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ACÚSTICA MUSICAL AULA 6 Prof. Alysson Siqueira 2 CONVERSA INICIAL Na condição de musicistas e educadores musicais, precisamos prezar pela qualidade sonora da música que estamos apresentando aos nossos espectadores e estudantes. A preparação acústica é essencial até mesmo para sermos bem compreendidos musicalmente. Pensando nisso, abordaremos nesta etapa os princípios de isolamento e tratamento acústico. O primeiro diz respeito a impedir a propagação do som para que não possa ser percebido fora de um determinado ambiente sonoro. O segundo tem seu foco no interior do espaço, procurando otimizar suas características acústicas. Esses dois princípios serão fundamentais para tratarmos também da acústica de salas de espetáculo e também de estúdios de gravação e ensaio. Muitas vezes esses ambientes sonoros necessitarão de equipamentos para suprir demandas acústicas. Por esse motivo trataremos das bases teóricas do áudio e sobre os equipamentos de sonorização. TEMA 1 – PRINCÍPIOS DE ISOLAMENTO ACÚSTICO Já sabemos que o som precisa de um meio elástico para se propagar. No nosso cotidiano existem diversos materiais com comportamento elástico evidente, como os prendedores cabelo e os elásticos das roupas. Porém, quando, após sua deformação, não há retorno à forma original, o material é considerado plástico. Isso acontece, por exemplo, com a argila e com as massas de modelar. De modo geral, os materiais se comportam de forma elástica até um certo limite do esforço a que são submetidos. Ao ultrapassá-lo, seu comportamento torna-se plástico. As características de elasticidade e plasticidade se diferenciam de acordo com a natureza do material. As paredes de alvenaria atuam no isolamento acústico por possuírem pouca elasticidade, por consequência, menor capacidade de transmitir som do que o ar. Já o concreto, que possui elasticidade ainda menor, é melhor isolante acústico ainda. Quanto maior o peso específico da parede, concluindo, menor será sua capacidade de transmitir som para o exterior. 3 A capacidade de transmissão do som ao ambiente externo é apenas um dos aspectos envolvidos no isolamento acústico. Há, ainda, outros três, conforme a Figura 1: Figura 1 – Comportamento acústico dos materiais Fonte: Siqueira, 2020, p. 210. Ao atingir um anteparo, uma parte do som é refletida; outra, absorvida; uma terceira é propagada pelo próprio material; e a última, transmitida para fora do ambiente. As paredes de concreto e alvenaria são bastante reflexivas e pouco absorventes. Por conta de sua falta de elasticidade também propagam pouco som dentro de si e transmitem pouco para fora. A análise desses quatro princípios da relação entre onda e matéria determina se um material específico é mais ou menos isolante. A associação com materiais absorvedores auxilia no isolamento, já que impedem parte do som de atingir o obstáculo. Nesses casos também podemos falar de “sistemas isolantes acústicos” (Carvalho, 2006, p. 56). O nível de isolamento acústico (IA) de um material ou sistema pode ser obtido em laboratório. No livro Acústica arquitetônica, Régio Carvalho (2006) 4 apresenta uma extensa tabela com os IA de diversos materiais medidos a partir de um som de 500Hz. Na tabela a seguir, destacamos alguns de interesse para a música. Tabela 1 – IA de materiais e sistemas acústicos a 500Hz Materiais e sistemas IA (dB) 500Hz Gesso acartonado 13mm, fixado em cada um dos lados por montantes de madeira 75 x 38 mm 35 Alvenaria de concreto 30 cm com agregado graúdo (pedras) 50 Alvenaria de concreto 15 cm com agregado miúdo (areia) 40 Alvenaria de concreto 15 cm com agregado miúdo (areia) 40 Alvenaria de concreto 15 cm com reboco de 13mm 49 Parede dupla de tijolos 11,2cm, com 13 mm de reboco e espaço vazio de 4,2cm (espessura total: 29,2 cm) 54 Esquadria de madeira ou metal com vidros duplos de 3mm, com câmara de ar de 100mm e absorvente no marco inferior entre os vidros, frestas seladas 40 Janela simples de vidro 3mm 20 Fonte: elaborada por Siqueira, 2023, com base em Carvalho, 2006, p. 57-60. Entre os sistemas, alguns são compostos de duas placas separadas por um material absorvente. Esse método, muito eficiente para o isolamento acústico, é conhecido como “massa-mola-massa” (Carvalho, 2006, p. 62). Cabe ressaltar que quanto maior for a massa da mola e a distância entre as duas placas, maior será a efetividade do sistema. TEMA 2 – PRINCÍPIOS DE TRATAMENTO ACÚSTICO Ambientes muito grandes e com paredes reflexivas produzem reverberações