar a si mesmo” e “dar-se
a si mesmo”).39 O pecado é universal e inevitável, mas não é necessário, de modo
que continuamos sendo responsáveis por ele. A verdade sobre o pecado univer
sal, portanto, está no fato de que ela declara o potencial para o erro enraizado em
cada um. Entretanto, Niebuhr rejeitava a interpretação tradicional de pecado ori
ginal como sendo um desvio moral herdado e preferia o conceito de ansiedade
proposto por Kierkegaard para explicar a experiência universal da origem do pe
cado.40 Ele afirmava que o paradoxo de liberdade e finitude característico da
condição humana gera a insegurança. Estamos envolvidos nas contingências do
processo natural da vida (finitude). Mas também somos capazes de nos
posicionarmos fora dele e ver seus perigos (liberdade). Somos, por natureza, pre
sos e limitados; porém, somos também livres e dotados da capacidade de nos
elevarmos acima da natureza. O sentimento de insegurança resultante dessa si
tuação é que gera a ansiedade. No estado de ansiedade, somos tentados a nos
voltarmos para asserções pecaminosas sobre nós mesmos - transformamos nos
so caráter finito em eterno, nossa fraqueza em força, nossa dependência em inde
pendência ao invés de confiarmos na fonte suprema de segurança que é o amor
de Deus. Em termos bíblicos, somos capazes tanto do pecado quanto da fé.
Assim, para Niebuhr, o pecado deve ser visto em relação à fé. A fé é a
aceitação de nossa dependência de Deus, enquanto o pecado é a negação de
nossa condição de criaturas. O pecado aparece sob duas formas, dois meios atra
vés dos quais procuramos escapar da ansiedade. O primeiro é a sensualidade, a
tentativa de negar a liberdade humana ao regredirmos à natureza animal.41 A
segunda abordagem é mais básica e universal - a negação de nossas limitações
humanas através da afirmação de nossa independência. Esse é o pecado do orgu
lho, que aparece sob várias formas:42 o orgulho do poder (buscar o poder como
tentativa de sentir segurança), o orgulho do conhecimento (declarar como absolu
to e final coisas que não passam de conhecimento finito) e o orgulho da virtude
(declarar como absolutos os nossos padrões morais relativos), levando ao orgulho
espiritual (conferir caráter divino a nossos padrões limitados).
Niebuhr acrescentava ainda que o orgulho não apenas está presente nos indi
víduos, como também aparece de modo pronunciado em grupos, “pois o grupo é
mais arrogante, hipócrita, cruel e egocêntrico na busca por seus interesses do que
o indivíduo”.43
Neo-ortodoxia Modificada
A antropologia era o centro dos interesses de Niebuhr como teólogo, eticista e
pregador. Ao mesmo tempo que sua visão da condição humana estava inserida
num contexto teológico mais amplo, que incorporava certos temas articulados
por eminentes figuras neo-ortodoxas européias, como Karl Barth e Emil Brunner,
ele também deixava evidentes diferenças importantes. A diferença central en
contrava-se no grau de rejeição ao liberalismo. No que diz respeito à neo-
ortodoxia americana, dentro da qual Niebuhr é muitas vezes citado como prin
cipal expoente, Edward Carnell afirmou: “sua recusa à imanência liberal é
menos ambiciosa” .44
Niebuhr não era tão severo em sua rejeição ao liberalismo como Barth e
outros, pois ele propunha uma visão menos restrita do relacionamento de Deus
com o mundo. Nesse assunto tão relevante, ele concordava com a ênfase princi
pal da neo-ortodoxia européia sem ser tão radical no enfoque da separação entre
Deus e o mundo, como acontecia com os gigantes teólogos da Europa. Na Bíblia,
ele via uma ênfase à transcendência de Deus que era equilibrada pela ênfase na
“relação íntima de Deus com o mundo”.45
Niebuhr, portanto, afirmava os dois aspectos da revelação de Deus.46 A reve
lação privada (ou “geral”) é “o testemunho na consciência de cada pessoa” de
que a vida toca uma transcendência que vai além do sistema natural em que cada
pessoa existe. Essa revelação privada, por sua vez, afirma uma outra dimensão
da revelação, a saber, a revelação pública ou histórica (“especial”).
Assim, enquanto, para Barth, não havia um ponto de contato entre Deus e o
ser humano, para Niebuhr, havia áreas inteiras desse contato.47 Ao mesmo tem
po em que concordava que os seres humanos são pecadores, ele também via o
potencial do ser humano, até mesmo potencial para considerar-se um peca
dor.48 Enquanto enfatizava a transcendência divina, elenão afastava Deus a
ponto de eliminar a possibilidade de se conhecer Deus. Ele concordava que a
revelação ia totalmente contra a razão, mas não de modo que tornasse impossí
vel o reconhecimento da verdade. Acreditava, ainda, que a teologia natural não
era tão equivocada a ponto de tornar a eternidade algo irrelevante à História.
Pelo contrário, a sabedoria de Deus discernida pela fé nunca está em completa
contradição com a experiência humana e, como resultado disso, a verdade do
evangelho pode ser confirmada pela experiência, mesmo que não seja derivada
dessa experiência.49
Em resumo, ao mesmo tempo em que se juntava à crítica neo-ortodoxa do
liberalismo, para o bem da teologia, ele recusava-se a ir para o outro extremo: se
tempo e eternidade são totalmente desconexos, então é impossível haver um dis
curso significativo sobre Deus. Mas, na esfera da personalidade, Niebuhr encon
trou um ponto crítico de interseção. Niebuhr o via como um “conceito analógico
útil” para nos ajudar a compreender a transcendência e imanência de Deus, pois
“pessoa” implica tanto liberdade em relação ao processo de vida quanto uma
relação com esse processo.50
Apesar de Barth ter sido o alvo principal de suas críticas à neo-ortodoxia,
Niebuhr também expressou certa reserva em relação à alternativa apresentada
por Rudolf Bultmann.51 Além de diferentes enfoques no tocante às disciplinas
acadêmicas (Bultmann via a teologia do ponto de vista do estudo do Novo Testa
mento, enquanto Niebuhr partia da ética social), o ponto principal em que os dois
divergiam era sua compreensão de mito. Bultmann desejava desmitologizar a
mensagem do Novo Testamento, de modo a torná-la compreensível à mente mo
derna não-mitológica. Niebuhr, por outro lado, procurava mostrar como os mitos
bíblicos ainda falam à situação moderna, que também apresenta seus próprios (e
muitas vezes falsos) mitos. Ele criticava o estudioso alemão por não fazer uma
distinção clara o suficiente entre mitos pré-científicos (que “desconsideram aquilo
que sempre se soube ou que agora tornou-se conhecido sobre a ordem dos acon
tecimentos”) e mitos permanentes (aqueles que “descrevem algum significado da
realidade, que não estão sujeitos a uma análise exata, mas que podem, ainda
assim, ser verificados pela experiência”). Niebuhr concluiu que, ao não fazer essa
divisão, Bultmann estava sendo negligente na tarefa de “proteger a verdade con
tida no kerygma”.52
A Rejeição ao Liberalismo
Este amplo esboço sobre o pensamento de Niebuhr e sua relação complexa com
a neo-ortodoxia oferece uma perspectiva para que olhemos mais de perto sua
rejeição ao liberalismo. Como resultado de sua experiência de pastorado e seu
estudo das fontes cristãs, Niebuhr apresentou uma crítica devastadora do panora
ma teológico e social dominante em sua época, embora manifestasse reconheci
mento à herança liberal. Ele chegou até mesmo a criticar sua expressão dentro do
movimento do evangelho social com o qual tinha grande afinidade.
Um ponto central dessa crítica era sua percepção de que, em seu otimismo
ingênuo, o liberalismo havia perdido a verdadeira mensagem bíblica, especialmen
te a visão realista da Bíblia sobre a natureza humana. No princípio (durante a
década de 30), porém, Niebuhr atacou o liberalismo a partir de uma perspectiva
marxista-socialista. Apesar de, ao longo de sua vida, ele ter considerado proveito
so o pensamento de Marx, Niebuhr percebeu que também tinha suas falhas e
estas eram justamente em pontos parecidos com os do próprio liberalismo. Ele
não oferecia nenhuma transcendência para o julgamento de Deus e apresentava
uma antropologia romântica que não levava a sério a Queda da humanidade.
Nesses dois casos, foi na perspectiva de Agostinho que Niebuhr encontrou uma
visão que refletia com mais precisão a situação atual, o que resultou num ataque
à tradição liberal realizado a partir de um ponto de vista agostiniano (durante a
década de 40).
Niebuhr resumiu sua insatisfação inicial com o liberalismo no livro Moral
Man and Immoral Society [Homem Moral e Sociedade Imoral] (1932). Essa
obra não foi sua primeira incursão literária; porém ela o colocou entre os mais
importantes teólogos. Apesar de mais tarde ele ter modificado alguns de seus
pontos, Niebuhr nunca abriu mão da tese central do livro de que “se deve traçar
uma linha bem clara entre o comportamento moral e social dos indivíduos e dos
grupos sociais”.53 Enquanto os indivíduos podem ser morais no sentido de “serem
capazes de considerar os interesses dos outros e não só os seus próprios, ao
determinarem problemas de conduta”, as sociedades e grupos sociais estão mais
susceptíveis a “um egoísmo desenfreado”.54
Ao contrário do que o título do livro pode sugerir, Niebuhr não era um român
tico ingênuo quanto à moralidade dos indivíduos. Na verdade, ele afirmava que
cada indivíduo é dotado de um impulso não-egoísta bem como de um impulso
egoísta.55 Esse impulso egoísta encontra ainda menos restrição dentro de um gru
po social do que no indivíduo. Em decorrência disso, todas as propostas de auto-
ajuda, como aquelas apresentadas por antecessores liberais de Niebuhr e alguns
de seus contemporâneos, estão condenadas a ficarem aquém do ideal.
