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Postulados da Economia Clássica

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2 
OS POSTULADOS DA ECONOMIA CLÁSSICA 
 
 
I 
II 
III 
IV 
V 
VI 
VII 
 
 
Na sua maior parte, os tratados sobre a teoria do valor e da produção debruçam-se 
primordialmente sobre a repartição entre diferentes usos de um dado volume de recursos 
empregados e sobre as condições que, admitindo hipótese do emprego dessa quantidade de 
recursos, determinam as correspondentes remunerações e os valores relativos dos seus 
produtos6. 
Em contrapartida, a questão do volume de recursos disponíveis, entendendo por isto a 
quantidade da população suscetível de ser empregada, a extensão da riqueza natural e o 
equipamento de capital acumulado, é frequentemente tratada descritivamente. Mas a teoria 
pura dos determinantes do emprego efetivo dos recursos disponíveis poucas vezes foi objeto de 
exame pormenorizado. Dizer que nunca foi examinada é claro que seria absurdo, pois todas as 
discussões relativas às flutuações do emprego, e foram muitas, se debruçaram sobre isso. Não 
quero dizer que o assunto tenha sido ignorado, mas que a teoria fundamental subjacente era 
considerada tão simples e óbvia que, quando muito, só se lhe fazia uma simples referência7. 
 
I 
Segundo creio, a teoria clássica do emprego — que se supõe ser simples e óbvia — baseia-se 
em dois postulados fundamentais mas praticamente sem discussão. Nomeadamente: 
 
1. O salário é igual ao produto marginal do trabalho. 
Isto é, o salário de uma pessoa empregada é igual ao valor que se perderia se o emprego 
fosse reduzido de uma unidade (deduzidos quaisquer outros custos que essa redução evitaria), 
sob reserva, porém, de que a igualdade pode ser afetada, de acordo com certos princípios, pela 
eventual imperfeição da concorrência e dos mercados. 
 
2. A utilidade do salário, quando está empregada uma dada 
quantidade de mão de obra, é igual à desutilidade marginal desse 
mesmo volume de emprego. 
Isto é, o salário real de uma pessoa empregada é o exatamente suficiente (na estimativa das 
próprias pessoas empregadas) para induzir ao trabalho o volume de mão de obra efetivamente 
ocupado, sob reserva de que a igualdade para cada unidade individual de trabalho pode ser 
alterada por coligações entre as unidades suscetíveis de se empregarem, análogas às 
imperfeições da concorrência que restringem o primeiro postulado. Por desutilidade deve-se 
entender aqui quaisquer tipo de razões que induzam um homem ou grupo de homens a recusar 
trabalho, não aceitando um salário que para eles representa uma utilidade inferior a certo limite 
mínimo. 
Esse postulado é compatível com o que se pode chamar desemprego “friccional”. Com efeito, 
uma interpretação realista do mesmo prevê legitimamente certas imperfeições de ajustamento 
que constituem um obstáculo a um estado contínuo de pleno emprego, como, por exemplo, o 
desemprego em virtude de uma temporária desproporção dos recursos especializados, 
resultante de cálculos errados, da demanda intermitente, de atrasos decorrentes de mudanças 
imprevistas, ou ainda do fato de que a transferência de um emprego para outro não se realiza 
sem certa demora, de modo que, numa sociedade não estática, sempre existe certa proporção 
de recursos não empregados “entre dois empregos”. 
Além do desemprego “friccional”, o postulado é ainda compatível com o desemprego 
“voluntário”, devido à recusa ou incapacidade de determinada unidade de mão de obra em 
aceitar uma remuneração equivalente à sua produtividade marginal, em virtude da legislação, 
dos costumes sociais, de uma coligação para efeitos de contrato coletivo de trabalho, da 
lentidão para adaptar-se às mudanças ou simplesmente em consequência da obstinação 
humana. Mas estas duas categorias de desemprego, “friccional” e “voluntária”, esgotam todas 
as possibilidades. Os postulados clássicos não admitem a possibilidade de uma terceira 
categoria que a seguir definirei como desemprego “involuntário”. 