e ecos em excesso que podem prejudicar o resultado sonoro da apresentação musical. Algumas reflexões precisam ser eliminadas e outras valorizadas. É preciso, portanto, compreender bem esse processo para que possamos utilizar essas reflexões a nosso favor. Até meados dos anos 2000, os estúdios de gravação e ensaio procuravam eliminar completamente as reflexões. Isso se deve ao fato de que o som captado sem elas era muito mais fácil de manipular. Atualmente, muitos estúdios buscam 5 uma ambiência ideal na sala de gravação, em vez de criá-la artificialmente no computador. Uma onda refletida propaga-se pelo ambiente e, ao encontrar um novo anteparo, o fenômeno repete-se. Assim ocorre sucessivas vezes até sua perda total de energia. Além disso, como o som se propaga em todos os sentidos, isso acontece em todos os anteparos do ambiente. A primeira reflexão, provocada pelo anteparo mais próximo do emissor, denomina-se primária. Considerando apenas um emissor e um receptor no ambiente, obtemos um esquema como o da Figura 2: Figura 2 – Esquema de reflexões Fonte: Siqueira, 2020, p. 214. A figura representa uma sala retangular vista de cima, na qual há um emissor e um receptor. Ao ser emitido, o som direto (ilustrado pela linha cheia) viaja em linha reta até o ouvinte. Há frentes de onda – simbolizada pelas linhas grossas pontilhadas – que incidem diagonalmente nas paredes laterais e no anteparo atrás do emissor. Elas atingem os objetos em ângulos que permitem a propagação de suas reflexões (primárias) também na direção do receptor. Existem, ainda, frentes de onda (representadas pelas linhas finas pontilhadas) 6 refletidas duas vezes até chegar no ouvinte, percorrendo uma distância maior, essas se responsabilizam pela reverberação. As reflexões primárias, em alguns casos, podem ser bem-vindas para reforçar o som direto. Em outros, elas podem ser prejudiciais, como no caso de estúdios de gravação. Para reflexões indesejadas, uma das estratégias é usar a absorção. Outra estratégia muito utilizada atualmente se baseia em redirecionar as ondas sonoras. Esse processo aumenta a possibilidade de interferências destrutivas entre as ondas refletidas, devido à inversão de fase que sofrem. O redirecionamento realiza-se de diversas formas, uma delas é eliminando as paredes paralelas do projeto do ambiente acústico, projetando plantas oblíquas quando o ambiente acústico é planejado ou permite reformas. É também possível recorrer à aplicação de revestimentos oblíquos em paredes paralelas. Um material bastante usado com esse intuito são as placas de gesso com formatos angulares aplicadas à parede ou ao forro. Ainda pensando em promover reflexões difusas, há uma terceira possibilidade: o uso de difusores acústicos. Figura 3 – Difusor acústico Crédito: Feel Photo Art/Shutterstock. 7 Esse modelo de difusor, feito de tacos de madeira de diversos comprimentos, funciona muito bem para eliminar reflexões indesejadas em ambientes acústicos. Vistos os conceitos básicos, vamos aplicá-los às salas de espetáculos. TEMA 3 – ACÚSTICA DE SALA DE ESPETÁCULOS Um teatro possui três partes principais: o palco, onde, normalmente, se realiza o espetáculo, a plateia, onde fica o público,e as áreas de serviço. As duas primeiras partes compõem, de fato, a sala de espetáculo. Existem diferentes tipos de palco que interferem diretamente na concepção arquitetônica da casa de espetáculo. Figura 4 – Tipos de teatro Fonte: Siqueira, 2020, p. 218. O modelo teatro mais comum é o italiano, em que toda a plateia fica de frente para o palco. Normalmente possui uma planta retangular, possibilitando 8 que a reflexão proveniente da parede oposta ao palco provoque reflexões indesejadas. Conforme suas dimensões do teatro, o som pode chegar fraco aos ouvintes das últimas fileiras. Para vencer essas dificuldades, os teatros passaram a construir conchas acústicas. A concha consiste em uma inclinação no forro do teatro com a finalidade de direcionar uma reflexão primária para a plateia, como podemos observar na Figura 5. Figura 5 – Concha acústica Fonte: Siqueira, 2020, p. 219. O cálculo da inclinação da concha acústica considera que o ângulo de incidência da onda sonora é igual ao de reflexão. Assim, por meio da trigonometria, obtém-se o ângulo da concha. Em teatros com plateias com mais de 17 metros de comprimento, necessariamente e pelo menos, devem revestir a parede oposta ao palco com algum tratamento acústico, com a finalidade de evitar eco no palco – o que poderia gerar problemas de sincronia na performance