Prévia do material em texto
MICROBIOLOGIA, IMUNOLOGIA E PARASITOLOGIA AULA 1 Prof.ª Catalina Yumi Masuda Nishi 2 CONVERSA INICIAL A Microbiologia é a ciência que estuda os microrganismos ou seres microscópicos, e como toda ciência, resulta de observação, identificação, pesquisa e explicação de fenômenos, fatos e suas relações com os outros seres no meio ambiente. Os seres microscópicos abrangem uma vasta gama de microrganismos, incluindo bactérias, fungos, protozoários, algas microscópicas e os vírus (entidades acelulares por muitos consideradas no limite entre os seres vivos e não vivos). Quando escutamos a palavra “Microbiologia”, podemos pensar em doenças, naquelas frases aprendidas na nossa infância – como “não coloque isso na boca sem saber onde esteve, pode ter germes” – ou em comida, devido aos anúncios de alimentos probióticos. Conhecer alguns fatos da microbiologia pode ajudar a entender nossa relação com os microrganismos nos diferentes ambientes da terra, estimulando o pensamento crítico e abrindo novos caminhos. Nesta aula, abordaremos alguns fatos históricos do início da Microbiologia para poder entender sua evolução como ciência no mundo e no Brasil. Serão descritos também os principais grupos de microrganismos, sua morfologia e fisiologia. Para esta aula, destacam-se os seguintes objetivos: • Objetivo geral: reconhecer os fundamentos da Microbiologia; descrever a morfologia e fisiologia dos principais microrganismos. • Objetivos específicos: compreender o desenvolvimento histórico da Microbiologia e os estudos microbiológicos no Brasil; identificar os principais grupos de microrganismos; descrever as estruturas anatômicas e sua fisiologia (das bactérias, dos fungos e dos vírus). TEMA 1 – HISTÓRIA DA MICROBIOLOGIA E MICROBIOLOGIA NO BRASIL A história nos tem mostrado como a ciência da Microbiologia tem influenciado a vida da humanidade: batalhas perdidas, migrações devidas a devastações de plantios, quedas de impérios. Apesar de, desde a Antiguidade, médicos e estudiosos gregos, romanos e asiáticos suspeitarem da existência dos microrganismos, criando medidas sanitárias incipientes, somente a partir do século XVII, quando o holandês Antony van Leeuwenhoek aprendeu a polir lentes, criando o microscópio composto, é que se inicia a “aventura” da microbiologia. Considera-se o marco principal do seu início observar pela 3 primeira vez microrganismos vivos, apesar de que, poucos anos antes, o inglês Robert Hooke tinha visualizado a célula. Por volta de 1822, quando o Brasil proclamava sua independência, nascia, na França, Louis Pasteur, quem estudaria química e física e ajudaria a indústria vinícola no entendimento do processo de fermentação (produção de álcool pela levedura) e como evitar a produção de ácidos por contaminação com microrganismos diferentes (bactérias), processo utilizado até hoje e conhecido como pasteurização. Pasteur refutou com êxito a teoria da geração espontânea com seu clássico experimento utilizando os frascos com gargalo de pescoço de cisne (Figura 1). Suas observações levaram à produção da vacina com microrganismos atenuados contra a cólera das galinhas e contra o antraz ou carbúnculo, doença nos carneiros. Ainda, desenvolveu também a vacina contra a raiva. Figura 1 – Experimento de Pasteur Crédito: Sergey Merkulov/Shutterstock 4 Nos séculos XVIII e XIX, inicia-se a era dourada da microbiologia. Pesquisadores descobriram formas de tingir os microrganismos, deixando-os mais visíveis; Carolus Lineaeus (também conhecido por Carl von Linné) desenvolveu um sistema de classificação geral. Após a descoberta de Pasteur, Robert Koch, médico alemão, propôs a teoria dos germes como causadores de doenças, identificando o agente causador da tuberculose, do antraz ou carbúnculo. Juntamente com seu assistente Walter Hesse e sua esposa Fanny, criaram a cultura em meio sólido utilizando o ágar (produto