Sob reserva dessas restrições, o volume dos recursos empregados, de acordo com a teoria 
clássica, é corretamente determinado pelos dois postulados. O primeiro nos dá a curva de 
demanda de emprego e o segundo, a curva de oferta, e o volume do emprego é fixado pelo 
ponto em que a utilidade do produto marginal se equilibra com a desutilidade do emprego 
marginal. 
Daí deduzimos que só haverá quatro meios de aumentar o emprego: 
• Uma melhoria da organização ou da previsão, que reduza o desemprego “friccional”; 
• Uma redução da desutilidade marginal do trabalho expressa pelo salário real, para a 
qual ainda existe mão de obra disponível, como forma de reduzir o desemprego 
“voluntário”; 
• Um aumento da produtividade marginal física do trabalho nas indústrias produtoras de 
bens salariais (para usar o termo cômodo, pelo qual o professor Pigou designa os 
artigos de cujos preços depende a utilidade dos salários nominais); 
• Uma alta dos preços dos bens não salariais em relação aos preços dos bens salariais, 
conjugada com o deslocamento das despesas dos indivíduos não assalariados dos 
bens salariais para os de outras categorias. 
Tal é, se bem entendo, a substância da obra Theory of unemployment do professor Pigou — o 
único relato pormenorizado que existe da teoria clássica do emprego8. 
 
II 
Será verdade que as categorias anteriores esgotam o problema, tendo em conta que, de 
modo geral, a população raramente encontra todo o emprego que desejaria ao salário 
corrente? Com efeito, deverá se admitir que, se fosse maior a demanda de mão de obra, maior 
seria a quantidade de trabalho oferecida no nível do salário nominal vigente9. A escola clássica 
concilia este fenômeno com o seu segundo postulado, argumentando que, embora a demanda 
de mão de obra ao salário nominal vigente possa ser satisfeita antes de estarem empregadas 
todas as pessoas desejosas de trabalhar em troca dele, tal deve-se a um acordo declarado ou 
tácito entre os trabalhadores de não trabalharem por menos, e que, se o trabalho como um 
todo admitisse uma redução dos salários nominais, o volume de emprego disponível seria 
maior. Se assim for, esse desemprego, embora aparentemente involuntário, não o seria 
estritamente falando, devendo incluir-se na categoria do desemprego “voluntário”, em virtude 
dos efeitos dos contratos coletivos de trabalho etc. 
Isso exige duas observações, a primeira das quais se relaciona com o comportamento dos 
trabalhadores em face dos salários reais e dos salários nominais, respectivamente, e não é 
teoricamente fundamental, mas a segunda é. 
Suponhamos que, no momento, a mão de obra não esteja disposta a trabalhar por um salário 
nominal menor e que uma redução desse nível conduziria, por efeito de greves ou por qualquer 
outro meio, a uma retirada do mercado de trabalho de uma parte da mão de obra atualmente 
empregada. Deduzimos daí que o nível presente dos salários reais equivale exatamente à 
desutilidade marginal do trabalho? Não necessariamente. Embora uma redução do salário 
nominal em vigor levasse a uma retirada de trabalho, isso não quer dizer que uma redução do 
salário nominal medido em termos de bens salariais produza o mesmo efeito, caso resulte de 
uma subida dos preços desses bens. Em outras palavras, pode acontecer que, dentro de certos 
limites, a mão de obra reivindique um mínimo de salário nominal e não um mínimo de salário 
real. 
A escola clássica presumiu, tacitamente, que este fato não implicaria uma mudança 
significativa da sua teoria. Mas não é assim. Na verdade, se a oferta de trabalho não for uma 
função que depende exclusivamente dos salários reais como sua variável, o seu argumento 
desmorona-se por completo, deixando totalmente indeterminada a questão de saber qual será 
o nível efetivo de emprego 10. Esta escola parece não ter percebido que, a não ser que a oferta 
de mão de obra seja função apenas do salário real, a sua curva de oferta se deslocará como um 
todo a cada movimento dos preços.Assim, o seu método fica prisioneiro dos pressupostos 
muito especiais que adota e não pode ser adaptado para tratar do caso mais geral. 
