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LOGÍSTICA GLOBAL E A SUA IMPORTÂNCIA ESTRATÉGICA Profª Carla Diógenes AULA 6 2 TEMA 1 – LOGÍSTICA REVERSA NO COMÉRCIO INTERNACIONAL A logística reversa é uma prática cada vez mais comum e importante no ambiente empresarial. Organizações que atuam no ambiente nacional e/ou internacional têm encontrado, nessa prática, uma forma eficaz de redução de custos e despesas. Luz (2018) explica que a logística tradicional tem o objetivo de entregar o produto certo para o cliente certo, no tempo e local certos. Já a logística reversa “trata do retorno do produto que já foi vendido ou consumido, de forma que retorne ao ciclo de negócios, ou ao ciclo produtivo, com valor econômico, legal ou de imagem” (p. 44). A Figura 1 ilustra como os fluxos da logística tradicional e reversa se cruzam no dia a dia de uma organização. Figura 1 – Fluxos da logística tradicional e da logística reversa Fonte: Cunha, 2019. A logística reversa vem ganhando força nos últimos anos porque ela é uma estratégia que ajuda a alcançar a sustentabilidade organizacional, principalmente nas áreas econômica e ambiental, além de ser um diferencial competitivo. Quando a empresa consegue revender ou reutilizar os resíduos derivados do consumo de seus produtos (embalagens e eletrônicos), por exemplo, ela 3 diminui custos, obtém novas fontes de receita, diminui o lançamento de lixo no ambiente e melhora a imagem perante a sociedade. A logística reversa se divide em dois grupos: de pós-venda (exemplo: devolução de um aparelho celular com defeito) e de pós-consumo (exemplo: devolução de embalagens de vidro). 1.1 Logística reversa no pós-venda O Quadro 1 apresenta as motivações que norteiam a logística reversa no caso de pós-vendas. Quadro 1 – Motivações da logística reversa no pós-venda Classificação Motivação Garantia de qualidade - Produto apresentou defeito no prazo de garantia. - Defeito de fabricação ou de funcionamento. - Avaria no produto ou na embalagem. - Término de validade. Substituição de componentes - Danificação no transporte. - Adaptação ao pedido do cliente. Comercial - Erro de processamento de pedido. - Retorno de produtos consignados. - Excesso de estoque no canal de distribuição. Fonte: elaborado por Diogenes, 2024, com base em Luz, 2021. A área da logística reversa que lida com o pós-venda precisa gerenciar a movimentação de produtos físicos com pouca ou nenhuma utilização, que, por alguma razão, saem do cliente e fazem o caminho reverso na cadeia de distribuição. Muitos desses produtos retornam ao fabricante, que precisa ter um sistema de controle apurado, com informações corretas sobre cada lote e data de fabricação para identificar os itens comprometidos e corrigir as causas. 1.2 Logística reversa no pós-consumo Agora veremos, no Quadro 2, as motivações que norteiam a logística reversa no caso de pós-consumo. 4 Quadro 2 – Motivações da logística reversa no pós-consumo Classificação Motivação Reciclagem Os materiais constituintes dos produtos descartados são extraídos industrialmente, transformando-se em matérias-primas secundárias ou recicladas, que serão reincorporadas à fabricação de novos produtos. Desmanche O produto que sofre o processo de desmontagem. Seus componentes em condições de uso ou de remanufatura são separados e utilizados para o mesmo uso original. Reuso Há extensão do uso, com a mesma função pela qual o produto foi originalmente concebido, sem precisar ser remanufaturado. Disposição final Local onde são enviados os produtos, materiais e resíduos sem condições de revalorização. Fonte: elaborado por Diogenes, 2024, com base em Luz, 2021. Nesse tipo de logística, o produto já foi utilizado até o final do seu ciclo de vida e faz o caminho de volta ao fabricante para ser reciclado ou descartado da forma correta. É o caso de produtos eletroeletrônicos. O avanço da tecnologia tem encurtado o tempo de vida de muitos produtos, que são rapidamente substituídos por modelos mais modernos. Sempre que isso acontece, mais e mais resíduos são gerados, e precisam de tratamento em programas de logística reversa. Sabendo disso, as empresas começam a se preocupar com a reutilização dos resíduos gerados ainda na fase de projeto de um novo produto ou serviço. 