extraído de algas marinhas vermelhas). O doutor Koch estabeleceu uma série de procedimentos experimentais para se relacionar um microrganismo como causante de uma doença, conhecidos como os Postulados de Koch (Figura 2). Figura 2 – Postulados de Koch Crédito: [mike jones] [CC BY-SA 3.0 (https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0)] 5 Nesta era dourada, as etiologias de um grande número de doenças infecciosas foram identificadas, pesquisas realizadas resultaram em métodos de diagnóstico (cultura pura e isolamento) e prevenção (soros e vacinas, antissépticos). A microbiologia se firmou como um dos braços importantes da biologia e da medicina, permitindo que outros campos de estudo se estabelecem, como a imunologia. Parte do século XX pode ser considerada uma segunda era dourada pelos avanços na elucidação da participação e importância dos microrganismos nos ciclos da natureza, desvendando detalhes não conhecidos na bioquímica, no ambiente e na patologia. Porém, não como uma disciplina única, como Pasteur iniciou, e sim, fragmentada em subdisciplinas: a microbiologia e imunologia médicas, focadas nos organismos e suas relações com o hospedeiro, levando ao controle e tratamento das doenças infecciosas, com representantes como Alexander Flemming, Rebecca Lancefield, e Carlos Chagas; e a microbiologia ambiental, focada nos processos químicos e bioquímicos, cujos pioneiros são o russo Serguei Winogradsky e os holandeses Martinus Beijerinck e o Albert Kluyver. Com o descobrimento da genética e os mecanismos de intercambio genético, bem como a elucidação da estrutura do DNA e RNA por Watson e Crick, foram abertas novas possibilidades, e a microbiologia novamente se mostrou essencial para continuar a procura do entendimento de nosso planeta, como uma microbiologia integrativa. No Brasil, entre os anos 1892 e 1903, foram fundados o Laboratório de Bacteriologia em São Paulo, o qual, um ano depois, passou a se chamar Instituto Bacteriológico (primeira instituição que uniu a microbiologia à saúde pública) e os Institutos Sorológicos, um no Rio de Janeiro, na fazenda Manguinhos, e outro em São Paulo, na fazenda Butantan. Inicialmente, atuaram no combate das três principais epidemias que assolavam as principais cidades: a peste bubônica, pelo extermínio dos ratos (doença transmitida pela picada de pulgas infectadas pelo sangue desses roedores); a febre amarela, por meio da eliminação do mosquito Aedes aegypti (transmissor da doença viral); e a varíola, por meio da vacinação. Os médicos responsáveis pela implantação e direção dos institutos foram Adolpho Lutz e Oswaldo Cruz. Estes foram seguidos pelos dedicados médicos pesquisadores Vital Brasil, Rocha Lima, Gaspar Viana e Carlos Chagas. Por iniciativa de Oswaldo Cruz, o instituto de Manguinhos foi transformado em 6 instituto de medicina experimental pesquisando doenças tropicais, contando com estudantes interessados em estagiar e realizar seus trabalhos, iniciativa que contribuiu para o êxito da ciência brasileira. Foram desenvolvidas outras áreas de conhecimento como: Bacteriologia, Protozoologia, Hematologia, Imunologia, Helmintologia, Entomologia, entre outras. TEMA 2 – PRINCIPAIS GRUPOS DE MICRORGANISMOS Figura 3 – Tipos de microrganismos Crédito: Designua/Shutterstock. A classificação dos microrganismos teve seu começo no século XVIII, quando Linnaeus (1753) desenvolveu o sistema binomial e dividiu os organismos em dois reinos: Plantae (Bactérias, fungos, algas e plantas), e Animalia (Protozoários e animais superiores). A classificação foi mudando com a evidenciação de novas estruturas e características, resultado do desenvolvimento de melhores técnicas. Haeckel (1865) propôs a adição do reino Protista para todos os microrganismos (bactérias, fungos, protozoários e algas). Whittaker (1969) propôs a classificação em cinco reinos deacordo com a forma pela qual os organismos obtinham os nutrientes: Plantae (fotossíntese); Animalia (ingestão); Fungi (bolores e leveduras por absorção); Protista (algas por fotossíntese e protozoários por absorção e ingestão); e Monera (bactérias por absorção). Woese (1977), com os estudos das sequências de RNAr ribossomal, propôs a divisão em três reinos primários: Eubactérias; Archaea; Eucarya. 