Baseado nessa análise, Niebuhr propôs um “enfoque duplo da vida moral”,
que consistia em duas diferentes perspectivas e dois ideais éticos corresponden
tes. Para a vida interior do indivíduo o ideal é a ausência de egoísmo. Mas a vida
social do ser humano requer um outro ideal, que só pode ser o de justiça.56 Esse
tema foi mais desenvolvido em sua obra seguinte, que deu continuidade ao seu
ataque ao liberalismo, An Interpretation o f Christian Ethics [Uma Interpreta
ção da Ética Cristã] (1934). Nela, Niebuhr apresentou a tese de que, enquanto o
“amor pode motivar a ação social... a justiça deve ser o instrumento do amor em
um mundo dentro do qual os interesses próprios desafiam os cânones do amor em
todos os níveis”.57
Começando com Uma Interpretação da Etica Cristã e prosseguindo em
outros escritos subseqüentes, Niebuhr ampliou sua crítica ao liberalismo de modo
a incluir conhecimentos apreendidos através do estudo da fé bíblica e de Agosti
nho, o que foi possível graças à sua docência no Union Seminary.58 Ele rejeitou
aquilo que chamava de “utopia moralista”59 e sentimentalismo da igreja liberal,
descobrindo que em suas origens encontrava-se o conceito equivocado de que o
amor é uma simples possibilidade histórica e não uma “possibilidade impossível”.60
Niebuhr afirmava que o moralismo liberal era sentimental por três razões.61 Em
primeiro lugar, fiel às suas diferenças antropológicas com o liberalismo, ele via uma
falta de consciência da profundidade e poder do pecado. Essa falta de consciência
não vai ao encontro das necessidades dos indivíduos em sua jornada espiritual e de
justiça na sociedade. Em segundo lugar, o moralismo liberal não reflete as verda
deiras dimensões religiosas apresentadas no evangelho. Em resposta à condição
humana, ele simplesmente apresenta o mandamento de amar a Deus e ao próxi
mo, sem proclamar a misericórdia de Deus revelada em Cristo como fonte tanto
do perdão dos pecados quanto do poder para vencer o pecado. Em terceiro lugar,
tendo em vista que o liberalismo não compreendia corretamente a ruptura radical
entre o ideal e o verdadeiro - a maneira radical como o amor transcende todos as
idéias e realizações humanas - , ele carecia de realismo social e político.
A Alternativa de Niebuhr
Niebuhr não apenas ofereceu uma crítica ao liberalismo como também propôs
uma alternativa que, a seu ver, estava mais de acordo com o “realismo cristão”.
Em sua proposta, ele voltou-se para a fé bíblica, principalmente suas raízes
hebraicas, em busca de ajuda. Ele afirmava que a cultura ocidental devia a essa
tradição religiosa duas de suas ênfases fundamentais: “a noção de individualidade
e a noção de história significativa”.62 Mantendo-se fiel à sua herança, ele procu
rou restabeleceressas ênfases dentro da situação contemporânea.
Assim como outros teólogos neo-ortodoxos, a proposta construtiva de Niebuhr
lançava mão de uma visão dialética da relação entre o tempo e a eternidade.63 O
eterno é revelado no temporal, mas não se limita a ele. A História e a existência
humana são significativas, mas sua fonte e seu cumprimento encontram-se além
da História.64 Como resultado, esse relacionamento pode ser expressado somente
em termos simbólicos. Assim, a relação dialética entre eternidade e tempo abre
caminho para o uso do mito.
O Mito
De acordo com Niebuhr, o mito é necessário, pois certos aspectos da realidade,
como a natureza da condição humana e a fonte transcendente do significado da
História, são paradoxais e, portanto, não podem ser compreendidos através de
termos científicos ou racionais.65 Ele afirmava que o caráter significativo da vida
requer uma fonte que esteja além de si mesma. Mas, por esse centro transcender
tanto a experiência imediata como os termos que usamos para descrevê-la, as
abordagens puramente racionais são inadequadas para a busca da transcendência.
Só se pode falar do transcendente através do uso de mitos, que servem como
símbolos da verdadeira realidade. Assim, Niebuhr encontrou nos símbolos cris
tãos um modo de referir-se à fonte transcendente de significado.
Foi com essa visão que Niebuhr afastou-se tanto do liberalismo quanto da
ortodoxia tradicional. Ele argumentava que, em seu caso de amor com o método
científico, na abordagem puramente racionalista da vida e da mentalidade moder
na, o liberalismo havia rejeitado os mitos da fé cristã. Entretanto, a visão ortodoxa
do “pecado da profanação” é igualmente problemática: “Ela insiste na verdade
histórica e literal dos mitos, esquecendo-se de que a função e o caráter do mito
religioso é falar do eterno em relação ao tempo e de que eles não podem, portanto,
ser uma afirmação de seqüências temporais”.66
De acordo com Niebuhr, quando entendidos corretamente como afirmações
da relação entre o eterno e o temporal, os mitos da fé cristã são relevantes para
nossa época. Um desses mitos é o da Queda. Conforme vimos anteriormente, a
importância desse mito para Niebuhr não estava em seu uso como uma descrição
literal de um acontecimento que havia ocorrido no começo da história da humani
dade. Ao invés disso, ele via esse episódio como uma afirmação profunda sobre a
universalidade do pecado e suas origens na finitude e na liberdade do homem. A
Queda, portanto, é uma declaração poderosa da condição humana ao longo da
História em cada situação.
A Vida de Fé
Para Niebuhr, entretanto, a mensagem central do Cristianismo vai além do peca
do humano e alcança a salvação divina, apesar de sua visão de pecado constituir
o contexto de sua compreensão dessa dinâmica. Como a neo-ortodoxia em geral,
ele rejeitava a tentativa racionalista de ver a salvação em termos de conhecimento
de Deus, escolhendo, ao invés disso, descrevê-la em termos de vida de fé em meio
às contradições da existência no mundo. Assim, de acordo com Niebuhr, a fé “deve
continuar sendo um compromisso do indivíduo e não uma conclusão de sua men
te”.67 Apesar de admitir que uma validação racional limitada do evangelho é possí
vel através da correlação com as verdades conhecidas por meio da ciência e da
filosofia,68 em última instância, a fé não pode ser provada; ela só pode ser vivida.69
A fé, portanto, implica encarar de maneira realista as inseguranças da vida e
perceber que elas podem ser superadas apenas por Deus. Essa fé protege do orgu
lho, pois é somente Deus que pode ser considerado a fonte de segurança. Do mes
mo modo, a fé contém o significado da vida como um todo e da História,70 pois ela
“toca a esfera do mistério que está além da compreensão racional”.71 Essa relação
com Deus, entretanto, baseia-se no perdão de Deus e não em nossa própria retidão.
A Cruz
Para Niebuhr, porém, o ponto central da fé cristã é a cruz, pois o Cristianismo
proclama o evangelho, do qual esse acontecimento é a essência. Fiel à sua rejei
ção à abordagem racionalista do mistério da realidade, ele advertia que o signifi
cado da cruz não é conseqüência lógica de fatos observáveis da História,72 sendo
visível apenas através dos olhos da fé, assim como o caráter absoluto do evange
lho, como significado para a história da humanidade, não pode ser provado atra
vés da análise racional.73
A cruz é importante, pois é reveladora; ela desvenda a verdade profunda
acerca da humanidade e de Deus. Por um lado, ela fala da condição humana. A
cruz é, ao mesmo tempo, a revelação da nossa natureza essencial e do nosso
pecado. É na cruz que vemos aquilo que somos essencialmente, não em termos
daquilo que possuímos agora, mas daquilo que ainda vamos ser, descobrindo tam
bém a extensão de nossa própria contradição.74 Como resultado, esse aconteci
mento mostra a profundidade da perdição humana e a perfeição do homem que
não pode de forma alguma ser obtida através da História.75 A cruz declara que,
por causa do poder do pecado, o amor permanece na História como um amor
sofredor. Em resumo, a cruz é a declaração do julgamento divino sobre o pecado
humano. Por outro lado, esse símbolo proclama o amor divino e o perdão do
pecado. É “a revelação do amor de Deus”, mas somente para aqueles “que,
primeiramente, se submeteram ao seu julgamento”.76
Para Niebuhr, o evento da cruz é o ápice da revelação bíblica da soberania de
Deus sobre a História. Ele revela o amor divino, que é capaz de vencer o mal
dentro do coração do ser humano e também tomar sobre si o mal da História.77 A
cruz, portanto, provê o significado da História, que se encontra no amor, pois é “o
mito da verdade acerca do ideal de amor”.78 Niebuhr argumentava que, ao mes
mo tempo, a verdade revelada na cruz toma-se a base de uma nova sabedoria,
através da afirmação da fé cristã de que Jesus é o Filho de Deus e o Segundo
Adão,79 dois símbolos que, para ele, indicam que “Jesus desvenda o mistério
maior do relacionamento entre o divino e a História”.80
Em sua forma clássica, a teologia cristã explica o significado da cruz na dou
trina da expiação, uma doutrina que é embaraço e pedra de tropeço para a mente
moderna. Mas, contrário àqueles que desejavam eliminar a expiação como “um
resquício incompreensível de superstição”81 ou apresentá-lo como “um elemento
da fé completamente incompreensível”, Niebuhr procurava compreender o signi
ficado dessa doutrina. Para ele, ela oferecia a chave para a compreensão da His
tória. Ela declara que a História é incapaz de prover seu próprio significado e,
portanto, tem na misericórdia e no julgamento de Deus o seu cumprimento final.
