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Prévia do material em texto

HISTÓRIA DO BRASIL: DOS TEMPOS DO ILUMINISMO À INDEPENDÊNCIA
W
alfrido S. de Oliveira Jr. / Tiago Rattes de AndradeFundação Biblioteca Nacional
ISBN 978-85-387-6310-9
9 788538 763109
IESDE BRASIL S/A
2017
História do Brasil: dos tempos 
do Iluminismo à Independência
Walfrido S. de Oliveira Jr.
Tiago Rattes de Andrade
Todos os direitos reservados.
IESDE BRASIL S/A. 
Al. Dr. Carlos de Carvalho, 1.482. CEP: 80730-200 
Batel – Curitiba – PR 
0800 708 88 88 – www.iesde.com.br
Capa: IESDE BRASIL S/A.
Imagem da capa: AMÉRICO, Pedro. O grito do Ipiranga. 1888. 1 óleo sobre 
tela: color: 415 x 760 cm. Museu Paulista, São Paulo, Brasil.
CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO 
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ
O47h Oliveira Jr., Walfrido S. de
História do Brasil : dos tempos do Iluminismo à Independên-
cia / Walfrido S. de Oliveira Jr., Tiago Rattes de Andrade. - 1. 
ed. - Curitiba, PR : IESDE Brasil, 2017. 
120 p. : il. ; 21 cm. 
ISBN 978-85-387-6310-9
1. Brasil - História. I. Andrade, Tiago Rattes de. II. Título.
17-40825 CDD: 981
CDU: 94(81)
© 2017 – IESDE BRASIL S/A. É proibida a reprodução, mesmo parcial, por qualquer processo, sem autorização por escrito dos 
autores e do detentor dos direitos autorais.
Apresentação
Quando escrevemos um livro de História, temos em mente que exis-
tem vários caminhos a seguir e, ao traçar o nosso, temos a esperança de que 
tenhamos escolhido o melhor. No campo de inúmeras possibilidades para 
abordarmos as temáticas que compõem este livro levamos muito em consi-
deração a relação que ele deve ter com você, leitor e aluno de História.
A todo o momento nos preocupamos em apresentar neste livro 
um texto de caráter objetivo e didático, no intuito de tornar a tarefa de 
compreender esse processo histórico tão complexo em algo prazeroso. 
Apesar disso, não abrimos mão de mostrar a você uma série de aborda-
gens que podem fazer a diferença em sua formação. 
Não há evento histórico simples, sabemos. Mas cabe a nós, histo-
riadores, oferecermos ao público em geral a chance de compreender da 
melhor maneira possível esse evento. E esta será uma tarefa fundamental 
em sua vida profissional e acadêmica. 
Quando falamos de qualquer coisa que se relacione ao Iluminismo, 
estamos tratando de algo que envolve um imaginário considerável na so-
ciedade ocidental. Alguns séculos depois de as revoluções que tomaram 
conta da Europa no século XVIII se estenderem em ações e transforma-
ções pelo século XIX, a chama de muitos daqueles ideais permanece viva 
e ainda capaz de incendiar o debate político de nosso tempo. 
No capítulo 1 desta obra, abordamos o conceito de Iluminismo em 
suas críticas à sociedade vigente no século XVIII. No capítulo 2, essas 
tensões são exploradas, partindo das ações do Marquês de Pombal na 
administração do reino português, suas ações em favor do absolutismo 
e enfrentamentos com a Igreja. A abordagem do capítulo 3 já está centra-
lizada na Colônia e em suas tensões internas. As relações entre senhores 
e escravos foram rapidamente abordadas por não constituírem o ponto 
central de nosso tema, mas não poderiam ficar de fora desse quadro. No 
capítulo 4, a narrativa retorna para as tensões europeias, que tiveram seu 
auge na Revolução Francesa e nas Guerras Napoleônicas. No capítulo 
5, abordamos os acontecimentos que acabaram por trazer Dom João VI 
e sua corte para os trópicos. Ao longo do capítulo 6 aprofundamos os 
impactos da transferência da corte portuguesa para o Brasil, mas dessa vez 
focando no impacto direto que a cidade do Rio de Janeiro sofreu. O capítulo 
7 pretende construir uma análise das características da elite político-econô-
mica que se formou no Brasil nesse período. Por fim, o capítulo 8 trata do 
processo da Independência em si. Nessa empreitada, tratamos de elementos 
antecedentes importantes, como as preocupações da elite brasileira com os 
riscos de recolonização, materializados na exigência do retorno de Dom João 
VI para Portugal.
Dito isto, esperamos que o trabalho aqui apresentado seja capaz de au-
xiliar a sua formação e despertar ainda mais seu interesse acerca de um even-
to tão decisivo na história.
Bons estudos!
Os autores
Sobre os autores
Walfrido S. de Oliveira Jr.
Graduado e mestre em História pela Universidade Federal do 
Paraná (UFPR), professor do ensino básico e ensino superior, autor de 
material de EAD, assessor pedagógico vinculado ao trabalho editorial de 
livros didáticos.
Tiago Rattes de Andrade 
Graduado em História, Mestre em Ciências Sociais e Doutor em 
História pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Atuou como 
professor da educação básica nas redes municipal, estadual e federal em 
Minas Gerais, onde também atuou na educação online, tanto no ensino 
superior como na pós-graduação. Atualmente dedica-se ao ramo edito-
rial. Realiza pesquisas no campo da educação e também da História do 
Brasil, em especial na História Política.
6 História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência
SumárioSumário
1 O Iluminismo: do velho mundo ao novo mundo 9
1.1 O conceito de Iluminismo 10
1.2 O Iluminismo em Portugal 12
1.3 Iluminismo na América portuguesa 16
2 Administração colonial: tensão entre portugueses e brasileiros 25
2.1 Período pombalino: despotismo esclarecido 26
2.2 O controle sobre o comércio e os impostos 28
2.3 Portugal e Brasil pós-Pombal 31
3 Revoltas coloniais: contextos e propostas 39
3.1 Tensões internas: senhores e escravos 40
3.2 Diferenças de interesses entre a metrópole e as elites locais 43
3.3 Revoltas separatistas 46
4 Napoleão e a expansão do Iluminismo 53
4.1 O papel de Napoleão na Revolução Francesa 54
4.2 A invasão napoleônica na Península Ibérica 56
4.3 Movimentos pela independência na América espanhola 58
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência 7
Sumário
5 Uma corte nos trópicos 67
5.1 Razões que levaram Dom João VI a partir com a corte 68
5.2 O processo político da retirada da corte de Portugal 70
5.3 O impacto da transferência da corte para as instituições brasileiras 72
6 As transformações do Rio de Janeiro: a nova capital 79
6.1 Transformações econômicas e seus impactos 80
6.2 As mudanças culturais e sociais 82
6.3 O cotidiano da cidade pós-Dom João VI 84
7 Elites e povo: laços e distanciamentos 93
7.1 As raízes da formação de nossas elites 94
7.2 Aspectos sociais e culturais da elite brasileira 97
7.3 A pluralidade da elite brasileira no século XIX 99
8 O processo de Independência 107
8.1 Antecedentes do processo de emancipação 108
8.2 O papel das elites internas: radicais e moderados 109
8.3 Uma nova nação que surge 112
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência 9
1
O Iluminismo: do velho 
mundo ao novo mundo
Ao abordarmos a temática do Iluminismo, nos vemos diante de um conceito cons-
truído com base em alguns pressupostos que já se tornaram clássicos, a concepção 
de que foi um movimento intelectual e de ação política que visava a uma crítica mais 
acentuada ao absolutismo, ao clero e à nobreza. Mas, se nos distanciarmos do ambiente 
francês e visitarmos outras sociedades, percebemos que há entendimentos diferentes 
tanto na origem das críticas quanto no ritmo das transformações pretendidas.
Para compreendermos melhor essas questões, dividimos o capítulo em três subte-
mas: 1) o conceito de Iluminismo; 2) o Iluminismo em Portugal; e 3) o Iluminismo na 
América portuguesa.
Walfrido S. de Oliveira Jr.
O Iluminismo: do velho mundo ao novo mundo1
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência10
1.1 O conceito de Iluminismo
Nenhum homem recebeu da natureza o direito de comandar os outros. A liber-
dade é um presente do céu, e cada indivíduo da mesma espécie tem o direito de 
gozar dela logo que goze da razão. Toda autoridade (que não a paterna) vem 
duma outra origem, que não é a da natureza. Examinando-a bem, sempre se fará 
remontar a uma dessas duas fontes: ou a força e violência daquele que delase 
apoderou; ou o consentimento daqueles que lhe são submetidos, por um contra-
to celebrado ou suposto entre eles e a quem deferiram a autoridade. (DIDEROT; 
D’ALEMBERT, 2006, p. 37)
O texto de Diderot1 que introduz este capítulo já aponta para várias das características 
basilares2 do Iluminismo3. Podemos indicar uma crítica à monarquia, principalmente pelo 
seu caráter absolutista4, que concentrava decisões nas mãos dos monarcas. Quando Diderot 
escreve “Nenhum homem recebeu da natureza o direito de comandar os outros”, posiciona-
-se de modo contrário à ideia de que o rei é ungido por Deus, ou seja, que a presença real é 
uma escolha divina.
Ao negar tal pressuposto legitimador da 
monarquia, afirma que as relações políticas 
são humanas, são escolhas ou imposições 
que surgem do próprio jogo político estabe-
lecido na sociedade. A autoridade política, 
portanto, é uma resultante da imposição da 
“força e violência daquele que dela se apo-
derou”, ou por “consentimento” (DIDEROT; 
D’ALEMBERT, 2006, p. 37).
Outra crítica desferida por Diderot se 
concentra no papel da nobreza, que, naque-
le período (século XVIII), mantinha uma sé-
rie de privilégios, como o de não pagar im-
postos, receber pensões da Coroa e ocupar 
os principais cargos públicos. Para tanto, 
Diderot prega a igualdade com a seguinte 
frase “A liberdade é um presente do céu, e 
cada indivíduo da mesma espécie tem o di-
reito de gozar dela logo que goze da razão” 
1 Denis Diderot, filósofo e escritor iluminista (França, 1713-1784).
2 Basilar: que serve de base; básico, fundamental.
3 O Iluminismo foi um movimento intelectual do século XVII cuja ação intelectual visava criticar as 
bases intelectuais do “Antigo Regime” e colocar no centro das discussões a ciência, a razão e a liber-
dade de expressão.
4 No absolutismo o monarca tem poder absoluto, ou seja, todas as decisões e poderes do Estado estão 
em suas mãos.
Vídeo
Figura 1 – LOO, Louis-Michel van. Retrato de 
Denis Diderot. 1767. 1 óleo sobre tela: color.; 81 
x 65 cm. Museu do Louvre, Paris.
O Iluminismo: do velho mundo ao novo mundo
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência
1
11
(DIDEROT; D’ALEMBERT, 2006). Essa sentença pode ser entendida como uma precursora 
da famosa expressão “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direi-
tos. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito 
de fraternidade”, contida na Declaração Universal dos Direitos Humanos5.
O conceito de igualdade para o século XVIII era altamente revolucionário, pois des-
qualificava toda distinção social e jurídica que sustentava a nobreza. Sem tais distinções, 
essa classe se tornaria “igual” às demais e, portanto, não teria os principais instrumen-
tos que lhe permitiam monopolizar os cargos públicos e influenciar o rei. Como afirma 
Hobsbawm,
As 400 mil pessoas aproximadamente que, entre os 23 milhões de franceses, 
formavam a nobreza, a inquestionável “primeira linha” da nação, embora 
não tão absolutamente a salvo da intromissão das linhas menores como na 
Prússia e outros lugares, estavam bastante seguras. Elas gozavam de conside-
ráveis privilégios, inclusive de isenção de vários impostos (mas não de tantos 
quanto o clero, mais bem organizado), e do direito de receber tributos feudais. 
(HOBSBAWM, 1996, p. 40)
Ao expormos essas críticas à nobreza e ao absolutismo, podemos acrescentar as críti-
cas direcionadas ao poder da Igreja Católica, que exercia certo controle sobre a produção e 
circulação das ideias. As preocupações dos membros da Igreja com os iluministas se dava 
também pela centralidade que queriam manter sobre essa produção de conhecimento, com 
a manutenção de certos dogmas. Temiam, além disso, a crítica às estruturas hierárquicas vi-
gentes, em que a Igreja se situava em posição de destaque. Os estudos científicos poderiam 
pôr em risco o monopólio que a Igreja queria ter sobre as explicações da origem da vida, 
visto que os iluministas incentivavam o uso da razão e o declínio da fé como metodologia 
de explicação dos fenômenos.
Sendo assim, as principais características do Iluminismo francês no século XVIII podem 
ser resumidas nas críticas à nobreza, ao absolutismo e ao clericalismo6. Defendia a igualdade 
jurídica dos cidadãos (esse conceito de cidadão foi, geralmente, restrito ao longo do século 
XIX e ampliado durante o século XX), a ampliação dos direitos políticos, a expansão da ra-
zão e da ciência.
Mas será que esses princípios nortearam as discussões iluministas em todas as nações 
onde os livros e ideias do Iluminismo foram divulgados?
Vamos observar essas questões estudando o Iluminismo em Portugal e na América 
portuguesa.
5 A Declaração Universal dos Direitos Humanos foi criada no século XX, após a Segunda Guerra Mundial. 
No entanto, anteriormente a ela, com a Revolução Francesa, foi criada a Declaração dos Direitos do Ho-
mem e do Cidadão, cuja influência foi decisiva para a construção da moderna cidadania.
6 Clericalismo: influência temporal da Igreja e do clero.
O Iluminismo: do velho mundo ao novo mundo1
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência12
1.2 O Iluminismo em Portugal
Considerando o desejo de “modificar o que existe”, esse texto pombalino mostra 
que o “governo” adotou medidas com os objetivos de: a) fomentar uma boa ca-
ligrafia, capacitando pessoas para trabalharem nas “contadorias do real erário, 
[...] outras repartições públicas”; b) desenvolver as “artes fabris ou ofícios mecâ-
nicos, [...]”; c) proteger e animar as “artes liberais”, de que eram exemplos, entre 
outros tantos, os “suntuosos e bem delineados edifícios de Lisboa” [...]; d) pro-
mover o cultivo da “filosofia ou das belas-artes, que servem de base a todas as 
ciências”; e) incitar o desenvolvimento das “ciências maiores”, consubstanciado 
na reforma dos Estatutos da Universidade de Coimbra; f) garantir o crescimento 
do comércio interno e externo tornando-o “mais feliz e opulento do que foi na-
quele século dos senhores reis D. Manuel e D. João III”; g) assegurar a harmonia 
entre os “diferentes estados e entre as ordens, classes e grêmios” [...]; h) garantir 
“o estado de opulência dos vassalos” de D. José I. (SANTOS, 2011, p. 80)
As ideias iluministas também circularam em Portugal durante a segunda metade do 
século XVIII. As palavras dos filósofos franceses eram lidas e/ou ouvidas em Lisboa, Porto e 
outras cidades e vilas, apesar das proibições e das tentativas de controle exercidas por parte 
da Igreja e da Coroa.
No entanto, tal como em outros reinos europeus do período, as reformas da Ilustração 
foram pensadas e executadas por ministros de-
signados pelos reis absolutistas – uma contradi-
ção, se levarmos em consideração toda a crítica 
iluminista feita às monarquias absolutistas, mas 
uma realidade vivida por reformadores atrelados 
fielmente aos seus monarcas.
Em Portugal, a figura que se destacou naque-
le momento foi a de Sebastião José de Carvalho e 
Melo, Conde de Oeiras (em 1759), posteriormente 
conhecido pelo título de Marquês de Pombal (em 
1769). Seu governo é considerado um marco para 
a História político-administrativa, tanto do reino 
quanto para as colônias. Mas o julgamento histó-
rico de seus compatriotas não é unânime, como 
veremos adiante.
A ascensão de Sebastião José de Carvalho e 
Melo à condição de ministro e real condutor da 
administração em Portugal se deu sob o reinado 
de D. José I de Portugal (1714-1777, reinado de 31 
de julho de 1750 a 24 de fevereiro de 1777).
Vídeo
Figura 2 – AMARAL, Miguel António do. 
Retrato de D. José I de Portugal. 1773. 1 óleo 
sobre tela: color. Museu Hermitage, São 
Petesburgo.
O Iluminismo: do velho mundo ao novo mundo
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência
1
13
É muito divulgada uma possível situação que contribuiu para a ascensão do futuro mar-
quês. Quando do terremoto que devastou Lisboa, em 1755, o rei, atônito, teria perguntado 
a seu Ministro dos Assuntos Exteriorese da Guerra (desde 1750): “O que fazer?” Sebastião 
José de Carvalho e Melo teria respondido: “Enterre os mortos, feche os portos e cuide dos 
vivos” (BOTO, 2010, p. 284).
Mas como podemos caracterizar o Iluminismo português, conhecido como “as luzes 
pombalinas”?
Podemos afirmar que as ações que marcaram a administração podem ser identificadas 
como pertencentes ao “espírito das luzes”, mas também seriam percebidas como a antítese 
das propostas dos filósofos franceses. Vamos exemplificar.
Como administrador, Carvalho e Melo tomou decisões no sentido de incentivar as ma-
nufaturas portuguesas, porque percebeu que o reino estava enfraquecido perante a econo-
mia europeia, na medida em que as importações de manufaturados era uma das causas da 
perda de recursos do reino.
Por outro lado, reforçou a política da concessão de monopólios, tanto no reino quanto 
nas colônias. As práticas monopolistas eram largamente utilizadas, pois, na percepção dos 
soberanos e seus administradores, resolviam os problemas ligados ao abastecimento das 
populações com alimentos e outras mercadorias e facilitavam a cobrança dos impostos. Mas 
essas práticas mercantilistas7 estavam muito distantes das propostas do liberalismo econô-
mico, uma das vertentes da filosofia das luzes.
Nesse projeto monopolista foi fundada, em 1756, a Companhia para a Agricultura das 
Vinhas do Alto Douro, estabelecendo a primeira região demarcada de produção vinícola no 
mundo, mas que, segundo José Eduardo Franco, provocou:
O primeiro grande massacre popular de carácter físico [...] em 1757, quando o 
povo da cidade do Porto se revoltou contra a decisão governamental de instituir 
uma Companhia monopolista para gerir o comércio do vinho do Porto, chaman-
do a si o direito de negócio deste produto pertencente tradicionalmente aos pe-
quenos e médios comerciantes. Aquilo que Camilo chama a criação pombalina 
das “companhias violentas” causou insatisfação da parte dos grupos de interesse 
atingidos. Para esmagar a revolta do Porto, Pombal mandou o exército contra 
o povo insubmisso para abafar o motim. Foram presas centenas de populares, 
mandando depois enforcar publicamente quarenta e cinco homens e mulheres. 
(FRANCO, 2009, p. 299)
Por outro lado, o Ministro fez outras tantas reformas consideradas mais moderniza-
doras. Entre elas, dentro do espírito iluminista, podemos citar a abolição da escravidão em 
Portugal, cuja pretensão era impactar a mentalidade lusa, com uma ação de combate ao 
arcaísmo da escravidão, e ampliar o trabalho livre e assalariado.
7 Mercantilismo: política econômica dos Estados modernos e absolutistas, cujas características princi-
pais são o controle sobre o comércio, a criação de monopólios comerciais e a busca por uma balança 
comercial favorável.
O Iluminismo: do velho mundo ao novo mundo1
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência14
Outras reformas de muito impacto se deram no campo da educação e da religião, as 
quais estavam intimamente ligadas, pois a Ordem Jesuíta atuava em todas as esferas da 
educação, tanto em Portugal quanto na América portuguesa.
A principal medida adotada na reforma religiosa foi a expulsão dos jesuítas em 1759, 
tanto da metrópole quanto das colônias, confiscando os seus bens, sob a alegação de que 
a Companhia de Jesus teria sido a responsável intelectual por uma tentativa de regicídio8, 
agindo como um poder autônomo dentro do Estado português.
Com o intuito de enfraquecer e controlar o Tribunal do Santo Ofício, o marquês no-
meou o seu irmão Paulo António de Carvalho e Mendonça presidente do conselho do tribu-
nal, subordinando a atuação desse importante órgão religioso aos interesses do reino.
Trabalhou contra o estatuto da Pureza de Sangue, permitindo, e mesmo incentivando, 
o casamento entre a alta nobreza com descendentes de árabes e judeus que permaneceram 
no reino com a designação de cristãos-novos9. Inclusive, em 25 de maio de 1773, promulgou 
uma lei que extinguia as diferenças entre cristãos-velhos e cristãos-novos e proibiu o uso da 
expressão cristão-novo, quer por escrito, quer oralmente, sob pena de açoitamento e degredo.
Figura 4 – LOO, Louis-Michel van; VERNET, Claude Joseph. Retrato do Marquês de Pombal. 1766. 1 
óleo sobre tela: color; 290 x 354 cm. Museu da Cidade, Lisboa.
Marquês 
de Pombal 
retratado 
mostrando a 
“sua obra” de 
restauração 
de Lisboa, 
destruída pelo 
terremoto de 
1755.
8 Tentativa, em 1758, em que foram julgados e condenados à morte por suplícios a tradicional família 
Távora, uma das mais importantes da nobreza lusitana (FRANCO, 2009, p. 298).
9 Termo utilizado em Portugal para designar descendentes dos judeus convertidos forçosamente ao 
catolicismo em 1497. Apesar de convertidos, sempre houve suspeitas de que praticavam o judaísmo 
longe dos olhos das autoridades católicas, e, devido à conversão, poderiam ser julgados pelo Tribunal 
da Inquisição.
O Iluminismo: do velho mundo ao novo mundo
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência
1
15
A reforma educacional teve de ser levada a cabo após a expulsão dos jesuítas, que pra-
ticamente monopolizavam o ensino básico. O Marquês de Pombal criou todo um sistema 
escolar, o sistema das aulas régias, que deveria ser controlado pelo Estado e possibilitar 
o acompanhamento das ações educacionais por meio de relatórios anuais. Por outro lado, 
preocupou-se com a censura aos iluministas franceses, os quais considerava perniciosos à 
moral da população. É claro que essas críticas ocorriam devido à defesa da participação dos 
cidadãos na política, aspecto que o fiel monarquista Pombal não admitia.
Em Coimbra, as ações do marquês foram mais enérgicas, criando um relatório que apon-
tava todos os vícios da presença jesuítica na universidade. Os antigos textos de Aristóteles, 
por exemplo, deveriam ser substituídos por abordagens mais racionalistas e embasadas na 
experiência, ou, como afirma Carlota Boto:
Pombal dava concretude às sugestões que lhe haviam sido feitas por parte da ge-
ração de estrangeirados com quem conviveu. O ponto de partida da reforma do 
curso de medicina era o seguinte: “a autoridade, comparada com a experiência e 
com a demonstração racional, de nada vale”. (BOTO, 2010, p. 295)
Portanto, ao observarmos esse resumo sobre a atuação de Pombal à frente do executivo 
português (1750-1777), notamos um conjunto de ações que não podem ser classificadas ape-
nas no âmbito do Iluminismo.
Ao defender o rei e propor monopólios comerciais, Pombal trabalhava com uma políti-
ca mercantilista, protegendo os interesses da Coroa portuguesa e reafirmando o absolutis-
mo e o interesse de grandes comerciantes monopolistas.
A expulsão dos jesuítas caminhava no mesmo sentido, o de fortalecer os interesses do 
Estado ante essa força “externa” e conservadora, mas nesse caso os ideais da razão, tipica-
mente identificados com o Iluminismo, aparecem. A defesa do método científico, contra o 
discurso da autoridade, foi uma das ações mais contundentes da Reforma de Coimbra.
O combate ao estatuto da Pureza de Sangue visava tanto quebrar o poder das mais 
tradicionais famílias da nobreza lusitana quanto ampliar a participação de outras famílias 
fidalgas no campo da política e da administração, pois muitas vezes esses fidalgos não ti-
nham status, mas possuíam riquezas. Uma das características da sociedade portuguesa foi 
a mediação entre os interesses da alta nobreza com os interesses da fidalguia e burguesia, 
tentando prover os que detinham títulos de nobreza com recursos financeiros e, do mes-
mo modo, munir os que detinham recursos financeiros com títulos de nobreza. O destino 
final dessa política não era a criação de uma classe burguesa empreendedora, mas, ao con-
trário, a incorporação dessa incipiente burguesia aos quadros nobiliários (FLORENTINO; 
FRAGOSO, 2001).
Podemos, portanto, afirmar que os ideais iluministas chegaram a Portugal, e isso sig-
nifica que não foram pensados nesse território, mas sim adaptados às condições locais –não somente às condições da vida social e material, mas também a partir das condições da 
O Iluminismo: do velho mundo ao novo mundo1
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência16
vida intelectual. Assim, as políticas pombalinas foram marcadas por ações mercantilistas na 
economia, absolutistas na política e liberais na educação e organização social, refletindo as 
características próprias dessa comunidade.
As ações de Pombal também se refletiram do outro lado do Atlântico, em colônias que 
possuíam uma diversidade populacional e cultural e uma pluralidade na organização eco-
nômica estendida por um território continental.
Vejamos como foi o impacto das ações pombalinas na América portuguesa.
1.3 Iluminismo na América portuguesa
Pensar na América portuguesa10 ao longo do século XVIII significa 
ter em mente as relações próprias que se desenvolviam nesses territórios. 
Devemos pensar no processo de expansão territorial e nas relações estabe-
lecidas com os povos nativos, as quais foram muitas vezes de conflito e de 
resistência, mas, por outro lado, também foram utilizadas várias estratégias 
de convivência ou de assimilação.
Lembramos a convivência e as trocas culturais estabelecidas entre os luso-brasileiros 
e as nações indígenas, especialmente da família linguística tupi. Dessas trocas desenvolve-
ram-se dois dialetos, as “Línguas Gerais”, destacadamente a da bacia amazônica, que, ao 
longo do século XIX, consolidou-se como o nheengatu, e a língua dos bandeirantes paulistas.
Esses dialetos serviam de base para a comunicação entre os europeus, fossem eles jesuí-
tas, exploradores, conquistadores ou comerciantes, com as diferentes nações indígenas que 
encontravam. A Língua Geral era o idioma cotidiano de milhares de pessoas, em detrimento 
do português. Porém, em 1758 ela foi proibida, e, se algum colono a utilizasse no seu dia a 
dia, era severamente punido. Esse é mais um exemplo das ações pombalinas, que visavam 
à centralização do poder; ao proibir a Língua Geral, Pombal pretendia ampliar, entre os 
colonos e indígenas, a presença do rei, nesse caso pelo uso português. Como dito na Lei do 
Diretório dos índios, de 1758,
§ 6 – Sempre foi máxima inevitavelmente praticada em todas as nações, que 
conquistaram novos domínios, introduzir logo nos povos conquistados o seu 
próprio idioma, por ser indisputável que este é um dos meios mais eficazes para 
desterrar dos povos rústicos a barbaridade dos seus antigos costumes e ter mos-
trado a experiência que, ao mesmo tempo que se introduz neles o uso da língua 
do príncipe que os conquistou, se lhes radica também o afeto, a veneração e a 
obediência ao mesmo príncipe. (O DIRETÓRIO, 1758)
10 Ao utilizarmos o termo América portuguesa temos por finalidade repensar as relações históricas. 
Propomos ser fiéis à formulação de pensamento que não leve a definições equivocadas. Ao identi-
ficarmos o Brasil, identificamos uma construção que está em andamento, pois a marca colonial e a 
estreita relação com Portugal não confere uma identidade de nação, território, pertencimento, como 
possuímos hoje. Apesar de o termo brasileiro já ser de uso corrente no século XVIII, enfatizamos que 
outras designações também o eram, como “português da colônia” ou “português do Brasil”, ou, ain-
da, a identificação de “reinóis” para designar o “português que era de Portugal”, em diferenciação do 
português brasileiro.
Vídeo
O Iluminismo: do velho mundo ao novo mundo
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência
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Figura 5 – Plano da Redução de São Miguel Arcanjo, séc. XVII.
Fonte: BOLCATO, 2012, p. 10.
As relações entre europeus e indígenas foram, em grande parte, mediadas pelas ações 
educacionais. A educação era baseada na presença e ação dos jesuítas, que atuavam em 
duas direções, a catequese indígena e as escolas para os filhos dos europeus. Porém muitos 
afro-brasileiros também foram alvo dessa atuação, principalmente nas fazendas da própria 
Ordem, como atestam Ferreira Jr. e Bittar (1999): “Este mesmo princípio de conversão reli-
giosa ao catolicismo, a combinação de catequese com o ensino das primeiras letras, foi uti-
lizado mais tarde, nos séculos XVII e XVIII, nas próprias fazendas da Companhia de Jesus 
com os filhos dos escravos que nelas trabalhavam”.
A presença jesuítica entre os indígenas possibilitou a construção de diversas missões 
ou reduções, responsáveis por converter os nativos ao catolicismo. Tais reduções também 
evitavam que esses indígenas fossem dizimados ou transformados em mão de obra escrava 
para os fazendeiros, mineradores ou comerciantes.
Como já mencionamos, a segunda metade do século XVIII foi marcada pela presença 
do Marquês de Pombal na administração do governo português, e suas ações se estenderam 
sobre a América portuguesa, apesar de ele nunca ter ido para as colônias. Uma das ações 
tomadas pelo marquês foi a abolição do trabalho escravo indígena, o que ocorreu em 1775 
O Iluminismo: do velho mundo ao novo mundo1
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência18
no Estado do Grão-Pará e Maranhão11, e em 1778, no Estado do Brasil. Essa medida estava 
de acordo com o pensamento iluminista que influenciou as ações pombalinas, combatendo 
a arcaica instituição da escravidão e ampliando a presença do trabalho livre.
Figura 6 – Divisão territorial do Brasil no século XVIII.
 ESTAD O DO MARANHÃO
ESTA
DO D
O 
BRAZIL
Fonte: Wikipedia Commons (adaptado).
Outra medida já estudada foi a expulsão dos jesuítas, que criaram e administravam as 
missões. Estas existiam de norte a sul da colônia, com grande destaque para a bacia ama-
zônica. Tais reduções visavam criar núcleos de povoamento para o desenvolvimento de 
vilas, preparar a mão de obra indígena para atividades de domínio de técnicas de trabalho 
11 Podemos afirmar sem muito erro que o território do atual Brasil foi dividido em duas unidades ad-
ministrativas entre 1621 a 1774, uma designada “Brasil” e outra designada “Grão-Pará e Maranhão”. 
“A criação do Estado do Maranhão foi decretada em 13 de junho de 1621, porém, a instalação efetiva só 
aconteceu em 1626, com a posse do primeiro governador e Capitão-General Francisco Coelho de Car-
valho, que esteve neste governo por dez anos (de 03.09.1626 a 15.09.1636). A vila de São Luis, que já era 
sede da capitania do Maranhão, foi escolhida como sede da capital do Estado. O Estado do Maranhão 
e Grão Pará perdurou até 1772, quando foi anexado ao Estado do Brasil, conforme Decreto Régio de 20 
de agosto”. (OLIVEIRA, 2011, p. 11)
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História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência
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mecânicos e agrícolas, e alterar seus hábitos sociais, constituindo uma noção de família nu-
clear tal qual era orientado pela Igreja Católica na época, a “família cristã”.
Ao realizar as duas medidas, abolição da escravidão e expulsão dos jesuítas, Pombal 
objetivava modernizar a colônia e proteger as populações indígenas, colocando-as sob a ad-
ministração direta de representantes do Reino. As missões foram transformadas em vilas ou 
lugares, segundo o interesse da Coroa em ocupar o território com uma população de súditos 
portugueses, e não de indígenas controlados pelos jesuítas.
Para os indígenas, essas medidas tiveram diversos impactos, sendo que a transformação 
da escravidão em alguma forma de trabalho compulsório não alterou significativamente a 
sua condição, e essas populações das vilas foram integradas à sociedade colonial de maneira 
subalterna, como remadores, trabalhadores a serviço dos fazendeiros etc. O destino dessas 
populações também foi diverso: alguns grupos indígenas retornaram à vida na floresta, 
reinventando suas tradições, e outros foram se tornando “portugueses”, pela transformação 
de seus costumes tradicionais e pela miscigenação.
Ao realizarmos essa rápida abordagem sobre as relações entre indígenas e europeus, fi-
nalizando com as ações pombalinas, propomos uma reflexão sobreo resultado dessas ações 
e seu impacto para o cotidiano das pessoas. Ou seja, de que forma as medidas iluministas do 
Marquês de Pombal repercutiram na vida dos povos indígenas, com certeza muito diferente 
do que na das populações europeias que passaram por medidas semelhantes.
Para as outras camadas da sociedade colonial, em especial para os escravizados, essas 
transformações em nada alteraram sua vida cotidiana. Já para os colonos, podemos destacar 
a criação de companhias de comércio, especialmente a Companhia Geral do Comércio do 
Grão-Pará e Maranhão (1755-1778). Segundo Cardoso,
a companhia pombalina além de dinamizar a produção regional (cacau, café, 
arroz, algum açúcar), introduziu em pouco mais de duas décadas 14.749 escra-
vos no Grão-Pará: mas, mesmo com as amplas facilidades de crédito a longo 
prazo que oferecia, a pobreza local fez com que a maior parte de tais cativos 
africanos fosse reexportada, via navegação fluvial, para o Mato Grosso e suas 
minas. A intensificação da escravidão negra no Pará, alimentando um breve pa-
rêntese agrícola numa zona de coleta, concentrou-se em Belém e seus arredores. 
(CARDOSO, 1990, p. 97)
Novamente observamos os limites das ações de Pombal, as quais pretendiam dinamizar 
as relações de produção e de comércio na região, mas que esbarram nas condições locais de 
pobreza e de um mercado consumidor pouco desenvolvido.