musical. Em geral, todas 9 essas distâncias iguais ou maiores que 17 metros devem ter um tratamento especial. Além de tudo que já discutimos, caso estejamos estudando um novo projeto, recomenda-se sempre pensar no princípio da planta oblíqua. Um modelo bastante aplicado atualmente pode ser definido como uma combinação entre a semiarena e o palco italiano. Figura 6 – Planta oblíqua de teatro Fonte: Siqueira, 2020, p. 221. Mesmo com o paralelismo completamente eliminado, o tratamento acústico das superfícies pode ser necessário em função das dimensões. Se o som refletir várias vezes, o eco poderá, mesmo com paredes oblíquas, interferir na experiência do público. TEMA 4 – ACÚSTICA DE ESTÚDIOS DE GRAVAÇÃO E ENSAIO Por se tratar, em geral, de um ambiente menor do que uma sala de espetáculo, em um estúdio de gravação e ensaio, normalmente, é mais viável 10 pensar no princípio da planta oblíqua. Às vezes a readequação de uma parede pode ser suficiente para eliminar o paralelismo do ambiente. Um estúdio de gravação profissional básico conta, no mínimo, com dois ambientes: a sala de gravação e a técnica. Há estúdios mais sofisticados que possuem diversas cabines e salas de gravação. Quanto mais ambientes acústicos para a captação de som disponíveis, maior é a possibilidade de gravação de instrumentos simultaneamente sem vazamentos. Saiba mais Vazamento é um termo usado na produção sonora para se referir à captação, pelo microfone de um instrumento, de sons de outros instrumentos, de vozes e, até mesmo, de fones de ouvido. A sala de gravação, também chamada de aquário, normalmente corresponde ao maior espaço do estúdio e precisa passar por tratamento acústico. Caso você deseje uma sala seca, ou seja, com reflexões tendendo a zero, a alternativa é revestir todas as paredes com espuma acústica. Esse ambiente quase sem reflexões afeta a nossa percepção espacial. Sonoramente, diz-se que a sala fica sem ambiência. Porém, atualmente, há uma tendência de busca por uma ambiência natural que elimine as reflexões primárias, mas mantenha algumas reflexões de intensidade moderada. Para obter esse resultado, os difusores instalados nas paredes são fundamentais. Eles podem ser fixos, integrando o revestimento das paredes, ou móveis. Arestas verticais, formadas pelo encontro de duas paredes, principalmente aquelas que formam ângulos agudos, necessitam de tratamento para evitar interferências construtivas indesejadas. Nesse caso, o mercado oferece uma espuma específica, mas também podemos adotar outra solução criativa, como pedaços de velho colchão recortados e colados irregularmente na aresta, para absorver o som que ali chega. No caso do forro, placas oblíquas de gesso são bastante usuais. Também há situações em que placas de isopor foram usadas com sucesso. Depois de cortadas e coladas formando desenhos com relevo variado, elas foram revestidas com massa corrida e ajustadas no forro. O piso também não deve ser completamente revestido por material absorvedor. Em vez de carpete, por exemplo, atualmente costuma-se adotar 11 materiais pouco reflexivos, como a madeira laminada. Nesse cenário, para atenuar algumas reflexões do piso, é possível distribuir alguns tapetes pela sala. Levando em conta o princípio de que as paredes do estúdio estejam bem isoladas, as portas e janelas tornam-se os pontos frágeis. Existem portas específicas para isolamento acústico, com modelos comerciais previamente montados e prontos para a instalação. As janelas são o veículo de comunicação visual entre as pessoas que ocupam a área técnica e os músicos em performance no aquário. Para oferecer um bom isolamento acústico, o ar precisa ser retirado do espaço entre as duas placas de vidro. Isso se faz através de bombeamento, o material deve ser bastante resistente para suportar a sucção. A ausência de meio elástico entre as placas bloqueia a propagação do som. Uma alternativa para o uso das janelas é o uso de câmeras de monitoramento, com o cuidado de isolar a passagem do cabeamento entre os ambientes. Na sala técnica, o som gravado precisa ser ouvido pelo técnico diretamente dos monitores de referência. Para isso, revestimentos absorvedores e difusores são aplicados em todas as superfícies. Um cuidado especial deve ser tomado com a reflexão primária decorrente da parede imediatamente atrás do técnico. Saiba mais Monitores de referência são caixas acústicas de alto desempenho e fidelidade. São usadas em estúdios para fornecer parâmetros confiáveis ao operador. A acústica do estúdio de ensaio