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1 2 Índice INTRODUÇÃO.............................................................................................................................................5 Unidade I - TEORIA GERAL E DIREITO INTERNACIONAL DOS DIREITOS HUMANOS................ 7 1. Fundamentos e História dos Direitos Humanos....................................................................................8 2. Conceito de Direitos Humanos e a Declaração Universal de Direitos Humanos............................... 11 3. Sistemas Internacionais de Proteção de Direitos Humanos................................................................ 13 4. ONU e Direitos Humanos...................................................................................................................15 5. Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos (1966)............................................................... 17 6. Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (1966)......................................19 7. Convenção pela Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial (1965)........................... 21 8. Convenção pela Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher (1979) e a Convenção de Belém do Pará (1994)..................................................................................................24 9. Convenção sobre os Direitos da Criança (1989).................................................................................27 10. Convenção Contra a Tortura e Outros Tratamentos ou Penas Cruéis, Desumanas ou Degradantes (1984)................................................................................................................................................29 11. Comitês Convencionais de Proteção em Direitos Humanos.............................................................31 12. Mecanismos Extra-Convencionais de Proteção em Direitos Humanos............................................34 13. Sistema Interamericano de Proteção dos Direitos Humanos............................................................ 39 14. Comissão e Corte Interamericanas de Direitos Humanos.................................................................41 LC1. Tribunais Penais Internacionais Temporários................................................................................45 LC2. Tribunal Penal Internacional Permanente...................................................................................... 47 Unidade II - DIREITOS HUMANOS NA CONSTITUIÇÃO BRASILEIRA DE 1988.............................48 1. Princípio da Dignidade da Pessoa Humana........................................................................................ 49 2. Prevalência dos Direitos Humanos nas Relações Internacionais........................................................51 3. Direito à Vida......................................................................................................................................53 4. Direito à Liberdade............................................................................................................................. 56 5. Direito à Igualdade..............................................................................................................................59 6. Direito à Segurança.............................................................................................................................61 7. Direito à Propriedade.......................................................................................................................... 63 8. Direitos Sociais................................................................................................................................... 65 9. Direitos Políticos.................................................................................................................................68 10. Direito à Nacionalidade.................................................................................................................... 70 11. Direito ao Meio Ambiente................................................................................................................ 72 12. Direito dos Povos Indígenas............................................................................................................. 74 13. Direitos das Mulheres....................................................................................................................... 77 14. Direitos dos Afro-Descendentes....................................................................................................... 80 15. Direito à Livre Orientação Sexual.................................................................................................... 83 16. Direitos das Crianças e dos Adolescentes.........................................................................................86 17. Direito dos Idosos............................................................................................................................. 89 18. Direitos das Pessoas Portadoras de Deficiência................................................................................92 19. Garantias Constituicionais: Habeas Corpus, Mandado de Segurança e Ação Popular.....................95 20. Novas Garantias Constitucionais: Mandado de Segurança Coletivo, Habeas Data e Mandado de Injunção.............................................................................................................................................98 Unidade III - DIREITOS HUMANOS NA PRÁTICA..............................................................................101 1. Secretaria Especial dos Direitos Humanos: Antecedentes Históricos.............................................. 102 2. A Secretaria Especial de Direitos Humanos: estrutura administrativa............................................. 104 3. A Secretaria Especial de Direitos Humanos: programas.................................................................. 106 4. Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal.........................................................................108 5. Comissões de Direitos Humanos das Assembléias Legislativas...................................................... 111 3 6. Programa Nacional de Direito Humanos I e II..................................................................................114 7. ONG´S e Direitos Humanos............................................................................................................. 116 8. Entidades da Sociedade Civil e Direitos Humanos...........................................................................119 9. Universidade e Direitos Humanos.................................................................................................... 121 10. Disque Direitos Humanos Nacional................................................................................................123 11. Encaminhamento de Denúncia de Violação de Direitos Humanos................................................ 127 12. Sistema Nacional de Proteção dos Direitos Humanos....................................................................129 13. Convenção Anual de Direitos Humanos.........................................................................................131 14. Imprensa e Direitos Humanos.........................................................................................................133 15. Segurança Pública e Direitos Humanos..........................................................................................135 16. Violência Urbana e Direitos Humanos........................................................................................... 137 17. Violência Doméstica e Direitos Humanos......................................................................................139 18. Sistema Prisional e Direitos Humanos............................................................................................141 19. Trabalho Escravo e Direitos Humanos...........................................................................................143 20. Controle Social e Conselhos de Direitos no Brasil.........................................................................146 21. Conselhos Municipais de Direitos humanos...................................................................................150 22. Como montar uma rede? Plano de Direitos Humanos para o município........................................152 23. Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos.......................................................................155 Unidade IV - PROJETO FINAL............................................................................................................... 157 Glossário....................................................................................................................................................158 4 5 INTRODUÇÃO "(...) A luta pelos direitos humanos é contínua, densa, dura, penosa, contraditória, plural, diferente, realizadora e possibilitadora. É uma história de sucessos e fracassos. De descobertas, invenções, adaptações, experimentações em face das aventuras da razão e das emoções humanas (...) é uma longa história de caminhadas estabelecidas em espaços e tempos em que nos foram dados viver, aprender, educar e transformar o mundo, através da vontade, dos desejos, dos conhecimentos, das ciências, das tecnologias, das culturas e saberes dotados e situados diante dos nossos sentimentos e compreensões". ( WILSON, Pedro;1997) A Capacitação de Gestores em Direitos Humanos é uma iniciativa da Ágere Cooperação em Advocacy em parceria com a Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República. O curso apresenta de um lado que há necessidade de se capacitar novos protagonistas principalmente nas cidades e municípios do interior dos estados, uma vez que é nas capitais que normalmente se encontram a maior parcela de protagonistas no acima citado. Por outro lado, como é cada uma vez maior a disseminação e valorização dos direitos econômicos, sociais e culturais, os agentes governamentais se vêem impelidos a estabelecerem políticas públicas que atendam às demandas da sociedade. No entanto, não há profissionais capacitados no nível municipal e micro-regional para auxiliar os agentes governamentais nesta missão. Torna-se, então, extremamente oportuno que um programa nacional de capacitação de protagonistas no campo da gestão dos direitos humanos possa ser implementado. A proposta busca levar o(a) aluno(a) a uma imersão na seara dos direitos humanos na qual o mesmo será orientado a construir e elaborar conceitos em torno do tema, e a redescobrir, conhecer e construir a sua identidade de promotor dos Direitos Humanos. Pensar em Direitos Humanos em pleno século XXI, onde a violação da dignidade da pessoa humana é flagrante significa refletir sobre os aspectos éticos, socioeconômicos, culturais, normativos e de relação com o poder que se apresentam no nosso cotidiano, o que nos convida a refletir sobre o nosso papel de indivíduos dotados de discernimento de direitos e donos de uma identidade que, por vezes, não é conhecida a nós mesmos. O exercício de elaboração da identidade do sujeito em direitos humanos passa pelas várias dimensões: do homem e da mulher como pessoas humanas, como seres sociais e históricos, como cidadãos individuais e coletivos e como atores de políticas públicas. "Os Direitos Humanos são universais e naturais (...) ele se referem à pessoa humana na sua universalidade. Por isso são chamados de direitos naturais, porque dizem respeito à dignidade da natureza humana, São naturais, também, porque existem antes de qualquer lei, e não precisam estar nelas especificados, para serem exigidos, reconhecidos, protegidos e promovidos"(SOARES, Maria. Victória, 1998). Existem valores humanos como o conceito de dignidade, por meio dos quais se podem encontrar soluções para os problemas sociais. Qualquer grupo bem-intencionado pode, num sentido geral, formular soluções práticas para os seus problemas, mas as boas intenções e os conhecimentos práticos geralmente não são suficientes. Não somente devemos buscar uma perspectiva que se harmonize com aquilo que é imanente à natureza humana, mas também incutir uma atitude, uma dinâmica, uma vontade e uma aspiração que facilitem a identificação e a implementação de medidas práticas. A Antropologia, a Fisiologia e a Psicologia reconhecem uma só espécie humana, ainda que infinitamente variada no que se refere aos aspectos secundários da vida. O reconhecimento desta verdade requer o abandono dos preconceitos - de todos os tipos de preconceitos - relacionados com a raça, a classe social, a cor da pele, a crença religiosa, a nacionalidade, o sexo e o grau de civilização material. Em suma, de tudo aquilo que faz com que as pessoas se considerem superiores umas às outras. A identidade do(a) agente de direitos humanos é um processo que começa na história de cada um e que se 6 soma com a história presente e com o conhecimento apreendido. Trata-se de um exercício pessoal em que cada um descobre como fatos, atitudes, exemplos de vida, situações agradáveis e desagradáveis vividas que formam nosso caráter, nosso compromisso com a questão, nosso olhar e nosso fazer. No Brasil, após o advento da Constituição de 1988, que caracterizou o país como um Estado Democrático de Direito, houve uma intensa mobilização da sociedade civil organizada para concretizar este status de sociedade respeitadora dos direitos humanos. Dentre as diversas iniciativas, no processo de organização política do Estado (governo e sociedade) naquela direção, a formação de cidadãos conscientes de seus deveres e atuantes na definição, implementação e avaliação de políticas públicas nos mais diversos campos , tornou-se indispensável para a concretização dessa nova sociedade. A despeito de todas as desigualdades de cunho sócio-econômico, educacional, étnico-racial, de gênero, dentre outras existentes no Brasil, a sociedade civil permanece inabalável na luta pela promoção e defesa dos direitos humanos para todas as pessoas, mesmo diante dos retrocessos que caracterizam a violação aos direitos humanos no Brasil, apresentados diariamente na mídia nacional e nos dados estatísticos oficiais. Se os esforços pela transformação social não são acompanhados pela transformação pessoal, o máximo que se pode alcançar é uma mudança estrutural limitada. Porém, estas mudanças não podem produzir uma sociedade justa, unida e pacífica se os protagonistas da mudança não estão participando em um processo de constante auto-avaliação. O gestor em direitos humanos deve refletir: • Como cheguei até aqui em minha ação pelos direitos humanos? • Por onde já passei em minha caminhada pelos direitos humanos? • O que faço atualmente pelos direitos humanos? • Quais as minhas habilidades pessoais? • Quais a minhas limitações e preconceitos que consigo reconhecer? • Quais as minhas dificuldades atuais para ser um gestor em direitos humanos? • Quais as experiências por mim vivenciadas que foram importantes na minha escolha em ser um gestor em direitos humanos? • Quais as minhas expectativas em ser um gestor de direitos humanos? Diante de um processo de sociedade democrática em construção, a educação torna-se instrumental a serviço de outros direitos indispensáveis aos cidadãos/cidadãs, além de se constituir como direito humano sagrado a ser garantido e preservado, que possibilita a descoberta das potencialidades de cada indivíduo como cidadão sujeito de direitos, abrindo perspectivas para a construção de novos valores, comportamentos e atitudes muito caros à sociedade, pois quando vividos em plenitude estabelecem a vigência, a ser conquistada cotidianamente, do Estado Democrático de Direito. Baseado no conteúdo do texto acima, escolha duas perguntas abaixo: 1. Desenvolva um pequeno texto a partir da auto-avaliação proposta no texto. 2. Como você lida com situações do cotidiano que levam as pessoas a ações discriminatórias? 3. Relate uma experiência pessoal em que você se sentiu discriminado. 4. É possívelao ser humano se desprender totalmente do preconceito ou somente diagnostica-lo e não deixar que se apresente? 5. O que você se propõe a fazer a partir de hoje para modificar alguma situação de preconceito da qual você tenha conhecimento? Responda as perguntas escolhidas e encaminhe-as para o seu/sua tutor(a) pelo ambiente de capacitação. 7 Unidade I - TEORIA GERAL E DIREITO INTERNACIONAL DOS DIREITOS HUMANOS 8 1. Fundamentos e História dos Direitos Humanos a. Fundamentos dos Direitos Humanos: A natureza humana, a religião, a cultura e a existência de direitos historicamente construídos são diferentes fontes de fundamentação dos direitos humanos. Contudo, em cada uma dessas possibilidades de fundamentação, dois elementos aparecem como constantes: a igualdade e a dignidade. Pela igualdade, tem-se que os direitos humanos são intitulados por todos os indivíduos pelo mero fato de sua humanidade - característica peculiar a todos os indivíduos. Essa igualdade pode ter origem: a. na idéia de uma criação comum, como indicam várias religiões; b. na existência de características humanas essenciais presentes em todos os membros da espécie humana, como estabelece a corrente naturalista; c. na positivação e na aceitação, por parte das mais diferentes culturas, de um determinado número de direitos, como explicita a corrente historicista. O estudo dos direitos humanos trata de uma igualdade muito peculiar ligada à idéia de dignidade. Essa concepção de igualdade permite o reconhecimento de diferenças, tais como aquelas relacionadas ao gênero, à raça, à idade etc. A igualdade de dignidade concede a qualquer homem o caráter de fim em si mesmo e não de mero meio para outros fins. Conforme a corrente naturalista, essa igualdade está na capacidade potencial do homem em fazer escolhas sobre o que é certo ou errado, sobre o dever ser e o agir conforme essas escolhas. Porque os conceitos de igualdade e dignidade são essenciais para a fundamentação dos direitos humanos? b. História dos Direitos Humanos no Século XX: De acordo com Louis Henkin, a história dos direitos humanos pode ser dividida na história anterior e na história posterior à Segunda Guerra Mundial. Quanto ao período anterior à Segunda Guerra, destacam-se três marcos dos direitos humanos na esfera internacional: o Direito Internacional Humanitário, a Liga ou Sociedade das Nações e a Organização Internacional do Trabalho - OIT. O Direito Internacional Humanitário refere-se ao direito de guerra, que fixa garantias individuais mesmo em tempos de guerra, como a proteção de civis e o tratamento de prisioneiros, por exemplo. Suas bases encontram-se nas quatro Convenções de Genebra de 1949. A Liga ou Sociedade das Nações, criada após a Primeira Guerra Mundial visava a promoção da cooperação, da paz e da segurança internacionais. Abarcava previsões genéricas de direitos humanos, de direitos das minorias e do direito do trabalho. A Liga foi posteriormente substituída por outra instituição: a Organização das Nações Unidas. A Organização Internacional do Trabalho (OIT), também criada após a primeira Guerra Mundial, estabeleceu e continua estabelecendo padrões mínimos de condição para o trabalho decente. Esses três institutos inovaram no direito internacional por tratarem não apenas dos interesses puramente estatais, mas também de interesses individuais. Por esses institutos, a proteção do indivíduo deixou de ser uma questão doméstica do Estado e passou a ser uma questão internacional. Esses institutos inovaram ainda ao flexibilizar a noção de soberania, permitindo restrições ao poder estatal em nome da proteção de direitos. 9 Todavia, a Segunda Guerra representou uma ruptura no processo de internacionalização dos direitos humanos na medida em que implicou o extermínio de milhões de pessoas. A Segunda Guerra apontou para uma visão de ser humano como um ser descartável. A dignidade e a igualdade entre os seres humanos foram desconsideradas. Essa ruptura foi seguida por um novo momento na história dos direitos humanos. A crença de que um sistema internacional de direitos humanos pudesse prevenir a repetição de eventos como os ocorridos durante a Segunda Guerra impulsionou a elaboração de Declarações e Tratados internacionais de direitos humanos, assim como a instituição de órgãos de responsabilização de indivíduos e Estados envolvidos em violações a esses direitos. As primeiras manifestações do processo de internacionalização impulsionado pelo Pós-Guerra foram: a. a instituição dos Tribunais de Nuremberg e de Tóquio; b. a instituição da Organização das Nações Unidas (1945); c. a adoção da Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948). A essas manifestações, seguiu-se a adoção de convenções específicas de direitos humanos relacionadas ao direito da mulher, da criança e de outras minorias, assim como a constituição de tribunais e comitês internacionais de proteção aos direitos. Atividade deste Tópico Baseado no conteúdo do texto acima, escolha duas perguntas abaixo: 1) Como a religião pode constituir um fundamento para os direitos humanos? 2) a. Em qual das correntes que rezam sobre o princípio da igualdade você considera que se encontra a sua fundamentação? b. A brutalidade da II Guerra Mundial ocasionou cerca de 45 milhões de mortes, mudando para sempre a história da humanidade. Com base nesse contexto, quais foram as atitudes tomadas pelos países para evitar que tais acontecimentos ocorressem novamente? 3) Pesquise sobre o Direito Internacional Humanitário. 4) Identifique o principal fundamento histórico dos Direitos Humanos, indicando se ele ainda serve para justificar os Direitos Humanos. 5) O que mudou na História dos Direitos Humanos após a segunda guerra mundial? Responda as perguntas escolhidas e encaminhe-as para o seu/sua tutor(a) pelo ambiente de capacitação. Links Português http://www.dhnet.org.br/direitos/militantes/tertuliano/Apostila01.html http://www.dhnet.org.br/direitos/militantes/comparato/comparato1a.html http://www.conectasur.org/files/Hist_Conc_Classif.pdf http://www.pucrio.br/sobrepuc/depto/direito/revista/online/rev13_vania.html Inglês 10 http://library.thinkquest.org/C0126065/hrhistory.html http://www.universalrights.net/main/histof.htm Espanhol http://members.fortunecity.es/robertexto/archivo11/der_humanos.htm http://www.iidh.ed.cr/comunidades/herrped/Docs/PedagogicasEspecializado/17.pdf http://www.juridicas.unam.mx/publica/rev/boletin/cont/96/art/art8.htm 11 2. Conceito de Direitos Humanos e a Declaração Universal de Direitos Humanos A Declaração Universal dos Direitos Humanos foi adotada em 1948 com a aprovação de 48 Estados e apenas 8 abstenções. A Declaração consolidou uma visão contemporânea de direitos humanos marcada pela universalidade, pela indivisibilidade e pela interdependência. A universalidade implica o reconhecimento de que todo os indivíduos são titulares de direitos pelo mero fato de serem pessoas, ou seja, de sua humanidade. A universalidade diz respeito ao reconhecimento de que somos todos iguais em relação a direitos e por possuirmos todos igual dignidade. A percepção de que o indivíduo é sujeito de direitos por ser uma pessoa e não por ser um nacional de um determinado Estado flexibilizou a noção tradicional de soberania e consolidou a idéia de que o indivíduo é um sujeito de direitos no âmbito internacional. A indivisibilidade implica na percepção de que a dignidade humana pode ser buscada apenas pela satisfação de direitos civis e políticos, tais como os direitos à liberdade de expressão, à liberdade de ir e vir, o direito ao voto, os direitos econômicos, sociais e culturais, o direito à educação, o direito à alimentação e à moradia. Já a interdependência aponta para a dependência de direitos econômicos sobre direitos civis e políticos, assim como para a dependência de direitos civis e políticos sobre os econômicos. A efetivação do direito ao voto, que é um direito político, depende da garantia ao direito à educação, um direito social. Sema educação e sem o conhecimento das opções existentes não há o poder efetivo de escolha política pelo voto. Do mesmo modo, a efetivação do direito à alimentação depende da consolidação do direito à participação política. Como enfatiza Amartya Sen, países que enfrentaram graves problemas de fome não possuíam participação política e nem um meio de participação e de reivindicação pacíficas por parte do povo. O conceito contemporâneo de direitos humanos foi confirmado quando da realização da Conferência Mundial sobre Direitos Humanos, ocorrida em Viena, em 1993. Naquela ocasião, foram elaboradas: A Declaração e o Programa de Ação de Viena (1993) . Em seu parágrafo quinto, a Declaração estabelece que: "Todos os direitos humanos são universais, interdependentes e inter-relacionados. A comunidade internacional deve tratar os direitos humanos globalmente de forma justa e eqüitativa, em pé de igualdade e com a mesma ênfase". Atividade deste Tópico Baseado no conteúdo do texto acima, escolha duas perguntas abaixo: 1)Parece-lhe razoável flexibilizar-se a soberania nacional em nome do princípio da prevalência dos direitos humanos? 2)O Brasil é um país que possui 1/3 de população vivendo em situação de miséria. Reflita sobre a realidade econômica e social da população de seu município. Diante da realidade apurada, você acredita que os direitos humanos estão sendo respeitados em seu município? Justifique sua resposta. 3)Como se chegou a Conferência Mundial sobre Direitos Humanos? 4)Qual era a conjuntura em que se deu a formulação da Declaração Universal dos Direitos Humanos? 5)Tomando como base os trinta artigos da Declaração Universal de 1948 selecione, tomando como base seu município,dois direitos que estejam protegidos e dois direitos que sejam violados. 12 Responda as perguntas escolhidas e encaminhe-as para o seu/sua tutor(a) pelo ambiente de capacitação. Links Português http://www.dhnet.org.br/direitos/deconu/textos/patricia.htm http://utopia.com.br/anistia/noticias/not99_02.html http://www.dhnet.org.br/direitos/militantes/lindgrenalves/lindgren2_ONU.html http://www.dhnet.org.br/oficinas/scdh/parte1/2c4b.html Inglês http://www.ykliitto.fi/ourcomhr/2whatare.html http://www.itp.sssup.it/advancedreadings/pko/tharoor.html Espanhol http://www.nodo50.org/ddhhmujeres/dossier/web/cap1/declaruniv.htm http://www.unesco.org/issj/rics158/abstracts158.html http://www.dhnet.org.br/direitos/deconu/textos/aguirre1.htm 13 3. Sistemas Internacionais de Proteção de Direitos Humanos Após a Segunda Guerra Mundial (1949), houve a instituição de dois grandes sistemas de proteção aos direitos humanos: o Sistema Global, ligado às Nações Unidas, e os Sistemas Regionais. Esses últimos incluem os sistemas interamericano (OEA), europeu e africano. O Sistema Global é composto por documentos gerais e documentos especiais. Como exemplos de documentos gerais, termos: a Declaração Universal de Direitos Humanos (1948), a Carta das Nações Unidas (1945), o Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos (1966) e o Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (1966). São exemplos de documentos especiais a Convenção pela Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial (1965), a Convenção pela Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher (1979), a Convenção sobre os Direitos da Criança (1989). Tanto as convenções especiais quanto as gerais incluem uma série de mecanismos de proteção, tais como a Comissão de Direitos Humanos da ONU, os Comitês sobre os Direitos da Criança e da Mulher, o Comitê contra a Tortura, o Comitê pela Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial, etc. O acesso a esses órgãos e a adesão a esses documentos estão abertos a praticamente todos os Estados do mundo. Os Sistemas Regionais de proteção de direitos humanos também são compostos por documentos gerais e especiais. O Sistema Interamericano, por exemplo, possui como documentos gerais a Convenção Americana sobre Direitos Humanos (1969) e a Declaração Americana sobre os Direitos e Deveres do Homem (1948). Como instrumentos especiais, existem a Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher (1994), a Convenção Interamericana para Prevenir e Punir a Tortura (1985) e a Convenção Interamericana sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra Pessoas Portadoras e Deficiências (1999). Uma das principais diferenças entre os mecanismos regionais e o mecanismo global de proteção dos direitos humanos é o fato deste último ser aberto à adesão de praticamente todos os países do mundo e daqueles serem abertos apenas à adesão de países de cada uma das regiões: Assim, temos o Sistema Interamericano para os países do continente americano - do Uruguai ao Canadá, o Sistema Africano para os países do continente africano - da África do Sul ao Marrocos, e o Sistema Europeu para países do continente europeu - da Grécia àIrlanda. Os sistemas regionais de direitos humanos complementam o sistema global. A idéia é estabelecer todas as garantias possíveis para a proteção de direitos. No caso de conflitos entre normas, aplica-se aquela que for mais benéfica à proteção dos direitos. O que se busca com a construção de novos sistemas de proteção a direitos é ampliar essa proteção em termos materiais, reconhecendo-se novos direitos e em termos processuais, criando-se novas cortes e novos comitês internacionais. Atividade deste Tópico Baseado no conteúdo do texto acima, escolha duas perguntas abaixo: 1)Na sua opinião, o direito ao desenvolvimento é um dos direitos humanos fundamentais? Por quê? 2)Quais são os objetivos e as vantagens históricas dos sistemas de proteção aos direitos humanos? Quais relações podem ser feitas com a sua região? 3)Analise como os sistemas de proteção dos Direitos Humanos estão influenciando o Sistema Internacional. 4)Por que se diz que existe um sistema internacional de proteção aos Direitos Humanos? 5)Quais são os documentos jurídicos que complementam o Parto de San José (1969)? 14 Responda as perguntas escolhidas e encaminhe-as para o seu/sua tutor(a) pelo ambiente de capacitação. Links Português http://www.dhnet.org.br/direitos/sip/cartilhas/sddh1/ http://www.pge.sp.gov.br/centrodeestudos/bibliotecavirtual/direitos/tratado2.htm http://www.dhnet.org.br/direitos/sip/cartilhas/cejil/AESTRUTURANORMATIVA.htm http://www.conectasur.org/files/cartaafricanapt.pdf http://www.ambito-juridico.com.br/aj/dconst0051.htm http://www.dhnet.org.br/direitos/sip/africa/SistemaAfricanoPDH.html Inglês http://www.droitshumains.org/uni/Formation/Images/spdh_a.pdf http://www.unhchr.ch/html/menu2/2/chr.htm http://www.uottawa.ca/hrrec/links/sitesint_e.html http://www.un.org/esa/socdev/enable/comp201.htm http://www.wcl.american.edu/hrbrief/v2i2/eurosystem.htm Espanhol http://www.cajpe.org.pe/RIJ/bases/instru/1.HTM 15 4. ONU e Direitos Humanos A criação da Organização das Nações Unidas - ONU foi um grande marco do processo de internacionalização do pós- Segunda Guerra Mundial. A ONU, que substituiu a Liga das Nações, voltou- se para os seguintes objetivos: a. a manutenção da paz e da segurança internacionais (vertente repressiva); b. a promoção dos direitos humanos no âmbito internacional (vertente promocional); c. a cooperação internacional nas esferas social e econômica. Esses objetivos, porém, não têm sido buscados de forma equilibrada. Tem-se concedido um peso especialmente maior à manutenção da paz do que à promoção de direitos humanos e à cooperação internacional. A ONU é formada por diversos órgãos, alguns deles com grande presença na mídia internacional: a Assembléia Geral – que corresponderia ao poder legislativo; o Conselho de Segurança, que corresponderia ao poder executivo; a Corte Internacional de Justiça, que corresponderia ao poder judiciário e, ainda, o Conselho Econômico e Social, o Conselho de Tutela e o Secretariado. A Assembléia Geral é o órgão mais democrático da ONU, formada por todos os membrosdas Nações Unidas. Todos esses membros têm direito a um voto, com igual peso. A Assembléia tem a função de discutir e fazer recomendações sobre quaisquer matérias que sejam objeto da Carta da ONU de 1945. A Corte Internacional de Justiça, principal órgão judicial da ONU, é composta por 15 juízes. Ela dispõe tanto de jurisdição contenciosa, como de jurisdição consultiva. Apenas os Estados podem entrar em disputa perante a Corte. A solução de controvérsias envolvendo indivíduos não compete à Corte. O Conselho de Segurança é o órgão mais poderoso das Nações Unidas. Tem como missão manter a paz e a segurança internacionais, podendo impor sanções de caráter econômico e militar aos Estados-membros. ´E constituído por cinco membros permanentes e 10 não permanentes. Os membros não permanentes são eleitos pela Assembléia Geral da ONU para um mandato de 2 anos. Atualmente, o Brasil é membro não permanente, tendo iniciado seu mandato em 1º de janeiro de 2004 o qual vigorará até 31 de dezembro de 2005.) Os cinco membros permanentes - França, Rússia, China, Estados Unidos e Reino Unido - foram indicados por ocasião da elaboração da Carta da ONU em 1945 e têm poder de veto nas deliberações. O Conselho Econômico e Social é composto por 27 membros, eleitos para um mandato de 3 anos pela Assembléia Geral. O Conselho tem como objetivo a promoção da cooperação em questões econômicas, sociais e culturais, incluindo os direitos humanos. Para executar essa meta, o Conselho pode criar comissões para assuntos econômicos e sociais e para a proteção de direitos humanos. Com base nessa atribuição, o Conselho Econômico e Social criou a Comissão de Direitos Humanos da ONU em 1946. O Conselho de Tutela teve como principal objetivo acelerar o processo de descolonização, visando estimular o progresso político, econômico, social e educacional dos territórios tutelados. O Conselho guiou-se principalmente pelo princípio da auto-determinação dos povos e tem entre suas funções: analisar relatórios e petições e realizar visitas aos territórios tutelados. O Secretariado é o principal órgão administrativo das Nações Unidas. O cargo de Secretário Geral - principal funcionário administrativo da organização, de acordo com o artigo 97 da Carta da ONU - é, atualmente, ocupado pelo ganense Kofi Anan. Atualmente, o Alto Comissariado das Nações Unidas para o Direitos Humanos (ACNUDH) diretamente 16 ligado a Assembléia Geral das Nações Unidas é o organismo responsável por coordenar todas as ações, da ONU, que tenham como meta a proteção dos direitos humanos. Atividade deste Tópico Baseado no conteúdo do texto acima, escolha duas perguntas abaixo: 1) Quais os tipos ou padrões de litígios julgados pelas Corte Internacional de Justiça? E Qual tem sido a tendência das políticas da ONU na busca da realização de seus objetivos fundamentais? 2) a. A Organização das Nações Unidas - ONU foi criada em substituição à Liga das Nações, após a II Guerra Mundial, para atingir importantes objetivos, quais são eles? Com base no atual conflito internacional entre os Estados Unidos e o Iraque, reflita se a ONU tem conseguido cumprir com suas metas. b. A composição dos membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU leva em conta aspectos políticos e históricos. Qual a importância do Conselho de Segurança da ONU? Quais são as estratégias utilizadas por esse conselho para que suas decisões sejam respeitadas pelos países? 3) Qual a relação entre a Liga das Nações e a Organização das Nações Unidas e a influencia da mesma na proteção do indivíduo? 4) A ONU, na atualidade, tem conseguido cumprir a risca o seu papel na promoção e defesa dos Direitos Humanos? 5) Quando e por qual razão foi criada a Organização das Nações Unidas (ONU)? 6) O que você entende por sanções econômicas? Elas lhe parecem um meio justo para atingir a paz mundial? Responda as perguntas escolhidas e encaminhe-as para o seu/sua tutor(a) pelo ambiente de capacitação. Links Português http://www.gddc.pt/direitos-humanos/onu-proteccao-dh/orgaos-onu-links.html http://www.onu-brasil.org.br/documentos_direitoshumanos.php http://www.apriori.com.br/artigos/o_conselho_de_seguranca_da_onu.shtml http://www.mre.gov.br/cdbrasil/itamaraty/web/port/relext/mre/nacun/csegur/ http://www.mre.gov.br/cdbrasil/itamaraty/web/port/relext/mre/nacun/csegur/apresent.htm Inglês http://www.un.org/rights/index.html http://www.unhchr.ch/ http://www.un.org/Depts/dhl/resguide/spechr.htm http://www.un.org/Docs/sc/ http://www.globalpolicy.org/security/ Espanhol http://www.un.org/spanish/hr/ 17 http://www.unhchr.ch/spanish/hchr_un_sp.htm http://www.un.org/spanish/docs/sc/ http://www.cinu.org.mx/onu/reforma_cs/reforma_cs.htm 5. Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos (1966) O Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos foi adotado pela Assembléia Geral das Nações Unidas em 1966, consolidando, no âmbito internacional, o reconhecimento de uma série de direitos, tais como: o direito à vida; a não ser submetido à tortura; a não ser submetido à escravidão; o direito à liberdade; a garantias processuais; à liberdade de movimento; à liberdade de pensamento; à liberdade de religião; à liberdade de associação; à igualdade política e à igualdade perante a lei. A adoção de um pacto ou tratado sobre direitos civis e políticos separado de um pacto ou tratado sobre direitos sociais gerou grandes discussões. Segundo a própria Declaração Universal dos Direitos Humanos, ao ressaltar os princípios da interdependência e da indivisibilidade entre direitos, o reconhecimento da dignidade humana impõe a adoção de um padrão ético mínimo não apenas para direitos civis e políticos, mas, também, para direitos sociais, econômicos e culturais. Ou seja: direitos civis e políticos e direitos econômicos, sociais e culturais são igualmente necessários para a garantia da dignidade humana. Os anos que se seguiram à adoção da Declaração Universal trouxeram uma dupla visão de direitos. A divisão do mundo em dois blocos – um socialista, outro capitalista – favoreceu uma divisão de direitos também em dois blocos: o dos direitos liberais – direitos civis e políticos e o dos direitos socialistas – direitos econômicos, sociais e culturais. Essa divisão, que durou até o final da guerra fria, constituiu uma das causas pelas quais a ONU adotou dois pactos internacionais de direitos humanos: o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos e o Pacto Internacional de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, ao invés de um único pacto incluindo todos os direitos. Até junho de 2001, o Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos havia alcançado 147 ratificações, ou seja, em 2001, 147 Estados já haviam reconhecido os direitos previstos no Pacto – inclusive o Brasil, a partir de 1992. Porém, o Brasil não reconheceu a jurisdição do Comitê de Direitos Humanos criado pelo Pacto para receber petições individuais. Atividade deste Tópico Baseado no conteúdo do texto acima, escolha duas perguntas abaixo: 1) O que você entende por sanções econômicas? Elas lhe parecem um meio justo para atingir a paz mundial? (Revisão) 2) O Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos e o Pacto Internacional de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais podem influenciar na cultura de algumas nações, percebendo que os conceitos de Direitos Humanos nasceram em berço ocidental, como analisar as culturas que não legitimam os Princípios do Direitos Humanos e sim outros Princípios? Estas nações devem ou não ratificar o Pacto? Por quê? 3) Descreva a importância do Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos. 4) Quais os elementos que diferenciam o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos da Declaração Universal dos Direitos Humanos? 5) Quando o Brasil ratificou o Pacto Internacional de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais e seus instrumentos de monitoramento? (Revisão) 18 6) Há alguma restrição brasileira na adesão ao Pacto Internacional sobre direitos civis e políticos? 7) Quais as criticasfeitas ao Pacto internacional sobre Direitos Civis e Políticos de 1966? 8) O Brasil é um país em que são notórias as violações aos direitos civis e políticos dos cidadãos. Cite alguns exemplos violações de direitos ocorridas em seu município? Reflita as atitudes que você poderia tomar para impedir estas violações? Responda as perguntas escolhidas e encaminhe-as para o seu/sua tutor(a) pelo ambiente de capacitação. Links Português http://www.mj.gov.br/sedh/dpdh/gpdh/ddh_bib_inter_pacto.htm Inglês http://www.unhchr.ch/html/menu3/b/a_ccpr.htm Espanhol http://www.unhchr.ch/spanish/html/menu3/b/a_ccpr_sp.htm 19 6. Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (1966) O Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, adotado pela Assembléia Geral da ONU em 1966, consolida, no âmbito internacional, uma série de direitos, entre eles: o direito ao trabalho, à liberdade de associação sindical, à previdência social, à alimentação, à moradia, ao mais elevado nível de saúde física e mental, à educação, à participação na vida cultural e no progresso científico. O Pacto encontrou forte resistência dos países capitalistas em relação ao reconhecimento de questões sociais e econômicas como questões de direito. Seriam os direitos sociais verdadeiros direitos? Teriam os direitos econômicos, sociais e culturais natureza e aplicabilidade diferentes dos direitos civis e políticos? Tradicionalmente, os direitos sociais foram tratados como direitos ligados à igualdade, aplicabilidade progressiva, às prestações positivas do Estado e aos altos custos e de aplicabilidade progressiva. Já os direitos civis e políticos foram tidos como direitos relativos à liberdade, prestações negativas do Estado e de auto-aplicabilidade. Atualmente, começa-se a perceber que essa separação entre os tipos de caracterização dividida dos direitos possui falhas consideráveis. Quanto à igualdade e à liberdade é possível afirmar que uma não existiria sem a outra. O direito ao voto, que é um direito político por excelência, não poderia ser exercido com efetiva liberdade sem que tivesse sido oferecida, anteriormente, uma educação de qualidade capaz de formar cidadãos conscientes da relevância de seu papel na esfera política. Esse mesmo direito não seria livremente exercido caso a situação de miséria de um indivíduo o levasse a trocar seus votos por alimentos ou roupas. Algum grau de igualdade material teria que ser alcançado para que a liberdade do voto fosse garantida. O mesmo ocorreria em relação à dependência da igualdade frente à liberdade. Amartya Sen, cita, por exemplo, a conexão entre o autoritarismo, a ausência de liberdade política, e a fome. Não há como lutar por uma igualdade de fato sem que haja liberdade política. Quanto à aplicabilidade de direitos, o Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (sistema global) e o Pacto de San Salvador (sistema regional interamericano) são claros ao estabelecerem que os direitos sociais têm aplicabilidade progressiva. Mas é preciso esclarecer que os direitos civis e políticos, assim como os direitos econômicos, sociais e culturais podem tanto ter aplicação imediata quanto progressiva, a exemplo dos direitos à greve e à sindicalização. Tais direitos sociais podem ter aplicação imediata, ao passo que o direito de acesso à justiça - um direito civil - pode incluir medidas que necessitem de uma aplicação progressiva, como a instituição de um sistema judicial imparcial e independente, a constituição de uma assistência judiciária gratuita, dentre outras medidas. No que se refere ao caráter positivo ou negativo das prestações estatais, assim como ao custo dos direitos, ressaltamos novamente os exemplos acima. O direito de acesso à justiça poderia implicar prestações positivas e onerosas do Estado na medida em que isso significasse, por exemplo, a construção de prédios capazes de abrigar tribunais, na realização de concursos públicos ou na eleição para a seleção de magistrados ou no pagamento de salários. Do mesmo modo, o direito à greve poderia ser efetivado pelo Estado pela mera atitude de não intervir em uma paralisação trabalhista e isso não custaria nada. A percepção das semelhanças entre direitos civis e políticos e direitos econômicos, sociais e culturais aponta para a acionabilidade (acionar), a exigibilidade (exigir) e a justiciabilidade (fazer justiça) nos âmbitos nacional e internacional. Os direitos econômicos, sociais e culturais podem e devem ser exigidos por seus titulares assim como os direitos civis e políticos. Os direitos sociais são reconhecidos por Constituições nacionais e também por uma série de tratados internacionais de direitos humanos, como o Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais e o Protocolo de San Salvador. Muitas vezes a exigibilidade se contrapõe ao caráter progressivo dos direitos sociais. É relevante esclarecer o teor dessa progressividade. 20 Tanto o Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, quanto o Protocolo de San Salvador reconhecem que a progressividade implica a proibição ao retrocesso. Na prática, as medidas tomadas em prol dos direitos sociais devem ser mantidas e aprimoradas, nunca restringidas. O progresso se dará a partir de parâmetros mínimos estipulados por tratados internacionais. Esses parâmetros seriam elevados na medida em que os Estados-membros desses tratados publicassem leis e estabelecem políticas públicas que defendessem níveis cada vez mais altos de proteção na educação, na saúde, na moradia, etc. Embora o Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais preveja apenas o mecanismo de proteção em relação aos relatórios, o Pacto de San Salvador reconhece a possibilidade de apresentação de petições individuais sobre violações aos direitos sindicais e ao direito à educação na Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Interpretações mais amplas do direito à vida permitiriam o alargamento do conteúdo dessas petições para outros direitos econômicos, sociais e culturais. Até junho de 2001, o Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais havia alcançado 145 ratificações, ou seja, 145 Estados - inclusive o Brasil - haviam reconhecido os direitos previstos no Pacto. Atividade deste Tópico Baseado no conteúdo do texto acima, escolha duas perguntas abaixo: 1) Há alguma restrição brasileira na adesão ao Pacto Internacional sobre direitos civis e políticos? (Revisão) 2) No contexto da Guerra Fria, o mundo se dividiu basicamente em dois regimes com concepções de vida de direitos diferente. Como e por que se deu tal divisão? 3) Comente a frase. “Quanto à igualdade e à liberdade é possível afirmar que uma não existiria sem a outra.” 4) Dê dois exemplos de Direitos Econômicos, dois de Direitos Sociais e dois de direitos Culturais, que você julga mais importante para a sociedade brasileira e para a região onde você vive. 5) Tomando como referência o Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais aponte um direito que não é respeitado em seu município. 6) Quando o Brasil ratificou o Pacto Internacional de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais e seus instrumentos de monitoramento? 