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Pesquisa: Teorias e Fundamentos Graduação Copyright © 2023 Delinea Tecnologia Educacional 3 Introdução Nessa seção, vamos abordar os tipos e a classificação da pesquisa de acordo com a sua natureza e a abordagem do problema. A pesquisa quantitativa é um tipo de pesquisa que trata de amostras e quantidade de dados, o que é diverso da pesquisa qualitativa, que lida com investigação em profundidade em menos casos. Nesse sentido, as duas acabam por tratar os dados de modos diversos e complementares, pois permitem observar aspectos micro e macro de um dado fenômeno social. Há também a pesquisa mista, que utiliza métodos das pesquisas quantitativa e qualitativa ao mesmo tempo e permite uma maior abrangência para a análise dos dados, a pesquisa exploratória, em que há maior liberdade para observar um contexto de interesse e investigar as questões pertinentes à sua análise, e a pesquisa experimental, que permite a testagem de hipóteses elaboradas pela comunidade científica acerca da dinâmica de fenômenos. Ao final, espera-se que haja a compreensão desses tipos para situar os interesses de pesquisa particulares, com temas e objetos, em relação às tipologias disponíveis e orientar uma escolha metodológica para a coleta e análise dos dados. Objetivos da aprendizagem • Definir e caracterizar os tipos de pesquisa e sua classificação. Palavras-chave: tipos de pesquisa, métodos de pesquisa, metodologia científica, pesquisa quantitativa, pesquisa qualitativa. Tipologia e classificação da pesquisa Pesquisa: Teorias e Fundamentos 4 Tipos de pesquisa e suas classificações Como comentamos anteriormente, toda pesquisa precisa de um método e de uma questão que defina o objeto a ser analisado e o que estamos procurando entender a partir da investigação. Nesse sentido, é importante ter claro o passo anterior à pesquisa propriamente dita, que diz respeito aos tipos de pesquisa e sua classificação. De acordo com Mascarenhas (2018, p. 44), a pesquisa pode ser reunida em cinco grupos: 1. as bases lógicas da investigação; 2. a abordagem do problema; 3. o objetivo geral; 4. o propósito da pesquisa; 5. o procedimento técnico. Já para Cervo et al. (2007), três tipos de pesquisa são fundamentais: a bibliográfica, a descritiva e a experimental. Em relação ao propósito de pesquisa, existem vários tipos. Pesquisa básica Lida com questões teóricas sem uma finalidade específica para compreender e descrever as propriedades, características e estruturas de um dado objeto. Pesquisa aplicada Lida com o desenvolvimento de soluções para problemas a partir das teorias ou aprofundamento de uma questão teórica com uma finalidade específica. É possível ver que a classificação varia de acordo com o critério. Para nossos propósitos, vamos abordar os tipos a partir da abordagem do problema de pesquisa. Em relação à natureza da pesquisa e à abordagem do problema, há basicamente cinco grandes tipos: Mascarenhas (2018, p. 48) destaca a pesquisa aplicada, a avaliação de resultados, a avaliação formativa, a proposição de planos, e Pesquisa: Teorias e Fundamentos 5 a pesquisa diagnóstico. Quanto às bases lógicas da investigação, podemos apontar os métodos indutivo, dedutivo, hipotético-dedutivo, dialético, fenomenológico, entre outros. Tipos de pesquisa Tipos de pesquisa Pesquisa quantitativa Pesquisa qualitativa Pesquisa mista Pesquisa experimental Pesquisa exploratória Fonte: elaborado pela autora (2023). Vamos conhecer, a seguir, as características de cada uma delas. Pesquisa quantitativa A pesquisa quantitativa trabalha com variáveis e utiliza ferramentas da matemática e da estatística para a análise dos dados. Para Appolinário (2012), podemos entender as variáveis como as propriedades de um objeto ou o aspecto do que será analisado para garantir a confiabilidade e a generalização dos casos. A definição pode parecer um pouco abstrata, mas é mais simples do que parece. Por exemplo, caso quiséssemos entender os picos de produção em uma empresa de calçados no período de três meses, precisaríamos conhecer o valor de calçados produzidos diariamente (variável - um valor por dia), entrevistar alguns dos funcionários em relação ao seu papel para o funcionamento das máquinas e, ao final do estudo, gerar um fator de correlação entre produção e pessoas trabalhando (outra variável - pode haver mais pessoas ou menos, dependendo do dia e do horário). Para Appolinário, as variáveis podem ser divididas em quatro níveis: Pesquisa: Teorias e Fundamentos 6 Níveis de mensuração das variáveis Níveis das variáveis Exemplo Nominal Cor do cabelo e/ou olhos, nacionalidade, sexo etc. Ordinal Escolaridade (1º, 2º e 3º graus), estágio de proficiência de leitura em outra língua (iniciante, intermediário, avançado) etc. Intervalar (desvio padrão e tendência central) Temperatura (diferença entre graus), quantidade de funcionários na empresa a cada dia etc. Racional (ou proporcional) Tempo, número de filhos etc. Fonte: adaptado de Appolinário (2012). As variáveis nominais são aquelas que não estabelecem relação com as demais, nem pela lógica, nem matemática, mas podem servir para a identificação e distinção dos casos. Já as variáveis ordinais estabelecem uma relação matemática que permite um ranqueamento entre elas, podendo ser ordenadas. A variável intervalar difere das outras porque é possível determinar o intervalo preciso entre ela e outros valores, o que possibilita entender escalas em que há diferenças de valor constante. Por exemplo, a nota do Enem possibilita uma atribuição de notas divididas em critérios, que estão subdivididos em valores para cada item. Gráfico Fonte: Freepik (2023). #ParaTodosVerem: gráfico com quatro colunas, nas cores, da esquerda para a direita: azul, verde, amarela e vermelha. A delas varia e uma seta vermelha no topo acompanha essa oscilação. Pesquisa: Teorias e Fundamentos 7 Nesse sentido, devemos saber que existem três tipos de variáveis: as genéricas, as dependentes e as independentes (Appolinário, 2012, p. 114). A relação entre elas faz com que consideremos sua dependência ou independência. Variáveis genéricas São analisadas através da estatística descritiva. Variáveis dependentes Utilizadas em estudos experimentais, são tidas como a causa de um determinado processo. Busca-se entender, a partir da variação, como elas o afetam. Variáveis independentes São relacionadas às variáveis independentes e tidas como o efeito de determinado processo. Para Mascarenhas (2018), a pesquisa quantitativa pode ser definida como a ação de quantificar para coletar dados e, em seguida, a análise é feita através do uso de métodos estatísticos. Algumas relações matemáticas permitem inferências entre as variáveis e é necessário que, para uma pesquisa referente a um grande número de casos, exista uma amostra mínima que possa garantir a segurança da análise. Apesar de existirem vários tipos de estudos quantitativos, citaremos dois exemplos, apontados por Mascarenhas: estudos de correlação de variáveis e estudos comparativos causais (busca pelas causas de um fenômeno). Esse tipo de pesquisa é bastante comum em várias áreas do conhecimento, especialmente nas áreas da Saúde (para testar algum medicamento ou tratamento, por exemplo), Sociologia e engenharias. Pesquisa: Teorias e Fundamentos 8 Curva de Gauss Também conhecida como distribuição normal, é uma das relações estatísticas mais utilizadas para desenhar a amostra de uma pesquisa. P-valor Probabilidade de significância entre duas variáveis. Antes do início da pesquisa, deve-se definir o tamanho da amostra para que haja o mínimo necessário de dados. Significância estatística O p deve ser 0,05 ou menor (chance de 5% de erro ou menos) para garantir a validade da hipótese de pesquisa. Pesquisa qualitativa A pesquisa qualitativa, por outro lado, lida com os valores compartilhados socialmente e com a análise em profundidade. De acordo com Mascarenhas(2018), ela é utilizada para entender comportamentos de um indivíduo ou de um grupo. É importante notar também que a coleta de dados e análise é diferente da pesquisa quantitativa, em que é necessário tomar algumas decisões antes da coleta propriamente dita, pois são as decisões que vão moldar os resultados. Na pesquisa qualitativa, por outro lado, o pesquisador tem mais liberdade para definir as questões, as amostras e a análise, ao mesmo tempo em que é necessário manter a coerência do desenho de pesquisa e o comprometimento com os resultados. Na pesquisa qualitativa, que lida com a qualidade dos dados, a coleta acontece ao mesmo tempo em que a análise, pois há uma relação distinta entre sujeito e objeto pesquisado. Quando há uma entrevista, não é possível ser imparcial, pois o pesquisador está ali e a situação pode mudar de acordo com o andamento