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R ep ro d uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o C ód ig o P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 62 C a p í t u l o Anatomia e fisiologia dos animais5 JO H N S IB B IC K /S C IE N C E P H O TO L IB R A R Y /F O TO A R E N A Reconstrução artística de seres vivos que teriam vivido nos mares da Terra há mais de 600 milhões de anos, no período Ediacarano. Ediacara é o nome de uma região da Austrália onde foram descobertos os mais antigos fósseis de animais, daí o nome dado a esse período geológico. (Representação fora de proporção; cores meramente ilustrativas.) Se voltássemos no tempo cerca de 500 milhões de anos, até o primeiro pe‑ ríodo da era Paleozoica – o período Cambriano –, provavelmente encontraríamos parentes remotos de todos os grupos animais existentes atualmente. Os cientistas procuram saber como ocorreu uma diversificação tão expressiva da vida animal em um tempo geológico relativamente tão curto, fenômeno que ficou conhecido como “explosão cambriana”. As respostas parecem indicar para o período Ediaca‑ rano, que precedeu o período Cambriano. Em 2004, depois de oito anos de intensas discussões, uma comissão formada por entidades geológicas de vários países acrescentou um novo período à divisão do tempo geológico: o período Ediacarano. Fazia 120 anos que a divisão do tempo geológico não sofria alterações. O período Ediacarano abrange 93 milhões de anos, indo de 635 Ma (milhões de anos atrás) até 541 Ma. Novas descobertas e o avanço das técnicas de análise e datação de fósseis revelaram as curiosas formas de vida ediacaranas. Embora a diversidade de orga‑ nismos nesse período tenha sido grande, muitos não parecem ter relação com os grupos existentes atualmente. Por isso os cientistas acreditam que as estratégias evolutivas desses animais foram malsucedidas, o que os levou à total extinção. Entretanto, a diversidade da vida ediacarana sugere que ali já se encontravam as bases para a evolução e a diversificação dos grupos de animais atuais. Por volta de 600 milhões de anos atrás, a vida na Terra se recuperava de uma era glacial ocorrida entre 850 Ma e 630 Ma. Com o degelo dos oceanos, teriam ocorrido condições favoráveis à diversificação de formas de vida no período Ediacarano, o que resultou na explosão de diversidade da vida animal no período seguinte, o Cambriano. Este capítulo trata da diversidade animal e das principais estratégias evolutivas desenvolvidas pelos grandes grupos de animais atuais. À medida que os cientistas acumulam e integram novos conhecimentos, as relações evolutivas entre os grupos animais vão ficando mais claras. Atividade em grupo Neste exercício, sugerimos que você repasse um a um os nove filos descritos nas páginas seguintes, tentando se lembrar de alguma situação que presenciou ou na qual ouviu sobre cada um deles. Por exemplo, se você leu uma notícia sobre a proliferação de águas ‑vivas em uma praia ou sobre um surto de alguma verminose, isso também conta. Depois de anotar suas expe‑ riências com representantes dos filos animais, converse com colegas e professores sobre a possibilidade de formar nove grupos de colegas, cada um encarregado de pesquisar sobre um dos nove filos estudados no livro. Pense em dar preferência a exemplares encontrados no Bra‑ sil. Uma estratégia interessante e fácil de executar é elaborar placas de identificação para o organismo escolhido, semelhantes às que existem em zoológicos e museus, com nome científico e informações relevantes sobre a classificação e a ecologia dos animais. (Sugestões de uso de mídias digitais estão dispo‑ níveis no início do livro.) Veja comentários sobre essa atividade no Suplemento do Professor. De olho na BNCC: • EM13CNT202 • EM13CNT301 • EM13CNT302 • EM13CNT303 • EM13CHS103 R ep ro d uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o C ód ig o P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 63 Figura 1 (A) Esponja da espécie Aplysina archeri, que pode chegar a 1,5 m de altura. (B) Água ‑viva do gênero Polyorchis, que pode ultrapassar 50 cm de diâmetro. (C) Planária terrestre Bipalium sp., que pode chegar a 7 cm de comprimento. (D) Nematódeo Ascaris lumbricoides, conhecido por lombriga e que chega a medir 40 cm de comprimento. (E) Caramujo da espécie Monadenia fidelis, molusco que pode atingir 3,6 cm de comprimento. A C E D B Tratamos inicialmente de características animais importantes para estabelecer as relações evolutivas entre os grupos. Entre essas características, destacam ‑se o número de tecidos embrionários, a simetria e a origem das cavidades corporais. O objetivo é traçar um panorama geral das soluções adaptativas desenvolvidas nos grupos animais para suas diferentes necessidades básicas. Veremos quais foram as soluções encontradas pelos organismos que se originaram na água e nela viveram por milhões de anos, antes de surgirem as estratégias para a conquista do ambiente de terra firme. 