Ora, a experiência comum ensina-nos, sem a menor dúvida, que a situação em que a mão de 
obra (dentro de certos limites) negocia um salário nominal, e não um salário real, não é uma 
mera possibilidade, e sim o normal. Embora normalmente resistam a uma redução do seu 
salário nominal, os trabalhadores não costumam abandonar o trabalho sempre que há uma 
subida dos preços dos bens salariais. Diz-se, por vezes, que seria ilógico, por parte dos 
trabalhadores, resistirem à diminuição dos salários nominais e não resistirem à dos salários 
reais. Por motivos que mencionaremos adiante (ver mais no Capítulo 4), talvez isso não seja tão 
ilógico como parece à primeira vista — e ainda bem, conforme veremos mais à frente. Mas, seja 
lógico ou ilógico, a experiência nos mostra ser este de fato o comportamento dos trabalhadores. 
Além disso, o argumento de que o desemprego que caracteriza um período de depressão se 
deve à recusa da mão de obra em aceitar uma diminuição dos salários nominais não é 
claramente sustentado pelos fatos. Não é muito plausível afirmar que o desemprego nos 
Estados Unidos em 1932 se deveu quer a uma obstinada recusa por parte dos trabalhadores de 
aceitarem uma diminuição dos salários nominais, quer por exigirem obstinadamente um salário 
real superior ao que permitia a produtividade do sistema econômico. Verificam-se amplas 
variações do volume de emprego sem que haja mudança palpável dos salários reais mínimos 
exigidos pelos trabalhadores ou da sua produtividade. Os trabalhadores não são mais 
truculentos no período de depressão que no de expansão — pelo contrário. Também não é 
verdade que a sua produtividade física seja menor. Esses fatos da experiência constituem um 
motivo prima facie para questionar a adequação da análise clássica. 
Seria interessante examinar os resultados de uma investigação estatística sobre as 
verdadeiras relações entre as variações dos salários nominais e as dos salários reais. No caso de 
uma variação que afete apenas uma indústria específica, é de esperar que os salários reais 
variem no mesmo sentido dos salários nominais. Mas, no caso de variações do nível geral dos 
salários, verificar-se-á, segundo penso, que a variação dos salários reais que acompanha a dos 
salários nominais, longe de ser habitualmente no mesmo sentido, é quase sempre no sentido 
oposto. Isto é, quando os salários nominais sobem, constata-se que os salários reais descem e, 
quando os salários nominais descem, os salários reais sobem. Isso se deve a que, no curto prazo, 
a queda dos salários nominais e a elevação dos salários reais constituem, por motivos 
diferentes, fenômenos ligados à diminuição do emprego, pois, embora o trabalhador se mostre 
mais disposto a aceitar reduções de salário quando o emprego declina, os salários reais tendem 
inevitavelmente a crescer nas mesmas circunstâncias em virtude do maior retorno marginal de 
um dado equipamento de capital quando a produção diminui. 
Se, efetivamente, for certo que o salário real vigente é um mínimo abaixo do qual em 
nenhuma circunstância haveria um volume de mão de obra disponível maior do que a 
atualmente empregada, não haveria nenhum desemprego involuntário além do “friccional”. No 
entanto, seria absurdo imaginar que seja sempre assim, pois habitualmente há uma quantidade 
de mão de obra superior à atualmente empregada disponível ao salário nominal vigente, 
mesmo quando se verifica uma subida do preço dos bens salariais e, consequentemente, o 
salário real diminui. Se isso for verdade, os bens salariais equivalentes ao salário nominal 
vigente não representam a verdadeira medida da desutilidade marginal do trabalho e o segundo 
postulado deixa de ter validade. 
Mas há uma objeção ainda mais fundamental. O segundo postulado decorre da ideia de que 
os salários reais dependem das negociações salariais entre trabalhadores e empresários. 
