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Brasília-DF.
Tópicos de direiTo (penal, penal especial,
processual penal e cível)
Elaboração
Ana Alves Ramos
Produção
Equipe Técnica de Avaliação, Revisão Linguística e Editoração
Sumário
APrESEntAção ................................................................................................................................. 4
orgAnizAção do CAdErno dE EStudoS E PESquiSA .................................................................... 5
introdução.................................................................................................................................... 7
unidAdE i
PaPel do enfermeiro forense na qualidade hosPitalar, na gestão de risco e uso dos
tóPicos de direito Penal ................................................................................................................... 9
CAPítulo 1
a enfermagem forense na investigação de morte susPeita ......................................... 11
CAPítulo 2
direito da saúde e regime das Perícias enfermagem – legais e forenses ................... 18
CAPítulo 3
o direito interno ................................................................................................................ 24
unidAdE ii
enfermeiro forense em situações diversificadas em instituições de saúde ............................ 50
CAPítulo 1
fraude em seguros: PaPel do enfermeiro forense ....................................................... 51
CAPítulo 2
PaPel do enfermeiro forense na Prevenção de situações de violência ................... 71
CAPítulo 3
desvio e educação ............................................................................................................ 95
unidAdE iii
atuação do enfermeiro forense em casos esPecíficos: Pobreza, suPerstições, crenças,
mitos, crime e entomologia como medida auxiliar ................................................................ 105
CAPítulo 1
a enfermagem forense Perante a Pobreza ................................................................... 107
CAPítulo 2
investigação forense de suPerstições, crenças, mitos e crime ............................... 114
CAPítulo 3
a antroPologia forense Passo a Passo ....................................................................... 132
CAPítulo 4
entomologia forense e medicina dentária forense: áreas de intervenção ........... 144
rEfErênCiAS ............................................................................................................................... 158
4
Apresentação
Caro aluno
A proposta editorial deste Caderno de Estudos e Pesquisa reúne elementos que se
entendem necessários para o desenvolvimento do estudo com segurança e qualidade.
Caracteriza-se pela atualidade, dinâmica e pertinência de seu conteúdo, bem como pela
interatividade e modernidade de sua estrutura formal, adequadas à metodologia da
Educação a Distância – EaD.
Pretende-se, com este material, levá-lo à reflexão e à compreensão da pluralidade
dos conhecimentos a serem oferecidos, possibilitando-lhe ampliar conceitos
específicos da área e atuar de forma competente e conscienciosa, como convém
ao profissional que busca a formação continuada para vencer os desafios que a
evolução científico-tecnológica impõe ao mundo contemporâneo.
Elaborou-se a presente publicação com a intenção de torná-la subsídio valioso, de modo
a facilitar sua caminhada na trajetória a ser percorrida tanto na vida pessoal quanto na
profissional. Utilize-a como instrumento para seu sucesso na carreira.
Conselho Editorial
5
organização do Caderno
de Estudos e Pesquisa
Para facilitar seu estudo, os conteúdos são organizados em unidades, subdivididas em
capítulos, de forma didática, objetiva e coerente. Eles serão abordados por meio de textos
básicos, com questões para reflexão, entre outros recursos editoriais que visam tornar
sua leitura mais agradável. Ao final, serão indicadas, também, fontes de consulta para
aprofundar seus estudos com leituras e pesquisas complementares.
A seguir, apresentamos uma breve descrição dos ícones utilizados na organização dos
Cadernos de Estudos e Pesquisa.
Provocação
Textos que buscam instigar o aluno a refletir sobre determinado assunto antes
mesmo de iniciar sua leitura ou após algum trecho pertinente para o autor
conteudista.
Para refletir
Questões inseridas no decorrer do estudo a fim de que o aluno faça uma pausa e reflita
sobre o conteúdo estudado ou temas que o ajudem em seu raciocínio. É importante
que ele verifique seus conhecimentos, suas experiências e seus sentimentos. As
reflexões são o ponto de partida para a construção de suas conclusões.
Sugestão de estudo complementar
Sugestões de leituras adicionais, filmes e sites para aprofundamento do estudo,
discussões em fóruns ou encontros presenciais quando for o caso.
Atenção
Chamadas para alertar detalhes/tópicos importantes que contribuam para a
síntese/conclusão do assunto abordado.
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Saiba mais
Informações complementares para elucidar a construção das sínteses/conclusões
sobre o assunto abordado.
Sintetizando
Trecho que busca resumir informações relevantes do conteúdo, facilitando o
entendimento pelo aluno sobre trechos mais complexos.
Para (não) finalizar
Texto integrador, ao final do módulo, que motiva o aluno a continuar a aprendizagem
ou estimula ponderações complementares sobre o módulo estudado.
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introdução
figura 1- mapa mental
Tópicos de Direito
Penal (Enfermagem
Forense)
A enfermagem forense
na investigação
de morte suspeita
IntrodDireito da saúde
e regime das perícias
legais e forensesução
IIntroFraude em
seguros: papel
do enfermeiro
forense dução
Direito interno
Papel do enfermeiro
forense na prevenção
de situações
de violência
Desvio e educação
A enfermagem forense
perante a pobreza
Entamologia forense
e Medicina
dentária forense:
áreas de intervenção
Antropologia forense
fonte: ramos, 2017
As vítimas de violência interpessoal são as que mais facilmente são identificadas e
abordadas de modo adequado por enfermeiros que possuem competências na avaliação
forense, abordagem de enfermagem e denúncia do caso. Por meio da abordagem feita
pelos enfermeiros forenses, mais facilmente uma vítima de abuso ou negligência é
identificada, e uma adequada abordagem, documentação e referência facilitam o
processo nestes casos. As vítimas de violência apresentam necessidades especiais na
abordagem. O espólio deve ser descrito e guardado adequadamente, uma vez que o
hospital tem a responsabilidade específica e única de guardar e preservar o mesmo.
O hospital deve ter procedimentos e normas específicas para a abordagem e tratamento
do espólio dos doentes internados. O enfermeiro forense é o profissional de saúde ideal
para a elaboração desses regulamentos e normas, uma vez que possui formação adequada
no que diz respeito à cadeia de custódia. O enfermeiro forense deve também participar
na elaboração de normas e procedimentos médico-legais no hospital. O reconhecimento
dos vestígios, a sua recolha e a sua documentação são importantes por serem os meios
pelos quais as vítimas podem receber um verdadeiro cuidado holístico. É dever de todos
profissionais de saúde assegurar um nível alto de qualidade de cuidados ao doente, isto
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significa que todos os profissionais de saúde devem ter presente o que constitui um
significado médico-legal. Os enfermeiros têm um papel muito importante, uma vez que
são os primeiros a contatar com o doente; como tal, apresentam também um papel
importante na observação da interação e comunicação não verbal entre o doente e a
família ou a pessoa significante. Um enfermeiro forense deverá ter a capacidade de
manter o balanço profissional entre a abordagem de enfermagem à “doença natural” e
à “doença suspeita”.
Objetivos
» Identificar os tópicos de direito.
» Entender o papel do enfermeiro forense em situações diversas nas
instituições de saúde.
» Relacionar o direito da saúde eo regime das perícias de enfermagem
(legais e forense).
» Correlacionar a enfermagem forense com as demais profissões da área
da saúde.
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unidAdE i
PAPEl do
EnfErmEiro
forEnSE nA
quAlidAdE
hoSPitAlAr, nA
gEStão dE riSCo E
uSo doS tóPiCoS dE
dirEito PEnAl
Sempre que é apresentada uma reclamação sobre a qualidade ou adequação dos cuidados
prestados pelos profissionais de saúde no hospital, o enfermeiro forense representa
uma ponte de ligação importante entre o doente e a equipe de enfermagem, pois pode
recolher dados específicos durante o processo forense para avaliar a qualidade ou risco
de abordagem do doente por parte da equipe. O problema pode surgir quando os dados
são recolhidos por pessoas sem qualquer tipo de formação na área forense, ou, por outro
lado, quando os intervenientes dificultam a investigação por receio das conclusões. O
enfermeiro forense e a equipe da qualidade devem definir papéis e responsabilidades
para análise e reconstrução de casos suspeitos, porque só assim se poderá garantir uma
boa qualidade de cuidados.
A cultura interna dos hospitais cria um ambiente ideal para a prática de atos criminosos.
Os estudos indicam que o hospital representa uma “janela de oportunidades” para o
crime, e que os crimes mais praticados são a adulteração de infusões, a adulteração de
equipamentos de suporte de vida e o furto de estupefacientes ou de psicofármacos.
Contribuem para que estes atos sejam cometidos alguns comportamentos tais como:
» ordens ou indicações orais sem prescrição;
» troca de turno, em geral; com a sua confusão, ambiguidade de papéis
e responsabilidades, é uma janela de oportunidade para os visitantes e
funcionários do hospital se envolverem em atos criminosos;
10
UNIDADE I │ PAPEl Do ENfErmEIro forENsE NA qUAlIDADE hosPItAlAr, NA gEstão DE rIsco E Uso Dos tóPIcos DE DIrEIto PENAl
» passagens de turno no serviço de urgência com diversos doentes, já que
as equipes de enfermagem muitas vezes consideram que a equipe que
vem a seguir irá fazer o que ficou por fazer;
» as visitas dos familiares, principalmente quando o serviço está confuso
ou na altura da troca de turno;
» as equipes com elementos muito novos e com pouca experiência.
É muito importante que todos os profissionais de saúde percebam as suas
responsabilidades médico-legais na divulgação de determinados tipos de morte; todos
os fatos devem ser reportados, incluindo hora, local, causa e circunstâncias da morte e
as mortes violentas requerem sempre notificação ao ministério público.
Quando o doente morre no hospital, assume-se que a morte é um processo natural
e não se suspeita imediatamente de crime. O enfermeiro forense desempenha um
papel importante na investigação das mortes suspeitas. Deve recolher os dados sobre a
intervenção médica realizada à vítima e os dados laboratoriais do doente; deve registar
o eletrocardiograma (ECG) post mortem e outros dados de monitorização (gasometria
e sinais vitais); deve ainda registar os fármacos administrados, os tratamentos e
procedimentos realizados e quem os realizou, e registar também a identificação das
visitas que estiveram com a vítima e o tempo de duração da visita.
objetivos específicos
» Orientar o enfermeiro forense sobre o seu papel na qualidade hospitalar,
gestão de risco e o uso dos tópicos de direito penal.
» Entender o direito da saúde e regime das perícias médica, enfermagem
legais e forenses.
» Diferenciar os direitos e deveres dos profissionais de saúde.
» Identificar as fraudes em seguros e o papel do enfermeiro forense.
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CAPítulo 1
A enfermagem forense na investigação
de morte suspeita
Você trabalha em uma instituição hospitalar como enfermeiro forense e fica
sabendo que aconteceu o seguinte ocorrido: Uma morte misteriosa dentro de
uma instituição hospitalar, um dos hospitais mais renomados do país. O Sr. A.A ,
de 68 anos, morreu de hemorragia depois que um cateter colocado no coração
foi cerrado com uma faca. Uma emissora de televisão teve acesso às fotos do
quarto que ele estava internado. O sangue se espalhou pelo cômodo todo,
desde o banheiro até a cama. Isso aconteceu no dia 20 de dezembro do ano
passado, enquanto o homem tratava um problema nos rins.
Conforme o inquérito policial, o Hospital em questão não entregou as imagens
das câmeras de segurança do dia em que o paciente morreu. A instituição
explicou que os vídeos são apagados do sistema depois de 15 dias, apesar de
a polícia tê-los solicitado informalmente horas depois da morte. O boletim de
ocorrência relata ainda que a equipe multidisciplinar que estava de plantão
demorou 40 minutos para descobrir a morte do idoso. O quarto onde Sr. A.A,
estava internado era quase em frente à bancada onde se encontrava a equipe
multidisciplinar. O registro foi feito como “suicídio” porque um funcionário do
hospital disse ao PM que era isso que havia acontecido. Depois, a Polícia Civil
alterou o caráter da investigação para “morte suspeita”. Você como enfermeiro
forense de plantão na instituição hospitalar, como faria nesse caso usando os
tópicos de direito em enfermagem forense, como faria a coleta dos vestígios
e por onde começaria? Assuma nesse momento a sua função de enfermeiro
forense.
A denúncia de uma morte suspeita é por vezes realizada mais tarde, após o funeral.
As amostras laboratoriais poderão já ter sido destruídas e o material invasivo também
(linhas EV, seringas), mas a maior parte dos equipamentos (monitores) tem memória
e guardam dados durante bastante tempo; também as bombas difusoras ficam com
os registos em memória. Idealmente, o enfermeiro forense deve manter o material
invasivo no cadáver e deve guardar as infusões, o conteúdo gástrico, urina e outros
fluidos pertinentes. Deve solicitar os exames auxiliares de diagnóstico e o processo
clínico. Se for necessário, deve solicitar backup do registo informático dos equipamentos
(monitores, ventiladores, bombas difusoras etc.)
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UNIDADE I │ PAPEl Do ENfErmEIro forENsE NA qUAlIDADE hosPItAlAr, NA gEstão DE rIsco E Uso Dos tóPIcos DE DIrEIto PENAl
Atualmente, as lesões por pressão indicam a qualidade dos cuidados de enfermagem
prestados à vítima. As vítimas que já trazem úlceras de pressão do exterior devem ser
avaliadas minuciosamente, documentadas e fotografadas, de forma a permitir uma
análise da sua evolução e para auxiliar em uma eventual investigação de má prática
e negligência de cuidados. Com este procedimento, o enfermeiro forense inicia o seu
processo de avaliação do risco de negligência.
Deve ser registada a prescrição da contenção física e devem ser descritas as zonas
foram contidas, o material utilizado para o efeito e o tipo de contenção usada (química
manual). O enfermeiro deve descrever o comportamento da vítima e a resposta da
mesma contenção. Se ocorrer morte, o enfermeiro forense deve descrever as lesões e o
local da contenção no diagrama corporal, fotografar a vítima e proceder à preservação
e recolha de vestígios.
Deve ser realizado controle sobre a administração de estupefacientes por meio
do registro em formulário adequado para o efeito. Os estupefacientes devem ser
guardados em gavetas com chaves ou cadeados, devendo ficar sobre a guarda do
enfermeiro de plantão e ser monitorizado o seu consumo. Se existir suspeita de que
tenha sido feita administração de estupefacientes em algum doente, deve-se solicitar o
doseamento toxicológico através de recolha de amostra de sangue e urina. Em situações
de investigação, o enfermeiro forense deve ver os registos de enfermagem no sentido
de avaliar se foram administrados estupefacientes, a vítima apresentava alterações
fisiológicas que possam levar a essa suspeita.
Erros na medicação
Os fármacos administrados erroneamente podem afetar os pacientes, e as suas
consequências podem levar a danos importantes e culminar mesmo na morte. Estes
tipos de lesões intencionais têm afetado cerca de 1,3 milhão de pessoas por ano nos EUA,e o custo relacionado com a hospitalização do paciente ascende a 77 bilhões de dólares.
Muitas vezes erros de medicação apenas são detectados quando as consequências são
manifestadas clinicamente pelo doente. As dificuldades para relatar os erros prejudicam
a avaliação do tipo número de erros registados, o que leva forçosamente a que não seja
documentado o número real de erros que ocorreram ─ alguns estudos indicam que
apenas 25% dos erros são relatados profissionais (HACKEL, 1996).
O medo de punições ou demissão (os profissionais de saúde podem sofrer processos,
judiciais por negligência, imprudência e má prática), o sentimento de culpa e as
preocupações com a gravidade do erro podem levar os indivíduos envolvidos a não
notificarem o erro. O estudo realizado por Viviane (2002) indica que as principais
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PaPel do enfermeiro forense na qualidade hosPitalar, na gestão de risco e uso dos tóPicos de direito Penal │ unidade i
intervenções de enfermagem realizadas após a identificação do erro cometido são as
seguintes:
» verificação dos sinais vitais;
» interrupção da infusão venosa;
» administração de medicamentos extra;
» troca da punção venosa em quimioterapia;
» aplicação de gelo no local;
» irrigação da veia com soro fisiológico;
» manutenção de repouso no leito;
» oxigenoterapia;
» colheita de exames extras;
» administração de líquidos via oral;
» auxílio no atendimento de urgência.
Em relação às consequências para o doente, a maioria tinha boa evolução e tinha
alta em boas condições gerais, no entanto, existiram casos em que ocorreram lesões
e prolongamento da hospitalização, assim como morte. No mesmo estudo, as
consequências para os profissionais assentaram essencialmente na advertência verbal
e escrita, e apenas em dois casos foi aplicada demissão do enfermeiro.
O papel do enfermeiro forense, nestes casos, assenta na colaboração na investigação,
realizando uma análise minuciosa do processo do doente, fazendo uma recolha de
dados sobre o fármaco administrado, via de administração, efeitos imediatos e tardios,
assim como as intervenções de enfermagem realizadas após a identificação do erro.
Deve recolher vestígios, nomeadamente os frascos, ampolas ou caixas dos fármacos
administrados, recolher ainda o conteúdo gástrico, a urina e o sangue para doseamento
toxicológico. Caso tenha ocorrido óbito, deve proceder em conformidade, como sendo
uma morte violenta. Nestes casos a intervenção do enfermeiro forense também poderá
ser relevante na prevenção do risco de erro, dando formação aos restantes elementos
sobre algumas recomendações, tais como ter um ambiente seguro para administração
de medicamentos (boa luminosidade, controle da temperatura e controle do barulho),
evitar deficiência de conhecimentos e inexperiência profissional.
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UNIDADE I │ PAPEl Do ENfErmEIro forENsE NA qUAlIDADE hosPItAlAr, NA gEstão DE rIsco E Uso Dos tóPIcos DE DIrEIto PENAl
Suicídio no hospital
Este é um dos episódios mais graves que podem ocorrer e que pode ter implicações
sérias para todos os profissionais de saúde que exerçam atividade hospitalar. Segundo
um estudo realizado por Tishler (2009), existem diversas formas de cometer suicídio
no hospital, destacando-se as seguintes:
» enforcamento na casa de banho, ou quarto (75%);
» atirar-se do telhado ou janela (20%);
» outras formas (5%): ingestão de medicamentos, imolação, ferimentos
com arma branca, fuga do hospital e na sequência queda acidental.
O estudo revelou ainda a existência de fatores de risco, que foram divididos conforme o
serviço hospitalar em que o doente estava internado. Assim:
» Nas unidades psiquiátricas:
› delirium, demência e agitação e impulsividade;
› grande impacto psíquico devido a doença crónica debilitante ou
diagnóstico recente de doença grave de mau prognóstico.
» Nas unidades clínicas e cirúrgicas:
› doente em tratamento clínico ou cirúrgico;
› delirium, demência e agitação e impulsividade;
› grande impacto psíquico devido a doença crónica debilitante ou
diagnóstico recente de doença grave, de mau prognóstico.
Foram ainda descritos fatores de risco relacionados à unidade de saúde:
» falhas na segurança do local (trancas nas portas, alarmes, janelas);
» avaliação de risco de suicídio incompleta ou inexistente na admissão;
» falha na identificação e remoção de objetos de risco;
» falha no treino específico da equipe de saúde, na comunicação, na
frequência de observação dos doentes, na elaboração do local e do plano
terapêutico.
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PaPel do enfermeiro forense na qualidade hosPitalar, na gestão de risco e uso dos tóPicos de direito Penal │ unidade i
Deste estudo realizado, conforme já dito por Tishler(2007), nasceram algumas
recomendações a prevenção de suicídio. Essas recomendações foram as seguintes:
» avaliar todos os pacientes para despiste de depressão (mesmo crianças)
como parte do processo de admissão;
» avaliar as ideias de suicídio e o grau de intenção de suicídio;
» avaliar a ansiedade, delirium e agitação;
» conduzir avaliações regulares e repetidas dos fatores de risco e ideias
suicidas, especialmente em pacientes com depressão;
» manter os doentes em risco em zonas protegidas;
» eliminar estruturas que possam suportar objetos pendentes;
» redefinir estratégias de segurança, tais como mecanismos de bloquear
portas, monitoração do paciente e alarmes;
» instalar janelas que não possam ser abertas por dentro;
» remover itens que possam ser usados para enforcamento ou
estrangulamento;
» instruir os visitantes que não devem trazer itens sem autorização do staff,
» evitar usar objetos metálicos e de vidro em serviços de psiquiatria;
» instalar vidro inquebrável nas janelas.
A atuação do enfermeiro forense nestes casos assenta na abordagem da vítima de morte
violenta.
má pratica em enfermagem
Má prática é negligência, conduta errada ou má prestação de cuidados pelo enfermeiro,
que resulta em lesões ou danos ao paciente. As queixas mais comuns de má prática
dos enfermeiros assentam em seis causas essenciais: falha na prestação de cuidados de
enfermagem, falha na utilização do equipamento e seu manuseio, falha de comunicação,
falha na documentação, falha na avaliação e monitorização e falha na defesa do
paciente. A falha na prestação de cuidados inclui, na maioria dos casos, problemas
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UNIDADE I │ PAPEl Do ENfErmEIro forENsE NA qUAlIDADE hosPItAlAr, NA gEstão DE rIsco E Uso Dos tóPIcos DE DIrEIto PENAl
no cumprimento dos protocolos, normas e procedimentos, nomeadamente no que diz
respeito à administração de terapêutica e colocação de cateteres.
Em relação à falha no uso de equipamento, a responsabilidade do enfermeiro está
associada à decisão de usar um equipamento para o qual não tem treino adequado ou
desconhece quais; as suas principais funções. Um dos elementos que apresenta maior
preponderância em relação à má prática é a comunicação, podendo existir problemas
de comunicação entre o enfermeiro e o médico, ou outros profissionais, que não terão
implicações nos cuidados a prestar ao doente.
Os erros de comunicação podem ser na passagem de informação para o médico, na
divulgação de informação pertinente para a prestação de cuidados. O enfermeiro, para
sua proteção, deve documentar todas as trocas de informação que tenham ocorrido
sobre o doente.
Para o tribunal, alguma coisa que não esteja documentada significa que não foi feita.
A falha na documentação também pode resultar em intervenções de enfermagem
duplicadas, pelo que pode colocar em risco o paciente.
A determinação da frequência em que o paciente é avaliado e monitorizado é um
julgamento de enfermagem. Por exemplo, um doente que apresenta taquicardia, deve
ser avaliado e monitorado com uma determinada periodicidade; caso o enfermeiro não
o faça rapidamente, o doente pode estar em risco de vida. No que diz respeito à defesa
do doente, os erros de enfermagem assentam na ausência de denúncia de maus tratos
e violênciaa que o doente foi sujeito, assim como na defesa dos direitos e interesses do
doente. Para evitar as queixas de má prática, os enfermeiros devem compreender os
princípios legais da má prática e incorporar esses princípios na prática de enfermagem;
no entanto, existem algumas orientações que podem reduzir o nomeadamente:
» estar atento às atualizações na área de atuação;
» conhecer e aceitar as fraquezas;
» nunca fazer uma declaração em que o doente ou a família possam
construir uma versão de culpa;
» documentar todos os cuidados prestados ao doente;
» manter uma postura de comunicação aberta, honesta e respeitável com
os pacientes e familiares;
» ter seguro de responsabilidade profissional.
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PaPel do enfermeiro forense na qualidade hosPitalar, na gestão de risco e uso dos tóPicos de direito Penal │ unidade i
A redução do número de enfermeiros por turno e o aumento da carga de trabalho
colocam os enfermeiros em uma posição de vulnerabilidade e, por isso, sujeitos ao
risco de má prática. Nestes casos os enfermeiros devem estar mais atentos aos registos,
documentando todas as intervenções que tenham feito. Quanto mais autonomia, maior
risco para errar.
É importante que, o enfermeiro despiste os sinais de alerta que possam indicar que
o doente se encontra em risco ou que o enfermeiro se encontra em risco de cometer
alguma intervenção que seja considerada de má prática ou negligência. Se ocorrer um
suicídio no hospital, deve-se notificar de imediato as autoridades judiciais e iniciar a
investigação da morte, tendo sempre presente a cadeia de custódia da prova. Nestes
casos toma-se extremamente importante que os vários itens envolvidos na morte sejam
preservados de forma que não se percam ou destruam. Os enfermeiros devem estar
bem informados sobre as questões jurídicas na área da saúde. Devem praticar bons
cuidados de enfermagem e conhecer medidas defensivas. A melhor forma de proteção
é documentar todas as intervenções realizadas. O enfermeiro deve reconhecer as suas
limitações, assim como, identificar as situações que possam levar a cometer erros.
18
CAPítulo 2
direito da Saúde e regime das Perícias
Enfermagem – legais e forenses
O tema a aflorar tem sido explanado por vários autores, segundo diferentes perspectivas,
mas tendo quase sempre por base quer a legislação, quer a literatura e doutrina
existentes.
O presente capítulo tem, em uma primeira parte, como preocupação principal fazer
uma análise lógica das questões que se prendem com a prestação de cuidados de
saúde, em instituições de saúde prestadoras de cuidados diferenciados ou de cuidados
primários, alertando para as consequências da prática de cuidados de saúde realizada
de forma deficiente ou incorreta pelos diversos profissionais de saúde. Nesse sentido, o
tema não será direcionado apenas para a prática médica, propriamente dita, mas para
toda a atividade que envolve a assistência na saúde aos doentes pelos profissionais de
enfermagem que tem o primeiro contato com o paciente (atividade levada a cabo por
médicos, enfermeiros ou outros profissionais de saúde).
Pretende-se, essencialmente, abordar as questões relacionadas com a responsabilidade
civil, disciplinar e, eventualmente, penal que decorre quer dos atos técnicos de saúde,
praticados pelos profissionais de saúde, quer da não observação dos seus deveres
deontológicos e éticos, enquanto agentes do Serviço Nacional de Saúde ou do Sistema
Nacional de Saúde.
Em uma segunda parte, e porque este capítulo se enquadra em uma obra dedicada à
enfermagem forense, aborda-se o regime jurídico das perícias médico-legais e forenses
e a relevância das mesmas no âmbito do processo civil e do processo penal.
Antes de entrarmos propriamente no objeto central do capítulo, importa, porém, realçar
que a questão da responsabilidade tem subjacentes duas premissas:
» a crescente proteção internacional dos direitos e liberdades dos doentes;
» a resposta do serviço nacional de saúde, e das entidades reguladoras das
diferentes atividades de saúde, às exigências resultantes dos normativos
nacionais e interna
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PaPel do enfermeiro forense na qualidade hosPitalar, na gestão de risco e uso dos tóPicos de direito Penal │ unidade i
A proteção internacional dos direitos dos
doentes
A preocupação com a assistência médica acompanha, há longa data, a história da
humanidade. Poderemos dizer que nasceu com o aparecimento do primeiro homem e da
necessidade de se buscar curas para os seus males corporais e espirituais. A sua evolução
e subsequentes modelos de organização, ao longo dos tempos, foram resultando da
influência de conceitos religiosos, políticos e sociais de cada época, e pautaram-se pela
necessidade, e fim último, de obter resposta ao aparecimento das doenças.
No Brasil, o modelo de assistência á saúde não foi sempre igual, tendo acompanhado
com naturalidade o decorrer dos tempos e as exigências de uma sociedade cada vez
mais desperta para o direito à cidadania. Ao Estado coube-lhe, de resto, assegurar
esse direito, chamando a si o imperativo de prosseguir com a criação de modelos de
organização dos serviços de saúde mais eficientes, eficazes e capazes de dar resposta às
necessidades das populações.
O Sistema Nacional de Saúde integra todas as instituições que prestam cuidados de
saúde, sejam elas do setor público ou do setor privado.
Contudo, para esse caminho muito contribuiu o reconhecimento pela comunidade
internacional da condição do doente como cidadão em detrimento da condição de
enfermo, aliás como resultava da visão hipocrática/paternalista, que durante séculos
marcou a prática médica. A organização brasileira dos serviços da saúde foi, assim,
fazendo transparecer e acompanhando as diretivas internacionais que, ao longo dos
tempos, foram sendo emanadas, e que tiveram sempre como enfoque a proteção do
doente, através do respeito pelos seus direitos e liberdades.
A seguir elencamos algumas dessas diretivas e normativos.
declaração universal dos direitos humanos, 1948
Segundo Brasil(2005), Proclamada pela Resolução no 217 A (III) da Assembleia Geral
das Nações Unidas, em 10 de dezembro de 1948, “como o ideal comum a ser atingido
por todos os povos e todas as nações, com o objetivo de que cada indivíduo e cada
órgão da sociedade, tendo sempre em mente esta declaração, se esforce, por meio do
ensino e da educação, por promover o respeito a esses direitos e liberdades, e, pela
adoção de medidas progressivas de caráter nacional e internacional, por assegurar o
seu reconhecimento e a sua observância universais e efetivos, tanto entre os povos dos
próprios estados-membros, quanto entre os povos dos territórios sob sua jurisdição”.
20
UNIDADE I │ PAPEl Do ENfErmEIro forENsE NA qUAlIDADE hosPItAlAr, NA gEstão DE rIsco E Uso Dos tóPIcos DE DIrEIto PENAl
Código de nuremberga, 1947
O Tribunal de Nuremberga, em 9 de dezembro de 1946, julgou 23 pessoas ─ 20 das
quais médicos, que foram considerados criminosos de guerra, pelas brutais experiências
realizadas em seres humanos. Em 19 de agosto de 1947, o mesmo tribunal divulgou as
sentenças, além de um documento que ficou conhecido como Código de Nuremberga.
Sete acusados foram condenados à morte. O documento tomou-se um marco na história
da humanidade. Pela primeira vez, estabeleceu-se a recomendação internacional sobre
os aspetos éticos envolvidos na investigação em seres humanos.
Pacto internacional dos direitos Civis e Políticos,
onu, 1966
Adotado e aberto à assinatura, ratificação e adesão pela Resolução no 2200-A (XXI) da
Assembleia Geral das Nações Unidas, de 16 de dezembro de 1966. Entrou em vigor na
ordem internacional em 23 de março de 1976, em conformidade com o seu art.” 49.”.
Segundo este pacto, a liberdade e o respeito dos direitos humanos são valores que
constituem elementos essenciais da democracia. Por sua vez, a democracia proporciona
o quadro natural para a proteção e a realização efetiva dos direitos humanos. Esses
valoressão encarnados pela Declaração Universal dos Direitos Humanos e desenvolvidos
no Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos, que consagra uma série
de direitos políticos e liberdades civis que constituem os pilares de uma verdadeira
democracia.
declaração de helsinque, 1964
Adotada na 18ª Assembleia Médica Mundial, em Helsinque, Finlândia (1964), alterada
na 29ª Assembleia, em Tóquio, Japão (1975), na 35ª em Veneza, Itália (1983), na 41ª
em Hong-Kong (1989) e na 48ª em Sommerset West/África do Sul (1996). A assinatura
desta declaração, que abrange todos os países da Comunidade Europeia, a Organização
Mundial de Saúde e o Conselho da Europa, visa a prevenção das doenças mentais, bem
como melhorar o tratamento dos danos causados por estas patologias.
Segundo a declaração, a investigação biomédica que envolve seres humanos deve estar
de acordo com os princípios científicos geralmente aceites e deve basear-se tanto na
experimentação, adequadamente conduzida com animais ou em laboratório, como no
conhecimento profundo da literatura científica.
A investigação biomédica que envolva seres humanos deve ser conduzida apenas por
pessoal com a devida qualificação científica e sob a supervisão de um médico com a
21
PaPel do enfermeiro forense na qualidade hosPitalar, na gestão de risco e uso dos tóPicos de direito Penal │ unidade i
apropriada competência clínica. A responsabilidade sobre o ser humano deve recair
sempre sobre a pessoa com qualificação médica e nunca sobre o indivíduo submetido
à investigação, mesmo que esse indivíduo tenha dado o seu consentimento. Por outro
lado, em qualquer investigação com seres humanos, cada eventual participante deve ser
adequadamente informado sobre as finalidades, os métodos, os benefícios esperados,
os possíveis riscos e sobre o desconforto que a investigação possa trazer. O eventual
participante deve ser informado de que tem plena liberdade para se abster de participar
na investigação e de que é livre para suspender o consentimento sobre a sua participação
a qualquer momento. O médico deve obter, então, o consentimento informado, que
deve ser dado de forma livre e de preferência por escrito. No entanto, o consentimento
informado deve ser obtido por um médico que não esteja envolvido na investigação e
que seja completamente independente desse relacionamento oficial.
No caso de incapacidade legal, o consentimento informado deve ser dado pelo
responsável, estabelecido segundo a legislação do país.
Se a capacidade física e mental tomar impossível obter consentimento informado ou
se o participante for menor de idade, a autorização dada por um parente responsável
substitui a do participante, de acordo com a legislação de cada país. Sempre que a
criança for de fato capaz de dar seu consentimento, este deve ser obtido em acréscimo
ao fornecido pelo seu tutor legal.
declaração sobre a Promoção dos direitos do
Paciente na Europa, 1994
A Declaração da Organização Mundial de Saúde sobre a Promoção dos Direitos dos
Pacientes na Europa foi assinada em Amsterdã, em março de 1994. Um dos objetivos
da declaração foi a implementação do conceito de respeito pelas pessoas e equidade
em saúde. No documento, dá-se relevância ao livre exercício da escolha individual,
bem como a necessidade de se construírem mecanismos que garantam a qualidade
do atendimento. Aponta-se que a crescente complexidade dos sistemas de saúde, os
progressos da medicina e da ciência e o fato de a prática médica se ter tomado mais
arriscada e, em muitos casos, mais impessoal e desumanizada, geralmente envolvendo
grande burocracia, mostrou a importância de se reconhecer o direito do indivíduo à
autodeterminação e de assegurar garantias de outros direitos de pacientes.
Carta dos direitos fundamentais da união Europeia,
1999
Em junho de 1999, o Conselho Europeu, em Colónia, considerou oportuno consagrar
em uma Carta os direitos fundamentais em vigor ao nível da União Europeia (UE),
22
UNIDADE I │ PAPEl Do ENfErmEIro forENsE NA qUAlIDADE hosPItAlAr, NA gEstão DE rIsco E Uso Dos tóPIcos DE DIrEIto PENAl
de forma a conferir-lhes uma maior visibilidade. Os Chefes de Estado ou de Governo
pretendiam incluir na Carta os princípios gerais consagrados na Convenção Europeia
dos Direitos Humanos de 1950 e os resultantes das tradições constitucionais comuns
dos países da UE. Para, além disso, a Carta devia incluir os direitos fundamentais
próprios dos cidadãos da UE, bem como os direitos económicos e sociais consagrados
na Carta Social do Conselho da Europa e na Carta Comunitária dos Direitos Sociais
Fundamentais dos Trabalhadores. Refletiria, também, os princípios decorrentes da
jurisprudência do Tribunal de Justiça e do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem.
A Carta foi elaborada por uma convenção composta por um representante de cada país
da EU e da Comissão Europeia, bem como por deputados do Parlamento Europeu e dos
parlamentos nacionais. Foi formalmente adotada em Nice, em dezembro de 2000, pelo
Parlamento Europeu, pelo Conselho Europeu e pela Comissão Europeia, em dezembro
de 2009, com a entrada em vigor do Tratado de Lisboa, a Carta foi investida de efeito
jurídico vinculativo, à semelhança dos Tratados.
Para o efeito, a Carta foi alterada e proclamada pela segunda vez em dezembro de 2007.
Contudo, a Carta não confere novas responsabilidades à UE, nem obriga os Estados
membros a alterarem as suas constituições. O principal objetivo é dar ênfase ao respeito
pela democracia, pelos direitos humanos e pelas liberdades fundamentais. A Carta pode,
e deve ser vista como um instrumento de legitimidade política e moral que, a nível de
política externa, expressa uma mensagem de respeito pelos direitos fundamentais.
Carta Europeia dos direitos dos Pacientes, 2002
A Carta Europeia dos Direitos dos Pacientes, foi apresentada pela Rede de Cidadania
Ativa (Active Citizenship NetWork), a 15 de novembro de 2002, em Bruxelas.
Os direitos inscritos na Carta Europeia dos Direitos dos Pacientes têm como ponto
detida o art. 35. da Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia; visam garantir
a proteção da saúde dos pacientes e assegurar um nível elevado de serviços que são
prestados por parte dos vários sistemas nacionais de saúde na Europa.
A declaração prevê a defesa de 14 direitos dos pacientes, nomeadamente que todo o
indivíduo tem direito a serviços adequados com o objetivo de prevenir doenças e direito
a aceder aos serviços de saúde de que necessita. Estes 14 direitos dizem, essencialmente,
respeito ao acesso sem discriminação em tempo adequado, à informação sobre
tratamentos e inovação tecnológica, à confidencialidade dos dados, à prestação de
serviços de elevada qualidade que garantam a segurança do doente e ao direito à
reclamação e ajusta compensação pelos danos sofridos.
23
PaPel do enfermeiro forense na qualidade hosPitalar, na gestão de risco e uso dos tóPicos de direito Penal │ unidade i
Convenção europeia sobre os direitos do homem e
a biomedicina
A Convenção protege o ser humano na sua dignidade e na sua identidade e garante a
toda a pessoa, sem discriminação, o respeito pela sua integridade e pelos outros direitos
e liberdades fundamentais face às aplicações da biologia e da medicina. Cada um dos
países aderentes deve adotar, no seu direito interno, as medidas necessárias para tomar
efetiva a aplicação das disposições da Convenção.
Também neste diploma, designadamente no art. 5o, é referido que qualquer intervenção
no domínio da saúde só pode ser efetuada após ter sido prestado pela pessoa em
causa o seu consentimento livre e esclarecido. A pessoa deve receber previamente a
informação adequada quanto ao objetivo e à natureza da intervenção, bem como às
suas consequências e riscos. A pessoa em questão pode, em qualquer momento, revogar
livremente o seu consentimento.
E, ainda, no art. 6o, no 2 é protegido o direito ao consentimento sempre que, nos termos
da lei, um menor careça de capacidade paraconsentir numa intervenção, esta não pode
ser efetuada sem a autorização do seu representante, de uma autoridade ou de uma
pessoa ou instância designada pela lei.
A opinião do menor é tomada em consideração como um fator cada vez mais determinante
em função da sua idade e do seu grau de maturidade.
24
CAPítulo 3
o direito interno
O acolhimento da diversificada legislação internacional, sobre a proteção dos direitos
e liberdades do doente, encontra, desde logo, expressão na Constituição da República
Portuguesa (CRP).
Em 1976, é aprovada a nova Constituição, cujo artigo 64 dita que “todos os cidadãos têm
direito à proteção da saúde e o dever de defender e promover. Esse direito efetiva-se por
meio da criação de um serviço nacional de saúde universal, geral e gratuito. Para assegurar o
direito à proteção da saúde, incumbe prioritariamente ao Estado garantir o acesso de todos
os cidadãos, independentemente da sua condição econômica, aos cuidados da medicina
preventiva, curativa e a reabilitação, bem como uma racional e eficiente cobertura médica
e hospitalar de todo o país.”.
Em 1978, por Despacho ministerial publicado em Diário da República, 2o série, de
29 de julho de 1978, conhecido como o “Despacho Arnaut”, garantiu-se o acesso aos
Serviço Médico-Sociais a todos os cidadãos, independentemente da sua capacidade
contributiva. Pela primeira vez, é garantida a universalidade, generalidade e gratuidade
dos cuidados de saúde e a comparticipação medicamentosa.
Neste seguimento, a Lei no 56/1979, de 15 de setembro, criou o Serviço Nacional de
Saúde (SNS), no âmbito do Ministério dos Assuntos Sociais, enquanto instrumento
do Estado para assegurar o direito à proteção da saúde, nos termos da Constituição.
O acesso passou a ser garantido a todos os cidadãos, independentemente da sua
condição econômica e social, bem como aos estrangeiros, em regime de reciprocidade,
apátridas e refugiados políticos. O SNS engloba todos os cuidados integrados de saúde,
compreendendo a promoção e vigilância da saúde, a prevenção da doença, o diagnóstico
e tratamento dos doentes e a reabilitação médica e social, através da criação uma rede
de órgãos e serviços prestadores de cuidados globais de saúde a toda a população, por
meio da qual o Estado salvaguarda o direito à proteção da saúde.
Com a 2o revisão constitucional, estabeleceu-se que o direito à proteção da saúde,
alínea a do no 2 do art. 64.”, é realizado por meio de um serviço nacional de saúde
“universal e geral e, tendo em conta as condições económicas e sociais dos cidadãos,
tendencialmente gratuito”, realizando-se, assim, o princípio de justiça social e de
racionalização dos recursos.
No sentido de efetivar a política inerente ao SNS, foi elaborada em 1990 a Lei no 48/1990,
de 24 de agosto, que aprovou a Lei de Bases da Saúde, e em que, pela primeira vez, a
proteção da saúde é perspectivada não só como um direito, mas também como uma
25
PaPel do enfermeiro forense na qualidade hosPitalar, na gestão de risco e uso dos tóPicos de direito Penal │ unidade i
responsabilidade conjunta dos cidadãos, da sociedade e do Estado, em liberdade de
procura e de prestação de cuidados, nos termos da constituição (Base I). A promoção
e a defesa da saúde pública passam a ser efetuadas mediante a atividade do Estado e
de outros entes públicos, podendo as organizações da sociedade civil ser associadas
àquela atividade. Determina-se que os cuidados de saúde serão prestados por serviços e
estabelecimentos do Estado ou, sob fiscalização deste, por outros entes públicos ou por
entidades privadas, com ou sem fins lucrativos.
Por seu lado, a Base V determina que os cidadãos são os primeiros responsáveis pela sua
própria saúde, individual e coletiva, tendo o dever de a defender e promover e que têm
direito a que os serviços públicos de saúde se constituam e funcionem de acordo com os
seus legítimos interesses. No sentido da proteção dos direitos e liberdades dos utentes,
a Base XIV determina que cabe ao doente decidir receber ou recusar a prestação de
cuidados que lhes é proposta, salvo disposição especial da lei, ser tratados pelos meios
adequados, humanamente e com prontidão, correção técnica, privacidade e respeito,
ver respeitada a confidencialidade sobre os dados pessoais revelados, ser informado
sobre a sua situação, as alternativas possíveis de tratamento e a evolução provável do
seu estado. A referida Base prevê, ainda, que o doente possa reclamar e fazer queixa
sobre a forma como foi tratado e, se for caso disso, receber indenização por prejuízos
sofridos.
A regulamentação legais dos profissionais
A atividade desenvolvida pelos profissionais de saúde, por potencialmente poder
colocarem causa os bens Jurídicos supremos ─ vida e integridade física ─ reveste-se de tal
especificidade, e importância, que se entendeu dever ser merecedora de regulamentação
própria, que não é mais do que os princípios que regem as leges artis das diferentes
profissões.
Com vista a dar corpo às exigências da Lei interna e, indiretamente, à legislação
internacional, as entidades reguladoras do exercício das diferentes atividades
profissionais, relacionadas diretamente com a prestação de cuidados de saúde, sentiram
a necessidade de autorregular o exercício da respetiva atividade profissional, no sentido
de assegurar ao doente os direitos e liberdades garantidas por Lei, no âmbito da atuação
em saúde.
São exemplos dessa preocupação o art. 13 da Secção n, dos Estatutos da Ordem dos
Médicos, referente aos deveres dos médicos, donde ressalta, designadamente, a
obrigatoriedade de cumprir as normas deontológicas que regem o exercício da profissão
médica e de guardar segredo profissional. Por seu lado, o Código deontológico reforça
26
UNIDADE I │ PAPEl Do ENfErmEIro forENsE NA qUAlIDADE hosPItAlAr, NA gEstão DE rIsco E Uso Dos tóPIcos DE DIrEIto PENAl
os seus deveres, designadamente no art. 6o. , determinando que o médico deve exercer
a sua profissão com o maior respeito pelo direito à saúde dos doentes e da comunidade,
que o médico deve prestar a sua atividade profissional por forma não discriminatória
(art. 7o.), que o médico deve, em qualquer lugar ou circunstância, prestar tratamento
de urgência a pessoas que se encontrem em perigo imediato, independentemente da
sua função específica ou da sua formação especializada (art. 8o), que, no exame clínico
do doente, a idade, o sexo, a natureza da doença são elementos que devem ser tidos
em consideração (art. 27), que só deve tomar decisões ditadas pelas suas ciência e
consciência, comportando-se sempre com correção (art. 33) e que deve procurar
esclarecer o doente, a família ou quem legalmente o represente, acerca dos métodos
de diagnóstico ou de terapêutica que pretende aplicar. Sendo que no caso de crianças
ou incapazes, procurará respeitar, sempre que possível, as opções do doente, de acordo
com a capacidade de discernimento que reconheça, atuando sempre em consciência na
defesa dos interesses do doente (art.39).