1. Principais grupos animais Com base em semelhanças morfológicas e fisiológicas entre os animais, que supostamente refletem o parentesco evolutivo entre eles, os sistematas elaboraram uma classificação que considera 35 filos, nos quais se distribuem mais de 1 milhão de espécies animais descritas até agora. Neste capítulo trataremos apenas de nove desses filos, que reúnem as espécies mais conhecidas de não especialistas como nós. Poríferos, ou esponjas O filo Porifera reúne as esponjas, animais aquáticos com organização corporal simples. A maioria das espécies desse filo é marinha e vive aderida a rochas e objetos submersos. Esponjas não apresentam tecidos diferenciados e nenhum tipo de órgão (Fig. 1‑A). F O TO S : A L U IZ F E R N A N D O C A S S IN O / T Y B A , B J A M E S M C C U LL A G H /V IS U A LS U N LI M IT E D , I N C /G LO W IM A G E S ; C G R E G O R Y G . D IM IJ IA N , M .D ./S C IE N C E S O U R C E /F O TO A R E N A ; D L A U R IT Z JE N S E N /V IS U A LS U N LI M IT E D , I N C /G LO W IM A G E S ; E R O B E R T J E A N P O LL O C K / V IS U A LS U N LI M IT E D , I N C /G LO W IM A G E S Cnidários, ou celenterados O filo Cnidaria reúne animais aquáticos cujos representan‑ tes mais conhecidos são as águas ‑vivas, os corais, as fisálias e as anêmonas ‑do ‑mar. A maioria dos cnidários é marinha; alguns vivem fixados a objetos submersos (sésseis) e outros nadam livremente (livre ‑natantes) (Fig. 1‑B). Platelmintes, ou vermes achatados O filo Platyhelminthes reúne animais cujo corpo é achatado dorsoventralmente. Eles vivem em água doce, no mar, em ambientes úmidos de terra firme ou no interior de outros animais, parasitando ‑os. As formas de vida livre são chamadas de planárias. Os platelmintos parasitas mais conhecidos são as tênias, causadoras de teníase, e os esquistossomos, causadores de esquistossomose (Fig. 1‑C). Nematódeos, ou vermes cilíndricos O filo Nematoda reúne animais de corpo cilíndrico e afilado nas duas pontas. Os representantes desse grupo vivem em todos os tipos de ambiente: em água doce, no mar, em terra úmida ou no interior do corpo de animais e plantas, parasitando ‑os. Os nemató‑ deos mais conhecidos são as lombrigas, causadoras da ascaríase, os ancilóstomos, causadores do amarelão, e as filárias, causadoras da elefantíase (Fig. 1‑D). Moluscos O filo Mollusca reúne animais de corpo mole, geralmente revestido por uma concha calcária rígida. Os representantes desse grupo vivem em água doce, no mar e em ambientes úmidos de terra firme. Moluscos bem conhecidos são caramujos, mexilhões, lesmas, polvos e lulas (Fig. 1‑E). Funil membranoso Núcleo Flagelo R ep ro d uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o C ód ig o P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 64 JU R A N D IR R IBE IR O Figura 3 Representação esquemática de coanoflagelados coloniais atuais do gênero Codosiga. Organismos similares a esse podem ter sido os ancestrais dos animais. (Representação fora de proporção; cores meramente ilustrativas.) Fonte: adaptada de LEADBEATTER, B. S. C. The Choanoflagellates: Evolution, Biology and Ecology. Cambridge: Cambridge University Press, 2015. Anelídeos, ou vermes segmentados O filo Annelida reúne animais de corpo cilíndrico dividido em segmentos transversais. Vivem em água doce, no mar e em solo úmido. Os representantes mais conhecidos desse grupo são as minhocas, que vivem em terra firme, as sanguessugas, que vivem em ambientes úmidos, em água doce e no mar, e os poliquetos, que vivem principalmente no mar, vagando pelo fundo ou abrigados dentro de tubos que eles mesmos constroem (Fig. 2‑A). Artrópodes O filo Arthropoda reúne animais com corpo protegido por uma armadura rígida, o exoesqueleto. Artrópodes são geralmente divididos em três subfilos: crustáceos, quelicerados e unirrâmios. A maioria dos crustáceos é aquática (camarões, lagostas, caranguejos, siris etc.). Os quelicerados (aranhas, escorpiões, carrapatos etc.) são tipi‑ camente de terra firme. Os unirrâmios (diplópodes, miriápodes e insetos) são animais de terra firme e constituem a maioria das espécies conhecidas de seres vivos (Fig. 2‑B). Equinodermos O filo Echinodermata reúne animais exclusivamente marinhos, considerados pelos cientistas os mais aparentados aos cordados. Seus representantes mais conhecidos são as estrelas ‑do ‑mar, os ouriços ‑do ‑mar, as bolachas ‑da ‑praia e os pepinos ‑do‑ ‑mar (holotúrias) (Fig. 2‑C). Cordados O filo Chordata reúne alguns invertebrados aquáticos, como as ascídias e os anfio‑ xos, e todos os animais vertebrados: peixes, anfíbios, répteis, aves e mamíferos. Esse grupo é muito diversificado e adaptado a diversos tipos de ambiente (Fig. 2‑D). 2. A diversificação no Reino Animal Multicelularidade Qual teria sido o ancestral de todos os animais? A hipótese predominante é que os animais descendem de protozoários coanoflagelados coloniais (do grego coanos, colarinho), organismos unicelulares constituídos por células semelhantes às que recobrem as cavidades internas do corpo das esponjas atuais. Estudos ge‑ nômicos recentes mostraram que os genes relacionados com a adesão e a troca de mensagens entre as células já existiam por volta de 600 milhões de anos atrás. Essas capacidades foram fundamentais durante a transição da unicelularidade para a multicelularidade (Fig. 3). Figura 2 (A) Minhoca da espécie Lumbricus terrestris, anelídeo que pode atingir 25 cm de comprimento. (B) A maria ‑farinha (Ocypode sp.) é um crustáceo que pode chegar a 4 cm de diâmetro. (C) Estrela ‑do ‑mar da espécie Orthasterias koehleri, equinodermo que tem cerca de 50 cm. (D) A anta da espécie Tapirus terrestris é um mamífero que pode chegar a 2,4 m de comprimento. A R IC H A R D B E C K E R /F LP A /K E Y S TO N E B R A S IL , B F A B IO C O LO M B IN I, C D A V ID W R O B E L/ V IS U A LS U N LI M IT E D , I N C /G LO W IM A G E S , D F A B IO C O LO M B IN I A B C D R ep ro d uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o C ód ig o P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 65 A B IL U S T R A Ç Õ E S : S E LM A C A PA R R O Z Figura 4 (A) Desenho de uma anêmona ‑do‑ ‑mar, que apresenta simetria radial; há diversos planos de simetria (no eixo longitudinal) que dividem o animal em metades simétricas. (B) Desenho de um caranguejo, que apresenta simetria bilateral; há apenas um plano que divide o corpo nas metades esquerda e direita. (Representação fora de proporção; cores meramente ilustrativas.) Fonte: adaptada de REECE, J. B. et al. Biologia de Campbell. 