possui muitas semelhanças à da sala de gravação. Por não contar com cabines, a bateria fica no mesmo ambiente que os outros instrumentos. Se ela estiver posicionada próximo a uma parede, o que é comum, pode haver um efeito de concha acústica, produzindo reflexões primárias que reforçarão seu som direto. Difusores podem ser instalados logo atrás do instrumento, uma vez que, nesse tipo de espaço, ele não precisa ser amplificado. Além disso, dois anteparos revestidos de espuma acústica podem ser dispostos, diagonalmente, diante da bateria. Eles têm a função de atenuar as frentes de onda que poderiam gerar reflexões primárias nas paredes laterais. No caso do home studio, na maior parte dos casos compostos por um único ambiente que fundem as salas de gravação e técnica, torna-se necessário buscar o equilíbrio entre a ambiência sutil desejada para a gravação e a ausência 12 de reflexões que os processos de edição e mixagem requerem. Para a área técnica, os difusores serão necessários. Já para a de gravação, materiais absorventes diversos, como colchões, cobertores e travesseiros, podem ser criativamente dispostos para criar a ambiência desejada. O vazamento de ruídos de equipamentos de áudio e do computador representa outro problema dos home studios. Embora as tecnologias tenham avançado na redução do nível de ruído de eletrônicos, ele ainda não é nulo. Nesse ambiente específico, quanto mais longe dos equipamentos de áudio o se posicionar microfones, melhor. Há também a possibilidade de criar anteparos para atenuar os vazamentos de ruído. No caso específico da gravação de voz, existe um acessório chamado vocal box que pode desempenhar essa função, além de reduzir bastante a captação de reflexões pelo microfone. Saiba mais Vocal box é um dispositivo de seção semicircular revestido internamente por material absorvente, geralmente espuma acústica.Ele é preso no mesmo pedestal do microfone e cria uma concha que isola o dispositivo de captação das possíveis reflexões. TEMA 5 – NOÇÕES DE ÁUDIO Neste tópico, iremos falar de áudio levando em conta duas aplicações: a performance musical ao vivo e as gravações. Ambas também podem ser subdivididas entre áudio digital e analógico, embora os métodos analógicos de gravação, terem sido relegados a um segundo plano nas últimas décadas. Por outro lado, a tecnologia de áudio analógica ainda está muito presente na performance. Equipamentos que atuam dessa forma são bem mais acessíveis que os digitais, fato que dificulta a transição do trabalhador musical médio. Porém, as grandes empresas de sonorização e de produção cultural, assim como os artistas mais consagrados já realizaram essa passagem há algum tempo. Até mesmo templos religiosos estão em processo de atualização. As facilidades que as mesas digitais trazem à performance e seu crescente uso revelam uma tendência de substituição que deve se intensificar à medida que os equipamentos se tornam mais acessíveis. 13 5.1 Áudio para performance (analógico e digital) Um sistema de áudio possui dispositivos de entrada e saída. Os de entrada consistem em elementos de captação do som que, de maneira geral, correspondem a captadores e microfones. Eles possuem em sua estrutura um elemento vibrante. No caso do microfone, trata-se de uma membrana que, ao entrar em contato com as ondas sonoras, vibra de forma análoga. A vibração transforma-se, também analogicamente, em impulsos elétricos que são transmitidos através de um cabo. Os cabos mais comuns possuem duas vias: uma centralizada, revestida por material isolante, e uma malha que a circunda por toda sua extensão. Nas duas extremidades do cabo são soldados os conectores. Os tipos mais comuns de conectores são o TR e o XLR. No Brasil, o primeiro também é popularmente chamado banana, devido ao seu formato longilíneo, e pode ser encontrado em quatro tamanhos diferentes: o P1, o P2, o P4 e o P10. Devido ao conector, ou plugue, o cabo utilizado para conectar os instrumentos ao sistema de áudio é chamado de P10. Para instrumentos stereo, como alguns sintetizadores, utiliza-se um cabo de três vias soldado a conectores P10 stereo, denominados TRS. Já o cabo para conectores XLR possui três vias: uma positiva, outra negativa e o aterramento. A negativa transfere os mesmos impulsos que a positiva, porém suas polaridades são invertidas, para impedir que ruídos se acumulem ao longo do cabo. Ao chegar ao outro conector, as polaridades são igualadas e os impulsos elétricos são transmitidos livres de ruído. Esse tipo de cabo, também é conhecido