1.3. Parcerias com operadores logísticos Fazer a entrega de produtos dentro do comércio internacional já requer muito planejamento e controle. Porém, a logística reversa global é ainda mais desafiadora, pois precisa coletar poucos produtos, em locais diversos e dispersos e levá-los de volta para a cadeia produtiva. Por isso, muitas empresas optam por contratar operadores logísticos para o tráfego de cargas de logística reversa. Almeida (2020) explica que existem dois tipos de serviços nessa área: • Logística reversa domiciliar: o operador retira o produto na casa do cliente e oferece serviços de transporte, de armazenagem, de separação (descartados e reaproveitados) e de expedição até o local designado pela empresa contratante; 5 • Logística reversa simultânea domiciliar: ao mesmo tempo que coleta o produto na residência do cliente, o operador fornece um novo exemplar, otimizando o tempo e o custo desse processo. Um dos maiores desafios na contratação de operadores logísticos é a capacitação desses parceiros, que precisam entender bem dos produtos da empresa contratante. Além disso, o uso de sistemas de informação que integrem os dados do operador e do contratante é indispensável. TEMA 2 – INOVAÇÕES NA LOGÍSTICA GLOBAL O desenvolvimento e avanço tecnológico das últimas décadas permitiu que uma série de ferramentas fossem criadas para aumentar a eficiência dos processos logísticos. Sistemas de Gerenciamento de Transportes (TMS), Sistemas de Gerenciamento de Armazéns (WMS), Sistema de Identificação por Radiofrequência (RFID), entre outros, realmente revolucionaram a atuação das empresas, permitindo que elas chegassem em lugares cada vez mais distantes. Veremos, a seguir, as inovações tecnológicas mais recentes aplicadas no universo logístico global. 2.1 Inteligência Artificial (IA) Podemos dizer que uma tecnologia se enquadra como IA quando ela tem capacidade de aprendizagem, adaptação e simulação do pensamento humano. “Esse tipo de tecnologia consegue processar grandes blocos de dados a uma velocidade sobre-humana, encontrando e classificando padrões e utilizando esses resultados para fazer previsões e tomar decisões” (Reina, 2024, p. 12). Diferentemente de sistemas de automação convencionais, que se limitam a executar tarefas previamente programadas, as tecnologias IAs executam as tarefas, aprendem com experiências passadas, adaptam-se e tomam decisões complexas. A aplicação da IA nos processos logísticos de roteirização tem sido um grande fator de diferenciação competitiva. Essa tecnologia consegue identificar as rotas mais eficientes, considerando as diversas variáveis envolvidas, tais como distância total percorrida, tempo de deslocamento, custo de combustível e percentual de ocupação do veículo. 6 Ao analisar esses fatores, a ferramenta de IA aprende a dinâmica da roteirização, adapta-se e consegue oferecer respostas rápidas e inteligentes, mediante mudanças, imprevistos e diferentes cenários. No exemplo da roteirização, as vantagens da aplicação da IA são diversas. Auxilia na tomada de decisão da melhor rota, reduzindo o tempo de entrega e os custos de deslocamento. Também diminui as emissões de carbono e consumo de combustível, além de atender às altas expectativas dos consumidores. 2.2 Transporte autônomo A entrega de mercadorias por veículos autônomos é uma realidade cada vez mais próxima. Com sistemas de navegação, câmeras internas e externas e sensores avançados, esses veículos conseguemoperar com segurança e eficiência em várias condições. É o caso de robôs que movimentam cargas dentro de armazéns. Barroso (2024) lembra que em uma operação de armazém, o trabalho para os funcionários é fisicamente desgastante. A utilização das ferramentas robóticas diminui os riscos de acidentes e aumenta a saúde e segurança no trabalho. Fora dos armazéns, o transporte feito por drones (Figura 2) e veículos elétricos também tem crescido, tendo como vantagens a redução dos custos operacionais e a diminuição da emissão de gás carbono no ar. Figura 2 – Drones de entrega Créditos: Rax Qiu/ Adobe Stock. 