10. ed. Porto Alegre: Artmed, 2015. Animais protostômios e animais deuterostômios Esponjas são animais filtradores, especializados em capturar partículas de alimento da água em que vivem por meio de células flageladas denominadas coanó‑ citos. Esses animais não apresentam tecidos corporais, tampouco sistema digestivo. Os cnidários, como já mencionamos, apresentam dois folhetos germinativos (são diblásticos). Acredita ‑se que esses animais apresentem o primeiro tipo de sistema digestivo a surgir na escala evolutiva zoológica. Esse sistema conta com apenas uma abertura, a boca, por onde o alimento entra e por onde saem os resíduos da digestão. Fala ‑se, nesse caso, em sistema digestivo de fluxo bidi- recional, antigamente denominado sistema digestivo incompleto. Animais diblásticos e animais triblásticos De acordo com as hipóteses mais aceitas atualmente, duas linhagens de animais teriam se diversificado a partir dos primeiros ancestrais multicelulares: em uma delas as células eram pouco especializadas e não estavam organizadas em tecidos verdadeiros; na outra, as células já apresentavam um grau maior de especialização, formando tecidos, conjuntos de células especializadas para uma função determinada. A primeira linhagem teria originado as esponjas (poríferos) atuais que não apresentam tecidos bem diferenciados; a segunda linhagem teria sido ancestral de todos os outros grupos animais. A linhagem animal que formava tecidos bem diferenciados teria originado duas novas linhagens, uma das quais teria dado origem aos cnidários atuais, ani‑ mais que apresentam apenas dois folhetos germinativos no embrião (ectoderma e endoderma), sendo por isso denominados diblásticos. Os cnidários são os únicos animais diblásticos atuais. A outra linhagem teria originado animais dotados de três folhetos germi‑ nativos (ectoderma, mesoderma e endoderma), sendo, por isso, denominados triblásticos. Todos os animais atuais são triblásticos, com exceção dos poríferos, que não apresentam tecidos corporais verdadeiros, e dos cnidários, que apresen‑ tam apenas dois folhetos germinativos. Simetria Um critério utilizado pelos zoólogos na classificação dos animais é o tipo de simetria corporal. Simetria refere ‑se à possibilidade de dividir, real ou imaginaria‑ mente, um objeto em duas metades equivalentes, ou simétricas. Se nenhum plano de simetria é capaz de dividir um objeto em metades simétricas, ele é assimétrico. A simetria está presente em muitos seres vivos e em quase todos os grupos de animais. Dos nove filos animais estudados neste livro, apenas os cnidários e algumas espécies de esponja apresentam simetria radial, em que diversos planos que passam pelo eixo longitudinal de seu corpo dividem o animal em metades semelhantes. As espécies dos demais filos têm simetria bilateral, com um único plano de simetria possível, que divide o corpo nas metades esquerda e direita. Há apenas uma exceção: o filo dos equinodermos (estrelas ‑do ‑mar e ouriços ‑do ‑mar), cujos representantes têm simetria bilateral na fase larval e simetria radial na fase adulta. A simetria radial desses animais é considerada pelos biólogos uma adaptação ao modo de vida séssil ou com pequena movimentação, não refletindo diretamente o parentesco evolutivo (Fig. 4). Dialogando com o texto Nesta atividade exercitaremos algumas noções de simetria. Es‑ colha uma laranja com o formato o mais regular possível. Quantos planos de corte você consegue fa‑ zer dividindo a laranja em metades simétricas? Que tipo de simetria a laranja apresenta? A partir dessa experiência, escolha um ou mais organismos de seu interesse e procure desenhá‑los esquematica‑ mente em seu caderno, divididos por planos de simetria. Que tipo de simetria eles apresentam? Explique em poucas palavras. Veja comentários sobre essa atividade no Suplemento do Professor. Endoderma Cavidade digestiva Cavidade digestiva Endoderma Mesoderma Ectoderma Ectoderma Pseudoceloma Acelomado Pseudocelomado Mesoderma (mesênquima) Cavidade digestiva Endoderma Mesoderma Ectoderma CelomaCelomado LARVA ADULTO Cabeça Tórax AbdomeR ep ro d uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o C ód ig o P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 66 Figura 5 Representações esquemáticas de cortes transversais dos três tipos corporais básicos de animais triblásticos: acelomados, pseudocelomados e celomados. (Representação fora de proporção; cores meramente ilustrativas.) Fonte: adaptada de REECE, J. B. et al. Biologia de Campbell. 