da conversa. Embora possa haver um roteiro de questões para a entrevista, que pode ser estruturada ou semiestruturada, o entrevistado pode mudar o rumo da conversa para um aspecto importante que não foi previsto no roteiro inicial. Pesquisa: Teorias e Fundamentos 9 Entrevista estruturada São questões elaboradas pelos pesquisadores, dispostas em determinada sequência para que seja feita a coleta dos dados. Entrevista semiestruturada São questões elaboradas pelos pesquisadores para nortear a entrevista, mas que não são obrigatórias e que podem mudar de acordo com a conversa. Para entender o comportamento do consumidor em relação a um determinado produto, às vezes não é suficiente saber que 60% de uma amostra de um valor X da população tende a comprá-lo. Nesse sentido, talvez seja útil conhecer o que agrada e o que não agrada o consumidor, quais são os usos e as expectativas em relação aos produtos de uma empresa, entre outras questões. Para isso, é útil selecionar algumas pessoas e questioná-las sobre suas impressões para depois reunir as informações em uma análise coerente, que pode ser útil para a empresa tomar decisões sobre a mudança em seu produto, com a finalidade de torná-lo mais atrativo.Esse tipo de pesquisa pode ser feito em várias áreas do conhecimento, e é comum nas áreas de Educação, Sociologia, Administração, Engenharias, entre outras. Pesquisa Fonte: Freepik (2023). #ParaTodosVerem: ilustração de uma garota com um bloco de notas e uma caneta. Diante dela, há um rapaz que gesticula. Há um balão de fala perto do rosto dele. No fundo, há cartazes colados. Pesquisa: Teorias e Fundamentos 10 Pesquisa mista A pesquisa mista, também chamada quali-quanti por alguns autores, utiliza estratégias dos dois tipos de pesquisa simultaneamente, pois pretende investigar tanto a quantidade quanto a qualidade dos dados. Ou seja, há uma quantificação de amostras ao mesmo tempo em que há a preocupação em descrever o comportamento das pessoas em relação a determinado tema. A depender da dimensão da amostra necessária, ela também pode ser uma pesquisa mais cara do que as demais, pois talvez haja necessidade de envolver mais pessoas para a coleta dos dois tipos de abordagem. Pesquisa exploratória É um tipo de pesquisa preliminar e flexível em termos de métodos. Serve para entrar em contato com determinado objeto para perceber seu comportamento antes de investir tempo e empreender uma pesquisa sobre um tema. Nela, o pesquisador pode observar se existe alguma questão que emerge da observação, para que depois ela possa ser sistematizada e virar uma pesquisa científica. É comum em diversas áreas, mas bastante utilizada pelas Ciências Sociais, em que as dinâmicas dos grupos podem dar pistas para novos estudos, baseados em um assunto recorrente ou um comportamento particular, por exemplo. Pesquisa exploratória Fonte: Freepik (2023). #ParaTodosVerem: fotografia de três crianças sorridentes, agachadas no chão, rodeadas de grama e plantas. À esquerda, uma menina segura uma lupa com a mão esquerda e olha para uma flor amarela pequena. No meio e à direita, outra garota e um garoto observam a flor. Pesquisa: Teorias e Fundamentos 11 Pesquisa experimental Esse tipo de pesquisa envolve testes de hipóteses reunidas em trabalhos científicos sobre determinadas características ou relações. Um exemplo são as simulações feitas em computador para testar modelos matemáticos que ajudam a prever experimentos antes que eles possam ser feitos em laboratório. Há áreas do conhecimento em que a reprodução em laboratório tem elevados custos. Um dos modos de testar antes para evitar gastos desnecessários e tornar a experiência mais assertiva, as simulações em softwares específicos conseguem auxiliar nas pesquisas para ver a conformidade ou a inconformidade do que é esperado e do que resultam. Pesquisa experimental Fonte: Freepik (2023). #ParaTodosVerem: ilustração de um balcão branco com gavetas. Sobre ele há tubos de ensaio, um microscópio, tubos de decantação, um globo e uma caixa de arquivo. Acima, há prateleiras com frascos e recipientes Além disso, as pesquisas em laboratório também têm caráter experimental, ao testar hipóteses e verificar se elas funcionam ou não para um determinado objeto. Pesquisa: Teorias e Fundamentos 12 Saiba mais Para conceituar a pesquisa-ação e suas contribuições para a metodologia científica, leia o texto “A pesquisa-ação e as suas contribuições para a ciência metodológica: aspectos gerais”, de Carla Viana Dendasck. A autora discorre sobre o conceito de pesquisa-ação. DENDASCK, Carla Viana. A pesquisa-ação e as suas contribuições para a ciência metodológica: aspectos gerais. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento, v. 11, n. 11, 2021, pp. 118-135. Disponível em: https:// www.nucleodoconhecimento.com.br/educacao/a-ciencia-metodologica. Dica de leitura Para conhecer mais sobre os tipos de pesquisas, leia o texto “Principais tipos de pesquisas e suas características”, de Jonas Magno dos Santos Cesário, Victor Hugo de Paula Flauzino e Judith Victoria Castillo Mejia, que discorrem sobre quatro pontos importantes, a saber: • Conhecer os tipos de pesquisa. • Conhecer as características dos tipos de pesquisa. • Conhecer os critérios para a classificação dos tipos de pesquisa. • Conhecer suas semelhanças e diferenças. CESÁRIO, J. M. S.; FLAUZINO, V. H. P.; MEJIA, J. V. C. Metodologia científica: Principais tipos de pesquisas e suas características. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. v. 5, n. 11, 2020, pp. 23-33. Disponível em: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/educacao/ tipos-de-pesquisas. Acesso em: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/educacao/a-ciencia-metodologica https://www.nucleodoconhecimento.com.br/educacao/a-ciencia-metodologica https://www.nucleodoconhecimento.com.br/educacao/tipos-de-pesquisas https://www.nucleodoconhecimento.com.br/educacao/tipos-de-pesquisas Pesquisa: Teorias e Fundamentos 13 Conclusão A partir do exposto, podemos perceber que o estudo de tipologia da pesquisa colabora para que possamos entender a pesquisa com base na abordagem dos dados. Reconhecendo como a pesquisa produzida pelo pesquisador pode ser classificada, podemos fazer pesquisas mais assertivas em relação a teorias e métodos que dialogam com o recorte que desejamos desenvolver. É importante também ter uma ideia geral das possibilidades para que conheçamos as abordagens dos problemas e possamos compreender os trabalhos produzidos nas áreas do conhecimento e fazer parte da comunidade científica. As pesquisas quantitativas e qualitativas são parte predominante das pesquisas feitas nas áreas de conhecimento, além de serem as mais comuns. As pesquisas mistas dispõem uma quantidade de métodos que podem ser úteis para a compreensão de um fenômeno a partir de análises micro e macro. As pesquisas exploratórias e experimentais também cumprem um importante papel para o desenvolvimento da ciência e para a proposição de novas tecnologias. Pesquisa: Teorias e Fundamentos 14 Referências Básicas APPOLINÁRIO,F. Metodologia da ciência: filosofia e prática da pesquisa. 2. ed. São Paulo: Cengage Learning, 2012. CERVO, A. L.; BERVIAN, P. A.; SILVA, R. Metodologia científica. 6. ed. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2007. LAKATOS, E. M.; MARCONI, M. A. Fundamentos de metodologia científica. 8. ed. São Paulo: Atlas, 2017. MASCARENHAS, S. A. Metodologia científica. 2. ed. São Paulo: Pearson, 2018. Complementares DIAS, L. Tipos de pesquisa. Disponível em: https://youtu.be/wrAA_4UqNes. Acesso em: https://youtu.be/wrAA_4UqNes 15 Métodos científicos e técnicas de pesquisa Introdução Nessa seção, vamos conhecer alguns dos métodos e das técnicas de pesquisa, com ênfase em quatro tipos de abordagem dos dados: documentação indireta, documentação direta, observação direta intensiva e observação direta extensiva. Cabe lembrar que os métodos devem ser definidos de acordo com o propósito de pesquisa, ou seja, algumas das técnicas podem se adequar mais aos propósitos da pesquisa qualitativa e outras aos estudos quantitativos, não sendo necessário utilizá-los todos ao mesmo tempo. O que orienta uma pesquisa é o problema e, nesse sentido, serão apresentadas técnicas que podem ser utilizadas para explorá- lo, para a coleta e análise dos dados. Por fim, serão apresentados métodos de procedimento para a elaboração de trabalhos, como o método monográfico, por exemplo, que busca investigar um tema à extensão. Ao final, espera-se que seja possível caracterizar os métodos e técnicas de pesquisa apresentados e facilitar a definição das estratégias de abordagem de um problema a partir do uso de uma ou mais dessas técnicas. Objetivos da aprendizagem • Definir e caracterizar os métodos e técnicas de