7) De que modo os direitos sociais, coletivos e culturais estão sendo respeitados ou desrespeitados no seu município? Consulte o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos e Sociais. Analise os dados do IBGE do seu município e Estado sob a ótica do Pacto de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais. Responda as perguntas escolhidas e encaminhe-as para o seu/sua tutor(a) pelo ambiente de capacitação. Links Português http://www.mj.gov.br/sedh/dpdh/gpdh/ddh_bib_inter_pactosocial.htm http://www.conferenciadaamazonia.com.br/enviarvi.php Inglês http://www.unhchr.ch/html/menu3/b/a_cescr.htm 21 Espanhol http://www.unhchr.ch/spanish/html/menu3/b/a_ccpr_sp.htm 7. Convenção pela Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial (1965) O reconhecimento dos direitos humanos naesfera internacional não se restringiu à elaboração de documentos gerais, como a Declaração Universal de Direitos Humanos, o Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos e o Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais. Ainda no sistema global, houve a adoção de inúmeros outros tratados de direitos humanos, dentre os quais podemos citar: a Convenção pela Eliminação de todas as formas de Discriminação Racial, a Convenção pela Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher, a Convenção sobre os Direitos das Crianças, etc. Percebeu-se que mulheres, crianças e pessoas pertencentes a minorias raciais tinham vulnerabilidades, eram sujeitas a discriminações e careciam de medidas de proteção. Foi essa necessidade de proteção específica que impulsionou a elaboração de tratados especiais para crianças, mulheres e minorias raciais. Em relação à discriminação racial, destacam-se a Convenção contra a Discriminação no Ensino (1960), a Convenção contra a Discriminação do Emprego da OIT (1958) e a Convenção pela Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial da ONU (1965). Fazendo um breve histórico, observa-se que logo após a aprovação da Declaração Universal dos Direitos Humanos que afirma todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos, a ONU passou a envidar esforços parcialmente focados no âmbito da discriminação racial em territórios colonizados, apoiando com freqüência a legitimidade da luta em favor das populações oprimidas, principalmente no Continente Africano. Em 1963, reconhecendo que a discriminação baseada em raça, cor ou origem étnica continuava a ser causa de graves problemas internos em diversos países, além de perturbadora das boas relações internacionais, a Assembléia Geral da ONU aprovou a Declaração das Nações Unidas para a Eliminação de todas as Formas de Discriminação Racial. Seu princípio fundamental está ratificado no Artigo 1º “Discriminação entre seres humanos com base em raça, cor ou origem étnica é uma ofensa à dignidade humana e deve ser condenada como uma negação dos princípios das Nações Unidas, como uma violação dos direitos humanos e das liberdades fundamentais, proclamadas na Declaração Universal dos Direitos Humanos, como um obstáculo às relações amigáveis e pacíficas entre nações e como fato capaz de perturbar a paz e a segurança entre nações”. Em 1965, A Assembléia Geral da ONU aprova a Convenção para a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial a qual, enquanto instrumento com força legal, passou a ter efeito a partir de janeiro de 1969 e já foi ratificada por 157 países, os quais, com este ato concordaram em condenar o racismo e tomar medidas para eliminá-lo em todas as suas formas. Restringiremos nossas discussões a esse último documento. A Convenção pela Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial traz, no seu primeiro parágrafo, a definição de discriminação racial: "qualquer distinção, exclusão, restrição ou preferência baseada em raça, cor, descendência ou origem nacional ou étnica que tem por objetivo ou efeito anular ou restringir o reconhecimento, gozo ou exercício num mesmo plano, (em igualdade de condição), de direitos humanos e liberdades fundamentais no domínio político econômico, social, cultural ou em qualquer outro domínio de sua vida." Nesse sentido, a idéia de discriminação racial não se restringe à cor. Engloba ainda as idéias de raça, descendência e origem nacional ou étnica. Não impede necessariamente o rancor entre os diferentes 22 grupos, mas as exclusões e preferências que gerem restrições a direitos civis ou sociais. A Convenção inclui tanto direitos civis e políticos quanto direitos econômicos, sociais e culturais, explicitando a indivisibilidade e a interdependência dos direitos humanos. Se os Pactos Internacionais foram elaborados em dois documentos separados, dificultando a percepção da indivisibilidade de direitos, outras convenções posteriores apontaram para essa indivisibilidade ao prever conjuntamente as duas classes de direitos. A Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial prevê uma série de deveres a serem seguidos pelos Estados. O núcleo desses deveres está na promoção da igualdade de fato, não apenas da igualdade formal. Por isso a Convenção trata do dever do Estado de adotar medidas concretas que lidem com a discriminação e tenham a finalidade de promover a igualdade material e não a de criar privilégios. Até junho de 2001, a Convenção pela Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial já havia alcançado 157 ratificações - incluindo o Brasil. Em 2003, o país reconheceu a jurisdição do Comitê pela Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial para receber petições individuais,o qual supervisiona a implementação da Convenção nos países signatários A partir de então, a ONU vem apelando aos seus estados-membros que intensifiquem ações e esforços para a erradicação da discriminação racial em todas as suas formas contemporâneas, inclusive com a instituição do ano de 1971 como o Ano Internacional para Ações de Combate ao Racismo e a Discriminação Racial. Posteriormente, instituiu as Décadas para Ações de Combate ao Racismo e à Discriminação Racial como formas de mobilização contínua e vigorosa contra aquelas práticas.. A primeira década compreendeu os anos de 1973 a 1982; a segunda, de 1983 a 1992 e a terceira, de 1993 a 2002. A I Conferência Mundial contra o Racismo Realizada em 1978, em Genebra- Suíça, A I Conferência Mundial para o Combate ao Racismo e à Discriminação reafirmava em sua Declaração que “ todas as formas de discriminação baseadas na teoria de superioridade racial, exclusividade ou ódio são uma violação dos direitos humanos fundamentais e prejudicam relações amigáveis entre povos, cooperação entre nações, a paz e a segurança internacionais”. Condenava, também, o apartheid como crime de lesa-humanidade e como uma afronta à dignidade humana. Como recomendação, a I Conferência Mundial indicou a formulação e a inclusão de medidas, por parte dos estados-membros, com vistas À melhoria das condições de vida de mulheres e homens submetidos a severas desigualdades econômicas em razão da discriminação racial A II Conferência Mundial Também realizada em Genebra- Suíça, no ano de 1983, a II Conferência Mundial para o Combate ao Racismo e à Discriminação Racial afirmava em sua Declaração que o “racismo e a discriminação racial são aflições contínuas que devem ser erradicadas do mundo”. Revisou e avaliou ações tomadas durante a Primeira Década, além de formular medidas específicas que assegurassem a implementação de instrumentos das Nações Unidas para a eliminação de práticas racistas e discriminatórias. Recomendou o lançamento da Segunda Década para Ações de Combate ao Racismo e a Discriminação Racial. A III Conferência Mundial Em 1997 a Assembléia da ONU decidiu estabelecer, simbolicamente - no início do terceiro milênio/2001 – a III Conferência Mundial contra o Racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia e Intolerância Correlata, como momento chave de uma Terceira Década para Ações de Combate ao Racismo e à Discriminação Racial. A referida Conferência reconheceu, em sua Declaração, a escravidão e o comércio de escravos como terríveis tragédias humanas, não apenas pela sua barbárie, mas pela negação da essência das vítimas, bem como considerou-os como crimes de lesa-humanidade. Em seu Plano de Ação, a II Conferência estabeleceu estratégias para alcançar a igualdade plena e efetiva abrangendo a 23 cooperação internacional e o fortalecimento das nações e de outros mecanismo no combate ao racismo, a discriminação racial, a xenofobia e intolerância correlata e, ainda, apontou para o estabelecimento de recursos e medidas eficazes de reparação, ressarcimento, indenizações e outras medidas em níveis nacional, regional e internacional. Atividade deste Tópico Baseado no conteúdo do texto acima, escolha duas perguntas abaixo: 1) O que você acha que poderia ser feito feito no seu estadopara combater a discriminação racial? 2) Quais as criticas feitas ao Pacto internacional sobre Direitos Civis e Políticos de 1966? (Revisão) 3) De que modo os direitos sociais, coletivos e culturais estão sendo respeitados ou desrespeitados no seu município? Consulte o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos e Sociais. Analise os dados do IBGE do seu município e Estado sob a ótica do Pacto de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais. (Revisão) 4) Indique se você já teve contato com alguma situação de discriminação racial e qual foi a conseqüência desse ato. 5) Diz a lei nº: 9459/97, a conhecida lei anti-racismo: Art. 1º Serão punidos, na forma desta Lei, os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional. A convenção pela eliminação de todas as Formas de Discriminação Racial (1965) luta por qual preceito básico dos direitos humanos? Em sua região a lei 9549/97 e a 7716/89 têm sido respeitadas? A população de sua região conhece essa lei? Ela tem sido respeitada? 6) Há alguma relação entre a discriminação racial e diferenças ou desníveis de cunho social, cultural e econômico? Qual? Responda as perguntas escolhidas e encaminhe-as para o seu/sua tutor(a) pelo ambiente de capacitação. Links Português http://www.mj.gov.br/sedh/dpdh/gpdh/ddh_bib_inter_racial.htm http://www.dhnet.org.br/oficinas/dhparaiba/2/discrimina.html http://www.dhnet.org.br/direitos/militantes/flaviapiovesan/piovesan_racial.html Inglês http://www.unhchr.ch/html/menu3/b/d_icerd.htm Espanhol http://www.unhchr.ch/spanish/html/menu3/b/b_icerd_sp.htm 24 8. Convenção pela Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher (1979) e a Convenção de Belém do Pará (1994) a. Convenção pela Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher (1994) - CEDAW O processo de internacionalização dos direitos da mulher começa com o processo de internacionalização dos direitos humanos. O reconhecimento de que o indivíduo é titular de direitos pelo simples fato de sua humanidade atinge também as mulheres. No entanto, a enunciação universal de direitos não se mostrou suficiente para resguardar os direitos de grupos específicos, carentes de meios especiais de proteção. Nesse sentido, tanto as Nações Unidas quanto o sistema interamericano de direitos humanos decidiram adotar Convenções de direitos humanos que explicitassem as especificidades de diferentes sujeitos de direitos, como as crianças, os membros de minorias étnicas e as mulheres. Em 1979, a Convenção pela Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher foi adotada no âmbito do sistema global. Seguindo a estrutura da Convenção pela Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial, a Convenção sobre a Mulher define no seu artigo 1º, a discriminação contra a mulher: "Para fins da presente Convenção, a expressão "discriminação contra a mulher" significará toda distinção, exclusão ou restrição baseada no sexo e que tenha por objeto ou resultado prejudicar ou anular o reconhecimento, gozo ou exercício pela mulher, independentemente de seu estado civil, com base na igualdade do homem e da mulher, dos direitos humanos e liberdades fundamentais nos campos político, econômico, social, cultural e civil ou em qualquer outro campo". O alvo da Convenção foi a distinção, exclusão ou restrição tendentes à anulação do exercício de direitos civis, políticos, econômicos, sociais e culturais, direitos à igualdade na vida política, no casamento, na educação e no mercado de trabalho, à proteção especial durante a gravidez, a serviços médicos - inclusive ao planejamento familiar - à participação na vida cultural, à seguridade social, à igualdade civil, à liberdade de movimento, à igualdade de direitos e responsabilidades frente aos filhos, dentre outros. Até junho de 2001, a Convenção pela Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher já havia alcançado 168 ratificações, inclusive a do Brasil, a partir de 1984. Mas apesar do amplo número de ratificações, a Convenção da Mulher é a que tem o maior número de reservas. O Brasil fez reservas aos artigos referentes à igualdade no casamento. As reservas foram retiradas apenas em 20/12/94. Em 2002, o Brasil reconheceu a jurisdição do Comitê pela Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher para receber petições individuais. b. Convenção de Belém do Pará A Convenção de Belém do Pará trata especificamente da violência contra a mulher. No seu artigo 1°, define essa forma de violência como "qualquer ato ou conduta baseada no gênero, que cause morte, dano ou sofrimento físico, sexual ou psicológico à mulher, tanto na esfera pública quanto na privada". Em seguida, afirma em seu artigo 2°, alínea a, que essa violência pode ocorrer "no âmbito da família ou na unidade doméstica, ou em qualquer relação interpessoal, quer o agressor compartilhe, tenha compartilhado ou não da mesma residência com a mulher, incluindo, entre 25 outras formas, o estupro, maus-tratos e abuso sexual". A Convenção de Belém do Pará é o primeiro tratado internacional de proteção dos direitos humanos a reco-nhecer, de forma enfática, a violência contra a mulher como um fenômeno generalizado, que alcança um elevado número de mulheres sem distinção de raça, classe, religião, idade ou qualquer outra condição. A Convenção afirma que a violência contra a mulher é grave violação aos direitos humanos e ofensa à digni-dade humana, sendo manifestação de relações de poder histori-camente desiguais entre mulheres e homens. A Convenção abre a possibilidade de apresentação de petições por qualquer indivíduo ou grupo de indivíduos à Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Essas petições, que podem vir a chegar à Corte Interamericana de Direitos Humanos, podem ser relacionadas a denúncias sobre eventual ação ou omissão do Estado quanto à prevenção, investigação e punição da violência contra a mulher; à adoção de normas penais, civis e administrativas que erradiquem a violência; ao estabelecimento de procedimentos justos e eficazes para a mulher que tenha sido submetida à violência. Nessa linha, a Convenção de Belém do Pará responsabiliza o Estado não apenas pela sua atuação violenta contra a mulher mas também pela sua omissão, sua ineficácia em erradicar a violência cometida por particulares, seja na esfera pública, seja na esfera privada. Alguns estudos apontam para a dimensão do problema da violência contra a mulher. Segundo pesquisa feita pela Human Rights Watch (Injustiça Criminal x Violência contra a Mulher no Brasil), de cada 100 mulheres assassinadas, 70 o são no âmbito de suas relações domésticas. De acordo com pesquisa realizada pelo Movimento Nacional de Direitos Humanos (Primavera já Partiu), 66,3% dos acusados em homicídios contra mulheres são seus parceiros. No Brasil, a impunidade acompanha intimamente essa violência. Estima-se que em 1990, no Estado do Rio de Janeiro, nenhum dos dois mil casos de agressão contra mulheres registrados em delegacias terminou na punição do acusado. No Estado do Maranhão, relata-se, para esse mesmo ano, que dos quatro mil casos registrados apenas dois haviam resultado em punição do agente. De acordo com relatórios recentes das Nações Unidas, o problema ocorre não apenas em classes socialmente mais desfavorecidas e em países em desenvolvimento como o Brasil, mas em diferentes classes e culturas.. Como explicita um relatório produzido pelo Movimento Popular da Mulher - MPM e pelo Coletivo de Mulheres Negras - Nzinga, em parceria com o Pronto-Socorro do Hospital Municipal Odilon Behrens e Pronto Socorro João XXIII, em Minas Gerais, no mundo, "um em cada 5 dias de falta ao trabalho é decorrente de violência sofrida por mulheres em suas casas; a cada 5 anos a mulher perde 1 ano de vida saudável se ela sofre violência doméstica; o estupro e a violência doméstica são causas significativas de incapacidade e morte de mulheres em idade produtiva [...]. A violência doméstica compromete 14,6% do Produto InternoBruto (PIB) da América Latina, cerca US$ 170 bilhões. No Brasil, a violência doméstica custa ao país 10,5% do seu PIB." c. IV Conferência Mundial da Mulher – Beijin/China/ 1995 – a maior e mais representativa Conferência da história da ONU apontou para alguns avanços em 12 áreas críticas para a superação das desigualdades de oportunidades entre homens e mulheres. Nessa Conferência, os países participantes afirmaram e aceitaram que os direitos das mulheres são direitos humanos, apontando, ainda, para um importante salto no sentido da formulação do conceito referente aos direitos sexuais como parte dos princípios dos direitos humanos o que ainda não havia sido alcançado com as conferências anteriores (Viena e Cairo). A Plataforma de Ação elaborada em Beijin definiu: “os direitos humanos das mulheres incluem seu direito a ter controle e decidir livre e responsavelmente sobre questões relacionadas à sua sexualidade, incluindo a saúde sexual e reprodutiva livre de coação, discriminação e violência”. Atividade deste Tópico 26 Baseado no conteúdo do texto acima, escolha duas perguntas abaixo: 1)Há alguma relação entre a discriminação racial e diferenças ou desníveis de cunho social, cultural e econômico? Qual? (Revisão) 2)A cada 4 minutos uma mulher é espancada no Brasil (dados Centro de Atendimento à mulher de Londrina-PR) e na maioria dos casos o agressor é alguém da família. Defina com base nos artigos das convenções o que é violência contra a mulher e, com base nas definições apresentadas tente identificar situações de violação dos direitos da mulher em sua comunidade. 3)Pesquise na sua cidade ou Estado quais os órgãos de justiça, se no Ministério Público Estadual e no Ministério Público Federal, existem procuradorias do Cidadão. Pesquise quais as ONG’s no estado que atuam com as questões de etnias. 4)Você acha que alguns direitos das mulheres devem ser flexibilizados diante das especificidades das reações familiares? 5)Pesquise em sua cidade e relate um caso de violência contra a mulher que seja previsto na Convenção para Eliminação da Discriminação contra a Mulher e um caso previsto pela Convenção de Belém do Pará. 6) Pesquise junto as ONG’s do seu estado os dados existentes sobre violência contra mulher, as ações das entidades e as dificuldades encontradas na implementação das ações de promoções e defesa das mulheres. 7) A cada 4 minutos uma mulher é espancada no Brasil (dados Centro de Atendimento à mulher de Londrina-PR) e na maioria dos casos o agressor é alguém da família. Defina com base nos artigos das convenções o que é violência contra a mulher e, com base nas definições apresentadas tente identificar situações de violação dos direitos da mulher em sua comunidade. Responda as perguntas escolhidas e encaminhe-as para o seu/sua tutor(a) pelo ambiente de capacitação. Links Português http://www.oas.org/main/main.asp?sLang=P&sLink=http://www.oas.org/juridico/portuguese/tcron.htm (ano 1994) http://www.dhnet.org.br/direitos/sip/onu/mulher/lex121.htm http://www.dhnet.org.br/oficinas/dhparaiba/2/mulher1.html Inglês http://www.unhchr.ch/html/menu3/b/e1cedaw.htm http://www.oas.org/main/main.asp?sLang=E&sLink=http://www.oas.org/juridico/english/treaties.html Espanhol http://www.unhchr.ch/spanish/html/menu3/b/e1cedaw_sp.htm http://www.oas.org/main/main.asp?sLang=S&sLink=http://www.oas.org/documents/spa/documents.asp 27 9. Convenção sobre os Direitos da Criança (1989) O sistema global de proteção aos direitos humanos reconhece, em vários de seus instrumentos, os direitos da criança. O Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos prevê o direito da criança a não discriminação e a Convenção pela Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher elucida o princípio do interesse primordial da criança. A Convenção sobre os Direitos da Criança trata de uma série de direitos civis, políticos, econômicos, sociais e culturais, seguindo a Declaração sobre os Direitos da Criança da ONU (1959). Concentraremos nossa análise sobre a Convenção sobre os Direitos da Criança, que é a estrutura central do aparato de proteção relativo à criança. A Convenção foi adotada pela Assembléia Geral da ONU em 1989 e ratificada pelo Brasi em 25 de setembro de 1990. Em julho de 2003, a Convenção contava com 192 ratificações, inclusive a do Brasil, a partir de 1990. A Convenção começa com a definição de criança: "Todo ser humano menor de 18 anos de idade, salvo se, em conformidade com a lei aplicável à criança, a maioridade seja alcançada antes." Houve problemas em se estipular tanto a idade de início quanto a do fim da infância. Tanto direitos civis e políticos, quanto direitos econômicos, sociais e culturais são previstos na Convenção. Em seus quase 60 artigos, a Convenção enumera os direitos da criança à vida, à identidade, à liberdade de expressão, à liberdade de pensamento, à privacidade, ao acesso a informações, a não sofrer maus tratos, a receber assistência humanitária, a ter reconhecidas necessidades especiais decorrentes de deficiências, à saúde, à previdência social, à habitação, ao vestuário, à educação, ao lazer, às garantias processuais, dentre outros. A criança possui, como qualquer outro ser humano, dignidade. É com base nessa dignidade que são concedidos à criança os mesmos direitos dos adultos. Porém, com base em vulnerabilidades específicas da criança, ela tem direitos especiais. O fato de a criança ser uma pessoa em desenvolvimento leva ao reconhecimento de dois princípios básicos: o do tratamento especial e o dos interesses superiores da criança. O princípio do tratamento especial trata da necessidade de adoção de medidas contrárias à mortalidade infantil e à desnutrição, além de regras específicas relativas à adoção e à adequação do processo penal à situação da criança. O princípio da prioridade dos interesses concede aos direitos da criança uma relevância ímpar, em decorrência da vulnerabilidade da criança e do seu potencial como construtora de um futuro voltado à efetivação dos direitos humanos. A Convenção sobre os Direitos da Criança destaca ainda um terceiro princípio: o da participação. Ele consiste basicamente em dois direitos: o da liberdade de expressão e o do acesso à informação. Esse princípio traz duas implicações: o aumento da possibilidade de que as violações aos direitos da criança sejam efetivamente punidas e afastadas e uma melhor percepção e um melhor atendimento às reais necessidades da criança. O Comentário Geral N. 1, adotado em 2001 pelo Comitê sobre os Direitos da Criança, interpreta extensivamente, em seu parágrafo 20, o artigo 13, ao determinar que a divulgação do texto da Convenção sobre os Direitos da Criança deverá alcançar as crianças de modo a possibilitar que elas promovam e defendam seus próprios direitos. Atividade deste Tópico Baseado no conteúdo do texto acima, escolha duas perguntas abaixo: 1) No que consistem os princípios do tratamento especial e do interesse superior da criança? 2) Quais as associações civis e órgãos governamentais no seu município que tratam do tema da violência ou discriminação contra a criança? 28 3) Indicação Bibliográfica: Desenvolvimento Humano e Relações Raciais 4) Retire da Convenção sobre os Direitos da Criança um item que possa exemplificar violação de direitos da criança em sua região. 5) Qual o fundamento jurídico que concede as crianças os mesmos direitos que são conferidos aos adultos? 6) A violência contra a criança e o adolescente é considerada a pior forma de violação de direitos. O Estatuto da Criança e do Adolescente defende a doutrina da proteção integral identificando crianças e adolescentes sujeitos de direitos. Os direitos de crianças e adolescentes têm sido respeitados em sua região? Se não, qual a causa? 7) Pesquise no município ou estado os conselhos de direitos existentes na área da criança e do adolescente: conselho tutelar, conselho municipal dos direitos da criança e do adolescente, conselho estadual e/ou comissão pró conselho. Investigue quais os principaisproblemas de direitos humanos enfrentados nesta área, quais os programas municipais e estaduais existentes. Pesquise na secretaria municipal de educação como o ECA está sendo ensinado nas escolas do município e do estado Responda as perguntas escolhidas e encaminhe-as para o seu/sua tutor(a) pelo ambiente de capacitação. Links Português http://www.unicef.org/brazil/dir_cri.htm http://www.dhnet.org.br/oficinas/dhparaiba/2/crianca.html Inglês http://www.unhchr.ch/html/menu2/6/crc/treaties/crc.htm Espanhol http://www.unhchr.ch/spanish/html/menu3/b/k2crc_sp.htm 29 10. Convenção Contra a Tortura e Outros Tratamentos ou Penas Cruéis, Desumanas ou Degradantes (1984) A Convenção contra a Tortura, adotada pela Assembléia Geral da ONU em 1984, estabelece em seu artigo 1º a definição de tortura: "qualquer ato pelo qual dores ou sofrimentos agudos, físicos ou mentais, são infligidos intencionalmente a uma pessoa a fim de obter, dela ou de terceira pessoa, informações ou confissões; de castigá-la por ato que ela ou terceira pessoa tenha cometido ou seja suspeita de ter cometido; de intimidar ou coagir esta pessoa ou outras pessoas; ou por qualquer motivo baseado em discriminação de qualquer natureza; quando tais dores ou sofrimentos são infligidos por um funcionário público ou outra pessoa no exercício de funções públicas, ou por sua instigação, ou com o seu consentimento ou aquiescência." Dessa forma, a Convenção abrange as práticas que produzam dolosamente sofrimento físico ou mental, e que visem a um de cinco fins: a) obtenção de informações (ou de confissão; b) castigo; c) intimidação; d) coação; e) materialização da discriminação com base na cor, raça, gênero, orientação sexual, religião, origem, classe social ou em outra discriminação de qualquer natureza. A Convenção restringe sua jurisdição às práticas cometidas por "funcionários públicos ou outra pessoa no exercício de funções públicas, ou por sua instigação, ou com o seu consentimento ou aquiescência", visando a coibir condutas que violem a integridade física e a dignidade daqueles sob custódia do poder público. De fato, a tortura institucionalizada, aplicada como instrumento para a obtenção de provas ou para a imposição de punição, foi reiteradamente adotada ao longo da história, desde o Código de Hamurabi, no século XVIII a.C.até a Ad Extirpanda, do Papa Inocêncio IV que, em 1252 - que permitia o uso da tortura ou dos tormentos para se obter a confissão dos suspeitos de heresia - e o Manual do Inquisidor, do inquisidor Bernardo Gui. A prática de tortura é praticada hoje de forma sistemática, mas não oficial, em um grande número de países, inclusive no Brasil. Inclui, por exemplo, torturas posicionais, queimaduras, asfixia, choques elétricos, exposição a substâncias químicas, amputação médica, uso de doses tóxicas de medicamentos, más condições de detenção, privação de estimulações sensoriais normais, humilhações, ameaças, coerção para ferir terceiros ou para testemunhar a tortura de terceiros, violação de tabus, lesões várias e violência sexual. O Brasil ratificou a Convenção contra a Tortura em 28 de setembro de 1989, mas não fez as declarações de que tratam os artigos 21 e 22 da Convenção no que diz respeito ao reconhecimento da competência do Comitê contra a Tortura para receber e analisar comunicações estatais e individuais. Em junho de 2001, a Convenção contava com 124 Estados-membros, inclusive o Brasil, a partir de 1989. A Lei brasileira 9455/97, que torna crime a prática de tortura, propõe uma definição de tortura mais ampla do que aquela da Convenção Internacional no que toca aos possíveis praticantes. Enquanto a Convenção apenas admite como violador o Estado, a Lei brasileira entende como tortura também o sofrimento imposto por particulares. O fato foi objeto de análise do Relator Especial para a Tortura, que indicou: "Deve-se notar que, de acordo com a definição brasileira, o crime de tortura não é limitado aos atos cometidos por funcionários públicos. Todavia, a lei estipula uma punição mais severa 'quando o crime é cometido por um agente público". Atividade deste Tópico Baseado no conteúdo do texto acima, escolha duas perguntas abaixo: 1) Diz a lei nº: 9459/97, a conhecida lei anti-racismo: Art. 1º Serão punidos, na forma desta Lei, os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência 30 nacional. A convenção pela eliminação de todas as Formas de Discriminação Racial (1965) luta por qual preceito básico dos direitos humanos? Em sua região a lei 9459/97 e a 7716/89 têm sido respeitadas? A população de sua região conhece essa lei? Ela tem sido respeitada? (Revisão) 2) O Brasil é um país em que são notórias as violações aos direitos civis e políticos dos cidadãos. Cite alguns exemplos violações de direitos ocorridas em seu município? Reflita as atitudes que você poderia tomar para impedir estas violações? (Revisão) 3) Pesquise junto as ONG’s do seu estado os dados existentes sobre violência contra mulher, as ações das entidades e as dificuldade encontradas na implementação das ações de promoções e defesa das mulheres. (Revisão) 4) A guerra é uma situação de excepcionalidade em que não incidem os direitos humanos e a proibição da tortura? 5) Na sua opinião, por que a tortura é antijurídica? Há casos em que a tortura seria justificável? Responda as perguntas escolhidas e encaminhe-as para o seu/sua tutor(a) pelo ambiente de capacitação. Links Português http://www.ilanud.org.br/doc22.htm http://www.dhnet.org.br/direitos/sip/onu/textos/tratado10.htm Inglês http://www.conectasur.org/files/ConventionalHRMec.pdf http://www.droitshumains.org/uni/Formation/03Mecan1_a.htm Espanhol http://www.cajpe.org.pe/RIJ/bases/nuevdh/meca1.htm 31 11. Comitês Convencionais de Proteção em Direitos Humanos Há dois mecanismos de proteção aos direitos humanos no âmbito global: a. Mecanismos convencionais; b. Mecanismos extra-convencionais. Os Mecanismos Convencionais são aqueles criados por convenções específicas de direitos humanos, como a Convenção pela Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial, a Convenção pela Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher, a Convenção sobre os Direitos da Criança, o Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos, dentre outras. As principais características dos órgãos de proteção criados por esses tratados internacionais estão no fato de apenas se voltarem à proteção de direitos previstos nas convenções que os criaram e de terem competência para analisar relatórios e petições individuais apenas no que se relaciona àqueles Estados que ratificaram a convenção específica instituidora do órgão. Trataremos aqui de quatro Comitês que têm entre suas atribuições o recebimento de petições individuais: a. Comitê de Direitos Humanos, criado pelo Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos; b. Comitê pela Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher, criado pela Convenção com o mesmo nome; c. Comitê pela Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial, criado também por Convenção de mesmo nome; d. Comitê contra a Tortura, criado pela Convenção contra a Tortura. O Comitê de Direitos Humanos foi criado pelo Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos. Possui 18 membros, eleitos pelos Estados que o integram para um mandato de 4 anos. O Comitê tem as seguintes funções: a) a análise de relatórios apresentados a Estados partes ao Pacto; b) a análise de comunicações de um Estado em face de outro Estado por violações a direitos previstos no Pacto; c) o recebimento de petições individuais por parte de indivíduos cujos direitos civis e políticos tenham sido violados por Estados-partes do Protocolo. Em julho de 2003, 104 Estados já haviam reconhecido a jurisdição do Comitê para receber petições individuais, podendo ser denunciados por particulares em decorrência de violações a direitos civis e políticos. O Brasil ainda não fez tal reconhecimento. O Comitê pela Eliminaçãode Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher foi criado pela Convenção pela Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher. O Comitê é formado por 23 membros eleitos para um mandato de 4 anos. Até a adoção do Protocolo Facultativo à Convenção, o Comitê tinha como principal atribuição a análise de relatórios apresentados pelos Estados-membros. Com a adoção do Protocolo, o Comitê assumiu duas novas atribuições: a) a análise de petições individuais e b) a realização de visitas ao território do Estado. Em julho de 2003, 51 Estados haviam ratificado o Protocolo Facultativo à Convenção, podendo ser denunciados perante o Comitê por particulares em decorrência de violações a direitos previstos na Convenção. O Brasil estava entre esses 51 Estados. O Comitê pela Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial foi criado pela Convenção que tem o mesmo nome. É formado por 18 membros, eleitos para um mandato de 4 anos. Estão entre as suas atribuições a) a análise de relatórios; b) a análise de comunicações interestatais, isto é, denúncias de um Estado em face de outro Estado por violações a direitos; c) a análise de petições individuais. As petições individuais, contudo, foram previstas como cláusulas facultativas.Para entrarem em vigência, as cláusulas dependem não apenas da ratificação do tratado pelo Estado, mas ainda de uma declaração 32 específica reconhecendo sua atribuição adicional. Até julho de 2003, apenas 43 Estados reconheceram a jurisdição do Comitê para analisar denúncias apresentadas por indivíduos em decorrência de violações aos direitos previstos pela Convenção, dentre eles, o Brasil. O Comitê contra a Tortura foi criado pela Convenção contra a Tortura. É formado por 10 membros, com um mandato de 4 anos. São atribuições do Comitê: a) a análise de relatórios; b) o recebimento de comunicações interestatais; c) o recebimento de petições individuais; d) a realização de visitas no território do Estado. As petições individuais, no entanto, são previstas como cláusulas facultativas. Em julho de 2003, apenas 53 Estados haviam reconhecido a jurisdição do Comitê para analisar denúncias apresentadas por indivíduos. O Brasil não está entre eles. Atividade deste Tópico Baseado no conteúdo do texto acima, escolha duas perguntas abaixo: 1)Na sua opinião, por que a tortura é antijurídica? Há casos em que a tortura seria justificável? (Revisão) 2)A violência contra a criança e o adolescente é considerada a pior forma de violação de direitos. O Estatuto da Criança e do Adolescente defende a doutrina da proteção integral identificando crianças e adolescentes sujeitos de direitos. Os direitos de crianças e adolescentes têm sido respeitados em sua região? Se não, qual a causa? (Revisão) 3)Pesquise no município ou estado os conselhos de direitos existentes na área da criança e do adolescente: conselho tutelar, conselho municipal dos direitos da criança e do adolescente, conselho estadual e/ou comissão pró conselho. Investigue quais os principais problemas de direitos humanos enfrentados nesta área, quais os programas municipais e estaduais existentes. Pesquise na secretaria municipal de educação como o ECA está sendo ensinado nas escolas do município e do estado. (Revisão) 4) Quais as principais peculiaridades dos Comitês Convencionais? 5) Na sua opinião, o Brasil deveria reconhecer a jurisdição do Comitê de Direitos Humanos para receber petições individuais? 6) Quais são as principais características dos órgãos convencionais de proteção aos direitos humanos? Responda as perguntas escolhidas e encaminhe-as para o seu/sua tutor(a) pelo ambiente de capacitação. Links Português http://www.dhnet.org.br/direitos/sip/cartilhas/sddh1/Mecanismo.htm#Extra http://www.gajop.org.br/dhonu.htm Inglês http://www.conectasur.org/files/ConventionalHRMec.pdf http://www.droitshumains.org/uni/Formation/03Mecan2_a.htm Espanhol 33 http://www.cajpe.org.pe/RIJ/bases/nuevdh/meca1.htm 34 12. Mecanismos Extra-Convencionais de Proteção em Direitos Humanos Os mecanismos extra-convencionais são procedimentos especiais de proteção aos direitos humanos criados direta ou indiretamente pela Carta da ONU. Os principais mecanismos extra-convencionais são: a) Mecanismos por país, onde relatores têm o mandato de examinar, monitorar e relatar a situação dos direitos humanos em determinados países; b) Mecanismos temáticos, onde relatores têm o mandato de examinar, monitorar e relatar violações de determinados direitos humanos, onde quer que eles ocorram. Embora cada mecanismo tenha um mandato específico, as atividades dos Grupos de Trabalho, Relatores Especiais e Representantes Especiais incluem: a) a busca e o recebimento de informações; b) a inquirição de Governos sobre legislação e prática doméstica; c) a remessa aos Governos de alegações sobre casos urgentes para esclarecimento; d) o envio aos Governos respostas das fontes das informações originais para obter comentários nos casos de desaparição, detenção arbitrária, execuções sumárias e tortura; e) a resposta a convites para visitar países onde pareça estar ocorrendo problemas concernentes a seus mandatos; f) a realização de visitas e g) o relato anual de suas atividades à Comissão de Direitos Humanos. A apresentação de denúncias por indivíduos ou grupos de indivíduos não depende da ratificação de convenções específicas nem de declaração relativa a cláusulas facultativas ou de ratificação de protocolo adicional. A apresentação de denúncias pode versar sobre quaisquer direitos humanos. O Brasil já recebeu as visitas dos seguintes relatores especiais: Sr. Juan Miguel Petit (Uruguai) – Relator Especial da Comissão de Direitos Humanos sobre a venda de crianças e prostituição infantil e a utilização de crianças na pornografia; Sra. Asma Jahangir (Paquistão) – Relatora Especial da Comissão de Direitos Humanos sobre execuções extrajudiciais, sumárias ou arbitrárias; Sr. Jean Ziegler (Suíça) – Relator Especial da Comissão de Direitos Humanos sobre o direitos à alimentação; Sr. Doudou Diène – Relator Especial da Comissão de Direitos Humanos sobre formas contemporâneas de racismo, discriminação racial, xenofobia e formas conexas de intolerância e o Sr. Nigel Rodley – Relator Especial da Comissão de Direitos Humanos sobre a questão de tortura. A seguir a lista de relatores temáticos da ONU: I - Grupo de Trabalho sobre a Detenção Arbitrária: Sr. Louis Joinet - França – Presidente-Relator no posto desde 1991 Sra. Leila Zerrougui – Argélia – no posto desde 2001 Sra. Soledad Villagra de Bierdemann – Paraguai – no posto desde 2000 Sr. Tamás Ban – Hungria – no posto desde 2001 Sr. Sr. Seyed Mohammad Hachemi - República Árabe de Irã – no posot desde 2002 Relator Especial da Comissão de Direitos Humanos sobre a venda de crianças, a prostituição infantil e a utilização de crianças na pornografia Sr. Juan Miguel Petit – Uruguai – no posto desde 2001 Expert independente da Comissão de Direitos Humanos sobre o direito ao desenvolvimento 35 Sr. Arjun Sengupta – India – no posto desde 1998 Relator especial sobre o direito de toda pessoa ao desfrute do mais alto nivel possível de saúde física e mental Sr. Paul Hunt – Nova Zelândia – no posto 2002 II - Grupo de Trabalho sobre Desaparecimentos Forçados ou Involuntários Sr. Diego Garcia-Sayán – Peru – Presidente-relator no posto desde 1998 Sr Joel Adebayo Adekanye – Nigéria – no posto desde 2000 Sr. Ivan Tosevski - Ex-República Yugoslava de Macedônia – no posto desde 1980 Tan Sri Dato Anuar Zainal Abidin (Malasia) 2001 M. Stephen J. Toope (Canadá) 2002 Expert independente da Comissão de Direitos Humanos para o exame do marco internacional existente em matéria penal e de direitos humanos para a proteção das pessoas contra os desaparecimentos forçados ou involuntários Sr. Manfred Nowak – Áustria - no posto desde 2001 Relatora Especial da Comissão de Direitos Humanos sobre o direito à educação Sra. Katarina Tomasevski – Croácia – no posto desde 1998 Expert independenteda Comissão de Direitos Humanos para o exame do marco internacional existente em matéria penal e de direitos humanos para a Relatora Especial da Comissão de Direitos Humanos sobre execuções extrajudiciais, sumárias ou arbitrárias Sra. Asma Jahangir – Paquistão – no posto desde 1998 Relator Especial da Comissão de Direitos Humanos sobre o direito a alimentação Sr. Jean Ziegler – Suíça – no posto desde 2000 Representante Especial do Secretario Geral sobre a situação dos defensores de direitos humanos Sra. Hina Jilani – Paquistão – no posto desde 2000 Relator Especial da Comissão de Direitos Humanos sobre a moradia adequada Sr. Miloon Kothari – Índia – no posto desde 2000 Relator Especial da Comissão de Direitos Humanos sobre a situação dos direitos humanos e das liberdades fundamentais dos indígenas 36 Sr. Rodolfo Stavenhagen – México – no posto desde 2001 Relator Especial da Comissão de Direitos Humanos sobre a independencia de juízes e magistrados Sr. Param Cumaraswamy – Malásia – no posto desde 1994 Relator Especial da Comissão de Direitos Humanos sobre a promoção e proteção do direito a liberdade de opinião e de expressão Sr. Ambeyi Ligabo – Quênia – no posto desde 2002 Relator Especial da Comissão de Direitos Humanos sobre a liberdade de religião ou de crenças Sr. Abdelfattah Amor – Egito – no posto desde 1993 Representante do Secretario Geral sobre as pessoas internamente deslocadas Sr. Francis Deng – Sudão – no posto desde 1992 Relator Especial da Comissão de Direitos Humanos sobre o uso de mercenários como meio de violar os direitos humanos e de obstaculizar o exercício do direito a livre determinação dos povos. Sr. Enrique Bernales Ballesteros – peru – no posto desde 1987 Relatora Especial da Comissão de Direitos Humanos sobre os direitos humanos dos migrantes Sra. Gabriela Rodríguez Pizarro – Costa Rica – no posto desde 1999 III - Grupo de trabalho intergovernamental con o seguinte mandato: a) Formular recomendações para a aplicação efetiva da Declaração e Programa de Ação de Durban; b) Preparar normas internacionais complementares que fortaleçam e atualizem os instrumentos internacionais contra o racismo, a discriminação racial, a xenofobia e as formas conexas de intolerancia, en todos seus aspectos Expert independente encarregado de examinar a questão de um protocolo facultativo ao Pacto Internacional de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais Sr. Hatem Kotrane – Tùnez – no posto desde 2001 Expert independente da Comissão de Direitos Humanos sobre os direitos humanos e a extrema pobreza Sra. Anne-Marie Lizin Bélgica - no posto desde 1998 37 Relator Especial da Comissão de Direitos Humanos sobre formas contemporâneas de racismo, discriminação racial, xenofobia e formas conexas de intolerância Sr. Doudou Diène - Senegal - no posto desde 2002 IV - Grupo de trabalho sobre as pessoas de descendencia africana encarregados de estudar os problemas de discriminação racial enfrentados pelas pessoas de ascendencia africana que vivem na diáspora Sr. Peter Lesa Kadanda – Zâmbia – no posto desde 2002 Sr. George N. Jabbour - República Árabe Síria – no posto desde 2002 Sr. Roberto B. Martins – Brasil – no posto desde 2002 V - Grupo de Trabalho Intergovernamental sobre a aplicação efetiva da Declaração e Programa de Ação de Durban Expert independente da Comissão de Direitos Humanos sobre os programas de ajuste estructural e dívida externa Sr. Bernards Andrew Nyamwaya Mudho – Quênia – no posto desde 2001 Relator Especial da Comissão de Direitos Humanos sobre a questão da tortura Sr. Theo C. van Boven – Países Baixos – no posto desde 2001 Relatora Especial da Comissão de Direitos Humanos sobre os efeitos nocivos para o gozo dos direitos humanos do trasnporte e despejo ilícitos de produtos e dejetos tóxicos e perigosos Sra. Fatma Zohra Ouhachi-Vesely – Argélia – no posto desde 1995 Relatora Especial da Comissão de Direitos Humanos sobre a violência contra a mulher, com inclusão de suas causas e consequências Sra. Radhika Coomaraswamy – Sri Lanka – no posto desde 1994 Atividade deste Tópico Baseado no conteúdo do texto acima, escolha duas perguntas abaixo: 1) Na sua opinião, o Brasil deveria reconhecer a jurisdição do Comitê de Direitos Humanos para receber petições individuais? (Revisão) 2) Quais são as principais características dos órgãos convencionais de proteção aos direitos humanos? (Revisão) 38 3) Procure na arquidiocese da sua cidade se existem pastorais que atuam na área de proteção em Direitos Humanos. 4) Qual elemento serve para diferenciar os mecanismos extra-convencionais? Responda as perguntas escolhidas e encaminhe-as para o seu/sua tutor(a) pelo ambiente de capacitação. Links Português http://www.dhnet.org.br/direitos/sip/cartilhas/sddh1/Mecanismo.htm#Extra http://www.gajop.org.br/dhonu.htm Inglês http://www.conectasur.org/files/ConventionalHRMec.pdf http://www.droitshumains.org/uni/Formation/03Mecan2_a.htm http://www.unhchr.ch/html/menu2/xtraconv.htm Espanhol http://www.cidh.oas.org/que.htm 39 13. Sistema Interamericano de Proteção dos Direitos Humanos O sistema interamericano de direitos humanos é um dos três sistemas regionais de proteção a direitos ao lado dos sistemas europeu e africano. É o segundo sistema regional mais consolidado no mundo. O sistema interamericano é formado por uma série de documentos internacionais, entre eles: 1. Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem (1948); 2. Convenção Americana de Direitos Humanos (1969) ou Pacto de San José; 3. Protocolo Adicional à Convenção Americana de Direitos Humanos em Matéria de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais ou Protocolo de San Salvador (1988); 4. Protocolo à Convenção Americana de Direitos Humanos para Abolição da Pena de Morte (1990); 5. Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher (1994); 6. Convenção Interamericana para Prevenir e Punir a Tortura (1985); 7. Convenção Interamericana sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra Pessoas Portadoras de Deficiências (1999); 8. Convenção Interamericana sobre Desaparecimentos Forçados (1994). O sistema regional interamericano consolida-se principalmente com o ressurgimento da democracia nas Américas. Sua estrutura central é estabelecida pela Convenção Americana, adotada pela Organização dos Estados Americanos em 22/11/1969. Dos 35 Estados membros da OEA, 25 são membros da Convenção. A Convenção traz patamares mínimos de direitos humanos, sendo bem mais detalhada que outras convenções do âmbito global. Trata principalmente de direitos civis e políticos, tocando, de forma genérica, em seu artigo 26, nos direitos econômicos, sociais e culturais. A Convenção é complementada por seus protocolos, pela Carta da Organização dos Estados Americanos e pelas outras convenções do sistema interamericano. Os direitos econômicos, sociais e culturais são tratados de modo detalhado pelo Protocolo de San Salvador. O Protocolo contra a pena de morte estabelece uma vedação mais clara a essa pena que o artigo 4º da Convenção Americana. Da mesma forma, a Convenção interamericana relativa à mulher introduz a questão da violência, não levantada de forma expressa nem na Convenção Americana nem na Convenção sobre a Mulher do sistema global. A Convenção interamericana contra a Tortura torna mais claro o direito contra a tortura indicado no artigo 5º da Convenção Americana, repetindo, em grande parte, a Convenção contra a tortura do sistema global. Há dois órgãos de monitoramento no sistema interamericano de direitos humanos: a. Comissão Interamericana de Direitos Humanos; b. Corte Interamericana de Direitos Humanos. Atividade deste Tópico Baseado no conteúdo do texto acima, escolha duas perguntas abaixo: 1)Quais os órgãos de monitoramento do sistema interamericano de direitos humanos? 2)Quais os objetivos dos mecanismos temáticos? Qual, dentre os apresentados, poderia apresentar maior interesse paraa sua região? 3)De exemplos de como atuam o Grupo de Trabalho sobre a Detenção Arbitrária. 4)Qual a posição dos Estados Unidos da América do Norte no Sistema Interamericano de Proteção dos Direitos Humanos? 