7 Figura 4 – Árvore filogenética de Carl Woese Crédito: image. wikimedia.org/wikipedia/commons Os microrganismos podem ser unicelulares, multicelulares e células aglomeradas. Eles se encontram distribuídos na natureza e podem ser benéficos ou patogênicos. Além disso, podem ser divididos em seis tipos: bactérias, arqueas, fungos, protozoários, algas e vírus. 2.1 Protozoários Eucariontes, unicelulares. Como os animais, ingerem partículas alimentares. Não apresentam parede celular rígida, não possuem clorofila. Alguns se movimentam por cílios, flagelos ou por pseudópodes. Alguns produzem esporozoários porque formam corpos de repouso (assunto do Tema 4, Fundamentos da Parasitologia). 2.2 Algas Eucariontes, consideradas semelhantes às plantas por conterem o pigmento clorofila, que participa da fotossíntese, e apresentarem parede celular rígida. Podem ser unicelulares e microscópicas ou multicelulares. Crescem em ambientes diferentes, principalmente aquáticos. A utilização do emulsificante Agar, produzido pelas Rodophytas (algas vermelhas), permitiu o crescimento de microrganismos em meio sólido. Estudados pela Botânica, outro ramo da biologia. 8 2.3 Fungos Eucariontes, unicelulares ou multicelulares. Alguns microscópicos, outros com estruturas macroscópicas, como os cogumelos. Apresentam parede celular e obtêm os nutrientes por absorção. Amplamente distribuídos na natureza, atuam nela como decompositores, participando dos ciclos geoquímicos. Os fungos têm importância na indústria, como na alimentícia (pão, cerveja, queijos, vinhos e molhos são alguns exemplos) e na farmacêutica (produção de antibióticos), mas também alguns são responsáveis pela deterioração de materiais diversos e outros agentes patogênicos. O ramo da microbiologia que os estuda é a Micologia. 2.4 Bactérias Procariontes, não possuem várias estruturas observadas nos eucariontes, como o núcleo definido pela membrana nuclear e as organelas membranosas. A composição da sua parede celular e seu comportamento perante colorações são utilizados como uma das formas de classificação. As bactérias têm um papel importante na natureza. Podem ser benéficas ou patogênicas. O ramo da microbiologia que as estuda é a Bacteriologia. 2.5 Archaeas Procariontes, diferem das bactérias na composição de sua parede celular e têm a capacidade de se desenvolver em condições ambientais extremas. De acordo com o seu hábitat, podem ser divididos em: metanogênicas (produzem metano); halófilas (ambientes salgados); termófilas (altíssimas temperaturas); psicrófilas (baixíssimas temperaturas). 2.6 Vírus São entidades moleculares acelulares, encontrando-se no limite das formas vivas e sem vida. Essas entidades consistem em um ácido nucleico (ADN ou ARN) envolto por um capsídeo proteico. Os vírus não conseguem se reproduzir nem ser metabolicamente ativos fora de uma célula hospedeira, portanto, são parasitas intracelulares obrigatórios, sendo capazes de infectar todas as formas de vida. São estudados pelo ramo da Virologia. 