pesquisa. Palavras-chave: técnicas de pesquisa, pesquisa qualitativa, pesquisa documental, pesquisa bibliográfica, técnicas de observação. Pesquisa: Teorias e Fundamentos 16 Técnicas de pesquisa e seus métodos Nesse tema, vamos abordar algumas das principais técnicas de pesquisa, que devem ser escolhidas de acordo com os métodos escolhidos para o desenho da pesquisa. Algumas técnicas apontadas por Lakatos e Marconi (2017) dependem do tipo de documento e de observação: Técnicas de pesquisa Documentação indireta Pesquisa documental Pesquisa bibliográfica Documentação direta Pesquisa de campo Pesquisa de laboratório Observação direta intensiva Observações Entrevista Observação direta extensiva Questionário Formulário Fonte: adaptado de Lakatos e Marconi, 2017. Vamos conhecer, primeiramente, a pesquisa documental. A pesquisa documental indireta trabalha com o acesso a documentos, que podem ser de diferentes naturezas, como certidões, legislações, documentos históricos, cartas, imagens, jornais, entre outros. Esses materiais, divididos em pesquisa documental e pesquisa bibliográfica, podem estar armazenados em museus, arquivos e institutos de pesquisa, e podem ser fontes primárias, secundárias ou terciárias (a depender do acesso ao objeto pesquisado), divididas em retrospectivas e contemporâneas (Lakatos e Marconi, 2017, p. 208-209). São exemplos de fontes primárias: depoimentos, entrevistas, questionários, em que há acesso direto às pessoas que são objeto de investigação por parte dos pesquisadores. As fontes secundárias, por sua vez, podem ser: livros, revistas, jornais, em que o conteúdo produzido pelos autores tem interferência de suas interpretações sobre o objeto. Pesquisa: Teorias e Fundamentos 17 Já as fontes terciárias são qualquer trabalho que cite uma informação que foi lida por outra pessoa a partir de um terceiro material. Fonte primária Elaborada pelo autor a partir do acesso ao acervo e da sua respectiva interpretação e análise sobre o material. Fonte secundária Elaborada por outros autores que estudaram o objeto, mas o pesquisador não teve acesso aos documentos originais. Fonte terciária Elaborada a partir do comentário de terceiros sobre os textos produzidos acerca do tema estudado, sem que haja acesso nem aos textos secundários nem às fontes. Para Lakatos e Marconi (2017), esse tipo de documento também pode ser encontrado em fontes como arquivos públicos, arquivos particulares, fontes estatísticas (o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, por exemplo). Em relação aos tipos de documentos, as autoras destacam uma diversidade de possibilidades, como a iconografia, as peças de vestuário e as canções folclóricas. A partir da coleta de material, pode-se fazer uma pesquisa bibliográfica, que é a segunda técnica de pesquisa a ser abordada. Ela pode ser entendida como uma pesquisa de fontes secundárias, ou seja, é um levantamento de todo o material produzido sobre o tema de pesquisa. Costuma ser utilizada na maioria dos trabalhos acadêmicos para recapitular as linhas mais recentes de trabalho com o objeto e contextualizar a pesquisa a ser desenvolvida. Cabe destacar que, ao fazer uma pesquisa bibliográfica, pode-se restringir o período que o pesquisador deve pesquisar as produções, pois a dimensão de materiais sobre certos temas é gigantesca. Por isso, lembramos que a questão de pesquisa é importantíssima para a delimitação do tema, pois às vezes, dado o tempo disponível para executar a pesquisa, não é viável ler tudo o que foi produzido sobre um tema em todas as línguas em que há trabalhos disponíveis. Pesquisa: Teorias e Fundamentos 18 Segundo Lakatos e Marconi (2017), algumas fontes de documentos para a pesquisa bibliográfica são documentos publicados pela imprensa e meios audiovisuais, mapas e materiais de natureza cartográfica, publicações acadêmicas (artigos, resenhas, dissertações, teses etc.). Pesquisa documental Fonte: Freepik, (2023). #ParaTodosVerem: fotografia mostra dois jovens de perto, aparecem na foto suas mãos e parte do dorso, cada um segurando um livro aberto. Ao fundo, uma prateleira com livros demonstra se tratar de uma biblioteca. A pesquisa documental direta trabalha com o acesso direto aos dados de pesquisa. Ela está dividida em duas técnicas de coleta de dados: pesquisa de campo e pesquisa em laboratório. A pesquisa de campo, por sua vez, objetiva reunir informações sobre um tema. De acordo com Lakatos e Marconi (2017, p. 219), esse tipo de pesquisa “consiste na observação de fatos e fenômenos tal como ocorrem espontaneamente, na coleta de dados a eles referentes e no registro de variáveis que se presume relevantes para analisá-los”. A fase inicial desse tipo de pesquisa é a revisão bibliográfica sobre o tema. Em seguida, realiza-se a delimitação das técnicas para coletar dados e do modo de registrar as informações recolhidas em campo, além do tamanho e característica da amostra necessária. A pesquisa de campo divide-se em três grandes grupos: quantitativo-descritivos, exploratórios e experimentais. Em cada grupo, há subgrupos, que levam em conta a particularidade do objeto e da coleta de dados. Pesquisa: Teorias e Fundamentos 19 A pesquisa de laboratório, diferentemente das demais, envolve situações com insumos, procedimentos protocolares, instrumentos adequados à finalidade de pesquisa e ambientes controlados. A partir de uma questão de pesquisa, os pesquisadores fazem observações e testam condições diferentes para as reações. Quando pensamos em laboratório, talvez a primeira ideia que vem à cabeça são as reações físico-químicas. Porém, também existem laboratórios na área de Ciências Sociais, por exemplo, que estudam um determinado aspecto social em indivíduos ou grupos sociais. Pesquisa de campo Fonte: Freepik, (2023). #ParaTodosVerem: um homem de chapéu usando um binóculo e uma mulher usando um boné e com óculos escuros pendurados na camisa observam juntos uma prancheta que o homem segura com a mão direita. Árvores ao fundo. Diferentemente das tendências anteriores, a observação direta intensiva trabalha com duas técnicas: a observação e a entrevista. A observação se subdivide em diversas técnicas derivadas, como: A observação (assistemática, sistemática,não participante, participante, individual, em equipe, na vida real ou naturalista, em laboratório), a entrevista (padronizada ou estruturada, despadronizada semiestruturada ou livre), a análise de conteúdo, a análise do discurso, o grupo de foco (Lakatos; Marconi, 2017, p. 224). Pesquisa: Teorias e Fundamentos 20 Vamos comentar algumas das técnicas de pesquisa relacionadas à observação. De acordo com Lakatos e Marconi (2017), uma das especificidades da observação é o uso dos sentidos para a coleta de dados. Embora seja utilizada em áreas diversas, como Engenharia de Alimentos, Administração, Psicologia, entre outras, essa técnica é constitutiva da área de Antropologia. Observação assistemática Também chamada de não estruturada, é um tipo de pesquisa que acontece de maneira livre e espontânea. Serve para a pesquisa exploratória. Observação sistemática Também chamada de estruturada, é um tipo de pesquisa com questões definidas que utiliza instrumentos para a coleta de dados. Observação não participante Neste tipo, o pesquisador observa uma comunidade ou grupo de pessoas como expectador e não participa de suas práticas. Observação participante Método no qual o pesquisador participa ativamente da comunidade observada, para que possa vivenciar o que acontece. A observação é importante para estudos em que o tema e o objeto de pesquisa envolvem a investigação de pessoas, suas práticas e valores. Nesse sentido, a depender do recorte de pesquisa, essa técnica se aplica com diferentes estratégias. Por exemplo, vamos supor que desejamos entender como as pessoas de um bairro da cidade próximo ao centro se relaciona com ele, com a violência, com o barulho e a sujeira. Para isso, talvez seja interessante ouvir diferentes pessoas, com idades diferentes e provavelmente utilizar a observação participante para vivenciar a relação entre bairro adjacente e centro da cidade. Mas os propósitos das áreas do conhecimento que estudam pessoas variam bastante e, por isso, há várias possibilidades de observação, a depender do objetivo. Pesquisa: Teorias e Fundamentos 21 Observação individual Nesta técnica, o pesquisador mantém um controle maior em relação às informações coletadas do entrevistado. São permitidas inferências e/ou distorções dos dados, o que pressupõe atenção para não enviesá-los. Observação em equipe Permite a observação por diferentes ângulos, o que pode facilitar a coleta de dados. Em momento posterior, os dados divergentes podem ser confrontados, o que possibilita maior assertividade na análise. Observação na vida real É um tipo de