O julgamento de Deus, por sua vez, é símbolo da importância da História e do
significado absoluto do bem e do mal. A misericórdia de Deus, pelo contrário, fala
do caráter incompleto e corrupto presente em todas as ações históricas, mas
também do amor que toma sobre si todo o mal.
A Transcendência Divina
A visão de Niebuhr acerca da natureza do significado e sua revelação à humani
dade resultou naquilo que talvez seja sua mais profunda e completa crítica à men
talidade moderna. A seu ver, a idade moderna era culpada de substituir “o Deus
da religião revelada pelo Deus da razão e da natureza”.82 Ela havia, portanto,
esquecido o caráter finito e a condição de criatura da humanidade. Em decorrên
cia disso, havia perdido o senso de transcendência, ou seja, não era capaz de
“sujeitar a retidão humana a uma retidão transcendente, a retidão de Deus”.83
Diante da negação moderna, Niebuhr procurava reafirmar a idéia bíblica de
transcendência divina como base tanto para a avaliação como para a superação
da condição humana. Para ele, essa dimensão é apresentada no conceito do reino
de Deus, que veio em Cristo e virá no clímax da História. Por um lado, somente a
idéia de um Deus transcendente e do reino de Deus sobre a humanidade e além
dela pode oferecer a perspectiva necessária para quea humanidade julgue sua
própria tendência à auto-afirmação e orgulho, quer individualmente ou em gru
pos.84 A proclamação cristã do Alfa e Ômega como origem do significado maior
da História é a referência para toda a humanidade, dando a ela significados, julga
mentos e cumprimentos históricos provisionais.85 A cada momento, o reino de
Deus continua sendo o ideal inatingível.86
Por outro lado, o conceito de transcendência determina que o significado da
História é desvendado no presente, iluminando a “escuridão das contradições da
própria História”,87 e oferece esperança do cumprimento final da História.
Niebuhr via essa esperança expressada nos três principais símbolos esca-
tológicos encontrados na Bíblia, sendo que nenhum deles deve ser entendido lite
ralmente, mas, ainda assim, todos os três devem ser levados em consideração.88
O símbolo da volta de Cristo é uma expressão de fé na suficiência da soberania de
Deus e na supremacia absoluta do amor. O julgamento final afirma a importância
da distinção entre o bem e o mal. E a ressurreição implica que a “eternidade
completará e não anulará” a variedade encontrada no processo temporal e que a
dialética da finitude e liberdade não tem uma solução humanamente concebível.89
No final das contas, a revelação do significado da História, ainda que vista
pela fé, também serve à vida de fé e ao testemunho cristão no mundo. E foi nesse
tom que Niebuhr concluiu sua principal obra A Natureza e Destino do Homem.
Em suas palavras, viver pela fé significa encontrar “a segurança absoluta além de
todas as seguranças e inseguranças da História”,90 isto é, no Deus transcendente
da História. Em 1939, Niebuhr expressou com otimismo que esse tipo de vida de
fé poderia dissuadir outros “de suas buscas idólatras por falsa segurança e reden
ção na vida e na História”.91
Crítica
Através de uma compreensão maior da altura da transcendência divina e da pro
fundidade da condição humana, Niebuhr procurou inserir uma nota de realismo
naquilo que via como um clima religioso e cultural ingenuamente otimista. Essa
tentativa já foi tanto elogiada como sua maior contribuição quanto criticada como
sua maior fraqueza. Sem dúvida, o conceito de realismo de Niebuhr teve grande
influência na esfera da política americana, especialmente na formação de uma
política internacional nos Estados Unidos nos anos imediatamente após a 2a Guer
ra Mundial.
Quanto ao legado de Niebuhr, é preciso que façamos dois comentários críti
cos, sendo que ambos estão relacionados à sua visão de tempo e eternidade e à
natureza da transcendência apresentadas por sua orientação teológica.
Símbolos Irreais
Em primeiro lugar, como os outros teólogos do movimento neo-ortodoxo, Niebuhr
estava preocupado com a questão de como os mitos e símbolos do Cristianismo
podem ser aplicados à mentalidade moderna. Sua resposta a essa questão mar
cou um passo decisivo, que foi além de Bultmann, pois Niebuhr via tais mitos
como revelações do significado transcendente da História. Mas, apesar dessa
importante contribuição, a proposta de Niebuhr tem se mostrado pouco satis
fatória. Colocando em termos simples, apesar de oferecer um meio de conside
rar seriamente - mas não literalmente - os símbolos, ele os tirou do universo da
realidade histórica.
Assim como Bultmann, Niebuhr argumentava que a chave para o significado
da História não podia ser encontrada na própria História, mas era desvendada
apenas para os olhos da fé, para aqueles que pudessem enxergar seu significado
transcendente além dos processos da vida. Mas, qualquer proposta desse tipo
levanta algumas questões teológicas críticas.
Uma delas é a questão do fideísmo.92 É possível para qualquer proposta mito
lógica de compreensão da história da salvação ir além do subjetivismo? Para
Niebuhr, os acontecimentos que desvendam o significado da História, justamente
por serem acontecimentos revelatórios, são supra-históricos. Eles revelam o sig
nificado da História não porque são acontecimentos literais e históricos, mas por
que tornam-se acontecimentos revelatórios apenas para a fé. Mas, como podem
tais acontecimentos oferecer, de fato, a chave para o significado da História? Não
seria possível dizer que a chave que eles oferecem é, em última análise, colocada
ali pelo observador crente?
Uma outra questão desse tipo diz respeito ao agir de Deus na História. De que
modo a visão de Niebuhr, com sua ênfase no “além da História”, pode falar da
atividade redentora de Deus dentro da História?93 Paul Lehmann dirigiu essa
pergunta à cristologia de Niebuhr:
Apesar de sua insistência na Cruz como ponto de referência, a partir do qual é
possível encontrar o significado das múltiplas e complexas dinâmicas da Histó
ria, o pensamento cristológico de Niebuhr não enfatiza suficientemente “os atos
poderosos de Deus” como acontecimentos transformadores que, tendo de fato
ocorrido, servem de farol num mar de relatividade histórica, dentro do qual o
canal de cumprimento do destino humano é traçado ... encarnação e expiação
expressam mais do que a compreensão dessa dinâmica [da História] pela fé.
Elas apontam para o fato de que algo aconteceu e continua acontecendo. Deus
tornou-se homem, Jesus Cristo foi crucificado. Em conseqüência desses acon
tecimentos, outros acontecimentos ocorrem.94
Lehmann e outros determinaram que a origem desse problema no pensamen
to de Niebuhr pode ser encontrado numa dificuldade teológica mais profunda, a
saber, uma pneumatologia limitada. Niebuhr simplesmente não desenvolveu a co
nexão do Espírito Santo com a afirmação de Cristo como Segundo Adão e nem
com sua própria visão do estarmos em Cristo.95 Como resultado disso, sua teolo
gia era, em última análise, “binitariana”.96
Talvez aquilo que vários críticos detectaram no nível cristológico era algo que
permeava toda a doutrina de Niebuhr acerca de Deus. Ao colocar os aconteci
mentos revelatórios da História na esfera do mito, ele parece ter eliminado a
possibilidade de tais acontecimentos desvendarem a realidade de um Deus trans
cendente, que é verdadeiramente capaz de agir no mundo.
Transcendência Sombria
Em segundo lugar, a história teológica subseqüente sugere que a opção de Niebuhr
pela cruz como símbolo teológico central carecia de ampliação. Por ser motivada
pela cruz, sua visão da história cristã concentrava-se naquilo que Paul Jersild
chamou de “caráter trágico da luta entre o amor divino e a resistência humana”.97
Portanto, não é completamente sem justificativa que Niebuhr foi tachado de teó
logo pessimista e que muitos críticos afirmaram que seu tema teológico central
era o pecado humano. Apesar de tais retratos transformarem-se facilmente em
caricaturas, eles mostram uma importante dinâmica agindo sobre as implicações
de seu pensamento. Em última análise, a proposta de Niebuhr leva, de fato, a um
certo tipo de pessimismo.
A ênfase que Niebuhr dava à cruz funcionava como fundamento para o seu
chamado a uma longa e sofrida luta na tentativa de atingir o que, no final, é inatin
gível. Ele via essa dinâmica agindo sobre os indivíduos, mas principalmente sobre
o âmbito social. Por causa da presença persistente do mal no mundo, o cristão só
pode esperar por uma renovação histórica e não um cumprimento histórico.98
Com base nessa perspectiva, Niebuhr apresentou uma apologética realista - po
rém bastante negativa - à democracia: “A capacidade do homem de fazer justiça
é o que torna possível a democracia; mas a inclinação do homem à injustiça é o
que torna a democracia necessária.”99 No final, sua teologia centrada na cruz
revelou apenas uma transcendência sombria, a realidade de uma possibilidade
impossível que julga toda a conduta humana.
A História subseqüente confirma que, enquanto esse tipo de teologia da cruz
tem sua importância, ela precisa sempre ser apresentada em conjunto com uma
teologia de ressurreição.'00 Isso significa que a ênfase na autocrítica deve aparecer
em conjunto com uma ênfase no otimismoe auto-apreciação.101 Ao nosso clamor
de arrependimento, que surge quando nos tornamos conscientes de nossa
pecaminosidade, deve ser acrescentada a palavra de absolvição. Além da declara
ção de impossibilidade da tarefa do reino de Deus, precisamos também ouvir a
mensagem da promessa divina e poder divino atuante na transformação do mundo.
