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O que é a moral? É o conjunto do que um indivíduo se impõe ou proíbe a si mesmo, não para, antes de mais nada, aumentar sua felicidade ou seu bem-estar próprios, o que não passaria de egoísmo, mas para levar em conta os interesses ou os direitos do outro, mas para não ser um canalha, mas para permanecer fiel a certa ideia da humanidade e de si. A moral responde à pergunta: “O que devo fazer?”. É o conjunto dos meus deveres, em outras palavras, dos imperativos que reconheço legítimos – mesmo que, às vezes, como todo mundo, eu os viole. É a lei que imponho a mim mesmo, ou que deveria me impor, independentemente do olhar do outro e de qualquer sanção ou recompensa esperadas.
“O que devo fazer?”, e não “O que outros devem fazer?”. É o que distingue a moral do moralismo. “A moral”, dizia Alain, “nunca é para o vizinho”: quem se preocupa com os deveres do vizinho não é moral, é moralizador. Existe espécie mais desagradável? Existe discurso mais inútil? A moral só é legítima na primeira pessoa. Dizer a alguém “Você tem de ser generoso” não é dar prova de generosidade. Dizer-lhe “Você tem de ser corajoso” não é dar prova de coragem. A moral só vale para si mesmo; os deveres só valem para si mesmo. Para os outros, a misericórdia e o direito bastam.
Quanto ao mais, quem pode conhecer as intenções, as desculpas ou os méritos alheios? Ninguém, moralmente falando, pode ser julgado, a não ser por Deus, se Deus existir, ou por si mesmo, e isso já constitui uma existência mais do que suficiente. Você foi egoísta? Foi covarde? Aproveitou-se da fraqueza do outro, da sua desgraça, da sua candura? Você mentiu, roubou, violentou? Você sabe muito bem, e esse saber de si para consigo é o que se chama consciência, que é o único juiz, em todo caso o único, moralmente falando, que importa. Um processo? Uma multa? Uma pena de prisão? Não passa da justiça dos homens: não passa de direito e polícia. Quantos canalhas em liberdade? Quanta gente boa na prisão? Você pode estar em regra com a sociedade, o que, sem dúvida nenhuma, é necessário. Mas isso não dispensa você de estar em regra consigo mesmo, com sua consciência. E essa é, na verdade, a única regra.
Quer dizer, então, que há tantas morais quantos são os indivíduos? De jeito nenhum. E aí está o paradoxo da moral: ela só vale na primeira pessoa, mas, universalmente, em outras palavras, para todo ser humano (já que todo ser humano é um “eu”). Pelo menos é assim que a vivemos. Sabemos perfeitamente, na prática, que há morais diferentes, que dependem da educação recebida, da sociedade ou da época em que as pessoas vivem, dos meios que frequentam, da cultura com a qual elas se identificam... Não há moral absoluta, ou ninguém tem acesso absoluto a ela. Mas, quando eu me proíbo a crueldade, o racismo ou o assassinato, sei também que não é tão somente uma questão de preferência, que dependeria do gosto de cada um. É, antes de mais nada, uma condição de sobrevivência e de dignidade para a sociedade, para qualquer sociedade, em outras palavras, para a humanidade ou a civilização.
Se todo mundo mentisse, ninguém mais acreditaria em ninguém: já não daria nem para mentir, uma vez que a mentira supõe a própria confiança que ela viola. E toda e qualquer comunicação se tornaria absurda e inútil. Se todo mundo roubasse, a vida em sociedade se tornaria impossível ou miserável: já não haveria propriedade, já não haveria bem-estar para ninguém. E já não haveria nada a roubar... Se todo mundo matasse, a humanidade ou a civilização correriam para a sua perda: não haveria mais que violência e medo. E todos seríamos vítimas dos assassinos que todos nós seríamos...
Não passam de hipótese, mas nos instalam no âmago da moral. Você quer saber se determinada ação é boa ou condenável? Pergunte-se o que aconteceria se todo mundo se comportasse assim. Uma criança, por exemplo, joga o chiclete na calçada: “Imagine se todo mundo fizesse isso”, dizem-lhe seus pais: “que sujeira seria, que desagradável para você e para todos! ” Imagine, com maior razão, que todo mundo minta, que todo mundo mate, que todo mundo roube, estupre, agrida, torture... Como você poderia querer uma humanidade igual? Como você poderia querê-la para seus filhos? E em nome de que você se isentaria do que você quer? É preciso, portanto, proibir-se de fazer o que você condenaria nos outros ou então renunciar a se aprovar de acordo com o universal, isto é, de acordo com a razão. É esse o ponto decisivo: trata-se de se submeter pessoalmente a uma lei que nos parece valer, ou que deveria valer, para todos.
COMTE-SPONVILLE, André. Apresentação da filosofia. Trad. Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 2011. p. 20-22.

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