observação mais espontânea, indicada para eventos pontuais, em que o pesquisador registra o que está ocorrendo e coleta os dados. Observação em laboratório Ocorre em laboratório e a coleta de dados é sobre a ação e a conduta das pessoas. Pode ser útil para avaliar a reação de pessoas quanto a um tema e para testes quanto à reação a produtos. A entrevista é um método no qual o pesquisador elabora questões e dialoga com o entrevistado com a finalidade de entender uma questão. Para Lakatos e Marconi (2017, p. 229), a entrevista é “um procedimento utilizado na investigação social, para a coleta de dados, ou para ajudar no diagnóstico ou no tratamento de um problema social”. As autoras elencam diversos objetivos para a entrevista, que envolvem averiguar os fatos e determinar a opinião e os sentimentos sobre eles, bem como observar os planos de ação, a mudança no modo de agir do entrevistado entre o passado e o presente e os motivos conscientes para opiniões, sentimentos, sistemas ou condutas. São três os tipos de entrevista: Pesquisa: Teorias e Fundamentos 22 Padronizada ou estruturada Há um roteiro estabelecido pelo pesquisador antes do encontro, com pouca margem para mudá-lo. As pessoas são selecionadas de acordo com um propósito. Despadronizada ou não estruturada Há um roteiro elaborado pelo pesquisador, mas há liberdade para ouvir o entrevistado ou redirecionar a conversa. Painel Ocorre uma repetição de tempos em tempos das mesmas perguntas para verificar a mudança na opinião das pessoas sobre determinado tema. Observação direta extensiva De acordo com Lakatos e Marconi (2017), a observação direta extensiva visa realizar uma métrica a partir de pesquisa de opinião e atitudes, e de técnicas mercadológicas. Nesse sentido, as duas técnicas para essa abordagem dos dados são questionários e formulários. O questionário é composto por uma série de perguntas que permitem avaliar de modo amplo as percepções e experiências de uma pessoa sobre um determinado tema. Geralmente, ele deve ser acompanhado de uma explicação, elaborada e aprovada pelo comitê de ética, para que os sujeitos da pesquisa possam decidir se querem participar e disponibilizar seus dados ou não. Para validar o questionário e fazer os ajustes necessários à coleta, é necessário um pré-teste, em que são avaliadas a fidedignidade, a validade e a operacionalidade do questionário (Lakatos e Marconi, 2017, p. 237-238). Pesquisa: Teorias e Fundamentos 23 Questionário Fonte: Freepik, 2023. #ParaTodosVerem: fotografia mostra um homem sentado, de lado para a câmera, mostrando a partir do ombro até os joelhos. Ao fundo, uma profissional da saúde segura uma prancheta, está usando um crachá e vestindo jaleco. As perguntas podem ser classificadas de acordo com a forma e com o conteúdo. Em relação à forma, podem ser questões abertas, questões fechadas e questões de múltipla escolha. Em relação ao conteúdo, podem ser perguntas sobre fatos específicos, perguntas de ação, perguntas relacionadas à intenção e pergunta teste. Perguntas Fonte: Freepik, 2023. #ParaTodosVerem: ilustração mostra três folhas de papéis com checklists, com os itens todos marcados, e uma caneta amarela por cima, como se estivesse fazendo a verificação da lista. O fundo é azul. Pesquisa: Teorias e Fundamentos 24 O formulário também é um método de coleta de dados que permite o preenchimento de questões em um contato entre pesquisador e sujeito da pesquisa. Diferentemente do questionário, que costuma ser padronizado e/ou utilizado em plataformas automatizadas para o seu desenvolvimento, o formulário precisa ser elaborado com fontes, layout e tamanho adequados para a leitura do público-alvo. Ele também deve ser bem organizado e ter uma sequência lógica, que permita ao sujeito pesquisado seguir uma linha de raciocínio sobre o tema em pauta. Outro ponto a ser destacado é a importância da ordem direta das questões, em uma estrutura de sentenças que facilitem a decodificação, a saber: sujeito, verbo e complementos. Por último, vamos destacar alguns dos métodos de procedimento de pesquisa que Lakatos e Marconi (2017) consideram mais recorrentes nas Ciências Sociais, mas que são importantes para outras áreas do conhecimento. O intuito é dar um panorama de métodos possíveis para o desenvolvimento de um trabalho de pesquisa. Métodos de procedimento Métodos de procedimento Método histórico Método comparativo Método monográfico Método estatístico Método tipológico Método funcionalista Método estruturalista Método etnográfico Método clínico Fonte: adaptado de Lakatos e Marconi, 2017. Pesquisa: Teorias e Fundamentos 25 O método histórico consiste em situar os fenômenos em relação aos acontecimentos que o precederam para entender sua gênese e sua transformação. Já o método comparativo consiste em relacionar sociedades diferentes que compartilham ou não um traço, com a finalidade de compreendê-las e desenvolver uma teoria sobre seus funcionamentos. É bastante útil para entender o desenvolvimento de fenômenos em grandes períodos. O método monográfico permite o estudo de uma comunidade ou de um grupo a partir de uma atividade ou grupo de atividades deles. O método estatístico, por sua vez, é utilizado para fazer uma descrição quantitativa da sociedade ou de aspectos de comportamentos sociais. O método tipológico analisa fenômenos quepodem ser divididos em tipos e tem aproximação com o método comparativo. O método funcionalista considera as sociedades como sistemas de estruturas complexas. Nesse sentido, para entender o todo, é necessário entender as funções desempenhadas pelos indivíduos para o funcionamento do todo. Já o método estruturalista investiga um fenômeno, parte para uma abstração dele baseado em um modelo, volta à situação concreta e parte novamente para o abstrato. Por sua vez, método etnográfico faz uma investigação descritiva das sociedades por meio da observação e do levantamento de dados para examinar questões oriundas de valores, crenças, entre outros, e conhecer e propor interpretações sobre a cultura delas. Por último, o método clínico é um procedimento para formular e verificar hipóteses pela observação de um sujeito que enfrenta uma doença ou um diagnóstico. Este método é comum em estudos de caso, em que é possível verificar o andamento das questões enfrentadas pelo paciente. Também pode ser usado no ambiente escolar para avaliar alunos com alguma dificuldade de aprendizagem ou algum comportamento diferenciado da média, e desenvolver soluções que o auxiliem a se integrar com o ritmo de aprendizagem da turma. Além disso, pode ser útil nas áreas de Fonoaudiologia, Enfermagem, Nutrição e Ciências da Saúde. Pesquisa: Teorias e Fundamentos 26 Saiba mais Para saber mais, assista ao vídeo “Coleta de dados: como definir esta fase na pesquisa?”, do canal Acadêmica, que aborda métodos de coleta de dados na pesquisa qualitativa e na pesquisa quantitativa. COLETA de dados: como definir esta fase na pesquisa? – Pesquisa na prática 128. [S. l.: s. n.], 2021. 1 vídeo (11 min). Publicado pelo canal Acadêmica. Disponível em: https://youtu.be/Qd5ay69rBSU. Acesso em: 25 ago. 2023. Dica de leitura Para conceituar o uso de survey de experiência, leia o texto “Survey de experiência como pesquisa qualitativa básica em administração”, de Antonio Carlos Gil e Aline Crespo dos Reis Neto, que discorrem sobre quatro pontos importantes: • Conceito de survey. • Conceito de survey de experiência. • Fundamentos filosóficos do survey de experiência. • Contextualização do uso de survey de experiência na pesquisa qualitativa. GIL, A. C.; REIS NETO, A. C. Survey de Experiência como pesquisa qualitativa básica em administração. Revista de Ciências da Administração, v. 22, n. 56, 2021, p. 125-137. Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index. php/adm/article/view/74026/45678. Acesso em: 26 ago. 2023. https://youtu.be/Qd5ay69rBSU https://periodicos.ufsc.br/index.php/adm/article/view/74026/45678 https://periodicos.ufsc.br/index.php/adm/article/view/74026/45678 Pesquisa: Teorias e Fundamentos 27 Conclusão Espera-se que a apresentação de várias técnicas tenha dado um embasamento para uma escolha a partir da afinidade com as questões de pesquisa desenvolvidas pelos estudantes. Nesse sentido, devemos lembrar que o trabalho de pesquisa pode usar diferentes métodos de modo concomitante, a depender especificamente do objeto e do propósito do problema de pesquisa. Devemos escolher as estratégias adequadas para acessar os dados necessários para a pesquisa, que podem ser retrospectivos ou contemporâneos e estar em objetos ou nas pessoas. Ao mesmo tempo, nota-se que, a depender do tipo de pesquisa, pode-se acessar uma quantidade massiva de dados que deverão ser peneirados para que possam ser utilizados na solução da questão de pesquisa. Ou seja, a interpretação do pesquisador também vai determinar quais desses dados serão utilizados e por que eles foram escolhidos em detrimento de outros, para justificar a análise e responder da maneira mais assertiva e adequada possível aos propósitos definidos no início da pesquisa. Pesquisa: Teorias e Fundamentos 28 Referências Básicas APPOLINÁRIO, F. Metodologia da ciência: filosofia e prática da pesquisa. 