Se nos concentrarmos na circulação das ideias iluministas entre os colonos, podemos 
considerar que na Região das Minas (atual Minas Gerais) surgiram e cresceram cidades, com 
um dinamismo maior do que em outros centros urbanos, e assim tais ideias puderam pros-
perar com maior intensidade. Devido ao fluxo migratório dado ao longo do século XVIII, 
O Iluminismo: do velho mundo ao novo mundo1
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência20
em virtude da facilidade de enriquecimento que a exploração do ouro mais indicava do 
que de fato proporcionava, esses núcleos populacionais permitiram o surgimento de novas 
profissões, inclusive com certo refinamento. Tendo interesse pelo que se passava na Europa, 
entraram em contato com os pensadores franceses e ingleses.
A Ilustração começava a fazer uma tímida aparição em plagas coloniais. À fal-
ta de imprensa na colônia, em Portugal é que foram publicadas algumas obras 
escritas por intelectuais nascidos no Brasil, como o poema Uruguai, de Basílio 
da Gama, violentamente antijesuitico. Muito longe de ser brilhante, o panora-
ma cultural era, no entanto, menos insignificante do que havia sido no passado, 
sobretudo se nos lembrarmos de que o surto intelectual das cidades de Minas 
Gerais sobreviveu por várias décadas à queda da produção de ouro. (CARDOSO, 
1990, p. 99-100)
Podemos afirmar, no entanto, que os intelectuais brasileiros entraram em contato com o 
Iluminismo e permaneceram com tal conhecimento muito mais no campo das ideias do que 
como norte em ações práticas.
 Ampliando seus conhecimentos
A Era das Revoluções: 1789-1848
(HOBSBAWM, 1996, p. 29-30)
[...] A grande Enciclopédia de Diderot e d’Alembert não era simplesmente 
um compêndio do pensamento político e social progressista, mas do pro-
gresso científico e tecnológico. Pois, de fato, o “iluminismo”, a convicção 
no progresso do conhecimento humano, na racionalidade, na riqueza e 
no controle sobre a natureza – de que estava profundamente imbuído o 
século XVIII – derivou sua força primordialmente do evidente progresso 
da produção, do comércio e da racionalidade econômica e científica que 
se acreditava estar associada a ambos. E seus maiores campeões eram 
as classes economicamente mais progressistas, as que mais diretamente 
se envolviam nos avanços tangíveis da época: os círculos mercantis e os 
financistas e proprietários economicamente iluminados, os administrado-
res sociais e econômicos de espírito científico, a classe média instruída, os 
fabricantes e os empresários. Estes homens saudaram Benjamin Franklin, 
impressor e jornalista, inventor, empresário, estadista e negociante astuto, 
como o símbolo do cidadão do futuro, o self-made-man racional e ativo. 
Na Inglaterra, onde os novos homens não tinham necessidade de encar-
nações revolucionárias transatlânticas, estes homens formavam as socie-
dades provincianas das quais nasceram tanto o avanço político e social 
O Iluminismo: do velho mundo ao novo mundo
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência
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quanto o científico. A Sociedade Lunar de Bir-mingham incluía entre seus 
membros o oleiro Josiah Wedgwood, o inventor da moderna máquina a 
vapor James Watt e seu sócio Matthew Boulton, o químico Priestley, o bió-
logo e gentil-homem Erasmus Darwin (pioneiro das teorias da evolução 
e avô do grande Darwin) e o grande impressor Baskerville. Estes homens 
se organizavam por toda parte em lojas de franco-maçonaria12, onde as 
distinções de classe não importavam e a ideologia do iluminismo era pro-
pagada com um desinteressado denodo13.
É significativo que os dois principais centros dessa ideologia fossem tam-
bém os da dupla revolução, a França e a Inglaterra; embora de fato as 
ideias iluministas ganhassem uma voz corrente internacional mais ampla 
em suas formulações francesas (até mesmo quando fossem simplesmente 
versões galicistas14 de formulações britânicas), um individualismo secu-
lar, racionalista e progressista dominava o pensamento “esclarecido”. 
Libertar o indivíduo das algemas que o agrilhoavam era o seu principal 
objetivo: do tradicionalismo ignorante da Idade Média, que ainda lançava 
sua sombra pelo mundo, da superstição das igrejas (distintas da religião 
“racional” ou “natural”), da irracionalidade que dividia os homens em 
uma hierarquia de patentes mais baixas e mais altas de acordo com o nas-
cimento ou algum outro critério irrelevante. A liberdade, a igualdade e, 
em seguida, a fraternidade de todos os homens eram seus slogans. No 
devido tempo se tornaram os slogans da Revolução Francesa. O reinado 
da liberdade individual não poderia deixar de ter as consequências mais 
benéficas. Os mais extraordinários resultados podiam ser esperados – 
podiam de fato já ser observados como provenientes – de um exercício 
irrestrito do talento individual num mundo de razão. A apaixonada crença 
no progresso que professava o típico pensador do iluminismo refletia os 
aumentos visíveis no conhecimento e na técnica, na riqueza, no bem-estar 
e na civilização que podia ver em toda a sua volta e que, com certa justiça, 
atribuía ao avanço crescente de suas ideias. No começo do século15, as 
bruxas ainda eram queimadas; no final, os governos do iluminismo. [...]
12 A maçonaria é uma sociedade considerada discreta, e não secreta. Seus membros discutem 
filosofia e as questões da sociedade. Existem lojas maçônicas em quase todos os municípios 
brasileiros.
13 Denodo – ousadia, bravura, coragem.
14 Galicistas – referentes à França/aos franceses.
15 Hobsbawm ressalta as transformações ocorridas ao longo do século XVII, a ruptura com as 
tradições medievais que sobreviviam na sociedade europeia. Não é à toa que a Revolução Fran-
cesa é considerada como o início da Idade Contemporânea.
O Iluminismo: do velho mundo ao novo mundo1
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência22
 Atividades
1. Com base no texto de Diderot da abertura do capítulo, explique as razões que carac-
terizam ser esse um texto iluminista.
2. Por que podemos afirmar que a ação política e administrativa de Pombal pode ser, 
ao mesmo tempo, considerada modernizadora e conservadora?
3. O Marquês de Pombal tomou algumas medidas que envolviam os povos indígenas 
na América. Cite tais medidas, as intenções pelas quais ele as realizou e as consequ-
ências dessas ações para as populações indígenas.
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O Iluminismo: do velho mundo ao novo mundo
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência
1
23
SANTOS, A. C. de A. Luzes em Portugal: do terremoto à inauguração da estátua equestre do 
Reformador. Revista Topoi, Rio de Janeiro, v. 12, n. 22, p. 75-95, 2011. Disponível em: <http://www.
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org/brazil/pt/resources_10133.htm>. Acesso em: 24 mar. 2017.
 Resolução
1. O texto se caracteriza por ser iluminista na medida em que faz um apelo a certos 
valores iluministas, como o da liberdade, que pode ser tanto a liberdade política, de 
escolha de um governante, religiosa, criticando o catolicismo como uma religião do 
estado; e de pensamento, apelando para o uso da razão.
2. Ao observarmos o conjunto das ações de Pombal, podemos identificar algumas 
ações que se enquadram no “espírito” do Iluminismo, como a reforma do ensino 
em Coimbra, a expulsão dos jesuítas, a flexibilização das leis de pureza de sangue, o 
término da escravidão em Portugal e da escravidão indígena no Brasil.
 Por outro lado, algumas medidas se caracterizam por serem bem conservadoras, 
como a extrema lealdade ao rei e as ações para o fortalecimento de sua imagem, por 
exemplo, a liderança máxima e a criação das companhias monopolistas de comércio.
3. 
a. Proibição do uso da Língua Geral, interesse de reforçar a presença lusitana na colô-
nia, e, por consequência, a figura do rei D. José I. Os povos indígenas que viviam 
administrados pela Coroa se viram obrigados a adotar cada vez mais os costumes 
portugueses, em detrimento de seus costumes ancestrais.
b. A abolição do trabalho escravo indígena. Pombal imaginava incorporar essas popula-
ções à condição de súditos da Coroa, e a condição de livre era para esse intento. Os 
indígenas que eram escravizados, ou sofriam a ameaça da escravidão, passaram, em 
sua maioria, à condição de trabalho compulsório, muito distante da condição de um 
orgulhoso súdito do rei.
c. Expulsão dos jesuítas da colônia. Essa ação pretendia tanto modernizar a educação 
na colônia quanto retirar a população indígena da tutela dos religiosos, passando esse 
papel a ser feito pela Coroa. Isso resultou na fundação de vilas, mas nem todas pros-
peraram, pois alguns povos indígenas, devido ao estranhamento dessa nova situação, 
preferiram abandoná-las e retornar à condição de seminômades.
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência 25
2
Administração colonial: 
tensão entre portugueses 
e brasileiros
Nada pode ser mais útil e necessário a um Estado do que o Comércio. Porque ele é a mais 
caudalosa e inexaurível Fonte de que emanam todos os cabedais que podem fazer um reino 
opulento, rico e respeitado sem nunca se diminuir a torrente das riquezas e prosperidades 
que dele se derivam. (Marquês de Pombal. In: FALCON, 2005, p. 32)
A administração da Coroa portuguesa visava a alguns objetivos sobre suas colô-
nias americanas1. Dentre esses propósitos, podemos destacar: a manutenção do terri-
tório, diante das ameaças internas e externas; a ampliação desses territórios, ocupando 
espaços para além do Tratado de Tordesilhas; o incentivo à agricultura de exportação 
e à agricultura de subsistência; o incentivo à busca por metais preciosos; a abertura 
de caminhos e a segurança destes; o abastecimento dos senhores e mineradores com a 
mão de obra escravizada; o monopólio da Justiça; e, não menos importante, a cobrança 
de impostos e taxas.
Esses objetivos, por assim dizer, foram realizados com maior ou menor eficiência 
ao longo dos mais de três séculos de colonização, e é certo que as populações locais 
possuíam razões para reconhecer esses esforços, mas também tinham motivos para se 
queixarem da administração lusitana. Veremos alguns aspectos dessa administração, 
focando na figura do Marquês de Pombal, desde o período anterior a sua nomeação 
até os anos que se seguiram à sua destituição como ministro.
1 Lembramos que a administração da Coroa dividiu a América portuguesa em duas partes, que, no século XVIII, 
constituíam-se no Vice-Reino do Brasil e no Estado de Grão-Pará e Maranhão.
Walfrido S. de Oliveira Jr.
Administração colonial: 
tensão entre portugueses e brasileiros2
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência26
2.1 Período pombalino: despotismo esclarecido
No Iluminismo português, destacou-se a presença de Sebastião José de 
Carvalho e Melo, conhecido na História como Marquês de Pombal. Tal agen-
te político pautou suas ações num misto de Iluminismo e mercantilismo, o 
que caracteriza bem os esforços ditos modernizadores na Península Ibérica, 
em especial em Portugal e seu império ultramarino.
No campo da política internacional, as ações de Pombal refletem os mesmos dilemas 
modernizadores e conservadores. Para demonstrá-los, vamos abordar as análises de Pombal 
ante as relações comerciais que Portugal mantinha com a Inglaterra, em específico com o 
Tratado de Methuen, conhecido como o “Tratado dos Panos e Vinhos”, firmado em 1703, 
por meio do qual se estabelecia um recíproco monopólio: Portugal só adquiriria tecidos da 
Inglaterra, e a Inglaterra só adquiriria vinhos de Portugal, além de reforçar acordos militares.
No início do século XVIII, Portugal enfrentava uma crise financeira e militar, que en-
volvia disputas com a Holanda e com a Espanha, e a aliança militar com a Inglaterra era de 
fundamental importância.
Segundo as observações de Pombal, o que mais prejudicava os interesses lusos não seria 
a obrigatoriedade das compras dos tecidos ingleses, mas os efeitos de outra legislação ingle-
sa, o Atode Navegação (Navigation Acts), criado por Cromwell2 em 1651, o qual determinava 
que todos os produtos comercializados nos portos ingleses deveriam ser transportados por 
navios ingleses. Tal política se consolidou em 1654, com a vitória inglesa perante a Holanda, 
que contestara tal Ato.
Figura 1 – ABRAHAMSZ, Jan. A Batalha de Terheide. c. 1653. 1 óleo sobre tela, color.; 176 x 281,5 cm. 
Rijksmuseum, Amsterdam.
A pintura de 
Abrahamsz 
retrata uma 
batalha da guerra 
Anglo-Holandesa 
de 1653, demons-
trando o domínio 
naval inglês esta-
belecido durante 
o século XVII.
2 Oliver Cromwell (Huntingdon, 25 de abril de 1599 – Palácio de Whitehall, 3 de setembro de 1658) 
foi um líder político inglês e comandante das tropas parlamentaristas durante a Guerra Civil inglesa, 
iniciada em 1642 e finalizada com a condenação à morte de Carlos I, em 1649. Exerceu o comando 
durante o período republicano da Inglaterra entre 1649 e 1653.
Vídeo
Administração colonial: 
tensão entre portugueses e brasileiros
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência
2
27
Esse monopólio de transporte não era previsto no Tratado de Methuen, mas os ingleses 
alegavam que não poderiam desobedecer a essa legislação, por ser uma tradição no país. Tal 
desvantagem comercial foi relatada pelo futuro marquês da seguinte maneira:
O puro ganho que pode provir de qualquer Ramo do comércio não é o único 
objeto de quem nele trafica. Principal ou juntamente se deve atender à navegação 
que o mesmo comércio pode ocasionar. E com grande razão porque a navegação 
mercantil é a fonte de onde derivam as riquezas dos povos [...]. (Marquês de 
Pombal. In: FALCON, 2005, p. 18)
Notamos o teor das queixas de Pombal sobre o fato de as embarcações portuguesas não 
terem livre acesso aos portos ingleses, o que prejudicava a atividade comercial lusa. Mas o 
hábil dirigente, ainda na figura de diplomata, percebe que dessa desvantagem seria possível 
rever a presença inglesa nos portos da América portuguesa. Uma das máximas do comércio, 
segundo Pombal, era o de que se o comércio com as nações estrangeiras seria de grande 
importância, o comércio com as próprias colônias seria de importância maior (FALCON, 
2005, p. 18).
Nesse caso, a criação da Companhia de Comércio do Grão-Pará e Maranhão e a de 
Pernambuco e Paraíba marca uma ação mercantilista e protecionista de Pombal, tentando 
minimizar a dependência do comércio inglês e, assim, favorecer os comerciantes lusos, que 
investiram seus capitais nessas companhias.
Por outro lado, a política externa lusitana, antes, durante e depois de Pombal, não po-
deria confrontar direta e decisivamente os interesses ingleses, pois foram várias as ocasiões 
em que os lusos necessitaram de auxílio militar de seus fortes aliados3.
As dificuldades nas relações com os ingleses marcaram a política externa da Coroa 
portuguesa durante séculos, e mesmo a figura do Marquês de Pombal, tido por boa parte da 
historiografia lusitana como um líder “nacionalista”4 não conseguiu romper com essa de-
pendência. Sua administração foi caracterizada no espectro do despotismo esclarecido, cuja 
característica principal seria a de unir práticas do liberalismo iluminista com os interesses 
administrativos da Coroa, numa política eclética que envolvia liberalismo e mercantilismo.
O Tratado de Methuen ficou conhecido na historiografia de Portugal como uma política 
mercantil danosa aos interesses locais, pois não incentivou a criação de manufaturas no país, 
apesar dos esforços da Coroa para o seu surgimento. Tal afirmação, apesar de correta em 
certa medida, não leva em conta a dinâmica do desenvolvimento das manufaturas inglesas. 
3 Os dois reinos possuíam um tratado militar desde 1386, conhecido como “Tratado de Windsor”. 
Podemos citar como início desse tratado e seus futuros reflexos os seguintes acontecimentos:
a) Batalha de Aljubarrota, em 14 de agosto de 1385, entre portugueses com aliados ingleses, comanda-
das por D. João Mestre de Avis, e o exército castelhano e seus aliados liderados por D. João I de Castela.
b) Expulsão dos holandeses do Brasil de Angola, em 1648, que contou com a mediação inglesa para o 
tratado de paz.
c) A aliança como um fator de intimidação sobre a Espanha, tanto no continente europeu quanto na 
América.
d) Por fim, o apoio à vinda da família real portuguesa para o Brasil, em 1808.
4 Termo anacrônico para o século XVIII, mas que transmite o espírito de suas ações.
Administração colonial: 
tensão entre portugueses e brasileiros2
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência28
Devido ao sistema de putting-out5, podia-se produzir tecidos a preços competitivos e, após a 
criação das fábricas, da divisão do trabalho e do desenvolvimento de máquinas, a produção 
foi dinamizada e derrubaram-se os preços mais do que qualquer oficina artesanal portugue-
sa poderia conseguir.
Já na constituição da identidade histórica brasileira, tal acordo, além das alegações lu-
sas, também incluía o “roubo” das “nossas” riquezas naturais, pois os portugueses salda-
vam os deficits comerciais que realizavam com a Inglaterra com o ouro extraído do Brasil. 
Essas afirmações são anacrônicas, pois o território brasileiro no século XVIII não era autôno-
mo, e sim uma colônia portuguesa, portanto Portugal não roubava nossas riquezas, mas se 
apropriava, por meio da cobrança de impostos, de suas riquezas coloniais.
Uma parte muito importante da administração das colônias foi o sistema de cobrança 
de impostos. A cobrança de impostos nunca é uma prática que agrada à população de ma-
neira geral, sempre foi um tema controverso, pois quem paga afirma que se cobra exorbitan-
temente, e o governo que recebe alega que faltam recursos para suas ações essenciais. Isso 
não seria diferente na América portuguesa na virada do século XVIII para o século XIX. Esse 
tema foi, com certeza, uxm dos pontos que mais gerou tensões na sociedade colonial.
Vamos aprofundar essa questão.
2.2 O controle sobre o comércio e os impostos
Há uma tese muito conhecida na historiografia nacional, desenvolvida 
por Caio Prado Júnior, denominada “O sentido da colonização”. Nela o au-
tor propõe uma análise marxista6 do modo de produção, mas muito mais re-
finada do que encontramos em outros autores. Caio Prado propõe entender 
a empresa colonial americana como um apêndice das atividades comerciais 
europeias, ou, como ele próprio afirma:
O comércio que os interessa, e daí o relativo desprezo por este território primiti-
vo e vazio que é a América; e inversamente, o prestígio do Oriente, onde não fal-
tava objeto para atividades mercantis. [...] mas ocupar com povoamento efetivo, 
isso só surgiu como contingência, necessidade imposta por circunstâncias novas 
e imprevistas. (PRADO JÚNIOR, 1996, p. 23-24)
5 O sistema denominado de putting-out consistia na ação de um comerciante cujo interesse era contro-
lar a atividade dos artesãos, para conseguir uma produção constante e direcioná-la ao mercado. Foi 
uma prática que retirou dos produtores diretos o controle sobre a origem da matéria-prima e sobre 
o destino da produção. Tal sistema dinamizou a produção artesanal, que era totalmente controlada 
pelo artesão. O final desse processo se dará com a construção das fábricas, divisão do trabalho fabril 
e invenção das máquinas.
6 Marx, Karl Heinrich (Trier, 5 de maio de 1818 – Londres, 14 de março de 1883) foi um cientista social, 
historiador e revolucionário alemão. Seu pensamento foi de grande impacto na intelectualidade mun-
dial. Para aprofundar seu conhecimento sobre o tema, indicamos a leitura do Dicionário do pensamento 
marxista, organizado por Thomas Bottomore (Editora Zahar). Disponível em: <http://sociologial.do-
miniotemporario.com/doc/DICIONARIO_DO_PENSAMENTO_MARXISTA_TOM_BOTTOMORE.
pdf>. Acesso em: 12 mar. 2017.
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Administração colonial: 
tensão entre portugueses e brasileiros
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência
2
29
As contingências do comércio com o Orienteimpulsionaram os europeus, em especial 
os portugueses, a tomarem efetivamente posse de sua colônia americana, e isso só se tor-
naria viável com a inserção desse território no fluxo comercial internacional. Que produtos 
poderia a colônia oferecer? E que produtos seriam comercializados para ela?
Essa famosa tese enfatiza as relações comerciais entre colônia e metrópole, tendo como 
base os conceitos de dependência e complementaridade. Isto é, as colônias só teriam sentido 
se mantivessem uma relação de dependência econômica com suas metrópoles, necessitando 
delas para obter as mercadorias essenciais à sobrevivência de sua população e fornecendo a 
elas mercadorias que pudessem ser comercializadas nos mercados internacionais.
Para atingir esse fim, o controle do comércio exercido pela metrópole era fundamental. 
Por isso, houve uma política, ao longo dos anos de colonização, que visava estabelecer esse 
controle, não uma política única, imutável, mas que, devido às vicissitudes e contingências, 
tentava manter o “sentido da colonização”. Quem poderia comercializar, quais produtos 
poderiam ser comercializados e quais portos poderiam exercer o comércio eram preocupa-
ções que nortearam essas políticas envolvendo a colônia.
Pelas características geográficas e climáticas da colônia, os produtos tropicais foram logo 
percebidos como tendo um apelo de mercado para Portugal revendê-los no comércio euro-
peu. E é claro que os metais preciosos também eram bem-vindos para esse fluxo comercial.
Quanto às intenções de controle, a Coroa estabeleceu as companhias de comércio e o 
sistema de frotas, em 1649, que visava controlar todo o comércio entre a colônia e a metró-
pole (também o combate à pirataria motivou o sistema). O sistema de frotas regulava as 
datas em que as frotas sairiam dos portos de Recife, Salvador e Rio de Janeiro, e as datas que 
retornariam de Lisboa para esses locais.
Mas essas tentativas não obtiveram o sucesso esperado, sendo várias vezes superadas 
pelas mais diversas razões. Entre elas, podemos citar: a pressão dos ingleses pelo comércio 
direto; a incapacidade dos comerciantes lusitanos sozinhos conseguirem abastecer todas 
as necessidades coloniais, e dependerem de comerciantes de outros reinos para esse fim; 
e, principalmente, o dinamismo que os comerciantes lusos estabelecidos na colônia impri-
miam nas relações diretas com os portos portugueses na Ásia e, principalmente, na África, 
fugindo, assim, do controle comercial da metrópole, que, por incapacidade de realizar tal 
comércio, permitia aos seus súditos essa “liberdade”.
O comércio atlântico ligando Recife, Salvador e Rio de Janeiro aos portos de Ajudá (no 
atual Benin) e Benguela (em Angola) foi intenso e direto (não passava por Portugal) duran-
te todo o período colonial. Esse comércio traficava “ouro contrabandeado, óleo de baleia, 
açúcar, aguardente, tabaco, farinha de mandioca, arroz e outros produtos, recebendo em 
troca, sobretudo, escravos [...]” (CARDOSO, 1990, p. 91). Assim, não estava de acordo com o 
“sentido da colonização” proposto por Caio Prado7.
7 Uma polêmica muito marcante foi essa discussão estabelecida pelos defensores da tese de Caio 
Prado identificados com a Universidade de São Paulo (USP) e o professor Ciro Flamarion Cardoso, da 
Universidade Federal Fluminense, que apontava as dinâmicas do mercado interno no período colonial 
e as dificuldades da Coroa portuguesa em estabelecer um controle rigoroso sobre o comércio e outros 
aspectos da vida social na colônia. 
Administração colonial: 
tensão entre portugueses e brasileiros2
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência30
Figura 2 – Forte de São João Batista de Ajudá. 1886. 1 gravura, p/b.
Essa gravura, de 
autoria desconhecida, 
mostra o antigo e, 
em parte, abandona-
do, forte de São João 
Batista de Ajudá, uma 
feitoria portuguesa 
em Ouidah, antigo 
Daomé, atual Benin. 
Esse entreposto era 
fundamental para o 
comércio lusitano de 
escravos na chamada 
Costa da Mina. Foi 
uma possessão portu-
guesa até 1961.
A proposta de Caio Prado não está errada em seu sentido teórico, realmente as inten-
ções da Coroa residiam em controlar as atividades produtivas e comerciais de sua colônia, 
bem de acordo com o espírito do mercantilismo, mas esse controle não foi possível de ser 
realizado, abrindo uma série de “brechas”, tanto para os circuitos internos de produção e 
circulação quanto para os circuitos externos de comércio. As várias tentativas para se esta-
belecer esse controle são indícios de sua estrutural ineficiência.
Visto que o controle sobre o comércio não foi tão eficiente quanto previsto pela Coroa, 
os esforços maiores se deram na cobrança de impostos. Se não era possível impedir o comér-
cio direto entre Brasil e Angola, pelo menos ele deveria ser taxado. A Coroa via a possibili-
dade de essas taxas e impostos poderem minimizar as perdas com sua ineficiência em tentar 
estabelecer monopólios. Na colônia, havia tributos tanto para o comércio interno quanto 
para o externo; nas estradas reais, existiam os postos de cobranças ou “registros” e, nos por-
tos, a alfândega cumpria esse papel.
Com a descoberta e exploração do ouro, na virada do século XVII para o XVIII, Portugal 
intensificou as suas ações na tentativa de controlar a extração e, principalmente, a cobrança 
do imposto.
Em 1702, foi instituída a Intendência das Minas, órgão diretamente ligado à Coroa e que 
tinha por objetivo recolher o imposto do Quinto, isto é, uma taxação de 20% sobre o ouro 
extraído. Em 1734, esse tributo foi substituído pela capitação, que cobrava imposto de todos 
os moradores, fossem eles mineradores, comerciantes, homens livres e pobres ou escravi-
zados. Desse modo, o sistema de capitação beneficiou em muito os grandes mineradores, 
penalizando a sociedade em geral. Em 1850, o Marquês de Pombal terminou com a capita-
ção e retornou com o Quinto, além de criar a Casa de Fundição, por onde obrigatoriamente 
Administração colonial: 
tensão entre portugueses e brasileiros
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência
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31
deveria passar todo o ouro extraído, que era transformado em barras, e ali mesmo cobrado 
o imposto da quinta parte. Também foi estabelecido um mínimo de imposto de 100 arrobas 
anuais, o que corresponde a 1.500 kg (TEIXEIRA; TOTONI, 1989, p. 32-33).
Como a margem de 100 arrobas não estava sendo paga, em 1765 foi instituída a derra-
ma, que deveria cobrar os deficits dos anos anteriores. A pressão sobre os mineradores era 
grande, os quais alegavam um declínio da produção para não pagarem a taxa anual de 100 
arrobas. Mas a Coroa e suas autoridades desconfiavam de contrabando, que efetivamente 
acontecia em grande escala.
Os mineradores estavam devendo muito imposto para a Coroa e tentavam garantir seus 
lucros usando fraudes. Esses senhores de minas enviavam seu ouro em pó aos ourives, para 
que fizessem barras, falsificando os lingotes oficiais, ou mesmo para a produção de joias, a 
fim de alegarem que eram antigas peças de família. Por isso a profissão de ourives foi muito 
controlada na colônia, chegando mesmo a ser proibida na região das minas e, em 1766, em 
toda a colônia.
O século XVIII chegava a seu fim, e a conjuntura colonial passava por transformações. 
Em Portugal, Pombal foi destituído de sua função ministerial após a morte do rei José I, em 
1777. A presença econômica do Brasil pesava muito favoravelmente para a Coroa, no que se 
costumou chamar de inversão colonial.
Vamos analisar melhor esse contexto de fim de século.
2.3 Portugal e Brasil pós-Pombal
Ao fim do século XVIII, Portugal resignara-se em sua condição de rei-
no periférico, economicamente atrasado e culturalmente isolado, mas essa 
situação não pesava tanto, pois Lisboa ainda era a capital de um grande im-
pério, que se estendia pela América, África e Ásia.
Apesar de sua economia não ser dinâmica, a Coroa arrecadava das co-
lônias mais recursos do que necessitava para se manter. Os impostos eramcobrados em 
Portugal e suas colônias, que pagavam pela produção, circulação e consumo. Como já vi-
mos, a opção por arrecadar via tributos foi a solução encontrada pela Coroa na medida em 
que não conseguia monopolizar o comércio.
As reexportações de açúcar e algodão provenientes do Brasil auxiliaram a equilibrar a 
balança de comércio exterior. Com a Inglaterra, de quem Portugal adquiria tecidos e vários 
outros manufaturados, as exportações de vinho e azeite de oliva não eram suficientes para 
saldar as dívidas, e o ouro das minas também já estavam em declínio desde a metade do sé-
culo. Mas a expansão das exportações de açúcar e, principalmente algodão, para as nascen-
tes fábricas inglesas melhoraram a situação alfandegária, gerando superavits para Portugal.
Notamos, assim, uma estreita relação entre a Coroa lusitana e a inglesa, que se conso-
lidava no campo militar. Portugal teria grandes dificuldades em manter suas colônias, e 
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Administração colonial: 
tensão entre portugueses e brasileiros2
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência32
também seu território europeu, sem o auxílio militar inglês. Leslie Bethell firma que a Coroa 
britânica era “o avalista da independência de Portugal e da integridade territorial do impé-
rio português” (BETHELL, 2001, p. 187).
À época, as ações do Marquês de Pombal foram marcadas pelo liberalismo e pelo con-
servadorismo, numa tentativa de resolver as questões próprias da Coroa portuguesa. Seu 
sucessor, Martinho de Melo e Castro (ministro de 1770 a 1795) também trabalhou com essa 
perspectiva, e o mesmo se pode dizer de Rodrigo de Souza Coutinho, futuro Conde de 
Linhares (ministro de 1796 a 1801).
As tentativas de modernizar a economia em Portugal, com a criação e o apoio à manufa-
tura, a modernização da agricultura e da educação, a melhoria do comércio com as colônias 
para reverter deficits comerciais e equilibrar os gastos do governo envolvido em conflitos 
territoriais, são até hoje alvo de discussão na historiografia lusa, em relação a sua eficácia 
ou não.
Outro fator que gerou uma melhoria na economia colonial foi de ordem geopolítica, 
resultado da neutralidade de Portugal no período das Guerras Napoleônicas, o qual não 
sofreu bloqueios navais, como os que a Espanha enfrentou. Sendo assim, o comércio da me-
trópole lusitana transcorreu sem muitos percalços e em vantagem em relação aos produtos 
coloniais espanhóis.
Quando voltamos nosso olhar para o Brasil, vemos as ações da Coroa com o intuito de 
aumentar o controle, por meio de ações administrativas mais severas e centralizadas, como 
a mudança da capital de Salvador para o Rio de Janeiro, em 1763, e a reintegração do Estado 
do Grão-Pará e Maranhão à administração do Vice-Reino do Brasil, em 1774. Mesmo pos-
suindo um vice-rei na colônia, os governadores de província, principalmente os do Norte, 
respondiam diretamente a Lisboa, numa política claramente centralizadora.
No campo comercial, o Brasil desfrutava de relativa liberdade, que ficou mais acentua-
da com a abolição do sistema de frotas, em 1766 – o qual previa as datas de saída dos barcos 
comerciais rumo à Lisboa –, e com o término das atividades das Companhias de Comércio 
do Grão-Pará e Maranhão, em 1778, e de Pernambuco e Paraíba, em 1779.
No que concerne à produção, foi incentivada a agricultura de exportação, mas proibi-
das as atividades manufatureiras, em especial as tecelagens, para que as exportações lusi-
tanas tivessem mercado assegurado. Apesar dos esforços e controle, a produção das minas 
entrou em irremediável decadência após 1750, fato que foi aos poucos sendo admitido, mas 
que não impedia a Coroa de tentar cobrar o imposto atrasado. Por outro lado, no litoral, a 
produção para exportação estava vivendo uma melhoria.
O cultivo de açúcar, que havia enfrentado uma crise após a expulsão dos holandeses do 
Brasil no século XVII, mas que nunca havia deixado de ser lucrativo e exportado em grandes 
quantidades, passa a contar com um cenário externo mais favorável e com uma recuperação 
Administração colonial: 
tensão entre portugueses e brasileiros
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência
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nos preços. Várias colônias francesas enfrentavam problemas em sua produção, devido aos 
reflexos da Revolução Francesa.
O algodão, que era plantado sobretudo no Norte, também foi cultivado no Nordeste e 
no Rio de Janeiro, tornando-se a segunda maior cultura de exportação. Não podemos esque-
cer que o fumo plantado na Bahia era exportado, principalmente para comércio escravista 
na África. Além desses, outros produtos agrícolas de exportação podem ser mencionados, 
como o cacau, no Pará, o arroz, no Maranhão, o trigo, no Rio Grande do Sul, e o “apareci-
mento” do café no Rio de Janeiro, que exportou quantidades significativas já na década de 
1790 (BETHELL, 2001, p. 191).
Esse crescimento das exportações brasileiras refletiu positivamente nas reexportações 
portuguesas, e Lisboa novamente passou a se mostrar como um porto dinâmico no fim 
do século XVIII. No período entre 1791 a 1807, o comércio português registrou seguidos 
superavits (BETHELL, 2001, p. 191); nesse contexto, o açúcar e o algodão brasileiros eram 
responsáveis por 80% dos produtos exportados pelas colônias portuguesas e por 60% das 
reexportações de Portugal (BETHELL, 2001, p. 191 e 192).
Figura 3 – BATES, Richard. Largo do Paço. 1808. 1 gravura, color. Biblioteca do Congresso, 
Washington.
O Paço 
Imperial, 
construído no 
século XVIII, 
servia como 
residência dos 
governadores e, 
posteriormente, 
dos vice-reis e 
do Imperador 
D. João VI.
Desse modo, podemos observar que a metrópole se tornava dependente de sua princi-
pal colônia, no que afirmamos ser a “inversão colonial”. Em termos populacionais, o Brasil 
possuía (excluindo-se os indígenas não administrados) cerca de dois milhões de habitantes, 
mas esse número, devido à dispersão da população e às dificuldades de registro, pode ser 
bem maior. Sendo assim, pelo potencial econômico, demográfico e territorial de sua colônia, 
Portugal passava a ser eclipsado por ela, e já se falava em rever essa relação, com a transfor-
mação do Brasil em Reino Unido e uma possível transferência da corte para o Rio de Janeiro. 
Pois, como afirmou Robert Southey, “Um galho tão pesado, não pode ficar preso por tanto 
tempo a um tronco podre” (In: BETHELL, 2001, p. 192).