9 TEMA 3 – MORFOLOGIA E FISIOLOGIA BACTERIANA O tamanho médio da maioria das bactérias, células procarióticas ou procariontes varia de 0,5-1,5 µm de diâmetro ou comprimento. Existem em vários formatos: bacilos (bastonetes), cocos (esféricas, ovais), espirilos (em espiral como saca rolha) e vibriões (curvados como uma vírgula). Há alguns formatos não comuns, como as quadradas (i.e. Aquaspirillum magnetotacticum) e as apendiculadas (i.e. Hyphomicrobium); embora na maioria das espécies o formato é constante, algumas podem ser pleomórficas. As bactérias podem apresentar-se isoladas ou em agrupamentos espécie- específicos, determinando o gênero. A maior frequência de agrupamentos específicos encontra-se entre os cocos: em duplas (diplococos), em fileiras (estreptococos), em cachos (estafilococos), em cubos (sarcinas) e em tétrades. Os bacilos formam arranjos em padrões variados, em correntes (estreptobacilos), e raramente em paliçada, como o Corynebacterium diphtheriae (causador da difteria), e em roseta, como o gênero Caulobacter. Figura 5 – Esquema e micrografia das estruturas encontradas nas bactérias. Crédito: Designua/Shutterstock A Figura 5 ilustra as estruturas essenciais e não essenciais da célula procarionte. Somente as estruturas essenciais estão presentes em todas as bactérias: citoplasma, ribossomos, nucleoide (molécula de DNA dupla fita circular), membrana citoplasmática e parede celular. As estruturas não 10 essenciais são determinadas por condições ambientais e favorecem a manutenção da viabilidade celular. No citoplasma, em algumas bactérias, encontramos os plasmídeos (moléculas de DNA circular com genes extras de características não vitais que conferem vantagens competitivas às células portadoras) e inclusões citoplasmáticas com material de reserva (grânulos metacromáticos de polifosfatos; glicogênio; grânulos de polidroxibutirato – biopolímeros biodegradáveis). Vacúolos gasosos, que conferem capacidade de flutuar, também podem ser encontrados. A membrana citoplasmática composta de uma bicamada fosfolipídica acumula as funções das organelas presentes nos eucariontes como permeabilidade seletiva e excreção de solutos, obtenção de energia, biossíntese, divisão celular por fissão binária (mesossomos). A parede celular de peptidioglicano é uma estrutura rígida que mantém o formato das bactérias e evita a lise celular. Sua composição em camadas alternadas de unidades de N-acetilglicosamina e N-acetimurâmico interligadas por ligações cruzadas entre os tetrapeptídeos forma uma rede. Essa ligação cruzada é o alvo de vários antibióticos por ser específica dos procariontes. O processo de montagem do peptidioglicano é crítico para a sobrevivência da célula. As camadas da parede variam de acordo com o tipo de bactéria e ajudam na classificação e identificação conforme a resposta a colorações, como à coloração de Gram, que divide em dois grandes grupos os Gram positivos (parede composta principalmente de peptidioglicano e ácidos teicoicos) e os Gram negativos (parede de composição mais complexa, com poucas camadas de peptidioglicano e por uma membrana externa). Nas bactérias Gram negativas, a membrana externa cria uma barreira de permeabilidade adicional que exige mecanismos de transporte através desta membrana; o principal componente da membrana externa é o LPS lipopolissacarídeo ou endotoxina – composto de lipídeo A, polissacarídeo e Antígeno. O polissacarídeo espécie-específico, componente essencial para a sobrevivência da bactéria, provoca respostas fisiológicas no hospedeiro como febre, queda da pressão sanguínea, entre outros (Figura 6). 11 Figura 6 – Esquema da composição da parede celular de Gram positivas e Gram negativas Crédito: Designua/Shutterstock Estruturas externas à parede celular podem ser filamentosas: • o flagelo (composto pela proteína flagelina), com função de locomoção por rotação; • as fimbrias (composto pela proteína pilina); • as fibrilas (compostos pela proteína adesina), com função de aderença; • a fimbria sexual ou pili sexual, formação controlada por genes plasmidiais, cuja função é participar no processo de intercâmbio de material genético chamado de conjugação. Há também estruturas não filamentosas: • o glicocálice (composição variada de glicoproteínas e polissacarídeos); • a camada mucosa, que facilita a colonizaçãode superfícies; • a cápsula, que tem um papel importante em evitar a fagocitose da bactéria. Alguns gêneros bacterianos têm a capacidade de se diferenciar em endósporos, formas de resistência a condições ambientais adversas, voltando à sua forma vegetativa quando o ambiente readquire condições propícias. As bactérias produtoras de endósporos encontram-se principalmente no solo. Algumas foram modificadas e utilizadas como arma biológica. 