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TEORIA DO TESTEMUNHO TESE DE PSICOLOGIA

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além de intrinsecamente congruentes em termos de discurso 
interno, quer em termos extrínsecos quando dissecados entre si e conjugados com a 
demais prova produzida e examinada. 
 
Bem como quando não revelam qualquer interesse pessoal ou profissional no sentido 
da decisão e conferem a percepção que o relatado corresponde à efectiva recordação 
e lembrança do depoente, reflectido o que lhe vai na memória. 
 
Valorando ainda positivamente o depoimento tido por isento, não demonstrando 
interesse próprio ou outro nesta causa o qual, mesmo quando cruzado e confrontando-
o com os demais, continua a espelhar um retrato fiel de uma realidade vivida, 
desinteressado, isto é, não revelando ou indiciando estar a prestar declarações e falar 
de factos para prejuízo ou benefício de alguém, mas com um discurso que revelava 
estar a relatar o que a sua memória conservava e ―como o conservava‖ na altura em 
que foi ouvido, não aparentando ou indiciando qualquer intenção de prejudicar ou 
beneficiar alguém. Neste sentido, o Acórdão proferido pelo Tribunal Criminal de Lisboa, 
Processo n.º 1718/02.9JDLSB, 8ª Vara, em 03/09/2010 (Processo Casa Pia). 
 
Igualmente credíveis se revelam depoimentos prestados de forma objectiva, não 
revelando ou indiciando interesse em narrar factos para prejudicar ou beneficiar 
alguém, ou que a forma como narrou os factos e as memórias que reavivou, não 
correspondesse aquilo de que se lembrava e como se lembrava. Neste sentido, o 
Acórdão proferido pelo Tribunal Criminal de Lisboa, Processo n.º 1718/02.9JDLSB, 8ª 
Vara, em 03/09/2010 (Processo Casa Pia). 
 
Igualmente de valorar em sentido positivo o depoimento da testemunha, que revela 
conhecimento directo de factos que relatou, que foi prestado perante o Tribunal de 
forma objectiva, demonstrando intenção de responder ao que se recordava e como se 
recordava, não indiciando interesse ou intenção de proteger ou prejudicar algum dos 
arguidos ou outras pessoas… um depoimento que demonstrou sentida emotividade, 
denotando o relato de factos que observou e viveu. Neste sentido o Acórdão proferido 
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A CREDIBILIDADE DO TESTEMUNHO – A VERDADE E A MENTIRA NOS TRIBUNAIS 
pelo Tribunal Criminal de Lisboa, Processo n.º 1718/02.9JDLSB, 8ª Vara, em 
03/09/2010 (Processo Casa Pia). 
 
De igual forma um depoimento que aparenta ser feito de forma serena, sem denotar 
subjacente interesse específico ou próprio nos autos e no seu resultado, dizendo 
quando não se recordava de diligência ou de aspecto específico de diligência e 
mantendo esta coerência ao longo do depoimento. Neste sentido o Acórdão proferido 
pelo Tribunal Criminal de Lisboa, Processo n.º 1718/02.9JDLSB, 8ª Vara, em 
03/09/2010 (Processo Casa Pia). 
 
A atitude de querer colaborar, traduzida na forma como foi sempre e 
consecutivamente, respondendo e esclarecendo o que tinha dito, baralhado ou 
confundido; a expressão facial que por vezes se via traduzindo emotividade; transmite 
ao Tribunal uma noção de existência de uma espinha dorsal naquilo que estava a 
dizer, de existência de uma correspondência emocional entre o que estava a contar e o 
que tinha vivido e com as pessoas e nos locais que disse ao Tribunal. Neste sentido o 
Acórdão proferido pelo Tribunal Criminal de Lisboa, Processo nº 1718/02.9JDLSB, 8ª 
Vara, em 03/09/2010 (Processo Casa Pia). 
 
A este propósito veja-se o que se escreveu no acórdão em apreço a propósito das 
declarações do Arguido Carlos Silvino da Silva: ―(…) Na sua globalidade, não foram 
declarações fáceis de analisar. O Tribunal teve que compreender, entender e observar 
a pessoa que teve na sua frente a falar. O que, reconhecemos, não foi imediato, pois – 
aliás, tal como sucede com a generalidade das situações – por vezes só à distância é 
que se conseguiu ver o que a confusão do momento escondia. Isto é, em algumas 
situações, quando vistas logo no momento as suas declarações tornavam-se 
incompreensivelmente inconsistentes entre si, mas quando vistas e analisadas na 
globalidade, foi perceptível o porquê e o sentido daquelas declarações‖ (p. 962 do 
referido Acórdão). 
 