Administração colonial: 
tensão entre portugueses e brasileiros2
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência34
 Ampliando seus conhecimentos
A costa dos escravos
(ALBUQUERQUE; BRAGA FILHO, 2006)
Antes de os portugueses começarem a comercializar no Golfo do Benim 
não havia grandes reinos africanos em regiões florestais. A exuberante flo-
resta tropical dificultava a penetração comercial nessas terras. O reino do 
Benim foi uma exceção. Nos últimos anos do século XV, uma expedição 
portuguesa foi à capital do reino e lá se deparou com uma grande cidade 
com ruas largas e compridas e muitas casas. Mas, não há dúvidas de que 
a expansão desse reino foi acelerada com a sua incorporação ao comércio 
negreiro nos séculos XVI e XVII.
No Benim o controle comercial era do rei que comprava e vendia sal, peixe 
seco, noz de cola, couros, tecidos e cobre. Cientes de que o monopólio 
sobre o comércio garantia ao rei do Benim uma considerável força polí-
tica, os portugueses tentaram convertê-lo ao catolicismo. Era uma forma 
de aproximar aquele reino africano do lusitano. Mas, ao rei do Benim não 
interessava ter compromissos exclusivamente com Portugal, já que outros 
europeus também cobiçavam integrar-se ao esquema comercial do lugar. 
Franceses, ingleses e holandeses também lhes propuseram acordos mer-
cantis. A atitude do rei do Benim deixa claro que os termos desses acordos 
comerciais não dependiam apenas da habilidade dos europeus, também 
estavam a mercê dos interesses dos diferentes povos africanos.
Por isso, não se pode entender a prosperidade do tráfico de escravossem 
levar em consideração a combinação de interesses entre europeus e africa-
nos. É bem verdade que as nações europeias tentaram manter o controle 
sobre as regiões produtoras de escravos, mas o tráfico africano era um 
negócio complexo e envolvia a participação e cooperação de uma cadeia 
extensa de participantes especializados, que incluía chefes políticos, gran-
des e pequenos comerciantes africanos. Há estimativas de que 75 por 
cento das pessoas vendidas nas Américas foram vítimas de guerras entre 
povos africanos.
A avidez por escravos reorganizou de tal maneira o mapa político afri-
cano que alguns reinos experimentaram o apogeu nos séculos XVII e 
XVIII graças ao tráfico negreiro. Foi o caso dos reinos de Daomé, Sadra, 
Achanti e Oió. Até o século XVI, Oió era apenas uma cidade-estado ioru-
bana que tinha na agricultura e na tecelagem as suas principais atividades. 
Administração colonial: 
tensão entre portugueses e brasileiros
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência
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35
Dedicava-se especialmente à fabricação de tecidos, os famosos panos-da-
-costa que viriam a ser tão apreciados pelos negros na Bahia. Mas as ativi-
dades agrícolas e artesanais perderam importância diante do tráfico. No 
final do século XVI, as cidades iorubanas participavam tão ativamente 
desse comércio que a região do golfo de Benim passou a ser conhecida 
como Costa dos Escravos.
Formou-se ali um mercado bastante competitivo. Entre os vendedores de 
escravos, principalmente os iorubás e daomeanos competiam pelas mer-
cadorias europeias. Entre os compradores, a concorrência não era menos 
acirrada. Nos portos da Costa dos Escravos, ingleses, holandeses, france-
ses, portugueses e brasileiros abarrotavam os navios de gente destinada 
a ser “exportada” para as Américas. De fato, nenhuma grande nação 
europeia ficou fora deste que era o negócio internacional mais rentável 
da época. Os africanos escravizados, moradores de pequenas aldeias cada 
vez mais distantes do litoral, eram vítimas de assaltos e guerras.
Presas pelo pescoço umas às outras, essas pessoas eram levadas para os 
mercados onde aguardavam os compradores, às vezes por meses. Eram 
então trocadas, no século XVIII, principalmente pelo fumo de rolo produ-
zido na Bahia, produto muito procurado naquela região e que garantia 
a primazia dos brasileiros. Mas o sucesso comercial não impediu que o 
reino iorubá corresse risco. Com a expansão do reino vizinho, o Daomé, 
vários territórios subordinados a Oió passaram a ser saqueados e a ter os 
seus habitantes escravizados. Desse modo, de implacáveis caçadores de 
escravos, os iorubás foram transformados eles mesmos em cativos, princi-
palmente a partir do final do século XVIII.
O reino do Daomé foi fortemente centralizado e se desenvolveu a par-
tir de 1700 com o próprio tráfico atlântico. Como era imprescindível a 
um reino tão intimamente dependente do comércio de escravos, ali se 
concentrava um poderoso exército armado de mosquetes, encarregado 
de ampliar as fronteiras e capturar escravos, inclusive, no final do século 
XVIII, entre as populações sob o domínio do reino de Oió. O tráfico era 
tão fundamental para o reino de Daomé que em 1750, 1795 e 1805 foram 
enviados embaixadores daomeanos à Bahia com a incumbência de firmar 
acordos de monopólio comercial para o envio de cativos. Como veremos 
no próximo capítulo, os negócios entre as elites do Daomé e os proprie-
tários baianos garantiram a regularidade do tráfico de escravos para o 
Brasil. Nesta mesma época, os portugueses já negociavam com os povos 
da África centro–ocidental, e com eles estabeleceram vínculos políticos e 
religiosos mais estreitos e negócios bem lucrativos [...].
Administração colonial: 
tensão entre portugueses e brasileiros2
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência36
 Atividades
1. Estudamos neste capítulo aspectos da relação entre Inglaterra e Portugal. Aponta-
mos que essa relação quase sempre pendia favoravelmente para os interesses britâ-
nicos, mesmo num período de protecionismo como o pombalino. Identifique uma 
razão comercial e uma razão militar para que Portugal não conseguisse superar a 
dependência que tinha da Inglaterra.
2. Explique a tese de Caio Prado Júnior apresentada como “o sentido da colonização” 
e as possíveis críticas que podemos fazer a ela.
3. Com base no texto A costa dos escravos, de Albuquerque Braga Filho, podemos afir-
mar que os europeus controlavam o comércio de escravos e outras mercadorias na 
costa atlântica? Justifique a sua resposta.
 Referências
ALBUQUERQUE, W. R. de; FRAGA FILHO, W. Uma história do negro no Brasil. Salvador: Centro de 
Estudos Afro-Orientais; Brasília: Fundação Cultural Palmares, 2006. Disponível em: <http://acbantu.
org.br/img/Pdfs/livro03.pdf>. Acesso em: 2 jan. 2017.
BETHELL, L. A independência do Brasil. In: BETHELL, L. (Org.) História da América Latina: da inde-
pendência até 1870. São Paulo: Edusp, 2001.
CARDOSO, C. F. A crise do colonialismo luso na Amércia portuguesa. In: LINHARES, M. Y. (Org.). 
História geral do Brasil. Rio de Janeiro: Campus, 1990.
COSTA E SILVA, A. da. O Brasil, a África e o Atlântico no século XIX. Revista de Estudos Avançados. São 
Paulo, v. 8, n. 21, p. 21-42, 1994. Disponível em: <http://dx.doi.org/10.1590/S0103-40141994000200003>. 
Acesso em> 2 jan. 2017.
FALCON, F. J. C. O império luso-brasileiro e a questão da dependência inglesa – um estudo de caso: a 
política mercantilista durante a Época Pombalina, e a sombra do Tratado de Methuen. Revista Nova 
Economia, Belo Horizonte, v. 15, n. 2, maio/ago., p. 11-34, 2005. Disponível em: <http://revistas.face.
ufmg.br/index.php/novaeconomia/article/viewFile/449/446>. Acesso em: 28 dez. 2016.
PRADO JÚNIOR, C. Formação do Brasil contemporâneo. São Paulo: Brasiliense, 1996.
TEIXEIRA, F., M. P.; TOTONI, M. E. História econômica e administrativa do Brasil. São Paulo: Ática, 
1989.
 Resolução
1. Uma razão comercial foi o Tratado de Methuen, que proporcionava aos ingleses co-
mercializarem seus tecidos diretamente em Portugal. Além disso, devido às altera-
ções sociais e econômicas vivenciadas na Inglaterra após a Revolução Gloriosa, a 
industrialização estava num estado bem mais avançado em Portugal, e, como conse-
quência, os preços dos tecidos ingleses eram mais baixos do que conseguiam atingir 
as manufaturas lusitanas.
Administração colonial: 
tensão entre portugueses e brasileiros
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência
2
37
 A razão militar é que Portugal necessitava da Inglaterra como aliada, pois o reino 
peninsular não conseguia manter todos os seus interesses e territórios. A simples 
demonstração dessa aliança evitou uma série de conflitos bélicos para Portugal, que 
lhe custariam territórios e recursos.
2. Caio Prado Júnior nos apresenta a tese de que o Brasil é um capítulo da História 
do mercantilismo dos séculos XVI e XVII, e, sendo assim, nossa colonização se deu 
como planejamento do mercantilismo português, isto é: com o objetivo de fornecer 
produtos tropicais e consumir produtos metropolitanos.
 Podemos criticar Caio Prado por não dar a devida importância aos circuitos internos 
de produção, circulação e acumulação, nem ao comércio direto que comerciantes 
luso-brasileiros realizavam principalmente com os portos africanos.
3. Não. No texto fica clara a presença das lideranças africanas nesse processo. A África 
nunca foi um continente desprovido de cultura e os reinos africanos, durante a Idade 
Moderna, dialogaram com as Coroas europeias nas relações comerciais, religiosas e 
militares. Não podemos pensar nos africanos inertes frente a essas atividades: vários 
reinos ou grupos armados se fortaleceram nesse comércio, mas com consequências 
desastrosas para a sociedade e para a economia das populações africanas.
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência 39
3
Revoltas coloniais: 
contextos e propostas
O espírito de rebelião é quase uma segunda natureza dasgentes de Minas. A própria paisa-
gem parece incitar ao motim [...] Posto que das Minas e seus moradores, bastava dizer [...] 
que é habitada de gente intratável, sem domicílio, e ainda que está em contínuo movimento, 
é menos inconstante que os seus costumes: os dias nunca amanhecem serenos; o ar é um nu-
blado perpétuo; tudo é frio naquele país, menos o vício, que está ardendo sempre. Eu, contu-
do, reparando com mais atenção na antiga e continuada sucessão de perturbações que nelas 
veem, acrescentarei que a terra parece que evapora tumultos; a água exala motins; o ouro toca 
desaforos; destilam liberdades os ares; vomitam insolências as nuvens; influem desordens os 
astros, o clima é tumba da paz e berço da rebelião; a natureza anda inquieta consigo, e amoti-
nada lá por dentro, é como no inferno. (VARGAS, 2005, p. 62-63)
Que população será essa? Que impressões horríveis foram traçadas no discurso 
de Pedro Miguel de Almeida Portugal e Vasconcelos, o Conde de Assumar, em 4 de 
setembro de 1717, no discurso de sua posse como Governador da Capitania de São 
Paulo e Minas do Ouro (VARGAS, 2005, p. 62).
Neste capítulo estudaremos as tensões existentes na colônia, que poderiam ser 
internas ou externas: tensões entre senhores e escravos, entre as elites locais e entre as 
elites locais e o poder metropolitano. Analisaremos as razões que provocaram diferen-
tes revoltas na América portuguesa, além de compreender a diferença entre revoltas 
nativistas e revoltas separatistas.
Walfrido S. de Oliveira Jr.
Revoltas coloniais: contextos e propostas3
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência40
3.1 Tensões internas: senhores e escravos
Embora não seja o ponto principal a ser abordado neste livro, não 
poderíamos deixar de analisar as relações entre senhores e escravos, pois 
estas marcaram profundamente toda a sociedade colonial e a sociedade 
pós-emancipação.
Em termos quantitativos, novos dados foram apresentados quanto ao 
tráfico de escravizados entre África e América, dando destaque ao tráfico com o Brasil. Ao 
longo dos quase quatro séculos da escravidão, cerca de 5.848.265 africanos foram transpor-
tados por navios luso-brasileiros, como podemos observar na tabela a seguir.
Tabela 1 – Estimativa de africanos escravizados.
País 
Período
Espanha Brasil
Grã-
Bretanha
Estados 
Unidos
França
1501-
1600 119.962 154.191 1.922 0 66
1601-
1700 146.270 1.011.192 428.262 4.151 38.435
1701-
1800 10.654 2.213.003 2.545.297 189.304 1.139.013
1801-
1900 784.639 2.469.879 283.959 111.871 203.890
Total 1.061.525 5.848.265 3.259.440 305.326 1.381.404
Fonte: VOYAGES, 2017.
As relações entre senhores e escravizados não podem ser tratadas por somente um ân-
gulo, por uma visão única; ao longo desses séculos, muitas nuances puderam ser apresen-
tadas, muitas especificidades foram ressaltadas. Mas uma condição não mudava: a base do 
sistema escravocrata era a violência, e sem esta ameaça constante tal sistema não se estabe-
lecia. Vamos abordar essa violência e, para além dela, as estratégias diárias de acomodação 
e negociação.
Nesse sentido, usamos o termo tensão, como exemplo de uma relação posta em xeque, 
tensionada por situações que não são facilmente aceitas pelos “de baixo”, pelos escraviza-
dos, os quais não conseguem superar coletivamente essa condição de escravidão e sofrem 
as consequências de seus atos de resistência. A chibata deixou suas marcas nas costas de 
milhares de negros, e nas mentes de outros milhões1.
1 As relações étnico-raciais são marcadas no Brasil pelo estigma da escravidão. Nesses séculos de 
exclusão a população negra brasileira foi lançada à margem da sociedade, além disso foram várias as 
tentativas para que introjetassem uma condição de inferioridade, para que os afrodescendentes não 
almejassem participar como cidadãos ativos da sociedade. Mas essas tentativas foram sempre, e conti-
nuam sendo, rechaçadas pelos movimentos que lutam pelos direitos dos descendentes daqueles seres 
humanos que foram escravizados.
Vídeo
Revoltas coloniais: contextos e propostas
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência
3
41
Segundo o discurso dominante na época da escravidão, os castigos deveriam “ser jus-
tos”, pois o escravizado teria cometido algum delito (na concepção dominante dessa socie-
dade) e, por tal, precisava ser punido, assim como um pai educa seu filho. Esse castigo tam-
bém deveria ser “moderado”, pois não se punia o escravizado de qualquer maneira: quando 
exercido por um senhor, o castigo deveria ser realizado num tronco e com o uso da chibata, e 
a quantidade de chibatadas precisaria ser compatível com a falta cometida. Nessa sociedade 
havia recomendações sobre essa reciprocidade entre crime e castigo, as quais eram publica-
das em manuais de administração para os senhores. Também havia a questão de se mostrar 
a todos os escravizados de um senhor as razões que levaram à punição daquele indivíduo, 
para que os outros não repetissem tal delito, e, caso o fizessem, receberiam o mesmo castigo 
– este era o aspecto “pedagógico” da punição. Ressaltamos aqui que a utilização dos termos 
justo, moderado e pedagógico são construções da historiografia, mas que se remetem à for-
mulação ideológica dominante no período da escravidão, como um discurso para legitimar 
suas práticas e ser entendido por todos2.
Determinados autores já destacaram a escravidão como um ganho para o escraviza-
do3, pois as condições africanas seriam piores que o cativeiro brasileiro, já se afirmou que 
a escravidão era “doce”4, tal o açúcar produzido pelas mãos dos cativos, ou que o escravo 
assimilava uma condição de objeto de seu senhor, que ele era uma “coisa”5.
No século XXI, foram consolidadas algumas visões sobre a escravidão, as quais buscam 
estabelecer os vínculos entre senhores e escravos, abordando vários aspectos dessa imbri-
cada relação.
As tensões e a violência, como já afirmamos, estão na base da relação entre esses dois 
grupos, visto que senhores e escravos possuem interesses diametralmente diferentes. Mas, 
no cotidiano, esse vínculo pode desenvolver diversos contornos, pois as relações sociais não 
são baseadas na revolta constante, e a construção de parâmetros de convivência seria uma 
saída para a anomia6.
Ao falarmos em negociação entre senhores e escravos, estamos tratando da tentativa 
de se estabelecer parâmetros de convivência, embora saibamos que, na escravidão, todos 
os parâmetros são muito limitados para os escravizados. Negociar um momento de lazer, 
um batuque, uma folga religiosa, um tempo livre para se fazer uma horta, uma autorização 
para poder vender os produtos desta, a autorização para se casar e constituir uma família, 
2 Nesse sentido, recomendamos a leitura da obra de Silvia Lara, Campos da violência. Rio de Janeiro: 
Paz e Terra, 1988.
3 Citamos a obra de José Joaquim de Azeredo Coutinho, Análise sobre a justiça do comércio do resgate dos 
escravos da costa da África, de 1808. Disponível em: <http://200.144.255.123/Imagens/Biblioteca/L/Media/
L373.pdf>. Acesso em: 4 abr. 2017.
4 Nesse caso, citamos a obra de Gilberto Freyre em 1933, Casa grande e senzala: formação da família brasi-
leira sob o regime da economia patriarcal. São Paulo: Global.
5 Mencionamos a obra de Fernando Henrique Cardoso, Capitalismo e escravidão no Brasil meridional. Rio 
de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
6 Nesse caso o termo anomia refere-se à negação de um setor da sociedade em seguir as normas sociais. 
Os escravizados, embora não concordassem com o regime da escravidão, não conseguiam viver em 
um estado de constante revolta e, assim, procuravam criar espaços e normas de convivência com seus 
senhores e com o restante do corpo social.
Revoltas coloniais: contextos e propostas3
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência42
a divisão dos lucros de um escravo de ganho com seu senhor, a posse de bens pessoais etc. 
são exemplos dessas relações de negociação.
As profissões exercidas por esses escravizados tambémeram variadas e, no meio ur-
bano, perpassavam quase todas as atividades corriqueiras, alcançando, em raras ocasiões, 
algumas funções nas quais o domínio da escrita era indispensável. Na figura 1, a pintura de 
Jean-Baptiste Debret nos informa sobre aspectos dessa variedade de atividades desenvolvi-
das por escravos urbanos.
Figura 1 – DEBRET, Jean-Baptiste. Coleta de esmolas para irmandades. c. 1820. 1 aquarela sobre papel, 
color.: 18,7 x 24,2 cm. Museu Castro Maya, Rio de Janeiro.
Nessa representa-
ção de Debret, um 
negro contribui 
com dinheiro a 
um padre (e uma 
mão, da janela da 
casa, também), 
enquanto escravos 
exercem profissões 
remuneradas para 
rendimento de seus 
senhores: um acen-
dedor de lampião 
e um entregador 
de água.
Essas negociações foram percebidas, pela historiografia, de dois modos. Como tentativa 
dos senhores de exercer um controle mais pacífico dos escravos, para manter a produção 
sempre em bom ritmo e exigir a contrapartida do trabalho, ou como um exemplo da resis-
tência dos escravizados, ao exigirem um reconhecimento de sua humanidade e negarem o 
discurso jurídico da coisificação.
Fato é que a tensão permeava toda a sociedade escravocrata, pois em várias regiões o 
número de escravizados era superior ao de homens livres. A parcela livre e branca dessa 
sociedade se organizava para combater as possíveis revoltas. Efetivamente, uma revolta es-
crava de grandes proporções nunca ocorreu, já movimentos mais regionalizados levaram ao 
surgimento de quilombos (o termo poderia ser mocambos, segundo alguns autores7), símbolo 
maior da resistência, mas que, ao se constituírem nas terras da própria colônia, mostravam 
os limites dessas revoltas.
Ao analisarmos a situação dos escravizados na sociedade colonial, percebemos uma 
unidade de interesses entre os plantadores, mineradores, comerciantes e homens livre em 
7 Como podemos verificar em notícia da Agência Fapesp, História de Palmares ganha nova cronologia com 
análise de fontes originais, disponível em: <http://agencia.fapesp.br/historia_de_palmares_ganha_nova_
cronologia_com_analise_de_fontes_originais/17644/>. Acesso em: 10 fev. 2017.
Revoltas coloniais: contextos e propostas
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência
3
43
geral, que desfrutavam das rendas produzidas pela mão de obra escravizada, e as autori-
dades portuguesas daquém e dalém mar. Todos atuavam juntos para manter essa forma de 
trabalho, usufruindo da exploração do trabalho desses homens e mulheres destituídos de 
sua condição de livres, para quem construíram um discurso de retirada de sua condição de 
humanidade, instituindo a sua condição de coisa, de não humano, discurso esse que esses 
mesmos homens e mulheres escravizados negaram assimilar como exemplo de suas pró-
prias vidas.
A escravidão era a tensão mais forte e mais presente em toda a sociedade colonial, mas 
não foi ela que levou à ruptura da condição de colônia. Vejamos outras possibilidades.
3.2 Diferenças de interesses entre a metrópole 
e as elites locais
Durante o período colonial o Brasil foi dominado, externamente, pela portugue-
sa; internamente, por uma burguesia mercantil e patriarcal que teve seu momen-
to de glória em meados do século XVII, com o ciclo do açúcar em Pernambuco e 
na Bahia. O simples fato de que o auge colonial ocorreu mais de 150 anos antes 
do final do domínio português, nos dá ideia do fracasso das elites coloniais e 
locais em promover o desenvolvimento do país. (PEREIRA, 2000, p. 236-237)
Essa afirmação de Pereira nos dá uma ideia da dificuldade que foi a formação de uma 
elite colonial, com um projeto próprio de desenvolvimento, pois, em grande medida, as 
ações da elite se davam dos portos para fora da colônia, muitas vezes numa relação de 
dependência.
A organização administrativa da colônia obedecia à lógica da portuguesa em preservar 
seus interesses. Além da indicação do governador geral, também se elaboraram estratégias 
que pudessem garantir influência nas esferas locais de poder. Na administração das vilas 
e cidades, foram instituídas as câmaras municipais, que deveriam tanto tratar dos temas 
locais quanto representar os interesses da Coroa. As elites locais exerciam o poder político 
nessas câmaras, e, para participar delas, na colônia foi adotada a definição peninsular “dos 
homens bons”. Como não havia naquele período a atual ideia de democracia, existia clara-
mente a necessidade de se estabelecer quem poderia participar delas e quem não poderia 
exercer esses cargos. Em Portugal, esse problema era solucionado pela existência de uma 
nobreza, que monopolizava quase todos os cargos, mas, na colônia, com a inexistência dessa 
classe, deveriam ser estabelecidos critérios de participação e exclusão.
Assim, o critério principal foi a denominação de “homem bom”, que seria o indivíduo 
maior de 25 anos, casado, católico, contra o qual não pesassem denúncias de impureza de 
sangue e, é claro, que fosse proprietário de terras. No entanto, esses critérios eram elásticos 
na colônia, pois, devido à falta de uma elite de berço, reconhecida pela tradição familiar, a 
Coroa deveria se apoiar nos poderes locais. A condição de cristão novo, ou, posteriormente, 
de mulato, nem sempre era um impeditivo para se chegar à câmara.
Vídeo
Revoltas coloniais: contextos e propostas3
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência44
Outra situação que podemos afirmar é a relativa autonomia de que gozavam essas câ-
maras, ou por serem importantes economicamente, ou por representarem comunidades 
muito isoladas. As câmaras deviam arrecadar os impostos destinados à Coroa e arcar com 
diversas despesas locais, mas, por outro lado, criavam impostos sem a autorização do reino, 
numa demonstração de certa autonomia.
Para tentar controlar essa autonomia local, a Coroa indicava o juiz de fora, que tinha 
como função verificar o cumprimento das medidas reais e inibir as iniciativas locais. Esse 
funcionário deveria manter isenção em relação às disputas locais, no sentido de promover 
uma justiça com imparcialidade, mas as suas ações pendiam mais para os interesses da 
Coroa do que para os locais.
As relações entre o poder local e a Coroa ficariam ainda mais tensas, chegando ao con-
flito aberto. Uma dessas revoltas ocorreu no Maranhão, onde funcionava a Companhia do 
Comércio do Maranhão (1682), que monopolizava o fornecimento de escravos africanos e 
outros produtos importados e deveria levar para Portugal produtos da região. Os produ-
tores locais reclamavam muito dos preços praticados pela Companhia, e outro motivo de 
queixa era a ação dos jesuítas na região, os quais, ao aldearem os indígenas, coibiam a sua 
escravização.
Percebemos, assim, uma elite local contrariada em seus interesses, a qual se organiza 
para tentar modificar a situação. Em 1684, cerca de 80 homens, sob o comando dos irmãos 
Manuel e Tomás Beckman, invadiram os armazéns da Companhia de Comércio. Entre as 
reivindicações do grupo, destacam-se: a deposição do Capitão-mor e do Governador; a abo-
lição do monopólio; a extinção da Companhia; e a expulsão dos jesuítas. Notamos que as 
reivindicações não são pela autonomia da região, ou seja, o domínio português não foi posto 
em questão. Mas esses leais súditos da Coroa não tiveram o perdão do rei. Em 2 de novem-
bro de 1685, Manuel Beckman e Jorge Sampaio foram enforcados.
Outra revolta foi a Guerra dos Mascates (1810), que envolveu outra situação de tensão, 
a existente entre os senhores de engenho e os comerciantes. Na sociedade colonial, o senhor 
de engenho era uma figura respeitada, um senhor de terras e de homens, bem ao estilo 
da sociedade senhorial e nobiliária portuguesa. Quase ao estilo medieval, esses senhores 
possuíam mais poder do que dinheiro; toda a sua produção de açúcar era comprada já nos 
portos de Recife, Salvador e Rio de Janeiro por comerciantes – estes sim, detendo o capital, 
ligavam o comércio escravista colonial aos circuitos do mercantilismo europeu.
Os comerciantescostumavam adiantar o dinheiro da compra da safra de cana para os 
donos de engenho, fazendo com que esses senhores contraíssem dívidas e mantivessem 
uma relação de dependência com eles.
No caso da Bahia, na cidade de Olinda, que era a sede da Capitania, viviam os senhores, 
e na cidade do Recife moravam os comerciantes. Mas estes últimos conseguiram da Coroa a 
Carta Régia para a transformação de Recife em vila, e assim ter sua câmara e seu pelourinho. 
Esse foi o estopim do conflito da Guerra dos Mascates, que possui raízes mais profundas na 
decadência do preço do açúcar e na dependência econômica do fazendeiro em relação ao 
comerciante. A Coroa, embora respeitasse os donos de engenho, tinha muito mais interesse 
Revoltas coloniais: contextos e propostas
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência
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45
nas relações com os comerciantes, já que o dinheiro dos impostos sobre o comércio susten-
tava o erário luso.
Figura 2 – POST, Frans. Paisagem com plantação c. 1660. 1 óleo sobre tela, color.: 71,5 x 91,5 cm. 
Museu Boijmans Van Beuningen, Rotterdam.
Após pegarem em armas e proferirem ataques e contra-ataques, as contendas foram 
interrompidas com a chegada de tropas portuguesas sediadas na Bahia. Os fazendeiros 
tiveram de aceitar a elevação de Recife à condição de vila, o que fortaleceu o poder dos 
comerciantes.
Observamos que essa sedição também não teve caráter separatista, mas queria resolver 
as tensões dentro do sistema colonial. Além disso, podemos notar que havia a predominân-
cia social do senhor de engenho na estrutura interna daquela sociedade, mas o poder econô-
mico dos comerciantes (depreciados pelos fazendeiros com a alcunha de mascates) estava se 
intensificando e impondo sua agenda política.
No que diz respeito às possibilidades de relação entre o poder central e as lideranças 
coloniais, é fato que a Coroa portuguesa necessitava das elites locais para o exercício da 
administração, mas não podia admitir uma plena autonomia delas. Por seu lado, essas elites 
desejavam exercer mais plenamente o poder, mas não conseguiam viver sem a presença 
da Coroa, devido ao isolamento da colônia, ainda pouco povoada e distante dos principais 
centros do comércio.
Ao fim do século XVIII, porém, essa conjuntura estava se alterando. Já havia um de-
senvolvimento na colônia, com circuitos internos de comércio e crescimento populacional. 
Também os ideais iluministas circulavam nos modestos salões locais, atraindo jovens, geral-
mente ricos, que haviam estudado em Coimbra e conheciam o ambiente cultural europeu.
Revoltas coloniais: contextos e propostas3
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência46
Dos questionamentos dos poderes locais, passou-se ao questionamento da dominação 
colonial. Mas esses movimentos não foram homogêneos, pois não defendiam o mesmo pro-
jeto para a sociedade. Vamos analisar melhor esse quadro.
3.3 Revoltas separatistas
Ao analisar a conjuntura do fim do século XVIII, podemos perceber várias 
transformações, tanto no cenário internacional quanto no cenário colonial. A 
colônia se desenvolvera em vários aspectos, entre eles o demográfico, afetando 
cidades como Salvador e Rio de Janeiro, que já ultrapassavam os 50 mil habi-
tantes, dentre os quais 50% eram negros, vários deles forros ou livres.
Em geral, nesses ambientes urbanos circulavam os livros proibidos franceses e ingleses 
no original e com algumas traduções. As ideias iluministas eram debatidas em salões clan-
destinos. A palavra liberdade circulava, tanto como crítica à tirania política do rei quanto em 
relação às práticas liberais de comércio8.
Nas cidades, a tensão entre o poder central e o poder local se acentuava: os “homens 
bons” desejavam uma maior autonomia, enquanto os representantes metropolitanos que-
riam manter os interesses da Coroa. A questão da cobrança de impostos era sempre motivo 
para divergências. Mas também havia uma tarefa em comum para os reinóis e homens bons: 
o controle sobre a disciplina dos escravizados e dos homens livres e pobres, que em número 
cresciam e se apropriavam das ideias liberais e iluministas que circulavam na colônia, tra-
duzindo para os seus interesses os conceitos de liberdade e igualdade.
O fim do século XVIII representou um período de certa prosperidade, mas esta não se 
refletia em todo o corpo social. Na Região das Minas (hoje Minas Gerais), a decadência da 
mineração era evidente, e a prosperidade se dava no setor da produção voltada para o abas-
tecimento interno e para a classe de comerciantes, que fazia circular tal produção e trazia os 
produtos europeus à colônia.
Na região litorânea, os senhores de engenho ganharam com a melhora nos preços inter-
nacionais do açúcar e ampliaram a produção. Também nessas localidades os comerciantes 
ampliaram seus lucros e vendas para o mercado externo e interno.
A população urbana enfrentou um período de aumento dos preços, pois as fazendas de 
cana ampliaram a área plantada e deixaram de lado os espaços da lavoura de subsistência, 
e mesmo a mão de obra escravizada tinha menos tempo livre para produzir suas hortas. 
Todo um mercado de produção local de alimentos foi afetado, e assim os produtos deveriam 
vir de mais longe e eram mais caros. Nesse contexto, abordaremos a seguir a Conjuração 
Mineira, de 1789, e a Revolta dos Alfaiates (também conhecida como Revolta dos Búzios), 
de 1798.
8 O sentido de liberal é o da defesa do livre comércio, em oposição ao mercantilismo, cuja característica 
era o controle das atividades comerciais pelos monarcas absolutistas.
Vídeo
Revoltas coloniais: contextos e propostas
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência
3
47
Na Região das Minas, para além da decadência da mineração, podemos destacar o im-
passe com relação à cobrança de impostos. A elite local controlava boa parte dos cargos des-
tinados a estabelecer o controle sobre essa cobrança, dividida entre os impostos de Entrada9 
e o Quinto10 do ouro. Em 1751, institui-se a Derrama, que visava cobrar a diferença entre 
o imposto do Quinto arrecadado e as 100 arrobas estipuladas, mas isso só foi exercido em 
1765.
Esses impostos afetavam diretamente a elite econômica local, tanto a que se dedicava 
à mineração quanto os donos das fazendas de criação e produção de alimentos. Aliás, um 
típico plutocrata mineiro estava ligado a todas essas frentes: era minerador, fazendeiro e 
contratante.
Um fator que desencadeou a insatisfação geral dessa elite, segundo Kenneth Maxwell,
[...] acima de tudo, foi a chegada do Governador e Visconde de Barbacena em 
1788 com instruções detalhadas de Martinho de Melo e Castro para implementar 
uma raiz e um ramo da reforma de todo o sistema tributário de Minas. Em julho 
de 1788, Barbacena convocou a Junta da Fazenda Mineira, transmitiu a reprimen-
da de Lisboa, insistiu na imposição da derrama e anulou todos os contratos. As 
palavras do novo governador caíram como uma bomba. O atraso com a Fazenda 
Real na quota de 100 arrobas anuais chegava ao montante de 538 arrobas11 de 
ouro, ou seja, três bilhões e meio de réis. As dívidas nos contratos de dízimos e 
entradas representavam dois bilhões e meio de réis. (MAXWELL, 1989, p. 16-17)
Essas medidas eram uma declaração de conflito contra esse poderoso grupo, que man-
tinha uma relativa autonomia administrativa na região, fazendo-os sangrar em bens e em 
poder. A reação não tardou; destacadamente em Vila Rica, um grupo reunira-se na casa de 
Claudio Manoel da Costa:
Entre os visitantes mais regulares do poeta, nos anos do decênio de 1780, conta-
va-se Tomás Antonio Gonzaga, também poeta e o ouvidor de Vila Rica. Tomás 
Antônio Gonzaga, nascido no Porto, cresceu no Brasil onde frequentou o Colégio 
dos Jesuítas da Bahia. Os dois eram o centro de um grupo que contava com o 
intendente de Vila Rica, Francisco Bandeira, o contratante João Rodrigues de 
Macedo, o ex-ouvidor de São João d’El Rei, Alvarenga Peixoto, e dois padres 
— Carlos Correia, vigário da rica paróquiade São José do Rio das Mortes, e o 
cônego Luis Vieira da Silva, da catedral de Mariana. (MAXWELL, 1989, p. 13)
Dessas reuniões, e de outras, um plano de sedição à Coroa foi formulado e, segundo 
Maxwell (1989), ocorreu da seguinte forma:
9 O Imposto de Direito de Entrada servia como tributo alfandegário nas rotas que ligavam as minas 
aos portos do Rio de Janeiro e Salvador. O direito de cobrar esse imposto e instalar uma alfândega foi 
leiloado pela Coroa; em troca, o contratante deveria dar uma quota por ano ou triênio.
