Prévia do material em texto
* HOLANDA, TCM. Um modelo de intervenção em Psicologia Hospitalar: a psicoterapia breve de apoio. In: LAGE, AMV & MONTEIRO, KCC. Psicologia Hospitalar: teoria e prática em hospital universitário. Fortaleza, edições UFC, 2007. UM MODELO DE INTERVENÇÃO EM PSICOLOGIA HOSPITALAR: A PSICOTERAPIA BREVE DE APOIO (RESUMO) Teresa Cristina Monteiro de Holanda, 2007* Introdução O psicólogo, um dos últimos profissionais a adentrar no hospital geral, trouxe consigo “a ausculta emocional” a ser adotada e compartilhada no âmbito hospitalar no intuito de transformar a ação do cuidador, além da busca da reabilitação orgânica, em ação preventiva de seqüelas decorrentes da doença e/ou hospitalização. O paciente, ao ser internado, despoja-se de seus pertences e fica à mercê de intervenções invasivas por parte de vários profissionais da equipe de saúde, além de ter sua rotina completamente modificada com novos horários e regras institucionais. É justamente neste processo de crise acidental (a doença) e na sua condição de “ser paciente” que o profissional da Psicologia intervém, objetivando fazer do paciente e de sua família elementos ativos no processo de hospitalização. Ao realizar sua intervenção psicológica, o psicólogo estará promovendo uma melhoria na “qualidade de vida” deste paciente na medida em que fornece espaço para expressão de medos, angústias, dúvidas, culpas e conseqüente elaboração desta sua nova condição do “estar doente”. Tais atendimentos ocorrem quase sempre à beira do leito, exigindo do psicólogo maleabilidade e inventividade por conta de interrupções e adiamentos. Então, qual a técnica mais aconselhável para se intervir, de modo mais objetivo nos problemas dos clientes? Os modelos e as técnicas apreendidas na formação, geralmente importadas de outras realidades, têm sido pautados em valores sociais diferentes dos da clientela que chega ao serviço público. A Psicoterapia Breve-focal torna-se uma técnica apropriada por ser mais precisa. Também denominada Psicoterapia de emergência e técnica ativa, é destacada por vários autores (SEVERO, 1993; LO BIANCO et al., 1994; PENNA, 1992, CAMPOS, 1995; GIANNOTI, 1996, CHIATTONE, 2000) e se trata de um procedimento psicoterapêutico de orientação psicodinâmica, utilizando como tripé atividade-planejamento-foco. Tal metodologia se encontra em alta aqui no Brasil, com diversas instituições, aprofundando sua aplicação e ministrando cursos de especialização e capacitação. A Psicoterapia Breve-focal (PB) vem se impondo enquanto processo psicoterápico e mais importante, com a possibilidade de atendimento mais amplo da população, alcançando o sujeito quando necessário e, a partir de uma postura proativa, visando promover um viver com qualidade em curto prazo, elegendo um determinado problema mais premente e focando os esforços na sua resolução. 2 Esta técnica tem alcances múltiplos, desde situações emergenciais, crises em instalação ou instaladas, através de processos menos longos com intervenções focais, identificando-se mais de perto com as necessidades e a realidade do sujeito da contemporaneidade, entretanto sem se propor enquanto panacéia para solução de qualquer distúrbio. Apresenta como característica básica a prevenção, visando à promoção da saúde, com amplitude de ação ao possibilitar o atendimento de um número maior de sujeitos e das mais variadas classes sociais, nos consultórios, em instituições diversas, nos hospitais, em delegacias, etc. inclusive na residência de pacientes incapacitados de deslocamentos. A Psicoterapia breve-focal objetiva, primordialmente, atender pessoas dentro do mais curto espaço de tempo possível, visando restabelecer o equilíbrio homeostático, através da resolução do conflito situacional (foco), sintomas e psicodinâmica, utiliza-se da técnica ativa (atenção seletiva, interpretação