O referido código consagra, ainda, no no 1 do art. 100, o dever de documentação, ao
referir que o médico, seja qual for o enquadramento da sua ação profissional, deve
registrar cuidadosamente os resultados que considere relevantes das observações
clínicas dos doentes. O dever de documentação tem como finalidades a segurança
do tratamento, obtenção de prova, o controle dos custos de saúde e a justificação de
honorários a seu cargo, conservando-se abrigo de qualquer indiscrição, de acordo com
as normas do segredo médico.
O dever de documentação impõe aos profissionais de saúde uma obrigação de registo
vários dados, nomeadamente identificação do paciente, anamnese, diagnóstico, estado
de saúde do paciente à altura da admissão, evolução do seu estado de saúde, informação
prestada ao paciente, consentimento informado, métodos terapêuticos utilizados,
monitorização do paciente, prognóstico, de entre outros.
No que diz respeito à propriedade dos registos,o no 3 do art. 100. consagra que o
médico é o detentor da propriedade intelectual dos registos que elaborei, sem prejuízo
dos legítimos interesses dos doentes e da instituição. No entanto, o art. 35 da CRP
consagra que todos os cidadãos têm o direito de acesso aos dados informatizados
que lhes digam respeito, podendo exigir a sua retificação e atualização e o direito de
conhecer a finalidade a que se destinam, nos termos da lei.
O acesso ao processo clínico compete ao titular dos dados, isto é, o doente tem acesso
ao processo clínico (no 1 do art. 11 da Lei de Proteção de Dados Pessoais), reforçado pelo
disposto no no 2 do art. 3o da Lei no 12/2005 que refere que o titular da informação de
saúde tem o direito de, querendo, tomar conhecimento de todo o processo clínico que
27
PaPel do enfermeiro forense na qualidade hosPitalar, na gestão de risco e uso dos tóPicos de direito Penal │ unidade i
lhe diga respeito, salvo circunstâncias excecionais devidamente justificadas e em que
seja inequivocamente demonstrado que isso lhe possa ser prejudicial.
O acesso ao processo clínico encontra-se previsto no no do art. 11 da Lei de Proteção de
Dados Pessoais que consagra que o direito de acesso à informação de saúde é exercido
por intermédio de um médico escolhido pelo titular dos dados, tal como também
consagra o no 3 do art. 3o da Lei no 12/2005 e o art 7o da Lei de Acesso à Documentos
Administrativos (LADA).
No setor público de saúde o acesso à informação não inclui as notas pessoais, esboços,
apontamentos e outros registos de natureza semelhante, que não são considerados
documentos administrativos nos termos da alínea a) do no 2 do art. 3o da LADA.
O Código Deontológico da Ordem dos Médicos refere no no 4 do art. 100 que o doente
tem direito a conhecer a informação registada no seu processo clínico, a qual lhe será
transmitida, se requerida, pelo próprio médico assistente ou, no caso de instituição de
saúde, por médico designado pelo doente para este efeito.
A lei prevê a possibilidade de o acesso ser feito por intermédio de terceiro embora a CRP
no no 4 do art. 35. consagre que, em princípio, o acesso aos dados pessoais por terceiro
seja proibido. No entanto, excecionalmente, o titular da informação pode indicar um
terceiro a quem seja comunicado o conteúdo do processo clínico (nos 2 e 3 do art. 3o da
Lei no 12/2005).
Código deontológico dos Enfermeiros (CdEnf)
A Ordem tem como desígnio fundamental promover a defesa da qualidade dos cuidados
de enfermagem prestados à população, bem como o desenvolvimento, a regulamentação
e o controle do exercício da profissão de enfermeiro, assegurando a observância das
regras de ética e deontologia profissional.
No âmbito da prestação de cuidados de saúde de enfermagem, os profissionais devem
respeitar o preceituado no CDENF, assegurando, entre outros, a defesa da liberdade e
da dignidade da pessoa humana (art.78), protegendo e defendendo a pessoa humana
das práticas que contrariem a lei, a ética ou o bem comum, sobretudo quando carecidas
de indispensável competência profissional (art.79), a não discriminação económica,
social, política, étnica, ideológica ou religiosa do doente. Deve, ainda, abster-se de
juízos de valor sobre o comportamento da pessoa assistida e não lhe deve impor os
seus próprios critérios e valores no âmbito da consciência e da filosofia de vida (art.8 o),
deve respeitar a integridade biopsicossocial, cultural e espiritual do doente, bem como
recusar a participação em qualquer forma de tortura, tratamento cruel, desumano ou
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UNIDADE I │ PAPEl Do ENfErmEIro forENsE NA qUAlIDADE hosPItAlAr, NA gEstão DE rIsco E Uso Dos tóPIcos DE DIrEIto PENAl
degradante (art.82). Deverá respeitar e possibilitar ao indivíduo a liberdade de opção
de ser cuidado por outro enfermeiro, quando tal opção seja viável e não ponha em risco
a sua saúde (art.83).
No que respeita ao dever de informação, no que concerne à autodeterminação, deve
informar o indivíduo e a família no que respeita aos cuidados de enfermagem, respeitar,
defender e promover o direito da pessoa ao consentimento informado, atender com
responsabilidade e cuidado todo o pedido de informação ou explicação feito pelo
indivíduo em matéria de cuidados de enfermagem e informar sobre os recursos a que
a pessoa pode ter acesso, bem como sobre a maneira de os obter (art.84). O código
prevê, ainda, o dever de sigilo, ou seja, o enfermeiro está obrigado a guardar segredo
profissional sobre o que toma conhecimento no exercício da sua profissão (art.85), e a
respeitar a intimidade da pessoa e protegê-la de ingerência na sua vida privada e na da
sua família (art.86).
Tal como no caso dos médicos também sobre estes profissionais impende o dever
de documentação, ou seja, de registo de todos os atos praticados relacionados com a
atividade de enfermagem.
Código deontológico dos farmacêuticos
No exercício da sua profissão, o farmacêutico assume a principal responsabilidade de
zelar pela saúde e o bem-estar do doente e do cidadão em geral, devendo pôr o bem dos
indivíduos à frente dos seus interesses pessoais ou comerciais e promover o direito de
acesso a um tratamento com qualidade, eficácia e segurança. Pelo que, no exercício da
sua profissão, deve ter sempre presente o elevado grau de responsabilidade que nela
se encerra, o dever ético de a exercer com a maior diligência, zelo e competência (art.
10). Deverá, ainda, abster-se de praticar atos contrários à ética profissional que possam
influenciar a livre escolha do utente (art. 19.).
O código deontológico dos farmacêuticos, na senda dos demais, prevê, também, que os
farmacêuticos mantenham o sigilo profissional relativo a todos os fatos de que tenham
conhecimento no exercício da sua profissão (art. 30. ), evitando que terceiros se apercebam
das informações respeitantes à situação clínica do doente e abstendo-se de mencionar ou
comentar fatos que possam violar a privacidade do doente, designadamente os que se
relacionam com o respectivo estado de saúde (art. 31). Essencialmente, o art.” 36. prevê
que nas relações com os utentes o farmacêutico deva observar a mais rigorosa correção,
cumprindo escrupulosamente o seu dever profissional e tendo sempre presente que se
encontra ao serviço da saúde pública e dos doentes.
29
PaPel do enfermeiro forense na qualidade hosPitalar, na gestão de risco e uso dos tóPicos de direito Penal │ unidade i
Código deontológico dos Biólogos
Tal como nos códigos deontológicos já referidos, os direitos e liberdades dos utentes
devem ser respeitados pelos profissionais quando em causa esteja a prática de atos que
tenham por alvo pessoas. Assim, de acordo com o Código, o biólogo deve desenvolver um
procedimento profissional digno, eficiente, probo, isento de discriminação em relação a
religião, raça, idade, sexo, condição física, ascendência, ideologia ou opinião, e em todas
as circunstâncias ter comportamento público adequado à dignidade da sua profissão.
No exercício da sua profissão deve encarar o segredo profissional como um valor ético
fundamental e que constitui matéria de interesse social, guardando e fazendo guardar
pelos seus colaboradores sigilo sobre tudo aquilo de que possa ter conhecimento, por
motivo da sua situação profissional e cuja divulgação ou possa vir a ser, potencialmente
lesiva de terceiros (art.5o).
Código deontológico dos Psicólogos
Nos termos do art. 77 do Estatuto da Ordem dos Psicólogos Portugueses, aprovado
pela Lei no 57/2008, de 4 de setembro, a Ordem elaborou o código deontológico dos
psicólogos portugueses.
Assim, nos termos da alínea b do artigo 27 do Estatuto, é aprovado o Regulamento
aprova o Código Deontológico.
O Código Deontológico pretende integrar os princípios éticos da atividade profissional
psicologia, em qualquer área de aplicação e contexto, com o objetivo de guiar os/as
psicólogas no sentido de práticas de excelência, garantindo que a referência do exercício
profissional é o máximo éticoe não o mínimo aceitável.
Tal como nos outros códigos deontológicos, são consagrados diversos princípios,
designadamente do respeito pela dignidade e direitos da pessoa, da competência, da
integridade, da responsabilidade, da beneficência e não maleficência, e, ainda, princípios
específicos como o consentimento informado, e a privacidade e confidencialidade.
Ética e deontologia: princípios gerais e principais
diplomas
Os códigos deontológicos atrás referidos refletem dois conceitos essenciais, que norteiam
a atividade desenvolvida pelos profissionais, e que enformam a natureza normativa dos
mesmos a ética e a deontologia.
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UNIDADE I │ PAPEl Do ENfErmEIro forENsE NA qUAlIDADE hosPItAlAr, NA gEstão DE rIsco E Uso Dos tóPIcos DE DIrEIto PENAl
A ética tem raízes na civilização grega: é uma palavra proveniente de ethos, que em
significa “modo de ser”.
Quando aceitamos a ética, como sendo um conjunto de regras a orientar o relacionamento
humano no seio de uma determinada comunidade social, podemos admitir a
conceptualização de uma ética deontológica, uma ética voltada para a orientação de
uma atividade profissional.
A ética não envolve apenas um Juízo de valor sobre o comportamento humano,
mas determina em si, uma escolha, uma direção, a obrigatoriedade de agir em um
determinado sentido em sociedade. No fundo compete-lhe elaborar os princípios
morais, subjacentes a todo o comportamento humano em sociedade.
A deontologia, cuja origem resulta da aglutinação de duas palavras igualmente gregas
– déon (dever) e logos (discurso/tratado) - será o tratado do dever, ou o conjunto de
deveres, princípios ou normas adaptadas com um fim determinado (regular ou orientar
determinado grupo de indivíduos no âmbito de uma atividade laborai, para o exercício
de uma profissão).
A par desta ideia de tratado, associado à regulamentação de uma profissão, está implícita
uma certa ética, ou seja, a ciência do comportamento moral dos homens em sociedade
consubstanciado no dever de respeito pelos direitos dos cidadãos enquanto utentes e
sujeitos de direito.
A matéria anteriormente referida reveste de importância acrescida quanto mais que a
má prática clínica, ou negligência, na prestação de cuidados de saúde, ao contrário do
apercebido pelo senso comum, não se esgota, nem se reduz à prática de atos que lesem
apenas a integridade física ou a vida da pessoa, mas abrange todos os atos lesivos dos
direitos e liberdades, protegidos por diplomas legais internos ou internacionais. Na
verdade, a má prática clínica ou negligência ocorre sempre que o profissional viola os
direitos e liberdades reconhecidos pela legislação interna e internacional (convenções,
cartas europeias ou protocolos), independentemente de estarem, ou não, diretamente
relacionados com os atos tecnicamente clínicos.
Nesse sentido, o profissional incorre em má prática clínica ou negligência, essencialmente,
quando viola o direito ao respeito pelas leges artis, o direito à informação e ao
consentimento informado, o direito à documentação, e ao registo, o direito à reserva da
intimidade da vida privada e à não discriminação.
Para além dos códigos deontológicos, que preveem a obrigatoriedade de serem respeitados
os direitos mencionados, existem diplomas específicos que, independentemente
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PaPel do enfermeiro forense na qualidade hosPitalar, na gestão de risco e uso dos tóPicos de direito Penal │ unidade i
dos diversos códigos deontológicos o preverem, exigem a sua observância de forma
inequívoca.
informação genética pessoal e informação de
saúde
A Lei no 12/2005, de 26 de janeiro, define o conceito de informação de saúde e de
informação genética, a circulação de informação e a intervenção sobre o genoma
humano no sistema de saúde, bem como as regras para a colheita e conservação de
produtos biológicos para efeitos de testes genéticos ou de investigação.
Segundo o disposto no no 1 do art. 3, sobre a propriedade da informação de saúde,
incluindo os dados clínicos registados, resultados de análises e outros exames
subsidiários, intervenções e diagnósticos, a mesma é propriedade da pessoa, sendo
as unidades do sistema de saúde os depositários da informação, a qual não pode ser
utilizada para outros fins que não os da prestação de cuidados e a investigação em saúde
ou outros estabelecidos pela lei.
Os números 1, 2 e 3 do art.11, que regem o princípio da não discriminação, referem,
respetivamente, que ninguém pode ser prejudicado, sob qualquer forma, em função
de doença genética ou em função do seu património genético. Ninguém pode ser
discriminado, sob qualquer forma, em função dos resultados de um teste genético
de diagnóstico ou preditivo, incluindo para efeitos de obtenção ou manutenção de
emprego, obtenção de seguros de vida e de: acesso ao ensino e, para efeitos de adoção,
no que respeita quer aos adotantes quer adotandos, e ainda, que ninguém pode ser
discriminado, sob qualquer forma, nomeadamente no seu direito a seguimento médico
e psicossocial e a aconselhamento genético, por se recusar efetuar um teste genético.
O art. 17 que versa o dever de proteção, refere no seu no 7 que os médicos têm o dever
de informar as pessoas que os consultam sobre os mecanismos de transmissão das
doenças genéticas e os riscos que estas implicam para os seus familiares e de os orientar
para consulta de genética médica, a qual deve ser assegurada nos termos da legislação
regulamentar da mencionada lei.
Quanto à obtenção e conservação de material biológico, o art. 18 no 1 predispõe colheita
de sangue e outros produtos biológicos e a obtenção de amostras de DNA para testes
genéticos devem ser objeto de consentimento informado separado para efeitos de testes
assistenciais e para fins de investigação em que conste a finalidade da colheita e o tempo
de conservação das amostras e produtos delas derivadas.
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UNIDADE I │ PAPEl Do ENfErmEIro forENsE NA qUAlIDADE hosPItAlAr, NA gEstão DE rIsco E Uso Dos tóPIcos DE DIrEIto PENAl
Procriação medicamente assistida
A Lei no 32/2006, de 26 de julho, regula a utilização de técnicas de procriação
medicamente assistida (PMA), aplicando-se à inseminação artificial, fertilização in vitro,
injeção intracitoplasmática de espermatozoides, transferência de embriões, gametas
ou zigotos, diagnóstico genético pré-implantação, e outras técnicas laboratoriais de
manipulação gamética ou embrionária, equivalentes ou subsidiárias.
O art. 3o refere-se à dignidade humana e não discriminação que as técnicas de PMA
devem respeitar, sendo proibida a discriminação com base no patrimônio genético ou
no fato de se ter nascido em resultado da utilização de técnicas de PMA.
No que respeita à utilização de técnicas de PMA, o art. 14 prevê que os beneficiários
devem prestar o seu consentimento livre, esclarecido, de forma expressa e por escrito,
perante o médico responsável.
Por outro lado, o art. 15 protege a confidencialidade do recurso a técnicas de PMA
prevendo que todos aqueles que, por alguma forma, tomarem conhecimento do recurso
a técnicas de PMA ou da identidade de qualquer dos participantes nos respetivos
processos estão obrigados a manter sigilo sobre a identidade dos mesmos e sobre o
próprio ato da PMA. O disposto neste artigo é reforçado no art. 43 que sujeita aquele
que violar o mesmo à punição com pena de prisão até um ano ou com pena de multa
até 240 dias.
No mesmo sentido, o diploma prevê, no art. 42, que quem recolher material genético de
homem ou de mulher sem o seu consentimento e o utilizar na PMA é punido com pena
de prisão de um a oito anos.
Exclusão da ilicitude nos casos de interrupção
voluntária da gravidez
A Lei no 16/2007, de 17 de abril, regula as situações em que é possível legalmente
proceder à interrupção voluntária da gravidez (IVG).
Tal como nos diplomas anteriormente mencionados, é ressalvado o consentimento.
O legislador previu que a interrupção da gravidez, quando efetuada por médico, ou
sob a sua direção, em estabelecimentode saúde oficial ou oficialmente reconhecido,
e nas situações previstas no no 1 do art. 142. do código penal, não é punível se houver
consentimento da mulher grávida. Nos termos do no 5 se a mulher grávida for menor
de 16 anos ou psiquicamente incapaz, respetiva e sucessivamente, conforme os casos,
o consentimento e prestado pelo representante legal, por ascendente ou descendente
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PaPel do enfermeiro forense na qualidade hosPitalar, na gestão de risco e uso dos tóPicos de direito Penal │ unidade i
ou, na sua falta, por quaisquer parentes da linha colateral. Por seu lado, o no 6 prevê
que se não for possível obter o consentimento nos termos dos números anteriores e
a efetivação da interrupção da gravidez se revestir de urgência, o médico decide em
consciência face à situação, socorrendo-se, sempre que possível, do parecer de outro(s)
médico(s).
No que respeita ao dever de sigilo, o art. 5o refere que os médicos e demais profissionais
de saúde, bem como o restante pessoal dos estabelecimentos de saúde, oficiais ou
oficialmente reconhecidos, em que se pratique a interrupção voluntária da gravidez,
estão vinculados ao dever de sigilo profissional relativamente a todos os atos, fatos ou
informações de que tenham conhecimento no exercício das suas funções, ou por causa
delas, relacionados com aquela prática.
Colheita e transplante de órgãos e tecidos de
origem humana
A Lei no 12/1993, de 22 de abril, aplica-se aos atos que tenham por objetivo a dádiva ou
colheita de tecidos ou órgãos de origem humana, para fins de diagnóstico ou para fins
terapêuticos e de transplantação, bem como às próprias intervenções de transplantação.
O art. 4o da lei prevê que, salvo o consentimento de quem de direito, é proibido revelar
a identidade do dador ou do receptor de órgão ou tecido.
O dever de informação encontra-se plasmado no art. 7o, segundo o qual o médico deve
informar, de modo leal, adequado e inteligível, o dador e o receptor dos riscos possíveis,
das consequências da dádiva e do tratamento e dos seus efeitos secundários, bem como
dos cuidados a observar ulteriormente.
Segundo o no 1 do art. 8o, o consentimento do dador e do receptor deve ser livre,
esclarecido e inequívoco e o dador pode identificar o beneficiário e, no caso de se tratar
de doadores menores, o consentimento deve ser prestado pelos pais, desde que não
inibidos do exercício do poder paternal, ou, em caso de inibição ou falta de ambos, pelo
tribunal.
regime jurídico da realização de ensaios
clínicos com medicamentos de uso humano
A Lei no 46/2004, de 19 de agosto, transpõe para a Ordem Jurídica Nacional a Diretiva
no 2001/20/CE, do Parlamento Europeu e do Conselho, de 4 de abril de 2001, relativa
à aproximação das disposições legislativas, regulamentares e administrativas dos
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UNIDADE I │ PAPEl Do ENfErmEIro forENsE NA qUAlIDADE hosPItAlAr, NA gEstão DE rIsco E Uso Dos tóPIcos DE DIrEIto PENAl
estados-membros respeitantes à aplicação de boas práticas clinicas na condução dos
ensaios clínicos de medicamentos para uso humano, e estabelece o regime jurídico da
realização de ensaios clínicos em seres humanos com a utilização de medicamentos de
uso humano.
O art. 6o trata das condições mínimas de proteção dos participantes e refere que
um ensaio só se pode realizar se, em relação ao participante no ensaio ou, nos casos
previstos nos art. 7o e 8o, ao seu representante legal, for obtido o consentimento livre e
esclarecido, nos termos previstos na referida lei, devendo a correspondente declaração
escrita conter a informação sobre a natureza, o alcance, as consequências e os riscos
do ensaio. Quanto a participantes menores, o art.7o prevê que para além de outras
condições impostas por lei, um ensaio apenas pode ser realizado em menores se tiver
sido obtido o consentimento livre e esclarecido do representante legal, o qual deve
refletir a vontade presumível do menor, podendo ser revogado a todo o tempo, sem
prejuízo para este último.
O art.10 exige que o investigador tenha obtido o consentimento livre e esclarecido do
participante.
O no 1 alínea do art. 34 prevê contra ordenação punível com coima sempre que ocorrer
a violação dos deveres de confidencialidade e de proteção dos dados pessoais dos
participantes no ensaio.
não discriminação em razão da deficiência e
da existência de risco agravado de saúde
A Lei no 46/2006, de 28 de agosto, tem como objetivo prevenir e proibir a discriminação,
direta ou indireta, em razão da deficiência, sob todas as suas formas, e sancionar a
prática de atos que se traduzam na violação de quaisquer direitos fundamentais, ou
na recusa ou condicionamento do exercício de quaisquer direitos económicos, sociais,
culturais ou outros, por quaisquer pessoas, em razão de uma qualquer deficiência.
E, igualmente, aplica-se à discriminação de pessoas com risco agravado de saúde. A
discriminação direta ocorre sempre que uma pessoa com deficiência seja objeto de um
tratamento menos favorável que aquele que é, tenha sido ou venha a ser dado a outra
pessoa em situação comparável.
A discriminação indireta ocorre sempre que uma disposição, critério ou prática,
aparentemente neutra, seja suscetível de colocar pessoas com deficiência em uma
posição de desvantagem comparativamente com outras pessoas, a não ser que essa
35
PaPel do enfermeiro forense na qualidade hosPitalar, na gestão de risco e uso dos tóPicos de direito Penal │ unidade i
disposição, critério ou prática seja objetivamente justificado por um fim legítimo e que
os meios utilizados para o alcançar, sejam adequados e necessários.
O art. 4o trata das práticas discriminatórias considerando todas aquelas que são levadas
a cabo contra pessoas com deficiência as ações ou omissões, dolosas ou negligentes,
que, razão da deficiência, violem o princípio da igualdade.
De acordo com o art. 6o da referida lei, cabe a quem alegar a discriminação em razão da
deficiência fundamentá-la, apresentando elementos de fato suscetíveis de a indiciarei,
incumbindo à outra parte provar que as diferenças de tratamento não assentam
em nenhum dos fatores indicados nos arts 4o e 5o, referentes aos tipos de práticas
discriminatórias.
diretivas internacionais
As diretivas internacionais relativas ao VIH/SIDA, aprovadas em 1997, e modificadas
em Genebra em julho de 2002, referem que “Os Estados devem produzir ou reforçar
legislação antidiscriminatória e outras normas jurídicas com vista a proteger os grupos
vulneráveis, as pessoas que vivem com VIH/SIDA e as pessoas com deficiências, da
discriminação quer no setor público, quer no setor privado, assegurar a privacidade
e confidencialidade, a ética na investigação com seres humanos, enfatizar a educação
e a conciliação, e promover a existência de meios de reparação civil e administrativos
rápidos e eficazes.”
A lei de bases da saúde
A Base XIV, referente ao estatuto dos utentes, determina o no 1 b que os utentes têm
direito a decidir receber ou recusar a prestação de cuidados que lhes é proposta, salvo
disposição especial da lei.
responsabilidade civil dos profissionais de saúde
O presente tema tem como intuito chamar a atenção para a necessidade de os profissionais
de saúde, no exercício da sua atividade, usarem da diligência necessária à correta
prestação dos cuidados de saúde nas diversas variantes, designadamente científica,
ética e deontológica. A prática de atos relacionados com a prestação de cuidados de
saúde que consubstanciem a violação dos direitos dos utentes/doentes, refletidos nos
diplomas que anteriormente se referiu, podem originar a responsabilidade civil ou
disciplinar dos profissionais que os praticam.
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UNIDADE I │ PAPEl Do ENfErmEIro forENsE NA qUAlIDADE hosPItAlAr, NA gEstão DE rIsco E Uso Dos tóPIcos DE DIrEIto PENAl
A responsabilidade subjetiva ou extracontratual
A responsabilidade civil encontra-se prevista no art. 483 do Código Civil (CC) e tem
como fim último a obrigação de indenizar quem foi lesado nos seus direitos.O Código Civil prevê a existência de dois tipos de responsabilidade civil; a subjetiva,
dependente de culpa do agente, ou extracontratual (art. 483), e a objetiva,
independentemente da culpa do agente, ou pelo risco (art. 499).
A responsabilidade subjetiva, ou por culpa, exprime um juízo de reprovabilidade pessoal
da conduta do agente. Enquanto a responsabilidade objetiva ou pelo risco prende-se
com o possível resultado para o lesado do desenvolvimento de atividades, por si só,
perigosas e potencialmente causadoras de danos.
Para que se possa falar em responsabilidade subjetiva têm de se verificar cumulativamente
quatro pressupostos: um fato praticado, que seja ilícito, ou seja, que viole um direito de
outrem ou que viole uma norma ou interesse legalmente protegido (interesses alheios),
que se verifique a imputação do fato ao agente, ou seja, o fato tenha sido praticado por
determinado agente, que resulte um dano e que entre este e o fato se verifique um nexo
de causalidade, ou seja, o dano tem que ser resultado da prática daquele fato (teoria da
causalidade adequada). Para que o fato seja causa do dano é preciso que seja condição
sem a qual o dano não se teria verificado (nexo naturalístico), e que em abstrato e em
geral seja causa apropriada a produzir o dano (nexo de adequação).
Nunca existirá responsabilidade subjetiva se algum dos pressupostos não se verificar, já
que são de verificação cumulativa.
A culpa é um elemento essencial já que exprime um juízo de reprovabilidade pessoal
da conduta do agente. O lesante, em face das circunstâncias específicas do caso, devia
e podia ter agido de outro modo. É um juízo que assenta no nexo existente entre o fato
e a vontade do autor, e pode revestir duas formas distintas: dolo ou negligência (mera
culpa).
Tratar-se-á de dolo, quando o agente atuou por forma a aceitar, a admitir, as
consequências ilícitas da sua conduta (dolo direto, dolo necessário e dolo eventual).
Haverá mera culpa, quando o agente atuou levianamente, imponderadamente,
negligentemente, sem cuidado ou sem atenção, ou seja, quando o agente não empregou
a diligência que o “bom pai de família”, ou seja, o homem médio e sagaz, teria colocado
naquela situação (violação das leges artis) ─ art. 487 no 2 do CC.
37
PaPel do enfermeiro forense na qualidade hosPitalar, na gestão de risco e uso dos tóPicos de direito Penal │ unidade i
Naturalmente, a responsabilidade civil só existirá se o agente for imputável, isto é, tiver
capacidade natural para prever os efeitos e medir o valor dos atos que prática, de modo
a se determinar de harmonia com o juízo que faça acerca deles (art. 488 do CC).
A imputabilidade caracteriza-se, então, pela capacidade de entendimento mínimo que
permite ao sujeito prever as consequências dos seus atos, e pelo mínimo de uberdade
que lhe permitia determinar-se.
Por seu lado, a negligência ou mera culpa consiste na omissão da diligência exigível ao
agente, a violação do dever de cuidado (leges artis).
A mera culpa (consciente ou inconsciente) exprime uma ligação da pessoa com o fato
menos incisiva do que o dolo, mas ainda assim reprovável ou censurável. O grau de
reprovação ou de censura será tanto maior quanto mais ampla for a possibilidade de a
pessoa ter agido de outro modo, e mais forte ou intenso o dever de o ter feito.
Como, anteriormente, se disse para haver obrigação de indenizar é condição essencial
que haja dano, ou seja, que o fato ilícito e culposo tenha causado um prejuízo a alguém.
A responsabilidade subjetiva ou
extracontratual
A responsabilidade civil encontra-se prevista no art. 483 do Código Civil (CC) e tem
como fim último a obrigação de indenizar quem foi lesado nos seus direitos.
O Código Civil prevê a existência de dois tipos de responsabilidade civil: a subjetiva,
dependente de culpa do agente, ou extracontratual (art. 483), e a objetiva,
independentemente da culpa do agente, ou pelo risco (art. 499).
A responsabilidade subjetiva, ou por culpa, exprime um juízo de reprovabilidade pessoal
da conduta do agente. Enquanto a responsabilidade objetiva ou pelo risco prende-se
com o possível resultado para o lesado do desenvolvimento de atividades, por si só,
perigosas e potencialmente causadoras de danos.
Para que se possa falar em responsabilidade subjetiva têm de se verificar cumulativamente
quatro pressupostos: um fato praticado, que seja ilícito, ou seja, que viole um direito de
outrem ou que viole uma norma ou interesse legalmente protegido (interesses alheios),
que se verifique a imputação do fato ao agente, ou seja, o fato tenha sido praticado por
determinado agente, que resulte um dano e que entre este e o fato se verifique um nexo
de causalidade, ou seja, o dano tem que ser resultado da prática daquele fato (teoria da
causalidade adequada). Para que o fato seja causa do dano é preciso que seja condição
38
UNIDADE I │ PAPEl Do ENfErmEIro forENsE NA qUAlIDADE hosPItAlAr, NA gEstão DE rIsco E Uso Dos tóPIcos DE DIrEIto PENAl
sem a qual o dano não se teria verificado (nexo naturalístico), e que em abstrato e em
geral seja causa apropriada a produzir o dano (nexo de adequação).
Nunca existirá responsabilidade subjetiva se algum dos pressupostos não se verificar,
já que são de verificação cumulativa. A culpa é um elemento essencial já que exprime
um juízo de reprovabilidade pessoal da conduta do agente. O lesante, em face das
circunstâncias específicas do caso, devia e podia ter agido de outro modo. É um juízo
que assenta no nexo existente entre o fato e a vontade do autor, e pode revestir duas
formas distintas: dolo ou negligência (mera culpa).
Tratar-se-á de dolo, quando o agente atuou por forma a aceitar, a admitir, as
consequências ilícitas da sua conduta (dolo direto, dolo necessário e dolo eventual).
Haverá mera culpa, quando o agente atuou levianamente, imponderadamente,
negligentemente, sem cuidado ou sem atenção, ou seja, quando o agente não empregou
a diligência que o “bom pai de família”, ou seja, o homem médio e sagaz, teria colocado
naquela situação (violação das leges artis) ─ art. 487. no 2 do CC.
Naturalmente a responsabilidade civil só existirá se o agente for imputável, isto é, tiver
capacidade natural para prever os efeitos e medir o valor dos atos que pratica, de modo
a se determinar de harmonia com o juízo que faça acerca deles (art. 488 do CC).
A imputabilidade caracteriza-se, então, pela capacidade de entendimento mínimo que
permite ao sujeito prever as consequências dos seus atos, e pelo mínimo de liberdade
que lhe permitia determinar-se.
Por seu lado, a negligência ou mera culpa consiste na omissão da diligência exigível ao
agente, a violação do dever de cuidado (leges artis).
A mera culpa (consciente ou inconsciente) exprime uma ligação da pessoa com o fato
menos incisiva do que o dolo, mas ainda assim reprovável ou censurável. O grau de
reprovação ou de censura será tanto maior quanto mais ampla for a possiblidade de a
pessoa ter agido de outro modo, e mais forte ou intenso o dever de o ter feito.
Como, anteriormente, se disse para haver obrigação de indemnizar é condição essencial
que haja dano, ou seja, que o fato lícito e culposo tenha causado um prejuízo a alguém.
O dano é o prejuízo que um sujeito jurídico sofre ou na sua pessoa, ou nos seus bens,
ou na sua pessoa e nos seus bens. Assim, pode-se tratar de danos pessoais, aqueles
que se repercutem nos direitos da pessoa, danos materiais, aqueles que respeitam a
coisas, danos patrimoniais, aqueles, materiais ou pessoais, que consubstanciam a lesão
de interesses avaliáveis em dinheiro, e que, por sua vez, podem ser danos emergentes
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PaPel do enfermeiro forense na qualidade hosPitalar, na gestão de risco e uso dos tóPicos de direito Penal │ unidade i
ou lucros cessantes, e, ainda, danos não patrimoniais (ou morais) que se traduzem
na lesão de direitos ou interesses insuscetíveis de avaliação pecuniária. O princípio
da ressarcibilidade dos danos não patrimoniais é limitadoà responsabilidade civil
extracontratual. E não deve ser ampliado à responsabilidade contratual, por não haver
analogia entre os dois tipos de situações (compensação).
Relativamente aos danos emergentes trata-se da diminuição verificada no patrimônio
de alguém, em consequência de um ato ilícito e culposo de outrem. Quanto aos
lucros cessantes consistem em qualquer coisa que o lesado normalmente teria obtido
e que deixou de auferir devido ao ato praticado pelo agente e que o constituiu em
responsabilidade civil.
Como se expôs na parte inicial do capítulo existem direitos consagrados, por legislação
interna e internacional, cuja não observância pelos agentes pode resultar na obrigação
de indenizar, sempre que se verifiquem cumulativamente os pressupostos mencionados.
Na área da prestação de cuidados de saúde os danos típicos relacionam-se, na maior
parte dos casos, com a violação da privacidade (dever de segredo), da autodeterminação
(consentimento), dano corporal (ofensas à integridade física) ou perda da vida.
Neste tipo de responsabilidade é ao lesado que incumbe provar a culpa do autor da
lesão (no 1 do art. 487 do CC), ou seja, é sobre o lesado que recai o ónus da prova (no 1
do artigo 342. do CC).
A responsabilidade extracontratual do estado
A responsabilidade subjetiva ou extracontratual dos estabelecimentos públicos
encontra-se regulada na Lei rua no 67/2007, de 20/2012.
De acordo com o diploma, existem dois tipos de responsabilidade do estabelecimento:
a responsabilidade indireta ou mediata resultante da intervenção do profissional,
ou seja, culpa intencional do agente; e a responsabilidade direta, isto é, derivada do
exercício de atividades perigosas, como por exemplo transfusões de sangue, atividades
relacionadas com ensaios clínicos, culpa no funcionamento anormal dos serviços
(infeções nosocomiais, por inexistência ou mau funcionamento da comissão de controle
e infeção, sobrelotação das urgências, entre outras).
O Código Civil regula esta matéria no no 2 do art. 493. ao referir que “quem causar danos
a outrem no exercício de uma atividade, perigosa por sua própria natureza ou pela
natureza dos meios utilizados, é obrigado a repará-los, exceto se mostrar que empregou
todas as providências exigidas pelas circunstâncias com o fim de os prevenir. ”
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UNIDADE I │ PAPEl Do ENfErmEIro forENsE NA qUAlIDADE hosPItAlAr, NA gEstão DE rIsco E Uso Dos tóPIcos DE DIrEIto PENAl
No caso da responsabilidade indireta apenas o hospital responde pelos danos causados
se apenas se verificou mera culpa do agente (culpa leve). No entanto, se o agente agiu
com dolo/culpa grave, o hospital responde solidariamente, podendo e devendo exercer
o direito de regresso contra o profissional, em momento posterior.
A responsabilidade objetiva ou contratual
No que respeita a este tipo de responsabilidade, importa referir que a mesma não exige
a culpa do agente. Geralmente, e no âmbito da saúde, prende-se com a responsabilidade
pela prática de atos no exercício da atividade desenvolvida pelos profissionais que se
encontram ao serviço dos estabelecimentos, sob sua direção, orientação e fiscalização,
e das quais resultem danos para a saúde dos utentes/doentes. Nestes casos existe uma
relação de comissão (comitente-comissário), nos termos do art. 500 do CC. Pelo que
dispõe o no 1 do mencionado artigo que “Aquele que encarrega outrem de qualquer
comissão responde, independentemente de culpa, pelos danos que o comissário
causar, desde que sobre este recaia também a obrigação de indenizar”. No entanto, a
responsabilidade do comitente só existe se o fato danoso for praticado pelo comissário,
ainda que intencionalmente ou contra as instruções daquele no exercício da função que
lhe foi confiada (no 2). Contudo, o comitente que satisfizer a indenização tem o direito
de exigir do comissário o reembolso de tudo quanto haja pago (direito de regresso),
exceto se houver também culpa da sua parte; neste caso será aplicável o disposto no
no 2 do art. 497o, ou seja, o direito de regresso entre os responsáveis existe na medida
das respetivas culpas e das consequências que delas advieram, presumindo-se iguais as
culpas das pessoas responsáveis.
Em matéria de responsabilidade civil contratual o paciente não está, se for autor,
dispensado de alegar a fatalidade integrante da ação ou omissão médica, mas já terá
facilitada a matéria relativa à culpa, posto que, como se sabe, neste domínio existe o
princípio da inversão do ônus da prova da culpa consagrado, entre nós, no no 1 do art.
799 do CC, segundo o qual “incumbe ao devedor provar que a falta de cumprimento não
provém de culpa sua”.
Refira-se, no entanto, que a prática de atos ou comportamentos que se traduzam
em responsabilidade civil ou penal, e que simultaneamente violem os deveres gerais
previstos no no 2 do art. 3o do Estatuto Disciplinar dos Trabalhadores que Exercem
Funções Públicas, provado pela Lei no 58/2008, de 29 de setembro, faz incorrer em
infração disciplinar. O no 2 do Estatuto considera como deveres gerais o dever de
prossecução do interesse público, de isenção, de imparcialidade, de informação, de
zelo, de obediência, de lealdade, de correção, de assiduidade e de pontualidade.
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No entanto, o no 1 do art. 3o faz referência também aos deveres especiais, devendo
entender-se por deveres especiais os que decorrem dos respetivos códigos deontológicos
ou estatutos (corresponde às leges artis). Assim, a par da responsabilidade civil ou
criminal correrá, certamente, um processo disciplinar, de índole administrativa, cujo
instrutor concluirá ou não pela violação de algum ou alguns dos deveres previstos, da
sua qualificação e gravidade e, no seguimento, fará a proposta de aplicação da pena
adequada à infração cometida.
De acordo com o no 1 do art. 9o do Estatuto, as penas a aplicar podem ir da simples
repreensão escrita à demissão ou despedimento do trabalhador, podendo passar, ainda,
pela multa ou suspensão.
Nos casos em que os fatos ou comportamentos praticados possam ser também passíveis
de serem considerados infração penal, o superior hierárquico dará obrigatoriamente
conhecimento deles ao Ministério Público do tribunal competente, para promover o
procedimento criminal, nos termos do art. 242 do Código de Processo Penal (artigo 9o
do Estatuto). Ora, nestes casos, decorrerão dois processos contra o trabalhador ainda
que de natureza diferente (administrativa e criminal). O arquivamento do processo
criminal não determina o arquivamento do processo disciplinar. O Ministério Público
pode arquivar, desde logo, o procedimento criminal ou mesmo que proceda à acusação
o arguido venha a ser absolvido, não obstante poder ser-lhe aplicada uma pena no
âmbito do procedimento disciplinar.
O trabalhador pode ainda ser objeto de processo disciplinar instaurado e instruído pela
ordem profissional a que pertença. Da mesma forma, o procedimento levado a cabo
pela ordem profissional é independente do processo administrativo e do procedimento
criminal, podendo acontecer que todos concluam pela aplicação de pena, apenas algum
conclua nesse sentido ou, inclusive, todos procedam ao arquivamento do respetivo
procedimento, por não se dar como provada a infração disciplinar ou criminal.
regime jurídico das perícias médico-legais e
forenses
O regime jurídico das perícias médico-legais e forenses encontra-se consagrado na Lei
no 45/2004, de 19 de agosto.
Segundo o disposto no art. 2o do referido diploma, as perícias médico-legais são
realizadas, obrigatoriamente, nas delegações e nos gabinetes médico-legais do Instituto
Nacional de Medicina Legal e Ciências Forenses (INMLCF), nos termos dos seus
Estatutos, aprovados pela Portaria no 522/2007, de 30 de abril. Excecionalmente,
perante manifesta impossibilidade dos serviços, as perícias referidas no número anterior
42
UNIDADE I │PAPEl Do ENfErmEIro forENsE NA qUAlIDADE hosPItAlAr, NA gEstão DE rIsco E Uso Dos tóPIcos DE DIrEIto PENAl
poderão ser realizadas, por determinação do INMLCF, por entidades terceiras, públicas
ou privadas, contratadas ou indicadas para o efeito pelo Instituto (no 2), estendendo-se
essa faculdade às perícias médico-legais e forenses de natureza laboratorial {no. 5), bem
como às situações cm que o INMLCF não possua profissionais com formação médica
especializada em determinados domínios ou condições materiais necessárias para a sua
realização (no 4).
No caso português, as perícias médico-legais são solicitadas por autoridade judiciária ou
judicial e são ordenadas por despacho da mesma, nos termos da lei de processo penal,
não sendo, todavia, aplicáveis às efetuadas nas delegações do Instituto ou nus gabinetes
médico-legais as disposições contidas nos arts 154 e 155 do Código de Processo Penal.
As perícias, no âmbito médico-legal, são atos praticados por profissionais especializados
legal e tecnicamente habilitados para prestar um conjunto de procedimentos, atribuídos
por legislação específica, tendentes a informar ou auxiliar sobre matérias alheias a
quem as solicita.
Os peritos devem reger-se por princípios de rigor, isenção e independência, respeitando
as técnicas e a legislação aplicáveis, e têm como intuito auxiliar a administração da
Justiça.
A perícia médico-legal é, então, aquela que é realizada por aplicação dos conhecimentos
das ciências médicas, ou outras, ao procedimento realizado, visando apurar fatos de
interesse jurídico.
Pode definir-se como um conjunto de procedimentos médicos e técnicos que têm como
finalidade o esclarecimento de um fato de interesse para a justiça, ou como um ato pelo
qual a autoridade procura conhecer, por meios técnicos e científicos, a existência ou não
de certos acontecimentos, capazes de interferir na decisão de uma questão judiciária
ligada à vida ou à saúde do homem ou que com ele tenha relação.
A perícia médico-legal é um meio de prova, por meio do qual se aplicam conhecimentos
técnicos para dirimir questões relacionadas com a vida e com a saúde e que possuem
relevância jurídica, são interesses da justiça e sem as quais o julgador não poderia dirimir
as questões que se lhe deparam, no dia a dia, já que o conhecimento especializado é
essencial à descoberta da verdade material dos fatos.
A solicitação para a realização de perícias médico-legais é ordenada pelo tribunal, ou
autoridade policial competente, aliás, como decorre dos vários artigos do Estatuto do
INMLCF, designadamente no art. 3o (requisição de perícias), art. 6o (obrigatoriedade de
sujeição a exames), art. 20 (local de realização de exames periciais de tanatologia), art.
43
PaPel do enfermeiro forense na qualidade hosPitalar, na gestão de risco e uso dos tóPicos de direito Penal │ unidade i
22 (local da realização das pericias de clínica médico-legal e forense), art. 23 (realização
dos exames e perícias, no âmbito da genética, biologia e toxicologia forenses).
Na verdade, o citado diploma estabelece, no art. 1o, o regime jurídico da realização das
perícias médico-legais e forenses, as quais podem ter lugar em sede de processo penal
e, de acordo com o disposto no no 4 do art. 21, em sede de processo civil.
Naturalmente, o presente capítulo incidirá sobre as perícias médico-legais e forenses
efetuadas como instrumentos de auxílio à descoberta material dos fatos inerentes a
processos que correm trâmites em sede de tribunal civil ou criminal.
Processo Civil e a Prova Pericial
O Direito Processual Civil é composto pelo conjunto de normas instrumentais,
adjetivas, que regulam o Processo Civil, sendo que o processo civil é uma sequência de
atos jurídicos com vista à obtenção de um resultado (ajusta composição do litígio).
Em Processo Civil, a prova consiste nos meios ou instrumentos que visam convencer
o tribunal da existência ou inexistência dos fatos controvertidos (art. 341 do Código
Civil).
As provas podem ser de dois tipos: as pré-constituídas, que são as que já existem antes
do processo surgir, como por exemplo, um documento; e as provas constituintes, que
são aquelas que são formadas no decurso do processo, como por exemplo a prova
testemunhal, a prova pericial, entre outras.
Em princípio, o fim típico das provas é alcançar uma alta probabilidade sobre a
existência ou inexistência dos fatos controvertidos, já que o tribunal não busca, ou seja,
exige certezas absolutas.
As perícias médico-legais realizadas por determinação do tribunal civil prendem-se,
em geral, com pedidos de indenização em resultado, por exemplo, de acidente ou em
resultado de processo penal em virtude da prática de crime, designadamente contra
a vida, contra a integridade física, contra a liberdade e autodeterminação sexual ou
contra a vida intrauterina
O Código de Processo Penal (CPP) refere que o pedido indenizatório civil funda-se na
prática de um crime, e é deduzido no processo penal respetivo (art. 71) ou, nas situações
do artigo 72, deduzido em separado perante o tribunal civil.
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UNIDADE I │ PAPEl Do ENfErmEIro forENsE NA qUAlIDADE hosPItAlAr, NA gEstão DE rIsco E Uso Dos tóPIcos DE DIrEIto PENAl
Ao nível do processo civil, a matéria referente às perícias médico-legais encontra-se
no Código de Processo Civil (CPC), na Secção IV ─ prova pericial e na Subsecção I ─
designação dos peritos.