―Para o Tribunal e do que percebeu da sua atitude em audiência de julgamento, o 
arguido Carlos Silvino sentiu responsabilidade no que fez aos jovens da Casa Pia, 
casapianos como ele. E teve reacções que traduziram aligeirar da sua culpa, mas sem 
―deixar‖ cair ―os rapazes‖ como se lhes referiu por vezes. E este aligeirar de culpa 
traduziu-se, por vezes, em meias verdades (afirmação que ao longo desta análise 
crítica o Tribunal vai ilustrando e preenchendo, com referências concretas e situações 
concretas). Isto é, a percepção que tivemos é que o arguido não deixou de contar com 
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A CREDIBILIDADE DO TESTEMUNHO – A VERDADE E A MENTIRA NOS TRIBUNAIS 
verdade uma parte do facto, mas introduz elementos que não se verificaram, para 
justificar – pelo menos para si – os que se verificaram‖ (pp. 962-963 do referido 
Acórdão). 
―O arguido Carlos Silvino da Silva não inclui outras pessoas e exclui-se de todo a si. O 
que faz é contar, quanto a si, a história de forma incompleta ou com outros contornos. 
Mas em algumas situações não deixa de dar elementos que nos permitem, em 
conjugação com os demais meios de prova, chegar à sua real responsabilidade‖ (p. 
988 do referido Acórdão). 
 
Vemos assim a multiplicidade de factores que contribuem para a formação da 
convicção do Tribunal. 
 
De qualquer modo, de todos os elementos de informação judiciária, o mais importante 
é, sem contestação, a prova testemunhal. 
 
―Nenhuma prova, com efeito, contribui tão poderosamente para a formação de opinião 
não só dos magistrados mas ainda do público, como esta, que, só por si, muitas vezes 
basta, em matéria penal, para estabelecer a convicção‖ (Pessoa A., 1913, p. 3). 
 
Porém, cremos que, cada vez mais, há a consciência de que tal meio de prova não 
tem o valor que durante muito tempo se supôs. 
 
Não raras vezes os depoimentos contêm erros. Uma narração exacta num certo 
número de factos pode ser falso em relação a outros. Uma afirmação muito precisa 
feita sem a menor hesitação pode ser redondamente falsa. 
 
Nem sempre a nitidez das recordações exclui a sua falsidade. 
 
Um testemunho não é necessariamente infalível nem necessariamente erróneo como 
salienta Carrington da Costa, advertindo para que ―todo aquele que tem a árdua função 
de julgar, fuja á natural tendência para considerar a concordância dos testemunhos 
como prova da sua veracidade. 
 
Por vezes, corremos o risco de ajuizar uma parte pelo todo, quando se verifica a 
exactidão de um certo número de factos relatados por uma testemunha, facilmente se 
acredita na verdade do conjunto do seu depoimento. 
 
Ao invés, um momento narrativo tido por inverdadeiro irá contaminar, na maior parte 
das vezes, o juízo sobre a credibilidade de todo o seu relato. 
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―Há, com efeito, uma tendência para considerar os depoimentos como blocos 
indivisíveis susceptíveis de uma apreciação global e a dividi-los por consequência em 
duas grandes classes: a dos depoimentos verdadeiros e a dos depoimentos falsos‖ 
(Pessoa A., 1913, p. 10). 
 
“Os erros não são uniformemente distribuídos pelas diversas categorias de 
elementos contidos nos testemunhos. (…) As informações referentes às acções, 
ao diálogo, às posições relativas das personagens são, dum modo geral, 
bastante exactas. (…) Pelo contrário, as informações referentes ao aspecto das 
personagens, estatura, forma do rosto, cor dos cabelos, vestuários (...) são muito 
defeituosas. 
Igualmente dignas de pouco crédito são as informações que dizem respeito a 
números e a avaliação de tempo (…) 
Não há relação imediata entre a extensão e a fidelidade dum depoimento. 
Os depoimentos mais extensos não são fatalmente os