7 2.3 Blockchain Considerada como uma tecnologia que está revolucionando o comércio internacional, o blockchain pode ser entendido como: Um banco de dados distribuído e seguro, composto por vários pares capazes de rastrear, verificar e executar transações, além de armazenar informações de uma grande variedade de entidades, sendo capaz de oferecer mais transparência, segurança e rastreabilidade aprimorada, alta eficiência, redução dos custos e nenhuma intervenção de terceiros. (Telles, 2022, p. 179) Em um futuro breve, o blockchain permitirá que todos os membros da cadeia logística global consigam rastrear itens em tempo real, validar sua origem e prevenir fraudes. Seu uso contribuirá para aumentar a eficiência nas alfândegas, portos, aeroportos e demais fronteiras, agilizando a verificação de documentos e tornando as operações logísticas globais cada vez mais seguras. A rastreabilidade de produtos por meio do blockchain permite, entre outros pontos, o registro inalterável de informações sobre a origem e o movimento dos itens ao longo da cadeia de suprimentos, até chegar na mão do consumidor final (fator essencial para uma indústria de alimento, por exemplo). 2.4 IoT – Internet das Coisas A IoT, no original em inglês, “Internet of Things”, está presente em objetos físicos e virtuais ligados à internet. Na logística, as soluções de IoT mais utilizadas são o monitoramento do desempenho de equipamentos, manutenção preventiva, rastreamento de entregas, monitoramento da localização e condição dos produtos em tempo real. Uma esteira do armazém, por exemplo, pode ter a massa dos itens que passa por ela monitorada e armazenada, para se ter controle estatístico desse parâmetro, ajudando no planejamento da manutenção do equipamento. 2.5 Avanço tecnológico na logística no Brasil Apesar do grande avanço tecnológico em diversas áreas da logística internacional, ainda existem muitos desafios nas empresas brasileiras para que cheguem na vanguarda tecnológica. Barroso (2024) comenta que, segundo dados do “Panorama de Automação da Indústria”, somente 43% das indústrias brasileiras utilizam o WMS 8 para gestão de seus estoques. Isso mostra que a adesão à tecnologia ainda é baixa nesse segmento no Brasil e que há um excesso de processos manuais. E acrescenta: “não basta apenas investir em inovação, é preciso investir em pessoas, para que, juntos, humanos e máquinas, levem o setor logístico para o próximo patamar da inovação” (p. 10). O propósito de qualquer inovação tecnológica, em última instância, deve ser mudar a vida das pessoas. Na área logística, a tecnologia permite que os colaboradores aproveitem melhor sua jornada de trabalho, dedicando-se a atividades mais estratégicas enquanto as máquinas fazem funções repetitivas. TEMA 3 – PRÁTICAS DE SUSTENTABILIDADE NA LOGÍSTICA GLOBAL As preocupações com o meio ambiente e com a sociedade têm crescido no mercado empresarial, ano após ano. A reputação de uma organização não está atrelada apenas à qualidade dos seus produtos e serviços. Muitos consumidores observam a forma como as empresas lidam com questões sociais, ambientais e éticas. Por meio das redes sociais, clientes conseguem acompanhar com muita facilidade a atuação de empresas, de todo o mundo. Atualmente, muito se fala sobre a importância das ações em ESG, em inglês, Environmental, Social and Governance (Figura 3). Traduzido para o português como Fatores Ambientais, Sociais e de Governança Corporativa, este termo indica boas práticas e atividades que estejam em conformidade com os princípios de sustentabilidade. Figura 3 – ESG Créditos: Tasha Vector/ Adobe Stock. 9 Contempla o cumprimento de leis e regulações ambientais, promoção da diversidade e inclusão e respeito aos direitos trabalhistas e humanos, ética e transparência. 3.1 Benefícios da ESG Um dos principais benefícios que as práticas de ESG trazem para as empresas é a redução de custos. A otimização do uso de recursos como água, energia elétrica, papel, combustíveis diminui o desperdício e gera economia. Essa busca pela eficiência dos processos também é vantajosa, na medida em que o trabalho passa a ser feito em menor tempo, aumentando a produtividade. O ESG também traz benefícios na medida em que empresas que prezam pela transparência na prestação de contas à sociedade ganham a confiança e preferência de investidores, como um diferencial competitivo em relação à concorrência. 