De acordo com o no 1 do art. 568o a perícia é requisitada pelo tribunal a estabelecimento,
laboratório ou serviço oficial apropriado ou, quando tal não seja possível ou conveniente,
realizada por um único perito, nomeado pelo Juiz de entre pessoas de reconhecida
idoneidade e competência na matéria em causa.
Nos casos em que a perícia revista grande complexidade, ou exija conhecimentos sobre
matérias distintas, o juiz pode oficiosamente determinar que seja realizada uma perícia
colegial (art. 569). No entanto, a perícia colegial a realizar nos moldes previstos no
art. 569. apenas será possível nos casos em que a perícia não deva ser requisitada a
estabelecimento, laboratório ou serviço oficial, já que, sendo este o caso, o tribunal
limita-se a requisitar a sua realização (em conformidade com o disposto no art. 568,
no 1, 1ª parte e, caso esteja em causa uma perícia médico-legal, em conformidade com
o disposto no no 3 do mesmo preceito legal) sem qualquer interferência no que diz
respeito aos peritos que a vão realizar e que, naturalmente, serão designados de acordo
com as regras legais ou regulamentares do estabelecimento, laboratório ou serviço a
quem a perícia foi requisitada, sem que o juiz ou as partes tenham a possibilidade de
indicar peritos para a sua realização. Nesse caso, o juiz requisita ao diretor daqueles
a realização da perícia, indicando o seu objeto e o prazo de apresentação do relatório
pericial (n 2o).
Importa referir que, mesmo quando admissíveis, as pericias colegiais, no âmbito
da clínica médico-legal e forense, nunca serão efetuadas por peritos indicados ou
designados, nos termos do art. 569, já que tais pericias são efetuadas obrigatoriamente
por médicos pertencentes ao mapa de pessoal do IMLCF, ou contratados, nos termos
da Lei no 45/2004, de 19 de agosto (artigo 27, no.1) ou, eventualmente, por docentes ou
investigadores do ensino superior no âmbito de protocolos para o efeito celebrados pelo
referido Instituto com instituições de ensino públicas ou privadas (no 2).
No desempenho da sua função, o perito é obrigado a desempenhar com diligência a
função para que tiver sido nomeado, podendo o juiz condená-lo em multa quando
infrinja os deveres de colaboração com o tribunal (art. 570).
Quando se trate de perícia oficiosamente ordenada, o juiz indica, no despacho em que
determina a realização da diligência, o respectivo objeto, podendo as partes sugerir o
alargamento a outra matéria (art. 579).
45
PaPel do enfermeiro forense na qualidade hosPitalar, na gestão de risco e uso dos tóPicos de direito Penal │ unidadei
Segundo o no.1 do art. 580, no próprio despacho em que ordene a realização da perícia e
nomeie os peritos, o juiz designa a data e o local para o começo da diligência, notificando-
se as partes.
Quando por razões técnicas ou de serviço a perícia não puder ser realizada no prazo
determinado pelo juiz, deve tal fato ser de imediato comunicado ao tribunal, para que
este possa determinar a eventual designação de novo perito (no 3).
o caso particular da ação de investigação de
paternidade
Ao nível do Direito Civil, e com relevância, mesmo em termos de casuística, para as
perícias realizadas no âmbito da medicina legal, encontram-se as ações de investigação
de paternidade. A ligação entre o Direito e a biologia forense na prática judicial é
particularmente visível no âmbito da investigação de paternidade.
A averiguação oficiosa da paternidade surgiu com o Código Civil de 1966, ao estabelecer
que a mesma sucederá sempre que houver registo de nascimento sem que haja indicação
da identidade do pai.
De acordo com a Lei portuguesa, se a mãe do menor não é casada no momento do registo
do nascimento, e o pretenso pai não reconhece a paternidade, o Ministério Público
inicia o processo de investigação de paternidade. Se a mãe é casada, a lei presume como
sendo pai o marido da progenitora (no 2 do art. 1796 e no 1 do art. 1826 do CC). No
entanto, compete aos funcionários do registo civil, nos casos de não indicação do pai,
enviar ao Ministério Público do tribunal competente toda a certidão de nascimento
incompleta. Esta situação apenas não ocorrerá se o conservador concluir que a mãe e o
pai são parentes em linha reta ou parentes no segundo grau da linha colateral (no 3 do
art. 121 do Código de Registo Civil).
Por meio da investigação oficiosa de paternidade, o Estado constitui-se autor do
processo, e a investigação desenvolve-se no sentido de acautelar ou defender os
melhores interesses da criança.
Para a descoberta da verdade, o poder judicial recorre sobretudo a entrevistas do
procurador do Ministério Público com a mãe, com o presumível pai, com testemunhas,
e aos resultados da perícia da genética forense (ADN) realizada pelo INMLCF à mãe, à
criança e ao presumível pai.
Na fase da instrução, a averiguação oficiosa de paternidade tem um caráter secreto, de
forma a evitar a ofensa ao pudor ou à dignidade das pessoas (art. 1812 do CC).
46
UNIDADE I │ PAPEl Do ENfErmEIro forENsE NA qUAlIDADE hosPItAlAr, NA gEstão DE rIsco E Uso Dos tóPIcos DE DIrEIto PENAl
A aplicação de testes genéticos em investigações judiciais de paternidade encontra-se
correlacionada com o uso da informação genética. A admissão de exames de sangue,
como prova nas ações de filiação, foi estabelecida no artigo 1801. do Código Civil de 1977,
e veio introduzir o conceito de verdade biológica, com base em métodos cientificamente
provados, segundo o qual os laços de sangue do pai com o filho são uma determinante
para o reconhecimento judicial. A prática judicial, quanto aos exames de sangue, tem-
lhe atribuído valor bastante como prova, em ações de investigação de paternidade,
desde que realizadas pelo INMLCF.
Concluindo, a importância que o sistema Jurídico português tem atribuído ao vínculo
biológico, ao elemento sangue, na prática da investigação de paternidade espelha uma
concepção alicerçada na convicção de que a identidade de um indivíduo se baseia
largamente no reconhecimento do seu património genético.
o processo penal e a prova pericial
O Direito não é um campo de estudo autossuficiente, pelo que o seu aplicador necessita
de ter conhecimentos pelo menos superficiais acerca das ciências que o influenciam e
nele se refletem. No processo penal, os bens jurídicos em causa assumem tal importância
que poderão, em última instância, levar à privação da Uberdade (pena de prisão), pelo
que a prova pericial representa um importante, e muitas vezes decisivo, meio de prova
para a condenação ou absolvição do arguido.
O processo penal é, assim, um ramo do direito público que regula os atos de aplicação
da lei penal em conformidade com as infrações e delitos praticados (direito adjetivo).
Em síntese, é a sequência de atos devidamente codificados com o fim de garantir a
plena aplicação da lei penal vigente, ou seja, do direito substantivo.
No processo penal, impera a busca pela verdade material dos fatos, excecionalmente
atendo-se o Juiz à verdade formal, uma vez que os direitos contestados na lide penal
são indisponíveis, tendo o Estado como fim último exercer jus puniendi.
O processo penal, em regra, desenvolve-se em três fases essenciais: o inquérito, a
instrução e o julgamento.
O desenvolvimento do inquérito é da competência do Ministério Público, a quem
compete exercer a ação penal, e, geralmente, inicia-se com a notícia do crime. Esta fase
processual destina-se a investigar a existência do crime, determinar os seus agentes
e a responsabilidade dos mesmos, assim como a descobrir e recolher as provas que
sustentem a decisão de acusação ou arquivamento do procedimento.
47
PaPel do enfermeiro forense na qualidade hosPitalar, na gestão de risco e uso dos tóPicos de direito Penal │ unidade i
A fase do inquérito inicia-se, em geral, com a notícia de um crime (nos. 1 e 2 do artigo
262.) que mais não é do que a informação de que eventualmente foi praticado um crime.
A notícia do crime pode ocorrer por conhecimento próprio, por intermédio dos órgãos
de polícia criminal ou através de denúncia.
Em regra, o Ministério Público encerra o inquérito, arquivando-o ou deduzindo
acusação, no prazo máximo de seis meses, se houver arguidos presos ou sob obrigação
de permanência na habitação, ou de oito meses, se não os houver.
A direção do inquérito cabe ao Ministério Público, assistido pelos órgãos de polícia
criminal que atuam sob a sua direção e na sua dependência (nos 1 e 2 do artigo 263) e
que são todas as entidades e agentes policiais a quem caiba levar a cabo quaisquer atos
ordenados por uma autoridade Judiciária, designadamente Juiz, Juiz de instrução ou
magistrado do Ministério Público.
Objetivamente, a prova é o conjunto de meios ou elementos destinados a demonstrar as
doações trazidas ao litígio. Subjetivamente, prova é o convencimento do juiz acerca da
existência dos fatos narrados e comprovados no decurso da lide. A prova tem, portanto,
a finalidade de comprovar a autoria e materialidade dos fatos discutidos na ação, para
que o julgador concretize a pura justiça.
No processo penal, em momento prévio ao da aplicação da lei, está desde logo em causa
a constatação e a verificação da ocorrência do fato criminalmente relevante, bem como
a definição exata das circunstâncias e condições de ocorrência do mesmo, a fim de
possibilitar a total fundamentação da decisão.
Numa perspectiva lógica, os meios de prova caracterizam-se pela sua aptidão para
serem por si mesmos fonte de convencimento. Na perspectiva técnica ou operativa, os
meios de obtenção da prova caracterizam-se pelo modo e também pelo momento da
sua aquisição no processo, em regra nas fases preliminares, sobretudo no inquérito.
A prova realizaria por meio de exames ou pericias limita a aplicação do princípio da
livre convicção do juiz, pois esta não pode significar, nem significa, a substituição da
certeza objetiva como finalidade da prova por uma convicção subjetiva, incondicionada
e desligada de regras legais, de regras de lógica, baseadas na experiência, que formam
o conteúdo de um direito probatório substantivo. Aliás, é o próprio no. 1 do artigo 163.
que o determina, ao consagrar que juízo técnico, científico ou artístico inerente à prova
pericial se presume subtraído à livre apreciação do julgador, com a exceção prevista no
no 2.
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UNIDADE I │ PAPEl Do ENfErmEIro forENsE NA qUAlIDADE hosPItAlAr, NA gEstão DE rIsco E Uso Dos tóPIcos DE DIrEIto PENAl
Para a descoberta material da verdade, o Código de Processo Penal prevê como meios
de exames e perícias, pedidos pelas partes ou por iniciativado tribunal quando a
complexidade da matéria requer conhecimentos específicos que o julgador não detém.
De acordo com o artigo 151 a prova pericial tem lugar quando a percepção ou apreciação
dos fatos exigirem especiais conhecimentos técnicos, científicos ou artísticos.
A perícia é ordenada oficiosamente, ou a requerimento, por despacho da autoridade
judiciária, contendo o nome dos peritos e a indicação sumária do objeto (artigo 154). No
entanto, no caso das perícias médico-legais não compete à autoridade judiciária a indicação
dos peritos, já que essa competência pertence ao INMLCF, conforme o regime jurídico
respetivo. O artigo 159 determina que as perícias médico-legais e forenses que se insiram
nas atribuições do KMLCF são realizadas pelas delegações deste e pelos gabinetes médico-
legais. Aliás, do artigo 160 -A, numa interpretação a contrário, afasta-se a possibilidade de
serem realizadas por entidades terceiras.
O Código prevê que as perícias sobre personalidade, para averiguação da personalidade
e perigosidade do arguido, devam ser feitas por serviços especializados, incluindo
os serviços de reinserção social, ou, quando não for possível ou conveniente, por
especialistas de criminologia, psicologia, sociologia ou psiquiatria.
Terminada a perícia, os peritos procedem à elaboração do relatório pericial, onde
constam as suas respostas e conclusões devidamente fundamentadas (no. 1 do artigo
157). Em caso de dúvidas ou de interesse para a descoberta da verdade os peritos podem
ser convocados para prestarem esclarecimentos complementares ou ser realizada nova
perícia (no 1 a e b do artigo 158).
Observa-se a importância que o Direito tem atribuído ao exercício das atividades
relacionadas com a prestação de cuidados de saúde, em sentido amplo. É evidente
a quantidade de diplomas legais que vêm consagrando os mais diversos direitos do
doente/utente, ao nível dos cuidados de saúde, assim como os correlativos deveres dos
profissionais que os prestam.
O profissional de saúde deve estar cada vez mais desperto, e ciente, para as consequências
jurídicas resultantes dos seus atos ou comportamentos enquanto prestadores,
designadamente a responsabilidade criminal, civil e disciplinar em que podem incorrer
pela não observância do disposto nos diversos diplomas.
Por outro lado, pretendeu-se alertar para a importância da prova pericial, nomeadamente
os exames médico-legais para a instrução do processo civil e penal, bem como a
importância que o Instituto Nacional de Medicina Legal e Ciências Forenses assume,
49
PaPel do enfermeiro forense na qualidade hosPitalar, na gestão de risco e uso dos tóPicos de direito Penal │ unidade i
na área da medicina legal, no auxílio que presta ao poder judiciário para a descoberta
material dos fatos.
O Direito e a Ciência cada vez mais se encontram de mãos dadas, trilhando um caminho
por vezes árduo, mas num só sentido, a busca da verdade, a defesa dos direitos do
cidadão e a confiança na justiça e nas instituições que a prosseguem.
50
unidAdE ii
EnfErmEiro
forEnSE Em
SituAçõES
divErSifiCAdAS
Em inStituiçõES
dE SAúdE
O enfermeiro forense realiza exames minuciosos para coleta de evidências,detecção e
tratamento de lesões, traumas em vítimas de abuso sexual, emocional ou físico, morte,
estupro assim como fornece suporte emocional às vítimas e familiares. Portanto, a
enfermagem forense visa examinar, reconhecer, coletar e preservar, fatores essenciais
para esta prática, bem como promove educação junto à população contra a violência
interpessoal, além de considerar como benefício, poupar a sobrecarga de trabalho, as
inevitáveis falhas no exame da perícia, que podem ocasionar em perda de credibilidade
nos depoimentos requeridos por promotores e advogados de defesa (SILVA; SILVA,
2009).
A importância da enfermagem forense para a saúde e segurança pública, visando
conhecer o conceito de perícia forense, em como, verificar os campos de atuação de
enfermagem forense e identificar os seus benefícios.
O enfermeiro forense tem fundamental importância na área de saúde por prestar
uma assistência em primeira instância junto a vítima e assim poder coletar vestígios e
conseguir realizar uma abordagem de qualidade.
51
CAPítulo 1
fraude em Seguros: Papel do
Enfermeiro forense
Existem diversas definições de fraude em seguros, inclusive nos EUA existe uma
associação de peritos para fraude em seguros que tem dado formação um pouco por
todo o mundo e que tem várias publicações sobre o tema. Para Boyer (2004) , fraude
consiste numa “tentativa deliberada de um segurado requisitar o pagamento de um
sinistro, sem que as ocorrências previstas na apólice para tal requisição tenham
acontecido”. Por seu lado, a associação Insurance Fraud afirma que “fraude é qualquer
ato enganoso perpetrado contra ou pela companhia, segurador, corretor, prestador de
serviço ou segurado, com o propósito de obter ganho financeiro não garantido”.
Esta associação americana classifica a fraude em hard e soft. A fraude hard consiste
na tentativa deliberada de encenar ou inventar um acidente pessoal, roubo, incêndio
ou outro tipo de perda que deveria estar coberto por uma apólice de seguros. A fraude
soft ocorre quando um segurado ou terceiro que realiza aviso de sinistro “exagera” num
sinistro legítimo. A Associação Inglesa de Seguros (ABI), por seu lado, divide a fraude
em premeditada e oportunista. A fraude premeditada ocorre quando existe contratação
de apólices de seguros com intenção deliberada de cometer fraude. A fraude oportunista
ocorre quando os sinistros são deliberadamente “exagerados” ou falsificados a partir de
uma ocorrência legítima.
tipos de fraudes por ramo de seguro
Um dos seguros que mais frequentemente apresenta questões fraudulentas é o seguro
de acidentes pessoais. Os sinistros nestes casos estão associados à ocorrência de lesões
no próprio corpo da pessoa segurada, que se referem a amputações de membros, ou o
próprio óbito da vítima. Nos casos de automutilação, pode ser difícil obter-se provas
objetivas para a sua caracterização, no entanto uma avaliação adequada pode permitir
a sua identificação. Geralmente, estas ações de automutilação por parte da vítima têm
como intuito receberem uma indemnização financeira. Quando a pessoa opta por
cometer este tipo de lesão, fá-lo com a ideia de que irá perder uma parte do seu corpo,
ou que então a mesma resulte em lesão permanente que implique incapacidade física.
Será muito difícil nestes casos que o enfermeiro forense consiga obter uma confissão
por parte do autor, uma vez que o mesmo pretende manter o segredo sobre o caso.
52
UNIDADE II │ ENfErmEIro forENsE Em sItUAçõEs DIvErsIfIcADAs Em INstItUIçõEs DE sAúDE
Existem diversas situações que podem levar a automutilação, das quais se destacam
o acidente com arma de fogo, arma branca, machado, máquinas trituradoras,
serras, equipamentos de corte etc. Pelo fato de o ser humano repudiar a hipótese de
automutilação, é difícil para o homem admitir que outra pessoa tenha coragem de
mutilar o seu próprio corpo, em especial para ser indenizado. Quanto vale um braço,
uma perna, um dedo, uma mão, um pé? Para a nossa sociedade, estes bens não têm
preço, daí resulta a incredulidade diante a hipótese de ter sido o único objetivo a
indemnização.
Da mesma forma que surge a questão do suicídio premeditado. O suicídio premeditado
tem por trás de si a intenção do agente em retirar a própria vida, para não fazer
frente às dificuldades emergentes. Alguns fatores motivadores para cometer suicídio
premeditado podem ser desgostos amorosos, endividamento, problemas psiquiátricos,
etc. O suicídio premeditado caracteriza-se pelo fato de a vítima, antes de cometer o
ato, procurar resguardar os interesses da família através da contratação de seguro de
vida. Também este tipo de suicídio cria alguns problemas ao enfermeiro forense, na
sua abordoem, não só porque a vítima morreu, mas também porque pode existir um
constrangimentopor parte dos familiares do falecido, porque o tema é incômodo e a
família encontra-se de luto.
Um dos elementos caracterizadores do contrato de seguro é o risco, devendo este ser
incerto, futuro e aleatório. A ocorrência de qualquer evento sem estes elementos não
merece amparo securitário, uma vez que o ato intencional com o objetivo de receber
uma indemnização confere a ocorrência de fraude contra o seguro.
ramo automóvel
Devido à atual situação económica do pais, tem sido o seguro que mais fraude tem
sofrido, nomeadamente pelo fato de os segurados deixarem de pagar o prémio e
continuarem a circular com os veículos na mesma. Alguns dos exemplos de fraude
neste ramo de seguros são:
» omitir informação no formulário da seguradora, quando se celebra o
contrato;
» falsificar a apólice de outra seguradora com finalidade de receber
bonificação indevida;
» omitir a existência de outro seguro vigente para o veículo;
» omitir ou falsificar o formulário de acidente;
53
EnfErmEiro forEnsE Em situaçõEs divErsificadas Em instituiçõEs dE saúdE │ unidadE ii
» simular furto da viatura, quando a mesma se encontra escondida, a ser
desmontada pelo próprio ou por alguém do seu conhecimento;
» simular furto, em casos em que o veículo foi apreendido anteriormente
por outras irregularidades;
» assumir indevidamente a responsabilidade pelo acidente, fazendo com
que a seguradora pague os prejuízos ocasionados no veículo causador,
» colidir intencionalmente com a finalidade de obter vantagens com o
conserto de danos antigos, ou com o recebimento do valor total do veículo;
» aumentar os danos após o acidente com a finalidade de elevar os prejuízos
para receber o valor total do veículo;
» troca de motorista por não estar habilitado a conduzir.
ramo saúde
No ramo saúde as fraudes assentam essencialmente na omissão ou falsificação
de informações sobre doenças preexistentes à celebração do seguro, ou na fraude
relacionada com a apresentação de despesas, quer pelo próprio como por outros, mas
com o seu conhecimento.
Podem ainda ocorrer alterações nos procedimentos médicos ou na declaração de
consultas, exames ou procedimentos que não ocorreram.
ramo vida
Neste ramo, além de derivar os acidentes pessoais, com as respetivas fraudes já
relatadas, poderão existir fraudes relacionadas com:
» inclusão na relação de segurados de pessoa que seja funcionário e não
possua vínculo com a empresa estipulante (ramo v1da de grupo);
» omitir doença preexistente, falsificar ou adulterar exame, atestado
médico, perícia médica, certificado de óbito e outros documentos;
» omitir a preexistência de invalidez do contratante;
» fornecer informações falsas na proposta para contrato;
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UNIDADE II │ ENfErmEIro forENsE Em sItUAçõEs DIvErsIfIcADAs Em INstItUIçõEs DE sAúDE
» contratar seguro para pessoa com doença terminal;
» contratar seguro para pessoa já falecida;
» suicídio premeditado;
» simular a ocorrência de acidente para o contratante que faleceu em
decorrência de causa natural, com a finalidade de receber dupla
indemnização;
» simular o falecimento do contratante, estando este vivo;
fraude no seguro
Estima-se que o índice de sinistros fraudulentos ronde os 30%, sendo um problema
de proporções alarmantes, cujas consequências são prejudiciais não só para o próprio
mercado segurador como para a sociedade em geral e para a economia do país. Desde
os primórdios da humildade, que o homem, levado pelo seu egoísmo pessoal e pela
ganância, tenta encontrar alternativas para as situações que lhe são desfavoráveis.
Neste ambiente a fraude ganha vida, uma vez que é próprio dos seres humanos, e traz
por si só uma falsa impressão de legitimidade. A fraude é tida muitas vezes como um
mérito pessoal para quem comete a ação, ou sinal de “esperteza” e inteligência.
importância dos indícios como meio de prova da
fraude
Conforme já foi dito anteriormente, pode tomar-se uma tarefa difícil à abordagem e
a avaliação destes casos, nomeadamente nos casos em que ocorre automutilação ou
suicídio premeditado. No entanto, é importante a existência de indícios como meio
de prova para caracterizar a fraude no seguro. Por vezes, o juiz, em sede de tribunal,
nem sempre tem consciência da gravidade da fraude contra o seguro. Em muitos casos,
procuram a prova absoluta impossível, inexistente e supervalorizam os relatórios
periciais.
Poderemos dizer que a fraude é um crime de inteligência, frio, não violento e dotado de
premeditação, e que a sua concepção implica dificultar asna investigação. O indivíduo
que comete fraude, ao conceber o seu plano, pensa nos detalhes, uma vez que o sucesso
do seu plano dependerá da sua capacidade de inteligência para iludir quem investiga o
caso, que poderá ser o enfermeiro forense. Outro obstáculo à investigação destes casos
é fato de existir a ideia de que o segurador é forte e poderoso e o segurado é fraco e
inocente. O enfermeiro forense deve ser imparcial, no entanto, nestes casos, toma-se
55
EnfErmEiro forEnsE Em situaçõEs divErsificadas Em instituiçõEs dE saúdE │ unidadE ii
ainda mais importante que esta imparcialidade se mantenha perante a fragilidade do
segurado e o eventual poder do segurador.
Aspetos sociais da fraude no seguro
É inequívoca a função social do seguro, uma vez que este visa garantir a superação
de eventos imprevistos, incertos e aleatórios. Através do mutualismo social do seguro,
consegue-se distribuir as perdas de um indivíduo para com ioda a comunidade,
possibilitando assim que se mantenha a estabilidade social, o negócio e a atividade.
Independentemente do coeficiente jurado, além dos prejuízos diretos causados ao
segurador, assim como a massa segurada, é certo que, no final, quem irá acabar por
pagar a conta da fraude é o consumidor.
O cálculo do valor de prémio do seguro pode ser estabelecido verificando o montante
total dos sinistros indemnizados e dividindo pela massa de segurados, adicionando os
custos de comercialização e organização da operação, acrescido do lucro pretendido.
Poderemos assim concluir que a base do cálculo do prémio do seguro é a sinistralidade.
Quando se admitem na massa de segurados os sinistros fraudulentos, o que a seguradora
faz é repartir o prejuízo entre todos os segurados, em prol daquele que isoladamente
beneficiou da fraude.
Automutilação
» A automutilação consiste em provocar um dano intencional no corpo da
própria pessoa. Esta lesão, em geral, ocorre como simulação de acidente,
mas tem como objetivo obter um pagamento de indemnização por parte
da seguradora, que se encontra prevista no seguro de acidentes pessoais.
No passado, a automutilação era usada para evitar o serviço militar,
sendo que os relatos indicam que a lesão mais comum era a amputação
de dedos, principalmente os dedos da mão do lado dominante, que
impediria o sujeito de disparar uma arma. No âmbito do seguro privado,
encontramos valores elevados de indemnizações. A estatística demonstra
que predomina a ocorrência de amputações de dedos ou mesmo de uma
das mãos, especialmente no membro esquerdo em indivíduos destros. A
ideia é lesionar os membros menos usados e que também têm significativo
valor indenizatório. As dificuldades financeiras são a principal motivação
para automutilação, em consonância também com despesas emergentes
que possam ser provocadas por doenças na família ou da própria vítima,
ou a necessidade de ter capital suficiente para realizar um projeto
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UNIDADE II │ ENfErmEIro forENsE Em sItUAçõEs DIvErsIfIcADAs Em INstItUIçõEs DE sAúDE
económico. A maioria das vítimas é do sexo masculino. O acidente em
geral ocorre em ambiente privado, sem testemunhas, e cerca de 76% das
vítimas têm mais do que uma apólice, e os membros estão seguros com
valias muito elevadas.
Abordagem do enfermeiro forense
A abordagem do enfermeiro forense, nestes casos, consiste na averiguação sistematizada
em casos considerados suspeitos da prática de automutilação intencional. Estaavaliação requer a aplicação de uma metodologia técnico-pericial rigorosa, onde
deverão ser arrolados todos os sinais de evidências diretas e/ou circunstanciais que
sejam considerados, pelo seu significado, relevantes. O enfermeiro deve observar a
ocorrência de uma série de “fatos motivadores”, que justificam sem qualquer dúvida o
modo e a intenção de se automutilar e/ou mesmo o suicídio premeditado.
O enfermeiro forense deve estabelecer uma relação de nexo causal entre os fatos
relatados por ocasião da reconstituição do acidente e o tipo de ferimento ocasionado
pelo alegado agente mutilador. O estudo destas características poderá estabelecer o
diagnóstico diferencial entre as lesões e o agente mutilador.
O exame forense deve incluir o exame corporal completo. Devem ser observados os
ferimentos, verificando as suas bordas, as vertentes, as margens, o fundo, a hemorragia
e o aspecto das extremidades, entre outros aspetos. A caracterização e descrição correta
das feridas (no que diz respeito ao tipo, tamanho, localização e coloração) e a sua
documentação são essenciais para colaborar com a investigação do caso. O local da lesão
e a parte do corpo amputada devem ser inspecionados para identificar a natureza dos
cortes, o percurso da amputação e as lesões que a acompanham. Se existirem Indícios
de infeção, pode indicar que foi administrado previamente anestésico local. As lesões
acidentais provocam feridas irregulares, com percurso oblíquo, enquanto nos casos de
automutilação a ferida tende a ser regular e o ângulo de corte é perpendicular. Podem
existir ainda lesões de hesitação junto do local da amputação, que são importantes
porque indicam que a amputação foi deliberada. Pode ser necessária a recolha de
amostras de urina e sangue para análise de valores de alcoolemia medicação ou drogas
ilícitas, que podem justificar o ato.
Neste contexto, a entrevista toma-se uma peça essencial, uma vez que o enfermeiro
poderá recolher elementos necessários à formação da convicção sobre o que ocorreu.
Na recolha da história será importante analisar o fato de existirem contradições nas
informações prestadas. A vítima deve ser questionada sobre o curso do alegado acidente,
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EnfErmEiro forEnsE Em situaçõEs divErsificadas Em instituiçõEs dE saúdE │ unidadE ii
descrevendo todos os detalhes desde o acontecimento até ao momento que chegou ao
hospital.
A investigação criminai deve analisar a situação socioeconômica da vítima, para
pesquisa de eventuais problemas económicos que possam ter sido o móbil da ação.
O exame do local deve incidir na análise minuciosa das ferramentas e materiais
envolvidos no evento, com o objetivo de pesquisar manchas de sangue, medidas
preventivas, etc. Este exame deve levar à reconstituição do evento.
Também a reconstituição do evento (posição do copo, posição da mão etc.) tem
um papel de elevada importância na análise do caso, como tal deve fazer-se um estudo
sistematizado do local do evento, do instrumento causador do ferimento, da dinâmica
do fato apresentado, com o respetivo registo fotográfico.
Em relação à fotografia, em primeiro lugar, deve-se realizar uma fotografia panorâmica,
que demonstre a dimensão do local, em seguida deve ser realizada fotografia a meia
distância, finalmente devem ser tiradas fotografias em série, consecutivas, cena por
cena, de forma a reconstituir o acidente. O enfermeiro deve estar atento a detalhes em
relação ao posicionamento da vítima, aos detalhes da colocação dos membros e dos
segmentos envolvidos, a posição do instrumento, o sentido provável da lesão, assim
como os vestígios presentes. Devem ainda ser realizadas fotografias com escala junto
das lesões.
Todo este procedimento de reconstituição pode possibilitar a verificação da legitimidade
e o nexo de casualidade entre a versão apresentada e as lesões sofridas pela vítima. A
análise dos fatos descritos pela vítima e a sua postura durante a reconstituição dos
eventos pode dar uma visão clara do que poderá ter ocorrido. A vítima poderá ter
dificuldade em representar de forma convincente e precisa o que ocorreu quando existiu
simulação do caso.
Outros aspetos que levam a suspeita são a contratualização de seguro dias ou semanas
antes do incidente, ausência de testemunhas, ou influenciar testemunhas para deporem
em conformidade, desaparecimento Inexplicável da parte amputada, local do acidente
limpo e arrumado e falsas declarações sobre o lado dominante.
Resumindo, a investigação requer o uso de todas as fontes de informação, tais como
fotografias, RX, relatórios médicos, relatórios cirúrgicos, assim como o levantamento
da situação econômica da vítima. Os achados devem ser documentados com fotografias
tiradas em diferentes ângulos.
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UNIDADE II │ ENfErmEIro forENsE Em sItUAçõEs DIvErsIfIcADAs Em INstItUIçõEs DE sAúDE
Suicídio premeditado
No caso do suicídio premeditado, a fraude geralmente recai sobre o seguro de vida e
não tanto sobre o seguro de acidentes pessoais. O suicídio tem sempre merecido uma
atenção especial de todos, nomeadamente pela religião, pela sociedade e pela própria
família. O suicídio é visto por algumas religiões como um ato completamente proibido
e, à luz do direito, também têm implicações. Existem várias escolas que tentam explicar
a génese do suicídio, duas delas investigam a causa que leva o indivíduo a cometer
suicídio, como tal afirmam que poderá estar em causa uma etiologia psiquiátrica ou
psicanalítica por seu lado, a escola sociológica não procura explicações no indivíduo,
mas sim no ambiente social em que ele está envolvido. Para a escola sociológica, o
suicídio é o resultado de uma inadaptação por parte do indivíduo à vida social, sendo por
isso a sua verdadeira causa fundamentada com problemas económicos e sociais. Para
os familiares trata-se quase sempre de um ato brutal, que traz vergonha para a família,
e constitui uma negação ao instinto de preservação da vida. É importante destacar
que nem todas as situações de suicídio são voluntárias ou conscientes, podendo existir
casos em que o suicídio é inconsciente, sendo um ato resultante de uma anormalidade
psíquica, seja ela de forma permanente ou temporária, e que se encontra muitas vezes
associada a patologias como a depressão e o stress.
Simulação
Segundo Costa (2008), simulação é uma forma de logro semelhante à mentirei, ainda
que os seus modos de expressão sejam diversos, que tem como objetivo a obtenção de
determinados fins. A mentira, por seu lado, assenta na expressão verbal, enquanto a
simulação utiliza a mentira para insinuar um evento para levar a uma fraude. Segundo
Calabuig (2004) a simulação divide-se em:
» Simulação defensiva, que tem como objetivo evitar o cumprimento de
uma sanção.
» Simulação ofensiva, quando é simulada unta doença com o intuito de
vingar-se de uma pessoa, que o simulador responsabiliza pelo seu mal.
» Simulação exoneratória, quando o objetivo é evitar o cumprimento do
serviço militar.
» Simulação lucrativa, que é usada por mendigos para terem direito a apoio
solidário.
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EnfErmEiro forEnsE Em situaçõEs divErsificadas Em instituiçõEs dE saúdE │ unidadE ii
» Simulação aduladora, praticada por pessoas que pretendem ter o
reconhecimento dos seus chefes.
» Simulação ambiciosa, igual à anterior, mas com o objetivo de ganhar uma
menção honrosa.
» Situação afetiva, que tem como objetivo razões sentimentais.
Segundo Costa Santos (2008), os motivos de simulação têm como objetivos:
» em matéria penal, evitar que o sujeito cumpra as obrigações legais
(serviço militar etc.);
» em matéria civil, para obter indemnizações;
» em matéria laboral, para obter indemnização na área do trabalho.
Prova pericial
A prova pericial é extremamente relevante para auxiliar o juiz na análise e conclusão
do caso, uma vez que a avaliação feita por um especialista na área poderá demonstrar
aspetos importantes que podem estar a mascarar a fraude. Cabe ao enfermeiro forense
colaborar com o peritomédico-legal na recolha de dados que possam contribuir para
a reconstituição do evento, assim como na recolha de vestígios que possam apoiar a
perícia.
Considerações finais
Não poderemos deixar de dizer que é difícil produzir provas diretas, consistentes
e robustas sobre a automutilação e sobre o suicídio premeditado. Muitas vezes
o autor do ilícito (fraude) preparou o plano ao mais ínfimo pormenor, pelo que a
investigação se torna complicada. O fator de suma importância nestes casos assenta
na investigação de dificuldades econômicas que podem ser o móbil do crime, assim
como a observação da existência de fatos motivadores que podem ajudar na dedução
de fraude. Torna-se também muito importante que o enfermeiro forense examine o
local e faça a reconstituição do evento, assim como faça uma avaliação minuciosa das
lesões que a vítima apresente, e faça uma documentação do caso, precisa e completa.
Há falta de conhecimento em relação às punições acarretadas pela prática de fraude.
Por outro lado, a facilidade e a impunidade, são motivadores da fraude nos seguros.
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UNIDADE II │ ENfErmEIro forENsE Em sItUAçõEs DIvErsIfIcADAs Em INstItUIçõEs DE sAúDE
testemunho do Enfermeiro forense em tribunal
introdução
Os enfermeiros que estão envolvidos em questões médico-legais podem ter que
testemunhar em tribunal algumas vezes no decorrer da sua carreira. Testemunhar em
tribunal é idêntico a falar perante uma audiência. A tensão, a expectava, a incerteza e a
possibilidade de alguma hostilidade são alguns dos sentimentos vividos, especialmente
se for uma experiência nova.
Pode fazer parte da estratégia da defesa descreditar o perito e o seu testemunho. A sala
de tribunal é um local formal e intimidatório, o que não é necessariamente uma coisa
má. O impacto é enorme, mas as leis do tribunal devem ser levadas de forma séria e
tratadas com respeito e os eventos que ocorrem no tribunal não devem ser um motivo
de stress. Não surpreende, pois, que as testemunhas estejam apreensivas. Compreender
o processo e saber como se preparar, irá ajudar as testemunhas inexperientes a
testemunhar sem apreensão indevida. E uma boa ideia o enfermeiro levar consigo um
livro “neutro” ou outra atividade para passar o tempo, já que poderá ter de esperar.
O enfermeiro forense, ao depor em crimes sexuais, deve entender que tem que
adequar a linguagem, pois os termos médicos podem ser simples para o enfermeiro,
mas podem levar a interpretações erradas por parte do juiz. Por exemplo, genitália
externa refere-se à parte anterior do hímen, no entanto o juiz pode achar que se trata
da zona púbica. Assim, termos como “externa” e “interna”, por exemplo, devem ser
explicados para evitar maus entendidos.
O testemunho em tribunal do perito é um método de os juízes, advogados e júri melhor
compreenderem quais as evidências presentes no caso, para além de poder ajudar o
tribunal a enquadrar as evidências, que de outra forma poderiam não ser admissíveis.
O perito pode fazer algo que outras testemunhas em tribunal não podem fazer dar a
sua opinião! Estas opiniões devem ser reais e não baseadas em crenças subjetivas ou
especulações sem suporte. O enfermeiro forense apenas deve ser chamado a depor sobre
algo que tenha ocorrido na sua presença. As exceções são os casos em que é chamado a
depor como consultor.
Admissibilidade da evidência científica
A admissibilidade é um conceito legal que determina que a evidência será admitida
pelo tribunal e que o juiz irá permitir que seja exposta A admissão da evidência
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EnfErmEiro forEnsE Em situaçõEs divErsificadas Em instituiçõEs dE saúdE │ unidadE ii
encontra-se pendente da avaliação feita pelo juiz, no entanto, o perito poderá ajudar no
esclarecimento se a evidência é importante ou não.
qualificações do perito
Um perito é alguém que sabe alguma coisa além da experiência pessoal. As qualificações
incluem formação técnica e acadêmica, grau acadêmico, formação pós-graduada escrever
e falar profissionalmente e prática na área em que testemunha. O enfermeiro forense
deve ter o seu currículo atualizado e deve tê-lo consigo quando vai a tribunal. Deve dizer
a verdade, e pode ser questionado sobre algumas informações para determinar as suas
qualificações como perito. Entre as perguntas que poderão ser efetuadas destacamos as
seguintes:
» Descreva o seu currículo como enfermeiro forense:
› Há quanto tempo é enfermeiro, e em que áreas exerceu atividade?
› Há quanto tempo trabalha como eforense?
› Que formação teve na área forense
» Descreva a sua atividade como enfermeiro forense:
› A que organizações profissionais pertence?
› É certificado na área da enfermagem forense?
› Já publicou material na área da enfermagem forense?
› Como enfermeiro forense como conduz um exame (passo a passo)?
› Quantos casos como este já teve?
› Já testemunhou como perito em tribunal antes?
No Quadro a seguir apresentamos as dez regras essenciais para o enfermeiro forense
testemunhar como perito.
Recordamos que a intervenção da enfermagem forense deve assentar no processo
de enfermagem forense, que consiste nas seguintes etapas: abordagem, diagnóstico,
identificação de resultados, plano de cuidados, implementação e avaliação. O
desempenho do exame baseia-se no diagnóstico e na necessidade de tratamento, não
no auxílio à aplicação da lei com investigação, nem na ajuda à melhoria da taxa de
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UNIDADE II │ ENfErmEIro forENsE Em sItUAçõEs DIvErsIfIcADAs Em INstItUIçõEs DE sAúDE
condenação para a acusação. O enfermeiro deve manter sempre o foco principal na
saúde e no bem-estar da vítima, nas funções médicas na ética e no tratamento.
Dez regras para testemunhar como perito
Regra 1: saber porque está em tribunal (o perito está em tribunal por um motivo).
Regra 2: você é um perito. O perito caracteriza-se pelo conhecimento, competências, experiência, treino e formação
Regra 3: estar sempre concentrado na questão colocada
Regra 4: não se precipitar, não tirar conclusões precipitadas
Regra 5: preparar-se
Regra 6: expressar-se corretamente
Regra 7: repetir pelo menos três vezes a mesma coisa
Regra 8: ser você próprio
Regra 9: não dizer que sim para agradar
Regra 10: compreender o sistema jurídico
fonte: gomes,2014
A testemunha pode ser classificada como:
» Testemunha de fato: alguém que sabe um certo fato ou elemento sobre a
questão em julgamento.
» Testemunha perita: alguém que dá a sua opinião profissional sobre a
questão em julgamento.
Compreender o papel da testemunha e estar completamente preparado para testemunhar
irá reduzir bastante o stress e a ansiedade.
depoimento como tcstemunha especialista
O enfermeiro forense deve manter a experiência numa determinada área de enfermagem,
ter a capacidade de traduzir o conhecimento de enfermagem num parecer jurídico e
ter amplo conhecimento dos princípios jurídicos e habilidades de comunicação. Deve
estar ciente das limitações do seu âmbito e padrões de prática, regras dos conselhos
estatuais e regulamentos e padrões de prática. O enfermeiro forense deve ajudar o júri a
entender qual a causa e etiologia das lesões (se foram acidentais ou intencionais) e qual
o tratamento previsto para a vítima.
Alguns tribunais permitem que os peritos testemunhem com inclusão das declarações
feitas pelas crianças, independentemente de a criança testemunhar ou não.
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EnfErmEiro forEnsE Em situaçõEs divErsificadas Em instituiçõEs dE saúdE │ unidadE ii
Convocação para tribunal
Uma intimação para comparecer em tribunal para depor é uma ordem legal que
requer resposta formal e presença obrigatória o enfermeiro deve ter a certeza do local
exato do tribunal e da hora exata a que vai testemunhar, determinar detalhes sobre o
estacionamento, sentidos das ruas, necessidades de dinheiro para estacionamento etc.
Deve comparecer mais cedo do que a hora prevista e notificar o tribunal da sua chegada.
Julgamento por júri versus julgamento por juiz
A deliberação do júri é a troca de opiniões eideias com base nos fatos apresentados
durante o julgamento a fim de chegar a um veredicto. Antes da deliberação, o juiz
fornece ao júri instruções sobre a aplicação da lei e as provas apresentadas.
Os veredictos podem ser classificados de acordo com a seguinte tipologia:
Culpado: o réu é jurado legalmente por ter cometido o crime.
Não culpado: o réu é julgado legalmente por não ter cometido o crime.
Indecisão: o Júri não chega a um veredito.
Atribuições do enfermeiro forense antes do
contencioso
O enfermeiro forense deve fazer sempre o que é clinicamente apropriado, mantendo
um “olho” para o tribunal e um “olho” para o contencioso. Deve lidar corretamente com
as evidências, verificar embalagens, etiquetas, formulários, etc., assim como conhecer
o protocolo hospitalar e o protocolo nacional, e se não for capaz de o seguir, deve ser
capaz de explicar porque não o fez.
interação com os advogados: prejulgamento
O enfermeiro deve conversar com ambos (acusação e defesa), uma vez que não está
a apoiar nenhum dos lados. Normalmente o enfermeiro é chamado pelo Ministério
Público como testemunha, e é confrontado pelo advogado de defesa. As reuniões
devem ser preparadas, pincipalmente quando se conversa com advogados adversos.
Em primeiro lugar, o enfermeiro deve solicitar a reunião no “seu território”, e fazer
a marcação pessoalmente e não por telefone. Deve-se evitar múltiplas entrevistas
fragmentadas, na qual o advogado quer “alguma informação agora e mais tarde”. Se
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UNIDADE II │ ENfErmEIro forENsE Em sItUAçõEs DIvErsIfIcADAs Em INstItUIçõEs DE sAúDE
o enfermeiro é novo ou tem pouca experiencia na área, deve solicitar a presença, nas
reuniões, de um colega mais velho e experiente.
De forma geral, nunca se deve assumir que se está em off record com um advogado.
Deve-se aplicar todas as regras ao lidar com os advogados, para ambos os lados, sempre
que possível.
Não se deve entrar em táticas desleais de entrevista com os advogados, mas sim estar
sempre na disposição de compartilhar as descobertas em circunstâncias apropriadas.
Processo de testemunho
Não existe um processo especifico para testemunhar, no entanto, existem algumas
sugestões para o processo, que corresponde à identificação de três fases; a preparação
para testemunhar, o testemunho e a reflexão critica do testemunho.