5)Quais sistemas de proteção dos direitos humanos na esfera global e regional existem atualmente? Responda as perguntas escolhidas e encaminhe-as para o seu/sua tutor(a) pelo ambiente de 40 capacitação. Links Português http://www.dhnet.org.br/direitos/brasil/legislativo/cdhcf/Cartilha_CDH/18_sip.htm http://www.direitoshumanos.usp.br/documentos/tratados/oea/oea.html http://www.dhnet.org.br/direitos/textos/Textos_DH/artigo11.htm http://www.pge.sp.gov.br/centrodeestudos/bibliotecavirtual/interamericano/sumario.htm http://www.iusnet.com.br/webs/iusnet/artigos/main_ficha.cfm?ar_id=146 http://www.neofito.com.br/artigos/art01/inter17.htm http://www.anpr.org.br/boletim/dialogando/benoni.htm http://www.mre.gov.br/portugues/politica_externa/grupos/org_estadosameric/sistema.asp http://www.rolim.com.br/3214.htm http://www.gajop.org.br/idheia2.htm http://www.gajop.org.br/dhoea.htm http://ftp.unb.br/pub/UNB/ipr/rel/cena/2001/3583.pdf http://www.cidh.oas.org/annualrep/96port/96PortCap1.htm http://ftp.unb.br/pub/UNB/ipr/rel/cena/2001/3583.pdf http://www.direitoshumanos.usp.br/documentos/tratados/oea/oea.html Inglês http://www.nottingham.ac.uk/law/hrlc/hrnews/june96/gomez.htm Espanhol http://www.cajpe.org.pe/RIJ/bases/nuevdh/mecb1.HTM http://www.unizar.es/derechos_humanos/instrumentos.html#3 41 14. Comissão e Corte Interamericanas de Direitos Humanos a. Comissão Interamericana de Direitos Humanos: A Comissão é um órgão quase-judicial, sediado em Washington. Atualmente, tem por base dois tratados do sistema interamericano: a. Carta da Organização dos Estados Americanos de 1948 (alterada em 1970); b. Convenção Americana de Direitos Humanos de 1969 (em vigor a partir de 1978). A Comissão é formada por 7 membros eleitos pela Assembléia Geral da OEA para um mandato de 4 anos. Em 2004, os membros da Comissão são José Zallaquett (Chile), Clare Roberts (Antigua y Barbuda), Evelio Arévalos (Paraguai), Freddy Trejo (Venezuela), Florentín Meléndes (El Salvador), Susana Villarán (Peru) e Paulo Sérgio Pinheiro (Brasil). Já fizeram parte da Comissão os brasileiros Hélio Bicudo, que chegou à presidência, Gilda Russomano e Carlos Abranches. A Comissão é órgão representativo de todos os Estados membros da OEA. Não se restringe, portanto, aos Estados-membros da Convenção Americana. Os EUA não são parte da Convenção Americana. Entre suas atribuições, a Comissão analisa relatórios apresentados por Estados-membros, comunicações interestatais e petições individuais. De acordo com o Relatório Anual de 2002 da Comissão Interamericana, foram apresentadas 4656 denúncias, sendo 3785 delas por parte de grupos argentinos e 30 de grupos ou indivíduos brasileiros. Em 2001, apenas 718 denúncias haviam sido apresentadas. Ainda conforme o Relatório, 83 casos foram abertos pela Comissão em 2002, sendo três referentes ao Brasil. Foram concedidas 91 medidas destinadas à prevenção de dano irreparável a pessoas em casos sérios e urgentes, sendo 6 delas para casos envolvendo o Brasil. Qualquer indivíduo ou grupo de indivíduos pode apresentar petições à Comissão sem que haja necessidade de serem acompanhados por um advogado. A Comissão condenou o Brasil por violação de direitos previstos na Convenção Americana em quatro casos: o Carandiru, o da Candelária, o de Maria da Penha e o de Diniz Bento da Silva. O caso Carandiru, denunciado em 1992, analisou o assassinato de 111 detentos por policiais na Casa de Detenção de São Paulo, hoje desativada. A Comissão solicitou que o Estado compensasse as famílias das vítimas e que tomasse medidas para prevenir novas ocorrências. O caso Candelária tratou do assassinato de 8 crianças e adolescentes nas proximidades da Igreja Candelária no Rio em julho de 1993. A denúncia apontou para a autoria de policiais militares. A Comissão sugeriu que houvesse investigações e o pagamento de indenização às famílias. O caso Maria da Penha instaurado em agosto de 1998, explicitou a demora da justiça penal brasileira em julgar a tentativa de homicídio intentada contra Maria da Penha por seu ex-esposo. A justiça deixou que se passassem mais de 15 anos sem que houvesse uma sentença definitiva. A Comissão solicitou ao Estado que, entre outras medidas, completasse rápida e efetivamente o processamento penal da tentativa de homicídio, investigasse irregularidades do processo ou irregularidades que levaram à demora injustificada e indenizasse a vítima. Por fim, o caso Diniz Bento da Silva decidido em 2002, versou sobre o assassinato de Diniz Bento da Silva pela polícia militar do Estado do Paraná, em 1993, em decorrência do seu envolvimento com o Movimento dos Sem Terra - MST e da ineficácia das investigações conduzidas para a apuração do crime. A Comissão entendeu que o Brasil violou os direitos à vida, às garantias judiciais e à proteção judicial, recomendando que o Estado conduzisse investigações sérias, efetivas e imparciais e punisse os responsáveis pelo crime. Recomendou ainda que assegurasse 42 adequada indenização às famílias das vítimas e prevenisse confrontos com trabalhadores rurais em disputas por terras, promovendo a negociação pacífica dos conflitos. Há ainda um quinto caso onde houve uma solução amistosa: o caso de Zé Pereira. Em 1989, José Pereira, então com 17 anos, foi gravemente ferido por pistoleiros que tentavam impedir a fuga de trabalhadores mantidos em condições escravas na fazenda Espírito Santo, no Estado do Pará. O Estado brasileiro reconheceu sua responsabilidade internacional neste caso por não ter sido capaz de prevenir a ocorrência da prática do trabalho escravo, nem de punir os indivíduos diretamente responsáveis pelas violações denunciadas. Além disso, determinou o pagamento de cinqüenta e dois mil reais à vítima, pagos em 25 de agosto de 2003. O Estado Brasileiro comprometeu-se ainda a promulgar leis e a aprimorar a fiscalização sobre o trabalho escravo no país. b. Corte Interamericana de Direitos Humanos A Corte foi criada pela Convenção Americana, sendo cláusula facultativa nesta Convenção. Isso significa que para entrar em vigência essa cláusula depende da ratificação do tratado (Convenção Americana) pelo Estado e ainda de uma declaração específica desse, reconhecendo a atribuição adicional. Dos 25 Estados pertencentes à Convenção, 22 declararam reconhecer a jurisdição da Corte até novembro de 2002, dentre eles o Brasil, que o fez em 10 de Dezembro de 1998. Um brasileiro, Antonio Augusto Cançado Trindade, foi o presidente da Corte por dois mandatos consecutivos de 1999 a 2003. Além da Corte Interamericana há apenas duas cortes permanentes, isto é, dois órgãos judiciais permanentes já constituídos no âmbito internacional de proteção de direitos humanos: a) a Corte Européia de Direitos Humanos - que trata da responsabilidade de Estados; b) o Tribunal Penal Internacional, que trata da responsabilidade criminal de indivíduos. A Corte Interamericana, composta por 7 membros eleitos para um mandato de 6 anos, possui duas atribuições: a. Consultiva (art. 64, Convenção); b. Contenciosa (art. 61-63 e 66-69, Convenção). Pela jurisdição consultiva, qualquer Estado membro da OEA pode solicitar que a Corte emita pareceres sobre a Convenção Americana ou sobre quaisquer outros tratados de direitos humanos, como, por exemplo, o Parecer n. 14 (1999), que estabeleceu que a publicação de leis contrárias aos tratados internacionais seriam violatórias do deveres assumidos pelo Estado com a ratificação. Pela jurisdição contenciosa, a corte pode analisar denúncias de violações de direitos feitas pelos Estados americanos. Citam-se dois casos analisados pela Corte em jurisdição contenciosa: o caso Velásquez Rodriguez e o caso Urso Branco. O caso Velásquez Rodriguez mostrou ser possível que, ao analisar um caso individual, a Corte poderia também analisarviolações sistemáticas ligadas a ele. O caso foi apresentado em 1981 à Comissão. A decisão deu-se em 1988. Velásquez foi preso, torturado e morto pelas Forças Armadas de Honduras em 1981. De 1981 a 1984, de 112 a 130 outros desaparecimentos ocorreram nas mesmas circunstâncias de Velásquez. A Corte considerou que Honduras havia violado os artigos 4º (direito à vida), 5º (direito à integridade pessoal) e 7º (direito à liberdade pessoal) da Convenção Americana. O Caso Urso Branco envolveu o massacre de detentos na Penitenciária de Urso Branco, em Porto Velho, Rondônia. Em março de 2002, após um massacre ocorrido entre detentos que causou a morte de mais de 30 pessoas, a Comissão requisitou à Corte a determinação de medidas preventivas em favor de 47 presos. A Corte determinou as medidas em 18 de junho de 2002. Até 1999, 63 casos haviam sido analisados. Em 2002, apenas 7 casos foram levados à Corte. 43 Atividade deste Tópico Baseado no conteúdo do texto acima, escolha duas perguntas abaixo: 1) Como se caracteriza a organização do sistema Interamericano de proteção dos direitos humanos? 2) Pesquise sobre a Comissão e a Corte Interamericana de Direitos Humanos. 3) Um cidadão brasileiro pode apresentar uma reclamação perante a Corte Interamericana de Direitos Humanos? Justifique sua resposta. 4) Qual a importância da comissão e da corte interamericanas? Algumas de suas decisões, sobre fatos ocorridos no Brasil, trouxeram modificações significativas na prática da defesa de direitos? 5) Quais são os documentos jurídicos que complementam o Parto de San José (1969)? 6) Há alguma relação entre a discriminação racial e diferenças ou desníveis de cunho social, cultural e econômico? Qual? (Revisão) 7) A cada 4 minutos uma mulher é espancada no Brasil (dados Centro de Atendimento à mulher de Londrina-PR) e na maioria dos casos o agressor é alguém da família. Defina com base nos artigos das convenções o que é violência contra a mulher e, com base nas definições apresentadas tente identificar situações de violação dos direitos da mulher em sua comunidade. (Revisão) 8) Pesquise na sua cidade ou Estado quais os órgãos de justiça, se no Ministério Público Estadual e no Ministério Público Federal, existem procuradorias do Cidadão. Pesquise quais as ONG’s no estado que atuam com as questões de etnias. (Revisão) 9) Você acha que alguns direitos das mulheres devem ser flexibilizados diante das especificidades das reações familiares? (Revisão) 10) Pesquise em sua cidade e relate um caso de violência contra a mulher que seja previsto na Convenção para Eliminação da Discriminação contra a Mulher e um caso previsto pela Convenção de Belém do Pará. (Revisão) Responda as perguntas escolhidas e encaminhe-as para o seu/sua tutor(a) pelo ambiente de capacitação. Links Português http://www.cidh.oas.org/comissa.htm http://www.dhnet.org.br/oficinas/dhparaiba/3/sip.html http://www.oas.org/ezine/ezine22/MirandaDereitosHumanos.htm http://www.mre.gov.br/portugues/politica_externa/grupos/org_estadosameric/sistema.asp http://www.pge.sp.gov.br/centrodeestudos/bibliotecavirtual/interamericano/2226caso.htm http://www.cidh.oas.org/annualrep/96port/96PortCap1.htm http://www.direitoshumanos.usp.br/documentos/tratados/oea/oea.html Inglês http://www.cidh.oas.org/DefaultE.htm 44 http://www.corteidh.or.cr/index-ingles.html Espanhol http://www.cidh.oas.org/que.htm http://www.cidh.oas.org/Default.htm http://www.oas.org/SP/PROG/cap2a-h.htm http://www.corteidh.or.cr/info_general/index.html 45 LC1. Tribunais Penais Internacionais Temporários Foram instituídos nos séculos XX e XXI quatro tribunais penais internacionais temporários: a. Tribunal de Nuremberg b. Tribunal de Tóquio c. Tribunal ad hoc para a ex-Iugoslávia d. Tribunal ad hoc para a Ruanda e. Tribunal Penal Internacional Permanente f. Corte Interamericana de Direitos Humanos g. Corte Européia de Direitos Humanos Os últimos grandes marcos do processo de internacionalização dos direitos humanos no pós Segunda Guerra consistem nos tribunais internacionais criados especificamente para o julgamento de violações a direitos humanos ou humanitários. Esses tribunais existem tanto no sistema global de proteção, ligado à ONU, quanto em dois Sistemas Regionais: o sistema interamericano e o sistema europeu. A Corte Interamericana e a Corte Européia se voltam à responsabilização de Estados por violações a direitos humanos; os Tribunais de Nuremberg, Tóquio, os Tribunais ad hoc e o Tribunal Penal Internacional se voltam ou se voltaram à responsabilização de indivíduos por essas violações a direitos humanos. Nessa linha, são quatro os tribunais penais temporários: a. Tribunal de Nuremberg b. Tribunal de Tóquio c. Tribunal ad hoc para a ex-Iugoslávia d. Tribunal ad hoc para a Ruanda A magnitude das atrocidades cometidas durante a Segunda Guerra Mundial, marcadas por uma lógica de descartabilidade dos seres humanos impulsionou os aliados a formarem dois tribunais penais internacionais: o Tribunal de Nuremberg e o Tribunal de Tóquio. O Tribunal de Nuremberg, criado pelo acordo de Londres em 8 de agosto de 1945, foi assinado pelos Estados Unidos, França, Reino Unido e União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. O objetivo: julgar crimes contra a paz, crimes de guerra (cometidos por combatentes de forma sistemática ou não) e crimes contra a humanidade cometidos por indivíduos de países do Eixo. Posteriormente, dezenove outros Estados aderiram ao acordo. O Tribunal de Nuremberg, que poderia julgar mesmo oficiais e aqueles que agiram seguindo ordens foi criticado por ter sido constituído após o cometimento dos crimes, por ter aplicado retroativamente leis penais e por ter se caracterizado como um "tribunal dos vencedores", voltado à retribuição. O Tribunal de Tóquio foi criado pela Carta do Tribunal Internacional Militar para o Extremo Oriente adotada em 19 de janeiro de 1946. Seguiu regras semelhantes às de Nuremberg tendo sofrido as mesmas críticas e a denominação de "tribunal dos vencedores", especialmente ao serem desconsiderados os bombardeios de Hiroshima e Nagasaki na análise dos crimes praticados durante a guerra. O Tribunal de Tóquio teve uma composição mais diversificada que o de Nuremberg. Aproximou-se mais da regra de imparcialidade no tocante à distribuição geograficamente eqüitativa de seus membros, como ocorre em vários Comitês, Comissões e Tribunais internacionais da atualidade. Para Cherif Bassiouni, a ausência de precedentes relativos às violações cometidas durante a primeira guerra e a recusa em se processar soldados aliados enfraqueceram a legalidade dos processos tanto em Nuremberg quanto em Tóquio. Os tribunais causaram dois grandes impactos relativos ao direito internacional dos direitos humanos: a) possibilitaram a responsabilização criminal de indivíduos; b) apresentaram um novo limite ao conceito de 46 soberania. Os Tribunais ad hoc para a antiga Iugoslávia e para a Ruanda foram adotados, respectivamente, por meio da Resolução 827/1993 e da Resolução 955/1994 do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Os tribunais ad hoc demonstraram a viabilidade da instauração de tribunais penais internacionais para a responsabilização de indivíduos por graves violações de direitos humanos em uma época marcada pela explosão de conflitos étnicos e culturais. Cabe ao Tribunal ad hoc para a antiga Iugoslávia, por exemplo, julgar indivíduos por graves violações ao direito humanitário cometidas no território do antigo país, como a prisão, o estupro e o extermínio de civis, a tortura, a extensa destruição de propriedade não justificada pela necessidade militar e o constrangimento de prisioneiros a servirem nas forças inimigas, dentre outros. Um dos principais casos perante o Tribunal para a antiga Iugoslávia é o referente ao julgamento do ex-presidente Slobodan Milosevic. Cabe ao Tribunal ad hoc para Ruanda julgar principalmente crimes contra o direito humanitário e crimes de genocídio cometidos por indivíduos pertencentes ao grupoétnico dos hutus contra indivíduos pertencentes ao grupo étnico dos tutsis. (OBS: Este tópico não possui atividade relacionada) 47 LC2. Tribunal Penal Internacional Permanente O Tribunal Penal Internacional - TPI foi criado pelo Estatuto de Roma em 17 de julho de 1998 e instituído em 11 de abril de 2002. O Brasil reconheceu a jurisdição do TPI nesse mesmo ano. O Tribunal Penal Internacional tem jurisdição sobre quatro crimes: crimes de genocídio, crimes contra a humanidade, crimes de guerra e crimes de agressão, sempre que praticados no território de qualquer dos Estados-membros. O crime de genocídio é caracterizado pelo intuito de destruir, total ou parcialmente, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso. A destruição pode ser física ou cultural. Os crimes contra a humanidade referem-se a graves violações a direitos cometidas contra a população civil em escala sistemática. Em relação aos crimes de guerra, derivam principalmente das quatro Convenções de Genebra de 1949 e da Convenção de Haia IV de 1907, incluindo a proteção tanto a combatentes (Haia), quanto a não- combatentes (Genebra). Como não se estabelece aqui qualquer restrição quanto à magnitude das ofensas, acredita-se que haveria jurisdição mesmo no que se refere a casos isolados. Por fim, quanto ao crime de agressão, o Estatuto condicionou o exercício da jurisdição do Tribunal à definição dessa conduta típica. Essa definição poderá ser incluída no momento da revisão do Estatuto de Roma. A jurisdição do Tribunal Penal Internacional não alcança pessoas menores de dezoito anos, parecendo reconhecer, como faz a Constituição brasileira, que essas pessoas requerem uma justiça especial que atenda às peculiaridades do indivíduo em desenvolvimento. A jurisdição alcança pessoas que tenham cometido os crimes previstos no Estatuto no exercício de sua capacidade funcional, ainda que sejam Chefes de Estado. O Estatuto de Roma aplica-se igualmente a todas as pessoas, sem distinção alguma, baseadas em cargo oficial. Ou seja: o cargo oficial de uma pessoa, seja ela chefe de Estado ou de Governo, não eximirá sua responsabilidade penal e nem tampouco importará em redução de pena. Isso simboliza um grande avanço do Estatuto com relação ao regime das imunidades que não mais poderá ser escudo para a atribuição de responsabilização penal. A criação do TPI corresponde a uma grande conquista na proteção de direitos na esfera internacional. Primeiro, o TPI é um tribunal permanente, menos sujeito ao alto grau de seletividade presente em tribunais militares, como os de Nuremberg e Tóquio, ou nos Tribunais ad hoc. A jurisdição do TPI será aplicada a todos os que aderirem ao Estatuto de Roma e não apenas aos países econômica e politicamente mais fracos, ou perdedores de uma guerra. Segundo, os crimes abrangidos pelo Estatuto de Roma são mais especificados, concedendo maiores garantias aos acusados. Terceiro, o Estatuto de Roma não prevê a pena de morte, como faziam os tribunais de Nuremberg e Tóquio, adotando a pena de prisão perpétua como pena máxima e excepcional. (OBS: Este tópico não possui atividade relacionada) 48 Unidade II - DIREITOS HUMANOS NA CONSTITUIÇÃO BRASILEIRA DE 1988 Ouvimos freqüentemente que a Constituição é a "Lei Maior", a "Carta Magna", a "Carta Política" de um país a qual todos os cidadãos e governantes devem conhecer e respeitar. Mas do que trata uma constituição? Qual o seu conteúdo? As Constituições nasceram para limitar o exercício do poder do Estado e para assegurar direitos. Ela é o pacto jurídico, político e social, contendo as decisões mais importantes para o Estado e a sociedade. Assim, podemos dividir o conteúdo das Constituições contemporâneas em duas grandes partes estruturais. A primeira prevê direitos, liberdades e garantias fundamentais. Por exemplo, a Constituição de 1988, no seu título II, estabelece os direitos e garantias fundamentais, os direitos civis, políticos, sociais, bem como as garantias para a proteção desses direitos. A segunda parte disciplina a organização do Estado no âmbito geográfico-espacial e orgânico. Por exemplo, a Constituição, no seu título III, trata da organização do Estado, disciplinando a Federação brasileira, integrada pela União, Estados, Municípios e Distrito Federal. No título IV, consagra a organização dos poderes, definindo as competências dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. A Constituição de 1988, enquanto marco jurídico da transição democrática e da institucionalização dos direitos humanos no país, destaca, em seu título I, seus princípios fundamentais. Eles refletem a ideologia e a racionalidade constitucional, traduzindo seus valores mais preciosos. A Constituição deve ser lida, interpretada e aplicada seguindo a orientação desses princípios, que projetam a importância da dignidade humana, da cidadania e dos direitos humanos. Todo o aparato estatal criado e organizado na segunda parte da Constituição deve funcionar à luz dos direitos humanos enquanto princípios constitucionais fundamentais. Em última instância, implica dizer que o Estado Brasileiro existe para promover e proteger os direitos humanos, os direitos fundamentais de seus cidadãos. O significado dos princípios constitucionais pode ser melhor apreendido a partir da análise particular dos princípios e dos direitos humanos acolhidos na Constituição Brasileira de 1988. Começaremos pelo princípio da dignidade da pessoa humana, estabelecido como um dos fundamentos da Constituição Federal de 1988 em seu Artigo 1º, inciso III. Qual a função dos princípios constitucionais? 49 1. Princípio da Dignidade da Pessoa Humana A dignidade da pessoa humana pode ser considerada como o fundamento último do Estado Brasileiro. Ela é o valor-fonte a determinar a interpretação e a aplicação da Constituição, assim como a atuação de todos os poderes públicos que compõem a República Federativa do Brasil. Em síntese, o Estado existe para garantir e promover a dignidade de todas as pessoas. É nesse amplo alcance que está a universalidade do princípio da dignidade humana e dos direitos humanos. Como valor-fonte, é da dignidade da pessoa humana que decorrem todos os demais direitos humanos. A origem da palavra dignidade ajuda-nos a compreender essa idéia essencial. Dignus, em latim, é um adjetivo ligado ao verbo defectivo decet (é conveniente, é apropriado) e ao substantivo decor (decência, decoro). Nesse sentido, dizer que alguém teve um tratamento digno significa dizer que essa pessoa teve um tratamento apropriado, adequado, decente. Se pensarmos em dignidade da vida humana ou o que é necessário para se ter uma vida digna, começaremos a ver com mais clareza como todos os direitos humanos decorrem da dignidade da pessoa humana. Para que uma pessoa, desde sua infância, possa viver, crescer e desenvolver suas potencialidades decentemente, ela precisa de adequada saúde, alimentação, educação, moradia, afeto, de liberdade para fazer suas opções profissionais, religiosas, políticas, afetivas, etc. Portanto, a dignidade da pessoa humana implica em todas as múltiplas e mínimas necessidades e capacidades para uma vida decente. Essa gama de necessidades e capacidades nada mais é do que o conteúdo dos direitos humanos, reconhecidos, por essa razão, como princípios e direitos fundamentais na Constituição Brasileira. A dignidade é um atributo essencial do ser humano, quaisquer que sejam suas qualificações. Em última instância, a dignidade humana reside no fato da existência do ser humano ser em si mesma um valor absoluto, ou como disse o filósofo alemão Kant: o ser humano deve ser compreendido como um fim em si mesmo e nunca como um meio ou um instrumento para a consecução de outros fins. Por isso é que o Estado deve ser um instrumento a serviço da dignidade humana e não o contrário. Por essas razões, o princípio da dignidade da pessoa humana exige o firme repúdio a toda forma de tratamento degradante (indigna) do ser humano, tais como a escravidão, a tortura, a perseguição ou mau trato por razões de gênero, etnia, religião,orientação sexual ou qualquer outra. É em decorrência do princípio da dignidade da pessoa humana que a Constituição de 1988, no seu Título II, "Dos Direitos e Garantias Fundamentais", afirma uma extensa relação de direitos individuais e coletivos (Capítulo I, Artigo 5º), de direitos sociais (Capítulo II, Artigos 6º a 11), de direitos de nacionalidade (Capítulo III, Artigos 12 e 13) e de direitos políticos (Capítulo IV, Artigos 14 a16). Defina, com suas próprias palavras, o que você entende por dignidade da pessoa humana? Atividade deste Tópico Baseado no conteúdo do texto acima, escolha duas perguntas abaixo: 1)Em que sentido a dignidade da pessoa humana pode ser compreendida como fundamental e fim dos Direitos Humanos? 2)a. Qual a importância dos direitos fundamentais elencados na Constituição de 1988? b. Constituição Brasileira de 1988 destaca a importância do princípio de dignidade humana? Qual a importância desse princípio na luta por direitos humanos no Brasil? Faça uma análise crítica sobre o cumprimento do referido princípio em seu município. 3)Leia a Declaração Universal de Direitos Humanos e em seguida a Constituição Federal e veja de que modo a Constituição incorpora a Declaração. 50 4)Qual a espécie dos direitos humanos (políticos, econômicos, sociais e culturais) é mais importante para a proteção da dignidade humana? Responda as perguntas escolhidas e encaminhe-as para o seu/sua tutor(a) pelo ambiente de capacitação. Links Português http://www.unitoledo.br/toledonews/dez03/const.htm http://www.dhnet.org.br/direitos/codetica/Textos/carbonari_digh.htm http://www.serrano.neves.nom.br/gabinete/constitucional/Princ%C3%ADpio%20constitucional%20da% 20dignidade%20da%20pessoa%20humana.htm http://www.ambito-juridico.com.br/aj/dconst0019.htm http://www1.jus.com.br/doutrina/lista.asp?assunto=174 http://www.mundojuridico.adv.br/html/artigos/documentos/texto236.htm 51 2. Prevalência dos Direitos Humanos nas Relações Internacionais A Constituição de 1988, em seu Artigo 4º, inciso II, é a primeira em nossa história a estabelecer a prevalência dos direitos humanos como princípio do Estado Brasileiro em suas relações internacionais. Inicialmente, trata-se de uma questão de coerência interna do texto constitucional. Se a dignidade da pessoa humana com todos os direitos humanos dela decorrentes devem orientar a atuação do Estado no âmbito nacional, seria contraditório renegar esses princípios no âmbito internacional. Afinal, não são apenas os brasileiros que devem ter sua dignidade humana respeitada e promovida, mas todas as pessoas, todos os seres humanos, pelo fato único e exclusivo de serem pessoas. Negar a prevalência desse princípio nas relações internacionais seria negar a humanidade dos que não são brasileiros. Assim, ao afirmar esse princípio, o Estado Brasileiro compromete-se a respeitar e a contribuir na promoção dos direitos humanos de todos os povos, independentemente de suas nacionalidades. A prevalência dos direitos humanos nas relações internacionais ganha maior relevância no momento histórico em que vivemos, no qual, em virtude do desenvolvimento tecnológico, as distâncias entre as nações tendem a se encurtar cada vez mais e todas as pessoas humanas tendem a se tornar verdadeiras cidadãs do mundo. Um Estado regido pelo princípio fundamental da dignidade da pessoa humana não pode desprezar as violações dos direitos humanos praticadas por ou em outros Estados. Com a adoção desse princípio, o Brasil une-se à comunidade internacional, assumindo com ela e perante ela a responsabilidade pela dignidade de toda pessoa humana. A Carta de 1988 é a primeira constituição nacional a consagrar um universo de princípios que guiam o Brasil no cenário internacional, fixando valores a orientar a agenda internacional do país. Essa orientação internacionalista se traduz nos princípios da prevalência dos direitos humanos, da auto determinação dos povos, do repúdio ao terrorismo e ao racismo e da cooperação entre os povos para o progresso da humanidade, nos termos do artigo 4º, incisos II, III, VIII e IX. O artigo 4º, como um todo, simboliza a reinserção do Brasil na arena internacional. Essa inovação em relação às Constituições anteriores consagra a prioridade do respeito aos direitos humanos como a principal referência para a atuação do país no cenário internacional. Isso implica não apenas o engajamento do Brasil no processo de elaboração de normas internacionais de direitos humanos mas também a busca da plena incorporação de tais normas no direito interno. Implica ainda o compromisso de adotar uma posição política contrária aos Estados em que os direitos humanos sejam gravemente desrespeitados. Ao reconhecer a prevalência dos direitos humanos em suas relações internacionais, o Brasil também reconhece a existência de limites e condicionamentos à soberania estatal. Isto é, a soberania do Estado fica submetida a regras jurídicas, tendo como padrão obrigatório a prevalência dos direitos humanos. Rompe-se com a concepção tradicional de soberania estatal absoluta, relativizando-a em benefício da dignidade da pessoa humana. Esse processo condiz com o Estado Democrático de Direito constitucionalmente pretendido. Se para o Estado brasileiro a prevalência dos direitos humanos é princípio a reger o Brasil no cenário internacional, está-se, conseqüentemente, admitindo a idéia de que os direitos humanos são tema de legítima preocupação e interesse da comunidade internacional. Nessa concepção, os direitos humanos surgem para a Carta de 1988 como tema global. Tudo isso tem levado o Brasil a adotar os mais relevantes tratados internacionais de direitos humanos. Também é de extrema importância o alcance da previsão do Artigo 5º, parágrafo 2º da Carta de 1988, ao determinar que os direitos e garantias expressos na Constituição não excluem outros decorrentes dos tratados internacionais em que o Brasil seja parte. Isto é, ao aderir a um tratado internacional de direitos humanos, o Brasil não apenas assume compromissos perante a comunidade internacional, mas também 52 amplia o catálogo de direitos humanos previstos em nossa Constituição. Atividade deste Tópico Baseado no conteúdo do texto acima, escolha duas perguntas abaixo: 1)O que você entende por Estado Democrático de Direito? 2)O Brasil tem ratificado as convenções internacionais dos direitos humanos? Qual é a importância do posicionamento brasileiro em relação aos direitos humanos? 3)Relacione fatos reais em que a dignidade da pessoa humana não foi respeitada. 4)Excepcionalmente, para atender o interesse geral da população de países, pode-se desconsiderar os direitos humanos? Responda as perguntas escolhidas e encaminhe-as para o seu/sua tutor(a) pelo ambiente de capacitação. Links Português http://www.dhnet.org.br/direitos/brasil/textos/Mazzuoli.html http://www.iidh.ed.cr/comunidades/ombudsnet/docs/doctrina/doctrina_otros/envio2.htm http://www.cidh.oas.org/countryrep/brazil-port/Cap%201.htm http://www.ambito-juridico.com.br/aj/dconst0044.htm http://kplus.cosmo.com.br/materia.asp?co=69&rv=Direito 53 3. Direito à Vida A Constituição, em seu Artigo 5º, caput, garante a todos os brasileiros a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade. Cabe esclarecer que o caput (cabeça, cabeçalho) do artigo 5º estabelece de maneira ampla e genérica esses cinco valores fundamentais, enquanto que seus setenta e sete incisos esclarecem o conteúdo desses valores. O direito à vida se confunde com a dignidade da pessoa humana. Sem a vida assegurada, não há como exercer a dignidade humana e todos os direitos dela decorrentes. Assim, como não basta garantir a vida como mera existência ou subsistência, mas sim uma vida plena de dignidade. Por isso, o núcleo essencial de onde se originam todos os demais direitos humanos reside na vida e na dignidade humanas. Em virtude do princípio da inviolabilidade da vida, é vedada a pena de morte (Art. 5º, inciso XLVII, alínea a); é proibida a tortura eo tratamento desumano ou degradante (Art.5º, inciso III); é assegurado aos presos o respeito à integridade física e moral (Art.5º, inciso XLIX) e é assegurado às presidiárias condições para que possam permanecer com seus filhos durante o período de amamentação (Art.5º, inciso L). Veja que a proibição da tortura e a garantia da integridade física e moral traduzem a idéia de que agredir o corpo humano é uma forma de agredir à vida, pois esta se realiza naquele. A fim de assegurar o cumprimento desses preceitos, a Constituição estabelece garantias penais apropriadas, como o dever de comunicar imediatamente ao juiz competente e à família ou pessoa indicada a prisão de qualquer pessoa e o local onde se encontre; o dever também da autoridade policial de informar ao preso seus direitos, entre os quais o de permanecer calado, assegurada a assistência da família e de advogado. Vale observar, para que não se incorra em um erro freqüente, que esses direitos e garantias não são "direitos de presos" ou "de bandidos", mas de todas as pessoas, inclusive dos suspeitos de crimes e criminosos. A integridade físico- corporal é, portanto, um bem vital e revela um direito fundamental do ser humano, cuja violação, em qualquer circunstância, é criminosa Com relação à integridade física, surge a questão de saber se é lícito ao indivíduo alienar membros ou órgãos de seu corpo. Se essa alienação se faz após a morte do alienante, não há qualquer problema, desde que fosse essa sua vontade em vida ou que haja a autorização de familiares. Em tal caso não existirá qualquer ofensa à vida, que já não existirá. Mas e se a pessoa, em vida, oferece, mediante determinada quantia em dinheiro, órgãos de seu corpo? A doação (alienação sem contrapartida em dinheiro), sem riscos para a vida do doador, sempre foi admitida, visando a suprir deficiência e até salvar a vida de doentes. A Constituição (Art. 199, parágrafo 4º) determina que lei ordinária disponha sobre a condição e requisitos para remoção de órgãos, tecidos e substâncias humanas para fins de transplante, pesquisa e tratamento, bem como a coleta, o processamento e a transfusão de sangue e seus derivados. Tal regulamentação foi feita pela Lei Federal nº 10.205, de 2001, mas proíbe expressamente todo tipo de comercialização. Novos desafios surgirão com os avanços da bio-genética e da bio-engenharia que têm tornado cada vez mais concreta a possibilidade de clonagem de células e órgãos humanos. Quanto aos temas da bio-ética (ética da vida), a Constituição de 1988 é silente porque, à época da Assembléia Nacional Constituinte, eles não pareciam tão urgentes. A Constituição também não tratou diretamente de dois outros temas controvertidos no que diz respeito ao direito à vida: a eutanásia e o aborto. Por eutanásia entendemos a morte que alguém causa à outra pessoa já estado de agonia com a finalidade de liberá-la do grave sofrimento provocado por doença tida como incurável ou muito dolorosa. Por isso, a eutanásia também é chamada de homicídio piedoso. É, contudo, uma interrupção não-natural na vida humana. A maioria dos juristas considera que nem mesmo o consentimento lúcido do doente exclui o sentido delituoso da eutanásia em nosso direito. Para sua reflexão, ponderamos que o direito à vida implica em uma vida digna e não vegetativa. E mais: a dignidade da pessoa humana também não implicaria em uma morte digna? 54 O aborto é tratado no Código Penal Brasileiro em seus artigos 124 a 128, que compreendem o aborto provocado pela gestante ou com o seu consentimento, o aborto provocado por terceiro sem consentimento, o aborto necessário e o aborto no caso de gravidez resultante de estupro (também chamado aborto sentimental). Os dois primeiros casos são punidos criminalmente como ofensa ao direito à vida. Os dois últimos são chamados de aborto legal. Nesse caso, não se pune o ato praticado por médico quando não há outro meio de salvar a vida da gestante ou se o aborto é precedido de gravidez resultado de estupro e consentido pela gestante. Observe que em qualquer de caso de aborto com o consentimento da gestante há um conflito entre princípios constitucionais fundamentais, ou seja, entre o direito à vida e a liberdade de escolha e a dignidade da mulher. Nos casos do aborto necessário e do aborto sentimental já podemos observar que nem mesmo o direito à vida é absoluto. O direito ao aborto tem sido uma das principais reivindicações dos movimentos feministas, sendo que a legislação brasileira, ao criminalizar o aborto, sofre contínua crítica por parte desses movimentos. Sabe-se que a prática do aborto tem sido adotada para interromper uma gravidez indesejada, sendo que no caso de a mulher possuir recursos, tal intervenção pode ser feita de modo relativamente seguro, embora clandestino. Porém, se a mulher não tem recursos materiais, em geral, realiza tal intervenção em precárias condições de higiene, sendo grave causa de morte materna por todo o país. Cabe ressaltar a recomendação da Plataforma de Ação de Beijing (extraída na Quarta Conferência Mundial sobre a Mulher), no sentido de que os países considerem a possibilidade de revisar as leis que estabelecem medidas punitivas contra mulheres que praticam abortos ilegais, situando a questão do aborto no âmbito da saúde pública. Cabe também considerar que a vida humana não se limita a um conjunto de elementos materiais. Ela também tem valores imateriais e morais. A Carta de 1988 destacou o valor e a proteção da moral individual, assegurando indenização em caso de dano moral (Art. 5º, incisos V e X). A moral individual sintetiza a honra da pessoa, o bom nome, a boa fama e a reputação. A dimensão moral é uma dimensão estrutural para uma vida digna. Por isso, o respeito à integridade moral assume também o caráter de direito fundamental. Visite uma "instituição fechada" (prisão, manicômio, centro de reabilitação de adolescentes) de sua cidade e faça um pequeno-relatório mostrando de que forma está sendo respeitado o direito à vida? Atividade deste Tópico Baseado no conteúdo do texto acima, escolha duas perguntas abaixo: 1)Faça uma análise crítica do trecho destacando as relações entre direito à vida e as garantias fundamentais: “direito à vida se confunde com a dignidade da pessoa humana. Sem a vida assegurada, não há como exercer a dignidade humana e todos os direitos dela decorrentes. Assim, como não basta garantir a vida como mera existência ou subsistência, mas sim uma vida plena de dignidade. Por isso, o núcleo essencial de onde se originam todos os demais direitos humanos reside na vida e na dignidade humanas.” 2)A Constituição Federal Brasileira, em seu Art. 5º cita que “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida,...”. Relacione o conceito de dignidade humana com o conceito de direito à vida, tentando identificar acontecimentos, em sua região, que possam ter desrespeitado os princípios de igualdade e de dignidade da pessoa humana. 3)Visite o projeto sentinela ou o site do conselho nacional de direitos humanos da criança e do adolescente e levante se há dados ou onde procurar dados sobre exploração sexual infanto juvenil. No setor de atas das Assembléias e Câmaras ou nas Comissões de Direitos Humanos - CDH das Assembléias e Câmaras dos estados e municípios será possível também averiguar se há dados sobre a problemática da exploração sexual infanto-juvenil. 55 4)Qual a relação entre eutanásia e direito à vida? Responda as perguntas escolhidas e encaminhe-as para o seu/sua tutor(a) pelo ambiente de capacitação. Links Português http://www.pgj.ce.gov.br/artigos/artigo22.htm http://www.mj.gov.br/sedh/dpdh/gpdh/pndh/protecao.htm http://www.dhnet.org.br/oficinas/goias/fundamentais.html http://www.direitoshumanos.usp.br/dhbrasil/pndh/vida.htm 56 4. Direito à Liberdade A liberdade é um dos direitos assegurados de maneira ampla no já mencionado caput, do artigo 5º da Constituição Federal de1988. Trata-se, sem dúvida, de um valor complexo e aberto, passível de várias interpretações e significações. Passaremos a identificar as liberdades específicas reconhecidas em nossa Constituição nos respectivos incisos do Art. 5º. Antes, note-se que a liberdade de ação em geral - considera a liberdade base ou liberdade matriz das demais liberdades específicas - é tratada logo no inciso II do Art. 5º, que consagra o princípio da legalidade, estabelecendo: "que ninguém será obrigado a fazer ou a deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei." Vale esclarecer que todos têm a liberdade de fazer ou de não fazer o que bem entender, exceto quando a lei determinar o contrário. Esse dispositivo, além de conter a previsão da liberdade de ação, liberdade base das demais, confere fundamento jurídico às liberdades individuais e coletivas e correlaciona liberdade e legalidade, assim como liberdade e igualdade, uma vez que, ao afirmar que ninguém será obrigado eqüivale dizer que a todos será permitido. Ou seja, a liberdade de fazer ou deixar de fazer é para todos e não apenas para alguns. Adotamos a seguir a classificação das liberdades constitucionais específicas, tal como sugerida pelo constitucionalista José Afonso da Silva. Segundo tal classificação, as liberdades objetivas específicas previstas na Constituição podem ser distinguidas em cinco grandes grupos: I. Liberdade da pessoa física. Ela se opõe ao estado de escravidão e de prisão. Se a escravidão já foi abolida legalmente, resta ainda a outra forma de oposição à liberdade da pessoa física que é a detenção, a prisão por qualquer impedimento à locomoção da pessoa, inclusive a doença. A liberdade de locomoção é a essência da liberdade da pessoa física, sendo que a Constituição (Art. 5º, inciso XV) declara "livre a locomoção no território nacional em tempo de paz, podendo qualquer pessoa, nos termos da lei, nele entrar, permanecer ou dele sair com seus bens." Observamos que a liberdade de circulação é a manifestação característica da assegurada liberdade de locomoção: direito de ir, vir e permanecer. II. Liberdade de pensamento. Inclui a liberdade de opinião, de religião, de informação, artística e de comunicação do conhecimento. A liberdade de pensamento é o direito de expressar por qualquer forma o que se pense em ciência, arte, religião, política ou o que for. Trata-se de liberdade de conteúdo intelectual e supõe o contato do indivíduo com seus semelhantes. A liberdade de opinião, de certa forma, resume a liberdade de pensamento em suas várias formas de expressão. Por isso é considerada liberdade primária e ponto de partida das demais. Trata-se da liberdade do indivíduo adotar a atitude intelectual de sua escolha, quer em pensamento íntimo, quer na tomada de uma posição pública; liberdade de pensar e de manifestar o pensamento. A Constituição a reconhece nas duas dimensões. Primeiramente como pensamento íntimo, prevendo a liberdade de consciência e de crença, que declara inviolável (Art. 5º, VI), assim como a liberdade de crença religiosa e de convicção filosófica ou política (Art. 5º, VII), admitindo inclusive a escusa de consciência (o direito de recusar imposições que contrariem tais convicções ou crenças). Isso significa que todos têm o direito de aderir a qualquer crença religiosa como a o de recusar a todas, adotando o ateísmo, ou mesmo criando sua própria religião, assim como o direito de seguir qualquer linha de pensamento filosófica, política ou científica ou ainda a de não seguir nenhuma. Em segundo lugar, como aspecto externo da liberdade de opinião, temos as diversas formas de sua expressão, por meio das liberdades de comunicação, de religião, de expressão intelectual, artística, científica e cultural e de transmissão e recepção do conhecimento. O Art. 5º, inciso V, estabelece 57 que é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato. O Art. 220 dispõe que a manifestação do pensamento, sob qualquer forma, processo ou veiculação não sofrerá qualquer restrição, observado o disposto na Constituição, sendo vedada qualquer forma de censura de natureza política, ideológica e artística. O pensamento liberal apresenta três fundamentos essenciais para a liberdade de pensamento e de manifestação de opinião em suas várias formas. A primeira, de cunho político e social, aponta a importância da livre divulgação de ideais e projetos políticos em uma democracia para que os cidadãos bem informados possam escolher melhor os caminhos políticos que pretendem trilhar. A segunda, de cunho moral, afirma a livre circulação de idéias é necessária para que, no exercício de confrontar as diversas e até mesmo opostas linhas de pensamento, a verdade moral seja encontrada. O terceiro argumento vê na liberdade de pensamento e de opinião um fim em si própria, já que ela contribui para a autonomia de consciência de todo ser humano. No contato com a multiplicidade de formas de sentir e compreender a realidade, o ser humano pode exercitar sua autonomia, crescendo como indivíduo. III.Liberdade de ação profissional. Implica no direito da livre escolha e exercício de trabalho, ofício e profissão. Conforme enuncia o Art. 5º, XIII: "é livre o exercício de qualquer trabalho, ofício ou profissão, atendidas as qualificações profissionais que a lei estabelecer". Observe que, por razões de ordem econômica e social, a maioria das pessoas não tem condições materiais de exercitar esse direito de escolha. Portanto, é necessário dar conteúdo a essa liberdade, estabelecendo condições materiais e efetivas de acesso ao trabalho, ao ofício e à profissão. Esse é um tema que se relaciona diretamente com os direitos sociais e a interdependência entre os princípios da liberdade e da igualdade, como veremos adiante. IV.Liberdades de expressão coletiva. Compreende o livre acesso de todos à informação. Destaca-se a dimensão coletiva do direito à informação previsto pelo Art. 5º, inciso XIV, em que a informação é, sobretudo, veiculada por meios de comunicação de massa, cuja função social é ressaltada pelo Art.221; a liberdade de reunião pacífica em lugares públicos, o que evidentemente não exclui a liberdade de reuniões privadas - ( art. 5º, inciso XVI); e a plena liberdade de associação, vedada a de caráter paramilitar. Além disso, ninguém pode ser obrigado a associar-se ou a permanecer associado e que há o direito de representação coletiva dos associados pelas respectivas associações quando expressamente autorizadas. (Art. 5º, incisos XVII a XXI). Note que a liberdade de reunião e a liberdade de associação para fins pacíficos podem ser consideradas liberdades-condição, uma vez que, sendo um direito em si mesmas, são também condição para o exercício de outras liberdades, agregando a força de manifestação coletiva: liberdade de pensamento, de expressão de convicção filosófica, religiosa, científica e política e de locomoção , como no caso de reunião para passeatas. V. Liberdades de conteúdo econômico e social. Incluem a liberdade econômica, a liberdade de comércio, a livre iniciativa, a liberdade ou autonomia contratual, a liberdade de ensino e a liberdade de trabalho, das quais trataremos quando cuidarmos dos direitos sociais, que nos remetem ao direito à igualdade. Atividade deste Tópico Baseado no conteúdo do texto acima, escolha duas perguntas abaixo: 1)Como explicar que o art. 5º, IV da CF/88 (Princípio da Legalidade) é a base da liberdade geral da ação? 58 2)No Brasil, ainda encontramos pessoas trabalhando sob regime de escravidão. Essa realidade fere princípios de direitos humanos elencados na Constituição de 1988. Descreva situações de violação de direitos e condições de trabalho em sue município. 3)Visite o site da CDH da Câmara dos Deputados para conhecer a campanha contra a baixaria. Procure no site da ANDI em Brasília, agencia que investiga a relação da Mídia com a criança e o adolescente. Visite o site do Fórum Social Nacional pela Democratização dos meios de comunicação e leia documentos referentes a Mídia no Estado Democrático, asdemandas e a atuação do Fórum. Dialogue de modo informal com um profissional de comunicação da sua cidade sobre as possibilidades da mídia atuar como promotora dos Direitos Humanos. 4)O que você acha de manifestações religiosas em espaços públicos? Responda as perguntas escolhidas e encaminhe-as para o seu/sua tutor(a) pelo ambiente de capacitação. Links Português http://www.islam.com.br/direitoo.htm http://usinfo.state.gov/journals/itdhr/1101/ijdp/id110106.htm http://www.pge.sp.gov.br/centrodeestudos/revistaspge/revista2/artigo5.htm http://www.dhnet.org.br/oficinas/scdh/parte2/xxx/18.html 59 5. Direito à Igualdade Vivemos um período fortemente marcado pela valorização de idéias neoliberais. Nesse ideário, é geralmente dado maior peso ao valor político da liberdade do que ao valor político da igualdade. Mas a igualdade constitui o signo fundamental de uma democracia republicana, uma vez que ela não admite os privilégios e distinções que um regime simplesmente liberal consagra. Numa democracia (governo do povo), a coisa pública (res publica), o Estado deve estar a serviço do bem comum, que são os direitos humanos, cujo fundamento é justamente a igualdade de todos os seres humanos em sua comum condição de pessoas. A Constituição Federal, em seu Art. 1º, caput, estabelece que a República Federativa do Brasil constitui- se em Estado Democrático de Direito. Nenhum governo em uma democracia republicana será legítimo se não mostrar igual respeito e cuidado quanto ao destino de todos os cidadãos. E quando a riqueza de uma nação é desigualmente distribuída, como ocorre até hoje, mesmo nas nações mais prósperas, há que se suspeitar da igualdade dispensada pelo Estado aos seus cidadãos. É nesse contexto que dentre os objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil destaca-se, no Art. 3º, inciso IV, a promoção do bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade, e quaisquer outras formas de discriminação. As Constituições têm reconhecido a igualdade em seu sentido formal jurídico: igualdade de todos perante a lei. A Constituição de 1988 abre o capítulo dos direitos individuais com o princípio de que todos são iguais perante a lei sem distinção de qualquer natureza (Art 5º, caput). O princípio da igualdade já é reforçado no próprio caput do Art. 5º, quando ele é assegurado ao lado da inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à segurança e à propriedade. Isto é, fica muito clara a idéia de que todos esses direitos fundamentais devem ser assegurados igualmente a todos. A igualdade permeia e legitima o exercício de todos os demais direitos. Assegurá-los a apenas uma parte do povo brasileiro significa ferir mortalmente o ideal igualitário democrata-republicano da Constituição de 1988. O princípio é reforçado em muitas outras normas sobre a igualdade. Assim é que, o primeiro inciso do Art. 5ª declara, pela primeira vez na história do Direito brasileiro, que homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações. Se por um lado isso merece ser celebrado, por outro desvela o lamentável tratamento desigual dispensado às mulheres historicamente em nossa sociedade. Adiante, os incisos XLI e XLII do mesmo Art. 5º, estabelecem respectivamente que "a lei punirá qualquer discriminação atentatória dos direitos e liberdades fundamentais e que a prática do racismo constitui crime inafiançável e imprescritível". Depois, no artigo 7º, incisos XXX e XXXI, vêm regras para fortalecer a igualdade, em seu sentido material, proibindo "diferença de salários, de exercício de funções, e de critérios de admissão por motivo de sexo, idade, cor ou estado civil e qualquer discriminação no tocante a salário e critérios de admissão por motivo de sexo, idade, cor ou estado civil." Cabe ainda menção aos comandos constitucionais que celebram o ideal da igualdade material, enquanto igualdade substantiva e justiça social, destacando-se as previsões que estabelecem: a redução das desigualdades sociais e regionais (Art. 3º, III); a universalidade da seguridade social; a garantia ao direito à saúde; a educação baseada em princípios democráticos e de igualdade de condições para o acesso e permanência na escola, dentre outros. A preocupação com a justiça social como objetivo das ordens econômica e social (Arts. 170, 193, 196 e 205) traduz diretrizes concretas para a realização da igualdade material, obrigando o poder público a estabelecer políticas públicas capazes de progressivamente alcançarem tais metas. Tais políticas públicas devem incluir tanto medidas de caráter repressivo-punitivo, a exemplo da criminalização do racismo, prevista no Art. 5, XLII, como medidas de caráter afirmativo buscando assegurar igualdade material de oportunidades, que compensem o tratamento desigual de minorias e/ou grupos sociais historicamente 60 mais vulneráveis, como mulheres, homossexuais, afro-descendentes, povos indígenas, pessoas portadores de deficiências, etc. Exemplos dessas medidas podem ser encontrados nos já mencionados incisos XXX e XXXI do Art. 7º, assim como no mesmo Art. 7º, inciso XVIII, que garante licença à gestante, sem prejuízo do emprego e do salário, com a duração de cento e vinte dias. O princípio da igualdade estará presente em muitos dos outros temas a serem tratados, em especial no que diz respeito às medidas afirmativas para a proteção e promoção dos direitos de grupos sociais mais vulneráveis ou que exijam o atendimento a necessidades especiais em virtudes de diferenças específicas. Observe-se que nos referimos a diferenças e não a desigualdades. Isso significa reconhecer as diferenças existentes entre os seres humanos, o que não implica em admitir desigualdades política, social ou economicamente impostas aos menos favorecidos por quaisquer circunstâncias. Passo a passo pelos Direitos Humanos Atividade deste Tópico Baseado no conteúdo do texto acima, escolha duas perguntas abaixo: 1)O que você entende por igualdade formal e material? 