12 TEMA 4 – MORFOLOGIA E FISIOLOGIA DOS FUNGOS Os fungos são um grupo de organismos eucarióticos ou eucariontes, que incluem: microrganismos unicelulares, uninucleados, de formas esféricas ou ovais, denominadas levedura (Figura 7); bolores, que são multicelulares, multinucleados com estruturas filamentosas, chamadas de hifas (contínuas sem septos ou septadas), cujo conjunto denomina-se micélio. O micélio no interior do substrato funciona como elemento de sustentação e de absorção, sendo chamado de vegetativo; o que é projetado na superfície, diferenciando-se em corpos de frutificação ou propágulos (esporos), é chamado de reprodutivo (Figura 8 e 9); e os macroscópicos, amplamente conhecidos como cogumelos, também formam micélios (Figura 10). Figura 7 – Leveduras Crédito: Designua/Shutterstock. Figura 8 – Bolores Crédito: Kallayanee Naloka/Shutterstock. 13 Figura 9 – Hifa septada Crédito: Designua/Shutterstock. Figura 10 – Cogumelos Crédito: NoPainNoGain/Shutterstock. 14 Sua estrutura celular é eucarionte, com núcleo definido por membrana nuclear e organelas membranosas. Como as mitocôndrias, são desprovidas de clorofila ou quaisquer pigmentos fotossintetizantes, e sua membrana plasmática é estabilizada pelo ergosterol (molécula esteroide que atua como o colesterol nas células animais). A Figura 11 ilustra a parede celular rígida composta de camadas de polissacarídeos complexos, chamados de quitina (composto também presente no exoesqueleto dos insetos), que protege a célula de predadores e de dessecação. Os fungos se alimentam por absorção de nutrientes do ambiente que os rodeia, colonizando e crescendo no substrato do que se estão alimentando. Para facilitar a absorção dos nutrientes, secretam enzimas que digerem materiais variados, fazendo-os interessantes para a indústria química. São organismos aeróbicos e alguns podem ser anaeróbicos facultativos, heterotróficos e saprófitos. Alguns são parasitas e patogênicos para plantas, animais e humanos, por colonizá-los ou pela intoxicação ao ingerir alimentos contaminados com micotoxinas (aflatoxina, ergotina). Figura 11 – Esquema da composição da parede celular dos fungos Fonte: microbiologyinfo.com. As leveduras unicelulares se reproduzem assexuadamente por fissão binária ou por gemulação. Em algumas espécies, esses brotos não se separam 15 e formam uma pequena cadeia chamada de pseudo-hifa, como a Candida albicans, que se fixa nas células epiteliais humanas na forma de levedura precisando estar na forma de pseudo-hifa para invadir tecidos mais profundos. Os fungos filamentosos reproduzem-se de forma sexuada, assexuada ou das duas formas, dependendo da espécie e das condições ambientais. A reprodução sexuada implica a união de dois esporos. A forma de reprodução dos fungos é uma característica fundamental para sua identificação. Fungos dimórficos são fungos que crescem como filamentosos ou leveduras segundo condições nutricionais e ambientais, fenômeno importante em micologia médica. A forma infectante é a forma micelial e a forma encontrada nos tecidos é a leveduriforme. Por exemplo, o Histoplasma capsulatum e o Blastomyces dermatitidis. TEMA 5 – MORFOLOGIA E FISIOLOGIA DOS VÍRUS A palavra latina vírus já era utilizada antes da teoria dos germes com o significado de veneno. No século XIX, apesar de muitos agentes causadores de doenças infecciosas terem sido identificados e procedimentos de controle desenvolvidos, alguns agentes continuavam a escapar dessas medidas, e foram chamados de agentes filtráveis, como mostrou o químico agrícola alemão