A primeira fase é a chamada pré-tribunal, que consiste na preparação para tribunal,
que deve ser feita perto da data do julgamento. Se for feita muito cedo pode-se esquecer
detalhes importantes. O papel do perito é apresentar informação científica, e a sua
opinião em relação ao caso. O enfermeiro forense não está lá para “ganhar o caso”. Deve
obter documentação importante (relatórios, diagramas, fotografias), relacionada com
o caso; deve estudar todos os documentos até ao ponto de memorizar os mesmos. Os
documentos estarão disponíveis no tribunal, mas o enfermeiro dará melhor imagem,
enquanto perito, se souber os detalhes da informação. Deve tirar notas sobre o caso, ler
em atenção que as notas podem ser usadas em tribunal, como tal nunca tirar notas no
documento original, apenas nas cópias. O enfermeiro forense deve preparar uma série
de perguntas para os advogados com hipóteses do que será perguntado por ele. Preparar
apresentações sobre o ca.so, porque pode ser necessário apresentarem tribunal. Se
for possível, observar a sala do tribunal antes do julgamento, isto é especialmente
importante quando se trata dos primeiros casos, e ajuda a reduzir a ansiedade.
testemunho em julgamento
Quando o enfermeiro forense é chamado a depor, inicia-se o seu processo de dizer
a verdade, e inicia-se o processo de descrição do caso pelo enfermeiro forense, e
a colocação de perguntas pelos intervenientes, para resposta peio enfermeiro. Ao
testemunhar o enfermeiro deve testemunhar de forma clara e presente, e deve
relacionar a formação em enfermagem e a experiência como parte essencial da prática
de enfermagem. O enfermeiro deve estabelecer a relação entre a prática da enfermagem
e a prática da enfermagem forense- Deve estar familiarizado com o sistema judicial, as
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EnfErmEiro forEnsE Em situaçõEs divErsificadas Em instituiçõEs dE saúdE │ unidadE ii
regras e procedimentos para a jurisdição nos quais o julgamento é realizado, aplicar
os princípios e métodos dos fatos e antecipar que a ciência de enfermagem forense
pode ser questionada pelo tribunal, como tal o enfermeiro deve estar seguro do seu
testemunho para manter coerência científica e técnica e esperar perguntas complicadas
por parte do advogado de defesa. O enfermeiro deve estar alento às palavras usadas
durante o discurso com todos os advogados, particularmente os adversos, usando
termos consistentes com as lesões, anatomia e procedimentos. É da natureza humana
dizer coisas um pouco diferentes, de um momento para o outro, mas deve ser evitado
testemunho.
Enfermeiro forense como formador para o juiz e júri
O enfermeiro forense deve identificar os aspetos holísticos do cuidado à vítima e
correlacionar as lesões da vítima com os vestígios colhidos. Deve ainda descrever
cuidadosamente e definir a terminologia médica de forma a permitir que o juiz e o júri
compreendam as questões relacionadas com o crime, lesões e cuidados de enfermagem.
Da perspectiva legal, o enfermeiro forense é um perito, na identificação e interpretação
do trauma. É um perito imparcial, formado cientificamente para identificar o trauma e
reportar de forma neutra.
Preparação
Independentemente de a impressão que possamos ter dos tribunais, a primeira função
da testemunha é educar o júri. Antes de testemunhar, e independentemente do quanto
está familiarizado com o assunto o enfermeiro deve: rever a literatura, os padrões de
prática, os procedimentos relevantes, as notas ou os esquemas que tenham sido feitos
sobre o caso, os fatos e definições cientificas precisos, as normas específicas de cuidados
dirigidos em cada curso específico, as políticas e procedimentos da instituição em relação
à identificação e colheita de vestígios. Deve rever a documentação sobre a prestação
de cuidados médicos e tratamento, assim como os cuidados prestados à vítima ou ao
agressor. É de recordar que todos os e-mails relacionados com o caso e todas as notas
ou registos ou correspondência são detectáveis e podem ser usados no testemunho. Os
relatórios devem ser memorizados, mas não deve soar a “fixo”, e se forem detectados
erros, não devem ser ignorados nem se deve deixar de os divulgar. Errar é humano, mas
esconder o erro de um advogado pode ser desastroso.
Os auxílios visuais são aspetos importantes ao testemunho em tribunal. Devem estar
preparados antes de tempo, ter aparência profissional e devem ser fáceis de compreender
por todos os intervenientes presentes em tribunal. Se possível, é importante ter um ou
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UNIDADE II │ ENfErmEIro forENsE Em sItUAçõEs DIvErsIfIcADAs Em INstItUIçõEs DE sAúDE
dois auxílios visuais para que o júri possa examinar mais próximo. As fotografias devem
transmitir os fatos do caso, mas não devem ser indevidamente horríveis ou ofensivas.
Antes do depoimento, a testemunha deve fazer uma atualização do seu currículo, rever
os seus depoimentos anteriores, organizar os seus pensamentos e estar familiarizado
com todos os termos ou definições associadas com o caso.
Características pessoais
Existe a tendência para esquecer que estamos sempre a ser observados por alguém.
Existem alguns estudos que mostram que as pessoas acreditam que os indivíduos são
baseados em três aspetos: a aparência, o comportamento e a atitude. Estes três aspetos
terão efeito muito antes de começarem a falar e permanecem depois de terminar
de falar. O enfermeiro forense não é um advogado legal. Deve manter-se calmo,
independentemente da situação: durante a entrevista do advogado ou no tribunal.
Nunca deve deixar que percebam que está a transpirar porque pode indicar algum
nervosismo.
É imperativo que as perguntas sejam respondidas atenciosae diretamente, sem
embelezamento e sem elaborações de respostas criativas. Muitas vezes basta apenas
responder sim ou não. Detalhes desnecessários podem levar a que as perguntas saiam
do tema central.
O testemunho mais adequado é dito em voz forte e clara. O testemunho deve estar
afastado de emoções, críticas pessoais, estereótipos dos suspeitos ou vítimas e opiniões
pessoais sobre o caso. O enfermeiro forense deve apenas responder às questões
colocadas.
Aparência
O tribunal nunca é um local informal, e a credibilidade da testemunha é fortemente
influenciada pela aparência e pelo seu comportamento. Vestir-se apropriadamente
e profissionalmente irá demonstrar respeito pelo sistema judicial, pelo que se deve
selecionar roupa adequada, sendo um fator importante para assegurar que apresenta
uma aparência profissional. Os militares podem usar o seu uniforme. Calças de ganga,
roupas curtas, saias curtas, blusas com decote acentuado e peças de adorno em excesso
não são apropriadas. Fatos, vestidos, penteados conservadores e acessórios modestos
darão a imagem de que se trata de uma pessoa madura, séria e que está lá para
testemunhar e não para impressionar ou provocar os outros. As mulheres não devem
usar botas ou sapatos de salto alto, devem usar vestido conservador (camisa com saia)
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EnfErmEiro forEnsE Em situaçõEs divErsificadas Em instituiçõEs dE saúdE │ unidadE ii
e joias simples (relógio e aliança); se tiverem cabelos compridos, devem prende-los.
Os homens devem usar terno e gravata, não usar joias visíveis no pescoço e orelhas,
usar cabelo curto e estar barbeado. Não se deve usar óculos escuros (as pessoas não
acreditam na pessoa, se não olharem para os olhos) e adereços desgastados ou objetos
de crença pessoal (colares, pulseiras).
A escolha das cores do vestuário revela-se de extrema importância, e podem levar
a várias interpretações: a cor azul representa experiência, estabilidade e poder; a
cor preta, representa força, potência e prestígio; o branco a pureza e a inocência; o
roxo representa sentimentos tristes e frustração; a cor verde, a inveja e a ganância; o
amarelo, alegria e frescura; o vermelho representa raiva, ira e amor; a cor castanha, a
estabilidade e qualidade masculina.
Por outro lado, temos a linguagem corporal, também denominada por linguagem não
verbal, que revela muito da atitude do perito:
» Andar no tribunal com autoridade e sentar-se com autoridade.
» Sentar-se de forma confortável, com ambos os pés no chão e com as mãos
no colo.
» Sentar-se de frente, não de lado, não cruzar as pernas ou braços, não se
sentar de forma sedutora ou provocante.
» Recordar que até mesmo uma pequena falha na aparência será observada
por alguém do júri e pode prejudicar a credibilidade do enfermeiro.
» Não se inclinar para a frente em posição de conforto agressiva ou hostil.
» Estabelecer contato visual com o júri (todos os que estiam presentes). Os
membros do júri são os que irão determinar a decisão sobre o caso.
» Olhar para o advogado quando lhe fizer uma pergunta ou para o júri.
Juízes, advogados e júris irão vigiar o comportamento da testemunha em
tribunal.
» Prestar bastante atenção a todos os detalhes do processo.
» Desligar os aparelhos eletrônicos.
» Não mascar pastilha durante o testemunho, nem mexer na mala durante
a sessão.
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UNIDADE II │ ENfErmEIro forENsE Em sItUAçõEs DIvErsIfIcADAs Em INstItUIçõEs DE sAúDE
O que deve e não deve fazer quando testemunhar deveres
» Acima de tudo dizer a verdade.
» Ser genuíno, não tentar ser outra pessoa (seja você próprio).
» Ser profissional sempre que possível e ser “político” (usar “senhor” e
“senhora”).
» Estar confortável com o seu estado e projetar confiança (lembre-se de
que tem o conhecimento, competências, experiência, treino e formação);
» Responder às perguntas de forma clara e concisa; quando se falar, usar
palavras e um tom adequado para que o juiz compreenda o que se está a
dizer e explicar os termos técnicos usados.
» Usar corretamente o português e responder a uma pergunta com uma
resposta verbal apenas, como “sim”, “não”, “eu não entendi a pergunta”,
“poderia por favor repetir a pergunta”.
» Evitar respostas não verbais (balançar a cabeça, encolher os ombros,
rodar os olhos, sorrir de forma inadequada).
» Evitar usar calão ou piadas ou respostas sarcásticas, assim como evitar o
uso de palavras incriminatórias (culpa, julgamento, má prática, criminal,
negligente).
» Separar os depoimentos factuais das suas opiniões, não perdendo a
objetividade e não ficando entusiasmado com o depoimento. Se for
pedido que comente um hipotético cenário, pode dar a sua opinião, mas
deixando explícita a sua posição no caso.
» Levar o tempo que for necessário para considerar a pergunta e compor
uma resposta apropriada.
» Usar analogias para que o júri possa relacionar com o que está a dizer.
» Se se cometer, um erro reconhecer de imediato, sem ter medo de dizer
que se errou;
» Em caso de confronto com material estranho, dizer que não conhece, não
sabe.
» Fazer uma pausa antes de responder, e respirar fundo quando necessitar.
Lembrar que se deve respirar, pois sob stress as pessoas tendem a respirar
depressa. Respirar devagar leva à projeção da voz.
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» Falar claro e audível.
» Rever o caso antes de testemunhar.
» Evitar ser visto como arrogante, argumentativo, entediado ou defensivo.
» Não falar com jurados, advogados e juízes, enquanto estiver na sala de
espera.
» Estar pronto para desenhar.
O que não deve fazer
» Não discutir o caso fora do tribunal.
» Não elaborar, não preencher o silêncio; esperar pelo advogado ou juiz.
» Não dar a sua opinião e não expressar os sentimentos pessoais.
» Não fazer declarações definitivas; não usar palavras tais como nunca e
sempre.
» Não inverter testemunhos só para ser conveniente ou para embelezar a
versão.
» Não ter desculpas.
» Ter respeito e não fale baixo para o juiz.
» Não permanecer em tribunal depois de ter sido dispensado.
Cada caso deixa um rasto de registo, um registo de transcrição, do que foi dito em
tribunal.
O enfermeiro nunca deve comprometer a sua integridade ou reputação profissional,
devido a um caso. Deve escolher as palavras cuidadosamente, e lembrar-se que as
transcrições podem seguir através da carreira. O enfermeiro deve ter orgulho do que
faz, de quem é e do que sabe. A melhor forma dever um inocente em liberdade, assim
como ser feita justiça, é agir com profissionalismo e objetividade. Ser um enfermeiro
forense não significa que seja um robô, apenas um profissional que “usa dois chapéus”.
O enfermeiro forense é independente e imparcial como tal deve dizer a verdade
sem ter medo das consequências. É um formador e intérprete do seu trabalho, dos
protocolos e dos procedimentos. Deve ter a sua opinião sobre a relação que os achados
apresentam com a consistência da história, uma vez que a história é apenas a versão da
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UNIDADE II │ ENfErmEIro forENsE Em sItUAçõEs DIvErsIfIcADAs Em INstItUIçõEs DE sAúDE
vítima em relação aos acontecimentos. O enfermeiro forense não deve opinar sobre o
consentimento ou não de penetração, assim como não deve afirmar que existiu violação,
uma vez que não esteve no local e não testemunhou o acontecimento. Apenas deve
comparar os achados do exame com a história. Deve abster-se de comentar fatos da
vítima e do agressor.
O enfermeiro pode ser competente na identificação dos achados e vestígios, mas não
pode verificar o nexo de casualidade. Como perito deve tentar impressionar o tribunal
com profissionalismo, objetividade e conhecimento, sobre a realização do exame.
O testemunho deve basear-se na literatura atual, treino e experiência do perito. O
enfermeiro deve testemunhar sobre a condição da vítima, os vestígios recolhidos e
os fatos observados. Os pilares da imagem do enfermeiro forense são a aparência, acompetência, a linguagem não verbal, a postura e o discurso.
Com a sua competência você poderá fazer a diferença, não para o mundo, mas para
uma pessoa.
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CAPítulo 2
Papel do Enfermeiro forense na
Prevenção de Situações de violência
Em 1998, existiam 8.1 milhões de crimes de violência nos EUA, mas apenas 46% destes
crimes eram reportados à autoridade. Em Portugal, segundo os dados da Associação
Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV), durante o ano de 2012 ocorreram cerca de
20.300 fatos criminosos que se traduziram em 12.100 processos de apoio. Em 1994
cerca de 1,4 milhões de pessoas foram tratadas nos serviços de emergência por suspeita
ou confirmação de violência interpessoal.
Em 1996, o National Institute of Justice editou um relatório sobre os custos do crime
violento. Os dados foram obtidos do sistema judicial dos programas de proteção ao crime
e de unidades hospitalares. O impacto financeiro da violência apresentava montantes
de cerca de 400 biliões de dólares por ano (NIJ, 1997). O governo dos EUA pagou cerca
de 20 biliões de dólares em seguros de saúde e serviços médicos às vítimas de violência.
O crime custa às seguradoras aproximadamente 45 biliões de dólares anualmente.
O abuso de substâncias tem tido um papel importante no aumento da violência. As drogas
e o álcool são implicados nos acidentes de viação, na violência interpessoal, na agressão
sexual, no homicídio, no suicídio, assim como noutros comportamentos violentos.
A violência influencia como as pessoas veem o mundo, e altera os relacionamentos
individuais e familiares, sendo os resultados o ceticismo, o cinismo e o isolamento.
Papel dos profissionais de saúde
Os diversos eventos de violência incluem violência interpessoal, agressão sexual,
catástrofes, disputa de custódia legal, negligência, acidentes de trabalho, dependência
de álcool e droga incidentes terroristas, entre outros. Terão implicações para os
profissionais de saúde nos diferentes estabelecimentos (hospitais, clínicas e companhias
de seguro), agências governamentais, institutos de medicina legal e sistema judicial. É
imperativo que os profissionais de saúde desenvolvam “um olhar forense’, como parte
do seu desempenho profissional do dia a dia, questões como; “São as lesões consistentes
com a explicação dada?” são colocadas diversas vezes pelos investigadores; como tal,
os enfermeiros devem aprender os elementos básicos da área forense, incluindo como
documentar os dados forenses, como preservar vestígios, como denunciar os casos e,
se necessário, como defender ou explicar situações médicas em tribunal. As vítimas de
violência têm como prioridade assegurar a sua segurança.
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UNIDADE II │ ENfErmEIro forENsE Em sItUAçõEs DIvErsIfIcADAs Em INstItUIçõEs DE sAúDE
Uma vez estabelecida a segurança pessoal da vítima, a família e os amigos necessitam
de saber que não estão a ser julgados. Quando a vítima sente que alguém a está a escutar
sem fazer qualquer julgamento, os medos e a ansiedade são reduzidos. As vítimas
começam a acreditar que as suas necessidades serão satisfeitas. Explicar funções,
procedimentos e tratamentos a realizar dá uma imagem de confiança à vítima. Por
outro lado, a presença da família e dos amigos é importante para a vítima, como tal
esta necessidade deve ser considerada na abordagem forense. O enfermeiro deve ser
correto e respeitável quer para a vítima, como para a família ou mesmo para o agressor.
Atualmente os enfermeiros compreendem de forma mais avançada a anatomia e a
fisiologia da lesão ou a causa de morte, o que irá ajudar na sua abordagem.
Os enfermeiros também apresentam uma característica muito importante, a capacidade
de comunicação e interação, que irá quedar o indivíduo numa situação de crise, e que será
útil para prestar cuidados ao paciente em ambientes não controlados e imprevisíveis.
Os enfermeiros usam seu conhecimento em fisiologia humana para identificar as
alterações de comportamento e, por rotina, ensinam os pacientes e as suas famílias a
abordarem a sua saúde no que diz respeito à prevenção de doenças e de complicações.
violência e comportamentos violentos na
adolescência
A violência sobre as crianças nem sempre surge por parte dos adultos. Os padrões
de comportamento de risco e violência perpetuados entre crianças, adolescentes e
adultos jovens têm vindo a aumentar nos últimos anos (são bem conhecidos os casos
de gangues na adolescência). A principal causa de morte nos adolescentes com cerca
de 15 anos é o acidente, muitos deles são acidentes de viação. Os comportamentos que
contribuem para lesões não intencionais incluem falhas no uso do cinto de segurança
nos veículos, falhas no uso de capacete quando andam de moto ou bicicleta, e andarem
com condutores que ingeriram álcool ou estupefacientes.
O suicídio é a segunda causa de morte e o homicídio a terceira. Muitas destas mortes
podem ser evitáveis.
Os adolescentes apresentam tipicamente comportamentos de alto risco, tais como
experimentar drogas e álcool, conduzir a alta velocidade ou realizar atividades criminais
(assaltos etc.). Os que vivem em ambientes violentos apresentam maior probabilidade
de se tomarem violentos (Healtley Youth, 2010). Os comportamentos violentos incluem
transportarem uma arma, lutarem na escola, forçarem alguém a ter relações sexuais e
ameaçarem ou agredirem outras pessoas com uma arma. Também são alarmantes os
comportamentos alimentares tais como anorexia, bulimia ou o uso de comprimidos
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EnfErmEiro forEnsE Em situaçõEs divErsificadas Em instituiçõEs dE saúdE │ unidadE ii
para emagrecer, líquidos para vomitar e laxantes. O uso de drogas em adolescentes é
endémico. Tal como qualquer criança ou, jovem, as drogas estão disponíveis na escola,
na rua e em qualquer local. Um flagelo atual no jovem é o abuso de estimulantes tais
como Ritalina®. Muitos pais desconhecem os potenciais riscos desta droga e muitos
jovens preferem estas drogas porque acham que são “seguras”.
Etimologla do comportamento agressivo
As causas de comportamento agressivo estão relacionadas com o processo de
doenças orgânicas e uma variedade de fatores comportamentais. Não existem
respostas absolutas, contudo muitas teorias tentam explicar as razões que estão por
trás do comportamento humano e da violência. Após um ataque ou um incidente de
comportamento agressivo, os enfermeiros, às vezes, descrevem situações nas quais os
pacientes súbita e inesperadamente tomam-se agressivos, ameaçam ou são violentos
sem qualquer sinal prévio de aviso. No entanto, pode acontecer que alguns sinais não
sejam observados e como tal não são executadas intervenções adequadas.
Sem um treino adequado para abordar estes comportamentos, pode ser muito perigoso
para qualquer pessoa que esteja envolvida.
Abordagem do paciente violento
Tal como em qualquer paciente, deve ser feita uma abordagem focada na identificação
dos fatores de risco ou nas áreas de preocupação que podem indicar agressão ou serem
propensas de se tomarem violentas. Deve-se obter a história do paciente, recolhendo
informação sobre o comportamento psicossocial do paciente, o que irá determinar
qual é a área problemática. Durante a abordagem do paciente, deve-se desenvolver um
relacionamento de confiança que possa levar o mesmo a falar sobre riscos. Executar
uma abordagem do risco enquanto se efetua a recolha dos dados da história médica da
vítima pode possibilitar a compreensão sobre a possibilidade de o paciente estar em
risco para comportamento agressivo e/ou violência. Os detalhes da avaliação do risco
irão ajudar no plano de cuidados que deve incluir as intervenções específicas para a
abordagem do comportamento violento.
Interessa colocar algumas questões ao paciente para despistar o risco de violência. O
enfermeiro deve questionar o paciente sobre os seguintes temas:
» uso de armas no passado;
» história de comportamentos ou atos perigosos, impulsivos ou agressivos;
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» verbalizar a intenção de agredir os outros;
» abuso de substâncias;
» stress intenso recentemente;
» apoio social.
Durante a abordagem, é importante questionar o paciente sobre o uso de drogas e álcool,
pois pode diminuir as inibições e a capacidade de julgamento. Deve-se questionar a
que horas bebeu a última bebida e partilhar esta informação com a equipe médica
para que se possa medicar o paciente adequadamente. Porque os efeitos do álcool
no cérebro podem produzir agressividade e violência, deve-se averiguar se existe
história de consumo de álcool, que quantidade de álcool foi ingerida, em que período
de tempo o álcool foi consumido e se o álcool foi ingerido com drogas. Pequenas
quantidades de álcool, usualmente, produzem inibições e autoestima baixas, redução
da atenção, diminuição do julgamento e lentificação e coordenação dos movimentos.
Níveis elevados de álcool no sangue podem causar agressividade e alterações do
comportamento. Deve-se assegurar ao paciento que as informações prestadas são
confidenciais.
Durante a abordagem, o paciente pode reportar que tem uma história de doença mental;
no entanto, não se deve assumir de imediato que, como consequência, ele terá um
aumento potencial de risco, por apresentar um comportamento agressivo ou violento.
Os estudos recentes demonstram que o álcool e as substâncias de abuso contribuem
para atos de violência mais do que o diagnóstico de doença mental. A violência pode
ser um fator no qual os indivíduos podem ter uma diagnose dupla de doença mental, e
abuso de substâncias.
fatores de risco
As diferenças culturais e étnicas devem ser consideradas quando se avalia o paciente,
no que diz respeito aos fatores de risco para violência. No passado, o sexo era sempre
um preditor forte para a violência, com os homens a serem mais violentos do que as
mulheres. Embora muitos fatores de risco para a violência na adolescência sejam os
mesmos que noutros grupos, a violência que ocorre durante a infância pode permanecer
durante anos até à fase adulta. Em relação aos pacientes geriátricos, as causas de
comportamento agressivo podem ser agrupadas em três categorias (CHOU, 1996):
» Fatores do paciente: pacientes idosos com diagnóstico de demência,
síndrome cerebral orgânica ou história prévia de agressão.
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» Fatores ambientais: que podem levar a disparar comportamentos
agressivos, através de um estimulo ambiental excessivo que pode resultar
em confusão e agressão.
» Fatores de cuidadores: profissionais que cuidam de idosos podem ajudar
na prevenção da incidência de abuso, reconhecendo os potenciais riscos
associados com o medo e a ansiedade no idoso.
Os fatores de risco causal e protetivo são fatores que podem causar redução da hipótese
de violência. Estes fatores protetivos ajudam a manter um indivíduo no controle das
suas emoções. Os laços fortes e protetores dos membros da família e outras pessoas
significantes são uma mais-valia para estes fatores de risco. Os fatores de risco que
podem conduzir diretamente para comportamentos violentos são classificados como
fatores de risco causais. Identificando estes fatores que afetam um indivíduo, podemos
ajudar na determinação de uma resposta individual a na situação estressante. Um fator
causal pode ser intrínseco ou extrínseco.
gestão do comportamento violento
Embora existam muitas abordagens para lidar com a violência e com o comportamento
violento, é essencial reconhecer os primeiros sinais de frustração que lideram a
agressão. Uma compreensão básica do comportamento humano e um conhecimento de
técnicas específicas de comunicação, irão ajudar o enfermeiro forense a identificar os
fatores de risco que podem contribuir para um comportamento violento ou agressivo.
Porque o último objetivo para abordar o comportamento violento é parar a violência
antes que aconteça, o enfermeiro forense deve estar preparado, através de formação, de
políticas e procedimentos standard. A admissão ao hospital ou outro estabelecimento
de saúde pode ser extremamente estressante para o indivíduo, para a família e para
os amigos. Estabelecer um relacionamento de suporte entre colegas, pacientes e as
pessoas significantes para eles pode ajudar a minimizar as preocupações e as más
interpretações. Uma avaliação completa e focada no paciente irá identificar o fator de
risco que pode atribuir para o desenvolvimento de comportamento violento. Aprender
como comunicar efetivamente irá ajudar e facilitar no relacionamento terapêutico e a
compreender as expectativas, desejos e objetivos que se pretende.
Como cuidador, o enfermeiro deve aprender a comunicar efetivamente, o que exige
alguma prática e capacidade para escutar, observar, ouvir e responder (se necessário).
Também significa manter e praticar um equilíbrio emocional e focar a atenção em
situações de stress. Para uma comunicação efetiva, deve-se demonstrar que se ouve o
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que está a ser dito, e que se fala uma linguagem individual (falar ao nível da vítima),
refletindo os fatos e os sentimentos.
razões para um comportamento violento
De acordo com o conhecimento comum do modelo de comportamento violento, existem
quatro sensos básicos que podem contribuir para que uma pessoa possa agredir-se ou
agredir os outros: a frustração, o medo, a intimidação e a manipulação. A frustração
é uma emoção que pode ocorrer quando os objetivos individuais não são atingidos na
data programada; a sua presença na vida de uma pessoa pode ser um indicador útil
dos problemas que ela está a viver. O medo pode ser descrito como um sentimento de
ansiedade e agitação, causado por pavor, apreensão ou pela presença de perigo; pode
ser intrínseco ou extrínseco, e pode ser evocado quando um indivíduo sente que irá
ser atacado, ou que alguma coisa essencial para ele vai acontecer. A intimidação pode
ter um número elevado de significados: pode significar obrigar alguém a fazer alguma
coisa que ela não queira, ou fazer sentir-se tímido ou com medo; pode ser comunicada
por ação verbal ou não verbal (linguagem corporal), ou pode ser um medo individual
para tentar fazer alguma coisa. A manipulação no contexto comportamental pode ser
definida como uma ação que tenta influenciar os outros para o caminho que essa pessoa
pretende e quer, pode também ser usada como meio desonesto para causar uma falsa
crença a alguém. Um manipulador irá algumas vezes dar informações falsas, usar razões
falsas, distorcer a informação relevante ou brincar com as emoções das pessoas, para
acreditarem no que ele quer.
Ciclo da agressão
Quando ocorre medo e frustração, um indivíduo pode sentir-se ameaçado ou vulnerável
e perder o controle. Quando ocorre intimidação e manipulação, o resultado pode ser
a raiva. A raiva pode levar a um ato de violência tal como a tentativa de controlar o
ambiente.
Um método de reconhecer e identificar os comportamentos que podem levar a violência
é o ciclo de agressão. Aprender e compreender as fases do ciclo de agressão irá ajudar
os enfermeiros a identificar os padrões de escalada do comportamento e dar assistência
de forma adequada.
O ciclo de agressão identifica um padrão de comportamento que pode ser observado
em muitos indivíduos antes do ato de violência. Um indivíduo começa a aumentar o
stress, quando percebe uma ameaça e a intensidade das suas emoções aumenta. As
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suas respostas e reações à ameaça são cíclicas na sua natureza e podem ser observadas
em diferentes fases, cada uma delas associada com a resposta comportamental física e
psicológica, A primeira fase do ciclo de agressão é chamada de evento desencadeante.
O evento desencadeante é seguido pela fase de escalada, a fase de crise, a fase de
recuperação e a fasede depressão pós-crise.
A fase de evento desencadeante é iniciada quando um agressor percebe que existe uma
ameaça contra si. O agressor pode vivenciar sentimentos de frustração devido a estar
privado de alguma coisa de valor, ou simplesmente porque acha que está a ser ignorado.
Durante esta fase o agressor pode exibir comportamentos observáveis, uma vez que ele
sente que perde o controle.
Na fase de escalada, o indivíduo está preparado para lutar, podendo desafiar verbalmente
a potencial vítima, especialmente se a vítima está associada com percepção de ameaças.
Podem-se observar comportamentos tais como gritar, bracejar, bater contra paredes e
atirar objetos. Pode ser identificada nesta altura a necessidade de contenção química
ou física para prevenir a progressão para a fase seguinte, caso falhem outras técnicas.
É importante estar em alerta individual porque podem existir consequências para o
comportamento corrente.
Na fase de crise, o indivíduo ataca a ameaça que está a ser sujeito, geralmente esta
fase não dura muito tempo porque o indivíduo pode suster a energia requerida para
continuar o ataque.
Na fase de recuperação o indivíduo aparece mais relaxado, no entanto, ainda não
regressou à sua normalidade, por isso pode ocorrer outro ataque se ocorrer alguma
ameaça.
Na fase de depressão pós-crise, o comportamento individual pode mostrar sinais de
depressão ou sintomas emocionais de fadiga. Os comportamentos que podem ser
observados durante esta fase incluem: choro, esconder-se, dormir, deitar-se em posição
fetal ou envergonhar-se.
Alguns indivíduos podem não se sentir culpados ou envergonhados e podem sentir-se
habilitados para o evento violento. Qualquer interação com o indivíduo agressivo pode
ser extremamente estressante, mesmo para os mais experientes. É sempre importante
estar preparado, questionando-se se é capaz de manter o autocontrole. Para controlar
o ambiente, o enfermeiro deve manter o autocontrole e não permitir uma situação em
que o agressor controle a situação.
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técnicas para evitar a agressão
Sempre que possível, o enfermeiro deve tentar controlar a crise para evitar que se dê o
ataque. As técnicas para evitar a agressão incluem uma abordagem disciplinada para
controlar o seu próprio comportamento. Embora existam técnicas mecânicas para
evitar a agressão, que incluem métodos de fuga, existem métodos para evitar lesões que
podem ser descritos e abrangem: chamar ajuda, sair do caminho, encorajar o diálogo,
fugir, ser paciente e desviar-se dos golpes. Nunca se deve entrar no quarto do paciente
sozinho enquanto este se encontra num episódio de crise e nunca se deve virar as costas
ao paciente. O enfermeiro deve remover sempre qualquer objeto que possa ser usado
pelo paciente para atacar. Depois do ataque os membros da equipe que forem vítimas
de comportamento violento, devem reportar o incidente imediatamente ao chefe/
coordenador. Se existem lesões físicas ou emocionais, os enfermeiros devem deixar as
suas tarefas e devem ser observados no serviço de urgência, assim que seja possível
Quando se lida com um indivíduo agressivo, deve aprender-se a manter uma postura
relaxada, mãos avista, pronto para se mover rapidamente, sem demonstrar medo, usar
gestos lentos deliberadamente, evitar o contato físico ou usar apenas como forma de se
defender. Manter uma voz firme, calma e confiante, usar um discurso lógico calmo e
encorajador e repetir as frases, se necessário. É também importante ter a certeza de que
não se ignoram os avisos de alarme do agressor, nem as ameaças, estando atento para
a presença de tensão facial e linguagem corporal tensa. Recorde-se que deve manter o
controle, controlando as suas emoções.
Stalking - perseguição
O stalking é definido como uma conduta direcionada para uma pessoa específica, que
envolve proximidade física repetitiva, comunicação não consensual ou verbal, escrita ou
ameaças implícitas que podem causar uma experiência de medo e receio. A perseguição
é frequentemente reportada como crime, têm um impacto importante na vida e na saúde
mental das vítimas. A perseguição não é tendenciosa, pode afetar homens e mulheres,
assim como todas as culturas e classes económicas. Dados do estudo realizado em 1998,
indicavam que uma em cada 12 mulheres serão vítimas de perseguição, durante a sua
vida e um em cada 46 homens será vítima de perseguição, durante a sua vida. Nos
EUA cerca de um milhão de mulheres e 370.000 homens são vítimas de perseguição,
anualmente (TJADEN; THOENNES, 1998).
O fenômeno de perseguição existe e é conhecido há muitos anos. Um dos livros da
autora americana Louise May Alcott (1832), A long love chase, descreve em detalhe
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um meio explícito de stalking de uma heroína (Rosamond), pelo seu marido, que ela
deixou após diversos comportamentos de perseguição. Em Israel, nos últimos anos,
têm aumentado os casos em que a mulher é morta pelo seu marido ou companheiro,
o que tem levado a um aumento de reações por parte da população em geral. Malley e
Gothard descrevem a perseguição como um padrão anormal ou persistente de ameaças
ou comportamento de perseguição, dirigido a uma pessoa em particular. Os autores
consideram que é necessário mais do que um episódio deste tipo de comportamento
para estabelecer o diagnóstico. As características desta definição são o stress de natureza
continua da perseguição e o sentimento de sofrimento que assola a vítima.
Características comuns do comportamento de
stalking
Os comportamentos de perseguição variam bastante e têm escaladas de intensidade ao
longo do tempo, no entanto, todos têm uma coisa em comum, instituir medo na vítima.
Existem alguns comportamentos padrão (MCFARLANE, 1999):
» Chamadas telefónicas repetidas (por vezes de madrugada), usando
ameaças que habitualmente causam alterações psicológicas na vítima.
Este é um dos métodos mais comuns de perseguição desde que existe
telefone. Às vezes o perseguidor pode telefonar 100 vezes por semana.
» Usar o computador/Internet para ameaçar a vítima.
» Mensagens, faxes, enviadas para o local de trabalho da vítima, com
mensagens embaraçosas (fotos pornográficas, cartas de conteúdo sexual).
A ideia é danificar a imagem social da vítima no seu local de trabalho,
porque existe uma grande probabilidade de ser um colega da vítima a
receber as mensagens.
» Ir ao local de trabalho da vítima.
» Causar distúrbios no local de trabalho da vítima.
» Perseguir a vítima na rua sem chegar a ter contato físico. Rodear a vítima,
e a sua casa, (observar a casa durante horas). A perseguição pode ser a pé
ou em veículo.
» Contatos pessoais repetidos por vezes contendo ameaças e insultos, mas
também às vezes ganhar a confiança da vítima para estabelecer uma
conversação.
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» Danos na propriedade (carros, animais, destruição de bens).
» Vandalismo e danos na viatura da vítima.
» Provocar danos no telefone da vítima.
» Encomendar ou cancelar serviços tais como solicitar comida por take
away, chamar apoio policial.
» Lesão corporal e mesmo homicídio.
» Criar falsos rumores sobre a vítima.
» Usar 3 Internet para enviar ameaças e mensagens embaraçosas.
» Enviar ou deixar correio, cartões ou prendas para a vítima.
» Invasão de privacidade.
» Assalto da casa da vítima.
» Fazer falsas declarações e difamar a vítima.
» Vigiar a vítima, amigos e família da vítima;
» Ameaças de violência.
» Homicídio.
Existem quatro tipos básicos de perseguidores, que são os seguintes: perseguidor de
obsessão simples, perseguidor obsessivo por amor, perseguidor erotomaníaco e a
síndrome de falsa vitimização por perseguição. De todos os perseguidores 87% são
homens (TJADEN; THOENNES, 1998).
Perseguidor de obsessão simplesÉ o tipo mais comum de perseguidor, na maioria dos casos são homens (pie tiveram
relacionamento prévio com a vítima. Podem ter antecedentes criminais e foram
emocional e fisicamente abusivos durante o relacionamento. Cerca de 59% são vítimas
do sexo feminino e do sexo masculino e são perseguidos pelo seu companheiro. Cerca de
81% das mulheres perseguidas pelos companheiros foram agredidas fisicamente e 31%
foram agredidas sexualmente (TJADEN; THOENNES). De acordo com Mc Farlane et al.
(1999), 76% das vítimas femininas denunciaram a situação à polícia. Os perseguidores
masculinos tendem a ser mais perigosos e estão dispostos a matar a vítima para obter
o controle da situação.
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Perseguidor obsessivo por amor
Este tipo de perseguidor é um estranho para a vítima, mas que marca a sua presença
próximo dela, para que ela/ele sinta a sua presença. A perseguição compulsiva aparece
como parte de doença psicótica, habitualmente do tipo esquizofrénico. Também nesta
categoria o objeto é uma celebridade.
Perseguidor erotomaníaco
A maioria são mulheres que tendem a ter delírios e a acreditar que as vítimas as amam.
Muitas vezes apresentam doença mental, nomeadamente esquizofrenia e depressão
maníaco-depressiva. Estas perseguidoras não se encontram com a vítima, normalmente
não são casadas, são socialmente inativas e incapazes de manter um relacionamento
pessoal. Os estudos têm demonstrado que estes perseguidores têm sido os mais
complicados de todos os tipos de perseguidores ao longo dos últimos 1o anos (GROSS,
2000).
Síndrome de falsa vitimização por perseguição
Embora seja raro, existem pessoas que querem ser vítimas e como tal criam falsas
denúncias contra outras pessoas. Este tipo de pessoa pode criar denúncias para obter
vingança por alguma coisa que a pessoa tenha feito para o ofender. A pessoa que inventa
estas denúncias pode ser atualmente-um perseguidor. Holmes divide os perseguidores
em seis categorias:
» o perseguidor que tem como alvo celebridades;
» o perseguidor motivado por desejo sexual;
» o assassino profissional, que executa o seu trabalho de acordo com o
contrato;
» o perseguidor, que se vitimiza como resultado de um amor não
correspondido;
» a vingança de quem na sua opinião foi rejeitado ou injuriado pela vítima
por alguma razão;
» o perseguidor político, que tem ideologias políticas.
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Por seu lado, Muller e Purrell dividem os perseguidores em cinco categorias:
» o perseguidor rejeitado que desenvolve o seu distúrbio de comportamento
como resultado de um amor não correspondido;
» o candidato a intimidade, que corresponde a pessoas interessadas em
desenvolver relacionamentos amorosos;
» o incompetente, que compreende as pessoas com limite ou pouco
desenvolvimento de capacidades sociais, e que têm dificuldade em
compreender a rejeição da vítima;
» o ressentido, que consiste numa pessoa que persegue outra para obter
vingança porque se sente magoada por essa pessoa;
» o predador, em que o principal objetivo é agredir a vítima sexualmente.
feito da perseguição na vítima
A diferença entre perseguidor e os outros tipos de ofensas criminais é que, na maioria
dos casos, é um processo repetitivo e contínuo. As vítimas são expostas durante um
período longo de tempo, a vários tipos de perseguição, incluindo ameaças e experiências
traumáticas, por este fato podem ocorrer distúrbios emocionais importantes, que
podem levar a distúrbio agudo de stress, a distúrbios adaptativos (depressão, ansiedade
e distúrbios alimentares), e stress pós-traumático.
Por outro lado, a vítima poderá ter que alterar a sua vida, nomeadamente ter que trocar
de número de telefone ou carro, reduzir a atividade social, poderá ter dificuldade na
capacidade de confiar nos outros e mudar de morada (mudar inclusive de cidade), ou
mudar de emprego.
Papel do enfermeiro forense no stalking
O enfermeiro forense deve ter formação sobre em que consiste este tipo de crime, qual
o seu comportamento e qual o impacto nas vítimas, porque só assim poderá assistir
adequadamente as vítimas. O enfermeiro deve verificar qual o motivo que leva a
vítima a acreditar que está a ser perseguida. A vítima deve ser avaliada em relação às
consequências psicológicas e fisiológicas, que possa apresentar. Deve-se referenciar a
vítima para acompanhamento psicológico, e encorajá-la a reportar as suas preocupações
à autoridade. O enfermeiro deve encorajar a vítima a obter proteção, uma vez que
estas situações requerem cuidados de segurança, contra eventuais ataques. Deve ser
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notificada a família, os amigos e os vizinhos de confiança, para estarem atentos à
presença do perseguidor em redor da casa. O enfermeiro forense deve ensinar a vítima
a criar um plano de contingência, para que possa sair de casa a qualquer momento. Esse
plano contempla que a vítima tenha uma mala feita com os acessórios básicos. Ensinar
a vítima a estar atenta aos sons, e a variar as rotas de regresso a casa e ao trabalho.
A recolha de vestígios é crucial para o sucesso na investigação dos casos de perseguição.
Deve-se recolher qualquer carta ou nota escrita pelo suspeito, para pesquisa de ADN
por saliva e possíveis impressões digitais, assim como para ser realizada perícia de
grafologia. Os objetos enviados ou deixados pelo suspeito também devem ser recolhidos.
O enfermeiro forense deve encorajar a vítima a recolher vestígios e a documentar todos
os incidentes. Deve-se ensinar a vítima que, se for possível, deve fotografar ou filmar
o perseguidor e guardar todas as ameaças escritas e mensagens enviadas. Deve ser
avaliado e documentado o estado mental das vítimas e os registos devem incluir os
seguintes aspetos:
» A vítima mudou-se para um novo local?
» A vítima obteve um número de telefone novo?
» A vítima disse aos colegas, amigos ou família o que se passa?
» A vítima criou medidas de segurança no trabalho, casa ou escola por
causa desta situação?
» A vítima alterou o seu horário de trabalho?
» A vítima tirou algum curso de autodefesa?
» A vítima comprou gás pimenta, armas, ou cão de guarda?
» A vítima instalou algum sistema de alarme em casa ou no carro?
Devem ser obtidos vídeos de segurança do suspeito e/ou vítima. Equipamentos como
máquinas fotográficas, binóculos, câmaras de vídeo, computadores, faxes devem ser
recolhidos como vestígio.
Bullying
O bullying é uma subcategoria de comportamento agressivo que é especialmente
perverso. É um comportamento repetido contra uma vítima em particular, que é
incapaz de se defender efetivamente. O abuso de poder pela pessoa de bullying pode
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acontecer em qualquer grupo humano cujo poder relacional inevitavelmente existe. O
bullying deve ser entendido como um fenômeno escolar, no entanto, porque se gera
na própria escola, a comunidade educativa é que sofre as consequências. Os bullies
podem ganhar gratificações psicológicas, status no seu grupo ou vantagem financeira
por obterem dinheiro. O bullying pode ter lugar em locais onde não é fácil escapar, tais
como na escola, prisão, instituições de reabilitação de jovens e local de trabalho, no
entanto, também pode ocorrer em casa
Nos anos 1960, na Suécia ocorreu um interesse elevado nos problemas das vítimas de
bullying, sendo que rapidamente este interesse se estendeu aos países escandinavos. Nos
anos 1970 e 1980 o problema das vítimas de bullying era uma questão que preocupava
a comunidade norueguesa isto porque, em 1982, três rapazes entre os 10 e os 14 anos
cometeram suicídio devido a serem vítimas de bullying. Este acontecimento criou uma
tensão considerável na comunicação social e no público, que resultou numacampanha
nacional de combate aos problemas de bullying nas escolas primárias e secundárias.
O bullying é descrito por Olweus como uma subcategoria de comportamento agressivo
dirigido direta e repetidamente contra uma vítima que é incapaz de se defender.
Comportamento agressivo é definido como um comportamento intencional para infligir
lesão ou desconforto sobre outro indivíduo (OLWEUS, 1999). A característica principal
do bullying é o poder repetitivo e assimétrico que ocorre no relacionamento. Nem todas
as agressões envolvem bullying e nem todos os casos de bullying envolvem pressão.
relacionamento entre agressão, violência e
bullying
(OLWEUS, 1999)
O autor Olweus definiu bullying como ações repetidas e envolventes físicas e
psicológicas. Estas ações negativas incluem: bater, fechar em sala, dizer coisas
indecentes, humilhantes e provocadoras. O alvo do agressor pode ser alguém fisicamente
mais fraco ou a vítima, por seu lado, pode sentir-se física e mentalmente fraca em relação
ao agressor. O fenômeno do bullying é caracterizado por três critérios; comportamento
agressivo ou dano Intencional, repetido e a todo tempo e o relacionamento interpessoal
é caracterizado por desequilíbrio de poder.
Características principais do bullying
É um comportamento de natureza claramente agressiva. É uma conduta que se
reporta no tempo com certa consistência. A relação que se estabelece entre o agressor
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e a vítima caracteriza-se por um desequilíbrio ou assimetria de poder, os alunos que
sofrera bullying apresentam alguma desvantagem em relação a quem os agride.
Estas desvantagens podem ser pela idade, força física, capacidades sociais, condição
socioeconómica, entre outras. São atos que têm como intenção provocar danos; no
caso dos rapazes, a sua forma mais frequente é a agressão física e verbal, enquanto
nas moças, a sua manifestação é mais indireta, tomando frequentemente a forma de
isolamento da vítima ou exclusão social. A violência tende a diminuir com a idade, e o
seu maior nível de incidência é entre os 11 e os 14 anos. O cenário mais frequente com
as crianças do Ensino Primário é o pátio do recreio, enquanto nos alunos do Ensino
Secundário pode ocorrer noutros locais tais como aulas, casas de banho, vestuários,
trajetos para a escola, no regresso a casa e nas trocas de sala.
Consequências do bullying
Para a vítima as consequências podem ser: dificuldades escolares e baixas (qualificações,
alto nível de ansiedade, deterioração da autoestima, fobia escolar, falta de apetite,
pessimismo, quadros depressivos, abandono escolar e repercussões negativas no
desenvolvimento da personalidade sendo que no extremo pode levar ao suicídio. Para
o agressor as consequências são: baixo rendimento escolar, suspensões e queixas
isolamento, incompreensão e problemas legais. O bullying tomou-se um tópico de
preocupação pública e de pesquisa. As razões são: por um lado, as consequências
psicológicas nas vítimas de bullying e o clima escolar; por outro lado, o valor preditivo
desta variável para o comportamento violento na adolescência (KILLIAS, 2001).