10. ed. Porto Alegre: Artmed, 2015. Figura 6 Representações esquemáticas do corpo de uma larva e de um inseto adulto; as cores indicam a correspondência entre os metâmeros desses dois estágios do ciclo de vida. Nos insetos, alguns metâmeros da larva se fundem para formar as diversas partes do corpo do animal adulto. (Representação fora de proporção; cores meramente ilustrativas.) Fonte: adaptada de REECE, J. B. et al. Biologia de Campbell. 10. ed. Porto Alegre: Artmed, 2015. Uma aquisição evolutiva importante dos animais foi o sistema digestivo de fluxo unidirecional (anteriormente chamado de sistema digestivo completo), o qual é dotado de duas aberturas: a boca, por onde o alimento entra, e o ânus, por onde são eliminados os restos da digestão. No embrião dos animais, na fase em que é esboçado o sistema digestivo (fase de gástrula), há apenas uma abertura de comunicação entre a futura cavidade digestiva e o meio externo: o blastóporo. A passagem evolutiva para o sistema digestivo com fluxo unidirecional ocorreu com o aparecimento de uma segunda abertura no arquêntero. Curiosamente, uma linha divisória entre duas linhagens ancestrais dos animais refere‑se ao destino do blastóporo: em uma das linhagens, o blastóporo origina a boca, sendo o ânus uma neoformação, ou seja, a segunda abertura a surgir. Na outra linhagem, o blastóporo origina o ânus e a boca surge depois, como uma neoformação. Animais em que o blastóporo origina a boca são denominados protostômios (do grego protos, primeiro, e stoma, boca), enquanto aqueles em que o blastóporo origina o ânus são chamados de deuterostômios (do grego deuteros, segundo). Dos filos de animais que estudaremos neste livro são protostômios os: nematódeos, os moluscos, os anelídeos e os artrópodes. São deuterostômios: os equinodermos e os cordados, grupo ao qual pertencemos. Cavidades corporais e metameria Em muitos grupos animais, o corpo apresenta espaços internos, geralmente preenchidos por líquido ou por tecidos celulares frouxos, que desempenham funções como absorção de choques mecânicos, distribuição de substâncias, apoio à ação dos músculos, entre várias outras. Na maioria dos animais, essa cavidade corporal é revestida completamente por um tecido de origem mesodérmica, sendo denominada celoma (do grego kóilos, cavidade). Animais com celoma – moluscos, anelídeos, artrópodes, equinodermos e cordados – são chamados de celomados. Apenas nos nematódeos a cavidade corporal é revestida em parte por mesoderma e em parte por endoderma, sendo denominada pseudoceloma (do grego pseudos, falso). Por isso os nematódeos são considerados animais pseudocelomados. Os platelmintos são os únicos animais triblásticos estudados neste livro que não apresentam cavidade corporal; eles são chamados acelomados (Fig. 5). IL U S T R A Ç Õ E S : S E LM A C A PA R R O Z Uma estratégia evolutiva considerada importante na adaptação animal é a segmentação corporal, ou metameria, que consiste em apresentar, ao menos na fase embrionária, o corpo organizado em segmentos transversais iguais ou semelhantes, os metâmeros. Acredita ‑se que uma das principais vantagens da metameria seja conferir ao animal maior versatilidade em sua movimentação corporal. Estudos recentes sugerem que a metameria pode ter surgido de forma independente nas linhagens ancestrais dos três grupos de animais que exibem segmentação corporal: anelídeos, artrópodes e cordados. A presença ou não de metameria não refletiria, nesses casos, relações de parentesco evolutivo entre esses grupos, uma vez que seriam adaptações voltadas ao desempenho de fun‑ ção semelhante, o que os biólogos denominam convergência evolutiva (Fig. 6). Bilateria Protostomia Lophotrochozoa Ecdysozoa P or ífe ro s C ni d ár io s P la te lm in to s M ol us co s A ne líd eo s N em at ód eo s A rt ró p od es E q ui no d er m os C or d ad os Deuterostomia R ep ro d uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o C ód ig o P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 67 Figura 7 Filogenia que mostra possíveis relações evolutivas entre os nove principais filos animais. Moluscos e anelídeos são reunidos em um mesmo grupo, ou clado – Lophotrochozoa –, com base em semelhanças genéticas e na presença de mesmo tipo de larva em algumas espécies dos dois filos. Nematódeos e artrópodes, além das similaridades genéticas, apresentam um mesmo tipo de muda de exoesqueleto (ecdise), sendo por isso reunidos no clado Ecdysozoa. 3. Sistemas corporais dos animais Os animais são organismos heterotróficos e obtêm as substâncias orgânicas necessárias ao seu sustento com a ingestão de outros seres vivos inteiros, de suas partes ou mesmo de seus cadáveres. A energia necessária ao funcionamento corporal animal vem principalmente da respiração aeróbica, processo intracelular em que certas substâncias orgâni‑ cas provenientes do alimento são degradadas a CO2 e H2O com a participação do gás oxigênio obtido do meio. Os principais subprodutos do metabolismo – gás carbônico e excreções nitrogenadas – são constantemente eliminados do corpo. Os poríferos não apresentam tecidos nem órgãos. Sua alimentação ocorre por meio de células flageladas especiais localizadas em cavidades corporais, os coanó‑ citos, que capturam partículas alimentares da água, digerindo ‑as intracelularmente e distribuindo os nutrientes obtidos às demais células corporais. Todos os outros animais apresentam tecidos verdadeiros, que em diversos grupos estão reunidos constituindo órgãos e sistemas corporais. Os