Prévia do material em texto
1 AULA 8 ALGUNS CONCEITOS Ação Arendt (1995) dá à ação um papel relevante na condição humana. Por meio dela o homem é capaz de se distinguir, ao invés de permanecer apenas diferente. Essa distinção é expressa pelo discurso na ação. Ação e discurso permitem que os seres humanos se manifestem uns aos outros enquanto homens. Essa manifestação supera a existência corpórea e está atrelada à iniciativa. Prescindir dela significa abster-se da própria humanidade. O discurso dos/as trabalhadores/as mostra um caráter reflexivo, não apenas no âmbito da reflexão, mas, sim, da ação-reflexão, ao se falar sobre questões que interferem na saúde do/a trabalhador/a. pois por meio delas torna-se possível uma transformação da realidade, com melhorias à vida do/a trabalhador/a. 1.3Trabalho: ação, necessidade e coerção SOCIOLOGIA DO TRABALHO “A ação é a condição de toda a vida política do homem na Terra. Nela o homem exerce sua qualidade de inteligência para introduzir seu conhecimento no espaço em que convive, com a intenção de modificar para melhor esse espaço, com a finalidade de estabelecer um acréscimo ao bem-estar de seus habitantes”. (Arendt, 1995, p. 151). 2 Segundo Arendt (1995), os sindicatos defendem e lutam pelos interesses da classe operária e são responsáveis pela posterior incorporação desta última na sociedade e, sobretudo, pela extraordinária melhora da segurança econômica, do prestígio social e do poder político da classe. Dessa forma, podemos notar que há, em Marx, uma preocupação com a ontologia- histórica do homem e sua relação com o trabalho, o intercâmbio necessário com a natureza que possibilita a transformação e a produção da realidade. O trabalho enquanto marcador ontológico. Coerção Como se sabe, a coerção de alguma forma induz, pressiona ou compele o indivíduo a fazer determinada ação mesmo contra a sua vontade. No caso da escravidão a forma de coerção usada era a força, o que fazia com que os escravizados trabalhassem em troca de comida e moradia, mesmo que ambas fossem precárias. Atualmente, uma forma de coerção nas organizações que pode ser usada como exemplo é o desemprego, ou seja, mesmo que o/a trabalhador/a esteja insatisfeito/a com o trabalho e exercendo atividades apenas com o propósito de buscar os objetivos estabelecidos pela organização, deixando de lado todas as suas expectativas em relação ao trabalho, o seu medo de sair e não conseguir espaço Em A Ideologia Alemã,̃ Marx e Engels nos mostram alguns pressupostos de sua análise, evidenciam-se “os indivíduos reais, sua ação e suas condições materiais de vida, tanto aquelas por eles já encontradas como as produzidas por sua própria ação” (MARX; ENGELS, 2007, p. 86-87). “Foi com o trabalho que o ser humano “desgrudou” um pouco da natureza e pôde, pela primeira vez, contrapor-se como sujeito ao mundo dos objetos naturais. Se não fosse o trabalho, não existiria a relação sujeito-objeto. O trabalho criou para o homem a possibilidade de ir além da pura natureza.” (KONDER, 2008, p. 24) 3 novamente no mercado de trabalho acaba fazendo com que a coerção tenha a eficácia esperada sobre ele/a. Outra forma que existe é a ideologia. Segundo Karl Marx (Manuscritos Econômicos Filosóficos, 1844.), o trabalho por si é uma forma de coerção, um trabalho forçado, uma necessidade não satisfatória em busca de necessidades satisfatórias. As organizações moldam os/as trabalhadores/as para que eles/as obtenham a eficácia esperada, caso o/a trabalhador/a de alguma maneira fuja desse molde, as organizações novamente entram em ação através da coerção e do controle sobre esse/a trabalhador/a. Como se sabe, “o mercado de trabalho é o campo em que se exercem mais diretamente as coerções materiais e simbólicas da competição”. Através da história, percebe-se que o uso da coerção foi usado em vários setores da sociedade e particularmente nas organizações. A coerção é também usada como uma forma de liderança (Liderança Coercitiva) que baseia seus atos influenciais predominantemente no poder de coerção de posição, ou seja, procura-se ter o maior controle possível sobre as ações e reações do/a trabalhador/a, o que tende a gerar passividade, alienação etc. A partir desses atos o/a trabalhador/a passa a ter atenção contínua no sentido de evitar desvios dos padrões estabelecidos e assegura a busca pelos objetivos. Necessidade Marx (1996) e Lukács (2010) se debruçaram sobre as particularidades dos seres humanos em relação aos demais animais e à natureza. Lembrar da Aula 05 Ainda veremos mais sobre no item 2 O trabalho aparece como necessidade vital dos seres humanos. 