O bullying a curto e a longo prazo provoca consequências psicológicas pouco
recomendadas. Vítimas e agressores de bullying tendem a ter um número elevado de
sintomas físicos e psicológicos tais como sintomatologia depressiva, ideias suicidas
severas, sintomas psiquiátricos e psicossomáticos, distúrbios alimentares e são mais
frequentemente referenciados para apoio psicológico. As consequências nos bullies e
nas vítimas são muito similares (TTOFIAND; FARRINGTON, 2008).
Alguns estudos sugerem que a maioria das crianças é vítima de bullying no ambiente
escolar. De acordo com o National Center for Education Statistics “o bullying ocorre
mais no Ensino Secundário do que no Primário”. O estudo elaborado por Olweus (1999)
faz uma distinção entre violência na escola e no caminho para a escola O resultado da
investigação na Noruega e na Suécia demonstra que existem duas vezes mais alunos
atacados na escola do que no caminho para a escola e no colégio três vezes mais. Na
Suíça os estudantes mencionaram os seguintes locais, por níveis similares de atividade
de bullying. No caminho para a escola, nos intervalos e nas salas de aulas. Cada
categoria apresenta cerca de um terço de estudantes, nos corredores cerca de 20%,
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enquanto nas casas de banho menos de 3%. O problema assenta no fato principal de
que muitas crianças não dizem aos professores o que aconteceu. Mais de um terço dos
estudantes sentem-se inseguros na escola por causa do bullying e não denunciam estes
comportamentos aos profissionais da escola porque estão assustados. Outro problema é
que os adultos pensam que dificuldades deste tipo podem ser resolvidas pelos próprios
jovens (ALSAKEN, 2003).
fatores demográficos e psicológicos
correlacionados com o bullying
Para explicar o bullying teremos que introduzir diferentes contributos de fatores
identificados na literatura. As variáveis foram organizadas em 4 grupos diferentes:
fatores da criança, fatores familiares, fatores escolares e fatores de vizinhança.
fatores da criança
Pesquisas prévias sobre bullying indicam a existência de diferenças por sexo e pelo
tipo de comportamentos exibidos pelas crianças e/ou adolescentes. Verificou-se que os
rapazes são mais agressores do que as moças, e que são mais frequentes a usar bullying
físico e ameaças verbais. Em contraste, as moças usam provocações sociais e verbais,
incluindo rumores e difamações sobre estudantes (BOULTON, 1992).
fatores familiares
Os bullies tendem a pertencer a famílias com situações problemáticas, e têm pais que
usam métodos errados de disciplina. Muitos deles também foram rejeitados pelos pais e
disciplinados por meio de castigo físico. A violência é encorajada pelos pais e o bullying
está associado a relacionamentos pouco afetivos com os pais (JUNGER, 1999).
fatores escolares
O bullying está muitas vezes associado à diminuição de supervisão, no entanto as
características do bullying diferem de uma escola para a outra. Os fatores mais
importantes são a qualidade de ensino e a intensidade de supervisão na sala de aula e
nu recreio. O aumento da violência escolar parece estar relacionado com os professores
que são incapazes de manter a ordem na sala de aula. Escolas situadas em zonas de
desemprego, pobreza, drogas e de violência também têm influência no bullying, esta
situação foi confirmada por um estudo realizado na Holanda, Canadá e Inglaterra
(JUNGER, 1999).
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EnfErmEiro forEnsE Em situaçõEs divErsificadas Em instituiçõEs dE saúdE │ unidadE ii
fatores de vizinhança
Na Holanda foram estudados os aspetos negativos da presença de vizinhança junto da
criança (JUNGER, 1999).
Evenção do bullying
O autor Olweus (1987) enfatizou que a tendência psicológica para o comportamento
agressivo parece estar na origem do bullying e que não é imutável. O primeiro programa
anti-bullying, em grande escala, foi implementado na Noruega, em 1983, tendo
ocorrido uma redução de 50% no número de incidentes. Olweus mencionou que dois
aspetos determinaram a quantidade de agressões que ocorriam nas escolas: a presença
de valores fortes na escola condenando a violência, e o fato de os professores terem
responsabilidade, quando testemunham os incidentes.
Papel do enfermeiro forense no bullying
Os enfermeiros forenses que suspeitem que uma criança está a ser vítima de bullying
podem providenciar imediatamente apoio e devem encorajar a vítima a expor os seus
sentimentos, assim como devem contatar e envolver os pais, referenciando ambos para
os serviços de apoio.
Os enfermeiros têm um papel importante nas escolas ao estarem envolvidos na redução
da frequência e gravidade do bullying, despertando os alunos para os sinais de bullying,
encorajando o aumento desupervisão pelos professores e no desenvolvimento de
métodos para reduzir a incidência de bullying na escola. Os enfermeiros forenses têm
um papel modelo e podem ser proativos por meio de iniciativas de colaboração dos
alunos, pais, professores e direção da escola na irradiação do bullying.
O enfermeiro forense deve fomentar a comunicação, o diálogo, a participação e o
trabalho cooperativo entre pais, alunos e professores, implementando programas de
prevenção e intervenção, procurando estratégias, que corrijam ou previnam a violência
escolar. Deve estabelecer-se e debater-se uma série de normas e regulamentos, que sejam
aceites por todos os afetados (professores, alunos e pais), para fomentar a competência
em temas que contribuam para prevenir os problemas de disciplina e agressividade. O
enfermeiro deve propor projetos e planos para a formação dos professores e participar
neles, tal como na realização de investigações, publicações e projetos sobre o tema. É
importante formar uma comissão especial de abordagem da violência escolar e implicar
aos pais e as entidades locais na discussão do tema O enfermeiro forense deve abordar
o tema por meio de cursos, conferências ou palestras.
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UNIDADE II │ ENfErmEIro forENsE Em sItUAçõEs DIvErsIfIcADAs Em INstItUIçõEs DE sAúDE
violência no namoro
A violência no namoro ocorre no contexto de relações imaturas. Muitas adolescentes
são agredidas fisicamente por alguém que elas conhecem. Trata-se de um ato ou ameaça
de violência por alguém ou ambos os membros de um casal contra o outro membro. Os
estudos indicam que cerca de 65% dos relacionamentos incluem violência e ameaças.
Os fatores de risco incluem o pensamento imaturo, a inexperiência devido à idade e a
escolha do estilo de vida. Os indicadores comportamentais incluem um aumento do
número de parceiros, aceitar a violência no namoro e vitimização prévia de agressão
sexual. Os jovens inexperientes assumem, erradamente, que um parceiro violento e
controlador irá mudar com a vinda do casamento.
O abuso físico e emocional durante o namoro é indicativo de que se irá manter o
comportamento abusivo durante a relação. Assim que, a potencial vítima esteja desperta
para as tendências que o companheiro possa ter, a única opção segura é estabelecer
limites no comportamento da pessoa e ser intransigente sobre isso, ou a alternativa é
terminar o relacionamento. Embora os homens sejam responsáveis pela maioria dos
casos de violência no namoro, nem todos os agressores são homens e nem todas as
vítimas são mulheres. As características dos agressores de violência no namoro são
similares aos que cometem violência doméstica e agressão sexual. Ele abusa do álcool e/
ou drogas, perde o seu controle facilmente e dispara o comportamento violento contra
objetos, animais e/ou pessoas. É ciumento, vigia a sua parceira de perto, pede todos
os detalhes das atividades da parceira, obriga-a a fazer o que ele acha correto, exibe a
necessidade de controle absoluto e demonstra o controle por meios físicos.
Historicamente, o estereótipo sexual sugere que os homens têm que ter o controle e
as mulheres devem ser passivas. Estes pontos de vista do domínio dos homens têm
sido incentivados por algumas famílias, que encaram a coerção ou força como estando
justificada no relacionamento sexual. Pais e professores devem encorajar os jovens para
questionarem este tipo de estereótipos sexuais, e devem ensinar quais são as atitudes
e comportamentos mais adequados sobre os relacionamentos. Os jovens devem ser
alertados para os indicadores que o parceiro possa apresentar para se tomar abusivo,
isto inclui; não querer saber o que os outros estão a dizer, tomar-se hostil quando a outra
pessoa diz “não”, acusar o parceiro de ser “nervoso”, tentar fazer com que o parceiro se
sinta culpado e atuar de forma agressiva, possessiva ou ciumenta.
Tal como todas as vítimas de abuso, muitas sentem-se isoladas e sozinhas. Muitas
adolescentes mantêm a violência no seu relacionamento escondida dos pais, porque
pensam que tal comportamento “não é um grande problema”. Quando abordam
pacientes adolescentes, os enfermeiros necessitam de estar atentos para a possibilidade
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EnfErmEiro forEnsE Em situaçõEs divErsificadas Em instituiçõEs dE saúdE │ unidadE ii
de o paciente ser vítima de violência no namoro em como tal, devem entrevistar o
adolescente com cuidado. Deve-se providenciar um local isolado e deixar patente a
confidencialidade da conversa. A privacidade e o respeito encorajam a vítima a discutir
as suas preocupações. Se for possível, o enfermeiro forense deve encontrar um caminho
para incluir os pais, principalmente quando se pretende desenvolver um plano de
segurança.
Ciclo da violência
A violência no namoro manifestasse no exercício do poder por meio de agressões
psicológicas, econômicas, físicas ou sexuais, ou seja, em atos que afetam os direitos que
o ser humano tem.
Papel do enfermeiro forense
O enfermeiro forense deve desenhar ações orientadas para a sensibilização e prevenção
da violência, estabelecer uma comissão que apoie e crie políticas de esclarecimento e
apoio dos jovens, e que fomentem as práticas como diálogo e negociação em diversas
atividades.
Deve ainda proporcionar a análise dos estereótipos de gênero e fomentar as trocas dos
papéis estabelecidos, enfatizando que os papéis de gênero são construções socioculturais
que podem modificar-se e que são aprendidos. O enfermeiro deve fomentar as práticas
nos papéis de gênero que sejam compartidas por ambos.
A importância do papel dos pais na
prevenção do abuso sexual infantil
Pretende-se com este tema mostrar a importância de ensinar educação sexual, bem
como incentivar a educação sobre o abuso sexual às crianças, o mais cedo possível. Os
estudos mostram que os pais desempenham um papel importante na prevenção, mas
muitos não têm a informação e formação adequada para abordar o tema com os seus
filhos. A fim de dar a prevenção do abuso sexual infantil nos seus próprios filhos, os
pais devem ser informados sobre os diferentes tipos de predadores, os fatores de risco
que podem aumentar, a vulnerabilidade de uma criança para se tornar uma vítima, e
os sinais de alerta que precedem o abuso real. Dando aos pais ensino adequado sobre
os temas, podemos fornecer-lhes ferramentas preventivas para manter as suas crianças
seguras.
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UNIDADE II │ ENfErmEIro forENsE Em sItUAçõEs DIvErsIfIcADAs Em INstItUIçõEs DE sAúDE
Prevenção parental
O abuso sexual pode acontecer em qualquer lugar e a qualquer pessoa. Não há ligação
entre classe social, etnia ou níveis de ensino nas ocorrências de abuso sexual. O estudo
realizado por Baker afirma que, nove em cada 10 predadores são conhecidos da vítima
na forma de familiares, treinadores, professores (BAKER, 2002). Ele também afirma
que, as figuras parentais do sexo masculino são o tipo mais comum de agressores, não
familiares do sexo masculino são o segundo tipo mais comum, e que os parentes do
sexo masculino são o terceiro tipo mais comum (BAKER, 2002). Os estudos mostram
que os pais desempenham um dos papéis importantes na prevenção do abuso sexual
na infância, educando os seus filhos sobre isso, no entanto, é comum que os pais
tenham alguma dificuldade em falar com os filhos sobre educação sexual, e muito mais
dificuldade apresentam quando o tema é o abuso sexual.
Quando os pais estão diretamente envolvidos com a educação sexual dos seus filhos,
incluindo o abuso sexual, criam uma linha aberta e honesta de comunicação com eles.
Os pais também estão mais preparados do que qualquer outra pessoa, para determinar
o nível de aprendizagem do seu próprio filho, as necessidades individuais e adequar a
sua discussão de forma apropriada. As crianças também beneficiam em aprender no
seu próprio ambiente e são mais propensas a receber informações repetitivas.
Mas a realidade é que os pais falam muito pouco sobre educação sexual ou abuso
sexual com os seus filhos. Outro estudo realizadopor Elrod e Rubin (1993) constatou
que 92% dos pais nomearam-se como a fonte preferida de educar os seus filhos sobre
o abuso sexual. Embora eles afirmem ser a fonte preferida de ensino, a maioria dos
pais foca-se na autodefesa, dizendo que não devem falar com estranhos, no entanto,
os fatos indicam que o agressor é geralmente um membro da família ou amigo da
família. O estudo concluiu que, como resultado, “as crianças vão receber informações
parciais ou inexatas que podem não ser o mais importante e relevante para a prevenção
do abuso sexual” (RENK, 2002). Os pais devem ser formados corretamente sobre os
fatos que envolvem o abuso infantil. Uma das primeiras coisas que os pais devem
saber é quantos tipos diferentes de predadores existem, e serem capazes de reconhecer
algumas das suas características mais comuns. Existem quatro tipos de predadores
de que os pais devem estar cientes: pedófilos, molestadores de crianças, agressores do
sexo feminino e menores infratores.
Mais uma vez, se os pais estão cientes destes diferentes tipos de jovens infratores
sexualmente abusivos e das suas características, podem tomar medidas para garantir
que os jovens que apresentam estas características não tenham acesso aos seus filhos sem
supervisão, independentemente das circunstâncias. Ao contrário dos jovens infratores
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EnfErmEiro forEnsE Em situaçõEs divErsificadas Em instituiçõEs dE saúdE │ unidadE ii
sexualmente abusivos, os delinquentes de abuso entre irmãos são os responsáveis pelo
relato de abuso sexual de menores.
Os médicos relatam que apenas 2% de todos os casos de abuso sexual entre irmãos nunca
são reportados devido à vergonha, medo, e ao fato de as famílias não quererem que os
outros saibam o que aconteceu (BAKER, 2002). As emoções de um divórcio, assim como
outras perdas, podem ser direcionadas para os irmãos na forma de agressão e raiva,
a fim de libertar os sentimentos reprimidos. Outro fator de risco que os pais podem
evitar é nunca permitir que uma criança que tem deficiência cognitiva fique a tomar
conta dos seus irmãos. As crianças que foram diagnosticadas com transtorno do humor
bipolar, ou dificuldades de aprendizagem não verbais nunca devem ser colocadas numa
situação de terem que cuidar dos irmãos mais novos. Outros sinais precursores que os
pais podem observar incluem: abuso físico ou verbal que ocorre entre irmãos, filhos que
foram expostos ou têm acesso a pornografia e as crianças que não têm a oportunidade
de conviver com os colegas e não têm as habilidades de socialização adequadas. As
relações entre pares são essenciais para o desenvolvimento da autoestima, socialização
e identidade sexual. Aqueles que não têm essas oportunidades são mais propensos a
recorrer aos seus irmãos para experimentar e para satisfazer as suas necessidades.
Baker também explica que é importante perceber que nem todos os jovens infratores
exibem os padrões fixos de abuso sexual, que são encontrados nos adultos, e que a
intervenção precoce é a chave para redirecionar o seu comportamento sexual antes de
se tomar um padrão fixo. As suas ações de abuso podem surgir apenas por curiosidade,
experimentação ou pela influência dos pares.
Segundo Baker as 10 características mais comuns de um predador são as seguintes;
» recusa de assumir a responsabilidade pelas suas ações e culpar os outros
ou as circunstâncias pelos fracassos;
» senso de direito;
» baixa autoestima;
» necessidade de poder e controle;
» falta de empatia;
» incapacidade para formar relacionamentos íntimos com adultos;
» história de abuso;
» infância conturbada;
» comportamentos e atitudes sexuais desviantes;
» abuso de drogas/álcool.
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UNIDADE II │ ENfErmEIro forENsE Em sItUAçõEs DIvErsIfIcADAs Em INstItUIçõEs DE sAúDE
Ao serem capazes de vincular certos comportamentos com os predadores, os pais
podem decidir como limitar o acesso dessas pessoas aos seus filhos, especialmente
se forem membros da família. Mais uma vez, muitas pessoas podem exibir essas
características e não serem molestadores, mas é importante que os pais estejam cientes
dos comportamentos que podem servir nos sinais de alerta.
Suicídio
O Center for Disease Control and Prevention reporta que o suicídio na adolescência é a
terceira causa de morte nas idades entre os 15 e os 24 anos. Morrem mais adolescentes
e jovens adultos de suicídio do que de cancro. O enforcamento é o método mais
comum para cometer suicídio entre os jovens. Os fatores de risco são as características
associadas com o suicídio e que podem ou não ser causas diretas;
» história familiar de suicídio;
» história familiar de maus tratos em criança;
» história de prévias tentativas de suicídio;
» história de abuso de álcool e substâncias;
» sentimento de desespero;
» isolamento, sentimento de ser rejeitado pelos outros;
» tendências agressivas ou impulsivas;
» história de depressão ou outra doença mental;
» barreiras no acesso a tratamento de saúde mental;
» evento de vida estressante ou perda (relacional, social, trabalho ou
financeiro);
» crenças religiosas e culturais;
» acesso facilitado a métodos letais;
» encarceramento.
Tem também aumentado o risco de suicídio na comunidade homossexual, especialmente
entres homens.
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EnfErmEiro forEnsE Em situaçõEs divErsificadas Em instituiçõEs dE saúdE │ unidadE ii
Papel do enfermeiro forense
Os enfermeiros forenses contribuem para a redução do suicídio juvenil em muitos
meios. Tal como outros traumas interpessoais, eles podem ser os primeiros a reconhecer
os sinais de depressão, abuso de substâncias, doença mental e desespero nos pacientes
adolescentes. Os enfermeiros são mais efetivos quando usam as suas competências para
ouvir os pacientes, quando compreendem a sua dor e ajudam o paciente a elaborar um
plano para solucionar o seu desespero. Os enfermeiros sabem que o suicídio é prevenido
e que é um problema de saúde grave. Eles conhecem os elementos básicos psicológicos
da origem da depressão, como tal podem explicar ao paciente as complicações.
O enfermeiro forense pode ainda ajudar no treino dos profissionais que trabalham
em serviços sociais e noutros serviços de apoio, no reconhecimento e resposta aos
indivíduos em risco de suicídio. Por meio de colaboração e de esforço com as escolas,
igrejas, membros da comunicação social, serviços sociais e outras instituições, podem
ajudar a comunidade a desenvolver planos de prevenção do suicídio. É extremamente
importante uma intervenção precoce nos indivíduos que estiveram expostos ao
trauma ou violência. Em primeiro lugar, é prioritário assegurar a segurança física do
adolescente, e em seguida criar um “ambiente seguro” onde a exposição ao risco possa
ser reduzida ou mesmo eliminada. Nos cuidados a crianças que foram expostas a eventos
traumáticos é importante proteger as vítimas da interferência que a comunicação
social possa ter sobre a divulgação do caso. O enfermeiro pode identificar as crianças
que vivenciaram sintomas de distúrbios agudos e providenciar cuidados imediatos,
encorajando a criança a expressar os seus sentimentos, mas sem forçar a comunicação,
ouvir os medos da criança e as preocupações, e dizer que são sentimentos normais
quando ocorre algo. Devem, ainda, reforçar à criança, que o evento não foi da sua culpa
e que agora ela está segura.
Pornografia infantil
A pornografia infantil é um crime. Os adolescentes são particularmente vulneráveis
para serem vítimas de pornografia. Algumas crianças são púberes e pré-adolescentes
e são abusadas por alguém que legitimamente tem acesso a elas. Muitos agressores
são os próprios pais ou parentes, amigos da família vizinhos, professores, treinadores
etc. Como em todas as formas de abuso de menores, os enfermeiros forenses devem
denunciar todos os casos, proceder a avaliação das vítimas, recolha de vestígios,
documentação e encaminhamento para comissão de proteção de menores.
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UNIDADE II │ ENfErmEIro forENsE Em sItUAçõEs DIvErsIfIcADAsEm INstItUIçõEs DE sAúDE
Considerações finais
A violência é um flagelo em todo o mundo. A identificação é a chave para parar o ciclo
da violência. Os enfermeiros forenses podem ter ações importantes nestes casos. O
enfermeiro forense deve desenvolver uma atividade forense de suspeita e só assim estará
atento às questões forenses nas crianças e nos adolescentes. Os enfermeiros forenses
necessitam, ainda de reconhecer que apenas uma fração das vítimas jovens necessita
de cuidados médicos físicos, na realidade o que elas necessitam é de uma intervenção
psicológica por uma equipe multidisciplinar.
É essencial aprender a reconhecer os sinais de comportamento violento e prevenção do
comportamento agressivo, para segurança do paciente e dos profissionais de saúde. Para
ajudar a manter um local de trabalho seguro os enfermeiros devem ter procedimentos
instituídos, e devem ter a capacidade para identificar os fatores de risco e os sinais
possíveis de ataque, assim como controlar a situação para prevenir o possível ataque.
Embora nós nunca possamos ser capazes de explicar porque as pessoas desta forma
e porque se tornam violentas, podemos aprender a identificar os comportamentos
e prevenir os atos violentos. É muito importante aprender e aplicar técnicas de
comunicação. O sistema de saúde pode ser um instrumento para implementar uma
abordagem colaborativa, através de estratégias públicas de educação, trabalho com
outras instituições, e apoio agressivo para a penalização judicial dos crimes cometidos
contra crianças.
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CAPítulo 3
desvio e Educação
A oferta universitária no domínio das ciências criminais, dos comportamentos
desviantes e áreas afins, a par do aprofundamento de áreas como as políticas e estudos
de segurança, verificou um aumento de oferta sem precedentes, sobretudo na última
década. Não só por contágio de uma determinada corrente de séries televisivas (onde
pontifica o CSI), mas também porque vivemos numa sociedade de risco onde é visível,
cada vez mais, uma verdadeira geografia do medo (que nem sempre coincide, como
sabemos, com a geografia do crime) que conduz à procura de soluções por parte dos
decisores políticos.
Este aspecto torna-se ainda mais significativo quando o Brasil demonstra ter a
necessidade de ouvir especialistas estrangeiros sobre algo que nos parece evidente, mas
que ainda assim, atrai poucos adeptos.
A temática em análise ganha pois especial pertinência numa obra dirigida sobretudo a
enfermeiros, profissionais que lidam de perto com as pessoas, com as suas fragilidades,
angústias e incertezas, e que, por essa via, devem estar atentos aos sinais, desenvolvendo
a capacidade de perceber que cada ser humano e um universo complexo e que encerra
em si mesmo, muitas das vezes, um lado mais obscuro e visível apenas aos espíritos
mais despertos. É esse o nosso propósito, rumo ao qual espetamos ter conseguido uma
aproximação através de uma linguagem acessível.
desvio e educação
As matérias relacionadas com o lado mais oculto do ser humano desde sempre cativaram
a atenção das pessoas. A curiosidade foi sempre imensa. Recordo o episódio do triplo
homicídio ocorrido em fevereiro de 2o12 na cidade de Beja, em que um homem de
uma família de classe média, assassinou à facadas a sua esposa, filha, neta e animais
domésticos. E que, inclusivamente, durante uma semana, conseguiu conviver com esse
cenário em casa, com os cadáveres deitados nas suas camas, até o momento em que
a polícia procedeu à sua detenção. Nessa altura, quem lidou mais de perto com esse
episódio sentiu na pele os efeitos da curiosidade imensa das pessoas. As interrogações
(com origem em todos os cantos do país) foram uma permanente: o que leva um homem
a cometer um ato com esta dimensão? Como é que foi capaz de matar a família, no
silêncio da noite, enquanto dormiam, confiantes na segurança do seu lar e daquele que
também tem o papel de guardião?
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UNIDADE II │ ENfErmEIro forENsE Em sItUAçõEs DIvErsIfIcADAs Em INstItUIçõEs DE sAúDE
Vejamos outros exemplos recentes para nos apoiar na presente reflexão. O que é que
leva um pai a abusar sexualmente da sua filha durante quatro anos (desde os 10 anos
de idade da menina) e permitir que os seus dois filhos (de 18 e 13 anos) fizessem o
mesmo enquanto o pai observava, corno aconteceu em determinada cidade (da qual
não iremos citar por motivos éticos)? O que é que leva um indivíduo a atrair menores
nas redes sociais para depois consumar atos de chantagem sexual? O que é que leva
um homem, que em Portugal tem uma vida dita “normal”, a deslocar-se ao Brasil
para satisfazer o seu ímpeto sexual, inclusivamente com bebês de colo? E que mãe
é esta que deixa o seu filho com um cliente sozinho durante uma hora? Em suma,
como é possível fazer mal a outro ser humano, na maioria das vezes mais vulnerável,
contrariando toda uma lógica racional sob a qual assenta o nosso desenvolvimento
secular enquanto seres com capacidade de controlar os nossos estímulos mais
primários?
São perguntas profundamente inquietantes como estas que, subitamente, invadem o
espírito do ser humano quando toma conhecimento de realidades que lhe causam tanta
estranheza, sobretudo por configurarem comportamentos extremamente irracionais.
O ser humano sente, assim, uma atração natural por tudo o que diga respeito ao lado
mais primitivo da sua raça, sobretudo aspetos que se consideram muito próximos dos
aspetos mais negativos da nossa condição animal, mas que de certa forma, tentamos
ignorar. Mas ela está sempre presente, latente, a aguardar um argumento para ser
reavivada. Por vezes, acontece com excessiva facilidade.
São estas interrogações, e inúmeros episódios de práticas desviantes similares, que vão
invadindo o seio dos lares, sobretudo através da comunicação social, que nos devem
manter despertos para esta realidade. Se é verdade que o Homem trilhou um longo
caminho até atingir o atual estágio, onde somos capazes de gerar relações de solidariedade
e onde impera a razão; não é menos verdade que alguns sinais reforçam a ideia de que
o ser humano está cada vez mais impulsivo, que reage com mais agressividade e que
sente maior dificuldade em controlar os seus estímulos mais primários.
O ser humano, como sabemos, é um produto do somatório das suas vivências desde
que nasce até que lhe colocam termo à vida. É o resultado das experiências positivas e
negativas que foram percepcionadas, visualizadas ou transmitidas pelos pais, os avós,
os irmãos, o grupo de amigos, os professores, a comunicação social, a Internet; de
episódios mais ou menos marcantes e do meio envolvente. Somos, pois, um produto do
nosso contexto histórico, social, econômico, político e familiar.
Nessa medida questionamo-nos, não raras vezes, sobre o porquê de uma tendência
crescente para o aumento da violência e agressividade entre as pessoas. O que mudou
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EnfErmEiro forEnsE Em situaçõEs divErsificadas Em instituiçõEs dE saúdE │ unidadE ii
nas últimas décadas? Vejamos, brevitatis causa, alguns dos exemplos que têm sido
decisivos.
Para já é óbvio que, em geral, sobretudo após os anos 196O do século passado (na
Europa), foi alimentada uma certa aversão ao peso da autoridade nas nossas vidas. Isso
é evidente na atual dificuldade de imposição dos pais junto dos filhos, dos professores
junto dos alunos e das autoridades policiais junto dos cidadãos. Uma mera abordagem
a um condutor no âmbito do direito rodoviário é elucidativa e sintomática. Em regra,
o cidadão que é abordado por um agente de autoridade exterioriza uma reação nativa.
Mesmo que tenha cometido uma infração grave, reconhece que o agente tenha sido
extremamente educado, os jovens geralmente revidam enquanto que as pessoas com
mais idade, existe uma maior predisposição para o acatamento da voz da autoridade.
Porque a educação, de fato, não foi a mesma. A dificuldade dos pais, por exemplo, é de
tal forma evidente que começaram a surgir empresas com pacotes de formação com o
intuito deensinarem os pais “a serem pais”.
Por outro lado, a massificação do ensino e o acesso às novas tecnologias gerou, como seria
de esperar, uma massa humana mais crítica, mais esclarecida e com um maior poder de
questionamento. Contudo, esse questionamento chegou a um ponto insustentável, na
medida em que se assiste, com muita frequência, a um questionar permanente, assente,
muitas das vezes, em meras opiniões balizadas pelo senso comum, sem que alguém
saiba explicar que o questionamento deve estar escudado em argumentação sólida. E
que a opinião dos mais velhos deve ser tida em consideração, pela experiência, pelo
conhecimento acumulado ao longo de décadas, pelas “quedas” ao longo da vida. E que
o respeito também se transmite através da capacidade de saber escutar em silêncio.
A adesão à CEE e a consequente abertura das fronteiras também trouxe uma nova
realidade. Portugal deixou de ser um país fechado em si mesmo, passando a ser um polo
de convergência de pessoas com origens e hábitos distintos. Esta realidade, associada
à chegada dos portugueses residentes nas antigas colónias do ultramar e aos ciclos
de imigração (ciclo africano, ciclo brasileiro e ciclo do leste da Europa), representam,
agora, uma sociedade portuguesa selada, multidiversa, que depressa teve de aprender
a conviver com a diferença dentro do seu espaço-nação, algo que outrora acontecia
sobretudo além-fronteiras. A era pós 25 de Abril trouxe, também, o reforço jurídico dos
direitos, liberdades e garantias dos cidadãos, passando a existir, em simultâneo, um
maior controle interno e externo das forças e serviços de segurança. As pessoas estão
mais cientes dos seus direitos. Foram criados, inclusivamente, diversos organismos
para confirmar que os direitos são, de fato, respeitados. O escrutínio é permanente.
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UNIDADE II │ ENfErmEIro forENsE Em sItUAçõEs DIvErsIfIcADAs Em INstItUIçõEs DE sAúDE
Temos assim uma nova realidade que é potenciada por outros aspetos não menos
importantes.
A mãe passou a trabalhar (também) fora de casa. Esta mudança de paradigma foi
decisiva e constitui um aspeto fundamental para a constituição da atual realidade.
No passado a mãe era uma presença permanente no lar. Era ela que tomava conta
dos seus filhos e geria o dia a dia da casa. A vida da família girava em tomo da mãe. O
pai era uma figura mais ausente, que saía cedo para trabalhar e regressava tarde. Era
quem tinha de suportar as defesas. A mãe era, de certa forma, o principal motor para
a coesão da família, contribuindo decisivamente para o reforço dos laços familiares.
Assistia-se, inclusivamente, à coabitação com os avós (invés de serem colocados em
lares), o que reforçava o sentido de património histórico de cada família que era, por
essa via, assimilado pelos mais novos.
Quando a mãe começou a trabalhar fora de casa essa coesão perdeu-se em larga medida.
A mãe começou a ver os filhos apenas de manhã e ao fim do dia, tendo de continuar a
“tratar” da casa no restante tempo livre, ficando com muito pouco espaço disponível
para o relacionamento emocional com os seus filhos. Esta mudança foi, sem dúvida
alguma, um dos marcos mais significativos e decisivos para o aparecimento de um
novo paradigma de relacionamento interfamiliar. A mãe deixou de representar a “cola”
essencial para a coesão.
À realidade anterior acresce a necessidade premente de berçários. Na verdade, a partir
do momento em que uma criança é colocada num berçário, acaba por absorver bons
e maus hábitos, por lidar com crianças de origens e problemas diversos, por aprender
um vocabulário que, por vezes, não é o mais aconselhável. A criança, inclusivamente,
começa a ganhar laços afetivos às educadoras, colocando-as quase ao mesmo nível do
amor que sente pelos pais. Se é verdade que os berçários representam uma ferramenta
facilitadora para uma socialização mais rápida e o contato com outros seres humanos
com origens distintas, também não é menos verdade que as crianças ficam, desde logo,
mais expostas a vocabulários e condutas que nem sempre são as mais adequadas.
A Internet também marcou seguramente esta nova realidade. É um fato que grande
parte dos nossos jovens (e adultos) consome muito do seu tempo atrás de um monitor
de computador. Este hábito, saudável quanto baste, também neste contexto ganha uma
relevância que não será despiciendo referir. Um casal comum, sobretudo nas grandes
áreas metropolitanas, tem de se levantar muito cedo para conseguir deixar os filhos no
estabelecimento de ensino e conseguir chegar a horas ao serviço. Entre filas de trânsito,
apanhar o comboio, o metro e o autocarro, falamos em cerca de três horas diárias que
são perdidas em circulação entre a residência, a escola e o trabalho (três horas diárias
sobretudo nas áreas metropolitanas).
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No fim do dia, quando as crianças chegam a casa estão cansadíssimas, esgotadas, com
forças apenas para jantar e deitarem-se de imediato pois têm de se levantar cedo no
dia seguinte. Esta rotina comporta, naturalmente, alguns riscos. O ritmo acelerado e
as obrigações diárias, associadas ao isolamento das crianças junto dos computadores,
contribuem em larga medida para o afrouxamento dos laços na família. Se antigamente
as famílias não tinham internet (nem sequer televisão) e dedicavam muito do seu
tempo disponível incentivando as pausas de qualidade, através de conversas e jogos em
família, hoje em dia verificamos, com muita frequência, um total alheamento dos filhos
fechados nos seus quartos ligados ao mundo virtual, em conversa com os seus amigos à
distância e, até em muitos casos, a navegar em sítios pouco recomendáveis para jovens
numa idade ainda muito influenciável e vulnerável a predadores.
Um aspeto que tem moldado sobremaneira a forma de estar dos nossos jovens é, como
sabemos, a televisão, sobretudo algumas séries mais visionadas, como é o caso do modelo
comportamental promovido por alguns órgãos de comunicação social e o consequente
aparecimento da designada “geração Morangos com Açúcar”. Na verdade, nesta série
juvenil, somos confrontados com uma imagem que desvirtua a autoridade dos pais
e dos professores. Em regra, quando um pai ou um professor expressa uma ordem,
é muito raro que essa determinação seja acatada sem questionamentos, sem reações
negativas por parte do filho ou do aluno. Questionar de forma “caprichosa” passou a
ser algo natural. E é esta postura que tem sido transmitida diariamente aos milhares de
jovens brasileiros que já consumiram, e continuam a consumir, este produto televisivo.
Neste âmbito ganham pertinência as palavras de Maria de Jesus Barroso partilhadas
num seminário no domínio da violência doméstica: sabemos “que as crianças estão parte
do seu dia sozinhas em casa, têm a chave de casa. É um fenômeno corrente hoje no Brasil,
como noutras partes do mundo. Lembro-me de quando li os trabalhos dos Drs. Centerwall
e Huesmann nos Estados Unidos sobre a violência nos meios de comunicação, que eles
falavam neste caso das chaves da casa nas mãos das crianças. Crianças de 10 anos que já
têm a chave de casa porque o pai e a mãe trabalham e que, portanto, estão expostas às
mensagens de violência que lhes transmitem. Se lhes perguntarmos, aliás, o que é que
fazem depois de fecharem a porta, é automática a resposta; abro a televisão! É aquilo que
João Paulo II chamava “a ama eletrônica”. É, de fato, a TV que toma conta deles, que lhes
quebra a solidão, tal como faz aos idosos. Mas os mais velhos têm outras defesas ao passo
que os mais novos sofrem a terrível influência que ela exerce sobre eles, deformando-os
em vez de os ajudar a formarem-se como cidadãos sensíveis e preparados para um futuro
de paz e de solidariedade [...]
Uma outra realidade que tem alterado profundamente o crescimento saudável das nossas
crianças tem sido seguramente o crescendo de divórcios na sociedade contemporânea.
100
UNIDADE II │ ENfErmEIroforENsE Em sItUAçõEs DIvErsIfIcADAs Em INstItUIçõEs DE sAúDE
Na verdade, é fácil compreender que ser pai ou mãe a “meio tempo” conduz a que,
muitas das vezes, os pais não demonstrem um comportamento disciplinador junto dos
seus filhos no pouco tempo que estão juntos. Muitas vezes a tendência dos pais é seduzir
os filhos na esperança de que não os deixem de amar. Muitos despachos de regulação
judicial das responsabilidades parentais são elucidativos disso mesmo, dessa vivência
triste que obriga a estar expresso no papel a forma detalhada como a criança deverá
distribuir o seu tempo entro o pai e a mãe. No pouco tempo de convívio é natural que os
progenitores desvalorizem, em parte, o seu papel de educador. No entanto, esta postura
tem implicações no futuro pois vai gerar um adulto mal preparado para enfrentar os
obstáculos da vida.
Contudo, importa referir que o que desencadeia a delinquência é a existência de um
conflito grave entre os pais, quer estes coabitem, quer estejam separados. É, portanto,
preferível viver numa família em que os pais estejam divorciados do que numa em que
há conflito entre eles, tendo em consideração que “diversos trabalhos de investigação
verificam que não há qualquer relação entre o eventual sortimento, angustia e incertezas
causados pela separação dos pais e os comportamentos delinquentes ou violentos dos
filhos. Com efeito, os estudos científicos sugerem que os fatores relacionais são bem
mais determinantes do que os fatores estruturais no que respeita ao papel da família
relativamente à delinquência juvenil. Ou seja, o divórcio ou a ausência de um dos pais
parece ser menos responsável pela criminalidade do que a má relação entre cônjuges”.
A incapacidade de viver com dificuldade um outro fator a ter em consideração. No
seguimento dos pontos anteriores resulta uma tremenda falta de capacidade para gerir
as frustrações, medos, os receios e a negação. Como é que é possível um adulto, que foi
educado num ambiente de facilitismo, excessivamente protecionista, de liberdade quase
total, conseguir, mais tarde, ter capacidade para enfrentar a rejeição, a incapacidade
para ultrapassar desafios sem cair em depressões ou desistir à primeira tentativa? Não
será que é por isso mesmo que hoje, mais do que nunca, assistimos a uma procura
sem precedentes aos serviços de psicólogos clínicos, inclusivamente para crianças? Há
uma frase inquietante, inclusivamente, que passou a “estar na moda” no vocabulário de
muitos pais: não consigo “dar conta” do meu filho.
Quando existe pouco convívio entre pais e filhos é natural que os laços “afrouxem”. Já
vimos que os casais da sociedade hodierna têm um ritmo de vida extremamente ocupado
e acelerado. Levantam-se cedíssimo, perdem horas da sua vida em transportes, no meio
do trânsito e chegam em casa exaustos. O convívio entre pais e filhos tem pouco espaço
de manobra. E ao fim de semana, muitas das vezes, assistimos aos filhos (e até aos
pais) fechados nos quartos agarrados à Internet, redes sociais, aos chats. O convívio
existe em doses muito pequenas. Assiste-se, assim, a uma perda da coesão familiar.
101
EnfErmEiro forEnsE Em situaçõEs divErsificadas Em instituiçõEs dE saúdE │ unidadE ii
Isto explica em larga medida porque é que, há umas décadas atrás, era impensável
um filho abandonar um pai ou uma mãe (pelo menos de forma tão expressiva): e hoje
em dia esse gesto passou a ser dolorosamente comum. Não é por acaso que a APAV
desenvolveu, poucos anos, uma campanha no sentido de alertar a sociedade civil para
este fenômeno: dos pais abandonados nos hospitais quando se tomam um incómodo
para os seus filhos. Laços fortes evitam este tipo de gesto tão censurável.
Não será também de estranhar que lodos os anos morram muitos idosos sozinhos em
suas casas; e só ao fim de algumas semanas ou meses é que são descobertos, pois um
vizinho mais atento deu pela falta daquela pessoa. Não é também por acaso que há
vários anos que as forças policiais desenvolvem o projeto designado como “idosos em
segurança”, em que se procede, com regularidade, à visita quase diária de muitos dos
idosos que vivem sozinhos, de forma vulnerável, completamente abandonados pelos
familiares; e sobretudo por se verificar que muitos dos nossos idosos morrem sozinhos
e só ao fim de vários dias ou semanas (por vezes meses) são encontrados sem vida.
As práticas de violência intrafamiliar encontram também aqui, em consequência, uma
grande margem de manobra. Na verdade, diminuindo o respeito pela figura do Pai ou
da Mãe, a predisposição para a agressão dos filhos em relação aos progenitores passou
a ser mais casual. As estatísticas comprovam isso mesmo.
Crise da educação e a procura de soluções
Sabemos que a trilogia religião, escola e família está hoje em crise. E, consciente disso,
o Brasil alimenta uma necessidade em ouvir investigadores estrangeiros que vêm
denunciar aquilo que, muitos de nós, já diagnosticámos. Senão vejamos.
Numa edição de março de 2009 da revista Visão surge, a certo momento, uma
interessante entrevista com Aldo Naourí, pediatra e especialista francês na área, sendo
autor da obra Educar os Filhos, quinto livro dedicado à temática das crianças.
Ao longo de poucas páginas chegamos às seguintes principais conclusões que nos
parecem de uma evidência atroz: o especialista francês advoga o regresso da firme
autoridade parental. Segundo o especialista, os pais aparecem cada vez nos consultórios
a pedir ajuda para lidar com o comportamento dos seus filhos. Esta realidade tende a
aumentar, conforme se comprova na multiplicação considerável de educadores de toda
a espécie. Aldo Naouri refere que, desde sempre e em todas as civilizações, era o filho
que fazia tudo para agradar aos pais e ganhar-lhes respeito. Mas, desde que passou
a ter atenção em demasia, a criança deduziu que estava numa posição em que não
precisava de dominar os seus impulsos. E com a demissão dos pais, ela multiplica os
102
UNIDADE II │ ENfErmEIro forENsE Em sItUAçõEs DIvErsIfIcADAs Em INstItUIçõEs DE sAúDE
seus caprichos. E porque é que os pais têm tanta dificuldade em dizer “não”? Segundo
Aldo Naouri esta questão prende-se com o fato de os pais terem adotado uma atitude
completamente diferente da que tinham para com eles, quando eram crianças. A sua
sensibilidade aos direitos que ganharam com a democracia fizera-nos rejeitar o modelo
baseado na autoridade e acreditar que a criança precisa apenas de amor para crescer.
Chegam a pensar que dizer “não” é um resquício de autoridade que antes condenaram.
Só que, com isso, deixaram o seu filho entregue à tirania das suas pulsôes, sem saber
como combatê-las. Fará o seu caminho com condutas cada vez mais provocatórias.
Segundo o especialista os pais andam mais preocupados em “seduzir” os filhos do que
em educar. A crise na educação é uma consequência da perda da autoridade dos pais. E
esta perda está também ligada ao desaparecimento do papel que o progenitor tinha na
família. Antes, não havia espaço para a criança se tomar o centro da vida dos adultos
que lhe estavam mais próximos. Os filhos, entretanto, ganharam esse lugar. A proposta
de solução, adianta Aldo Naouri, passa por substituir o slogan “a criança primeiro”, por
“o casal primeiro”.
Apenas quatro meses mais tarde, em julho, a revista publicou um artigo sobre a
importância do “não”, onde a psicoterapeuta infantil Asha Phillips diz que a incapacidade
dos pais modernos de contrariarem os filhos está a criar uma geração de tiranos.
Também neste caso, mais uma vez, voltamos a escutar a voz de uma especialista
estrangeira para nos confirmar aquilo que Já sabemos: os limites devem começar a ser
colocados quando as crianças ainda andam ao colo; o medo dos pais de errar é grande,
mas em vez de transmitirem segurança aos filhos asfixiam o desenvolvimento da sua
independência e criam crianças infelizes e inadaptadas. A dificuldade em dizer “não” é
uma herança do pós-guerra. As pessoas passaram a achar que tudoo que era rígido era
fascista. O legado negativo dos anos 1960 do século passado foi deseducar. Essa geração
educou outra que cresceu desamparada, com demasiada liberdade. Muitas mães que
trabalham sentem uma enorme culpa pois sentem que não se dedicam a tempo inteiro
aos filhos. Sentem que não estão a cumprir bem o seu papel. E como a maioria ainda
tem a exclusividade das tarefas domésticas mal chega a casa diz “sim” para amainar a
culpa.
Tentar impor regras a um adolescente que nunca as teve é quase uma impossibilidade
Não é, por isso, de estranhar que uma criança educada numa linha facilitista, que não
tenha convivido com a necessidade de gerir obstáculos e o confronto com o “não”, a
importância de princípios fundamentais como o respeito pelos mais velhos, o peso
da “palavra de um Homem”, a importância em revelar nobreza nos comportamentos,
no “saber estar”, nos gestos e no falar, degenere num adulto com muitas dificuldades
103
EnfErmEiro forEnsE Em situaçõEs divErsificadas Em instituiçõEs dE saúdE │ unidadE ii
em conviver com a adverside e que, com maior facilidade, assuma comportamentos
desviantes. Um ser humano educado para os valores está mais preparado para resistir
a um ímpeto criminoso. Porque os princípios enraizados no espírito impedem-no de tal
ato. Pelo menos num cenário que não seja de “extremo”.