E, à desconfiança de Niebuhr em relação a todos os grupos sociais, deve-se acres
centar a promessa da presença de Cristo na comunidade de fé à medida que ela
batalha no poder do Espírito Santo em favor do senhorio de Cristo sobre o mundo.
Em resumo, ao deslocamento da escatologia para uma esfera que vai além da His
tória, como fez Niebuhr, deve-se acrescentar a esperança de cumprimento da His
tória dentro da História - parte no presente e também em sua plenitude no dia final.
Conclusão
Reinhold Niebuhr procurou chamar a sociedade ocidental de volta da sua fuga
para a imanência de Deus, uma fuga que havia resultado num otimismo ingênuo e
irreal em relação àquilo que o ser humano é capaz de realizar. Em seu lugar, ele
procurou oferecer uma visão de teologia caracterizada por um equilíbrio entre
transcendência e imanência. Esse é o seu maior legado para a história teológica
do século 20. Porém, ele pagou um alto preço para cumprir essa tarefa. A propos
ta de Niebuhr acabou removendo Deus da História - quer passada ou futura - e
colocando-o numa esfera além da História. Assim, ele deixou aos seus seguidores
poucas esperanças de encontrar o Deus transcendente nos acontecimentos reais,
quer na história da salvação, quer na consumação da História.
0 APROFUNDAMENTO DA IMANÊNCIA:
R eform ulações da T radição L iberal
revolta neo-ortodoxa contra o liberalismo protestante clássico dominou a
teologia da década de 20 até aproximadamente os anos 60. Porém, mesmo antes
de ter completado seu curso, certas vozes começaram a articular a dissidência.
Alguns pensadores desconfiavam que a neo-ortodoxia havia exagerado em seu
exorcismo do fantasma da ênfase unilateral na imanência que havia sido detecta
da no liberalismo. Haviam Barth e outros ido longe demais na reafirmação da
transcendência divina?
Esse desconforto em relação ao excesso de neo-ortodoxia fez surgir pensa
dores que buscavam apresentar alternativas ã teologia predominante após a des
truição do antigo liberalismo. Eles não tinham como levar em séria consideração a
crítica à teologia imanente. Mas também acreditavam que somente o resta
belecimento da ênfase na imanência poderia dar uma visão adequada da realida
de de Deus, necessária para ir de encontro aos desafios impostos pela mentalida
de moderna sobre o Cristianismo da época.
Assim, esses pensadores buscavam reformular e aprofundar a teologia da
imanência do antigo liberalismo. E claro que não defendiam uma simples volta ao
desacreditado cristianismo de cultura. Na verdade, procuravam empregar temas
que tomaram emprestado de filosofias mais novas, como o existencialismo, ou
incorporar os avanços alcançados pelos estudos científicos recentes como forma
de reafirmar a fé cristã em Deus, de modo que o povo do século 20 pudesse
compreender e aceitar.
Há uma abundância de exemplos desse novo liberalismo, incluindo a teologia
existencialista de John Macquarrie e a teologia empírica de Nelson Wieman (1884
1975). Porém, escolhemos as duas variações que foram paradigmáticas para todo
o impulso de renovação liberal do século 20, a fim de discuti-las nas páginas
seguintes. Paul Tillich oferece aquele que é, talvez, o exemplo mais claro de um
neoliberal que optou pelo existencialismo como companheiro para o diálogo teoló
gico. E o movimento amplo que utilizava o tema filosófico de processo ilustra a
tentativa de relacionar a teologia com a ênfase na mudança e evolução, caracte
rística da ciência moderna.
Os teólogos discutidos nestas páginas, portanto, foram liberais, mas não no
sentido clássico. Talvez seja mais apropriado chamá-los de “liberais corrigidos”.
O liberalismo, cujo renascimento eles defendiam, era aquele que havia passado
pela purificação do fogo neo-ortodoxo. Em decorrência disso, seu liberalismo era
mais profundo, caracterizado por uma percepção mais acentuada da imanência
de Deus dentro do processo de vida de suas criaturas.
PAUL TILLICH: A I m a n ê n c ia d o “ D e u s A c im a d e D e u s ”
Mais do que qualquer outro teólogo do século 20, Paul Tillich merece o título de
“apóstolo dos intelectuais”.1 De um modo que faz lembrar os apologistas cristãos do
século 2o, como Justin Martyr, ele buscava comunicar as verdades essenciais da fé
cristã aos intelectuais dentre seus contemporâneos usando suas próprias formas de
pensamento. Mais para o fim de sua vida, ele admitiu esse propósito e paixão
apologética que o motivaram, ao confessar: “Todo meu trabalho teológico tem sido
voltado para a interpretação dos símbolos religiosos, de modo que o homem secular
- e somos todos seculares - possa compreendê-los e ser tocado por eles.”2
A contribuição teológica de Tillich é comparável à de Barth em termos de
influência e impacto, apesar de ser oposta em termos de abordagem. Assim como
Barth, ele produziu um sistema teológico enorme, que influenciou toda uma gera
ção de pensadores cristãos e recebeu também a notoriedade e aclamação da
sociedade secular. Ao contrário de Barth, ele buscava uma relação positiva -
talvez até uma síntese - entre a filosofia secular moderna e a teologia cristã.
Apesar de Tillich ter falecido em 1965, seu legado permaneceu ao longo das
últimas décadas do século 20 e, provavelmente, será sentido ainda por muito
tempo no século 21. Uma sociedade internacional de filósofos e teólogos cha
mada North American Paul Tillich Society continua a realizar discussões aca
dêmicas sobre sua obra. No centenário de seu nascimento, em 1986, acontece
ram diversas conferências dedicadas à sua contribuição teológica e sua impor
tância duradoura. Um estudo realizado entre teólogos americanos, publicado
em 1977, identificou Tillich como a influência mais importante sobre a teologia
sistemática americana.3
Durante sua vida, Paul Tillich foi reconhecido pela cultura secular como
uma das maiores mentes da teologia cristã. Poucos teólogos chegaram a rece
ber honra e reconhecimento como o que foi conferido a Paul Tillich por políti
cos, governos, universidades e fundações. Até mesmo a mídia reconheceu a
importância de suas realizações ao colocá-lo na capa da revista Time, em 16 de
março de 1959.
A Vida e a Carreira de Tillich
Paul Tillich nasceu na família de um pastor luterano, na cidade alemã de Starzeddel,
próxima a Berlim, em 20 de agosto de 1886.4 Ao que parece, desde jovem -
desde os 8 anos, talvez ele se interessava seriamente pela teologia e filosofia e
começou a voltar-se para o ministério aos 18 anos de idade. Como a maior parte
dos estudantes universitários da Alemanha daquela época, Tillich estudou em vá
rias importantes universidades alemãs, incluindo Halle e Berlim, sendo influencia
do pela filosofia crítica, teologia e estudos bíblicos. Durante seus estudos prepara
tórios para a ordenação pastoral, ele decidiu tornar-se professor de teologia e
acabou recebendo não apenas a ordenação na igreja protestante do Estado, mas
também um cargo de Privatdozent (tutor) na Universidade de Halle.
Os estudos de Tillich foram temporariamente interrompidos pela Ia Guerra
Mundial, na qual ele serviu como capelão. Ele passou tempo na frente de batalha
e não apenas oficiou o sepultamento de vários soldados - incluindo alguns de seus
melhores amigos - como ajudou a enterrá-los com suas próprias mãos. Suas
experiências com a morte em massa e a destruição foram o ponto de virada em
sua vida pessoal e sua fé. Ele sofreu dois colapsos nervosos e passou por uma
séria crise de dúvida que transformou sua visão de Deus.
Depois da guerra, Tillich aceitou um cargo de professor na prestigiosa Uni
versidade de Berlim e envolveu-se com a política socialista radical.Ele foi de
grande ajuda na formação do movimento socialista religioso e acabou publican
do um importante livro sobre o assunto, A Decisão Socialista. Durante a déca
da de 20, Tillich tornou-se uma figura conhecida nos meios acadêmicos da Ale
manha. Ele saiu de Berlim, mudando-se primeiro para Marburg, depois para o
Instituto de Tecnologia de Dresden e, finalmente, para a Universidade de Frank
furt. Durante o tempo em que lecionou filosofia em Frankfurt, lutou abertamente
contra os nazistas e foi condenado como “inimigo do Estado” quando o Partido
Nazista assumiu o poder. Seu livro A Decisão Socialista foi queimado em pra
ça pública em 10 de maio de 1933 e, em outubro, a Gestapo passou a segui-lo
aonde quer que fosse.
Se tivesse ficado na Alemanha, Tillich poderia ter morrido em um campo de
concentração. Ele foi poupado desse destino pelo convite da Universidade de
Columbia e do Union Theological Seminary de Nova York para mudar-se para lá,
em 1933. Tillich teve dificuldades em adaptar-se à vida nos Estados Unidos e, no
início, o aprendizado da língua foi particularmente problemático. Porém, com a
ajuda especial de amigos, como Reinhold Niebuhr, ele e sua mulher Hannah pas
saram pelo processo de transição e tornaram-se cidadãos americanos em 1940.
