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apresentados dois 
procedimentos de cálculo distintos, a saber: 
− Procedimento A, que inclui as chuvas antecedentes, 
− Procedimento B , não considerando as chuvas antecedentes. 
O Procedimento B tem sido utilizado com mais freqüência nos meios técnicos do Brasil. 
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O Procedimento A distingue-se pela inclusão de chuvas antecedentes à fase mais intensa 
da chuva de projeto. Com esse procedimento, pretende-se diminuir a importância da 
umidade do solo no inicio da tempestade, cujo efeito é mais apreciável nos deflúvios 
resultantes do prolongamento da chuva. 
Na descrição dos diversos fatores que intervêm no cálculo da enchente de projeto, 
apresentada a seguir, destaca-se a diferença de tratamento dado aos dois procedimentos 
de cálculo. 
6.2 VALIDADE 
A aplicação do hidrograma unitário sintético é discutível, pois se tem observado que as 
descargas máximas crescem proporcionalmente mais com os excessos das precipitações 
que lhes dão origem, o que pode ser explicado pelo fato do deflúvio superficial ser 
composto por duas parcelas, uma que escoa mais rapidamente, denominada deflúvio 
superficial direto, e a outra, de escoamento mais lento, designada por deflúvio sub-
superficial. 
Verifica-se que, para as pequenas enchentes, predomina o escoamento sub-superficial, 
enquanto, para as enchentes maiores, o escoamento superficial direto é 
proporcionalmente maior. Em conseqüência, para as enchentes maiores, resultam 
descargas máximas crescendo mais rapidamente que os deflúvios totais a elas 
relacionados, contrariando o princípio básico do hidrograma unitário. 
Por outro lado, para as enchentes maiores predomina o efeito de amortecimento das 
pontas de descargas, decorrente do transbordamento das calhas fluviais, nos rios de 
margens baixas. Esse é um efeito contraditório ao comportamento do deflúvio superficial 
direto e do sub-superficial, antes descrito. 
Com a descrição desses efeitos, cuja predominância, em diversos níveis de descargas, 
varia a cada caso, verificam-se as imperfeições da aplicação do hidrograma unitário 
sintético. Somente um modelo paramétrico bem estruturado pode simular as enchentes 
de uma bacia mais próxima de seu comportamento real, levando em conta, além do efeito 
de amortecimento das margens baixas, a participação desigual do deflúvio superficial 
direto e do sub-superficial, como se ocorressem dois hidrogramas unitários simultâneos 
com descargas máximas nitidamente diferentes, tendo uma participação variável, 
conforme a magnitude de enchente. 
Tal procedimento, no entanto, só é possível com dados fluviométricos confiáveis, do curso 
d’água envolvido, ou mesmo próximo à obra, o que em geral não se dispõe nos projetos 
de ponte ou bueiros que tratam de bacias hidrográficas de importância hidrológica pouco 
significativa. 
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6.3 CHUVA DE PROJETO 
6.3.1 RELAÇÃO PRECIPITAÇÃO-DURAÇÃO-FREQUËNCIA 
A aplicação do hidrograma unitário sintético requer normalmente o conhecimento de 
precipitações para durações inferiores a 24 horas, resultantes do estudo estatístico de 
dados pluviográficos, que em geral não são muito abundantes. 
Havendo dados pluviográficos na proximidade do local da obra, convém efetuar a análise 
estatística das precipitações intensas para durações de 5 minutos, 15 minutos, 1 hora, 2 
horas, 4 horas, 6 horas, 12 horas, 24 horas e 48 horas. 
Essa análise pode ser complementada com o estudo estatístico das chuvas de 2, 4, 6 e 8 
dias consecutivos, obtidas de registros em pluviômetros. Por vezes, essa análise 
estatística já foi elaborada para o posto de interesse do projeto. 
Quando não há dados pluviográficos nas proximidades do local da obra, deve-se recorrer 
a dados bibliográficos, entre os quais destaca-se o livro "Chuvas Intensas no Brasil", do 
Engº Otto Pfafstetter, que desenvolveu equações de chuva para diversos postos 
pluviográficos no Brasil, procurando o posto mais próximo e com características 
meteorológicas mais semelhantes às da área em estudo. 