Isto não é novo. A subida ao poder de “Margaret Thatcher na Grã-Bretanha, e de Ronald
Beagan nos EUA [...] conduziu a uma abordagem do crime baseada num vigoroso
enfoque na imposição da lei e da ordem, em ambos os países. Ligava-se o crescimento
do crime e da delinquência à degeneração moral, ao declínio da família, e à erosão dos
valores tradicionais”.
Outro exemplo sintomático que nos deve conduzir à reflexão é o episódio ocorrido no
Japão. Enquanto “o Japão conta os mortos (quase 17 mil, segundo as últimas estimativas
oficiais) e eleva de quatro para cinco o nível de alerta nuclear, já a dois níveis do que se
atingiu em Chernobyl um jornalista da CNN, Jack Cafferty, não esconde a surpresa e faz
uma pergunta: ‘tendo em conta a escassez de comida e a incrível destruição, incluindo
em Tóquio, por que razão não estão a ocorrer episódios de pilhagens e vandalismo no
Japão?’ Cafferty estabelece um paralelo com o que sucedeu no seu próprio país depois
da passagem devastadora do furacão Katrina e cita um colega, Ed West, do Telegraph.
West escreveu uma crônica na qual se confessava ‘estupefato’ pela reação ordeira do
povo japonês ao terramoto e ao tsunami, e do sentimento de solidariedade que encontrou
um pouco por lodo o lado. Cafferty adianta uma explicação: os japoneses possuem
um código oral tão elevado que se mantém intacto mesmo nas horas mais sombrias,
mesmo quando só existe destruição em redor”. Dentro dos 5700 cofres encontrados nos
escombros do terremoto que atingiu o Japão foi encontrada muita lama. Mas não só; as
pequenas caixas-fortes que os japoneses descobriram e devolveram à polícia continham
um total de 24 milhões de euros, ajuntar aos 38 milhões que foram encontrados dentro
de carteiras desaparecidas. Os Japonesas perderam tanta coisa depois da tragédia, mas
mantiveram a reputação de serem honestos; no total, foram devolvidos cerca de 62
milhões de euros. Perceber a quem pertenciam não foi difícil: a polícia encontrou em
quase todos os cofres objetos pessoais, carteiras e documentos de identificação com
moradas. Complicado foi encontrar os proprietários daquele dinheiro todo. “O fato de
estes cofres e carteiras terem sido levados, significa que as casas onde estavam também
foram afetadas”, explica Koetsu Saiki, porta-voz da polícia. “Depois de perceber se as
pessoas tinham sobrevivido, tivemos de perceber para onde tinham sido evacuadas”.
Alguns dos cofres encontrados estavam vazios, mas noutros, além de dinheiro, havia
barras de ouro, antiguidades e até o cordão umbilical de bebês (uma recordação do
nascimento que tradicionalmente os japoneses guardam).
104
UNIDADE II │ ENfErmEIro forENsE Em sItUAçõEs DIvErsIfIcADAs Em INstItUIçõEs DE sAúDE
A forma como a educação é encarada apresenta, como vimos, uma relação muito
íntima com a maior, ou menor, predisposição para a prática de comportamentos
desviantes. Pessoas com um código de valores enraizado no espírito apresentam uma
menor predisposição para o desvio. Pois a educação não lhes permite, em regra, essa
exteriorização.
Os pais devem investir nas emoções por meio dos seus filhos, reforçando os laços
que unem as pessoas. O futuro de uma nação assenta nas suas crianças, nos valores
e na produção de conhecimento. O futuro depende das opções de hoje. Contudo, falta
coragem, para assumir que não somos todos iguais, que existem pais e filhos, professores
e alunos, educadores e educandos, que deve existir um ascendente e uma autoridade
respeitada. Cada um com um papel que deve ser assumido em plenitude. Assumir que
existem pessoas mais velhas que, pela sua experiência de vida, merecem o respeito da
comunidade, sobretudo dos mais jovens. Merecem ser ouvidas, escutadas em silêncio,
sem interrupções, sem questionamentos com laivos de “capricho”.
Que a autoridade (não confundir com autoritarismo) deve ser assumida e não
desvalorizada ou mendigada. Que estamos cansados de “pedagogias românticas”
(pegando na expressão de Nuno Crato) e de teóricos cujas teses não encontram
qualquer eco no mundo real. Que os pais devem assumir-se como responsáveis por
desenvolver uma educação para os valores, assente em disciplina, receito pelos mais
velhos, obediência, sem olvidar o necessário acompanhamento próximo, atento,
vigilante, de partilha, de relacionamento emocional, que vise reforçar os laços familiares,
contrariando o atual afrouxamento que tem conduzido ao abandono de largas centenas
de idosos todos os anos nos hospitais portugueses. Perceber que temos de “recuar um
pouco atrás” e voltar a acreditar que a palavra de um Homem deve encerrar o mesmo
valor que já viu no passado. E, porventura, definir uma verdadeira estratégia nacional
para a educação que seja assumida por todos os operadores políticos, já que a educação
tem sido de há muito um campo de luta política e continua a sê-lo neste novo século.
A educação para os valores tem, como vimos, reflexos nos comportamentos humanos
e, consequentemente, na ausência e controle de práticas desviantes. Se continuarmos
a persistir para uma educação que não é direcionada para os valores aguarda-nos um
futuro sem esperança.
Algo tem de mudar. Necessariamente.
105
unidAdE iii
AtuAção do
EnfErmEiro
forEnSE
Em CASoS
ESPECífiCoS:
PoBrEzA,
SuPErStiçõES,
CrEnçAS,
mitoS, CrimE E
EntomologiA
Como mEdidA
AuxiliAr
A entomologia é a ciência que usa como alternativa os insetos para desvendar crimes,
em que leva em consideração o período que o inseto leva para desenvolver ( o ovo/
larva) até a etapa em que ele foi encontrado no cadáver.
Essa ciência pode ser divididas em três áreas;
a. urbana
b. produtos alimentares
c. médico legal
Na área médico legal é muito importante na investigação criminal como: ocorrência do
crime, informação da fauna no local encontrado, autor do crime (comparando insetos e
fragmentos encontrados na vítima) e local do crime.
Conforme Caine (2004) :
Os principais objetivos da Entomologia Forense são:
» Determinar o intervalo postmortem, mediante o estudo da fauna
cadavérica.
106
UNIDADE III │ AtUAção Do ENfErmEIro forENsE Em cAsos EspEcífIcos: pobrEzA, sUpErstIçõEs, crENçAs, mItos,
crImE E ENtomologIA como mEDIDA AUxIlIAr
» Ajudar a comprovação do local onde a morte ocorreu, pois a existência
de espécies em cadáveres que não correspondam às normalmente
encontradas em determinada região pode ser um bom indicador de que
o corpo foi deslocado.
» Transmitir fiabilidade a outros métodos de datação forense,
nomeadamente a quantificação do potássio no humor vítreo.
» Avisar para a presença de sémen em casos de abuso sexual, pois a presença
de larvas na área genitalnum estado de desenvolvimento mais avançado
do que noutro orifício natural pode ser indicativa de ter existido agressão
sexual.
» Evidenciar casos de negligência (falta de cuidados de higiene).
» Demonstrar a existência de drogas; porquanto, as larvas de insetos podem
ingerir e incorporar nos seus próprios tecidos metabolitos químicos,
resultantes das drogas existentes no cadáver.
107
CAPítulo 1
A Enfermagem forense perante a
Pobreza
A agenda mundial para a paz e Justiça considerou a pobreza no mundo como uma
das raízes primárias da condição humana que continua a afetar as relações biológicas,
psicológicas, sociais e ambientais entre as ciências da saúde e da justiça. Há um ciclo
vicioso entre pobreza, crime e violência.
O enfermeiro forense é visto como um membro integrante da equipe de investigação
multidisciplinar que inclui os profissionais de saúde, gentes da autoridade, cientistas
forenses, defensores das ciências sociais e organizações de direitos humanos. O papel
dinâmico do enfermeiro forense evoluiu través das necessidades de um mundo em crise,
no sentido de ajudar a clarificar questões colocadas sem resposta à epidemiologia da
violência, do homicídio, suicídio, abuso sexual, doenças e atos criminosos que ameaçam
diariamente a vida devido à existência de condições sociais destrutivas como a pobreza
e todas as suas consequências. A violência auto infligida, que envolve o suicídio, é
considerada a maior causa de morte e deve ser considerada como uma consequência
primária da pobreza. A investigação do trauma e da morte constitui o núcleo dos papéis
atribuídos à enfermagem forense nos conceitos da educação, pesquisa e prevenção.
A epidemia da pobreza, num contexto de desigualdade económica, contribui para
aumentar os níveis de violência ao enfraquecer os laços intergeracionais da família
e da comunidade, reduz os valores da propriedade e prejudica o crescimento e o
desenvolvimento dos negócios (World Bank, 2006), contribuindo assim para maiores
desigualdades e concentrações na pobreza que são responsáveis pelas causas da violência
Os direitos civis, criminais, e os direitos humanos básicos são negados a indivíduos
e aos grupos de indivíduos na sociedade global subsistindo uma pobreza perniciosa
Toda a noção de pobreza está relacionada com experiências de vida negativas, de
indivíduos empobrecidos nas nações ricas e desenvolvidas, assim como nos países com
rendimentos mais baixos.
A interseção da pobreza com a prestação de cuidados de saúde tem impacto não apenas
na qualidade de vida, mas também na esperança de vida daqueles que não têm acesso às
necessidades básicas de saúde, alimentação adequada, água potável, educação, abrigo e
algum sentimento de segurança. Perto de três mil milhões de pessoas vivem com menos
de dois dólares por dia. O Produto Interno Bruto (PIB) das 48 nações mais pobres (ou
seja, um quarto dos países do mundo) inferior à riqueza combinada das três pessoas
mais ricas do mundo.
Mesmo assim, os indivíduos empobrecidos deparam-se cora as mesmas questões dos
mais afortunados, mas sem os recursos que lhes permitam lidar com doenças congénitas,
108
UNIDADE III │ AtUAção Do ENfErmEIro forENsE Em cAsos EspEcífIcos: pobrEzA, sUpErstIçõEs, crENçAs, mItos,
crImE E ENtomologIA como mEDIDA AUxIlIAr
deficiência mental e doenças hereditárias. A tensão, a raiva, a falta de esperança, o medo
e a fome combinaram-se para criar uma espiral de violência interpessoal, os resultados
são a violência, o crime e a morte. Mil milhões de crianças vivem na pobreza (1 em
cada 2 crianças no mundo). Seiscentos e quarenta milhões vivem sem uma habitação
adequada, 400 milhões não têm acesso a água potável e 270 milhões não têm acesso a
serviços de saúde. Dez milhões e 600 mil morreram em 2003 antes de atingirem os 5
anos de idade (ou aproximadamente 29.ooo crianças por dia). A erradicação da pobreza
vai depender da educação, da paz e da justiça.
Se nos sentimos incapazes para enfrentar os desafios da pobreza mundial, devemos
começar pela erradicação da violência e assim, iniciar a redução das consequências da
pobreza. Quando o pobre que trabalha vive num ambiente menos violento, sente-se
mais seguro, é educado, consegue melhores empregos, proporciona um lar mais seguro
e mais saudável à sua família - estes objetivos de sucesso (embora pequenos) irão criar
um efeito sinergético que reduz a violência e eleva os seus padrões de vida, diminuindo
a pobreza.
Tendo em conta que a medicina forense é desde há muito considerada uma componente
respeitada da saúde pública, a enfermagem forense, pela sua natureza própria, herdou
essa estima associada com os serviços públicos de saúde existentes, em termos
nacionais e também no estrangeiro. A saúde pública é um sistema baseado na ciência
e com grande valor para os cidadãos de todos os países, demonstrada através das suas
filosofias de prevenção e intervenção na saúde, tanto primárias, como secundárias
e terciárias. Contudo, a saúde pública também inclui a proteção dos direitos civis,
criminais e humanos por meio dos aspetos legais dos cuidados prestados ao doente. Os
cuidados holísticos contemporâneos são redefinidos de forma forense para incluírem
corpo, mente, espírito, e agora, a lei.
Esta inclusão simultânea de serviços de saúde e de justiça produziu o conceito
médico-legal a partir do qual a prática da enfermagem forense evoluiu. O teorema da
ciência da enfermagem forense aborda a questão central de toda a promoção e prestação
de cuidados de saúde (física, mental, cultural e bem-estar social), que é a da prevenção.
Os cuidados de saúde forenses abarcam três níveis o incluem:
» Prevenção primária: eliminar a origem do problema de saúde antes que
ele ocorra. Identificar os fatores de raiz que provocam o problema e
prevenir resultados negativos.
» Prevenção secundária: implica a pronta detecção e gestão bem-sucedida
do estado de saúde para que se evite o dano efetivo ou incapacidade
permanente.
» Prevenção terciária: procura limitar o enfraquecimento e aumentar a
qualidade de vida em situações em já não se esperam mais resultados
positivos.
109
│ UNIDADE III AtUAção Do ENfErmEIro forENsE Em cAsos EspEcífIcos: pobrEzA, sUpErstIçõEs, crENçAs, mItos,
crImE E ENtomologIA como mEDIDA AUxIlIAr
É no papel de prevenção secundária que os investigadores de enfermagem forense e
outros grupos de agentes de mudança são provavelmente mais úteis. Onde existem
condições adversas, uma identificação precoce do problema, da vítima e da potencial
intervenção para recuperação está a acentuar a prevenção de mais consequências
oriundas da causa identificada. Que essas consequências sejam crime, violência,
doença, morte ou pobreza, a redução e prevenção dessas circunstâncias requer
isolamento e identificação, investigação e documentação, segurança dos dados e
depoimentos, e publicação e apresentação das provas através de um sistema acadêmico
e profissional (MEIER, 2000). Contudo, no ano de 2006, a estimativa do número de
mulheres e crianças traficadas através das fronteiras internacionais variou algures
entre os 800.000 a 4 milhões (GERDES, 2006). Universalmente, as mulheres são mais
economicamente dependentes dos homens, sendo que este tipo de dependência cria
também nas mulheres dependências psicológicas e emocionais e todas estas formas
de dependência reforçam a primeira, tomando em última análise as mulheres ainda
mais vulneráveis (BUNCH, 1987). A exploração deve incluir, no mínimo, a exploração
da prostituição de outros ou outras formas de exploração sexual, trabalho ou serviços
forçados, escravatura ou práticas a ela semelhantes, servidão ou remoção de órgãos.
relatório mundial sobre violência contra
crianças
O Secretário-Geral das Nações Unidas afirmou que “nenhuma violência contra criança
justificável; toda a violência contra crianças é evitável”.
As crianças de todo o mundo sofrem de pobreza de saúde e de capital humano. São
essenciais políticas governamentaisapropriadas para proteger órfãos e outras crianças
vulneráveis assim como as suas famílias. Estas políticas devem conter cláusulas que
proíbam a descriminação no acesso aos serviços médicos, à educação, ao emprego e à
habitação, devendo ainda proteger os direitos hereditários das viúvas e dos órfãos.
A pobreza e o VIH/Sida têm uma relação direta que ameaça a ordem social de muitos
países em vias de desenvolvimento. De acordo com as estimativas revistas em 2000,
existem 34,7 milhões de crianças com menos de 15 anos de idade em 34 países que
perderam a sua mãe, pai ou ambos os pais devido ao VIH/Sida e a outras causas de
morte. Em 2014 esse número elevou-se para 44 milhões. Sem a SIDA, o número total
de crianças órfãs teria diminuído em 2014 para pouco mais de 15 milhões. Os fatores
de vulnerabilidade citados incluem a pobreza, a desigualdade entre gêneros e a falta de
apoio familiar e da comunidade. Os órfãos e outras crianças vulneráveis encontram-se
em alto risco de infeção por VTH que está relacionado com as dificuldades econômicas
e a perda dos cuidados e proteção parentais.
Nos últimos anos, os EUA tomaram-se no único país no mundo a reconhecer abertamente
que executa menores delinquentes e a reclamar para si o direito de o fazer, sendo
110
UNIDADE III │ AtUAção Do ENfErmEIro forENsE Em cAsos EspEcífIcos: pobrEzA, sUpErstIçõEs, crENçAs, mItos,
crImE E ENtomologIA como mEDIDA AUxIlIAr
responsáveis por quase metade das execuções de menores delinquentes conhecidas no
mundo levadas a cabo desde 1990. Estas decisões sem ponderar as suas consequências,
efetuadas pelo Supremo Tribunal dos Estados Unidos, denotam a “dura realidade” que
os “Estados Unidos enfrentam agora sozinhos num mundo que virou a cara contra a
pena de morte juvenil”. O Supremo Tribunal dos Estados Unidos ao proibir a execução
de menores delinquentes (aqueles que têm menos de 18 anos na altura da prática do
crime) alinha finalmente com um princípio inequívoco da lei internacional (AI, 2005).
Consequências de outras formas de violência
Além da lesão física reside a psicopatologia associada à pobreza, na sequência de vidas
arruinadas e na violação dos valores dos indivíduos, das famílias e comunidades. Os
Danos Cerebrais por Stress Tóxico motivados por experiências de infância adversas ou
por disciplina severa e inconsistente foram reconhecidos como uma previsão de uma
juventude violenta.
Acontecimentos negativos e crónicos na vida, um desenvolvimento social e económico
deficiente, tráfico sexual e a guerra apresentam também uma correlação direta com
uma privação econômica extrema.
guerra
A violência organizada é uma iniciativa política. A epidemiologia da tortura sancionada
pelos governos, do genocídio étnico à violação, mortes em conflitos e outras mortes
relacionadas de combatentes levaram a que a guerra e as suas consequências integrassem
a agenda mundial sobre paz e violência. Uma resolução do ano de 2000 da O.N.U. que
constituiu um marco histórico nesta questão comprometeu os governos a protegerem
as mulheres dos abusos da guerra. O Conselho de Segurança condenou a contínua
exploração sexual e violência contra as mulheres. A declaração do conselho reiterava a
sua forte condenação pela má conduta sexual dos capacetes azuis da O.N.U. e condenou
“a violência sexual e outras formas de violência contra mulheres, incluindo o seu tráfico
“ de acordo com a Secretária-Geral Assistente Rachel Mayanja, a conselheira especial
da O.N.U. para o género e emancipação das mulheres. “Os corpos de mulheres e moças
transformaram-se em campos de batalha, ” afirmou Rachel, e no Sudão as mulheres
continuam a ser as vítimas primárias da violência sexual.
tráfico
Para além da violência arcaica contra as mulheres, o tráfico de seres humanos foi
identificado como uma forma contemporânea de pobreza e violência relacionado
com a ganância. Estimativas do ano 2000 propunham que cerca de 2 milhões de
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│ UNIDADE III AtUAção Do ENfErmEIro forENsE Em cAsos EspEcífIcos: pobrEzA, sUpErstIçõEs, crENçAs, mItos,
crImE E ENtomologIA como mEDIDA AUxIlIAr
mulheres e crianças eram traficadas no mundo a cada ano (MEIER, 2000). Contudo,
no ano de 2006, a estimativa do número de mulheres e crianças traficadas através
das fronteiras internacionais variou algures entre 800.000 e 4 milhões (GERDES,
2006). Universalmente, as mulheres são mais dependentes economicamente dos
homens, sendo que este tipo de dependência cria também nas mulheres dependências
psicológicas e emocionais e todas estas formas de dependência reforçam a primeira,
tomando em última análise as mulheres ainda mais vulneráveis (BUNCH, 1987).
recomendações
Tem sido analisadas e cuidadosamente pesquisadas potenciais intervenções eficazes
para países desenvolvidos e em vias de desenvolvimento. Existem muitos pontos em
comum entre os países de baixos ou médios rendimentos. Situações de desigualdade de
rendimentos, de desigualdade social, crime violento, ausência de seguro ou de cuidados
de saúde, barreiras linguísticas, confissões religiosas, medo da interferência do governo,
situações de sem-abrigo, doença mental, violência familiar, mortalidade infantil,
gravidez não planeada, violações dos direitos humanos, impotência, intimidação,
prisão de minorias, elevado número de execuções, falta de confiança da população,
desigualdade entre géneros, maus-tratos infantis, sistema de justiça criminal imperfeito,
violação e abuso sexual, guerra civil, sistemas médico legais ineficazes, vulnerabilidade
em massa, perpetradores sem escrúpulos, agentes da autoridade sem ética, conflitos
interculturais, falta de recursos para as vítimas e para as agências de investigação de
modo a obterem resultados positivos no sentido da justiça social. Estes mesmos temas
são repetidamente postulados de país para país:
» Microfinanciamento: o empréstimo de módicas quantias de dinheiro para
iniciar um pequeno negócio, tem provado ser a abordagem à pobreza com
maior margem de sucesso em alguns países. Os principais destinatários
destes empréstimos são mulheres e talvez seja esse o motivo do seu sucesso.
» Serviços jurídicos gratuitos disponíveis para os pobres através de agências
tais como a Missão de Justiça Internacional (International Justice
Mission) ou o Centro de Justiça para os Pobres do Sul (Southern Poverty
Law Cenler), ambos disponíveis nos Estados Unidos.
» Educação: garantir que todas as moças frequentem a escola. Seria
necessário menos de um por cento do que o mundo todo gasta anualmente
em armamento para colocar todas as crianças na escola até ao ano 2000
e, no entanto, isso não aconteceu.
» Guerra: O Compromisso de Paris de libertar as crianças da guerra, que
foi assinado por 59 países em fevereiro de 2007, espera-se que inicie
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crImE E ENtomologIA como mEDIDA AUxIlIAr
um processo que as liberte da obrigação de se tomarem combatentes no
campo de batalha.
» Legislação e defesa.
A defesa da questão da pobreza global e a redução e prevenção da violência deve
ser baseada em provas e focalizada em princípios. Um plano tão grandioso pede
a unanimidade absoluta de estratégias universais para a redução da pobreza. Os
fundamentos para a prevenção da violência estão já identificados e estabelecidos. Os
benefícios para as sociedades a nível mundial irão fortalecer a intervenção económica,
conferir maior segurança e aumentar a confiança nos governos locais e nacionais. Com
uma segurança mais forte, saúde e educação - os indicadores econômicos aumentam
exponencialmente de acordo com o bem-estar físico e psicológico da população.
A redução da pobreza, por seu turno, terá impacto nos efeitos da violência extrema, o
que conduzirá a uma melhoria na prestação dos cuidados de saúde mediante a redução
da mobilidade e da mortalidade daqueles que se encontram aprisionados no ciclo
pernicioso da pobreza, do crime e da violência.É essencial uma responsabilidade pessoal global. Conseguem, enquanto profissionais
de enfermagem forense, expressar opiniões pessoais ou colocar questões inteligentes
relativamente ao estado do desenvolvimento econômico global? Quais são os países
mais pobres do mundo? Quais são as causas da pobreza global? A quem atribuir a
culpa? Que podemos nós, enquanto indivíduos, fazer? Que conhecimento possuem
relativamente aos seguintes tópicos relacionados com a pobreza mundial? Gandhi
disse... “Seja a mudança que quer ver no mundo. ”
CAUSAS DA POBREZA
» Ajuste estrutural - uma importante causa de pobreza.
» Pobreza no mundo.
» Democracia económica.
» Fome e pobreza mundiais;
» Dumping alimentar (ajuda) mantém a pobreza.
» Corrupção.
Corrupção
Protestos do IME (remessas internacionais de dinheiro - international money express)
e do Banco Mundial em Washington DC
Tais oportunidades e desafios dirigidos às agências dos EUA e organizações
não governamentais para se focalizarem na pobreza global e na prevenção da violência
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em países em vias de desenvolvimento, servem não apenas para oferecer ajuda
viável para melhorar o desenvolvimento econômico, como também para aumentar
a qualidade de vida, sendo que trarão enormes benefícios a longo prazo para países
desenvolvidos e em vias de desenvolvimento. A diversidade cultural exige intervenções
igualmente diversas e a confiança profissional para perceber as necessidades daqueles
que, ao contrário de nós, ainda não se aperceberam que somos mais parecidos do que
diferentes. Devemos todos tomar a iniciativa de nos educarmos a nós próprios e passar
à ação em vez de permitirmos que estas atrocidades continuem. Até lá, as cicatrizes
físicas e psicológicas das vítimas da violência devida à pobreza continuarão a revelar-se
uma barreira para a saúde e para os direitos humanos.
A ciência, a economia, a política, os cuidados e a esperança são necessários para reduzir
as consequências da pobreza e para a erradicação da violência para as gerações futuras.
Uma maneira poderosa de mudar o mundo é criar um lugar melhor para as crianças
e se temos esperança nessa mudança ela irá começar pela forma como educamos as
nossas crianças.
Experiência pessoal
Eu testemunhei em primeira mão as consequências da pobreza global no desenvolvimento
humano em África, na índia, América Central e em outros países desenvolvidos e em
vias de desenvolvimento. Viajei ensinando enfermagem forense.
Relatório mundial sobre violência e saúde
0 Relatório Mundial sobre Violência e Saúde da Organização Mundial da Saúde inclui as seguintes estratégias:
» Desenvolver um Plano Nacional e identificar uma agência líder para a prevenção da violência
» Reforçar a capacidade de recolha de dados sobre a violência
» Reforçar os sistemas de cuidados e apoio às vítimas
» Aumentar as colaborações e a troca de informação na prevenção da violência
» Implementar e avaliar ações específicas para a prevenção da violência
FOCOS ESTRATÉGICOS PARA A PREVENÇÃO PRIMÁRIA
» Mudar os modelos culturais que apoiam a violência
» Promover a igualdade de géneros e dar mais poder às mulheres
» Reduzir as desigualdades econômicas
» Aumentar a segurança, a estabilidade e acarinhar as relações entre crianças, pais e encarregados
» Limitar o acesso a meios letais
» Melhorar os sistemas de justiça crimina) e de segurança social
» Reduzir distâncias sociais entre os grupos em conflito
FOCOS ESTRATÉGICOS PARA A PREVENÇÃO SECUNDARIA E TERCIÁRIA
» Empenhar o setor da saúde na prevenção da violência (exemplo: enfermagem forense)
» Fornecer serviços de saúde mental e de segurança social às vítimas de violência
» Melhorar os cuidados de saúde mental e de apoio às vítimas de violência
fonte: gomes,2014
114
CAPítulo 2
investigação forense de Superstições,
Crenças, mitos e Crime
Com o desenvolvimento global da enfermagem forense, a investigação da violência e
da morte relacionada à pobreza, desenvolvimento humano, cultura, tradição e religião,
podem exigir a atenção do enfermeiro forense quando as circunstâncias locais necessitam
de novos conhecimentos. Alguns casos podem parecer crime, mas não são no país onde
eles ocorrem, no entanto, o enfermeiro forense deve descartar essa hipótese. Nestes
casos é necessário aplicar o cuidado forense holístico por parte do enfermeiro, uma vez
que certas formas de violência relacionadas com crenças e superstições locais, podem
dar origem a outras formas de violência, que podem ser invisíveis (LYNCH, 2006).
Os danos culturais religiosos enquadram-se nos seguintes aspetos: encarceramento de
mães solteiras, queima das bruxas e mutilação genital feminina. Os crimes socioculturais
envolvem decisões éticas complicadas por parte do enfermeiro forense.
O mundo tomou-se uma “aldeia global” devido à migração de pessoas entre os países,
muitas delas à procura de uma vida melhor para si e para a sua família. Com esta migração
de pessoas, apareceram no mesmo contexto diferentes crenças sociais e culturais, que
também acabam por levar ao aparecimento de crimes associados aos valores individuais
de cada um, à sua cultura e aos próprios valores da sociedade de origem. Cada vez
mais, determinados crimes socioculturais não se limitam a um país em particular mas
tornam-se omnipresentes nos vários países que recebem emigrantes; como tal, toma-se
urgente que todos os profissionais de saúde, e os enfermeiros forenses em particular,
saibam que tipo de crimes existem, como podem ser identificadas as vítimas, como
devem ser abordadas, e como devem ser encaminhadas as mesmas.
Quanto mais despertos estiverem os enfermeiros forenses para este tipo de crimes,
menos complicada irá tomar-se a compreensão por parte dos mesmos, sobre os aspetos
psicológicos inerentes aos valores e crenças que estão envolvidos nestes crimes. A
origem dos crimes socioculturais normalmente, limitam-se a uma região, a um estado,
ou a um país, de acordo com a sua cultura e crença A lei islâmica concorda com
comportamentos que para nós tratam-se de violação dos direitos humanos, mas que
para eles são tradição e cultura e muitas vezes recorrem ao alcorão para justificar tais
atos. No entanto, os autores continuam a gozar de impunidade na maioria dos casos.
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danos culturais históricos
Têm existido, ao longo dos anos, vários episódios de violência que contribuem para
uma cultura histórica baseada na violação dos direitos humanos, e que são aceites
em determinadas culturas. Exemplos desses cultos são o encarceramento das mães
solteiras, o apedrejamento das mulheres adúlteras, o pé chinês, a queima da viúva
indiana, os cintos de castidade, a clitoridectomia vitoriana, a queima da bruxa europeia,
e a mutilação genital feminina. Também em Portugal temos um episódio que nos leva a
refletir sobre as questões religiosas, nomeadamente a inquisição.
Muitas vezes estes crimes são cometidos, com envolvimento de decisões éticas, que
podem ser questionadas, mas que ocorrem de uma forma ou de outra. São exemplos
disso a guerra, a tortura sob custódia, a violação dos direitos humanos, a mutilação
genital feminina, os crimes de honra, o tráfico de seres humanos, a bruxaria, os ataques
de vitriolagem e o ataque aos homossexuais. Em relação à homossexualidade temos o
caso do Irão, onde as pessoas homossexuais são condenadas à morte e são enforcadas
no meio da praça, para que todos assistam e critiquem o comportamento dos indivíduos
em questão.
Agressão sexual de crianças e idosos
Em determinados países de África, os homens soropositivos, ao terem relações sexuais
com uma virgem, pensam que estão a curar o VIH. Normalmente são as crianças que
apresentam maior riscode serem abusadas, no entanto, devido ao início prematuro
da atividade sexual nestas regiões, atualmente são os idosos que estão em maior risco,
porque a sociedade acredita que estes não contraíram VIH. Nestes casos o enfermeiro
forense deve realizar um exame forense sexual, recolhendo vestígios forenses, realizando
fotodocumentação de lesões e prestando cuidados psicológicos. Estas situações devem
ser reportadas à polícia e o enfermeiro deve prestar testemunho em tribunal.
No continente africano existem países onde ocorrem múltiplos homicídios na forma de
sacrifício humano, envolvendo o corte de partes do corpo, enquanto a vítima ainda está
viva (geralmente crianças). Estes atos são cometidos por um feiticeiro, com a intenção
de transferir as características desejáveis da vítima para o cliente. O enfermeiro
forense participa na investigação do local do crime com a polícia, recolhendo os restos
humanos para o patologista forense, entrevista a família, documenta as evidências com
fotografias, e faz um registo minucioso do caso. A identificação do corpo pode requerer
o apoio da odontologia forense, assim como da antropologia forense.
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mutilação genital feminina
A remoção ou alteração da genitália feminina pode ocorrer desde a infância até à
puberdade, para controle da resposta sexual feminina. No Sudão, cerca de 90% das
mulheres são vítimas de mutilação genital ainda em crianças. O enfermeiro forense deve
estar atento à lei no que diz respeito à mutilação genital, uma vez que em alguns países
não se trata de um crime. É essencial estar familiarizado com as alterações anatómicas,
para a realização do exame forense sexual, no entanto, tratando-se de uma violação dos
direitos humanos, deve ser sempre denunciada.
tráfico de órgãos humanos
Na índia, a pobreza, a ignorância e o fato de existirem pessoas vulneráveis, resulta
em comércio ilegal de órgãos humanos. Os órgãos podem ser roubados das salas de
autópsia e/ou das mortuárias, assim como podem ser retirados de pessoas que são
raptadas para o objetivo ser concretizado. O enfermeiro forense deve estar atento para
a existência de uma história de queixas tais como infeções, insuficiência renal, ou sinais
de cirurgia. O enfermeiro forense deve reportar o caso à autoridade, deve recolher o
corpo, documentando o trauma. Deve ainda entrevistar a família e recolher os vestígios
forenses, que existam. Cabe também ao enfermeiro forense dar formação à comunidade,
para sensibilizar os mesmos para o despiste de sinais e sintomas que possam indicar a
possibilidade de as vítimas terem sido operadas sem terem dado consentimento e sem
saberem.
Aborto forçado e infanticídio feminino
Na China, a violência baseia-se na política que existe contra mulheres e crianças,
devido à lei que proíbe que existam mais de duas crianças por família, principalmente
quando a primeira criança é uma menina. Nestes casos, o aborto forçado na China é
legal. O enfermeiro forense deve documentar as doenças que ocorram em consequência
do aborto, ou morte da mãe, uma vez que se trata acima de tudo de uma violação de
direitos humanos.
tráfico humano
Na Rússia, Filipinas, Kosovo e Vietname, a ganância, o crime e a existência de população
vulnerável, leva a que ocorram ilegalidades que envolvem mulheres e crianças. Essas
ilegalidades envolvem o tráfico de pessoas. O enfermeiro forense deve colaborar na
investigação destes casos com as organizações dos direitos humanos.
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Enterro ao ar livre
No Nepal e no Tibete, existe uma prática tradicional de enterro, que requer o
desmembramento do corpo para ser consumido pelos abutres. Esta prática não é ilegal
nestes países, e pode também ocorrer noutros países, mas para fins criminais, estando
associado a casos de tráfico de droga, em que o objetivo é “desaparecer” com o corpo. O
enfermeiro reconhece esta prática, que é aceitável em alguns países, no entanto, deve
ser abolida por violação dos direitos humanos. Assim, cabe ao enfermeiro forense dar o
seu contributo, expondo os casos de que tenha conhecimento.
Comércio de crianças, prostituição infantil
Em países como o Nepal, a pobreza e a esperança de ter uma vida melhor para as
crianças levam os pais a venderem as crianças. Os pais dizem à criança que irá trabalhar
numa casa com condições econômicas boas e na realidade a criança entra numa rede de
prostituição. O enfermeiro forense deve colaborar na investigação clínica das doenças
sexualmente transmissíveis, assim como deve denunciar os casos que identifique. Deve
proceder a exames forenses e à recolha de vestígios.
Crimes de honra
No Paquistão, na Jordânia e na Arábia Saudita, ocorre a morte das mulheres cuja
família do marido acredite que a vítima desonrou o nome, tratando-se assim de um
crime que ocorre devido à cultura patriarcal. Por exemplo, no Afeganistão, as mulheres
são enterradas vivas, ficando apenas com o pescoço e a cabeça de fora, da mesma forma
que, no Paquistão, a mulher adúltera é apedrejada em público até morrer. Em 2003, o
parlamento da Jordânia votou sanções mais duras para os crimes de honra por motivos
islâmicos. O enfermeiro forense deve colaborar na investigação do crime, documentando
as lesões e recolhendo a história familiar. Em relação ao crime propriamente dito, deve
examinar o locai, recolhendo vestígios e analisando detalhadamente o corpo da vítima,
pesquisando a presença de lesões que possam determinar as circunstâncias da morte.
violência doméstica
A violência doméstica em alguns países é legal, devido a uma política de violência, que
permite que os homens agridam as suas mulheres, como forma de mostrar poder e
força, assim como, demonstrar a inferioridade da mulher, que nestes países é tida como
um objeto que tem menos valor do que um animal. Numa altura em que o momento
é de reunir todos os esforços para acabar com a pena capital, a República Islâmica
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do Irão desafia a lei internacional dos direitos humanos, aumentando o número de
execuções em condições que violam flagrantemente as normas internacionais dos
direitos humanos. As mulheres no Irão continuam a serem condenadas à morte, por
serem insubordinadas aos seus maridos, que são os seus “donos”. Alguns atos por parte
das mulheres, que são considerados crimes, assentam no fato de denunciarem que
são vítimas de violência doméstica. Neste caso o enfermeiro forense deve dar o seu
contributo na denúncia destes casos.
noivas queimadas
Este tipo de crime é conhecido muitas vezes como morte por dote. A noiva queimada
descreve uma forma de violência doméstica. O marido e os seus familiares regam a
mulher com gasolina, querosene ou outro líquido inflamável e incendeiam-na. Os
motivos que estão relacionados com este ato estão enquadrados na recusa em pagar o
dote adequado, e no fato de a sogra entender que a mulher lhe faltou ao respeito. Em
países como a Índia, a noiva é incendiada pelo marido e a lei permite que o marido volte a
casar. Esta prática ainda continua em vigor. As noivas também podem ser envenenadas
ou mortas por outros meios. Nos últimos anos, em média, têm ocorrido cerca de 5.800
casos por ano, não se sabe se isto representa um aumento na incidência, ou se reflete um
aumento da denúncia. O enfermeiro forense deve recolher vestígios, nomeadamente a
roupa, e o acelerante (ou produto usado). Deve também fotografar as lesões padrão da
queimadura, caso exista suspeita de envenenamento deve recolher vestígios. Deve ser
denunciado o caso, por se tratar de uma violação dos direitos humanos.
viúva queimada
Trata-sede uma tradição antiga e da cultura hindu. A prática encontra-se baseada na
religião, porque acredita-se que só assim o marido falecido é respeitado. Esta morte
foi socialmente aceita depois de 1829, no entanto, com o tempo foi-se tornando ilegal
e as viúvas começaram a ser obrigadas a cometer suicídio. A viuvez é considerada um
destino de miseráveis e atualmente as mulheres, por exemplo na Índia, são excluídas
da sociedade. O enfermeiro deve dar apoio na investigação do local do crime, na recolha
de vestígios, e deve realizar uma entrevista aos familiares. O enfermeiro deve ainda
colaborar na denúncia destes casos.
infanticídio feminino
Na Índia, o assassinato de crianças do sexo feminino depois de nascerem pode ocorrer
por vários meios (envenenamento, sufocação ou outros métodos). Esta situação ocorre
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porque se pretende que nasçam crianças do sexo masculino. O estigma da criança
do sexo feminino está associado à pobreza. O fato de os pais terem que pagar roupa,
educação e dote de noivado leva que eles cometam estes atos. O infanticídio, muitas
vezes, ocorre como prevenção do nascimento de crianças do sexo feminino. Em
alguns países esta prevenção pode ocorrer na forma de aborto provocado, após ter
sido diagnosticado o sexo do feto. No norte da Índia, existem médicos que trabalham
apenas com estes casos, realizando abortos forçados às mulheres, que estão grávidas
com fetos do sexo feminino. O enfermeiro forense deve examinar o local do crime, fazer
a avaliação das lesões, entrevistar os familiares/amigos da mulher, e dar formação para
sensibilizar a população. Na investigação destes casos, o enfermeiro deve estabelecer a
recolha de vestígios biológicos, para permitir um perfil genético que possa atribuir uma
comparação entre o feto e a mãe. O grande problema nestes casos é que raramente são
denunciados, nem as mães, nem os médicos reportam os casos, por outro lado pode
existir grande resistência e obstáculos à investigação.
Abuso sexual religioso de crianças
Na Índia, existe o ritual de dedicar as crianças do sexo feminino aos deuses. A criança é
oferecida aos deuses, sendo que o responsável do templo tem relações sexuais com ela,
de forma a honrar os deuses. O enfermeiro deve documentar a extensão das lesões com
fotografia, recolher vestígios, e entrevistar as vítimas, assim como encaminhar para
apoio. A dificuldade de intervenção pode advir do fato de ser uma prática muitas vezes
considerada legal e ligada à religião.
Ataques de vitriolagem
São usados diversos tipos de ácidos para infligir danos às mulheres, que podem ser os
seguintes: ácidos nítrico, clorídrico e sulfúrico. As vítimas ficam traumatizadas física,
psicológica e socialmente. No Paquistão e na Índia, este tipo de atos está associado a
crimes de vingança pessoal ou por relacionamento. Este crime nunca é considerado
acidente, mas pode ou não ser considerado crime. Os países mais afetados com este
tipo de ataque são os seguintes: Índia, Camboja, Afeganistão, Paquistão e Bangladesh.
Cerca de 80% das vítimas são mulheres, 20% homens e 40% do total são jovens com
idade inferior a 18 anos.
Os efeitos do ácido são sempre devastadores e podem incluir queimaduras muito
graves da pele, que por vezes expõem os ossos, e podem inclusive dissolver o osso.
Podem ocorrer queimaduras graves nos olhos, sendo que muitos sobreviventes
perderam um olho ou mesmo os dois. Estes ataques geralmente ocorrem porque uma
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jovem ou uma mulher rejeita uma proposta de casamento, ou uma proposta sexual.
Por outro lado, existe uma percentagem significativa de casos, em que ocorre o ataque
devido a disputa de terras entre familiares. Em Bangladesh, foi aplicada legislação
específica para impedir ataques com ácido. Em 2002, foi introduzida a pena de morte,
como condenação dos agressores. Por outro lado, a legislação veio forçar as empresas
que usam ácidos a terem medidas restritas de segurança no seu armazenamento. As
estatísticas indicam que existiu uma diminuição de ataques nos últimos dois anos. O
enfermeiro forense deve documentar a extensão da lesão com fotografia e com registo
no diagrama corporal, recolher vestígios, entrevistar a vítima e denunciar do crime. Se
for possível, deve encaminhar a vítima para uma instituição de acolhimento e proteção.
umbis
África e Haiti são bem conhecidos pela sua crença em zumbis, também conhecidos como
“mortos-vivos”. Tratam-se de práticas voodoo no qual são usadas drogas para controle
de pessoas, com o objetivo de praticar escravidão ou outras situações ilegais, tais como
agressão sexual e prostituição. Nestes casos o enfermeiro forense deve reportar o caso
de agressão sexual, e proceder ao respetivo exame forense, com documentação de
lesões e recolha de vestígios. Deve ser recolhida amostra de urina para doseamento
toxicológico.
O enfermeiro deve fazer ações de formação para sensibilizar a comunidade para o
flagelo e para o esclarecimento do mito dos zumbis.
mubobobo
No Zimbabué, é usada sedução voodoo por poção, para tomar o homem invisível, para
este ter sexo com mulheres e crianças. Trata-se de um crime cultural relacionado com
bruxaria. Em 1996, o governo do Zimbábue emitiu um decreto-lei que proibia o uso
de magia e feitiçaria para causar mal a outras pessoas, no entanto, não passaram de
palavras escritas, porque na prática nada se fez para punir as pessoas que continuam
a praticar os atos. O decreto-lei afirmava que os curandeiros tradicionais só seriam
processados se causassem danos. Um falso curandeiro no Zimbábue foi considerado
culpado, por ter enganado uma mulher de negócios, com 30.000 dólares, para pagar
“sereias” para recuperarem o seu carro de luxo, que tinha sido roubado perto da água.
A polícia foi chamada a intervir, mas disse que seria quase impossível provar que era
bruxaria, uma vez que as bruxas não são vigiadas pela polícia, e como tal, como é que
alguém poderia afirmar que era magia? Caso exista abuso de crianças, o enfermeiro
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forense deve realizar o exame sexual forense, recolher vestígios, documentar as lesões
e realizar entrevista.
Bruxaria
Em certas comunidades os líderes tradicionais defendem o reconhecimento legal da
bruxaria.
Atualmente acusar alguém de feitiçaria é uma ofensa criminal em alguns países. A
bruxaria existe, e é uma tarefa impossível de provar em tribunal. Os curandeiros mais
tradicionais afirmam terem poderes sobrenaturais. No Zimbábue, a população acredita
que as bruxas são canibais, e que comem carne humana. Quando alguém morre, as
bruxas vão à sepultura antes de o corpo entrar em decomposição, abrem a sepultura
com magia e retiram o corpo para o comerem. Para prevenir que isto aconteça, os idosos
dormem durante dois dias junto da sepultura. Uma pessoa é morta por bruxas e é usada
à noite para executar atos ilegais tais como ter sexo com outra mulher, roubar e matar.
A população também acredita que as pessoas jovens que morrem de morte violenta
tomam-se zumbis e continuam a viver na terra O enfermeiro tem um papel importante
na formação e educação da comunidade, desmistificando um pouco estas crenças,
mas tendo sempre presente que não poderá influenciar completamente a população.
O enfermeiro deve dar apoio às famílias em luto, explicando os procedimentos. A
formação tem de ser cuidada para que não se quebrem todas as crenças culturais.
tantrik
Na Ásia, um tantrik é um homem que habitualmente está associado à magia negra e
às práticas do oculto. Estes homens são conhecidos pelos seus rituais de superstição.
Os tantrikssão chamados de “exorcistas”. O autor Akinwale (2008) estudou diversas
tradições que envolviam três entidades que eram usadas para controlar o mundo: a
religião (o sobrenatural), a magia e a ciência. Muitas das doenças incuráveis são tidas
como falsas crenças, e podem incluir a existência de fantasmas e de almas penadas, que
aterrorizam a vida das vítimas.