tipos de tecido e a complexidade de órgãos e sistemas variam na escala zoológica, mas há quatro sistemas corporais básicos no organismo animal: o sistema digestivo, o sistema respiratório, o sistema circulatório e o sistema urinário ou excretor. Sistemas digestivos Em todos os animais, exceto em poríferos, o alimento é ingerido pela boca e segue para uma cavidade em forma de bolsa ou tubo, onde é eventualmente umedecido, triturado e digerido por enzimas. Essa digestão que ocorre exclusivamente na cavidade digestiva, externamente às células, é denominada digestão extracelular. Os produtos resultantes dessa digestão extracelular são absorvidos por células do revestimento da cavidade digestiva e dali distribuídos a todas as células do corpo do animal. Em cnidários e platelmintos, que apresentam sistema digestivo de fluxo bidire‑ cional, a digestão dos alimentos começa extracelularmente na cavidade digestiva e se completa no interior das células. Nesse caso, fala ‑se em digestão extra e intrace- lular. Nos platelmintos, a maior parte da digestão ocorre extracelularmente, e apenas pequena parte dela se completa dentro das células da cavidade digestiva. Animais cujo sistema digestivo tem fluxo unidirecional apresentam digestão ex‑ tracelular, que ocorre na cavidade digestiva à medida que o alimento se desloca em sentido único, da boca para o ânus. Dependendo da espécie animal, o tubo digestivo pode apresentar regiões especializadas, como a cavidade bucal, a faringe, o esôfago, o estômago e o intestino, que se abre para o exterior pelo ânus. Uma filogenia animal Observe, ao lado, uma filogenia que relaciona os nove filos estudados neste livro, elaborada com base em informações anatômicas e genéticas obti‑ das em diversos estudos recentes (Fig. 7). Dialogando com o texto O objetivo desta atividade é compreender quais foram as prin‑ cipais soluções adaptativas que permitiram a diversos grupos de animais habitara terra firme. Uma sugestão para iniciar a atividade é fazer um levantamento dos am‑ bientes em que vivem representan‑ tes dos principais filos de animais. Baseie‑se na descrição dos filos apresentada no item 1. Principais grupos animais e represente suas observações em uma tabela que correlacione os nove filos animais estudados e os ambientes em que vivem seus principais representan‑ tes, exemplificando. Em seguida responda: quais teriam sido os sistemas corporais mais afetados na conquista da terra firme? Redija um texto objetivo sobre o assunto. Troque suas respostas com colegas para avaliar diferenças de ponto de vista ao responder uma questão. N E LS O N M AT S U D A Veja comentários sobre essa atividade no Suplemento do Professor. Intestino Encéfalo Medula espinhal Bexiga natatória Nadadeira dorsal Nadadeira caudal Nadadeira anal Linha lateral Bexiga urinária Ânus Nadadeira pélvica Estômago Narina Fígado Coração Rim Brânquias Opérculo em corte Gônada Traqueia Parede do corpo EspiráculoRamificações das traqueias (traquéolas) Células musculares Espiráculos abdominais R ep ro d uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o C ód ig o P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 68 IL U S T R A Ç Ã O : C E C ÍL IA IW A S H IT A Figura 8 Representação esquemática da anatomia de um peixe (truta), mostrando alguns órgãos internos, com destaque para o sistema digestivo. (Representação fora de proporção; cores meramente ilustrativas.) Fonte: adaptada de REECE, J. B. et al. Biologia de Campbell. 10. ed. Porto Alegre: Artmed, 2015. Sistemas respiratórios A obtenção de gás oxigênio necessário à respiração das células e a remoção de gás carbônico pro‑ duzido nesse processo ocorrem por meio da respiração corporal, que consiste na realização das trocas gasosas entre o corpo do animal e o ambiente. Os animais apresentam diferentes formas de respiração corporal, das quais destacamos as principais a seguir. Respiração cutânea Diversos animais realizam suas trocas gasosas pela superfície corporal, a chamada respiração cutânea (do latim cutis, pele). A superfície corporal do animal deve estar sempre úmida, para permitir a difusão dos gases. A respiração cutânea, portanto, só ocorre em animais que vivem na água ou em ambientes úmidos, como poríferos, cnidários, platelmintos, nematódeos, alguns anelídeos e anfíbios. Figura 9 Representação simplificada do sistema respiratório traqueal dos insetos, pelo qual o ar atmosférico atinge diretamente os tecidos e as células, sem intermediação de outros sistemas. (Representação fora de proporção; cores meramente ilustrativas.) Fonte: adaptada de REECE, J. B. et al. Biologia de Campbell. 