Tillich permaneceu no Union Theological Seminary até sua aposentadoria, em
1955. Durante os vinte e três anos que passou naquela instituição, ficou famoso
por seus sermões - muitos dos quais foram publicados - e por suas reflexões
teológicas sobre todas as áreas da cultura contemporânea. Em 1940, ele recebeu
o título de doutor honoris causa da Universidade de Yale e foi citado como “um
filósofo entre os teólogos e um teólogo entre os filósofos”.5
Durante a 2a Guerra Mundial, ele falou secretamente ao povo alemão pelo
programa de rádio Voz da América e encontrou-se com o presidente Roosevelt na
Casa Branca em 1944. Nos anos logo após a guerra, ele viajou muito, dando inúme
ras palestras para públicos entusiásticos, de modo que, nas palavras de seus biógra
fos, “uns poucos anos antes de sua aposentadoria do seminário, Tillich adquiriu um
grande e entusiástico público que suplicava para ouvi-lo”.6 Em 1951, Tillich publi
cou o primeiro volume de sua Teologia Sistemática, na qual expunha sua visão
acerca do método teológico, da razão, da revelação e de Deus. O segundo volume,
que tratava da condição humana e de Cristo, foi lançado em 1957. O volume três,
que só foi publicado em 1963, concentrava-se no tema da vida e do Espírito, bem
como na história e no reino de Deus. Suas outras publicações, incluindo A Cora
gem de Ser e A Dinâmica da Fé, eram voltadas para um público mais popular,
assim como seus sermões e palestras.
Ao aposentar-se do seminário, Tillich aceitou o convite da Universidade de
Harvard para tornar-se “Livre Docente” - possivelmente um dos cargos aca
dêmicos mais prestigiosos dos Estados Unidos. Ele podia lecionar qualquer cur
so que desejasse e tinha grande liberdade para viajar, pesquisar e escrever.
Suas palestras eram extremamente apreciadas pelos alunos; centenas de pes
soas lotavam o auditório uma hora antes para garantir um lugar para sentar.
Formou-se uma espécie de culto à figura de Tillich, sendo que alguns alunos
chegavam a ficar esperando à beira da calçada só para vê-lo passar. Suas pa
lestras em outras universidades atraíam centenas e, às vezes, até milhares de
ouvintes, apesar de muitos críticos afirmarem que essas palestras não passa
vam de “balela ininteligível”.7
Tillich recebeu um convite para a posse de John F. Kennedy, em 1961, e um
lugar na plataforma junto com um pequeno grupo de convidados especiais. Recebeu
também doze títulos de doutor honoris causa de importantes universidades ameri
canas e dois de universidades européias, incluindo a Universidade de Berlim. Depois
de aposentar-se de Harvard, em 1962, tomou-se professor honorário de teologia da
Divinity School, na Universidade de Chicago, e ocupou o distinto cargo de teólogo
residente. A notícia da morte de Tillich, em 22 de outubro de 1965, foi publicada em
um curto editorial e na primeira página da seção de obituário do New York Times.
Certamente, poucos teólogos receberam tanta aclamação pública quanto
ele. Tillich foi, de fato, “uma lenda em seu próprio tempo”. Porém, sua vida
como teólogo cristão foi marcada por grande ambigüidade. Ele era constante
mente perturbado por dúvidas sobre sua própria salvação e temia grandemente
a morte.8 Ele promovia o socialismo ao mesmo tempo que gozava os benefícios
de um estilo de vida de classe média-alta.9 Era conhecido como um cristão ecu
mênico, mas raramente ia à igreja10 e, ao que parece, levava uma vida um tan
to promíscua.11
Tais ambigüidades ilustram bem as descrições das tensões destrutivas que,
de acordo com Tillich, são inerentes à existência finita. Para ele, a dúvida é um
elemento essencial à fé e a alienação e afastamento encontram-se nos lugares
mais profundos da existência humana. O Poder de Ser - Deus - pode nos aju
dar a adquirir coragem diante da ameaça inevitável do não-ser e a aceitar que
somos aceitos, mas ele não pode superar por completo essas tensões e ambigüi
dades na existência.
Para que possamos compreender esses temas tão centrais na teologia de
Tillich é preciso que deixemos claros certos elementos de seus postulados básicos
e de seu método teológico.
Os Postulados de Tillich
Um dos postulados básicos de Tillich era de que a teologia deve ser apologética.
Ela deve formular e comunicar os seus conceitos de modo que fale verdadeira
mente à situação moderna. Por “situação” Tillich queria dizer as questões e
preocupações particulares das pessoas dentro de nossa cultura, “o aspecto cien
tífico e artístico, as formas econômicas, políticas e éticas através das quais elas
expressam sua interpretação da existência”.12 Ele criticava duramente as teolo-
gias, como o fundamentalismo e a “teologia kerygmática” (neo-ortodoxia), que
negligenciam o papel dessa situação e procuram, como ele costumava dizer, atirar
a mensagem cristã sobre as pessoas como se fosse uma pedra, ao invés de procu
rar responder aos questionamentos feitos a essa fé pela cultura contemporânea.13
Para Tillich, a teologia deve, pelo contrário, ser uma “teologia de respostas” ; ela
deve adaptar a mensagem cristã à mentalidade moderna e, ao mesmo tempo,
manter sua verdade essencial e caráter singular.
A teologia apologética pressupõe alguns denominadores comuns entre a men
sagem cristã e a cultura contemporânea dentro da qual ela está sendo expressa
da. A existência desses denominadores comuns é outro postulado básico da teo
logia de Tillich. Ele acreditava que, no mínimo, as questões implícitas na existência
contemporânea podem e devem ser respondidas pela teologia, quando esta se
baseia na revelação divina. Se isso não é possível, a teologia torna-se obsoleta,
pois ela simplesmente não pode responder a perguntas que não estão sendo for
muladas. Tillich cria que, felizmente, as questões fundamentais levantadas pela
existência contemporânea são respondidas especialmente por meio dos símbolos
da revelação divina.
Um terceiro postulado básico da teologia de Tillich é o papel essencial da
filosofia na tarefa apologética da teologia. Ao contrário de Barth, ele acreditava
que a filosofia é indispensável à teologia, pois é ela que formula as questões às
quais a teologia deve responder e é ela que dá quase toda (senão toda) a forma
que essas perguntas devem assumir. Conseqüentemente, Tillich tinha a mais alta
consideração pela filosofia: “Nenhum teólogo deve ser levado a sério como teólo
go, mesmo que seja um grande cristão e um grande estudioso, se sua obra mostrar
que ele não leva a sério a filosofia.”14 Contra o fideísmo de pensadores como
Pascal, ele comentava: “O Deus de Abraão, Isaque e Jacó e o Deus dos filósofos
é o mesmo Deus.”15
Seu quarto postulado está intimamente ligado ao terceiro. O tipo específico de
filosofia mais útilpara a teologia é a ontologia, especialmente a ontologia
existencialista. Na verdade, Tillich definia a filosofia de modo a torná-la pratica
mente um sinônimo da ontologia: filosofia é “a abordagem cognitiva da realidade,
na qual a realidade como tal é o objeto”,16 e ontologia é “a análise daquelas estru
turas com as quais nos deparamos em todo encontro com a realidade” .17 Tillich
não aceitava qualquer definição ou uso da filosofia que ficasse aquém da ontologia,
pois ela é o verdadeiro centro da filosofia18 e suas questões e preocupações estão
implícitas em todas as outras abordagens da filosofia.19
Assim, em sua essência, a filosofia é ontologia - o estudo do ser. Ela levanta
questões ontológicas como: o que significa dizer que alguma coisa é\ o que é
absolutamente real por trás das aparências; o que é o ser em si, além de todas as
estruturas que tem um ser e quais estruturas são inerentes a tudo o que tem esse
ser? Assim, ele declarava: “a filosofia faz a pergunta da realidade como um
todo; ela faz a pergunta sobre a estrutura do ser. E ela responde em termos de
elementos, leis estruturais e conceitos universais. Ela deve responder em ter
mos ontológicos” .20
Para Tillich, a utilidade da ontologia para a teologia está mais nas questões
que ela levanta do que nas respostas específicas que ela propõe. Um exemplo
disso é a forma como ele expõe a questão do “não-ser”, com a qual os filósofos
da Grécia antiga tanto se debatiam e que os filósofos existencialistas do século
20 reavivaram, mesmo que de um modo diferente. Para Tillich, o interesse con
tínuo no não-ser não era surpreendente pois “a ansiedade sobre o não-ser está
presente em tudo o que é finito” .21 E natural para os seres humanos se pergun
tarem qual é sua situação em relação ao ser, pois, em seus momentos de mais
profunda reflexão, eles se dão conta de que são finitos, transitórios e temporais.
Eles podem vir a “não ser” com a mesma facilidade que eles “são” . Na verdade,
o não-ser faz parte de sua existência, pois, a cada momento, eles são confronta
dos com a ameaça de não-ser.