Admite-se, claro, que essas negociações se processam na realidade em termos monetários e até 
que os salários reais considerados aceitáveis pelos trabalhadores não são completamente 
independentes do correspondente salário nominal. Não obstante, considera-se que é este 
salário nominal assim fixado que determina o salário real. Assim, a teoria clássica pressupõe que 
é sempre possível à mão de obra reduzir o seu salário real, aceitando uma diminuição do seu 
salário nominal. O postulado de que há uma tendência para o salário real se tornar igual à 
desutilidade marginal do trabalho presume manifestamente que a própria mão de obra está em 
condições de fixar o seu salário real, mas não o volume de emprego disponível a esse salário. 
A teoria tradicional sustenta, em resumo, que as negociações salariais entre trabalhadores e 
empresários determinam o salário real, pelo que, supondo que há livre concorrência entre os 
empregadores e que não há uma coligação restritiva entre os trabalhadores, esses últimos 
poderiam, se desejassem, fazer coincidir os seus salários reais com a desutilidade marginal do 
volume de emprego oferecido pelos empregadores ao referido salário. Se isso não for verdade, 
desaparece qualquer razão para se esperar uma tendência para a igualdade entre o salário real 
e a desutilidade marginal do trabalho. 
Há que recordar que as conclusões clássicas se pretendem aplicáveis à mão de obra no seu 
todo e não implicam apenas que um indivíduo isolado poderá arranjar emprego aceitando uma 
redução no salário nominal recusada pelos seus companheiros. Supõem-se, igualmente, 
aplicáveis tanto a um sistema fechado como a um sistema aberto, e não dependem das 
características próprias de um sistema aberto, nem dos efeitos que uma redução dos salários 
nominais num único país tem sobre o seu comércio externo, efeitos estes que exorbitam 
completamente do âmbito da presente discussão. Não se baseiam também nos efeitos indiretos 
que uma redução dos salários em termos monetários exerce sobre o sistema bancário e as 
condições de crédito, cujos efeitos examinaremos pormenorizadamente no Capítulo 19. 
Baseiam-se, sim, na convicção de que, num sistema fechado, a redução do nível geral dos 
salários nominais é necessariamente acompanhada, pelo menos no curto prazo e sob reserva 
apenas de restrições secundárias, por uma certa redução dos salários reais, embora nem 
sempre proporcional. 
Ora, o pressuposto de que o nível geral dos salários reais depende das negociações entre os 
empregadores e os trabalhadores não é manifestamente válido. Na verdade, é estranho que se 
tenham feito poucos esforços para comprovar ou refutar esse pressuposto, pois está longe de 
ser compatível com o conteúdo geral da teoria clássica, que nos ensinou que os preços são 
determinados pelo custo marginal expresso em termos nominais e que os salários nominais 
governam, em grande parte, o custo primário marginal. Assim, seria de esperar que a escola 
clássica sustentasse que, se os salários nominais variarem, os preços variarão em proporção 
quase igual, deixando o salário real e o nível de desemprego praticamente sem alteração, pelo 
que quaisquer ganhos ou perdas para a mão de obra, por menores que sejam, ocorrem à custa 
ou em proveito de outros elementos do custo marginal que não se alterou11. No entanto, parece 
que a referida escola se desviou dessa linha de raciocínio, em parte por causa da convicção 
assente de que os trabalhadores estão em condições de fixar o seu próprio salário real e, em 
parte talvez, pela preocupação com a ideia de que os preços dependem da quantidade da 
moeda. Uma vez adotada, a crença na proposição de que os trabalhadores estão sempre em 
condições de fixar o seu próprio salário real continuou a ser sustentada pela confusão com o 
princípio segundo o qual a mão de obra se acha sempre em condições de determinar o salário 
real correspondenteao pleno emprego, isto é, ao volume máximo de emprego compatível com 
determinado salário real. 
Em resumo: há duas objeções contra o segundo postulado da teoria clássica. A primeira 
refere-se ao comportamento efetivo dos trabalhadores. Uma redução dos salários reais, devido 
a uma subida de preços não acompanhada por uma elevação dos salários nominais, via de regra, 
não dá origem a que a oferta de mão de obra disponível com base no salário corrente desça 
abaixo do volume de emprego anterior à alta dos preços. Supor o contrário seria admitir que as 
pessoas no momento desempregadas, embora desejosas de trabalhar ao salário corrente, 
deixariam de oferecer os seus serviços no caso de uma pequena elevação do custo de vida. No 
entanto, é nessa curiosa suposição que parece basear-se a obra Theory of unemployment do 
professor Pigou12 e é ela que, tacitamente, admitem todos os partidários da escola ortodoxa. 