10. ed. Porto Alegre: Artmed, 2015. IL U S T R A Ç Ã O : S E LM A C A PA R R O ZRespiração traqueal Insetos são artrópodes adaptados à vida em terra firme. Nesses animais, as trocas gasosas são realizadas por um sistema interno de tubos corporais dotados de reforços espiralados nas paredes, por isso denominados traqueias, as quais formam um sistema altamente ramificado, responsável pela respiração traqueal. O sistema traqueal comunica ‑se com a superfície do corpo por meio de poros – os espiráculos –, por onde penetra o ar atmosférico rico em gás oxigênio; esse gás percorre, então, o sistema de traqueias muito ramificadas, chegando diretamente a todas as células corporais. O gás carbônico produzido no meta‑ bolismo celular, por sua vez, faz o caminho inverso, passando para as traqueias, e delas para o exterior. A respiração traqueal não tem nenhuma relação funcional com a circulação sanguínea, como ocorre em outros animais, uma vez que as traqueias garantem que o gás oxigênio chegue diretamente a todas as células corporais, sem intermediação dos líquidos que circulam no corpo (Fig. 9). A faringe é a porção do tubo digestivo que se segue à cavidade bucal, apresenta diferenças entre os diversos grupos animais. Minhocas têm a faringe ligada a feixes musculares, que lhes possibilitam sugar alimento. O estômago é uma região dilatada do tubo digestivo em que atuam enzimas responsáveis pela digestão de certos componentes do alimento, antes de sua passagem para o intestino, onde a digestão se completa e ocorre absorção dos nutrientes do alimento digerido. Em diversos animais, condutos provenientes do sistema urinário – e, em muitos casos, também do sistema genital – desembocam em uma região dilatada da porção terminal do intestino, a cloaca, presente em invertebrados (como insetos) e em vertebrados – como anfíbios, répteis e aves. O sistema digestivo geralmente apresenta glândulas associadas que auxiliam no processo de digestão; algumas delas são as glândulas salivares, o fígado e o pâncreas (Fig. 8). Dialogando com o texto Esta atividade propõe uma reflexão sobre a correlação entre a eficiência de inseticidas em aerossóis, que liberam microgotículas no ar, e o sistema traqueal de respiração dos insetos. Compare com outros sistemas respiratórios. Escreva um texto objetivo para tratar dessa correlação, justificando sua suposta eficiência. Veja comentários sobre essa atividade no Suplemento do Professor. Fluxo de água Arcos branquiais Filamentos branquiaisVasos sanguíneos Fluxo de água Arco branquial Fluxo de água Rede de capilares sanguíneos Sangue pobre em gás oxigênio Sangue oxigenado MAMÍFERO Brônquios Alvéolos R ep ro d uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o C ód ig o P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 69 Figura 10 Representação esquemática da estrutura das brânquias de um peixe mostrando detalhes do caminho da água entre os filamentos branquiais (setas azuis). Os arcos das brânquias são estruturas ósseas ou cartilaginosas que sustentam filamentos branquiais (Representação fora de proporção; cores meramente ilustrativas.) Fonte: adaptada de REECE, J. B. et al. Biologia de Campbell. 10. ed. Porto Alegre: Artmed, 2015. IL U S T R A Ç Ã O : J U R A N D IR R IB E IR O Figura 11 Representação esquemática dos pulmões de um mamífero, um deles cortado para mostrar sua estrutura interna. (Representação fora de proporção; cores meramente ilustrativas.) Fonte: adaptada de SADAVA, D. et al. Vida: a ciência da Biologia. 8. ed. Porto Alegre: Artmed, 2009. Respiração pulmonar Animais como certos moluscos, a maioria dos anfíbios adultos, répteis, aves e mamíferos, além de algumas espécies de peixe, executam trocas gasosas com o ar por meio de órgãos corporais internos ricamente vascularizados, os pulmões. Fala ‑se, nesses casos, em respiração pulmonar. A estrutura dos pulmões varia nos diferentes animais. Nos moluscos, os pul‑ mões são bolsas ricamente vascularizadas. Pulmões de sapos e de rãs têm várias dobras internas que formam compartimentos vascularizados. Pulmões de répteis são ainda mais complexos que os dos anfíbios. Nas aves, os pulmões são constituídos por finíssimos tubos paralelos chamados de parabronquíolos. A parede dos parabronquíolos é irrigada por grande quantidade de capilares sanguíneos, o que possibilita as trocas gasosas entre o sangue e o ar inalado pela ave. Os pulmões das aves comunicam ‑se com os sacos aéreos, que são bolsas que se distribuem nas regiões anterior e posterior do corpo e penetram em alguns ossos. Nos mamíferos, os pulmões são envoltos por membranas, as pleuras, que envolvem milhões de minúsculas bolsas – os alvéolos pulmonares – que se localizam nas extremidades de tubos finíssimos denominados bronquíolos. As paredes dos alvéolos são envoltas por grande quantidade de capilares sanguíneos, possibilitando alta eficiência nas trocas gasosas entre o sangue e o ar inspirado que chega aos alvéolos (Fig. 11). Respiração branquial Em diversos animais aquáticos, as trocas gasosas com a água ocorrem por meio de estruturas especializadas, as brânquias, que são dobras externasda superfície corporal ricas em vasos sanguíneos. A respiração branquial está presente em peixes, em crustáceos e em diversos anfíbios, equinodermos, anelídeos e moluscos. Ao passar pelos vasos que irrigam as brânquias, o fluido circulatório – sangue ou linfa, dependendo do animal – fica tão próximo da água que permite trocas gasosas eficientes com o ambiente aquático por meio da difusão (Fig. 10). IL U S T R A Ç Ã O : P A U LO M A N Z I Coração Hemolinfa nas hemocelas que circundam os órgãos Vasos laterais Óstios Coração tubular ARTRÓPODE Coração Capilarização nos órgãos Líquido intersticial Corações laterais Vaso ventral Vaso dorsal ANELÍDEO SISTEMA CIRCULATÓRIO ABERTO SISTEMA CIRCULATÓRIO FECHADO IL U S T R A Ç Õ E S : O S V A LD O S E Q U E T IN A B R ep ro d uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o C ód ig o P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 70 Figura 12 Representações esquemáticas de um sistema circulatório aberto (em artrópode) (A) e de um sistema circulatório fechado (em anelídeo) (B). (Representação fora de proporção; cores meramente ilustrativas.) Fonte: adaptada de REECE, J. B. et al. Biologia de Campbell. 