10 Imposto comum sobre a cobrança de metais preciosos; a Coroa dava permissão para a mineração, 
mediante a cobrança da quinta parte do minério extraído.
11 Cerca de oito mil quilos.
Revoltas coloniais: contextos e propostas3
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência48
Os detalhes da proposta revolução mineira foram decididos no fim de 10 de 
dezembro de 1788: envolvidos na conspiração estiveram o tenente-coronel 
Francisco de Paula Freire de Andrade, comandante do regimento da cavalaria 
de Minas, os famosos Dragões, o dr. José Alvares Maciel, filho do capitão-mor 
de Vila Rica, o padre José da Silva de Oliveira Rolim, filho do principal admi-
nistrador do Distrito Diamantino, o alferes Joaquim José da Silva Xavier, Carlos 
Correia, vigário de São José, e o ex-ouvidor e coronel de milícias Alvarenga 
Peixoto. Os seis reuniram-se para formalizar os planos de um levante armado 
contra a Coroa portuguesa. Eram todos nascidos no Brasil e representavam di-
ferentes zonas da capitania. E todos eram agentes da revolução em andamento. 
(MAXWELL, 1989, p. 17)
Das propostas que ficaram registradas nos autos da devassa, podemos registrar: a cria-
ção de manufaturas e de uma fábrica de pólvora; a alforria aos escravos e mulatos nascidos 
no país; a fundação de uma universidade em Vila Rica; a separação entre Igreja e Estado; o 
estímulo ao crescimento populacional; a milícia de cidadãos, em vez de um exército perma-
nente; e um parlamento em cada cidade, subordinado a um parlamento principal da capital 
(MAXWELL, 1989, p. 21).
Esse movimento, no entanto, fracassou, devido à delação de Joaquim Silvério dos Reis, 
que, em troca do perdão de suas dívidas, divulgou aos representantes da Coroa os planos 
dos revoltosos. A Derrama estava marcada para fevereiro de 1789, mas foi suspensa, e as 
tropas leais à Coroa começaram a prender os suspeitos. Joaquim José da Silva Xavier, o 
Tiradentes, foi preso no Rio de Janeiro em 10 de maio de 1789.
Assim, percebemos que essa foi uma revolta contra o domínio português liderada pela 
elite econômica da região, que se viu aviltada com a dupla penalização da cobrança de im-
postos e a perda da influência política, resultante de uma evidente falta de habilidade das 
autoridades metropolitanas.
Outro movimento pela emancipação em relação a Portugal foi a Revolta dos Alfaiates, 
ou Revolta dos Búzios, na Bahia. Na cidade de Salvador, em 1798, num domingo de 12 de 
agosto, os moradores locais se depararam com panfletos, redigidos com erros gramaticais, 
mas que tinham mensagens claras contra a opressão da Coroa e citavam o exemplo francês:
[...] as naçoens do mundo todas tem seus olhos fixos na França, a liberdade he 
agradável para todos: he tempo pôvo, povo o tempo he xegado para vos defen-
dereis a vossa liberdade; o dia da nossa revolução da nossa liberdade e da nossa 
felicidade está para xegar, animai-vos que sereis feliz para sempre. (MATTOSO, 
1969, p. 149)
Para os interesses coloniais, a citação da França e seu exemplo não agradavam em nada 
os representantes da Coroa, e, para as elites locais, a citação da palavra escravidão também 
provocava calafrios. Esses panfletos ficaram conhecidos como os “boletins sediciosos” 
(TEIXEIRA, 2013, p. 3).
Revoltas coloniais: contextos e propostas
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência
3
49
Os sediciosos marcaram uma reunião, secreta, que contou, entre outros 50 participan-
tes, com a presença de três homens que delataram às autoridades os participantes, os líderes 
e as intenções. A partir das investigações, 48 suspeitos foram presos e processados.
Quatro deles foram condenados à morte por enforcamento e executados na Praça 
da Piedade, localizada bem no centro da Cidade do Salvador.
02 Soldados
- Lucas Dantas de Amorim Torres;
- Luís Gonzaga das Virgens.
02 Alfaiates
- Manuel Faustino Santos Lira (aprendiz);
- João de Deus do Nascimento (mestre). (TEIXEIRA, 2013, p. 8)
É importante notar que, entre os suspeitos,
analisando as condições dos 48 acusados frente às das testemunhas, verifica-se 
que prevalece o grande descompasso no que tange à situação civil e de cor, con-
siderando que aqueles que testemunharam formavam uma população quase to-
tal de brancos e livres, enquanto os acusados eram negros ou afrodescendentes. 
(TEIXEIRA, 2013, p. 13)
A execução dos condenados à morte se deu no dia 8 de novembro de 1899. Para finali-
zar, reproduzimos a seguir um trecho da sentença do juiz, indicando as razões para a conde-
nação e execução dos acusados, o que nos faz refletir sobre aspectos da atualidade brasileira.
E, pela dedução dos fatos descritos e suas convincentes provas, o que tudo visto, 
e mais dos autos, condenam os réus Luiz Gonzaga das Virgens, pardo, livre sol-
dado, solteiro, 36 anos; Lucas Dantas de Amorim Torres, pardo, liberto, solteiro, 
24 anos; João de Deus Nascimento, pardo, livre, casado, alfaiate, 27 anos; Manoel 
Faustino dos Santos Lira, pardo, forro, alfaiate, 22 anos [...] a que com baraço 
e pregão, pelas ruas desta cidade, sejam levados a Praça da Piedade, por ser 
também uma das mais públicas dela, onde, na forca, que, para este suplício se le-
vantará mais alta do que a ordinária, morram morte natural para sempre, depois 
do que lhes serão separadas as cabeças e os corpos, pelo levante projeto, pelos 
ditos réus, chefes, a fim de reduzirem o continente do Brasil a um Governo 
Democrático. (grifo nosso). (ANNAES... 1922/23)
Percebemos, por essa sentença recebida pelos condenados na época, que a ação de tor-
nar a colônia um país democrático foi considerada um crime. O profissional que trabalha 
com o ensino da História não pode perder de vista as lutas do povo brasileiro para a cons-
trução de uma nação democrática, baseada no Estado de Direito, e os esforços que cada 
geração deve fazer para sua manutenção.
Revoltas coloniais: contextos e propostas3
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência50
 Ampliando seus conhecimentos
Transcrição paleográfica
(MATTOSO, 1969, p. 149)
3º dos 10 Avisos, e/ou Boletins Sediciosos afixados, em vários locais da 
cidade do Salvador, no dia 12 de agosto de 1798 que originou o movi-
mento conhecido como Revolta dos Alfaiates/ Conjuração Baiana/ Revolta 
dos Búzios.
O vos Homens Cidadaons, ovos Povos curvados e abandonados pelo Rei, 
pelos seus despotismos pelos seus ministros [...]
O vos Povo que nascesteis para sereis livres e para gozareis dos bons efei-
tos da Liberdade, o vos Povos que viveis flagelados com o pleno poder do 
Indigno Coroado esse mesmo rei que vos creasteis; esse mesmo rei tirano 
he quem se firma no trono para vos veixar, para vos roubar e para vos 
maltratar.
Homens, o tempo he xegado para a vossa ressureição; sim para ressus-
sitareis do abismo da escravidão para levantareis a sagrada Bandeira da 
Liberdade.
A liberdade consiste no estado felis, no estado livre do abatimento: a 
Liberdade he a doçura da vida, o descanço do homem com igual paralelo 
de huns para outros, finalmente a liberdade he o repouso e bem aventu-
rança do mundo.
A França está cada vez mais exaltada, a Alemanha já lhe dobrou o juelho, 
Castela so aspira a sua aliança, Roma ja vive aneixa, o Pontifice já está 
abandonado, e desterrado; o rei da Prucia está prezo pelo seu próprio 
povo; as naçoens do mundo todas tem seus olhos fixos na França, a liber-
dade he agradável para todos: he tempo pôvo, povo o tempo he xegado 
para vos defendereis a vossa liberdade; o dia danossa revolução da nossa 
liberdade e da nossa felicidade está para xegar, animai-vos que sereis feliz 
para sempre.
 Atividades
1. Elabore um comentário sobre as tensões presentes na relação entre senhores e escra-
vos e as possibilidades de convivência possível entre ambos.
Revoltas coloniais: contextos e propostas
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência
3
51
2. Por que podemos afirmar que a Revolta dos Beckman e a Guerra dos Mascates foram 
movimentos nativistas, e não separatistas?
3. Diferencie, em relação a suas composições sociais e motivações, a Conjuração Minei-
ra da Revolta dos Búzios.
 Referências
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ANNAES da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro 1922/23. v. XLV. p. 306-307. In: ARAUJO, U. C. de. 
A política dos homens de cor no tempo da Independência. In: HERÓIS negros no Brasil: Bahia, 1798, 
a Revolta dos Búzios. Bahia, 2013. p. 34. Disponível em: <http://200.187.16.144:8080/jspui/bitstream/
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Disponível em: <http://dx.doi.org/10.1590/S0103-40141989000200002>. Acesso em: 9 jan. 2017.
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d=S0103-40142000000100012&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 10 jan. 2017.
TEIXEIRA, M. G. Revolta de Búzios ou conjuração baiana de 1798: uma chamada para a liberdade. 
Salvador, 2013. Disponível em: <http://www.educacao.salvador.ba.gov.br/documentos/revolta-dos-
-buzios.pdf>. Acesso em: 12 jan. 2017.
VARGAS, A. L. A pátria no altar: clero, religião e resistência: o caso da Inconfidência Mineira. 2005. 
146 f. Dissertação (Mestrado em Ciência da Religião) – Instituto de Ciências Humanas, Universidade 
Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora, 2005. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/pes-
quisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=23718>. Acesso em: 9 jan. 2017.
VOYAGES. Banco de dados do tráfico de escravos transatlântico: estimativas. Disponível em: <http://
www.slavevoyages.org/>. Acesso em: 24 mar. 2017.
 Resolução
1. As tensões entre os senhores e os escravos se evidenciam pelo caráter opressivo des-
sa relação. A base da escravidão é a violência, pois os escravizados têm por obri-
gação o trabalho e por motivação a ameaça constante da violência. Mas nenhuma 
relação tão extensa no tempo e no espaço pode sobreviver somente com a violência, 
as relações de convivência também se estabeleceram, com diferentes conformações e 
dinâmicas. Negociar um tempo livre para o trabalho em benefício próprio, ou para 
exercitar a sociabilidade da dança, da festa, seriam possibilidades conquistadas pe-
los escravizados ao longo dos séculos de escravidão.
Revoltas coloniais: contextos e propostas3
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência52
2. Porque ambos os movimentos não pretendiam a ruptura política com a Coroa, não 
questionavam a vassalagem com o rei de Portugal, apenas pretendiam resolver 
questões locais, que afligiam interesses de certas elites em determinadas regiões, 
inclusive apelando para a intervenção do rei.
3. A Conjuração Mineira teve como seus condutores pessoas ligadas à elite da Região 
das Minas, e as suas motivações estavam ligadas à cobrança de impostos e à perda 
de sua ação política.
 A Revolta dos Búzios foi liderada por pessoas que não faziam parte da elite local, 
homens livres e pobres que questionavam o poder colonial e se utilizavam de um 
discurso iluminista de liberdade, embora não o compreendessem tal como os france-
ses o formularam.
 Em relação à punição, percebemos que os negros e mulatos de Salvador sofreram 
punições mais severas (enforcamento de quatro revoltosos) do que os sediciosos mi-
neiros.
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência 53
4
Napoleão e a expansão 
do Iluminismo
Sobreviventes formais de uma era anterior, tais como o Sagrado Império Romano e a maioria 
das cidades-Estados e cidades-impérios, desapareceram. [...] as antigas repúblicas de Génova 
e Veneza desapareceram em 1797 e, ao final da guerra, as cidades alemãs livres tinham sido 
reduzidas a quatro. [...] Fora da Europa, é claro, as mudanças territoriais das guerras foram 
consequência da total anexação britânica das colónias de outros povos/assim como dos movi-
mentos de libertação colonial inspirados pela Revolução Francesa (p. ex. em São Domingos) 
ou que se tornaram possíveis ou impostos pela separação temporária das colónias de suas 
metrópoles (como na América espanhola e portuguesa). [...] o feudalismo foi formalmente 
abolido, os códigos legais franceses foram aplicados e assim por diante. [...]. Uma vez oficial-
mente abolido, o feudalismo não mais se restabeleceu em parte alguma. (HOBSBAWM, 1982, 
p. 107-108)
Neste capítulo, vamos abordar as alterações na conjuntura europeia a partir da 
Revolução Francesa, com ênfase no período Napoleônico, e os reflexos dessas nos 
movimentos emancipacionistas. Em particular, daremos destaque às emancipações da 
América espanhola.
Walfrido S. de Oliveira Jr.
Revoltas coloniais: contextos e propostas4
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência54
4.1 O papel de Napoleão na Revolução Francesa
Quando a Revolução Francesa teve início, em 1789, os olhos do mundo 
ocidental voltaram-se para o entendimento dessa experiência. Quando o rei 
Luís XVI foi executado, em 1793, ninguém tinha mais dúvidas sobre os ru-
mos desse movimento. Os liberais, em vários reinos europeus, apoiavam a 
Revolução, e nas colônias também eram lidos e debatidos esses ideais.
Quando Napoleão assume o governo da Revolução, em 1899, após o golpe conhecido 
como 18 de Brumário1, a Revolução Francesa tende a se encerrar no território francês, e seus 
ideais, a se expandirem pela Europa, devido às guerras napoleônicas. Vários intelectuais 
saudavam a entrada das tropas napoleônicas em seus reinos, na esperança de que junto 
viessem os ideais iluministas.
Napoleão foi responsável por uma renovação nas táticas militares e também na con-
vocação dos soldados – as convocações maciças (levée en masse2) modernas. Com as guerras 
revolucionárias, os jacobinos conseguiram manter viva a Revolução contra as coligações 
estrangeiras. As vitórias do general Napoleão o credenciaram a assumir o consulado e, pos-
teriormente, permitiram a sua autocoroação como imperador. Militarmente, lutou mais de 
sessenta batalhas e perdeu poucas, principalmente no período final de seu governo.
Hobsbawm nos esclarece:
A relativa monotonia do sucesso francês torna desnecessário discutir as 
operações militares de guerra terrestre com grandes detalhes. Em 1793-4, 
os franceses preservaram a Revolução. Em 1794-5, ocuparam os Países Baixos, 
a Renânia, partes da Espanha, Suíça e Savoia (e Ligúria). Em 1796, a celebrada 
campanha italiana de Napoleão deu-lhes toda a Itália e quebrou a primeira coa-
lizão contra a França. [...] Daí em diante a supremacia francesa nas regiões con-
quistadas ou controladas em 1794-8 permaneceu inquestionável. (HOBSBAWM, 
1982, p. 104)
Essas batalhas não representavam somente a vitória militar, mas também a expansão da 
base ideológica iluminista e liberal pela Europa. Os privilégios de nascimento, o absolutis-
mo e o clero estavam sendo questionados por todo o continente europeu. Devemos lembrar 
que todosos importantes estados europeus eram monárquicos e de base social feudal, com 
exceção da Inglaterra3.
Napoleão sofreu um terrível revés na sua campanha da Rússia. Devido à dificuldade 
de invadir a Inglaterra após sua derrota na Batalha de Trafalgar, em 1805, o imperador 
francês tentou bloquear o comércio com a Inglaterra em todo o continente. O czar russo 
1 Após a Revolução, o Comitê de Salvação Pública adotou um novo calendário, e o mês de novembro 
passou a ser designado como Brumário. Esse calendário foi instituído em 1792 e abolido em 1805.
2 Termo empregado por Hobsbawm (1982) no capítulo “A Revolução Francesa”, de sua obra A era 
das revoluções.
3 Na Inglaterra o rei João foi obrigado a assinar um documento de 1215 que limitou o poder dos mo-
narcas ingleses, conhecido como Carta Magna.
Vídeo
Revoltas coloniais: contextos e propostas
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência
4
55
desobedeceu a essa ordem de bloqueio, e Napoleão enviou um exército de mais de 500 mil 
soldados, que dominaram Moscou. Mas, segundo Hobsbawm,
[...] o czar não estabeleceu a paz, e Napoleão se viu diante da opção entre uma 
guerra interminável, sem perspectiva clara de vitória, ou a retirada. Ambas eram 
igualmente desastrosas. Os métodos do exército francês, como vimos, implica-
vam rápidas campanhas em áreas suficientemente ricas e densamente povoadas 
para que ele pudesse retirar sua manutenção da terra. Mas o que funcionou na 
Lombardia e na Renânia, onde estes processos tinham sido desenvolvidos pela 
primeira vez, e ainda era viável na Europa Central, fracassou totalmente nos am-
plos, pobres e vazios espaços da Polônia e da Rússia. Napoleão foi derrotado não 
tanto pelo inverno russo quanto por seu fracasso em manter o Grande Exército 
com um suprimento adequado. A retirada de Moscou destruiu o Exército. De 
610 mil homens que tinham, num ou noutro momento, atravessado a fronteira 
russa, 100 mil retornaram aproximadamente. (HOBSBAWM, 1982, p. 105)
Apesar das derrotas sofridas por Napoleão em 1814 e 1815, e todo o processo de res-
tauração desenvolvido pela Santa Aliança4, a semente do liberalismo já havia germinado 
no continente europeu e fora dele. A sociedade anterior à Revolução Francesa efetivamente 
já podia ser chamada de Antigo Regime, pois uma nova concepção de sociedade, economia, 
ciência, política e direitos individuais efetivamente saía do mundo das ideias e se materia-
lizava na sociedade.
Figura 1 – MEISSONIER, Jean Louis Ernest. Friedland. 1875. 1 óleo sobre tela; color.: 135,9 x 242,6 
cm. Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque. 5
Esta obra constrói 
uma representa-
ção da vitória de 
Napoleão na Batalha 
de Friedland, de 1807, 
e inspirou o pintor 
brasileiro Pedro 
Américo a produzir a 
sua representação so-
bre a Independência 
do Brasil, no quadro 
Independência ou 
Morte, de 18885.
4 A discussão da paz após o período napoleônico gerou uma aliança entre os países vencedores, de-
nominada Santa Aliança. O termo santa já traz seu caráter conservador. Compunha a aliança o Império 
Austríaco, o Império Russo e o Reino da Prússia.
5 Sobre esse aspecto da crítica de arte, podemos sugerir as obras de E. H. Gombrich, e seu conceito de 
schemata, entendido como a chancela (aprovação) que os mestres e os críticos dão às novas obras dos 
jovens artistas. Não se trata de plágio, mas do conceito de homenagem, muito utilizado no século XIX, 
ainda mais se tratando de uma pintura oficial, encomendada por D. Pedro II para enaltecer a figura 
do pai como o “herói” da Independência do Brasil. Estas representações encomendadas deveriam 
impressionar pelo tamanho da obra e por sua dramaticidade, colocando o herói no centro das ações.
Revoltas coloniais: contextos e propostas4
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência56
O impacto dessas transformações afeta as nossas vidas na atualidade, pois os conceitos 
de democracia, direitos humanos, liberalismo e o desenvolvimento científico são tributários 
diretos desse período. Embora, no campo da política e direitos individuais, essas conquistas 
não foram desfrutadas pelo conjunto das sociedades europeias logo no início do século XIX, 
suas ideias foram incorporadas ao imaginário popular e se transformaram em bandeiras de 
luta, ao longo dos séculos XIX e XX. Vivendo o início do século XXI, temos o dever de pre-
servar e ampliar essas conquistas.
Desse modo, as ações de Napoleão não foram sentidas apenas no continente europeu. 
Do outro lado do Atlântico, as colônias ibéricas também foram diretamente afetadas pelas 
investidas das guerras napoleônicas.
4.2 A invasão napoleônica na Península Ibérica
Os espanhóis e portugueses se envolveram nas campanhas contra a 
Revolução Francesa desde a primeira coligação contra a Revolução e a exe-
cução do casal real francês. Nesse episódio, o reino espanhol declarou guerra 
à França, e tropas espanholas, com a participação de tropas portuguesas, 
atravessaram os Pirineus e dominaram Toulon em 1793. Rapidamente as 
tropas francesas estabeleceram um contragolpe e não só desalojaram os invasores como 
também transpuseram os Pirineus e dominaram vilas espanholas. Dessa campanha foi assi-
nado um tratado de paz entre Espanha e França, em que a primeira reconhecia a república 
francesa e se mantinha atrelada aos interesses desta.
No entanto, devido à política napoleônica de isolamento comercial da Inglaterra, co-
nhecida como Bloqueio Continental ou Sistema Continental, a Coroa portuguesa se viu numa 
difícil situação, haja vista seus acordos com a Inglaterra. Nesse sentido, Napoleão instigava 
a Coroa espanhola a invadir e anexar o reino luso.
Carlos IV era o rei da Espanha, mas sua imagem já estava desgastada em seu reino, e 
por isso aceitou a oferta francesa de pilhagem e anexação de Portugal. O general Junot, com 
aproximadamente 25.000 homens, iniciou a travessia da França para a Espanha no dia 18 de 
outubro de 1807. Tropas espanholas encontraram essa expedição em Alcântara, na fronteira 
com Portugal. Embora não houvesse resistência militar portuguesa, as condições do cami-
nho e do clima dificultaram o avanço da coligação. Com aproximadamente 1.550 soldados, 
Junot entrou em Lisboa em 30 de novembro.
Nesse momento a corte portuguesa, com o auxílio inglês, já havia embarcado para o Rio 
de Janeiro, transferindo a sede do governo e da Coroa para sua principal colônia.
Após esse ato em conjunto, Napoleão avaliou que a simples aliança com o rei Carlos 
IV já não convinha, e assim se preparou para invadir o reino aliado. A presença do exército 
francês excedia os 60 mil soldados em território ibérico, e sua mobilização já em território 
espanhol seria prenúncio de uma fácil vitória.
Vídeo
Revoltas coloniais: contextos e propostas
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência
4
57
A falta de coesão interna também favorecia essa invasão. Alguns setores importantes 
da sociedade e da economia espanhola desdenhavam a presença de Carlos IV e seu minis-
tro Godoy6, responsáveis por retornar com práticas anteriores às reformas liberais de seus 
antecessores.
Havia uma tensão entre o desgastado rei e seu questionado ministro, e o jovem príncipe 
Fernando, apoiado por parte da nobreza e burguesia espanhola, desejosa pela continuidade 
das mudanças liberais bourbônicas. Essa tensão se definiu com uma revolta palaciana no 
dia 17 de março de 1808 (o palácio de Aranjuez, nos arredores de Madri), a qual exigiu a 
renúncia de Godoy e a abdicação de Carlos IV. Nessa conjuntura, assume o príncipe com o 
título de Fernando VII.
Não obstante, em março do mesmo ano, com a justificativa de acalmar os ânimos inter-
nos e manter a paz na região, Napoleão exige a renúncia de Fernando VII e repassa a Coroa 
espanhola para seu irmão José Bonaparte, coroado José I.
A resistência espanhola não se fez esperar; levantes populares surgiram em todo o ter-
ritório, mas foram duramente reprimidos pelas tropas napoleônicas.
Figura 2 – GOYA, Francisco, O trêsde maio de 1808 ou Os fuzilamentos na montanha do Príncipe Pio. 
1814. 1 óleo sobre tela; color.: 266 x 345 cm. Museu do Prado, Madri.
Esse quadro de 
Goya representa 
a repressão do 
exército francês e a 
resistência civil es-
panhola à invasão 
napoleônica em 
Madri, no dia 3 de 
maio de 1808.
Com a alteração do cenário ibérico, cujas monarquias foram destituídas ou se refugia-
ram na colônia, as relações entre metrópoles e colônias sofreriam alterações. Com a lealdade 
em questão, as colônias espanholas não se viam na obrigação de obedecer ao rei usurpador.
Com a invasão napoleônica, a Inglaterra passou da condição de inimiga para aliada, 
e o bloqueio ao porto de Cadiz transformou-se em resistência às tropas napoleônicas. Essa 
6 Manuel Godoy y Álvarez de Faria (Badajoz, 1767 – Paris, 1851).
Revoltas coloniais: contextos e propostas4
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência58
presença militar inglesa possibilitou a manutenção da cidade de Sevilha, e seu porto de 
Cadiz como foco da resistência espanhola à invasão.
Na cidade de Sevilha foi criada a Junta Suprema Central, ou Junta de Sevilha, que acu-
mulou os poderes executivo e legislativo (em 1810, passou a se chamar Consejo de Regencia 
de España e Indias). Tal conselho mantinha a resistência espanhola à invasão e tentava admi-
nistrar o comércio colonial.
Nas colônias, as camadas ricas da população e que não possuíam os direitos políticos 
ficaram conhecidas como criollos, os quais mantinham uma relação de tensão e acomodação 
com os representantes da Coroa, que eram enviados diretamente da Espanha para exercer 
os cargos de administração. Apesar de serem vistos com desconfiança pelas autoridades 
peninsulares, os criollos mantinham uma lealdade à Coroa espanhola e se viam como inte-
grantes e súditos dela.
Essa relação entre as colônias e a metrópole deveria ser de complementariedade, pois 
da colônia deveriam vir os produtos agrícolas que não podiam ser cultivados na Europa e 
também metais preciosos, e em troca a metrópole deveria enviar os produtos manufatura-
dos. Mas ela nunca se concretizou, devido à falta de condições da metrópole em manter uma 
frota mercante capaz de suprir as necessidades das colônias, além de não conseguir manter 
uma produção própria, necessitando importar e revender os bens de consumo necessários 
nas colônias. Assim, nações estrangeiras sempre abasteceram as colônias espanholas, seja 
pelo comércio legal, seja pelo contrabando.
Essa metrópole, que não conseguia manter sua parte no acordo colonial, mantinha-se, 
em grande medida, pela presença da representação da Coroa, a construção da figura do rei, 
da corte, da Espanha e seu império ultramarino. Mesmo na América, um fidalgo se percebia 
como membro de uma corte europeia, um súdito da Coroa espanhola. Com a entrada do rei 
usurpador, irmão de Napoleão, essa relação foi rompida, a lealdade passou a ser direciona-
da ao rei preso, e na prática a aspiração por um autogoverno ganhou força. Vamos observar 
melhor esse cenário.
4.3 Movimentos pela independência 
na América espanhola
A relação entre as colônias espanholas e a sua metrópole era de falta de 
complementariedade, isto é, a colônia cumpria uma função de exportado-
ra de metais preciosos, como ouro e, principalmente, a prata das minas de 
Potosí, porém a contrapartida metropolitana era muito deficiente.
Pela lógica desse comércio, a Espanha deveria fornecer os produtos fal-
tantes nas colônias, normalmente manufaturados, ou pelo menos que sua marinha mercante 
levasse essas mercadorias até elas. A Espanha não conseguia nem produzir esses manufatu-
rados, e, quando conseguia, suas condições de transporte terrestre e marítimo não eram su-
ficientes para levar os produtos. Tal situação abria, obrigatoriamente, a América espanhola 
Vídeo
Revoltas coloniais: contextos e propostas
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência
4
59
a comerciantes de outras nacionalidades. Portugueses, franceses, holandeses e, principal-
mente ingleses transportavam mercadorias com a utilização de suas embarcações7. Nem 
produtos agrícolas espanhóis conseguiam chegar a contento em suas colônias.
Durante o século XVIII, houve, devido à mesma conjuntura vivenciada em Portugal, 
um movimento da Coroa em modernizar as relações sociais e econômicas na Espanha e 
em suas colônias. E tal como em Portugal, essa onda iluminista “era eclética na aspiração 
e pragmática na intenção” (LYNCH, 2001, p. 19), isto é, utilizava diferentes escolas de pen-
samento. Dentre elas, destacamos a fisiocracia, para dinamizar as relações de produção no 
campo, e o liberalismo, para as relações de comércio interno. Porém, para as colônias, foram 
reorganizadas as práticas do mercantilismo, a fim de obter uma exploração mais eficiente 
dos recursos coloniais.
Porém esse sopro de modernização foi freado pela ascensão de Carlos IV, cujo interes-
se era fortalecer as relações aristocráticas, dando vários passos atrás na implementação da 
ascensão por mérito, e recolocando o direito de nascimento como critério para ocupação 
dos postos do Estado. O ministro Godoy, que não era da alta nobreza, mas almejava esta 
condição e conseguiu, freou as transformações iluministas, desagradando elites políticas e, 
principalmente, econômicas, tanto nas colônias quanto na Espanha.
Na América espanhola, as elites coloniais eram os criollos, que dominavam a economia, 
como proprietários de minas e de terras, e exploravam a mão de obra indígena, em maior 
escala, mas também a mão de obra africana, principalmente nas regiões de plantation8.
As práticas do Iluminismo português apresentaram semelhanças em relação às práti-
cas do Iluminismo espanhol para as Américas. O aumento do controle sobre as colônias foi 
marcante, intensificando a presença do Estado e aprofundando as relações mercantilistas.
A América espanhola era dividida em dois vice-reinos. O da Nova Espanha, que abran-
gia principalmente os territórios do atual México, parte do atual território dos EUA e a 
América Central, foi criado em 1535 e permaneceu até 1821, com o processo de indepen-
dência. O vice-reino do Peru, criado em 1542, com sede em Lima, abrangia toda a América 
do Sul espanhola e passou pelas seguintes transformações administrativas: em 1717, foi 
desmembrado o vice-reino de Nova Granada (atualmente Panamá, Equador, Venezuela e 
Colômbia), com capital em Bogotá, e, em 1776, foi desmembrado o vice-reino do Rio da 
Prata, com sede em Buenos Aires, abarcando os atuais territórios da Argentina, Paraguai, 
Bolívia e Uruguai.
Esse processo de descentralização administrativa tinha por objetivo ampliar a presença 
da Coroa nos territórios mais distantes ou de maior dificuldade de acesso.
7 Os portugueses tinham uma querela com a Coroa espanhola, devido à existência da Colônia de 
Sacramento, na margem oposta do Rio de la Plata, em relação à cidade de Buenos Aires. Realizavam 
o contrabando de escravos africanos pela prata do Potosí, cuja prática minava as relações entre a Es-
panha e suas colônias, mas a Espanha, por não conseguir manter um constante fluxo de escravos para 
suas colônias, fazia “vista grossa” a esse contrabando.
8 Plantation, nome dado ao sistema de produção agrícola baseado na exploração extensiva de largas 
faixas de terra, com mão de obra compulsória, normalmente escrava, e cujo produto se destinava ao 
mercado externo.
Revoltas coloniais: contextos e propostas4
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência60
Outro ponto implementado foi a substituição dos repartimientos pelas intendências. 
Pelos repartimientos, os administradores (corregidores de indios) enviados pela Coroa não re-
cebiam salários, mas dinamizavam as relações internas e conseguiam cobrar diretamente 
dos fazendeiros e comerciantes, cujo interesse era o de obrigar os aldeamentos indígenas a 
comprarem excedentes que vinham do comércio externo, ou produzir para este comércio. 
Nessa relação, a Coroa economizava nos salários, mas perdiano controle político-adminis-
trativo, pois os corregidores estavam sempre dependentes das suas boas relações com a elite 
local. As intendências emanciparam os indígenas, numa tentativa de inseri-los no mercado 
e não serem mais administrados pelos corregidores.
As comunidades indígenas, por sua vez, nunca vivenciaram a experiência de uma pro-
dução voltada para o mercado, pois viviam de maneira comunitária, com pouca ou nenhu-
ma presença de moeda (ou suas mais variadas representações, como penas de pássaros ou 
sementes de cacau, por exemplo). Passaram, depois da conquista, à tutela dos funcionários 
corregidores, e culturalmente não estavam preparados para essas novas relações pautadas 
pelo mercado.
Os fazendeiros e comerciantes, pelo seu lado, não gostaram dessas transformações, pois 
os indígenas estavam presos nas redes de produção nas haciendas (aqui definidas como gran-
des fazendas ou latifúndios, que poderiam ser privadas ou eclesiásticas) e também partici-
pavam do mercado como compradores de bens vendidos pelos comerciantes.
Outra medida adotada pela reforma bourbônica9, e similar ao que fora implementado 
em Portugal, foi a expulsão da Companhia de Jesus em 1767. Tal medida causou profun-
das marcas na sociedade, pois boa parcela dos jesuítas expulsos era nascido no continente 
europeu e teve que abandonar seu território, deixando redes familiares, que demonstra-
ram sua insatisfação em várias ocasiões. Essa expulsão foi percebida, também, como uma 
oportunidade para os criollos endinheirados, pois tiveram a chance de adquirir as terras da 
Companhia.
Na questão do comércio e dos tributos, as reformas bourbônicas refletiram os interesses 
mercantilistas. O monopólio sobre diversos produtos, entre eles o sal, as bebidas alcóolicas, 
a pólvora e o fumo, visavam à garantia antecipada da cobrança desses contratos de monopó-
lio. Já em relação aos impostos, o movimento foi diferente. A cobrança dos impostos era feita 
por contratantes privados, que compravam o direito de cobrá-los; mas isso foi reformulado, 
passando os agentes da Coroa a cobrá-lo diretamente – a chamada alcabala, ou imposto sobre 
as vendas, que variava de 4 a 6%.
Grande parte das reclamações se davam porque a renda desses impostos não gerava 
as mudanças necessárias na infraestrutura colonial, e sim eram convertidas em espécie e 
remetidas para a Coroa. “Nos anos favoráveis, a renda colonial chegou a representar vinte 
por cento da receita do tesouro espanhol” (LYNCH, 2001, p. 29).
Com o período de guerras, no fim do século XVIII e início do XIX, e a aliança com a 
França, a Coroa espanhola angariou a inimizade da poderosa Inglaterra, e os conflitos que 
9 Casa real europeia, de origem francesa, que no século XVIII passa a deter o trono na Espanha, tor-
nando-se a casa real deste país.