Mas a outra objeção, mais fundamental e que formularemos nos capítulos seguintes, decorre 
do fato de contestarmos a hipótese de que o nível geral dos salários reais é diretamente 
determinado pelo caráter das negociações salariais. Ao supor que as negociações salariais 
determinam o salário real, a escola clássica introduziu um pressuposto ilícito, pois os 
trabalhadores, considerados no seu conjunto, não dispõem de nenhum meio de fazer coincidir o 
equivalente do nível geral de salários nominais expresso em bens de consumo com a 
desutilidade marginal do volume de emprego existente. E possível que não exista nenhum 
expediente por meio do qual a mão de obra, considerada no seu todo, possa reduzir os seus 
salários reais a um valor determinado, revendo as cláusulas monetárias dos acordos celebrados 
com os empregadores. Esta será a nossa argumentação. Procuraremos demonstrar que são 
certas outras forças que primordialmente determinam o nível geral dos salários reais. Um dos 
nossos temas principais será a elucidação desse problema. Sustentaremos que há um mal-
entendido fundamental quanto às regras que determinam o real funcionamento da economia 
em que vivemos. 
 
III 
Embora se julgue, frequentemente, que a luta entre indivíduos ou grupos pelos salários 
nominais determina o nível dos salários reais, na realidade tem um objetivo diferente. Uma vez 
que a mobilidade do trabalho é imperfeita e os salários não tendem a estabelecer uma exata 
igualdade de benefícios líquidos para as diferentes atividades, qualquer indivíduo ou grupo de 
indivíduos que consinta numa redução dos seus salários nominais em relação aos outros sofre 
uma redução relativa do salário real, o que é suficiente para justificar a sua resistência. Por 
outro lado, seria impraticável resistir a toda e qualquer redução dos salários reais que resultasse 
de uma alteração do poder aquisitivo do dinheiro e que afetasse igualmente todos os 
trabalhadores; com efeito, não há, em geral, resistência a esse modo de reduzir os salários 
nominais, a não ser quando se elevam a níveis excessivos. Além disso, a oposição às reduções 
dos salários nominais aplicadas a certas indústrias não ergue o mesmo obstáculo intransponível 
ao aumento do emprego agregado que resultaria de uma resistência análoga a toda e qualquer 
redução dos salários reais. 
Em outras palavras, a competição em torno dos salários nominais afeta, primordialmente, a 
distribuição do salário real agregado entre os diferentes grupos de trabalhadores e não ao seu 
montante médio por unidade de emprego, o qual depende, como veremos, de um conjunto de 
fatores diferente. As coligações dos diferentes grupos de trabalhadores tem por objetivo 
proteger os respectivos salários reais relativos. O nível geral dos salários reais depende de 
outras forças do sistema econômico. 
Dá-se pois a feliz circunstância de os trabalhadores, embora inconscientemente, serem por 
instinto economistas mais razoáveis do que os da escola clássica, na medida em que resistem às 
reduções dos salários nominais que raramente ou nunca assumem caráter geral, mesmo que o 
equivalente real desses salários exceda a desutilidade marginal do emprego existente; ao passo 
que não se opõem às reduções do salário real que estão associados aos aumentos do emprego 
agregado e não afetam os salários nominais relativos, a não ser que essas reduções atinjam tal 
proporção que o salário real corra o risco de cair abaixo da desutilidade marginal do volume de 
emprego existente. Todos os sindicatos oferecerão alguma resistência, por menor que seja, a 
uma redução dos salários nominais. Mas, como nenhum sindicato ousaria entrar em greve 
sempre que há um aumento do custo de vida, não representam um obstáculo ao aumento do 
volume agregado de emprego que neles vê a escola clássica. 
 
IV 
Temos agora de definir a terceira categoria de desemprego, ou seja, o desemprego 
“involuntário” no sentido estrito da palavra, cuja possibilidade a teoria clássica não admite. 