3.2 Práticas da ESG alinhadas à logística Como o setor logístico faz um uso intensivo de combustíveis e mão de obra, possui um grande potencial para implementar ações de ESG. O especialista em logística Carlos Jardim (2024) alerta que “não existe sustentabilidade sem sustentabilidade das cadeias de suprimento”. Na logística, o grande desafio para implantar práticas ESG está relacionado com a eficiência dos processos de distribuição e transporte. Sistemas automatizados ajudam na otimização das rotas, diminuindo a emissão de poluentes na atmosfera. Do ponto de vista social, existem medidas alinhadas aos direitos humanos no contexto das operações logísticas: • Melhoria das condições e jornadas de trabalho de motoristas e operadores; • Garantia de segurança nas estradas e nas operações; • Promoção da diversidade em cargos operacionais e de liderança, e combate à discriminação; • Combate à exploração sexual de crianças e adolescentes nas estradas e portos; 10 • Diminuição de impactos negativos para as comunidades em torno das operações (Pereira, 2022). Já no tema da governança, as empresas precisam prezar pela transparência e ética, com políticas de combate à corrupção, códigos de conduta e de proteção de dados. Para avaliar se uma empresa possui uma cultura e práticas alinhadas com a ESG, Pereira (2022) sugere responder algumas questões listadas no Quadro 3: Quadro 3 – Questões sobre práticas alinhadas à ESG Área Questões Ambiental • Como se compromete com a diminuição da emissão de poluentes? • Como busca reduzir o consumo de energia, água, papel e outros recursos? • Como é feita a gestão dos resíduos? • O uso de energias renováveis é priorizado? • Como a logística reversa dos produtos é feita? • Utiliza softwares de gestão logística para otimizar e automatizar processos? Social • De quantas horas é a jornada de trabalho dos motoristas? • Colaboradores e motoristas possuem boas condições de trabalho? • Possui soluções para segurança no transporte e operação? • A taxa de turnover é baixa? • Quais os benefícios oferecidos aos colaboradores? • Há programas de treinamento e capacitação? • A satisfação de clientes e dos colaboradores é medida? • Os parceiros e fornecedores têm práticas alinhadas aos valores ESG? Governança • Tem transparência em seus dados financeiros e contábeis? • A gestão é honesta, equilibrada e busca atender aos interesses de todas as partes envolvidas? • Segue as normas da Lei Geral de Proteção de Dados? • Existe uma política de compliance (conformidade com leis, normas e regras)? • Existem medidas para gestão de riscos? • Utiliza softwares que disponibilizam relatórios e indicadores? Fonte: elaborado por Diogenes, 2024, com base emPereira, 2022. 11 3.3 ESG na logística brasileira Um dos fatores que atestam o desenvolvimento econômico de um país é o grau de mobilidade e acessibilidade de sua população no deslocamento urbano, entre regiões e países. Um segundo fator é a facilidade de transporte de sua produção de mercadorias aos pontos de consumo nacionais ou internacionais (Trennepohl; Trennepohl, 2023). No Brasil, os problemas na mobilidade de mercadorias impactam principalmente o agronegócio, um dos setores mais importantes da economia e que enfrenta muitos desafios logísticos para continuar crescendo de forma sustentável e responsável. Para obter um crescimento sustentável do agronegócio brasileiro, Trennepohl e Trennepohl (2023) alertam que é fundamental investir em infraestrutura, permitindo que a produção, o armazenamento e distribuição de alimentos sejam feitos de forma eficiente e segura. Requer investimentos em rodovias, ferrovias, hidrovias, portos, armazéns, silos e sistemas de irrigação. Existem diversas maneiras de se construir infraestrutura sustentável, como a utilização de materiais e técnicas de construção ambiental, a redução do consumo de energia e água, a implantação de sistemas de tratamento de resíduos, adoção de medidas de mitigação de impacto ambiental, entre outros. (Trennepohl; Trennepohl, 2023, p. 85) Ao mesmo tempo em que o mercado empresarial busca a sustentabilidade em suas ações, coloca a logística em uma função estratégica, sem se restringir à movimentação de itens, mas também colaborando significativamente para a minimização