Revoltas coloniais: contextos e propostas
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência
4
61
se seguiram nas guerras napoleônicas fez com que a Coroa exigisse uma cota de sacrifícios 
dos criollos, tanto no controle sobre os impostos, como no pedido direto de doações. Foi 
exatamente esse período de guerras que movimentou definitivamente as elites coloniais em 
direção à independência. Lynch nos esclarece:
O papel imperial da Espanha e a dependência da América foram submetidos 
ao seu teste final durante a longa guerra com a Inglaterra, a partir de 1796. Em 
abril de 1797, depois de vencer a armada espanhola no cabo de São Vicente, o 
almirante Nelson fundeou um esquadrão britânico ao largo do porto de Cadiz e 
impôs um bloqueio total. (LYNCH, 2001, p. 40)
Sem poder contar com o lucrativo comércio colonial e sem receber as rendas dos im-
postos coloniais, a combalida economia espanhola estava à beira de uma nova bancarrota. 
Do outro lado do Atlântico, não havia outra possibilidade se não o livre comércio; os portos 
se abriram aos países neutros, que inundavam os portos coloniais com produtos britânicos 
revendidos.
Essa experiência da guerra e a sua consequência no livre comércio, evidenciou a inca-
pacidade da metrópole de proteger os interesses coloniais, na medida em que não conseguia 
proteger-se dos inimigos externos, ampliando a experiência de autonomia colonial, embora 
as autoridades peninsulares tentassem impor a presença e os interesses da Coroa. Os criollos 
exigiam uma maior participação na administração, na medida em que mantinham a maioria 
das rendas com seus impostos. Um fator que mantinha essa elite criolla em alerta era a pos-
sibilidade de conflito com as raças10, ou seja, a ameaça de uma guerra social amedrontava os 
criollos a ponto de manterem a sua lealdade com uma Coroa que pouco lhes atendia.
Entre outras revoltas, a de Tupac Amaro no Peru foi o exemplo mais acabado. Uma 
revolta comandada por mestiços com boas condições econômicas, descendentes da família 
real inca. Tal rebelião tinha por objetivo abolir os corregidores e as mitas11 ou seja, eram rei-
vindicações dos indígenas, que afetavam diretamente os interesses dos criollos. Nesse ponto 
havia uma comunhão dos interesses da elite colonial com a administração peninsular.
Mas quando a ruptura se daria de maneira definitiva, ou seja, quando a elite colonial 
tomaria a definitiva ação de ruptura com a metrópole?
A crise definitiva se deu em 1808, com a imposição de José I como rei da Espanha. Nas 
colônias, a lealdade à Coroa se partiu, ninguém queria jurar lealdade ao rei usurpador, e 
Fernando VII estava preso.
Os cabildos coloniais12 passaram, na teoria, a jurarem fidelidade ao rei preso, ou à Junta 
de Sevilha, mas na prática passaram ao autogoverno. Nesse contexto se destacou o cabildo 
Abierto de Buenos Aires, que, em 1810, votou pela remoção do vice-rei Baltasar Hidalgo de 
10 Entende-se por raça os vários grupos mestiços que, ao longo da colonização, foram se inserindo 
no corpo social, até com destaque econômico, mas, por não serem brancos, não conseguiam ascender 
aos cargos públicos.
11 Mita: trabalho indígena compulsório nas minas de prata de Potosí.
12 Se na América portuguesa existiam as câmaras, na América espanhola existiam os cabildos como ór-
gãos da administração municipal. Era o espaço que permitia ao criollo participar das decisões políticas.
Revoltas coloniais: contextos e propostas4
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência62
Cisneros e proclamou um autogoverno; porém nesse momento os cabildos não escreveram 
nenhuma declaração de independência e continuaram jurando lealdade ao rei Fernando VII.
Quando se espalhou a notícia de que o cabildo de Buenos Aires havia deposto o vice-
-rei e se proclamado governante de todo o vice-reino do Rio da Prata, muitas cidades (ou 
melhor, os cabildos dessas cidades) não aceitaram a decisão, iniciando assim o período de 
guerra na região, entre os defensores do cabildo de Buenos Aires e os defensores do vice-rei. 
Somente em 1816 foi redigida uma declaração de independência.
Algumas regiões do vice-reino tinham tanta vontade de se tornar independentes da 
Espanha, quanto de Buenos Aires. A elite paraguaia conseguiu expulsar os representantes 
da Coroa e resistir às tropas enviadas de Buenos Aires, formalizando sua independência 
em 1811. Da mesma forma, ocorreram movimentos de resistência à unificação com Buenos 
Aires nas regiões que formam o Uruguai e a Bolívia. Mesmo a atual região interiorana da 
Argentina não teve nenhum entusiasmo em se unir a Buenos Aires; o atual território da 
Argentina foi construído ao longo do século XIX, com muitos episódios militares e negocia-
ções econômicas.
De 1810 a 1821, quase toda a América espanhola conquistou sua independência, entre 
idas e vindas, e após uma recolonização com a queda de Napoleão e o retorno ao trono de 
Fernando VII, os vice-reinos espanhóis se transformaram nas nações americanas. Dos qua-
tro vice-reinos surgiram 18 nações emancipadas.
Espelhamos na figura a seguir a construção dessas nações a partir dos movimentos 
independentistas iniciados em 1810:
Figura 3 – América espanholae o surgimento de nações independentes.
Vice-Reino de 
Nova Espanha
México 
1821
Guatemala 
1821
El Salvador 
1821-1841
Costa Rica 
1821-1848
Honduras 
1821-1838
Nicarágua 
1821-1838
 13 
Cuba 
1898
República 
Dominicana 
1865 14
13 Guatemala, Honduras, El Salvador, Costa Rica e Nicarágua romperam seus laços com a Espanha, 
em 1821, e formaram a Federação Centro-Americana, que foi se dissolvendo à medida que as unidades 
que a formavam saíam da Federação. 
14 A República Dominicana, após períodos de autonomia, invasão e recolonização, solidificou sua in-
dependência em 1865. Já Cuba foi o último território a conseguir sua autonomia da Espanha, em 1898.
Revoltas coloniais: contextos e propostas
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência
4
63
Peru 
1821
Chile 
1818
Vice-Reino 
do Peru
 
Venezuela 
1810-1830
Colômbia 
1810-1830
Equador 
1822-1830
Vice-Reino de 
Nova Granada
 15
Panamá 
1903
 16
 
Argentina 
1810
Uruguai 
1825
Paraguai 
1811
Bolívia 
1825
Vice-Reino do 
Rio da Prata
 17, 18
Fonte: Elaborada pelo autor.
 Ampliando seus conhecimentos
15 O processo de independência da região gerou um território denominado Grã-Colômbia, que foi 
dissolvido em 1830.
16 O Panamá conseguiu sua independência no contexto da construção do Canal que leva seu nome, 
em 1903.
17 O Uruguai conquistou sua independência do Império brasileiro.
18 O atual território boliviano ficava numa área de disputa entre o vice-reino do Peru e o vice-reino 
do Rio da Prata.
A Era das revoluções: 1789-1848
(HOBSBAWM, 1982, p. 127-128, 161)
[...]
Poucas vezes a incapacidade dos governos em conter o curso da histó-
ria foi demonstrada de forma mais decisiva do que na geração pós-1815. 
Evitar uma segunda Revolução Francesa, ou ainda a catástrofe pior de 
Revoltas coloniais: contextos e propostas4
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência64
uma revolução europeia generalizada tendo como modelo a francesa, foi 
o objetivo supremo de todas as potências que tinham gasto mais de 20 
anos para derrotar a primeira; até mesmo dos britânicos, que não simpa-
tizavam com os absolutismos reacionários que se restabeleceram em toda 
a Europa e sabiam muito bem que as reformas não podiam nem deviam 
ser evitadas, mas que temiam uma nova expansão franco-jacobina mais 
do que qualquer outra contingência internacional. E, ainda assim, nunca 
na história da Europa e poucas vezes em qualquer outro lugar, o revo-
lucionarismo foi tão endêmico, tão geral, tão capaz de se espalhar por 
propaganda deliberada como por contágio espontâneo.
Houve três ondas revolucionárias principais no mundo ocidental entre 
1815 e 1848. (A Ásia e a África permaneciam até então imunes: as primei-
ras revoluções em grande escala na Ásia, o “Motim Indiano” e a “Rebelião 
Taiping”, só ocorreram na década de 1850.) A primeira ocorreu em 1820-
4. Na Europa, ela ficou limitada principalmente ao Mediterrâneo, com a 
Espanha (1820), Nápoles (1820) e a Grécia (1821) como seus epicentros. 
Fora a grega, todas essas insurreições foram sufocadas. A Revolução 
Espanhola reviveu o movimento de libertação na América Latina, que 
tinha sido derrotado após um esforço inicial, ocasionado pela conquista 
da Espanha por Napoleão em 1808, e reduzido a alguns refúgios e gru-
pos. Os três grandes libertadores da América espanhola, Simon Bolívar, 
San Martin e Bernardo O’Higgins, estabeleceram a independência res-
pectivamente da “Grande Colômbia” (que incluía as atuais repúblicas 
da Colômbia, da Venezuela e do Equador), da Argentina (exceto as áreas 
interioranas que hoje constituem o Paraguai e a Bolívia e os pampas além 
do Rio da Prata, onde os gaúchos da Banda Oriental - hoje Uruguai - luta-
ram contra argentinos e brasileiros) e do Chile. San Martin, auxiliado pela 
frota chilena sob o comando do nobre radical inglês Cochrane – em quem 
C. S. Forester se baseou para escrever o romance Captain Hornblower 
(Comandante Corneteiro) –, libertou a última fortaleza do poderio espa-
nhol, o vice-reino do Peru. Por volta de 1822, a América espanhola estava 
livre, e San Martin, um homem moderado, de grande visão e rara abnega-
ção pessoal, deixou a tarefa a Bolívar e ao republicanismo e retirou-se para 
a Europa, terminando sua nobre vida no que normalmente era um refúgio 
para ingleses endividados, Boulogne-sur-Mer, com uma pensão dada por 
O’Higgins. Enquanto isto, Iturbide, o general espanhol enviado para lutar 
contra as guerrilhas camponesas que ainda resistiam no México, tomou 
o partido dos guerrilheiros sob o impacto da Revolução Espanhola e, em 
1821, estabeleceu definitivamente a independência mexicana. Em 1822, o 
Brasil separou-se pacificamente de Portugal sob o comando do regente 
Revoltas coloniais: contextos e propostas
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência
4
65
deixado pela família real portuguesa em seu retorno à Europa após o 
exílio napoleônico. Os EUA reconheceram o mais importante, dos novos 
Estados quase que imediatamente, os britânicos reconheceram-no logo 
depois, cuidando de concluir tratados comerciais com ele, e os franceses o 
fizeram antes do fim da década.
Fora da Europa, é difícil falar de nacionalismo. As muitas repúblicas 
latino-americanas que substituíram os velhos impérios espanhol e por-
tuguês (para sermos exatos, o Brasil se tornou uma monarquia indepen-
dente e assim permaneceu de 1816 a 1889), com suas fronteiras frequen-
temente refletindo pouco mais do que a distribuição das propriedades 
dos nobres que tinham apoiado essa ou aquela rebelião local, começaram 
a adquirir interesses políticos estáveis e aspirações territoriais. O ideal 
pan-americano original de Simon Bolívar (1783-1830) na Venezuela e San 
Martin (1778-1850) na Argentina foi impossível de realizar, embora per-
sistisse como uma poderosa corrente revolucionária em todas as regiões 
unidas pela língua espanhola [...].
A grande extensão e variedade do continente, a existência de focos de rebe-
lião independentes no México (que deram origem à América Central), na 
Venezuela e em Buenos Aires, e o especial problema do centro do colonia-
lismo espanhol no Peru, que foi libertado a partir de fora, impunham uma 
fragmentação automática. Mas as revoluções latino-americanas foram 
obra de pequenos grupos de aristocratas, soldados e elites afrancesadas 
“evoluídas”, deixando a massa da passiva população branca, católica e 
pobre, e dos índios indiferente ou hostil. Só no México a independência 
foi conquistada pela iniciativa de um movimento de massa agrário, isto é, 
indígena, que marchou sob a bandeira da Virgem de Guadalupe; e por isso 
o México trilhou desde então um caminho diferente e politicamente mais 
avançado que o resto da América Latina continental. Entretanto, mesmo 
entre a minúscula camada dos latino-americanos politicamente decisivos, 
seria anacrónico falarmos nesse período de algo mais que o embrião da 
“consciência nacional” colombiana, venezuelana, equatoriana etc.
 Atividades
1. Com a presença de Napoleão no comando da Revolução Francesa, houve uma alte-
ração em seus rumos. Se, por um lado, Napoleão freou as aspirações mais radicais na 
França, por outro levou os ideais da Revolução para toda a Europa. Discorra sobre 
essa afirmação.
Revoltas coloniais: contextos e propostas4
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência66
2. Como podemos relacionar as Guerras Napoleônicas ao contexto das independências 
da América espanhola?
3. No contexto das colônias espanholas na América, houve diferenças nos interesses 
entre a ação administrativa colonial e as pretensões políticas dos criollos. Argumente 
sobre essas diferenças de interesse.
 Referências
BUSHNELL, D. A independência da América do Sul espanhola. In: BETHELL, L. (Org.). História da 
América Latina: da independência até 1870. v. III. São Paulo: EdUSP; Imprensa Oficial do Estado, 2001.
HOBSBAWM, E. J. A era das revoluções: 1789-1848. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.
LYNCH, J. Asorigens da independência da América espanhola. In: BETHELL, L. (Org.) História da 
América Latina: da independência até 1870. v. III. São Paulo: Edusp; Imprensa Oficial do Estado, 2001.
PRADO, M. L. C. América Latina no século XIX: tramas, telas e textos. São Paulo: Edusp, 2004.
 Resolução
1. Quando Napoleão assumiu o consulado e principalmente no período que se auto-
proclamou imperador, impôs os limites das transformações iniciadas com o proces-
so revolucionário. O radicalismo jacobino foi combatido e os interesses burgueses 
foram assegurados na França e exportados para o resto da Europa. As guerras, que 
no início foram para a defesa da França e dos ideais da Revolução, passaram a ser 
guerras de conquista. Isso levou a experiência francesa a outros reinos, combatendo-
-se as práticas do Antigo Regime por toda a Europa, até a restauração de 1815, mas 
que não mais seriam apagadas nas sociedades europeias.
2. Uma das ações relacionadas ao contexto das Guerras Napoleônicas foi a invasão 
da Espanha e a substituição da monarquia espanhola pelo irmão de Napoleão. Nas 
colônias americanas, o clima foi de negação dessa nova realidade, sendo que os ca-
bildos e autoridades peninsulares de governo se recusaram a obedecer ao usurpador, 
mas, na falta de uma legitimidade peninsular, passaram a desenvolver um governo 
autônomo. Esse foi o início de um processo que levou à criação das nações latinoa-
mericanas.
3. A elite colonial, conhecida como elite criolla já controlava a vida econômica das colô-
nias, mas a administração ficava a cargo de agentes vindos diretamente da Espanha. 
Os administradores deveriam atender aos interesses da Coroa, mas a elite colonial 
exercia pressão e, principalmente, uma influência econômica sobre esses adminis-
tradores, para que os interesses criollos fossem atendidos. Somente as camadas mais 
populares não encontravam espaço de pressão, fazendo com que, no período das 
revoltas regionais, surgissem várias revoltas populares, as quais causaram grande 
preocupação para os interesses da Coroa e também para os dos criollos.
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência 67
5
Uma corte nos trópicos
A persistência dos velhos padrões coloniais viu-se pela primeira vez seriamente ameaçada, 
entre nós, em virtude dos acontecimentos que sucederam à migração forçada da família real 
portuguesa para o Brasil, em 1808. O crescente cosmopolitismo de alguns centros urbanos não 
constituiu perigo iminente para a supremacia dos senhores agrários, supremacia apoiada na 
tradição e na opinião, mas abriu certamente novos horizontes e sugeriu ambições novas que 
tenderiam, com o tempo, a perturbar os antigos deleites e lazeres da vida rural. (HOLANDA, 
1967, p. 183)
Entre os anos de 1808 e 1821, a presença da Família Real portuguesa no Brasil 
gerou mudanças extremamente significativas em nossa História. Em decorrência das 
invasões de Napoleão e do bloqueio continental, a estratégia encontrada pelo então 
príncipe regente de Portugal foi partir para o Brasil, em um gesto histórico que, durante 
muitos anos, suscitou debates. Seria esse um ato de covardia ou estratégia arrojada?
Tiago Rattes de Andrade
Uma corte nos trópicos5
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência68
Muito aconteceu desde o dia em que a corte portuguesa aportou pela primeira vez na 
capital Salvador. Ocorreram muitas mudanças institucionais, culturais, políticas e econômi-
cas, além da inserção em definitivo do Brasil no mapa das grandes potências da época, com 
sua elevação a Reino Unido. É essa fascinante história que iremos contar neste capítulo.
5.1 Razões que levaram Dom João VI 
a partir com a corte
Antes de avançar em relação ao processo histórico que iremos analisar 
neste capítulo, é fundamental fazermos algumas colocações de fundo histo-
riográfico. Esse episódio de nossa história é muito rico para isso.
É muito comum vermos obras de entretenimento como filmes e séries de 
TV, que constroem a imagem de um Dom João VI como glutão, medroso e 
hesitante. Boa parte da interpretação acerca da vinda da família real portuguesa para o Brasil, 
principalmente o senso comum, foca-se na ideia de que essa partida foi produto da covardia 
do monarca em enfrentar Napoleão. Muitas pessoas acabam reproduzindo a ideia de que essa 
decisão pode ser observada pelo viés da coragem ou não de entrar em uma guerra.
No entanto, é necessário que ofereçamos um olhar mais complexo sobre essa realidade 
histórica, fugindo desses estereótipos. Seria plausível pensar que um homem educado para 
ser um monarca de inspiração absolutista seria incapaz de pensar numa saída que incluísse 
alguma estratégia?
Por mais que houvesse disparidade entre as forças militares da França e de Portugal, 
temos evidências suficientes para acreditar que a opção de Dom João VI em retirar a corte 
de Portugal e deslocá-la para o Brasil envolve muito mais do que o medo do enfrentamento.
Figura 1 – L’ÉVÊQUE, Henry. O príncipe regente de Portugal e toda a família real embarcando para o Brasil 
no cais de Belém. 1815. 1 gravura, p/b: 50 x 60 cm. Biblioteca Nacional de Portugal, Lisboa.
Vídeo
Uma corte nos trópicos
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência
5
69
Aliás, um fato um tanto quanto singular é pensarmos que Dom João VI pode ser consi-
derado um dos últimos representantes de um perfil monárquico absolutista. Embora tenha 
desfrutado da posição de rei e imperador, sua ascensão contou com alguns caminhos sinuo-
sos. Vale lembrar que seu irmão Dom José seria o herdeiro do trono caso não tivesse morrido. 
Além disso, Dom João VI acabou por assumir o posto de príncipe regente por decorrência da 
doença de sua mãe, Dona Maria I, popularmente conhecida como Maria, a louca.
Embora tenha pouco se destacado em sua juventude, João teve uma educação extre-
mamente erudita, como era de praxe nas tradicionais monarquias. Estudava artes, música e 
línguas, além de receber a educação política que os sucessores de casas monárquicas deve-
riam obter.
Ainda no fim do século XVIII, casou-se com a infanta Carlota Joaquina, apesar da resis-
tência de muitos setores da própria Coroa portuguesa, que temiam uma nova união ibérica, 
já que Carlota era espanhola. Nesse mesmo fim de século, iniciava-se uma série de proble-
mas para a monarquia tradicional de Portugal. Era o tempo das luzes, e cabeças de monar-
cas caíam em revoluções.
A ascensão de Napoleão, como veremos, consolidaria ainda mais os problemas de Dom 
João VI. Inclusive o afastaria mais uma vez da Espanha, nesse momento alinhada com a 
França.
Olhando desse ponto de vista, é possível construirmos outra forma de narrar esse per-
sonagem. É tarefa fundamental do historiador verificar todas as perspectivas e oferecer uma 
análise complexa e múltipla, fugindo de estereótipos e de visões fechadas.
Outro personagem muitas vezes abordado com pouco rigor é a própria rainha Carlota 
Joaquina, muitas vezes tratada apenas como desbocada, desequilibrada e de hábitos sexuais 
pouco ortodoxos. Sabemos que a afinidade dela com o marido Dom João não era significa-
tiva. Porém, é necessário lembrar que os casamentos desse período eram realizados com o 
objetivo de traçar estratégias políticas. A postura firme de Carlota representava, de forma 
muito clara, a defesa dos interesses da Espanha diante de Portugal. E isso era algo corriquei-
ro na época.
Figura 2 – Autor desconhecido. Retrato de Carlota Joaquina de Borbón (1775--1830). c. 1830. 1 óleo sobre 
tela, color. Acervo do Palácio Nacional da Ajuda, Lisboa.
Na representação da figura 
ao lado podemos verificar 
uma Carlota Joaquina não tão 
bela como outras persona-
gens da época. Vale destacar 
que o artista procurou trazer 
em seu pescoço a imagem de 
Dom João VI como forma de 
simbolizar a lealdade e a proxi-
midade de ambos, algo muito 
questionado no senso comum.
Uma corte nos trópicos5
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência70
Muito se falou sobre a rainha: queteria inúmeros amantes, crises de histeria e de auto-
ritarismo. Mas o que efetivamente nos importa aqui é o fato que ela desempenhou um papel 
político fundamental ao lado de Dom João VI.
5.2 O processo político da retirada 
da corte de Portugal
O primeiro elemento a ser retomado é que, à época, a Europa vivia o pro-
cesso de invasões napoleônicas e, por consequência, o Bloqueio Continental. 
Um dos objetivos centrais de Bonaparte era justamente derrotar a Inglaterra. 
Para isso, era necessário impor sucessivas derrotas também a seus aliados, 
ou mesmo subjugá-los. Portugal era uma dessas nações que se tornaram alvo 
das ações militares do imperador francês.
Em meio às constantes pressões francesas e à notícia de que um exército de franceses 
e espanhóis se aproximara, era necessário tomar uma decisão objetiva. Os ingleses naquela 
etapa já haviam se decidido: se moveriam até o porto de Lisboa e dariam duas possibilida-
des para Dom João VI e sua corte. Caso os portugueses optassem em não se curvar diante de 
Napoleão, teriam escolta militar até o Brasil; do contrário, a Inglaterra acabaria por atacar 
Lisboa e tentar conquistar a cidade. Dom João VI preferiu não entrar em uma guerra em 
que não teria chances de vencer e muito menos abandonar aqueles que poderiam continuar 
sendo bons aliados políticos e, sobretudo, econômicos.
Antes de partir, o príncipe regente ainda ordenou que fossem afixados cartazes pela 
cidade para acalmar o povo. Os dizeres explicavam que a partida era inevitável e que a 
população deveria evitar qualquer tipo de resistência, para que não se derramasse sangue, 
e que em breve a situação se normalizaria. Aparentemente tudo estava devidamente calcu-
lado nessa decisão política.
Em 22 de janeiro de 1808, Dom João VI chegou a Salvador com a corte. Desembarcaram 
e foram recebidos com festas e procissões preparadas pelo poder político local. É importante 
dizermos que havia uma expectativa muito grande dos habitantes da colônia em relação à 
presença da monarquia nesse território. Um imaginário significativo estava difundido acer-
ca da corte e de seus hábitos; tudo era razão para curiosidade: moda, cultura, hábitos ali-
mentares. Definitivamente o Brasil nunca mais seria o mesmo.
Vídeo
Uma corte nos trópicos
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência
5
71
Entre 1808 e 1822, o Brasil passou a ter um papel central na lógica administrativa do 
Império Português. Saiu da condição de colônia importante para tornar-se o Reino Unido de 
Portugal e Algarves, abrigando a administração colonial. Politicamente, essa mudança era 
algo inusitado para a época, tanto que não aconteceu de imediato.
Com a presença francesa em Portugal após a invasão de Napoleão, era mais do que 
natural que Dom João VI permanecesse cuidando do Império no Brasil. Mas esse quadro se 
tornou insustentável quando Napoleão foi derrotado e Portugal desocupado, em 1814.
Para resolver essa situação, era necessário formalizar a condição institucional do Brasil. 
Assim, em 1815 Dom João VI editou um decreto que elevou oficialmente o Brasil a Reino 
Unido de Portugal e Algarves. Vejamos um trecho desse rico documento:
Carta de Lei de 16 de dezembro de 1815
Eleva o Estado do Brasil á graduação e categoria de Reino.
D. João por graça de Deus, Principe Regente de Portugal e dos Algarves etc. Faço 
saber aos que a presente carta de lei virem, que tendo constantemente em meu 
real animo os mais vivos desejos de fazer prosperar os Estados, que a providen-
cia divina confiou ao meu soberano regimen; e dando ao mesmo tempo a impor-
tancia devida a vastidão e localidade dos meus dominios da America, a copia e 
variedade dos preciosos elementos de riqueza que elles em si contém: e outros-
sim reconhecendo quento seja vantajosa aos meus fieis vassallos em geral uma 
perfeita união e identidade entre os meus Reinos de Portugal, e dos Algarves, 
e os meus Dominios do Brazil, erigindo este aquella graduação e categoria poli-
tica que pelos sobreditos predicados lhes deve competir, e na qual os ditos meus 
domínios ja foram considerados pelos Plenipotenciarios das Potencias que for-
maram o Congresso de Vienna, assim no tratado de Alliança, concliodo aos 8 de 
Abril do corrente anno, como no tratado final do mesmo Congresso: sou portan-
to servido e me praz ordenar o seguinte:
I. Que desde a publicação desta Carta de Lei o Estado do Brazil seja elevado a 
dignidade, preeminencia e denominação de Reino do Brazil [...]. (BRASIL, 1815, 
grifos nossos)
Como é possível verificar, o argumento central de Dom João VI para esse ato era o de 
que ele seria vantajoso para todos os seus súditos. Dessa forma, ele garantiria a regularida-
de institucional para permanecer ainda por um bom tempo no Brasil, sem ter de retornar 
imediatamente a Portugal.
Uma corte nos trópicos5
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência72
Outro fato político acabaria por deixar esse quadro ainda mais complexo. Em 1816, 
morre Dona Maria I, rainha de Portugal. Dessa maneira, Dom João VI passa de regente para 
rei, ganhando ainda mais visibilidade e responsabilidades.
Figura 3 – DEBRET, Jean Baptiste. Aclamação do Rei Dom João VI no Rio 
de Janeiro. 1834. 1 gravura, color. Acervo da Biblioteca Mario de Andrade, São Paulo.
Na tela de Debret, é possível observarmos uma representação da aclamação de Dom João 
VI como rei de Portugal. A imagem traduz os elementos de simbologia da corte. Além da 
tentativa de reproduzir os elementos luxuosos, é possível verificarmos a presença dos di-
versos atores que compunham a corte neste período. Militares, clérigos e nobres eram parte 
fundamental na sustentação dessa sociedade e de sua legitimidade.
5.3 O impacto da transferência da corte para as 
instituições brasileiras
A chegada da corte portuguesa gera uma série de transformações funda-
mentais para o Brasil, envolvendo fatores culturais, políticos e econômicos.
Uma das primeiras medidas adotadas foi a abertura dos portos às na-
ções amigas, quando Dom João VI ainda estava em Salvador. O Brasil pas-
sava a ser então o epicentro comercial do Império português, fato que terá 
impacto direto e extremamente relevante para a elite brasileira, até então acostumada com 
as restrições econômicas impostas pelo pacto colonial. Como afirma Carvalho,
A transformação do Rio de Janeiro em corte real começou apenas dois meses 
antes da chegada do príncipe regente, quando as notícias do exílio real foram 
recebidas. As ações imediatas deveriam dar conta dos novos usos, nova classe, 
novas necessidades e novos agentes que junto com a corte chegavam ao Brasil. 
Vídeo
Uma corte nos trópicos
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência
5
73
Menos de uma semana após sua chegada, ainda em Salvador, D. João VI de-
cretou a abertura dos portos às “nações amigas”. Esta medida representou um 
golpe de morte no pacto colonial que, na prática, obrigava que todos os produtos 
das colônias passassem antes pelas alfândegas em Portugal, ou seja, os demais 
países não podiam vender produtos para o Brasil, nem importar matérias-pri-
mas diretamente das colônias alheias, sendo forçados a fazer negócios com as 
respectivas metrópoles. (CARVALHO, 2014)
A área cultural também teria impacto significativo no reino. Ainda em Salvador, Dom 
João VI autorizou a abertura da primeira faculdade de Medicina em território brasileiro. A 
produção de livros finalmente se tornaria legal no Brasil, o que significou o surgimento de 
tipografias e a ampliação da circulação de conhecimento.
Do ponto de vista prático, uma série de medidas foram extremamente importantes para 
o Brasil. Por meio da vinda da Família Real, foi possível a criação da Biblioteca Real, do 
Museu Nacional, do Banco do Brasil, da Academia de Belas Artes e uma série de outras ins-
tituições que contribuíram para a consolidação da vida social e cultural brasileira.
Alguns relatos mostram que essas profundas mudanças fizeram com que Dom João 
VI desse um valor significativopara o país e que deixá-lo um dia tornar-se-ia um imenso 
desafio. Era claro para a maior parte das pessoas que circulavam na corte que o rei estava 
extremamente insatisfeito de ter de retornar a Lisboa. Alexandre José de Melo Morais (1816-
1882), médico, político e historiador alagoano, relatou sobre a saída de Dom João VI do 
Brasil:
Muitas são as referências que o historiador faz à tristeza do monarca durante os 
meses que separam a chegada das notícias sobre a revolução em Portugal e sua 
decisão de deixar o Brasil. “O rei vivia triste, abatido, embezerrado, [...] Quando 
no dia 26 de fevereiro [de 1821] o trouxeram de São Cristóvão para a cidade, foi 
rodeada sua traquitana pelos corifeus da revolução, [como] os célebres Padre 
Góis, Padre Macambôa, Pimenta, e o famigerado Porto, que foi empresário do 
Teatro de São João (hoje de São Pedro) e outros, que na praça do Teatro ou Rocio, 
mandando tirar as bestas da sege, fizeram que algumas pessoas do povo que gri-
tavam – Viva el Rei Constitucional – puxassem-lhe a mão a carruagem. O rei [...] 
banhou-se em lágrimas, e de quando em quando limpava os olhos até chegar ao 
Paço da Cidade. Nesse dia decidiu-se a partida do rei para Portugal”. Também 
depois do decreto de 7 de março, que oficializa a decisão, “às vezes chorava – di-
zia a marquesa de Jacarepaguá, educada no Paço e familiar da camareira-mor da 
rainha-mãe”. (SCARRONE, 2008)
Provavelmente Dom João VI já tinha em mente que as dificuldades que iria enfrentar 
no retorno a Portugal não se resumiriam apenas a sua adaptação à vida na Europa. Como 
sabemos, já se iniciava um movimento de cunho liberal em Portugal que iria deixar profun-
das marcas também no Brasil.
O que vale demarcarmos aqui é que a presença da Família Real no Brasil serviu para 
importantes transformações políticas e econômicas, as quais devem ser observadas sob um 
amplo viés.
Uma corte nos trópicos5
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência74
 Ampliando seus conhecimentos
O Rio de Janeiro a partir da chegada da Corte 
Portuguesa: planos, intenções e intervenções 
no século XIX
(CARVALHO, 2014)
A transferência da Família Real portuguesa
A pesquisa que deu origem a este artigo teve como objetivo recuperar, sob 
o olhar dos planos urbanísticos, dos projetos, intenções e transformações 
efetuados no Rio de Janeiro no século XIX, a maneira de pensar a cidade 
a partir da chegada da corte real, mostrando o quanto esse fato foi funda-
mental para alterá-la, posteriormente, no início do século XX.
Colônia de Portugal desde o século o século XVI e capital do vice-reino 
desde 1763, o Rio de Janeiro teve seu desenvolvimento marcado pela 
transferência da corte portuguesa em 1808. Desde então, até 1821, foi sede 
da monarquia portuguesa, única cidade das Américas na história a rece-
ber o aparato burocrático e o contingente populacional antes instalado na 
Europa. Até então nenhum rei havia visitado seus territórios ultramari-
nos, nem mesmo para conhecê-los, muito menos para morar e governar.
A fuga da monarquia portuguesa para sua colônia americana por ocasião 
da invasão dos exércitos napoleônicos é um divisor de águas no processo 
histórico brasileiro. Os preparativos iniciais para acomodar a família real 
marcaram apenas o começo da transformação do Rio de Janeiro, pois o 
projeto de construir uma nova cidade e capital imperial perdurou por 
todo reinado brasileiro do príncipe regente (SCHULTZ, 2008).
A estrutura urbana encontrada pela família real foi em grande parte cons-
truída por Luis de Vasconcelos e Sousa, que administrou a cidade entre 
os anos de 1778 e 1790. O vice-rei é considerado autor da primeira remo-
delação urbana do Rio de Janeiro e precursor das intervenções voltadas 
à adequação da cidade aos conceitos modernos das capitais europeias, 
atuando não só na expansão da estrutura urbana, mas também nos usos 
desses espaços. Sua gestão é conhecida principalmente pela construção 
do Passeio Público e reurbanização do Largo do Carmo, expressões da 
prosperidade da época.
A transformação do Rio de Janeiro em corte real começou apenas dois 
meses antes da chegada do príncipe regente, quando as notícias do exílio 
Uma corte nos trópicos
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência
5
75
real foram recebidas. As ações imediatas deveriam dar conta dos novos 
usos, nova classe, novas necessidades e novos agentes que junto com a 
corte chegavam ao Brasil.
Menos de uma semana após sua chegada, ainda em Salvador, D. João VI 
decretou a abertura dos portos às “nações amigas”. Esta medida repre-
sentou um golpe de morte no pacto colonial que, na prática, obrigava 
que todos os produtos das colônias passassem antes pelas alfândegas em 
Portugal, ou seja, os demais países não podiam vender produtos para o 
Brasil, nem importar matérias-primas diretamente das colônias alheias, 
sendo forçados a fazer negócios com as respectivas metrópoles.