Adolph Mayer, com a doença da planta do tabaco, e na mesma época o microbiologista e botânico holandês Martinus Beijerinck, que deu o nome de vírus a esses agentes para diferenciá-los das bactérias e outros agentes conhecidos até o momento. Somente no século XX, o primeiro vírus isolado e cristalizado foi o vírus do mosaico do tabaco (TMV). A visualização das estruturas do vírus somente foi possível com o desenvolvimento da microscopia eletrônica. Os vírus, entidades acelulares com capacidade de infectar e se multiplicar dentro de um hospedeiro, sendo parasitas intracelulares obrigatórios, são associações organizadas de macromoléculas compostas de ácido nucleico e proteínas, e metabolicamente inertes fora de uma célula viva. Os vírus infectam todas as formas de vida, desde bactérias, fungos, protozoários, insetos, plantas, animais e o ser humano. A estrutura viral completa é denominada vírion, variando de tamanho de 20 nm (pólio vírus) a 400 nm (vaccínia vírus). O vírion é constituído de um cerne de ácido nucleico (molécula de DNA ou RNA) envolvido por uma capa proteica chamada de capsídeo, codificada pela molécula de ácido nucléico viral. O capsídeo é formado de unidades de proteína https://www.revolvy.com/page/Martinus-Beijerinck 16 denominados capsômeros, que conferem a ele a característica simétrica (Figura 12). Figura 12 – Estrutura geral e forma os vírus Crédito: Designua/Shutterstock A evidenciação das estruturas no microscópio eletrônico mostrou três grupos: • ecosaédricos (Adenovírus, HIV); • helicoidais (TMV, vírus da raiva, vírus do sarampo); • estruturas complexas (Poxvírus – varíola, Flilovirus –Ebola). Alguns vírus apresentam o nucleocapsídeo coberto pela estrutura chamada de envelope, composta de bicamada lipídica e glicoproteínas. Essa membrana adquirida do hospedeiro e modificada, dependendo do vírus, pode ou não apresentar saliências chamadas de espículas ou pleplômeros (complexo carboidrato-proteína), utilizados para ancoragem no hospedeiro. Essa característica é específica ao vírus, sendo usada para identificação. Esse é o caso do vírus influenza; a identificação H1N1 refere-se a hemaglutinina (H) e neuraminidase (N). A figura 12 mostra o esquema da morfologia e a composição dos vírus. 17 A reprodução dos vírus dá-se pela replicação, na qual os componentes proteicos e o ácido nucleico viral são reproduzidos dentro de hospedeiros susceptíveis. O processo completo da infecção celular pelo vírus pode ser generalizado da seguinte forma: 1. O vírion ataca a célula hospedeira susceptível em sítios específicos (chave-fechadura, princípio universal de reconhecimento molecular, receptor – ligando); 2. Penetração do vírus completo ou somente do ácido nucleico viral (se vírus completo, ocorre o desnudamento dentro da célula para liberar o ácido nucléico viral); 3. Converter a célula numa fábrica de produção da progênie viral; 4. Montagem e maturação do vírus em local específico, característico de cada grupo de vírus; 5. Liberação após montagem e maturação dos vírions da célula hospedeira. Esse processo de replicação geral varia dependendo das características de cada célula hospedeira específica, bactérias, fungos, protozoários, insetos, animais e plantas. Os viroides possuem propriedades semelhantes às dos vírus, compostos de RNA fita simples e circular desprovidos de proteínas, identificados como causa de doenças em plantas. Os virusoides são praticamente iguais aos viroides, também de RNA fita simples, que somente se multiplicam se a célula hospedeira estiver sendo infectada simultaneamente ou se previamente tenha sido infectada por determinados vírus que o auxiliam. Nos humanos, até o momento o único virusoide é o deltavírus o vírus da hepatite viralD, sendo o vírus auxiliar o causador da hepatite viral tipo B. No final dos anos 1980 e início dos 1990, surgiu a encefalite espongiforme bovina, conhecida como “o