como balanceado, é o mais indicado para microfones, embora alguns instrumentos com captação também o utilizem. Para os instrumentos que não contam com um conector XLR, a opção é usar um dispositivo chamado direct box cuja entra é P10 e a saída XLR. Existem duas classificações de microfone, uma é baseada no sistema de captação e a outra no padrão de captação. Os microfones podem ser dinâmicos ou condensadores. Os microfones dinâmicos captam a vibração através de um processo estritamente mecânico. A membrana, chamada de diafragma, capta a vibração, que um sistema, composto por ímã e bobina, converte em sinais elétricos. Esse 14 tipo de microfone é bastante versátil, porém mais utilizado nas performances ao vivo. Os microfones condensadores, em vez de um diafragma mecânico, possuem uma cápsula que, na verdade, é um capacitor elétrico. Este é carregado com uma tensão de 48 volts, que oscila de acordo com a variação de pressão no ar. Assim, de forma analógica, geram-se impulsos elétricos que serão transmitidos para o sistema de áudio. Os condensadores possuem sensibilidade muito maior do que os microfones dinâmicos, sendo capazes de captar sons com alta fidelidade e amplitude de sinal. Por essa razão, comportam-se bem em estúdio e têm o uso limitado em performance. Para funcionarem com a tensão de 48 volts, os condensadores precisam de uma fonte de energia. Alguns modelos utilizam pilhas, mas a maioria recebe essa alimentação pelo próprio cabo balanceado. Nesses casos, a energia provém do mixer ou da interface de áudio que possui um botão phantom power, cujo acionamento proporciona a alimentação dos condensadores. De acordo com o padrão de captação, os microfones apresentam dois padrões básicos: os cardioides e os omnidirecionais (ou simplesmente omni). Os microfones de padrão cardioide captam o som de uma área semelhante a um coração. Os omnidirecionais captam o som da mesma forma em todo seu redor. Esses padrões possuem representações gráficas, que normalmente são estampadas no próprio microfone. Figura 7 – Padrões de captação de microfones Fonte: Siqueira, 2020, p. 232. Além dos dois padrões principais, existe a possibilidade de criar combinações e variações para casos específicos. O padrão figura 8, por exemplo, capta sons em uma região circular frontal e outra traseira. O 15 supercardioide é uma variação do cardioide com alcance frontal expandido – padrão também conhecido como direcional. Depois de captado e convertido, o sinal elétrico é transmitido pelos cabos até um mixer, que, em português, é comumente chamado de mesa de som. Este dispositivo conta com diversos canais de entrada e, dentro dele, podem ser possíveis diversas operações de processamento de áudio. Entre as mais simples estão o controle de volume, o pan, que distribui o som mais para a direita ou para a esquerda, e a equalização, que controla a intensidade de determinadas faixas ou bandas de frequência. À mesa de som podem ser conectados diversos equipamentos auxiliares ou periféricos, como módulos de equalizadores, compressores, efeitos, entre outros. A mesa de som pode ter diversas portas de saída: as auxiliares conectam os periféricos; os monitores alimentam as caixas de retorno no palco; saída master conduz o sinal para os amplificadores. Existem, ainda, saídas de linha, com conectores RCA para gravação analógica, e a de fone de ouvido. As mesas de som digitais possuem os mesmos recursos das analógicas e agregam uma série de novas possibilidades. Nelas, o operador pode salvar as configurações de um determinado grupo musical e restaurá-las a qualquer momento. Há periféricos digitais dentro do próprio sistema, sendo desnecessário o uso de módulos de efeito físicos. A conversão do áudio analógico para dados permite a gravação stereo digital em sua memória interna e, se conectada a um computador, é possível gravar todos os instrumentos em pistas separadas – o que permite edição e mixagem posteriormente. A saída master da mesa leva o sinal elétrico para um amplificador. Este amplifica o sinal de tal maneira que ativa os alto-falantes chamados de PA, do inglês public adress – que pode ser compreendido como “destinado ao público”. A partir desse ponto, as características arquitetônicas do ambiente se encarregam da acústica 5.2 Áudio para gravação digital Quanto aos dispositivos de entrada da tecnologia digital para gravação, acrescenta-se a figura do controlador. Além de teclados controladores, existem diversos tipos de instrumento com essa função, como baterias eletrônicas, 16 