Permitiu assim a integração do Brasil ao mercado mundial e consequente 
invasão de produtos estrangeiros, rompendo a base sobre a qual se assen-
tava o domínio metropolitano: o monopólio comercial. De acordo com 
Pinto (2007), essa medida era prova de uma contradição inevitável na 
política econômica adotada pela Corte, que queria imprimir os princípios 
do liberalismo econômico em pleno território colonial.
No que diz respeito ao perímetro urbano do Rio de Janeiro Dom João VI 
cria o imposto da décima para os prédios urbanos em condições habitáveis 
dentro dos limites das cidades e vilas. Prática já conhecida em Portugal, 
o tributo consistia no pagamento anual para a Real Fazenda, por parte 
dos proprietários, de 10% dos rendimentos líquidos dos prédios, com o 
objetivo de suprir os cofres da corte portuguesa estabelecida no Rio de 
Janeiro, criando uma fonte de renda imediata.
Silva (2012, p. 52) ressalta que três medidas de impacto devem ser des-
tacas, que foram colocadas em prática logo na chegada da família real, 
quando “uma nova forma de organização começava a ser gestada, arti-
culando conhecimento, atuação sobre o espaço urbano e normas”. Foram 
elas: criação da Intendência Geral da Polícia, o diagnóstico médico e o 
mapa oficial, o qual tinha como objetivo registrar a situação da cidade e 
servir de instrumento para planejar as mudanças necessárias à nova sede 
da corte, articulando o projeto civilizatório ao território. Juntas indicavam 
uma nova forma de organização e intervenção, principalmente se atrela-
dos à introdução da décima urbana.
O diagnóstico é produzido, ainda em 1808, pelo médico Manuel Vieira 
da Silva, físico-mor do reino, encarregado por D. João de investigar as 
causas da insalubridade da cidade. O fato de ter sido encomendado pelo 
príncipe e publicado na imprensa transformaria o estudo em orientação 
oficial. Os objetivos de D. João eram criar uma cultura de discussão na 
Uma corte nos trópicos5
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência76
cidade e divulgar um documento que fosse visto como inquestionável. Os 
médicos eram interlocutores privilegiados para falar dos problemas da 
estrutura urbana, principalmente por articular a saúde e doença da popu-
lação ao meio geográfico (SILVA, 2012, p. 61). Essa associação permitiria 
que o higienismo se tornasse um potente discurso para pensar a cidade 
durante o século XIX e primeiras décadas do século XX.
Reconstruindo a Corte Portuguesa
A vinda da família real foi o primeiro momento em que a ideia de civiliza-
ção começaria a ser articulada ao território da cidade, e todas as mudanças 
que ocorreriam na estrutura urbana e social naquele período teriam como 
pano de fundo a sua adaptação à função de sede do Império nos trópicos 
(SILVA, 2012); uma nova maneira de se pensar a cidade seria introduzida 
marcando definitivamente o futuro da cidade do Rio de Janeiro.
A instituição responsável pelo bem público e comum era a Intendência 
Geral da Polícia, uma das repartições trazidas pela família real; era res-
ponsável pelas obras públicas,abastecimento de água, iluminação e segu-
rança, e ainda pela disciplinarização da vida dos moradores. A provisão 
e a regulamentação de moradias figuravam entre os empreendimentos 
mais imediatos com que a Intendência estava envolvida
A transformação do Rio de Janeiro em corte real tinha de envolver a mar-
ginalização da estética e das práticas que não conseguiam refletir essa 
mudança. Era consenso entre as classes dominantes que não ser mais 
colônia significava adotar um projeto colonial: civilizar- se. Para isso era 
necessário a criação e imposição de uma uniformidade estética e cultural 
“no sentido de tornar a cidade em condições de servir de sede às princi-
pais autoridades do reino” (BRASIL, 1923, p. 11).
 Construir uma corte real significava construir uma cidade ideal; uma 
cidade na qual tanto a arquitetura mundana quanto a monumental, 
juntamente com as práticas sociais e culturais dos seus residentes, 
projetassem uma imagem inequivocamente poderosa e virtuosa da 
autoridade e do governo reais. (SCHULTZ, 2008, p. 157)
Em março de 1811 Viana propôs que a solução da crise na provisão de 
habitações na já apertada Cidade Velha podia ser encontrada se a aten-
ção fosse centrada numa região fora do centro da cidade conhecida como 
Cidade Nova, aonde os pântanos cobriam a maior parte de área. Os resi-
dentes deveriam ser estimulados a secar e aterrar a área e construir casas. 
Assim, a cidade seria enobrecida, mais habitações estariam à disposição, 
Uma corte nos trópicos
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência
5
77
e os alugueis cairiam. A imposição de padrões para a construção na área 
poderia ser disfarçada por meio de isenções. Mais importante, “as inter-
venções da Coroa dariam fim à ‘liberdade mal entendida’ de construir 
como quiser, reforçando consequentemente a autoridade do príncipe 
regente” (SCHULTZ, 2008, p. 163).
Ficou estabelecido então que seria concedida isenção da décima urbana 
por dez ou vinte anos aos proprietários que edificassem casas de sobrado 
nos terrenos situados na Cidade Nova; a construção de casas de um só 
pavimento ficava proibida. [...]
 Atividades
1. Uma das tarefas do historiador é buscar analisar de forma ampla os fatos históricos 
e seus personagens, oferecendo a seu leitor um olhar que fuja de estereótipos e vi-
sões deterministas. Dito isso, como podemos utilizar a imagem Dom João VI para 
exemplificar esse olhar? Como debater a contraposição entre o senso crítico e o senso 
comum em relação a esse personagem?
2. A presença de Dom João VI no Brasil, e por consequência a necessidade de gerir 
o Império Português no país, acabou por gerar transformações institucionais rele-
vantes. Uma delas foi a elevação do Brasil a Reino Unido de Portugal e Algarves. 
Descreva esse processo.
3. Uma das medidas adotadas por Dom João VI ainda quando estava em Salvador foi 
a abertura dos portos às nações amigas. O que representou essa medida e quais suas 
consequências para o pacto colonial?
 Referências
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jusqu’en 1831. Paris: Firmin Didot, 1834-1839. 3 v. Acervo da Biblioteca Mario de Andrade, São Paulo. 
Disponível em: <http://docvirt.com/DocReader.Net/DocReader.aspx?bib=FOTOS&pesq=>. Acesso 
em: 10 fev. 2017.
Uma corte nos trópicos5
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência78
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SODRÉ, N. W. Formação histórica do Brasil. Rio de Janeiro: Graphia, 2002.
 Resolução
1. É importante que o historiador, ao analisar Dom João VI, verifique de forma histó-
rica e não anacrônica os desafios colocados. Como sabemos, ele recebeu uma com-
plexa educação para tornar-se um rei absolutista e tinha um grau significativo de 
domínio político. Sendo assim, é importante que desconfiemos sempre de análises 
que reduzem um personagem histórico a uma caricatura.
2. A elevação do Brasil a Reino Unido de Portugal permitiu que o país recebesse uma 
série de instituições e fosse visto em pé de igualdade, do ponto de vista legal, com a 
então sede do Império. Dessa forma, Dom João VI resolvia o impasse de gerir politi-
camente todas as possessões estando em solo brasileiro. Ao mesmo tempo, ele regu-
lamentava uma situação que o deixava mais confortável, tendo em vista os dilemas 
políticos que se constituíram em Portugal no início do século XIX.
3. A abertura dos portos visava instituir novas regras comerciais para que as transações 
ocorressem no Brasil. Cabe lembrar que até então o país estava dominado pelo pacto 
colonial, que fazia com que todo comércio ficasse restrito à metrópole. Para a elite lo-
cal, era um excelente negócio, pois a colocou definitivamente no centro do comércio 
mundial. Foi um passo decisivo para o fim do pacto.
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência 79
6
As transformações do Rio 
de Janeiro: a nova capital
A vinda da família real foi o primeiro momento em que a ideia de civilização começaria a ser 
articulada ao território da cidade, e todas as mudanças que ocorreriam na estrutura urbana 
e social naquele período teriam como pano de fundo a sua adaptação à função de sede do 
Império nos trópicos [...]; uma nova maneira de se pensar a cidade seria introduzida marcan-
do definitivamente o futuro da cidade do Rio de Janeiro. (CARVALHO, 2014, s/p)
Este capítulo tem como objetivo debater as transformações que se consolidaram 
no Brasil com a instalação da corte real no país. O foco, neste caso, é nas mudanças 
culturais e sociais que acabaram por se estender no território, em especial na cidade 
do Rio de Janeiro.
Como sabemos, oRio de Janeiro viveu uma grande e ampla transformação para 
poder sediar o poder político do Império Português. E, para isso, uma série de mudan-
ças na realidade colonial dessa cidade foram necessárias. É importante salientarmos 
que a cidade toda acabou por sentir de alguma maneira esse processo, que envolveu 
não só a instalação de novas instituições, mas também um processo de disciplinariza-
ção contínuo.
Tiago Rattes de Andrade
As transformações do Rio de Janeiro: a nova capital6
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência80
6.1 Transformações econômicas e seus impactos
Nos dias de hoje, talvez seja difícil mensurar o impacto gerado pela 
transferência da corte europeia para o Brasil, pois estamos habituados a ter 
informações complexas sobre realidades distintas em tempo recorde. Mas, se 
pensarmos sobre o cenário de informações do início do século XIX, fica mais 
fácil entender esses efeitos.
Quando tratamos especificamente da corte portuguesa, sabemos que havia uma série 
de informações necessárias para que se constituísse a relação entre monarquia e seus súdi-
tos. Sendo assim, uma parcela significativa dos brasileiros conhecia em alguma dimensão a 
corte de Dom João VI. Mas, obviamente, muito do que se sabia era também cercado por um 
imaginário gigantesco – algo natural, por se tratar de um tema tão edificante para todo um 
império.
É mais do que natural que as pessoas, ao tomarem conhecimento da vinda da Família 
Real Portuguesa para o Brasil, fossem tomadas por uma série de curiosidades e desejos. Para 
a elite local, a corte portuguesa significava não só uma autoridade política a ser respeitada, 
mas também certo modelo de civilidade, de hábitos e costumes. A expectativa criada foi 
grande, já que inevitavelmente isso mudaria em definitivo a vida de muitas pessoas, trazen-
do novos hábitos de consumo, de vivência e civilidade1.
Entender as mudanças do cotidiano do Brasil no início do século XIX é justamente cons-
truir esse olhar sobre o fascínio e o impacto que a presença da corte causaria naquele mo-
mento. Nada mais seria como antes, e isso traria consequências muito determinantes para a 
história do Brasil.
O primeiro destino da corte foi Salvador, onde uma série de medidas foram tomadas 
por Dom João VI. Mas, na sequência, toda a comitiva se deslocou para o Rio de Janeiro, e 
foi decidido que essa cidade seria a capital. Tal gesto seria decisivo para uma série de outras 
transformações políticas, culturais e econômicas no Brasil.
Muitos historiadores buscaram relatar o impacto da chegada da Família Real ao Rio de 
Janeiro. O que vale destacar aqui é que essa chegada foi muito importante para a consolidação 
do imaginário: as pessoas deslocaram-se para o porto na expectativa de ver de perto a família, 
que simbolizava não só um poder político formal, mas também uma série de elementos cul-
turais que davam sentido à existência daquele Brasil. E esse Brasil passaria a ser peça direta e 
decisiva de toda a lógica política do Império, e não apenas uma rica engrenagem. É possível 
inferir que as pessoas que ali estavam acenando para Dom João VI não imaginassem isso. 
Algumas delas talvez estivessem atentas aos traços da moda, tentando identificar hábitos cul-
turais europeus que poderiam ser absorvidos por uma elite local ávida de civilização.
O que estava em jogo naquele momento era, antes de tudo, um aspecto muito signifi-
cativo da tradição.
1 Quando tratamos do conceito de civilidade, estamos aqui nos remetendo de alguma forma a uma 
noção derivada do conceito de civilização de Norbert Elias, ao definir a visão que o Ocidente tem sobre 
si mesmo. Sobre esse assunto, ver mais em: ELIAS, 1993.
Vídeo
As transformações do Rio de Janeiro: a nova capital
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência
6
81
A tradição tem, na perspectiva sociológica, a função de preservar para a socieda-
de costumes e práticas que já demonstraram ser eficazes no passado. Para Weber, 
os comportamentos tradicionais são formas puras de ação social, ou seja, são ati-
tudes que os indivíduos tomam em sociedade e são orientadas pelo hábito, pela 
noção de que sempre foi assim. Nessa forma de ação, o indivíduo não pensa nas 
razões de seu comportamento. O comportamento tradicional seria, então, uma 
forma de dominação legítima, uma maneira de se influenciar o comportamento 
de outros homens sem o uso da força. (SILVA; SILVA, 2005, p. 405)
A instalação da Família Real no Rio talvez seja um dos exemplos mais significativos 
para entendermos o sentido do termo tradição. Como uma corte, até então distante do ponto 
de vista geográfico e que teria tudo para ser vista com desconfiança, conseguiria consolidar 
mudanças tão significativas no Brasil? Os aspectos apresentados daqui para frente nos aju-
darão a entender melhor esse processo.
É fundamental pontuarmos aqui as transformações econômicas como peça-chave desse 
processo histórico tão peculiar e relevante. Como sabemos, uma das primeiras medidas de 
Dom João VI ao chegar ao Brasil foi a abertura dos portos às nações amigas. Esse gesto afe-
tou não só a grande produção colonial. A abertura econômica também teve efeito direto em 
hábitos cotidianos de consumo, como alimentação e vestuário. Isso demonstrava claramente 
que as transformações que estavam por vir eram muito mais amplas do que simplesmente o 
surgimento de uma nova ordem política.
Figura 1 – DEBRET, Jean Baptiste. Retrato de Dom João VI. 1817. 1 óleo sobre tela. 60 x 42 cm. Acervo 
do Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro.
O retrato de Dom João VI 
feito por Debret nos ajuda 
a entender um pouco desse 
projeto de civilização que 
deveria se perpetrar no 
Brasil e, ao mesmo tempo, 
exercer fascínio na elite 
local. Os apetrechos, as 
roupas, a postura, tudo isso 
indicava o perfil de uma 
monarquia forte, erudita e 
capaz de propiciar estabi-
lidade. Por outro lado, era 
necessário que a monarquia 
fosse capaz de exercer um 
sentimento de legitimidade 
e respeito entre a população 
menos privilegiada.
As transformações do Rio de Janeiro: a nova capital6
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência82
Sobre as medidas efetivas que ajudaram a transformar o Brasil e o Rio de Janeiro naque-
le período, podemos sintetizá-las no quadro a seguir:
Quadro 1 – Medidas importantes de Dom João VI entre 1808 e 1821.
1808 Banco do Brasil
1808 Escola de Medicina (Bahia)
1808 Imprensa Real
1808 Jardim Botânico do Rio de Janeiro
1808 Primeiro jornal do país, a Gazeta do Rio de Janeiro
1810 Academia Real Militar
1810 Biblioteca Real
1810 Instalação de indústria de fer-
ro em Minas Gerais e São Paulo
1816 Academia Real de Belas Artes
Fonte: Elaborado pelo autor.
6.2 As mudanças culturais e sociais
Mudanças culturais e sociais advêm de transformações complexas do 
ponto de vista histórico e acabam por produzir efeitos que podem ser sen-
tidos ao longo de muito tempo, além de uma série de imaginários que são 
reproduzidos. O caso que estamos levantando aqui não é diferente. Sendo 
assim, para entendermos o que mudou efetivamente no Rio de Janeiro na-
quele período, é interessante buscarmos algumas informações sobre o processo em sua 
completude.
Mas, adequar a cidade à sua nova condição de corte não significava apenas aten-
der a essas necessidades de caráter pragmático. Como nova corte real o Rio de 
Janeiro deveria ser a expressão do poder da monarquia e do grau de civilização do 
Império Português, segundo a representação que seus habitantes faziam da cidade 
a partir de então. Transformá-la em corte significava estabelecer aí uma sociedade 
de corte, com seus espaços e formas de sociabilidade próprios, copiados das cor-
tes europeias, condenando hábitos e costumes oriundos do período colonial como 
inadequados à nova condição alcançada pela cidade, ao mesmo tempo em que se 
buscava difundir na nova capital do Império os elementos daquilo que era consi-
derado um ideal europeu de civilização. (BARRA, 2015, p. 792-793)Adequar o Rio de Janeiro a um padrão de civilidade que permitisse a instalação de um 
corte europeia: esse era o grande desafio a ser resolvido naquele momento. Por mais que a 
cultura local partisse do pressuposto de que fôssemos todos súditos de uma Coroa, é mais 
do que natural que os desafios fossem significativos. Não se tratava apenas de construir 
Vídeo
As transformações do Rio de Janeiro: a nova capital
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência
6
83
uma relação de respeito ou submissão, o que estava em jogo era a criação de um ambiente 
apropriado para que a corte se estabelecesse no Brasil e assumisse todas as suas responsabi-
lidades, tarefas e atribuições.
Um dos desafios para a instalação da corte era, em primeiro lugar, a adequação do espa-
ço físico. Muito se falou na historiografia acerca das desapropriações de casas para instalar 
uma multidão de pessoas que aqui chegava. Sem dúvida, esse é um impacto significativo e 
que merece atenção. O cotidiano da cidade, das pessoas em suas casas, começava a sofrer 
uma significativa interferência.
Mas um aspecto que nos chama atenção e que vale ser explorado aqui é o que remete 
à necessidade de adequação para receber as instituições que vinham com a família real e 
que seriam fundamentais para o governo. Como é de conhecimento, junto de Dom João VI 
vieram desde bibliotecas até a necessidade de fundação de um banco no Brasil. A mudança 
na paisagem, no espaço físico da cidade, seria muito mais complexa do que uma simples 
ocupação de imóveis. O Rio de Janeiro passava a ganhar novo sentido em seus espaços.
Se pensarmos no exemplo da Academia Imperial de Belas Artes, temos uma dimensão 
da grandiosidade das transformações culturais e sociais. A academia foi fundada por Dom 
João VI, e, como forma de dar um pontapé significativo para a produção de arte no Brasil, 
foi trazida uma missão de artistas franceses para o país em 1816.
Entre os artistas que aportaram no Brasil naquele ano estavam Jean-Baptiste Debret, o 
arquiteto Grandjean de Montigny e o pintor Nicolas-Antoine Taunay. A vinda desse grupo 
teve um papel decisivo na difusão da arte no Brasil e ajudou a construir um olhar muito 
peculiar sobre o território, que influencia até hoje a forma como vemos a nossa formação 
social e cultural. Basta pensarmos na coleção de obras deixadas por Debret, retratando o 
Brasil, por exemplo.
Quando a corte portuguesa se instala no Rio de Janeiro, em 1808, a expressão ar-
tística brasileira, essencialmente voltada para o domínio religioso, ainda vive sob 
o regime de associações de artesãos. Uma vez restaurada a estabilidade política 
na Europa, em 1815, o Conde da Barca, preocupado em atrair talentos estran-
geiros para a antiga colônia então elevada à condição de reino ao mesmo nível 
de Portugal e dos Algarves, em nome do príncipe regente D. João VI, recorre 
ao seu representante em Paris, o Marquês de Marialva. O sábio Alexander von 
Humboldt, à época coberto dos louros de sua expedição sul-americana, é con-
sultado e sugere o nome de Joachim Lebreton, secretário perpétuo demitido ha-
via pouco da Académie des Beaux-Arts de l’Institut de France por causa de um 
discurso bastante polêmico onde ele argumentava contra a restituição das obras 
“confiscadas” durante as campanhas napoleônicas. (FUNDAÇÃO BIBLIOTECA 
NACIONAL, 2017)
Como podemos observar pela citação, atos como esse que garantiu a criação da 
Academia e a Missão Artística Francesa significavam uma grande transformação do ponto 
de vista técnico e cultural para o Brasil. Obviamente não se trata aqui de hierarquizar a 
cultura e desprezar o que era produzido no Brasil antes da vinda de Dom João VI, mas sim 
As transformações do Rio de Janeiro: a nova capital6
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência84
de entender como as mudanças institucionais foram significativas para transformações na 
produção artística local. Muitos desses artistas que vieram para o Brasil aqui constituíram 
família e deixaram um legado.
Figura 2 – TAUNAY, Nicolas-Antoine. Vista do Outeiro, Praia e Igreja da Glória. 1817. 1 óleo sobre tela. 
37 x 48 cm. Museu Castro Maya, Rio de Janeiro.
6.3 O cotidiano da cidade pós-Dom João VI
O dia a dia dos moradores do Rio de Janeiro nunca mais seria o mesmo 
depois que Dom João VI passou a ocupar a cidade e impor a ela uma série de 
mudanças. Quando falamos em cotidiano, estamos tratando de uma série de 
elementos que envolvem a forma de viver de cada habitante. A instalação da 
corte no Brasil trouxe mudanças culturais muito fortes.
As modificações do espaço urbano podiam claramente ser notadas à medida que se 
caminhasse pela cidade, seja nos largos e praça, no porto, nas casas comerciais ou nas repar-
tições públicas. Os salões e cafés que concentravam membros da elite local eram tomados 
pelo mesmo assunto: quais mudanças viriam? A quais novidades eles poderiam assistir nas 
próximas semanas?
Além disso, vale destacar, a circulação dos membros da corte pelas ruas do Rio iria in-
fluenciar também na moda e no comportamento local. Mais do que nunca, a elite local tinha 
agora exemplos a serem observados, padrões a serem seguidos. Era necessário construir 
relações, ter acesso à corte, buscar um espaço de influência que pudesse aumentar ainda 
mais os privilégios.
Como vimos, o Rio de Janeiro não foi mais o mesmo. O processo de superação de aspec-
tos coloniais tidos como antiquados e inadequados precisavam ser superados aos poucos. 
O cotidiano da cidade passaria então por um movimento de disciplinarização constante, no 
intuito de garantir que esse processo de adaptação se efetivasse e a cidade se tornasse digna 
de sediar o poder político de um império tão vasto.
A instituição responsável pelo bem público e comum era a Intendência Geral 
da Polícia, uma das repartições trazidas pela família real; era responsável pelas 
Vídeo
As transformações do Rio de Janeiro: a nova capital
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência
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obras públicas, abastecimento de água, iluminação e segurança, e ainda pela dis-
ciplinarização da vida dos moradores. A provisão e a regulamentação de mora-
dias figurava entre os empreendimentos mais imediatos com que a Intendência 
estava envolvida. A transformação do Rio de Janeiro em corte real tinha de en-
volver a marginalização da estética e das práticas que não conseguiam refletir 
essa mudança. Era consenso entre as classes dominantes que não ser mais colô-
nia significava adotar um projeto colonial: civilizar- se. Para isso era necessário 
a criação e imposição de uma uniformidade estética e cultural “no sentido de 
tornar a cidade em condições de servir de sede às principais autoridades do rei-
no”. (CARVALHO, 2014)
Como vimos, portanto, as transformações seriam profundas e influenciariam o coti-
diano como um todo. A cidade passa a exercer um papel decisivo no imaginário de toda 
América portuguesa cumprindo o papel que muitos imaginaram para ela. Dom João VI, de 
alguma forma, acabou por mudar o curso do Brasil por meio das mudanças constituídas na 
nova capital brasileira.
Figura 3 – DEBRET, Jean-Baptiste. Largo do Paço. 1 gravura, color. In: ______, Voyage Pittoresque et 
Historique au Brésil. Paris: Firmin Didot, 1834-1839. 3 v. Acervo da Biblioteca Mário de Andrade, São 
Paulo.
A gravura de Debret nos permite observar uma representação de um Rio de 
Janeiro transformado em decorrência da preocupação com a reformulação dos 
espaços públicos. Isso nos remete ao fato já citado de que era fundamental 
transformar a cidade para que ela se tornasse digna de sediar um império. A 
estrutura do portuário, o amplo largo, o casario, a circulação de pessoas, tudo 
isso nos ajuda a entender esse processo. 
Um fato interessante de se demarcar é que fica claro, para quem percebe as transforma-
ções que o Rio de Janeiro viveu nesse período, que os problemas locais eram bem significati-
vos. Por mais que possa parecer óbvio, é necessário frisar que as condiçõesdo Rio de Janeiro 
que antecederam a chegada de Dom João VI não eram das melhores.
As transformações do Rio de Janeiro: a nova capital6
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência86
Em contraste à riqueza que aportou no Rio de Janeiro em 1808, as condições ur-
banas da cidade e de vida da sua população eram extremamente precárias, e com 
o aumento repentino das demandas, as carências ficaram mais evidentes: faltava 
água, comida e moradia [...]. Não havia sistema de esgotos. Os restos da casa, do 
banheiro à cozinha, eram jogados na praia para que as marés lavassem, e tudo 
era transportado em tonéis em ombros escravos. As ruas eram escuras e perigo-
sas. A água potável era escassa e o abastecimento de alimentos era deficitário, 
principalmente o de carnes, cujo consumo era um luxo só presente em poucas 
ocasiões festivas no ano. (COSTA; LEMLE, 2008)
Como é possível notar pelo relato, o trabalho que teria de ser desempenhado pela corte 
para tentar tornar o Rio uma cidade “decente” para a monarquia seria muito mais complexo 
do que se poderia imaginar. Não à toa, as medidas envolviam o endurecimento de regras 
relacionadas ao espaço público, na tentativa de garantir a superação dos hábitos tidos como 
“atrasados”. Mas é claro que muitos dos problemas da cidade vinham da desigualdade so-
cial e do enorme abismo imposto por uma sociedade extremamente desigual. Não é difícil 
imaginarmos que para a aristocracia os problemas eram diferentes, assim como as soluções 
tendiam a preservar seus privilégios.
Isso nos leva a tocar em um outro assunto importante de ser frisado: embora inúmeros 
avanços tenham acontecido no campo cultural e artístico, a vida seguia muito dura para 
uma parcela muito grande daquela sociedade escravista.
Mas que a vida era difícil era. Jurandir Malerba conta que, mesmo sendo maioria, 
os negros sofriam com a intransigência da polícia, que coibia suas principais ati-
vidades de lazer, como os jogos de casquinha e a capoeira. Havia várias formas 
de opressão. De acordo com Vera Tostes, diretora do Museu Histórico Nacional, 
os códigos sociais eram bem diferenciados para cada grupo que compunha a 
sociedade – a maioria de escravos, os negros livres, os brancos pobres, os funcio-
nários da Coroa e os nobres que chegavam, entre outros. (COSTA; LEMLE, 2008)
Sendo assim, o movimento da vinda da Família Real Portuguesa para o Brasil, embora 
tenha sido fundamental para uma série de mudanças políticas, sociais, culturais e econômi-
cas, manteve praticamente intacta as relações sociais, principalmente as que envolviam a 
vida de milhares de escravos e descendentes, que seguiriam ainda amargando o cotidiano 
violento e duro.
O novo Rio de Janeiro talvez não poderia ser classificado como pior ou melhor. O im-
portante, na verdade, é perceber que as transformações ocorridas nesse período deixaram 
marcas essenciais para que entendamos o processo histórico que o país viveria no período 
posterior. Sem essa visão, o entendimento torna-se turvo e incompleto. Muitas das marcas 
acabaram por tornar-se tão intrínsecas que praticamente foram naturalizadas em nossos 
imaginários, como é o caso das representações que Debret fez do Brasil. Aliás, uma boa sín-
tese desse período é justamente o Brasil pintado por ele. Em suas telas, é possível ver a vida 
nas ruas, os comerciantes, os homens de grosso trato, os escravos. Há uma vida intensa no 
espaço público, a convivência, a interação, a ocupação de paisagens especiais de um Rio de 
Janeiro que se construía aos poucos, para se tornar, por mais de um século, uma prodigiosa 
As transformações do Rio de Janeiro: a nova capital
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência
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capital do Brasil. A musicalidade, a religiosidade, tudo isso estava presente nas imagens 
legadas a nós. Essas imagens construíram uma representação sobre o Brasil, que se baseia 
no olhar europeu. E o flagelo da escravidão continuaria vivo e seria, por muitas décadas, 
o elemento edificante da economia nacional – mesmo quando inúmeros países já a haviam 
abandonado.
 Ampliando seus conhecimentos
O texto a seguir pode nos ajudar a construir algumas relações históricos 
importantes para nosso ofício. Dentre elas, a capacidade que precisamos 
ter de estabelecer relações entre o presente e o passado e construir rela-
ções de causa e efeito. Pense nisso ao longo desta leitura.
A cidade corte: o Rio de Janeiro no 
início do século XIX
(BARRA, 2015)
Resumo
A instalação da corte portuguesa no Rio de Janeiro em 1808, e a transfor-
mação da capital da colônia em sede do Império Português, propiciou 
uma série de transformações tanto no aspecto físico da cidade quanto no 
comportamento de seus habitantes. Se, por um lado, a partir de então o 
Rio de Janeiro deveria ser a expressão do poder real e do grau de civili-
zação do Império Português; por outro lado, a construção dessa Europa 
possível nos trópicos apresentava limites. O presente artigo aborda esse 
momento crucial da história urbana do Rio de Janeiro, chamando a aten-
ção para a coexistência de duas formas distintas de sociabilidade como 
expressões de duas cidades que, apesar de divergentes e mesmo anta-
gônicas, apresentavam necessários pontos de contato e de circularidade 
cultural por dividirem o mesmo espaço.
[...]
1 Introdução
Há pelo menos cinco anos, os moradores do Rio de Janeiro têm convivido 
com um grande volume de obras levadas a cabo pelos governos munici-
pal e estadual sob o pretexto de preparar a cidade para receber os “mega-
eventos” que já começaram a acontecer. Os principais dos quais, a Copa 
As transformações do Rio de Janeiro: a nova capital6
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência88
do Mundo de Futebol da FIFA, realizada no ano passado, e que teve o 
Rio de Janeiro como uma das suas cidades-sede; e as Olimpíadas, a serem 
realizadas exclusivamente na cidade em 2016. No meio dos quais, a come-
moração dos 450 anos da cidade, neste ano, se tornou um mero detalhe. 
Esta preparação da cidade tem transformado e, como não podia deixar 
de ser, transtornado o cotidiano dos moradores, com medidas tais como 
uma reorganização geral das linhas de ônibus e a abertura de novas ave-
nidas rasgando bairros tradicionais e levando embora, junto com o casario 
antigo, parte da própria memória da cidade e de seus habitantes. Com a 
promessa de que o legado que essas obras deixarão para os moradores 
compensará todo o transtorno presente.
Em outros momentos da história da cidade, outros “megaeventos” tam-
bém exigiram intervenções que sacudiram o cotidiano dos moradores. 
Muitas vezes, sacudindo-os de suas próprias casas. O mais lembrado 
dos quais, as reformas urbanas do prefeito Pereira Passos, no começo do 
século XX. O “bota-abaixo”, que deu origem ao período da história da 
cidade que ficou conhecido como belle époque. Mas aquele que pode ser 
considerado o primeiro “megaevento” realizado no Rio de Janeiro acon-
teceu ainda no início do século XIX. A instalação da corte portuguesa no 
Rio de Janeiro em 1808 desencadeou uma série de mudanças na capital 
da colônia portuguesa da América que visavam adequar a cidade à sua 
nova função: a de sede do novo Império Português recriado na América 
de acordo com projetos longamente acalentados por letrados e estadistas 
portugueses. Nesse período a cidade viu um aumento significativo no seu 
número de habitantes que, segundo alguns autores, praticamente dobrou 
entre 1808 e 1821, incrementado pelos incontáveis emigrados portugueses, 
por europeus de diversos outros países e por habitantes de outras capita-
nias que não cessaram de chegar ao longo dos treze anos de permanência 
da corte portuguesa no Rio de Janeiro. Assim como também não cessaram 
de chegar novas levas de escravos vindos da África e, também, de outras 
capitanias. No que diz respeito ao aspecto físico da cidade, o aumento no 
número de habitantes impulsionou a expansão dos limites geográficos do 
núcleo urbano; demandou um grandeinvestimento em obras de melhoria 
da precária infraestrutura da cidade; suscitou a preocupação com a apa-
rência na construção dos imóveis; e determinou a refuncionalização de 
diversos espaços tradicionais da cidade no intuito de abrigarem os servi-
ços do Paço e órgãos da administração do Império Português.
Mas, adequar a cidade à sua nova condição de corte não significava ape-
nas atender a essas necessidades de caráter pragmático. Como nova corte 
real o Rio de Janeiro deveria ser a expressão do poder da monarquia e 
As transformações do Rio de Janeiro: a nova capital
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência
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do grau de civilização do Império Português, segundo a representação 
que seus habitantes faziam da cidade a partir de então. Transformá-la em 
corte significava estabelecer aí uma sociedade de corte, com seus espaços 
e formas de sociabilidade próprios, copiados das cortes europeias, conde-
nando hábitos e costumes oriundos do período colonial como inadequa-
dos à nova condição alcançada pela cidade, ao mesmo tempo em que se 
buscava difundir na nova capital do Império os elementos daquilo que era 
considerado um ideal europeu de civilização.