4 Para eles, o trabalho é o fundamento do ser humano, a essência do ser humano. É o autêntico fundamento de uma comunidade humana (INFRANCA, 2005). Para Infranca (2005), o trabalho é o fenômeno originário que permite a passagem do ser orgânico ao ser social. Marx distingue o ser humano dos animais ao levar em consideração os seguintes aspectos: diferentemente dos animais, o ser humano é a única espécie animal em que a atividade vital é consciente (LUKÁCS, 2010), e é orientada a um fim (teleologia do trabalho). Em outras palavras, o ser humano é a única espécie que consegue planejar (prévia ideação) antes de executar, só ele concebe o trabalho previamente antes de executar seu trabalho. Se os demais animais se produzem e reproduzem apenas por instinto, o ser humano consegue trabalhar conscientemente, produzir ferramentas, “regular” a natureza e, ao mesmo tempo, transformar-se. Além disso, só o ser humano se educa, só ele se desenvolve, só ele dá respostas para os problemas que surgem e só ele possui necessidades educacionais ilimitadas. A ATIVIDADE VITAL DO HOMEM A natureza é constituída por três esferas: Nas palavras de Marx (1996, p. 22): [...] Mas o que distingue, de antemão, o pior arquiteto da melhor abelha é que ele construiu o favo em sua cabeça, antes de construí-lo em cera. No fim do processo de trabalho obtém-se um resultado que já no início deste existiu na imaginação do trabalhado, e portanto idealmente. (MARX, 1983, P. 149-50). INORGÂNICA ORGÂNICA SOCIAL 5 Considerando a ação transformadora do homem, define-se trabalho como a atividade vital responsável pela relação deste com a natureza, sendo assim, o fundamento ontológico do surgimento do homem, pois o mesmo produz trabalho de forma consciente e planejada (teleologia) de acordo com suas necessidades. A característica teleológica do homem se traduz pela sua capacidade de planejamento, ou seja, de idealizar o objeto, antes de torná-lo matéria. Assim, o homem se afasta dos demais animais, à medida que suas ações tomam um caráter intencional, cuja finalidade é a concretização do que foi, antecipadamente, planejado. Para que o trabalho se realize, deve ser mediado por instrumentos que facilitem a manipulação dos elementos naturais. Assim como, o trabalho é meio de transformação da natureza, é, também, instrumento de transformação do homem, já que ao modificar a natureza, o homem se auto modifica numa relação dialética, em que: quanto mais o homem desenvolve sua ação intencional sobre a natureza, mais se distancia dela. Assim se refere Marx, em O Capital, sobre essa relação dialética: Ao atuar, por meio desse movimento, sobre a natureza externa a ele [o homem] e ao modificá-la, ele modifica, ao mesmo tempo, sua própria natureza. Ele desenvolve as potências nela adormecidas e sujeita o jogo de suas forças a seu próprio domínio (MARX 1867 apud ANTUNES, 2004, p.36) INORGÂNICA Dá base ao universo e independe das outras duas. ORGÂNICA Caracterizada pela presença da atividade vital - que compreende a condição de carência do ser vivo, a capacidade de reprodução e o metabolismo biológico-a qual é responsável pela relação do ser vivo com a natureza. SOCIAL O homem se diferencia das demais espécies, pelo caráter transformador de sua ação interventiva na natureza, pois a atividade vital dos demais seres é de caráter instintivo- adaptativo. 