2. ed. São Paulo: Cengage Learning, 2012. CERVO, A. L.; BERVIAN, P. A.; SILVA, R. Metodologia científica. 6. ed. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2007. LAKATOS, E. M.; MARCONI, M. A. Fundamentos de metodologia científica. 8. ed. São Paulo : Atlas, 2017. MASCARENHAS, S. A. Metodologia científica. 2. ed. São Paulo: Pearson, 2018. Complementares GERHARDT, T. E.; SILVEIRA, D. T. Métodos de pesquisa. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2009. Disponível em: https://www.ufrgs.br/cursopgdr/downloadsSerie/ derad005.pdf. Acesso em: 25 ago. 2023. https://www.ufrgs.br/cursopgdr/downloadsSerie/derad005.pdf https://www.ufrgs.br/cursopgdr/downloadsSerie/derad005.pdf 29 Produção científico-acadêmica Introdução Nessa seção, vamos abordar quatro gêneros textuais acadêmicos e predominantemente científicos: o artigo científico, a monografia, a resenha e o relatório. Para isso, serão apresentadas as características dos gêneros. É necessário comentar que existem semelhanças entre a estrutura do artigo científico e da monografia, por exemplo, e a principal diferença entre eles é o tempo de elaboração. Já a resenha busca apresentar uma obra e avaliá-la a partir de pontos positivos e negativos. Diferentemente do resumo, a resenha deve apresentar uma opinião do autor e um parecer que recomende a leitura/acesso à obra ou não a recomende, a partir de uma argumentação que dê exemplos do que levou o autor a formar sua opinião. Por fim, o relatório é um gênero com características bastante diversas e deve ser escrito em relação ao contexto a ser retratado. Ao final, espera-se que o estudante conheça as principais características e propósitos dos quatro gêneros e possa escrevê-los de modo mais informado. Objetivos da aprendizagem • Definir e caracterizar os textos acadêmicos e científicos: artigo, monografia, resenha, relatório. Palavras-chave: gêneros textuais acadêmicos, artigo científico, resenha, monografia, relatório. Pesquisa: Teorias e Fundamentos 30 Quatro gêneros textuais acadêmicos: artigo, monografia, resenha e relatório Para comunicar as informações produzidas na universidade, devemos conhecer os gêneros utilizados a fim de organizar e dispor o que foi produzido durante a pesquisa. Nesse sentido, vamos apresentar quatro gêneros textuais acadêmicos: o artigo, a monografia, a resenha e o relatório. De acordo com Appolinário (2012, p. 85), de modo geral, pode-se dividir o trabalho científico em passos de natureza ampla, que auxiliam em sua realização. São oito passos: 1) Determinar o tema e o problema de pesquisa; 2) Determinar os objetivos (objetivo geral e objetivos específicos) e as hipóteses de pesquisa; 3) Determinar o tipo de pesquisa; 4) Construir a revisão de literatura; 5) Escolher os sujeitos (ou objetos) da pesquisa; 6) Determinar os instrumentos e procedimentos de coleta dos dados; 7) Transcrever e analisar os dados (caso seja necessário); e 8) Discutir os resultados e concluir o trabalho. Estrutura geral dos trabalhos científicos Pré-texto Capa, folha de rosto, ficha catalográfica, dedicatória, agradecimentos, resumo, palavras-chave, abstract, keywords. Sumário, lista de figuras, lista de tabelas, lista de abreviações, apresentação. Texto Introdução, objetivos, justificativa, corpo do trabalho (ou desenvolvimento), mé- todo, cronograma, orçamento, resul- tados, conclusões. Pós-texto Referências, anexos, índice remissivo, glossário. Fonte: baseada em Appolinário (2012, p. 85) Embora sejam gêneros textuais diferentes, com extensões e propósitos diversos, os trabalhos científicos compartilham várias semelhanças, como as indicadas na tabela anterior no que diz respeito às três partes: pré-texto, texto e pós-texto. Outra semelhança é que todos os trabalhos científicos devem seguir as normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). Para auxiliar na formatação, cada instituição de ensino tem um manual de regras, atualizado de tempos em Pesquisa: Teorias e Fundamentos 31 tempos, que permite sanar dúvidas sobre citações, formatações e ordem dos elementos textuais. Partes obrigatóriasde uma monografia de graduação São as seções que não podem faltar em qualquer monografia. Exemplos: introdução, objetivos, justificativa etc. Partes facultativas de uma monografia de graduação São as seções que podem estar ou não na estrutura do trabalho. Exemplos: ficha catalográfica, dedicatória, agradecimentos. Esses quatro gêneros estão ligados à comunidade acadêmica e precisam utilizar linguagem técnica em sua elaboração. A principal diferença entre o artigo e a monografia, por exemplo, é a extensão de palavras e a profundidade da abordagem. Enquanto o artigo científico costuma ter entre 10 a 20 páginas, o que varia de área para área do conhecimento, a monografia tem uma extensão de 30 a 50 páginas, o que também pode variar. Outra diferença é que a monografia tem um orientador, que direciona o trabalho, recomenda ajustes no texto e sugere leituras para o desenvolvimento da pesquisa. Já o artigo científico é escrito para a organização das informações de uma pesquisa, como sua questão, revisão bibliográfica, coleta de dados, método de análise e sua divulgação para a comunidade científica, e pode ser solicitado como o trabalho final das disciplinas de graduação e de pós-graduação. Artigo científico e extensão Existem áreas do conhecimento que publicam artigos com cerca de cinco pá- ginas, como as de Física e Engenharia, e outras com trabalhos mais extensos. Importância da divulgação de artigos científicos Artigos científicos costumam ser submetidos a periódicos, em que passam pela avaliação por pares, e são aceitos ou rejeitados para publicação. Pesquisa: Teorias e Fundamentos 32 Pode-se dizer que o artigo científico é o principal gênero de comunicação científica. Ele é utilizado para socializar as descobertas e dialogar com os pares. Sua estrutura é variável para cada área de pesquisa, pois depende do tipo de dados que serão publicados e das peculiaridades das áreas estudadas. São possibilidades de artigo científico: artigo de revisão bibliográfica, artigo experimental, artigo científico empírico etc. Para Motta-Roth e Hendges (2022), o artigo acadêmico se divide em: Partes de um artigo científico Partes de um artigo científico Introdução Revisão de literatura Metodologia Análise e discussão dos dados Resumo/abstract Fonte: elaborado pela autora. A introdução de um artigo científico, em geral, deve apresentar as motivações que levaram o pesquisador a investigar uma questão, seja através de dados, seja através de uma abordagem de pesquisas anteriores, que motivaram o pesquisador a se interessar e elaborar tal questão. A revisão de literatura é frequente em quase todos os trabalhos acadêmicos, pois é uma maneira de conhecer o que já foi feito para fundamentar o que será feito no trabalho, por pequeno que seja o avanço proposto. Isso dá uma percepção geral tanto para o pesquisador quanto para o leitor, que entende o que está sendo discutido e aonde se pretende chegar. A coleta de dados não está no quadro como elemento separado, pois depende da natureza do artigo proposto. Por exemplo, em um artigo de revisão bibliográfica, a coleta de dados é a seleção de trechos de um corpus definido pelo pesquisador (um exemplo: trabalhos publicados em periódicos brasileiros nos últimos dez anos). Nesse sentido, outro tipo de pesquisa poderá fazer uma coleta de dados in loco e a metodologia de análise pode variar de acordo com o desenho dessa pesquisa. Assim, a metodologia pode agrupar tanto a coleta de dados como a teoria e técnica utilizadas para a análise desses dados. Pesquisa: Teorias e Fundamentos 33 Revisão da literatura Fonte: Freepik (2023). #ParaTodosVerem: mulher vista de cima, da altura dos ombros para baixo, usando uma blusa verde de manga longa e com as unhas pintadas de azul, segurando um livro na mão esquerda e manuseando um notebook com a mão direita. Em seguida, depois de estabelecer o método (ou métodos) de análise, parte-se para a análise e discussão dos dados. É essa seção que todas as outras partes acabam por fundamentar. Todo o artigo se movimenta no sentido de dar suporte e embasamento à análise, estabelecendo critérios para ela e garantindo a confiabilidade dos resultados. Por último, há as considerações finais, em que os pesquisadores fazem um apontamento de estudos que ainda precisam ser feitos para