Algumas culturas acreditam que por trás de eventos maus que ocorrem a uma pessoa em
particular, está um fantasma. No entanto, os tantriks e as bruxas reclamam a cura dos
efeitos dos fantasmas, uma vez que estes podem infligir dano físico severo ou mesmo a
morte. O papel do enfermeiro, nestes casos, assenta na formação que deve ser dada à
comunidade, para esclarecer esta crença, e estes atos realizados por pessoas tidas como
poderosas.
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Albinos
Os albinos são um alvo apetecível para rituais de homicídio. Algumas pessoas pensam
que os albinos na Tanzânia são uma espécie de “fantasma”. Existem cerca de 270.000
albinos entre a população da Tanzânia. As velhas com olhos vermelhos foram mortas em
várias regiões da Tanzânia, sendo acusadas de bruxaria. Os albinos, devido à sua falta
de pigmentação, sofrem de cancro da pele assim como outras doenças. Uma mulher
jovem e o seu filho de quatro anos de idade, ambos albinos, foram mortos no Burundi,
por um grupo de homens armados. A caça aos albinos na Tanzânia e no Burundi tem
o objetivo de os feiticeiros utilizarem as partes do corpo para a medicina tradicional, o
que já custou mais de 60 mortos nos últimos dois anos. As partes de corpo dos albinos
valem cerca de 75.000 dólares.
Segundo a Cruz Vermelha Internacional, a morte dos albinos na região da África começou
em agosto de 2008. Na procura de lucro, os feiticeiros reviveram uma velha superstição
de que os membros e os órgãos genitais de um albino podem trazer resultados mais
rápidos e melhores para tratar doenças. Matar albinos é um negócio lucrativo para
os assassinos que são pagos entre 200 e 500 dólares pelos seus crimes. A polícia da
Tanzânia diz que um conjunto completo de partes de corpo de albino, incluindo os
quatro membros, genitais, ouvidos, língua e nariz, podem valer no mercado negro cerca
de 75.000 dólares. O Centro Albino na Tanzânia educa a população e proporciona aos
albinos serviços básicos, tais como abrigos, medicamentos para prevenir o cancro de
pele, assim como a sua defesa. A maior parte dos albinos são estigmatizados, e não
podem ir para a escola, levando ao desemprego. Mineiros, empresários e pescadores,
com crenças na magia negra, foram acusados de serem responsáveis pelo aumento da
procura, por partes de corpo do albino, no oeste da Tanzânia (local famoso pelas suas
minas de diamante). O enfermeiro deve colaborar na investigação, na reconstituição do
corpo, para contribuir para a identificação da vítima.
o mito do hímen
Os mitos têm perpetuado durante anos sobre a virgindade da mulher, e têm existido
muitas justificações sobre a perda de virgindade por rotura do hímen sem que exista
penetração.
Multiplicam-se as histórias sobre a rotura do hímen por realização de desportos e
atividades tais como andar de bicicleta, andar a cavalo, ginástica acrobática ou a
inserção de um tampão. As mulheres ao longo dos anos têm sido submetidas a exames
para verificação de virgindade, para desvendar uma verdade sem sentido.
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Muitas mulheres acreditam que a sua virgindade é uma coisa sagrada, e que deve ser
mantida em segredo. Submeter a mulher a um exame para avaliação do hímen, para ver
se ela diz a verdade, é uma experiência terrível. Tem sido relatado que algumas mulheres
preferem cometer suicídio a serem submetidas a estes exames. Os mitos começaram há
centenas de anos nas tribos antigas de África. As mulheres eram vendidas aos homens
para casarem, mas tinham que fazer prova da sua virgindade, com apresentação de um
exame ao hímen, para determinar o seu valor de dote. Se a moça era avaliada como não
virgem, o preço do dote era muito inferior, e inclusive poderia nem sequer casar. Mesmo
que o marido concordasse em casar, a família era envergonhada e ridicularizada.
Este exame do hímen foi durante anos uma exigência e prática da realeza. O rei de
Inglaterra requereu que as candidatas a noivas apresentassem o exame de virgindade
antes de casar. A Lady Diana teve que ter um certificado de virgindade antes de casar
com o príncipe Carles. Um mito que circulou através da história era a ideia de que as
mulheres nasciam sem hímen. Este mito apareceu e muitos médicos incentivaram a
sua divulgação uma vez que desconheciam que existem hímens com vários tamanhos e
formas. A forma do hímen altera-se ao longo da idade da mulher, devido ao hormônio
do estrogénio. O estrogénio está presente na criança até aos dois anos e apenas volta a
aparecer na altura em que a mulher menstrua pela primeira vez. O estrogênio também
faz o hímen alargar, o que poderá dificultar a visualização genital feminina. A causa
mais frequente de suicídio na Turquia nas jovens deve-se ao exame de virgindade. O
enfermeiro forense, se for convocado para colaborar neste tipo de exame, deve apoiar
a mulher, explicando todos os procedimentos a realizar e encaminhá-la para apoio
psicológico. Deve, ainda, realizar a entrevista em local reservado, e possibilitar que a
mulher exprima os seus sentimentos e preocupações.
Exorcismo
Em muitas culturas antigas, como a babilônica e a judaica, algumas doenças e catástrofes
naturais eram atribuídas aos espíritos malignos. Desta forma, para livrar as pessoas
destes males que as afligiam, era utilizado o exorcismo, que nada mais é (de acordo com
a enciclopédia católica) do que “um ato de expulsar, ou repelir, os demônios ou espíritos
do mal, de pessoas, lugares ou coisas, que se acredita estarem possuídas ou infestadas
por eles, ou propensos a se tomarem vítimas ou instrumentos de sua malignidade”.
O exorcismo está muito associado à religião católica, no entanto, também está presente
noutras religiões. Nos anglicanos, o demônio pode ser combatido com orações, hinos
e leituras da Bíblia, mas não existe uma cerimônia específica. Os casos de exorcismo
são muito raros, e quando ocorrem, o possuído é “tratado” por meio de um grupo de
orações, que lhe recomenda jejum, abstinência sexual e adoração a Deus. No judaísmo,
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crImE E ENtomologIA como mEDIDA AUxIlIAr
nos seus ensinamentos é contado que o espírito malévolo, chamado de dybbuk, volta
para concretizar um processo que está inacabado, assumindo o corpo de uma pessoa,
para atingir os seus objetivos. O dybbuk pode ser expulso por meio de um ritual de
exorcismo e deixa o corpo através dos dedos do pé. A crença islâmica indica que o espírito
do mal (Jinn), escravo de Satanás, pode invadir o corpo humano e causar doenças,
dor, sofrimento e pensamentos maus. Esse Jinn pode ser expulso pela pessoa possuída,
recitando-se passagens específicas do Alcorão. Para o hinduísmo, as escrituras dos
Vedas contam que o espírito do mal pode não apenas prejudicar humanos, mas também
ficar no caminho das vontades dos deuses. O tradicional exorcismo hindu inclui rituais
como: queimar excremento de porco, recitar orações e oferecer doces aos deuses.
A investigação inicia-se como um processo de eliminação, com perguntas bem claras:
o paciente possui algum sinal de possessão? Existe alguma outra explicação para tal
fato? Depois disso, o enfermeiro consulta um psiquiatra para averiguar a ocorrência
de alguma doença mental, que possa corresponder com os sintomas apresentados. O
enfermeiro também pode consultar um peritoparanormal aprovado pela igreja para
uma ajuda adicional. Outra possibilidade que o investigador deve considerar é a fraude.
Depois de tudo isto, é que se poderá colocar a hipótese de possessão, no entanto, as
ocorrências de exorcismo para a Igreja Católica são raras, afirmam ocorrer uma a cada
cinco mil anos. A dificuldade do diagnóstico assenta na tríade do caso: doença mental,
simulação e consumo de substâncias. São estes os diagnósticos diferenciais, que devem
ser realizados, e a que o enfermeiro forense deve estar atento.
lendas urbanas -Pocong
O Pocong é um fantasma da Indonésia ou da Malásia que dizem ser a alma de uma
pessoa morta presa nas suas roupas. A mortalha do Pocong é usada pelos muçulmanos
para cobrir o corpo do morto. Eles cobrem o corpo com um tecido branco e atam com
uma corda a roupa na cabeça, nos pés e no pescoço. De acordo com as crenças nativas,
a alma de uma pessoa morta vai ficar na terra durante 40 dias após a morte. Quando os
laços não são desamarrados após 40 dias, dizem que o corpo salta para fora da sepultura
para avisar as pessoas que a alma precisa que as amarras sejam desfeitas. Após os laços
serem libertados, a alma vai deixar a Terra e nunca mais aparecer. Por causa da corda
nos pés, o fantasma não pode andar, isso faz com que o Pocong pule.
O enfermeiro forense tem um papel importante na desmistificação destes casos,
tentando sempre enquadrar a sua atuação de acordo com as crenças da população.
O enfermeiro deve realizar ações de formação junto da comunidade, permitindo um
diálogo aberto, entre os intervenientes.
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mistérios resolvidos pelas ciências forenses
napoleão Bonaparte
A morte de Napoleão gerou várias teorias e polêmicas, enquanto uns afirmavam ter sido
causa de morte natural, outros afirmaram ter sido um homicídio, o mistério permaneceu
durante anos. De acordo com os registos oficiais, Napoleão morreu de cancro do
estômago, no dia cinco de maio de 1821, no entanto, muitos historiadores afirmam que
as evidências forenses mostram que ele foi realmente vítima de envenenamento com
arsénio. O papel da toxicologia forense foi primordial neste caso, investigando uma
amostra de cabelo, e concluindo que de fato existiam valores elevados de arsénio, e que
seriam compatíveis com envenenamento e responsáveis pela sua morte.
Sudário de turim
Outro mistério é o sudário de Turim, onde algumas pessoas defendem que o sudário
apresenta impressa a imagem de Jesus Cristo, onde teria sido embrulhado após a
sua morte. Além disso, o sudário teria uma mancha de sangue pertencente a Jesus
Cristo. Até esta altura, dezenas de cientistas têm estudado a imagem do sudário de
Turim, embora as interpretações tenham sido diferentes, em geral todos concordam
que a imagem no sudário corresponde a um corpo humano, que morreu após ter sido
crucificado. A imagem tem muitas propriedades de um negativo de fotografia, e não
apresenta contornos bem definidos. As manchas são positivas a sangue. A imagem
impressa no sudário está invertida como um espelho, o braço esquerdo corresponde ao
braço direito, o que quer dizer que a mancha de sangue do antebraço está relacionada
com o lado esquerdo.
Pela análise trata-se de um homem com cerca de 175 cm, que tem uma posição similar
a um homem crucificado, terá uma idade entre os 30 e os 40 anos. Em relação à cabeça,
apresenta cabelo comprido até aos ombros, face longa e olhos e boca fechados. Apresenta
manchas sugestivas de feridas puncturas em forma circular no crânio. No tórax, apresenta
mancha sugestiva de ferida causada por objeto afiado, com capacidade para penetrar:
profundamente na cavidade torácica. O abdômen encontra-se distendido. O ombro
direito parecer estar mais baixo que o esquerdo, cuja causa pode ser o deslocamento do
ombro. As mãos cobrem a região genital e estão cruzadas. Existe mancha que provém
do punho esquerdo, não sendo visível lesão no punho direito. Macroscopicamente, as
marcas de sangue são diferentes da imagem do corpo, parecem estar secas ou em fase
semilíquida. Na avaliação minuciosa verifica-se que os bordos das marcas de sangue
são mais densos do que no centro. Do ponto de vista forense, as marcas de sangue
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são macroscopicamente consistentes com sangue, exceto na coloração, que é muito
vermelho. Um dos estudos forenses mais consistentes conclui (Svensson) que, do ponto
de vista forense, o sudário de Turim indica que o homem nele “projetado” sofreu o
mesmo castigo que Jesus Cristo sofreu, sendo esta afirmação fundamentada pelo tipo
de lesões que cabeça, tórax e membros apresentam, e que se encontra “impresso” no
sudário, o que deixa a possível indicação que se tratará do sudário que envolveu Jesus
Cristo após a sua morte, e que serviu de mortalha.
hitler
A morte de Hitler é um dos mistérios não resolvidos no século XX. Numerosos
historiadores e jornalistas tentam juntar os detalhes, mas os aspetos forenses revelam
indecisões no que diz respeito à alegada causa de morte (envenenamento por cianeto,
arma de fogo ou ambos). A literatura disponível sobre a causa de morte de Hitler está
incompleta, porque a análise toxicológica não foi realizada, e porque os fragmentos
de osso do crânio não foram adequadamente examinados. Existiram diversas teorias
sobre a causa de morte.
Um cientista russo forense, em 1945, descreveu que Hitler tinha morrido por intoxicação
com cianeto. Esta teoria fundamentou-se no fato de terem encontrado pedaços de vidro
de ampola de um fármaco, na boca do cadáver, que se presumia ser do Hitler, no entanto,
é descrito no relatório da autópsia que apesar dos danos provocados pelo fogo no corpo,
seria difícil detectar lesões severas que possam ter provocado a morte. Toma-se ainda
mais estranho que no relatório se conclua que existiam nos órgãos internos vestígios de
cianeto. Um estudo realizado por Moriya e Hashimoto demonstrou que 40% do cianeto
no sangue desaparece ao fim de 24 horas, e que seria impossível avaliar efeitos tóxicos
de cianeto em vítimas carbonizadas, apenas na base da concentração no sangue.
Em 1946, outro cientista forense russo afirmou que Hitler teria cometido suicídio
com arma de fogo, e a prova estava nos fragmentos de osso do crânio, no entanto,
também outros patologistas colocaram em causa esta teoria, porque afirmavam que os
fragmentos de osso eram artefatos da carbonização.
Em 1979, Hugh Thomas defendeu que o Hitler teria sido estrangulado, uma vez que o
relatório da autópsia indicava lesões nos tecidos do pescoço, por outro lado, o crânio
com fragmentos não poderia ser do Hitler, e que teria sido uma fraude forense, porque
teriam que existir temperaturas superiores a 1000° C, e que seria quase impossível
os corpos queimados no exterior atingirem essas temperaturas (recorde-se que os
supostos corpos de Hitler e Eva Braun foram encontrados no lado de fora do bunker).
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A atual proposta para investigação deste caso assenta na comparação do material
genético obtido dos familiares de Hitler com o crâneo que se pensa ser de Hitler, para
possibilitar saber se efetivamente é o corpo dele ou não, e só depois tirar as devidas
conclusões, embora não se exclua de todo a hipótese do cianeto ou do suicídio por arma
de fogo, mas conforme já foi dito, em primeiro lugar, deve ser confirmada a identidade
dos corpos.
tutancâmon
A morte de Tutancâmon sempre esteve envolta em mistério, e ainda hoje não existe a
certeza absoluta sobre o que se passou, apenas encontramos suspeitas. Em relação à
suposta maldição do faraó, já é diferente, uma vez que a ciênciaconseguiu esclarecer o
que realmente aconteceu. Tutancâmon foi um faraó que governou o Egito na 18o dinastia,
e apenas ficou famoso depois de ter sido descoberto o seu túmulo, no Vale dos Reis, em
quatro de novembro de 1922, por Howard Cárter, uma vez que o seu túmulo continha
cerca de 5000 objetos. Quando Cárter abriu o sarcófago, viu que os embalsamadores
tinham coberto o caixão com resinas e óleos, e que a múmia continha uma máscara de
ouro, que protegia a cabeça do faraó. Para retirarem a máscara, separaram a cabeça do
corpo, usando facas, assim como desarticularam os braços e as pernas, e partiram a
múmia em vários pedaços. Os estudos realizados indicavam que a múmia teria cerca de
167 cm de altura, e que teria entre 17 e 19 anos de idade, quando faleceu. A existência de
uma fratura na perna, durante muitos anos foi tida como uma causa possível de morte.
Em 1968, um professor de anatomia (Harrison) indicou que faltavam umas costelas
à múmia, e que existia um deslocamento de fragmentos de osso no crânio do faraó.
Em 2005 teve início o projeto Egyptian Mummy Project, cujo resultado do trabalho
demonstrou que o faraó morreu entre os 18 e os 20 anos de idade, sendo a idade mais
próxima os 19 anos. A equipe descobriu que os fragmentos no crânio tinham sido
causados pelos embalsamadores, no momento da mumificação. O resultado importante
desta análise foi que a fratura da perna teria ocorrido entre dias ou horas antes da sua
morte, e que esta fratura isolada não poderia ser a causa de morte, a não ser que tivesse
provocado um embolismo.
Em 2009, foram colhidas amostras de DNA do faraó, para efetuar um estudo da família
de Tutancâmon, e foram revelados dois resultados importantes: o primeiro é que o
faraó tinha um defeito importante na perna, e o segundo é que ele sofria de malária.
Esta deformação no membro originava que o faraó apresentasse alterações na marcha,
que foram confirmadas pelos vários desenhos presentes no túmulo, onde ele aparecia
com vários modelos de bengalas. Os objetos que acompanhavam o faraó no túmulo,
nomeadamente, pão, mel, frutas e vinho, são indicativos de que o faraó necessitava de
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crImE E ENtomologIA como mEDIDA AUxIlIAr
fortificar o seu sistema imunitário, o que poderá ir de encontro ao que foi diagnosticado
(malária). Segundo Hawass (2011), a causa de morte provável de Tutancâmon foi
efetivamente a malária, ficando assim de lado a eterna história de que o faraó teria sido
assassinado.
Existiram ainda outras teorias, que indicavam que o faraó teria morrido por acidente,
ao cair da sua carruagem. Também durante anos existiu a crença de que existiria uma
maldição, denominada de “maldição de Tutancâmon”, uma vez que os elementos que
estiveram na escavação e descoberta do túmulo morreram de forma súbita Também
estas mortes foram investigadas, e quase todos faleceram devido a uma infeção
pulmonar ou de sepses, devido à presença no túmulo de bactérias, altamente letais, que
estavam associadas à decomposição dos alimentos e animais que estavam no túmulo
com o faraó. As próprias inscrições que aparecem no túmulo já são propícias a descrever
lendas: “Deixem o faraó descansar em paz, não toquem no sagrado sarcófago”.
ramsés iii
Permaneceu durante anos o mistério sobre a morte de Ramsés, embora existisse uma
descrição no Papiro de Turim, uma conspiração sobre a sua morte.
Em 2012, uma equipa multidisciplinar realizou uma grande investigação para
determinar a verdade, juntando assim a antropologia, a patologia forense, a radiologia
e a genética. A morte de Ramsés foi longamente debatida entre os egiptólogos, embora,
conforme já foi dito, aparecesse descrito que no ano 1155 a.C., os membros do harém
do faraó atentaram contra a vida de Ramsés, no entanto, falharam (o que não é muito
claro, uma vez que o faraó morreu).
Os estudos forenses, realizados ao longo dos anos, colocaram a hipótese de o faraó ter
sido agredido e ter falecido mais tarde, devido às lesões. Foi realizada uma TAC à múmia
do faraó, que revelou a existência de um ferimento sério na garganta, diretamente
abaixo da laringe. A lesão tinha cerca de 70 mm de comprimento, e estendia-se até à
quinta vértebra da coluna cervical. A extensão e profundidade da lesão indicam que foi
a causa imediata da morte de Ramsés.
Ainda foi colocada a hipótese de o corte ter sido provocado pelo embalsamador, uma
vez que existem outros casos idênticos, no entanto, a radiologia forense resolveu o caso,
uma vez que as características da lesão indicam que a mesma foi realizada antes do
embalsamento, e que os embalsamadores tentaram disfarçar a lesão com a colocação
de um amuleto. Estes amuletos foram utilizados diversas vezes para solucionar a
existência de lesões, também aqui a arqueologia forense teve um papel importante em
estudar este ritual. Esta interação entre as diferentes ciências forenses, definitivamente,
resolveu este mistério.
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Jesus Cristo
A causa da morte de Jesus Cristo tem estado envolta em algumas polêmicas,
principalmente, porque coloca em causa algumas crenças da religião católica. Segundo
os registos, Jesus foi cruxificado no dia 7 de abril. Assumindo que Jesus teria uma boa
condição física antes da caminhada com a cruz, as 12 horas em que foi submetido a
tortura, teriam causado um grande sofrimento emocional, e stress, além dos danos
físicos. Após estas 12 horas de tortura, foi forçado a andar cerca de 4 km com uma
cruz que pesava cerca de 130 kg. Estes fatores físicos e emocionais poderão ter causado
efeitos hemodinâmicos adversos. Seguindo a descrição feita na Bíblia, Jesus teria sido
chicoteado, com um chicote denominado “cavalo marinho”, que consiste num chicote
que tem nas pontas bolas de aço. Estas chicotadas provocaram lesões importantes nos
tecidos subcutâneos, nomeadamente lacerações e contusões, que levam a uma perda
importante de sangue, o que originou hipovolemia. Esta extensão de perda de sangue
poderá ter tido influência no tempo que sobreviveu enquanto esteve crucificado. A
dor e a hemorragia, provavelmente, deixaram Jesus num estado de pré-choque, que
foi agravado pela falta de comida, de água e de sono, o que levou a um agravamento
importante do estado de saúde de Jesus.
A crucificação aparece descrita no tempo dos persas, e Alexandre, o Grande, introduziu
esta prática no Egito. Só mais tarde os romanos utilizaram a crucificação como pena.
Os romanos usavam a crucificação para provocar uma morte lenta com o máximo de
dor e sofrimento, tornando-se por isso um dos métodos de execução mais cruéis. Os
romanos também criaram o modelo de o condenado ser obrigado a transportar a sua
cruz às costas até ao local onde seria crucificado. A técnica de crucificação consistia em
atar as mãos e os pés à cruz e deixar a vítima naquela posição até falecer. No caso de
Jesus, decidiram usar também pregos para perfurar a região dos punhos e do dorso dos
pés, e os guardas ficaram a guardar o corpo até ele morrer.
A tradição dos soldados romanos, para verificar se de fato a pessoa já tinha morrido, era
espetar uma lança no tórax na região precordial, porque caso ainda não estivesse em
paragem cardiorrespiratória, ficaria na altura. O mecanismo de morte da crucificação
era a asfixia, por fadiga muscular. No caso de Jesus, os estudos realizados colocam
como possibilidade existirem duas causas proeminentes, sendo uma delas o choque
hipovolêmico e a outra a exaustão e consequente asfixia. Outra possibilidade seriam
possíveis fatores que poderiam contribuir para a morte, nomeadamente a desidratação,
arritmias induzidas pelo stress, insuficiência cardíaca congestiva.
Jesus foi crucificado com dois ladrões, e segundo a cultura romana os corpos não
poderiam ficar penduradosaté amanhecer o dia de sábado, como tal, os soldados
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questionaram Pilates sobre este aspeto, ao que o mesmo deu indicação para que
retirassem os corpos. Os soldados fraturaram as pernas dos ladrões, para que eles
caíssem e acabassem de morrer, quando chegaram ao pé de Jesus ele já estava morto,
apenas foi necessário removê-lo. Ainda em relação à morte, existiram dois aspetos que
criaram sempre grande controvérsia, nomeadamente na natureza da ferida no tórax e o
fato de ter morrido poucas horas após estar na cruz. O apóstolo João descreve nas suas
escrituras que o tórax de Jesus “jorrava” sangue e água. Alguns autores interpretaram a
água como sendo ascite ou urina, devido à perfuração feita pela lança, no entanto, lendo
atentamente o que João escreveu, existe uma indicação de pleura, o que poderia levar à
interpretação de que poderia ser algo que implicasse as costelas, e que a ferida tivesse
atingido o pulmão. A dúvida persiste, uma vez que João não descreve qual o lado do tórax
que continha a ferida. Esta “água”, poderia ser fluido pericárdico, ou líquido seroso da
pleura. O fato de Jesus ter morrido passado seis horas de estar na cruz também levou a
várias interpretações, sendo que uma delas seria devido ao fato de ter ocorrido ruptura
cardíaca, devido à ferida. Outra explicação seria a morte ter sido causada por enfarte do
miocárdio por baixo débito, ou por arritmia, outra interpretação, ainda, seria o que já
foi referido anteriormente (asfixia ou falência cardíaca). Permanece o mistério sobre a
causa da morte, mas para alguns investigadores o que interessa não é a causa da morte,
mas sim quando morreu. Pela análise das escrituras, Jesus já estaria morto antes de os
soldados terem usado a lança para atingir o tórax. As evidências médicas indicam que a
lança teria não só perfurado o pulmão direito, como também o pericárdio e o coração.
Em 2009 o médico legista Zugibe escreve um livro sobre aspetos forenses da crucificação
de Jesus, levantando questões pertinentes e fazendo testes práticos com voluntários
que foram colocados em posição de crucificação, o que permitiu que tivesse excluído a
hipótese que Jesus Cristo tenha morrido por asfixia. Segundo este autor, Jesus morreu
devido a choque hipovolêmico devido à crucificação.
fraudes forenses
Uma das maiores fraudes investigadas foi o caso da Joana d’Arc. Participaram na
investigação médicos legistas, patologistas, geneticistas, bioquímicos, radiologistas, um
zoólogo e um arqueólogo. Foram usadas diferentes técnicas, incluindo várias formas
de microscopia, análise química e datação por carbono. Estes novos testes forenses
mostraram que os ossos, que se acreditavam ser os restos mortais do ícone francês,
eram de origem egípcia. O cientista Philippe Charlier afirma que os restos mortais
incluem uma costela humana queimada de uma múmia egípcia e um osso da coxa de
um gato.
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O enfermeiro forense, perante estes casos de superstições, crenças e mitos, em primeiro
lugar, deve tentar enquadrá-los com a lei e a sociedade em que estão inseridos, e só
depois inicia a sua atividade forense. Deve tentar proteger as vítimas, encaminhando-as
para organizações que possam defender os seus direitos. O enfermeiro forense, nestes
casos especiais, tem um papel importante, na formação e educação da comunidade,
tentando desmistificar as crenças e mitos, mas respeitando sempre as tradições,
assim como colaborando com a investigação, avaliando adequadamente as vítimas,
e realizando registos precisos e minuciosos. A violência tomou-se num ciclo, em que
existe desumanidade do homem para com o homem, desumanidade do homem para
com as mulheres, e desumanidade das mulheres para com as crianças, e muitas vezes,
por causa do homem.
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CAPítulo 3
A Antropologia forense Passo a Passo
Os desenvolvimentos recentes na área da antropologia forense têm permitido a
obtenção de resultados mais credíveis e a resolução de casos que a priori poderiam
parecer insolúveis.
É precisamente pelo mais recente caso midiático, que envolveu a participação de
antropólogos forenses, que inicio este pequeno texto sobre as várias etapas de um caso
de rotina de antropologia forense. Trata-se dos “meninos de Córdoba”, cujo pai alegou
terem desaparecido enquanto brincavam num parque em outubro de 2011. A mãe,
separada do pai, sempre acreditou que o pai era responsável pelo desaparecimento dos
filhos. Cerca de 10 meses depois, os ossos recuperados numa fogueira do quintal do pai,
que erradamente a Polícia Científica tinha identificado como de cão, foram identificados
por antropólogos forenses como humanos e de crianças. Este caso triste demonstra a
relevância da perícia antropológica e ressalta a importância da especificidade de cada
tarefa forense.
Identificar, contribuir para o conhecimento da causa e da circunstância da morte e
estimar o tempo decorrido desde a morte, eis os objetivos prioritários de um exame de
antropologia forense que serão explanados sucintamente no presente capítulo através
de uma breve apresentação de cada uma das etapas de uma perícia antropológica.
quando que entra em ação um antropólogo
forense?
Geralmente, quando já passou algum tempo desde a morte. Quando a polícia já não
consegue retirar as impressões digitais do cadáver, entra o patologista. Quando este, por
ausência de traços fisionômicos, não atinge a identificação, então entra o antropólogo.
Esta sequência aplica-se quando é a identificação que está em causa. Porque quando se
trata da análise de lesões ósseas traumáticas, o antropólogo pode opinar em qualquer
etapa.
Idealmente o trabalho do antropólogo forense (AF) deveria ter início no local onde se
suspeita possam estar os restos humanos, quer para ajudar na prospecção e detecção
dos mesmos, quer, sobretudo, para a escavação e exumação dos vestígios. Como o
presente capítulo visa rever as principais etapas da perícia antropológica dentro do
gabinete, esta etapa primordial de escavação de restos humanos não é aqui explorada.
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A crítica taxonômica dos remanescentes e de todo o ambiente envolvente feita pelo AF
tem demonstrado ser crucial para responder a algumas questões, tais como o tempo
decorrido desde a morte. A recuperação de porções corporais mais fragilizadas ou de
menores dimensões pode ser maximizada pelo AF que sabe, especificamente, o que
procurar e como proceder.
Estas considerações tanto se aplicam a casos de rotina como às duas outras grandes
situações que envolvem a competência da antropologia forense: os desastres de massa
e os crimes contra a humanidade, a que nós iremos referir duma forma breve mais
adiante.
Uma nota para o papel da antropologia forense na avaliação de indivíduos vivos. Estes
casos, que dão entrada pelo Serviço de Clínica, podem ser de vários tipos: imagens de
câmaras de vídeo vigilância em que o(s) suspeito(s) é (são) apanhado(s) com pouca
qualidade; imagens de pomografia infantil nas quais se tenta identificar, por exemplo,
um adolescente x anos depois do seu desaparecimento ocorrido enquanto criança;
estimativa da idade de menores indocumentados no âmbito quer de atribuição de uma
identidade legal quer para julgar delitos cometidos e cuja pena depende da idade de
imputabilidade (14, 16 e 18 anos). Mas a grande maioria das perícias efetuadas pelos
AF em Portugal dizem respeito a indivíduos já mortos, que obviamente dão entrada
pelo Serviço de Patologia, onde se insere a Antropologia Forense (CUNHA; PINHEIRO,
2007). É sobre essas perícias que nós vamos debruçar.
Como qualquer examecientífico, há uma série de questões que devem estar bem
equaciona-das antes de dar início à perícia. Basicamente pretende-se responder a
quando, como e quem.
Concretamente, quando é que a morte aconteceu, como aconteceu e quem era a vítima.
Para tal, há que seguir uma série de procedimentos.
Avaliação prévia
Numa primeira instância avalia-se o que nos é remetido, não menosprezando qualquer
tipo de evidência. Nesta etapa é muito relevante determinar o que é osso e o que não é.
identificação da espécie
Nos casos de os vestígios serem orgânicos, importa certificar que se trata de ossos
humanos. Não é infrequente os ossos serem de animais não humanos que, no caso
de dúvida, são enviados para confirmação da espécie. A maior parte destes casos são
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resolvidos através de uma análise macroscópica, designadamente das epífises, bastante
mais informativas do que as diáfises. Mas quando a dúvida persiste, a histologia e a
genética podem ajudar a estabelecer a espécie, se bem que ambas sejam técnicas
invasivas, ou seja, implicam a destruição da amostra.
Estado de preservação e alterações tafonômicas
É fundamental que todas as amostras para análises complementares sejam retiradas
antes da limpeza e da maceração dos restos humanos, logo após uma primeira inspeção
geral do corpo.
O estado geral de conservação e a preservação diferencial das várias zonas corporais são
descritos nesta etapa. A ideia de que o antropólogo só lida com restos esqueletizados é
errada e ultrapassada. Pelo contrário, deve estar preparado para interpretar corpos em
que coexistem vários estados de preservação. Geralmente, a primeira parte a esqueletizar
é o crânio, quer pela menor quantidade de tecidos moles quer porque, normalmente,
não está vestido. A articulação temporomandibular é uma das primeiras a ceder, o que
explica o fato de, em muitas situações, este osso inferior da face estar completamente
separado do resto do crânio. É também frequente que a articulação atlantooccipital
ceda e, nesses casos, o crânio, esqueletizado, pode ficar separado do resto do corpo. No
esqueleto pós-craniano destaque para a última zona a esqueletizar, a da bacia. Muito
frequentemente está ainda saponificada quando o crânio já está completamente livre
de tecidos moles. É também normal recuperar mais ossos dos pés do que das mãos
pelo fato de os pés estarem calçados e as mãos, não. As roupas devem ser descritas com
detalhe.
Mas tudo deve ser registado: alterações cromáticas, marcas de corte, marcas de
mordeduras, traumatismos, impregnação por raízes, presença de terra etc. As pistas para
a resolução do caso podem estar nestes indicadores. Nesta fase, o exame radioscópico é
muito importante para perscrutar lesões de vários tipos.
tempo decorrido desde a morte
Uma vez feita a análise de todas as alterações tafonômicas (alterações decorridas
depois da morte), de avaliado o estado de preservação e conservação, faz-se uma
primeira estimativa do tempo decorrido desde a morte com base nesses indicadores. As
recolhas de amostras entomológicas, hoje convenientemente estudadas em Portugal
(PRADO; CASTRO et al., 2012), são feitas nesta altura e poderão ser decisivas para o
conhecimento do intervalo post mortem (IPM), sobretudo quando há ainda tecidos
moles. Pode-se, desde logo, suspeitar se se trata de um caso com implicações forenses
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(no Brasil, até 15 anos decorridos desde a morte), um caso “roubado” de um cemitério
atual ou um caso arqueológico. A avaliação deste parâmetro permanece como um dos
mais difíceis de toda a perícia antropológica pela variabilidade de fatores envolvi-
dos na decomposição (FERREIRA; CUNHA, 2013), ou seja, o tempo decorrido desde
a morte não pode ser avaliado apenas e diretamente com base na decomposição
cadavérica (FERREIRA; CUNHA, 2013). O segredo está no exame holístico onde até
as roupas são valiosos indicadores cronológicos e onde alguns avanços metodológicos
nos métodos de datação com base no radiocarbono abrem novas esperanças.
limpeza, maceração, reconstrução e inventário
Depois disso, as zonas a macerar e a ser objeto de uma limpeza mais cuidada são
selecionadas. Não há uma regra que se aplique a todos os casos. Um corpo totalmente
mumificado não vai ser macerado na íntegra, por exemplo. A grelha costal, o crânio, as
zonas suspeitas de terem traumatismos e a sínfise púbica, são algumas das zonas das
quais se removem os tecidos moles (PINHEIRO; CUNHA, 2006).
A etapa seguinte é colocar o corpo/ossos em posição anatómica para proceder ao
inventário onde devem ser anotadas as peças presentes e ausentes. A não recuperação
do hioide, por exemplo, pode fazer toda a diferença numa situação em que se suspeita
de estrangulamento. É nesta etapa que deve ser feito o odontograma, que não é aqui
explorado por cair no âmbito da medicina dentária forense. Deve relembrar-se que o
antropólogo forense deve dominar a nomenclatura da Federação Dentária Internacional
(FDI - World Dental Federation) e saber fazer o preenchimento de um odontograma
que deve constar do seu relatório. Quaisquer casos mais particulares devem ser objeto
de análise dos respetivos peritos.
Avaliação do perfil biológico
O corpo está finalmente pronto para ser analisado. Começa-se pelos fatores genéricos de
identificação que integram a avaliação do perfil biológico. Os quatro grandes parâmetros
a analisar são o sexo, a idade na altura da morte, a origem geográfica provável (designada
por ancestralidade ou afinidades populacionais) e a estatura. As respostas, devem, na
medida do possível, quantificar os resultados. É preciso ter em mente que todas as
nossas metodologias, resultados e conclusões, são passíveis de serem questionados por
um tribunal, por um juiz, o que é perfeitamente legítimo e concorre para a melhoria da
qualidade dos dados obtidos. Aliás, se a antropologia forense quer competir com outras
ciências que podem identificar, como a dactiloscópica e a genética, por exemplo, o único
caminho possível é o da quantificação dos resultados. Concretizando, deve dizer-se de
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um modo claro que há 90% de hipóteses que um dado indivíduo seja do sexo masculino
e justificar, com base no método seguido, essa asserção.
Mas vejamos como aceder ao perfil biológico, o qual, por si só, nunca permite uma
identificação, mas sim uma exclusão ou um estreitamente ou direcionamento da
investigação criminal. Ou seja, dizer que um indivíduo é, a título de exemplo, feminino,
com uma idade entre os 20 e os 30 anos, caucasiano e com uma estatura entre 1,60 e
1,65 m, não diz quem é a pessoa, mas já permite diminuir significativamente a lista de
suspeitos com a qual os resultados são confrontados.
iagnose sexual
Para o diagnóstico sexual, a zona anatómica de eleição é a bacia, seguida do crânio e
dos ossos longos. Os métodos aplicados podem ser métricos e não métricos, tendo os
primeiros a vantagem de ser mais objetivos e mais facilmente reprodutíveis.
A forma da grande chanfradura ciática, a presença, ou não, de sulco pré-auricular, a
forma do ramo ísquio-púbico, a existência, ou não, de concavidade subpúbica, ou, se
possível, a avaliação do ângulo subpúbico e da forma geral da bacia, quando completa,
são algumas das características antroposcópicas em que o antropólogo se baseia. Para
os métodos métricos, talvez uma das melhores soluções seja a preconizada pelo método
DSP (Probabilistic Sex Diagnosis) (MURAIL et al, 2005).
O crânio é geralmente avaliado antroposcopicamente: a projeção da glabela e das
arcadas supraciliares, o rebordo das órbitas,a inclinação do frontal, o desenvolvimento
das bossas frontais e parietais, as zonas de inserção muscular, designadamente a
crista occipital e linhas das nucas, o volume das apófises mastoides são caracteres
obrigatoriamente averiguados. Alternativamente, há funções discriminantes, ou seja,
equações matemáticas que combinam várias medidas craniométricas, cujo resultado
permite decidir se é masculino, feminino ou indeterminado. É fundamental aplicar
funções que tenham sido desenvolvidas em séries de referência próximas dos casos em
questão.
Para os ossos longos, a problemática é idêntica. Com base em medidas tais como o
diâmetro transverso ou vertical da cabeça do fémur e/ou do úmero, são criados pontos
de cisão, em que acima de um dado valor significa ser masculino e abaixo, do sexo
oposto.
Todos os procedimentos acima referidos só podem ser aplicados a esqueletos adultos,
já que antes disso não há caracteres sexuais secundários definidos que permitam uma
avaliação credível deste parâmetro. Começa, no entanto, a haver alternativas métricas
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para a avaliação sexual dos não adultos, designadamente através da medição das coroas
dentárias anteriores (CARDOSO, 2010). Não obstante, nestes casos, deve-se recorrer a
métodos moleculares, ou seja, enviar um fragmento de osso e/ou dente para a genética.
Estimativa da idade na altura da morte
É mais ou menos indiferente começar pelo diagnóstico sexual ou pela idade já que são,
de algum modo, interdependentes. Para avaliar a idade é crucial frisar que podemos
aceder à idade biológica, que é aquela que o indivíduo aparenta ter e nunca a idade
cronológica que corresponde ao número de anos que um indivíduo efetivamente viveu e
que consta no seu documento de identificação. A idade biológica aproxima-se da idade
cronológica, mas não na totalidade.
Assim, a idade dentária e a idade óssea vão fornecer uma estimativa do intervalo etário
onde o indivíduo se insere, mas nunca um dígito concreto.
Como durante o crescimento e o desenvolvimento há uma série de ossificações e
maturações correlacionadas de uma forma previsível com a idade, é possível aceder à
idade com alguma precisão, o que se reflete no desvio padrão da estimativa que é tanto
mais baixo quanto mais novo for o indivíduo.
A idade dos fetos (antes do nascimento) é dada em semanas e é acedida por meio
do desenvolvimento dentário e do comprimento das diáfises dos ossos longos. Estão
definidos um conjunto de critérios que nos permitem identificar um recém-nascido,
o qual deve ter a grande fontanela aberta, as fontanelas pares e posterior em processo
de encerramento, a mandíbula dividida em duas partes, o mesmo acontecendo com o
osso frontal; o anel timpânico não deve estar ainda totalmente formado, a cúspide do
primeiro molar definitivo deve ser visível radiologicamente; os processos articulares
das vértebras estão ainda divididos em duas partes (CUNHA et al., 2009).
O desenvolvimento dentário, primeiro, seguido da erupção dentária, sâo os indicadores
mais poderosos na avaliação da idade dentária sendo fulcral a escolha do método
seguido, o qual poderá depender da zona geográfica onde se está a trabalhar (CUNHA et
al., 2009). Para além disso, a idade dentária aproxima-se mais da idade cronológica do
que a idade óssea. Quanto a esta, na primeira e segunda infâncias, o comprimento das
divises dos ossos longos são razoáveis indicadores etários. Já na adolescência, é a união
das epífises com as diáfises que indica o intervalo etário. As últimas ossificações do
esqueleto humano são particularmente informativas, com destaque para a crista ilíaca,
cuja ossificação decorre até cerca dos 22 anos e, sobretudo, da extremidade esternal da
clavícula que só ossifica por volta dos 30 anos. Este é um osso muito informativo para
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a estimativa da idade de adultos jovens, entre os 20 e os 30 anos, designadamente na
denominada fase de transição. Significa que uma vez terminado o crescimento, ainda
há ossificações a decorrer. Uma outra ossificação que deve ser verificada na passagem
para a vida adulta é o encerramento da sincondrose esfeno-occipital na base do crânio.
No entanto, por ser algo variável, não deve ser usada isoladamente.
As dificuldades para estimar a idade aumentam sobremaneira depois dos 30 anos pela
inexistência de alterações suficientemente bem correlacionadas com o avançar da idade.
Parou o crescimento e entra-se no amadurecimento e envelhecimento, processos muito
mais multifatoriais e, implicitamente, mais imprevisíveis. Os indicadores esqueléticos
etários são menos e mais falíveis e apontam para intervalos significativamente mais
amplos que nem sempre têm a utilidade esperada na busca de desaparecidos. A bacia
volta a ser uma das zonas mais informativas. Designadamente a sínfise púbica, que,
uma vez avaliada pelos moldes comercializados por Brooks e Suchey (1990), pode dar
uma boa indicação para adultos relativamente novos (corresponde às três primeiras
fases do método que inclui um total de seis fases). Assim, se houver compatibilidade
com as fases I, II ou III, a idade é a indicada pelo intervalo correspondente e pode ser
corroborada pela clavícula que nos dirá se o indivíduo terá mais ou menos de 30 anos.
Se, ao contrário, as alterações degenerativas da sínfise púbica forem compatíveis com as
últimas três fases do método em apreço, e porque os intervalos etários conseguidos são
demasiadamente amplos, então deve ser usado outro método, nomeadamente a técnica
de Lamendin, que quantifica a translucidez radicular nos dentes unirradiculares, a qual,
uma vez correlacionada com o comprimento total da raiz e da paradontopatia através
de uma equação de regressão, permite estimar a idade com muita assertividade. Estes
procedimentos que acabámos de descrever correspondem ao método conhecido por
two steps procedure (TSP) (BACCINO; SCHMITT, 2006).
Outras zonas da bacia como a superfície auricular ou o acetábulo têm sido pesquisadas
na perspectiva de encontrar uma boa correlação com a idade. Merece igualmente
referência a extremidade esternal da quarta costela, ou ainda a fusão do anel vertebral
e posteriores alterações degenerativas nos corpos vertebrais, que fornecem uma
estimativa aceitável.
O sucesso de uma boa avaliação etária, aliás de uma boa avaliação forense,
independentemente do parâmetro que se está a perscrutar, reside na capacidade
de fazer um exame holístico, em que o todo vale mais do que cada uma das partes.
Por exemplo, uma mandíbula e maxilares desprovidos de dentes (perdidos em vida)
não significa, necessariamente, que estejamos perante um indivíduo idoso. Se todos
os outros indicadores indicarem que se trata de um indivíduo adulto jovem poderá
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tratar-se de um toxicodependente. Finalmente, é necessário relembrar que o resultado
é dado na forma de um intervalo, mais velho do que x anos, nem sempre sendo possível,
inclusivamente, indicar a baliza cronológica superior (menor do que x anos).
Avaliação das afinidades populacionais
Passando agora ao terceiro parâmetro do perfil biológico, a avaliação das afinidades
populacionais, também designado por ancestralidade, estamos perante o parâmetro
mais ambíguo dos quatro. Uma vez mais, a avaliação pode ser métrica ou antroposcópica
e a zona de eleição é a face.
Há uma série de caracteres não métricos que devem ser averiguados e cujos resultados
podem indiciar pertença a um dos grandes grupos populacionais; caucasianos,
asiáticos ou africanos. Concretizando, o incisivo em forma de pá é conhecido por ser
significativamentemais frequente entre os asiáticos, o tubérculo de Carabelli é, por seu
turno, mais frequente entre os europeus.
Há, igualmente, uma série de medidas a efetuar na face com poder discriminatório,
sobretudo quando combinadas na forma de uma equação discriminante. Entre elas
destaque para as medidas na zona nasal, tais como altura e largura nasal, espaço entre as
órbitas, largura facial e prognatismo. Os norte-americanos desenvolveram um programa
que hoje é bem conhecido, o Fordisc, que combina 24 medidas craniométricas, de modo
a poder aceder à origem geográfica e cuja utilização é quase exclusiva desse país.