O Padre Luís Gonçalves dos Santos, um dos principais cronistas do rei-
nado de D. João na América, nas suas Memórias para Servir à História do 
Reino do Brasil faz um elogio daqueles que ele considera os principais atos 
administrativos do monarca português durante a sua permanência no Rio 
de Janeiro. Na sua interpretação, tais medidas teriam o intuito de tirar a 
colônia da situação de barbárie em que até então jazia, como se aquele 
estado de coisas não tivesse sido obra da própria Coroa portuguesa:
 Tudo isto vemos hoje, senão com admiração, porque estas coisas 
insensivelmente se fazem diante dos nossos olhos, certamente 
com gratidão à augusta presença do senhor D. João VI, com a 
qual este país de rude, e agreste vai aos poucos povoando-se, civi-
lizando-se, e embelecendo-se, bem como depois de um rigoroso 
inverno se anima, reverdece e floresce a natureza com a chegada 
da risonha primavera. (...) Mas, apenas chegou Sua Majestade, 
quando logo franqueou o comércio, permitiu a indústria, facul-
tou as artes, e ciências, admitiu os estrangeiros, mandou abrir 
estradas, facilitou a comunicação dos povos e, entre outros bens, 
que nos concedeu, promoveu a civilização. Ora todos sabem 
quanto poder tem ela sobre os homens, e sobre o terreno, que eles 
habitam, por mais rudes e bárbaros que tivessem sido. (SANTOS, 
1981, p. 122)
Como explica o sociólogo alemão Norbert Elias, o conceito de civilização 
resumiria tudo em que a sociedade ocidental, desde o século XVIII, se jul-
gava superior a sociedades mais antigas ou a sociedades contemporâneas, 
porém mais primitivas (ou menos civilizadas). Dessa forma, tal conceito 
expressaria, antes de qualquer coisa, “a consciência que o Ocidente tem 
de si mesmo” (ELIAS, 1993, p. 23). Porém, civilização não seria apenas 
um estado, mas sobretudo um processo. Na virada do século XVIII para 
o XIX, os países europeus consideravam o processo de civilização como 
terminado em suas próprias sociedades. Nesse momento em que a cons-
ciência da civilização, vale dizer, a consciência da superioridade de seu 
As transformações do Rio de Janeiro: a nova capital6
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência90
próprio comportamento e sua corporificação na ciência, tecnologia ou 
arte começou a se espraiar pelas nações europeias, estas, se autodefinindo 
como nações civilizadas, atribuíram a si próprias o papel de transmissoras 
a outrem dessa mesma civilização. Elias estuda o processo civilizador em 
termos de um processo de transformação do comportamento humano.
O controle dos sentimentos individuais pela razão e a elevação do pata-
mar de sentimentos como vergonha e repugnância eram sinais específicos 
de fases particulares da marchada civilização. Esse autor mostrou como a 
sociedade de Corte, através de suas normas de etiqueta a serem observa-
das por todos aqueles que dela faziam parte (inclusive o rei), ocuparia um 
papel central nesse processo de controle das pulsões, emoções e afetos, e 
de interiorização individual das proibições sociais, que constitui o pro-
cesso civilizador. Dessa forma, da transferência da corte portuguesa para 
o Rio de Janeiro e a instalação de uma sociedade de corte teria o efeito de 
impulsionar aqui esse processo civilizador. [...]
 Atividades
1. Uma das características que envolvem o processo da vinda da Família Real portu-
guesa para o Brasil é o imaginário sobre a presença de uma corte europeia no Brasil. 
Quais aspectos podem ser destacados sobre esse tema?
2. As mudanças sociais e culturais do Rio de Janeiro pós-Dom João VI passavam tam-
bém por um processo de disciplinarização da sociedade. Explique.
3. No caso da adaptação do Rio de Janeiro à presença da corte de Dom João VI, é possí-
vel afirmar que isso gerou mudanças significativas na cidade, que afetam até os dias 
de hoje o imaginário que se tem do Rio de Janeiro. Aborde essa questão.
 Referências
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intervenções no século XIX. In: Seminário de história da cidade e do urbanismo, 13., 2014, Brasília. 
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As transformações do Rio de Janeiro: a nova capital
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência
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Disponível em: <http://www.revistadehistoria.com.br/secao/reportagem/o-outro-lado-de-1808>. 
Acesso em: 1 fev. 2017.
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 Resolução
1. Um dos elementos a serem abordados aqui é que havia toda uma expectativa em 
relação à chegada da corte, já que esta significava para uma série de habitantes da 
colônia um modelo de hábitos e cultura. Sendo assim, a presença da corte por aqui 
representava a possibilidade de essa população ter contato com uma gama de hábi-
tos e rituais que até então habitavam apenas seu imaginário.
2. Uma das necessidades nessa época era justamente garantir que os hábitos tidos 
como coloniais, ou seja, ultrapassados e não condizentes com a época nova que se 
inaugurava com a presença de Dom João VI e a corte, fosse superada. Isso significa-
va, inclusive, regulamentar formalmente uma série de regras e determinações para 
garantir que a cidade fosse adaptada a suas novas funções.
As transformações do Rio de Janeiro: a nova capital6
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência92
3. Com a vinda de Dom João VI a cidade sofreu grandes impactos desde sua estrutura 
urbana passando por suas instituições culturais. Isso colocou o Rio de Janeiro em 
um papel ativo na sociedade brasileira e se construiu uma forte representação da 
cidade como expressão de grande brasilidade, que impera até os dias de hoje. É im-
portante que imaginemos como um processo desse porte pode ser comparado com 
as transformações urbanas decorrentes de grandes eventos como a Copa do Mundo 
e as Olimpíadas atualmente.
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência 93
7
Elites e povo: laços e 
distanciamentos
[...] para compreender a relação do Estado imperial brasileiro com suas elites é necessário am-
pliar a abordagem para além das relações bipolares, considerando as múltiplas direções que 
apresenta. Ao contrário do que caracteriza essas interpretações historiográficas, que em geral 
analisam a formação das elites situando-a nos anos de 1830- 1840, torna-se fundamental buscar 
sua história antes do século XIX, considerando as relações de continuidade e as imbricações 
permanentes entre Estado e sociedade, entre o público e o privado, entre o central e o regio-
nal, entre a prática política e os interesses econômicos individuais ou coletivos. (MARTINS, 
2007, p. 34)
Neste capítulo abordaremos as relações entre as elites e o povo na construção do 
estado nacional brasileiro, no século XIX. Para isso, trataremos de algumas questões 
conceituais relevantes sobre a formação dessa elite ao longo do Brasil Colônia, apon-
tando alguns pensadores que foram fundamentais para o entendimento desse pro-
cesso histórico.
Posteriormente, discorreremos a respeito das características culturais e sociais que 
envolvem essas elites. Quem são elas? Qual sua origem? Onde estudaram? Qual o 
impacto de sua formação? Por fim, apresentaremos algumas características que as tor-
nam um tanto quanto plurais e diversificadas, algo essencial para compreendermos o 
Brasil do século XIX.
Tiago Rattes de Andrade
Elites e povo: laços e distanciamentos7
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência94
7.1 As raízes da formação de nossas elites
Um dos grandes desafios da historiografia é entender como constituí-
mos nossas próprias elites políticas ao longo da história. Durante o século 
XVI e em parte do século XVII, o Brasil recebia substancialmente portugue-
ses, que para cá vinham na tentativa de construir riqueza. Aos poucos uma 
mudança demográfica considerável passa a ser notada: nossa própria po-
pulação se formava, de pessoas nascidas na colônia e não mais em Portugal. Se em outro 
momento a elite local era composta essencialmente por europeus, a partir de determinado 
momento ela passa a ser composta por pessoas nascidas em terras brasileiras, com outros 
vínculos sociais, culturais e políticos.
Ao longo do século XVIII, uma série de movimentos políticos eclodiu na colônia, os 
quais questionavam a relação da metrópole com a colônia e tinham inspiração em ideias 
liberais. Era o século das luzes, e apareciam pela primeira vez as elites locais, com reivin-
dicações próprias. Esse foi um momento marcante, que nos aponta justamente o surgimen-
to e fortalecimento dessa elite política cada vez mais local e com interesses próprios. Dois 
movimentos ganharam muito destaque na historiografia e também no senso comum: a 
Inconfidência Mineira e a Conjuração Baiana, tanto por suas semelhanças quanto por suas 
diferenças. Ambos os movimentos reivindicavam uma nova relação entre Brasil e Portugal. 
Questionavam duramente o pacto colonial, e, no caso da Conjuração Baiana, havia também 
uma clara posição contrária à escravidão. Ao tratarmos desses movimentos é inevitável pen-
sarmos no papel desses novos atores políticos.
Cabe dizer que ao longo desse processo histórico uma série de características dessas 
elites seria determinante para entendermos nossa própria história. A fim de que possamos 
analisar isso de maneira mais objetiva, é importante nos voltarmos ao nosso passado, ao 
início do processo de colonização. Obviamente esse é um tema complexo, ao qual muitos 
pesquisadores têm se dedicado. Porém, é interessante que enfoquemos algumas teorias clás-
sicas de abordagem desse processo.
Para fins de organização de conhecimento, selecionamos aqui dois autores que aca-
baram por ajudar a constituir duas grandes correntes de pensamento muito importantes 
para a historiografia durante décadas. Trataremos da obra de Caio Prado Júnior e de Sérgio 
Buarque de Holanda, os quais explicaram, de maneiras diferentes, o processo de formação 
do Brasil Colônia e, por consequência, a ação de nossas elites. Embora sejam explicações 
de caráter distinto, é importante salientarmos que não são olhares excludentes e, inclusi-
ve, muitos pesquisadores procuram dialogar com o tipo de conhecimento produzido por 
ambos.
Caio Prado Júnior foi pioneiro ao construir um grande modelo explicativo acerca do 
processo de colonização do Brasil, apoiado no marxismo. Sendo assim, sua base de análi-
se preocupa-se centralmente com os aspectos econômicos da sociedade. O grande desafio 
colocado por esse autor é entender como a economia, especificamente o pacto colonial, de-
finiu os rumos históricos do Brasil em sua colonização. Uma das características desse olhar 
Vídeo
Elites e povo: laços e distanciamentos
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência
7
95
marxista sobre a história baseia-se na concepção do materialismo histórico, em que a his-
tória da humanidade pode ser percebida pela sucessão de regimes econômicos e pela luta 
de classes. Essa abordagem influenciou as questões que esse autor procurou responder ao 
longo de suas teses.
Para Caio Prado, há um “sentido da colonização”, o qual diz respeito à lógica de que a 
colônia serve exclusivamente como fonte de exploração para a metrópole. Sendo assim, não 
existiria nenhum tipo de acumulação de capitais no Brasil, e toda riqueza era deslocada para 
a metrópole.
Sem acumulação e tendo como único objetivo atender os interesses materiais da me-
trópole, o papel da elite local seria apenas o de reproduzir esse sistema de exploração. Por 
consequência, não há o que se falar sobre projetos locais significativos de poder, visto que 
a elite local é parte do projeto de poder da metrópole. A tese do “sentido da colonização” 
influenciou muitos historiadores brasileiros, que procuraram dar continuidade às ideias de 
Caio Prado ou mesmo aperfeiçoá-las – é o caso de grandes nomes como Fernando Novais e 
Ciro Flamarion Cardoso.
Todo povo tem na sua evolução, vista à distância, certo “sentido”. Este se per-
cebe não nos pormenores de sua história, mas no conjunto dos fatos e aconteci-
mentos essenciais que a constituem num largo período de tempo. Quem observaaquele conjunto, desbastando-o do cipoal de incidentes secundários que o acom-
panham sempre e o fazem muitas vezes confuso e incompreensível, não deixará 
de perceber que ele se forma de uma linha mestra e ininterrupta de acontecimen-
tos que se sucedem em ordem rigorosa, e dirigida sempre numa determinada 
orientação. É isso que se deve, antes de mais nada, procurar quando se aborda a 
análise da história de um povo, seja, aliás, qual for o momento ou o aspecto dela 
que interessa, porque todos os momentos e aspectos não são senão partes, por si 
só incompletas, de um todo que deve ser sempre o objetivo último do historia-
dor, por mais particularista que seja. (PRADO JÚNIOR, 2011, p. 15)
Essa característica de modelo de colonização explicaria, segundo Caio Prado Júnior e 
seus seguidores, parte dos problemas do desenvolvimento brasileiro. Teríamos uma elite que 
desde os tempos coloniais era habituada a ser parte de um processo de acumulação externa. 
Embora Caio Prado considere que o século XIX abrira uma série de transformações relevantes 
para a construção do Brasil, na prática é esse “sentido” do papel da elite que acaba dando o ca-
ráter do modelo político e econômico que virá após a Independência. Isso explicaria a manu-
tenção da escravidão, do latifúndio e de um forte modelo de dependência externa. Uma nova 
nação surge, porém sua elite local ainda está atrelada aos interesses internacionais, fazendo 
do Brasil apenas parte de um ciclo de exploração. É justamente isso que explicaria nosso atraso 
e subdesenvolvimento.
Sérgio Buarque de Holanda, por sua vez, foi responsável por outra tradição de pen-
samento, inspirada em conceitos mais próximos das ideias de Max Weber, por exemplo. 
O centro de sua análise, embora considere também aspectos econômicos, preocupa-se em 
abordar elementos culturais que ajudam a explicar o perfil de nossas elites na colônia e como 
elas mesmas se inserem no século XIX. Um dos conceitos fundamentais trazido por ele é o 
Elites e povo: laços e distanciamentos7
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência96
de patrimonialismo, um dos mais utilizados pelo pensamento social brasileiro nas últimas dé-
cadas. Basicamente, exprime a não separação dos interesses privados dos negócios públicos, 
fato que seria responsável por boa parte dos problemas brasileiros e operaria fortemente 
devido a uma herança ibérica. Em monarquias da península ibérica, seria usual que os ne-
gócios públicos fossem conduzidos de forma a beneficiar os interesses privados daqueles 
que estavam à sua frente. Essa prática geraria uma grande dificuldade de separação entre 
público e privado em nossa cultura política. Isso explicaria em boa parte as questões histó-
ricas de corrupção e apropriação indevida dos recursos do Estado por parte de nossas elites 
políticas.
Outra particularidade do pensamento de Sérgio Buarque de Holanda que explica o 
comportamento dessa elite e nos ajuda a entender parte dos dilemas do Brasil até os dias de 
hoje é a ideia do homem cordial. A cordialidade em questão não se trata da bondade, mas 
sim da propensão do brasileiro a resolver as questões públicas no âmbito privado, o que en-
fraqueceria bastante o interesse e a esfera públicos e fortaleceria sempre os mais poderosos. 
Em vez de recorrermos ao Estado e às leis que poderiam nos proteger, tenderíamos a buscar 
soluções por meio de “conhecidos” e “padrinhos” poderosos, os quais, por terem algum 
tipo de relação de poder, seriam capazes de resolver os problemas, usando de sua influên-
cia. A consequência dessa prática de cordialidade é justamente o constante enfraquecimento 
do público em detrimento do privado. Isso torna a população pobre ainda mais vulnerável, 
em um contexto de desigualdade.
Já se disse, numa expressão feliz, que a contribuição brasileira para a civilização 
será de cordialidade — daremos ao mundo o “homem cordial”. A lhaneza1 no 
trato, a hospitalidade, a generosidade, virtudes tão gabadas por estrangeiros que 
nos visitam, representam, com efeito, um traço definido do caráter brasileiro, 
na medida, ao menos, em que permanece ativa e fecunda a influência ancestral 
dos padrões de convívio humano, informados no meio rural e patriarcal. Seria 
engano supor que essas virtudes possam significar “boas maneiras”, civilidade. 
São antes de tudo expressões legítimas de um fundo emotivo extremamente rico 
e transbordante. Na civilidade há qualquer coisa de coercitivo — ela pode expri-
mir-se em mandamentos e em sentenças. Entre os japoneses, onde, como se sabe, 
a polidez envolve os aspectos mais ordinários do convívio social, chega a ponto 
de confundir-se, por vezes, com a reverência religiosa. (HOLANDA, 1995, p. 146)
A cordialidade brasileira também tem como característica uma afetividade acima da 
racionalidade. Ao invés de pautarmos as relações por meio de elementos objetivos e racio-
nais, como, por exemplo, escolher um político que seja mais preparado para suas funções e 
tenha uma reputação digna do interesse público, seria uma constante em nossa história que 
as relações de afeto substituam essas características. Essa propensão à afetividade explicaria 
a manutenção de relações clientelares, a ascensão de governos populistas e até mesmo o 
caráter autoritário de alguns de nossos governos.
A tese do homem cordial ajudou a construir outras teses que explicam a formação e o 
comportamento de nossas elites. Um exemplo é a formulação de Roberto DaMatta (1986) 
1 Lhaneza: afabilidade, candura, simplicidade.
Elites e povo: laços e distanciamentos
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência
7
97
sobre o “jeitinho brasileiro” e o argumento de autoridade pautado no “você sabe com quem 
está falando?”, muito difundidos no Brasil. Para esses autores, a prevalência dos aspectos 
privados sobre o público na sociedade brasileira ajuda a construir uma cultura de resolução 
de conflitos e problemas fora das instituições. Por isso seria tão importante a constituição de 
influência e apadrinhamento.
Uma série de outras teses nas últimas décadas dialogaram com essas vertentes, contri-
buindo, e muito, para entendermos de forma mais complexa a formação da elite brasileira. 
Porém o que nos importa assinalar aqui é que a consolidação dessa elite ao longo do século 
XVIII e no início do XIX passou por relações internas e externas que foram decisivas para 
determinar seu caráter.
A economia, a cultura e a política são fatores que precisam ser compreendidos de 
maneira encadeada, para que tenhamos um olhar mais completo e crítico sobre os pas-
sos dados por esses grupos na construção de processos políticos tão fundamentais como a 
Independência.
7.2 Aspectos sociais e culturais da elite brasileira
A economia, sem dúvida, é ponto crucial para garantir que um grupo 
social conquiste um espaço de elite. Condições materiais, posse de recur-
sos, tudo isso ajuda, e muito. Porém é fundamental conhecermos como esses 
grupos pensam e aprender um pouco mais sobre a formação cultural que 
receberam.
Ao longo do processo de colonização no Brasil, não havia aqui instituições educacio-
nais, principalmente na etapa inicial. Não existia a educação fundamental, e muito menos a 
formação superior, o que deixava homens livres pobres fora de qualquer processo educacio-
nal formal, e o mesmo acontecia com os escravos. Aliás, convém lembrar que, em boa parte 
de nossa história, era considerado crime alfabetizar um escravo.
Uma alternativa para as famílias da elite local era encaminhar um de seus filhos para a 
carreira eclesiástica. Ter um membro da família no clero poderia também constituir relações 
de poder significativas além de garantir instrução adequada e um grau relevante de cultura.
Aos que buscavam uma carreira secular no Brasil deveriam tomar o rumo da Europa 
para obter uma formação superior de qualidade. A maioria deles ia estudar na Universidade 
de Coimbra, em Portugal, e o principal curso ambicionado por esses jovens ricos era o de 
Direito. Esse era o campode conhecimento mais amplo e relevante no período, o que fazia 
com que a maior parte dessas famílias sonhasse em tornar seus filhos bacharéis. Esse é um 
dado relevante e que viria a definir em muitos aspectos os caminhos do Brasil.
A Universidade de Coimbra havia passado por transformações curriculares significati-
vas, impulsionadas pelas reformas do Marquês de Pombal, em meados do século XVIII. O 
objetivo de Pombal, então primeiro ministro de Portugal, era impulsionar o desenvolvimen-
to da nação, buscando criar condições favoráveis ao crescimento e fortalecimento de insti-
tuições mais dinâmicas e modernas. Para isso, um de seus focos era justamente a formação 
Vídeo
Elites e povo: laços e distanciamentos7
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência98
universitária em Portugal. Como já mencionamos, a Europa vivia o “século das luzes”; as 
ideias iluministas transitavam, e era necessário que esse reino de alguma forma se apro-
priasse do imaginário liberal do período.
A formação que os filhos da elite brasileira tiveram em Coimbra foi fundamental para 
fornecer o repertório cultural determinante nos rumos que a nação tomou ao longo do século 
XIX. Em especial durante o processo da independência brasileira, a unidade de pensamento 
dessa elite seria fundamental para o sucesso do modelo de nação que viria a surgir. Essa é 
parte da tese central do historiador José Murilo de Carvalho; para ele, conhecer a formação 
comum que esses filhos da elite tiveram é essencial à compreensão de como, no século XIX, 
eles se movimentaram no sentido de construir as bases políticas e sociais do Império.
Elemento poderoso de unificação ideológica da elite imperial foi a educação 
superior. E isto por três razões. Em primeiro lugar, porque quase toda a elite 
possuía estudos superiores, O que acontecia com pouca gente fora dela: a elite 
era uma ilha de letrados num mar de analfabetos. Em segundo lugar, porque 
a educação superior se concentrava na formação jurídica e fornecia, em conse-
quência, um núcleo homogêneo de conhecimentos e habilidades. Em terceiro 
lugar, porque se concentrava, até a Independência, na Universidade de Coimbra 
e, após a Independência, em quatro capitais provinciais, ou duas, se considerar-
mos apenas a formação jurídica. A concentração temática e geográfica promovia 
contatos pessoais entre estudantes das várias capitanias e províncias e incutia 
neles uma ideologia homogênea dentro do estrito controle a que as escolas su-
periores eram submetidas pelos governos tanto de Portugal como do Brasil. 
(CARVALHO, 1980, p. 65)
Uma das características da formação em Direito na Universidade de Coimbra era o 
jusnaturalismo, ou direito natural. O intuito do Marquês de Pombal ao instituir esse modelo 
era contrapor-se à escolástica, até então predominante na formação educacional ibérica. A 
doutrina jusnaturalista procurava distinguir entre aquilo que era razoável ou não como for-
ma de orientar o justo nas decisões políticas. A fundamentação jurídica de uma sociedade 
deveria buscar naturalmente o que fosse mais adequado, racional e equilibrado, ao mesmo 
tempo em que se respeitassem as instituições e tradições.
Essa influência do pensamento jusnaturalista nos permite compreender o comportamen-
to das elites políticas brasileiras em momentos como a construção da primeira Constituição 
Brasileira, de 1824. Embora essa Constituição traga algumas inovações, como a separação 
dos três poderes e a noção de governo representativo, ela mantém o regime de propriedade 
latifundiária e a escravidão.
Além da formação universitária, destacamos que o século XVIII teve grande importância 
para a questão cultural. Nessa época, consolidou-se a ideia de que um homem de elite deve-
ria ser um homem culto, disposto ao estudo das Ciências, como Matemática e Astronomia, 
mas também conhecedor de artes como o teatro e a música. Em regiões com maiores núcleos 
urbanos no Brasil Colônia, era intensa a produção artística e cultural. Podemos destacar, 
além da literatura, a consolidação do barroco brasileiro nessa época.
Elites e povo: laços e distanciamentos
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência
7
99
Parte significativa dessa arte vinha da Europa, que era considerada o grande centro cul-
tural do mundo nesse período. Ainda assim, é possível notarmos o crescimento da produção 
local em vários campos artísticos e culturais, que deixariam marcas fundamentais ao longo 
do século XIX.
7.3 A pluralidade da elite brasileira no século XIX
Embora a elite brasileira do século XIX estivesse coesa no seu projeto de 
construção de uma grande nação continental e escravocrata, havia algumas 
nuances em suas características políticas, sociais e culturais. Apresentaremos 
algumas teses que são centrais na compreensão das características desses 
grupos no Brasil, compreendendo a transição do século XVIII para o XIX.
Ao longo do século XIX, a atividade cafeicultora firmou-se como ponto forte da econo-
mia brasileira, constituindo, em algumas regiões do Brasil, uma poderosa e rica elite. Dessa 
elite cafeicultora destacou-se uma série de figuras proeminentes da política brasileira, com 
atuação direta nos eventos mais relevantes dessa área em nossa história.
Uma das teses que aponta essa relevância dos cafeicultores para a política brasileira 
na época é de Ilmar Rohloff de Mattos, O tempo Saquarema (MATTOS, 1990). Nessa obra, o 
autor mostra como o grupo dos Saquaremas, especificamente do Rio de Janeiro, detentor de 
poderio econômico, construiu uma hegemonia política decisiva para o Império. Mattos trata 
do conceito de classe dirigente para explicar como tal grupo constituiu sua hegemonia, em 
um sentido gramsciano2.
não deixamos de “deslocar” ou “ampliar” o conceito de dirigentes (propria-
mente falando, de dirigentes saquaremas), os quais não mais se restringem aos 
“empregados públicos” encarregados da administração do Estado nos seus dife-
rentes níveis. Por dirigentes saquaremas estamos entendendo um conjunto que 
engloba tanto a alta burocracia imperial [...] quanto os proprietários rurais locali-
zados nas mais diversas regiões e nos mais distantes pontos do Império, mas que 
orientam suas ações pelos parâmetros fixados pelos dirigentes imperiais, além 
dos professores, médicos, jornalistas, literatos e demais agentes “não públicos” – 
um conjunto unificado tanto pela adesão aos princípios de Ordem e Civilização 
quanto pela ação visando a sua difusão. (MATTOS, 1990, p. 15-16)
2 Segundo Ana Rodrigues Cavalcanti Alves, “Gramsci afirma que é muito comum um determinado 
grupo social, que está numa situação de subordinação com relação a outro grupo, adotar a concepção 
do mundo deste, mesmo que ela esteja em contradição com a sua atividade prática” (ALVES, 2010, p. 
74). De acordo com Gramsci, “esta concepção do mundo imposta mecanicamente pelo ambiente exte-
rior é desprovida de consciência crítica e coerência, é desagregada e ocasional. Dessa adoção acrítica 
de uma concepção do mundo de outro grupo social, resulta um contraste entre o pensar e o agir e a 
coexistência de duas concepções do mundo, que se manifestam nas palavras e na ação efetiva” (AL-
VES, 2010, p. 74).
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Elites e povo: laços e distanciamentos7
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência100
A tese de Mattos aborda a importância da economia para o fortalecimento dessa elite, 
mas expõe também o papel que os setores culturais tinham na perpetuação desse poder. Um 
ponto muito interessante é que os Saquaremas seriam parte fundamental no enfrentamento 
dos interesses dos Luzias, grupo político mais alinhado aos portugueses.
Por outro lado, estudos atuais mostram que esse poder das elites estava mais espalhado 
ao longo do território, não ficando restrito apenas ao Rio de Janeiro. Além disso, a atividade 
cafeicultora não era a única que sustentava essa elite; hoje existem pesquisas que mostram a 
relevância dos pecuaristas e dos agricultores de outras culturas. Essas figuras,espalhadas pelo 
território nacional, também foram importantes para o jogo político e a construção do Império.
Por sua vez, trabalhos como A velha arte de governar, de Maria Fernanda Vieira Martins 
(2007), também mostraram que, além dos interesses econômicos, essas elites precisavam 
ordenar uma série de interesses locais, que incluíam atender as demandas de suas redes 
sociais e familiares. Ou seja, ao pensarmos a atuação das elites, devemos pensar também na 
dimensão micro. Nesse sentido,
[...] a prática relacional extrapola seu sentido exclusivamente econômico, ligado 
à necessidade de estabelecer alianças vantajosas do ponto de vista material ou 
de manutenção dos bens e propriedades da família, para assumir o sentido de 
busca de uma maior previsibilidade e mesmo interferência no ritmo dos aconte-
cimentos. É exatamente essa abordagem que abre espaço para a atuação direta e 
o estabelecimento de estratégias, sejam individuais ou de grupos. A necessidade 
da montagem dessas estratégias tornava-se mais premente quanto mais se dis-
tanciava a esfera de decisão, o que ocorria com a progressiva centralização do 
poder dos Estados nacionais em formação. Essa situação gerava maior insegu-
rança, porém, por outro lado, provocava, no nível local, a necessidade constante 
de adaptação dessas famílias, de reorganização de poder e criação de vias de 
acesso à informação. (MARTINS, 2007, p. 29)
Dito isso, podemos fazer um gancho interessante para entender justamente essas rela-
ções entre elites e povo. Uma das tradições brasileiras é a do poder local, e, para o estabele-
cimento desse poder, é fundamental que se constituam as chamadas relações clientelares. O 
fenômeno do clientelismo, diga-se de passagem, não é exclusivo do Brasil. Remonta a prá-
ticas antigas, inclusive na Europa. A relação entre proprietários de terra e não proprietários 
geralmente demarca o clientelismo: aquele que não tem a posse da terra acaba tendo de se 
submeter àquele que tem, seja por meio de seu trabalho ou da lealdade política.
Se por um lado o membro da elite, proprietário de terras, explorava os não proprietá-
rios, existiam também obrigações implícitas nessa relação. Muitas vezes isso envolvia prote-
ção, segurança e auxílio em momentos difíceis, como doença e morte. Esses vínculos acaba-
ram por marcar historicamente as relações sociais no Brasil, com impactos relevantes até os 
dias de hoje, inclusive na política.
Por fim, cabe reiterar que o perfil ambíguo dessas elites brasileiras é determinante para 
entendermos o processo que viria posteriormente, com a Independência. Uma elite que busca 
algumas modernizações porém faz de tudo para evitar grandes transformações na sociedade.
Elites e povo: laços e distanciamentos
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência
7
101
 Ampliando seus conhecimentos
O texto a seguir tem como objetivo apresentar uma possibilidade de 
entendermos como funcionavam os debates entre a elite política brasileira 
do século XIX. A pesquisa aponta como esses homens percebiam a repre-
sentação política e organizavam seus argumentos na tentativa de ampliar 
ou reduzir os meios de participação no período. Convém observarmos 
como o pensamento político desses homens vai se construindo.
“Da Excelência e das vantagens”: 
o direito ao voto em debate no 
Conselho de Estado Imperial
(ANDRADE, 2012, p. 241-249)
O debate sobre nação sempre foi um grande desafio para os historiadores. 
Mais especificamente – no caso brasileiro – a nação (e sua gênese) está 
diretamente relacionada à construção de um Império. Um projeto amplo, 
grandioso e gestado por décadas através da interação entre diversos ato-
res daquela sociedade.
Menos nos interessa aqui esse processo, mas sim o seu resultado, que por 
sua vez é importante para a compreensão do caráter desse império. Falo 
aqui de uma sociedade complexa.
Um estado-nação de dimensões continentais, onde a unidade territorial se 
manteve para além da simples ideia de força ou coesão. Trata-se de uma 
rede de relações políticas, instituições múltiplas, espaços de sociabilidade, 
elementos de interação entre indivíduos, significação e ressignificação de 
práticas e relações sociais diversas que envolviam a constante transforma-
ção política, social e cultural. Sendo assim,
 considera-se o Estado como uma instância do político, por sua 
vez interpretado não como um domínio isolado da realidade, 
mas como “o lugar onde se articula o social e sua representa-
ção, a matriz simbólica na qual a experiência coletiva se enra-
íza e se reflete por sua vez”. Assim, também o próprio Estado 
torna-se um espaço onde se desenvolve uma dinâmica própria, 
uma instância em que se inserem as relações sociais e políticas 
presentes na sociedade, considerando-se o papel do indivíduo 
e sua capacidade de ação, ou, como diz Norbert Elias, segundo 
Elites e povo: laços e distanciamentos7
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência102
uma interpretação que tem como elemento central os atores e 
suas redes de relacionamentos, e não as ações despersonificadas. 
(MARTINS, 2007, p. 24)
Esse brainstorm de ideias sobre nação serve aqui apenas para evidenciar 
e tentar marcar de forma enfática que tratamos de uma sociedade muito 
mais complexa que a historiografia tradicional conseguiu retratar.
Aqui não há o interesse em levantar autores para referendar posições 
assumidas em um puro e simples argumento de autoridade, mas sim 
de erguer uma preocupação em apresentar caminhos que nos auxiliem 
a compreender através de outros autores como a sociedade do XIX, em 
especial sua elite, não pode ser tratada de forma singular, assim como 
a dinâmica de suas interações com o estado e outros atores. Esse estado 
resignifica e se apropria constantemente um passado,
 Contudo, não há mais uma distância entre aquele que exerce 
algum poder político sobre os outros, e aquele que está isento 
de algum tipo de controle das condutas. Enfim, aquela metáfora 
do corpo não é mais tomada como simples analogia funcionalista 
(segundo a qual apenas um concebe as ordens e os demais exe-
cutam), porque o corpo social depende agora de uma ética para 
ser também o lugar de exercício do poder político: a moderação 
das paixões aparece como uma nova função do governo político. 
(OLIVEIRA, 2005, p. 63)
Se o tema do estado nacional nos é caro, não menos o é o do estudo das 
elites políticas. As perspectivas tradicionais sempre dedicaram um olhar 
pejorativo, muitas vezes anacrônico sobre as elites. Tratadas quase sem-
pre como “reacionárias”, “conservadoras” ou apenas ocupadas com a 
manutenção do status quo, em muitos estudos clássicos da historiografia 
brasileira foram assim tratados.
Nas últimas décadas boa parte da interpretação da ação das elites polí-
ticas e do caráter do governo monárquico foi pautada basicamente por 
duas interpretações. De um lado a perspectiva da “elite por formação”, 
edificada através da obra de José Murilo de Carvalho (1980) e a perspec-
tiva gramsciana de Ilmar Rohloff de Mattos (1990).
Ambas as interpretações foram fundamentais para a historiografia em 
determinado momento, sendo assim, não se trata da refutação de obras 
que são importantes e merecem apreço, mas da necessidade de análise 
Elites e povo: laços e distanciamentos
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência
7
103
crítica e a busca de responder a novas questões muitas vezes trazidas 
pelas fontes primárias e novos paradigmas. Não se trata aqui de buscar 
uma “reabilitação” das elites brasileiras do XIX, mas sim analisá-las den-
tro dos seus marcos temporais. Estudos recentes tem buscado dar conta 
desse desafio de retratar o papel das elites políticas diante o governo 
monárquico brasileiro dentro de uma lógica diferente, como o caso de tra-
balhos de Dolnikhof (2009) onde a preocupação central é redimensionar 
a ideia de representação política dentro da lógica do século XIX e dessa 
forma compreender a ação e funcionamento desses governos atravésda 
lógica de sua própria época.
 Atividades
1. Tendo em vista as principais teses de Caio Prado Júnior e Sérgio Buarque de Holan-
da, aponte as diferenças entre os dois modelos de explicação do processo colonial 
brasileiro, destacando as percepções sobre economia e cultura. Identifique os concei-
tos construídos por ambos.
2. A formação cultural, em especial a educacional, foi um traço importante para entender-
mos o perfil da elite política brasileira do século XIX. Sobre isso, aborde em um texto:
a. as características da formação universitária que essa elite recebia em Coimbra, no 
curso de Direito;
b. como essa educação, em especial o currículo, influenciou na atuação dessas elites no 
Brasil da época.