O não-ser levanta a questão de um poder de ser que supera a ameaça do não-
ser e que sustenta e mantém os seres finitos. Tal poder não pode ser finito, é
preciso que seja “o próprio ser” ou “a base do ser”. Sem ele, a existência finita
afundaria num não-ser ou no nada. Em resumo, ele acreditava que a pergunta
ontológica de não-ser e o poder de ser sugerem a questão de Deus. Ele argumen
tava que sem a pergunta ontológica, a resposta apresentada pela teologia - “Deus”
- não tem como ser compreendida. Em suas palavras, “somente aqueles que
experimentaram o choque de sua transitoriedade, a ansiedade na qual se deram
conta de sua finitude, a ameaça do não-ser, podem compreender o que significa a
noção de Deus”.22
A ontologia, portanto, é absolutamente essencial à teologia apologética con
temporânea. Esse é o caso, especialmente diante da predominância da filosofia
existencialista no século 20. Tillich afirmava que a ontologia existencialista é, de
fato, “a boa fortuna da teologia cristã,”23 pois apresenta perguntas que a teologia,
lançando mão da revelação divina, está particularmente apta a responder. Desse
modo, perguntas e respostas relacionadas à ontologia constituem o denominador
comum entre a filosofia e a teologia: “A estrutura do ser e os elementos e concei
tos que descrevem essa estrutura são uma preocupação implícita ou explícita de
todo filósofo e todo teólogo. Nem um dos dois pode evitar a questão ontológica.”24
É claro que as abordagens da filosofia e da teologia à questão do ser diferem
consideravelmente. A filosofia assume uma posição de objetividade distanciada,
enquanto a teologia olha para o ser absoluto, o poder que sobrepuja a ameaça do
não-ser com “paixão, temor e amor”.25 Ainda assim, a fim de tratar das questões
e preocupação ontológicas de maneira adequada, Tillich afirmava que é preciso
assumir os dois papéis - o de filósofo e o de teólogo. Todo filósofo criativo é, em
algum momento, também um teólogo26 e todo teólogo deve também fazer o papel
de filósofo, a fim de analisar a condição existencial da humanidade e a questão
implícita nessa condição. A filosofia e a teologia são dois aspectos ou “momen
tos” distintos, porém inseparáveis e interdependentes, de uma ontologia plena
mente desenvolvida.
O último postulado da teologia de Tillich é a natureza especial da existência
humana dentro da ontologia. Ele pode ser melhor expressado na afirmação que
ele faz várias vezes em sua Teologia Sistemática de que “o homem é um
microcosmo”.27 Com isso, Tillich queria dizer que os poderes e estruturas do ser
aparecem no homem de uma forma completamente diferente de qualquer outra
criatura. Os homens estão abertos para as estruturas do ser e participam delas
em níveis que estão tanto acima como abaixo deles, de modo que seu ser lhes
oferece lampejos do que é uma realidade maior: “O homem participa do universo
através da estrutura racional da mente e da realidade... ele participa do universo
porque as estruturas, formas e leis universais estão abertas para ele.”28 A refle
xão ontológica, portanto, deve voltar-se para a humanidade, ao invés da natureza
não-humana, se deseja formular perguntas e respostas sobre a realidade maior ou
sobre o próprio ser.
Esses postulados fundamentavam e orientavam todo o pensamento de Tillich.
Mas são também extremamente controversos e têm sido fonte de muito debate
acadêmico. A maioria dos filósofos, especialmente aqueles dos países de língua
inglesa, reagiram de modo negativo à sua identificação da filosofia com a ontologia
e mais negativamente ainda à sua afirmação sobre o caráter inseparável da filo
sofia e teologia.29 Muitos teólogos, por outro lado, o criticam por ter aprisionado a
teologia na “especulação ontológica”, jogando fora tanto a autonomia da teologia
quanto o personalismo bíblico.30 Talvez a crítica mais corrosiva seja a de que, ao
olharmos mais de perto, vemos que a ontologia de Tillich mostra-se eclética. Ela
procura combinar linhas totalmente incompatíveis da filosofia, a saber, a ontologia
tradicional de Platão, Agostinho e dos filósofos idealistas alemães com as ontologias
existencialistas modernas formuladas por Heidegger e Sartre.31
O Método de Correlação
Partindo desses postulados, Tillich passou então à proposta de um método para a
teologia que fosse ao mesmo tempo fiel à mensagem cristã original e de expres
são contemporânea - o método de correlação. Essa abordagem determinou toda
a estrutura e a forma de sua teologia sistemática e é, muitas vezes, considerada
uma de suas contribuições mais duradouras para a teologia moderna.
Tillich apresentou o seu método de correlação, que “explica o conteúdo da fé
cristã através de perguntas existenciais e respostas teológicas em interdependência
mútua”,32 numa rejeição consciente de três alternativas inadequadas. O primeiro
método, o “supematuralista”, é seguido por muitos teólogos protestantes. Para Tillich,
ele é inadequado pelo fato de ignorar as questões e preocupações (a “situação”)
daqueles que vão receber a mensagem e, ao mesmo tempo, esperar que a Palavra
de Deus crie a possibilidade de compreensão e aceitação de sua verdade.33 De
acordo com Tillich, o “homem não pode receber respostas para perguntas que
nunca fez”.34
Sem dúvida, nesse caso, Tillich tinha em mente tanto o fundamentalismo quanto
a neo-ortodoxia de Barth. É claro que os teólogos conservadores poderiam res
ponder: “E se os seres humanos, por causa de sua natureza caída, nunca pensa
rem nas perguntas certas?” Tillich acreditava que as perguntas certas estão pre
sentes em nossa própria existência como seres humanos.35
A segunda alternativa tradicional inadequada, o método “naturalista” ou
“humanista”, é justamente o oposto do primeiro, pois ele procura deduzir as res
postas teológicas do estado natural do ser humano. Nesse método, típico de gran
de parte da teologia liberal, “tudofoi dito sobre o homem e nada para o homem”.36
Tillich acusava o método humanista de negligenciar a condição separada da exis
tência humana e o fato de que a revelação (que contém as respostas) ser algo
falado para o homem e não por ele para ele mesmo.37
Finalmente, Tillich rejeitava o método “dualista”, que procura combinar o so
brenatural com o natural. Nesse caso, ele estava se referindo à teologia natural
tradicional, como a que tem sido comum no catolicismo desde Tomás de Aquino.
Esse método apresenta dois tipos de respostas teológicas - aquelas deduzidas da
natureza por si só, como a existência de Deus, e aquelas que devem ser sobrena
turalmente reveladas. O problema desse método é que ele deriva a resposta (Deus)
da forma da questão. Em seu lugar, Tillich propôs o método de correlação, que
desintegra a teologia natural dentro da análise da existência e a sobrenatural den
tro das respostas dadas às questões implícitas na existência.38
O método de correlação, portanto, é uma forma de teologia fundamental
que substitui a teologia natural. A abordagem de Tillich coloca as perguntas sobre
Deus - implícitas na existência humana, conforme a análise da ontologia - no
lugar das provas de existência de Deus, que normalmente ocupam grande parte
da teologia natural.
O método de correlação gira em tomo de perguntas e respostas. As perguntas
são apresentadas pela filosofia através do exame cuidadoso da existência humana.
Nesse primeiro passo da teologia, o teólogo deve fazer as vezes de um filósofo. O
segundo passo é inteiramente teológico, pois o teólogo lança mão dos símbolos da
revelação divina para formular respostas para as questões implícitas na existência
humana, que a filosofia pode descobrir mas não pode responder. A tarefa maior do
teólogo, em ambos os passos, é juntar as perguntas às respostas numa correlação
crítica.39 As respostas apresentadas pela teologia devem vir da revelação, mas
devem ser expressadas de uma forma que fale às preocupações existenciais dos
seres humanos. A tarefa do teólogo é interpretar as respostas da revelação, de
modo que permaneçam fiéis à mensagem cristã original enquanto passam também
a ser relevantes para as perguntas dos homens e mulheres seculares modernos.
De acordo com Tillich, “Deus” é um exemplo preliminar de como funciona a
correlação:
Deus é a resposta para pergunta implícita na finitude humana. Porém, se a idéia
de Deus aparece dentro da teologia sistemática, juntamente com a ameaça do
não-ser implícita na existência, Deus deve ser chamado de poder infinito, de ser
que resiste à ameaça do não-ser. Na teologia clássica, esse é o próprio ser.40
Sua Teologia Sistemática segue esse método. Na primeira parte, Tillich ana
lisou a natureza da razão humana sob as condições da existência, descobrindo que
ela contém a questão sobre algo que transcende a razão e ao mesmo tempo a
preenche. Assim, a própria razão, analisada pela ontologia, apresenta a “busca
por revelação” . Em seguida, Tillich interpretou a revelação divina como sendo
aquela que responde às perguntas feitas pela razão. Ele segue um padrão seme
lhante nas outras quatro partes de sua teologia. Em cada caso, a resposta é for
mada a partir da pergunta, sendo que o conteúdo dessa resposta, conforme Tillich
afirmava, é deduzido inteiramente da revelação.