aprofundar a compreensão sobre o tema. Nessa seção, deve-se também resumir o texto e recuperar as principais descobertas elaboradas pelo trabalho. Pesquisa: Teorias e Fundamentos 34 Suporte e embasamento Fonte: Freepik (2023). #ParaTodosVerem: fotografia de livros sobre uma mesa. Há uma lupa e um par de ócu- los sobre um deles. O fundo é desfocado, com estantes de livros. Como comentamos anteriormente, a monografia é um tipo de trabalho científico produzido para a conclusão de um curso de graduação ou especialização. Nele, a partir de um projeto de pesquisa, o estudante faz uma investigação e a organiza com os mesmos elementos do artigo científico. No entanto, a pesquisa de uma monografia é mais profunda que a de um artigo, pois é necessário demonstrar o conhecimento adquirido durante o curso e propor um trabalho que materialize as competências de leitura, escrita e pesquisa que o estudante desenvolveu durante os anos de curso. Na imagem abaixo, pode-se conferir a disposição dos elementos de uma monografia na ordem correta recomendada pela ABNT: Pesquisa: Teorias e Fundamentos 35 Elementos de uma monografia Fonte: ABNT – NBR 14724 (2023). #ParaTodosVerem: esquema que mostra a estrutura de elementos de uma monografia de acordo com a ABNT. Já a resenha é um gênero textual no qual é cotejada uma determinada obra ou trabalho, como artigos, filmes, livros, entre outros, para apresentar ao leitor o tema, a estrutura, as ideias principais, os acertos e os erros. Na resenha, são apresentados, além das características da obra, o nome do autor, o ano e o local de lançamento/publicação, bem como as principais ideias e/ou enredo, defeitos na abordagem e qualidades a serem destacadas. É extremamente importante apresentar as ideias principais desenvolvidas na obra avaliada e, se possível, dar exemplos para que o leitor possa compreender seus argumentos. No caso de resenhas sobre livros científicos, é possível avaliar as contribuições para a área de conhecimento e criticar as faltas ou análises inadequadas em algum aspecto. Pesquisa: Teorias e Fundamentos 36 Resenha não é artigo Uma resenha não pode ser confundida com um artigo, pois seus propósitos comunicativos são distintos. Resenha não é resumo O propósito de uma resenha não é apenas resumir uma obra, mas que os autores avaliem de maneira crítica os acertos e erros e recomendem a obra ou não. Resenhas Fonte: Freepik (2023). #ParaTodosVerem: mulher usando camiseta amarela e calça jeans, cabelo curto casta- nho e óculos com armação preta, vista de cima, na diagonal, mostrando desde a cabeça até os joelhos. Está sentada com as pernas cruzadas em uma cadeira verde, segura um livro aberto com a mão esquerda e coloca a mão direita no queixo, com o cotovelo apoiado no braço da cadeira. Ao fundo, uma prateleira de livros e no canto esquerdo, parte de um esqueleto de uso didático. Pesquisa: Teorias e Fundamentos 37 Para nortear a escrita de uma resenha, pode-se conferir os passos necessários para apresentar a obra e escrever um texto adequado ao propósito comunicativo. Em geral, resenhas podem ser pedidas como parte da avaliação do semestre letivo em uma disciplina e também submetidas a periódicos científicos para avaliar o impacto do lançamento de uma obra para determinada área de conhecimento. Nesse sentido, a depender da área, os periódicos costumam aceitar resenhas de obras que tenham sido publicadas nos últimos dois anos. Estrutura da resenha Apresentar o livro informar o tópico geral do livro definir o público-alvo dar referências sobre o autor fazer generalizações inserir o livro na disciplina Descrevero livro dar uma visão geral da organização do livro estabelecer o tópico de cada capítulo citar material extratextual Avaliar partes do livro realçar pontos específicos Recomendar ou não recomendar o livro desqualificar/recomendar o livro recomendar o livro apesar das falhas indicadas Fonte: adaptado de Motta-Roth e Hendges (2022). O relatório, por outro lado, é um gênero textual acadêmico frequentemente utilizado para saídas de campo, estágios e finalização do período como estudante de iniciação científica (IC). Para Lakatos e Marconi (2017), o relatório pode ser uma exposição geral da pesquisa, que deve conter desde o planejamento até as considerações finais, o que inclui a metodologia e o embasamento teórico utilizado. Em relação à estrutura, é necessário lembrar que, a depender da finalidade, os elementos variam. Se compararmos a estrutura de um relatório de IC (que normalmente dura um ano) com a estrutura de um relatório de uma visita Pesquisa: Teorias e Fundamentos 38 técnica em uma empresa (que pode durar de um dia a uma semana), com certeza constataremos diferenças entre elas, especialmente se pensarmos que os eventos relatados ocorreram com duração bastante diversa. Relatório Fonte: Freepik (2023). #ParaTodosVerem: fotografia de mãos que digitam em um notebook sobre uma mesa, com a tela apoiada em livros empilhados. Ao fundo, prateleiras de livros. Para Gil (2019), o relatório também tem uma extensão variável, mas deve ser enxuto, para facilitar a leitura. Gil divide as seções do relatório em: introdução; revisão da literatura; método; análise e discussão; e conclusões. Perceba que as seções são parecidas com as do artigo científico e da monografia, mas veja que o propósito de um relatório é distinto dos gêneros mencionados. Pesquisa: Teorias e Fundamentos 39 Relatório deve ser escrito em relação ao contexto Não há uma estrutura única para a escrita do relatório, por isso, recomenda-se bom senso em relação ao tamanho e ao conteúdo abordado. Relatório deve ser objetivo e sucinto Além disso, o relatório deve ser escrito com linguagem objetiva sem informações que estejam para além do objetivo de relatar um evento ou experiência. Gil (2019) afirma também que o estilo de escrita do relatório deve ser impessoal, claro, objetivo em relação à abordagem das informações, preciso em relação aos dados comunicados, conciso, e informar apenas o que é relevante para a coerência do texto e para a caracterização da pesquisa, da coleta de dados, da análise e dos resultados. Saiba mais Para saber mais, assista ao vídeo “Escrita acadêmica - vencer bloqueios e fazer o texto fluir”, do canal Além do Lattes, que aborda a escrita acadêmica e suas dificuldades. PAVANELLO, A. Escrita acadêmica – vencer bloqueios e fazer o texto fluir. [S. l.: s. n.], 2022. Publicado pelo canal Além do Lattes. Disponível em: https:// www.youtube.com/watch?v=2iPMP-EdFNk. Acesso em: 25 ago. 2023. https://www.youtube.com/watch?v=2iPMP-EdFNk https://www.youtube.com/watch?v=2iPMP-EdFNk Pesquisa: Teorias e Fundamentos 40 Dica de leitura Para conceituar o gênero artigo científico, leia o texto “Contribuições teóricas, práticas, metodológicas e didáticas em artigos científicos”, de Marcelo de Souza Bispo. O autor discorre sobre três pontos importantes, a saber: • O que é esperado de um artigo científico. • Tipos de contribuições esperadas por meio do artigo científico. • Tipos de artigo e de estilos de escrita científica. BISPO, M. de S. Contribuições teóricas, práticas, metodológicas e didáticas em artigos científicos. Revista de Administração Contemporânea, v. 27, n. 1, p. 1-6, 2023. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rac/a/ gvLGLDq49hfqkcgg3z4jrMD/. Acesso em: 25 ago. 2023. https://www.scielo.br/j/rac/a/gvLGLDq49hfqkcgg3z4jrMD/ https://www.scielo.br/j/rac/a/gvLGLDq49hfqkcgg3z4jrMD/ Pesquisa: Teorias e Fundamentos 41 Conclusão A partir do exposto, espera-se que a caracterização dos propósitos comunicativos dos gêneros acadêmicos auxilie os estudantes no desenvolvimento de textos exigidos em diferentes etapas da vida acadêmica, para que a comunicação seja efetiva e que seja possível produzir conhecimento por meio dessas diferentes produções. Utilizando a estrutura do artigo científico e compreendendo as etapas da pesquisa científica, podemos escrever um artigo a partir da elaboração de suas partes e entender o motivo para elas existirem dessa maneira. Já a estrutura da monografia, bastante parecida com a do artigo, é maior porque espera-se uma materialização das competências adquiridas durante o curso em uma pesquisa autoral com o auxílio de uma orientação. A resenha, por sua vez, é um gênero textual constantemente demandado em disciplinas durante os cursos, podendo ainda ser submetidas a periódicos científicos. Finalmente, o relatório pode servir a diferentes propósitos e deve relatar um evento ou experiência. Deve ser conciso e adequado ao propósito para o qual foi solicitado, sem utilizar descrições extensas e desnecessárias. Pesquisa: Teorias e Fundamentos 42 Referências Básicas APPOLINÁRIO, F. Metodologia da ciência: filosofia e prática da pesquisa. 2 ed. São Paulo: Cengage Learning, 2012. CERVO, A. L.; BERVIAN, P. A.; SILVA, R. Metodologia científica. 