6 . Para Marx (2004), o fenômeno da alienação pode ser entendido em seus quatro aspectos: a relação do trabalhador consigo mesmo, com o produto do seu trabalho, a sua relação com os outros seres humanos e com a natureza (MÉSZÁROS, 2006; AGAZZI, 2000). Nos manuscritos econômicos filosóficos, Marx reconhece que a chave de toda alienação religiosa, jurídica, moral, artística, política, econômica é o trabalho alienado, a forma alienada da atividade prática do homem (MÉSZÁROS, 2006). No seu livro “A teoria da alienação” em Marx, Mészáros (2006) produziu uma excelente análise, recomposição e atualização do pensamento de Marx sobre este tema. Nas palavras de Mészáros: “A alienação da humanidade, no sentido fundamental do termo, significa perda de controle: sua corporificação numa força externa que confronta os indivíduos com o um poder hostil e potencialmente destrutivo. Quando Marx analisou a alienação nos seus manuscritos de 1844, indicou os seus quatro principais aspectos: a alien ação dos seres humanos em relação à natureza; à sua própria atividade produtiva à sua espécie, como espécie humana; e de uns em relação aos outros. E afirmo enfaticamente que isso não é uma “fatalidade da natureza”, mas uma forma de autoalienação. Dito de outra forma, não é o feito de uma força externa todo- poderosa, natural ou metafísica, mas o resultado de um tipo determinado de desenvolvimento histórico, que pode ser positivamente alterado pela intervenção consciente no processo de transcender a autoalienação do trabalho”. (MÉSZÁROS, 2006, p.7) 1.4Trabalho e alienação 7 Para Marx, a alienação se manifesta na realidade do homem, na maneira pela qual, a partir da divisão do trabalho, o produto do seu trabalho deixa de lhe pertencer. O surgimento do capitalismo determinou a intensificação da procura do lucro e confinou o operário à fábrica, retirando dele a posse do produto. Mas não é apenas o produto que deixa de lhe pertencer. Ele próprio abandona o centro de si mesmo. Não escolhe o salário, embora isso lhe parecia ficticiamente como resultado de um contrato livre, não escolhe o horário nem o ritmo de trabalho e passa a ser comandado de fora, por forças estranhas a ele. Ocorre então o que Marx chama de fetichismo da mercadoria e reificação do trabalhador. Assim, o autor diz que o modo de produção capitalista distorce os significados das relações sociais, quando coisifica o homem, transformando sua própria força de trabalho, em mercadoria e centralizando o consumo como mantenedor da lógica capital. Para isso, o sistema capitalista supervaloriza a aquisição da mercadoria, atrelando-se a ela a satisfação de necessidades humanas, mesmo que efêmeras, dispondo de estratégias que incidem, sobre as mercadorias um certo encantamento, seguido de alienação. Esta configura-se pela não compreensão do trabalhador acerca da totalidade do processo de produção da mercadoria, em decorrência da divisão sociotécnica do trabalho, assim como a fetichização da mercadoria que desvaloriza a participação do trabalhador nos processos produtivos. Fetichismo Dessa forma, Konder (2009) endossa o pensamento de Marx, quando diz: “A sociedade capitalista é a sociedade em que a alienação assume, claramente, as características da reificação, com o esmagamento das qualidades humanas e individuais do trabalhador por um mecanismo inumano, que transforma tudo em mercadoria” (KONDER, 2009. p.130) O fetichismo é o processo pelo qual a mercadoria, ser inanimado, é considerada como se tivesse vida, fazendo com que os valores de troca se tornem superiores aos valores de uso e determinem as relações entre os homens, e não vice-versa. (Arendt, 1995, p. 151). 8 Ou seja, a relação entre os produtores não aparece como sendo relação entre eles próprios (relação humana), mas entre os produtos do seu trabalho. Por exemplo, as relações não são entre alfaiate e carpinteiro, mas entre casaco e mesa. A mercadoria adquire valor superior ao homem, pois privilegiam-se as relações entre coisas, que vão definir relações materiais entre pessoas. Com isso, a mercadoria assume formas abstratas (o dinheiro, o capital) que, em vez de serem intermediárias entre indivíduos, convertem-se em realidades soberanas e tirânicas. Em consequência, a "humanização" da mercadoria leva à desumanização do homem, à sua coisificação, à reificação (do latim res, "coisa"), sendo o próprio homem transformado em mercadoria (sua força de trabalho tem um preço no mercado). ATUALIDADE DOS PRESSUPOSTOS MARXIANOS O conceito de alienação do trabalho encontrada inicialmente nos Manuscritos, publicado na primeira metade do século XX, é o resultado das primeiras inflexões do pensamento do