O método de correlação de Tillich recebeu diferentes tipos de crítica. Apesar
de alguns terem considerado sua proposta bastante proveitosa para a apresenta
ção da teologia de um modo que seja tanto fiel quanto relevante, os críticos repro
varam Tillich por dar à filosofia independência demais em relação à revelação e
muita autoridade sobre ela. Na verdade, Tillich limitou a filosofia à tarefa de for
mular as perguntas para a teologia e determinar a forma das respostas. Mas será
que, ainda assim, isso não dá à filosofia secular um papel importante demais den
tro da construção teológica? Ao definir o método de correlação, Tillich não exigiu
que a filosofia fosse transformada ou convertida antes de realizar sua tarefa,
deixando-a, portanto, “autônoma” - de acordo com os termos do próprio Tillich - ,
ao invés de “teônoma” ou curada.41 Como é possível confiar que tal disciplina,
afetada pelas tensões inerentes à razão finita, será capaz de formular as pergun
tas corretas, de maneira correta? Será que a substância e a forma das questões
não podem acabar servindo de prisão confinadora ou “cama de Procrusto”, den
tro da qual as respostas da revelação devem se encaixar? Como pergunta o filó
sofo cristão George Thomas:
É possível à razão filosófica que não foi completamente “convertida” para a fé
cristã formular a “estrutura” e os “termos” do Ser e apresentar as “questões”
mais profundas implícitas na existência? Se não for possível, não é verdade que
as “respostas” cristãs, cuja forma é determinada pela natureza das “questões”,
serão distorcidas ou obscurecidas?42
Uma crítica freqüente lançada contra Tillich é de que o seu emprego do méto
do de correlação não combinava com sua descrição idealista desse método. Ape
sar de sua intenção de permitir que o conteúdo das respostas teológicas fosse
totalmente determinado pela revelação divina, na prática, o conteúdo, bem como a
forma, acabam sendo influenciados, ou até mesmo determinados pelas questões
filosóficas. Thomas levantou essa questão em relação à doutrina de Tillich sobre
Deus, na qual ele descreve Deus não como um ser ou uma pessoa, mas como o
próprio ser e a base de tudo o que há referente à pessoa. Mantendo-se fiel à sua
própria visão de que Deus é pessoal, Thomas questionou se: “A afirmação de
Tillich a respeito [da fé cristã] não foi enfraquecida em alguns pontos pela intrusão
de uma filosofia impessoal, estranha ao espírito do Cristianismo em seu pensa-
mento.”43 O teólogo Kenneth Hamilton concluiu que o método de correlação,
conforme era praticado por Tillich, não usa nada da mensagem cristã e tudo do
sistema ontológico de pensamento que toma como ponto de partida. Ele argumen
tou que, na prática, Tillich não chegou a “correlacionar” de fato as perguntas e
respostas, mas simplesmente interpretou a fé cristã de modo a encaixá-la em seu
sistema ontológico preconcebido.44
E verdade que a fraqueza mais relevante da teologia de Tillich é o fato de ela
ser uma forma sofisticada de “síndrome de cama de Procrusto”. No folclore da
Grécia antiga, Procrusto, o perverso dono de uma hospedaria, forçava todos os
seus hóspedes a caberem na cama em que dormiam. Para isso, usava de tortura
ou mutilação, esticando ou amputando as partes de sua anatomia que não se
encaixassem nas dimensões das camas de seu hospedeiro. Essa imagem tem sido
usada m uitas vezes como m etáfora para sistem as de pensam ento que
predeterminam a verdade, forçando os dados a se encaixarem em estruturas pre
concebidas. O teólogo John Jefferson Davis expressa esse aspecto da teologia de
Tillich de modo conciso:
Enquanto a idéia de um método de correlação é valiosa e até mesmo necessária,
da maneira como Tillich a desenvolveu, o fator controlador era a cultura e não a
tradição cristã. Em decorrência disso, ela falava à mente moderna, mas não a
confrontava com a mensagem bíblica, que exige uma conversão radical do cora
ção e da mente aa Deus Vivo.45
Porém, a precisão e a justiça dessa crítica ao método de Tillich só podem ser
determinadas tomando como base o funcionamento prático de sua teologia sistemá
tica. Tendo em vista que uma exposição completa dessa teologia estaria fora do
escopo desta discussão, procuraremos fazer apenas uma breve apresentação de
alguns de seus temas principais, a saber, os conceitos de revelação, Deus e Cristo.
Razão e Revelação
A primeira parte da teologia sistemática de Tillich procura fazer a correlação
entre razão e revelação. Nessa seção, Tillich procurou desvendar os conflitos e
questões inerentes à razão que vão além desta e em direção à revelação. Seu
objetivo era mostrar que a “revelação é a respostapara as questões implícitas
nos conflitos existenciais da razão”.46 Ao contrário daqueles que viam a razão e
a revelação como sendo opostas entre si, Tillich acreditava que a “razão não
resiste à revelação. Ela pede por revelação, pois a revelação significa a reintegra
ção da razão” .47
Para que possamos entender o conceito de razão de Tillich é preciso que
compreendamos, pelo menos em parte, a sua ontologia fundamental de “essência
e existência”. Essa distinção ontológica fundamenta quase toda (ou toda) a sua
teologia e aparece pela primeira vez, de modo relevante, em sua discussão sobre
a natureza da razão. De acordo com Tillich, a realidade como a conhecemos e
experimentamos deve ser diferenciada em duas esferas: a da essência e a da
existência. Essência é o potencial, a perfeição não-realizada das coisas. Possui
uma realidade ontológica, mas não uma verdadeira existência. A existência, por
outro lado, é verdadeira e “decaída” em relação à essência. Por estar separada
da perfeição, porém ainda dependente dela, essa existência não é plena.
O pano de fundo filosófico para a distinção que Tillich faz entre essência e
existência encontra-se no pensamento platônico.48 Platão acreditava em um mun
do ideal de “formas” ou padrões perfeitos para as coisas e num mundo de coisas
existentes e individuais que eram cópias imperfeitas das formas. Tillich adaptou a
ontologia platônica, de modo que ela servisse aos seus propósitos. Ainda assim, a
idéia geral de Platão sobre a essência e a existência são o pano de fundo para o
uso que Tillich faz desses termos.
Para Tillich, a “existência” refere-se àquilo que é tanto finito quanto decaí
do. Ela é limitada, perturbada e distorcida pelas condições do ser que está sepa
rado do verdadeiro ser. E o que acontece com a razão funcional ou o que ele
chama de “situação da razão dentro da existência” ; ela é decaída em relação à
“essência natural da razão” e, portanto, sofre com certos conflitos que não é capaz
de resolver.49
A razão essencial - ou razão em si - é transcendente. É a “estrutura da
mente que permite que esta assimile e transforme a realidade”.50 Também inclui
a capacidade mental de raciocínio lógico, descobrindo meios para alcançar um
fim. No fim das contas, a razão essencial humana depende tanto de uma estrutura
racional do universo (o “logos do ser”) quanto da relação entre ela mesma e a
estrutura da mente. A razão essencial, portanto, não é meramente finita.51 É o
exercício, tanto do universo quanto da humanidade, que possibilita o conhecimen
to e a descoberta. Desse modo, ela transcende tudo o que é meramente finito.
A razão funcional - ou razão na situação de existência - é diferente. Como
tudo o que existe, ela é limitada e separada de sua verdadeira essência, o que gera
conflitos. Essa separação pode ser observada nas polaridades da razão, que se
relacionam entre si, mas, sob as condições da existência, caem em conflito e
contradição - polaridades como autonomia versus heteronomia, relativismo versus
absolutismo e formalismo versus emocionalismo. Através da análise cuidadosa
dessas polaridades, Tillich procurou mostrar que, apesar da razão em si não poder
resolver esse conflitos, eles, ainda assim, clamam por uma reconciliação. Tillich
concluiu que os conflitos gerados por essas polaridades levam inevitavelmente
ora a uma renúncia desesperada à própria verdade ora a uma busca por revela
ção, “pois a revelação afirma oferecer uma verdade que é certa e absoluta - uma
verdade que inclui e aceita o risco da incerteza de todo ato cognitivo importante e,
ainda assim, ao aceitá-lo, acaba por transcendê-lo”.52 Em outras palavras, a razão
precisa ser “salva” ou “curada” . Ela não pode curar a si mesma, mas busca em
algo além de si o poder que irá reintegrá-la com a sua estrutura essencial e, assim,
tomá-la plena.
De acordo com Tillich, a união das polaridades da razão é uma tarefa para a
revelação. Ela restabelece a estrutura essencial da razão sob as condições da
existência “de modo fragmentário, porém real e poderoso”.53 Em decorrência
disso, ele define a revelação formalmente como “a manifestação da base do ser
para o conhecimento humano” .54 Revelação é a manifestação do poder que reú
ne o que foi trágica e destrutivamente separado, trazendo, desse modo, salvação,
cura e harmonia em meio ao conflito. E o desvendar do mistério do ser, “a mani
festação própria da profundidade e do significado do ser”.55
Assim como muitos teólogos do século 20, Tillich rejeitava o conceito de pala
vras reveladas ou proposições. A revelação nunca é a comunicação de informa
ção. Pelo contrário, é um acontecimento e uma experiência que podem ocorrer
por diferentes meios, incluindo a natureza, a História, grupos, indivíduos e através
da fala. Ou seja, qualquer coisa pode ser portadora da revelação desde que se
torne transparente e mostre as bases do ser.56 Palavras e doutrinas não são reve
ladas, mas, sempre que as profundezas do ser se manifestam através da lingua
gem, algo ressoa - a “Palavra de Deus” ou revelação. Tillich afirmava que a
crença na revelação como palavras ditas ou escritas e vindas de Deus é “a
armadilha dos protestantes”.57
A Bíblia, portanto, não é a “Palavra de Deus” . De acordo com Tillich, “prova
velmente nada contribuiu mais para a interpretação incorreta da doutrina bíblica
ou da Palavra do que a identificação da Palavra com a Bíblia”.58 A “Palavra” é
Deus manifesto. Todavia, Tillich encontrou um papel para a Bíblia na revelação.
Ela “participa” da revelação na condição de documento que registra o aconteci
mento da revelação final de Jesus, o Cristo.59
Tillich falava de dois tipos de revelação: “revelação presente” e “revelação
final”. O primeiro termo é usado para designar todos os acontecimentos e experiên
cias que manifestam o poder do ser em qualquer lugar ou tempo em que venham
a acontecer. O segundo tipo refere-se ao acontecimento absoluto e supremo do
poder curativo do Novo Ser, para o qual apontam todos os outros acontecimentos
e experiências revelatórios.
No final, o que distingue o Cristianismo das outras religiões é sua afirmação
de que é “baseado na revelação em Jesus como Cristo na condição de revelação
final”.60 É claro que o Cristianismo não pode provar que essa afirmação é verda
deira. Porém, Tillich procurava mostrar que esse acontecimento revelatório - a
manifestação do poder curativo universal do Novo Ser em uma determinada pes
soa da História - é supremo e absoluto, pois ele cura ou salva a razão ao superar
os seus conflitos. Ele é a resposta para a pergunta sobre a revelação apresentada
pela estrutura da razão sob as condições da existência.61 Os conflitos existenciais
da razão requerem um poder que seja universal e concreto, absoluto e relativo, um
poder que negue o finito e, ao mesmo tempo, o preserve. Somente tal realidade
pode curar a razão, ao restabelecer a harmonia essencial de seus pólos.