Em suma, o crânio é bastante mais assertivo na avaliação das afinidades populacionais
do que o pós-craniano. Dentro do crânio, a face é bem mais informativa que
o neurocrânio, e, na face, a zona nasal é a de eleição. O resultado da avaliação das
afinidades populacionais nunca deve ser dado dum modo taxativo, mas apenas como
uma mera possibilidade ou, dependendo dos casos, forte probabilidade de pertencer a
um dos três grandes grupos populacionais.
Estatura
O último dos quatro grandes parâmetros a avaliar é geralmente a estatura porque
depende do sexo e, até, da ancestralidade. É o mais simples e direto, mas não é
necessariamente o que melhor funciona. Aliás, é muitas vezes o que mais falha. O osso
mais correlacionado com a estatura é o maior do corpo humano, o fémur, pelo que
deve constituir a primeira opção. A tíbia e o úmero são também boas escolhas, quer
quando usados individualmente quer quando combinados numa mesma equação de
regressão. No entanto, há que atender às populações que serviram de referência para o
desenvolvimento das equações de regressão.
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As proporções entre membros têm a sua influência. Na ausência dos maiores ossos,
outros podem ser usados como é o caso dos metatársicos. Até mesmo com base num
fragmento de um osso é possível aceder à altura de um indivíduo. Tudo depende da
dimensão desse fragmento e, inviavelmente, é sempre uma estimativa menos credível.
Na apresentação do resultado da estatura é obrigatória a inclusão do desvio padrão
associado à estimativa, 160 cm ± 6 cm não é 160 cm, mas sim uma estatura que pode ir
de 154 a 166 cm.
fatores de individualização
Uma vez em posse dos fatores genéricos de identidade e nos casos em que há listagens
de desaparecidos para fazer a necessária confrontação, pode-se, eventualmente,
conseguir reduzir substancialmente as hipóteses por meio de exclusões. Para aceder
à identificação terá que se passar para a perscrutação dos fatores de individualização.
Todo o corpo é então pesquisado no sentido de encontrar caracteres singulares de índole
morfológica ou patológica. As variantes anatômicas são muitas e variadas e, quanto
mais raras, maior é o seu potencial para identificar. A perfuração esternal, a abertura
septal do úmero, o osso acromial bipartido e os ossículos supranumerários suturais são
alguns exemplos.
Ainda no âmbito morfológico, merecem particular atenção, como fatores de identidade,
os seios frontais. Pelas suas características únicas e imutáveis durante a vida adulta,
constituem um excelente método de identificação positiva aceite pelos tribunais. O
fato de não funcionarem tão bem quanto o desejado deve-se, apenas, à fraquíssima
proporção de desaparecidos que tem um exame radiológico ante mortem desta zona
anatómica.
Já as lesões podem ser de vários tipos e permitir chegar à patologia subjacente. Mas
mais importante do que identificar a doença que esteve na origem das lesões, é descrever
os efeitos das lesões no quotidiano, na locomoção, na postura. São esses efeitos que
vão ser reconhecidos pelos familiares e amigos da vítima (CUNHA, 2006). São várias
as doenças passíveis de deixar marcas nos ossos, desde degenerativas, infeciosas,
neoplásicas, metabólicas e congênitas (CUNHA; PINHEIRO, 2012). Apesar de não
existirem sinais totalmente patognomônicos associados a uma patologia específica, a
manifestação de uma lesão não é totalmente igual em dois indivíduos. Veja-se o caso de
uma patologia degenerativa articular muito comum, a osteoartrose. Os osteófitos nunca
vão ter a mesma localização, forma e tamanho em dois indivíduos distintos. Logo, a
comparação entre eventuais exames radiológicos ante mortem da vítima com raios X
efetuados post mortem à mesma zona, na mesma incidência e posição, podem, por
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meio da sobreposição, provar a identidade. Assim, os osteófitos podem ser considerados
condições médicas únicas, do mesmo modo que uma lesão neoplásica exuberante a
afetar o crânio, bastante mais rara, também o é. A consulta dos registos médicos e até
do médico de família, caso exista, podem ser determinantes.
Uma nota para as lesões degenerativas não articulares, as lesões nas enteses, que
podem elucidar sobre o esforço físico despendido ao longo da vida e que, por isso, são
designados como marcadores ósseos de atividade. A lesão na inserção do tendão de
Aquiles na parte posterior do calcâneo é um exemplo clássico.
As marcas de intervenções cirúrgicas são de uma enorme mais-valia para a antropologia
forense, sobretudo porque os materiais utilizados podem conter um número de série
que permite aceder ao fabricante dos mesmos, o qual, entretanto, faculta o hospital para
o qual foi vendido e assim, teoricamente, a identidade da vítima (CUNHA; PINHEIRO,
2012).
Sobreposição fotográfica craniofacial e
aproximação facial
Como referido, na ausência de exames médicos ou nos casos em que não há qualquer
suspeita sobre a identidade, a identificação positiva não é alcançada. Como últimos
recursos deve-se tentar a sobreposição craniofacial, no caso de existirem fotos dos
suspeitos ou gerar uma imagem aproximada da vítima com base no seu crânio. A
sobreposição deve ser rigorosamente efetuada usando fotos recentes da eventual vítima
que devem ser sobrepostas na mesma escala e posição às fotos do crânio da vítima. A
reconstrução facial, mais corretamente designada por aproximação facial, pretende,
sobretudo, avivar a memória das pessoas que procuram um ente desaparecido.
Sucintamente, esta aproximação pode ser feita manualmente ou por computador,
requerendo um profundo conhecimento anatómico e da espessura dos tecidos moles
cujos valores são hoje conhecidos também para a população portuguesa (CODINHA,
2009).
Causa e circunstância da morte
A última parte do exame antropológico refere-se à análise da causa e da circunstância
da morte. O exame prévio, designadamente o radioscópico, poderá ter confirmado
a suspeita de traumatismos ósseos. De qualquer modo, todos os ossos devem ser
perscrutados nesse sentido e para isso é fundamental que estejam limpos e libertos de
tecidos moles. O AF é o especialista melhor posicionado para discriminar entre lesões
ocorridas em vida (ante mortem), na altura da morte (pen mortem) e depois da morte
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(post mortem) (CUNHA; PINHEIRO, 2009). A associação inequívoca de uma lesão
traumática ao momento da morte tem repercussões legais importantes.
Se se tratar de uma lesão perimortal, o AF pode ainda identificar o instrumento produtor
das lesões através da destrinça entre fraturas contundentes, perfurantes, cortantes ou
mistas. É uma tarefa complexa que não cabe aqui explicar pelo que remetemos para
Cunha e Pinheiro (2007). Há toda uma linguagem das fraturas ósseas que, uma vez
corretamente interpretada, pode informar sobre o posicionamento da vítima versus
agressor, a sequência das lesões, entre outros. Aceder a estes aspetos está dependente
da reconstrução óssea quepode ser uma tarefa árdua também desempenhada pelo AF.
Na interpretação das lesões traumáticas é essencial não esquecer algumas máximas
muito úteis em AF: a ausência de evidência não é evidência de ausência.
Ou seja, a ausência de lesões traumáticas não implica necessariamente que a morte não
tenha sido traumática. Um mesmo objeto pode provocar diferentes lesões. O contrário
é igualmente válido: as mesmas lesões podem ser provocadas por instrumentos
distintos. Convém também relembrar que os traumatismos são apenas um dos tipos de
morte violenta (há ainda os estrangulamentos e as asfixias) e que, nalguns casos, a AF
pode elucidar sobre a etiologia médico-legal da morte. Esta etapa do exame de AF deve
ser obrigatoriamente discutida com o patologista forense, o único perito autorizado a
assinar o certificado de óbito. Se a lesão traumática detectada foi ou não fatal é uma
decisão conjunta. Vai depender, obviamente, da proximidade da lesão aos órgãos vitais.
O que mata não é a lesão no osso em si, mas a provocada no órgão mais próximo.
Uma vez enviadas as amostras ósseas e/ou dentárias para exames complementares
(designadamente genética), o exame antropológico fica concluído devendo passar-se à
execução do relatório.
desastres de massa
Como referido, “fora de portas” o antropólogo intervém fundamentalmente em dois
grandes tipos de situações: desastres de massa e crimes contra a humanidade, tendo
sido precisamente este tipo de eventos que contribuiu para o acentuado crescimento da
disciplina nos últimos anos (CUNHA, 2010).
Nos desastres de massa, independentemente de serem fechados (com conhecimento
do número de vítimas, desastre de avião) ou abertos (sem conhecimento do número
de vítimas, tsunami), o desempenho do AF tem sido reconhecido. Este perito atua
fundamentalmente em dois momentos: primeiro, na triagem dos despojos do acidente
para discriminar entre humano e não humano. O AF tem-se revelado exímio na
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identificação de fragmentos humanos. Posteriormente, na estação post mortem
para o exame dos restos humanos, em particular quando estes estão esqueletizados
ou cremados. A análise dos restos humanos cremados é efetivamente uma das
grandes contribuições do AF. A perícia na identificação e o conhecimento profundo
das alterações termoinduzidas nos ossos e nos dentes tem facultado informações
doutro modo inacessíveis, tais como número mínimo de indivíduos, temperaturas de
combustão. Se o corpo ardeu em cadáver ou esqueletizado, entre outras (GONÇALVES
et al., 2011; GONÇALVES, 2011). Remexer e ler as cinzas é uma das grandes missões
dos antropólogos forenses.
os crimes contra a humanidade
Os crimes contra a humanidade são outro campo de intervenção dos AF. A globalização e
o aumento de genocídios e, consequentemente, de valas comuns ilegais e de um número
desmesurado de desaparecidos é difícil de contabilizar. Só na antiga ex Jugoslávia, no
último aniversário do dia mundial dos desaparecidos forçados foram referidos 14 mil
desaparecidos na sequência de conflitos recentes. E por todo o lado se proclama the
rigkt to know, nomeadamente o direito a saber onde estão os ossos dos entes queridos.
É esta a tarefa da antropologia: escavar, exumar, individualizar os restos humanos,
identificá-los, documentar as violações de direitos humanos ocorridas antes da morte
e na altura da mesma. O conhecimento da cronologia das lesões é das áreas que mais
requer investigação em AF (CUNHA; PINHEIRO, 2009, 2011). A documentação das
violações de direitos humanos feitas através dos ossos contribui definitivamente para
que as mortes desses indivíduos não tenham sido em vão.
Os resultados finais do exame antropológico, qualquer que seja a situação, devem ser
apresentados de forma clara e inequívoca. Os dados devem ser descritos objetivamente,
de modo a permitir a um segundo observador/perito a formulação da sua própria
hipótese. No final, no que respeita à identificação, deve ser manifesto de forma não
ambígua se se atingiu identificação positiva, presumida, uma exclusão ou se o exame foi
inconclusivo. Não há dúvida de que o aumento de casos de identificação positiva está
altamente dependente da recolha de dados ante mortem sobre os desaparecidos e na
criação de bases de dados completas e objetivas.
As conclusões relativas à causa de morte devem ser inequívocas. Na ausência de
lesões traumáticas perimortais, deve ser dito que nada pode ser concluído sobre este
parâmetro.
O sucesso de um caso de antropologia forense depende também da capacidade de
transmitir os resultados do exame duma forma clara e não ambígua e das interações
que se possam vir a desenvolver com as entidades envolvidas no caso.
144
CAPítulo 4
Entomologia forense e medicina
dentária forense: áreas de intervenção
A entomologia forense é o ramo da ciência forense em que a informação sobre insetos
e outros artrópodes é usada na investigação de casos legais (GENNARD, 2007). A sua
principal aplicação centra-se na determinação do tempo mínimo decorrido após a
morte, em casos de mortes suspeitas, quer pela estimativa da idade dos insetos em
desenvolvimento no corpo como pela análise da comunidade de insetos presentes e dos
seus respetivos padrões de sucessão (AMENDT et al, 2011).
Há insetos que são atraídos por um corpo imediatamente após a morte, colonizando-o
em uma sequência previsível. Um cadáver, seja humano ou animal, é um importante
recurso alimentar para muitos organismos, em particular para os insetos, suportando
uma grande e diversa comunidade que muda à medida que o corpo se decompõe
(ANDERSON, 2010). Uma cuidadosa análise desta comunidade encontrada em um
corpo em decomposição, combinada com o conhecimento sobre a biologia e ecologia de
diversas espécies e ainda as condições ambientais locais, muitas vezes podem fornecer
valiosas informações forenses. Além da estimativa da data da morte, a eventual
movimentação dos restos cadavéricos após a morte, a indicação de lesões ante mortem
e a detecção de drogas são questões que podem ser esclarecidas através dos insetos
(GOFF; LORD, 2010).
Outro fenômeno relevante é o de algumas espécies de moscas que se desenvolvem em
cadáveres também o poderem fazer em corpos vivos, causando o que se apelida de
miíase.
Alguns insetos são atraídos por odores, como a amônia, de urina ou fezes, por exemplo,
em um indivíduo incontinente. Um bebê que não tenha a fralda mudada com a frequência
necessária ou pessoas idosas incapacitadas, que não sejam assistidas na manutenção da
sua higiene corporal, são potenciais alvos de atração de moscas adultas, que poderão
colocar os seus ovos na roupa ou pele. Estes ovos, se não forem detectados, irão eclodir,
transformando-se em larvas que começarão a alimentar-se da carne e feridas ou úlceras
existentes (GENNARD, 2007). A análise das larvas nestes casos pode demonstrar o
período de negligência em humanos e também em animais (AMENDT et al, 2011). O
reconhecimento deste processo pelo pessoal hospitalar é um pré-requisito para que
seja feita a recolha e preservação dos insetos e para que possa ser calculado o período
de negligência.
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crImE E ENtomologIA como mEDIDA AUxIlIAr
insetos como indicadores do tempo decorrido
após a morte
Os insetos são normalmente os primeiros organismos a descobrir um corpo, sendo
capazes de colonizar, por vezes, poucos minutos após a morte (NUORTEVA, 1977;
SMITH, 1986). A entomologia forense baseia-se na sequência de aparição de insetos
no cadáver e também no reconhecimento do grau de desenvolvimento dos estádios
imaturos das diferentes espécies (NUORTEVA, 1977). Os insetos são usados em
investigações forenses, especialmente para estimar o tempo decorrido após a morte
ou intervalo post mortem (IPM).A vantagem deste método, em comparação com
outros procedimentos usados em Medicina Legal, é a sua precisão, mesmo em estado
avançados de decomposição (depois de quatro a cinco dias post mortem), na qual os
métodos tradicionais falham (ANDERSON; VANLAERHOVEN, 1996).
Assim que um animal (humanos incluídos) morre, uma grande diversidade de moscas
é imediatamente atraída para o corpo, por meio de odores específicos. As moscas
são por isso, geralmente, as primeiras a chegar a uma cena de crime. A postura de
ovos (oviposição) no cadáver marca o início de um relógio biológico que é usado por
entomólogos forenses para estimar o IPM. Seguidamente, apresentam-se os dois
métodos que podem ser utilizados no cálculo do IPM.
A análise de entomologia forense fornece informação sobre o período de atividade de
insetos em um corpo. Um cadáver, esse período é calculado fazendo a estimativa da
idade dos insetos imaturos, através do seu grau de desenvolvimento e/ou utilizando
conhecimentos sobre a comunidade e os seus padrões de sucessão. Algumas espécies
de moscas conseguem infestar seres humanos vivos causando uma doença apelidada de
miíase. A análise das larvas nestes casos pode revelar o período de negligência ocorrido.
Para uma análise adequada das evidências entomológicas é necessária uma correta
recolha e preservação de insetos. Uma miíase induzida medicamente pode servir para
tratar feridas de difícil cura e é denominada de terapia das larvas.
medicina dentária forense: Áreas de
intervenção
A Ciência Forense é aquela que colabora na aplicação da lei. A Medicina Dentária
Forense integra as Ciências Forenses, dentro da área da Medicina, em conjunto com
outras duas, a Medicina Legal e a Psiquiatria Forense. A Medicina Dentária Forense
tem vários campos de aplicação.
A Medicina Dentária Forense é uma ciência forense com diversas áreas de intervenção,
a nível pericial, criminal e arqueológico. O seu contributo nas várias áreas de aplicação
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é importante e complementar com outras áreas das ciências forenses. No futuro, outras
áreas irão emergir para aplicação dos conhecimentos científicos desta ciência.
genética forense
A genética, enquanto domínio da biologia, acolheu, nos últimos 20 anos, avanços
absolutamente notáveis, sobretudo, resultado do surgimento e integração dos métodos
da biologia molecular. Aliás, nenhuma outra ciência e, particularmente, nenhuma
ciência biológica ou biomédica, terá experimentado avanços, nas últimas décadas,
como as ciências que integram os conhecimentos e utilizam os métodos da biologia
molecular.
Naturalmente, que a genética forense é um extraordinário e muito bem-sucedido exemplo
da constatação do parágrafo anterior. Sendo, enquanto ciência, um domínio da biologia
é, no entanto, uma área que, por um lado, pode receber contributos e colaborações e, por
outro lado, pode integrar o leque de conhecimentos e, eventualmente, de competências
de profissionais tão diversos como biólogos, bioquímicos, criminologistas, enfermeiros,
engenheiros, farmacêuticos, juristas, médicos, psicólogos, entre outros.
E, pois, neste sentido, e tentando utilizar linguagem e conceitos, a todos transversalmente
perceptíveis, que será desenvolvido este capítulo.
Psicologia forense
A palavra “forense” descreve uma função dentro do sistema legal que serve a finalidade
da lei. A psicologia forense ganha mais sentido quando é entendida como uma prestação
direta da informação psicológica para ser usada no direito, funcionando deste modo
como elemento de ajuda à tomada de decisão judicial, é ao psicólogo forense que são
pedidas respostas que elucidem as decisões judiciais (GONÇALVES, 2010). O psicólogo
forense pode contribuir para esclarecer; as motivações para o cometimento de um
determinado crime; a averiguação da credibilidade e veracidade dos testemunhos, ou
depoimentos das vítimas, arguidos e outros intervenientes no processo judicial ou cível;
avaliação nos processos de regulação do exercício das responsabilidades parentais;
avaliação em casos de abuso sexual de menores; violência conjugal; avaliação dos danos
não patrimoniais, entre outras.
No entanto, nem todas as funções do psicólogo forense estão estritamente ligadas aos
tribunais. Desse modo, Polares (2001) criou a designação Intervenção Juspsicológica,
que refere “toda a colaboração entre a justiça e a psicologia em um vasto leque de
domínios, como sendo: apoio às vítimas (crianças; idosos; e mulheres ─ violência
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doméstica/conjugal); jurisdição laboral; justiça da família; justiça de menores;
sinistralidade rodoviária; mediação familiar; reinserção social; apoio aos agentes
da polícia e forças de segurança; toxicodependências; psicologia do testemunho, e
processos cíveis”.
A colaboração dos conhecimentos psicológicos no sistema de justiça é feita com a
finalidade de facilitar uma decisão legal. Os saberes da psicologia forense são cada
vez mais solicitados, abrangendo atividades de investigação, elaboração de estudos,
consultoria para juízes e advogados, testemunhos periciais ou pareceres relativos
aos problemas surgidos em diversos momentos do processo em tribunal. O trabalho
forense do psicólogo, como já foi referido anteriormente, é levado a cabo em uma
pluralidade de contextos, como instituições locais, juntas de freguesia, centros de
tratamento ou de reeducação para delinquentes, unidades de pesquisa do Ministério
da Justiça, serviços de apoio à criança e a vítimas no geral, estabelecimentos de saúde
mental com valência forense ou estabelecimentos prisionais (BLACKBUM, 2006).
Negligenciada durante muito tempo, a psicologia forense tem vindo a conquistar uma
visibilidade e encontra-se em expansão nos últimos trinta anos, podendo mesmo ser
considerada como uma das áreas da psicologia mais dinâmicas e produtivas, tanto
do ponto de vista da investigação como da intervenção. A aplicação da psicologia no
sistema de Justiça tem sido reconhecida como uma importante área de conhecimento.
A psicologia forense tem implícitas as seguintes características: está ao serviço do
poder judicial do Estado; é um instrumento técnico da administração da justiça;
ajuda a formular decisões sobre problemas concretos; o seu cliente, ao contrário do
que acontece na psicologia clínica, é o sistema de justiça. Deste modo, a psicologia
forense acaba por ter uma finalidade mais institucional, pois é aplicada num contexto
muito particular, com regras e deontologias próprias (JIMÉNEZ; BUNCE, 2006).
toxicologia forense
A Toxicologia é uma ciência especializada no estudo de substâncias que causam reações
adversas nos indivíduos. É considerada por muitos autores como uma disciplina
híbrida entre a Química Analítica e a Toxicologia Clássica. Diferente da Farmacologia,
que estuda os efeitos benéficos da interação entre o organismo e as substâncias, a
Toxicologia preocupa-se com o estudo dos efeitos danosos que tais substâncias podem
causar.
A sua história remonta aos tempos do Egito Antigo, onde já se conheciam e manipulavam
substâncias de origem animal e vegetal para benefício próprio. Cleópatra foi um dos
primeiros ícones históricos a utilizar um veneno para causar dano, quando, em um
momento de pânico e frustração, após a morte de Marco Antônio e a iminência da
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sua prisão por Otávio, utilizou o veneno de uma serpente para se matar. É também no
Egito Antigo que se relata a primeira prova científica da antiguidade da Toxicologia
com a descoberta do Papiro de Ebers, que, já naquela época, continha informações
importantes acercado uso de substâncias naturais como venenos.
A Grécia utilizava a cicuta como veneno oficial das suas penas de morte, sendo Sócrates
a vítima mais famosa. O uso de substâncias como veneno foi evoluindo ao longo dos
anos, tendo a participação da civilização romana, onde se utilizava o envenenamento
como pena de morte e também na Idade Média, onde envenenadores clássicos como
Lucrécia Bórgia, utilizavam arsénico puro nos seus crimes.
Foi na França, no final do século XVI, que surgiram os primeiros dispositivos legais que
determinavam a presença de peritos em casos de suspeita de envenenamento. Naquela
época, esta era uma excelente forma de cometer homicídio, uma vez que a Química
ainda não havia avançado nesse campo. Foi em 1839 que o químico Mathieu Orfila se
serviu de testes em amostras biológicas de cadáveres para comprovar a presença de um
veneno no organismo, sendo este considerado um marco na história da Toxicologia, e
sendo Orfila conhecido, então, como o pai desta ciência.
A Toxicologia evoluiu com o tempo, com os avanços da Química orgânica e analítica e
hoje dedica-se, a diferentes facetas. Atualmente, a Toxicologia é dividida em variadas
vertentes que correspondem aos diferentes ramos de análise. A Toxicologia Ambiental
estuda os efeitos nocivos causados ao ambiente a partir de contaminantes. A Toxicologia
Ocupacional estuda os efeitos adversos de exposições a agentes tóxicos causados no
ambiente de trabalho. A Toxicologia Alimentar estuda os contaminantes presentes nos
alimentos auxiliando na manutenção da saúde da população. Define os níveis aceitáveis
de pesticidas e de outras substâncias que podem estar presentes nos alimentos.
A Toxicologia Social estuda os efeitos das substâncias nocivas presentes na vida do
ser humano durante a sua interação com a sociedade, sejam elas de uso coletivo ou
individual. Uma das subáreas da Toxicologia Social é a Toxicologia dos Medicamentos,
cujo objetivo é estudar os efeitos adversos causados pelos medicamentos, antes
da sua produção (estudos clínicos) e após a sua venda (farmacovigilância). Muitos
medicamentos são retirados do mercado após a comprovação de que os seus efeitos
adversos são muitos nocivos. Exemplos clássicos destes casos são a talidomida e os
inibidores seletivos da COX-2.
A Toxicologia Clínica e a Toxicologia Forense são duas áreas importantes da Toxicologia
e aqui merecem destaque. A Toxicologia Clínica visa o estudo das intoxicações causadas
por diferentes agentes intoxicantes. É na Toxicologia Clínica que o papel do enfermeiro é
de extrema importância. O enfermeiro é o profissional que entra em contato pela primeira
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vez com a vítima e deve ser capaz de distinguir os sinais clínicos das intoxicações para
auxilio da identificação da substância. Estes sinais serão discutidos posteriormente. A
Toxicologia Forense é uma área extremamente importante quando tais intoxicações
levam à morte. Nesse momento, o papel da lei torna-se imprescindível e uma autópsia
deve ser realizada. A Toxicologia Forense tem como objetivo o uso dos conhecimentos
analíticos e toxicológicos no auxílio à justiça. Os toxicologistas forenses são um grupo
de profissionais que devem possuir um vasto conhecimento analítico e toxicológico.
Normalmente, as amostras utilizadas são de extrema complexidade, uma vez que são
amostras biológicas. Há alguns anos atrás as amostras eram prioritariamente post
montem, porém, o toxicologista forense encontra-se envolvido em análises in vitro de
amostras de sangue, urina e cabelos, principalmente em casos de verificação de recaídas
de uso de substâncias psicoativas.
Acolhimento as vítimas de violência
Para Brasil (2001) o Ministério da Saúde publicou a Portaria no 737, que institui a
Política Nacional de Redução da Morbimortalidade por Acidentes e Violências. De
acordo com a política, as ações do Ministério da Saúde para enfrentamento da violência
seguem, em especial, as seguintes diretrizes: promoção da adoção de comportamentos
e de ambientes seguros e saudáveis; monitorização da ocorrência de acidentes e de
violências; assistência interdisciplinar e intersetorial às vitimas de acidentes e de
violências; entre outras. Já em 2006, a Política Nacional de Promoção da Saúde (PNSP)
foi instituída por meio da Portaria no 687, que foi revisada em 2014. A PNPS tem, como
um de seus eixos transversais, a cultura da paz e dos direitos humanos.
Para Brasil (2012), a assistência à mulher em situação de violência sexual, em qualquer
idade, deve ser organizada mediante conhecimentos científicos atualizados, bases
epidemiológicas sustentáveis e tecnologia apropriada. O acesso universal à saúde
e o respeito às singularidades, sem qualquer tipo de discriminação, são direitos
constitucionais.
O enfermeiro forense deve auxiliar na garantia desses direitos, uma vez que são pessoas
que operacionalizam e dão sentido e qualidade às políticas de saúde, tendo as ações de
atenção à saúde devem ser acessíveis para toda população a nível municipal, estadual e
também assegurar cada etapa do atendimento, incluindo-se as medidas de emergência,
o acompanhamento, reabilitação e tratamento dos eventuais impactos da violência
sexual sobre a saúde física e mental da mulher.
Esse profissional deve ser capa de fundamentar os mecanismos existentes, definindo e
detectando os tipos de violência, os procedimentos médicos viáveis e regulamentados
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por lei e encaminhamento das mulheres atingidas pela violência sexual. Com o uso
desses mecanismos de forma eficiente a fim de colaborar para que os cuidados de saúde
sejam prestados o mais imediato possível, dentro das demandas de acordo com cada
mulher especificamente.
O profissional forense junto com as autoridades policiais e setores de emergência e
demais instituições devem ter bem definidos os fluxos de atendimentos para os quais a
vitima deverá ser encaminhada se necessário.
Para Brasil (2012) por sua vez, a assistência nos serviços de saúde requer a observância
de determinadas condições e providências para garantir as diferentes etapas do
atendimento. No entanto, não há obrigatoriedade da organização de um serviço
específico para esse fim e a assistência pode ser incluída e integrada às demais ações
habituais dos serviços.
Conforme Brasil (2012) destaca-se também a importância da notificação de qualquer
suspeita ou confirmação de violência pelos profissionais de saúde que integram a rede
de atenção às mulheres e aos adolescentes em situação de violência. A notificação tem
um papel estratégico no desencadeamento de ações de prevenção e proteção, além
de ser fundamental nas ações de vigilância e monitoramento da situação de saúde
relacionada às violências. Ela é um dos mecanismos definidos pelas políticas públicas
específicas e está garantida na legislação brasileira, sendo um instrumento de garantia
de direitos e de proteção social. A notificação deve ser um dos passos da atenção integral
a ser destinada às mulheres e aos adolescentes em situação de violência e as unidades
de saúde que tenham serviços de ginecologia e obstetrícia constituídos devem estar
capacitadas para o atendimento a esses casos. O limite de atuação de cada unidade
depende da disponibilidade de recursos e situações de maior complexidade podem
requerer mecanismos de referência e contrarreferência.
Devido ao alto índice de prevalência da violência sexual exige que o maior número
possível de unidades de saúde estejam preparadas para atuar nos casos de emergência,
nesse momento quando se tem um profissional capacitado para o atendimento imediato
aos casos de violência sexual recente permite oferecer medidas de proteção, como a
anticoncepção de emergênciae as profilaxias das DSTs, hepatite B e HIV, evitando
danos futuros para a saúde da mulher e ao mesmo tempo se esse profissional tem bem
definido o fluxo de atendimento facilita a abordagem e acolhimento a vítima e a coleta
de vestígios de forma segura, conseguindo recolher as provas de forma segura e iniciar
as medidas preventivas o mais precoce possível.
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instalação e área física
Segundo Brasil (2012) para o atendimento de mulheres que sofreram violência
sexual deve ser definido um local específico, preferentemente fora do espaço físico do
pronto-socorro ou da triagem, no sentido de garantir a necessária privacidade dessas
pessoas durante a entrevista e os exames. Essa medida é fundamental no processo de
acolhimento, estabelecendo um ambiente de confiança, respeito e compreensão da
complexidade do fenômeno.
O local de atendimento deve ser reservado e por outro lado, deve-se coibir qualquer
situação que provoque ou produza o constrangimento ou rotulo em relação a essas
mulheres, como, por exemplo, a identificação nominal do setor ou da sala destinadas
ao atendimento exclusivo de vítimas de estupro. Para a avaliação clínica e ginecológica,
é necessário espaço físico correspondente a um consultório médico.
recursos humanos
Para Brasil (2004) o ideal é que o atendimento seja prestado por equipe interdisciplinar
e a composição de seus membros pode variar conforme a disponibilidade maior ou
menor de recursos humanos nas unidades de saúde.
É desejável que, a equipe de saúde seja composta por médicos(as), psicólogos(as),
enfermeiros(as), principalmente ser for enfermeiro forense e assistentes sociais.
Entretanto, porque o enfermeiro forense sabe conduzir muito bem a situação e realizar
o acolhimento de forma eficaz, bem como os fluxos e medidas preventivas para
prestar assistência segura e de qualidade todos (as) devem estar sensibilizados para as
questões de violências de gênero. Para Brasil (2004) a capacitação nessa área requer a
disponibilidade do (a) profissional em perceber essa problemática como um fenômeno
social capaz de produzir sérios agravos à saúde das mulheres e dos adolescentes.
Para Brasil (2001) serviços de saúde de referência para casos de maior complexidade
podem acrescer à equipe interdisciplinar especialistas em pediatria, infectologia,
cirurgia, traumatologia, psiquiatria ou outras especialidades.
Equipamentos e instrumental
Para Brasil (2012) a unidade de saúde deve dispor de equipamentos e materiais
permanentes, em condições adequadas de uso, que satisfaçam as necessidades do
atendimento. É importante que a unidade esteja equipada de tal modo a contar com
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autonomia e resolutividade. Os materiais e equipamentos necessários para o atendimento
são os mesmos que compõem a estrutura de uma sala de atendimento ambulatorial em
ginecologia e obstetrícia. Equipamentos adicionais podem ser incluídos, sempre que
possível, como o colposcópio, aparelho de ultrassonografia e equipamento fotográfico
para registro de eventuais lesões físicas.
O enfermeiro forense deve estar habilitado para colher os dados obtidos durante a
entrevista, no exame físico e ginecológico, resultados de exames complementares e
relatórios de procedimentos devem ser cuidadosamente registrados em prontuário
de cada mulher,ideal que a instituição tenha os protocolos bem definidos, inclusive a
utilização de fichas específicas de atendimento.
O cuidado com o prontuário é de extrema importância, tanto para a qualidade da
atenção em saúde quanto para eventuais solicitações da Justiça.
Sensibilização e capacitação
Conforme Brasil (2012) o atendimento aos casos de violência sexual requer a
sensibilização de todos os colaboradores do serviço de saúde, devendo ter um
profissional especializado de forma a propor a realização de atividades que favoreçam
a reflexão coletiva sobre a questão da violência de gênero, particularmente a sexual,
sobre as dificuldades que as crianças, os adolescentes e as mulheres enfrentam para
denunciar esse tipo de crime, os direitos assegurados pelas leis brasileiras e o papel do
setor saúde, em sua condição de corresponsável na garantia desses direitos. As equipes
envolvidas diretamente na assistência devem receber capacitação para o atendimento
de emergência e estabelecimento de medidas protetoras (anticoncepção de emergência
e profilaxias das DST/HIV e hepatites) e outros aspectos essenciais para o atendimento
humanizado, respeitando-se seus direitos e atendendo suas necessidades.
normas gerais de atendimento
Para Brasil (2016) as unidades de saúde e os hospitais de referência devem estabelecer
fluxos internos de atendimento, definindo profissional responsável por cada etapa
da atenção. Isso deve incluir a entrevista, o registro da história, o exame clínico e
ginecológico, os exames complementares e o acompanhamento psicológico. Os fluxos
devem considerar condições especiais, como intervenções de emergência ou internação
hospitalar. O acolhimento é elemento importante para a qualidade e humanização da
atenção. Por acolher entenda-se o conjunto de medidas, posturas e atitudes dos(as)
profissionais de saúde que garantam credibilidade e consideração à situação de
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violência. A humanização dos serviços demanda um ambiente acolhedor e de respeito à
diversidade, livres de quaisquer julgamentos morais. Isso pressupõe receber e escutar
as mulheres e os adolescentes, com respeito e solidariedade, buscando-se formas de
compreender suas demandas e expectativas.
Para Brasil (2001) as mulheres em situação de violência sexual devem ser informadas,
sempre que possível, sobre tudo o que será realizado em cada etapa do atendimento
e a importância de cada medida. Sua autonomia deve ser respeitada, acatando-se a
eventual recusa de algum procedimento. Deve-se oferecer atendimento psicológico e
medidas de fortalecimento a mulher e adolescente, ajudando-as a enfrentar os conflitos
e os problemas inerentes à situação vivida. Contribuir para a reestruturação emocional
e social da mulher é um componente importante que deve ser observado por todos os
membros da equipe de saúde, em todas as fases do atendimento.
O enfermeiro forense deve encaminhar a vitima o mais precoce possível para atendimento
junto com psicólogo mais breve possível, de preferência desde a primeira consulta,
mantido durante todo o período de atendimento e pelo tempo que for necessário. Não
esquecendo que todos os profissionais de saúde têm responsabilidade na atenção às
pessoas que se encontram nessa situação.
Conforme Brasil (2016) é necessário que o serviço de saúde realize exame físico
completo, exame ginecológico, coleta de amostras para diagnóstico de infecções
genitais e coleta de material para identificação do provável autor(a) da agressão, e que
seja preenchida a “Ficha de Notificação e Investigação de Violência Doméstica, Sexual
e/ou outras Violências”. A primeira entrevista da mulher deve atentar para o registro
de alguns dados específicos:
1 - Registro de Encaminhamento.
HISTÓRIA DA VIOLÊNCIA
Registrar em prontuário:
1. Local, dia e hora aproximada da violência sexual.
2. Tipo(s) de violência sexual sofrido(s).
3. Forma(s) de constrangimento utilizada(s).
4. Tipificação e número de autores da violência.
5. Órgão que realizou o encaminhamento.
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PROVIDÊNCIAS INSTITUÍDAS
Verificar eventuais medidas prévias:
1. atendimento de emergênciaem outro serviço de saúde e medidas
realizadas;
2. realização do Boletim de Ocorrência Policial;
3. realização do exame pericial de Corpo de Delito e Conjunção Carnal;
4. comunicação ao Conselho Tutelar ou a Vara da Infância e da Juventude
(para crianças e adolescentes);
5. outras medidas legais cabíveis;
Acesso à rede de atenção
Para Brasil (2016) verificar o acesso e a necessidade da mulher às diferentes
possibilidades de apoio familiar e social, incluindo-se a questão de abrigos de proteção.
Em casos de gravidez, suspeita ou confirmada, deve-se considerar a demanda da mulher
ou da adolescente, identificando se manifesta desejo ou não de interromper a gravidez.
Cabe ao profissional forense fornecer as informações necessárias sobre os direitos da
mulher e da adolescente e apresentar as alternativas à interrupção da gravidez, como a
assistência pré-natal e entrega da criança para adoção.
traumatismos físicos
Para Brasil (2001) o enfermeiro forense deve estar apto para atender as mulheres em
situação de violência sexual sofrem traumas físicos severos. Contudo, na ocorrência dos
traumatismos físicos, genitais ou extragenitais, é necessário avaliar cuidadosamente as
medidas clínicas e cirúrgicas que atendam as necessidades da mulher, da criança ou da
adolescente, o que pode resultar na necessidade de atenção de outras especialidades
médicas. Embora a mulher em situação de violência sexual possa sofrer grande diversidade
de danos físicos, os hematomas e as lacerações genitais são os mais frequentes. Nas lesões
vulvo-perineais superficiais e sem sangramento deve-se proceder apenas com assepsia
local. Havendo sangramento, indica-se a sutura com fios delicados e absorvíveis, com
agulhas não traumáticas. Na presença de hematomas, a aplicação precoce local de bolsa de
gelo pode ser suficiente. Quando instáveis, os hematomas podem necessitar de drenagem
cirúrgica. Na ocorrência de traumatismos físicos, deve-se considerar a necessidade de
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profilaxia do tétano, avaliando-se o status vacinal da mulher. Os danos físicos, genitais
ou extragenitais, devem ser cuidadosamente descritos em prontuário médico. Se possível,
os traumatismos físicos devem ser fotografados e também anexados ao prontuário. Na
indisponibilidade desse recurso, representações esquemáticas ou desenhos podem ser
utilizados e igualmente incluídos no prontuário.
Aspectos éticos e legais
A atenção à violência contra a mulher e o adolescente é condição que requer abordagem
intersetorial, multiprofissional e interdisciplinar, com importante interface com
questões de direitos humanos, questões policiais, de segurança pública e de justiça.
Algumas informações são fundamentais para os(as) profissionais de saúde que atendam
pessoas em situação de violência sexual:
A Lei no 11.340, de 7 de agosto de 2006, ─ também conhecida como Lei Maria da
Penha ─ cria mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher,
estabelecendo mudanças na tipificação dos crimes e nos procedimentos policiais
e jurídicos. De acordo com o seu art. 9o, caput, “a assistência à mulher em situação
de violência doméstica e familiar será prestada de forma articulada e conforme os
princípios e as diretrizes previstos na Lei Orgânica da Assistência Social, no Sistema
Único de Saúde, no Sistema Único de Segurança Pública, entre outras normas e
políticas públicas de proteção, e emergencialmente quando for o caso”. Já o § 3o do
art. 9o prevê que a assistência compreenderá o acesso aos benefícios decorrentes do
desenvolvimento científico e tecnológico, incluindo os serviços de anticoncepção de
emergência, a profilaxia das DSTs/Aids e outros procedimentos em saúde necessários
e cabíveis nos casos de violência sexual.
A Lei no 10.778, de 24 de novembro de 2003, estabelece a notificação compulsória, no
território nacional, dos casos de violência contra a mulher, atendidos em serviços de
saúde públicos ou privados de saúde.
O cumprimento da medida é fundamental para o dimensionamento do fenômeno da
violência sexual e de consequências, contribuindo para a implantação de políticas
públicas de intervenção e prevenção do problema.
Essa lei foi regulamentada pelo Decreto-Lei no 5.099 de 3/6/2004 e normatizada pela
Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde através da Portaria MS/
GM no 2.406 de 5 de novembro de 2004, que implantou a notificação compulsória de
violência contra a mulher no âmbito do Sistema Único de Saúde. Em relação à notificação
compulsória de violências contra crianças e adolescentes isso está definido pela Lei
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no 8.069/1990 ─ Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que foi regulamentado
pelo Ministério da Saúde através da Portaria MS no 1.968/2001. Salienta-se quem nas
situações de violências contra adolescentes e crianças, uma cópia da ficha de notificação
deve ser encaminhada ao Conselho Tutelar da Criança e do Adolescente conforme
preconiza o ECA.
Segundo Brasil (2006), o Ministério da Saúde, por meio da Coordenação Geral de
Doenças e Agravos Não Transmissíveis, implantou o Sistema de Vigilância de Violências
e Acidentes (VIVA), objetivando conhecer a magnitude e a gravidade das causas
externas e implementar ações de prevenção de violências e de promoção da cultura
de paz e, consequentemente de diminuir o impacto das violências e dos acidentes
no perfil de morbimortalidade da população. A notificação das violências tem como
instrumento de coleta a “Ficha de Notificação/Investigação de Violência Doméstica,
Sexual e/ou outras Violências” composta por um conjunto de variáveis e categorias que
retratam, minimamente, o perfil das violências perpetradas contra as mulheres e os
adolescentes, a caracterização das pessoas que sofreram violências e dos(as) prováveis
autores(as) de agressão. Os dados coletados por meio desta ficha são processados no
Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN). Essa ficha deve ser utilizada
para a notificação compulsória de qualquer caso suspeito ou confirmado de violência
doméstica, sexual e/ ou outras violências contra mulheres, independente de faixa
etária, de acordo com a Lei no 10.778/2003, o Decreto-Lei no 5.099/2004 e a Portaria
MS/GM no 2.406/2004. Quando se tratar de notificação de violências contra crianças e
adolescentes uma via da ficha deve ser encaminhada para o Conselho Tutelar.
humanização
Para Brasil (2016) para evitar que a usuária tenha de ir repetidas vezes ao serviço de saúde,
deve-se criar um fluxograma de modo a dar agilidade e resolutividade à sistemática de
atendimento. Da mesma forma, para evitar que a usuária tenha de repetir sua história
para os diferentes profissionais da equipe, a equipe deve propor formas de registro
unificado que reúna as observações específicas de todos os profissionais envolvidos.
Avaliação de riscos
Brasil (2016) a avaliação dos riscos deverá ser feita junto com a usuária. É preciso
identificar as situações de maior vulnerabilidade a fim de elaborar estratégias preventivas
de atuação. Nos casos de famílias em situação de violência, deve-se observar a história
da pessoa agredida, o histórico de violência na família e a descrição dos atos de violência.
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A equipe de saúde deve avaliar os riscos de repetição ou agravamento, visando a
prevenção de novos episódios. Quando se tratar de criança, adolescente ou pessoas
em condição de dependência em relação ao autor da agressão é importante avaliar a
necessidade de estabelecer mecanismos de intervenção que atenuem a dependência e
a vulnerabilidade.
EncaminhamentosConforme Brasil (2016) no atendimento às pessoas em situação de violência é
importante que alguns procedimentos sejam contemplados de forma a garantir que
as intervenções se deem considerando o norte psicossocial da assistência. Um sistema
eficaz de referência e contra referência devem abranger os serviços de complexidade
necessários, integrando-os por meio de informações sobre as necessidades e demandas
do caso. Face ao tipo de violência registrado, é importante garantir cuidado e diagnóstico
clínico ao lado de outros encaminhamentos, de natureza psicológica, jurídica e social.
É igualmente importante apoiar a mulher que deseja fazer o registro policial da
agressão e informá-la sobre o significado do Exame de Corpo de Delito e Conjunção
Carnal, ressaltando a importância de tornar visível a situação de violência. Deve-se
sugerir encaminhamento aos órgãos competentes, Delegacia de Polícia ou Delegacia de
Proteção à Mulher, responsáveis pela requisição de perícia pelo Instituto Médico Legal.
Nesses casos, deve-se orientá-la quanto ao direito e à importância de guardar cópia do
Boletim de Ocorrência.
rede integrada de atendimento
Conforme Brasil (2016) o setor de saúde, por ser um dos espaços privilegiados para
identificação das mulheres e adolescentes em situação de violência sexual, tem
papel fundamental na definição e articulação dos serviços e organizações que, direta
ou indiretamente, atendem situações de violência sexual. É fundamental destacar
que a intervenção nos casos de violência é multiprofissional, interdisciplinar e
interinstitucional. A equipe de saúde deve buscar identificar as organizações e serviços
disponíveis na comunidade que possam contribuir com a assistência, a exemplo das
Delegacias da Mulher e da Criança e do Adolescente, do Conselho Tutelar, do Conselho
de Direitos de Crianças e Adolescentes, Crass, Creas, do Instituto Médico Legal, do
Ministério Público, das instituições como casas-abrigo, dos grupos de mulheres, das
creches, entre outros. O fluxo e os problemas de acesso manejo dos casos em cada nível
desta rede devem ser debatidos e planejados periodicamente, visando à criação de uma
cultura que inclua a construção de instrumentos de avaliação.
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