2)Tente identificar os órgãos de defesa de direitos de seu município e as formas de encaminhando de denúncias de violações de direitos humanos. 3)Visite o IBGE ( de sua cidade) ou através do site e analise os dados referentes ( a questão do gênero, negros, índios e ciganos) no Brasil. Visite o site da coordenação nacional que atua com criança e adolescente da SEDH e analise no Relatório sobre as Medidas de Internação o perfil do adolescente. 4)O direito à igualdade pressupõe que todos têm direito à dispor dos mesmos bens básicos para sua sobrevivência? Responda as perguntas escolhidas e encaminhe-as para o seu/sua tutor(a) pelo ambiente de capacitação. Links Português http://www.senado.gov.br/web/conleg/artigos/direito/AConstitucionalidadedaDiscriminacao.pdf http://www.dhnet.org.br/oficinas/dhparaiba/5/discrimina.html http://www.portalbrasil.eti.br/2004/colunas/direito/marco_01.htm http://www.senado.gov.br/web/conleg/artigos/especiais/AIgualdadeEntreosSexos.pdf 61 6. Direito à Segurança A segurança - e no seu âmbito a segurança jurídica - é um dos fundamentos do Estado de Direito. De maneira genérica, pode-se dizer que a segurança consiste na proteção conferida pela sociedade a cada um de seus membros para conservação de sua pessoa e de seus direitos. No âmbito das relações jurídicas, e ainda de maneira genérica, a expressão segurança jurídica significa um conjunto abrangente de idéias e conteúdos que compreendem: a. A existência de instituições estatais dotadas de poder e garantias, assim como sujeitas ao princípio da legalidade (Art. 5º, II), ao princípio da inafastabilidade do poder judiciário, (Art. 5º, XXXV) e ao princípio do contraditório e da ampla defesa (Art. 5º, LV). Como já vimos, o princípio da legalidade nos assegura a liberdade de fazer ou deixar de fazer tudo o que a lei não nos obrigue em sentido contrário. Por sua vez, toda e qualquer questão sobre a legalidade de uma conduta ou existência de (ou ameaça a) um direito poderá sempre e sem exceção ser levada ao Poder Judiciário para a solução da controvérsia. Duranteesse processo, as partes têm direito de argumentar e contra-argumentar, utilizando todos os meios de defesa lícitos tais como o contraditório e a ampla defesa; b. A confiança nos atos do Poder Público que deverão reger-se pela boa-fé e razoabilidade; c. A estabilidade das relações jurídicas, manifestada na durabilidade das normas, na anterioridade das leis em relação aos fatos sobre os quais incidem e na conservação de direitos em face da lei nova. É nessa discordância de normas no tempo que o princípio da irretroatividade das leis tem suma importância na proteção de direitos subjetivos. Tal como consagrado no Art. 5º, XXXVI, "a lei não prejudicará o direito adquirido, o ato jurídico perfeito e a coisa julgada"; d. A previsibilidade dos comportamentos, tanto os que devem ser seguidos como os que devem ser suportados; e. A igualdade na lei e perante a lei, com soluções isonômicas para situações idênticas ou próximas. O princípio da igualdade é, em última instância, uma garantia ou uma condição da segurança jurídica. Vale reforçar o significado fundamental do princípio da irretroatividade da lei para a segurança e a certeza das relações jurídicas. Assim é que, além da proteção jurídica no âmbito das relações sociais, citada no mencionado Art. 5º, XXXVI, o princípio é previsto na Constituição de 1988 também para a proteção da liberdade do indivíduo contra a aplicação retroativa (para trás no tempo) da lei penal, contida no Art. 5º, XL: "a lei penal não retroagirá, salvo para beneficiar o réu". Para a proteção do contribuinte contra a voracidade retroativa do Fisco, constante do Art., 150, III, a "é vedada a cobrança de tributos em relação a fatos geradores ocorridos antes do início da vigência da lei que os houver instituído ou aumentado." Além da segurança jurídica em sentido amplo, fundamentada no princípio da irretroatividade da lei, a Constituição também garante a segurança dos indivíduos em sentido estrito por meio de regras que consagram o direito do indivíduo ao aconchego do lar com sua família ou só, quando define a casa como o "asilo inviolável do indivíduo" (Art.5º, XI), bem como mediante regras que protegem as comunicações pessoais, assegurando o sigilo da correspondência e das comunicações telegráficas e telefônicas (Art. 5º, XII). Atividade deste Tópico Baseado no conteúdo do texto acima, escolha duas perguntas abaixo: 1)O que é a irretroatividade da lei e qual sua relação com o direito à segurança jurídica? 2)Enumere os direitos de segurança pública que devem ser providos pelo Estado. Em seu município, os serviços de segurança pública têm cumprido com o seu dever? Se não diga por quê. 62 3)Em que circunstância a polícia pode adentrar na residência para que fosse realizar investigação e ordem de prisão? Quando ocorre o abuso de poder com forças policiais, onde e como o cidadão pode procurar proteção? 4)Você acha que a segurança pública é uma questão de polícia? Responda as perguntas escolhidas e encaminhe-as para o seu/sua tutor(a) pelo ambiente de capacitação. Links Português http://www.dhnet.org.br/oficinas/scdh/parte2/xxx/3.html http://www1.jus.com.br/doutrina/texto.asp?id=4925 www.direitoufba.net/mensagem/claudiocairo/de-integracaoeconomica.doc http://www.direitoenegocios.com.br/L10.826.htm http://www.mj.gov.br/seguranca/desarmamento.pdf http://www.mj.gov.br/noticias/2003/abril/pnsp.pdf 63 7. Direito à Propriedade O reconhecimento constitucional da propriedade como direito fundamental na Constituição de 1988 relaciona-se essencialmente à sua função de proteção pessoal (garantia de condições mínimas de manutenção de uma vida digna) e alcança tanto os que já são proprietários quanto os que carecem desse direito para a sua subsistência própria. A Constituição brasileira reconhece explicitamente um direito de acesso à propriedade ao admitir um usucapião extraordinário, tanto de imóveis rurais (Art. 191), quanto de terrenos urbanos (Art. 183). Daí decorre que nem toda propriedade privada constitui um direito fundamental da pessoa humana a merecer, por isso, uma proteção constitucional. Seria evidente contra-senso que essa qualificação fosse estendida ao domínio sobre um latifúndio improdutivo ou sobre uma gleba urbana não utilizada ou sub-utilizada em cidades com graves problemas de moradia popular. É nesses termos que o regime jurídico da propriedade tem seu fundamento na Constituição. Esta garante o direito de propriedade, desde que atenda sua função social: "é garantido o direito de propriedade (Art. 5º, XXII); a propriedade atenderá sua função social". Só se garante o direito de propriedade que atenda a sua função social. A Constituição autoriza a desapropriação, com pagamento mediante título da dívida pública ou mediante títulos da dívida agrária, respectivamente nos casos de imóveis urbanos (Art. 182, Parágrafos 2º e 4º) e nos casos de imóveis rurais (Art. 184), que não estejam cumprindo a sua função social. Observe-se que a regra geral para desapropriação por necessidade, utilidade pública ou por interesse social estabelece prévia e justa indenização em dinheiro (Art. 5º, XXIV). Há, portanto, um tratamento não apenas mais rigoroso, mas, sobretudo, punitivo, aos proprietários de imóveis que não desenpenhem sua função social, por meio do instituto da "desapropriação sanção". Diante do descumprimento, pelo proprietário, do dever fundamental de dar aos bens uma destinação social, incumbe ao Estado, entre outras medidas, redistribuir, tendo em vista o objetivo constitucional de erradicação da pobreza e de redução das desigualdades sociais, previsto no Art. 3º da Constituição. Isso ocorre principalmente por meio da desapropriação. É evidente que, ao desapropriar aquele que desatende a função social da propriedade, o Estado não está simplesmente sacrificando um direito humano individual às exigências superiores da necessidade ou utilidade pública. Ele está, na verdade, punindo um abuso do direito de propriedade. Em conseqüência, a indenização a ser paga não pode ser equivalente ao valor de venda do bem, como ocorre com a expropriação normal. A Constituição impõe o pagamento de uma justa indenização e não de uma indenização pelo valor de mercado. A justiça indenizatória é uma regra de proporcionalidade, tendo em vista a situação concreta de cada caso. Mas no caso do expropriado que descumpriu sua função social da propriedade, se fosse indenizado pelo valor venal da coisa, não haveria uma punição, mas um prêmio àquele que desrespeitou o direito humano alheio. Com relação aos imóveis urbanos, a Constituição, em seu Art. 182, parágrafo 2º estabelece que "a propriedade urbana cumpre sua função social quando atende às exigências fundamentais de ordenação da cidade expressas no plano diretor. O plano, cuja aprovação pela Câmara Municipal é obrigatória para toda cidade com mais de vinte mil habitantes, é o instrumento básico da política de desenvolvimento e de expansão urbana (Art. 182, Parágrafo 1º). Quanto à propriedade rural, a função social será cumprida quando forem atendidos, simultaneamente, segundo critérios e graus de exigência estabelecidos em lei, os seguintes requisitos: aproveitamento racional e adequado; utilização adequada dos recursos naturais disponíveis e preservação do meio ambiente; observância das disposições que regulam as relações de trabalho e exploração que favoreça o bem-estar dos proprietários e dos trabalhadores (Art. 186). A Constituição também reconhece o direito à propriedade sobre bens imateriais, como no caso do direito autoral, que compreende o direito à exclusiva "utilização, publicação ou reprodução de obras, 64 transmissível aos herdeiros pelo tempo que a lei fixar" (Art. 5º, XXVII). Também consagra o direito à propriedade de inventos, de marcas de indústrias e de nome de empresas. Especialmente no caso dos inventos, o privilégio da utilização exclusiva do autor é temporário, passando depois do tempo previsto em lei para o domínio público, como no caso do direito autoral, o que uma vez mais ressalta a função socialda propriedade (Art. 5º, XXIX). No mesmo sentido, a propriedade sobre marcas de indústrias, nome de empresas e outros signos distintivos está condicionada pelo interesse social e pelo desenvolvimento tecnológico e econômico do país. Todas as limitações ao direito de propriedade associadas à sua função social apontam para a verdadeira natureza constitucional da propriedade, que é um direito-meio e não um direito-fim. A Constituição não garante a propriedade em si mesma, mas como instrumento de proteção de valores fundamentais da pessoa humana. Atividade deste Tópico Baseado no conteúdo do texto acima, escolha duas perguntas abaixo: 1)O que é e quais alguns exemplos da função social da propriedade na CF/88? 2)O Direito à Propriedade é tão antigo quanto o próprio direito e é um dos fundamentos de todas as gerações de direitos humanos. A CF (Art. 5º, XXII e XXIII) traz em seu conteúdo além da inviolabilidade da propriedade o seu necessário caráter social. O que você entende por função social da propriedade e qual a importância de tal preceito constitucional? 3)Se sua cidade tem mais de vinte mil habitantes visite a câmara municipal e investigue sobre o plano diretor da cidade. 4)Você acha que latifúndios improdutivos merecem ser protegidos como uma categoria do direito fundamental à propriedade? Responda as perguntas escolhidas e encaminhe-as para o seu/sua tutor(a) pelo ambiente de capacitação. Links Português http://www.direitonet.com.br/doutrina/artigos/x/14/97/1497/ http://campus.fortunecity.com/clemson/493/jus/m02-009.htm http://www.direitoacidade.org.br/Contra%20relatorio.htm 65 8. Direitos Sociais Os direitos sociais e econômicos passaram a ser reconhecidos pelas Constituições nacionais sob a influência e a pressão dos movimentos sociais e políticos do final do século XIX e início do século XX, principalmente os movimentos da classe operária, de inspiração anarquista, socialista e comunista, assim como o fortalecimento da social-democracia européia. As primeiras Constituições a adotá-los foram a do México, de 1917, e a da Alemanha, de 1919. No Brasil, a primeira Constituição a reconhecê-los foi a de 1934. Esses direitos correspondem historicamente a uma "segunda geração de direitos humanos", porque reconhecida depois da "primeira geração", surgida com o movimento constitucionalista ligado à "Era das Revoluções Burguesas", ao final do século XVIII. Se a primeira geração visava afirmar direitos políticos e civis individuais (as chamadas liberdades públicas) contra abusos do Estado, a segunda geração, inspirada no valor da igualdade (contraposta ao que se considerava liberdades meramente formais dos direitos civis e políticos), buscava a conquista de direitos substanciais capazes de garantir o exercício efetivo das liberdades públicas pelas classes sociais menos favorecidas. Assim, entre os direitos humanos de cunho social e econômico, podemos relacionar os direitos à educação, à saúde, à moradia, ao trabalho, à previdência social, etc. A idéia aqui é sintetizada pelo exemplo de que de nada serve ao indivíduo o direito de votar e ser votado (direito político) e a liberdade de expressão intelectual (direito civil) se ele não tem necessidades vitais mínimas asseguradas, como sua saúde, moradia e educação - direitos sociais que o tornam apto a exercer seus direitos civis e políticos. Note que a idéia de "gerações de direitos humanos" apenas é utilizada para indicar o reconhecimento das espécies de direitos humanos ao longo da História. Mas isso não significa que os direitos de "segunda geração" somente devam ser reconhecidos ou promovidos após a total implementação dos direitos de "primeira geração". Não há aqui uma hierarquia ou uma sucessão geracional de direitos. Esses direitos são, na verdade, inter-relacionados e interdependentes, devendo ser igualmente respeitados, promovidos e protegidos. Por isso, a Constituição de 1988 foi a primeira a incluir os direitos sociais, juntamente com os direitos individuais, no universo dos Direitos e Garantias Fundamentais (Título II). Assim, a Constituição, em seu Art. 6º (que inaugura o Capítulo II - "Dos Direitos Sociais" - do Título II ), estabelece que "são direitos sociais a educação, a saúde, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência social aos desamparados, na forma desta Constituição". A este capítulo conjuga-se o Titulo VIII da Constituição dedicado à "Ordem Social", o qual tem "como base o primado do trabalho e como objetivo o bem estar e a justiça social (Art. 193). Ao longo da ordem social estão traçadas as diretrizes constitucionais que devem nortear as políticas públicas para a promoção da seguridade social (Arts. 194 a 204), que incluem as seções da saúde, previdência e assistência social), para a promoção da educação, da cultura e do desporto (Arts. 205 a 217, observando-se que cultura e desporto abrangem tanto o direito à educação, como o direito ao lazer) e para a proteção da família, da criança, do adolescente e do idoso (Arts. 226 a 230). Portanto, os direitos sociais requerem prestações positivas do Estado mediante a elaboração de políticas públicas aptas a promovê-los e garanti-los. O estudo dos direitos sociais tal como dispostos no Art. 6º deve sempre estar correlacionado com os dispositivos da ordem social. Cabe destacar que a seguridade social deverá atender, dentre outros, aos objetivos democráticos da universalidade de cobertura e atendimento, da uniformidade e da equivalência dos benefícios e serviços às populações urbanas e rurais, da irredutibilidade do valor dos benefícios e do caráter democrático e descentralizado da administração (Art. 194). Com referência à intrínseca correlação entre direitos sociais e a exigência de políticas públicas adequadas a promovê-los, que a saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem a redução da doença e de outros agravos e ao acesso universal igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação (Art. 196, caput). 66 A educação também é direito de todos e dever do Estado (Art. 205), tendo por princípios: a igualdade de condições para o acesso e permanência na escola; a liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber; o pluralismo de idéias e de concepções pedagógicas; a coexistência de instituições públicas e privadas de ensino; a gratuidade do ensino público em estabelecimentos oficiais; a valorização dos profissionais do ensino; a gestão democrática do ensino público e a garantia do padrão de qualidade (Art. 206). O acesso ao ensino fundamental e gratuito é direito subjetivo público (Art. 208, Parágrafo 1º), implicando que todos podem exigir, em última instância, perante o Poder Judiciário, que o Estado cumpra esse dever. Visando a assegurar os meios financeiros para a consecução de tais objetivos, a Constituição determina que a União aplique, "anualmente, nunca menos de dezoito, e os Estados, o Distrito Federal e os Municípios, vinte e cinco por cento, no mínimo, da receita resultante de impostos na manutenção e desenvolvimento do ensino (Art. 212, caput). Ainda no capítulo dos direitos sociais, a Constituição dedica os Artigos 7º ao 11º aos direitos dos trabalhadores. O Art. 7º é dedicado aos direitos dos trabalhadores urbanos e rurais em suas relações individuais de trabalho. Os Artigos 8º a 11º são dedicados aos direitos coletivos dos trabalhadores. Temos assim que no Art. 7º estão relacionados os direitos fundamentais de cada trabalhador em sua relação individual de emprego, entre os quais: o salário mínimo (inciso IV), a irredutibilidade de salário (inciso VI), o décimo terceiro salário (inciso VIII), o repouso semanal remunerado (inciso XV), férias anuais remuneradas (inciso XVII), licença gestante (inciso XVIII), licença-paternidade (inciso XIX), aviso prévio (XXI) e aposentadoria e integração à previdência social (inciso XXIV). Dentre os direitos coletivos dos trabalhadores,cabe destacar a livre associação sindical ou profissional (Art. 8º) e o direito de greve, "competindo aos trabalhadores decidir sobre a oportunidade de exercê-lo e sobre os interesses que devam por meio dele defender" (Art. 9º, caput). Além disso, sendo o trabalho um direito social, tal como definido no Art. 6º, extrai-se do conjunto de normas da Constituição o direito ao trabalho de cada cidadão, o qual exige a firme atuação dos poderes públicos, por meio de políticas públicas, aptas a gerarem o pleno emprego. Atividade deste Tópico Baseado no conteúdo do texto acima, escolha duas perguntas abaixo: 1)Qual a distinção entre trabalho indigno, exercido em condições degradantes e trabalho forçado? 2)Qual a importância histórica dos direitos sociais assegurados na Constituição Federal Brasileira de 1988? Tente identificar, em sua região, histórias que envolvam o descumprimento dos direitos sociais.Pesquise no INSS da sua cidade sobre o direito previdenciário. 3)Pesquise no site do MEC sobre o FUNDEF e os dados referentes ao seu município.Procure no IBGE ou SINE os dados sobre desemprego no estado. 4)A segurança alimentar pode ser visto como um direito social? Responda as perguntas escolhidas e encaminhe-as para o seu/sua tutor(a) pelo ambiente de capacitação. Links Português www.prt1.mpt.gov.br/AidaArtigoDecisorioTrabalhista.doc www.ucpel.tche.br/direito/revista/direitos_sociais.doc 67 http://www.conectasur.org/files/phpp85010 http://www.hottopos.com/vdletras3/vitoria.htm http://www.mj.gov.br/DPDC/servicos/legislacao/cdc.htm http://www.mj.gov.br/DPDC/servicos/legislacao.htm#LEIS http://www.pgj.ce.gov.br/artigos/artigo29.htm http://www.interlegis.gov.br/processo_legislativo/20040316113718/view?page=httoc.htm https://www.planalto.gov.br/publi_04/colecao/estra.htm 68 9. Direitos Políticos O titular da soberania no Estado Democrático de Direito, que constitui a República Federativa do Brasil, é o povo brasileiro. Os direitos políticos são o meio de exercício dessa soberania popular. Eles caracterizam o direito de cada cidadão contribuir para os desígnios da atuação do Estado, compondo as decisões fundamentais a orientar o Estado. De maneira geral, podemos dizer que os direitos políticos traduzem-se na capacidade de votar e de ser votado. Note que a idéia de votar e ser votado é hoje intimamente ligada à democracia representativa, na qual o povo escolhe seus representantes políticos que ocuparão os cargos, sobretudo nos Poderes Executivo e Legislativo, com funções de administrar e legislar sobre o interesse comum. A democracia representativa é característica das sociedades de massa que inviabilizam a participação de todo e cada cidadão em todas as decisões públicas. Em suas origens, a democracia era direta, quando todo e cada cidadão exercia o seu voto com igual peso nas decisões comuns. Vale salientar que os direitos políticos em nosso país nem sempre foram respeitados, principalmente, durante o período da ditadura militar em que muitos homens e mulheres “desapareceram” em virtude de professar e atuar em prol de determinadas atividades político-partidárias. Cabe, então, mencionar a Lei 9.140, de 4/12/1995 que reconheceu como mortas pessoas desaparecidas em razão de participação ou acusação de participação em atividades políticas no período de 2/09/1961 a 15/08/1979. Esta lei foi alterada pela Lei 10.536, de 14/08/2002 que, dentre outras alterações, ampliou o período de reconhecimento de pessoas desaparecidas para 2/09/1961 a 5/10/1988. A Constituição de 1988 assegura que "todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição" (Art.1o, parágrafo único). Adota, assim, a democracia representativa mesclada com mecanismos importantes da democracia direta na qual os cidadãos participam ativamente da tomada de decisões de relevância pública. Por isso, nosso regime caracteriza-se como uma democracia participativa ou semi-direta. O Art. 14 da Constituição determina que "a soberania popular será exercida pelo sufrágio universal e pelo voto direto e secreto, com igual valor para todos, e, nos termos da lei, mediante: I - plebiscito , II - referendo; III - iniciativa popular". O sufrágio universal implica que cada cidadão tem direito de voto, o qual será secreto e exercido diretamente por ele, tendo cada voto o mesmo valor (da célebre formulação em língua inglesa, one man, one vote - "um homem um voto", por evidente que a fórmula inclui todas as mulheres com igual direito). Os três incisos do artigo 14 indicam os mecanismos de democracia direta ou democracia participativa adotados pela nossa Constituição como meios de exercício da cidadania ativa. Por meio do plebiscito, os cidadãos decidem diretamente determinada questão de relevância pública. Os representantes políticos deverão, obrigatoriamente, proceder e legislar conforme os desígnios da maioria cidadã. A título de exemplo, citamos o plebiscito em 1993 para que se escolhesse a forma (república ou monarquia constitucional) e o sistema de governo (parlamentarismo ou presidencialismo) a vigorar no país, tendo os cidadãos escolhido diretamente a república presidencialista. Já no referendo, os cidadãos têm o poder de aprovar (referendar) determinada medida já acolhida pelo poder Legislativo para que a cidadania confirme ou rejeite a norma em questão. A Constituição de 1988 atribuiu competência exclusiva ao Congresso Nacional para autorizar referendo e convocar plebiscito (Art. 49, XV). Por sua vez, a iniciativa popular consiste mais precisamente na iniciativa popular legislativa. Trata-se do direito assegurado ao conjunto de cidadãos de iniciar o processo legislativo, apresentando projeto de lei à Câmara dos Deputados, com observância aos requisitos constitucionais do Art.61, parágrafo 2o. É de se lamentar que os mecanismos da democracia participativa tenham sido até hoje pouco utilizados entre nós. Dentre os fatores que contribuem para tanto, apontamos para a concentração no Congresso Nacional da prerrogativa de provocar os mecanismos do plebiscito e do referendo, condicionando, assim, a participação ativa dos cidadãos em decisões públicas relevantes à vontade de seus representantes eleitos - o que contraria toda a lógica da democracia participativa, complexo sistema de coleta de assinaturas para 69 apresentação de projetos legislativos de iniciativa popular. A incipiente educação cívica e política do povo brasileiro, que prejudica a participação e a cidadania ativa, é outro fator. Seria, pois, de imensurável importância para o fortalecimento da democracia participativa que os seus mecanismos fossem simplificados para incentivar a ativa participação. Ressaltamos também que os debates que antecedem a votação de um plebiscito ou referendo sobre a participação do Brasil na ALCA ou da tomada de empréstimos junto ao FMI sob condições que exigem duros sacrifícios sociais, têm em si mesmos um caráter educativo e pedagógico para a participação política e a cidadania ativa. Quanto ao alistamento eleitoral e o exercício do voto é obrigatório para os maiores de dezoito anos (Art. 14, Parágrafo 1º, I) e facultativos para os analfabetos, os maiores de setenta anos e os maiores de dezesseis e menores de dezoito anos (Art. 14, Parágrafo 1º, alíneas a), b) e c)). Os estrangeiros e os que estão prestando serviço militar obrigatório não podem alistar-se como eleitores (Art. 14, Parágrafo 2º). Nos termos do Art. 14, Parágrafo 3º, as condições para a elegibilidade para cargos públicos são: a nacionalidade brasileira; o pleno exercício dos direitos políticos; o alistamento eleitoral; o domicílio eleitoral na circunscrição (ou seja, no Município ou Estado para o qual será eleito o representante, e evidentemente, no Brasil, para o caso de eleição presidencial); a filiação a partido político; e a idade mínima de trinta e cinco anos para Presidente e Vice-Presidente da República e Senador, de vinte e um anos para Deputado Federal, Deputado Estadual ou Distrital, Prefeito, Vice-Prefeitoe juiz de Paz, e de dezoito ano para Vereador. Não poderão ser eleitos os analfabetos e os inalistáveis (Art. 14, Parágrafo 4º). Atividade deste Tópico Baseado no conteúdo do texto acima, escolha duas perguntas abaixo: 1)Na sua opinião, a maior utilização dos instrumentos do plebiscito o referendo aumentaria a legitimidade das leis no Brasil!? Por quê? 2)Qual a importância da afirmação dos direitos políticos na Constituição de 1988, dado o seu contexto histórico? Qual a importância do voto, ele tem sido utilizado como expressão da vontade do povo em sua região? Você conhece algum caso de compra de votos ou coerção eleitoral?Procure na Justiça Eleitoral o quadro de votantes de sua cidade. 3)Procure no site da SEDH o que é o Programa Balcão de Direitos e se seu Estado ou município foi contemplado. Procure na casa civil ou na secretaria de justiça do seu estado se há programas de Balcão de Direitos ( com outro nome ) e como acessa-lo. 4)Quais os principais direitos políticos que você poderia enumerar? Responda as perguntas escolhidas e encaminhe-as para o seu/sua tutor(a) pelo ambiente de capacitação. Links Português http://www.dhnet.org.br/direitos/sos/textos/direito.htm http://www.cidh.oas.org/countryrep/brazil-port/Cap%201.htm http://www.prt15.gov.br/bol06/politico.html http://www.dhnet.org.br/direitos/brasil/leisbr/1988/const88.html 70 10. Direito à Nacionalidade A nacionalidade é o vínculo jurídico-político da pessoa a determinado Estado Nacional. É por meio da nacionalidade que identificamos sob que regime e sistema político a pessoa vive e quais os seus direitos e deveres, segundo as leis do Estado do qual ela é nacional. Para considerar a importância do direito à nacionalidade, pense na situação da pessoa que não é nacional de nenhum país - o apátrida (sem pátria, sem nação). Que direitos ele tem? Quais são os seus bem jurídicos? Quais são as normas que fundamentam seus direitos? No caso do apátrida, todas essas perguntas ficam sem respostas. Ainda que exista um relevante sistema de proteção internacional dos direitos humanos, pode-se afirmar que o direito à nacionalidade compõe o direito a ter direitos. Nessa situação pode encontrar-se o “refugiado” que, segundo o Estatuto do Refugiado (artigo primeiro, incisos I, II e III) caracteriza-se como sendo todo indivíduo que “devido a fundados temores de perseguição por motivos de raça, religião, nacionalidade, grupo social ou opiniões políticas encontre-se fora de seu país de nacionalidade e não possa ou não queira acolher-se à proteção de tal país” ou, ainda, aquele(a) que, “não tendo nacionalidade e estando fora do país onde antes teve sua residência habitual, não possa ou não queira regressar a ele, em função das circunstâncias descritas no inciso anterior”;ou que “devido a grave e generalizada violação de direitos humanos, é obrigado a deixar seu país de nacionalidade para buscar refúgio em outro país”. Ainda segundo o Estatuto do Refugiado, o Alto comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, atuando sob a autoridade da Assembléia Geral, assume a tarefa de proporcionar proteção internacional, sob os auspícios das Nações Unidas, aos refugiados que reúnam as condições previstas Estatuto, e de encontrar soluções permanentes ao problema dos refugiados, ajudando aos governos e, com sujeição à aprovação dos governos interessados, às organizações privadas, a facilitar a repatriação voluntária de tais refugiados ou a sua assimilação em novas comunidades nacionais. A Constituição de 1988 determina que a nacionalidade pode resultar de fato natural - o nascimento - ou de fato de fato voluntário, ocorrido depois do nascimento. No primeiro caso, a Constituição prevê, no seu Art. 12, I, que são brasileiros natos: a) os nascidos na República Federativa do Brasil, ainda que de pais estrangeiros, desde que estes não estejam a serviço de seu país; b) os nascidos no estrangeiro, de pai brasileiro ou mãe brasileira, desde que qualquer deles esteja a serviço da República Federativa do Brasil; e c) os nascidos no estrangeiro, de pai brasileiro ou mãe brasileira, desde que venham a residir no na República Federativa do Brasil e optem, em qualquer tempo, pela nacionalidade brasileira. Percebe-se que há dois critérios de adoção de nacionalidade pelo nascimento: o critério do solo (ius solis), segundo o qual será brasileiro nato aquele que nascer em solo brasileiro; e o critério do sangue (ius sanguinis), segundo o qual será brasileiro aquele que for filho de brasileiro, desde que atendidas as condições das referidas alíneas b) e c) do Art. 12, I. Portanto, o critério que predomina é o critério do solo com concessões para o critério do sangue. No caso da nacionalidade por fato voluntário, a Constituição, no Art. 12, II, estabelece que serão brasileiros naturalizados: a) os que, na forma da lei, adquiram a nacionalidade brasileira, exigidas aos originários de países de língua portuguesa apenas residência por um ano ininterrupto e idoneidade moral; b) os estrangeiros de qualquer nacionalidade residentes na República Federativa do Brasil há mais de quinze anos ininterruptos e sem condenação penal, desde que requeiram a nacionalidade brasileira. A Constituição veda à lei estabelecer qualquer distinção entre brasileiros natos e naturalizados, salvo nos caso previstos na própria Constituição (Art. 12, Parágrafo 2º). No Parágrafo 3º do mesmo Art. 12, são previstos os cargos públicos privativos de brasileiros natos: Presidente e Vice-Presidente da República, Presidente da Câmara dos Deputados, Presidente do Senado Federal, Ministro do Supremo Tribunal Federal, da carreira diplomática, de oficial das forças armadas e de Ministro de Estado da Defesa. 71 No plano infra-constitucional, cabe citar, no que diz respeito à nacionalidade, a Lei nº 9.584, de 10 de dezembro de 1997 que, dentre outras alterações, dá nova redação ao artigo 30 da Lei 6.015, de 31 de dezembro de 1973 que dispões sobre os registros públicos e acrescenta inciso ao artigo 1º da Lei 9.265 , de 12 de fevereiro de 1996 que trata da gratuidade nos atos necessários à cidadania, dentre estes aqueles que capacitam o cidadão ao exercício da soberania popular, o alistamento militar, pedidos de informação ao poder público, quaisquer requerimentos ou petições que visem as garantias individuais e a defesa do interesse público. Outro importante passo dado em direção à promoção dos direitos humanos, foi a Mobilização Nacional pelo Registro de Nascimento em 25 de outubro de 2003 para garantir os direitos a um nome e um sobrenome a milhares de brasileiros e brasileiras. Com o registro de nascimento a pessoa passa a existir enquanto indivíduo sujeito de direitos e pode pleitear a satisfação desses direitos. Destaca-se que com essa mobilização e outros estudos está sendo criado o Plano Nacional Para Registro Civil de Nascimento que tem a missão de estabelecer ações articuladas que garantam a certidão de nascimento a todos os brasileiros. Outras metas previstas no plano são erradicar o subregistro de nascimento até outubro de 2006 e fortalecer o sistema brasileiro de registro civil. Atividade deste Tópico Baseado no conteúdo do texto acima, escolha duas perguntas abaixo: 1)Como é estabelecido o direito para quem não tem direito, como é o caso dos apátridas? 2)O Brasil é um país conhecido pela sua receptividade aos estrangeiros, tendo em sua história recebido levas de imigrantes de todas partes do mundo. Qual significado e importância têm para você, o fato de ser um cidadão de nacionalidade brasileira? 3)Visite a vara da adoção em sua cidade ( se houver) ou a comarca e pesquise sobre a problemática da adoção. 4)É possível existir alguém que não tenha direito à nacionalidade? Responda as perguntas escolhidas e encaminhe-as para o seu/sua tutor(a) pelo ambiente de capacitação. Links Português http://www.dji.com.br/constitucional/nacionalidade.htm http://www.jusvi.com/site/p_detalhe_artigo.asp?codigo=880&cod_categoria=4&nome_categoria=Constit ucional%20e%20Administrativo http://www1.jus.com.br/doutrina/texto.asp?id=57http://www.lawinter.com.br/aula02unip2002.htm http://www.professores.uff.br/perlingeiro/apostiladedipfinal.pdf 72 11. Direito ao Meio Ambiente A Constituição Federal de 1988 inovou ao dedicar um capítulo próprio ao direito ao meio ambiente. Trata-se do Capítulo VI do Título VIII - Da Ordem Social. No início do capítulo, é determinado que: "Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem como de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações" (Art. 225, caput). O avanço tecnológico acelerado, ocorrido a partir da Revolução Industrial no final do século XVIII e acentuado ainda mais a partir de meados do século XX, além de trazer comodidades e novos confortos para parte da população mundial também implicou a drástica devastação do meio ambiente, gerando graves ameaças para a saúde do equilíbrio ecológico e da vida no planeta. A tomada de consciência desse perigo, sobretudo a partir da década de 1970, e o imenso patrimônio ecológico e de biodiversidade do Brasil aparecem finalmente refletidos no Capítulo da Constituição dedicado ao direito ambiente quando se reconhece o direito ao meio ambiente equilibrado como "um bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida". Note que o reconhecimento desse direito não se limita ao presente, mas implica em verdadeiro pacto entre as gerações presentes e futuras. Isto é, todos nós, além de titulares do direito ao meio ambiente, temos o dever de preservá-lo para os nossos descendentes. Trata-se da expressão do valor de fraternidade entre todos os povos e entre gerações. Por outro lado, a Constituição também impõe ao Poder Público a obrigação de estabelecer políticas públicas para assegurar a efetividade do direito ao meio ambiente, cujas diretrizes aparecem no parágrafo 1º do Art 225: a) preservar e restaurar os processos ecológicos essenciais e prover o manejo ecológico das espécies e ecossistemas; b) preservar a diversidade e a integridade e do patrimônio genético do País e fiscalizar as entidades dedicadas à pesquisa e manipulação de material genético; c) definir, em todas as unidades da Federação, espaços territoriais e seus componentes a serem especialmente protegidos, sendo a alteração e a supressão permitidas somente por meio de lei, vedada qualquer utilização que comprometa a integridade dos atributos que justifiquem sua proteção; d) exigir, na forma da lei, para instalação de obra ou atividade potencialmente causadora de significativa degradação do meio ambiente, estudo prévio de impacto ambiental, a que se dará publicidade; e) controlar a produção, a comercialização e o emprego de técnicas, métodos e substâncias que comportem risco para a vida e o meio ambiente; f) promover a educação ambiental em todos os níveis de ensino e a conscientização pública para a preservação do meio ambiente; g) proteger a fauna e a flora, vedadas, na forma da lei, as práticas que coloquem em risco sua função ecológica, provoquem a extinção de espécies ou submetam os animais a crueldade. Como se observa, as normas constitucionais refletem a consciência de que o direito à vida digna como matriz de todos os demais direitos humanos é que há de orientar todas as formas de atuação no campo da tutela do meio ambiente. Compreendeu-se que ele é um valor preponderante sobre quaisquer considerações, tais como as relacionadas ao desenvolvimento econômico, ao direito de propriedade e à iniciativa privada. Assim, se a exploração madeireira ou mineradora gera empregos e superávit no balanço entre exportações e importações, ainda assim ela deverá respeitar os limites de manejo e/ou manutenção da qualidade ambiental. A propriedade e a livre iniciativa privada são direitos assegurados no texto constitucional, mas não podem estar acima do direito fundamental à uma vida digna, que está em jogo quando se discute a tutela da qualidade do meio ambiente, que é instrumental no sentido de que, por meio dessa tutela, o que se protege é um valor maior: a qualidade da vida humana. Atividade deste Tópico Baseado no conteúdo do texto acima, escolha duas perguntas abaixo: 73 1)A implementação de compromisso ambientais internacionais caracteristicamente envolve uma mistura de instituições internacionais, Estados e organizações transnacionais. Restringir a poluição atmosférica ou marítima, por exemplo, raramente podem ser executadas diretamente por decisão governamental. Envolve um complexo processo de mudar uma variedade de atividades industriais e sociais bem estabelecidas, com a necessária participação de ONG’s, autoridades locais e indivíduos. Enquanto Estado e seus governos centrais não costumam exercer controle direto sobre atividades econômicas, sociais e ambientais, eles têm autoridade soberana para legislar dentro dos seus territórios, e portanto, deverão desempenhar papel central na implementação da regulação ambiental? 2)O Brasil é “terra em que se plantando tudo dá”, terra de “palmeiras onde canta o sabiá”. Você considera que os direitos ao meio ambiente têm sido respeitados? Cite um exemplo de desrespeito ao meio ambiente em sua região. 3)Quais as ONG’s e movimentos ecológicos existente na sua cidade ou estado que promovem a defesa do meio ambiente? Levante os problemas ambientais do seu município. 4)A criação de parques garante o direito ao meio ambiente? Responda as perguntas escolhidas e encaminhe-as para o seu/sua tutor(a) pelo ambiente de capacitação. Links Português http://www.dhnet.org.br/direitos/sos/cartilha/CartilhaPB/62_DirMeioAmbiente.html http://www.dhnet.org.br/direitos/sos/ecologia/textos.html http://www.aultimaarcadenoe.com/direitoprincipios.htm http://www.ibamapr.hpg.ig.com.br/const.htm http://www.unb.br/acs/acsweb/clipping/direito_amb.htm http://www.angelfire.com/sk/holgonsi/meioambiente.html http://www.prt21.gov.br/estag/erivan.htm http://www.dji.com.br/constituicao_federal/cf225.htm 74 12. Direito dos Povos Indígenas O princípio da igualdade exige que as especificidades e as diferenças entre todas as pessoas sejam observadas, reconhecidas e respeitadas. Somente mediante essa perspectiva é possí-vel transitar-se da igualdade formal para a igualdade material ou substantiva. Tal perspectiva concretizou-se com o processo de multiplicação dos direitos humanos. Esse processo de "proliferação de direitos" envolveu não apenas o aumento dos bens merecedores de tutela, mediante a previsão dos direitos à prestação (como os direitos econômicos, sociais e culturais), como também envolveu a extensão da titularidade de direitos. A partir da extensão da titularidade de direitos, há o alargamento do próprio conceito de sujeito de direito, que pas-sou a abranger, além do indivíduo, as entidades de classe, as organizações sindicais, os grupos vulneráveis e a própria huma-nidade, como no caso do direito ao meio ambiente. Esse processo implicou ainda a especificação do sujeito de direito, tendo em vista que, ao lado do sujeito genérico e abstrato, delineia-se o sujeito de direito concreto, visto em sua especificidade e na concretude de suas diversas relações. Isto é, do ente abstrato, genérico, destituído de cor, sexo, idade, classe social, etnia, dentre outros critérios, emerge o sujeito de direito concreto, historicamente situado, com especificidades e parti-cularidades. Daí apontar-se não mais ao indivíduo genérica e abstratamente considerado, mas ao indivíduo "especificado", considerando-se categorizações relativas ao gênero, idade, etnia, raça, orientação sexual, etc. Consolida-se, gradativamente, um aparato normativo especial de proteção endereçado à proteção de pessoas ou grupos de pessoas particularmente vulneráveis que merecem proteção especial. Os sistemas normativos internacional e na-cional passam a reconhecer direitos endereçados às crianças, aos idosos, às mulheres, às pessoas vítimas de tortura, às pessoas vítimas de discriminação racial, dentre outros. No âmbito internacional, são elaboradasa Convenção Internacional sobre a Eliminação de todas as formas de Discri-minação Racial, a Convenção Internacional sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher, a Con-venção Internacional contra a Tortura, a Convenção sobre os Direitos da Criança, dentre outros importantes instrumentos internacionais. Esse sistema internacional de proteção realça o processo de especificação do sujeito de direito no qual o sujeito de direito é visto em sua especificidade e concretude. As Convenções que integram esse sistema são endereçadas a determinado sujeito de direito, ou seja, buscam responder a determinada violação de direito. No caso brasileiro, o processo de especificação do su-jeito de direito ocorreu fundamentalmente com a Constituição Brasileira de 1988 que, por exemplo, traz capítulos específicos dedicados à criança, ao adolescente, ao idoso, aos índios, bem como dispositivos constitucionais específicos voltados às mu- lheres, à população afro-descendente, às pessoas portadoras de deficiên-cia, etc. Os povos indígenas foram os habitantes originários do território brasileiro. Sabemos que, ao longo do período Colonial, esses povos foram escravizados, explorados e dizimados pelos colonizadores. Mesmo depois da Independência e da proclamação da República, o avanço na ocupação de terras tradicionalmente ocupadas pelos povos indígenas feriu mortalmente as tradições e mesmo a sobrevivência de vários grupos indígenas. A Constituição de 1988 traduz o reconhecimento dessa dívida histórica e da vulnerabilidade social dos povos indígenas e objetiva proteger suas tradições, além de sinalizar, com medidas afirmativas, o respeito à dignidade dos povos indígenas. Esse é o espírito com que deve ser lido e interpretado o caput do Art. 231, que abre o capítulo dedicado aos povos indígenas: "São reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens". Além de tornar dever dos poderes públicos a proteção e respeito ao patrimônio material, social e cultural dos povos indígenas, a Constituição também atribui aos próprios índios, suas comunidades e 75 organizações a legitimidade para defender seus direitos e interesses ativamente perante o Poder Judiciário. Se anteriormente à Constituição de 1988 os índios (silvícolas) eram considerados sujeitos de direito relativamente capazes, com a sua publicação, eles adquirem capacidade jurídica plena. A Fundação Nacional do Índio - FUNAI é o órgão do governo brasileiro que estabelece e executa a Política Indigenista no Brasil, dando cumprimento ao que determina a Constituição de 1988. Na prática, significa que compete à FUNAI promover a educação básica aos índios, demarcar, assegurar e proteger as terras por eles tradicionalmente ocupadas, estimular o desenvolvimento de estudos e levantamentos sobre os grupos indígenas. A Fundação tem, ainda, a responsabilidade de defender as Comunidades Indígenas, de despertar o interesse da sociedade nacional pelos índios e suas causas, gerir o seu patrimônio e fiscalizar as suas terras, impedindo as ações predatórias de garimpeiros, posseiros, madeireiros e quaisquer outras que ocorram dentro de seus limites e que representem um risco à vida e à preservação desses povos. No âmbito da Secretaria Especial dos Direitos Humanos – SEDH, cabe ao Conselho Nacional de Combate à Discriminação - CNCD, criado em outubro de 2001, a função de propor e acompanhar políticas públicas para a defesa dos direitos de indivíduos e grupos sociais vítimas de discriminação racial e étnica ou outra forma de intolerância, dentre estes, os povos indígenas. Passo a passo pelos Direitos Humanos Atividade deste Tópico Baseado no conteúdo do texto acima, escolha duas perguntas abaixo: 1)Especifique, analisando historicamente, o tratamento aos principais povos indígenas em toda a América. 2)Por que o índio é protegido pela constituição de 1988? 3)Tem escritório da FUNAI no seu estado? Caso positivo pesquise sobre os povos indígenas no seu estado. Se sua cidade tem universidade, procure no departamento de sociologia ou antropologia sobre os povos indígenas no estado. Procure no site da FUNAI ou do CIMI, dados sobre os povos indígenas na sua região. Se sua cidade tiver Ministério Público Federal, na curadoria do cidadão eles terão dados sobre os povos indígenas. 