É claro que por desemprego “involuntário” não entendemos a mera existência de uma 
capacidade de trabalho não totalmente utilizada. Não é pelo fato de ser possível a um ser 
humano trabalhar dez horas que uma jornada de oito horas pode ser considerada desemprego. 
Nem devemos considerar desemprego “involuntário” o abandono do trabalho por um grupo de 
trabalhadores que prefira não trabalhar abaixo de certa retribuição real. Além disso, convém 
excluir da nossa definição de desemprego “involuntário” o desemprego “friccional”. 
A minha definição é a seguinte: Há desempregados involuntário quando, na eventualidade de 
uma ligeira elevação dos preços dos bens salariais relativamente aos salários nominais, tanto a 
oferta agregada de mão de obra disposta a trabalhar pelo salário nominal corrente como a 
demanda agregada da mesma ao dito salário sejam superiores ao volume de emprego existente. 
No Capítulo 3 daremos outra definição que, no entanto, vem a dar no mesmo. 
Resulta desta definição que a igualdade entre o salário real e a desutilidade marginal do 
emprego, pressuposta pelo segundo postulado, corresponde, realisticamente interpretada, à 
ausência de desemprego “involuntário”. Descreveremos esse estado de coisas denominando-o 
“pleno” emprego, sendo que tanto o desemprego “friccional” como o “voluntário” são 
compatíveis com o “pleno” emprego assim definido. Isso, como verificaremos, está em 
consonância com outras características da teoria clássica que, a bem dizer, deverá ser 
considerada uma teoria da repartição em condições de pleno emprego. Na medida em que os 
postulados clássicos forem válidos, não poderá ocorrer o desemprego involuntário no sentido 
definido acima. O desemprego aparente terá pois de ser o resultado de uma perda temporária 
de trabalho “entre dois empregos”, do caráter intermitente da demanda de recursos altamente 
especializados, ou de uma política dos sindicatos no sentido de impedir a contratação de mão 
de obra não sindicalizada. Por isso, os autores da tradição clássica, descurando o pressuposto 
especial que subjaz à sua teoria, foram levados à conclusão inevitável, e perfeitamente lógica 
admitindo esse pressuposto, de que o desemprego aparente (salvo as exceções admitidas) era 
fundamentalmente devido à recusa de os fatores não empregados aceitarem uma remuneração 
correspondente à sua produtividade marginal. Um economista clássico pode simpatizar com os 
trabalhadores que se negam a aceitar uma redução do seu salário nominal e admitirá que talvez 
não seja prudente obrigá-los a sujeitar-se a condições que são transitórias; mas a probidade 
científica força-o a declarar que essa recusa não deixa de estar na raiz dos problemas. 
Contudo é óbvio que se a teoria clássica só se aplica ao caso do pleno emprego é falacioso 
aplicá-la aos problemas de desemprego involuntário — se tal coisa existir (e quem o negará?). 
Os teóricos da escola clássica lembram geómetras euclidianos num mundo não euclidiano que, 
tendo descobertoque, na realidade, as linhas aparentemente paralelas se encontram com 
muita frequência as repreendem por não se conservarem retas como único remédio para as 
infelizes intersecções que se produzem. No entanto, não há remédio a não ser rejeitar o axioma 
das paralelas e elaborar uma geometria não euclidiana. A ciência econômica reclama hoje uma 
medida desse gênero. Precisamos deitar fora o segundo postulado da doutrina clássica e 
elaborar um sistema econômico em que seja possível o desemprego involuntário no seu sentido 
mais estrito. 
 
V 
Ao sublinharmos o ponto em que nos separamos da doutrina clássica não devemos esquecer 
de uma concordância importante. Manteremos o primeiro postulado como até aqui, sob reserva 
apenas das mesmas restrições que a teoria clássica, e teremos de nos deter por um instante a 
analisar as suas implicações. 