Para facilitar o uso dos dados, foram organizadas tabelas, fornecendo para os 98 postos 
pluviográficos tratados, a precipitação relativa, para diversas durações e períodos de 
recorrência da chuva. 
Essa precipitação relativa é definida pela expressão: 
[ ]ct)log(1batKP +⋅+×= 
sendo: 
0,25β/TRαTRK += 
onde: 
t 5min 15min 30min 1h 2h 4h 8h 24h 2d 4d 6d
0,108 0,122 0,138 0,156 0,166 0,174 0,176 0,170 0,166 0,156 0,152
0 0,08 0,08 0,08 0,08 0,08 0,08 0,08 0,08 0,08 0,08
α
β 
em que D é a duração da chuva em horas, TR período de recorrência, em anos, e P é a 
precipitação, em milímetros. Os valores de a, b e c dependem do posto considerado e, α 
e β são dados na tabela acima 
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Para os diversos postos do Brasil, consoante a equação da precipitação relativa, foram 
estabelecidas na Figura 5 a seguir, as linhas de tendência das precipitações relativas de 
24 horas, durações de 1 hora, e de 15 minutos, referidas ao número do posto analisado. 
Destacam-se como aquelas de maiores potencialidades de formação de chuvas intensas 
de curta duração as determinadas para os postos: Posto nº 74 – Itapema, Posto nº 75 – 
Santos, Posto nº 53 – Paranaguá, Posto nº 93 – Ubatuba, todos localizados na costa 
atlântica. 
Quando não existem dados pluviográficos nas proximidades da obra, mas dispõe-se de 
pelo menos um pluviômetro com o mínimo de 10 anos de observações, pode-se 
correlacionar a precipitação a um posto pluviográfico através de um estudo estatístico de 
um posto representativo, com dados diários de leituras de pluviômetro. 
Para tanto, transforma-se a precipitação de um dia com o período de recorrência de 10 
anos, geralmente bem definida, na precipitação equivalente de 24 horas, multiplicando-a 
pelo fator 1,13. Dividindo essa precipitação pelo valor do posto de referência, também 
para o período de recorrência de 10 anos e mesma duração, obtém-se a precipitação 
relativa do posto examinado. 
A correlação entre as precipitações de 24 horas e as de menor duração com igual 
freqüência é mais inadequada, porém, em primeira aproximação, pode-se admitir que o 
fator de precipitação varia pouco para diversas durações da chuva. Com isto, basta 
multiplicar a precipitação relativa para 24 horas pelas precipitações relacionadas para o 
posto de referência, correspondentes ao tempo de recorrência e às durações desejadas. 
Um procedimento mais consistente seria interpolar uma curva, entre um grupo de curvas 
regionais representativo do caso em estudo. Essa curva interpolada deve conter a 
precipitação relativa determinada para 24 horas. 
Para a determinação de outros pontos, basta multiplicar as precipitações da curva de 
chuva interpolada para outras durações pelas precipitações do posto de referência. 
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Figura 5 - Comparação das Precipitações Relativas 
 
58 
 
6.3.2 SIMULTANEIDADE DAS CHUVAS 
Nos noticiários sobre calamidades públicas, uma tempestade excepcional é normalmente 
considerada como a precipitação que ocorreu com uma determinada duração, 
subentendendo-se que essa foi a situação mais crítica e que as precipitações para outras 
durações foram menos extraordinárias. 
Os registros de tempestades observadas demonstram que as precipitações ocorridas em 
diversas durações numa mesma tempestade são de severidade e freqüência variáveis e 
assim, numa tempestade, sempre há uma duração para a qual a precipitação é a de 
freqüência mais rara e as precipitações de durações maior ou menor são de tempos de 
recorrência menores. 
A tempestade que servirá para o cálculo da enchente será composta de acréscimos de 
precipitação para durações crescentes, dispostos ao longo do tempo, numa seqüência 
que será discutida em capítulo subseqüente. 
Esses acréscimos de precipitação, que compõem a tempestade de projeto, não devem 
corresponder ao período de recorrência