seletiva e negligência seletiva) e da tríade: atividade, planejamento e foco (LEMGRUBER, 1984). A PB pauta a importância do que acontece no “aqui-e-agora”, elegendo e focalizando um determinado ponto bloqueador da capacidade do indivíduo de continuar no desempenho de suas funções existenciais. Segundo Nigro (2004), as técnicas de Psicoterapia Breve são as mais adequadas para a intervenção psicológica, na medida que permitem focalizar o atendimento, concentrando-o na situação que esse sujeito hospitalizado está vivendo. A modalidade de psicoterapia breve usada no contexto hospitalar é a Psicoterapia Breve de Apoio (PBA), que tem o intuito de transformar a ação do cuidador e também buscar a reabilitação harmônica em ação preventiva a possíveis seqüelas da doença ou da hospitalização. Em PBA, há uma supressão dos sintomas e se caracteriza pela utilização de medidas diretas para manter ou estabelecer o funcionamento anterior do paciente. “A ênfase está em melhorar o comportamento e os sentimentos, mais do que em obter modificação da personalidade ou resolução do conflito inconsciente” (GOUVEIA, 2000, p.127). A BASE DA PBA: TEORIA DA CRISE Segundo Caplan (1980), crise é um estado de perturbação que ocorre quando o indivíduo é exposto a um problema insuperável pelos seus modos habituais de solução de problemas. Moffat (1981, p.13) faz um estudo sobre a crise e a define como uma “invasão de uma experiência de paralisação da continuidade do processo da vida” apresentando sua classificação descritiva com crises do tipo evolutivas e acidentais. As primeiras se referem às crises que fazem parte do desenvolvimento e as segundas se referem às que aparecem de modo inesperado. Simon (1989, p.105 a 119), traz uma proposta muito interessante a respeito desta teoria. Ele define crise como um aumento ou redução significativa do universo pessoal, sendo este constituído da própria pessoa e de todos os objetos que a cercam. Assim, classifica as crises por aquisição, no 3 caso do aumento e perda, no caso da diminuição do universo pessoal. Quando ocorre uma diminuição no universo pessoal, os sentimentos são de depressão e culpa. No caso de um aumento no universo pessoal, os sentimentos são de insegurança, medo e inadequação. Na crise por perda, os objetivos no apoio são ajudar a pessoa a aceitar a perda, lidar com os sentimentos predominantes, evitar riscos e incentivar o reinteresse por seu universo pessoal, ou seja, investir as energias novamente no campo experiencial. No caso das crises por ganho ou aquisição, os objetivos são auxiliar a pessoa a aceitar os ganhos ou rever os projetos, já que estes podem ser demasiado ambiciosos e para além da realização. Se ocorrer este último caso, deve-se ajudar, se necessário, a pessoa a assumir a sua limitação. Pode-se ainda trabalhar com os sentimentos predominantes e evitar riscos. O autor supracitado afirma que, como o conceito de crise só tem seu valor dentro do paradigma de que as experiências são pessoais e singulares, para uma pessoa, determinada situação pode diminuir o seu universo pessoal e, para outras, aumentar. Apresenta também modelos de prevenção nas crises prevenção passiva e ativa: na prevenção passiva, a crise já está instalada e apenas é possível tentar “contorná-la”. Na prevenção ativa, a crise ainda vai se instalar e, por isso, os profissionais de saúde têm condições de preparar a pessoa e o ambiente para que a crise não ocorra ou que surja mais atenuada. Na verdade, propõe que se atue para converter a crise por aquisição em progresso e evitar que a crise por perda provoque regressão. Ele oferece um modelo para a equipe de saúde mais ampla, que chamou de psicohigienistas, e que deve estar inserido nas instituições para que a equipe possa atuar nos momentos mais importantes da crise, seja trabalhando de forma ativa ou passiva. Isso