Este postulado significa que, num dado estado de organização, equipamento e técnica, os 
salários reais e o volume de produção (e, portanto, do emprego) estão univocamente 
correlacionados e, em geral, um aumento do emprego só pode ocorrer simultaneamente com 
uma queda dos salários reais. Por conseguinte, não contesto esse fato crucial que os 
economistas clássicos (corretamente) declararam inatacável. Num dado estado da organização, 
do equipamento e da técnica, a cada nível de salário real ganho por uma unidade de trabalho há 
uma correlação unívoca (inversa) com o volume de emprego. Portanto, se o emprego aumentar, 
isso quer dizer que no curto prazo a remuneração por unidade de trabalho, expressa em bens 
de consumo dos assalariados, deve, em geral, diminuir e os lucros devem aumentar13. Este é 
simplesmente o reverso da proposição, já bastante conhecida, segundo a qual a indústria 
trabalha normalmente sujeita a rendimentos decrescentes no curto prazo, durante o qual se 
supõe que permanecem constantes o equipamento etc., pelo que o produto marginal das 
indústrias de bens salariais (o qual determina os salários reais) se reduz necessariamente à 
medida que o emprego aumenta. Portanto, na medida em que se considerar válida esta 
proposição, qualquer meio destinado a aumentar o emprego conduzirá, inevitavelmente, a uma 
diminuição paralela do produto marginal e, portanto, do nível dos salários medido em termos 
desse produto. 
Mas tendo eu rejeitado o segundo postulado, um declínio do emprego, embora 
necessariamente associado ao fato de o trabalho receber um salário equivalente a uma 
quantidade maior de bens de consumo não se deve, necessariamente, ao fato de a mão de obra 
reclamar uma quantidade maior desses bens; e a aceitação, pela mão de obra, de menores 
salários nominais não é necessariamente um remédio para o desemprego. A teoria dos salários 
em relação com o emprego, à qual somos conduzidos pelo raciocínio aqui exposto, não pode ser 
completamente elucidada antes de chegarmos ao Capítulo 19 e ao seu Apêndice. 
 
VI 
Desde o tempo de Say e de Ricardo os economistas clássicos ensinam que a oferta cria a sua 
própria procura. Isto significa, num certo sentido relevante mas não claramente definido, que a 
totalidade dos custos de produção é necessariamente gasta, direta ou indiretamente, na 
compra do produto. 
Na obra Principles of political economy, de J. S. Mill, a doutrina é expressamente exposta: 
O que constitui os meios de pagamento das mercadorias são as próprias mercadorias. Os meios 
de que cada indivíduo dispõe para pagar a produção de outrem são os produtos que ele mesmo 
possui. Todos os vendedores são, pelo próprio sentido da palavra, compradores. Se pudéssemos 
duplicar repentinamente as forças produtoras de um país, poderíamos duplicar a oferta de 
mercadorias em todos os mercados, mas ao mesmo tempo duplicaríamos o poder aquisitivo. 
Todos duplicariam simultaneamente a procura e a oferta; todos poderiam comprar o dobro, 
pois teriam duas vezes mais para oferecer em troca14. 
Como corolário desta mesma doutrina, supõe-se que qualquer ato individual de abstenção de 
consumir leva (e equivale) necessariamente a um investimento na produção de riqueza sob a 
forma de capital, correspondente ao trabalho e às mercadorias assim libertadas da necessidade 
de consumo. A seguinte passagem da obra Pure theory of domestic values15, de Marshall, ilustra 
o ponto de vista tradicional: 
O rendimento total de cada pessoa é inteiramente gasto na compra de mercadorias e serviços. 
Diz-se comumente que um homem gasta uma parte do seu rendimento e poupa a outra. Mas é 
um axioma económico consabido que um homem compra trabalho e mercadorias com a parte 
do rendimento poupado, tal como com a parte despendida. Diz-se que gasta quando procura 
obter uma satisfação imediata por meio dos serviços e mercadorias que compra. Diz-se que 
poupa quando faz com que o trabalho e as mercadorias que compra contribuam para a 
produção de riqueza da qual espera tirar meios de usufruto no futuro. 