4)Qual a melhor forma de respeitar os direitos dos povos indígenas? Responda as perguntas escolhidas e encaminhe-as para o seu/sua tutor(a) pelo ambiente de capacitação. Links Português http://www.socioambiental.org/website/noticias/noticia.asp?File=Indios\2002-06-19-23-15.html http://www.puc-rio.br/sobrepuc/depto/direito/revista/online/rev12_luis.html http://dtr2001.saude.gov.br/sas/PORTARIAS/Port2004/GM/GM-70.htm http://www.adital.org.br/asp2/noticia.asp?idioma=PT¬icia=9798 http://www.socioambiental.org/website/pib/portugues/direito/minuta.htm http://www.rebidia.org.br/indigena/POVOS.htm http://www.survival-international.org/old%20site/pbrland.htm 76 http://www.mj.gov.br/noticias/2004/janeiro/rls090104-roraima.htm http://www.funai.gov.br/quem/legislacao/regimento_interno.html http://www.funai.gov.br/quem/legislacao/regimento_interno.html http://www.funai.gov.br/quem/legislacao/estatuto_indio.html http://www.funai.gov.br/quem/legislacao/prestacao_assistencia.htm 77 13. Direitos das Mulheres A reflexão a respeito da mulher e o debate sobre direitos humanos no Brasil levanta duas questões centrais: a) Como compreender a gramática contemporânea dos direitos humanos das mulheres?; b) Quais os principais desafios e perspectivas para a proteção destes direitos no cenário brasileiro? Em face do processo de internacionalização dos direitos humanos, foi a Declaração e Programa de Ação (Viena-1993) que, de forma explícita, afirmou, em seu parágrafo 18, que os direitos humanos das mulheres e das meninas são parte inalienável, integral e indivisível dos direitos humanos universais. Esta concepção foi reiterada pela Plataforma de Ação de Pequim, de 1995. O legado de Viena é duplo: endossa a universalidade e a indivisibilidade dos direitos humanos invocada pela Declaração Universal de 1948 e também confere visibilidade aos direitos humanos das mulheres e das meninas, em expressa alusão ao processo de especificação do sujeito de direito e à justiça enquanto reconhecimento de identidades. Importa ressaltar que a primeira fase de proteção dos direitos humanos foi marcada pela ótica da proteção geral, que expressava o temor da diferença que, no nazismo, havia sido orientada para o extermínio com base na igualdade formal. Basta avaliar quem é o destinatário da Declaração Universal de 1948, bem como atentar para a Convenção para a Prevenção e Repressão ao Crime de Genocídio, também de 1948, que pune a lógica da intolerância pautada na destruição do "outro" em razão de sua nacionalidade, etnia, raça ou religião. Torna-se, contudo, insuficiente tratar o indivíduo de forma genérica, geral e abstrata. É necessária a especificação do sujeito de direito, que passa a ser visto em suas peculiaridades e particularidades. Neste sentido, determinados sujeitos de direitos, ou determinadas violações de direitos, exigem uma resposta específica e diferenciada. Transita-se do paradigma do homem, ocidental, adulto, heterossexual e dono de um patrimônio para a visibilidade de novos sujeitos de direitos. Neste cenário, as mulheres devem ser vistas nas especificidades e peculiaridades de sua condição social. Ao lado do direito à igualdade, surge, como direito fundamental, o direito à diferença. O direito à diferença implica o direito ao reconhecimento de identidades próprias, o que propicia a incorporação da perspectiva de gênero, isto é, reinterpretar os direitos humanos a partir da relação entre os gêneros, como um tema transversal. O balanço das últimas três décadas permite arriscar que o movimentointernacional de proteção dos direitos humanos das mulheres centrou seu foco em três questões centrais: a) a discriminação contra a mulher; b) a violência contra a mulher e c) os direitos sexuais e reprodutivos. Na experiência brasileira, a Constituição Federal de 1988, enquanto marco jurídico da transição democrática e da institucionalização dos direitos humanos no país, incorporou a maioria significativa das reivindicações formuladas pelas mulheres. O êxito do movimento de mulheres em relação aos avanços constitucionais é evidenciado pelos dispositivos constitucionais que, dentre outros, asseguram: a) a igualdade entre homens e mulheres em geral (artigo 5o, I) e especificamente no âmbito da família (artigo 226, parágrafo 5o); b) a proibição da discriminação no mercado de trabalho, por motivo de sexo ou estado civil (artigo 7o, XXX, regulamentado pela Lei 9.029, de 13 de abril de 1995, que proíbe a exigência de atestados de gravidez e esterilização e outras práticas discriminatórias para efeitos admissionais ou de permanência da relação jurídica de trabalho); c) a proteção especial da mulher do mercado de trabalho, mediante incentivos específicos (artigo 7o, XX, regulamentado pela Lei 9.799, de 26 de maio de 1999, que insere na Consolidação das Leis do Trabalho regras sobre o acesso da mulher ao mercado de trabalho); d) o planejamento familiar como uma livre decisão do casal, devendo o Estado propiciar recursos educacionais e científicos para o exercício desse direito (artigo 226, parágrafo 7o, regulamentado pela Lei 9.263, de 12 de janeiro de 1996, que trata do planejamento familiar, no âmbito do atendimento global e integral à saúde); e) o dever do Estado de coibir a violência no âmbito das relações familiares (artigo 226, 78 parágrafo 8o). Além desses avanços, merece ainda destaque a Lei 9.504, de 30 de setembro de 1997, que estabelece normas para as eleições, dispondo que cada partido ou coligação deverá reservar o mínimo de trinta por cento e o máximo de setenta por cento para candidaturas de cada sexo. Adicione-se, também, a Lei 10.224, de 15 de maio de 2001, que dispõe sobre o crime de assédio sexual. Há que se observar que os avanços obtidos no plano internacional têm sido capazes de impulsionar transformações internas. Nesse sentido, cabe destaque ao impacto de documentos como a Convenção sobre a Eliminação da Discriminação contra a Mulher, de 1979, a Declaração e Programa de Ação de Viena-1993, a Conferência sobre População e Desenvolvimento do Cairo, de 1994, a Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher, de 1994 e a Declaração e a Plataforma de Ação de Pequim, de 1995, na construção dos direitos humanos das mulheres no contexto brasileiro. Tais instrumentos internacionais têm possibilitado ao movimento de mulheres exigir, no plano local, a implementação de avanços obtidos na esfera internacional. No que se refere à discriminação contra a mulher, a experiência brasileira está em absoluta consonância com os parâmetros protetivos internacionais, refletindo tanto a vertente repressiva-punitiva (pautada pela proibição da discriminação contra a mulher), como a vertente promocional (pautada pela promoção da igualdade, mediante políticas compensatórias). Quanto à violência contra a mulher, embora a Constituição de 1988 seja a primeira a explicitar a temática, merecendo destaque também a lei que tipifica a violência do assédio sexual, não há ainda legislação específica a tratar, por exemplo, da violência doméstica. É emergencial a adoção de políticas públicas voltadas à prevenção, punição e erradicação da violência contra a mulher em todas as suas manifestações, eis que este padrão de violência constitui grave violação aos direitos humanos das mulheres. Quanto aos direitos reprodutivos, a Carta de 1988 simboliza novamente um avanço ao reconhecer o planejamento familiar como uma livre decisão do casal, devendo o Estado propiciar recursos educacionais e científicos para o exercício desse direito, vedada qualquer coerção. Resta, todavia, a necessidade de assegurar amplos programas de saúde reprodutiva, reavaliando a legislação punitiva referente ao aborto, de modo a convertê-lo efetivamente em problema de saúde pública. No âmbito da estrutura governamental, compete à Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres – SEPM – criada pela Lei 10.683, de 28/05/2003 - que integra a Presidência da República, assessorar direta e imediatamente o Presidente da República na formulação, coordenação e articulação de políticas para as mulheres, bem como elaborar e implementar campanhas educativas e anti-discriminatórias , de caráter nacional; elaborar o planejamento de gênero que contribua na ação do governo federal e demais esferas governamentais com vistas à promoção da igualdade entre homens e mulheres através da cooperação com organismos nacionais e internacionais, públicos e privados voltados para a implementação de políticas para as mulheres. Para a implementação de políticas, a SEPM conta, em sua estrutura básica, com o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher - CNDM, órgão colegiado de caráter consultivo, criado pela Lei 7353, de 29/08/1985, complementado pelo Decreto 4.773, de 07/07/2003 que tem por finalidade promover, no âmbito nacional, políticas para as mulheres com a perspectiva de gênero, que visem eliminar o preconceito e a discriminação, inclusive as de aspectos econômicos e financeiros, ampliando o processo de controle social sobre as referidas políticas. Apesar dos significativos avanços obtidos na esfera constitucional e internacional, reforçados pela legislação infra-constitucional esparsa, que refletem, cada qual ao seu modo, as reivindicações e anseios contemporâneos das mulheres ainda persiste na cultura brasileira uma ótica sexista e discriminatória com relação às mulheres que as impedem de exercer, com plena autonomia e dignidade, seus direitos mais fundamentais. Os avanços constitucionais e internacionais, que consagram a ótica da igualdade entre os gêneros, têm, por vezes, a sua força normativa gradativamente pulverizada e reduzida mediante uma cultura que 79 praticamente despreza o alcance dessas inovações, sob uma perspectiva discriminatória, fundada em uma dupla moral que ainda atribui pesos diversos e avaliações morais distintas a atitudes praticadas por homens e mulheres. Daí a urgência em se estimular uma cultura fundada na observância dos parâmetros internacionais e constitucionais de proteção aos direitos humanos das mulheres, visando a implementação dos avanços constitucionais e internacionais já alcançados. Esses avanços consagram uma ótica democrática e igualitária em relação aos gêneros. É preciso criar uma doutrina jurídica, sob a perspectiva de gênero, que seja capaz de visualizar a mulher e fazer visíveis as relações de poder entre os gêneros. Essa doutrina há de ter como base o padrão de discriminação e as experiências de exclusão e violência sofridas por mulheres. Deve ainda ter como objetivo central a tarefa de trans-formar essa realidade. Como meio, essa doutrina deve se valer dos instrumentos internacionais de proteção dos direitos da mulher e da Constituição de 1988. É importante compreender que não há direitos humanos sem a plena observância dos direitos das mulheres, ou seja: não há direitos humanos sem que metade da população mundial exerça, em igualdade de condições, os direitos mais fundamentais. Passo a passo pelos Direitos Humanos Atividade deste Tópico Baseado no conteúdo do texto acima, escolha duas perguntas abaixo: 1)Pesquise sobre os Movimentos Feministas. 2)A Constituição de 1988, em seu Art. 5º, I, confirma a igualdade entre homens e mulheres. Você concorda com esse principio? Explique. 3)Descubra no Comissão de Direitos Humanos da Assembléia do seu estado as ONG’s feministas para que possa fazer uma visita e saber a situação da violência do gênero no estado. 4)Você acha que no mundo islâmico (Irã, Iraque, Afeganistão etc) as mulheres não têm direito? Responda as perguntasescolhidas e encaminhe-as para o seu/sua tutor(a) pelo ambiente de capacitação. Links Português http://www.gchannel.com.br/est_sintonia/ler_materia.asp?canal=Pride&cod=36 http://www.direitoshumanos.usp.br/documentos/tratados/mulher/mulher.html http://www.dhnet.org.br/educar/redeedh/bib/zuleika.htm http://www.tre-rn.gov.br/tre-rn/mulher.htm http://www.redesaude.org.br/jr25/html/body_jr25-norma.html http://www.dpge.rj.gov.br/mulher.htm 80 14. Direitos dos Afro-Descendentes Ao tratar do tema da igualdade, a Constituição Brasileira acolhe duas vertentes distintas e complementares: o combate à discriminação e a promoção da igualdade. Isto é, o combate à discriminação torna-se insuficiente se não se verificam medidas voltadas à promoção da igualdade. Por sua vez, a promoção da igualdade, por si só, mostra-se insuficiente se não se verificam políticas de combate à discriminação. A Constituição Brasileira, em seu artigo 5º, incisos XLI e XLII, estabelece que a "lei punirá qualquer discriminação atentatória dos direitos e liberdades fundamentais", acrescentando que "a prática do racismo constitui crime inafiançável e imprescritível, sujeito à pena de reclusão, nos termos da lei." A fim de conferir cumprimento ao dispositivo constitucional, surgiu a Lei n. 7.716 de 5 de janeiro de 1989, que definiu os crimes resultantes de preconceito de raça ou cor. A Lei 7716/89, denominada Lei Caó, veio a ser alterada posteriormente em 1997 (Lei 9.459/97), para também contemplar a injúria baseada em discriminação racial (ex: as humilhações, os xingamentos,…). A Lei 9.459/97 ainda ampliou o foco para a punição de atos resultantes de preconceito de etnia, religião ou procedência nacional, já que a Lei 7716/89 teve seu objeto originariamente restrito ao combate dos atos resultantes de preconceito de raça ou cor. Na experiência brasileira constata-se que a Lei Afonso Arinos de 1951 (Lei 1390/51) foi a primeira a tipificar o racismo como contravenção penal (crime de menor potencial ofensivo). Portanto, somente com a Constituição de 1988, 100 anos após a abolição da escravatura, o racismo foi elevado a crime, inafiançável, imprescritível e sujeito à pena de reclusão, nos termos do art.5o, XLII. Contudo, em relação a discriminação racial, o aparato repressivo-punitivo, embora relevante e necessário, tem se mostrado insuficiente para enfrentar tal forma de discriminação. Até 2000, passados mais de dez anos de vigência da Lei, as condenações criminais por racismo não chegavam a uma dezena no país. As indenizações por danos morais, na esfera cível, têm se mostrado uma via mais exitosa. Dois parecem ser os motivos: a) a reduzida sensibilidade dos operadores do Direito para responder aos casos e b) a insuficiência de limitar o enfrentamento da discriminação apenas à vertente repressiva. De um lado, faz-se necessário fomentar a capacitação jurídica para que, os diversos atores: delegados/as, promotores, advogados/as, magistrados/as, possam, com maior eficácia, inclusive mediante a criação de serviços jurídicos especializados, responder à gravidade do racismo. No mesmo sentido, cabe aprimorar e fortalecer o aparato repressivo, como sugere o documento brasileiro à Conferência de Durban, tornando o racismo, a xenofobia e outras formas de intolerância, agravantes de crimes. Ressalte-se que as ações individuais indenizatórias por danos morais não devem resumir-se no único caminho no enfrentamento do racismo. A propositura de ações coletivas e da ação civil pública, em particular, com fundamento no princípio da igualdade, pode e deve ser mais uma alternativa na luta contra o racismo e sua forma contemporânea de manifestação. Por outro lado, não basta o mero reforço da vertente repressiva, como comprova a própria experiência brasileira. É necessário transcender a perspectiva punitiva, a fim de que seja aliada à perspectiva promocional. No Direito brasileiro, a Constituição Federal de 1988 estabelece importantes dispositivos que demarcam a busca da igualdade material, que transcende a igualdade formal. A título de registro, destaca-se o artigo 7º, inciso XX, que trata da proteção do mercado de trabalho da mulher, mediante incentivos específicos, bem como o artigo 37, VII, que determina que a lei reservará percentual de cargos e empregos públicos para as pessoas portadoras de deficiência. Adicione-se também o Programa Nacional de Direitos Humanos, que faz expressa alusão às políticas compensatórias, prevendo como meta o desenvolvimento de ações afirmativas em favor de grupos socialmente vulneráveis; o Programa de Ações Afirmativas na Administração Pública Federal; e a adoção de políticas de cotas em Universidades (ex: UERJ, UNEB, 81 UnB,...). Em um país em que os afro-descendentes são 64% dos pobres e 69% dos indigentes (dados do IPEA), em que o índice de desenvolvimento humano geral (IDH, 2000) figura o país em 74o lugar, mas que, sob o recorte étnico-racial, o IDH relativo à população afro-descendente indica a 108a posição (enquanto o IDH relativo à população branca indica a 43a posição), faz-se necessária a adoção de ações afirmativas em benefício da população negra, em especial nas áreas da educação e do trabalho. Para cumprir os compromissos assumidos pelo Brasil, em nível internacional, de combate à discriminação em todas as suas formas, foi criada, no âmbito da Presidência da República, através da Lei 10.678, de 23/05/2003, a Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial – SEPPIR, à qual compete dentre outras atribuições, assessorar o Presidente da República direta e imediatamente na formulação, coordenação e articulação de políticas e diretrizes para a promoção da igualdade racial; na formulação, coordenação e avaliação das políticas públicas afirmativas de promoção da igualdade e da proteção dos direitos de indivíduos e grupos raciais e étnicos, com ênfase na população negra, afetados por discriminação racial e demais formas de intolerância; na formulação, coordenação e acompanhamento das políticas transversais de governo para a promoção da igualdade racial, no planejamento, coordenação da execução e avaliação do Programa Nacional de Ações Afirmativas e na promoção do acompanhamento da implementação de legislação de ação afirmativa e definição de ações públicas que visem o cumprimento dos acordos, convenções e outros instrumentos congêneres assinados pelo Brasil, nos aspectos relativos à promoção da igualdade e de combate à discriminação racial ou étnica. Atividade deste Tópico Baseado no conteúdo do texto acima, escolha duas perguntas abaixo: 1)A implantação de cotas para negros nas universidades lhe parece a melhor maneira de reduzir a discriminação racial em nosso país? Além dessa medida, que inclusive já está implantada em algumas universidades, que outras medidas você apontaria? 2)Faça um histórico das leis contra o racismo no Brasil e analise criticamente o seu cumprimento em seu município. 3)Visite uma entidade de afro-descendente na sua cidade (movimento negro e disque-racismo) e pesquise com eles sobre o problema da discriminação étnico-racial. 4)O que você pensa sobre a política de cotas nas universidades pública, em relação aos afro- descendentes? Responda as perguntas escolhidas e encaminhe-as para o seu/sua tutor(a) pelo ambiente de capacitação. Links Português www.mundojuridico.adv.br/documentos/artigos/texto565.doc (Artigo de 2003) http://www.usp.br/espacoaberto/arquivo/2003/espaco31mai/0perfil.htm http://www.dhnet.org.br/direitos/brasil/legislativo/cdhcf/Cartilha_CDH/13_DiscriminacaoRacial.htm http://www.alternex.com.br/~ceap/pesqnegr2.html http://www.dhnet.org.br/direitos/sos/discrim/combate_racismo.html http://www.adital.org.br/asp2/noticia.asp?idioma=PT&secao=15 82 http://www.cidh.oas.org/countryrep/brazil-port/Cap%209%20.htm http://www.conectasur.org/files/Educadores_Racismo.pdf http://www.dhnet.org.br/direitos/sos/discrim/combate_racismo.html http://www.conectasur.org/files/Educadores_Racismo.pdf http://www.amperj.org.br/dnload/7716.exe83 15. Direito à Livre Orientação Sexual Como já observamos, o paradigma que, em geral, ainda orienta o pensamento político, jurídico e social no Brasil e em boa parte do mundo Ocidental é o do homem, adulto, ocidental, heterossexual e dono de um patrimônio. Dentre as muitas exclusões sociais geradas por tal paradigma, uma das mais cruéis é a sofrida pelas pessoas com orientação sexual distinta da heterossexual. A crueldade aqui atinge a esfera da liberdade e identidade pessoal, da autonomia de escolha e de consciência, da vida íntima e da capacidade de amar e escolher e conviver dignamente com o ser amado. Para se ter uma medida de quanto o preconceito é disseminado em nossa sociedade vale referir a uma pesquisa da UNESCO (Órgão da ONU para Educação, Ciência e Cultura) divulgada nas primeiras semanas de março de 2004, que ouviu 16.422 estudantes do ensino fundamental e médio de 14 cidades brasileiras. Segundo o estudo, aproximadamente 25% dos estudantes afirmaram que não gostariam de ter um colega de classe homossexual - entre os meninos, são quase 40%. Portanto, já temos uma jovem geração marcada pelo preconceito e pela idéia de exclusão do homossexual e sem a cultura ética da liberdade de orientação sexual. Em uma pesquisa sobre crimes homofóbicos documentados em 25 países de todos os quadrantes, o Brasil situa-se no topo da lista, com uma média de 128 mortes anuais, seguido do México com 35 assassinatos e, em terceiro lugar, dos Estados Unidos, com 25 crimes de ódio homofóbico por ano. A Constituição de 1988 deu, já sabemos, largos passos, na superação do tratamento discriminatório fundado no sexo, ao equiparar os direitos e obrigações de homens e mulheres. Contudo, uma das questões mais debatidas na Assembléia Nacional Constituinte, com relação à sexualidade e igualdade, referiu-se às então chamadas "discriminações dos homossexuais". Tentou-se introduzir uma norma que a vedasse claramente, mas, lamentavelmente, isso não ocorreu sob o argumento de que "não se encontrou uma expressão nítida e devidamente definida que não gerasse extrapolações inconvenientes". Uma delas foi justamente a de reconhecer a igualdade, sem discriminação de orientação sexual no Art. 3º, IV, reconhecendo, assim, não apenas a igualdade, mas também a liberdade das pessoas de ambos os gêneros adotarem a orientação sexual que lhes conviesse. Porém, houve o receio de que a expressão orientação sexual abrigasse "deformações prejudiciais a terceiros". Daí a opção por vedar distinções de qualquer natureza e qualquer forma de discriminação, consideradas suficientemente abrangentes para incluir também aqueles fatores que têm servido de base para desequiparações e preconceitos. Infelizmente, a timidez da Constituinte demonstra o quanto a questão ainda é tabu em nossa sociedade, o que é reiterado pelo atravancamento no Congresso Nacional do Projeto de Lei que reconhece a união civil entre pessoas do mesmo sexo e pela inexistência de legislação federal que criminalize (tal como no caso do racismo) a discriminação com base na orientação sexual. Apear de tudo isso, a Constituição de 1988 elenca direitos e garantias fundamentais, tais como o direito à liberdade e à igualdade em geral, à liberdade de consciência, à intimidade, à vida privada e, na essência de todos, à dignidade da pessoa humana, cuja interpretação adequada só reafirma o direito à livre orientação sexual. Com base nesses preceitos, é possível afirmar uma cultura jurídica que inspire uma consciência ética em nossa sociedade de respeito à diferença e à livre orientação sexual. Um importante exemplo, nesse sentido, foi a recente decisão do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul de determinar que os cartórios de registro civil aceitassem e registrassem a união civil de pessoas do mesmo sexo. Além de evitar preconceitos, esse tipo de medida garante aos homossexuais o direito de herdarem os bens de seus companheiros(as), dividir planos de saúde, e outros direitos civis de qualquer cidadão brasileiro. O enfrentamento da homofobia no país requer a educação sexual em todos os graus escolares, ensinando a todas as crianças, jovens e adultos que o homossexual é ser humano digno de respeito e que a livre orientação sexual é um direito inalienável de cidadania. Faz-se também necessária a adoção de leis que punam exemplarmente os que discriminam, violentam e assassinam gays, travestis e lésbicas, capacitando 84 a polícia e a justiça a investigar, julgar e punir com exemplar severidade os autores de crimes homofóbicos. Some-se ainda a necessidade de campanhas de esclarecimento junto à população em geral, substituindo a homofobia por sentimentos e ações de tolerância e respeito à diversidade sexual. Iniciativas governamentais como o “Programa Brasil Sem Homofobia – Programa Brasileiro de Combate à Violência e à Discriminação contra Gays, Lésbicas, Transgêneros e Bissexuais, e de Promoção da Cidadania Homossexual”, lançado em 25/05/2003, propõe a transversalidade do tema nas ações das esferas e níveis governamentais, sendo uma conquista histórica para o movimento homossexual.O referido Programa tem como princípios: “ a inclusão da perspectiva da não discriminação por orientação sexual e de promoção dos direitos humanos de gays, lésbicas, transgêneros e bissexuais, nas políticas públicas e estratégias do Governo Federal, a serem implantadas (parcial ou integralmente) por seus diferentes Ministérios e Secretarias; a produção de conhecimento para subsidiar a elaboração, implantação e avaliação das políticas públicas voltadas para o combate à violência e à discriminação por orientação sexual, garantindo que o Governo Brasileiro inclua o recorte de orientação sexual e o segmento GLTB em pesquisas nacionais a serem realizadas por instâncias governamentais da administração pública direta e indireta; a reafirmação de que a defesa, a garantia e a promoção dos direitos humanos incluem o combate a todas as formas de discriminação e de violência e que, portanto, o combate à homofobia e a promoção dos direitos humanos de homossexuais é um compromisso do Estado e de toda a sociedade brasileira”. O Conselho Nacional de Combate à Discriminação - CNDC terá papel de suma importância nesse processo, uma vez que representa o coletivo da sociedade brasileira, e é o responsável pelo controle das ações que visem a promoção da igualdade e o fim da discriminação em todas as suas vertentes, onde se inclui o combate à discriminação com base na orientação sexual. Estão previstas avaliações anuais do Programa Brasil Sem Homofobia, sendo que, ao final do segundo ano, terá lugar processo de avaliação que envolverá organizações de defesa dos direitos de homossexuais e de defesa dos direitos humanos que, juntamente com o Governo Federal, definirá as bases para a sua continuidade. Passo a passo pelos Direitos Humanos Atividade deste Tópico Baseado no conteúdo do texto acima, escolha duas perguntas abaixo: 1)Comente a relação entre a discriminação sexual e as garantias fundamentais. 2)Por que a Constituição não prevê a união civil de homossexuais? 3)Investigue no site da Comissão de Direitos Humanos da assembléia de seu estado se sua cidade tem entidades de homossexuais. Solicite os endereços e investigue junto as mesmas a situação de violência contra os homossexuais no estado. 4)Como você trabalharia com o direito à livre orientação sexual e a pornografia? 5)Pesquise em seu município e dê um exemplo de crime homofóbico. Responda as perguntas escolhidas e encaminhe-as para o seu/sua tutor(a) pelo ambiente de capacitação. Links Português 85 http://www.insightnet.com.br/inteligencia/num12/m0812.htm http://www.pge.sp.gov.br/centrodeestudos/bibliotecavirtual/dh/volume%20ii/recesp154857.htm http://mixbrasil.uol.com.br/pride/seusdireitos/casamento.shl http://www.jaimefariasweb.hpg.ig.com.br/igualdade.htm http://lgbtlegal.planetaclix.pt/0000-004.htm#legis http://lgbtlegal.planetaclix.pt/temas/0000t_a.htm http://www.pge.sp.gov.br/centrodeestudos/bibliotecavirtual/dh/volume%20ii/ementario.htm#5.1.%20Direito%20à%20Igualdade%20e%20Não-Discriminação%20em%20virtude%20da%20Orientação% 20Sexual* 86 16. Direitos das Crianças e dos Adolescentes Ainda persiste em nosso país a cultura adultocêntrica, que percebe o mundo e a vida a partir da lente dos adultos. Dissemina-se a cultura da "menorização", em que crianças e adolescentes são vistos como seres inferiores, menores, em direitos e dignidade. A própria etmologia de infância aponta ao "infant", que é o sem voz e sem fala. Frise-se que, ao longo de décadas, as crianças não detinham qualquer autonomia. Eram integradas ao mundo dos adultos e conduzidas por rigida disciplina. No Brasil, vigorava, até a última década, a doutrina do "menor em situação irregular" (inspiradora do Código de Menores), o que traz a marca da herança cultural correicional, que só vê a criança em situação de irregularidade e não como uma pessoa dotada de dignidade. Foi somente com a Constituição Brasileira de 1988, com o Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei n.8069/90) e com a Convenção sobre os Direitos da Criança de 1989 (ratificada pelo Brasil em 24.09.90), que se introduziu, na cultura jurídica brasileira, um novo paradigma inspirado pela concepção da criança e do adolescente como verdadeiros sujeitos de direito, em condição peculiar de desenvolvimento. O novo paradigma introduzido pela CF 1988 e pela Convenção fomenta a doutrina da proteção integral à criança e ao adolescente. Consagra, deste modo, uma lógica e uma própria voltadas a assegurar a prevalência e a primazia do interesse superior da criança e do adolescente.Como afirma o texto constitucional criança é prioridade absoluta. Na qualidade de sujeitos de direito em condição peculiar de desenvolvimento, à criança e ao adolescente é garantido o direito à proteção especial. Sob a perspectiva dos direitos humanos, tanto a Convenção sobre os Direitos da Criança (1989), como a Constituição de 1988 e o Estatuto da Criança e do Adolescente (1990), traduzem uma visão integral dos direitos humanos das crianças e dos adolescentes, contemplando a indivisibilidade destes direitos, sua implementação recíproca e a igual importância de todos os direitos, sejam civis, políticos, sociais, econômicos ou culturais, consagrando a criança e o adolescente como indivíduos, portanto, cidadãos. No entanto, apesar da clareza dos comandos normativos nacionais e internacionais em atribuir direitos às crianças e aos adolescentes, testemunhamos um padrão de desrespeito aos mais elementares direitos humanos, de que são titulares as crianças e os adolescentes. Destacam-se, no quadro das graves violações aos direitos humanos das crianças e adolescentes: a) a violência, o abuso e a exploração sexual; b) o trabalho infantil; e c) o tratamento do adolescente em conflito com a lei.No que se refere, especificamente, ao adolescente em conflito com a lei, a situação é ainda mais caótica. A atribuição da autoria de prática de delitos gera freqüentemente a desqualificação dos adolescentes, como se estes deixassem de ser sujeitos de direitos e perdessem o estatuto de cidadania. Os adolescentes em conflito com a lei, os quais integram a categoria chamada de delinqüência juvenil, geram reações e sentimentos hostis de grupos sociais que não analisam o contexto sócio-econômico, político e cultural em que vivem. Normalmente, tais reações são imediatistas e expressam um desejo de simplesmente excluir, ainda mais, esta camada da população, sem que exista alguma mobilização para a transformação desta realidade1. Nota-se, também, um processo de culpabilização direcionado ao adolescente, à família deste e, até mesmo, ao Estatuto da Criança e do Adolescente. As instituições que acolhem esses menores considerados infratores se propõem a isolar, a punir ou educar? Em algum momento, essas menores vão sair. Será que a maioridade é o suficiente? Como será enfrentada a vida social após, por exemplo, dez anos de isolamento? Outra questão que recobre o fenômeno é a faixa etária. Nesse aspecto, a idade de 18 anos é uma marca, uma vez que, a partir daí, quem infringe a lei vai para os presídios. Além disso, surge a questão social. Dificilmente, entre aqueles menores, existe algum que pertença à classe média ou média alta. Portanto estes menores são, na maioria, provenientes de lares carentes. Mas isso não quer dizer que ser violento é sinônimo de carente. Se isso fosse verdade, estaríamos transformando a periferia da cidade em viveiros de menores violentos que teriam que ser isolados para poder deixar a sociedade livre de suas atitudes e comportamentos violentos 87 Daí a importância de identificar as mais graves violações e de se "desnaturalizar" as desigualdades, bem como o padrão de violência estrutural, sistemática e persistente, que afeta diversamente crianças e adolescentes, dependendo de sua raça, etnia, gênero, região, dentre outros critérios. A pertença a estas diversas raças, etnias, gênero não pode difcultar o pleno e livre exercício dos direitos humanos, mitigando a dignidade e restringindo as potencialidades destes sujeitos de direitos. Atente-se ainda que a discriminação implica em pobreza e que a pobreza implica em discriminação. No Brasil, as crianças e os adolescentes representam 61 milhões (35,9% da população local). Deste universo, 45% do total de crianças e adolescentes são pobres, sendo que 71% das crianças indígenas o são e 58% das crianças negras também. Adicione-se que 74% das crianças e adolescentes da área rural são pobres - o dobro da percentagem encontrada nas áreas urbanas. Neste contexto, é essencial a apropriação de novos valores e a implementação dos parâmetros constitucionais e internacionais, que afirmam as crianças e adolescentes como verdadeiros e efetivos sujeitos de direito, em condição peculiar de desenvolvimento, a merecer especial proteção. Como exemplo de um amplo esforço de articulação e integração entre governo e sociedade civil organizada capaz de promover a necessária sinergia entre as várias ações que afetam a qualidade de vida das crianças e dos adolescentes, o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva assumiu o compromisso de garantir, na sua gestão, prioridade às políticas voltadas para promover os direitos de cidadania às crianças e aos adolescentes brasileiros. Em resposta a este compromisso a Fundação Abrinq pelos Direitos da Criança apresentou o Plano Presidente Amigo da Criança e do Adolescente, que prima pelo respeito à legislação brasileira expressa na Constituição Federal de 1988 e no Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA, o qual foi lançado na última Conferência Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente, em dezembro de 2003. O Plano observa os acordos internacionais relativos à criança e ao adolescente ratificados pelo Brasil na Convenção Internacional sobre os Direitos da Criança de 1989 e, particularmente, na Seção Especial pela Criança realizada pela ONU em 2002, que estabeleceu no documento “Um Mundo para as Crianças” os compromissos de: promover vidas saudáveis; prover educação de qualidade, proteger contra abuso, proteção e violência e combater HIV/AIDS. A responsabilidade pela implementação do Plano será de uma Comissão Interministerial, coordenada pela Secretaria Especial de Direitos Humanos e composta por representantes dos seguintes órgãos: Ministério da Assistência Social; Ministério das Cidades; Ministério da Educação; Ministério Extraordinário da Segurança Alimentar e Combate à Fome; Ministério da Integração Nacional; Ministério da Justiça; Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão; Ministério da Saúde; Ministério do Trabalho Emprego; Secretaria Especial dos Direitos Humanos; Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, e Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente. A Rede de Monitoramento Amiga da Criança acompanhará a implementação dos compromissos de gestão do Plano Presidente Amigo da Criança, analisando os avanços das metas nas áreas de educação, saúde e proteção, e propondo recomendações Um outro exemplo é o Plano Nacional de Prevenção e Erradicaçãodo Trabalho Infantil, a ser lançado em junho de 2004, elaborado pela Comissão Nacional de Combate ao Trabalho Infantil – Conaeti – no âmbito do Ministério do Trabalho e Emprego, a partir das diretrizes propostas pelo Fórum Nacional de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil – FNPETI (articulação quadripartite, responsável pela articulação de políticas de enfrentamento ao trabalho infantil no Brasil) É emergencial romper, em definitivo, com as reminiscências de uma cultura e prática autoritárias, que inibem a construção emancipatória dos direitos humanos das crianças e adolescentes, violando, sobretudo, seu direito fundamental ao respeito e à dignidade. 88 Passo a passo pelos Direitos Humanos Atividade deste Tópico Baseado no conteúdo do texto acima, escolha duas perguntas abaixo: 1)Quantos conselhos tutelares há no seu município? O que eles fazem pelo ECA? 2)Relate situações de violação aos direitos da criança e do adolescente, tentando identificar as atitudes que foram tomadas para apurar as responsabilidades e que resultados geraram na defesa de direitos de crianças e adolescentes em seu município? 3)Procure na sua cidade , junto a vara da infância, os conselhos de direitos da criança e do adolescente, a pastoral do menor e da criança, dados sobre o adolescente em situação de risco social. 4)Você é a favor da redução da idade para a responsabilização penal dos adolescentes brasileiros 5)Descubra em seu município uma entidade que trabalhe com direito da criança e do adolescente e relate um trabalho desenvolvido por ela que tem como base a doutrina da proteção integral. Responda as perguntas escolhidas e encaminhe-as para o seu/sua tutor(a) pelo ambiente de capacitação. Links Português http://www.dhnet.org.br/direitos/brasil/legislativo/cdhcf/Cartilha_CDH/08_CriancaAdolescent.htm http://www.dhnet.org.br/direitos/sos/moradia/CidadesDH/01_Criancas.html http://www.advogado.adv.br/artigos/2001/sgtcordeiro/vilenciacrianca.htm http://www.senado.gov.br/web/conleg/artigos/politicasocial/mudancasgeradaspeloEstatuto.pdf http://www.socioeducando.org.br/vf_ambito-a.htm http://www.mj.gov.br/exploracao/servicos/legislacao/eca.pdf http://www.mj.gov.br/exploracao/servicos/publicacoes/protocolo.pdf http://www.mj.gov.br/sedh/ct/conanda/diretrizes1.htm http://copsa.cop.es/congresoiberoa/base/juridica/jt27.htm http://www.mj.gov.br/sedh/dca/reinsoc.htm http://www.mj.gov.br/sedh/ct/conanda/plano_nacional.pdf http://www.pgt.mpt.gov.br/publicacoes/cartilha_mpt.pdf 89 17. Direito dos Idosos A Política Nacional do Idoso tem por objetivo assegurar os direitos sociais do idoso, criando condições para promover sua autonomia, integração e participação efetiva na sociedade e foi instituída pela Lei 8.842, de 4/01/1994. A Política apontou para as seguintes diretrizes: viabilização de formas alternativas de participação, ocupação e convívio do idoso, que proporcionem sua integração à demais gerações; participação do idoso, através de suas organizações representativas, na formulação, implementação e avaliação das políticas, planos, programas e projetos a serem desenvolvidos; priorização do atendimento ao idoso através de suas próprias famílias, em detrimento do atendimento asilar, à exceção dos idosos que não possuam condições que garantam sua própria sobrevivência; A Constituição de 1988 também reconhece a especificidade dos idosos como sujeitos de direito. Assim é que o Art. 230 estatui que a família, a sociedade e o Estado têm o dever de amparar as pessoas idosas, assegurando sua participação na comunidade, defendendo sua dignidade e bem-estar e garantindo-lhes o direito à vida. Tal perspectiva foi explicitada e regulamentada, em boa hora, com a recente promulgação do "Estatuto do Idoso" (Lei Federal nº 10.741 de 03 de outubro de 2003). O novo Estatuto é um marco jurídico para a proteção especial ao idoso, considerando sua peculiar vulnerabilidade, suas demandas e seus direitos especiais. Considere, nesse ponto, o aumento considerável da população idosa no Brasil e no mundo, em face da elevação da expectativa de vida e da redução da taxa de fecundidade. O fenômeno do aumento da expectativa de vida, por si só, demandará a revisão dos conceitos de infância, juventude e velhice. A título de exemplo, cabe citar o caso norte-americano: em 1900 a expectativa de vida girava em torno de 46 anos, enquanto que em 2000 gira em torno de 80 anos. Vale dizer, em 100 anos houve o prolongamento da vida em 34 anos. Seguramente, em virtude dos avanços da biotecnologia, se imaginarmos o ano 2100, a população norte-americana viverá no mínimo 115 anos. Quem será o(a) idoso (a) neste contexto, se aos sessenta anos estar-se-ia a alcançar a metade da vida? De todo modo, pode-se afirmar que o Estatuto significa um divisor de águas: há a proteção aos idosos pré e pós o Estatuto do Idoso. A proposta não é apenas garantir a vida no âmbito quantitativo (quanto se vive), mas, sobretudo, no âmbito qualitativo (como se vive). O Estatuto tem o grande mérito de dar visibilidade ao idoso enquanto pleno sujeito de direito, a demandar especial proteção. É, assim, previsto um universo de direitos às pessoas com idade igual ou superior a 60 (sessenta) anos, que vem a regulamentar o comando constitucional do artigo 230. Neste âmbito, dois princípios merecem destaque: a) o princípio da proteção integral; e b) o princípio da absoluta prioridade ao idoso. Quanto ao princípio da proteção integral, o Estatuto reflete a indivisibilidade, interdependência e inter-relação dos direitos humanos. Consagra aos idosos tanto os direitos civis e políticos, como os direitos sociais, econômicos e culturais, no marco da proteção integral dos direitos, a fim de que todo idoso possa viver em condições de liberdade e dignidade. Deste modo, é obrigação da família, da comunidade, da sociedade e do Poder Público assegurar ao idoso, com absoluta prioridade, a efetivação do direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, à cultura, ao esporte, ao lazer, ao trabalho, à cidadania, à liberdade, à dignidade, ao respeito e à convivência familiar e comunitária. Quanto ao princípio da prioridade, o Estatuto afirma que a garantia de prioridade compreende, por exemplo, o atendimento preferencial imediato e individualizado junto aos órgãos públicos e privados prestadores de serviços à população; a preferência na formulação e na execução de políticas sociais públicas específicas; a destinação privilegiada de recursos públicos nas áreas relacionadas com a proteção ao idoso; dentre outras medidas. O Estatuto ainda estabelece que nenhum idoso será objeto de qualquer tipo de negligência, discriminação, violência, crueldade ou opressão, prescrevendo crimes e prevendo penas aos atos que violem os direitos 90 dos idosos. Para combater a violência e garantir os direitos dos idosos, o Governo federal, em consonância com o Estatuto do Idoso, está avaliando a implantação e implementação do Plano Nacional de Enfrentamento à Violência contra o Idoso. O documento traz ações conjuntas da Secretaria Especial de Direitos Humanos, Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e Ministério da Saúde, Justiça, Cidades, do Desenvolvimento Social e Combate à Fome e do Esporte e Lazer. As ações propostas variam desde a implantação de infra-estrutura e obras para facilitar a locomoção de idosos e deficientes físicos, medidas para melhorar a vida do idoso que está preso até a realização de campanhas de sensibilização junto à sociedade. O plano também propõe monitorar e avaliar o funcionamento das instituições de longa permanência para os idosos. A proposta do Ministério da Saúde é inspecionar a cada ano 50% das instituições asilares brasileiras e, num prazo de dois anos, traçar um diagnóstico. Em suma, o Estatuto, de forma inédita, vem a consagrar a todos o direito a um envelhecimento digno, endossando à pessoa idosa a condição de pleno sujeito de direito. A implementação do Estatuto do Idoso exigirá que a cultura jurídica seja capaz de introjetar novos valores, novasreferências e um novo paradigma quanto aos direitos dos idosos. A legislação parece mais avançada que a própria realidade. Deve, assim, ser instrumento para uma ação ousada, transformadora e emancipatória, que permita aos idosos viver com respeito e com dignidade, na qualidade de verdadeiros e plenos sujeitos de direitos. No campo dos direitos humanos, além das inovações legais, faz-se fundamental a mudança cultural. É apenas por meio da mudança de mentalidade e de visão do mundo que as legislações protetivas aos direitos humanos (compreendendo, por exemplo, a lei que pune a tortura; a lei que pune o racismo; o Estatuto da Criança e do Adolescente, dentre tantas outras) terão vitalidade e eficácia. Passo a passo pelos Direitos Humanos Atividade deste Tópico Baseado no conteúdo do texto acima, escolha duas perguntas abaixo: 1)Pesquise em um asilo de seu município e procure saber como é o tratamento ao idoso, orçamentos destinados ao local, pessoal especializados, enfim se estão dentro dos parâmetros de respeito do Estatuto do Idoso. 2)Com a aprovação do Estatuto do Idoso, o Brasil tenta resgatar direitos de cidadania de importante segmento da população. Descreva situações de desrespeito aos idosos em seu município. Como você poderia agir em defesa dos direitos da pessoa idosa? 3)Procure no IBGE ou site, ou site do conselho nacional do idoso, dados sobre a velhice no Brasil e no estado. Procure se na cidade existem asilos, abrigos, grupos de idosos, conselhos de idosos e outros grupos que atendem idosos. 4)Você acha que a previdência social respeita o direito dos idosos? 5)O que mudou na História dos Direitos Humanos após a segunda guerra mundial? Responda as perguntas escolhidas e encaminhe-as para o seu/sua tutor(a) pelo ambiente de capacitação. Links Português http://www.mp.rn.gov.br/download%5Cartigo02.pdf 91 http://www.mpdft.gov.br/Orgaos/PromoJ/prodide/direitos_id.htm http://www.dhnet.org.br/direitos/sos/cartilha/CartilhaPB/53_DireitoIdoso.html http://www.direitodoidoso.com.br/direitos_idoso.html http://www.direitodoidoso.com.br/01/artigo021.html http://www.microservicenet.com.br/web/portal/na_cidade_juridica.asp?ID=11 http://www2.senado.gov.br/web/relatorios/destaques/2003057rf.pdf http://www2.senado.gov.br/web/relatorios/destaques/2003057rf.pdf 92 18. Direitos das Pessoas Portadoras de Deficiência Não se sabe ao certo qual é o número de pessoas portadoras de deficiência no Brasil. Todavia, podemos afirmar que se trata de expressivo número de brasileiros(as), que vêm sendo apartados(as) da vida social e que, apenas recentemente, receberam proteção constitucional. A história constitucional brasileira revela que, dispositivos específicos acerca dos direitos das pessoas portadoras de deficiências, somente puderam ser observados a partir de 1978, com a edição da Emenda Constitucional 12/78, que representou um marco na defesa deste grupo. Seu conteúdo pode ser considerado abrangente, uma vez que compreendia os principais direitos das pessoas portadoras de deficiência (educação, assistência e reabilitação, proibição de discriminação e acessibilidade). A Carta de 1988 manteve os direitos que já eram previstos na Emenda Constitucional 12/78, conferindo-lhes maior detalhamento e especificidade, bem como fixando as atribuições executivo-legislativas de cada estado. Vale destacar que o momento histórico de 1988 favoreceu a participação democrática das associações "de/para" deficientes no processo de elaboração da Carta Magna, o que permitiu a ampla incorporação dos direitos então reivindicados por este grupo. Ressalte-se, ainda, que a Constituição sofreu a influência e o impacto de um movimento crescente de tutela da pessoa portadora de deficiência no âmbito internacional. A Carta Brasileira de 1988, ao revelar um perfil eminentemente social, impõe ao poder público o dever de executar políticas que minimizem as desigualdades sociais e é neste contexto que se inserem os sete artigos constitucionais (Art. 7º, XXXI; Art. 23, II; Art. 24, XIV; Art. 37, VIII; Art. 203, IV e V; Art. 227, Parágrafo 1º, II e Parágrafo 2º e Art. 224) atinentes às pessoas portadoras de deficiência. Estes dispositivos devem ser aplicados de modo a consagrar os princípios da dignidade humana, da igualdade, da cidadania e da democracia. Vale dizer, a elaboração legislativa, a interpretação jurídica e o desenvolvimento das atividades administrativas devem se pautar por estes princípios, a fim de alcançar o ideal de uma sociedade mais justa, democrática e igualitária. Com a Constituição Federal de 1988 verificam-se, portanto, relevantes avanços no plano do direito, reconhecidos, inclusive, pelos próprios interessados. Todavia, passados mais de quinze anos de vigência desta Carta, mesmo com a previsão especificada dos direitos das pessoas portadoras de deficiência, bem como dos instrumentos garantidores destes direitos, a violação subsiste e a concretização dos dispositivos constitucionais ainda constitui meta a ser alcançada. O problema reside na falta de efetividade das referidas normas, pois nem o Poder Público, nem a sociedade, em geral, possuem sensibilidade suficiente para lidar com a questão dos portadores de deficiência.. Para tanto, é fundamental a efetiva implementação de sua força normativa, pelos diversos atores sociais, o que compreende uma cultura vigilante e praticante da Constituição, por meio de uma cidadania popular ativa e combativa, bem como da atuação dos Poderes Legislativo, Executivo e Judiciário, um dos principais responsáveis pelo cumprimento da Lei Maior. No âmbito infra-constitucional, a legislação federal é satisfatória, na medida em que abarca praticamente todos os direitos da pessoa portadora de deficiência e prevê a criação de instituições para elaborar e implementar políticas, programas, planos e projetos referentes aos seus principais direitos. O assunto que maior atenção mereceu por parte dos legisladores brasileiros foi a inserção no trabalho da pessoa portadora de deficiência, em conformidade com os comandos constitucionais dos valores do trabalho e da dignidade humana. Existem, todavia, algumas lacunas a serem preenchidas, tais como, normas sobre combate à exploração, assistência à família e acessibilidade para portadores de deficiência sensorial (já que grande parte das leis existentes refere-se à deficiência motora). Além destas omissões, constata-se que a legislação federal é abundante e dispersa; tem sido elaborada 93 sem a participação da sociedade civil e a falta de fiscalização tem limitado sua eficácia. Em relação à atuação governamental, nota-se que as esferas federal, estadual e municipal contemplam programas nas áreas de educação, saúde, trabalho e previdência, lazer e acessibilidade, o que indica a existência de uma mudança em curso. Com efeito, há alguns anos as questões relativas a este grupo sequer eram mencionadas. A previsão de programas mostra uma gradual incorporação da causa das pessoas portadoras de deficiência na agenda governamental, reflexo dos avanços constitucionais. Na esfera do governo federal, inicialmente no âmbito do Ministério da Justiça, foi criado através da Medida Provisória 1799-6/1999 o Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa Portadora de Deficiência – órgão superior de deliberação colegiada. Em maio de 2003, o CONADE passou a ser vinculado à Presidência da República, por meio da Secretaria Especial de Direitos Humanos, através da Lei 10683/2003. O CONADE tem como principal competência, acompanhar e avaliar o desenvolvimento da Política Nacional para integração da Pessoa Portadora de Deficiência e das políticas setoriais de educação, saúde, trabalho, assistência social, transporte, cultura, turismo, desporto, lazer e política urbana dirigidas a este grupo social. A função de implementar a Política Nacional e orientar sua atuação tanto do ponto de vista normativo e regulador das ações nesta área no âmbito federal , quanto para a articulação de políticas públicas existentes em todas as esferas governamentais foi instituída,por meio da Lei 7.853/89 e do Decreto 3.298/99, a Coordenadoria Nacional para a Integração da Pessoa Portadora de Deficiência – órgão de Assessoria da Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República. Entretanto, títulos de programas não são indicativos de respeito aos direitos das pessoas portadoras de deficiência. A exemplo do que ocorre com a legislação, os inúmeros programas e políticas públicas existentes são elaborados sem a consulta e participação da sociedade civil (ou com participação fictícia) e não são implementados. Na opinião de entidades representativas dos direitos das pessoas portadoras de deficiência, a falta de implementação deve-se ao abismo entre as propostas de governo e sua execução, quer seja por motivos políticos, quer seja pela ausência de capacitação e sensibilidade dos agentes estatais incumbidos de executá-las. Porém, a maior dificuldade está na ausência de conscientização da sociedade, bem como no desenvolvimento de uma cultura inclusiva, os mais eficazes meios de garantir o respeito às pessoas portadoras de deficiência. Passo a passo pelos Direitos Humanos Atividade deste Tópico Baseado no conteúdo do texto acima, escolha duas perguntas abaixo: 1)Que outras medidas você apontaria para a falta de atendimento urbano aos portadores de deficiência? 2)As pessoas portadoras de necessidades especiais de sua região têm encontrado dificuldades para se inserirem na sociedade? Quais medidas são tomadas para que a inserção se dê de forma completa? 3)Visite uma entidade que atenda as pessoas portadoras de necessidades especiais e investigue como esta o acesso deles à escola, ao trabalho, ao esporte, ao transporte e a cultura. 4)Como encarar as necessidades especiais das pessoas que convivem com você, à luz dos direitos humanos? 5)Quais são as ações que o poder municipal pode tomar para facilitar a acessibilidade das pessoas portadoras de deficiência? Responda as perguntas escolhidas e encaminhe-as para o seu/sua tutor(a) pelo ambiente de capacitação. 