de resíduos, redução de emissões e comportamento ético. TEMA 4 – A LOGÍSTICA GLOBAL DIANTE DE CRISES No passado recente, a logística global tem enfrentado grandes desafios em suas operações. Os anos de 2020 a 2022 foram marcados pelo ápice da pandemia da covid-19. Para evitar o contágio com o vírus, de uma hora para outra pessoas de todo o mundo se trancaram em suas casas. Fábricas, lojas, escolas tiveram que fechar suas portas. Boa parte do comércio, que tradicionalmente era presencial, teve que se reinventar e disponibilizar opções de compras on-line. 12 A adesão ao e-commerce foi crescendo exponencialmente. Impossibilitadas de adquirir muitas mercadorias em lojas físicas, a sociedade teve que adaptar seus hábitos de consumo e estudo para o ambiente virtual. A indústria tentou se adequar a esse aumento nas atividades de importação e exportação, porém, precisou lidar com um grande obstáculo: a falta de insumos. Faltaram também contêineres, o que fez com que produtos se acumulassem, imóveis, em depósitos e portos mundo afora. Os custos da exportação, em alguns lugares, mais que decuplicaram. Quando os produtos finalmente chegavam ao seu destino, a sobrecarga de serviço e a necessidade de os trabalhadores da logística observarem a quarentena atrasavam mais ainda o processo. (Abuhab, 2021) Essa alta demanda provocou grandes congestionamentos de navios porta-contêineres, especialmente nos grandes portos exportadores como Ásia, Estados Unidos e Europa. A costa da China foi uma das que mais concentraram embarcações, esperando para atracar nos portos. Estima-se que cerca de 25% dos contêineres do mundo ficaram parados durante esse período (Mendes , 2022). A Figura 4 registra um grande número de navios esperando para atracar no porto de Cingapura, em maio de 2022: Figura 4 – Navios esperando no porto de Cingapura durante o bloqueio pandêmico da covid, em maio de 2022 Créditos: Fsteiger/ Adobe Stock. Outro incidente recente que comprometeu o desempenho das operações logísticas internacionais aconteceu em 2021, no Canal de Suez, no Egito. Um mega navio porta-contêiner, chamado Ever Given, encalhou no meio do canal, interrompendo completamente o tráfego no local, por seis dias. A Figura 5 mostra o Ever Given encalhado no canal: 13 Figura 5 – Navio Ever Given bloqueia Canal de Suez Créditos; Corona Borealis/ Adobe Stock. Em condições normais, cerca de 30 navios passam diariamente pelo canal de Suez. Com a interdição provocada pelo Ever Given, quase 200 embarcações ficaram paradas nas imediações, esperando para seguir viagem. Outras tantas, mudaram o seu trajeto, aumentando significativamente o tempo de operação. Este incidente também contribuiu para a falta de contêineres disponíveis, aumentando o valor do frete marítimo. Além disso, muitas cargas acabaram perecendo, pois ficaram retidas por um tempo muito superior ao previsto. Conflitos entre países também têm afetado fortemente as cadeias logísticas globais. Um dos mais recentes teve início em 2022, com a invasão da Ucrânia pela Rússia. Espaços aéreos e marítimos foram fechados, bloqueando muitas rotas de comércio entre a Europa e a Ásia, causando o desabastecimento de matérias-primas e insumos. Tradicionalmente, a Rússia é uma grande fornecedora mundial de petróleo e derivados, gás e metais. Já a Ucrânia é conhecida como “celeiro da Europa”, por ser um grande exportador de grãos, trigo e sementes. A Figura 6 mostra a imagem de um shopping center destruído em Kiev, capital da Ucrânia, em março de 2022: 14 Figura 6 – Destruição em Kiev Créditos: misu/ Adobe Stock. 4.1 Medidas em tempos de crise Crises políticas, econômicas, climáticas e sanitárias são um desafio para qualquer setor, pois dificilmente estão previstas no planejamento estratégico de uma organização. Porém, em um ambiente tão conectado como o que vivemos, os impactos negativos acabam chegando, especialmente, na logística internacional. Os membros da cadeia da logística global podem tomar algumas medidas preventivas para diminuir os prejuízos dessas adversidades. Vamos conhecer algumas delas: • Buscar fornecedores alternativos e reestruturar as redes de abastecimento e distribuição: a dependência excessiva de determinados fornecedores ou regiões do mundo