10. ed. Porto Alegre: Artmed, 2015. Sistemas circulatórios Os nutrientes absorvidos no tubo digestivo, assim como o gás oxigênio absorvido em órgãos respiratórios, precisam chegar rapidamente a todas as células do corpo, nas quais ocorre incessante atividade metabólica. Ao mesmo tempo, o gás carbônico e as excreções gerados no metabolismo das células precisam ser eliminados do corpo do animal. Ao longo de sua evolução, os animais desenvol‑ veram diversas estratégias para garantir o transporte de substâncias pelo corpo. Em poríferos, cnidários e platelmintos, a distribuição de substâncias ocorre por difusão célula a célula. Embora seja relativamente lenta, a difusão é eficiente em animais de corpo pequeno, nos quais todas as células estão próximas da cavidade digestiva e de superfícies respiratórias. Nos nematódeos, a distribuição de substâncias no corpo ocorre por meio do líquido que preenche o pseudoceloma. O gás oxigênio absorvido pela superfície corporal e os nutrientes assimilados pela parede do tubo digestivo difundem ‑se para o líquido pseudocelômico, que os transporta a todas as partes do corpo. Processo inverso se dá com substâncias excretadas pelas células. Anelídeos, moluscos, artrópodes e cordados apresentam sistemas circulatórios constituídos por redes de tubos ramificados, os vasos circulatórios. Nos vasos circula um fluido, que pode ser sangue ou hemolinfa, responsável pela distribuição de nutrientes e gás oxigênio para as células e pelo recolhimento de gás carbônico e excreções nitrogenadas produzidos no metabolismo celular. Em muitos sistemas circulatórios, a movimentação do líquido no sistema deve ‑se à contração de células musculares, que podem tanto se localizar nas paredes dos próprios vasos como formar um órgão especializado – o coração –, que se contrai ritmicamente, mantendo o fluxo do fluido circulatório. Animais como minhocas e insetos podem apresentar mais de um coração. Por definição, vasos sanguíneos que partem do coração e levam fluido circulatório para as diversas partes do corpo são denominados artérias. Vasos que trazem o líquido circulatório das diversas partes do corpo de volta ao coração são chamados de veias. A maioria dos moluscos e dos artrópodes apresenta sistema circulatório aberto, no qual as artérias terminam em cavidades localizadas entre os tecidos corporais, as hemocelas. Nos sistemas circulatórios abertos, o fluido circulatório é denominado hemolinfa. Esta entra em contato direto com os tecidos em torno das hemocelas, o que permite o intercâmbio de substâncias entre células e hemolinfa. Das hemo‑ celas, a hemolinfa segue pelas veias, penetrando no coração por orifícios chamados óstios, aberturas cardíacas dotadas de válvulas que evitam o refluxo de hemolinfa quando o coração se contrai (Fig. 12). Cavidade celômica Nefridióporo Capilares sanguíneos Metanefrídeo Nefróstoma Célula-flama Excreção Fluxo das excreções Túbulo excretor Dobras da membrana celular Tufo de flagelos Núcleo Figura 13 Esquema da organização do protonefrídio na planária, mostrando a célula ‑flama. (Representação fora de proporção; cores meramente ilustrativas.) Fonte: adaptada de REECE, J. B. et al. Biologia de Campbell. 10. ed. Porto Alegre: Artmed, 2015. IL U S T R A Ç Õ E S : S E LM A C A PA R R O Z R ep ro d uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o C ód ig o P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 71 Em animais como anelídeos, moluscos cefalópodes e cordados, os vasos circulatórios formam um circuito fechado, ou seja, o fluido circulatório movimenta ‑se sempre dentro de vasos. Nos sistemas circulatórios fechados, o fluido circulatório é denominado sangue. As artérias ramificam ‑se progressivamente a partir do coração, tornando ‑se cada vez mais finas. Junto aos tecidos corporais, os vasos sanguíneos são tão finos que recebem o nome de capilares sanguíneos, por serem mais finos que um fio de cabelo. A parede dos capilares tem apenas uma camada de células de espessura, o que permite a difusão de substâncias nutrientes e gás oxigênio do sangue para as células; gás carbônico e substâncias excretadas fazem o caminho inverso, penetrando nos capilares e sendo levados pelo sangue. Os capilares reúnem ‑se e formam veias, que se juntam e aumentam de espessura conforme se aproximam do coração, para onde o sangue retorna. Figura 14 Representação esquemática da organização de metanefrídios da minhoca. No metâmero mais à direita, não foram representados os capilares sanguíneos. (Representação fora de proporção; cores meramente ilustrativas.) Fonte: adaptada de REECE, J. B. et al. Biologia de Campbell. 