representa uma democratização do serviço de prevenção à crise, tornando o serviço acessível ao público em geral e, principalmente, instalado nos locais onde as crises ocorremou podem ocorrer. Pensamos que esta Teoria deva ser apreendida pelo psicólogo, que é o profissional mais preparado para minimizar o sofrimento emocional vivenciado durante as crises citadas, objetivo maior da Psicologia no contexto hospitalar. A PBA, se utilizada em situação de emergência, proporciona ao indivíduo ajuda psicológica com um fim específico: a intervenção em crise, principalmente quando o local de atendimento é o Hospital Geral considerando que, neste, se observam crises depressivas reacionais, ansiedades pré e pós-operatórias, reações emocionais frente à hospitalização, familiares ansiosos que acompanham seus doentes, reações agudas de luto etc. Muitas dessas situações são acompanhadas por fortes emoções, tais como medo, raiva, sentimentos de desvalia, medo de abandono e culpa por estar doente. As intervenções psicológicas, nestas circunstâncias, são aliviadoras e preventivas, pois podem impedir reações mais desadaptativas. 4 Na PBA, o acompanhamento psicológico pode ser tanto individual quanto grupal, voltado para a elaboração de questões emocionais associadas ao quadro orgânico, favorecendo a adaptação às condições geradas pelas doenças físicas, afetivas, sociais ou ocupacionais. Segundo Cordioli et al (1997), são objetivos da PBA: facilitar a expansão, integração e aquisição das habilidades do paciente; fazê-lo compreender como os vários sintomas, comportamentos e sentimentos podem ser manifestação de seus problemas e da pobreza de mecanismos adaptativos; ajudá-lo a ganhar controle de estratégias para lidar com suas dificuldades e corrigir distorções cognitivas do self e dos outros. No caso do hospital, fornece suporte emocional ao doente para recuperação mais rápida e prevenção de prejuízos associados à crise prolongada; restaura sua capacidade de autocuidado e de adesão ao esquema terapêutico, através do fortalecimento da auto-estima; possibilita eliminação de hábitos patológicos, através do aumento do autocontrole; promove a busca de soluções criativas no processo de adaptação e favorece a comunicação equipe-paciente-família. Como estratégias, podemos adotar o reforço dos mecanismos adaptativos positivos, afastamentos das pressões ambientais demasiadamente intensas, adoção de medidas que visem ao alívio dos sintomas, aquisição da maturidade emocional, como a promoção da autonomia, a consolidação de uma identidade própria mediante o estabelecimento de uma auto-imagem estável e integrada do self e melhora da capacidade de julgamento da realidade e, por último, a promoção do crescimento emocional, estimulando ativamente a passagem pelas etapas evolutivas (CORDIOLI et al, 1997). Os procedimentos gerais para o psicólogo dentro da unidade hospitalar são: a coleta de dados clínicos, em que ele vai buscar no prontuário os dados necessários para o seu entendimento; o preenchimento de um roteiro adaptado a cada realidade hospitalar, com dados colhidos junto ao paciente e/ou família e/ou equipe médica; a montagem do procedimento para a realização do atendimento, que vai incluir a situação problema, os pontos de urgência e o foco; a execução do procedimento, a avaliação do procedimento para replanejá-lo, caso haja necessidade, e o seguimento ou follow-up do caso, se precisar ser encaminhado para acompanhamento ambulatorial. Passos para a PBA: Primeiro passo: para que obtenhamos sucesso na prática da PBA, é condição necessária à aliança terapêutica que deve ser positiva, empática, sem ambigüidade, esclarecedora, onde terapeuta e paciente desempenham papéis ativos. Trata-se de um bom rapport, acolhimento, contato, e não esquecer de dizer quem somos e porque estamos lá. Vale ressaltar que o setting hospitalar é diferente, exigindo que o profissional do hospital tenha uma postura mais flexível e criativa para contornar as dificuldades emergentes e que duração e freqüência dos atendimentos depende da situação existente. 