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33 Autorrepresentação no teatro documentário Observe ao lado a imagem de uma cena da peça Conversas com meu pai, criada pela paulista Janaina Leite (1981-), em um processo artístico que uniu auto- biografia e ficção. Analise a imagem e perceba os detalhes: as manchas escor- rendo na parede ao fundo, a projeção, o estado das roupas, dos cabelos e o olhar da atriz. Repertórios e análises Bastidores — Conversas com meu pai (vídeo, 7 min 54 s). Disponível em: https://youtu.be/ AjsVXD-TVKA. Acesso em: 21 jul. 2020. Assista ao vídeo da entrevista com Janaina Leite, na qual a atriz fala sobre a construção de seu espetáculo Conversas com meu pai. FICA A DICA 1 Que sensação a imagem provoca em você? Resposta pessoal. 2 Não é possível ver o rosto da pessoa na imagem projetada ao fundo. O que isso pode significar? Resposta pessoal. 3 Em sua opinião, em que memórias a personagem da cena pode estar pensando? Por quê? Respostas pessoais. 4 Você costuma expor publicamente suas memórias e experiências de vida? Em caso positivo, de que maneira? Como acha possível fazer isso por meio da arte? Respostas pessoais. A peça Conversas com meu pai foi idealizada com base na história de Janaina Leite com seu pai. No espetáculo, a atriz narra as dificuldades de comunicação entre eles, inicialmente por viverem distantes um do outro e, depois, por causa de uma traqueostomia que o fez perder a capacidade de falar. Nessa fase de suas vidas, o pai de Janaina escrevia bilhetes para ela, e esses textos ficaram guardados em uma caixa por muito tempo, até a artista iniciar o processo de transformar as próprias experiências e memó- rias no que ela chamou de “documento cênico” sobre a comunicação silen- ciosa entre pai e filha. O espetáculo é resultado de um processo que durou cerca de sete anos, ao longo dos quais foram produzidas mais de quinhentas páginas, contendo entrevistas, anotações pessoais e ficcionais, e 60 horas de ví- deos e áudios, captados pelo cineasta pernambucano Bruno Jorge (1981-). A síntese dramatúrgica desse material foi concebida pelo paulis- ta Alexandre Dal Farra (1981-). TRILHA DE ARTE Cena do espetáculo Conversas com meu pai, de Janaina Leite e Alexandre Dal Farra, 2014. Fernanda Preto/Acervo da fotógrafa V4_LINGUAGENS_Faraco_g21Sa_Cap1_020a053_LA.indd 33V4_LINGUAGENS_Faraco_g21Sa_Cap1_020a053_LA.indd 33 16/09/2020 17:2216/09/2020 17:22 34 Montagens teatrais de natureza autobiográfica têm a memória, objetos e documentos pessoais como a principal fonte de material para a autorrepresentação. Trazem consigo a necessidade de o artista investigar e transmutar em criação artística determinados acontecimentos positivos, traumas ou recordações de sua vida e compartilhar com o público seus pensamentos, emoções, ações e ponto de vista sobre o assunto. NÃO ESCREVA NESTE LIVRO. EXPERIMENTAÇÃO OBJETOS DE MEMÓRIA Escolha um objeto que tenha algum valor emocional positivo para você. Escreva suas memórias sobre ele e, entre elas, perceba quais você relembra com clareza e quais são vagas. Anote todas elas. Ao registrar as memórias, você estabeleceu uma tênue relação entre ficção e realidade. Entre o que escreveu sobre as memórias, o que foi real e o que é ficção por ser uma vaga lembrança? Registre as reflexões sobre esse processo no diário de bordo. Você vai retomar as anotações no final do capítulo, em seu portfólio. Oriente os estudantes a procurar algo que os marcou no passado. Se possível, objetos e memórias positivas, para que se evite entrar em estados psicológicos ruins. Os estudantes devem perceber que as memórias são sempre um misto de fatos reais com partes imaginadas, uma vez que quase nunca é possível relembrar fielmente os fatos e, portanto, nossas anotações sobre as memórias são interpretações de algo do passado. Biodrama: no limite entre realidade e ficção A dramaturga e diretora argentina Vivi Tellas (1955-) define seu trabalho como “biodrama”, espécie de biografia cênica. O foco da dramaturga é a busca da teatralidade fora do teatro, isto é, a possibilidade de transformar histórias de vida em representações teatrais repletas de momentos confessionais e autobiográficos. Vivi Tellas parte da ideia de que cada pessoa possui uma reserva de experiências, co- nhecimentos, textos, imagens e comportamentos que, ao serem incorporados à estrutura da drama- turgia e produção teatral, colocam em questão a própria realidade e suas formas de representação. Nascida em Buenos Aires, Argentina, a diretora Vivi Tellas é a criadora do biodrama. No espetáculo Mujeres guía, de 2008, Vivi Tellas leva à cena três mulheres que trabalham com visitas guiadas em Buenos Aires, Argentina: uma no Museu Etnográfico, outra no Jardim Botânico e a terceira em passeios turísticos na cidade. Em um teatro confessional, as personagens, que são pessoas reais e se autorrepresentam, compartilham suas memórias com o público. Os objetos pessoais de cada uma delas se tornam “documentos” utilizados em cena que conferem veracida- de às histórias contadas. 5 Apesar de a atriz Janaina Leite e a diretora Vivi Tellas trabalharem com relatos biográficos, memórias e objetos pessoais em cena, há diferenças entre as criações das duas artistas. Quais são elas? Converse com os colegas. Resposta pessoal. R e p ro d u ç ã o /C o le ç ã o p a rt ic u la r Cartaz da peça Mujeres guía [Mulheres guia], direção de Vivi Tellas, 2008. N ic o lá s S tu lb e rg /A rc h iv o V iv i T e lla s V4_LINGUAGENS_Faraco_g21Sa_Cap1_020a053_LA.indd 34V4_LINGUAGENS_Faraco_g21Sa_Cap1_020a053_LA.indd 34 16/09/2020 17:2216/09/2020 17:22