jovem Marx, que tem sido cada vez mais resgatado por estudiosos e sociólogos do marxismo humanista, corrente que busca contrapor interpretações mais economicistas no seio do marxismo (NETTO, 2009). O intelectual húngaro, György Lukács (1885-1971), por exemplo, um dos fundadores do marxismo ocidental, levou adiante o desenvolvimento do conceito de reificação. Tal como Lukács, a Teoria Crítica dos pesquisadores da Escola de Frankfurt, foi influenciada pelas categorias marxianas constituintes do trabalho alienado, sobretudo, a primeira geração, ao formular sua crítica à razão instrumental e o fetichismo da técnica e da indústria cultural. O seu impacto, portanto, para a sociologia contemporânea é imenso, sendo bastante utilizada, principalmente, nos estudos da área da Sociologia do Trabalho. Tal conceito contribuiu para diversos estudos que partiram de premissas marxianas para as investigações sobre os fundamentos das reestruturações produtivas ocorridas no mundo do trabalho no século XX: o taylorismo-fordismo, o toyotismo, a acumulação flexível e os seus efeitos para a organização do trabalho. Assim como para compreender as mudanças no interior da classe trabalhadora, cada vez mais heterogênea e atravessada por interseccionalidades de raça, gênero, geração, entre outras (ANTUNES, 2009). A análise empreendida por Marx dos processos de trabalho e de valorização das mercadorias remete ao início da produção industrial capitalista do século XIX. Assim, a pergunta que fica suspensa no ar, dos quais muitos já tentaram responder afirmativamente ou não, é: tal interpretação da realidade daquela 9 época continua válida para a atualidade? Para procurar respondê-la, é necessário fugir de uma possível resposta dualista. Após a primeira e a segunda Revolução Industrial, vistas por Marx (a segunda em parte), há um consenso científico que, no século XX, houve uma terceira, composta principalmente pela computação e pela automação. Atualmente, estar-se- ia na fronteira de uma quarta, possível pelos sistemas cyber-físicos. Constatado esses fatos, podemos afirmar que muitos dos processos ligados ao trabalho humano se tornaram mais complexos, sobretudo, a partir da terceira revolução industrial. No caso da categoria de alienação do trabalho, a utilização dela pode servir tanto como categoria para análise de dados empíricos como também para contribuir na construção de instrumentos técnicos de pesquisa, como índices de qualidade de trabalho, questionários, roteiros de entrevistas, entre outros, a serem respondidos por trabalhadores e trabalhadoras. Pelo fato de o conceito dar conta de diferentes “graus” ou “níveis” de alienação, o seu uso pode ser útil em diferentes objetos de estudo: pesquisas mais focalizadas nas condições e nos processos de trabalho, ou em relação a subjetividade, satisfação e sentidos do trabalho, como também nos estudos que procurem abordar as relaçõesde socialização e de solidariedade entre os/as trabalhadores/as. EXPLORAÇÃO O capital humano também se tornou instrumento para a exploração do trabalho, à semelhança do capital físico. Os “vencedores” exploram os “perdedores”, com os primeiros apropriando-se do produto do trabalho dos últimos. Tanto o capital humano quanto o tradicional, descrito por Marx, em O capital, passaram a constituir instrumentos de legitimação da apropriação do trabalho alheio e da exploração. Os trabalhadores, com baixo ou sem investimento em capital humano, assim, já estão, a priori, excluídos da loteria em que se transformaram os mercados de trabalho capitalistas; nesse sentido, já são “perdedores”. As formas de exploração introduzidas pelo capital humano, ao se somarem à tradicional exploração do trabalho pelo capital, reforçaram ainda mais a tendência inerente à geração de desigualdades pelo capitalismo. Os diferenciais de salários justificados pelo capital humano tornaram-se elementos adicionais à dicotomia capital- trabalho para explicar a crescente desigualdade engendrada pelo modo de produção capitalista. 