instrumentos de corda, entre outros. Esses dispositivos transmitem dados ao computador, que utilizam o protocolo midi para se comunicar. Para haver áudio digital é necessário que exista um dispositivo para converter o sinal analógico em dados: uma interface de áudio digital. As mesas de som digitais mais recentes acumulam essa função, porém o mercado desenvolve equipamentos próprios para gravação, desde os mais simples, com um ou dois canais de entrada, até os mais sofisticados, com mais de uma centena. Há, também, microfones USB, que convertem diretamente o som emdados e os transmitem ao computador. Por essa razão, esses microfones desempenham o papel de interfaces de áudio. Os dados chegam ao computador e, normalmente, o usuário precisa de um programa de gravação que se chama DAW (digital áudio workstation ou estação de trabalho de áudio digital). Neste software se constrói o ambiente de gravação, no qual podemos criar inúmeras trilhas, ou tracks, de áudio ou de midi para controlar instrumentos virtuais. Além disso, é possível conectar uma infinidade de módulos de efeitos virtuais a um canal, a um grupo de canais ou a todos eles. Algumas DAWs muito utilizadas são Pro Tools, Logic, Nuendo, Cubase, Ableton e Reaper. Além delas, há softwares de manipulação como o Soundforge e o Audacity que sempre são muito úteis para o acabamento dos arquivos de áudio digital. NA PRÁTICA Cada vez mais, em práticas artísticas e educacionais voltadas à música, percebemos a necessidade de desenvolvermos habilidades para a produção de áudio, seja para a criação de uma guia de gravação de um coro virtual ou até mesmo para a produção de um videoclipe para o canal do Youtube. Mas para adquirirmos essa habilidade, é preciso conhecimento e prática. E para praticar se faz necessário ter em mãos os recursos tecnológicos que aqui comentamos. Nesta etapa, a prática fica por sua conta e nós vamos indicar caminhos para você montar seu set de gravação digital de acordo com suas necessidades e possibilidades. Vamos nos basear no princípio de que você já possua um computador (desktop ou laptop). Mas caso não tenha, é possível encontrar soluções alternativas para celular, inclusive DAWS que funcionam em sistema Android. 17 Se você pode ouvir músicas em seu computador, ele certamente tem uma placa de áudio. Ela mesma já é capaz de fazer a conversão do sinal analógico para dados. Pensando na solução mais acessível, não vamos considerar a aquisição de uma interface de áudio. Normalmente os computadores possuem apenas um conector de áudio, do tipo P02, que serve tanto para fone de ouvido quanto para microfone. A limitação dele é que não se podem conectar os dois dispositivos ao mesmo tempo. Para vencer essa limitação, é possível adquirir um adaptador que possibilita a conexão dupla na mesma entrada/saída. Basta agora conectar seu fone de ouvido e seu cabo de instrumento ou microfone. Apenas mais uma adaptação será necessária, pois esses cabos possuem conectores P10. É possível encomendar, em lojas de eletrônica, cabos P02-P10 e XLR-P02. Também encontramos no mercado adaptadores P10-P02 que podem ser utilizados. Após a montagem desse set, é preciso equipar o computador com os softwares necessário. Um programa que irá suprir as demandas por bastante tempo é o Reaper, que possui a vantagem ainda de ser gratuito. Então, monte seu set, faça suas gravações, edições e mixagens e compartilhe com colegas e professores. FINALIZANDO Nesta etapa, analisamos diversos aspectos relativos ao comportamento do som nos ambientes em que ele se realiza. Os pormenores dessa compreensão são objeto de trabalho de arquitetos e engenheiros de som. Mas como em algum momento de nosso trabalho teremos que entrar em contato com esses profissionais, já saberemos ao menos o básico para sermos compreendidos e para compreendermos as ações que venham a ser tomadas. A acústica musical busca selecionar os conhecimentos desse ramo da física que concerne à música, utilizando-se do conhecimento das características básicas do som que exploramos em música, passando pela obtenção das notas musicais, pela obtenção de sons por meio de instrumentos e equipamentos desenhados para esta finalidade ou não, e finalmente chegando nos ambientes onde a música de fato se realiza. 18 Esperamos que essa viagem sonora contribua para um fazer musical mais consciente da natureza sonora e das possibilidades que esses conhecimentos aqui vistos trazem para a música. 19 REFERÊNCIAS CARVALHO, R. P. Acústica arquitetônica. Brasília: Thesaurus, 2006.