10. ed. Porto Alegre: Artmed, 2015. Sistemas excretores A principal substância excretada pelas células animais é a amônia (NH3), substância resultante da degradação de moléculas orgânicas ricas em nitrogê‑ nio, principalmente proteínas e ácidos nucleicos. A amônia é tóxica e deve ser rapidamente eliminada do corpo ou transformada em substâncias menos peri‑ gosas, que possam aguardar mais tempo até a excreção. Animais aquáticos ou que vivem em ambientes úmidos, como minhocas e larvas de anfíbios (girinos), excretam a amônia que produzem pela superfície corporal. Mamíferos convertem a amônia em ureia, substância menos tóxica, mas altamente solúvel, o que demanda volume de água relativamente grande para ser eliminada. A perda de água na excreção pode ser um problema para animais que vivem em regiões secas. Insetos, répteis e aves convertem a amônia em áci- do úrico, substância pouco tóxica e pouco solúvel em água, o que permite ser muito concentrada na urina. Aves e répteis, por exemplo, eliminam juntamente com a fezes uma massa esbranquiçada de consistência pastosa, é a urina rica em ácido úrico. Poríferos e cnidários, animais em que praticamente todas as células estão em contato direto com a água do ambiente, não têm sistema excretor e eliminam a amônia por simples difusão através das membranas celulares. Todos os outros animais têm sistemas excretores que atuam na eliminação de substâncias tóxicas ou indesejáveis do organismo. Platelmintos apresentam sistema excretor constituído por protonefrídios. Essas estruturas são compostas de células flageladas denominadas célula ‑flama, ou solenócitos, que absorvem água e excreções dos espaços intercelulares, impulsionando ‑as para túbulos excretores; estes se unem e desembocam em poros excretores localizados na superfície corporal (Fig. 13). Em nematódeos, as excreções nitrogenadas e outras substâncias indesejáveis são lançadas pelas células no líquido do pseudoceloma. Parte dessas substâncias, principalmente as excreções nitrogenadas, é eliminada por simples difusão atra‑ vés daparede intestinal. Outras substâncias indesejáveis são eliminadas por dois canais excretores dispostos ao longo das laterais do corpo do animal. Anelídeos e moluscos têm órgãos excretores chamados de metanefrídios. Cada metanefrídio é um tubo aberto nas duas extremidades; uma delas, mais alargada e em forma de um funil ciliado (nefróstoma), abre‑se no celoma, en‑ quanto a outra desemboca em um poro excretor na superfície do corpo. Moluscos apresentam de um a sete pares de metanefrídios, cujos funis ciliados removem as excreções, conduzindo ‑as até poros excretores que se abrem na superfície do corpo. Anelídeos como a minhoca têm um par de metanefrídios por segmento corporal. O funil de cada nefrídio se abre no celoma, do segmento anterior, de onde remove as excreções, que são eliminadas por um poro situado na parede lateral do segmento (Fig. 14). Escreva, no caderno, o termo abaixo que substitui corretamente a tarja entre parênteses das frases de 1 a 5. a) respiração branquial b) respiração celular c) respiração cutânea d) respiração pulmonar e) respiração traqueal 1. A ( ) é realizada por muitos animais aquáticos, por meio de órgãos filamentosos externos ricamente vascularizados. 2. Animais cujas trocas gasosas com o ambiente ocorrem por toda a superfície corporal, e não apenas em áreas especializadas, têm ( ). 3. O processo metabólico em que moléculas orgânicas reagem com gás oxigênio, produzindo gás carbônico e água e disponibilizando energia para as atividades vitais, é a ( ). 4. A ( ) é um processo de trocas gasosas em que o ar atmosférico chega diretamente aos tecidos corporais por meio de um sistema de túbulos ramificados. 5. A ( ) é realizada por diversos animais de terra firme, em órgãos ricamente vascularizados internos ao corpo. 1. a 2. c 3. b 4. e 5. d Aplicando conhecimentos Registre as respostas em seu caderno. As estruturas excretoras dos vertebrados são os néfrons, que ficam agrupados em órgãos denomi‑ nados rins. O néfron é um tubo especializado, com uma das extremidades em forma de taça, a cápsula renal, que envolve um pequeno novelo de capilares sanguíneos, o chamado glomérulo renal. O sangue que circula nos glomérulos é filtrado pelas células da cápsula renal e as excreções são conduzidas por canais excretores até uma bexiga urinária ou diretamente para fora do corpo. Túbulo de Malpighi (cortado) Fezes e urina (ácido úrico) Túbulo de Malpighi Hemolinfa Cavidade intestinal Ânus IL U S T R A Ç Õ E S : O S V A LD O S E Q U E T IN Figura 15 Representação esquemática dos túbulos de Malpighi de um inseto. Essas estruturas absorvem excreções e sais da hemolinfa (setas), eliminando ‑os no intestino. (Representação fora de proporção; cores meramente ilustrativas.) Fonte: adaptada de REECE, J. B. et al. Biologia de Campbell. 10. ed. Porto Alegre: Artmed, 2015. Artrópodes podem apresentar diferentes tipos de órgão excretor. Em crustáceos, por exemplo, a excreção ocorre por meio de duas glândulas semelhantes a metanefrídios, que se abrem na base das antenas, sendo denominadas glândulas antenais (ou glândulas verdes). Na maioria das espécies de ara‑ nha, a excreção é realizada por glândulas excretoras localizadas na base das pernas, que por esse motivo são chamadas de glândulas coxais; o funcionamento dessas glândulas ocorre de modo similar ao das glândulas antenais dos crustáceos. Insetos, miriápodes (quilópodes e diplópodes) e algumas espécies de aranha eliminam suas excreções por meio de estruturas tubulares alongadas presentes na hemocela, os túbulos de Malpighi. Uma das extremidades do túbulo de Malpighi é fechada, enquanto a outra se comunica com a região mediana do intestino. Os túbulos de Malpighi removem as excreções da hemolinfa e as lançam no intestino, de onde são eliminadas com as fezes (Fig. 15). R ep ro d uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o C ód ig o P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 72