94 Links Português http://www.deficiente.com.br/modules.php?name=News&file=article&sid=392 http://www.pgt.mpt.gov.br/publicacoes/pub05.html http://www.pgt.mpt.gov.br/publicacoes/pub59.html http://www.camara.gov.br/internet/diretoria/conleg/Notas/306981.pdf http://www.dhnet.org.br/oficinas/dhparaiba/5/deficiente.html http://www.entreamigos.com.br/Semimagem/textos/xdireito/xespedef.htm http://www.ampid.org.br/inst_estatuto.asp http://www.interlegis.gov.br/cidadania/20020108135559/20031208112349/view 95 19. Garantias Constituicionais: Habeas Corpus, Mandado de Segurança e Ação Popular As garantias ou remédios constitucionais são ações judiciais que permitem ao cidadão invocar a proteção do Poder Judiciário em caso de ameaça ou de violação de direitos humanos por um agente público. Daí a idéia de "remédio constitucional". São ações constitucionalmente previstas para fazer cessar uma ameaça ou violação de direitos fundamentais do cidadão. O habeas corpus é a ação que pode ser utilizada quando houver ameaça ou violação do direito da liberdade de ir e vir. Nos termos do Art. 5º, inciso LXVIII, conceder-se-á habeas corpus sempre que alguém sofrer ou se achar ameaçado de sofrer violência ou coação em sua liberdade de locomoção, por ilegalidade ou abuso de poder. Esse remédio geralmente é utilizado contra o abuso de autoridade policiais do poder de prisão, infelizmente, muitas vezes praticadas ilegalmente. Trata-se de uma cultura herdada de nossa história político-social autoritária e arbitrária que só o fortalecimento das instituições e práticas democráticas pode mudar. O habeas corpus tem sido um útil instrumento para tal mudança. Trata-se, portanto, de remédio destinado a garantir o direito de liberdade de locomoção, liberdade de ir, vir e permanecer. Tem natureza de ação constitucional penal. O Mandado de Segurança é a ação constitucional destinada a proteger as ameaças ou violações, por autoridades ou agentes delegados, de todos os direitos que não sejam tutelados por habeas corpus ou habeas data. A Constituição prevê duas espécies de mandado de segurança: o mandado de segurança individual e o mandado de segurança coletivo. Passamos a considerar o primeiro, deixando o segundo para o próximo item. Dispõe a Constituição em seu Art. 5, inciso LXIX, "conceder-se-á mandado de segurança para proteger direito líquido e certo, não amparado por habeas corpus ou habeas data, quando o responsável pela ilegalidade ou abuso de poder for autoridade pública ou agente de pessoa jurídica no exercício de atribuições do Poder Público". Esse remédio, como se nota, ampara o direito pessoal líquido e certo, ou seja, o direito expresso em norma constitucional ou legal e que traz em si todos os requisitos para ser exercido pela pessoa que sofre a ilegalidade ou abuso de poder por qualquer agente público ou agente de pessoas jurídicas privadas que executem, a qualquer título, atividades, serviços e obras públicas. O mandado de segurança é um remédio constitucional, com natureza de ação civil, que constitui um poderoso instrumento em favor do cidadão contra eventuais e freqüentes desmandos e ilegalidades praticadas pelos que ocupam cargos ou exercem funções públicas. A Ação Popular é também um poderoso instrumento em favor da cidadania ativa, de vez que qualquer cidadão é parte legítima para propor ação popular que vise a anular ato lesivo ao patrimônio público ou de entidade de que o Estado participe, à moralidade administrativa, ao meio ambiente e ao patrimônio histórico e cultural, ficando o autor, salvo comprovada má-fé, isento de custas judiciais e do ônus da sucumbência (Art. 5º, inciso LXXIII). Essa é uma ação que visa a permitir a qualquer cidadão que fiscalize ou denuncie o mau uso da coisa pública. Nesse caso, o cidadão atua não apenas em seu interesse pessoal, mas no interesse da coletividade. O autor popular faz valer um interesse que lhe cabe como membro da comunidade. A ação deve visar a defesa de direito ou de interesse público. Trata-se de um remédio constitucional pelo qual qualquer cidadão fica investido de legitimidade para o exercício de um poder de natureza essencialmente política, e constitui manifestação direta da soberania popular, consubstanciada no Art. 1º, parágrafo único da Constituição: todo poder emana do povo, que o exerce por meio de seus representanes eleitos ou diretamente. Sob esse aspecto, é uma garantia constitucional política. É uma forma de participação do cidadão na vida pública, no exercício que lhe pertence primariamente. 96 A atuação do cidadão é facilitada pela inexistência de custas judiciais ou de encargos de sucumbência, ou seja, o cidadão não precisa pagar nada para mover a ação, nem se perder, salvo se a tiver movido por má- fé, visando, por exemplo, prejudicar um inimigo político (o que caracterizaria um desvio da finalidade pública e impessoal da ação popular. Vale ressaltar que assim como o habeas corpus e o mandado de segurança, a ação popular já era admitida em Constituições anteriores, mas a Constituição de 1988 inovou ao alargar o objeto da ação popular para incluir a defesa e a fiscalização cidadã da moralidade administrativa (muitas vezes um ato administrativo legal pode ser manipulado de forma imoral e prejudicial ao interesse publico), do meio ambiente e do patrimônio histórico e cultural. Vale insistir que a ação popular deriva da soberania popular e do princípio republicano. A res (coisa) é pública. Daí a república. Se a coisa é do povo, a este cabe o direito de fiscalizar aquilo que é seu. Atividade deste Tópico Baseado no conteúdo do texto acima, escolha duas perguntas abaixo: 1)A Ação Popular pode investir contra assuntos do poder público, como por exemplo, a não- garantia de vagas na escola pública? 2)Qual o principal direito resguardado pelo Habeas Corpus? 3)Defina mandado de segurança e ação popular. 4)Procure uma defensoria pública da sua cidade ou uma ONG e procure saber quais as medidas jurídicas o advogado já implementou em funçãoda causa individuais ou coletivas em defesa dos direitos humanos. Responda as perguntas escolhidas e encaminhe-as para o seu/sua tutor(a) pelo ambiente de capacitação. Links Português http://www.cidh.oas.org/countryrep/brazil-port/Cap%201.htm http://www.loveira.adv.br/material/tc11.htm http://www.dhnet.org.br/direitos/brasil/leisbr/acesso/habeascorpus/ http://www.unimep.br/fd/ppgd/cadernosdedireitov11/15_Artigo.html http://www.dhnet.org.br/oficinas/goias/acesso/acaopopular.html http://www.direito.com.br/Doutrina.ASP?O=1&T=1778 http://www.dhnet.org.br/direitos/brasil/leisbr/acesso/acaopopular/sosap.htm http://www.rits.org.br/legislacao_teste/lg_testes/lg_tmes_abril2001.cfm http://www.dji.com.br/constitucional/mandado_de_seguranca.htm http://www.dhnet.org.br/oficinas/goias/acesso/mandato.html http://www.dji.com.br/constitucional/mandado_de_seguranca.htm http://www.dhnet.org.br/oficinas/goias/acesso/mandato.html 97 98 20. Novas Garantias Constitucionais: Mandado de Segurança Coletivo, Habeas Data e Mandado de Injunção O Mandado de Segurança Coletivo é um remédio constitucional com as mesmas finalidades já vistas do Mandado de Segurança Individual. A diferença reside na legitimidade ativa (quem pode propor a ação) e no objeto (circunstâncias e defesa de que espécies de direito). Nos termos do Art. 5º, inciso LXX, da Constituição Federal, o mandado de segurança coletivo pode ser impetrado por: a) partido político com representação no Congresso Nacional; b) organização sindical, entidade de classe ou associação legalmente constituída e em funcionamento há pelo menos um ano, em defesa dos interesses de seus membros ou associados. Portanto, o mandado de segurança coletivo assenta-se em dois elementos: um, institucional, caracterizado pela atribuição de legitimação processual a instituições associativas para defesa de interesses de seus membros ou associados; outro, objetivo, caracterizado pelo uso do remédio para a defesa de interesses coletivos. O habeas data é um remédio constitucional que tem por objeto proteger a esfera íntima dos indivíduos contra: a) usos abusivos de registros de dados pessoais coletados por meios fraudulentos, desleais ou ilícitos; b) introdução nesses registros de dados sensíveis (assim chamados os de origem racial, opinião política, filosófica ou religiosa, filiação partidária e sindical, orientação sexual, etc.); c) conservação de dados falsos ou com fins diversos dos autorizados em lei. O habeas data contempla o direito de conhecer dados pessoais e de retificá-los, tal como previsto no Art. 5º, LXXII da Constituição: conceder-se-á habeas data: a) para assegurar o conhecimento de informações relativas á pessoa do impetrante, constantes de registros ou bancos de dados de entidades governamentais ou de caráter público; b) para a retificação de dados, quando não se prefira fazê-lo por processo sigiloso, judicial ou administrativo. Note que o direito de reconhecer e retificar os dados, assim como o de impetrar o habeas data para fazer valer esse direito quando não espontaneamente prestado, é personalíssimo (exclusivo) do titular dos dados. Ninguém poderá fazê-lo por ele. Pode-se dizer que o reconhecimento do cidadão de dispor dos dados pessoais eqüivale ao seu direito de dispor do livremente do próprio corpo. Assim, todos temos o direito de saber que tipo de informações o poder público tem a nosso respeito e, se houver equívocos ou dados não verdadeiros, temos o direito garantido por habeas data de retificá-los. O Mandado de Injunção é uma nova garantia instituída no Art. 5ª, inciso LXXI da Constituição de 1988, com o seguinte enunciado: conseder-se-á mandado de injunção sempre que a falta de normas regulamentadoras torne inviável o exercício de direitos e liberdades constitucionais e das prerrogativas inerentes à nacionalidade, à soberania e à cidadania. Constitui um remédio ou ação constitucional posto à disposição de quem se considere titular de um direito, liberdade ou prerrogativa previsto na Constituição, mas cujo exercício depende de norma regulamentadora exigida pela própria Constituição, mas ainda não elaborada pelo órgão do Poder Legislativo ou Executivo competente. Sua principal finalidade consiste assim em conferir imediata aplicabilidade à norma constitucional portadora daqueles direitos e prerrogativas, inerte em virtude de falta de regulamentação. Isto deve ocorrer através da edição de norma regulamentadora para o caso concreto pelo próprio Poder Judiciário. Revela-se, neste sentido, como um instrumento de realização prática da disposição do Art. 5º, parágrafo 1º, que estatui: as normas definidoras de direitos e garantias fundamentais têm aplicabilidade imediata. Portanto, podemos dizer que o mandado de injunção foi criado pela Constituinte em atendimento ao reclamo generalizado pela busca de uma maior efetividade do exercício de direitos constitucionais. Contudo, é de se lamentar, que, passados mais de quinze anos de vigência da Constituição, inegavelmente 99 o mandado de injunção não atendeu, de modo significativo, às expectativas criadas com a sua introdução. A principal causa de tal frustração de propósitos reside na posição jurisprudencial adotada pela maioria do Supremo Tribunal Federal (órgão máximo do Poder Judiciário), que esvazia de funcionalidade o novo instituto. Isto é, para o STF o mandado de injunção não tem por finalidade tornar viável o exercício de um direito constitucional, que se encontrava obstado por faltar norma regulamentadora. Nna linha da decisão lavrada no julgamento do Mandado de Injunção nº 107-3-DF, afirma-se que: "É ele (o mandado de injunção)... ação que se propõe contra o Poder, órgão, entidade ou autoridade omissos quanto a norma regulamentadora necessária à viabilização do exercício dos direitos, garantias e prerrogativas a que alude o art. 5º, LXXI da Constituição, e que se destina a obter sentença que declare a ocorrência da omissão constitucional, com a finalidade de que se dê ciência ao omisso dessa declaração, para que adote as providências necessárias,..." Vê-se que o entendimento do Supremo Tribunal Federal foi no sentido de que o mandado de injunção tem natureza mandamental (ou seja, através dele o judiciário "manda" que o poder omisso supra a omissão), o sujeito passivo, contra quem se move o mandado, é o poder órgão ou entidade omissos, e a finalidade da ação é a declaração da omissão, com mera ciência ao omisso para que adote as providências necessárias. Ocorre que, geralmente, o poder omisso é o Legislativo Federal, corporificado no Congresso Nacional, ou o poder Executivo, os quais tomam ciência da declaração de sua omissão, mas não tomam qualquer providência para supri-la. Ou seja, a interpretação dada ao mandado de injunção pelo Supremo Tribunal Federal (STF) torna o remédio constitucional inócuo. Ao isentar-se de prover a norma regulamentadora para o caso concreto, o poder Judiciário acaba também por se tornar omisso diante de um remédio constitucional criado justamente para suprir omissões que inviabilizem o exercício de direitos. Diante da crítica generalizada e com a recente nomeação de três novos Ministros para o STF, renasce a esperança de que o remédio constitucional venha a cumprir sua finalidade. Atividade deste Tópico Baseado no conteúdo do texto acima, escolha duas perguntas abaixo: 1)Defina mandado de Segurança Coletivo, Hábeas Data e Mandado de Injunção 2)Analise o esvaziamento do mandado de injunção pelo STF. 3)Comente a seguinte frase: “...dispor dos dados pessoais equivale ao seu direito de dispor do livremente do próprio corpo...” 4)Para quem surge a obrigação decorrente de um Mandado de Injunção? Responda as perguntas escolhidas e encaminhe-as para o seu/sua tutor(a) pelo ambiente de capacitação. Links Português http://www.pgmfortaleza.ce.gov.br/artigos/vol3/vol03artigo12.htm http://www.loveira.adv.br/material/tc11.htm http://www.geocities.com/flavioriche/MSColetivo.htm http://www.dhnet.org.br/direitos/brasil/leisbr/acesso/msegcoletivo/sosmsc.htm http://www.dhnet.org.br/oficinas/goias/acesso/mcoletivo.html100 http://www.dhnet.org.br/direitos/brasil/leisbr/acesso/habeasdata/sosdata.htm http://www.dhnet.org.br/direitos/brasil/leisbr/acesso/habeasdata/HabeasData.html http://www.anamatra.org.br/hotsite/3congresso/docs/mandado_injuncao.pdf http://www.fdc.br/artigos/mi.htm http://www.datavenia.net/artigos/2001/art2.html http://www1.jus.com.br/doutrina/texto.asp?id=127 http://www.jfrn.gov.br/docs/doutrina181.doc http://www.dhnet.org.br/direitos/brasil/leisbr/acesso/injuncao/sosmi.htm 101 Unidade III - DIREITOS HUMANOS NA PRÁTICA 102 1. Secretaria Especial dos Direitos Humanos: Antecedentes Históricos A Secretaria Nacional de Direitos Humanos (SNDH) foi criada na estrutura regimental do MJ -no ano de 1997-em substituição à Secretaria dos Direitos da Cidadania (SDC). Cabia a antiga SDC: promover e defender os direitos da cidadania, , da mulher e das minorias; promover e defender os direitos humanos e encaminhar providências em casos de violações, desenvolver estudos e encaminhar providências referentes às liberdades públicas, atuar junto às instituições que representam os direitos da cidadania, na comunidade, adotar medidas de defesa dos interesses difusos em articulação com o Ministério Público, formular, normatizar e coordenar- em todo o Brasil- a política de defesa dos direitos da criança e do adolescente e defender os direitos das pessoas portadoras de deficiência. A SNDH foi criada e ampliou as competências da SDC passando a se responsabilizar também por: coordenar, gerenciar e acompanhar a execução do Programa Nacional de Direitos Humanos, promover a cooperação com os Organismos Internacionais, e coordenar a escolha e entrega do Prêmio Nacional de Direitos Humanos. Em 1 de janeiro de 1999, a SNDH foi transformada em Secretaria de Estado dos Direitos Humanos (SEDH), atribuindo a seu titular o status de ministro de Estado, com prerrogativa de assento nas reuniões ministeriais. Com a criação da Secretaria de Estado dos Direitos da Mulher (SEDIM), em 08 de maio de 2002, no âmbito do MJ, as ações de defesa e garantia dos direitos da mulher, vale dizer: gestão do Programa de Defesa dos Direitos da Mulher, e apoio administrativo ao Conselho Nacional dos Direitos da Mulher saíram da competência da SEDH e passaram a ser de responsabilidade da SEDIM. O que dotou os dois órgãos de maior especificidade em sua área de atuação. Em 01 de janeiro de 2003, o novo governo do Presidente Luis Inácio Lula da Silva criou a Secretaria Especial dos Direitos Humanos, a Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres e a Secretaria de Igualdade Racial. As duas Secretarias Especiais integram a estrutura da presidência da República exercendo seus titulares Nilmario Miranda (SEDH) e Nilcéa Freire (SEPM)- de fato e de direito- o cargo de Ministros de Estado. A transformação e engrandecimento das instituições de direitos humanos na estrutura do Estado brasileiro demonstram que o tema é cada vez mais uma preocupação da sociedade como um todo- Governo e Sociedade Civil. Atividade deste Tópico Baseado no conteúdo do texto acima, escolha duas perguntas abaixo: 1)Quando foi criada a Secretaria Especial de Direitos Humanos ? 2)Discorra sobre a necessidade histórica da Secretária Especial dos Direitos Humanos - SEDH. 3)Quais as competências da SEDH? 4)Pesquise no site da SEDH seus programas de ação e suas linhas de financiamento Responda as perguntas escolhidas e encaminhe-as para o seu/sua tutor(a) pelo ambiente de capacitação. 103 Links Português http://www.presidencia.gov.br/sedh/ http://www.mj.gov.br/sedh/textos/RG2002.pdf http://www.ltds.ufrj.br/gis/barros/ 104 2. A Secretaria Especial de Direitos Humanos: estrutura administrativa A Secretaria Especial de Direitos Humanos (SEDH) foi criada pela Lei nº 10.683, de 28 de maio de 2003. É o órgão da Presidência da República que tem por atribuições articular e implementar as políticas públicas voltadas para a promoção e implementação dos direitos humanos. A SEDH é composta por órgãos colegiados e executivos, assessorias, e grupos de trabalho temáticos que auxiliam o Secretário Especial de Direitos Humanos, ministro Nilmário Miranda, na implementação da política nacional de direitos humanos, de acordo com as diretrizes do Programa Nacional de Direitos Humanos. Segundo o ministro, "o papel central a ser desempenhado pela SEDH é fazer a articulação e a promoção dos princípios e conceitos de direitos humanos. Nossa grande meta é que os direitos humanos sejam uma"qualidade" de todas as políticas públicas no âmbito da Administração Pública. Com o novo papel, reconhecemos o desafio da Secretaria em subsidiar todos os órgãos da administração pública direta e indireta federal". Os órgãos colegiados da Secretaria são: a) Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana - CDDPH; b) Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente - CONANDA; c) Conselho Nacional de Combate à Discriminação - CNCD d) Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa Portadora de Deficiência - CONADE; e) Conselho Nacional dos Direitos do Idoso - CNDI. As principais atribuições do CDDPH são: a) receber denúncias de violações de direitos humanos de abrangência nacional e investigá-las em conjunto com as autoridades competentes locais; b) constituir comissões de inquéritos para facilitar as investigações; c) atuar por meio de resoluções; d) promover estudos para aperfeiçoar a defesa dos direitos humanos; e) prestar informações para os organismos internacionais sobre a situação dos direitos humanos no país. Cuida-se, assim, da peça fundamental na proteção dos direitos humanos. No entanto, em discurso feito em 13 de maio de 2003, durante a VIII Conferência Nacional dos Direitos Humanos", Nilmário Miranda mencionou a intenção de transformar o CDDPH, em funcionamento desde 1964, no Conselho Nacional de Direitos Humanos - CNDH. O objetivo é dar maior agilidade às apurações de violações de direitos humanos. O intuito do ministro é fazer com que o CNDH seja o órgão principal na defesa dos direitos humanos. O senador Demóstenes Torres é o relator de um projeto de lei que contém essa transformação. Os órgãos executivos da Secretaria são: a) Subsecretaria de Articulação da Política de Direitos Humanos - SAPDH; b) Subsecretaria de Promoção dos Direitos da Criança e do Adolescente - SPDCA; c) Subsecretaria de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos - SPDDH. Uma das principais funções da SPDDH é o acompanhamento da implementação do Programa Nacional de Direitos Humanos. A subsecretaria é responsável pela organização anual do Prêmio Direitos Humanos, uma homenagem concedida pelo Governo Federal às organizações e pessoas cujos trabalhos servem de incentivo e estímulo para que outras pessoas também se dediquem à promoção e proteção dos direitos humanos.A SPDDH é também responsável pelo Programa de Proteção a Tetemunhas e pelo desenvolvimento de ações de educação em direitos humanos. Dentre suas atribuições, destacam-se, ainda, o acompanhamento da implementação do Plano Nacional de Direitos Humanos – PNDH e a execução direta de algumas de suas metas. A assessoria da Secretaria Especial de Direitos Humanos é composta por apenas um órgão: a Coordenadoria Nacional para Integração da Pessoa Portadora de Deficiência, responsável pela gestão de políticas voltadas para a integração da pessoa portadora de deficiência. Conta ainda com a Ouvidoria Geral da Cidadania e aAssessoria Internacional. De acordo com o ministro Nilmário Miranda "Apesar de todos esses avanços, de termos tido no século passado uma verdadeira era dos direitos. A luta pelos direitos humanos continua na ordem do dia". 105 Atividade deste Tópico Baseado no conteúdo do texto acima, escolha duas perguntas abaixo: 1)Quais os projetos da SEDH para o período do novo PPA? Quais deles se aplicam à sua região? 2)Quais as atribuições do órgãos colegiados da SEDH? 3)Para que órgão da Secretaria devem ser encaminhadas as denúncias relativas a direitos humanos? 4)Quais as principais atribuições da CDDPH? Responda as perguntas escolhidase encaminhe-as para o seu/sua tutor(a) pelo ambiente de capacitação. Links Português http://www.presidencia.gov.br/sedh/ 106 3. A Secretaria Especial de Direitos Humanos: programas A principal atribuição da Secretaria Especial de Direitos Humanos é a coordenação da política nacional de direitos humanos, conforme as diretrizes do Programa Nacional de Direitos Humanos – PNDH. A SEDH articula iniciativas e apóia projetos de promoção e proteção dos direitos humanos de organizações governamentais e não-governamentais. Depois de aprovado, o projeto é analisado e cria-se uma parceria entre a SEDH e a organização responsável. A parceria possibilitará a transferência ou a descentralização dos recursos. Em março de 2004, foi divulgada parceria que será formada entre a SEDH e o Ministério Público do Maranhão em programas que promovam e garantam a cidadania, bem como que executem políticas voltadas para populações marginalizadas, tais como os quilombolas, os indígenas e, no caso específico do Maranhão, os albinos. Roberto Araújo, assessor da SEDH, também apresentou proposta da implementação do Balcão de Direitos em São Luis. A idéia será levada depois a outros municípios maranhenses. A finalidade do programa é atender aos cidadãos que não tenham condições de adquirir documentação civil básica. No Plano Plurianual (PPA) 2002-2003, a SEDH executou os seguintes programas: a) Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente; b) Reinserção Social do Adolescente em Conflito com a Lei; c) Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes; d) Paz nas Escolas; e) Atenção à Pessoa Portadora de Deficiência; f) Assistência à Vítimas e a Testemunhas Ameaçadas; g) Direitos Humanos, Direitos de Todos. Com o novo PPA 2004-2007, a SEDH tem o dever de executar os seguintes programas: a) Assistência a Vítimas e a Testemunhas Ameaçadas; b) Atendimento Socioeducativo do Adolescente em conflito com a lei; c) Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes; d) Direitos Humanos, Direito de Todos; e) Gestão da Política de Direitos Humanos; f) Programa Nacional de acessibilidade; (g) Promoção e Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente; h) Promoção e Defesa dos Direitos de Pessoas com Deficiência; i) Proteção da Adoção e Combate ao Seqüestro Internacional. Destacamos ainda uma iniciativa do Ministro Nilmário Miranda que, por meio da Portaria nº 22, de 30 de abril de 2003, instituiu o Programa de Valorização Profissional da Pessoa Portadora de Deficiência no âmbito da própria secretaria. As metas desse programa são: a) reserva de quota mínima de 5% aos portadores de deficiência para o preenchimento de cargo de direção e de assessoramento superior; b) criação de um Banco de Talentos no âmbito do Sistema Nacional de Informações sobre Deficiência; c) fomento do estabelecimento de parcerias com outros órgãos públicos para aprimorar o servidor público portador de deficiência; d) estabelecimento de estratégias e programas com o objetivo de contribuir para a inserção da pessoa portadora de deficiência no mercado de trabalho; e) promoção de campanhas públicas destinadas à sociedade e ao mercado de trabalho para demonstrar a importância das pessoas portadoras de deficiências, bem como as condições de seu contrato de trabalho. Seja por meio de parcerias ou execução individual de programas, a Secretaria Especial de Direitos 107 Humanos deve ter sempre a mesma meta: a promoção e proteção dos direitos humanos. Atividade deste Tópico Baseado no conteúdo do texto acima, escolha duas perguntas abaixo: 1)Qual a importância da Comissão de Direitos Humanos (CDH) em relação às suas atribuições? Quais os setores do Estado e da sociedade participam da Conferência Anual dos Direitos Humanos? 2)Dentro da distribuição da SEDH, identifique no seu município um problema de DH que a SEDH possa apoiar. Converse com as entidades da sua cidade qual a principal demanda em direitos humanos e escreva um relatório para a SEDH solicitando apoio e orientação. 3)Qual o programa que você julga mais interessante? 4)Quais as ações estabelecidas para execução no PPA 2004-2007? Responda as perguntas escolhidas e encaminhe-as para o seu/sua tutor(a) pelo ambiente de capacitação. Links Português http://www.adeva.org.br/nossos_direitos/nossos_direitos.htm http://www.pgj.ma.gov.br/not.asp?not=1408 http://www.redegoverno.gov.br/defaultCab.asp?idservinfo=26703&url=http://www.mj.gov.br/sedh/dca/d efdir.htm http://www.redegoverno.gov.br/defaultCab.asp?idservinfo=26142&url=http://www.pr.gov.br/seju/cempr/ municipios.html http://www.redegoverno.gov.br/defaultCab.asp?idservinfo=26702&url=http://www.mj.gov.br/sedh/dca/re insoc.htm http://www.redegoverno.gov.br/defaultCab.asp?idservinfo=43496&url=http://www.mj.gov.br/sedh/ct/ac. htm http://www.redegoverno.gov.br/defaultCab.asp?idservinfo=43496&url=http://www.mj.gov.br/sedh/ct/ac. htm 108 4. Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal No dia 31 de janeiro de 1995, por meio da Resolução n° 231,de autoria do deputado federal Nilmário Miranda, , por unanimidade de votos, foi criada a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados (CDH). A criação da CDH foi um marco na história dos direitos humanos do país. Ao criar o novo órgão técnico e suprapartidário, concretizou-se uma antiga reivindicação dos movimentos populares, parlamentares e entidades de defesa dos direitos humanos. Atualmente a CDH é constituída por 23 deputados membros titulares e igual número de suplentes. É dirigida por um presidente e três vice-presidentes. O mandato é de um ano. No início de cada ano legislativo, que começa a partir de 01 de fevereiro, é feita a eleição para presidente e os três vice- presidentes. Antes das eleições, o partidos políticos definem com quais comissões desejam ficar. Nos nove anos de existência da CDH (1995-2003), o PT assumiu a presidência por 7 (sete) vezes. A CDH foi criada para investigar violações de direitos humanos, o que tornou mais eficiente e rápido o trabalho investigativo intentado pelo legislativo brasileiro. A CDH assim como as demais comissões permanentes, tem a sua competência fixada através do Regimento Interno da Câmara dos Deputados, que no inciso XVI do artigo 32, assim a fixou:1. Recebimento, avaliação e investigação de denúncias relativas a ameaça ou violação de direitos humanos;2. Fiscalização e acompanhamento de programas governamentais relativos à proteção dos direitos humanos; 3. Colaboração com entidades não-governamentais, nacionais e internacionais, que atuem na defesa dos direitos humanos;4. Pesquisas e estudos relativos à situação dos direitos humanos no Brasil e no mundo, inclusive para efeito de divulgação pública e fornecimento de subsídios para as demais Comissões da Casa; 5. Realização de audiências públicas com entidades da sociedade civil, e convocação de Ministros de Estado para prestar, pessoalmente, informações sobre assunto previamente determinado, conceder-lhes audiência para expor assunto de relevância de seu Ministério ou ainda encaminhar-lhes pedido de informação através da Mesa, além de outras prerrogativas. Além destas atribuições, a CDH possui competência para atuar nos campos temáticos relativos aos órgãos e programas governamentais que atuam com questões ligadas a cidadania e direitos humanos. O recebimento de denúncias é a atividade principal da CDH. Essa tarefa proporciona aos parlamentares melhor compreensão de como, quando e onde acontecem as violações de direitos humanos. Após o recebimento e exame das violações, a comissão encaminha aos órgãos competentes pedidos de providências. A grande maioria das autoridades não responde aos pedidos, o que impossibilita o aferimento da eficácia dos encaminhamentos dados pelos parlamentares. Porém, pelo retorno das próprias vítimas, é certo afirmar que a manifestação da CDH em favor das pessoas, muitas vezes, torna-se suficiente para cessar a violação ou gerar um resultado satisfatório ao denunciante. Nesse sentido exemplar o caso de Alexandrede Oliveira um jovem pai, analfabeto e garçom de profissão. No dia 12 de janeiro de 2001, Alexandre foi procurado por policias militares que o levaram preso até à delegacia da polícia civil de Bom Jardim de Minas, município do interior do Estado de Minas Gerais. Quando lá chegou, Alexandre passou a sofrer todo tipo de tortura, choques elétricos e espancamentos. A polícia acusava-o de ter estuprado a própria filha. As denúncias de tortura chegaram até a CDH e logo destacou deputados para investigarem o caso. Os deputados logo perceberam que Alexandre falava a verdade. Colheram depoimentos da esposa de 109 Alexandre e mãe da criança, a qual mencionava que a criança fora levada para o hospital porque estava sangrando há dias. No hospital, um médico mal examinou a menina e precipitadamente disse que se tratava de violência sexual e avisou à polícia local. A polícia não investigou nada, agiu unicamente em decorrência da manifestação do médico e concluiu levianamente que a única pessoa que podia ter praticado o estupro seria o pai. Depois de ter passado dias preso e debilitado por causa das torturas, Alexandre recebe o laudo médico feito por médicos especialistas do hospital. O resultado era de que a criança não tinha sofrido violência sexual e que o sangramento que apresentara era porque tinha um tumor maligno na vagina. Alexandre é libertado e recebe o apoio de várias entidades de defesa dos direitos humanos nacionais e internacionais. O Ministério Público e a Corregedoria da Polícia Civil foram acionados para que instaurassem as medidas legais para a punição dos policiais que cometeram o crime de tortura. O caso serviu para demonstrar a pratica criminosa da polícia civil que não investiga mas que tortura e faz com que as vítimas assumam a autoria de crimes que não cometeram.. A CDH recebe, anualmente, em média 32 denúncias de violações dos direitos humanos. O número maior de denúncias envolve violação aos direitos dos presos e detenções arbitrárias, seguidas de violência policial e violência do campo. Esta escala tem se mantido estável, mas se percebe crescimento de violações envolvendo grupos vulneráveis: indígenas, homossexuais e negros. Outro trabalho de grande visibilidade da CDH é a realização de audiências públicas. Nas audiências, participam parlamentares, representantes do Executivo, Judiciário e entidades civis. Esse é um “território livre” para os representantes da sociedade civil. As audiências são gravadas e depois disponibilizadas pela Internet (www.camara.gov.br/cdh).O Congresso Nacional possui canais de televisão e rádio que transmitem ao vivo os debates ocorridos nas audiências públicas. A CDH também realiza de modo rotineiro inspeções nos estabelecimentos de detenção de adolescente infrator e penitenciárias. A partir de 2000 a CDH criou inspeções temáticas:“Caravanas de Direitos Humanos”. Um grupo de deputados percorre o país a fim de fazer um diagnóstico de determinada violação. Foram realizadas as seguintes caravanas: manicômios, centros de detenção de adolescentes infratores, penitenciárias, instituições policiais, asilos para idosos, carvoarias, locais de exploração sexual de crianças e adolescentes e terras indígenas. A caravana elabora um relatório com registros das violações encontradas. Tendo por base esse documento recomendações e solicitações de providências são encaminhadas aos órgãos públicos. No caso específico da Caravana do Manicômios e dos Asilos o Ministério da Saúde-em face do relatório apresentado pela CDH- baixou portaria determinando melhorias e aprimoramentos nas instituições visitadas. Nos manicômios as reformas foram efetivamente realizadas. E quanto aos asilos foram elaboradas “regras mínimas para funcionamento”. Todos esses fatos ilustram o papel fundamental que a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados realiza para a proteção dos direitos humanos no país. Atividade deste Tópico Baseado no conteúdo do texto acima, escolha duas perguntas abaixo: 1)Busque no histórico da CDH de seu Estado, casos ou situações de violação de direitos humanos que tenham tido repercussão em sua região. 2)Procure no site da CDH/ Câmara Federal, documentos, relativos para que possam ser distribuídos e discutidos com os vereadores. Caso haja uma Comissão de Direitos Humanos na Câmara procure conhece-la. Caso não exista, informe aos vereadores o site da Comissão da 110 Câmara dos Deputados. 3)Para que serve a Comissão? 4)Qual a competência da CDH da Câmara dos Deputados? Responda as perguntas escolhidas e encaminhe-as para o seu/sua tutor(a) pelo ambiente de capacitação. Links Português http://www.dhnet.org.br/direitos/brasil/legislativo/cdhcf/Cartilha_CDH/ http://www.dhnet.org.br/direitos/brasil/legislativo/cdhcf/ http://www.camara.gov.br/cdh/ 111 5. Comissões de Direitos Humanos das Assembléias Legislativas A Assembléia Legislativa de cada Estado é composta por comissões permanentes e temporárias, podendo ainda haver comissões parlamentares de inquérito. A comissão de direitos humanos é uma das comissões permanentes. Ela desempenha papel fundamental na proteção dos direitos humanos e na promoção da cidadania. Suas principais atribuições são: a) receber denúncias de violações de direitos humanos e encaminhá-las ao órgão competente; b) ouvir as vítimas de violações ou seus familiares, c) opinar sobre proposições e assuntos ligados aos direitos humanos; d) lutar pela garantia e implementação de tais direitos. Em relação às funções de opinar sobre proposições e lutar pela garantia dos direitos humanos, destacamos duas medidas inovadoras da Assembléia Legislativa de Minas Gerais. A primeira diz respeito ao incentivo concedido às Câmaras Municipais para criarem comissões de direitos humanos e estreitarem o relacionamento entre sua Comissão de Direitos Humanos e as demais comissões municipais já existentes. Tal ação é de extrema importância porque a participação em conjunto das comissões possibilita a criação de uma política local mais eficaz no combate às violações de direitos humanos. A segunda ação inovadora da Assembléia Legislativa mineira é a aprovação, pela Comissão de Direitos Humanos, em 06 de agosto de 2003, do requerimento do deputado Célio Moreira/PL que solicita da Secretaria de Estado da Defesa Social uma lista dos nomes de todos os presos assassinados dentro das cadeias no ano de 2003, assim como os crimes praticados por eles e suas vítimas. Essa ação quer assegurar o direito à indenização das famílias dos presos mortos e das vítimas. Em relação às metas para o ano de 2004, a Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul destacou que terá como objetivo a luta contra qualquer tipo de violência e a defesa de qualquer pessoa que tenha seus direitos violados. Ao receberem denúncias, escutarem as vítimas e proporem soluções inovadoras, as comissões de direitos humanos das assembléias legislativas exercem um papel único na proteção e promoção dos direitos humanos, uma vez que possibilitam aos mais pobres reivindicarem seus direitos. Atividade: Quais são as metas da Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa de seu Estado para o ano de 2004? Comissões de Direitos Humanos das Câmaras Municipais O município tem o dever de implementar uma política municipal de proteção e promoção dos direitos humanos e criar um diálogo entre seu poder legislativo e a sociedade civil. As Câmaras Municipais, que têm a competência de legislar sobre assuntos de interesse local, devem criar uma Comissão de Direitos Humanos que terá caráter permanente e será vinculada ao poder legislativo. A Comissão de Direitos Humanos deve ter as seguintes atribuições: a) receber, avaliar e investigar denúncias relativas à ameaça ou violação de direitos humanos; b) fiscalizar e acompanhar programas governamentais relativos à proteção dos direitos humanos; c) colaborar com organizações não-governamentais e internacionais que atuem na defesa dos direitos humanos; 112 d) promover pesquisas e estudos relativosà situação dos direitos humanos no respectivo município. Diariamente, registra-se a criação de comissões semelhantes em municípios brasileiros. Durante a Conferência Mundial de Direitos Humanos, realizada em Viena, em 1993, o Brasil assumiu o compromisso de criar um programa brasileiro de direitos humanos que envolvesse ações nacionais, regionais e locais. Nesse sentido, a criação de um processo democrático e participativo para a constituição de um programa municipal de direitos humanos de iniciativa da respectiva comissão de direitos humanos é uma excelente iniciativa. O programa municipal deverá conter as metas, as medidas e ações necessárias para a obtenção de tais fins e as obrigações e responsabilidades dos órgãos governamentais, do setor privado e da comunidade local. As comissões de direitos humanos das câmaras municipais são instituições de extrema relevância na proteção e promoção dos direitos humanos. Nesse sentido, falta apenas a efetivação de suas atribuições, bem como uma atuação eficaz, séria e comprometida com as questões relacionadas aos direitos humanos. Atividade deste Tópico Baseado no conteúdo do texto acima, escolha duas perguntas abaixo: 1)Quais as características do Fórum Nacional de Direitos Humanos? Qual o papel desse Fórum na defesa de direitos? 2)Quais os principais ações de Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa do estado? Como ela está composta no momento? Quem é seu coordenador? Quais os parlamentares mais atuantes? Se não há CDH na assembléia, divulgue o site da CDH da Câmara dos Deputados. 3)Atualmente, quais as ações em vigor das Assembléias Legislativas ? 4)Na sua opinião, qual a importância dos Estados-membros e Municípios envolverem-se na política pública de defesa e promoção dos Direitos Humanos? Responda as perguntas escolhidas e encaminhe-as para o seu/sua tutor(a) pelo ambiente de capacitação. Links Português http://www.dhnet.org.br/direitos/militantes/nilmario/Novos/cartilha/27_AsComissoes.htm http://www.dgabc.com.br/camara/cam_vereadores_comissoes.asp http://cml.sercomtel.com.br/default/07_comissoes.asp http://www.camaraonline.ms.gov.br/comissoes.asp http://www.cmf.sc.gov.br/atrib.htm http://www.camara.sp.gov.br/comissao.asp?IDComissao=21&Tipo=1 http://www.tresmarias-mg.com.br/camara2003.htm http://www.camara.rj.gov.br/vereador/comissoes/dirhum.html http://www.camara.riogrande.rs.gov.br/sistemas/noticias/noticias.php?cod_noticia=68 http://www.cmfor.ce.gov.br/ 113 http://federativo.bndes.gov.br/dicas/D102%20-%20Pol%C3%ADtica%20municipal%20de%20direitos% 20humanos.htm http://www.dhnet.org.br/direitos/brasil/legislativo/dhcamar.htm http://www.dhnet.org.br/direitos/brasil/legislativo/cdhcf/Cartilha_CDH/19_ComissoesAssembleia.htm 114 6. Programa Nacional de Direito Humanos I e II Ao adotar em, no dia 13 de maio de 1996, o Programa Nacional de Direito Humanos, o Brasil se tornou um dos primeiros países do mundo a cumprir a recomendação específica da Conferência Mundial de Direitos Humanos (Viena-1993), concedendo aos direitos humanos “status” de política pública. A grande falha do PNDH I foi a ausência do direitos econômicos, sociais e culturais. O processo de revisão do PNDH I constituiu um marco na promoção dos direitos humanos no Brasil, ao elevar os direitos econômicos, sociais e culturais ao memo nível de importância dos direitos civis e políticos, atendendo a expressa reivindicação da sociedade civil formulada por ocasião da IV Conferência Nacional de Direitos Humanos, realizada de 13 1 4 de maio de 1999 na Câmara dos Deputados em Brasília. A atualização do PNDH ofereceu ao governo e à sociedade a oportunidade de fazer um balanço dos progressos alcançados desde 1996, das proposta de ação que se tornaram governamentais e dos problemas identificados na implementação do PNDH. O PNDH II incorporou ações específicas no campo da garantia do direito à educação, à saúde, à previdência e assistência social, ao trabalho, à moradia, a um meio ambiente saudável, à alimentação, à cultura e ao lazer, assim como propostas voltadas para a educação e sensibilização de toda a sociedade brasileira com vistas à construção e consolidação de uma cultura de respeito aos direitos humanos. Atendendo a anseios da sociedade civil, foram estabelecidas novas formas de acompanhamento e monitoramento das ações contempladas no Programa Nacional, baseadas na relação estratégica entre a implementação do PNDH e a elaboração dos orçamentos: federal, estadual e municipal. O PNDH II deixa de limitar as ações a propostas de curto, médio e longo prazo, e passa a ser implementado por meio de planos de ações anuais, os quais definirão as medidas a serem adotadas e os recursos orçamentários necessários para sua implementação. O PNDH II deve servir de parâmetro e orientação para a definição dos programas sociais a serem desenvolvidos no Brasil até 2007, ano que se deve proceder a uma nova atualização do Programa Nacional de Direitos Humanos. Atividade deste Tópico Baseado no conteúdo do texto acima, escolha duas perguntas abaixo: 1)Enumere as inovações do Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH II). 2)Pesquise o Programa Nacional de Direitos Humanos através de site ou solicite exemplar a SEDH . Divulgue os PNDH I e II na sua cidade. 3)Qual a importância da revisão no PNDH I ? 4)Cite alguns programas sociais a serem desenvolvidos no Brasil até 2007. Responda as perguntas escolhidas e encaminhe-as para o seu/sua tutor(a) pelo ambiente de capacitação. 115 Links Português http://www.dhnet.org.br/oficinas/scdh/parte1/2c5b.html http://www.dhnet.org.br/direitos/brasil/pndh/textointegral.html http://www.dhnet.org.br/direitos/brasil/pndh/Pndh_Concluido/index.html http://www.mj.gov.br/sedh/dpdh/gpdh/pndh/monitoramento.htm http://www.mj.gov.br/sedh/dpdh/gpdh/pndh/natureza.htm http://www.hrw.org/portuguese/press/1999/recommend.html 116 7. ONG´S e Direitos Humanos A expressão ONG - Organização Não Governamental - surgiu pela primeira vez na ONU (Organização das Nações Unidas) no final da segunda guerra mundial(1945) com o uso da denominação em inglês "Non - Governamental Organizations (NGOs)" que designava as organizações supranacionais e internacionais que não foram estabelecidas por acordos governamentais. Aqui no Brasil, essa expressão era usada para indicar organizações que surgiram, em sua maioria, nas décadas de setenta e oitenta dando apoio a movimentos sociais e organizações populares e de base comunitária, voltadas à promoção da cidadania, defesa de direitos e luta pela democracia política e social. As primeiras ONGs estavam ligadas aos movimentos sociais que atuavam junto as políticas de proteção dos direitos sociais, e pelo fortalecimento da sociedade civil, tendo especial atenção aos trabalhos de educação popular e na atuação, elaboração e monitoramento de políticas públicas. Do ponto de vista jurídico, a expressão ONG não se aplica. A legislação brasileira prevê apenas dois formatos institucionais para a formação de uma organização sem fins lucrativos; uma associação civil ou fundação privada. Quase toda ONG é uma organização privada não -lucrativa. O interesse em formar uma ONG parte de uma coletividade que já atua ou deseja atuar na promoção de uma causa, com o objetivo de auxiliar na construção de um mundo mais justo, solidário e sustentável. Sendo assim, é necessário reconhecer que além das vontades individuais existe uma vontade coletiva. Deve-se reconhecer e assumir os direitos e obrigações dessa personalidade coletiva junto a seus integrantes, colaboradores, beneficiários, o Estado e a sociedade em geral. A existência legal das pessoas jurídicas só começa com o registro de seus atos constitutivos. A constituição jurídica de uma organização civil sem fins lucrativos é imprescindível para que possa agir legalmente em seu próprio nome. No Brasil, existem apenas dois formatos institucionais para a constituição de uma organização sem fins lucrativos.A primeira é a associação civil, que é uma pessoa jurídica dedireito privado. O novo código civil, em vigor desde 11 de janeiro de 2002, define associações como a união de pessoas que se organizem para fins não econômicos.O segundo formato de que trataremos é a fundação privada, que é uma pessoa jurídica constituída a partir de um patrimônio destinado por uma pessoa física ou jurídica para a realização de um fim social e determinado. Uma fundação é criada por iniciativa de seu instituidor, e há apenas duas formas: por escritura pública ou testamento. Por necessitar de um fundo patrimonial expressivo para sua constituição, poucas ONGS são constituídas como fundações, a maior parte opta por constituir uma associação civil.Uma associação civil é constituída por meio de uma assembléia geral de constituição. A assembléia nada mais é do que a reunião de pessoas para um determinado fim, que nesse caso, é a constituição de uma associação. Os participantes da Assembléia de constituição serão os membros fundadores da associação, e caberá a eles o seguinte: • aprovação das características da organização (denominação, missão, objetivos, endereço da sede, duração, administração e outros); • aprovação do Estatuto Social (documento que registra essas características e regula o funcionamento); e • elelição dos primeiros dirigentes, sejam provisórios ou definitivos (isto é, as pessoas que serão responsáveis pela direção da associação). Uma ONG precisa ter um Estatuto Social, que é o documento que registra as características e o conjunto de regras de uma associação civil sem fins lucrativo. O Estatuto Social deve dispor obrigatoriamente sobre o seguinte: 117 • nome ou denominação social; • endereço da sede; • finalidade (missão) e objetivos sociais; • duração (pode ser por prazo indeterminado) • os requisitos para a admissão, demissão e exclusão dos asoicados; • os direitos e deveres dos associados; • o modo de constituição e funcionamento dos órgãos deliberativos e administrativos; • o modo de representação da organização, seja ativa ou passiva, judicial ou extrajudicial; • as fontes de recursos para a sua manutenção; • se os associados respondem ou não pelas obrigações sociais; • as hipóteses e condições para a destituição dos administradores e para a alteração do estatuto; • as condições para a extinção da associada e o destino dos seu patrimônio, nesse caso. Não há regra para a estrutura a ser adotada pelas organizações. A única obrigatoriedade é a existência de uma Assembléia Geral, instância máxima da associação, que é competente para:eleger e destituir administradores;aprovar as contas;alterar o estatuto. Deve-se fazer o registro da pessoa jurídica em cartório que é igual ao de uma pessoa física ao nascer: é preciso tornar pública sua existência. As organizações privadas não-lucrativas são registradas no Cartório de Registros Civis de Pessoas Jurídicas.Convém procurar o Registro Civil de Pessoas Jurídicas antecipadamente e recolher informações sobre os requisitos específicos de registro. Segundo a Lei de Registros Públicos, é preciso apresentar (no mínimo): a. duas vias do estatuto social vistadas pelo advogado; b. duas vias da ata da assembléia de constituição vistadas pelo advogado, com eleição dos dirigentes e termos de posse; c. o requerimento de registro assinado pelo representante legal da organização. Com o registro concluído, a organização já é pessoa jurídica legalmente existente.A partir da constituição formal (registro em cartório), a organização deve efetuar os demais registros necessários ao seu funcionamento. Para a regularização dos registros complementares (fiscal, trabalhista e local), é importante procurar um (a) contador (a), que também será responsável pela contabilidade da ONG e demais obrigações contábeis após sua constituição. Atividade deste Tópico Baseado no conteúdo do texto acima, escolha duas perguntas abaixo: 1)Qual a importância das Organizações Não Governamentais (ONG’s) na luta pelos direitos humanos. Em seu município quais são as ONG’s mais atuantes na defesa de direitos de crianças e adolescentes, dos idosos, das pessoas portadoras de necessidades especiais, do meio ambiente, dentre outras? 