deixa a empresa mais vulnerável a interrupções repentinas. • Definir e viabilizar novas rotas, novos modais de transporte e soluções intermodais para evitar gargalos. • Manter um estoque de segurança: é importante ter uma quantidade mínima de insumos e mercadorias para uso em situações de emergência e imprevistos. • Ter planos de contingência: desenvolver e preparar estratégias e fluxos de trabalho para manter-se produtivo em diferentes cenários. • Investir em tecnologia: sistemas como Sistema de Gerenciamento de Transporte (TMS), Sistema de Gerenciamento de Armazém (WMS), de https://stock.adobe.com/br/contributor/200893343/misu?load_type=author&prev_url=detail 15 Rastreamento, de Roteirização e de Gestão de Frotas permitem que a empresa tenha mais controle e facilidade de tomar decisões em situações de crise. • Ter flexibilidade: a maleabilidade facilita e agiliza o ajuste das operações logísticas para atender às demandas dos clientes previstas ou não. • Manter acordos de colaboração e parcerias estratégicas: a atuação colaborativa entre empresas de logística, fornecedores, clientes e autoridades regulatórias é fundamental contornar situações de crise. TEMA 5 – PERSPECTIVAS PARA A LOGÍSTICA GLOBAL Nos últimos anos, o mercado logístico tem estado em franca expansão. Segundo dados da Associação Brasileira de Operadores Logísticos (Abol), o Brasil conta com mais de mil empresas atuando no segmento, gerando um faturamento anual próximo de R$ 200 bilhões. E a tendência é seguir crescendo. Dentre os desafios deste mercado, vamos destacar alguns elementos, começando pelo planejamento da demanda. 5.1 Planejamento da demanda Prever com precisão a demanda de uma empresa está se tornando uma atividade cada vez mais complexa. Os distúrbios globais como guerras e pandemias e a facilidade que os consumidores têm de comparar produtos, preços e descontos em busca de melhores ofertas, são fatores que dificultam o planejamentodos pedidos de compra. Segundo o especialista em Supply Chain Management, Donald Neumann (citado por Presa, 2024), o despreparo organizacional também contribui para esse problema: Prever bem a demanda requer aplicação de técnicas de ciência de dados adequadas a um amplo histórico de comportamento do mercado, estabelecendo correlação com as alavancas do negócio, dos concorrentes e eventos externos. São raras as organizações que anteciparam essa necessidade, coletando todos esses dados de forma sistemática. (p. 18) E alerta: “investir apenas em software não resolve o problema. Gestão e previsão de demanda devem ser encaradas como uma competência organizacional que requer pessoas capacitadas, boa matéria-prima (dados) e boas ferramentas (softwares)”. 16 5.2 Perspectivas e tendências por setores Uma pesquisa com executivos de importantes setores da economia brasileira, publicada no periódico Mundo Logística, aponta algumas perspectivas e tendências para a logística global, apresentadas no Quadro 4: Quadro 4 – Perspectivas e tendências da logística setorial Setor Perspectivas Farmacêutico Os esforços para melhorar a acessibilidade e disponibilizar medicamentos para pacientes de forma rápida é uma tendência do setor. Na questão climática, diminuir as emissões de carbono é outro alvo a ser alcançado. Automotivo A sustentabilidade (redução de CO2), a conectividade total de cargas e produtos, a digitalização e a rastreabilidade são pontos-chave para os próximos anos. Além disso, o crescimento contínuo do agronegócio continuará demandando veículos de transporte nas rodovias nacionais e internacionais. A multimodalidade também é uma tendência, integrando especialmente o transporte rodoviário, ferroviário e aquaviário. Essa estratégia gera redução de custos, de roubos e de emissões de CO2 na atmosfera. Varejista O controle dos custos de distribuição é um grande desafio, principalmente pela alta nos preços do diesel. A adoção da estratégia omnichannel (integração de todos os canais de comunicação e vendas de uma empresa) é uma medida que ganha força. Parcerias colaborativas com toda a cadeia logística ajudarão na redução de desperdício e de custo. Operadores logísticos O uso da automação, da Inteligência Artificial e de plataformas de dados deve crescer. Muitas multinacionais que dependiam da China estão redesenhando suas cadeias de suprimento e optando por fornecedores em países como México, Chile e Brasil, geograficamente mais próximos dos seus mercados de consumo. Essa tática reduz custos e impactos ambientais. Fonte: Presa, 2024. 