Jesus Cristo, como o ser que é determinado a cada momento por Deus e
como ser finito individual que se sacrificou completamente ao infinito, ao mesmo
tempo que manteve sua individualidade, preenche o requisito duplo da revela
ção.62 Através de sua vida e morte ele revelou o poder da negação própria, ao
apresentar uma imagem ou símbolo de algo finito que não afirma ser absoluto por
direito. Tal ser finito e que sacrificou a si mesmo derrota o conflito existencial
demoníaco da separação e cria a verdadeira “teonomia”, que anula a autonomia e
a heteronomia e, ao mesmo tempo, preserva a verdade de ambas. Esse poder de
negação própria, ou Novo Ser, é “o Cristo”.
Jesus foi o indivíduo finito que os cristãos acreditam ter se tornado o Cristo
através de seu sacrifício próprio de vida e morte. Ele o fez porque recusou-se a
cair na tentação demoníaca, inerente à existência finita, de tomar sobre si um
caráter absoluto. E esse sacrifício próprio à condição de Cristo que fez de Jesus
de Nazaré o meio da revelação suprema.
Para Tillich,isso significa que qualquer religião centrada em Jesus é uma com
pleta corrupção do Cristianismo: “Um Cristianismo que não afirma que Jesus de
Nazaré foi sacrificado, dando lugar a Jesus como “o Cristo”, é apenas mais uma
religião entre muitas outras. Ela não tem nada que justifique sua existência.”63
Discutiremos a cristologia de Tillich em mais detalhes adiante. Porém, o tom
claramente gnóstico de sua afirmação não pode passar sem comentário. A cris
tologia dos gnósticos era, com freqüência, mais dualista do que docética.64 Certas
seitas gnósticas exigiam que seus membros amaldiçoassem Jesus, a fim de de
monstrar o seu conhecimento de Cristo como alguém separado dele. (Esse é
provavelmente o contexto da condenação de Paulo sobre aqueles que amaldiçoa
vam Jesus [ICo 12.3]). E claro que Tillich não encorajava e nem era condescen
dente com a maldição de Jesus. Porém, sua distinção radical entre Jesus de Nazaré
e o “Cristo”, que não é uma pessoa, mas sim o poder do Novo Ser, certamente
está dentro da visão gnóstica” .65
O “Deus acima de Deus”
Tillich acreditava ter correlacionado com sucesso a razão e a revelação, ao mos
trar que a revelação responde à razão sem destruí-la e que a razão levanta a
questão da revelação, sem a qual ela seria uma resposta sem sentido. Ao longo de
sua discussão sobre razão e revelação, porém, ele fazia referência àquilo que é
revelado como o poder do ser, o Novo Ser, a base do ser, ou Deus. O que é
revelado na revelação final e, em menor grau, na revelação presente, é Deus, a
palavra religiosa usada para se referir à base do ser.66 Deus é o poder do amor
que cura a razão ao reunificar seus elementos polarizados que, por causa da
existência, entraram em conflito.
A doutrina de Tillich acerca de Deus criou mais controvérsia do que qualquer
outra área de sua teologia. Grande parte da discussão surgiu de sua conhecida
afirmação de que “Deus não existe. Ele é o próprio ser além da essência e da
existência. Portanto, afirmar que Deus existe é o mesmo que negá-lo”.67 Parte do
furor originou-se de uma interpretação simplista e incorreta do uso que Tillich fez
do termo existência, dando a impressão que Tillich era ateu. Todavia, alguns
críticos mais ardilosos argumentavam que, apesar de toda a sua discussão sobre
Deus como o próprio ser, Tillich era, de fato, ateu.68
Seria impossível darmos aqui a devida consideração a todas as nuanças da
doutrina de Tillich acerca de Deus, bem como a todas as suas interpretações. Toda
via, procuraremos mostrar que, embora ele não pudesse ter sido um ateu, sua dou
trina acerca de Deus colocou um peso tão grande sobre a imanência e a
transcendência de Deus que os seguidores de Tillich se vêem obrigados a escolher
entre uma e outra. Além disso, optar pela imanência quase total do “Deus acima de
Deus”69 de Tillich é a posição mais coerente com sua visão geral. Mark Kline
Taylor está certo ao observar que Tillich arriscou “delinear a transcendência de
Deus tão profundamente dentro da existência... que o significado de ‘transcen
dência’ foi expandido além de um limite em que continuasse a ser reconhecível”.70
Se Deus é a resposta, então qual é a pergunta? Conforme vimos anteriormen
te, para Tillich, a pergunta deve vir antes da resposta, a fim de determinar a sua
forma. Em termos simples, Deus é a resposta para a pergunta implícita no ser: “O
que é o próprio ser?”71 De acordo com Tillich, a finitude é uma mistura de ser e
não-ser.72 Assim, ele dedicou-se a uma complexa e sutil análise ontológica da
estrutura da finitude, com o propósito de mostrar que ela levanta a questão do
poder do ser ou do próprio ser que pode sobrepujar a ameaça do não-ser inerente
a ela. A questão ontológica surge na existência humana, por causa da consciência
que as criaturas finitas possuem de que não são a base de seu próprio ser, uma
consciência que adquire sua mais intensa expressão no “choque metafísico” que
ocorre quando uma pessoa é existencialmente ameaçada pelo não-ser.
Tillich argumentava que, se Deus é a resposta para a pergunta implícita na
finitude humana, ele não pode ser considerado um ser, mesmo uma forma mais
elevada ou mais suprema de ser, mas deve ser visto como o “poder de ser”,
“poder de resistir ao não-ser”, “poder infinito de ser” ou, no final, “o próprio ser”.73
Mas, por definição, esse poder de ser (que responde à questão do não-ser) não
pode “existir”,74 pois a “existência” é uma expressão do ser finito - a condição
decaída ou separada. Todo ser individual participa do não-ser, que é o que o toma
finito e necessitado de um poder de ser que o mantenha em sua existência. Se
Deus fosse um ser, ele não poderia ser o objeto da inquietação básica e o poder
que responde à pergunta da finitude. Então, alguma outra coisa seria Deus. Era
isso que Tillich queria dizer com a expressão “Deus acima de Deus” . O Deus que
é o próprio ser, ou a base e poder do ser, é superior a esse Deus do teísmo cristão
tradicional, que é visto como uma pessoa e um ser e acaba tornando-se suposta
mente finito.
Tillich lutava para expressar a transcendência do “próprio ser” e, ao mesmo
tempo, manter a sua imanência. Ele afirmava que o “próprio ser” não é a essência
universal de tudo, a substância de todo o mundo, pois o “próprio ser” transcende a
divisão essência/existência, à qual todas as coisas no mundo estão sujeitas, devido
ao seu elemento de não-ser. O “próprio ser” não participa do não-ser e, portanto,
transcende infinitamente tudo o que é finito.75 Para Tillich, isso significava que, por
Deus ser absoluto e infinito, livre e não-condicionado, não se pode dizer nada sobre
ele que não seja simbólico, exceto que ele é o “próprio ser”.76 Todas as outras
afirmações ou descrições sobre Deus são puramente (não meramente!) simbólicas.
Após afirmar a transcendência de Deus tão fortemente, Tillich volta-se para
a imanência de Deus. Deus e o mundo participam um do outro. Tudo o que é
finito participa do “próprio ser”, o qual é a estrutura do ser e no qual tudo está
baseado.77 Assim, também, Deus participa de modo absoluto e incondicional de
tudo o que existe, tendo em vista que ele é sua base e propósito.78 Deus inclui
dentro de si tudo o que é finito através de um processo vivo e dinâmico. Fica
subentendido que essa “vida” de Deus inclui necessariamente o mundo com todo
o seu não-ser.79
Então, para Tillich, Deus transcende o mundo e o mundo transcende Deus.
Deus é imanente no mundo e o mundo é imanente em Deus.80 Paradoxalmente,
Deus não pode ser condicionado, mas, enquanto existir um mundo, ele não pode
estar fora dele e nem o mundo fora de Deus, pois, de outro modo, ele não seria
verdadeiramente infinito e não-condicionado, mas sim limitado e condicionado por
algo além dele. Portanto, o mundo existe “dentro” (não no sentido espacial) da
vida de Deus e Deus é o ser (mas não a substância) do mundo.
Fica claro por que os críticos não se satisfazem completamente com o
posicionamento de Tillich. Até mesmo um observador simpatizante como Mark
Kline Taylor chegou a concluir: “A visão de transcendência de Tillich era tão
imanente que muitos continuaram perplexos com o significado que ele atribuía ao
caráter separado de Deus, à sua ‘transcendência’.”81 Adrian Thatcher, um dos
críticos mais argutos de Tillich, foi ainda mais longe, argumentando que ele não
conseguiu explicar a transcendência e a imanência de Deus coerentemente, de
modo que arriscou apresentar duas idéias separadas de Deus.82
No geral, fica a impressão de que o “Deus acima de Deus”, na verdade, está
sob todas as coisas e dentro delas. É claro que essas são caracterizações metafó
ricas, emprestadas da realidade espacial para descrever algo que não é espacial.
Ainda assim, não importa o quão diferente o “ser em si”, “poder do ser” ou “base
do ser” é em relação às coisas finitas, tomadas individualmente ou em sua totali
dade; ele não pode transcender isso tudo no sentido tradicional. Isso é especial
mente verdade, tendo