5 Segundo passo: planejamento: antes de fazê-lo, devemos considerar algumas questões: ▪ Do paciente: idade, situação psicoafetiva, capacidade de adaptação e de processar informações, pensamento pré-mórbido; ▪ Da doença: natureza da doença (aguda, crônica, acidental), transitoriedade da doença, limite corporal X esquema corporal, questão somato-psico-somato, fases da doença (negação, revolta, barganha, depressão, aceitação); ▪ Da família: estrutura familiar, dinâmica familiar, representatividade do paciente, antecedentes familiares traumáticos, tendência biófila X necrófila e capacidade de processar informações; ▪ Da indicação: individual, grupal, atendimento indireto, familiar ou combinação de recursos. Assim, com estes dados em mão, podemos realizar uma avaliação psicodinâmica, que vai envolver a situação do paciente na crise, o diagnóstico clínico e psicodinâmico, o histórico das adaptações do paciente, a avaliação egóica, o diagnóstico das condições de vida, o diagnóstico operativo das entrevistas e as conclusões prognosticas: “o papel primordial do psicólogo é distinguir quadros psicopatológicos daqueles que não são. Uma reação ‘patológica’ é caracterizada por um distúrbio de comportamento estruturado em uma personalidade predisposta a reações neuróticas (ou psicóticas) mais ou menos fixas” (ROMANO,2001, p.35) Feito isto, podemos fazer o planejamento, escolhendo a situação-problema, os pontos de urgência (sintomas, problemas, dificuldades imediatas manifestas ou não) e o foco. Dentro da realidade hospitalar, temos um grande foco, sempre único, que é a doença, mas este foco se manifesta concentrado em um desses outros: doença em si, hospitalização e alta ou óbito. Exemplos de focos e pontos de urgência: 1) Doença em si (desconhecimento da doença, culpa em relação à doença, estigma da doença, falta ou dificuldade na comunicação diagnóstica, intercorrências da doença, ameaça à integridade física, medo dos procedimentos invasivos, medo da falta de controle sobre o corpo e o ambiente, medo relacionado com a própria finitude, efeitos colaterais do tratamento, recidiva da doença etc.). 2) Hospitalização (ansiedade relacionada com a interrupção de planos, medo do desconhecido, adaptação ao ambiente físico, ansiedade relacionada à separação, medo das perdas afetivas, dificuldade na relação com a equipe ou algum membro desta, reação às normas da instituição, reações à duração da internação etc.). 3) Alta ou Óbito (preparação para alta, desvínculo da instituição, promoção de autonomia, reabilitação e re-socialização ou terminalidade, reações dos familiares ao óbito, luto etc.). O planejamento também deve conter as estratégias para alcançar estes fins, exemplo: fortalecimento da aliança terapêutica, fortalecimento da auto-estima, ampliação de conhecimentos, 6 restauração dos mecanismos adaptativos positivos, reforçamento egóico, restauração da auto- imagem, promoção de autoconhecimento, promoção de juízo da realidade e desvio de pressões ambientais intensas. Terceiro passo: execução da PBA: não devemos esquecer da prevenção ativa e passiva proposta por Simon (1989), e que nossas intervenções podem se realizar no nível verbal, não-verbal ou corporais e também paraverbais (tom de voz, intensidade e ritmo da fala). As intervenções dos terapeutas são instrumentos essenciais para a realização desse processo. Segundo Fiorini (1999, p.153 a 172), podemos citar como intervenções verbais: Interrogação: solicitação de esclarecimentos sobre fatos para a obtenção de dados necessários ao foco do trabalho. Exploração, em detalhes, das respostas, dados precisos, ampliações