10 Dentro desse conceito teórico, também surgem importantes implicações para as políticas públicas de combate à desigualdade. Diferentemente da tradicional visão econômica, na qual a desigualdade é fruto das diferenças produtivas entre os/as trabalhadores/as, surge um quadro em que ela é resultado inerente ao capitalismo. DA EXPLORAÇÃO COM ESPOLIAÇÃO Á ESPOLIAÇÃO COM EXPLORAÇÃO Para Ruy Braga, a relação entre empregador e empregado já é de espoliação e deve ainda se aprofundar diante da crise pela qual passa o Brasil. A palavra exploração é associada à ideia de extração, quando se retira algo, um recurso natural, por exemplo, sem contrapartida. No mundo do trabalho se diz que há exploração quando o/a trabalhador/a tem sua força produtiva capturada para além das condições mínimas de remuneração e proteção para aquela atividade. Expropriação é ser expropriado dos meios de produção. Espoliação é ser espoliado dos frutos de sua produção. O professor Ruy Braga, especialista em Sociologia do Trabalho, insere uma nova ideia nessa relação. Se o trabalhador tem direitos e estes não são respeitados, há de fato uma exploração. Porém, para o professor, quando esses direitos são capturados, revogados, há uma outra relação: a de espoliação. Analisaremos de modo mais detalhado, essa nova forma de exploração do trabalho do capitalismo e seus impactos sobre a desigualdade no item 2. ATENÇÃO NÃO CONFUNDIR EXPLORAÇÃO EXPROPRIAÇÃO ESPOLIAÇÃO 11 Esse modelo, apoiado na exploração com espoliação, se esgota. As forças capitalistas e o Estado brasileiro, diante do fato de que esse modelo se esgota e o indicador típico disso é o baixo crescimento econômico a partir da crise de 2008, até 2010 —, se ativeram a medidas contracíclicas que sustentaram o crescimento econômico. A partir de 2010 e 2011 ocorre uma desaceleração econômica seguida de crise e recessão. Diante desse fato, que tem a ver com o contexto internacional, com o colapso de alguns setores muito importantes da economia brasileira, como é o caso do petróleo, do fim do ciclo de commodities, desarranjos internos, lutas de classe no país, se faz necessária uma transição e mudança desse modelo, tanto para forças capitalistas como para o Estado brasileiro. E a mudança desse modelo aponta na direção de uma espécie de inversão em relação a qual estratégia de acumulação deve ser a dominante. Ou seja, “se antes era exploração com espoliação, agora é espoliação com exploração” afirma Ruy Braga. Os Estados e as empresas exigem que os direitos dos trabalhadores sejam eliminados o máximo possível, que haja um aprofundamento da mercantilização de todos os serviços, em especial dos serviços públicos. “Também é necessária uma mercantilização do dinheiro, ou seja, um aprofundamento dessa estratégia de aumento de juros e de transferência de recursos públicos para os bancos privados, da dívida pública como esse mecanismo de transferência de renda negativa. Então, há uma tentativa, até o momento, bastante bem-sucedida de operar uma transição geral das bases sociais do próprio modelo de desenvolvimento brasileiro. É um regime de acumulação que transita na direção da espoliação.” QUAL É O RESULTADO DISSO PARA O MUNDO DO TRABALHO? “É desastroso. As classes trabalhadoras no Brasil estão diante de um desafio enorme que é resistir a essa onda de mercantilização, de financeirização, de ataque aos seus direitos que objetivam aprofundar as estratégias de espoliação. Basicamente o que os empresários desejam é substituir ou eliminar a Consolidação das Leis do Trabalho – CLT.” “Os estados e as empresas exigem que os direitos dos trabalhadores sejam eliminados o máximo possível, que haja um aprofundamento da mercantilização de todos os serviços”, explica Braga. 12 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANTUNES, Ricardo. Os sentidos do trabalho: ensaio sobre a afirmação e a negação do trabalho. São Paulo: Boitempo, 2009. ANTUNES, Ricardo; FILGUEIRAS, Vitor. Plataformas digitais, Uberização do trabalho e regulação no Capitalismo contemporâneo. Contracampo, v. 39, n. 1, p. 27–43, 2020. COSTA, Marta Nunes da. O que Marx nos pode ensinar sobre a nova “classe perigosa” – Crítica, neoliberalismo e o futuro da emancipação humana. Novos estudos CEBRAP. v. 101, p.97-114, março/2015. GORZ, André. O imaterial: conhecimento, valor e capital. São Paulo: Annablume, 2005. HARVEY, David. Condição pós-moderna. 