mal da vaca louca”, doença neurodegenerativa fatal nos bovinos, causada pelos príons, pequenas partículas infecciosas de natureza proteica. Essas proteínas estão presentes nas células nervosas dos mamíferos com uma conformação normal, que, ao contato com uma proteína alterada e aberrante, o príon (infeccioso), presente nos animais infectados, muda sua conformação para a conformação aberrante. NA PRÁTICA • Pesquise como era a situação social na época dos pioneiros na microbiologia e suas incipientes medidas de higiene. Reflita e compare com a política pública de saúde atual da sua cidade. 18 • Pesquise o calendário de vacinas e elabore uma tabela com o tipo de microrganismo e suas características. Adicione na tabela quais outros microrganismos nos deparamos no dia a dia. • Pesquise a composição da parede do Mycobacterium e compare-a com as informações adquiridas nesta aula. • Pesquise quais bactérias produzem endósporos e reflita por que são utilizadas como armas biológicas. • Pesquise sobre o grupo de microrganismos Archaea e reflita sobre sua utilização para benefício da vida na Terra. Leitura complementar Caçadores de Micróbios, de Paul de Kruif; e Aventuras da Microbiologia, de Isaias Raw e Oswaldo Augusto Sant'Anna. Saiba mais SBM – Sociedade Brasileira de Microbiologia. Disponível em: <https://sbmicrobiologia.org.br/>. Acesso em: 25 set. 2019. MICROBIOLOGY online. Disponível em: <https://microbiologyonline.org/>. Acesso em: 25 set. 2019. MICROBIOLOGY Society. Disponível em: <https://microbiologysociety.org/>. Acesso em: 25 set. 2019. INSTITUTO BUTANTAN. Museu de Microbiologia. Disponível em: <http://www.butantan.gov.br/atracoes/museu-de-microbiologia>. Acesso em: 25 set. 2019. FIOCRUZ – FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ. Museu da vida. Disponível em: <http://www.museudavida.fiocruz.br/>. Acesso em: 25 set. 2019. SCIENCE PROF ONLINE. Microbiology. Disponível em: <https://www.scienceprofonline.com/science-ed-links/science-education-links- microbiology.html>. Acesso em: 25 set. 2019. 19 FINALIZANDO Microbiologia História Microscópio composto Leeuwenhoek – microrganismos vivos Pasteur, Koch – Teoria dos germes, etiologia de várias infecções Winogradsky, Beijerinck, Kluyver – Microbiologia ambiental Brasil: O. Cruz, A. Lutz, V. Brasil, C. Chagas, Classificação Bactérias, archaea, vírus, protozoários, algas, fungos Bactérias – procarionte Fungos – Eucarionte Vírus – Acelular, limite entre vivo e inerte Morfofisiologia 20 REFERÊNCIAS BENCHIMOL, J. L. A instituição da microbiologia e a história da saúde pública no Brasil. Ciência & Saúde Coletiva, v. 5, n. 2, p. 265-295, 2000. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/csc/v5n2/7096.pdf>. Acesso em: 25 set. 2019. BLACK, J. G. Microbiology: Principles and Explorations. 5. ed. Hoboken: Jonh Wiley & Sons, 2002. DWORKIN, M. Sergei Winogradsky: a founder of modern microbiology and the first microbial ecologist. FEMS Microbiol Rev, v. 36, p. 364-379, 2011. Disponível em: <https://academic.oup.com/femsre/article-abstract/36/2/364/5650 76>. Acesso em: 25 set. 2019. KRUIF, P. Microbe Hunters. San Diego: Harvest/HDJ Book, 1954. MALOY, S.; SCHAECHTER, M. The era of microbiology: a Golden Phoenix. International Microbiology, v. 9, p. 1-7, 2006. Disponível em: <http://www.im. microbios.org/0901/0901001.pdf>. Acesso em: 25 set. 2019. PERRY, J. J.; STALEY, J. T.; LORY, S. Microbial Life. Sunderland: Sinauer Associates Publishers, 2002. RAW, I.; SANT’ANNA, O. A. Aventuras da Microbiologia. São Paulo: Hacker; Narrativa Um, 2002. TORTORA, G. J.; FUNKE, B. R.; CASE, C. L. Microbiologia. 6. ed. São Paulo: Artmed, 2000. 827p. Crédito: Sergey Merkulov/Shutterstock Crédito: Designua/Shutterstock. Crédito: image. wikimedia.org/wikipedia/commons Crédito: Designua/Shutterstock Crédito: Designua/Shutterstock. Crédito: NoPainNoGain/Shutterstock. Crédito: Designua/Shutterstock