2)Visite uma ONG de Direitos Humanos, leia seu estatuto e relatórios para conhecê-la, veja como a mesma está estruturada, seus programas e formas de apoio. 3)Você acha que o trabalho das ONG´s é suficiente para promover a defesa dos direitos humanos? 4)Na sua opinião, a sociedade civil deve participar de que forma na defesa e promoção dos Direitos Humanos? Responda as perguntas escolhidas e encaminhe-as para o seu/sua tutor(a) pelo ambiente de capacitação. 118 Links Português http://www.dhnet.org.br/direitos/guiabrasil/guia_sp.htm http://www.filantropia.org/comocriar_ong.htm http://www.dhnet.org.br/oficinas/dhparaiba/6/ongs.html 119 8. Entidades da Sociedade Civil e Direitos Humanos Todos sabemos que para viver em sociedade é fundamental existir um espaço público, um patrimônio de todos nós que sirva de ligação entre os mais diversos interesses. Esse lugar deve ser respeitado e cultivado por todos nós. As Organizações da Sociedade Civil (OSC) expressam e organizam os interesses e anseios da sociedade civil servindo como porta-voz da sociedade, bem como um interlocutor da sociedade perante o Governo. Durante a transição política dos anos oitenta, movimentos sociais puderam redesenhar o rosto da política, ajudando a desmantelar o regime autoritário.Entre esses movimentos destacaram-se várias organizações da sociedade civil (OSC) como sindicatos de trabalhadores e associações de profissionais liberais como a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e a Associação Brasileira de Imprensa (ABI), e também muita novas iniciativas de defesa dos direitos humanos. No novo cenário democrático, as OSC desenvolveram-se rapidamente enquanto avançavam além de seu papel de resistência à ditadura, tornando-se capazes de estabelecer conexões entre esferas autônomas da sociedade e instituições políticas. Hoje, a população e a sociedade civil brasileiras são mais ativas, mais bem informadas e mais participantes do que nunca. Em tal contexto, uma evolução relevante foi que as OSC puderam acumular grande número de experiências, adquirir mais conhecimento e criar melhores redes de contato. Exemplo notável dessa mudança é a Rede de Informação do Terceiro Setor (RITS). As OSC começam a funcionar como "sistemas de prevenção", atuando como sensores que ouvem a opinião e a preocupação públicas e tentam introduzir diferentes pontos de vista no processo político. São capazes de provocar a visibilidade e transparência, contribuindo para exercer controle sobre o poder político e os grupos sociais poderosos, forçando-os a agir de acordo com a lei. De todas essa formas, as OC ajudam a ampliar e democratizar o processo político. Na década de 1990, o Movimento Nacional dos Direitos Humanos, o Movimento Nacional dos Meninos de Rua e as Conferências Nacionais de Direito Humanos estabeleceram-se como monitores do cumprimento das normas internacionais ratificadas pelo Brasil, propondo mudanças em instituições públicas e questionando os verdadeiros interesses destas na defesa daqueles direitos. Atividade deste Tópico Baseado no conteúdo do texto acima, escolha duas perguntas abaixo: 1)Comente a importância das relações entre o Estado Nacional e a Sociedade Civil? 2)Pesquise no seu município e faça uma lista com a relação de ONG’s que atuam na área de DH. Solicite seu endereço e monte um cadastro da sua cidade para quando necessitar está disponível. 3)O que você entende por entidade da sociedade civil? 4)Você acredita que as organizações as sociedade civil são capazes de influenciar algumas posições do Governo? Quais as dificuldades encontradas? Justifique. Responda as perguntas escolhidas e encaminhe-as para o seu/sua tutor(a) pelo ambiente de capacitação. Links http://noticias.terra.com.br/brasil/interna/0,,OI279105-EI306,00.html http://www.dhnet.org.br/mndh/regionais/listagem_mndh.htm120 121 9. Universidade e Direitos Humanos A universidade é o local onde se produz e divulga o saber. É lugar ideal para se discutir, refletir, aprimorar e inovar, exercendo fundamental importância na propagação de idéias e conceitos. Seja qual for a finalidade do educador (aprofundar o estudo de determinado tema, debater questões novas, despertar nos alunos o interesse pela causa, etc), a universidade é um local adequado para a discussão de questões sobre os direitos humanos. Em todo o mundo, muitas universidades vêm criando centros de direitos humanos para estimular os debates sobre o tema. Destacamos o Centro de Direitos Humanos (CDH) da Universidade de Coimbra, o Núcleo de Direitos Humanos (NDH) do Departamento de Direito da PUC-Rio e o Núcleo de Estudos da Violência (NEV) da Universidade de São Paulo – USP,o Núcleo da Universidade da Paraíba e o Centro de Defesa dos Direitos Humanos da Universidade Católica de Brasília . O CDH é uma instituição da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra que se dedica à pesquisa, ao ensino e à formação, sendo mais atuante nos dois últimos. O CDH realiza seminários, conferências, cursos de verão e um curso de pós-graduação. Os cursos de verão são de grande importância. Eles promovem o intercâmbio cultural em virtude dos alunos serem de diferentes países. O NDH foi criado em agosto de 2002 com o objetivo de organizar todas as iniciativas práticas e teóricas do Departamento de Direito da PUC-Rio nos últimos 20 anos. É instituição vinculada ao Departamento de Direito. São objetivos do núcleo: a) sensibilizar a Universidade para a temática dos direitos humanos; b) criar grupos de estudos sobre determinado tema de direitos humanos; c) promover debates, discussões e eventos com o objetivo de realçar a complexidade e importância do estudo e prática dos direitos humanos; d) promover a capacitação dos instrumentos nacionais e internacionais de proteção dos direitos humanos. Criado em 1987, o NEV é uma organização pioneira na promoção e nos estudos dos direitos humanos. Seu principal objetivo é a análise dos problemas ligados à questão da violência no país e a busca de suas respectivas soluções por meio de pesquisas acadêmicas. Além disso, o NEV estimula o diálogo entre organizações governamentais e civis para chegar a soluções concretas. O NEV participa do programa Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepids) da Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo – Fapesp, devido ao reconhecimento de sua importância no desenvolvimento da pesquisa no Brasil. A criação de centros de direitos humanos nas universidades é de extrema importância na propagação, discussão e reflexão de questões e conceitos relacionados aos direitos humanos, bem como na busca de soluções a determinado tema. Atividade deste Tópico Baseado no conteúdo do texto acima, escolha duas perguntas abaixo: 1)A universidade pode ser considerada como um amplo espaço de debate na construção do saber. A universidade vem produzindo conhecimentos sobre direitos humanos nas atividades de ensino, pesquisa e extensão? Você já participou de alguma dessas atividades e discussões? O que elas lhe acrescentaram? 2)De que modo a universidade da sua cidade está colaborando com a promoção de DH? Procure o setor de extensão e assuntos comunitárias e conheça quais ações de ensino e de extensão. 122 3)As universidades respeitam os direitos humanos? Justifique sua resposta. 4)Pesquise como a universidade da sua cidade divulga e influncia projetos de Direitos Humanos? Responda as perguntas escolhidas e encaminhe-as para o seu/sua tutor(a) pelo ambiente de capacitação. Links Português http://www.direitoshumanos.usp.br/ http://www.dhnet.org.br/w3/cdhpb/texto/oquee.html http://www.fia.com.br/professores/marcovitch/jacsr17.htm http://www.puc-rio.br/sobrepuc/depto/direito/ndh/index.html 123 10. Disque Direitos Humanos Nacional Os direitos humanos são a salvaguarda de todas as pessoas contra a omissão e o arbítrio do Estado. Pretende-se, dessa maneira, resguardar o ser humano contra quaisquer formas de violência, forçando o Estado a agir continuamente em prol da dignidade humana, sem jamais se esquivar de suas responsabilidades de proteger e promover os direitos e liberdades fundamentais de todas as pessoas, sem distinção. A proteção internacional dos direitos humanos abrange atualmente diversas esferas da vida humana, desde o direito a não ser arbitrariamente preso até o direito à moradia e a um meio ambiente sadio, além de direitos culturais e políticos. É fácil perceber, portanto, que proteger e promover eficazmente todos os direitos humanos demanda políticas públicas especialmente desenhadas para este fim. Os órgãos estatais devem comprometer-se com tal propósito e vigiar sempre, de forma a evitar e corrigir abusos, sejam por ação, sejam por omissão do Estado. Além disso, é fundamental que haja informações atualizadas e de qualidade disponíveis, possibilitando não só a compreensão dos fenômenos de violação, mas também o planejamento e a articulação da intervenção estatal em prol dos direitos humanos. É nesse contexto que se insere o Disque Direitos Humanos Nacional. O propósito principal do Disque será servir como uma política pública de base, ou seja, uma política capaz de fornecer meios para a articulação, o planejamento e a implementação de outras políticas, eventualmente mais específicas, destinadas à promoção e proteção de direitos. O atendimento e o encaminhamento individualizado de casos deverá ser parte deste processo, subsidiando e alimentando o banco de dados com dados primários e informações privilegiadas a respeito da ocorrência e dos padrões de violação de direitos humanos no País. O Disque consistirá de uma estrutura para atendimento, registro, orientação e encaminhamento de casos de violação de direitos humanos. Pretende-se, com isso, fornecer, sempre, algum tipo de atendimento às diversas demandas, sendo que o tratamento posterior ao registro deverá variar do fornecimento de orientações básicas até o acompanhamento individual das providências adotadas pelas autoridades competentes no caso. O banco de dados com os registros das violações estará disponível para autoridades governamentais e representantes da sociedade civil, no intuito de embasar estudos e proposições sobre a temática dos direitos humanos. As informações ajudarão a desvendar os gargalos existentes no aparelho do Estado, assim como a ajustar a intervenção estatal às reais necessidades das populações vulneráveis. Sendo assim, o Disque Direitos Humanos Nacional visa a assegurar simultaneamente uma fonte privilegiada de informações para os gestores governamentais e um ponto de apoio para vítimas e testemunhas de violações de direitos humanos. Esse projeto faz parte do esforço empreendido pela Secretaria Especial de Direitos Humanos no sentido de constituir um Sistema Nacional de Direitos Humanos, capaz de articular as ações dos diversos órgãos estatais em prol da defesa e promoção de tais direitos. Essa não deverá ser uma iniciativa isolada, mas um ponto de referência para a coordenação de diversas intervenções públicas relacionadas com o tema. Com isso, pretende-se evitar quer a sobreposição de esforços, que gera desperdício de recursos escassos, quer o abandono de populações vítimas de violência por falta de meios para acessar os órgãos de proteção competentes. Dentre os objetivos específicos do Disque, temos: • Estabelecimento de uma central nacional permanente de recebimento e registro de alegações de violações de direitos humanos via telefone, de forma gratuita, confidencial e ininterrupta para todo o país; Análise, triagem, classificação e encaminhamento de cada alegação aos devidos órgãos estatais competentes; 124 Acompanhamento do andamento de tais casos, obtendo periodicamente informes atualizados dos órgãos notificados na fase de encaminhamento; • Contato regular, via senha individual e exclusiva, com os(as) autores(as) das alegações tanto para atualização e complementação de dadosfornecidos por eles ao sistema quanto para o retorno de informações sobre encaminhamentos e andamentos de seus respectivos casos; • Formação de um banco de dados amplo, capaz de fornecer automaticamente dados a respeito de padrões de ocorrência das violações de direitos humanos registradas, inclusive com informações desagregadas a respeito de gênero, cor da pele, condição social, local de moradia e orientação sexual das vitímas e/ou dos agentes, dentre outras informações relevantes para a formulação de políticas públicas de promoção e proteção dos direitos humanos; Elaboração periódica de relatórios detalhados e análises sobre a realidade das diversas violações de direitos humanos no Brasil; • Parceria com os órgãos estatais competentes para apurar e encaminhar os diversos casos recebidos pelo Disque; • Formação de Centros Estaduais de Referência para Apoio e Monitoramento, compostos por entidades da sociedade civil organizada e competentes para acompanhar e auxiliar o andamento das alegações, monitorar periodicamente o processo de encaminhamento, além de fornecer apoio psicológico e institucional às vítimas quando necessário. Os representantes destes Centros teriam acesso, a qualquer tempo e mediante solicitação por escrito, aos dados consolidados produzidos pelo banco de dados; • Parceria com o sistema de proteção às vítimas e testemunhas ameaçadas; • Oferecer orientação preliminar às vítimas e familiares de vítimas de violações de direitos humanos sobre como proceder para garantir a realização e/ou restituição de seus direitos; • Avaliação anual da eficácia, dos logros e dos desafios enfrentados pelo sistema; O público a ser atendido pelo Disque Direitos Humanos Nacional deverá ser composto prioritariamente pelas vítimas, familiares de vítimas e testemunhas de violações de direitos humanos. O atendimento será diferenciado de acordo com o tipo de violação sofrida e/ou de acordo com o tipo de intervenção requerida para o caso, variando da simples orientação preliminar até o encaminhamento judicial do caso e/ou sugestão de inclusão de pessoas em programas de proteção a vítimas e testemunhas ameaçadas. O Disque Direitos Humanos Nacional atenderá de forma diferenciada diversos grupos de direitos humanos reconhecidos por Convenções e Tratados internacionais de que o Brasil é parte. O Disque considerará com especial atenção os seguintes grupos de violação: • Execuções extra-judiciais ou sumárias; • Tortura e outros tratamentos ou penas cruéis desumanos ou degradantes, inclusive violência policial e agressões a pessoas privadas de liberdade; • Trabalho escravo e infantil; • Tráfico de pessoas; • Exploração e abuso sexual de crianças e adolescentes; • Violências decorrentes de discriminação racial, homofóbica, de gênero e contra portadores de deficiência; • Violência doméstica contra idosos, crianças e mulheres; • Violências contra populações indígenas e remanescentes de quilombos; • Ameaças a defensores de direitos humanos. Metodologia de funcionamento O sistema Disque Direitos Humanos Nacional contará com uma Central de Atendimento, uma Equipe de Supervisão e uma Equipe de Encaminhamento. O atendimento ao usuário será feito via telefone, por uma linha de chamada gratuita de número 100. As identidades dos autores das alegações poderão, a seu próprio critério, permanecer em sigilo, sendo o serviço, portanto, confidencial. 125 O acesso ao Sistema de Registro será concedido por meio de permissões automáticas, de acordo com o perfil de cada usuário, variando de atendente a supervisor, equipe de encaminhamento, gerência e administrador do Sistema. A Central de Atendimento será encarregada de receber as ligações, registrar os relatos de violação e realizar a maior parte da comunicação com os autores de tais relatos. Os atendentes serão responsáveis, também, por fornecer aos autores retornos sobre o encaminhamento dos casos e por registrar informações complementares trazidas por eles. Caberá a esta Central prover orientação àquelas pessoas cujos casos não haverão de ser submetidos à Equipe de Encaminhamento. A Equipe de Supervisão será responsável pela Classificação definitiva, pela Triagem e pela Análise dos registros. Ela deverá, ainda, verificar a suficiência das orientações prestadas pelos atendentes nos Casos para Orientação e, se for o caso, complementá-las. Por fim, a Equipe de Encaminhamento será responsável por decidir o tipo de encaminhamento mais adequado a cada caso, pedir apoio a entidades da sociedade civil quando julgar necessário, bem como por monitorar a atuação dos órgãos demandados. No momento do registro, o atendente deverá enquadrar o caso como “Alegação”, “Caso para Orientação” e “Outros”. Esse enquadramento ajudará a definir o tipo de tratamento que o registro receberá dali por diante. O registro “Outros” compreenderá as ligações que não configuram demanda de competência do Disque: trotes, solicitações diversas de informação, etc. Esses registros serão desconsiderados, não recebendo, portanto, qualquer tipo de tratamento posterior. O enquadramento “Caso para Orientação” implicará apenas o registro do caso e o fornecimento, pelo próprio atendente, de orientações preliminares básicas para que o próprio demandante possa procurar a solução mais adequada para a realização de seus direitos. Esses tipos de casos não apenas constarão do banco de dados, como as informações obtidas estarão disponíveis para análise e comporão a cadeia de conhecimento necessária para a formulação de políticas públicas efetivas em matérias como acesso à Justiça, acesso à saúde, acesso à educação de qualidade, direito a um meio ambiente sadio, dentre outras. Por fim, o enquadramento “Alegação” ensejará procedimentos individualizados e acompanhamento direto por parte da Equipe de Encaminhamento do Disque. Nesses casos, o atendente deverá fazer uma classificação preliminar do relato, a ser posteriormente verificada pela Supervisão. Trataremos de tais procedimentos mais adiante. Os registros enquadrados como “Alegação” serão acompanhados pela Equipe de Encaminhamento. A maioria dos casos será submetida ao Encaminhamento Padrão, modelo que servirá de sugestão básica de encaminhamento para todas as violações, com exceção das Execuções Sumárias. A critério da Equipe de Encaminhamento, contudo, cada caso poderá receber um tratamento diferenciado, com níveis variáveis de cautela, sigilo ou urgência. Para os casos de Execução Sumária, haverá de ser presumida a condição de risco excessivo, daí o tratamento diferenciado e sigiloso a priori, podendo-se, posteriormente, haver o relaxamento dessa condição. O Encaminhamento Padrão consistirá dos seguintes procedimentos: 1. Preparo de uma breve diligência com questões a serem esclarecidas sobre o caso; 2. Envio do relato completo e da diligência para os órgãos estatais competentes, com solicitação de 126 informe sobre apuração e providências adotadas em até 20 dias; 3. Recebimento da(s) resposta(s) enviada(s) pelos órgãos demandados na etapa anterior. A partir deste momento, três procedimentos são possíveis: 3.1. Arquivamento – sempre que a apuração for considerada satisfatória e o caso do relato seja considerado inverídico ou as providências adotadas pelo(s) órgão(s) demandado(s) sejam consideradas suficientes; Atividade deste Tópico Baseado no conteúdo do texto acima, escolha duas perguntas abaixo: 1)Busque algum caso de violação de direitos em sua região que tenha sido solucionado por meio do disque-denuncia. 2)Descubra os disque -denúncia existente no seu município, o público atendido e as dificuldades encontradas 3)Qual a razão da existência dos denominados ‘disque-denúncia’ ? 4)Na sua opinião, o mecanismo do Disque-Denúncia é um instrumento valioso na proteção dos Direitos Humanos? Por quê? Responda as perguntas escolhidas e encaminhe-as para o seu/sua tutor(a) pelo ambiente de capacitação. 127 11. Encaminhamento de Denúncia de Violação de Direitos Humanos A Defensoria Pública Geral da União, a ProcuradoriaFederal dos Direitos do Cidadão, no âmbito da Procuradoria Geral da República / Ministério Público Federal são instituições essenciais à função jurisdicional do Estado. A Defensoria Pública tem o papel de orientação jurídica e a defesa em todos os graus da comunidade carente. O Ministério Público deve defender a ordem jurídica, o regime democrático e os interesses coletivos e individuais indisponíveis. Sendo assim, ambas as instituições têm o dever de proteger os direitos humanos e combater suas violações. Entre as formas existentes para a atingir suas finalidades está o encaminhamento de denúncia de direitos humanos. Um exemplo é o caso de Santa Catarina. No início de 2004, o Governo Federal desativou o SOS Tortura Nacional pois está em fase final de criação um sistema mais avançado de recebimento de denúncia (o Disque-Denúncia Direitos Humanos). Para não deixar a sociedade sem um serviço tão essencial, O Centro de Apoio Operacional da Cidadania e Fundações – CCF do Ministério Público catarinense garantiu que as pessoas poderão continuar denunciando a tortura diretamente aos Promotores de Justiça nas áreas de Cidadania e Criminal ou por meio do registro em boletins de ocorrência. Além do papel tradicional de fiscal da lei e acusador público, o Ministério Público exerce outras atividades. Entre elas, o recebimento de denúncias de violações ou ameaças de direitos humanos. É atividade extrajudicial de competência do procurador dos direitos do cidadão, criada pela Lei Complementar nº 75/93. O procurador dos direitos do cidadão atua como um ouvidor com um mandato de dois anos. Dentre suas principais atribuições estão: a) requisitar informações; (b) instaurar inquéritos; c) investigar; d) notificar violações a direitos individuais, coletivos ou sociais; e) expedir recomendações aos poderes públicos para cessar violações de direitos humanos. No âmbito estadual não existem Procuradorias do Cidadão, já que há a figura do procurador regional dos direitos do cidadão, que intervém extrajudicialmente para combater ilegalidades praticadas por quaisquer das esferas da administração pública. O que se ressalta no nível dos Ministérios Públicos Estaduais são as curadorias que variam de acordo com a matéria – infância e juventude, consumidor, entre outros. A curadoria é mecanismo alternativo eficiente na solução de conflitos, uma vez que garante às pessoas pobres o acesso a um órgão do estado. A Defensoria Pública atua em diversas áreas (criminal, consumidor, cível, entre outras) junto ao judiciário e possui centros de atendimento ao público. Atua ainda extrajudicialmente na composição de conflitos. No nível estadual, esta ação é implementada pela Defensoria Pública Estadual. Ao receber uma denúncia de violação de direitos humanos, o defensor público irá encaminhá-la ao poder 128 judiciário, responsável por analisar e julgar o caso, ou poderá tentar resolver o conflito entre as partes extrajudicialmente. O Ministério Público e a Defensoria Pública não são as únicas instituições estaduais capazes de receber e encaminhar denúncias de violações de direitos humanos. As Comissões de Direitos Humanos das Assembléias Legislativas e as Comissões de Direitos Humanos das Câmaras Municipais também têm essa competência. Embora existam instituições destinadas à proteção e promoção dos direitos humanos, a dificuldade de implementá-los é um grande obstáculo enfrentado por aquelas. Isso se deve a uma grande deficiência no conhecimento dos direitos humanos e na criação de políticas públicas destinadas a promovê-los. No entanto, essas instituições devem ver esse obstáculo como uma força propulsora para prosseguir no combate às violações de direitos humanos. Atividade deste Tópico Baseado no conteúdo do texto acima, escolha duas perguntas abaixo: 1)Em caso de violação aos direitos humanos em seu município, a que órgãos você pode e deve recorrer? 2)Visite o Ministério Público da sua cidade e investigue como este órgãos pode proteger o cidadão? Monte um mapa do telefones de urgência do Ministério Público e da Defensoria Pública, da OAB ou secção da mesma. 3)Você acha possível encaminhar uma denúnca de violação de direitos humanos pela polícia ao Delegado de Polícia? 4)Você alguma vez necessitou dos serviços prestados pela Defensoria Pública? Como foi atendido? Responda as perguntas escolhidas e encaminhe-as para o seu/sua tutor(a) pelo ambiente de capacitação. Links Português http://www.dhnet.org.br/direitos/brasil/apoio/defensoria/ http://www.mp.sc.gov.br/canal_mpsc/noticias/04_mar/010304_1.htm http://www.dhnet.org.br/educar/redeedh/jornal/j5/MimPub.htm http://www.dhnet.org.br/direitos/brasil/apoio/mpublico/mpdh.html http://www.mp.go.gov.br/revista/revista07_texto06.shtm http://www.pgr.mpf.gov.br/pfdc/imprensa/pfdc_imprensa/anexos/defensoriapublica.pdf http://www.dhnet.org.br/direitos/brasil/pmdh/sp/pdhsp.htm 129 12. Sistema Nacional de Proteção dos Direitos Humanos Sistema Nacional de Direitos Humanos é a organização da atuação pública (do estado e da sociedade) por meio da implementação de um conjunto articulado, orgânico e descentralizado de instrumentos, mecanismos, órgãos e ações para realizar todos os direitos humanos de todos os brasileiros e brasileiras. Os Direitos Humanos são construção histórica que emerge do seio das lutas contra a opressão e da busca por alternativas, afirmando-se com potencial libertário e emancipatório para orientar a ação pública. Fundam-se na idéia de que a dignidade humana é ponto de partida fundamental que se expressa em sujeitos históricos que constituem direitos como conteúdo capaz de potencializar ações e congregar esforços em vista de traduzir para o cotidiano, em sua pluralidade e diversidade, as condições para que haja uma sociedade justa e solidária. Os Direitos Humanos são, dessa forma, patrimônio ético, jurídico e político construído pela humanidade, em suas lutas libertárias e emancipatórias, e que lhe serve de parâmetro para orientar a ação em sociedade, em vista de constituir e afirmar os seres humanos como sujeitos de direitos. É neste sentido que se entende a concepção contemporânea de Direitos Humanos, que afirma sua universalidade, indivisibilidade e interdependência e a plena exigibilidade de todos os direitos humanos (formalmente reconhecidos ou não) em profunda articulação aos processos de desenvolvimento social e de democratização. A realização dos direitos humanos exige a construção de arranjos sociais, políticos, econômicos e culturais que os tenha em seu núcleo como ponto de partida e de chegada. Neste sentido, sua realização é tarefa da sociedade como um todo. O Estado como espaço organizativo do que é público é por excelência responsável pela sua realização. A este cabe a tarefa primeira de realizar esforços para fazer com que os direitos humanos sejam realidade concreta na vida de todos os cidadãos. Como um Sistema congrega várias perspectivas, temas, dinâmicas, processos e ações capazes de dar conta da urgência e da diversidade da demanda de realização dos direitos humanos. É Nacional por caracterizar-se como iniciativa a ser implementada em todo o país, em todas as esferas administrativas do Estado e nos diversos âmbitos da sociedade civil, atendendo à dinâmica de complementação aos sistemas internacionais de direitos humanos. O Sistema Nacional de Direitos Humanos (SNDH) haverá de constituir-se num conjunto articulado, orgânico e descentralizado.Não terá uma centralidade única, mas diversas perspectivas e acessos atingindo os diversos níveis e âmbitos da organização social e política. A articulação de instrumentos, mecanismos, órgãos e ações constitui o núcleo definidor do conceito de SNDH. Neste sentido, o caráter do SNDH exige a construção de condições amplas para que haja uma nova institucionalidade pública (estatal e não estatal) e a promoção de uma nova subjetividade expressas numa nova cultura de direitos humanos. Dessa forma, mais do que constituir-se em mais um arranjo político-administrativo, o SNDH haverá deincidir estruturalmente nas práticas e nas concepções de direitos humanos. É fundamental compreender a tarefa de construção do SNDH como um processo que não começa e que nem se esgota na IX Conferência Anual de Direitos Humanos (a ser realizada em junho de 2004). Daí que, articular, sensibilizar, mobilizar, definir atribuições das diversos pontos de integração do Sistema Nacional de Direitos Humanos (SNDH) é atribuição de todos indistintamente, cabendo definir metas, mecanismos de monitoramentos, acordos e compromissos locais, estaduais e nacional. A cada momento podemos estar compondo e integrando o SNDH, compreendendo e enfrentando as dinâmicas, o ritmo e as limitações de cada etapa e processo de sua constituição. Cada ponto do SNDH pode ser lugar de partida ou de chegada. Os compromissos ou pactos vão se firmando no tamanho das nossas forças e da nossa capacidade de atuação. 130 Passo a passo pelos Direitos Humanos Atividade deste Tópico Baseado no conteúdo do texto acima, escolha duas perguntas abaixo: 1)Na implementação do Sistema Nacional de Direitos Humanos (SNDH) qual é a importância das parcerias entre organismos governamentais e não governamentais de defesa de direitos? 2)Como a sociedade pode influenciar a implantação deste Sistema? 3)Os direitos humanos devem ser tratados da mesma maneira em todas as regiões do país pelo Sitema Nacional? 4)Como e com que finalidade funcionaria o SNDH? Responda as perguntas escolhidas e encaminhe-as para o seu/sua tutor(a) pelo ambiente de capacitação. Links Português http://www.dhnet.org.br/inedex.htm http://www.dhnet.org.br/direitos/brasil/ http://www.dhnet.org.br/direitos/brasil/textos/OCDHMP.htm http://www2.ibam.org.br/municipiodh/snpdh.asp http://www.conferencia.direitos.org.br/index.php?acao=biblioteca&publicacaoID=31 http://www.mj.gov.br/sedh/ct/ix_conferencia_nacional_dh.htm http://www.conectasur.org/files/sistemnacddhh.pdf http://www.conferencia.direitos.org.br/index.php?acao=biblioteca&publicacaoID=31 http://www.mj.gov.br/sedh/ct/ix_conferencia_nacional_dh.htm http://www.conectasur.org/files/sistemnacddhh.pdf 131 13. Convenção Anual de Direitos Humanos A Conferência Mundial de Direitos Humanos realizada na cidade de Viena (Áustria), no ano de 1993, é o marco inaugural da fae de implementação dos direitos humanos. A partir dessa data não bastava o estabelecimento de leis e tratados internacionais de direitos humanos era necessário conceber instrumentos e mecanismos que fossem capazes de transformá-los em realidade concreta. Em outras palavras era fundamental fazer com que as belas e sábias palavras da lei saíssem do papel. É nesse contexto que surge um dos eventos de maior importância na agenda de direitos humanos do Brasil: a Conferência Anual de Direitos Humanos. As Conferências se constituem no evento mais participativo da Comissão de Direitos Humanos (CDH). Em média reúnem 1.500 pessoas. Os participantes são pessoas das universidades, militantes de direitos humanos do Brasil e de outros países, funcionários públicos, representantes do Poder Judiciário, do Poder Executivo, do Senado Federal, legislativos estaduais e municipais, das corporações policiais, do Ministério Público, das Defensorias Públicas, Magistratura, Embaixadas entre muitos outros setores. A primeira Conferência Nacional aconteceu, em 1995, ano de criação da CDH e desde então é sempre realizada no auditório da Câmara dos Deputados, em Brasília. A CDH apenas custeia os gastos com a divulgação do evento. Os participantes vêm de todos os Estados do país e viajam até a capital com seus próprios recursos. O Fórum Nacional de Entidades de Direitos Humanos é o movimento responsável pela articulação das entidades não governamentais numa rede nacional. Essa rede em conjunto com a CDH estabelecem uma pauta de discussão a respeito da: 1) organização da Conferência e 2) monitoramento dos seus encaminhamentos. A parceria entre a CDH e o Fórum não tem como finalidade exclusiva a organização das Conferências Nacionais pois são realizadas reuniões periódicas destinadas a avaliar a condução das políticas de direitos humanos no país. As Conferências Nacionais refletem os anseios e expectativas da sociedade em relação aos direitos humanos. Exemplo marcante dessa afirmação foi a IV Conferência Nacional (1999) cujo tema foi “Sem direitos sociais, não há direitos humanos”. A partir desse ano, começou uma campanha, em todo o Brasil, para que esses direitos integrassem as políticas de direitos humanos. Logo em seguida, o Secretário Nacional de Direitos Humanos, José Gregori, anunciou que o PNDH seria revisto a fim de incorporar as sugestões da Conferência Nacional. A V Conferência Nacional (2000) cujo tema foi “Um Brasil sem Violência” , o tema da tortura foi levantado como a violação principal a ser combatida. A partir daí, muitas iniciativas e campanhas foram iniciadas com o objetivo de erradicar esta prática no Brasil. Nesse mesmo ano (2000) foi realizada a vista do professor inglês Nigel Rodley relator especial de tortura da ONU. A VIII Conferência Nacional de Direitos Humanos (2003) discutiu a elaboração de um Sistema Nacional de Proteção e Promoção dos Direitos Humanos e determinou de forma unânime que a próxima a ser realizada em 2004, será deliberativa isto é suas decisões deverão ser contempladas nos programas governamentais de direitos humanos executados pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos. De modo breve, podemos afirmar que a Conferência Nacional de Direitos Humanos é o momento privilegiado de encontro e diálogo entre Governo e Sociedade civil. Atividade deste Tópico 132 Baseado no conteúdo do texto acima, escolha duas perguntas abaixo: 1)Como você já sabe, em 2004 será realizada mais uma Conferência Nacional dos Direitos Humanos. Como o seu município se preparou para participar da referida conferência? 2)Quais sugestões foram encaminhadas pelos representantes de organismos governamentais e não governamentais atuantes na defesa de direitos humanos de seu município? 3)Na sua cidade existem programas de rádio e de tv que na sua programação desrespeitam o direito à imagem? O direito de todos a dignidade humana?De que modo a mídia na sua cidade contribui para a cidadania? ( associação de imprensa, sindicatos de jornalistas, sindicatos de radialistas, comitês para democratização dos meios de comunicação)? 4)Qual a finalidade da Convenção Anual de Direitos Humanos? Responda as perguntas escolhidas e encaminhe-as para o seu/sua tutor(a) pelo ambiente de capacitação. Links Português www.dhnet.org.br/direitos/militantes/pspinheiro/psp_coloquiosp.htm www.consorciodh.org.br/ 133 14. Imprensa e Direitos Humanos A expressão mídia refere-se aos veículos comunicação como televisão, rádio, jornais, Internet, entre outros. Mídia de entretenimento é o termo usado em referência a conteúdos de entretenimento ou diversão veiculados pela mídia a saber: novelas, programas de domingo e os programas infantis em geral. Por último o termo mídia impressa refere-se a publicações que podem ser voltadas para conteúdo jornalístico, caso dos jornais diários ou revistas que cobrem os fatos semanais, ou de entretenimento, caso das revistas de moda. Ao tratar do tema da mídia, estamos tratando do direito à informação que também é um direito humano. No entanto, a qualidade da informação que a mídia nos oferece tem sido alvo de críticas constantes, isto porque, o conteúdo destas está mais voltado ao sensacionalismo. Como resultado desse direcionamento, pode-se citar o reforço da estigmatização de determinadas regiões e de seus moradores. A região do Jardim Ângela pode ilustrar muito bem esse fato. Geralmente as notícias sobre a região, que por várias vezes foi identificada como a mais violenta de São Paulo, estão voltadas para o número de homicídios que lá ocorrem. Não há como desconsiderar que no Jardim Ângela ocorrem fatos violentos, no entanto, também existem na região associações voltadas a defesa dos direitos humanos da população local, que realizamtrabalhos preventivos junto aos jovens da região, e que acabam transformando o perfil da região. Porém, raramente ou quase nunca esse tipo de assunto é veiculado na mídia. Um dos problemas de as notícias mostrarem apenas a violência que ocorre no local é que os moradores, do Jardim Ângela, acabam sendo vítimas de uma equação simples e que para os empregadores tem todo o sentido: morador de local violento, também deve ser violento. Para fugir deste tipo de situação, os moradores muitas vezes são obrigados a ocultar o seu verdadeiro endereço. Esse posicionamento por parte da mídia ilustra o caráter cada vez mais mercadológico que esta vem assumindo. Para alcançar índices cada vez melhores na guerra do Ibope, os responsáveis pela veiculação da informação optam pelo sensacionalismo que acaba por gerar o medo e a desconfiança entre a população. Pode-se tomar com exemplo a veiculação de uma entrevista com supostos membros do PCC (Primeiro Comando do Crime) veiculada no programa de um famoso apresentador de televisão. Segundo os entrevistados, o PCC estaria preparando uma série de ações que incluíam o seqüestro de importantes personalidades ligadas à igreja e ao cenário político. A reportagem teve grande repercussão, e resultou em investigações que provaram que tudo havia sido forjado.Este fato serve para ilustrar a redução da notícia ao caráter de “produto”, e que a mesma deve ser vendida como tal. Não interessa o valor social da notícia, o que importa é a quantidade de pontos no Ibope que ela vai conquistar. Para combater este problema, surgiram várias idéias que vão desde a criação de um código de ética até a constituição de um órgão regulador com representação da sociedade civil e que tenha poderes para fixar as normas que definem o número de horas de programação educativa, informativa e regional. Existem exemplos de bom uso da mídia, o documentário “Ônibus 174” trata do seqüestro de um ônibus por um jovem no Rio de Janeiro que culminou com a morte do seqüestrador e de uma das passageiras. O documentário, que poderia ter se transformado facilmente em uma obra puramente sensacionalista, 134 permite ao espectador refletir sobre o sistema prisional, crianças e jovens em situação de rua, formação da polícia, pobreza entre outros. Outro documentário que tem esse mérito é “Tiros em Columbine”, que tem como pano de fundo a ação de dois jovens que entraram armados na escola em que estudavam, atiraram em professores e alunos e depois se suicidaram. O documentário traz à tona a discussão sobre o desarmamento e a violência. É importante que a mídia propicie cada vez mais oportunidades de reflexão que possam levar as pessoas a realização de ações que tenham como objetivo a transformação da realidade. Atividade deste Tópico Baseado no conteúdo do texto acima, escolha duas perguntas abaixo: 1)Na sua opinião, a mídia, por meio de vários veículos de comunicação existentes (rádio, TV, jornal, etc.) tem colaborado para a proteção dos direitos humanos? 2)Procure coletar dados de violência urbana da sua cidade através do COPOM das policias militares, das secretarias de segurança, das delegacias e superintendências de segurança ou batalhões de policia, ou através de conselhos e ONG’s em direitos humanos. 3)Exemplifique um caso de violação de direitos humanos pela imprensa. 4)A mídia pode promover a hostilidade e a violência contra a pessoa? De que forma? O que você acha que poderia ser feito? Responda as perguntas escolhidas e encaminhe-as para o seu/sua tutor(a) pelo ambiente de capacitação. Links Português http://www.guiadh.org/editorial.htm http://www.fenaj.org.br/Entidades%20Internacionais.htm 135 15. Segurança Pública e Direitos Humanos De acordo com a Secretaria Nacional de Segurança Pública, “segurança pública é uma atividade pertinente aos órgãos estatais e à comunidade, realizada com o objetivo de proteger a cidadania, prevenindo e controlando manifestações da criminalidade e da violência, efetivas ou potenciais, garantindo o exercício pleno da cidadania nos limites da lei”. Tanto o Estado quanto os cidadãos devem reunir esforços para que haja uma segurança pública eficaz e se respeitem os direitos humanos. O art. 5º, caput, da Constituição Federal, dispõe que a segurança pública é um dos direitos fundamentais do indivíduo. O art. 144 diz que a segurança pública é dever do Estado e direito e responsabilidade de todos a fim de manter a ordem pública e a incolumidade das pessoas. Há no Brasil a Secretaria Nacional de Segurança Pública, de abrangência nacional, e as secretarias de segurança pública estaduais, no âmbito local. A situação dos direitos humanos do ponto de vista da segurança pública é alarmante. Em 2001, houve na cidade de São Paulo 6623 mortes violentas. No Rio de Janeiro foram registrados 3988 homicídios. Em visita oficial ao Rio de Janeiro em outubro de 2003, a Relatora das Nações Unidas sobre Execuções Sumárias, Extrajudiciais ou Arbitrárias, Asma Jahangir, constatou que os policiais continuam cometendo assassinatos impunemente. A relatora afirmou ainda que as autoridades não forneceram – ou forneceram de maneira contraditória - dados referentes às execuções no estado, o que demonstra o total descaso para com os direitos fundamentais do cidadão. Em relação à busca de mecanismos para melhorar a segurança pública, citamos o Plano Nacional de Segurança Pública, cuja prioridade é efetivar as políticas públicas de prevenção à violência, ou seja, aquelas que visam acabar com as condições que propiciam a prática que se deseja abolir. Por exemplo, se ocorrem assaltos constantes em uma área urbana mal iluminada, a medida preventiva proposta seria a iluminação da área. A Segurança pública só será efetivada como um direito humano quando o Governo Federal e os governos estaduais adotarem uma política de segurança pública séria e eficaz, ao mesmo tempo em que as autoridades exerçam sua função dentro dos limites fixados em lei sem confundir o exercício da autoridade com autoritarismo. Atividade deste Tópico Baseado no conteúdo do texto acima, escolha duas perguntas abaixo: 1)Várias regiões do país têm sofrido grave crise na segurança pública. Quais as implicações dessa crise em relação à proteção dos direitos humanos? Mencione um caso de violação de direitos em que os gestores públicos do Estado não foram capazes de prestar a devida proteção. 2)Consulte o conselho tutelar ou de direitos da criança e do adolescente, o projeto sentinela vinculando ao município, as pastorais e entidades que atuam com criança e adolescentes sobre a violência contra e praticada por crianças e adolescentes. 3)Você acha que os servidores integrantes dos organismos de segurança pública também podem ser vítimas de violações por estes mesmos organismos? 4)Que exemplos você pode dar dessa cooperação? A segurança social é mais importante que o 136 direito individual? Responda as perguntas escolhidas e encaminhe-as para o seu/sua tutor(a) pelo ambiente de capacitação. Links Português http://inovando.fgvsp.br/conteudo/documentos/20experiencias1999/1%20-%20amapa.pdf http://www.spcv.org.br/info/boletim%20spcv.htm http://www.consciencia.net/arquivo/rj-seguranca.html http://www.camara.gov.br/Internet/ouvidoria/default.asp http://www1.senado.gov.br/SPO/ http://www.direitoenegocios.com.br/links_jur.htm 137 16. Violência Urbana e Direitos Humanos Durante mais de duas décadas (1964-1985), o Brasil foi governado por uma ditadura militar, com diversos governos que, embora diferenciados entre si, guardavam sempre o denominador comum da ilegitimidade, não-representatividade e o arbítrio. No início da ditadura militar, poucas vozes ousaram condenar as prisões arbitrárias e as torturas impostas a militantes políticos, defensores do regime anterior, sindicalistas e estudantes. Todavia durante a década de 1970, à medida que a repressão política começava a afetar membros da elite, explodiam protestos, invocando temas de direitos humanos-principalmente direitos civis e políticos - nos casos de abusode autoridade por parte dos militares e pelos organismos para-militares criados pelas Forças Armadas. Na década de 1980, uma criativa rede de movimentos sociais começou a se organizar por todo o Brasil, tanto nas áreas urbanas como nas áreas rurais.Foi quando surgiram os novos temas de direitos humanos ligados a reivindicação por direitos econômicos, sociais e culturais. Assim, apesar de toda repressão, foi sob o regime militar que novas formas de organização desenvolveram-se. A transição e a consolidação democrática (evento-marco Constituição de 1988) forneceram as condições básicas para novas formas de convivência. Mas o retorno a democracia coincidiu com o aumento da violência e multiplicação de guangues, máfias e outras organizações criminosas em várias grandes cidades brasileiras.Apesar do retorno a democracia, continua a herança autoritária no aparelho do Estado. A ditadura promoveu a militarização da segurança pública sob o controle do Exército. Por meio dos tribunais estaduais da Polícia Militar, foi estabelecida uma impunidade virtual para a corporação. Os crimes comuns vêm aumentando desde o retorno à democracia. O Brasil não pé um caso isolado. Após a década de 1960, estatísticas compiladas em todo o mundo apontaram um padrão crescente de criminalidade urbana, principalmente crimes violentos. Atualmente, diversas populações de bairros pobres e periféricos das grandes cidades brasileiras estão submetidas todos os dias ao terror do crime organizado e ao poder arbitrário da polícia. Podemos dizer que essas áreas vivem num Estado de Não-Direito. A grande maioria dessas corajosas populações não estão fora de lei e tentam remediar – de todas as formas possíveis – as violações de direitos humanos cometidas pelos mais diversos agentes. As áreas urbanas brasileiras onde se concentram as mais altas taxas de crime contra a vida são os bairros mais pobres das grandes cidades. Nesse sentido, pobreza é uma privação da liberdade – como definição do Nobel de economia indiano Amartya Sen – e, no limite, da própria vida. Nessas comunidades, que têm grande densidade demográfica e são habitadas pelas mais baixas camadas da estrutura social, as condições de vida mostram-se precárias, e em inúmeros casos as pessoas, expulsas de outra grandes cidades ou vindas de estados mais pobres, integram famílias de estrutura frágil; ali o cotidiano é marcado pela violência dos homens contra mulheres e crianças. Vivendo em tais condições os jovens têm dificuldades enormes de: moradia, alimentação, educação e higiene básica. A violência que desde sempre os acompanha acaba por transformar-se em fato corriqueiro e, o que é mais grave ainda, em elemento incorporado ao seu modo de vida. Os direitos humanos tem como meta principal proteger a dignidade da pessoa humana. Para tanto, é fundamental o exercício da não-violência. O ser humano ó tem dignidade quando pode desenvolver-se, 138 transformando seu potencial em realizações. A violência, de forma ampla, pode ser definida como tudo aquilo que impede o desenvolvimento do ser humano. O respeito aos direitos humanos só ocorre num ambiente no qual a violência não seja o padrão de conduta. Só assim o desenvolvimento de homens e mulheres torna-se possível. A democracia é o regime político que tem como objetivo principal a proteção dos direitos humanos; é num regime democrático, portanto, que estão presentes as maiores possibilidades de desenvolvimento. A Conferência Mundial de Direitos Humanos (Viena-1993) elegeu como palavras-chaves: democracia, direitos humanos e desenvolvimento. Elas devem ser vista como um colar de pérolas – absolutamente ligadas, todas influenciando-se mutuamente. Atividade deste Tópico Baseado no conteúdo do texto acima, escolha duas perguntas abaixo: 1)A sensação de anomia (ausência de leis, de proteção estatal) tem gerado nas grandes cidades brasileiras o dito “estado - paralelo” comandado por grupos que impõem a força e a própria lei. Como defender os direitos humanos diante de tal realidade? 2)Procure a pastoral carcerária do estado ou do município e observe os dados sobre violência nos presídios. Consulte o disque tortura ou Disque Direitos Humanos da SEDH sobre os dados sobre tortura no Brasil. 3)A existência de portões eletrônicos em bancos constitui uma forma de violência urbana? Defenda seu ponto de vista. 