É verdade que dificilmente se poderiam citar passagens semelhantes nas obras posteriores de 
Marshall16 e nas de Edgeworth ou do professor Pigou. A doutrina não é hoje exposta de forma 
tão rudimentar. Não obstante, continua a estar subjacente a toda a teoria clássica, que sem ela 
ruiria. Os economistas contemporâneos, que hesitariam em aceitar a doutrina de Mill, aceitam 
sem vacilação as conclusões que requerem essa doutrina como premissa. A convicção que 
impregna, por exemplo, quase toda a obra do professor Pigou de que a moeda não faz 
realmente grande diferença, exceto de forma friccional, e de que a teoria da produção e do 
emprego pode ser elaborada (como a de Mill) com base nas trocas “reais”, sendo a moeda 
introduzida superficialmente num capítulo posterior, é a versão moderna da tradição clássica. O 
pensamento contemporâneo está ainda fortemente impregnado da noção de que, se o dinheiro 
não for gasto de uma forma, o será de outra17. Na verdade, os economistas do pós-guerra nem 
sempre conseguiram sustentar esse ponto de vista consistentemente, pois as suas ideias atuais 
são demasiado influenciadas pela tendência contrária e por fatos da experiência que estão em 
flagrante desacordo com sua concepção anterior18. Mas não extraíram dessa situação 
consequências de alcance suficientemente vasto, nem procederam a uma revisão da sua teoria 
fundamental. 
Em primeiro lugar, é possível que essas conclusões tenham sido aplicadas ao tipo de 
economia em que realmente vivemos por uma falsa analogia tirada de um tipo qualquer de 
economia sem trocas, como a de Robinson Crusoe, na qual o rendimento que os indivíduos 
consomem ou poupam em resultado da sua atividade produtiva é real e exclusivamente 
constituída pela produção in specie dessa atividade. Mas, abstraindo disso, a conclusão de que 
os custos de produção são sempre globalmente cobertos pelo produto das vendas resultantes 
da demanda é bastante plausível, porque é difícil distinguir essa proposição de outra análoga e 
incontestavelmente verdadeira, ou seja, a de que o rendimento obtido globalmente por todos 
os elementos da comunidade que participam numa atividade produtiva tem por força um valor 
exatamente igual ao valor da produção. 
Do mesmo modo, é natural supor que o ato pelo qual um indivíduo enriquece sem 
aparentemente tirar nada de outrem terá também de enriquecer toda a comunidade, de modo 
que (como na passagem de Marshall que acabamos de citar) um ato de poupança individual leva 
inevitavelmente a um ato paralelo de investimento. Com efeito, mais uma vez, é incontestável 
que a soma dos incrementos líquidos da riqueza dos indivíduos tem de ser exatamente igual ao 
incremento agregado líquido da riqueza da comunidade. 
Quem pensa assim, no entanto, é vítima de uma ilusão de ótica que confunde duas atividades 
essencialmente diferentes. Falaciosamente, julgam que existe um nexo que une as decisões de 
abstenção de um consumo imediato com as decisões tendentes a fornecer um consumo futuro,quando não há nenhuma relação simples entre as motivações que determinam as segundas e as 
motivações que determinam as primeiras. 
Por conseguinte, a hipótese da igualdade entre o preço da demanda da produção global e o 
preço da oferta é que deve ser considerada o “axioma das paralelas” da teoria clássica. 
Admitido isso, tudo o mais se deduz naturalmente — as vantagens sociais da poupança 
individual e nacional, a atitude tradicional para com a taxa de juro, a teoria clássica do 
desemprego, a teoria quantitativa da moeda, as vantagens ilimitadas do laissez-faire quanto ao 
comércio externo e muitos outros aspectos que teremos de questionar. 
 
VII 
Em diversos pontos deste capítulo fizemos a teoria clássica depender, sucessivamente, das 
hipóteses: 
• de que o salário real é igual à desutilidade marginal do trabalho existente; 
• de que não existe o que se chama desemprego involuntário no seu sentido estrito; 
• de que a oferta cria a sua própria procura, no sentido de que o preço da demanda 
agregada é igual ao preço da oferta agregada para todos os níveis de produção e de 
emprego. 
No entanto, estas três hipóteses vêm a dar todas no mesmo, subsistem ou desmoronam 
juntas pois qualquer delas depende, logicamente, das outras duas.

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