6. ed. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2007. GIL, A. C. Métodos e técnicas de pesquisa social. 7. ed. São Paulo: Atlas, 2019. LAKATOS, E. M.; MARCONI, M. A. Fundamentos de metodologia científica. 8. ed. São Paulo: Atlas, 2017. MASCARENHAS, S. A. Metodologia científica. 2. ed. São Paulo: Pearson, 2018. MOTTA-ROTH, D.; HENDGES, G. R. Produção textual na universidade. São Paulo: Parábola, 2022. Complementares CARVALHO, M. C. R. (coord.). Manual para apresentação de trabalhos acadêmicos da Universidade Católica de Brasília. 16. ed. Brasília: Universidade Católica de Brasília, 2023. Disponível em: https://ucb.catolica.edu.br/portal/wp- content/uploads/2023/03/Manual-16.ed_.-2023.pdf. Acesso em: 25 ago. 2023. NORMAS ABNT. (Norma Técnica) Código – ABNT NBR 14724 (mais atualizada). 15 fevereiro 2023. Disponível em: https://www.normasabnt.org/abnt-nbr-14724/. Acesso em: 15 ago. 2023. SOUZA, J. A. de C. de. O artigo acadêmico-científico: como elaborar? Colóquio (Taquara), v. 7, p. 43-51, 2009. Disponível em: https://saga.faccat.br/p907/index. php?chave=64. Acesso em: 25 ago. 2023. https://ucb.catolica.edu.br/portal/wp-content/uploads/2023/03/Manual-16.ed_.-2023.pdf https://ucb.catolica.edu.br/portal/wp-content/uploads/2023/03/Manual-16.ed_.-2023.pdf https://www.normasabnt.org/abnt-nbr-14724/ https://saga.faccat.br/p907/index.php?chave=64 https://saga.faccat.br/p907/index.php?chave=64 43 Aspectos sociais da ciência Introdução Nessa seção, vamos abordar os aspectos sociais da ciência e da comunidade científica, para definir e caracterizar seu funcionamento. As discussões entre profissionais de uma área do conhecimento e a participação efetiva na comunidade científica se dão principalmente por meio da socialização entre cientistas em eventos e das publicações em periódicos. Nesse sentido, vamos caracterizar os periódicos científicos, bem como o sistema de submissão e os critérios de avaliação de trabalhos. Também discutiremos a questão do acesso – livre ou pago – ao conhecimento pelas bases de dados que indexam os periódicos para pesquisadores. Vamos discutir, ainda, a importância da pós-graduação para o fazer científico no Brasil e aspectos relevantes para compreender o funcionamento da produção e da socialização científicas, além de apresentar a Plataforma Sucupira, principal plataforma de dados sobre pós-graduação no país. Objetivos da aprendizagem • Definir e caracterizar a comunidade científica e os órgãos financiadores. Palavras-chave: comunidade científica, pesquisa no Brasil, periódicos científicos, socialização da pesquisa, divulgação científica. Pesquisa: Teorias e Fundamentos 44 Comunidade científica: aspectos sociais A comunidade científicano Brasil está nas universidades, nos institutos de pesquisa e em algumas empresas, que mantêm o cargo de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) ou outros nomes similares. Embora seja comum quando se faz pesquisa, não é necessário ter vínculo com a universidade e estar cursando uma pós-graduação para apresentar artigos em eventos ou publicá-los em periódicos, participando assim da comunidade científica. No entanto, vamos elaborar como a comunidade científica se caracteriza, que eventos são regulares para as discussões, o que são periódicos e os órgãos financiadores da pesquisa. Como comentamos anteriormente, o conhecimento científico é comunicado através de eventos, que podem ser congressos, seminários, simpósios, feiras, entre outros. Principais tipos de eventos científicos e acadêmicos Congresso Fórum, encontro, seminário, conferência Simpósio Mesa- redonda Reunião formal de grande porte e relevância científica. Versão reduzida, em tamanho e importância, de um congresso. Reunião na qual dois ou mais especialistas em determinada área de conhecimento expõem suas visões. Reunião em que os debatedores defendem opiniões claramente divergentes acerca de determinado tema. Fonte: baseado em Appolinário (2012, p. 52). Também podemos pensar na publicação de livros que são escritos para a divulgação de pesquisas e na revisão bibliográfica de temas, com proposições, atualizações e correções. Talvez você possa pensar que, se um texto está no formato de livro, possivelmente pode ser considerado um documento confiável, já que foi legitimado por uma editora, que aceitou publicá-lo, e está assinado por um autor. No entanto, é importantíssimo saber que nem todo livro, apenas por estar publicado nesse formato, é confiável cientificamente. Pesquisa: Teorias e Fundamentos 45 Pesquisa Fonte: Freepik, 2023. #ParaTodosVerem: ilustração de um homem segurando uma prancheta e uma mulher segurando tubos de ensaio. Entre eles, há um tubo de ensaio grande, apoiado em um suporte. Embaixo há uma chama e sai fumaça do tubo. No fundo há imagens de tubos de ensaio, pontos interligados, símbolo de um átomo, nuvens, engrenagens e vegetação. Em outras palavras, podemos dizer que a publicação de livros é uma das maneiras de participar da comunidade científica, mas nem todo livro contribui para as discussões sobre ciência, mesmo se essas forem publicadas por um cientista. O que pode validá-lo ou não é a recepção pela comunidade acadêmica, que poderá escrever resenhas e trabalhos avaliando seu valor para as discussões em pauta. Cabe também destacarmos a importância dos periódicos acadêmicos, também chamados de revistas, para a discussão entre a comunidade científica sobre as novas pesquisas e para diálogos sobre diferentes perspectivas sobre temas. Existem periódicos específicos para cada área e alguns voltados para a interdisciplinaridade. Eles são classificados por meio de um sistema, o Qualis. Em breve vamos falar mais dele. Pesquisa: Teorias e Fundamentos 46 Indexação Índices científicos setoriais (Appolinário, 2012, p. 49) que compõem uma base de dados em que é possível recuperar todos os trabalhos disponíveis sobre um tema. Revisão por pares Todo texto publicado em periódicos passa por um processo de avaliação cega, isto é, sem saber quem é o autor. Normalmente, envolve dois avaliadores. Open access Periódicos que seguem uma nova política editorial de disponibilização dos trabalhos gratuitamente para o público. Fator de impacto Quanto maior o fator de impacto de uma revista/periódico, mais ela é lida e comentada pelos cientistas. Além disso, um periódico geralmente é indexado em diferentes bases para que seja possível recuperá-lo e facilitar o acesso dos pesquisadores a ele. Outra característica é que, para publicar em um periódico, é necessário submeter o trabalho (artigo, resenha, entrevista etc.) a uma avaliação em que não haveria a indicação de autoria. Essa avaliação é feita por pares, geralmente duas pessoas pertencentes à comissão avaliadora do periódico, que leem e avaliam os dados e a estrutura da pesquisa. Os artigos podem ser aceitos ou rejeitados, pois não há a obrigatoriedade de publicar nenhum trabalho, e cada revista tem suas regras de submissão e formatação dos textos. Alguns dos periódicos mantêm o acesso livre a qualquer pessoa com acesso à internet. Outros cobram pelo acesso à integralidade dos trabalhos. Há ainda bases de dados que reúnem os periódicos e trabalhos produzidos em programas de pós-graduação, disponibilizando-os com acesso livre. Pesquisa: Teorias e Fundamentos 47 Oasis.br Portal de acesso aberto que disponibiliza trabalhos completos produzidos em institutos de pesquisa ou nas universidades brasileiras. Scielo A Scientific Eletronic Library Online é uma base de periódicos brasileira open access que reúne periódicos científicos de alguns dos países da América Latina. Além disso, para participar da comunidade científica, é necessário publicar regularmente os resultados das pesquisas para divulgá-los, o que também serve como um retorno para a sociedade. Nesse sentido, é importante observar o fator de impacto dos periódicos. Para o crescimento na área de pesquisa, os pesquisadores buscam, conforme vão ficando mais experientes, submeter seus trabalhos a revistas de maior impacto, para que seus resultados possam ser questionados, validados e utilizados pelos pares Qualis Fator de impacto dos periódicos brasileiros, que varia de A a C, com escalas de 1 a 4. Plataforma Sucupira Plataforma que reúne diversos dados relacionados aos cursos de pós- graduação para avaliá-los em contexto nacional. O Qualis de uma revista depende de vários fatores, como a formação dos pesquisadores que publicam, a relevância dos trabalhos publicados e o impacto na área de conhecimento. Essa avaliação é disponibilizada publicamente e atualizada de quatro em quatro anos. Alguns dos periódicos estão disponíveis no site Periódicos Capes, que pode ser acessado por qualquer pessoa. No entanto, há uma autenticação para as instituições de ensino