3. Sobre as características das elites políticas brasileiras, em sua diversidade no século 
XIX:
a. Como se constituíam as relações clientelares entre povo e elite?
b. Alguns estudos demonstram que havia um grau de pluralidade dessa elite no período 
no que tange à origem regional e à atividade econômica. Disserte a respeito.
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 Resolução
1. Caio Prado Júnior, de inclinação marxista, preocupou-se mais com os aspectos eco-
nômicos, procurando entender como o pacto colonial determinou o desenvolvimen-
to do Brasil. Já Sérgio Buarque de Holanda procurou oferecer uma visão pautada na 
cultura, explicando esse processo por meio de conceitos como o patrimonialismo, 
oriundo da tradição ibérica.
Elites e povo: laços e distanciamentos
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência
7
105
2. 
a. A formação da elite em Coimbra foi influenciada pelas reformas de Pombal. Uma 
das preocupações era a de adequar Portugal ao século das luzes em que vivia a Euro-
pa, trazendo ideias iluministas para o currículo universitário. Uma das características 
dessa formação era o jusnaturalismo.
b. É possível notar a influência de ideias liberais em vários momentos do século XIX no 
Brasil, com destaque para a formulação da Constituição de 1824.
3. 
a. Geralmente os não proprietários de terra submetiam-se aos interesses dos proprietá-
rios de terra, seja pelo trabalho, seja por meio de favores políticos.
b. Apesar da predominância da cafeicultura e do poder constituído no Rio de Janeiro, 
havia elites apoiadas em outras atividades econômicas, como a pecuária, e em regiões 
diferentes do Brasil. Essas elites também foram fundamentais para a construção do 
Império.
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência 107
8
O processo de 
Independência
A dispersa, desarticulada e fluida nação encontra, instalado no Rio de Janeiro, um arcabouço 
fechado, disposto a exercer uma vigilante ditadura sobre o país. O banho liberal, irradiado 
dos acontecimentos portugueses e brasileiros dos dois últimos anos, não permitia, entretanto, 
a passiva adoção do sistema absolutista. Não consentiam as circunstâncias, de outro lado, 
potencialmente desagregadoras, a cópia do modelo teórico do liberalismo europeu ou da de-
mocracia norte-americana. A organização do Estado entrelaça-se, dentro das tendências em 
conflito e sob o dilaceramento centrífugo das capitanias, ao cuidado superior de manter e 
soldar a unidade política do país, tarefa gigantesca e incerta diante dos obstáculos geográficos 
e dos valores provinciais não homogêneos. (FAORO, 1987, p. 250)
Compreender a formação da nação brasileira é, antes de tudo, compreender o pro-
cesso político da Independência. Esse evento foi muito marcante, fortemente influen-
ciado por ideias políticas que circulavam na época e que deixaram marcas até os dias 
de hoje. Era o tempo da consolidação das ideias liberais.
O processo de Independência nos exige entender uma série de peculiaridades de 
nosso poder local: a correlação de força das elites, os desejos do então príncipe regente 
Pedro I e também as ações de Portugal. Por fim, compreender esse momento histó-
rico passa pela análise de um dos marcos mais relevantes da construção da nação: a 
Constituição de 1824. Esse documento diz muito sobre os conflitos e as negociações do 
Brasil que surgia.
Tiago Rattes de Andrade
O processo de Independência8
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência108
8.1 Antecedentes do processo de emancipação
A chegada da Família Real portuguesa ao Brasil gerou uma série de 
transformações sociais, culturais e políticas. Mas, do ponto de vista econô-
mico, elas foram ainda mais significativas.
A abertura dos portos para as nações amigas constituiu-se em uma boa 
novidade para a elite local, que tinha agora a oportunidade de negociar pro-
dutos diretamente com os compradores nos portos brasileiros. Na prática, o pacto colonial 
esvaía-se, mesmo não tendo ainda o Brasil se tornado uma nação independente.
Por outro lado, os benefícios da instalação da corteno Rio de Janeiro não eram sentidos 
da mesma forma por todas as elites locais. No caso de Pernambuco, ficava cada vez mais 
clara a insatisfação com os custos de manutenção de uma máquina de Estado que não pro-
movia os mesmos benefícios para todo o território. A elite que circundava a corte no Rio de 
Janeiro acabava por usufruir dela de maneira mais eficiente.
Não é de se estranhar que, em 1817, tenha eclodido uma rebelião em Pernambuco con-
testando os impostos e entraves para o desenvolvimento local, inspirada por ideias liberais, 
como as que alimentaram a Revolução Francesa e a Independência dos EUA. A rebelião foi 
derrotada por Dom João VI, que, no mesmo período, por ocasião da morte de sua mãe, sa-
grou-se oficialmente rei, em uma grande celebração no Rio de Janeiro.
Como podemos perceber, aparentemente tudo caminhava para um desfecho tranquilo 
para os interesses lusitanos. Na Europa, indicava-se a derrota de Napoleão e, por conse-
quência, a retomada do poder de Dom João em Portugal. O grande território brasileiro es-
tava apaziguado.
Outro episódio histórico precisa ser compreendido para que possamos avançar: a 
Revolução Liberal do Porto.
Nesse início do século XIX, as ideias liberais incendiavam a Europa, e não foi diferente 
com Portugal. A nação vivia uma grande crise, causada pelas invasões napoleônicas. A eco-
nomia ia mal, e uma grande incerteza política se abatia sobre o país.
Nesse contexto, o movimento revolucionário do porto iniciou-se, erguendo duas ban-
deiras. A primeira era a da elaboração de uma constituição moderna de inspiração liberal, 
que fosse capaz de dar respostas aos novos dilemas civilizatórios. E a outra era a reafirma-
ção da soberania monárquica; porém esta desencadearia uma situação política peculiar.
Para que Portugal constituísse uma monarquia constitucional, era necessário que seu 
rei retornasse. Dom João VI já havia atrasado muito seu retorno à Europa, e, dessa vez, a 
reivindicação das elites portuguesas era clara: o rei deveria retornar e assumir seu lugar 
de fato. Essa exigência agradava uma parte da elite, a qual considerava fundamental que 
Portugal retomasse os lucros efetivos com a exploração colonial do Brasil. E isso significava 
restituir o Império Luso-Brasileiro.
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O processo de Independência
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência
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109
Podemos imaginar o que se passou na cabeça das elites brasileiras. Com a elevação do 
Brasil a Reino Unido de Portugal, muitas portas haviam sido abertas, e as possibilidades de 
lucro e crescimento eram claras. Mas se Dom João VI retornasse, quais seriam as reais possi-
bilidades de tudo isso permanecer? O futuro do Brasil tornava-se incerto com o movimento 
das cortes em Portugal.
O pensamento liberal iluminista circulava em Portugal nos debates sobre a construção 
da nova Constituição; autores como Rousseau e Diderot eram lidos com frequência. No 
Brasil, a repercussão fora imediata; jornais e panfletos eram distribuídos e davam conta da 
situação portuguesa. Um movimento intenso se formava e reivindicava o papel do Brasil 
nesse processo.
Em 1821, Dom João VI achou por bem jurar a Constituição como forma de demonstrar 
seu compromisso e legado. Porém um decreto de março do mesmo ano determinou seu re-
torno para a capital portuguesa. No Brasil, o cenário não era nada bom. Além das inúmeras 
incertezas, um clima de radicalização parecia erigir no Rio de Janeiro.
Nesse ambiente é que, aos poucos, a figura de Dom Pedro I ganhou destaque. Até aque-
le momento, já casado com Dona Leopoldina (uma relação que historicamente teve muitos 
problemas), Dom Pedro sabia apenas que deveria retornar junto de seu pai a Portugal.
No entanto, Dom Pedro I permaneceria no Brasil. Esse gesto envolve uma série de in-
terpretações históricas. Podemos inferir que havia, por parte do jovem, um interesse direto 
em se constituir príncipe regente e dar início a seu próprio legado político. Há, também, a 
possibilidade de pensarmos que Dom João teria sido leniente com a decisão do filho de ficar 
em terras brasileiras. Dessa forma, pelo menos temporariamente conseguiria garantir que o 
território permanecesse sob o poder de sua família.
Pedro I inicia então sua trajetória como regente e busca dar demonstrações de luz pró-
pria, ao providenciar algumas iniciativas políticas genéricas. Ao mesmo tempo, cresce no 
país a ideia do constitucionalismo, estimulado pelas cortes ao fim de 1821. Um grande di-
lema estava colocado para a elite brasileira: de um lado, a possibilidade de estabelecer um 
modelo de governo constitucional, mas, de outro, o risco de que esse constitucionalismo 
português na prática submetesse o Brasil novamente a uma relação de exploração.
8.2 O papel das elites internas: radicais e 
moderados
Dois grupos ocupavam um papel fundamental no processo pré-inde-
pendência no Brasil. Havia um grupo mais radical, inspirado por um ideário 
liberal e comandado por Joaquim Gonçalves Ledo, um político e jornalista 
que editava o famoso jornal Revérbero Constitucional Fluminense. Esse grupo 
tinha uma clara aversão aos interesses monárquicos e defendia uma ruptura 
clara e objetiva com Portugal, para a construção de uma nova nação. O outro grupo, mais 
conservador, era comandado por um dos mais tradicionais políticos de nossa história, José 
Vídeo
O processo de Independência8
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência110
Bonifácio de Andrada. Esses indivíduos, por sua vez, queriam garantir um processo que fos-
se o mais “seguro” para os interesses de todos, inclusive os da Coroa. Autores importantes 
que se debruçaram sobre nossa história, como Faoro (1987), já apontavam o quanto o com-
portamento dessa elite, preocupada sempre com transições que não alterassem a correlação 
de poder na sociedade, foi decisivo para construirmos uma sociedade de privilégios.
Ao mesmo tempo, crescia a exigência do retorno do príncipe regente a Portugal, o que 
atemorizava de vez a elite brasileira, tanto a conservadora quanto a mais liberal. Com a 
ausência de Pedro I, a possibilidade de seus interesses serem novamente submetidos aos 
da elite portuguesa era grande. Ainda ao fim de 1821, firmou-se um movimento chamado 
Clube da Resistência, que reunia políticos e membros da elite na tentativa de convencer e dar 
apoio a Pedro I, para que ficasse por aqui, rejeitando assim a exigência de seu retorno por 
parte da corte.
Embora fossem dois grupos diferentes, é possível perceber a existência de uma ação 
unitária pelo objetivo de garantir a permanência de Pedro no Brasil. No início de 1822, esse 
movimento das elites locais se acentuou. Em janeiro, Dom Pedro I recebeu um documento 
com mais de oito mil assinaturas, pressionando-o para não deixar o país. Assim, a elite mo-
vimentava-se com agilidade para evitar a todo custo a sanha recolonizadora que vinha de 
Portugal. Era necessário agir rápido.
Nesse contexto, Pedro I procurou dar uma resposta à altura às demandas locais. Foi o 
famoso episódio do Dia do Fico, em nove de janeiro de 1822. Nessa ocasião, pressionado, 
o príncipe regente resolve manifestar-se oficialmente e, pela primeira vez, fala abertamente 
em defender os interesses do Brasil. Embora haja uma série de desencontros sobre os fatos e 
a forma como as coisas aconteceram nesse dia, é fato que essa foi uma movimentação políti-
ca com o intuito de manter a situação sob controle e evitar uma possível revolta.
Aliás, esse era um dos pontos debatidos constantemente no país. Manter-se vinculado a 
Portugal poderia gerar muitos prejuízos: até que ponto essa incerteza acerca da recoloniza-
ção não poderia suscitar um movimento ainda mais radical? Essa era uma das preocupações 
de figuras como José Bonifácio. Outros líderes políticos locais temiam que a radicalização 
do processo levasse também à radicalização das pautas. E se as palavras de ordem contra 
a escravidão aparecessem? Até mesmo o ideário da República poderia se desenvolver em 
meio a uma situação comoessa.
A resposta de Dom Pedro I causou furor em Portugal. Ele encaminharia um documento 
no qual ficava claro que o Brasil não mais queria ser tratado como “filho de Portugal”, e sim 
“como irmão” (SCHWARCZ; STARLING, 2015, p. 212). Embora possamos questionar os 
reais interesses de Pedro, é notável que um documento como esse foi capaz de gerar uma 
reação nas elites locais. O regente estava jogando o jogo para valer.
O processo de Independência
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência
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111
Enquanto isso, embora concordassem com a permanência do príncipe regente no Brasil, 
as elites locais em muito divergiam. Os grupos mais ao Norte ainda não estavam totalmente 
convencidos de que a mudança da capital para o Rio de Janeiro havia sido um bom negócio, 
ao mesmo tempo que as elites do Sudeste não cogitavam ceder em qualquer aspecto. E sabe-
mos bem que estas últimas eram muito beneficiadas. Havia, ainda, as discussões sobre que 
modelo político deveria ser adotado por aqui. Um grupo significativo advogava por uma 
monarquia constitucional, mas, dentro dele, existiam discordâncias sobre o tipo de repre-
sentação e sua abrangência. Uma minoria defendia o fim da monarquia e o surgimento de 
uma república, nos moldes dos EUA.
A pressão das elites seguia, e um novo movimento se deu de forma homogênea. Por 
meio de uma nova petição, Dom Pedro I foi pressionado a convocar uma Assembleia 
Nacional Constituinte no Brasil. O entendimento geral de que uma Constituição era um 
instrumento fundamental estava claro. Curiosamente, o texto-base dessa convocação fora 
escrito por Joaquim Ledo e José Bonifácio, figuras que tradicionalmente estavam em lados 
opostos. Porém, a tese de Ledo de que a escolha dos representantes para a constituinte deve-
ria se dar por eleições diretas acabou sendo derrotada. Bonifácio, por sua vez, ocupava cada 
vez mais espaço no governo de Pedro I.
Ao longo do mês de agosto de 1822, o caminho para a ruptura total com Portugal pa-
recia claro. As tropas portuguesas eram consideradas inimigas e os governos de províncias 
não deveriam dar emprego a nenhum português. A independência parecia inevitável.
No fim de agosto e início de setembro, Pedro I viajou pelo país, na tentativa de apazi-
guar os ânimos entre as elites locais. O objetivo era percorrer algumas regiões e fazer a boa 
e velha política. Já havia passado por Minas Gerais, pelo Rio de Janeiro, e encontrava-se, 
por fim, em São Paulo. Na capital do reino, o conselho de ministros, comandado por José 
Bonifácio, queria pressa; cada minuto que atrasasse a independência poderia gerar proble-
mas. Por isso, um emissário partiu com as recomendações de Bonifácio para Pedro I.
O então regente acabou sendo pego de surpresa, em uma situação pouco nobre. A far-
da, as condições da comitiva e até o cenário não favoreciam o que chamamos de posteridade 
histórica. Muitas vezes, a imagem que temos do Grito do Ipiranga é aquela retratada por 
Pedro Américo, quase 70 anos depois do fato ocorrido. Hoje sabemos, por meio de fontes 
históricas, que a cena não foi tão triunfante e bela como a pintura retratou.
Mas assim se fez a formalização da separação entre Brasil e Portugal. Nas margens do 
Rio Ipiranga, Pedro I dava o grito que ficou tão famoso, embora seja apenas um pequeno 
detalhe do que realmente aconteceu naquele período.
Por fim, parecia que Pedro I conseguiria apaziguar os ânimos, satisfazendo as duas 
facções políticas das elites locais, tanto as mais radicais quanto as mais moderadas. Para 
completar a missão, seria recebido com festa no Rio de Janeiro.
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História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência112
Figura 1 – AMÉRICO, Pedro. Independência ou morte, ou Grito do Ipiranga. 1888. 1 óleo sobre tela, 
color.; 415 x 760 cm. Museu Paulista, USP.
No entanto, ainda seria necessário dar uma resposta adequada aos dilemas que o Brasil 
precisava enfrentar. Que tipo de governo se instalaria? Avançaria a ideia de uma constitui-
ção? Quais seriam os limites de poder? E como ficaria a escravidão? Em resumo, que nação 
estaria nascendo naquele momento?
Vejamos mais a seguir.
8.3 Uma nova nação que surge
Entender a nação que se constituía em 1822 exige muitas reflexões acer-
ca de nossas raízes e inovações. O Brasil surge em um contexto de trans-
formações globais, de efervescência de ideias, de questionamentos políticos 
profundos e significativas mudanças econômicas.
Uma das primeiras reivindicações da elite local à qual Pedro I teria de se 
atentar era a manutenção do território brasileiro nos parâmetros de então. O exemplo das co-
lônias espanholas não era muito bem-vindo por aqui, já que a desagregação do território em 
inúmeras repúblicas parecia gerar uma consequência clara: precipitar o fim da escravidão e do 
latifúndio. Esse risco as elites brasileiras não queriam correr. Além disso, havia nesses homens 
alguns resquícios da ideia de um grande império, algo muito forte na cultura política portuguesa.
Essa relação com o território explica boa parte da mobilização da elite local em manter 
a monarquia como sistema de governo, consagrando Pedro I como imperador. Obviamente 
isso parece um tanto contraditório se pensarmos que um português seria o chefe de uma 
nação que acabara de se livrar de Portugal. Mas, como sabemos, no processo histórico nem 
tudo é tão límpido quanto parece.
Era necessário fazer de tudo para evitar a desagregação. E, ainda mais importante eram 
os ecos de revoltas escravas vindas do Haiti, os quais assombravam os senhores brasileiros. 
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O processo de Independência
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência
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Pior do que o risco do fim da escravidão era que esse fim acontecesse pelas mãos dos pró-
prios escravos, escrevendo seu próprio destino.
Apesar da unidade em defender a independência, no plano interno as elites políticas 
seguiam divididas, e o trabalho de Pedro I não seria fácil. Acertar os ponteiros dessa nova 
nação iria requerer muita habilidade política e o estabelecimento de um marco decisivo: 
uma Constituição que estabelecesse um pacto político, contemplando todos e garantindo a 
ordem que o Império precisava para deslanchar.
Em 1823, iniciaram-se os trabalhos da constituinte, cujo texto-base ganhara a alcunha 
de “Constituição da Mandioca”, devido ao fato de que o sistema eleitoral proposto era cen-
sitário, ou seja, definia um critério de renda para o voto. E esse critério era estabelecido jus-
tamente pela medida de 150 alqueires de mandioca, para efeitos comparativos.
Um dado que sempre devemos retomar é o de que boa parte das ideias que influencia-
ram a elaboração do projeto dessa constituição derivavam das influências diretas do cur-
rículo da Universidade de Coimbra, em especial do curso de Direito. Como nos mostra 
Carvalho (1980), era justamente essa formação que dava unidade à maior parte das ideias e 
possibilitava a construção de instituições que atendessem os interesses dessa elite. Estudos 
recentes como o de Lynch (2014) reiteram a importância desse pensamento político para 
entendermos a formação institucional do Brasil.
Os grupos mais liberais, que chamamos aqui de Partido Brasileiro, lutaram na Constituinte 
para que houvesse a separação dos três poderes – Executivo, Legislativo e Judiciário –, se-
guindo os preceitos da época, inspirados na obra de Montesquieu. Como forma de garantir 
a liberdade política, esse grupo defendia a predominância do Legislativo sobre o Executivo, 
em que estaria o imperador e seus ministros. Era uma maneira de impedir qualquer chance 
de despotismo por parte do monarca. Obviamente, Pedro I e o grupo do chamado Partido 
Português não achavam esse o melhor caminho. Assim, mais uma vez o jovem imperador se 
aproximara de José Bonifácio, já que suas propostas eram as que não reduziriam o poder 
real.
Cabe dizer que, no geral, as propostas para a Constituição Brasileira ganhavam con-
tornos liberais. O momento não poderia gerar outro efeito.Como vimos anteriormente, a 
Revolução do Porto deixou marcas no Brasil, e as discussões das cortes haviam gerado uma 
série de ideias por aqui. Para Pedro I, esse era um processo arriscado.
Em novembro de 1823, o Imperador decide dissolver a Assembleia Nacional Constituinte 
usando da força militar. Era um claro recado: não aceitaria ter seus poderes limitados por 
ninguém. Já no ano de 1824, o monarca apresentaria um novo texto constitucional, dessa vez 
elaborado por um pequeno grupo de sua confiança. Era necessário conjugar a ideia de um 
governo representativo com o poder monárquico.
O início do século XIX havia sido um momento de intensos debates sobre o tema da 
representação e legitimidade dos governos. Dessa forma, a separação dos três poderes es-
tava clara, mas havia a criação de um quarto poder, o Moderador. Este teria como função 
garantir a estabilidade do Império. Por meio dele, o Imperador poderia intervir em decisões 
fundamentais da nação, sob o pretexto de garantir estabilidade, racionalidade e ordem.
O processo de Independência8
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência114
Por um lado, a Constituição de 1824 tinha características avançadas, apesar de ter sido 
feita a “portas fechadas” e outorgada. Ela submetia a Igreja ao Estado, instituía um legisla-
tivo bicameral, regulamentava o direito ao voto (apesar de censitário, analfabetos poderiam 
votar). Mas, por outro lado, mantinha toda a estrutura escravocrata no império, mesmo que 
boa parte das nações já a houvesse abolido e que o Brasil já tivesse sofrido muitas pressões 
para fazer o mesmo.
É muito importante pensarmos o surgimento da nação brasileira, em 1822, como a con-
junção de fatores complexos. O primeiro deles, como vimos, é a correlação de forças internas 
entre as elites e a capacidade de Dom Pedro I de intermediá-las. O segundo, não menos 
importante, é o caráter econômico. Os dilemas sobre a escravidão e a propriedade da terra 
eram fundamentais para a decisão de se construir um imenso império ou permitir a frag-
mentação, como ocorreu na América Espanhola. Outra característica é a centralização de po-
der. Muitos defendiam que a Constituição deveria garantir uma nação federalista, inspirada 
no modelo dos EUA, por exemplo. Mas sabemos que venceu a proposta de uma nação onde 
o poder central é forte, algo que reflete até hoje em nossa cultura política. Tais fatores seriam 
fundamentais para evitar grandes rupturas e manter a escravidão. E os efeitos ao longo de 
nossa história são conhecidos.
Ainda nos dias de hoje temos vários elementos que podem demonstrar como essa ma-
nutenção da escravidão por tempo recorde no Brasil foi decisiva para muitas de nossas ma-
zelas sociais. Construímos uma sociedade na qual a cor da pele segue determinando posição 
social, o trabalho braçal é carregado de um olhar pejorativo e um grande abismo continua 
separando brancos e negros no que tange o acesso à educação e ao mercado de trabalho.
 Ampliando seus conhecimentos
Representação na monarquia brasileira
(DOLHNIKOFF, 2009)
O excelente texto de Hilda Sabato traz ricas contribuições para se pensar 
as experiências de representação política do século XIX em países recém 
organizados a partir de um passado colonial. A análise se concentra na 
organização republicana, o que obviamente exclui a monarquia brasileira. 
Mas um exercício interessante, a meu ver, é, apesar das óbvias diferen-
ças entre estas repúblicas e a nossa opção monárquica, procurar traçar 
algumas semelhanças entre estas experiências. A proposta se justifica na 
medida que repúblicas e monarquias constitucionais no século XIX eram 
variações de governos representativos, modelos surgidos na Europa 
e Estados Unidos na transição do século XVIII e XIX e que tinham em 
comum o estabelecimento de novas relações entre Estado e sociedade, com 
a inclusão na participação política de setores antes dela alijados. Neste 
texto pretendo alinhavar alguns elementos que apontam para o debate no 
O processo de Independência
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência
8
115
Brasil sobre a construção da relação entre representantes e representados, 
tanto do ponto de vista da cidadania, como do ponto de vista da norma-
tização das eleições.
A análise da cidadania na América hispânica efetivada por Sabato ganha 
imensa riqueza a partir do pressuposto de que os governos representati-
vos do século XIX não podem ser examinados sob a ótica das democracias 
modernas e sim devem sê-lo de acordo com a especificidade do período. 
Desta forma torna-se possível avaliar a natureza e conteúdo da cidada-
nia e sua importância no jogo político, inclusive tomando em conjunto 
as diversas experiências republicanas latino-americanas. O mesmo ponto 
de vista deve ser adotado para o Brasil. A organização da monarquia 
constitucional seguiu os modelos prevalecentes na época, notadamente a 
Inglaterra e a França. O que significava, conforme as análises de Bernard 
Manin, Hannah Pitkin e Giovani Sartori, uma profunda remodelação do 
Estado, na qual a inclusão de participação não impedia que se constitu-
ísse um regime de natureza excludente, uma vez que eram preservados a 
iniciativa política e o poder decisório nas mãos de determinados grupos. 
Manin aponta inclusive a escolha de eleições como forma de indicar os 
representantes como uma opção que visava garantir que apenas uma elite 
selecionada pudesse efetivamente ocupar os cargos públicos1.
Inclusão e exclusão conformaram, portanto, estas experiências e, neste 
contexto, a construção da cidadania foi um processo pelo qual uma gama 
de indivíduos passou a gozar de direitos políticos, sem que, contudo, isto 
tivesse uma perspectiva universalizante como nas democracias moder-
nas. Prevaleceu uma concepção cara ao liberalismo europeu do século 
XIX de que era preciso garantir a qualidade dos representantes, de modo 
que homens devidamente qualificados chegassem ao parlamento habili-
tados para decidir de acordo com os “verdadeiros interesses nacionais”. 
Um representante de qualidade seria escolhido se o voto fosse exclusivo 
de eleitores também qualificados. A consequente limitação dos setores 
da população que participariam do jogo político através do voto era tida 
como virtuosa, da mesma forma que no século XX, inversamente, se con-
siderará virtuosa a expansão deste eleitorado.
Por esta razão, no século XIX muitos defendiam a adoção de critérios de 
limitação da cidadania política, tanto para votar como para ser eleito, 
fossem exigências censitárias fossem de alfabetização. Era considerado 
1 PITKIN, H. The concept of representation. Los Angeles: University of California Press, 1967; 
MANIN, B. Los principios del gobierno representativo. Madrid: Alianza Editorial, 1998; SAR-
TORI, G. A teoria da representação no Estado representativo moderno. Belo Horizonte: Edições 
da Revista Brasileira de Estudos Políticos, Faculdade de Direito da Universidade de Minas Ge-
rais, 1962.
O processo de Independência8
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência116
necessário que apenas aqueles com melhor “discernimento” pudessem 
eleger e serem eleitos, de modo a resultar em um parlamento capaz de for-
mular o “bem comum”. As virtudes que conferiam este “discernimento” 
poderiam ser a independência material, concretizada pela propriedade 
ou pela renda, a capacidade intelectual, concretizada pela educação, etc. 
A preocupação em garantir a escolha de uma elite portadora de virtudes 
que a diferenciava da massa da população, fosse por sua riqueza, fosse por 
sua sabedoria, resultou, na Inglaterra e na França, na restrição ao direito 
de voto e ao direito de ser eleito. Nos dois países o voto era censitário e 
só proprietários poderiam ser candidatos. Nos Estados Unidos, por outro 
lado, desde o início os liberais constataram que não era necessário impor 
restrições legais para votar e ser eleito, uma vez que as eleições por si só 
garantiriam que apenas uma elite pudesse concorrer aoscargos públicos. 
Segundo Manin, levou quase “cem anos para que os europeus chegassem 
a ver esta propriedade das eleições ou, ao menos, que recorressem a ela 
para assegurar a distinção dos representantes”2, prescindindo assim de 
regras que limitassem o direito de voto e de ser eleito.
As restrições ao direito de voto calcavam-se na diferenciação entre cida-
dania civil e cidadania política. Como aponta Pierre Ronsavallon ao ana-
lisar o caso francês, participar do processo eleitoral não era considerado 
um direito inerente do indivíduo, mas uma função pública que apenas 
alguns homens estavam qualificados para exercer. Os direitos residiam 
no campo da cidadania civil e não da cidadania política. Apenas quando 
surgiram, no final do século XIX, setores sociais com força suficiente para 
pressionarem por mudanças é que o voto passou a ser considerado um 
direito associado à idéia de inclusão social. A concepção de que a parti-
cipação eleitoral deve se estender a todos, associando representação polí-
tica com ampla representatividade e inclusão social, foi portanto um fenô-
meno emergente no final dos oitocentos3. Até mesmo um publicista como 
José de Alencar, que defendia o sufrágio universal, afirmava: “nenhuma 
das leis fundamentais dos países representativos garante expressamente o 
direito do sufrágio como um direito absoluto do cidadão”4. Afinado com 
o debate sobre representação na Europa e Estados Unidos, Alencar salien-
tava que a cidadania civil era condição do exercício da cidadania política, 
mas nem todos que gozavam da primeira deveriam ter acesso direto à 
segunda.
2 MANIN, B. Los principios del gobierno representativo. Madrid: Alianza Editorial, 1998. p. 
163.
3 RONSAVALLON, P. La consagración del ciudadano: historia del sufragio universal en Fran-
cia. San Juan: Instituto Mora, 1999.
4 ALENCAR, J. de. Sistema representativo. Brasília: Senado Federal, 1997. p. 76.
O processo de Independência
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência
8
117
O exercício da cidadania colocou problemas semelhantes no Brasil àque-
les estudados por Hilda Sabato, uma vez que se tratava também aqui do 
desafio de construir um governo representativo em um território de pas-
sado colonial com profunda estratificação social. E este desafio passou 
também aqui por definir quem pertencia e quem não pertencia à comuni-
dade política, quem teria o direito de exercer o papel de representante e 
quem seria representado, enfim, quem seria cidadão.
No Brasil é possível identificar as três formas de exercícios da cidadania 
apontadas pela autora: eleitoral, militar e expressão de opinião pública. 
No caso da cidadania através da ação militar, ela também se constituiu no 
Brasil através da Guarda Nacional, nossa milícia cidadã. No que diz res-
peito à opinião pública, a imprensa teve aqui papel similar ao apontado 
por Sabato na América hispânica, embora ainda esteja para ser estudado 
no caso brasileiro o papel de associações surgidas da sociedade civil.
No que diz respeito à participação eleitoral, a opção pelo voto censitário 
na constituição brasileira de 1824 estava de acordo com a visão européia 
de que esta era uma condição para a “boa representação”. Em que pese as 
restrições, no entanto, o eleitorado brasileiro não estava fora dos padrões 
da época. No que diz respeito ao universo de votantes, conforme aponta 
José Murilo de Carvalho, 13% da população total (excluindo os escravos) 
tinha direito de voto, de acordo com o recenseamento de 1872. Em torno 
de 1870, na Inglaterra eram apenas 7%, na Itália, 2% e na Holanda 2,5%5. 
Mas é preciso tomar cuidado com estas comparações. No Brasil as elei-
ções eram realizadas em dois graus (votantes escolhiam eleitores que por 
sua vez escolhiam deputados e senadores), seguindo o modelo adotado 
na França revolucionária. Como aponta Rosanvallon, o voto de primeiro 
grau tem uma natureza distinta do de segundo grau. Só este último é efe-
tivamente uma decisão política, enquanto os votantes de primeiro grau 
exercem apenas um papel de legitimação do processo eleitoral: “as assem-
bléias primárias não fazem mais que designar os eleitores: procedem 
somente a uma espécie de legitimação original do procedimento repre-
sentativo. Porém, as verdadeiras eleições têm lugar em outra parte, nas 
assembléias eleitorais, as de segundo grau, que só reúnem a centésima 
parte dos cidadãos ativos”6. [...]
5 CARVALHO, J. M. de. Cidadania no Brasil: o longo caminho. Rio de Janeiro: Civilização Bra-
sileira, 2001. p. 31.
6 RONSAVALLON, P. La consagración del ciudadano: historia del sufragio universal en Fran-
cia. San Juan: Instituto Mora, 1999. p. 174.
O processo de Independência8
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência118
 Atividades
1. Entre os antecedentes do processo de Independência do Brasil, está um processo 
ocorrido em Portugal: a Revolução do Porto. Destaque os principais fatos desse 
evento histórico que tiveram efeito direito em nossa Independência.
2. Dois grupos da elite brasileira atuaram firmemente no processo de Independência, 
um mais liberal e outro mais moderado. Identifique esses grupos, seus principais 
representantes e quais eram as diferenças de suas ideias.
3. Após a Independência, um grande embate se estabeleceu para a construção da pri-
meira Constituição Brasileira. Com base nisso, aponte:
a. O que defendia o Partido Brasileiro para a Constituição?
b. Quais os riscos identificados por Pedro I nesse processo?
c. Alguns historiadores acreditam que, apesar de outorgada, a Constituição de 1824 
apresentou alguns avanços. Quais eram eles?
d. Quais a justificativas para a definição de um poder moderador na Carta Constitu-
cional?
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O processo de Independência
História do Brasil: dos tempos do Iluminismo à Independência
8
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 Resolução
1. A Revolução do Porto permitiu a circulação de ideias liberais tanto em Portugal 
quanto no Brasil. Além disso, acentuou a necessidade do retorno de Dom João VI 
a Portugal, o que acabou por mobilizar ainda mais as elites brasileiras em busca da 
independência.
2. O grupo mais conservador, liderado por José Bonifácio de Andrada, procurava uma 
ruptura moderada e uma manutenção de relação com a cultura política monárquica 
portuguesa. Já o outro grupo, mais radical, liderado por Joaquim Ledo, lutava pela 
ruptura imediata com Portugal e suas tradições para construir um modelo de gover-
no mais autônomo.
3. 
a. Um modelo de separação de três poderes, em que o Executivo estivesse submetido 
ao Legislativo.
b. Tornar-se um monarca sem poderes e, por consequência,decorativo.
c. A Carta Constitucional de 1824 instituía a separação de três poderes, o sistema bica-
meral e a submissão da Igreja ao Estado.
d. O poder Moderador era baseado na ideia de que o monarca deveria prezar pela 
racionalidade, ordem e equilíbrio. Dessa forma, poderia intervir quando a situação 
política exigisse, como forma de corrigir os rumos da nação.
HISTÓRIA DO BRASIL: DOS TEMPOS DO ILUMINISMO À INDEPENDÊNCIA
W
alfrido S. de Oliveira Jr. / Tiago Rattes de AndradeFundação Biblioteca Nacional
ISBN 978-85-387-6310-9
9 788538 763109
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