5.3 Mudanças legislativas que impactam na logística global O chamado Custo Brasil é considerado muito alto, em função de uma série de fatores como excesso de burocracia, infraestrutura deficiente, dificuldade de 17 pagar impostos. Porém, algumas mudanças previstas na legislação brasileira podem modificar essa condição. Uma das medidas que chama a atenção dos membros da cadeia logística nacional é a Reforma Tributária. Prevista para estar integralmente implementada em 2032, há uma expectativa de melhora no Produto Interno Bruto do país e, consequentemente, aumento no comércio exterior brasileiro. A reforma propõe uma simplificação significativa por meio da unificação de diversos tributos em um único imposto: o Imposto sobre Bens e Serviços (IBS). Essa mudança representa um cenário de oportunidades e de desafios para o setor logístico brasileiro. Vamos analisar alguns aspectos desse cenário: • A implementação da reforma tende a reduzir o tempo de processamento e os custos atrelados ao cumprimento das obrigações fiscais. A simplificação também pode facilitar o planejamento tributário e financeiro das empresas, ajudando na previsibilidade nos negócios. • Um sistema tributário mais simples e transparente atrai mais investimentos estrangeiros, facilitando o comércio internacional. • Em contrapartida, mudanças na tributação de combustíveis e energia - fatores vitais para o setor logístico - podem aumentar custos do transporte de cargas, diminuir a eficiência da distribuição, reduzir a margem de lucro das empresas e aumentar os preços para os consumidores finais. • O aumento da carga tributária sobre determinados insumos e serviços tende a elevar os custos operacionais das empresas do setor logístico, afetando sua competitividade. • Outra provável consequência da unificação dos tributos é a readequação geográfica de centros de distribuição e armazéns das empresas, buscando otimizar a carga tributária. Esta reconfiguração pode gerar uma distribuição mais eficiente dos centros logísticos, que estarão posicionados mais próximos a mercados consumidores e principais vias de transporte. (Soluciona Logística, 2024) Enfim, mudanças legislativas sempre são desafiadoras para o setor logístico. No caso da reforma tributária, pode reduzir custos administrativos e aumentar a eficiência operacional. Porém, o impacto nos custos com combustíveis e energia, e a complexidade da implementação, requerem atenção e planejamento cuidadoso. 18 REFERÊNCIAS ABOL. Associação Brasileira de Operadores Logísticos. Disponível em: <https://abolbrasil.org.br/>. Acesso em 11 abr. 2024 ABUHAB, D. Que lições a pandemia deixou para driblar a crise logística global? Revista Exame, 22 dez. 2021. Coluna Bússola. Disponível em: <https://exame.com/bussola/que-licoes-a-pandemia-deixou-para-driblar-a-crise- logistica-global/>. Acesso em: 11 abr. 2024 ALMEIDA, R. A. Logística reversa no e-commerce. Curitiba: Contentus, 2020. BARROSO, J. Do algoritmo à empatia: a interseção que impulsiona a logística humanizada. Mundo Logística, n. 98, ano XVII, p. 06-10, jan./fev. 2024. CUNHA, C. N. da. Sistemática das operações de logística internacional. Porto Alegre: Sagah, 2019. JARDIM, C. Logística e Supply Chain em 2024: o que esperar do setor? Mundo Logística, n. 98, ano XVII, p.16-28, jan./fev. 2024. LUZ, C. B. S. Logística reversa. Porto Alegre: Sagah, 2018. LUZ, C. B. S. Logística reversa. São Paulo: Platos Soluções Educacionais S. A., 2021. MENDES, C. Caos logístico: congestionamento nos portos do mundo, falta de contêineres e vagões aprofundam disrupção nas cadeias de suprimentos. Notícias Agrícolas, 6 maio 2022. Disponível em: <https://www.noticiasagricolas.com.br/noticias/logistica/316378-caos-logistico- congestionamento-nos-portos-do-mundo-falta-de-conteineres-e-vagoes- aprofundam-disrupcao-nas-cadeias-de-suprimentos.html>. Acesso em: 11 abr. 2024. PEREIRA, A. O que é ESG e quais seus impactos na logística. 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