17aed. Edições Loyola: São Paulo, 2008. KONDER, Leandro. O que é dialética? 28o ed. São Paulo: Brasiliense, 2008. MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos. São Paulo: Boitempo, 2004. MARX, Karl. O capital. Crítica da economia política. Livro I. São Paulo: Boitempo, 2013. MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. São Paulo: Boitempo, 2007. MARX, K. Manuscrito Econômico-Filosóficos. 1844. ANTUNES, Ricardo (org). A dialética do trabalho: escritos de Marx e Engels. São Paulo: Expressão Popular, 2004. HARVEY, David. A transformação político-econômica do capitalismo do final do século XX. In: Condição Pós-Moderna: Uma Pesquisa sobra as Origens da Mudança Cultural. Tradução: Adail Ubirajara Sobral & Maria Stela Gonçalves. São Paulo: Edições Loyola. 6a edição. 13 QUESTÕES 1- “A noção de alienação é fundamental no pensamento marxista, pois apresenta o estado psicossocial primordial ao qual o indivíduo é submetido no modo de produção capitalista. Além disso, Marx não vê no trabalho uma expressão qualquer da vida. Para Marx, o trabalho tem uma localização especial, até mesmo privilegiada, por ser a exteriorização do ser. Por ser a objetificação da essência humana, por ser o processo de colocar para fora a mais pura humanidade, o esforço material da transformação do mundo e satisfação das necessidades.” (Disponível em: http://colunastortas.com.br/2014/02/05/o-que-e-alienacao-em-marx/.) No que diz respeito à alienação, Karl Marx considera que: A - É a constatação básica de que o trabalhador está alienado em relação ao produto de seu trabalho sem impacto na luta classista. B -Construir as próprias ferramentas é exercer uma dominação impossível a qualquer outro animal, o que já elimina para o homem a possibilidade de total alienação. C -Uma das formas de reconhecer a alienação é quando, no fim do processo de trabalho, o produto feito se transforma em algo estranho, independente do ser que o produziu. D -É o estranhamento em não se reconhecer num produto a essência da pobreza e da alienação gerada pela substituição progressiva e inexorável do homem pela máquina. E- ela é o único motivo da mais valia. 2- A centralidade ontológica do trabalho na vida dos homens é reconhecida por diversos estudiosos.Assim, o trabalho não se realiza sem A - o movimento de alienação. B - a capacidade teleológica. C - a objetivação sócio-histórica. D - a práxis orgânica. E - o processo de mais-valia. 14 3- Assinale a alternativa correta: a- espoliação é não ter meios de produção b- expropriação e não ficar com frutos do trabalho c- exploração é não ter meios de produção d- expropriação é não ter os meios de produção e- espoliação é não ter condições dignas 4- “Tá vendo aquele edifício, moço, ajudei a levantar. Foi um tempo de aflição, eram quatro condução, Duas pra ir, duas pra voltar. Hoje depois dele pronto, olho pra cima e fico tonto, Mas chega um cidadão e me diz desconfiado: Tu tá aí admirado, ou tá querendo roubar. Meu domingo tá perdido, vou pra casa entristecido, Dá vontade de beber E pra aumentar o meu tédio, eu nem posso olhar pro prédio, Que eu ajudei a fazer. Tá vendo aquele colégio, moço, eu também trabalhei lá. Lá eu quase me arrebento, pus massa, fiz cimento, Ajudei a rebocar. Minha filha, inocente, vem pra mim toda contente Pai quero estudar. Mas me diz um cidadão: Criança de pé no chão aqui não pode estudar. Esta dor doeu mais forte. Porque eu deixei o Norte, eu me pus a me dizer. Lá a seca castigava, mas o pouco que eu plantava, Tinha direito de comer. 15 Tá vendo aquela Igreja, moço, onde o padre diz amém. Pus o sino e o badalo, enchi minha mão de calo, Lá eu trabalhei também. Lá sim, valeu a pena, tem quermesse, tem novena, E o padre me deixa entrar. Foi lá que Cristo me disse: Rapaz, deixe de tolice, não se deixe amedrontar. Fui eu que criei a terra, enchi os rios, fiz a serra, não deixei nada faltar. Hoje o homem criou asas, e na maioria das casas, Eu também não posso entrar”. (Música “Cidadão”, escrita por Zé Geraldo em 1981.) A musica reflete os conceitos de: a- Espoliação apenas b- Exploração apenas c- Expropriação apenas d- Exploração e Espoliação apenas e- Espoliação, expropriação e exploração 5- Para responder à questão, leia