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A valorização do trabalho Apenas nas sociedades modernas, nas quais predominam o trabalho assala- riado e formalmente livre, é que o trabalho deixa de ser considerado uma relação social negativa, tornando-se culturalmente valorizado. Essa valorização se desen- volve a partir do fim da Idade Média, em 1453, chegando ao auge com o raciona- lismo e o Iluminismo, no século XVIII. O trabalho passa a ser considerado algo útil, e o ócio e a contemplação, improdutivos. Com a industrialização e a urbanização das cidades, o trabalho torna-se o centro da vida social. Toda a produção de riqueza, sobretudo com a Primeira Revolução Industrial (1760-1840), tem o trabalho assalariado como relação social central. Com base em sua exploração são produzidos todos os produtos necessários à reprodução das relações sociais e dos indivíduos nas sociedades modernas. Essa relação social se torna importante a ponto de muitos estudiosos se dedicarem à elaboração de princípios explicativos sobre a origem das sociedades baseadas no trabalho, ou em mostrar como a produção, fundamentada em formas históricas de trabalho, é parte estruturante das sociedades modernas e contemporâneas. Na sociedade capitalista, o trabalho se estrutura como uma atividade, direta ou indiretamente. Mas há situações nas quais o trabalho não é algo prazeroso e pode ser muito degradante física e psicologicamente para o ser humano. Carlitos, personagem interpretado pelo comediante e diretor britânico Charlie Chaplin (1889-1977) serve uma bebida para o personagem interpretado pelo ator Chester Conklin (1888- -1971), preso em uma máquina industrial no filme Tempos modernos, de 1936. Esse filme é uma crítica ao sistema capitalista e ao modo de produção industrial. Paul Lafargue nasceu em Cuba, mas viveu a maior parte da vida na França. Foi casado com Jenny Laura Marx (1845-1911), filha de Karl Marx (1818-1883), filósofo alemão que desenvolveu teorias socioeconômicas que impactaram o mundo. Fotografia de c. 1890. Paul Lafargue (1842-1911) foi escritor e jornalista. No livro O direito à preguiça, de 1880, Lafargue escreve contra a ideia do trabalho como algo dignificante e positivo para o trabalhador. Nessa época, a jornada de trabalho em Paris excedia as 12 horas diárias. Perfil M a x M u n n A u tr e y /G e tt y I m a g e s A lb u m /F o to a re n a Dica O documentário Indús- tria americana mostra uma empresa de vidros chinesa que se instala onde antes havia uma fábrica de automóveis – fechada em um contex- to de crise – em Ohio, Estados Unidos. Nes- se processo, pode-se obser var algumas das formas de precarização do trabalho contempo- râneo. Na nova fábrica, operá rios estaduniden- ses e chineses dividem os mesmos ambientes de trabalho, mas a ló- gica da produção é al- terada pela introdução da cultura chinesa em solo estadunidense. Indústria americana. Di reção de Julia Reichert e Steven Bognar. Estados Unidos: Netflix, 2019 (115 min). Cartaz do filme Indústria americana, de 2019. R e p ro d u ç ã o /N e tf lix 49 V4_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap2_040-063.indd 49V4_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap2_040-063.indd 49 14/09/2020 11:4714/09/2020 11:47 1. Leia o texto a seguir, analise a charge e, depois, responda às questões propostas. o trabalho patogênico. A precarização passou a ser um atributo central do trabalho contempo- râneo e das novas relações de trabalho, apre- sentando múltiplas faces e dimensões. FRANCO, Tânia; DRUCK, Graça; SILVA, Edith Seligmann. As novas relações de trabalho, o desgaste mental do trabalhador e os transtornos mentais no trabalho. Revista Brasileira de Saúde Ocupacional, São Paulo, v. 35, n. 122, p. 230, 2010. Disponível em: https://www.scielo.br/pdf/rbso/v35n122/ a06v35n122.pdf. Acesso em: 6 jul. 2020. a) Explique como a charge pode ser relacionada ao conteúdo do texto. b) Você já ouviu a frase “O trabalho dignifica o homem”? Por que frases como essa aparecem com frequência nos meios de comunicação quando se fala em trabalho e vagas de empre- go? Debata essa questão em grupo, refletindo sobre as contradições presentes nessa frase comparando-a com o texto e a charge. c) A partir do texto, da charge, do debate de- senvolvido no item anterior e do seu conheci- mento de mundo, faça uma lista do que você considera dignificante e degradante no mun- do do trabalho. Professor, no Manual você encontra orientações sobre esta atividade.Explorando NÃO ESCREVA NO LIVRO Charge de Edu Oliveira, 2018. © E d u O liv e ir a /A c e rv o d o c a rt u n is taO trabalho precarizado Por que os avanços da ciência e tecnológicos – patrimônio humano – não têm se traduzido em emprego e inclusão de amplas parcelas da huma- nidade? Por que o aumento da pro- dutividade não tem se traduzido em redução das jornadas de trabalho sem prejuízo do salário? Apesar dos elevados patamares tecnológicos alcançados em todo o planeta, o mundo da produção conti- nua, predominantemente, estrutura- do e se movendo pela acumulação de capital e lucro. […] A lógica produ- tiva permanece a mesma que regia as relações capital/trabalho no século XIX, aprofundando a apropriação pri- vada da riqueza socialmente gerada e dos elementos da natureza, consoli- dando o mercado como eixo da sociedade. Esta lógica limita, ou mesmo extingue, as possibi- lidades do trabalho se constituir um meio de desenvolver a dignidade, a solidariedade e as potencialidades do ser humano. […] Este é um processo complexo, pois mantém a relação capital/trabalho em sua essência, ao tempo em que transmuta as suas formas de exis- tência. Ou seja, forja mudanças epidérmicas, de superfície, através de diferenciados estatutos de trabalhadores que camuflam a relação essen- cial capital/trabalho, confundindo as figuras sociais básicas representativas – empregado e empregador – que norteiam a vigência e a apli- cação das leis trabalhistas. Neutraliza e anula a regulação social do trabalho (com a consequen- te perda de direitos conquistados pelos movi- mentos sociais anteriormente), naturalizando o trabalho precário, banalizando a injustiça so- cial e a violência no trabalho (principalmente, a violência psicológica). Dissemina uma era de precarização social e de trabalho socialmente desagregador, terreno fértil para o sofrimento e o adoecimento dos indivíduos, configurando 50 V4_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap2_040-063.indd 50V4_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap2_040-063.indd 50 14/09/2020 11:4714/09/2020 11:47