4)A que você atribuiria o aumento da violência nas cidades? O trabalho em educação em Direitos Humanos pode ser um fator de contribuição para a paz? Como? Responda as perguntas escolhidas e encaminhe-as para o seu/sua tutor(a) pelo ambiente de capacitação. Links Português http://www.dhnet.org.br/direitos/novapolicia/cart_violpol.htm http://www.dhnet.org.br/direitos/Livros_DH/livro_santodias/01_ViolenciaDH.htm http://wwwusers.rdc.puc-rio.br/agape/vida_academica/artigos/amai/violenciaurbana.PDF http://www.torturanuncamais.org.br/mtnm_pub/pub_livros/rb_coisa_policia/livro_coisa_po_vio_urb1.ht m 139 17. Violência Doméstica e Direitos Humanos Podemos entender como violência doméstica o tipo de violência que acontece dentro de casa nas relações entre as pessoas da família, entre homens e mulheres, pais/mães e filhos, jovens e pessoas idosas. Conforme os estudiosos do tema afirmam, independentemente da idade das pessoas que sofrem espancamento, humilhações e ofensas, nas relações descritas, as mulheres constituem o alvo principal. A violência doméstica também é denominada violência intrafamiliar, nesse caso podendo acontecer fora do espaço doméstico, entre membros da própria família. Ambas categorias, violência doméstica e intrafamiliar, ilustram o fato de como a casa e a família constituem-se em espaços de relações violentas e de exercício de poder entre as gerações, afetando principalmente as mulheres. A categoria violência doméstica é mais ampla por estabelecer um território físico e um território simbólico. O físico é delimitado pelo domicílio, todos os que ali residem (familiares ou empregados) devem obediência ao dono da casa, cujo domínio pode extravasar o espaço físico passando ao território simbólico, o que permite que exerça poder sobre as pessoas mesmo estando fora de casa. O fato de viver um relacionamento violento afeta a auto-estima da mulher e a sua capacidade de participar do mundo. Mulheres que vivem este tipo de relacionamento, não conseguem cuidar de si mesmas e de seus filhos, também não têm condições de se inserir no mercado de trabalho. A violência que vitima estas mulheres causa conseqüências diretas em sua saúde, como lesões, e também aumenta o risco de uma mulher ter uma saúde precária no futuro. Assim, pode-se afirmar que ser vítima de violência é um fator de risco para diversas doenças e problemas de saúde. Ser alvo de violência pode acarretar os seguintes problemas:depressão;tentativas de suicídio ;síndromes de dor crônica;distúrbios psicossomáticos;lesão física;distúrbios gastro-intestinais;conseqüências na saúde reprodutiva As crianças que acabam por testemunhar atos de violência dentro de suas casas correm o risco de apresentar diversos problemas emocionais e de comportamento, como ansiedade, depressão baixo rendimento escolar, baixa auto-estima, desobediência, pesadelos e reclamações de saúde física. Existem estudos que demonstram que as crianças que testemunham violência entre seus pais geralmente apresentam os mesmos distúrbios psicológicos e comportamentais que aquelas que são vítimas de abusos. Voltando ao termo violência familiar, ou intrafamiliar, este possibilita o entendimento daquela violência praticada em relações que envolvam as crianças, adolescentes e idosos de ambos os sexos. Nesta categoria estão envolvidas as pessoas ligadas pela consangüinidade ou afinidade e sua prática é identificada entre aqueles que habitam o mesmo espaço e têm relações cotidianas. Por fim, no caso da violência intrafamiliar, esta não está restringida apenas ao casal, e não é praticada apenas pelo “chefe da família”, em alguns casos pode ser exercida pela mulher. Atividade deste Tópico Baseadono conteúdo do texto acima, escolha duas perguntas abaixo: 1)A violência domestica é uma realidade que atinge principalmente mulheres e crianças. É a pior das violências, pois advém de um parente ou de alguém querido, atingindo assim, não só o físico 140 como o psicológico. “Em briga de marido e mulher não se mete a colher”. Até que ponto esse ditado popular tem sido prejudicial à luta contra a violência doméstica? Enumere casos de violência doméstica contra crianças, adolescentes e mulheres em seu município. 2)Visite a DRT do seu estado, a secretaria de ação social ou os conselhos tutelares e de direitos da criança e do adolescente e investigue os dados sobre trabalho e exploração infanto juvenil. 3)A existência de horários flexíveis para as empregadas domésticas, ou a destinação de cômodos minúsculos para essas trabalhadoras constituem uma violência doméstica ou podem resultar em formas de violência doméstica? 4)Você vê alguma relação entre o comportamento dos pais com os filhos, das pessoas que vivem em família, inclusive a sua, e os Direitos Humanos? Responda as perguntas escolhidas e encaminhe-as para o seu/sua tutor(a) pelo ambiente de capacitação. Links Português http://www.mulheres-ps20.ipp.pt/Violencia_Domest_Temas.htm http://www.universiabrasil.net/materia.jsp?materia=1666 141 18. Sistema Prisional e Direitos Humanos O quadro do sistema prisional no Brasil é caótico. Entre as principais violações de direitos humanos estão: a) permanência na prisão além do tempo da condenação; b) violência oficial, inclusive tortura, constante contra os presos; c) submissão à condição degradante de vida, uma vez que não se oferece nem o mínimo nas acomodações; d) superlotação, fazendo com que os presos tenham que dormir no chão, no banheiro ou presos às grades; e) privação do acesso à saúde, gerando, por conseguinte, inúmeras doenças, tais como AIDS e tuberculose, que se alastram com rapidez absurda; f) recusa de separar os presos por idade, periculosidade, pena e crime cometido. O sistema prisional de hoje não só desrespeita os direitos humanos, como também não reabilita o preso a viver em sociedade, suposta função da pena. A estatística demonstra que o índice de reincidência no Brasil é de 90%. De acordo com dados do IBGE, há no estado do Rio de janeiro, 15.406 vagas disponíveis, ao passo que a população carcerária é de 16.627 pessoas, resultando em um déficit de 1.221 vagas. Já em São Paulo, o déficit de vagas sobe para 43.659, havendo 74.730 vagas disponíveis e 118.839 presos. Outro problema do sistema prisional brasileiro é o despreparo dos agentes penitenciários no trato com os presos. Para isso, foi lançado em 11 de março de 2004 pelo Ministério da Justiça, em conjunto com a Embaixada Britânica no Brasil, o “Manual de Administração Penitenciária: Uma Abordagem de Direitos Humanos”. Trata-se de tradução para o português do manual inglês de autoria de Andrew Coyle, que descreve as recomendações firmadas em acordos internacionais para todos os aspectos da vida no presídio, em especial o tratamento dos presos. Serão distribuídos 40 mil exemplares do manual aos agentes penitenciários em todo o Brasil. Algumas medidas a fim de garantir a proteção dos direitos humanos dos presos a curto prazo são: a) promover a implementação das penas alternativas; b) fornecer e aprimorar o acesso à saúde; c) garantir o acesso ao ensino fundamental; d) fiscalizar e combater todos os tipos de corrupção no sistema penitenciário, bem como de violência aos presos. Princípio básico de todo o ordenamento jurídico brasileiro, a dignidade da pessoa humana parece esquecida. Na verdade, só haverá o respeito aos direitos humanos no sistema prisional quando houver vontade e ação política e quando os agentes penitenciários receberem um treinamento de como lidar com os presos. Atividade deste Tópico Baseado no conteúdo do texto acima, escolha duas perguntas abaixo: 1) A situação do sistema prisional brasileiro, por não responder aos objetivos de controle, repressão e resinserção dos presos à sociedade, tem sido chamado de “universidade do crime”. Quais são as 142 violações aos direitos humanos que estão ocorrendo nos presídios brasileiros? 2)Reflita sobre alternativas de solução para que os detentos possam cumprir suas penas com dignidade e direito à vida? 3)Quais as ações dos conselhos municipais de políticas publicas? Os conselhos de direitos? Quais os conselhos municipais existem ns sua cidade? 4)Você acha que as revistas íntimas em familiares de pessoas que cumprem penas podem resultar em violação aos direitos humanos? Responda as perguntas escolhidas e encaminhe-as para o seu/sua tutor(a) pelo ambiente de capacitação. Links Português http://www.mj.gov.br/noticias/2004/marco/RLS110304-manual.htm http://www.pgr.mpf.gov.br/pfdc/gts/seguranca_publica/texto.html http://www.nossacasa.net/recomeco/0093.htm http://www.mj.gov.br/Depen/sistema_estados.htm http://campus.fortunecity.com/clemson/493/jus/m06-011.htm http://www.dhnet.org.br/w3/pedhrn/integra/013_Sistema.html http://www.intercom.org.br/papers/2002/np13/NP13CALEIRO.pdf 143 19. Trabalho Escravo e Direitos Humanos A abolição da escravatura ocorreu no Brasil com a assinatura da Lei 3353 (Lei Áurea), em 13 de maio de 1888. Após mais de 115 anos, o Brasil continua a ter trabalhadores escravos. O ano de 2003 apresentou o recorde de ocorrências relacionadas a pessoas que trabalham em condições escravas, sendo que o combate a esse crime resulta, muitas vezes, em morte.. Um país que tem como fundamentos a dignidade da pessoa humana e os valores sociais do trabalho, a existência de trabalho escravo confronta diretamente com os direitos humanos. Em 2003, foram resgatados de cativeiros 4.735 trabalhadores – quase a metade no estado do Pará – o que corresponde a 51,1% do total de 9.263 indivíduos libertados entre 1995 e 2003. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) estima que haja entre 25 e 40 mil trabalhadores escravos no Brasil, a maioria na região amazônica. A região comporta cerca de 80% dos trabalhadores escravos no país. A incidência de mão-de-obra escrava não ocorre somente no norte do Brasil. No começo de 2004, uma operação de fiscalização em fazendas de feijão em Unaí ( Minas Gerais) resultou na morte de dois fiscais do Ministério do Trabalho. Como conseqüência, o Secretário Especial de Direitos Humanos, ministro Nilmário Miranda, afirmou que a questão do combate ao trabalho escravo é de alta prioridade. O ministro almeja erradicar o trabalho escravo no Brasil até o ano de 2006. De acordo com o ministro, o trabalho escravo acabará se a Câmara dos Deputados aprovar a proposta de emenda constitucional (PEC nº 438/01), que institui o confisco de terras para as propriedades que tenham mão-de-obra escrava e quando houver punição para as pessoas que tiram proveito desse tipo de trabalho, já que apenas uma pessoa foi condenada até hoje. Entre as medidas para acabar com o trabalho escravo estão: 1. instituição de uma Vara Itinerante do Trabalho onde não houver juízes, promotores, fiscais e delegados; 2. estabelecimento de uma política social para saber de onde vêm os escravos; 3. concessão de alternativas de vida às pessoas pobres (alfabetização, tirar documentos de identidade, ter acesso à terra, entre outras) para que o trabalho escravo não seja uma opção. Em 11 de dezembro de 2003, foi publicada a Lei nº 10.803, que alterou o artigo 149 do Código Penal que diz que “reduzir alguém a condição análoga à de escravo” é crime, mas não aumentou a pena mínima de dois anos para esse tipo de crime. Ao reconhecer, em uma reunião oficial da ONU, a existência de “formas contemporâneas de escravidão” em seu território, o Brasil entrou para a história das Nações Unidas. Até então, nenhum outro país havia feito isso. O trabalho escravo é rechaçado no plano internacional, tendo em vista a adoção da Convenção sobre a Abolição do Trabalho Forçado, em 1957, pela OIT. Há também a Convenção sobre a Escravidão das Nações Unidas, adotadaem 1927 pela Liga das Nações. Constata-se que o mero reconhecimento da existência de trabalhadores escravos no Brasil não basta. É fundamental a erradicação do trabalho escravo, que só ocorrerá quando se acabar com a impunidade. Isto é: quando forem implementadas punições severas aos beneficiados. Até então, milhares de pessoas continuarão vivendo em situação que atenta contra seus direitos humanos. É necessário, entretanto, diferenciar trabalho escravo do trabalho precário para fins de reconhecimento e tomada de decisões relacionadas a direitos humanos. 144 Quando se fala em escravidão, muitos lembram de correntes e senzalas. Mas o trabalho escravo de hoje adquiriu novas características, sendo a principal delas a proibição direta ou indireta do direito de ir e vir. Em geral, os trabalhadores são arregimentados pelos chamados gatos em localidades distantes daquelas em que vão trabalhar. Começam a endividar-se com o transporte e o empréstimo que recebem para deixar com a família. Continuam com a dívida, pois são obrigados a comprar as ferramentas de trabalho e a alimentação em armazém mantido pela fazenda, a preços exorbitantes. São submetidos a longas jornadas de trabalho em condições precárias, mas nunca conseguem pagar o que devem. Muitas vezes, sofrem ameaças de agressão e morte, que em alguns casos se consumam, pois já foram encontradas ossadas humanas em inspeções a fazendas denunciadas. Além disso, têm dificuldade de fugir das fazendas, devido o isolamento e difícil acesso desses locais. Apesar de ser maior a incidência de trabalho análogo ao de escravo no meio rural, o MPT já comprovou a existência de focos de trabalho escravo no meio urbano. Um dos casos investigados e que possui ação em andamento ocorreu próximo ao centro de São Paulo. O trabalho precário começou por se construir em objeto de estudo, a que se seguiu a definição sociológica das várias formas de trabalho precário — contrato a termo, tempo parcial involuntário, trabalho temporário, “falso trabalho por conta própria”, trabalho sazonal, trabalho ocasional, trabalho no domicílio e trabalho em regime de sub-empreitada -, todas elas dotadas de uma característica comum: a de não corresponderem a uma situação desejada pelos trabalhadores. Uma outra característica comum — com exceção do tempo parcial involuntário com contrato sem termo — é a instabilidade que resulta do tipo de inserção profissional. Em torno destas formas de trabalho precário delineou-se o seu enquadramento jurídico, bem como alguns aspectos lacunares que este contém e algumas transgressões praticadas. Segundo a diretora do Departamento de Gestão e da Regulação do Trabalho da SEGETES, professora Maria Helena Machado, o aumento do número de pessoas que se encontram em condições de trabalho precário no SUS tem preocupado bastante, nos últimos anos, os gestores e lideranças dos trabalhadores do setor. Por trabalho precário, define a professora, entende-se aquele que se exerce na ausência dos direitos trabalhistas e de proteção social, ou seja, o que é desprovido da devida cobertura por normas legais e não garante os benefícios que dão segurança e qualidade de vida ao trabalhador. Entre esses benefícios estão, entre outros, a aposentadoria, o gozo de férias anuais, o décimo-terceiro salário e as licenças remuneradas de diversos tipos. Passo a passo pelos Direitos Humanos Atividade deste Tópico Baseado no conteúdo do texto acima, escolha duas perguntas abaixo: 1)Por que os casos de trabalho escravo se concentram principalmente na Região Norte do país? Que medidas estão sendo tomadas para a erradicação do trabalho escravo nessa região e particularmente em seu município? 2)Descubra junto ao conselho estadual de direitos humanos ou através da comissão de DH da assembléia legislativa se no seu Estado há um Plano de Dh. 3)A manutenção de uma menina, em casa de família, para ajudar nos trabalhos domésticos, servir de babá e acompanhar as crianças à escola, em troca de casa e comida, tem algo a ver com trabalho indigno ou escravo? 4)Pesquise quais as medidas tomadas pelo Ministério Público do Trabalho e Delegacia Regional do Trabalho na sua região para a erradicação do trabalho em condições análogas a de escravo ou exercido em condições indignas 145 Responda as perguntas escolhidas e encaminhe-as para o seu/sua tutor(a) pelo ambiente de capacitação. Links Português http://noticias.terra.com.br/brasil/interna/0,,OI271032-EI1194,00.html http://www.estadao.com.br/agestado/noticias/2004/mar/08/182.htm http://www.historianet.com.br/main/mostraconteudos.asp?conteudo=4 http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u57775.shtml http://www.dhnet.org.br/direitos/militantes/freibetto/betto_trabescravo.html http://www.adital.org.br/asp2/noticia.asp?idioma=PT¬icia=10909 http://www.dhnet.org.br/denunciar/Brasil_2001/Cap3_Repressao.htm http://conjur.uol.com.br/textos/24573/ http://www.pgt.mpt.gov.br/publicacoes/cartilha_mpt.pdf 146 20. Controle Social e Conselhos de Direitos no Brasil Os conselhos como mecanismos de participação e de legitimidade social iniciam-se no Brasil, segundo Gohn, como fruto da organização e das lutas sociais. Segundo Gohn (1995), a mediação povo-poder através dos conselhos como esferas públicas de exercício do poder no Brasil, surgem nas décadas de 1970-93. Dentre os tipos básicos de conselhos criados ao longo desse período, destaca a autora, alguns aparecem na cena política a partir da iniciativa popular ainda no contexto ditatorial, a exemplo dos conselhos comunitários, e outros foram criados por exigências constitucionais e legais, como os conselhos de políticas públicas e os de direitos. É com o retorno do exercício dos direitos civis e políticos que os conselhos como esferas públicas entram em cena na institucionalidade democrática, como mecanismos institucionais de participação representativa. A Constituição de 1988 cria as condições jurídico-políticas para a criação e funcionalidade de órgãos de natureza plurirepresentativa com função de controle social e de participação social na gestão da coisa pública. Os conselhos de políticas públicas e de direitos são portanto formas concretas de espaços institucionais de exercício da participação social. Se em nível nacional os conselhos de políticas públicas como saúde, educação e outros, foram sendo paulatinamente criados como órgãos de gestão e monitoramento da gestão das políticas sociais, no campo dos conselhos de direitos e defesa dos direitos humanos, só após a Constituição Cidadã de 1988 com a institucionalização do Estado Democrático de Direito é que os órgãos de defesa dos direitos humanos ampliam-se na cena política brasileira. Contraditoriamente, o Conselho Nacional de Comunicação só foi criado em 2003, face às resistências das forças controladoras dos meios de comunicação, representantes de partidos políticos dominantes na cena política. No campo dos direitos humanos, o Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana, de âmbito nacional foi criado através da Lei 4.319 e sancionada em 16 de março de 1964, numa conjuntura política crítica, anterior ao golpe militar de 31 de março de 1964. Com o processo ditatorial, desfavorável ao exercício dos direitos civis e políticos, o CDDPH figurou por muito tempo com funções legais de promoção e defesa dos direitos humanos impossíveis de efetuação, tais como: Intervir na promoção, defesa e divulgação dos direitos da pessoa humana (...) receber representações ou denúncias de violações de direitos humanos (...) determinar diligências (...) promover inquéritos e investigações em qualquer parte do país (...) tomar depoimentos de autoridades (...)inquirir testemunhas (...) requisitar às repartições públicas e os agentes públicos informações e documentos (...) transportar-se para lugares onde se fizer mister a sua presença.( ESPINOLA, 1996) Sua instalação só ocorreu em 24 de outubro de 1968. A atuação do conselho no período ditatorial for restrita, vez que as denúncias de violações eram prontamente arquivadas.Durante o período da “Nova República” segundo Espínola, é que o CDDPH começou a receber as denúncias de violações de direitos humanos. Segundo Resende (2004), o regime militar instalou o CDDPH num momento que os protestos eram respondidos à bala. Várias foram as tentativas de contenção do conselho por parte do Governo Militar, como a exigência de sigilo das reuniões, a ampliação de quadros para a participação de membros do Governo e outros. Em 1993 o conselho passou a ter um importante papel na articulação com a sociedade civil no sentido de avançar a legislação interna de proteção dos direitos humanos e os encaminhamentos de adesão aos 147 mecanismos internacionais de proteção dos direitos humanos. O avanço histórico no campo dos direitos humanos foi fruto das lutas sociais, foi assim, o processo de anistia, as eleições diretas, o programa nacional de direitos humanos e as conquistas legais abaixo relacionadas: • Lei 8069/90 - Estatuto da Criança e do Adolescente • Lei 9140/95 - Reconhecimento de desaparecimento de presos em razão de atividades políticas; • Lei 9299/96-Transferência para Justiça Comum a competência para julgamentos de crimes dolosos praticados por policiais; • Lei 9.437/97 - Criminalização do porte de arma; • Lei 9455/97-Tipificação do crime de tortura, com penas severas; • Lei 9459/97-Tipificação dos crimes de discriminação com base em etnia, religião e procedência nacional; • Lei 9474/97 - Estatuto dos Refugiados; • Lei 9534/97 - Gratuidade do registro civil de nascimento e de óbito; • Lei 9714/98 - Institui oito tipos de Penas Alternativas; • Lei Complementar 88/96 – Rito sumário nos processos de desapropriação para fins de reforma agrária; • Lei Complementar 93/98 – Criação do Banco da Terra; • Lei 9437/97 - Criminaliza o porte ilegal de armas e cria o Sistema Nacional de Armas (SINARM); • Lei 9503/97 -Código de Trânsito. Para agir na defesa dos direitos humanos de modo a fazer cumprir a legislação protetiva foi necessárias a articulação de forças sociais e a criação de um conjunto de mecanismos institucionais de defesa, os denominados órgãos ou entidades de direitos humanos. Enquanto na década de setenta foram importantes os órgãos vinculados à igrejas e a sociedade civil, como as pastorais, os centros de defesa, as comissões de justiça e paz, os serviços de justiça e paz., na década de 80 foi relevante as ONG’s de direitos humanos vinculadas as diversas áreas e segmentos sociais. A década de noventa por sua vez aparecem os conselhos de direitos e defesas e as redes de direitos humanos. As redes em direitos humanos nascem de uma realidade político-estrutural, em agregar forças democráticas na defesa dos direitos humanos, da dignidade dos povos latinos, num contexto em que as ditaduras praticavam crimes de lesa humanidade como a tortura, execuções extrajudiciais e desaparecimento forçados. ( Achkar, 1998,p.26). Os tipos de redes que se organizaram na América Latina tiveram como objetivo, o intercâmbio de experiências, práticas e abordagens teóricas, identificar a sistematização, a teorização e a capacitação.Dentre as conquistas resultantes da atuação das redes e entidades, destacam-se, segundo Basombrio apud Silva Júnior In: Nuevamérica, 1998, p.57): ajudar à pessoas que sofrem violações aos direitos humanos; atenuar o desrespeito aos direitos humanos; a difusão de uma consciência de direitos e de dignidade da pessoa humana. Por outro lado, Basombrio alerta também das dificuldades: • a visão unilateral da violações; • a dificuldade de coordenar e articular grupos da sociedade civil; • a necessidade de construir propostas de interlocução com o estado. • Atualmente são exemplos de redes em direitos humanos no Brasil: • MNDH – Movimento Nacional de Direitos Humanos - www.mndh.org.br 148 • Rede Brasileira de Educação em Direitos Humanos – www.dhnet.org.br/educar/redeedh • Fórum Nacional de Educação em Direitos Humanos – www.dhnet.org.br/educar/cd/passarela/quem somos.htm • Rede Nacional de Extensão Universitária – Área de Direitos Humanos • Consórcio Universitário de Direitos Humanos – www.concorciodh.org.br • Comissões de Direitos Humanos do Conselho Federal e Conselhos Regionais de Psicologia – www.pol.org.br/cfp/default.cfm • Rede Unicidadania • Associação Nacional de Pesquisa em Direitos Humanos • DH net – www.dhnet.org.br • Fórum de Entidades Nacionais de Direitos Humanos – www.forum.direitos.org.br É ainda na década de noventa, por sua vez, que aparecem as Comissões de Direitos Humanos vinculadas aos Conselhos Profissionais, como OAB e Conselho Federal de Psicologia no poder legislativo federal, estaduais e municipais e os conselhos de direitos e de defesa. Conselhos Nacionais: • Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana – CDDPH – www.mj.gov.br/sedh/cddph • Conselho Nacional de Combate à Discriminação - CNCD – www.mj.gov.br/sedh/cncd • Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente – CONANDA – www.presidencia.gov.br/sedh/ • Conselho Nacional dos Direitos da Mulher – CNDM – www.presidencia.gov.br/spmulheres • Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa Portadora de Deficiência – CONADE – www.mj.gov.br/sedh/ct/CONADE • Conselho Nacional dos Direitos do Idoso – CNDI - www.mj.gov.br/sedh/cndi • Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária – CNPCP – www.mj.gov.br/cnpcp • Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial – CNPIR – www.planalto.gov.br/seppir ou www.presidencia.gov.br/seppir Outros órgãos colegiados nacionais: • Comitê Nacional para a Educação em Direitos Humanos – CNEDH • Comissão Nacional de Erradicação do Trabalho Escravo - CONATRAE Conselhos Estaduais: • Conselho Estadual de Defesa dos Direitos do Homem e do Cidadão • Conselho Estadual dos Direitos da Pessoa Humana • Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Mulher • Conselho Estadual dos Direitos do Idoso • Conselho Estadual do Consumidor • Conselho Estadual de Proteção de Vítimas e Testemunhas Os conselhos estaduais tem funções de promoção e defesa dos direitos humanos. A exemplo, citamos os objetivos do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos do Homem e do Cidadão da Paraíba, criado em 1992: • propor diretrizes para o poder público estadual atuar nas questões de direitos humanos do cidadão; • auxiliar o poder público estadual a desenvolver suas atividades dentro do respeito aos direitos fundamentais da pessoa humana; • propor mecanismos legais que permitam a institucionalização da promoção e defesa dos direitos do homem e do cidadão como missão primordial do poder público estadual; • estimular e promover a realização de estudos, pesquisas e eventos que incentivem o debate sobre os direitos do homem e do cidadão; 149 • estimular programas educativos para a conscientização sobre os direitos humanos e da cidadania; • denunciar e investigar violações de direitos humanos ocorridos no Estado da Paraíba; • receber e encaminhar às autoridades competentes petições, representações, denúncias ou queixas de qualquer pessoa ou entidades por desrespeito aos direitos individuais e coletivos assegurados a legislação em vigor; manter intercâmbio e cooperação com as entidades e órgãos públicos e privados, nacionais e internacionais de defesa dos direitos humanos e do cidadão; • instituir e manter atualizado um centro de documentação, onde sejam sistematizados dados e informações sobre as denúncias recebidas; • editar boletins ou revistas com periodicidade no mínimo semestral; instalar comissões e grupos de trabalho nas formas previstas no regimento; • solicitar as diligências que reputar necessárias para a apuração de fatos considerados lesivos aos direitos do homem e do cidadão; • elaborar e apresentar anualmente, ao público e aos chefes dos poderes executivo, Legislativo e Judiciário do Estado, relatório circunstanciado das atividades desenvolvidas no período; • solicitar às autoridades competentes a designação dos servidores públicos para o exercício de atividades específicas. Compete ao Conselhoou a qualquer um de seus membros: • solicitar dos órgãos públicos estaduais, certidões, atestados, informações, cópias de documentos e de expedientes ou processos administrativos; solicitar aos órgãos públicos federais e municipais os elementos referidos no inciso anterior; • propor a autoridade de qualquer nível a instauração de sindicâncias, inquéritos e processos administrativos ou judiciais para a apuração de responsabilidade pela violação dos direitos do homem e do cidadão; • ter acesso a qualquer unidade ou instalação pública estadual para o acompanhamento de diligências ou a realização de vistorias, exames e inspeções; acompanhar a lavratura de autos de prisões em flagrantes. Atividade deste Tópico Baseado no conteúdo do texto acima, escolha duas perguntas abaixo: 1)Como avançou historicamente o Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana? 2)Quais as ações de educação em DH desenvolvidas na sua cidade ou estado, seja através das entidades da sociedade civil, seja através dos órgãos estaduais. Quais as demandas de educação em DH há seu Município? 3)Qual a diferença entre controle social e controle público? 4)Qual a relação de influencia entre sociedade civil com o Controle Social e Conselhos de Direitos no Brasil? Responda as perguntas escolhidas e encaminhe-as para o seu/sua tutor(a) pelo ambiente de capacitação. 150 21. Conselhos Municipais de Direitos humanos Os conselhos municipais são compostos por representantes do governo e da sociedade civil empenhados em discutir, implementar e avaliar em conjunto as políticas públicas referentes a determinado grupo da sociedade mais vulnerável. Seus objetivos também são encaminhar denúncias, sugerir projetos e fiscalizar a atuação do Poder Público. São importantes canais de participação coletiva e de criação de novas relações políticas entre governos e cidadãos por meio de um processo de interlocução permanente. A sociedade civil deve propor alternativas de políticas públicas, criar espaços de debates, penetrar na lógica burocrática estatal para transformá-la e exercer o controle socializado das ações e deliberações governamentais. Mas nem sempre isso ocorre. Uma pesquisa feita, em Juiz de Fora (MG), sobre quatro de seus conselhos municipais demonstrou que suas reuniões muitas vezes ocorrem sem a presença de um conselheiro titular, o que dificulta a organização por parte da sociedade. Ainda de acordo com a pesquisa, concluiu-se que outro fator que impede a participação da sociedade civil é a falta de fóruns de discussão onde se possam debater questões relacionadas às políticas adotadas pelo respectivo conselho. Embora muitos conselhos municipais não funcionem da maneira como deveriam, os mesmos continuam sendo peça importante no combate às violações de direitos humanos. Dessa forma, a Secretaria Especial de Direitos Humanos apóia os conselhos municipais já existentes, a fim de que governo e sociedade civil possam atuar de forma articulada na proposição e no desenvolvimento de ações voltadas para a promoção e a proteção dos direitos humanos. O objetivo é permitir que os conselhos municipais consigam exercer suas atividades, entre elas: a) participar do estabelecimento da política municipal de direitos humanos; b) adotar providências e propor medidas para apurar violações de direitos humanos; c) realizar ou patrocinar campanhas e eventos locais com o objetivo de difundir e proteger os direitos humanos. Por mais que muitos conselhos municipais não sejam muito efetivos na articulação entre governo e sociedade civil é necessário o apoio aos mesmos, bem como o incentivo à sua criação, uma vez que exercem papel fundamental na alteração do quadro social e cultural da comunidade e na promoção dos direitos humanos. Pesquisas indicam a existência dos seguintes conselhos municipais: Conselho Municipal de Alimentação Escolar • Conselho Municipal de Assistência Social • Conselho Tutelar • Conselho Municipal de Contribuinte • Conselho Municipal de Defesa do Consumidor • Conselho Municipal de Defesa do Meio Ambiente • Conselho Municipal do Desenvolvimento Rural • Conselho Municipal do Desporto • Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente • Conselho Municipal dos Direitos da Mulher • Conselho Municipal de Educação e Cultura 151 • Conselho Municipal de Entorpecentes • Conselho Municipal de Habitação • Conselho Municipal do Idoso • Conselho Municipal do Orçamento Participativo • Conselho Municipal do Patrimônio Histórico e Cultural • Conselho Municipal de Pessoas Portadoras de Deficiência • Conselho Municipal do Plano Físico Urbano • Conselho Municipal do Saneamento Ambiental • Conselho Municipal de Saúde • Conselho Municipal de Trabalho e Emprego • Conselho Municipal do Trânsito e Transporte • Conselho Municipal de Turismo Atividade deste Tópico Baseado no conteúdo do texto acima, escolha duas perguntas abaixo: 1)Como os conselhos municipais existentes se relacionam entre si e com a comunidade? 2)Aponte relações importantes entre sociedade civil e Conselhos Municipais e o que mais poderia ser feito. 3)Justifique a existência de conselhos municipais com diferentes competências. 4)Cite algumas atividades exercidas pelos conselhos municipais e justifique sua importância. Responda as perguntas escolhidas e encaminhe-as para o seu/sua tutor(a) pelo ambiente de capacitação. Links Português http://www.mj.gov.br/sedh/dpdh/gpdh/conselhos.htm http://www.cddhjf.hpg.ig.com.br/extras/RelatorioCM.doc http://www.mj.gov.br/sedh/ct/cndi/conselhos_municipais.htm 152 22. Como montar uma rede? Plano de Direitos Humanos para o município Ao falar em um plano municipal de direitos humanos, deve-se primeiro ter em mente o diálogo entre sociedade civil e Estado. O plano deve ser fruto do debate e acordo entre ambos porque ele só será eficaz se atender às necessidades da comunidade como um todo. Citamos o exemplo da proposta de plano municipal de direitos humanos elaborada pelo Conselho Municipal de Defesa dos Direitos Humanos – CMDDH de Belém. Após sua elaboração, o plano foi encaminhado aos movimentos sociais, organizações, entidades não-governamentais e governamentais para que ocorram debates e sejam incluídas suas contribuições. O plano só será encaminhado a autoridade competente que o transformará em instrumento legal após o pronunciamento das organizações. O Plano Municipal de Direitos Humanos de São Paulo também foi elaborado com a articulação de diferentes setores da sociedade. Suas políticas públicas estão voltadas para os excluídos e aqueles que sofrem diariamente violação de seus direitos humanos. Elas serão desenvolvidas pela mobilização e organização dos diferentes setores sociais e dos poderes públicos constituídos. O plano já conta com a participação ativa do Fórum Municipal de Direitos Humanos, da Comissão de Direitos Humanos e Cidadania da Câmara Municipal de São Paulo, do Grupo de Trabalho dos Direitos Humanos da Procuradoria Geral do Estado e da Assessoria Especial de Direitos Humanos do Ministério Público. Consta no Plano que é dever do Município a promoção de políticas públicas que garantam a inviolabilidade dos direitos humanos. No entanto, cabe à sociedade civil acompanhar e fiscalizar a execução dessas políticas. Verifica-se que a criação de um plano municipal de direitos humanos deve sempre ser fruto da articulação entre sociedade civil e município, tendo em vista que essa é a única maneira existente de se identificar os problemas prioritários da comunidade e para tentar buscar as soluções. O trabalho de criação de um plano municipal de direitos humanos é uma excelente oportunidade para: 1) identificar os principais problemas e obstáculos para a promoção dos direitos humanos em seu município e 2) conhecer as principais organizações que possam contribuir para a superação desses problemas e obstáculos. Com o elenco dos problemas e das organizações de direitos humanos você está pronto para criar uma rede pela Internet. Como primeiro passo para o estabelecimento dessarede sugerimos a criação de uma lista de discussão. Passos para elaborar um plano municipal: Os prefeitos e prefeitas imbuídos da formulação do plano municipal de direitos humanos deverão estar atentos para: 1. Criar de um processo democrático e participativo para a constituição de um plano municipal que tenha os direitos humanos enquanto cerne das políticas governamentais, onde a sociedade civil participe da formulação de propostas de políticas públicas e na fiscalização das ações previstas, quando devem ser consideradas as especificidades das demandas, bem como as necessidades locais para estabelecer articulação e a mobilização de parceiros; 153 2. Estabelecer as diretrizes para elaboração do plano municipal em parceira com a sociedade civil através da realização de conferência municipal; 3. A partir das diretrizes, organizar oficinas de preparação do plano onde haja a participação da sociedade civil e parceiros da estrutura governamental para identificar: 3.1- as principais violações de direitos humanos no município; 3.2- as metas a serem alcançadas para a promoção dos direitos humanos; 3.3- as medidas e ações para alcance das metas; 3.4– as obrigações e responsabilidades dos órgãos governamentais, do setor privado e da comunidade local. 4. O plano deve incluir também: 4.1– antecedentes históricos sobre os direitos humanos; 4.2- legislação (internacional, nacional e municipal) 4.3– recomendações 4.4– lista de parceiros que participaram do processo 5. Apresentar o plano para os segmentos sociais (mulheres, crianças e adolescentes, negros(as), indígenas etc) organizados em congressos setoriais para apreciação, críticas e sugestões de inserção de políticas no plano. As propostas discutidas e aprovadas nos congressos setoriais deverão ser referendadas em Congresso Municipal para aprovação do Plano fin Para consulta, sugerimos acessarem o Plano Municipal de Direitos Humanos de São Paulo através do link: www.dhnet.org.br/direitos/brasil/pmdh/sp/pdhsp.htm Atividade deste Tópico Baseado no conteúdo do texto acima, escolha duas perguntas abaixo: 1)Como os conselhos poderiam contribuir na formulação e implementação do Plano de Direitos Humanos de seu município? 2)O trabalho de criação do Plano Municipal de Direitos Humanos é uma excelente oportunidade para colocar na agenda pública os problemas de violação de direitos em seu município, o papel dos gestores públicos governamentais e não governamentais e as alternativas de solução para os problemas levantados, por meio de políticas públicas e serviços sociais. Tente relacionar os problemas, as responsabilidades dos gestores e as alternativas de solução para a proteção dos direitos humanos em seu município. Sua contribuição é muito importante. 3)Quantas pessoas são necessárias para montar uma rede ou fazer um Plano de DH para o município? 4)Disserte sobre a relevância do trabalho de criação de um plano municipal de direitos humanos. Responda as perguntas escolhidas e encaminhe-as para o seu/sua tutor(a) pelo ambiente de capacitação. Links Português http://www.ucg.br/vae/Etg/VaeEtgPdh.php http://www.pge.sp.gov.br/direitos%20humanos/Revista%20n%201/dirhumanos.htm http://http://www.pnud.org.br http://www.projetolegal.org.br/ 154 http://www.dhnet.org.br/direitos/brasil/pmdh/sp/pdhsp.htm 155 23. Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos O processo de construção da cidadania ativa requer a formação de cidadãos conscientes dos seus direitos e deveres. Nesse processo, a educação é tanto um direito humano em si mesmo, como um meio indispenável para a realização de outros direitos. A educação ganha maior importância quando direcionada ao pleno desenvolvimento humano e às suas potencialidades, a fim de dar concretude ao ideal de uma cidadania plena. Nessa perspectiva, a educação, contribui também para a criação de uma cultura universal dos direitos humanos direcionada : 1) ao fortalecimento do respeito aos direitos e liberdades fundamentais do ser humano ; 2) ao pleno desenvolvimento da personalidade humana e senso de dignidade ; 3) à prática da tolerância, do respeito à diversidade de gênero e cultura, da amizade entre todas as nações, povos indígenas e grupos raciais, étnicos, religiosos e linguistícos ; 4) à possibilidade de todas as pessoas participarem efetivamente de uma sociedade livre. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação estabelece que educar em direitos humanos é fomentar uma prática educativa « inspirada nos princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade humana, com a finalidade do pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.Sendo um importante desafio, a transformação da cultura e o investimento na formação de agentes multiplicadores, os quais teriam participação ativa no projeto em construção de uma sociedade que se pretende cada vez mais democrática e aberta. Com a inclusão do ensino dos direitos humanos nas escolas e nas academisas de polícia, por exemplo, uma nova consciência passa a ser gerada. Consciência esta capaz de compreender a condição do mundo humano, definindo novos caminhos para a construção da cidadania.Este processo resgata duas esferas do ser humano : o conhecimento racional, empírico e técnico de um lado, e o simbólico, poético, mágico e mítico de outro. É no entrelaçamento dessas duas dimensões que a educação para os direitos humanos encontra seu ancoradouro e sua perspectiva futura. Como exemplo de política na área de educação para os direitos humanos, no Brasil, podemos citar o Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos - PNEDH, que na condição de política pública, apresenta-se como um instrumento orientador e fomentador de ações educativas, no campo da educação formal e não-formal, nas esferas pública e privada. O PNEDH reflete as ações que estão em desenvolvimento no país, envolvendo iniciativas de instituições públicas, organizações da sociedade civil e contribuições recebidas por meio de consulta pública e das recomendações do documento da UNESCO que estabelece a década das Nações Unidas para a Educação em Direitos Humanos e para uma Cultura de Paz (1995-2004). Atividade deste Tópico Baseado no conteúdo do texto acima, escolha duas perguntas abaixo: 1)Qual a importância da educação voltada para a cidadania na defesa dos direitos humanos? 2)Você acha que a educação em Direitos Humanos deveria ser aplicada desde a escola primária? Justifique. 3)Em que locais e de que forma você acha que deveria ser promovida a educação em direitos 156 humanos? 4)A educação em Direitos Humanos pode influenciar, de forma negativa, culturas não-ocidentais? Responda as perguntas escolhidas e encaminhe-as para o seu/sua tutor(a) pelo ambiente de capacitação. Links Português http://www.hottopos.com/convenit6/victoria.htm http://planeta.terra.com.br/noticias/mjdh/tela6.html http://www.mj.gov.br/sedh/ct/spddh/pnedh.pdf http://www.dhnet.org.br/w3/ceddhc/educdh/experie.htm http://www.dhnet.org.br/educar/redeedh/rede/entre.html http://www.iie.min-edu.pt/rec/dudh/ http://usinfo.state.gov/journals/itdhr/0302/ijdp/ijdp0302.htm http://www.guiadh.org/subsidios/versubsidio.php?cod=32 http://www.mj.gov.br/sedh/paznasescolas/ 157 Unidade IV - PROJETO FINAL Agora que você chegou ao final do curso tendo estudado as três unidades (Teoria Geral e Direito Internacional dos Direitos Humanos, Direitos Humanos na Constituição Brasileira de 1988 e Direitos Humanos na Prática.) você já pode se considerar um gestor de direitos humanos. Mas, afinal o que significa isso? O gestor de direitos humanos é alguém capaz de: 1)Relacionar-se com os mais diversos agentes de proteção e promoção dos direitos humanos, sejam eles do Estado ou da Sociedade Civil, e 2)Elaborar projetos de promoção ou proteção dos direitos humanos que envolvam esses agentes, bem como as mais diversas pessoas da sociedade civil. Se você já se considera umgestor de direitos humanos o próximo passo é elaborar um projeto para promoção dos direitos humanos em seu município. Para isso examine qual a área de direitos humanos que você tem mais conhecimento e seja capaz de coordenar uma atividade comum dos mais combativos agentes de promoção direito humano do seu município. Essa atividade deverá ser descrita em forma de um projeto que deve ter as seguintes etapas: 1) Identificação do problema de violação ou ausência de promoção de determinado direito humanos; 2) Escolha justificada dos agentes envolvidos; 3) Descrição da atividade com cronograma de tarefas. Os cinco melhores planos serão premiados com uma biblioteca de direitos humanos. Boa sorte e excelente trabalho. 158 Glossário Apartheid Regime de segregação racial instituído por colonizadores de origem inglesa e holandesa a fim de manterem o domínio sobre a população nativa. As leis instituídas pelo regime dificultava a ascensão economicamente dos negros Tópicos relacionados 7. Convenção pela Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial (1965) Apátrida É o indivíduo que não é reconhecido como nacional de nenhum Estado, carecendo, portanto, de nacionalidade. Tópicos relacionados 10. Direito à Nacionalidade Balcão de Direitos Trata-se de um atendimento gratuito localizado nas comunidades carentes com as seguintes atribuições: concessão de assessoria jurídica gratuita, fornecimento de noções básicas de cidadania e de Direito, e facilitação na obtenção de documentação civil básica aos membros das comunidades. Tópicos relacionados 3. A Secretaria Especial de Direitos Humanos: programas Convenção de Belém do Pará Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher. Foi denominada Convenção de Belém do Pará por ter sido adotada pela Assembléia Geral da Organização dos Estados Americanos em Belém do Pará (1994). Tópicos relacionados 8. Convenção pela Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher (1979) e a Convenção de Belém do Pará (1994) 159 Corrente historicista Entende-se aqui por corrente historicista aquela corrente que fundamenta o direito na história. O direito é um construído histórico. Tópicos relacionados 1. Fundamentos e História dos Direitos Humanos Corrente naturalista Entende-se aqui por corrente naturalista aquela corrente que fundamenta o direito na natureza humana. Tópicos relacionados 1. Fundamentos e História dos Direitos Humanos Crimes homofóficos <SEM DEFINIÇÃO> Tópicos relacionados 15. Direito à Livre Orientação Sexual Danos morais <SEM DEFINIÇÃO> Tópicos relacionados 14. Direitos dos Afro-Descendentes Declaração É um documento que contém regras sem efeitos jurídicos vinculantes. É assinado por um determinado número de Estados. Tópicos relacionados 1. Fundamentos e História dos Direitos Humanos 160 Ditadura Militar É o regime caracterizado pelo autoritarismo, pela supressão dos direitos constitucionais, pela perseguição policial e militar, pela prisão e tortura dos opositores, bem como pela censura prévia aos meios de comunicação. Especificação do sujeito de direito É o reconhecimento do indivíduo em suas particularidades e peculiaridades, levando em consideração também seu contexto social. As mulheres e os negros podem ser tidos como exemplos. Tópicos relacionados 13. Direitos das Mulheres Estado de Não-Direito É o Estado onde os direitos e garantias constitucionais não são assegurados efetivamente, ou, ao menos, têm um acesso limitado para a classe pobre. Função social da propriedade Trata-se de uma condição imposta ao direito de propriedade a fim de que o interesse social prevaleça sobre o interesse individual. Tópicos relacionados 7. Direito à Propriedade Homofobia Trata-se de medo e o resultante desprezo pelos homossexuais Tópicos relacionados 15. Direito à Livre Orientação Sexual Idéias neoliberais São valores fundados na doutrina do neoliberalismo, ou melhor, em preocupações sociais, tais como a redução das desigualdades sociais e a redistribuição de riquezas, no papel limitado do Estado na economia e na crença do mercado livre. Para esta doutrina, o Estado deve garantir e fomentar a liberdade individual. 161 Tópicos relacionados 5. Direito à Igualdade Igualdade de fato É a igualdade real. Para que se alcance esta espécie de igualdade, é preciso mais do que uma regra legal que diga que todos são iguais perante a lei. É preciso conceder mais aos que têm menos. É preciso redistribuir recursos, é preciso compensar as discriminações existentes. Tópicos relacionados 7. Convenção pela Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial (1965) Igualdade formal É a igualdade em tese, em teoria. Pode ser traduzida como a igualdade perante a lei. Tópicos relacionados 7. Convenção pela Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial (1965) Impunidade virtual Refere-se ao favorecimento, ainda que indireto, dos policiais, fazendo com que os mesmos continuem cometendo crime impunemente. Como exemplo, tem-se a corte militar. Instituição fechada Entende-se aqui por instituição fechada o lugar destinado ao tratamento psiquiátrico do indivíduo ou cumprimento de pena, que deveria ter por objetivo a reintegração do indivíduo ao convívio em sociedade. Como exemplo, cite-se o presídio. Integridade física Trata-se de um direito fundamental do indivíduo elencado na Constituição Federal. Tópicos relacionados 3. Direito à Vida 162 Liberdade objetiva É também denominada liberdade de fazer ou liberdade de atuar, pois consiste na expressão externa da vontade individual. Tópicos relacionados 4. Direito à Liberdade Lista de discussão Trata-se de um espaço onde as pessoas possam discutir determinado assunto. Sendo assim, é um local que promove o diálogo. A idéia é a formação de uma lista de discussão como primeiro passo para a criação de uma rede. Mão de obra escrava Ocorre quando o trabalhador é forçado ou fica submetido a condições ilegais de domínio do empregador. O trabalhador é visto como uma mercadoria e é privado do direito de ir e vir. Ministério Público É uma instituição permanente, essencial à função jurisdicional do Estado, que tem por atribuição a defesa da ordem jurídica, do regime democrático e dos interesses coletivos e individuais indisponíveis. O Ministério Público (MP) é dividido em MP Estadual (sua estrutura é mantida pelos Estados) e MP da União (sua estrutura é mantida pela União). O último abrange o MP Federal, o MP do Trabalho, o MP Militar, o MP do Distrito Federal e Territórios. Plano Plurianual (PPA) É uma lei com duração de quatro anos instituída pela Constituição Federal que contém o planejamento de médio prazo e a definição das macro-orientações do Governo Federal para a ação nacional no período citado. Estas macro-orientações são mandatórias para o setor público e indicativas para o setor privado. Prestações negativas do Estado Entende-se que certos direitos têm como contrapartida obrigações negativas do Estado. Em outras palavras, para que determinados direitos sejam satisfeitos, é necessário que o Estado se abstenha de agir. Se o indivíduo tem o direito à integridade física e mental, o Estado tem a obrigação de não utilizar a tortura sequer como método investigativo. Se o indivíduo tem o direito de manifestar suas opiniões, o Estado tem o dever de não impor a censura prévia. 163 Tópicos relacionados 6. Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (1966) Prestações positivas Referem-se ao dever de agir do Estado para garantir a satisfação de determinados direitos. Isto significa que alguns direitos só serão efetivados se o Estado implementar políticas públicas, como a construção de postos de saúde e de escolas – igual ao número 6 da primeira parte. Prestações positivas do Estado Entende-se que certos direitos têm como contrapartida obrigações positivas do Estado. Em outras palavras, para que determinados direitos sejam satisfeitos, é necessário que o Estado aja, construindo escolas, construindo tribunais, contratando juízes,