e aclarações do relato. É um dos recursos essencial e usado em qualquer sessão, sendo que, nas primeiras, é mais utilizado. Exemplo: “como você está se sentindo agora?” Propiciamento de informações: explicações sobre um assunto de interesse do paciente. Usa-se em qualquer momento do processo em que o terapeuta sinta queo seu paciente precisa ser informado, alertado sobre alguma questão e tem função pedagógica. Exemplo: “vou lhe esclarecer algo a respeito do diabetes; trata-se de ...” Retificação : significa “tornar reto” o pensamento e contribui para consolidar no paciente uma confiança em seus próprios recursos egóicos. Sempre que retificamos, temos algo objetivo em cima de materiais manifestos, palpáveis em relação a conteúdos cognitivos, A retificação permite ressaltar as partes obscuras do discurso, as limitações do campo da consciência e o papel das defesas desse estreitamento. Quem está em crise tem a tendência de distorcer situações. O terapeuta tem que ter “tato” para retificar sem que a pessoa se sinta criticada. Exemplo: “não é bem assim, veja...” Confirmação: a confirmação pelo terapeuta de uma determinada maneira de compreender-se contribui para consolidar nele uma confiança em seus próprios recursos egóicos. Confirmar é mais fácil que retificar. Exemplo: “sim, certamente...”; “Estou de acordo com o senhor”. OBSERVAÇÃO: A capacidade de o terapeuta atuar flexivelmente com retificações e confirmações dos enunciados do paciente é fundamental para criar um clima de equanimidade, próprio de uma relação “madura”. Clarificação: reformulação de conteúdos do paciente, destacando reações e sentimentos (recorte de elementos significativos). Visam a conseguir desembaraçar o relato emaranhado do paciente, a fim de recortar os elementos significativos do mesmo. “Ensinam” um modo de perceber a própria experiência: o paciente aprende com elas a observar seletivamente, a percorrer a massa dos acontecimentos e de suas vivências e a fixar pontos marcantes, incorporando, assim, um método 7 que faz chegar a autocompreensão pela discriminação. Clarificar é fazer com que o paciente entre em contato com os seus sentimentos, a partir do que ele falou. É dizer o mesmo que ele disse, acrescentando um outro elemento. A clarificação é uma afirmação: Exemplo: “você falou que é importante continuar com seu tratamento por causa dos seus filhos. Parece que você não aprecia esta escolha, mas se sente embaraçado com isto...”. OBSERVAÇÃO: O terapeuta clarifica os sentimentos. Os conceitos, as idéias, ele as retifica ou confirma. O paciente em crise está sempre comprometido, porque a crise abala o “emocional” do paciente Daí, clarificar em Apoio nem sempre é possível. Muitas vezes, o paciente está tão desorganizado psiquicamente que tal intervenção não pode ser usada. Assinalamento de relações: entre dados, seqüências, constelações significativas, capacidades manifestas/latentes. Estas intervenções, de uso constante nas psicoterapias, atuam estimulando no paciente o desenvolvimento de uma nova maneira de perceber a própria existência.Quando o terapeuta assinala relações, ele coloca dois pólos e pede que o paciente faça relações. Existem dois elementos para o terapeuta assinalar relações.Quando o terapeuta assinala relações, ele está preparando o paciente para clarificação. Exemplo: uma pessoa diz a frase X e a frase Y. O terapeuta diz: “Você ouviu o que disse?” Acaba comparando as frases. Sugestão/Indicação: de atitudes determinadas mudanças a título de experiência. Envolve graus de diretividade: não se deve indicar aleatoriamente. Visa reforçar aspectos sadios da personalidade e reduzir sintomas provocadores de ansiedade/crise. O terapeuta propõe ao paciente condutas alternativas, orienta-o a ensaiar experiências originais. A sugestão é algo em aberto, é sutil. Exemplo1: “talvez fosse