brasileiras, chamada Acesso CAFe. Este possibilita acessar Pesquisa: Teorias e Fundamentos 48 vários bancos de dados internacionais, que estão integrados à Capes e são pagos por acesso. Cada instituição possui diferentes modos de acessar o sistema. Por isso, caso tenha interesse, procure a biblioteca de sua instituição, onde poderá ser informado sobre como fazê-lo. Na imagem, do lado esquerdo, há um pequeno botão com um link para o Acesso CAFe, também identificado por um logo de xícara de café. Periódicos Capes Fonte: GOV.BR Ministério da Educação/CAPES (2023). #ParaTodosVerem: imagem da página inicial do site do Ministério da Educação, com botões e o dizer “Aqui você encontra conteúdo científico diversificado para deixar sua pesquisa ainda melhor”. Para financiar a pesquisa acadêmica e científica, há diversos órgãos financiadores. Dois dos mais importantes, por serem de âmbito nacional, são a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior (Capes) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). A Capes é responsável pelo financiamento de diferentes iniciativas, que vão desde a iniciação científica até a pós-graduação. Outras iniciativas custeadas pela Capes são o Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID) e o programa da residência pedagógica, que disponibiliza bolsas para estudantes de licenciatura para que eles possam desenvolver atividades formativas em escolas públicas e complementar sua formação docente. O CNPq é responsável também por parte do investimento em pesquisas, por meio da publicação de chamadas públicas para projetos, que podem ter um foco ou ser direcionadas a uma área do conhecimento. Além disso, atua em diferentes Pesquisa: Teorias e Fundamentos 49 níveis de ensino, desde Ensino Médio até a pós-graduação. É o CNPq que financia a maior parte das bolsas de iniciaçãocientífica e pós-graduação stricto sensu. Pós-graduação lato sensu É um curso com propósito profissionalizante, com duração de, no mínimo, 360 horas/aula. Pode exigir ou não a escrita de um trabalho final. Pós-graduação stricto sensu São os cursos de mestrado e doutorado, com propósito majoritariamente acadêmico. A duração varia de dois a cinco anos. Iniciação científica Fonte: Freepik, 2023. #ParaTodosVerem: fotografia de uma mulher usando máscara cirúrgica, touca e luva de nitrato. Ela segura e observa uma placa de Pétri. Deve-se lembrar que, além das duas agências, existem agências estaduais de fomento à pesquisa. Cada região tem suas agências. Por exemplo, a Fapesp é uma agência de fomento que se localiza em São Paulo e é responsável pelo pagamento de bolsas que estão acima do valor das bolsas financiadas pela Capes e pelo CNPq. A seguir, é possível consultar algumas das principais agências em âmbito nacional. Pesquisa: Teorias e Fundamentos 50 Principais agências financiadoras de estudos e projetos CNPq - Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico Suas linhas de investimento são: bolsas de investigação científica; aperfeiçoamento; cursos de pós-graduação; apoio à participação em eventos; apoio à promoção de eventos; apoio à editoração, etc... FAPERGS - Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado do Rio Grande do Sul Financia: investigação científica; aperfeiçoamento; apoio técnico; bolsas de recém-mestre; bolsas de pós-graduação (mestrado e doutorado). FINEP - Financiadora de Estudos e Projetos Financia: organização de eventos e projetos de pesquisa, que sejam solicitados com no mínimo de quatro meses de antecedência. CAPES - Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior Fundação Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior. Financia: os grupos PET (Programa Especial de Treinamento) na graduação e concede bolsas de mestrado e doutorado a cursos de pós-graduação reconhecidos por este órgão. Fonte: adaptado de UCS Internacional (2023). Como podemos perceber, embora haja institutos de pesquisa e empresas que invistam em desenvolvimento científico, a ciência no Brasil em sua maior parte é produzida nas universidades. Ao mesmo tempo, cabe notar que, embora a pesquisa seja financiada pelo dinheiro público, ainda não há divulgação nem comunicação suficientes com a sociedade sobre o que é esse trabalho, quem o produz, qual é sua importância e quanto ainda é necessário avançar em termos de legislação. Por exemplo, duas questões bastante presentes nos cursos de pós-graduação são o não reconhecimento do tempo empregado em pesquisa científica como trabalho oficial e a ausência de direitos em relação ao trabalho com pesquisa científica. Pesquisa: Teorias e Fundamentos 51 Ciência Fonte: Freepik, 2023. #ParaTodosVerem: ilustração com quatro pessoas segurando bolas coloridas interligadas por linhas. Nesse sentido, ainda que tenhamos uma comunidade científica brasileira sólida, ainda há muito a ser feito em relação à modalidade de trabalho, que precisa ser elaborada e desenvolvida. Outro ponto está relacionado com a popularização da ciência e a divulgação científica, pois é importante que a população entenda a importância da ciência para a manutenção da vida e da sociedade como um todo. Pesquisa: Teorias e Fundamentos 52 Saiba mais Para saber mais, assista ao vídeo de Natalia Pasternak “Ciência brasileira: desconhecida pelos brasileiros”, que aborda um panorama sobre a ciência produzida no Brasil e sua relação com a sociedade. PASTERNAK, N. Ciência brasileira: desconhecida pelos brasileiros. [S. l.: s. n.], 2019. 1 vídeo (6 min). Publicado pelo canal Casa do Saber. Disponível em: https://youtu.be/8b2zbKsYyY4. Acesso em: 25 ago. 2023. Dica de leitura Para conceituar a pesquisa e a pós-graduação no Brasil, leia o texto “Pesquisa e pós-graduação no Brasil: duas faces da mesma moeda?”, de Simon Schwartzman. O autor discorre sobre quatro pontos importantes, a saber: • Conhecer a história do desenvolvimento do sistema brasileiro de pesquisa acadêmica e pós-graduação. • Conhecer as dimensões do sistema de pesquisa e de pós-graduação. • Conhecer o funcionamento da pós-graduação no Brasil. • Caracterizar a população de estudantes de pós-graduação no Brasil. SCHWARTZMAN, S. Pesquisa e pós-graduação no Brasil: duas faces da mesma moeda? Estudos Avançados, v. 36, n. 104, p. 227-254, 2022. Disponível em: https://www.scielo.br/j/ea/a/mM4ZbvgxfKYSjWv6bwL7fMg/?lang=pt#. Acesso em: 25 ago. 2023. https://youtu.be/8b2zbKsYyY4 https://www.scielo.br/j/ea/a/mM4ZbvgxfKYSjWv6bwL7fMg/?lang=pt# Pesquisa: Teorias e Fundamentos 53 Conclusão A partir do exposto, caracterizamos a relação entre a pós-graduação e o desenvolvimento da ciência no Brasil, como ocorrem as trocas e as relações entre cientistas e o diálogo por meio das publicações em periódicos. A socialização do conhecimento em eventos, como congressos e seminários, possibilita que os cientistas comentem, discutam, concordem, discordem e ampliem as pesquisas apresentadas pelos pares. Isso promove um constante aprimoramento do saber, que é revisado e revisitado constantemente. Conhecemos também algumas características dos periódicos, como a indexação, o Open Access e a revisão por pares, que garantem a manutenção dos saberes científicos e a qualidade das publicações submetidas, que só serão aceitas se contribuírem para a ampliação do conhecimento e apresentarem uma contribuição de modo estruturado, com métodos claros e que podem servir a outras pesquisas. Além disso, abordamos a necessidade de regularizar os papéis do pesquisador em relação ao mercado de trabalho, pois ainda é preciso discutir a respeito da oficialização da atividade de pesquisador como um trabalho formal. Pesquisa: Teorias e Fundamentos 54 Referências Básicas APPOLINÁRIO, F. Metodologia da ciência: filosofia e prática da pesquisa. 2 ed. São Paulo: Cengage Learning, 2012. CERVO, A. L.; BERVIAN, P. A.; SILVA, R. Metodologia científica. 6. ed. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2007. LAKATOS, E. M.; MARCONI, M. A. Fundamentos de metodologia científica. 8. ed. São Paulo: Atlas, 2017. MASCARENHAS, S. A. Metodologia científica. 2. ed. São Paulo: Pearson, 2018. Complementares BAUMGARTEN, M. Comunidades ou coletividades? O fazer científico na era da informação. Revista Sociologia, n. 4, abr. 2004. Disponível em: https://www.lume. ufrgs.br/bitstream/handle/10183/143992/000446816.pdf. Acesso em 25 ago. 2023. UCS. Agências de Fomento. Disponível em: https://www.ucs.br/site/ucs-internacional/ agencias-de-fomento-orgaos-no-brasil/. Acesso em: 15 ago. 2023. https://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/143992/000446816.pdf https://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/143992/000446816.pdf https://www.ucs.br/site/ucs-internacional/agencias-de-fomento-orgaos-no-brasil/ https://www.ucs.br/site/ucs-internacional/agencias-de-fomento-orgaos-no-brasil/