o trecho da peça A mais-valia vai acabar, seu Edgar, de Oduvaldo Vianna Filho, o Vianinha. A peça foi encenada em 1960 na arena da Faculdade de Arquitetura da Universidade do Brasil e promoveu um amplo debate. A mobilização resultante desse debate desencadeou a criação do Centro Popular de Cultura (CPC). CORO DOS DESGRAÇADOS: Trabalhamos noite e dia, dia e noite sem parar! Então de nada precisamos, se só precisamos trabalhar! Há mil anos sem parar! Fizemos as correntes que nos botaram nos pés, fizemos a Bastilha onde fomos morar, fizemos os canhões que vão nos apontar. Há mil anos sem parar! Não mandamos, não fugimos, não cheiramos, não matamos, não fingimos, não coçamos, não corremos, não deitamos, não sentamos: trabalhamos. Há mil anos sem parar! Ninguém sabe nosso nome, não conhecemos a espuma do mar, somos tristes e cansados. Há mil anos sem parar! Eu nunca ri — eu nunca ri — sempre trabalhei. Eu faço charutos e fumo bitucas, eu faço tecidos e ando pelado, eu faço vestido pra mulher, e nunca vi mulher desvestida. Há mil anos sem parar! Maria esqueceu de 16 mim e foi morar com seu Joaquim. Há mil anos sem parar! (Apito longo. Um cartaz aparece: “Dois minutos de descanso e lamba as unhas.” Todos vão tentar sentar. Menos o Desgraçado 4 que fica de pé furioso.) DESGRAÇADO 1: Ajuda-me aqui, Dois. Eu quero me dá uma sentadinha. (Desgraçado 2 ri de tudo.) DESGRAÇADO 3: Senta. (Desgraçado 1 vai pôr a cabeça no chão.) De assim, não. Acho que não é com a cabeça não. DESGRAÇADO 1: Eu esqueci. DESGRAÇADO 3: A bunda, põe ela no chão. A perna é que eu não sei. DESGRAÇADO 2: A perna tira. (Desgraçado 3 e Desgraçado 2 desistem de descobrir. Se atiram no chão.) DESGRAÇADO 1: A perna dobra! (Senta. Satisfeito.) DESGRAÇADO 2: Quero ver levantar. (Todos olham para Desgraçado 4, fazem sinais para que ele se sente.) DESGRAÇADO 4: Não! Chega pra mim! Eu só trabalho, trabalho, trabalho… (Perde o fôlego.) DESGRAÇADO 3: Eu te ajudo: trabalho, trabalho, trabalho... DESGRAÇADO 4: E tenho dois minutos de descanso? Nunca vi o sol, não tomei leite condensado, não canto na rua, esqueci do sentar, quando chega a hora de descansar, fico pensando na hora de trabalhar! Chega! SLIDE: Quem canta seus males espanta. DESGRAÇADO 1: (cantando) A paga vem depois que a gente morre! Você vira um anjo todo branco, rindo sempre da brancura, bebe leite em teta de nuvem, não tem mais fome, não tem saudade, pinta o céu de cor de felicidade! (Peças do CPC, 2016. Adaptado.) O título da peça refere-se a importante conceito da teoria de a) Jean-Jacques Rousseau. b) Friedrich Nietzsche. c) Karl Marx. d) Max Weber. e) Jean-Paul Sartre. 17 GABARITO 1- C É a constatação básica de que o trabalhador está alienado em relação ao produto de seu trabalho que tem impacto na luta classista. Construir as próprias ferramentas é exercer uma dominação impossível a qualquer outro animal, o que não elimina para o homem a possibilidade de total alienação. Uma das formas de reconhecer a alienação é quando, no fim do processo de trabalho, o produto feito se transforma em algo estranho, independente do ser que o produziu. É o estranhamento em não se reconhecer num produto a essência da pobreza e da alienação gerada pela substituição progressiva mas não inexorável do homem pela máquina. Ela é o não é único motivo da mais valia. 2- B Considerando a ação transformadora do homem, define-se trabalho como a atividade vital responsável pela relação deste com a natureza, sendo assim, o fundamento ontológico do surgimento do homem, pois o mesmo produz trabalho de forma consciente e planejada (teleologia) de acordo com suas necessidades. A característica teleológica do homem se traduz pela sua capacidade de planejamento, ou seja, de idealizar o objeto, antes de torná-lo matéria. Assim, o homem se afasta dos demais animais, à medida que suas ações tomam um caráter intencional, cuja finalidade é a concretização do que foi, antecipadamente, planejado. 3- D expropriação é não ter os meios de produção. 4-E Ele é espoliado porque não ficou com o que construiu. Ele narra um trabalho explorado e que passa fome. E ele é trabalhador e não proprietário dos meios de produção, portanto também é expropriado. 5-C Marx