bom...” A indicação é uma intervenção mais diretiva, mais fechada. Exemplo 2: “se surgir uma oportunidade de o senhor falar a sós com seu médico, tente fazê-lo; ainda que não consiga dizer tudo o que gostaria de colocar diante dele, veja até onde consegue chegar”. No Apoio, esse tipo de intervenção é muito freqüente. Recapitulação: é fazer um resumo da sessão: o terapeuta recapitula, ao final de cada sessão, os pontos daquela sessão. Segundo Fiorini (1999), após terminar a sessão, o paciente fica com esta recapitulada em pontos e esses pontos ficam no inconsciente. Quando o terapeuta recapitula, ele não o faz só para o cliente. É para ele também. O paciente fica, pois, com o estímulo de continuar e o terapeuta “amarra” para ele os principais pontos da sessão. Também significar resumir os pontos essenciais surgidos no atendimento e/ou no conjunto do processo, ressaltando pontos importantes, destacando-os. Exemplo: “ontem discutimos sobre isto e aquilo, você pensou sobre?” Validação de emoções: reconhecer e aceitar como válidas as emoções penosas que o paciente sente, mas tenta reprimir. Exemplo: dizer para o paciente traqueostomizado que compreende que a situação a qual atravessa provoca angústia ou medo em qualquer pessoa. 8 Reasseguramento: o terapeuta assegura novamente o paciente sobre algo que ele já sentiu, já trabalhou, já assegurou antes. É uma atitude de conforto. Exemplo: um paciente vai para a sala de cirurgia e pede que o terapeuta fique ao seu lado durante toda a cirurgia. No momento em que vai entrando na sala, pergunta ao psicólogo se este realmente vai ficar ao seu lado. Este reassegura, então, que permanecerá na sala de cirurgia enquanto o paciente estiver sendo operado. Encorajamento: dar apoio a comportamentos positivos “antes demonstrados” com o objetivo de aumentar a auto-estima do paciente.O terapeuta mostra aprovação ou concordância a respeito de atitudes ou idéias do paciente, estimulando-o, dessa forma, a ter atitudes difíceis e demonstrando, com isso, acreditar em suas possibilidades. Exemplo: “é isso mesmo, continue pedindo informação sobre seu tratamento!”. Promoção da livre expressão verbal: permitir a descarga de emoções ou sentimentos reprimidos, revivendo de forma emocionalmente, carregada, conflitos ou situações traumáticas (também chamada de catarse ou ventilação). Exemplo: “fale-me o que está sentindo a respeito de todos estes acontecimentos; estou aqui para ouvi-la...”. Confrontação: chamar atenção para padrões de comportamento do paciente que ele evita com o objetivo de aumentar as habilidades adaptativas. Devemos fazer confrontações cuidadosas para incentivar as capacidades do paciente. Exemplo: examinar as congruências e incongruências entre o que pensa o paciente e como se sente e age em diferentes situações. Solicitação de recurso medicamentoso: muitas vezes, é necessário aliviar, farmacologicamente, sintomas incapacitantes para um trabalho psicoterápico de apoio. Exemplo: solicitar ansiolítico ao médico a fim de que o paciente fique mais aliviado de sua angústia. Solicitação de interconsulta: muitas vezes, é necessária a visão de um outro profissional para a compreensão do caso. Exemplo: solicitar interconsulta do psiquiatra para constatar se os delírios do paciente são decorrentes ou não da medicação administrada pela equipe médica. Intervenção ambiental: neste, o terapeuta promove o investimento; na indicação, o terapeuta espera que a pessoa efetue aquilo que ele indicou. Intervenção física, exemplo: mudança de leito, conseguir uma rede para um acompanhante que não consegue dormir em cama. Intervenção dinâmica, exemplo: mudança de data como no filme “Laços de Carinho”, com a qual a equipe cuidadora antecipou a data do Natal para que a paciente pudesse comemorar o último Natal de sua vida, pois adorava a festa natalina. OBSERVAÇÃO: todas estas intervenções apresentadas são realizadas em maior ou menos escala e sempre devem ser consideradas pelo profissional da Psicologia. Quarto passo: refere-se ao registro em prontuário que, aqui, não será objeto de nossa discussão Quinto passo: é importante também que verifiquemos os resultados da nossa atuação em PBA. Houve compreensão da doença? alívio dos sintomas? aderência ao tratamento? diminuição da 9 ansiedade referente à doença ? diminuição do stress frenteàs intervenções? aumento da auto- estima? aceitação das separações / perdas? aceitação da possível finitude? aceitação das limitações decorrentes da doença ? reestruturação no modo de viver? elaboração de projetos para o futuro ? Chamamos isso de resolutividade, pois, em PBA, os critérios de alta são: desaparecimento ou melhora dos sintomas, retomada da capacidade do paciente em manejar seus problemas, ou seja, a resolução da crise. CONSIDERAÇÕES FINAIS: A prática da Psicologia hospitalar associada à técnica da PBA tem se revelado um fazer pragmático, instigante e coerente, independente da abordagem a ser escolhida. Talvez seja por isto que sua prática se torna apaixonante, nos preencha de entusiasmo e vontade de dividi-la com todos para multiplicá-la ainda mais e, assim, atingir a todos (pacientes, familiares e equipe) que dela necessitam. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: CAMPOS, T.C.P. Psicologia Hospitalar: a atuação do psicólogo em Hospitais. São Paulo: EPU, 1995. CAPLAN, G. Princípios de psiquiatria preventiva. Rio de Janeiro, Zahar, 1980. CHIATTONE, H. A significação da psicologia no contexto hospitalar. In: ANGERAMI, V.A.(CAMON) Psicologia da Saúde – um novo significado para a prática clínica. São Paulo: Pioneira, 2000, 73-165. CORDIOLI, AV. Psicoterapias abordagens atuais. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 1993 DIDIER, A. O Eu-pele. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1989. FIORINI, H. Teoria e técnica de Psicoterapia. Rio de Janeiro, Livraria Francisco Alves, 1999, 12ª edição. FIRMINO, J. Contribuições da Psicologia ao Paciente Queimado In: GOMES, D.R.Queimaduras. Rio de Janeiro: Revinter LTDA, 1995. GIANOTTI, A. Efeitos Psicológicos das Cardiopatias congêntinas. São Paulo, Lemos, 1996. GOMBOLI, M. Dentro da gente –Livro 1. São Paulo: editora Maltese, 1988, tradução Stella Carr. GOUVEIA, H. Psicoterapia breve de Apoio In: LEMGRUBER, Vera. O Futuro da Integração: Desenvolvimentos em Psicoterapia Breve. Porto Alegre: Artes Médicas Sul Ltda, 2000, 123-138. LEITÃO, M S. O psicólogo e o hospital. Porto Alegre: Sagra-DC Luzzatto, 1993. LEMGRUBER, V. Psicoterapia Breve: a Técnica focal. Porto Alegre: Artes médicas, 1984. _____ Psicoterapia breve integrada. Porto Alegre: Artes médicas, 1997. _____ O Futuro da Integração: Desenvolvimentos em Psicoterapia Breve. Porto Alegre: Artes Médicas Sul Ltda, 2000. 10 LO BIANCO, A.C.; BASTOS, A.V.B.; NUNES, M.L.T.; SILVA, R.C. Concepções e atividades emergentes na psicologia clínica: implicações para a formação. In: Psicólogo brasileiro: práticas emergentes e desafios para a formação. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1994,7-79. 1994, p.48, MOFFAT, A . Terapia da crise - teoria temporal do psiquismo. São Paulo: Cortez Editora, 1987. NIGRO, M. Hospitalização: o impacto na criança, no adolescente e no psicólogo hospitalar. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2004. ROMANO, B.W. Psicologia e cardiologia: encontros possíveis. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2001. SEVERO, M.C. Estratégias em Psicologia Institucional. São Paulo, Edições Loyola, 1993. SIMON, R. Psicologia clínica preventiva: novos fundamentos. São Paulo: EPU, 1989 PENNA, T. Psicoterapia breve em hospitais gerais. In: MELO FILHO, J. Psicossomática hoje. Porto Alegre, Artes Médicas, 1992, 362-370.